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Universidade Estadual de Maringá

Curso:
América Central: una historia del tiempo presente desde una perspectiva trans-nacionalista.
Entre la “década perdida” y el reformismo neoliberal. 1980-2017.

Professor: Dr. Ronny J. Viales-Hurtado

Discente: Igor Marconi

Guatemala e México: aproximações, comparações e divergências entre a Unidade Revolucionária


Nacional Guatemalteca e o Exército Zapatista de Libertação Nacional.

Analisar as guerrilhas na América Central e no México demanda conceber algumas linhas


gerais teóricas, metodológicas e de recorte para construir uma racionalização passível de
comparação ao mesmo tempo que evite generalizações excessivas. Dessa forma, vale denotar os
caminhos que este breve ensaio pretende seguir para ocasionar a possível comparação entre as
formas práticas, as ações políticas e as bases sociais e ideológicas dos movimentos apresentados.
Vale ainda ressaltar os motivos das escolhas de estudo hora apresentadas.
Pretende-se, dessa forma, fazer as seguintes considerações: inicialmente levantar um
contexto histórico mundial e regional pautado no período pós Segunda Guerra Mundial, na
formalização da transnacionalização capitalista baseada nos acordos de Bretton-Woods, na
estruturação das agências financeiras internacionais como o Fundo Monetário Internacional, o
Banco Mundial e o Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT), bem como as especificidades
americanas, como a Organização dos Estados Americanos (OEA), todas estruturas pautadas na
gerência dos Estados Unidos da América e seus interesses geopolíticos de controle continental, até o
início da década de 1990, quando se tem, já desde a década de 1980, a aplicação de políticas
econômicas neoliberais por meio do Consenso de Washington, uma das bases da crítica chiapaneca.
Um contexto que envolve ainda, politicamente, o conflito entre Estados Unidos e União Soviética, a
Guerra Fria e seus períodos de estabilidade e instabilidade, e as crises do Petróleo, o fim do ciclo
chamado “era de ouro” na expansão comercial mundial, pautado no esgotamento do financiamento
externo e no deficit orçamentário estadunidense. Posteriormente, pretende-se compreender as
estruturas políticas que permeiam as guerrilhas aprofundadas, seja em aspectos históricos, na
formulação de uma resistência local ligada a disputas internas pelo poder, seja pela influência da
Revolução Cubana e Nicaraguense nas estratégias implementadas para a tomada de tal poder. As
guerrilhas são representadas pela Unidade Revolucionária Nacional Guatemalteca (URNG) na
Guatemala e o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) no México.
Duas outras questões ainda merecem menção. A primeira diz respeito às escolhas dos
movimentos. Nesse caso, o critério escolhido foi meramente prático: deu-se pela representação que
cada um dos movimentos teve em seu país de origem. Não se quer excluir, dessa forma, a
particularidade do movimento que aglomerou mais de uma corrente ideológica, como é o caso da
URNG enquanto o EZLN, mesmo que abrangendo uma variedade de grupos sociais, foi
compreendido como um conjunto ideal e único, homogêneo. Apesar do entendimento dos limites
que esse tipo de generalização pode trazer, pretende-se fazer uma breve análise sistemática dos
aspectos sociais dos movimentos e apresentar seus objetivos e práticas políticas. A segunda diz
respeito ao fato da escolha da Guatemala como país representante da América Central. Tal
determinação tem como base o fato de que em dois países, Costa Rica e Honduras, os movimentos
sociais e especialmente os guerrilheiros (no caso hondurenho) não tiveram forte presença nas
questões políticas nacionais, o que não retira seus méritos, mas impedem que sejam observados da
mesma forma que os demais movimentos estudados, como agentes de grande influência na tomada
de decisões dos aparelhos estatais. Entende-se que o movimento na Guatemala, apesar de não ser
paradigmático como na Nicarágua e em Chiapas, representou uma organização que, devido à força
histórica da repressão e da violência política por parte do governo, foi uma tentativa de tomada do
poder e implantação do socialismo pela via armada. No caso mexicano, a força paradigmática do
EZLN foi imperiosa na concepção de uma comparação externa aos países da América Central,
mesmo que Chiapas, estado do extremo sul mexicano e fronteiriço à Guatemala, possua certas
similaridades históricas com o país vizinho, nas disputas territoriais até a anexação de parte do
estado ao México em 1824 e, finalmente, com o Tratado de Limites com a Guatemala,
definitivamente consolidada, em 1882.

Contexto global: inverno econômico ou primavera dos movimentos sociais?

O fim da Segunda Guerra Mundial deixou um cenário totalmente novo no mundo que se
definia: uma Europa destruída e arrasada como o terreno do conflito; a União Soviética em controle
de quase toda a Europa Oriental, consagrando um vasto domínio que partia da Alemanha Oriental
até o Estreito de Bering; países africanos e asiáticos aproveitando o enfraquecimento europeu e
tornando-se independentes; o Japão destruído e fadado ao controle da ilha nacional e a China com a
emergência de conflitos internos deram cara à Ásia; a Indochina em ebulição; o Oriente Médio, o
Irã e o acesso ao petróleo eram questões basilares de abastecimento; a diplomacia independente de
Péron e da Argentina incomodavam o gigante do norte; e os Estados Unidos da América tornando-
se a grande potência do ocidente. Todo essa nova configuração mundial trouxe desafios e
problemáticas para os tempos que estariam por vir.
É nesse contexto que surgem as grandes estruturas econômicas globais pautadas na
ingerência estadunidense sobre o mundo ao mesmo tempo que produziam as dissidências que
acabaram por gerar a Guerra Fria, isto é, justamente na construção do poder geopolítico
hegemônico, em escala global, que o conflito se forma e a distensão de quase 40 anos tem origem.
Pautando-se na análise de Flavio Alves Combat (2012), são quatro os pilares de ação da diplomacia
estadunidense dados como resposta aos problemas que se punham em evidência: o Acordo de
Bretton Woods, a Doutrina Truman, o Plano Marshall e o NSC-68.
O Acordo de Bretton Woods, assinado em Julho de 1944 na cidade homônima, estado de
New Hampshire, EUA, por 44 países e 730 delegados, era um conjunto de ações diplomáticas e de
relações internacionais que tinha como intenção reorganizar, aos moldes estadunidenses, o sistema
monetário e financeiro mundial. Dentre os interesses que pautavam o acordo, realizado no âmbito
da Organização das Nações Unidas, estava a restauração das economias europeias, a expansão do
emprego e do comércio mundial, bem como o fortalecimento político dos países arrasados. Nesse
acordo ficou definido a estruturação comercial através do padrão dólar-ouro em supressão da
circulação pelo padrão ouro baseado na Libra Esterlina. Essa ingerência do dólar deu vantagens
econômicas exorbitantes aos Estados Unidos e foi capaz de assegurar um conjunto de ações de
recuperação na Europa Ocidental pautada em interesses políticos. Além disso, foi o momento de
organização do Fundo Monetário Internacional (1944), do Banco Mundial (1944) e do Acordo
Geral de Tarifas e Comércio (1947), estruturas financeiras internacionais que, a partir da gerência
estadunidense, objetivavam estimular o comércio por meio de empréstimos e financiamentos em
dólar e com a incidência de interesses econômicos liberais dos EUA.
Tal internacionalização do comércio acabou tanto por gerar descontentamento por parte dos
soviéticos quanto dar poderio econômico para as ações políticas na Europa Ocidental pautadas na
doutrina da contenção do comunismo expressadas pela Doutrina Truman, o Plano Marshall e o
NSC-68. Pautadas em uma configuração diplomática agressiva, os EUA partiram para o
desenvolvimento das indústrias europeias através do massivo investimento externo, em especial na
Alemanha Ocidental, como também na consolidação de um bloco capitalista ocidental por meio da
Organização do Tratado Atlântico Norte (OTAN) em 1949, o que levou à criação do Pacto de
Varsóvia, como resposta, pela URSS em 1955. Essa dispendiosa quantia de dinheiro injetada na
máquina produtiva europeia tinha como pano de fundo reestabelecer as forças políticas dos países
Europeus para fazer frente ao perigoso avanço do comunismo, isto é, pautando-se na apresentação
de uma saída liberal, os investimentos estadunidenses objetivavam quebrar o encanto que o regime
soviético fazia nos movimentos sociais ocidentais, como no levante comunista Grego e nas
sublevações da Turquia. Essa contenção, base da diplomacia em George Kennan, foi essencial para
dar corpus ao domínio estadunidense e à transnacionalização do capitalismo, gerido por uma
estrutura financeira e não industrial, pautada por estímulos especulativos que levaram a uma
decadência do modelo produtivo industrializado e gerando problemas como concentração de renda,
desigualdade social e instabilidade econômico-produtiva, como na escassez de empregos, nas altas
taxas de lucros, juros e financiamentos, com mecanismos de vigilância e perpetuação da divisão
internacional do trabalho, como a dívida externa, e a implementação de políticas neoliberais já em
um momento de crise da “era de ouro” por volta de finais da década de 1960 até 1980.
Tal crise precisa ser avaliada por um conjunto de configurações internacionais: o fim da
rigidez dos Acordos de Bretton Woods e a flexibilidade cambial com hegemonia do dólar; a
reestruturação econômica e política da Europa que passa a fazer frente aos interesses ianques, em
especial a quebra do suporte superavitário estadunidense em 1971; o conflito com o Vietnã e o
levante contracultural; as eleições de Margaret Thatcher e Ronald Reagan nos finais da década de
1970 e o retorno da corrida armamentista, o fim do período da détente, e a aplicação de políticas
econômicas neoliberais; a crise de abastecimento/petróleo. Pautando-se na Sociedade de Mont
Pélerin formada na década de 1940 na Suíça pelos ideólogos do neoliberalismo como Friedman,
Hayek e Popper, a autorregulamentação da economia pelo mercado era um “remédio amargo” para
o desenvolvimento produtivo. Algumas medidas tomadas para a implementação de tal política
advinham da estabilização de preços e das contas nacionais, privatização dos meios de produção e
empresas estatais, liberalização do comércio e do fluxo de capitais, desregulamentação da atividade
privada e dos direitos trabalhistas e austeridade fiscal, isto é, restrição dos gastos públicos.
Toda essa configuração internacional e políticas econômicas acabou por afetar diretamente
as economias e políticas para a América Latina. Primeiramente vale destacar que essa região do
continente americano, por suas características agroexportadoras na divisão internacional do
trabalho, poucas vezes foram resguardadas como locais de suntuosos investimentos industriais,
mesmo em momentos de conflito em que foi necessária a aplicação da política de “Substituição de
Importações”, sem falar da crise do desenvolvimentismo. A criação da Organização dos Estados
Americanos em 1948 com a liderança estadunidense foi basilar para a alçada de líder do gigante do
norte e a contenção das políticas dos vizinhos continentais. Essa estruturação consolidou um amplo
apoio e controle dos países latinos pelo anglo-saxão em uma estrutura imperialista de comando, aos
moldes do que se dava nos países do Leste Europeu. Essa liderança ianque, bem como o contexto
da disputa das zonas de controle na Guerra Fria, gerou consequências econômicas e políticas ao
continente.
A primeira questão que se põe em evidência é a gerência dos assuntos políticos através da
canalização do apoio aos passos estadunidenses. Essa configuração imperialista foi forjada através
de ligações históricas, envolvimento direto por meio de invasões, ou ainda pressões políticas. Nota-
se tal fato, por exemplo, no pós-guerra e nas diplomacias dependentes que logo colocaram o Partido
Comunista na ilegalidade. Ao mesmo tempo, a doutrina de contenção do comunismo foi exportada
para os demais países que acabaram por consolidar uma linha diplomática de dependência,
principalmente após a Revolução Cubana de 1959, na formulação da Aliança para o Progresso e no
apoio a controles ditatoriais por todo o continente, seja no PBSUCESS na Guatemala em 1954, em
defesa dos interesses comerciais estadunidenses, ou no golpe civil-militar no Brasil em 1964.
Todavia, a estrutura de dominação econômica, ao momento em que a “era de ouro” via seus
limites, acabava por enfraquecer as capacidades econômicas da periferia. As transformações no
capitalismo advindos de sua transnacionalização deixaram a impossibilidade de se controlar as
dificuldades econômicas. No caso da América Latina, percebe-se um limite aos modelos
desenvolvimentistas de economia, na qual a gerência do capital financeiro especulativo e o aumento
dos preços do petróleo por meio dos países da OPEP geraram um aumento exponencial da dívida
externa, a incapacidade do estabelecimento de novos investimentos bem como do pagamento das
taxas sobre os empréstimos e a incapacidade de superação do modelo agroexportador. Para a
América Central em específico, não muito diferente da América Latina como um todo, como
demonstram Jorge Rovira Mas (2005) e Victor Bulmer-Thomas (1999), mesmo que todo o
crescimento advindo do boom econômico do pós-guerra tenha configurado uma expansão
econômica, a mesma não foi capaz de melhorar substancialmente a vida dos habitantes da região
devido à concentração de renda e à desigualdade social por uma determinante política de força
estadunidense, a manutenção ou quebra do ciclo democrático ou ainda no favorecimento das elites
agrárias, nos limites do desenvolvimentismo e nas problemáticas que envolveram o Mercado
Comum de Centro América (MCCA), inserido ao contexto do boom, mas incapazes de assegurar
uma integração regional forte e dinâmica.
Essa crise econômica, seja por determinantes políticos ou não, foi fundamental para o
estabelecimento de movimentos democráticos por todo o continente americano e que estão pautados
em formas de disputa específicas para cada região, mas com certas proximidades que podem ser
exploradas. Primeiramente, vale apontar o contexto político dos movimentos sociais americanos e
na região da América Central e do México nas décadas de 1960-1980.
A inflexão mais paradigmática dos movimentos sociais na América Latina do pós-guerra é a
Revolução Cubana de 1959. Movimento guerrilheiro de luta intensa e que se deu pelo uso da tática
guerrilheira nas montanhas da Sierra Mestra, a revolução liderada principalmente por Fidel Castro e
Ernesto “Che” Guevara foi a verdadeira independência da Ilha, colonizada pelos espanhóis e
controlada, desde o final do século XIX, pelo imperialismo estadunidense, assim como o fora o
processo revolucionário vietnamita com os franceses e os ianques (MISKULIN, 2016; VISENTINI,
2008). O controle da pequena ilha a alguns quilômetros da costa do Estado de Flórida por um
movimento revolucionário em um contexto de Guerra Fria foi um balanço no poderio político dos
EUA na região. A destituição de Fulgência Batista no início de 1959 exaltou as revoltas por todo o
continente.
A capacidade de alimentar movimentos revolucionários pelo exemplo foi uma proeminente
força do movimento após o controle territorial, político e econômico da ilha. As contravenções
estadunidenses, o financiamento de tropas e o desembarque em busca do reestabelecimento do
controle foram ineficazes e demonstraram, junto da posterior derrota no Vietnã, o calcanhar de
Aquiles do gigante do norte. A posterior aproximação com a União Soviética e a crise dos mísseis
de 1962 deram o alerta vermelho à destruição mundial. Foi justamente neste contexto de
internacionalização da revolução experienciada na figura de Che e sua viagem ao Congo e à Bolívia
que os movimentos latinos se expandiram e foram perseguidos na aplicação da Aliança para o
Progresso e no apoio de regimes ditatoriais pela América por parte dos Estados Unidos. Neste
mesmo período, por exemplo, guerrilhas como o Sandinismo na Nicarágua passam a questionar a
visão oficial de Sandino por parte do governo de Somoza. Na Guatemala, os movimentos sociais
organizados na área urbana, em especial com a força do Partido Guatemalteco del Trabajo (PGT),
partido comunista, no âmbito institucional, bem como as organizações estudantis da Universidade
de São Carlos pela Asociación de Estudiantes Universitarios (AEU), existente desde 1920, com os
secundaristas pela Frente Unido Estudiantil Guatemalteco Organizado (FUEGO) formado em 1958,
ou com as guerrilhas como as Fuerzas Armadas Rebeldes (FAR), o Ejército Guerrillero de los
Pobres (EGP) e a Organización del Pueblo in Armas (ORPA) demonstravam táticas da luta armada.
No México, as organizações guerrilheiras como o Movimento Armado Socialista (MAS) e Los
Lancadones, mais pautados na luta insurgente e guerrilheira, contrapondo-se à Organização
Camponesa Emiliano Zapata (OCEZ), estes a partir do âmbito institucional, demonstravam a
insatisfação com a submissão aos interesses estadunidenses e procuravam, por meio de estratégias
castristas, chegar ao poder (HARVEY, 1998; BORBOLLA, 2012; BROCKET, 2005).
Todos essas organizações, cercadas por ditaduras, repressão e violência política, passaram a
minar as forças estatais em defesa das liberdades. As curtas experiências democráticas do período
do pós-guerra, marcadas pelas abruptas rupturas militares em quase todas as nações da América
Latina (exemplos em que não existiram rupturas drásticas encontram-se na Venezuela e no México,
curiosamente, apesar de não serem, todavia, democracias plenas), logo formaram as resistências e
os levantes contrários aos regimes. Quando da chegada da crise financeira do final da década de
1970 e durante 1980, esta conhecida como década perdida para o campo econômico, no
exponencial aumento das dívidas externas e na incapacidade de quitá-las, nas quedas dos Produtos
Internos Brutos, ao mesmo tempo que influenciados pelo movimento cultural de questionamento do
controle estadunidense sobre o ocidente, conhecido como contracultura, em especial na exposição
da noção (paradoxa) imperialista de exportação da liberdade e da democracia enquanto apoiando
regimes autoritários, reergueram as forças subversivas com espaço para atuação direta. Assim,
pretende-se entender tais movimentos, nesse contexto e no uso da violência política, na Guatemala e
no México.

Guerrilhas da América Central e no México: a URNG e o EZLN.

Ambos os países aqui apresentados tiveram históricos divergentes de atuação política,


principalmente em termos de repressão, perseguição a grupos dissidentes e do uso da violência
política. Enquanto a Guatemala teve com a derrubada e expulsão do presidente Jacobo Arbenz em
1954 marcas profundas na vida política do país e que debandou o início da ditadura com apoio
estadunidense e o governo militar de Carlos Castillo Armas (1954-1957), numa perspectiva já da
prática violenta da nação, aos termos de James Manhoney (2011) como um autoritarismo militar,
fruto do liberalismo radical, o México nunca experienciou uma intervenção militar direta em sua
história contemporânea. A histórica formação política deste país é marcada pela Revolução de 1910
de profunda participação popular, na Constituição de 1917 e na institucionalização do Partido
Revolucionário Institucional (PRI) e com o governo de Lázaro Cárdenas em 1934 e suas ações de
aplicação dos preceitos constitucionais, em especial o avanço da reforma agrária, processo vital
para o Estado-Nação desde Morelos. Todavia, marcados por um contexto global comum, diversos
movimentos de resistência às práticas governamentais do período foram essenciais para a
configuração de, na Guatemala, uma guerra civil entre o Estado e a URNG até os acordos de paz em
1996, e uma forte repressão e perseguição aos zapatistas desde seu aparecimento público em 1994,
existente com altos e baixos até a atualidade mesmo após os Acordos de San Andrés em 1996.

Unidade Revolucionária Nacional Guatemalteca (URNG)

A URNG surge no ano de 1982 a partir da junção de quatro movimentos organizados: o


Partido Guatemalteco del Trabajo (PGT), as Fuerzas Armadas Rebeldes (FAR), o Ejército
Guerrillero de los Pobres (EGP) e a Organización del Pueblo in Armas (ORPA). Cada qual com sua
experiência, propostas ideológicas e objetivos, entendem que apenas a coalizão, a junção de forças é
capaz de trazer verdadeiras mudanças no quadro política nacional. Diferentemente de El Salvador,
por exemplo, a mobilização popular é marcada mais profundamente por uma forte organização no
período reformista de 1944-1954, com períodos fluídos de altas e baixas até a reorganização social e
armada no final da década de 1970, falando-se, inclusive, em duas ondas de guerrilhas, uma por
volta de inícios da década de 1960 (com a influência da Revolução Cubana), cruelmente reprimida,
e outra a partir da crise de 1980, influenciada pelo sucesso nicaraguense. Para compreender melhor
a unidade, é necessário rebuscar a história das organizações e também relacionar o contexto
subversivo da região.
O PGT, partido comunista da Guatemala criado em 1949, ganhou proeminência durante o
governo de Jacobo Arbenz até sua recolha à ilegalidade no período ditatorial (1954-1996).
Pautando-se no subterfúgio da Universidade de São Carlos, o movimento, influenciado pela
Revolução Cubana, passa a ver a opção armada como saída para a implementação do socialismo,
apesar de, no período inicial, não ter liderança nesse sentido, apoiando o Movimento
Revolucionário 13 de Novembro (MR-13) e formando as Fuerzas Armadas Rebeldes (FAR) em
1962. Disputas internas e discordâncias ideológicas levaram a uma quebra da unidade em 1968,
após o apoio do PGT às eleições de 1966. Dessa forma, o movimento passa a atuar mais
diretamente no âmbito institucional, focando suas forças na agremiação estudantil universitária
representada pela Asociación de Estudiantes Universitarios (AEU) – que teve grande papel no
movimento pelos direitos humanos – e secundarista, pela Frente Unido Estudiantil Guatemalteco
Organizado (FUEGO). Ao passo que a repressão governamental ao movimento estudantil
aumentava, com massacres e perseguições, como no confronto da Frente 20 de Outubro com o
exército em Baja Verapaz, ou nos desaparecimentos em massa, mais crescia a presença de
esquerdistas e, invariavelmente, o controle das instituições pelo PGT. Ao mesmo tempo, o partido
participava ativamente do reavivamento do movimento operário por meio da Federación Autónoma
Sindical de Guatemala (FASGUA) e da Confederación Nacional de Trabajadores (CNT) ao passo
que as duas organizações se distanciavam da Democracia Cristã (DC). Todavia, com a fraude na
eleição do presidente em 1974, vitória de Kjell Laugerud, candidato oficial, ante Efraín Ríos Montt
da DC, a radicalização do PGT tornou-se iminente, sendo a luta armada uma de suas causas,
principalmente após a dissidência em 1978 em um grupo mais devoto ao conflito.
As FAR tiveram origem na junção de um primeiro levante guerrilheiro em 1962,
continuando sua existência posterior como grupo guerrilheiro mesmo com a desagregação de boa
parte de seus números após a perseguição de 1966. Localizados no meio urbano, em especial na
capital, atuavam em todo o período da década de 1970 praticando atos subversivos como
assassinatos seletivos, sequestros da elite econômica e de figuras políticas locais e internacionais,
roubos e bombardeios. Tiveram boa parte de seus membros advindos da radicalização do
movimento estudantil e operário, movimentos de massa já no período de 1970-1980, atuando
sempre com a propagação da polarização dos membros a favor da inevitabilidade da luta armada, já
numa movimentação da capital para a floresta de El Petén, região norte do país e fronteira com
Chiapas. Ambas as organizações aqui apresentadas (PGT e FAR) foram as bases para a organização
guerrilheira da década de 1980.
O EGP foi uma organização guerrilheira dissidente das FAR e reorganizados na década de
1960 no México. Sua base social era de jovens do PGT, guerrilheiros das FAR e um pequeno grupo
de estudantes católicos. Em 1972 retornaram à Guatemala pela fronteira de Chiapas, fixando-se no
Triângulo Ixil, local de maioria étnica maia e construindo, ao modelo marxista-leninista de
vanguarda, uma base social, contatos e suporte. Apesar de ter força com o conjunto étnico maia, não
representava uma questão identitária como motor reivindicável, mas sim uma construção ortodoxa
de lutas de classe. A estratégia era crescer nas regiões subjacentes, iniciando na mais pobre, para
chegar até o domínio da capital. Tinha como análise de conjuntura a perspectiva da revolução a
partir do crescimento das mobilizações massivas da década de 1970. As primeiras aparições
públicas da guerrilha se deram em 1975 com a execução de vinte militares no extremo norte do
país. A partir de 1978 passa a atuar mais fortemente com os movimentos de massa, abandonando a
estratégia de isolamento.
A ORPA surge em 1972 após a dissidência com a FAR e a estratégia foquista (na criação de
focos de resistência) e sua principal característica como guerrilha é a aproximação com as questões
identitária indígenas. Assim, concebiam o marxismo como uma categoria analítica mas não
dogmática, isto é, como interpretação da conjuntura mas não como ortodoxia de ações, pautada na
leitura do marxismo vulgar (como diria Walter Benjamin). Localizavam-se na região sudoeste do
país, nos departamentos de San Marcos, Sololá, Quetzaltenango, Chimaltenango e na capital,
atuando em grupos não revolucionários como suporte em vez de meios de recrutamento como
faziam as demais guerrilhas. Possuíam uma estratégia de longa duração, tendo sua primeira
aparição pública após oito anos na invasão de uma fazenda em Quetzaltenango, focalizava suas
ações instâncias agrícolas.
As principais influências para a ação guerrilheira na Guatemala e a formulação de uma
coalizão de forças em 1982 foram a conquista do poder pelo movimento Sandinista na Nicarágua e
a organização guerrilheira da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional em El Salvador.
Apesar das diferenças estruturais e de apoio popular, isto é, enquanto na Nicarágua o Sandinismo
conseguia a junção da desaprovação popular ante o governo autoritário de Somoza, derrubando-o e
fazendo efetivamente uma revolução, com a tomada do controle do Estado, e a Frente Farabundo
Martí enquanto mais organizada e com maior capacidade bélica, em especial num conjunto de
forças guerrilheiras chamadas de Organizações Político-Militares (OPM’s) e o Partido Comunista,
mesmo sem o alcance revolucionário desejado, na utopia revolucionária nas palavras de Carlos
Bernal (2017), a Guatemala passou por uma difusa guerra civil que perdurou até os Acordos de Paz
de 1996, enquanto chegava-se a uma incapacidade de definições territoriais no final da década de
1980 e início de 1990. Calcula-se que a URNG tenha chegado a até 7500 militantes treinados e o
apoio de 500 mil camponeses.

Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN)

O EZLN é um movimento social organizado como guerrilha a partir de 1983 no Estado de


Chiapas, fronteira Sul com a Guatemala. Sua organização militar, diferenciada da civil e ideóloga,
chamada Frente Zapatista de Libertação Nacional (FZLN), tinha como função a organização da luta
armada anticapitalista para a conquista da emancipação da classe proletária, mas em um sentido
amplo e restrito (pensando nos oximoros do movimento) do reconhecimento identitário indígena
como também nas diversas realidades excludentes que permeiam a exploração sistêmica do homem
pelo homem. “El mundo que queremos es uno donde quepan muchos mundos”, em qualquer tipo de
violência, em qualquer tipo de opressão, a expressão da balaclava se demonstra ao exército dos sem
rosto, sem identidade, enquanto representatividade das exclusões, da multiplicidade de exclusões.
O movimento teve sua aparição pública em 1º de janeiro de 1994, data simbólica de entrada
em vigor do North American Free Trade Area (NAFTA) no México e, nas palavras do presidente
Salinas de Gortari, no primeiro mundo. A recusa à aplicação das políticas neoliberais, todavia, não
eram as únicas propostas de combate do movimento e para entendê-las é necessário explorar as
origens do mesmo e, para isso, subdividirei a explanação em três partes: a primeira diz respeito ao
levante estudantil de 1968; a segunda com relação aos movimentos organizados de camponeses e
indígenas, expressividade do Congresso Indígena de 1974; a terceira, na organização urbana e
guerrilheira das Fuerzas de Liberación Nacional (FLN) e na chegada à Selva dos marxistas-
leninistas.
A década de 1960 marca o milagre mexicano, um desenvolvimento econômico expressivo
que alcançou e foi sentido também em boa parte da América Latina. Todavia, mesmo com a
expansão comercial, o constante controle político por meio do Partido Institucional Revolucionário
(PRI) na aplicação de fraudes eleitorais gerou revoltas por toda a sociedade mexicana. 1968 foi o
marco dessas revoltas e instaurou uma memória de resistência política que marcou a
contemporaneidade do México. Em termos de urbanidade, o movimento estudantil está interligado a
uma alteração global de questionamento da ordem capitalista estabelecida mundialmente. Para
Rojas (2017), o 68 mexicano, mesmo sem as proporções do maio francês, descreve um marco
global da passagem para a desestruturação e queda, do fim dos longos ciclos de Kondratiev. É uma
explosividade que atinge a contracultura no ocidente, o estabelecimento da reflexão sobre a moral e
a ética, os limites dos conflitos imperialistas, a ascensão dos movimentos identitários feministas e
negros. Enquanto isso no oriente, a Revolução Cultural Chinesa expressa as divergências mesmo
dentro das estruturas comunistas estabelecidas a um momento de radicalização, de desacordo com
as burocracias estatais e vanguardistas que se estabelecem nos chamados “socialismos reais”.
Voltando ao México especificamente, os movimentos que tinham um início por questões estudantis
acabou por alcançar rapidamente a crítica ao sistema político, até a exigência de renúncia de
funcionários públicos em alguns casos. O movimento foi brutalmente reprimido pelo governo
mexicano de Gustavo Díaz Ordaz (1964-1970) e de seu secretário de governo e futuro presidente,
Luís Echeverría Álvarez, deixando marcado o “Massacre de Tlateloco” em 2 de maio de 1968 na
Praça das Três Culturas, manifestação estudantil contra a invasão da Universidade Nacional
Autônoma do México (UNAM). No entanto, o uso da força contra o movimento fez com que a
radicalização atingisse boa parte da sociedade mexicana e a criação da FLN em 1969 bem como de
outras organizações guerrilheiras foi fato consumado do fim (para estes) do âmbito institucional de
disputa.
Os indígenas mexicanos possuem uma história de luta atrelada à formação do Estado
mexicano. Não há como se falar de México sem se ter em mente a histórica importância da
propriedade da terra (não em termos meramente exploratórios e capitalistas), da exploração do
trabalho indígena, da importância da religiosidade e da conversão cristã e de movimentos milenares
de resistência. Em Chiapas, algumas revoltas do período colonial como em 1712 nas regiões
centrais de Zinacantán e Santa Marta já demonstravam a inquietude dos indígenas ante as práticas
de controle social. Na independência, é impossível não destacar a força de Hidalgo e Morelos,
especialmente do primeiro, na capitalização dos interesses camponeses com relação à distribuição
da terra e da formação de estruturas coletivas de propriedade. Na contemporaneidade, o marco da
Revolução Mexicana de 1910 com os exércitos do Sul representados por Emiliano Zapata também
caracterizam uma sublevação popular, camponesa e indígena que se refletem na Constituição de
1917, na formação legislativa dos ejidos (propriedades indígenas e coletivas) e no estabelecimento
da reforma agrária.
Em um contexto de crescimento dos questionamentos políticos pautados no controle do PRI
sobre o Estado Nacional, o governo de Echeverría acabou por buscar restaurar sua popularidade. A
primeira ação foi na criação de leis federais de incentivo econômico aos ejidos em 1971. A lei
estipulava que as propriedades que se agremiassem em um conjunto maior e mais produtivo teriam
investimentos públicos para o desenvolvimento econômico. As Uniones de Ejidos, como ficaram
conhecidas os conjuntos, acabaram por beneficiar apenas parte das propriedades e concentraram
somente 633 coletivos em Chiapas ao final do governo (HARVEY, 1998, p. 77). Foi durante tal
etapa que formulou-se o Congresso Indígena de 1974. O encontro agremiava setores do cristianismo
na organização e na disponibilidade de local como também na comemoração ao 500º aniversário do
nascimento do Frei Bartolomé de Las Casas. O objetivo geral era constituir um evento capaz de
discutir as formas de organização indígena para a formulação de políticas públicas que realmente
atendessem seus interesses. Foi por meio da aplicação da Teologia da Libertação e da
representatividade do bispo Samuel Ruíz que a educação político-teológica chegou aos indígenas. A
importância desse movimento foi estabelecer para as comunidades Tzotzil, Tzetal, Chol e Tojololbal
um conjunto de possibilidades de resistência institucional que caracterizou a formulação de
organizações posteriores que não foram cooptadas pelo governo e interligadas entre si, capazes de
estabelecer vínculos de sublevação posteriores.
Não há muita historiografia e fontes disponíveis para se conhecer profundamente as
organizações guerrilheiras de Chiapas no período de 1970-1980. Todavia, como marco da
estruturação do EZLN, alguns historiadores como Carlos Aguirre Rojas (2017) apresentam as
Fuerzas de Liberación Nacional (FLN) como organização que é raiz do (neo)zapatismo. Nascida em
1969, a organização insere-se num momento de questionamento da saída institucional para a
melhora das condições da classe proletária em Chiapas, em especial marcada pela força repressiva
do estado ante os levantes nacionais e estudantis. Como característica, diferente das demais
guerrilhas que se desencadearam pela América Latina, a FLN: pautava-se numa construção moral
sólida de entrega/sacrifício aos moldes do guevarismo; o isolamento social como processo de
alteração por meio prático da lógica burguesa de existência; o antiprotagonismo ou a recusa da
espetacularização, na valorização das pequenas ações como construtoras da mudança radical; na
exaltação do conhecimento nacional e local ante a importação de ideias; e a participação popular
como motor revolucionário. Com isso, as FLN organizaram-se nos territórios da Selva Lacandona a
partir da luta armada de longa duração aos moldes maoistas a fim de conceber a revolução. Alguns
guerrilheiros se separaram do movimento em 1983, subiram as montanhas e formaram o que seria,
nas palavras do Subcomandante Marcos, a origem do EZLN.
Todas essa construção histórica de questionamento do exercício do poder político pelo PRI
desde a década de 1960 foram centrais para a difusão de uma organização local com interesses
internacionais e no movimento em Chiapas que passou a controlar boa parte do território nordeste
do Estado até a atualidade. Não se pode, como já destacado anteriormente, negar todo o processo de
longa duração da resistência indígena, da terra e da religiosidade como marcos fundamentais de
uma força paramilitar mas também civil e política da qual é reflexo final. O EZLN, com suas
características próprias, foi a junção de um movimento marxista-leninista, de uma estratégia
maoista de estruturação e das resistências e interesses indígenas transformados em pauta, isto é, não
é explicável apenas por um ou outro, mas pelo conjunto histórico de formação dentre as respostas
dadas pelo grupo ao contexto que o envolvia.

Aproximações, comparações e divergências

O que se pode perceber quando se compara os dois movimentos é que se estabeleceram


praticamente no mesmo contexto. Todavia, enquanto um se deu por uma junção de movimentos
guerrilheiros e de uma organização partidária comunista, parecido com os acontecimentos de El
Salvador, o outro se estabelece nas montanhas ao nordeste de Chiapas, nos primeiros anos, até por
volta de 1986, apenas se estabilizando e conectando com as populações indígenas. A fim de conferir
certa linearidade, destacarei primeiro as semelhanças e depois as diferenças mais marcantes entre os
grupos apontados.
Ambos se destacavam, ao menos em parte com relação à URNG, em uma base social
indígena. A EGP e a ORPA eram organizações que buscavam o contato com a maior parte da
população ao norte da Guatemala. Enquanto a EGP, todavia, objetivava o contato por meio de uma
ideologia vanguardista, a ORPA se aproximava dos entendimentos mais próximos do EZLN quanto
à participação direta dos povos indígenas. Há controvérsias quanto à verdadeira relação que a ORPA
possuía com os indígenas, como no caso da dissidência de um grupo indígena em 1979 e na criação
do Movimiento Revolucionario Popular-Ixim (MRP-Ixim). Entretanto, essa formulação social não
deixava de orientar a base ideológica do grupo que atuou de forma decidida na guerra civil
guatemalteca, apesar da pequena proporção. O EZLN, mesmo com a formação inicialmente
marxista-leninista de um grupo de seis guerrilheiros na montanha, acabou por se aproximar dos
aspectos teleológicos e místicos dos indígenas, imprimindo uma característica social, política e
também ideológica pautada na preponderância das populações nativas, isto é, existiu uma
comunhão na qual o grupo urbano apresentava a possibilidade histórica e ideológica enquanto a
indígena manifestava a base social mas também os interesses políticos e o movimento adveio da
junção dos âmbitos.
Outra proximidade foi o conflito direto com o Estado nacional, todavia em proporções muito
diferentes: a URNG entrou em guerra civil direta com o exército da Guatemala na qual a conquista
de território e o uso de estratégias castristas se tornaram essenciais para a manutenção do controle
geográfico e no conflito bélico; o EZLN entrou em conflito com o Estado mexicano, controlando
boa parte do território de Chiapas logo no início de 1994. Todavia, logo a resposta do exército foi
arremetida. Perdendo alguns territórios, soldados e demonstrando uma certa disparidade técnica
entre os guerrilheiros e o exército nacional, o EZLN partiu para uma estratégia de comunicação e
divulgação que passava pelo apoio da sociedade civil e entidades internacionais. Esse apoio foi
essencial para uma alteração das estratégias de lutas e no início de um diálogo em busca de paz.
Ambos os países assinaram acordos de paz no ano de 1996 mas, novamente, em proporções
muito diferentes: enquanto a URNG chegou ao mesmo por meio de um impasse técnico na disputa
bélica com o Estado da Guatemala, tornando-se um partido político que disputaria o controle das
instituições políticas por meio do sufrágio; o EZLN fez diversos encontros com o Estado até chegar
aos Acordos de San Andrés que tinha, principalmente, o estabelecimento de direitos aos povos
indígenas, algo que não foi concretamente posto em prática pelo Estado mexicano. Alguns conflitos
ainda existiram após 1996, seja pela perseguição do Estado e no financiamento de milícias como
também no questionamento do movimento para a implementação dos acordos. Outra diferença
fundamental foi que o EZLN, a partir de suas formulações ideológicas, dispensa a participação nos
pleitos. Em termos estratégicos pode-se perceber que a URNG buscava a revolução por meio da
tomada do poder do Estado, características do movimento castrista, enquanto que o EZLN tinha
como questão o trabalho de base associada a um conjunto ideológico complexo que envolvia o
anticapitalismo e o antissistêmico aos moldes de Wallerstein, isto é, um movimento que
desenvolveu uma forma de política pautada no antipoder, na inexistência da autoridade e no
questionamento da ordem burguesa de existência da instituição estatal.
As divergências se dão no âmbito ideológico, na base social, nas estratégias pautadas para a
revolução (entendido aqui como conceito amplo de alteração da ordem capitalista vigente) como já
apresentado, mas se estabelecem em dois pontos mais claros: com relação aos resultados alcançados
e na influência direta na sociedade; a participação dos grupos indígenas, intelectuais e as ações da
atualidade.
A URNG assinou um acordo de paz com o Estado da Guatemala em 1996 e a partir de 1997
tornou-se um partido político de esquerda a participar das eleições guatemaltecas. O partido obteve
alguns resultados positivos nas eleições de 1999 com mais de 200 mil votos para presidente – cerca
de 12% dos votos válidos, com Álvaro Colom como candidato, o que foi incapaz de elegê-lo para o
segundo turno. Também obteve nove cadeiras do Congresso, sendo sete para o parlamento distrital e
dois para o nacional de um total de 91 para o primeiro e 22 para o segundo. Dessa forma, percebe-
se um abandono da luta armada e na aceitação das configurações burguesas de Estado e na
afirmação da social-democracia. Atualmente ainda participa do processo eleitoral e da tomada de
decisões na Guatemala, todavia vem perdendo força nos últimos anos e na pulverização de partidos
políticos na disputa.
O EZLN, ao contrário, continuou a ter uma concentração no território chiapaneco e uma
intensa participação no debate político do México e internacionalmente. A expressividade do
movimento levou o mesmo a ser profundamente estudado, conhecido e pesquisado pelo mundo.
Mudou, com o desenvolver do conflito, suas estratégias políticas criando, em 2005/2006, a Otra
Campanã na qual buscava fomentar as bases sociais e populares da sociedade mexicana para o
estabelecimento de um canal de participação direta na democracia entendida pelos mesmos como o
conceito do mandar obedeciendo. A Sexta Declaração abriu a oportunidade da participação de
mexicanos no movimento, o que levou a alguns expoentes da UNAM e de outras organizações
científicas à aderência em exemplo como de Carlos Aguirre Rojas e John Holloway. Além disso, no
ano de 2011 implementou a escuelita, instituição do movimento que recebeu pessoas de fora para
aprender o modo de vida e a organização autônoma do movimento, pautado na autogestão. O último
passo atual, após 2013, foi a expansão internacional do EZLN no auxílio direto a movimentos
organizados fora do México, num sentido muito próximo do estabelecido pela campaña
internamente. Foi o fomento à democracia direta, participativa e da autogestão que demonstraria a
verdadeira face do embrutecimento e desestruturação do capitalismo, sendo este inevitável. Outros
resultados visíveis foram dados pelo processo organizativo das comunidades chiapanecas que se
deram, inicialmente, pela participação direto do braço armado nas Aguascalientes para a posterior
retirada do mesmo e a formulação dos caracoles e as juntas de buen govierno. Todas essas
características levaram a uma formulação política própria de autogestão das comunidades por meio
das lideranças locais, sempre pautadas nos conceitos da democracia autônoma.

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