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Mutações da lín

As semelhanças le- em 146 a.C., a cultura desse país as evoluções fonéticas, a partir do
teve livre entrada no território século IX. As letras e , por
xicais não permitem conquistador. Muitas influências exemplo, caíram em desuso em
vieram dos escritores gregos e certas palavras latinas:
disfarçar que a língua sua literatura. Mas a maior parte (diabo), (dor), (lua),
portuguesa é fruto dos vocábulos agregados ao la- (ter), (voar). Tal
tim remete ao cotidiano do povo, transformação caracterizou o por-
das transformações como: (ar), (ânfora), tuguês, diferenciando-o do latim e
e influências sofridas (colher), (di- de outras línguas românicas – em
rigir um navio), (azeitona), espanhol e francês, as consoantes
pelo latim durante sé- (óleo), (punir) etc. permaneceram nos mesmos vocá-
culos As vogais e consoantes latinas bulos.
foram outro resquício do grego, A evolução de sons continuou
POR MARIANA HILGERT cujo próprio alfabeto já havia sido diferenciando a língua portuguesa
transformado com base naquele das demais. As formas de , e

É
impossível afirmar quando usado pelos fenícios. , em palavras latinas, assumiram
foi que o latim deixou de ser Assim como os gregos, o povo uma nova roupagem: o . Os
latim para se tornar portu- etrusco, que povoava a região nor- exemplos são vários: (chu-
guês, francês, italiano, espanhol e te da Itália, também emprestou va), (chamar),
todas as suas demais línguas filhas. palavras ao latim. (chave), (chorar),
O processo de mudança demorou (corrente), (cheio), (chama) etc. A
séculos e só ocorreu porque muda- (máscara de teatro; mais tarde, forma originalmente latina tam-
ram, também, os povos vizinhos, pessoa)e (servo) são algu- bém existe no português, indican-
os conquistadores, as necessidades mas das influências mais visíveis. do sinônimos, como em pluvial,
etc. Uma coisa, porém, é certa: o O gaulês, de origem céltica, fez clamar e plenitude.
latim evoluiu e deixou uma carga outros acréscimos, como em Muitas palavras da forma clás-
hereditária de vocábulos em cada (carroça de quatro rodas), sica do latim perderam lugar para
um de seus descendentes. (bico), (trocar) etc. as mais populares, embora tenham
Cerca de 80% do léxico usado Todo esse léxico mesclado era sobrevivido em certos vocábulos.
pelos falantes de língua portugue- levado pelos soldados romanos Mar, por exemplo, era chamado
sa vem do latim. Muito desse total durante suas incursões pelo Im- de na versão mais culta,
é fruto de um período em que o pério. A província da Lusitania, ou , na mais comum. O pri-
idioma era falado pelos agriculto- região onde nasceu Portugal, não meiro modelo foi esquecido, como
res da região do Lácio – situada na resistiu ao idioma dos invasores, mostra a semelhança dos vocábu-
parte central da atual Itália –, por e foi somando as novas palavras los. Mas aquático, por exemplo,
volta do século VIII a.C. Mas as ao vocabulário que já possuía. As resistiu. Outro caso é o do animal
palavras dessa época não ficaram transformações lexicais foram ine- cavalo, dito e . Pre-
restritas ao meio rural ( ). vitáveis, já que do século II a.C., dominou, no nosso vocabulário, a
Algumas perderam seu sentido ori- quando foi conquistado, até o sé- segunda forma, mais popular. Mas
ginal – que, hoje, passa desperce- culo VIII, o território português referente à primeira, tem-se equi-
bido – e tomaram outros rumos. sofreu invasões germânicas e, du- tação, que guarda a história no seu
O português também carrega, rante 500 anos, foi também ocu- étimo.
no seu léxico, marcas do grego, pado pelos árabes. O vocábulo
trazidas através do latim. Quando Uma das formas através da não veio do latim. Foi mais um em-
os romanos invadiram a Grécia, qual a mudança foi sentida foram préstimo do grego ( , verda-

Direto do campo

ngua EM LATIM

(verbo)
PRIMEIRO SENTIDO

peneirar
EM PORTUGUÊS

distinguir
deiro) que resistiu aos sé-
(verbo) colher > > ler
culos e às influências cul-
colher com os olhos
turais. No português, ela
é normalmente associada
(verbo) podar contar
ao sufixo – também grego
– (estudo), dando ori-
(verbo) sair do sulco (do arado) delirar
gem à etimologia, ciência
responsável por pesquisar a
(adjetivo) Quem tinha direito ao rival
histórias das palavras.
mesmo , ou curso de água
Aos etimólogos cabe a
descoberta da língua. Fo-
(adjetivo) Referente aos produtos que pobre
ram eles que desvendaram
forneciam pouco
as transformações fonéticas
e a identificação das formas
(adjetivo/antônimo Referente àquele que produz feliz
culta e popular do latim.
de pauper) (fértil); favorecido dos deuses
Eles descobriram, tam-
bém, que palavras distintas
adjetivo) Em excesso na colheita; teve sempre luxo
(como desenhar, designar e
sentido pejorativo no latim
design) podem ter o mesmo
étimo ( ); que, se
(substantivo) Fileira de vinha que formava um página
terminadas em no latim,
retângulo >página do papiro> página
as palavras ficam com o fim
com uma coluna por folha
em ( – romano)
no português; se terminam
(substantivo) A virada do arado no fim do campo> verso
em , viram (
linha de escrita que se repete como
– perceptível); se
os sulcos no campo> verso poético
acabam em , viram
( - caridade); se
em , passam a finalizar
com ( – gente).
Saber de onde viriam as
palavras instigou Isidoro de
Sevilha, bispo da cidade es-
panhola e responsável por
descobertas na área duran-
te a Idade Média. Ele foi o
autor de , con-
junto de 20 livros, cada um h i pó t es e s
representando uma área e fantasiosas,
as etimologias das palavras proble-
pertencentes a cada uma ma que
delas. acompa-
Muitas dessas descober- nha os
tas não tinham um emba- etimólogos
samento científico – eram até hoje.


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