Você está na página 1de 2

PONTOS DE VISTA

através de um guião a implementar de forma voluntária. Em 2015


este sistema foi complementado com uma avaliação da gestão co-
Iryna Skulska munitária de áreas florestais: Community Based Forestry (CBF).
Investigadora Concretamente as avaliações VGGT e CBF ajudam os países a ava-
Centro de Ecologia Aplicada liar as suas políticas, legislação, instituições e administração em
Baeta Neves-EnBIO relação à posse da floresta, com a finalidade de identificar as lacu-
(CEABN-InBIO)
nas no que diz respeito aos princípios da boa governação. Após a
identificação, sugerem-se medidas para reforçar a administração
de posse nos seus países, melhorando as suas estratégias, políti-
cas, leis, programas e atividades. 
Até 2016, a avaliação VGGT e CBF teve o seu foco em países do
continente Africano, América Latina, Médio Oriente e Ásia. O es-
AVALIAÇÃO DA GESTÃO tudo envolveu questões do direito de uso, bem como as respon-
sabilidades e tomada de decisões na gestão comunitária de áreas
COMUNITÁRIA DA FLORESTA florestais. Os resultados mostram que, no futuro, o regime florestal

SEGUNDO A METODOLOGIA comunitário pode tornar-se um impulsionador do desenvolvimen-


to sustentável da floresta e, ao mesmo tempo, aumentar o capi-
DA FAO/ONU tal social, humano e institucional das comunidades. Salienta-se,

De acordo com o relatório da FAO Forty years of community-based


forestry. A Review of its Extent and Effectiveness uma vasta área flo-
restal do mundo está diretamente associada a comunidades locais.
No entanto, mesmo após a transferência de direitos, de responsa-
bilidades e de gestão do Estado para estas comunidades, o que se
verifica na prática é que o seu usufruto e a sustentabilidade da sua
gestão são ainda bastante limitados.
Neste sentido, a FAO/ONU aprovou em 2012 as diretrizes de VGGT
Voluntary Guidelines on the Responsible Governance of Tenure of
Land, Fisheries and Forests in the Context of National Food Security
com o objetivo de ajudar as comunidades locais a alcançar meios
de subsistência sustentáveis, promover a estabilidade e desenvol-
vimento social, segurança de habitação, proteção ambiental e de-
senvolvimento rural e económico sustentável.
O VGGT é um sistema de avaliação a nível mundial, num contexto
de governança responsável da posse da terra, que se concretiza

30
REVISTA DA REDE RURAL NACIONAL | 2018 N.º 6
porém, que o desempenho da gestão comunitária nos últimos 40
anos ainda é insuficiente, devido à falta de um ambiente propício,
dificultando a realização de todo seu potencial.
Em 2017, em Portugal estabeleceu-se um protocolo entre a FAO/
ONU e o Centro de Ecologia Aplicada ‘’Prof. Baeta Neves’’ da Uni-
versidade de Lisboa (CEABN), com vista a implementar os siste-
mas de avaliação VGGT e CBF. Assim, Portugal tornou-se o primei-
ro país da Comunidade Europeia onde estes sistemas de avaliação
foram realizados, não só para analisar as condições e a eficiência
da gestão das áreas florestais comunitárias (áreas baldias), mas
também para comparar os resultados finais a nível internacional.
Durante o processo da avaliação foram analisadas e compara-
das as principais quatro modalidades de gestão das áreas bal-
dias, cuja divisão foi baseada nos seus modelos organizativos de 4 Descentralização do poder da decisão nos Serviços Flo-
acordo com o órgão gestor (Conselho Diretivo, Assembleia dos restais para aumento da proximidade entre os técnicos
Compartes ou Junta de Freguesia) e sua relação com o Estado do Estado e os gestores dos terrenos comunitários, com
(cogestão ou gestão em exclusividade). vista a melhorar o diálogo e a governança colaborativa;
Depois da elaboração de um estudo prévio pela equipa do CEABN, 5 Melhoria do processo de consulta pública, por procura
foi ainda recolhida a informação qualitativa através de workshops / adaptação de novos mecanismos, que promovam o con-
e entrevistas, nas quais foram utilizados os modelos dos inquéri- tributo de diferentes atores (sociedade civil, setor privado,
tos, previamente desenvolvidos por uma equipa de especialistas da academia) na formulação e implementação de políticas de
FAO. Recolhemos as opiniões de gestores das quatro modalida- planeamento territorial e regional;
des de terrenos comunitários em análise, engenheiros florestais 6 Desenvolvimento de diretrizes que facilitem e assegu-
das áreas baldias, representantes da Federação Nacional de Áreas rem a passagem dos baldios das modalidades em co-
Baldias (BALADI), da Associação Florestal de Portugal (FORESTIS), -gestão para gestão autónoma e vice-versa, prevista na
técnicos do ICNF, investigadores e advogados, todos do Centro e atual Lei dos Baldios (Lei n.º 75/2017, de 17 de agosto);
Norte Portugal. 7 Redução da burocracia e promoção da transparência no
Os resultados indicam que, na avaliação de eficácia de gestão co- funcionamento da entidade gestora das áreas baldias, in-
munitária de áreas florestais baldias (avaliação CBF), não existe dependentemente da modalidade de gestão.
diferença considerável entre as quatro modalidades analisadas. Apesar dos resultados obtidos serem bastante importantes, a ex-
Porém, existe uma tendência para uma gestão mais eficaz em periência de avaliação de VGGT e CBF nos outros países sugere
modalidades de autogestão (gestão em exclusividade), devido, so- que uma avaliação quantitativa adicional é muitas vezes necessária
bretudo, à maior pró-atividade dos compartes nestas modalidades. para aumentar a compreensão da eficácia da gestão florestal co-
Quanto à avaliação do pacote dos direitos dos compartes, segundo munitária. Este é o próximo passo a ser dado neste estudo através
a metodologia da FAO/ONU, constata-se que estes são muito varia- do CEABN.
dos e que, na sua maioria, não têm restrições. Portugal deu o pontapé de saída, ao avaliar estas áreas comunitá-
A avaliação do grau de dificuldade na execução das responsabili- rias num contexto europeu, sugerindo-se que o mesmo se realize
dades dos compartes e gestores de áreas baldias, no atual quadro igualmente noutros dos dezasseis países da União Europeia onde
regulamentar, mostrou que esta é mais difícil em modalidades de existem diversos modelos de posse florestal comunitária.
baldios em cogestão, devido à sua grande burocracia, bem como
ao contínuo afastamento dos Serviços Florestais (seus co-gesto-
res) da gestão das áreas do Regime Florestal, observado nas últi-
mas décadas. 
No que concerne aos resultados da avaliação VGGT, estes demons-
tram que, para melhorar a eficácia da gestão florestal comunitária,
é importante realizar uma série de atividades, salientando-se as
mais importantes:
1 Sensibilização e transferência da informação para a co-
munidade sobre os direitos e responsabilidades, relaciona-
das com a gestão de áreas baldias;
2 Resolução do registro cadastral simplificado das áreas bal-
dias, já que mais de 50% destes terrenos não se encontram
registados, aumentando o risco de serem apropriados por
terceiros;
3 Reavaliação e melhoria dos meios de resolução formal de
litígios em áreas baldias, garantindo procedimentos mais
rápidos e eficazes;

31
REVISTA DA REDE RURAL NACIONAL | 2018 N.º 6