Você está na página 1de 3

CERVO, Amado Luis. O ciclo da diplomacia do desenvolvimento na América Latina. In: ______.

Relações Internacionais da América Latina: Velhos e Novos Paradigmas. Brasília: IBRI, 2001. p
23-144.

GILDERHUS, Mark T. An Emerging Synthesis? U.S. - Latin American Relations since the Second
World War.

Para Amado Luis Cervo, as relações internacionais no âmbito da América Latina perpassam
momentos, contextos globais e regionais, particularidades e decisões diplomáticas que envolvem,
inicialmente, partindo dos anos 1930, a passagem do paradigma liberal para o desenvolvimentista.
Explicando sua construção de longa duração sobre tais relações, o autor inicialmente destaca o
processo de comércio entre os diversos países no contexto de crise do capitalismo de 1929, em que
os Estados latino-americanos, cada um a uma maneira, passam a ter ações no sentido de transformar
o comércio basicamente agrário exportador, que atendia aos anseios da elite da República Velha (no
caso brasileiro para exemplificar), isto é, de finais do século XIX, para o desenvolvimento de
indústrias de transformação, mesmo que ainda para fornecimento de matérias brutas ou pouco
industrializadas, que buscavam atender à complexidade de formações sociais que estes países
desenvolviam, seja numa massa urbana em busca de emprego, na expansão das cidades, na
ascensão de uma burguesia comercial e industrial, na crítica intelectual à dependência externa e na
necessidade militar de meios de proteção dos interesses nacionais (como as fronteiras). Nesse
sentido se torna importante a ascensão de uma diplomacia de barganha que se faz entre os blocos
antagônicos em formação no mundo, que muda suas orientações de atendimento das necessidades
exteriores (ou participação do comércio em termos de exportação e, claro, na manutenção da
perspectiva liberal dos países latinos em contrário ao protecionismo dos centros, como no caso
estadunidense) para a formação de acordos bilaterais: a disputa entre estadunidenses e europeus,
principalmente Inglaterra e Alemanha, a entrada do Japão e a tentativa de comércio com a URSS
(barrada por aspectos, segundo o autor, mais políticos que econômicos, ficando assegurada apenas
no Uruguai). Aqui há um destaque para o aspecto ideológico do anticomunismo presente nas visões
dos latinos mesmo em períodos anteriores à Guerra Fria, o que denota uma construção cultural
anterior, mas que não é exatamente um apontamento do autor.
Já no período do conflito, as relações internacionais demonstram ser de fundamental
importância, para os latinos, no fato de almejar condições excepcionais de comércio. A habilidade
do empreendimento diplomático, paradigmática no governo de Getúlio Vargas, que chegou a ter
como principal fornecedor comercial a Alemanha em 1938 (p. 42), o que depois foi alterado na
perspectiva da política da boa vizinhança adotada pelos Estados Unidos, demonstrou tanto a
capacidade política quanto o vigor comercial que a América Latina representava. A partir do
conflito e do alinhamento da maior parte dos latinos com os anglo-saxões (exceção da Argentina, na
neutralidade, e as reações comerciais de tal atitude que foram tomadas pelo tio Sam), há, como
demonstra Cervo, o esboço do paradigma desenvolvimentista que, em contrário ao que foi apontado
pela Cepal, não se determinava pela substituição de importações como modelo mas sim causa da
apontada necessidade de expansão comercial que se punha em vigor, na qual “não se cogitava em
substituir importações, mas em promover o aumento da riqueza nacional, bens e rendas, pela via da
industrialização” (p. 55).
Outro ponto que suscitou o período dos anos 1930-1945 era a formulação de políticas
voltadas ao pan-americanismo. Nesse sentido, se tornou expoente a participação diplomática
brasileira na resolução de conflitos de fronteira, como na Guerra do Chaco, na integração regional
entre os países sulistas e no alinhamento com os Estados Unidos. Nesse sentido, tornou-se claro a
perspectiva do desenvolvimentismo como base das ações diplomáticas que, mais que determinar um
conjunto de interesses protecionistas ou liberais, fomentavam a industrialização e a cooperação
entre os países latinos. Tornam-se exemplares as recomendações de Lucillo Bueno, as ações de
Macedo Soares e Riart, mas principalmente a ordenação de Oswaldo Aranha alinhadas a Vargas na
exportação da imagem de país conciliador e também na independência exterior, como na recusa do
revanchismo estadunidense ante a neutralidade argentina. Essa política demonstrou-se eficaz em
alçar o Brasil como representante do Cone Sul, evitando conflitos com a Argentina e explorando a
habilidade de negociata e conciliação.
Já no período do pós-guerra, no momento de articulação internacional e final organização
dos blocos ideológicos capitalistas e socialistas, as ações diplomáticas latino-americanas estiveram
voltadas ao caminhar do pós-guerra, ao estabelecimento dos espólios em questão da ação de cada
país ante ao conflito e em especial à neutralidade argentina e a busca de punição desta por parte dos
Estados Unidos. Nesse sentido, a agremiação de uma suposta formação de um bloco econômico e
político dos países integrantes do antigo vice-reino do Rio da Prata liderada pela Argentina foram
culminantes em crises políticas entre os dois países e a região. Na formulação da Organização dos
Estados Americanos (OEA) e do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (Tiar),
capitaneados pelos Estados Unidos, a Argentina seria um dos países a não fazer parte dos mesmos.
Brasil e Inglaterra demonstraram tomar ações no sentido de amenizar as ações estadunidenses, bem
como em superar as adversidades fomentadas pelas tensões que a mídia explorava. Assim, a
publicação do “Livro Azul” por Braden e a política de reconciliação de Messersmith demonstravam
uma dificuldade do país anglo-saxão em negociar com o cisplatino, bem como na atitude agressiva
que representava a política de Braden em ser rechaçada/criticada pelos demais países do Cone Sul.
Destaque à hispanidad e à exploração comercial com a URSS por parte da Argentina demonstraram
uma força contrária à influência direta dos Estados Unidos na América do Sul, em um contexto de
Guerra Fria, que não exatamente demonstrava aversão, mas independência política e econômica.
No período da Guerra Fria, em especial de 1947 até final da década de 1970, o modelo
desenvolvimentista logrou seu auge/apogeu. Assim, a estratégia de políticas econômicas voltadas a
proteger e aplicar recursos em setores estratégicos de desenvolvimento lograram a ascensão de
algumas indústrias de grande valor, produtivas, apesar de principalmente estatais. Essa estratégia
teve como mote um momento inicial de questionamento da ordem da aplicabilidade dos
investimentos estrangeiros pautados nos Estados Unidos que, pós-guerra, voltava suas atenções à
Europa e deixava a América Latina para setores privados. Dessa forma, a autonomia econômica se
tornou essencial para cobrar ações (como na Aliança para o Progresso, apesar de não afirmar o
propósito ideológico) e colocar em prática o desenvolvimento industrial, em favor da neutralidade
do conflito ideológico (em altos e baixos, alinhando-se ou abandonando o bloco estadunidense),
ações que serão abandonadas a partir da contaminação da política econômico pelo neoliberalismo
dos governos da década de 1990, já que o período de 1980, chamado de “década perdida”,
demonstrara certas limitações no modelo desenvolvimentista. Nesse sentido vale destacar o ponto
de influência da diplomacia nas ações adotadas, primeiramente no questionamento da política
pautada no Plano Marshall e, com a criação da OEA em 1948, na dinâmica argentina de negociação
de acordos para adentrar na esfera do bloco ocidental/capitalista (como destacado anteriormente nas
ações de Braden e Merssersmith), e ainda o aspecto individualista e não regionalista dos países
latino-americanos, que causou certo tipo de frustração principalmente no Brasil, historicamente
mais próximo dos Estados Unidos, que não logrou enormes recompensas pelo auxílio na 2ª Guerra e
no alinhamento na Guerra Fria. Posteriormente ainda se destaca o período da tomada de ações
estadunidenses para a implementação de governos ditatoriais de direita a partir da transformação da
Aliança para o Progresso em “uma provocação que levava as lideranças de direita a fazer proliferar
ditaduras no continente” (p. 135) na qual tais ações para a América Latina “em nada correspondeu
aos ideais de defesa da liberdade e da democracia que os Estados Unidos alardeavam pelo mundo
em sua luta para conter a expansão do comunismo” (p. 136).
A proposta de Mark T. Gilderhus, ao encontro de Amado Cervo, pretende ser a de entender,
dentro do campo das relações internacionais, as interações diplomáticas entre Estados Unidos e
América Latina. Um destaque que deve ser feito, entretanto, é o que o diferencia de Cervo:
enquanto aquele observa autores especificamente com certo tipo de relevância (a seu ver) no campo
da História (mesmo que não historiadores e pensando, obviamente, em um olhar de e dos Estados
Unidos), analisando historiografias, conceitos e perspectivas bibliográficas, Cervo observa mais
diretamente fontes dos diplomatas, dos consulados, incluindo correspondências e informes
objetivando entender todos os entremeios que foram basilares para a aplicação do Estado
Desenvolvimentista na América Latina, de seu esboço a apogeu.
A base material de Gilderhus é a conceitualização de Lowenthal sobre as perspectivas
liberal, radical e burocrática. De modo geral, apresenta um conjunto de obras que perpassam a
análise do período dos anos 1930 até a década de 1990, passando por políticas da Boa Vizinhança,
do Plano Marshall, da Aliança para o Progresso, do movimento anticomunista mais ou menos
drástico a depender do contexto, das dificuldades que envolvem a perspectiva reformista dos
movimentos revolucionários, do desconhecimento de certos governos (como de Reagan) sobre o
Continente, bem como as aspirações das elites locais ou das reações nacionalistas. Portanto,
resumidamente, apresenta mais as tensões e conflitos que envolvem os Estados Unidos e a América
Latina, pautado em boa parte pela perspectiva radical (mesmo que desenvolvida em diversos
moldes), que o contexto demonstra, em especial durante a Guerra Fria.