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ESCOLA DE APERFEIÇOAMENTO DE OFICIAIS

Cap Inf IVSON BARBOSA MARINHO

PROPOSTA DE CADERNO DE INSTRUÇÃO SOBRE MUNIÇÕES DE


ARMAMENTOS LEVES: UM ESTUDO DE CASO PARA A ESCOLA DE
SARGENTO DAS ARMAS

Rio de Janeiro

2018
ESCOLA DE APERFEIÇOAMENTO DE OFICIAIS

Cap Inf IVSON BARBOSA MARINHO

PROPOSTA DE CADERNO DE INSTRUÇÃO SOBRE MUNIÇÕES DE


ARMAMENTOS LEVES: UM ESTUDO DE CASO PARA A ESCOLA DE
SARGENTO DAS ARMAS

Dissertação de mestrado apresentado à Escola de


Aperfeiçoamento de Oficiais, como requisito parcial
para a obtenção do grau de Mestre em Ciências
Militares.

Orientador: Cel Inf R1 Julio Sales

Rio de Janeiro

2018
Cap Inf IVSON BARBOSA MARINHO

PROPOSTA DE CADERNO DE INSTRUÇÃO SOBRE MUNIÇÕES DE


ARMAMENTOS LEVES: UM ESTUDO DE CASO PARA A ESCOLA DE
SARGENTO DAS ARMAS

Dissertação de mestrado apresentado à Escola de


Aperfeiçoamento de Oficiais, como requisito parcial
para a obtenção do grau de Mestre em Ciências
Militares.

Aprovada em ____ de ________ de 2018.

Banca Examinadora

_______________________________________

______________________________________

______________________________________
Aos meus filhos João Victor, Arthur e
Sophia, que tanto me encorajam, mesmo
que indiretamente, a realizar feitos na
minha vida pessoal e profissional, e à
minha esposa Letícia, que está do meu
lado em todas as situações.
AGRADECIMENTOS

Agradeço ao meu orientador por ter me dado todas as oportunidades possíveis


no prosseguimento do meu trabalho, no sentido de apresentar o melhor produto
possível, orientando com sua vasta experiência.
Ao General de Brigada Vinícius MARTINELLI, por ter me incentivado no início
de minhas pesquisas sobre munições, quando foi meu comandante na ESA.
Ao Ten Cel GIRON, comandante do Corpo de Alunos da ESA, por autorizar a
realização do experimento na ESA, e confiar na minha capacidade de trabalho como
seu comandado.
Aos meus camaradas de turma, Cap Inf FELIPE VIEIRA, e Cap Inf
TERTULIANO, por terem contribuído diretamente nas orientações do meu trabalho e
incentivarem a mudança de paradigmas na instrução de tiro do Exército Brasileiro.
Agradeço, ainda, a todos aqueles que participaram do experimento como
voluntários, seja nas instruções, nos questionários ou nas entrevistas, pois foram
partes essenciais no trabalho.
Por fim, agradeço ao Grande Arquiteto do Universo, que iluminou meu caminho
durante essa jornada, e sempre me deixa alerta e vigilante para seguir pelo caminho
mais justo e perfeito.
O soldado que aprende e aplica
corretamente os princípios relativos ao
fogo avançará sempre. O soldado que luta
é quem vence as batalhas. Lutar significa
empregar uma arma, e é o coração do
homem quem controla este emprego.
Devemos procurar na instrução, todos e
quaisquer meios pelos quais possamos
aumentar o volume de fogo eficaz, quando
tivermos que ir à guerra.

(SAMUEL MARSHALL)
RESUMO

A presente pesquisa procurou analisar se a atual abordagem da disciplina de ensino


sobre Armamento, Munição e Tiro (AMT), ministrado na ESA, está de acordo com as
demandas da formação profissional do sargento combatente de carreira do Exército,
com ênfase no assunto munição. Sua finalidade é propor um caderno de instrução
que possa suprir a demanda pelo assunto existente principalmente nas escolas de
formação do Exército. Para tanto, esse trabalho vem sendo desenvolvido desde 2016,
pela Seção de Tiro da ESA, por meio de uma pesquisa bibliográfica e descritiva,
levantando dados através de entrevistas e testes. Foram pesquisados nos
documentos de ensino existentes, quais as fontes de consulta utilizadas. Também
foram realizadas entrevistas com militares nas funções de instrutores dos
estabelecimentos pesquisados, bem como agentes de segurança pública e civis
especialistas no assunto. Uma amostra de Alunos da ESA de 2018 recebeu uma
instrução sobre munições de armamentos leves, pautada na proposta de caderno de
instrução elaborado. Esses Alunos, juntamente com outra amostra que não recebeu
a instrução, foram submetidos a um questionário/teste sobre a disciplina armamento,
munição e tiro. Por meio deste experimento, foi possível observar que aqueles Alunos
que tiveram contato com a instrução sobre munições e com o caderno de instrução
obtiveram resultados extremamente expressivos na parte do questionário que tratou
do assunto munições, enquanto que nas partes que trataram sobre armamento e tiro,
todos os Alunos obtiveram resultados semelhantes em média. Assim, foi possível
concluir que existe uma necessidade de que a disciplina AMT seja abordada de modo
que no assunto munições os instruendos consigam atingir os objetivos esperados
pelos documentos de ensino existentes.

Palavras-chave: Armamento. Munição. Tiro. Caderno de Instrução. ESA. Ensino.


ABSTRACT

The present research sought to analyse whether the present approach to the teaching
discipline on Armament, Ammunition and Shooting (AMT), taught at the ESA, is in line
with the demands of the professional training of the Army career combatant sergeant,
with an emphasis on ammunition. Its purpose is to propose an instruction booklet that
can supply the demand for the existing subject mainly in the Army training schools. To
do so, this work has been developed since 2016, by the ESA Shooting Section, through
a bibliographic and descriptive research, raising data through interviews and tests. We
searched the existing teaching documents, which are the sources of consultation used.
Interviews were also conducted with the military in the functions of instructors of the
researched establishments, as well as public security agents and civilian experts in the
subject. A sample of ESA Students of 2018 received an instruction on light armament
ammunition, based on the proposed instruction book. These students, along with
another sample that did not receive the instruction, were submitted to a questionnaire
/ test on the discipline of ammunition and shooting. By means of this experiment, it was
possible to observe that those Students who had contact with the instruction on
ammunition and with the instruction book obtained extremely expressive results in the
part of the questionnaire that dealt with the subject ammunitions, whereas in the parts
that dealt with weaponry and shooting, all Students obtained similar results on
average. Thus, it was possible to conclude that there is a need for the AMT discipline
to be approached and so that in the subject ammunition the instructors can achieve
the objectives expected by the existing teaching documents.

Key-words: Weaponry. Ammunition. Shot. Instruction Book. ESA. Teaching.


LISTA DE QUADROS

Quadro 1 - Definição operacional da variável dependente ....................................... 26


Quadro 2 - Definição operacional da variável independente ..................................... 27
Quadro 3 - Carga horária da disciplina AMT no período básico ................................ 37
Quadro 4 - Assunto sobre munições enquadrado no período básico ........................ 38
Quadro 5 - Objetivos de aprendizagem do assunto “tipos de munição” .................... 38
Quadro 6 - Abordagem do assunto munições como padrão de desempenho ........... 39
Quadro 7 - Objetivos de aprendizagem por competência para o assunto munições 39
Quadro 8 - Demonstrativo dos entrevistados ............................................................. 99
LISTA DE GRÁFICOS

Gráfico 1 - Média geral da 1ª parte dos Grupos 1 e 2, por questão …………………. 87


Gráfico 2 - Média geral dos acertos da 1ª parte por grupo ........................................ 87
Gráfico 3 - Média geral da 2ª parte dos Grupos 1 e 2, por questão ........................... 89
Gráfico 4 - Média geral dos acertos da 2ª parte do grupo ......................................... 90
Gráfico 5 - Média geral dos resultados da 3ª parte dos grupos 1 e 2 ....................... 92
Gráfico 6 - Média geral da 3ª parte por grupos ......................................................... 92
Gráfico 7 - média de pontos geral e mediana no questionário/teste de AMT ............ 94
Gráfico 8 - menção dos Alunos no questionário/teste ................................................ 95
Gráfico 9 - Média de acertos das 1ª e 3ª partes do questionário ............................... 96
LISTA DE FIGURAS

Figura 1 - Esquema de um estojo em corte transversal ............................................. 43


Figura 2 - Esquema de tipos de estojos ..................................................................... 44
Figura 3 - Desenho esquemático de virolas ............................................................... 44
Figura 4 - Partes de uma cápsula .............................................................................. 45
Figura 5 - Tipos de cápsulas ...................................................................................... 45
Figura 6 - Esquema de um projétil seccionado .......................................................... 46
Figura 7 - Partes de um estojo .................................................................................. 49
Figura 8 - Alguns tipos de projéteis ........................................................................... 52
Figura 9 - Tipos de pontas de projéteis de chumbo .................................................. 54
Figura 10 - Classificação geral dos estojos quanto ao formato ................................ 56
Figura 11 - Classificação geral dos estojos quanto a sua base ................................ 56
Figura 12 - Classificação geral dos estojos quanto ao tipo de iniciação ................... 56
Figura 13 - Tipos de espoletas e suas utilidades ...................................................... 58
Figura 14 - Projéteis com coeficientes balísticos diferentes ...................................... 64
Figura 15 - Partes de uma espoleta .......................................................................... 66
Figura 16 - Arma com ignição de pederneira ............................................................. 69
Figura 17 - Cartuchos metálicos de Lefauchaux, com percussão em pino lateral ..... 70
Figura 18 - Desenho esquemático de um projétil Minnié ........................................... 71
Figura 19 - Esquema de corte transversal do cano raiado de uma arma de fogo ..... 74
Figura 20 - Relação entre o calibre Gauge e o diâmetro do projétil em mm ............. 76
Figura 21 - Tipos de choque e suas finalidades ......................................................... 77
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

AMAN Academia Militar das Agulhas Negras


AMT Armamento, Munição e Tiro
BPE Batalhão de Polícia do Exército
CA Corpo de Alunos
CDE Confederação de Desportos do Exército
CFS Curso de Formação de Sargentos
CI Caderno de Instrução
CMB Curso de Material Bélico
COTer Comando de Operações Terrestres
DECEx Departamento de Ensino e Cultura do Exército
EB Exército Brasileiro
ECEME Escola de Comando e Estado Maior do Exército
EE Estabelecimento de Ensino
EME Estado-Maior do Exército
ESA Escola de Sargentos das Armas
ESLog Escola de Sargentos de Logística
EsMB Escola de Material Bélico
EUA Estados Unidos da América
FAL Fuzil Automático Leve
GM Guerra Mundial
IGTAEx Instruções Gerais de Tiro com Armamento do Exército
IME Instituto Militar de Engenharia
Instruções Reguladoras do Tiro com Armamento do
IRTAEx
Exército
NATO/OTAN Organização do Tratado do Atlântico Norte
OII Objetivo Individual de Instrução
OM Organização Militar
OMCT Organização Militar de Corpo de Tropa
PlaDis Plano de Disciplina
PlanID Plano Integrado de Disciplina
PP Programas Padrão
QGAEs Quadro Geral de Atividades Escolares
QMG Qualificação Militar Geral
SeNaSP Secretaria Nacional de Segurança Pública
SETEx Sistema de Educação Técnica de Ensino
SU Subunidade
USArmy United States Army
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ................................................................................... 16
1.1 PROBLEMA ....................................................................................... 18
1.1.1 Antecedentes do Problema .............................................................. 18
1.1.2 Formulação do Problema ................................................................. 20
1.2 OBJETIVO .......................................................................................... 21
1.3 QUESTÕES DE ESTUDO ................................................................... 22
1.4 JUSTIFICATIVA ................................................................................. 22
2 METODOLOGIA ................................................................................ 25
2.1 OBJETO FORMAL DE ESTUDO ........................................................ 25
2.1.1 Definição conceitual das variáveis .................................................. 26
2.1.2 Definição operacional das variáveis ............................................... 26
2.2 AMOSTRA .......................................................................................... 27
2.3 DELINEAMENTO DA PESQUISA ...................................................... 29
2.3.1 Procedimentos para revisão da literatura ....................................... 30
2.3.2 Procedimentos Metodológicos ....................................................... 31
2.3.3 Instrumentos ..................................................................................... 32
2.3.3.1 Aplicação dos questionários ............................................................... 33
2.3.4 Análise dos dados ............................................................................ 33
3 REVISÃO DA LITERATURA .............................................................. 35
3.1 ENTENDENDO A ESTRUTURA DA INSTRUÇÃO NOS PP DO
COTER ............................................................................................... 35
3.2 ENTENDENDO A ESTRUTURA DA INSTRUÇÃO NOS PLADIS
DOS EE .............................................................................................. 36
3.3 PORTARIA Nº 146 DECEX, DE 15 DE OUTUBRO DE 2012 .............. 40
3.4 FONTES DE CONSULTA NAS ESCOLAS DE FORMAÇÃO .............. 40
3.4.1 O Manual Técnico T9-1903 ............................................................... 41
3.4.2 O Manual de Ensino EB60-ME-14.061 ............................................. 41
3.4.3 O Manual de Campanha C 23-1 ........................................................ 42
3.4.4 As Instruções Gerais de Tiro com Armamento do Exército
(IGTAEx) ............................................................................................ 42
3.4.5 Nota de aula da Escola de Material Bélico do Exército .................. 43
3.4.5.1 Estojo .................................................................................................. 43
3.4.5.2 Espoletas ............................................................................................ 45
3.4.5.3 Propelentes e pólvoras ........................................................................ 45
3.4.5.4 Projéteis .............................................................................................. 46
3.4.6 Nota de aula do Curso de Material Bélico da AMAN ....................... 47
3.5 FONTE DE CONSULTA NA FORMAÇÃO DOS SARGENTOS
FUZILEIROS NAVAIS ......................................................................... 48
3.6 SERVIÇO DE ARMAMENTO E TIRO (SAT) DA POLÍCIA FEDERAL 50
3.6.1 Calibre ................................................................................................ 51
3.6.2 Munição .............................................................................................. 51
3.7 MANUAL DE ARMAMENTO E MANUSEIO SEGURO DE ARMAS DE
FOGO .................................................................................................. 52
3.7.1 Projétil ................................................................................................ 53
3.7.2 Estojo ................................................................................................. 55
3.7.3 Propelente .......................................................................................... 57
3.7.4 Espoleta ............................................................................................. 57
3.8 MANUAL TM43-0001-27 DO EXÉRCITO AMERICANO .................... 59
3.9 MANUAL RT 23-30: MANUAL DE TIRO DO EXÉRCITO DO
URUGUAI ............................................................................................ 59
3.9.1 Conceituação ..................................................................................... 60
3.9.2 Constituição do cartucho ................................................................. 61
3.9.3 Balística ............................................................................................. 62
3.10 M211 - MANUAL DE ELEMENTOS DO ARMAMENTO DO
EXÉRCITO PORTUGUÊS .................................................................. 64
3.10.1 Projéteis ............................................................................................. 65
3.10.2 Estojo ................................................................................................. 66
3.10.3 Espoleta ............................................................................................. 66
3.10.4 Propelente .......................................................................................... 67
3.10.5 Munições especiais ........................................................................... 68
3.11 A EVOLUÇÃO DA MUNIÇÃO: BREVE HISTÓRICO ........................... 69
3.12 TRABALHO SOBRE ADEQUAÇÃO BALÍSTICA PARA O EB ............ 72
3.13 CALIBRES .......................................................................................... 74
3.13.1 Calibre em armas de cano liso ......................................................... 76
3.14 BALÍSTICA ......................................................................................... 78
3.14.1 O poder de parada (Stopping power) .............................................. 79
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO ......................................................... 84
4.1 RESULTADOS DO QUESTIONÁRIO/TESTE DOS ALUNOS DA ESA 85
4.1.1 Aplicação dos instrumentos de pesquisa ...................................... 85
4.1.2 Questionário 1ª Parte: assunto armamento ................................... 86
4.1.2.1 Discussão dos resultados da 1ª Parte do questionário/teste ............... 88
4.1.3 Questionário 2ª parte: assunto munição ........................................ 89
4.1.3.1 Discussão dos resultados da 2ª Parte do questionário/teste ............... 91
4.1.4 Questionário 3ª parte: assunto tiro ................................................. 91
4.1.4.1 Discussão dos resultados da 3ª Parte do questionário/teste ............... 93
4.1.5 Resultado geral do questionário ..................................................... 94
4.1.5.1 Discussão dos resultados do questionário/teste ................................. 95
4.1.6 Conclusão parcial ............................................................................. 96
4.2 DISCUSSÃO DAS ENTREVISTAS .................................................... 98
4.2.1 Entrevista com instrutores .............................................................. 98
4.2.2 Conclusão parcial ............................................................................. 103
5 CONCLUSÃO E RECOMENDAÇÕES .............................................. 106
GLOSSÁRIO ...................................................................................... 110
REFERÊNCIAS .................................................................................. 112
APÊNDICE A – INSTRUÇÃO SOBRE MUNIÇÕES DE
ARMAMENTOS LEVES ..................................................................... 116
APÊNDICE B – QUESTIONÁRIO PARA ALUNOS DA ESA ............. 121
APÊNDICE C – ENTREVISTA PARA MILITARES, AGENTES E
CIVIS ESPECIALISTAS NO ASSUNTO MUNIÇÕES ......................... 127
APÊNDICE D – PROPOSTA DE CADERNO DE INSTRUÇÃO
SOBRE MUNIÇÕES DE ARMAMENTOS LEVES .............................. 130
16

1 INTRODUÇÃO

No contexto da história da humanidade, existem divergências sobre quando o


homem iniciou, na sua evolução, o período de caça para sua sobrevivência. Harari
(2011, p.3) cita que foi na pré-história, no período paleolítico, há 2,5 milhões de anos,
quando surgiu o gênero Homo, na África. Naquele período, no momento em que o
homem utilizou pela primeira vez uma pedra, osso ou madeira, arremessando-os para
abater uma caça ou para atacar e se defender durante uma disputa de liderança em
sua tribo, pode-se dizer que ali foi arremessado o primeiro projétil com o mesmo
objetivo que é utilizado hoje: abater um alvo, seja com a finalidade de atacar ou
defender-se.
Foi durante a idade média que houve o surgimento do ingrediente principal para
potencializar o arremesso de projéteis: a pólvora. Sua descoberta “é atribuída aos
monges taoístas ou alquimistas, que procuravam pelo elixir da imortalidade, na China
no final do período Thang, século XV” (VASCONCELOS; SILVA; ALMEIDA, 2010, p.
2). Desde então, as munições e as armas de fogo, concomitantemente, vêm
evoluindo, sendo utilizadas em larga escala nas guerras, na atividade de caça e, mais
recentemente, para o esporte.
Com o advento dos estudos científicos da Mecânica, o estudo do movimento
dos corpos ganhou substancial atenção e estudos teóricos, visando explicar a energia
envolvida nesse fenômeno. Foi um estudo evolutivo, que iniciou com os filósofos pré-
socráticos. Segundo Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.) (apud DO VALLE, 2014, p. 2)
existia uma entidade imutável, também considerada a matéria, responsável pelo
movimento de todos os outros seres. Já Leonardo Da Vinci (1452 - 1519) desenhou
projéteis com formatos cilíndricos, parecidos com os formatos atuais, percebendo que
isso ajudaria no voo. Galileu (1564 - 1642) iniciou os experimentos científicos relativos
aos movimentos na Terra, estudando a queda livre, o plano inclinado e o pêndulo.
Niccolò Tartaglia1 (1499 - 1557) estudou a aerodinâmica, associando velocidade
inicial com angulação para atingir maiores distâncias no arremesso de projéteis. Mas
foi Isaac Newton que aprofundou os conhecimentos do movimento de projéteis, que
hoje é chamado de estudo da balística, envolvendo os projéteis de arma de fogo.

1
Foi um matemático italiano, que viveu no século XVI em Veneza, um dos responsáveis pela solução
de equações matemáticas do 3º grau.
17

As armas de fogo e as munições passaram por rápida evolução e, até os dias


atuais, inúmeros tipos de munições são utilizados para diversos fins. Nas operações
militares, as munições de diversos calibres influenciam nas manobras em todos os
escalões, sejam elas munições de armamentos leves, granadas, mísseis ou foguetes,
de armas de fogo portáteis, carros de combate ou aeronaves. Conhecer a munição
que a tropa utiliza, bem como a utilizada pelo inimigo, em seus detalhes técnicos e
balísticos básicos, pode definir resultados em um combate, principalmente no nível
tático de batalha.
Este estudo vai ao encontro dos diversos Programas Padrão (PP) de Instrução
Militar do Comando de Operações Terrestres (COTer) e Planos de Disciplina (PlaDis)
dos Estabelecimentos de Ensino (EE) do Exército Brasileiro (EB), particularmente na
disciplina Armamento, Munição e Tiro (AMT) previsto no PlaDis da Escola de
Sargentos das Armas (ESA). Observa-se que o material de consulta oficial em forma
de manuais e cadernos de instrução, sobre os assuntos armamento e tiro, são vastos
e suficientes, abordando e praticamente esgotando o referido assunto naquilo que é
necessário ao sargento de carreira na sua formação na ESA. Porém no assunto
munição, as fontes de consulta oficiais e padronizadas pelo EB são praticamente
inexistentes para atingir os objetivos impostos pelos próprios PP nos Corpos de Tropa
e PlaDis nos EE, pois não oferece os subsídios de conhecimento necessários aos
seus Instrutores e Monitores.
Este estudo visa contribuir com a formação do sargento combatente de carreira
do EB, formado na ESA, aperfeiçoando seus conhecimentos técnicos sobre AMT.
Observamos no PlaDis do Curso de Formação de Sargentos (CFS), em sua formação
básica, que o padrão de desempenho, para o conteúdo Introdução ao estudo do
armamento, em seus assuntos: 1. Armamento coletivo e individual; e 2. Tipos de
munição, compreende “Conhecer os tipos de armamento e munições, de acordo com
as prescrições das IGTAEx (Instruções Gerais de Tiro com Armamento do Exército),
para garantir o sucesso das ações operativas.” (BRASIL, 2015, p. 18). Vemos que no
próprio conteúdo disciplinar do CFS, existe a referência ao estudo dos tipos de
munições diretamente ligado à operacionalidade militar.
No âmbito do EB, os sargentos combatentes muitas vezes são responsáveis
por assumir funções de Sargento de Tiro da Subunidade (SU), e monitor em instruções
de AMT para seus soldados. Ao se depararem com o assunto “munições”, ou “tipos
de munições”, o seu conhecimento limitado adquirido na ESA não lhe permite explorar
18

o assunto à contento, e a falta de uma fonte de consulta militar deixa o monitor sem
uma referência de instrução. Consequentemente, o Soldado deixa de conhecer os
detalhes básicos da munição que ele utiliza ou que pode encontrar no campo de
batalha. Um exemplo do reflexo negativo relativo à falta desta instrução pode ser
identificado no Caderno de Instrução CI 21-2/2 Ações Contra Caçadores, onde a tropa
regular deve estar apta a levantar vários Elementos Essenciais de Informação, dentre
eles, identificar “estojos vazios de munição especial, esquecidos no terreno” (BRASIL,
2004, p. 18).
Atualmente o conhecimento básico sobre munições é largamente difundido
entre atiradores desportivos, em clubes de tiro e nas academias de polícia militar, civil
e federal. A Secretaria Nacional de Segurança Pública (SeNaSP) atinge o estado da
arte, ao oferecer cursos de ensino à distância sobre balística forense e armas de fogo,
onde o assunto munições é abordado com excelência. Vale salientar que uma vez
aprendido os conceitos gerais, eles podem se aplicar a qualquer tipo atual de munição
para armamento leve.

1.1 PROBLEMA

Para o correto entendimento do escopo do trabalho, buscou-se determinar clara


e objetivamente o problema resultante do relacionamento da falta de fontes de
consulta militares sobre munições, com a formação do Sargento de carreira na ESA.
Para isso, serão exibidos os antecedentes do problema, como se observa a seguir.

1.1.1 Antecedentes do problema

A atual conjuntura de constante evolução tecnológica dos armamentos leves


acompanha, concomitantemente, a evolução de projetos de munições adequadas. O
combate moderno exige que para cada tipo de operação, se utilize de um projétil com
características específicas, pois ora se quer eliminar uma ameaça, ora se quer apenas
paralisá-la, ou até mesmo incapacitá-la por alguns instantes. Esse conhecimento
técnico deve estar de posse dos comandantes das pequenas frações, para que possa
planejar corretamente suas ações e assessorar o comando no nível tático.
19

Atualmente, o Estado-Maior do Exército (EME) realiza uma pesquisa2 por


intermédio de sua 4ª Subchefia, no âmbito de todas as Organizações Militares (OM)
do Exército, sobre a adoção do calibre 5,56x45 NATO, com o fuzil IMBEL IA-2. Para
que o sargento profissional possa opinar nessa questão, é imprescindível que
conheça as características gerais de um cartucho. Ora, o EME solicita a opinião dos
militares comandantes das pequenas frações, porém eles não têm uma fonte de
consulta militar, com linguagem técnica padronizada, sobre as características gerais
das munições de armamentos leves. Obviamente, tiveram que recorrer a fontes de
fabricantes, artigos civis e tantas outras com conceitos, nomenclaturas e dados
técnicos variados.
Ao deparar-se com uma situação em que os comandantes táticos deveriam
analisar uma situação de caráter operacional (a utilização do fuzil IA2 pelas tropas do
EB), viu-se a necessidade de consultar material civil e entrevistar especialistas civis,
que não possuem a vivência militar, porém o conhecimento técnico profundo. É certo
que foram realizados diversos trabalhos (e ainda estão sendo), até mesmo científicos,
sobre doutrina para utilização do fuzil IA2. Mas foi a partir daí que se verificou a
necessidade do profissional militar ter o conhecimento básico sobre munições.
Em se tratando de ensino por competências, o assunto munições pode ser
aprendido e avaliado através de conteúdos de aprendizagem factuais e conceituais,
tendo em vista que pode ser um assunto delimitado em manual em sua essência,
porém em constante evolução numa abrangência geral. Os conteúdos conceituais
podem levar ao interesse de um aprofundamento no assunto, e permite que o militar
se interesse por produzir conhecimento para subsidiar aspectos doutrinários da Força,
em um nível tático. Isso cresce de importância quando se observa esse conhecimento
nas escolas de formação, tendo em vista que os militares recém formados irão ocupar
funções nos quartéis espalhados pelo território nacional, e serão responsáveis
também pela formação e adestramento das pequenas frações.
A disciplina AMT existe em praticamente todos os PP de Instrução do COTer,
e em todos os PlaDis da maioria dos EE do EB. A abordagem deste conteúdo é ampla,

2
Em abril de 2017, numa videoconferência onde participaram a Seção de Tiro da Escola de Sargentos
das Armas e da Academia Militar das Agulhas Negras, o Comandante da Escola Preparatória de
Cadetes do Exército, membros do Comando Logístico do Exército e das Regiões Militares, coordenada
pela 4ª Subchefia do EME, foi discutido como seria a distribuição dos fuzis IA2 calibre 5,56x45 NATO,
porque determinadas tropas utilizariam, e se era viável logisticamente tal distribuição. Além disso, no
ano de 2015, diversas Brigadas foram consultadas sobre a adoção do calibre 5,56x45 NATO em
detrimento do 7,62x51 NATO.
20

e não poderia deixar de ser quando se trata de uma Força Armada. No PlaDis atual
da ESA, o aluno em sua formação de qualificação tem carga horária de AMT de 44
horas, e os conceitos sobre munições são passados durante intervalos dos módulos
de tiro, como forma de complementação da instrução. Nesse documento não existe
uma carga horária específica para abordagem do assunto munições de armamentos
leves na qualificação, apenas no período básico do CFS.
Pela experiência profissional do autor, e de vários outros militares entrevistados
por ele, verificou-se que existe uma lacuna na área do ensino e da instrução no que
diz respeito ao conhecimento sobre munições, principalmente por parte dos militares
profissionais de carreira combatentes do EB. Dentro das próprias escolas de formação
de oficiais e sargentos existe essa lacuna, bem como em relação a manuais, cadernos
de instrução ou mesmo apostilas no assunto. Verifica-se uma dificuldade em
disseminar esse conhecimento, que deveria fazer parte do arcabouço intelectual do
militar profissional, já que a munição é a razão de ser da arma de fogo, que, por
conseguinte é a principal ferramenta de trabalho do combatente individual.
A Portaria nº 734, de 19 de agosto de 2010, do Diretor de Ensino e Cultura do
Exército, conceitua Ciências Militares, estabelece a sua finalidade e delimita o escopo
de seu estudo. Ela determina as áreas de estudo a serem abrangidas pelas ciências
militares. Dentre elas está a balística, que é diretamente ligada ao estudo das
munições.

1.1.2 Formulação do Problema

As Ciências Militares estão em constante evolução, pois as guerras cada vez


mais perdem a forma tradicional e ganham facetas distintas e não convencionais. Isso
influencia diretamente na preparação tática das pequenas frações, haja visto que elas
se tornam uma importante peça de manobra. Além disso, se busca cada vez mais
diminuir os efeitos colaterais em combate, procurando atender aos apelos dos direitos
humanos, evitando mortes de inocentes.
Os modernos sistemas de armas também ditam o desenvolvimento das
operações, possibilitando preservar mais vidas no campo de batalha e atingir os
objetivos propostos pelo comando, através da designação de alvos mais seletivos.
Assim, cada vez mais o soldado deve ter conhecimento das capacidades de sua
21

fração, para que possa confiar nas decisões do escalão superior, em particular nas
possibilidades do poder de fogo da tropa que dá o suporte para o militar de Infantaria.
No Exército Brasileiro, a ESA é o EE responsável pela formação de todos os
sargentos de carreira da linha de ensino militar bélico. Assim, é o principal vetor de
transmissão do conhecimento, que irá se irradiar nos Corpos de Tropa, formando um
sargento combatente especializado e atualizado. Dessa forma, poderá melhorar o
conhecimento técnico de seus subordinados.
Como consequência, as pequenas frações recebem atualizações táticas
através das turmas mais recentemente formadas na ESA, criando um círculo virtuoso
de constante evolução tática da tropa na linha de frente do combate. O conhecimento
sobre munições de armamentos leves é essencial para a formação de um sargento
profissional, que encontrará no Corpo de Tropa um cenário atual de evolução e
discussão sobre novos calibres e novos armamentos a serem utilizados pelo
combatente individual.
A fim de verificar se o conhecimento sobre munições passado ao aluno da ESA
é suficiente e se esse conhecimento tem condições de ser multiplicado nos Corpos de
Tropa de forma condizente, foi formulado o seguinte problema: em que medida a
elaboração de um Caderno de Instrução sobre Munições de armamentos Leves
contribuirá para melhorar a formação dos sargentos de carreira da Escola de
Sargentos das Armas (ESA)?

1.2 OBJETIVO

Tendo em vista o problema proposto, esta pesquisa pretende, como objetivo


geral, analisar se a atual abordagem do conteúdo de ensino sobre Armamento,
Munição e Tiro, ministrado na ESA, está de acordo com as demandas da formação
profissional do sargento combatente de carreira do Exército, com ênfase no assunto
munição. Sendo assim, este trabalho pretende concluir apresentando uma fonte de
consulta em forma de Caderno de Instrução sobre o assunto Munições de
Armamentos Leves.
Com o intuito de nortear o trabalho à consecução de seu propósito, foram
enumerados os seguintes objetivos específicos:
a. descrever o atual perfil profissiográfico do aluno da ESA;
22

b. descrever como é abordado atualmente a disciplina AMT na ESA, segundo


o PlaDis;
c. identificar o conhecimento básico sobre munições de armamentos leves de
interesse para formação do sargento combatente de carreira;
d. identificar situações de combate onde os tipos de munição de armamento
leve influenciam;
e. identificar o nível de conhecimento sobre o assunto que é ministrado na ESA,
através de questionários e entrevistas; e
f. apresentar uma proposta de Caderno de Instrução sobre Munições de
Armamentos Leves como fonte de consulta para instrução na ESA, podendo ser
aproveitado no âmbito do Exército Brasileiro.

1.3 QUESTÕES DE ESTUDO

Com base nos objetivos específicos elencados, foram investigadas as


seguintes questões de estudo:
a. Como é estruturado o ensino de AMT na ESA atualmente, de acordo com o
PlaDis, e qual o impacto de uma mudança no conteúdo de AMT na formação?
b. Como é estruturada a instrução de AMT nos corpos de tropa, de acordo com
os PP do COTer?
c. Quais os materiais de consulta no ensino militar, que abordam o assunto
munições, no âmbito das Forças Armadas nacionais, internacionais e órgãos de
segurança pública no Brasil?
d. Qual a média de rendimento escolar os alunos da ESA apresentam na
matéria AMT atualmente, e se essa média aumentaria caso houvesse um caderno de
instrução sobre munições?

1.4 JUSTIFICATIVA

O Exército Brasileiro possui uma estrutura de ensino bem consolidada, com


diretorias específicas para os diversos níveis de formação de seus militares de
carreira, sejam eles da Linha de Ensino Militar Bélica ou Não Bélica, dirigidos pelo
23

Departamento de Ensino e Cultura do Exército (DECEx). Já o Comando de Operações


Terrestres (COTer) é o responsável por ditar as instruções atinentes às formações de
militares temporários, que completam as fileiras do Exército nos Corpos de Tropa, e
do adestramento de tropa. Em ambos os casos, a disciplina Armamento, Munição e
Tiro (AMT) faz parte da grade curricular.
É indiscutível a relevância da disciplina AMT para um militar, principalmente os
combatentes de carreira, e levando em consideração que a arma de fogo é a principal
ferramenta de trabalho do militar combatente do Exército. O DECEx e o COTer já
homologaram e disponibilizaram vasto material didático no assunto, porém,
curiosamente, o assunto específico munições não é abordado de forma direta em
nenhum manual. Existe apenas um Manual Técnico, o T9-1903 Armazenamento,
Conservação, Transporte e Destruições de Munições, Explosivos e Artifícios, edição
de 1970, e que não aborda os conceitos específicos sobre cartuchos. É o Manual
utilizado como referência no PlaDis da ESA e em diversos Planos de Seção sobre a
disciplina AMT. Existe ainda o Manual de Ensino EB60-ME-14.061, edição de 2013,
que aborda com propriedade os assuntos Armamento e Tiro, porém o assunto
munições é explorado como no Manual Técnico T9-1903.
Sobre a disciplina AMT, especificamente no assunto Munições, deve ser
abordado na formação do sargento na ESA um enfoque nos conceitos básicos de
munições, já consolidados, quais sejam: tipos de cartuchos, tipos de projéteis e seus
efeitos, tipos de espoleta, tipos de estojos e seus efeitos, características da arma de
fogo que influenciam no desempenho dos projéteis, a correta utilização dos cartuchos,
características de projéteis especiais e noções de balística.
Hoje em dia se tem destrinchado o assunto munições de armamentos leves
apenas em cursos essencialmente técnicos, como no Curso de Mecânico de
Armamento Leve da Escola de Sargentos de Logística (ESLog – Rio de Janeiro), no
Curso de Material Bélico da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN - Resende),
no curso de Engenharia de Armamento no Instituto Militar de Engenharia (IME – Rio
de Janeiro), no curso de Perito Militar no 1º Batalhão de Polícia do Exército (1º BPE –
Rio de Janeiro) e nos Estágios nos Comandos Militares de Área de Caçador Militar.
Todo o material de consulta utilizado é baseado em livros de renomados autores civis
e apostilas confeccionadas pelos próprios instrutores, porém todos sem referência em
alguma fonte de consulta militar.
24

Pelo fato do conhecimento sobre munições não ter uma fonte militar, são
repassados, nos cursos técnicos, várias nomenclaturas diferentes, e não há um
consenso sobre até que nível de conhecimento sobre munições interessa em cada
curso e no geral. Um Caderno de Instrução sobre Munições de Armamentos Leves,
homologado pelo COTer ou DECEx, traria uma padronização do conhecimento geral
sobre o assunto, vindo a suprir uma demanda dos próprios PlaDis e PP que é ministrar
uma instrução sobre o assunto munições. Já existe esse assunto previsto nos
documentos de ensino.
O conhecimento básico sobre munições, como dito anteriormente, é relevante
no planejamento das operações militares, e não pode ser tratado como estritamente
técnico como é atualmente. Um exemplo de conhecimento básico pouco difundido é
o calibre de arma de cano liso, chamado de Gauge, que não é medido nem em
milímetros, nem em polegadas, como nas armas de cano raiado. Assim, “tomando-se
uma perfeita esfera de chumbo (com uma libra de peso), seu diâmetro seria então o
gauge (Ga.) 1, ou seja, o calibre 1” (VASCONCELOS, 2015, p.42). Para obter o calibre
12, basta dividir a esfera de chumbo de Ga. 1 em 12 partes idênticas, e o diâmetro de
uma esfera será o diâmetro (calibre) do cano da arma de fogo.
Um Caderno de Instrução sobre Munições de Armamentos Leves não só
melhoraria a instrução na ESA, como também poderia servir como fonte de consulta
para instrutores de outros EE e do Corpo de Tropa, criando uma unidade na instrução
em todo o Exército. Seria uma inovação na instrução em toda a Força Terrestre ter
um material padronizado sobre o assunto, já que há décadas o assunto já está
incorporado às instruções militares básicas.
Enfim, pode-se dizer que o principal beneficiário deste estudo é o próprio
Exército, já que terá uma formação de seus quadros mais técnica e atualizada. O
resultado do estudo, que é o Caderno de Instrução, se destina num primeiro momento
à formação do Sargento da ESA, mas não impede que seja utilizado em outros EE e
no Corpo de Tropa. As vantagens disto são: unidade no conhecimento sobre
munições, melhoria no planejamento das operações no nível tático, na preparação
técnica dos quadros e possibilidade de aprofundamento nos estudos sobre o assunto.
25

2 METODOLOGIA

Neste capítulo será apresentado a sequência do desenvolvimento da pesquisa,


para que seja possível detalhar o método científico utilizado, e deixar claro os objetivos
a serem alcançados. Nesse intuito, será abordado o objeto formal do estudo, a forma
de delineamento da pesquisa, o universo pesquisado, a amostra utilizada, os critérios
e estratégias adotadas e a definição de instrumentos e procedimentos para análise de
dados.

2.1 OBJETO FORMAL DO ESTUDO

O presente estudo pretende avaliar em que medida a falta de uma fonte de


consulta padronizada pelo Exército Brasileiro, influencia a aquisição de
conhecimentos sobre o assunto munições por parte dos sargentos formados na ESA.
A pesquisa foi limitada ao universo de militares do corpo discente do Corpo de
Alunos (CA) da ESA, constando de 680 Alunos. A amostra da pesquisa englobou os
Alunos do CA da ESA, totalizando 334 Alunos. Participaram das entrevistas
instrutores e monitores da Seção de Tiro da ESA, da ESLog, da EsMB, da Seção de
Tiro da AMAN e do curso de perícia criminal do 1º BPE, instrutores e monitores da
escola de formação de sargentos fuzileiros da Marinha e de sargentos especialistas
da Força Aérea e instrutores do Serviço de Armamento e Tiro (SAT) Academia
Nacional de Polícia (ANP) da Polícia Federal. Delimitou os calibres de armamentos
leves considerando diâmetros de projétil entre 5,5 mm a 15,24 mm, por serem os
calibres utilizados nos armamentos leves existentes atualmente nas Forças Armadas
brasileiras, bem como nas Forças Armadas de países pertencentes aos grandes
blocos de cooperação militar, como a ONU e a OTAN.
Da análise das variáveis envolvidas no presente estudo, a “Instrução Militar –
assunto munições de armamentos leves” apresenta-se como variável dependente,
tendo em vista que a manipulação na variável independente, “Fonte de consulta militar
para melhoria na formação do sargento”, causa efeito significativo sobre a primeira.
Dessa forma, podem-se definir as variáveis conceitual e operacionalmente, como
mostrado a seguir.
26

2.1.1 Definição conceitual das variáveis

Variável I: melhoria na instrução militar na disciplina AMT


No contexto desta pesquisa, a variável dependente “Instrução Militar – assunto
munições de armamentos leves” pode ser compreendida como toda instrução
recebida pelo Aluno da ESA, no âmbito do Corpo de Alunos daquele Estabelecimento
de Ensino, prevista no Plano de Disciplina do Estabelecimento de Ensino, no conteúdo
Armamento, Munição e Tiro, durante o Curso de Formação de Sargentos (CFS). Indica
como o assunto munições é tratado atualmente, e como poderá ser tratado por uma
fonte de consulta militar.
Variável II: adoção de um CI sobre munições de armamentos leves
No contexto desta pesquisa, a variável independente “Fonte de Consulta
Militar” pode ser compreendida como Manuais, Cadernos de Instrução, Instruções
Provisórias ou outras publicações que forem homologadas pelo COTer ou DECEx,
devidamente publicadas em Boletins do Exército e baixadas como Portarias, de
acordo com as Instruções Gerais para as Publicações Padronizadas do Exército, 1ª
Edição 2011, ou diretrizes vigentes; notas de aula utilizada pelos cursos de formação
da ESA; o Caderno de Instrução de Munições de Armamentos Leves proposto pelo
autor; e material didático disponibilizado pela Divisão de Ensino para o Aluno cursando
o CFS. Tudo isso relacionado ao conteúdo Armamento, Munição e Tiro.

2.1.2 Definição operacional das variáveis

A operacionalização das variáveis está organizada segundo o quadro a seguir,


que permitirá a observação de suas dimensões através dos indicadores propostos.

Variável
Dimensão Indicadores Forma de medição
dependente

No máximo 50% de
Melhoria na Abordagem do
Abordagem atual do assunto na média de acertos do
instrução assunto
ESA questionário na parte
militar na Munição de
de munição
27

disciplina armamentos No mínimo 51% de


Abordagem do assunto baseada
AMT leves média de acertos do
no Caderno de Instrução
questionário na parte
proposto
de munição

Análise qualitativa
Eficiência da abordagem do
da entrevista para
assunto munições no CFS
Oficiais e Sargentos

Quadro 1: Definição operacional da variável dependente.


Fonte: O Autor.

Variável
Dimensões Indicadores Forma de medição
independente

Média de acertos de
Assunto Desempenho no questionário na no mínimo 51% das
armamento parte de armamento questões na parte de
armamento
Adoção de
Média de acertos de
um CI sobre
Assunto Desempenho no questionário na no mínimo 51% das
munições de
munição parte de munição questões na parte de
armamentos
munição
leves
Média de acertos de
Desempenho no questionário na no mínimo 51% das
Assunto tiro
parte de tiro questões na parte de
tiro

Quadro 2: Definição operacional da variável independente.


Fonte: O Autor.

2.2 AMOSTRA

A amostra estudada na pesquisa quantitativa é composta por 334 Alunos da


ESA, de um universo de 680 Alunos que compõem o Corpo de Alunos da ESA; na
pesquisa qualitativa por 2 militares da Seção de Tiro da ESA; por 2 militares da
Seção de Tiro da AMAN; por 2 militares do corpo docente do curso de logística da
ESLog; por 2 militares do corpo docente da EsMB; por 2 militares do corpo docente
do curso de perito criminal do 1º BPE; por 2 instrutores de AMT do Serviço de
28

Armamento e Tiro (SAT) da Academia Nacional de Polícia da Polícia Federal; por 2


instrutores de AMT da Escola de Especialistas da Aeronáutica (EEAr); por 2
instrutores de AMT da Escola de Formação de Sargentos Fuzileiros Navais da
Marinha; e por 4 especialistas civis instrutores de AMT. A amostra da pesquisa
quantitativa está contida na população dos Alunos que estão cursando, no presente
ano (2018) o CFS da ESA. A amostra da pesquisa qualitativa está contida na
população de instrutores e monitores da ESA, ESLog, EsMB, Seção de Tiro da AMAN
e do 1º BPE, Academia Nacional de Polícia da Policia Federal, EEAr e da Escola de
Formação de Sargentos Fuzileiros Navais da Marinha (CFS Fuz Nav). No geral, as
entrevistas serão realizadas com:
- Instrutores Chefes das Seções de Tiro da ESA e da AMAN;
- Instrutores e monitores das Seções de Tiro da ESA e da AMAN;
- Instrutores e monitores da ESLog, EsMB e do Curso de Polícia do Exército do
1º BPE, EEAr, CFS Fuz Nav;
- Agentes de segurança pública federal, exercendo funções de instrutor; e
- Civis que exercem funções de instrução de tiro e/ou que já publicaram obras
literárias sobre o assunto.
Assim, os resultados desta pesquisa procurarão refletir a realidade atual sobre
como o sargento de carreira formado na ESA está sendo formado no conteúdo
armamento, munição e tiro.
Os requisitos a serem preenchidos para a pesquisa quantitativa são:
− Ser voluntário para preencher a pesquisa;
− Ser aluno do Corpo de Alunos da ESA, ou oficial instrutor, ou subtenente
monitor ou sargento monitor do CA;
− Não ter tirado grau abaixo de 5,0 em nenhuma avaliação de armamento,
munição e tiro até o momento da pesquisa; e
− Estar dentro dos limites de pontos perdidos por falta em instruções, segundo
as Normas Gerais de Ação do Corpo de Alunos da ESA.
Os requisitos a serem preenchidos para a pesquisa qualitativa são:
- Ser instrutor ou monitor da Seção de Tiro da ESA e da AMAN;
- Ser instrutor ou monitor da EsLog, EsMB, Curso de Perito do 1º BPE

Dessa forma, o trabalho buscou realizar uma pesquisa quantitativa com os


alunos, e uma pesquisa qualitativa no universo dos oficiais, subtenentes, sargentos,
29

agentes de segurança pública e civis especialistas. Consequentemente, foi possível


obter uma visão ampla para estudar melhor o caso.
Por fim, será possível retratar a real necessidade de um Caderno de Instrução
sobre o assunto munições.

2.3 DELINEAMENTO DA PESQUISA

O presente estudo caracteriza-se por utilizar o método de abordagem


indutivo e o procedimento de estudo de caso para a construção do modelo de análise
e solução do problema de pesquisa. Assim, se pretende induzir, a partir de um estudo
de caso para a instrução sobre Munições, a importância de um Caderno de Instrução
regular, como fonte de consulta no referido assunto, no âmbito da ESA.

Quanto ao tipo, a pesquisa apresenta-se como de natureza aplicada, pois tem


por objetivo gerar conhecimentos de aplicação prática, a fim de proporcionar um
melhoramento no ensino-aprendizagem através de uma proposta de Caderno de
Instrução. A forma de abordagem adotada será de cunho quantitativo, pois busca-se
apreender dimensões traduzidas em dados estatísticos, apesar de ter apoio qualitativo
em determinadas etapas, buscando a interpretação de competências de cunho
subjetivo e individual. Nesse caso, segundo Neves e Domingues (2007, p. 57), os
dados numéricos da abordagem qualitativa podem possuir significados agregados à
pesquisa quantitativa, sendo passíveis de interpretação.
Com base nos objetivos gerais, trata-se de uma pesquisa do tipo
exploratória, pois, apesar de existir o conteúdo Armamento, Munição e Tiro na
formação básica e qualificada no CFS, o assunto Munições é pouco explorado. As
fontes de consulta militar disponíveis não permitem o desenvolvimento dos
conhecimentos básicos no referido assunto para a formação acadêmica militar. Cabe
ressaltar que as fontes de consulta não militares são vastas no assunto munições,
permitindo a consulta acessível a diferentes autores, e permitindo uma relação com o
meio militar de ensino.

No tocante à técnica de obtenção de dados, inicialmente, o estudo utilizará a


modalidade de coleta documental, a fim de reunir o conhecimento necessário ao
estudo aprofundado das partes que compõe o problema. Em seguida, será realizado
levantamento, no qual uma amostra de alunos da ESA será submetida a uma
30

avaliação sobre seus conhecimentos adquiridos nas instruções de AMT. Através de


questionários, serão levantadas as impressões dos instrutores e monitores atuais da
ESA, ESLog, EsMB, Seção de Tiro da AMAN e curso de perícia criminal do 1º BPE
sobre o conhecimento de munições na formação do sargento de carreira da ESA. E,
por fim, serão realizadas entrevistas estruturadas com civis e militares especialistas
na disciplina AMT, abordando as atualidades sobre munições e a importância do
conhecimento militar delas. Os resultados obtidos serão analisados e incluídos no
estudo.

2.3.1 Procedimentos para revisão da literatura

A fim de buscar as informações necessárias à definição de termos e conceitos,


atualizações sobre o assunto e fundamentos capazes de viabilizar a solução do
problema de pesquisa, será realizada uma pesquisa bibliográfica e documental nos
seguintes termos:

a. Fontes de busca
− Publicações do Comando Logístico do Exército e suas subordinações;
− Publicações do DECEx;
− Documentação de ensino da ESA, AMAN, Escola de Material Bélico
(EsMB), Escola de Logística (ESLog), Curso de Perito do 1º Batalhão de Polícia do
Exército (1º BPE), e outras organizações militares com instruções afetas;
− Manuais dos Exércitos Brasileiro, Português, Francês, Espanhol e Norte
Americano;
− Livros e monografias das bibliotecas da EsAO e da ECEME;
− Acervo da Rede de Bibliotecas Integradas do Exército;
− Manuais e apostilas da Força Aérea e da Marinha, utilizados na formação
dos militares;
− Manuais e apostilas das academias de órgão de segurança pública;
− Artigos científicos publicados nos principais periódicos de assuntos
militares e em revistas especializadas em munições e armamentos; e
− Livros e publicações de autores de reconhecida importância na área de
31

balística e perícia criminalística.


b. Estratégias de busca para as bases de dados eletrônicas
Serão utilizados os seguintes termos descritores, ou palavras-chave:
"características das munições, balística, perícia criminal, ensino, armamento leve,
projéteis, espoletas, estojos”, respeitando as peculiaridades de cada base de dados.
Após a pesquisa, as referências bibliográficas dos estudos considerados
relevantes serão revisadas, no intuito de encontrar artigos não localizados durante a
busca eletrônica.

2.3.2 Procedimentos Metodológicos

A fim de solucionar o problema, foram estabelecidos os objetivos de pesquisa


e levantadas questões de estudo. Definiram-se as variáveis, alcances e limites do
objeto formal de estudo, seguida da seleção da amostra. Apresentou-se o
delineamento da pesquisa, as fontes de busca e as estratégias de procura eletrônica.
Os dados foram obtidos, inicialmente, através da coleta documental, por meio
de publicações oficiais, periódicos especializados no assunto e materiais de autores
com renomada importância. Para definir os dados relevantes ao estudo, foram
estabelecidos os seguintes critérios:

a. Critérios de inclusão
− Estudos que fossem direcionados ao conhecimento básico sobre munições
e balística; e
− Estudos quantitativos e qualitativos que descressem experiências
relacionadas ao emprego de diferentes tipos de munições de armamentos leves em
operações reais.

b. Critérios de exclusão
− Artigos ou relatos sem fundamentação comprovada ou sem credibilidade; e
− Estudos que fugiram da área do ensino militar, da formação militar, do
assunto armamento, munição e tiro e do tempo e do espaço delimitados pelo projeto.
32

Após a coleta documental de dados, será realizado um levantamento por meio


de questionários, buscando respostas que possam ser mensuradas quantitativamente
e qualitativamente. Por fim, os instrumentos serão aplicados na amostra e os
resultados obtidos, após exaustivamente analisados, serão organizados,
categorizados e transformados em uma proposta de reformulação do ensino no
assunto munições. Tudo isso tendo como base os resultados quantitativos levantados
em entrevistas de especialistas no assunto.

2.3.3 Instrumentos

a. Coleta documental
A fim de reunir o conhecimento essencial ao desenvolvimento do estudo e
coletar dados essenciais para a elaboração de um Caderno de Instrução no assunto
Munições, foi realizada uma pesquisa bibliográfica dos seguintes assuntos:
− Conceitos básicos sobre armas de fogo;
− Conceitos básicos sobre balística;
− Características das munições de armamentos leves;
− Elaboração de PlaDis e PP; e
− Tipos de munições utilizadas pelos Exércitos dos países membros da OTAN.

b. Instrução sobre munições


Para iniciar o experimento, foi ministrada uma instrução sobre munições de
armamentos leves, baseada na proposta de caderno de instrução sobre munições
(proposta do Autor), para 255 Alunos da amostra em estudo. O Instrutor Chefe da
Seção de Tiro da ESA ficou responsável por ministrar a referida instrução, com o
intuito de possuirmos um grupo no experimento com conhecimento considerado o
ideal na formação do sargento.

c. Questionários (Apêndice B) e entrevistas (Apêndice C)


Para complementar a coleta de dados documental, foi aplicado um questionário
sobre conceitos básicos da disciplina AMT para os Alunos da amostra em estudo.
Simultaneamente, entrevistas levantando a relevância de um Caderno de Instrução
sobre o assunto munições de armamentos leves foram realizadas com a amostra da
33

pesquisa qualitativa. O questionário foi realizado com perguntas fechadas e abertas.


As entrevistas com perguntas abertas.

O objetivo dos questionários e entrevistas é levantar dados quantitativos no


questionário, e qualitativos nas entrevistas. Assim, realizou-se um cruzamento de
dados de forma a se obter uma conclusão positiva sobre a necessidade de uma fonte
de consulta militar, que cubra uma lacuna existente na formação do sargento
combatente de carreira formado na ESA.

2.3.3.1 Aplicação dos questionários

O questionário equivaleu-se a um teste, e foi composto de três partes, sendo:


a primeira parte com cinco perguntas sobre armamento; a segunda parte com cinco
perguntas sobre munições; e a terceira parte com cinco perguntas sobre tiro. Cada
pergunta tem o valor de um ponto, totalizando quinze pontos do teste. Os Alunos
tiveram um tempo de trinta minutos, farão o teste ao mesmo tempo e no mesmo local.

Os Alunos não puderam utilizar fontes de consulta. Os testes não valeram como
avaliação somativa no curso. Os Alunos tomaram ciência da aplicação do teste com
pelo menos quarenta e oito horas de antecedência. Os instrutores chefes dos cursos,
e o comandante do Corpo de Alunos da ESA autorizaram a realização do experimento.

Foi realizado um pré-teste do questionário, com a aplicação do teste aos


militares da Seção de Tiro da ESA, com o intuito de realizar possíveis melhoramentos
na pesquisa. O teste só foi aplicado após as correções verificadas no pré-teste.

2.3.4 Análise dos Dados

A análise dos dados se deu de forma distinta para cada caso. Na coleta
documental, os dados foram analisados e fichados, por assunto, e relacionados com
a finalidade do estudo alvo deste projeto.
Os dados do questionário quantitativo foram levantados, analisados,
organizados e exibidos em forma de gráficos. Os resultados foram apresentados
34

relacionados com o mapeamento da literatura sobre o assunto e apontando aspectos


da proposta do caderno de instrução.
Já os dados das entrevistas foram analisados pelo nível de importância dado
ao assunto pelos entrevistados. Numa segunda fase, as respostas foram submetidas
a análises relacionadas com os dados da coleta documental e com o questionário
quantitativo.
Por fim, o objetivo geral foi atingido buscando a convergência dos resultados
quantitativos, qualitativos e da revisão da literatura, introduzindo novos problemas de
pesquisar futuras.
35

3 REVISÃO DA LITERATURA

Diante do problema de pesquisa verificado, foi realizado o estudo bibliográfico


do tema para apurar como é a legislação de ensino do EB. Também foi levantado
quais fontes de consulta são utilizadas nas instruções de AMT nos corpos de tropa e
nos EE.
Por meio da revisão da literatura, procurou-se analisar os conceitos sobre
munições abordados por autores civis especializados no assunto, observar estudos
anteriores e esclarecer a relação entre o material de consulta utilizado na ESA e a
deficiência no conhecimento do assunto pelos Alunos formados no CFS.
Para fins de exposição, o capítulo está dividido, no geral, em: estrutura da
instrução e do ensino do Exército Brasileiro; manuais militares e notas de aula sobre
munições de armamentos leves; publicações civis sobre o assunto munições, calibres
e balística; e o Caderno de Instrução proposto pelo autor.

3.1 ENTENDENDO A ESTRUTURA DA INSTRUÇÃO NOS PP DO COTER

A estrutura da instrução nos PP do COTer “baseia-se no princípio metodológico


da instrução militar orientada para o desempenho (…) qualquer que seja a QMG”
(BRASIL, 2013, p. 1-10).
Ao analisar cada uma das partes que compõe o conceito da estrutura da
Instrução Individual Básica, segundo o PP de Instrução Individual Básica Ed. 2013, é
possível identificar as áreas de desempenho da instrução:
- Instrução sobre matérias fundamentais à preparação básica do combatente;
e
- O desenvolvimento de atitudes e habilidades necessárias à formação do
soldado.
Em se tratando das instruções fundamentais, a estrutura compreende um
conjunto de “matérias; assuntos integrantes de cada matéria; sugestões de objetivos
36

intermediários; e objetivos terminais, chamados de Objetivos Individuais de Instrução


(OII)” (BRASIL, 2013, p. 1-11).
Dentro das matérias encontram-se os assuntos, e dentro dos assuntos os
objetivos intermediários, que permitem ao Instrutor, “levando em conta sua
experiência, as disponibilidades materiais, e as características do militar” (BRASIL,
2013, p. 1-11, grifo nosso), formular ou estabelecer novos objetivos intermediários. As
matérias, os assuntos, os objetivos intermediários e as tarefas são “os elementos
básicos que constituem o PP” (BRASIL, 2013, p. 1-11).
Os PP usam, como métodos e processos de instrução, o princípio do realismo,
ou simulação, colocando o instruendo constantemente em situações semelhantes às
que deverão ocorrer no exercício de suas atividades. De acordo com o Manual do
Instrutor e do Professor no Âmbito do Departamento de Educação e Cultura do
Exército (DECEx), Edição Experimental 2013, o realismo, ali chamado de
dramatização, simula “ações e procedimentos existentes na realidade do militar” e “é
muito adequada para o ensino dos conteúdos procedimentais e atitudinais” (BRASIL,
2013, p. 3-16).
Para cada qualificação de militares temporários, existe um Programa Padrão
de Instrução, que atende às mais diversas demandas de conhecimentos técnicos,
dependendo da área em que o militar está sendo qualificado. Já a formação básica é
composta por matérias de assuntos comuns, que devem ser de conhecimento de
todos os militares e que servirá de subsídio para cumprir suas missões em qualquer
qualificação que lhe for designada. Dentre as matérias, se apresenta Armamento,
Munição e Tiro.

3.2 ENTENDENDO A ESTRUTURA DA INSTRUÇÃO NOS PLADIS DOS EE

De acordo com o Manual do Instrutor e do Professor no Âmbito do DECEx,


Edição Experimental 2013:

O Estabelecimento de Ensino realiza o planejamento curricular, que resulta


na confecção dos seguintes documentos: Perfil Profissiográfico, Plano de
Disciplinas (PLADIS), Plano Integrado de Disciplinas (PLANID), Quadro Geral
de Atividades Escolares (QGAEs) (BRASIL, 2013, p. 4-1).
37

O PlaDis é a base para que os Instrutores/Professores organizem de modo


didático as principais ideias a serem repassadas aos Alunos/Instruendos. Assim, o
Instrutor/Professor define os objetivos de aprendizagem, que “servem para indicar
quais aspectos devem ser desenvolvidos nos Alunos” (BRASIL, 2013, p. 4-2).

Os Objetivos de Aprendizagem estão diretamente relacionados com os


Conteúdos de Aprendizagem, que são listados como sendo: FACTUAL,
CONCEITUAL, PROCEDIMENTAL ou ATITUDINAL.

Com o PlaDis pronto, o Instrutor/Professor tem condições de planejar sua


Aula/Instrução. Ele consegue extrair o conteúdo ou assunto a ser repassado, os
objetivos a serem alcançados, define o foco da instrução em função dos conteúdos
de aprendizagem determinados e define os procedimentos, ferramentas e técnicas
didáticas adequadas para alcançar os objetivos.

O PlaDis do período de instrução básica do Curso de Formação de Sargentos


(CFS), contém a disciplina AMT, com seus conteúdos e assuntos. No conteúdo “1.
Introdução ao estudo do armamento”, encontramos o assunto “2. Tipos de munição”.
Para que o Aluno possa conhecer os tipos de munição, torna-se necessário que o
instrutor saiba quais são esses tipos e tenha uma fonte de consulta confiável para
ensinar. Um Sargento combatente do EB acaba sendo formado sabendo apenas
diferenciar uma munição 7,62mm de uma 9mm, que é facilmente percebida a olho nu,
sem necessitar de nenhum conhecimento técnico no assunto.
38

Quadro 3: Carga horária da disciplina AMT no período básico.


Fonte: PlaDis CFS Básico 2018.

Quadro 4: Assunto sobre munições enquadrado no período básico.


Fonte: PlaDis CFS Básico 2018.
39

Quadro 5: Objetivos de aprendizagem do assunto “tipos de munição”.


Fonte: PlaDis CFS Básico 2018.

Já o PlaDis atual do período de instrução de qualificação do CFS, no conteúdo


“1. Armamento, Munição e Tiro”, não apresenta assuntos sobre munições. Porém, no
ano de 2017, a Seção de Tiro da ESA propôs uma mudança no PlaDis do CFS,
solicitando a inclusão do assunto “características das munições”, com carga horária
de dois tempos de instrução. No período de qualificação, o foco da instrução sobre
munições seria a demonstração dos efeitos balísticos dos diferentes projéteis. Isso
daria ao Aluno noções de como ele poderia se abrigar sob fogo do armamento leve
inimigo, se o material de proteção fornecido à tropa é suficiente ou até mesmo que
tipo de abrigo inimigo ele poderia enfrentar com seu armamento leve. O referido
assunto foi proposto para compor tanto o PlaDis do período básico quanto o do
período de qualificação do CFS. Assim, o Aluno teria uma continuidade sobre o
assunto na sua formação.

No Curso de Polícia do Exército, ministrado pelo 1º Batalhão de Polícia do


Exército (BPE) no Rio de Janeiro, o assunto características das munições é abordado
no conteúdo “Perícia e investigação criminal”, no assunto “noções de balística
forense”. Como um dos objetivos de aprendizagem deste assunto, encontramos:
“conhecer os principais tipos de munições utilizadas em operações policiais e suas
características”.
40

Quadro 6: abordagem do assunto munições como padrão de desempenho.


Fonte: PlaDis Curso de Polícia do Exército (CPE).

Quadro 7: objetivos de aprendizagem por competência para o assunto munições.


Fonte: PlaDis CPE.
3.3 PORTARIA Nº 146 DECEX, DE 15 DE OUTUBRO DE 2012

A Portaria nº 146 do DECEX (EB60-IR-57.007) aprova as Instruções


Reguladoras do Sistema de Educação Técnica do Exército (SETEx). Esse sistema
41

engloba os cursos de Formação, de Especialização, Especialização Profissional, de


Extensão e de Aperfeiçoamento, destinados aos Sargentos e Subtenentes das Linhas
de Ensino Militar Bélico e de Saúde.

No seu Capítulo II, Seção I, uma das metas a serem atingidas pelo SETEx é
“(...) III - qualificar, em alto nível, recursos humanos para o exercício das atividades
de instrução de corpo de tropa e de educação nos Estb Ens3 e CI” (BRASIL, 2012, p.
9/26). Ora, se uma das atividades de educação na ESA (um dos EE) é ensinar o
assunto tipos de munições, deve-se qualificar seus recursos em alto nível sobre esse
assunto também, corroborando com as metas a serem atingidas no ensino técnico,
segundo o SETEx.

3.4 FONTES DE CONSULTA NAS ESCOLAS DE FORMAÇÃO DO EXÉRCITO

Nos PP e PlaDis se utilizam como referência, para tratar do assunto


Características das Munições, o Manual Técnico T9-1903 ARMAZENAMENTO,
CONSERVAÇÃO, TRANSPORTE E DESTRUIÇÃO DE MUNIÇÕES, EXPLOSIVOS
E ARTIFÍCIOS, que nada apresenta sobre as características de uma munição. Nos
EE e nos Corpos de Tropa, os Manuais utilizados como referência no conteúdo
Armamento, Munição e Tiro são: Manual Técnico T9-1903, Manual de Ensino EB60-
ME-14.061, o Manual de Campanha C 23-1 1ª e 2ª Edições e as Instruções Gerais
para o Tiro no Exército (IGTAEx).

No Curso de Material Bélico da AMAN, os Cadetes recebem instruções sobre


características das Munições, baseados em uma Apostila de Munições de
Armamentos Leves e de Arremesso. Essa apostila foi confeccionada no ano 2000, e
descreve as características das munições de armamentos leves, que “são aquelas de
calibre igual ou menor que .60” = 15,24 mm”, utilizadas em “revólveres, pistolas,
metralhadoras de mão, carabinas, fuzis, fuzis metralhadores, metralhadoras leves,
metralhadoras pesadas, etc...” (BRASIL, 2000, p. 1).

3
Estabelecimento de Ensino, o equivalente a EE, de acordo com o Manual de Abreviações, Siglas e Convenções
Cartográficas do Exército Brasileiro, Ed. 2008.
42

Já no Curso de Perito Criminal, ministrado pelo 1º Batalhão de Polícia do


Exército, na cidade do Rio de Janeiro, são utilizadas fontes de consulta de escritores
e estudiosos civis, principalmente do renomado perito criminalístico Domingos
Tocchetto. Também se utiliza como fontes de consulta trabalhos realizados por
militares peritos e notas de aula. No caso do curso de Perito Criminal, o assunto é
bem mais aprofundado e científico.

3.4.1 O Manual Técnico T9-1903

Este Manual trata sobre armazenamento, conservação, transporte e destruição


de munições, mas não trata sobre as características técnicas das munições dos
armamentos leves.

Basicamente, nas instruções sobre características das munições, o Instrutor no


Corpo de Tropa e nos EE, no período de instrução básica, aborda apenas as
características abordadas pelo Manual Técnico T9-1903. Sendo assim, não abrange
as características das munições de armamentos leves, como partes de uma munição,
tipos de projéteis, de espoletas, de estojos e de propelentes.

3.4.2 O Manual de Ensino EB60-ME-14.061

O Manual de Ensino Armamento, Munição e Tiro, edição de 2011, é uma fonte


de consulta que trata especificamente sobre características técnicas dos armamentos
leves, granadas de mão e de bocal, dotações de munição, segurança na instrução,
documentação e características técnicas de paióis, depósitos e armazenamento de
munições.

Para tal, o Manual não aborda as características técnicas das Munições, se


atendo a normatizar termos técnicos e procedimentos com armamentos. Apesar de
chegar a abordar características técnicas das granadas, não dá subsídios para que o
Instrutor possa tratar do assunto Munições, dentro do conteúdo Armamento, Munição
e Tiro. Sobre munições de armamentos leves, cita apenas as munições militares
43

(traçantes, perfurantes, lança granadas, festim, manejo e perfurante incendiária), sem


mencionar as características dos cartuchos em geral.

Portanto, o Manual de Ensino de Armamento, Munição e Tiro foca seu conteúdo


no assunto armamento, não abordando munição nem tiro.

3.4.3 O Manual de Campanha C 23-1

O Manual de Campanha C 23-1, Tiro das Armas Portáteis, em sua 1ª Edição,


é dividido em duas partes: a 1ª Parte trata do Tiro com Fuzil, e a 2ª Parte trata do tiro
com Pistola.

Este Manual aborda estritamente o assunto tiro, e não faz menção aos
assuntos armamento e munição. Seu objetivo é fornecer subsídios aos instrutores,
auxiliares de instrutores e monitores de tiro, na medida em que trata dos fundamentos
de tiro com o fuzil, das instruções preparatórias para o tiro e de técnicas de tiro com o
fuzil (BRASIL, 2003a, p. 1-1).

O C 23-1 cita como fontes de consulta relacionadas ao tiro: o Programa de


Instrução Militar (PIM) conferido pelo COTer; as IGTAEx; o próprio manual técnico do
armamento utilizado; o T9-1903; e o T9-2100, Acidentes e Incidentes de Tiro. Nenhum
desses manuais aborda o assunto munições.

3.4.4 As Instruções Gerais de Tiro com Armamento do Exército (IGTAEx)

Temos nas IGTAEx, em sua Edição de 2017, as instruções gerais da condução


dos exercícios de tiro no âmbito do EB. Contém em seu corpo as Instruções
Reguladoras de Tiro com o Armamento do Exército (IRTAEx). Já as IRTAEx possuem
diversos cadernos, tratando dos módulos de tiro das diversas armas utilizadas pelo
EB, bem como os módulos escolares específicos dos Estabelecimentos de Ensino.

As IGTAEx, portanto, tratam exclusivamente do assunto tiro, e não aborda o


assunto armamento e munição. Assim, temos o C 23-1 tratando das técnicas de tiro,
as IGTAEx/IRTAEx dos módulos de tiro e o EB60-ME-14.061 tratando da parte técnica
44

dos armamentos leves, especificamente fuzil e pistola. Nenhuma das fontes de


consulta trata das características técnicas das munições.

3.4.5 Nota de aula da Escola de Material Bélico do Exército

A Escola de Material Bélico (EsMB) do Exército é responsável por realizar o


ensino de militares técnicos em material bélico e manutenção, em diversos escalões.
No ano de 2000 foi produzida uma nota de aula, abordando o assunto Munições de
Armamentos Leves e de Arremesso, que é usada ainda hoje naquele
estabelecimento.

Esta nota de aula classifica as munições de armamentos leves como sendo


“aquelas de calibre igual ou menor que .60” = 15,24mm” (BRASIL, 2000, p. 41). Os
componentes de uma munição seriam: estojo; cápsula ou espoleta; carga de projeção
ou propelente; e projétil ou projetil.

3.4.5.1 Estojo

O estojo possui formas diferentes, sempre visando otimizar os efeitos do


projétil, principalmente no momento em que o cartucho é introduzido na câmara da
arma de fogo. Deve ser resistente para suportar a pressão exercida pela queima da
pólvora em seu interior. Assim, o estojo se apresenta, em geral:

1. Estojo - Elemento por completo.


2. Culote - Possui as inscrições de identificação, (Fábrica, lote, tipo de munição...).
3. Corpo - Seu formato (cilíndrico, tronco cônico ou tronco cônico com gargalo cilíndrico) está
totalmente ligado ao sistema de funcionamento da arma.
4. Ombro - Faz a redução câmara / cano.
5. Gargalo - Fixa o projétil.
6. Boca - Recebe o projétil.
7. Alojamento da cápsula - Recebe a cápsula.
8. Gola - Aloja a garra do extrator.
45

9. Evento(s) - Permite que a chama da cápsula atinja a carga de projeção.


10. Câmara - Aloja a carga de projeção.
11. Parede - Pela dilatação realiza a obturação dos gases.
12. Bigorna - (Somente nos estojos tipo Berdan), com auxílio do percussor, permite o
esmagamento do alto explosivo iniciador existente na cápsula.
13. Virola - Permite a extração.
Fig 1 Esquema de um estojo em corte transversal.
Fonte: BRASIL, 2000, p. 19
Os estojos são classificados quanto ao tipo, ao perfil e ao formato da virola.
Quanto ao tipo, os estojos podem ser: de fogo circular e de fogo central. Quanto ao
perfil podem ser:

Cilíndrico. (Usado em pistolas).

Tronco-cônico. (Usado em carabinas).

Tronco-cônico com gargalo cilíndrico.


(Fuzis e Metralhadoras).
Fig 2 esquema de tipos de estojos
Fonte: BRASIL, 2000, p. 21

Quanto ao tipo de virola podem ser:


46

Escavada Semi-saliente Saliente

Fig. 3 desenho esquemático de virolas7


Fonte: BRASIL, 2000, p. 21
3.4.5.2 Espoletas

A nota de aula denomina as espoletas como cápsulas, como na figura a seguir:

1 - Corpo ou copo - Recebe os demais elementos.


2 - Mistura iniciadora - Alto explosivo iniciador.
3 - Disco de papel - Mantém a mistura no seu local.
4 - Bigorna - (Somente nas cápsulas tipo Boxer), com
auxílio do percussor, permite o esmagamento do alto
explosivo iniciador.

Fig. 4 Partes de uma cápsula


Fonte: BRASIL, 2000, p. 22

As cápsulas são classificadas como:

Boxer: A cápsula possui bigorna num estojo com


evento único (central).
47

Berdan: A cápsula não possui bigorna, esta faz


parte do estojo que possui dois eventos.

Fig. 5 Tipos de cápsulas


Fonte: BRASIL, 2000, P. 23

3.4.5.3 Propelentes ou pólvoras

A nota de aula da EsMB apresenta a pólvora como o propelente, ou ainda,


carga de projeção. Considera a pólvora como um baixo explosivo, com a finalidade
de, após sua queima, gerar pressão dentro do cartucho empurrando o projétil para
fora do cano da arma de fogo. Cita dois tipos de pólvoras: a pólvora negra
(basicamente enxofre, salitre e carvão vegetal), e a pólvora química (basicamente
celulose e ácido nítrico, podendo ser combinado com glicerina e/ou guanidina).

Quanto à sua composição, as pólvoras são classificadas como: de base


simples (nitrocelulose); de base dupla (nitrocelulose + nitroglicerina); e de base tripla
(nitrocelulose + nitroglicerina + nitroguanidina).

Quanto à sua forma, as pólvoras podem ter formato: de grão, de lâmina, de fios
ou cilíndricos (não perfurados, monoperfurados ou heptaperfurados).

Nota-se que o autor (es) da nota de aula não adentra nos conceitos para
finalidade e efeitos que os tipos de pólvoras poderiam provocar em uma munição, e
consequentemente o efeito que essa munição teria ao atingir um alvo humano ou
possíveis danos que causaria ao armamento. Assim, não se consegue obter uma
aplicação da teoria conceitual na prática do combate.

3.4.5.4 Projéteis

Já os projéteis têm a finalidade de “causar danos, é o próprio emprego da


munição” (BRASIL, 2000, p. 23). Possuem a seguinte configuração:
48

1 - Projétil ou projetil - Elemento por completo.


2 - Base ou culote - Favorece as propriedades balísticas, no que concede ao arrasto.
3 - Corpo - Área que se engraza ao raiamento.
4 - Ogiva ou ponta - Favorece as propriedades balísticas, no que concede a
resistência do ar.
5 - Camisa - Somente nos projéteis tipo encamisados, uso militar obrigatório.
6 - Núcleo - É a finalidade do projétil.
7 - Cinta de lubrificação ou cinta de engastamento ou canelura - Mantém a camisa
firmemente presa ao núcleo, permite que o gargalo (no estojo) engaste o projétil na
montagem do cartucho.

Fig. 6 Esquema de um projétil seccionado


Fonte: BRASIL, 2000, p. 23

Quanto ao tipo, os projéteis são classificados como de chumbo e encamisados.


Os projéteis de chumbo são feitos com uma liga de chumbo e estanho e/ou antimônio.
Já o projétil encamisado possui um núcleo de chumbo, “revestido com percentuais de
cobre, zinco e níquel” (BRASIL, 2000, p. 24), trazendo vantagens ao projétil, como:
previne o chumbamento do cano; alcança maiores velocidades; e não são danificados
pelo carregamento.

Quanto à forma, os projéteis podem ser pontiagudos ou ogivais.

Assim, a nota de aula da EsMB traz o assunto munições, ainda faltando um link
entre o conceitual e a prática do soldado. Vale salientar que tal escola aborda o
assunto munições por formar sargentos do quadro de material bélico especialistas em
mecânica de armamento, responsáveis pela manutenção até terceiro escalão dos
armamentos leves.

3.4.6 Nota de aula do Curso de Material Bélico da AMAN

O Curso de Material Bélico (CMB) da Academia Militar das Agulhas Negras


(AMAN) forma os oficiais de carreira de material bélico do Exército Brasileiro. O
assunto munições é tratado por uma apostila sobre munições, em edição de 2005,
49

que abrange as de armamento leve, de armamento pesado, explosivos, mísseis,


destruição e sobre a conservação das munições.

Nesta nota de aula do CMB, assim conceituam munição:

Munições são corpos carregados com explosivos e agentes químicos


destinados a produzir, isolada ou combinadamente, baixas e danos ou
incapacidades físicas ou psicológicas temporárias através de efeitos
explosivos, tóxicos, fumígenos, incendiários, iluminativos, sonoros,
dispersivos e neutralizantes e que sejam lançados de uma arma, com
exceção das granadas de mão e das minas. (BRASIL, 2005, p. 63)

Nota-se que, nesta apostila, o(s) autor(es) procuraram abranger os efeitos das
munições, diferentemente da nota de aula da EsMB. Aqui, já ouve-se falar em efeitos
letais, em danos físicos e psicológicos, e efeitos sonoros e visuais. Isso permite que o
leitor perceba um efeito prático da parte conceitual, principalmente em operações no
campo de batalha.

Numa amplitude maior sobre munições, o CMB/AMAN classifica-as quanto à


organização de seus elementos (engastada e desengastada), quanto ao seu emprego
(armamento leve, armamento pesado, munições de arremesso e minas terrestres).
Quanto à finalidade, as munições são classificadas como munição de guerra e
munição química, ou não-letal.

Nota-se que a configuração de um cartucho é a mesma descrita na nota de


aula da EsMB, tornando a usar o termo “cápsula” para caracterizar a espoleta. Porém,
no quesito sobre projéteis, a nota de aula do CMB/AMAN detalha mais aspectos sobre
os projéteis encamisados. Aqui se se introduzem conceitos como “Stopping power” e
projéteis expansivos, sem aprofundar. Também observamos a nomenclatura dos
projéteis, de acordo com sua configuração.

3.5 FONTE DE CONSULTA NA FORMAÇÃO DOS SARGENTOS FUZILEIROS


NAVAIS
50

Para a formação dos Fuzileiros Navais, o estudo da munição de armamento


leve não possui seu conteúdo exposto em manuais ou cadernos de instrução. O
assunto é abordado em Nota de Aula, dentro do conteúdo de Armamento, Munição e
Tiro, porém em uma instrução específica. Nesta nota de aula, munição é conceituada
como:

Corpos carregados com explosivos, agentes químicos, radiológicos ou uma


combinação destes que podem ser arremessados por uma arma ou por
intermédio da mão, lançados de aviões, instalados no solo ou dirigidos,
destinados a produzirem danos contra pessoal, material ou objetivos
militares. O termo engloba todo tipo de munição. (ESCOLA NAVAL, 2008, p.
12).

O conceito de munição torna-se genérico, e para especificar melhor, a munição


é classificada como especial e convencional. Dentro das munições convencionais,
estão enquadradas as munições de armamentos leves, munições de arremesso e
munições para morteiro. Já as munições especiais são aquelas que incluem “mísseis
completos, rojões (>200mm), armas nucleares, ogivas convencionais, propelentes
dos mísseis e dos rojões e cargas de projeção para as granadas de Artilharia.”
(ESCOLA NAVAL, 2008, p. 13). As munições de armamentos leves são consideradas
aquelas com calibre inferior a 0.60 pol, equivalentes a 15,24mm.

Quando se trata de conceituar as partes de um cartucho, existem três


componentes que são comuns a todo tipo de munição: um iniciador (equivalente à
espoleta), um propelente e um projétil. Para cartuchos especificamente de armamento
leve, as partes são: projétil, estojo, propelente e espoleta.

De acordo com a finalidade, as munições de armamento leve são classificadas


como munição de guerra e munição de emprego especial. As munições de guerra são
aquelas cujo efeito do projétil é causar danos em pessoal e material durante um
confronto no campo de batalha, quais sejam: comuns, traçantes, perfurantes,
incendiárias ou a combinação delas. Já as munições de emprego especial possuem
outras características, sem a finalidade de serem utilizadas em guerra. São elas:
munições de festim, de manejo, estilhaçáveis (fragmentáveis), para lançamento de
51

granadas de bocal, cartuchos de espingardas de cano liso e munições de canto vivo


para esporte de tiro.

De acordo com a organização de seus elementos, as munições são


classificadas como: encartuchadas, engastadas e desengastadas. As encartuchadas
utilizam o estojo para reunir os elementos de projeção. As engastadas utilizam o estojo
rigidamente preso ao projétil. Já nas desengastadas, os elementos são introduzidos
no armamento separadamente (para armas leves é obsoleto).

Para cada parte do cartucho, a nota de aula apenas cita cada característica das
partes, sem entrar em detalhes, utilizando-se basicamente de figuras. Os estojos são
divididos em partes, como exposto na figura abaixo:

Fig. 7 Partes de um estojo.


Fonte: ESCOLA NAVAL, 2008, p. 16
Os projéteis são classificados quanto à fabricação, à forma e ao emprego.
Quanto à fabricação, os projéteis podem ser encamisados (com núcleo geralmente de
liga de chumbo revestido com uma camada de cobre e zinco); sem camisa (com
núcleo de liga de chumbo e estanho, ou outros metais); e balins, que são os projéteis
utilizados em cartuchos para arma de cano liso. Quanto à forma, os projéteis podem
ser:
− com ponta arredondada;
− com ponta ogival;
− pontiagudos;
52

− bi ogivais; e
− especiais.
Já quanto ao emprego, podem ser comuns, traçantes, incendiárias ou
combinadas. Aqui, os conceitos se misturam com os de munições de guerra. Como
carece de aprofundamento em seus conceitos, a nota de aula da Escola Naval deixa
explicações ambíguas, que diferem de outras fontes de consulta.
Quando se analisa os conceitos de espoleta e propelente na nota de aula da
Escola Naval, percebe-se que a abordagem do assunto se resume a conceituar esses
elementos, não diferindo do que já foi levantado anteriormente neste capítulo.

3.6 SERVIÇO DE ARMAMENTO E TIRO (SAT) DA POLÍCIA FEDERAL

O SAT é uma seção da Academia Nacional de Polícia (ANP), órgão de


formação dos policiais federais no Brasil. A ANP é a responsável pela formação,
mediante ingresso por concurso público, de Delegado de Polícia Federal, Perito
Criminal Federal, Agente de Polícia Federal, Escrivão de Polícia Federal e
Papiloscopista. É constituído de disciplinas teóricas e operacionais, com o escopo de
desenvolver e aprimorar as competências necessárias a cada perfil profissional.
A matriz curricular engloba diversas disciplinas, dentre elas armamento e tiro,
que fica sob responsabilidade do SAT. Nesse escopo, o SAT confeccionou uma
cartilha sobre armamento e tiro, que é o material didático utilizado como ensino de
AMT naquela academia.
Nessa cartilha são abordados os assuntos “Armas de fogo” (suas partes e
classificações); “Calibre” (conceitual); “Munição” (conceitual e suas partes); “Normas
de segurança”; “Condutas no estande”; e o “Regulamento para aplicação dos testes
de capacidade técnica para o manuseio de arma de fogo”. Veremos aqui,
especificamente, o que é abordado sobre calibre e munição.

3.6.1 Calibre

Nesta cartilha, o autor conceitua calibre como sendo “Medida do diâmetro


interno do cano de uma arma. Nas armas de cano com alma raiada deve-se fazer
53

distinção entre calibre real, calibre do projétil e calibre nominal.” (BRASIL, 2017, p. 6).
Assim temos:
− Calibre real: “É a medida do diâmetro da parte interna do cano de uma arma,
medido entre os cheios. É expresso em milímetros ou em fração de polegada.”
(BRASIL, 2017, p. 6);
− Calibre nominal: “É a dimensão usada para definir ou caracterizar um tipo de
munição ou arma designado pelo fabricante, nem sempre tendo relação com o calibre
real ou do projétil. É expresso em milímetros ou frações de polegada (...)” (BRASIL,
2017, p. 7); e
− Calibre do projétil: “É a medida do diâmetro interno do cano de uma arma
raiada, medido entre “fundos” das raias.” (BRASIL, 2017, p. 6).
Percebe-se que o autor, ao classificar os calibres como real e do projétil,
relaciona a medida ao cano da arma apenas, e não ao diâmetro do projétil. Já no
calibre nominal, ou seja, o nome do calibre, ele relaciona á finalidade comercial do
produto.

3.6.2 Munição

Na cartilha da SAT, o autor classifica munição como “Artefato completo, pronto


para carregamento e disparo de uma arma de fogo. Geralmente de dividem em: estojo,
espoleta, pólvora e projétil.” (BRASIL, 2017, p. 7). Cada parte da munição é
conceituada como se segue:
− Estojo: “É o componente de união mecânica do cartucho. O estojo possibilita
que todos os componentes necessários ao disparo fiquem unidos em uma única peça
(...).” (BRASIL, 2017, p. 7);
− Espoleta: “É um recipiente, localizado na base do estojo, que contém uma
mistura iniciadora, a qual gera uma chama no momento da percussão.” (BRASIL,
2017, p. 7);
− Pólvora: “É um tipo de propelente que, iniciado pela ação de uma chama,
causa a expansão de gases, arremessando o projétil à frente.” (brasil, 2017, p. 7); e
− Projétil: “de uma forma ampla, é qualquer corpo sólido passível de ser
arremessado. Em se tratando de munições, é a parte do cartucho que será lançada
através do cano. Pode ser chamado de bala ou ponta.” (BRASIL, 2017, pág 8).
54

Neste capítulo, o autor aborda muito superficialmente a divisão de uma


munição. Ele também não diferencia munição e cartucho, apesar de citar no trabalho
as duas nomenclaturas. Assim, deduz-se que, na visão do autor, munição e cartucho
tem o mesmo conceito.
Aqui, ainda é abordado alguns tipos de projéteis, apenas citando, sendo:

Fig 8 Alguns tipos de projéteis.


Fonte: Brasil, 2017, p. 8

Já ao abordar os tipos de munição, o autor é ainda mais simplista, abordando


apenas as munições de fogo circular, fogo central e cartuchos para armas de cano
liso. Não dá os conceitos de cada tipo, nem entra em detalhes, nem mesmo
introdutórios.

3.7 MANUAL DE ARMAMENTO E MANUSEIO SEGURO DE ARMAS DE FOGO

Este manual foi desenvolvido pelo Poder Judiciário, através do Tribunal de


Justiça do Estado do Amazonas (TJAM), com o intuito de instruir seus quadros
responsáveis pela segurança do órgão. Nele o autor aborda os assuntos de segurança
com arma de fogo, armas de fogo e sus classificações, munições e legislações
referentes a arma de fogo.
No assunto munição, o autor a conceitua como “o conjunto de cartuchos
necessários ou disponíveis para uma arma ou uma ação qualquer em que serão
usadas armas de fogo” (BRASIL, 2012, p. 9). Com maior número de detalhes nos
conceitos, o autor aborda a dinâmica da munição juntamente com os conceitos das
partes do cartucho:

O cartucho para arma de defesa contém um tubo oco, geralmente de metal,


com um propelente no seu interior; em sua parte aberta fica preso o projétil e
na sua base encontra-se o elemento de iniciação. Este tubo, chamado estojo,
55

além de unir mecanicamente as outras partes do cartucho, tem formato


externo apropriado para que a arma possa realizar suas diversas operações,
como carregamento e disparo. O projétil é uma massa, em geral de liga de
chumbo, que é arremessada a frente quando da detonação, é a única parte
do cartucho que passa pelo cano da arma e atinge o alvo. Para arremessar o
projétil é necessária uma grande quantidade de energia, que é obtida pelo
propelente, durante sua queima. O propelente utilizado nos cartuchos é a
pólvora, que, ao queimar, produz um grande volume de gases, gerando um
aumento de pressão no interior do estojo, suficiente para expelir o projétil.
Como a pólvora é relativamente estável, isto é, sua queima só ocorre quando
sujeita a certa quantidade de calor; o cartucho dispõe de um elemento
iniciador, que é sensível ao atrito e gera energia suficiente para dar início à
queima do propelente. O elemento iniciador geralmente está contido dentro
da espoleta. (BRASIL, 2017, p. 9).

Observa-se que o autor utiliza uma sequência lógica na explicação, tornando-


se o entendimento fácil e prático. Após essa exposição, o manual cita o conceito e
destrincha cada parte do cartucho separadamente.

3.7.1 Projétil

Neste manual, projétil é conceituado como “qualquer sólido que pode ser ou foi
arremessado, lançado. No universo das armas de defesa, o projétil é a parte do
cartucho que será lançada através do cano.” (BRASIL, 2012, pá.10). Percebe-se que
ele não dá outros nomes ao projétil, como ponta ou bala. Fica de fácil entendimento
que tudo aquilo que possa ser arremessado pode ser considerado um projétil, mas
que, para armas de defesa, ele necessariamente será lançado pela arma, e sairá pelo
cano. Deixa claro que, qualquer outro sólido que seja, de alguma forma, lançado por
outra parte da arma que não seja o cano, não é considerado projétil. Como exemplo,
temos o estojo, que é ejetado pela lateral da arma de fogo, após acionado o gatilho.
Os projéteis podem ser classificados de acordo com o tipo de ponta, base e
material de confecção. Aqui, a ponta do projétil é literalmente a ponta, ou seja, a parte
anterior do projétil em relação ao seu deslocamento no ar. Já a base é a parte posterior
do projétil, que pelo estudo da aerodinâmica, dará uma maior estabilidade no voo do
corpo arremessado pela arma de fogo. Quanto ao material, os projéteis se classificam
56

como sendo de liga de chumbo e os encamisados, que são os projéteis com núcleo
de liga de chumbo, revestidos por uma camada de liga metálica de cobre e zinco. A
seguir, exemplos de pontas de projéteis de chumbo:

Fig 9 Tipos de ponta de projéteis de chumbo.


Fonte: BRASIL, 2012, p. 10
Os projéteis encamisados, “são projéteis construídos por um núcleo recoberto
por uma capa externa chamada camisa ou jaqueta. A camisa é normalmente fabricada
com ligas metálicas como: cobre e zinco; cobre, zinco e estanho ou aço.” (BRASIL,
2012, p. 11).
Existe ainda uma especificidade nos projéteis de destinação militar. Esses
projéteis têm desempenhos diferentes daqueles destinados ao esporte, à caça ou à
defesa pessoal. Assim, para cada finalidade, o projétil terá características físicas
específicas. “Os projéteis encamisados podem ter sua capa externa aberta na base e
fechada na ponta (projéteis sólidos) ou fechada na base e aberta na ponta (projéteis
expansivos). Os projéteis sólidos têm destinação militar.” (BRASIL, 2012, p. 11).
57

Uma especificidade na ponta do projétil é a ponta oca, ou hollow point,


popularmente conhecido como “dum-dum”. Em linhas gerais, “destinam-se à defesa
pessoal, pois ao atingir um alvo humano é capaz de amassar-se e aumentar seu
diâmetro, obtendo maior capacidade lesiva.” (BRASIL, 2012, pág 11). Devido a essas
características, esse tipo de projétil foi proibido para uso militar pela Convenção de
Haia pelos Direitos Internacionais Humanitários (DIH), em 1899.
Cabe notar que o Brasil não é signatário da Declaração de Haia de 1899, mas
é signatário do Estatuto de Roma de 1998 (JARDIM, 2006, 1 v. p. 26), que
praticamente repete a dita declaração na alínea xix, inciso b), parágrafo 2 do artigo 8°,
que entende como crime de guerra “utilizar balas que se expandem ou achatam
facilmente no interior do corpo humano, tais como balas de revestimento duro que não
cobre totalmente o interior ou possui incisões” (JARDIM, 2006, 2 v. p. 23).

3.7.2 Estojo

O estojo foi uma importante criação para que as armas de fogo modernas
pudessem evoluir aos níveis atuais. Ele permitiu unir as outras partes do cartucho em
uma peça única, aumentando a cadência de tiro e facilitando o recarregamento da
arma.
Atualmente, leva-se muito em consideração o formato do estojo, pois as armas
modernas são idealizadas de forma a aproveitar as suas características físicas
(BRASIL, 2012, p. 12). Geralmente, o estojo é classificado quanto ao seu formato e
ao tipo de base, como se segue:

Fig 10 Classificação geral dos estojos quanto ao formato.


58

Fonte: BRASIL, 2012, p. 12

Fig 11 Classificação geral dos estojos quanto à sua base.


Fonte: BRASIL, 2012, p. 12

A base do estojo é importante para o processo de carregamento e extração,


sua forma determina o ponto de apoio do cartucho na câmara ou tambor (headspace),
além de possibilitar a ação do extrator sobre o estojo.

Fig 12 Classificação dos estojos quanto ao tipo de iniciação.


Fonte: BRASIL, 2012, p. 12.
Além das classificações supracitadas, existem ainda diversos tipos de estojos
diferentes, seja pelo material ou pelo formato. Porém, o autor deste Manual não cita e
não dá importância, tendo em vista serem pouco usuais.

3.7.3 Propelente

No manual do TJAM, o autor aborda as características dos propelentes


superficialmente. Se limita a conceituar propelente como sendo “a fonte de energia
química capaz de arremessar o projétil a frente, imprimindo-lhe grande velocidade.”
59

(BRASIL, 2012, p. 14). O propelente também é responsável pelo desempenho


balístico do projétil, imprimindo a pressão necessária para que o disparo ocorra em
segurança, aproveitando todo o potencial do armamento.
Dentro das características dos propelentes, também chamados de pólvoras,
encontramos duas misturas químicas bem peculiares: a pólvora negra e a pólvora
química. A pólvora negra “hoje é usada apenas em velhas armas de caça e réplicas
para tiro esportivo.” (BRASIL, 2012, p. 14). Já a pólvora química (ou pólvora sem
fumaça) “produz pouca fumaça e muito menos resíduos que a pólvora negra, além de
ser capaz de gerar muito mais pressão, com pequenas quantidades.” (BRASIL, 2012,
p. 14).
Dois tipos de pólvora sem fumaça são utilizados atualmente em armas de
defesa: a pólvora de base simples e a pólvora de base dupla. Segundo BRASIL (2012,
p. 14) a de base simples, fabricada a base de nitro celulose, gera menos calor durante
a queima, aumentando a durabilidade da arma. Já a pólvora de base dupla é
“fabricada com nitro celulose e nitroglicerina, tem maior conteúdo energético.”
(BRASIL, 2012, p. 14).

3.7.4 Espoleta

A espoleta é o dispositivo inicial do processo do tiro de uma arma de fogo,


relativo ao cartucho, que contém a mistura detonante e uma bigorna, utilizado em
cartuchos de fogo central (BRASIL, 2012, p. 15). Em seu interior encontra-se uma
mistura iniciadora, que ao ser pressionada gera calor, que passa para o propelente,
através de pequenos furos no estojo, chamados eventos.
Em alguns tipos de munição, a bigorna não faz parte da espoleta, e sim do
estojo. Em ambos os casos, a bigorna é uma parte fixa, e é a responsável por permitir
que a pressão dentro da cápsula da espoleta aumente, quando o percussor ou
percutor da arma de fogo atinja a base do copo da espoleta.
Dessa forma, o manual o TJAM classifica as espoletas em:
60

Fig. 13 Tipos de espoleta e suas utilidades.


Fonte: BRASIL, 2012, p. 15.

Verifica-se, nesse manual, que na formação dos agentes de segurança do


TJAM, eles possuem uma carga de instrução sobre munições, no que diz respeito aos
conceitos, bem como à introdução sobre armas de fogo, que aqui não foi explorado
por não ser o caso.
A abrangência desse manual denota-se maior que o verificado nas notas de
aula do Exército já apresentadas. Apesar de apresentar conceitos, por vezes, rasos,
o assunto acaba despertando o interesse nos alunos, permitindo que ele tire dúvidas
mais aprofundadas com o instrutor e fomentando a discussão em sala de aula.

3.8 MANUAL TM43-0001-27 DO EXÉRCITO AMERICANO


61

O Exército americano (US Army) possui um manual técnico sobre munições de


armamentos leves denominado Army Ammunition Data Sheets for Small Caliber
Ammunition4 FSC 1305, edição de 1994.

Este Manual serve como “referência publicado como uma ajuda no


planejamento, treinamento, familiarização e identificação de munições de armas
leves, que vão dos calibres .22” a 30 mm, e munição de espingardas” (USA 1994, p.
1-1, tradução nossa).

O TM43-0001-27 não detalha as características gerais dos cartuchos, como as


partes, tipos de estojos, espoletas, propelentes e projéteis. Também não cita os efeitos
balísticos terminais dos diversos tipos de projéteis. Se atém a dar as características
técnicas das munições de dotação de seu Exército, como tamanho, peso, velocidade,
material etc.

Com a evolução e mudanças das dotações do US Army desde 1994, esse


manual se tornou obsoleto, já que ele não abordou as características gerais das
munições. Mesmo os cartuchos atuais possuem as mesmas configurações básicas
desde a criação do cartucho metálico, criado por Casimir Lefaucheux 5, e por isso um
caderno de instrução sobre munições dificilmente se tornará obsoleto.

3.9 MANUAL RT 23-30: MANUAL DE TIRO DO EXÉRCITO DO URUGUAI

O Manual RT 23-30, do Exército do Uruguai, é a fonte de consulta utilizada para


a formação de oficiais e sargentos das respectivas escolas de formação, bem como
no corpo de tropa, referentes ao assunto armamento, munição e tiro. Pode-se dizer
que é o manual equivalente ao C 23-1: Tiro das Armas Portáteis do Exército Brasileiro.
Também é dividido em duas partes, sendo uma parte que trata sobre arma longa, e
uma parte que trata sobre arma curta, aos moldes do que acontece do C 23-1.

Na formação do oficial e sargento, o assunto munições é abordado com certa


abrangência, sendo dedicado um capítulo do RT 23-30. Basicamente, os tópicos
abordados são: partes de um cartucho e as referidas classificações; tipos de cartucho;

4
Caderno de dados de munições do Exército para munições de pequeno calibre.
5Casimir Lefaucheux foi um armeiro francês (1802 - 1852). Pateteou o primeiro cartucho metálico,
desenvolvido em 1828.
62

e balística, explanando superficialmente os três ramos básicos da balística (interna,


externa e de efeitos).

3.9.1 Conceituação

O manual militar uruguaio inicia conceituando cartucho como sendo:

um conjunto rígido de elementos que, introduzidos na câmara de uma arma


de fogo portátil leve, pode materializar nela as características balísticas que
constituem a razão de existência da arma.6 (URUGUAY, 2015, p. 24, tradução
nossa)

Cabe ressaltar que o manual trata a arma de fogo e a munição como um único
sistema, ou máquina, que tem por objetivo arremessar um projétil em um alvo a
determinada distância. Esse conceito é interessante, e vai ao encontro do que os
teóricos do tiro tratam hoje como sendo o trinômio do tiro: o atirador, a arma de fogo
e a munição.

Ao tratar a arma de fogo e a munição como uma máquina, o manual relaciona


a uma máquina térmica, pois eles consideram que ao executar um disparo, a arma de
fogo está transformando energia térmica em energia mecânica. Este conceito, já
consagrado pelos estudos da física, se torna interessante neste caso por se tratar de
uma abordagem única em estudos que tratam sobre armamento, munição e tiro. Visto
por essa ótica, o manual demonstra que a eficiência desta “máquina” varia entre 30%
e 45%, o que seria superior a eficiência de motores de veículos automotores como
carros (motor de 4 tempos com eficiência de 20% a 25%) e motocicletas (14% a 18%).

3.9.2 Constituição do cartucho

6
“un conjunto rígido de elementos que, introducidos en la recámara de un arma de fuego portátil o
ligera, puede materializar en ella las características balísticas que constituyen la razón de existencia
del arma.”
63

Como pode-se notar em outros manuais, a constituição, ou partes, do cartucho


também são classificadas neste manual em quatro: espoleta, propelente, estojo e
projétil. A espoleta (cápsula) “es la encargada de dar fuego a la pólvora.” 7. O
propelente (pólvora) “es la impulsora termodinámica de la punta.”8. O estojo (vaina)
“además de ser la portadora de la pólvora, de la cápsula iniciadora y de la punta, es
el vaso en el que se llevará a cabo la combustión de la pólvora y el seguro obturador
que cerrará el paso hacia atrás de los gases, dando la completa seguridad al tirador.”9
E o projétil (punta o proyectil) “el elemento encargado de realizar as balísticas”.
(URUGUAY, 2015, p. 25).

Quanto a classificação dos estojos, o manual não difere da classificação já vista


anteriormente em outros manuais supracitados. Já na classificação dos projéteis, um
detalhe ressalta aos olhos: o detalhamento do material empregado para a confecção.
É interessante tal abordagem, pois sabe-se que o material empregado influencia
diretamente no desempenho do projétil. Até mesmo as proporções utilizadas podem
causar diferença nos resultados. Um exemplo dado é o material utilizado para
confecção de projéteis de altas velocidades.

Quando se busca altas velocidades iniciais, a liga de chumbo (em antimônio)


é aumentada. Projéteis comuns blindados têm um invólucro que no início era
feito de aço niquelado ou cobre-níquel (60% de cobre e 40% de níquel), mas
por razões de economia o invólucro de latão 90/10 (encamisado) foi agora
imposto (90 de cobre e 10 de zinco), e de Bimetal (aço endurecido 90/10),
aço / latão leve.10 (URUGUAY, 2015, p. 26, tradução nossa).

Na classificação das espoletas, o manual não aborda as espoletas para


cartuchos de armas de cano liso. Nos demais termos e conceitos abordados, não
difere dauilo que já é tratadonos manuais citados anteriormente no corpo do trabalho.

7
“É a encarregada de queimar a pólvora.” (tradução nossa).
8
“É a impulsora termodinâmica da ponta.” (tradução nossa).
9
Além de ser a portadora da pólvora, da espoleta e do projétil, é o recipiente que levará a cabo a combustão
da pólvora e não permitirá a saída dos gases por trás, dando segurança ao atirador. (tradução nossa).
10
Cuando se necesitan altas velocidades iniciales se aumenta la aleación del plomo (en antimonio). Las balas
ordinarias blindadas llevan una envuelta que al principio era de acero dulce niquelado o de cuproníquel (60%
de cobre y 40% de níquel) pero por razones de economía ahora se han impuesto la envuelta de latón 90/10
(encamisado) (90 de cobre y 10 de zinc), y de Bimetal (acero latonado 90/10), acero dulce/latón.
64

Deste modo, o autor se abstém de registrar os conceitos, de forma a não se tornar


demasiado repetitivo.

Quando o manual aborda a classificação e conceituação das pólvoras, um


detalhe chama a atenção: o controle de velocidade da combustão. Esse aspecto é
importantíssimo na execução de um disparo de arma de fogo, pois irá influenciar
diretamente na precisão, velocidade e alcance do projétil na sua trajetória balística.
Apesar de não abordar as consequências, o manual aborda o porque da importância
de controlar a velocidade da combustão da pólvora. Esse controle efetivo pode ser
conseguido:

− por meio da composição química da pólvora;


− pela forma da superfície dos grãos da pólvora;
− quanto maior a superfície de combustão, maior a quantidade de gases
produzidos na unidade de tempo; e
− o efeito da pólvora será mais suave ou mais violento, segundo a relação da
superfície de combustão em relação ao volume do estojo.

3.9.3 Balística

Ao se tratar de balística o RT 23-30 aborda seus três ramos gerais de estudo:


a balística interna, a externa e a de efeitos, ou terminal.

Na balística interior, a atenção maior é dada á pressão exercida dentro do cano


da arma de fogo, do momento em que ocorre a percussão da espoleta, até o momento
em que o projétil abandona a boca do cano da arma. Temos que:

As pressões no quarto ocorrem de forma totalmente paralela à combustão


progressiva da pólvora e consequente aumento da produção de gases. Este
é o principal fator. A pressão para se desenvolver não deve exceder o que a
arma é capaz de resistir. Os materiais de uma arma devem suportar a pressão
normal do disparo do cartucho e, a propósito, uma sobrepressão de 25% a
mais que o normal. A pressão na câmara de uma arma é determinada por
uma série de fatores, tais como: o tipo de pólvora; a quantidade de pólvora; a
densidade de carga; e a ponta, seu peso, seu material, sua forma e
65

comprimento, o calibre, a passagem do arranhão, a importância do próprio


cartucho, seu assento na culatra, seu próprio desenho, seus suportes, o nível
de fixação, dimensionamento e controles em sua fabricação. Mas o
desenvolvimento de pressão excessiva sobre uma arma, no momento do
disparo, de tais efeitos perigosos, pode, por um ligeiro excesso de carga do
pó em um cartucho, ser a causa de um grave acidente.11 (URUGUAY, 2015,
p. 36, tradução nossa).

Já a balística exterior “es, en síntesis, el estudio del movimiento del proyectil o


punta en la atmósfera, desde que abandona el ánima hasta que alcanza el blanco.” 12
(URUGUAY, 2015, p. 36). A trajetória do projétil no ar, desde que sai da boca do cano
da arma até encontrar o alvo, sofre diversas influências do meio. Uma das mais
significativas é a resistência do ar e a deformação que o projétil causa durante a sua
trajetória. Essa resistência e deformações do ar, dependerão do formato do projétil,
das suas dimensões, da sua velocidade e do seu trajeto. Os estudos da física que
lidam com a mensuração dessas variações são extremamente complexos, porém, a
partir de experimentos já realizados e publicados, pode-se afirmar algumas situações
em relação à resistência do ar:

a. Para um determinado projétil e velocidade, a resistência é proporcional à


densidade do ar.

b. Com projéteis do mesmo tipo e calibre diferente, no mesmo meio a


resistência é proporcional à sua densidade seccional (razão entre o peso do projétil e
o perímetro de sua secção máxima).

c. Para projéteis do mesmo peso e calibre, mas de tipo diferente, a resistência


é proporcional ao chamado coeficiente de forma.

11 Las presiones en la recamara, transcurren en forma totalmente paralela a la progresiva combustión


de la pólvora y subsiguiente producción creciente de gases. Este es el factor primordial. La Presión a
desarrollar no debe exceder a la que el arma es capaz de resistir. Los materiales de un arma deben
soportar la presión normal del disparo del cartucho e incidentalmente una sobrepresión del 25%
superior a lo normal. La presión en la recamara de una arma esta determinada por una serie de factores
tales como: El tipo de Pólvora; La cantidad de Pólvora; La densidad de carga; La punta, su peso, su
material, su forma y longitud, el calibre, el paso del rayado, la importancia de la propia vaina del
cartucho, su asiento en la recámara, su propio diseño, sus apoyos, la cota de fijación, el dimensionado
y los controles en su fabricación. Pero el desarrollo de una presión excesiva en un arma, en el momento
del disparo, de tan peligrosos efectos, puede, por un ligero exceso de carga de la pólvora en un
cartucho, ser causa de un serio accidente.
12 É, em síntese, o estudo do movimento do projétil ou ponta na atmosfera, desde que abandona a

arma até alcançar o alvo.


66

d. Para qualquer projétil, a resistência do ar é proporcional a uma determinada


função da velocidade.

Dessa forma, para obtermos projéteis que sofram menos influência da


resistência do ar, através de cálculos matemáticos complexos se chega a um
coeficiente balístico. Graficamente, podemos representar esse coeficiente de forma
crescente na figura abaixo:

Fig 14 Projéteis com coeficientes balísticos


crescentes.
Fonte: URUGUAY, 2015, p. 38

Na balística de efeitos, ou terminal, o RT 23-30 não explora o assunto de forma


a apenas citar alguns pontos causados pelo efeito do projétil no alvo, como a
penetração, perfuração, dispersão do tiro e deformação do projétil. Um dos assuntos
mais polêmicos não é abordado, o poder de parada.

3.10 M211 - MANUAL DE ELEMENTOS DO ARMAMENTO DO EXÉRCITO


PORTUGUÊS

A Academia Militar, escola de formação de oficiais do Exército português,


possui o Manual M211 - Manual do Aluno: Elementos do armamento, que trata sobre
munição e armamentos leves. Tem a finalidade de “actualizar os conteúdos, incluir
novas tecnologias que estejam já consolidadas e trazer algum rigor às matérias
ministradas no âmbito do armamento geral e em particular, nas armas ligeiras.”
(SANTOS, 2011).

A importância de estudar a munição se dá pelo fato de que “Para se estudar


devidamente uma arma portátil deve examinar-se primeiramente os seus projécteis
67

(...)” (SANTOS, 2011, p. VI - 1). Para denominar as partes de um cartucho, O M211


classifica da seguinte forma:

− A bala ou projéctil;
− O invólucro, estojo ou caixa;
− A escorva, cápsula ou fulminante; e
− A carga.
Verifica-se que esta divisão das partes de um cartucho é matéria consolidada
na teoria sobre munições. Por mais que as munições de armamentos leves possuam
características diversas, e estejam em constante evolução, não se visualiza uma
configuração diferente, a curo prazo, para confecção de munições. Obviamente que,
com a demanda por diferentes objetivos de guerra, o armamento individual do
combatente pode demandar especificidades diferentes para cumprimento de
determinadas missões em um combate, e consequentemente, munições com
configurações diferentes, ou até mesmo a ausência delas (no caso de disparos de
ondas do espectro eletromagnético).

3.10.1 Projéteis

Para a classificação dos projéteis, deve-se levar em conta, além das


características já vistas ao longo do trabalho, as qualidades estáticas e dinâmicas dos
projéteis. Segundo SANTOS, 2011, as qualidades estáticas do projétil são resultantes
das variações de sua forma, peso, comprimento, composição e calibre. Já as
qualidades dinâmicas dizem respeito à balística, envolvendo a natureza, carga e força
viva dos projéteis.

Uma das características estáticas dos projéteis, a sua composição, é


particularmente importante na evolução dos projéteis e dos armamentos leves.
Inicialmente, os projéteis eram compostos unicamente de chumbo, ou uma liga de
chumbo com outros metais. Com o passar dos anos e das guerras, as munições foram
alcançando maiores velocidades e alcances. Quando as primeiras munições mais
velozes começaram a alcançar velocidades acima de 400 m/s, percebeu-se que as
elevadas temperaturas envolvidas no processo do tiro causavam uma maior
maleabilidade do chumbo, ficando resíduos no cano da arma, principalmente nos
68

fundos do raiamento. Esse fenômeno foi denominado chumbamento, e para amenizar


o problema, desenvolveu-se um invólucro para o projétil, de forma a evitar sua
deformação e proteger o cano da arma. Inicialmente de papel, esse invólucro passou
a ser denominado de camisa, e atualmente é, em sua maioria, feito com uma liga latão
(diferentes proporções de cobre, estanho, zinco e/ou arsênio)

Quanto aos calibres dos projéteis, o Manual M211 afirma que está
estreitamente ligado ao seu peso. É importante frisar que o projétil deve ter um
diâmetro ligeiramente maior que o diâmetro do cano da arma entre os cheios das
raias, para permitir que o projétil se agarre às raias e realize o movimento de rotação
em torno de seu próprio eixo transversal. Essa diferença admissível varia de 0,2 a 0,3
mm.

3.10.2 Estojo

O estojo, chamado no M211 de invólucro, deve reunir condições para que


permita aguentar a pressão gerada na queima da pólvora, e sua perfeita extração
após o disparo do tiro. Seu diâmetro deve ser ligeiramente menor que o diâmetro da
câmara da arma, para permitir a expansão do estojo durante a pressão exercida na
queima do propelente, e para que ele possa ser extraído da arma sem ficar preso na
câmara, após o disparo do projétil.

Assim, classifica-se o estojo quanto às sua forma e à sua composição. Para


seguir essas características, o latão (liga metálica) deve ser maleável e resistente, a
ponto de aguentar grandes pressões. Existem ainda estojo de materiais diversos,
como plástico (para treino) e aço, como utilizado pelos alemães na II GM, quando os
meios para liga de latão estavam escassos devido à guerra.

3.10.3 Espoleta

Também chamada no M211 como escorva e fulminante, “é o nome dado ao


artifício destinado a produzir a inflamação da carga e consta de um pequeno vaso
69

metálico chamado cápsula” (SANTOS, 2011, p. VI - 5). A espoleta é composta por um


guarda cápsula, uma contra cápsula, uma bigorna, a cápsula fulminante e a matéria
detonantes.

Fig. 15 Partes de uma espoleta.


Fonte: SANTOS, 2011, p. VI - 5.

A contra cápsula é uma caixa cilíndrica, fechada anteriormente e aberta


posteriormente, onde forma um rebordo para se adaptar num rebaixo do seu
alojamento na base do cartucho. No fundo estão abertos os canais da inflamação. A
bigorna é uma pequena peça de latão achatada e contra a qual se esmaga a
composição fulminante. Tem dois ressaltos que se apoiam nos bordos da cápsula (tipo
Boxer) de forma que a ponta fique afastada da matéria detonante. Em alguns modelos
o próprio fundo da contra cápsula, recurvado, forma a bigorna (tipo Berdan). Os canos
das armas têm uma tendência grande para enferrujar depois de terem feito fogo.
Atribui-se muitas vezes o facto aos gases produzidos pela combustão da carga, o que
é falso, pois é devido aos produtos da combustão da matéria detonante que se
depositam no cano, que absorvem a humidade e originam a oxidação do metal
adjacente. Estes produtos são, em geral, solúveis na água, de modo que um dos
melhores processos de evitar a ferrugem consiste em, após o tiro, lavar o cano com
água, enxugando-se depois cuidadosamente.

3.10.4 Propelente

Propelente, ou carga, “é o nome que se dá à porção de substância explosiva


que se introduz no invólucro para dar movimento ao projéctil.” 9SANTOS, 201, p. VI -
6). É a queima do propelente, transformando-o do estado sólido para o gasoso,
70

responsável por imprimir uma grande pressão no interior do estojo, dilatando-o e


expulsando o projétil. Para isso, a carga deve satisfazer a um conjunto de condições,
descritas a seguir:
− dar lugar a pressões e velocidades regulares e iguais;
− ter grande potência balística;
− ter uma fraca força expansiva;
− funcionar a uma temperatura relativamente pouco elevada;
− possuir fraco poder corrosivo e não originar gases deletérios;
− não ser higroscópica;
− ser de inflamação rápida e segura;
− ser de combustão progressiva;
− não dar origem nem a fumaça nem a resíduos;
− ser de conservação fácil;
− ser estável, isto é, não se alterar sob a ação do clima, dos corpos ou metais
com que está habitualmente em contato;
− ser de fácil fabricação;
− poder ser transportada e armazenada sem perigo;
− ser seguro o seu emprego; e
− ser de fraco custo e utilizar ingredientes que se possam obter sem dificuldade
em tempo de guerra.

Em geral, e diferentemente de outros manuais, o M211 classifica as pólvoras


em dois tipos apenas: as nitroglicéricas e as nitorcelulósicas. As primeiras podemos
englobar as pólvoras de base dupla e tripla, pois contém nitroglicerina. Já as
nitrocelulósicas são as de base simples, que contém apenas nitrocelulose, como
sugere o nome.

3.10.5 Munições especiais

As munições com características especiais surgiram frente à necessidade de


anular certas vantagens obtidas em combate, principalmente por proteções blindadas
e pelo caráter dos combates decisivos migrarem para o ambiente urbano. Assim, viu-
71

se a necessidade de se obter munições que fossem capazes de transfixar blindagens,


muros e veículos, a fim de neutralizar essas ameaças e permitir o avanço das tropas
no terreno. Assim, foi dado ao combatente de infantaria, a capacidade enfrentar num
primeiro embate, aquelas proteções inimigas. Dessa forma, foram sendo criados
diversos projéteis com características especiais para a guerra, tais quais:
− Cartucho com projétil perfurante;
− Cartucho com projétil com traço luminoso (traçante);
− Cartucho com projétil mista (traçante e perfurante);
− Cartucho com projétil incendiário;
− Cartucho com projétil explosivo; e
− Cartucho com projétil expansivo.

3.11 A EVOLUÇÃO DA MUNIÇÃO: BREVE HISTÓRICO

Antes do século XVIII, os cartuchos para armas de fogo tinham uma


configuração, naturalmente, bastante rústica, pois suas partes eram separadas.
Alimentava-se a arma pela boca do cano, colocando o chumbo a ser disparado e a
pólvora negra como impulsionador dos projéteis. Por sua vez, a pólvora era queimada
por um iniciador, que inicialmente se caracterizava por um pavio, geralmente na parte
de trás do cano. Ao executar um disparo, o atirador teria que limpar o cano, e executar
todo o processo de carregamento e acendimento do pavio novamente.

Visando aumentar a cadência de tiro da arma de fogo portada pelo soldado na


batalha, criou-se um meio de unir as partes que compunham o lançamento do projétil,
criando-se o cartucho. Inicialmente, atiradores tiveram a ideia de levar, em um
pequeno embrulho de papel, a quantidade correta de pólvora e projéteis, para que
pudessem introduzir no cano do armamento. Isso evitava que o soldado, no fragor da
batalha, errasse na quantidade de pólvora e sofresse um acidente de tiro. Essa
evolução do cartucho corrobora com a criação do fuzil de pederneira, onde o pavio
era acendido por fricção de peças do armamento, acionado pelo gatilho. Porém, a
espoleta ainda não estava unida no cartucho.
72

Fig. 16 arma com ignição de pederneira.


Fonte: BRASIL, 2017, p. 11
Com o advento da revolução industrial, entre o final do século XVIII e início do
século IX, a produção de armas de fogo se torna mais padronizada e em larga escala.
Surge o primeiro cartucho que une todos os elementos (projétil, pólvora e espoleta),
feito de papel. Concomitantemente, armas de fogo produzidas em escala padronizam
calibres e criam reservatórios de cartuchos capazes de alimentar as armas sem a
necessidade de intervenção do atirador. Porém, muitos acidentes ainda aconteciam,
pois, o cartucho de papel era muito suscetível às intempéries do tempo.
Podemos marcar como divisor de águas na história dos cartuchos o ano de
1828, quando um armeiro francês, Casimir Lefauchaux, patenteia o cartucho metálico
criado por ele. Por ser de material mais resistente, o novo cartucho permitia uma maior
carga de pólvora, em conseguinte também uma maior pressão, imprimindo mais
velocidade e precisão no disparo dos projéteis. O cartucho de Lefauchaux possuía as
mesmas configurações dos cartuchos de armas leves atuais, constando de projétil,
estojo, pólvora e espoleta. Pode-se observar, na figura a seguir, a configuração
semelhante à dos cartuchos atuais.
73

Fig. 17 Cartuchos metálicos de Lefauchaux, com percussão em pino lateral.


Fonte: BRASIL, 2017, p. 10

Apesar da evolução da munição e do armamento, muitos exércitos ainda


utilizavam rifles de ante carga, que eram alimentados pela boca do cano. Isso trazia
problema, pois o projétil a ser disparado tinha que ter exatamente o mesmo diâmetro
do cano da arma. Essa medida deixava o processo de recarga mais lento, pois o
atirador sentia uma maior dificuldade em introduzir o projétil até o final do cano.
A inadequação da munição para rifles de ante carga permaneceu até 1849,
quando um capitão do exército francês, de nome Claude Minié, inventou o que
passaria a ser conhecido como “bala Minie” (Minie bullet ou Minie ball – fig 9), um
projétil de forma cônica e cuja principal inovação era a base oca e um diâmetro
ligeiramente inferior ao calibre da arma. A ideia de funcionamento era que, ao ser
efetuado o disparo, os gases da combustão preencheriam a concavidade existente na
base do projetil e afastariam as paredes laterais, forçando-as contra as raias e selando
a alma. Isso garantiria máxima eficiência da munição, ao mesmo tempo em que
facilitava em muito o carregamento pela boca (DI MAIO, 1999, p. 25).

Fig. 18 Desenho esquemático de um projétil Minnié.


74

Fonte: DI MAIO, 1999, p. 25

A partir do final do século XIX os exércitos pelo mundo começaram a produzir,


em escala, as armas de seus próprios exércitos, bem como a munição para elas:

Em 1846, o cartucho projetado por Casimir foi aperfeiçoado pelo seu


conterrâneo M. Houiller, que desenvolveu um novo cartucho, agora
inteiramente feito de latão, mas mantendo a ideia de Lefaucheux quanto ao
sistema de ignição. Em 1858, os revólveres do sistema Lefaucheux foram
adotados pelo Governo Francês, tornando-se assim os primeiros cartuchos
de metal a serem utilizados militarmente por um governo. (NETO, 2012)

Porém, durante a Primeira Guerra Mundial, os países se viram na situação de


formar alianças, e surgiu a necessidade de compartilhar sistemas de armas e
munições. Iniciou-se uma padronização de calibres, e o estudo das munições de
armamentos leves visando uma vantagem do poder de fogo individual da infantaria
sobre o inimigo.
Após o término da Segunda Guerra Mundial, com o surgimento da Organização
das Nações Unidas (ONU), os países aliados e signatários trataram vastos acordos,
dentre eles alguns armamentistas de apoio mútuo. Nesse contexto, em 1949 foi criada
a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), com o objetivo de criar um
sistema de defesa coletivo entre países aliados. Esse tratado padronizou, para seus
membros, o calibre de projétil ideal, visando facilitar a logística em uma situação de
conflito armado com forças aliadas. Foram definidos como calibre OTAN o
7,62mmx51, o 5,56mmx45 e o 9mmx19.
Atualmente, exércitos pelo mundo ainda fazem estudos para adotar o calibre
que dê melhores condições para o soldado no campo de batalha, atendendo às
necessidades de mobilidade, flexibilidade e letalidade. Como exemplo, os exércitos
dos países da OTAN procuram adotar um calibre intermediária entre o 7,62mm e o
5,56mm, sendo o 6mm utilizado já por algumas tropas do exército dos Estados Unidos.

3.12 TRABALHO SOBRE ADEQUAÇÃO BALÍSTICA PARA O EB

No ano de 2015, o 1º Tenente de Cavalaria Leonardo Fábio Dornelles Acosta,


da reserva não remunerada (R-2) do EB, escreveu um artigo sobre a adequação
75

balística do armamento leve da tropa de cavalaria. O trabalho foi realizado para


subsidiar o Estado-Maior do EB quanto a um levantamento que estava sendo
realizado, para estudar quais tropas do Exército deveriam utilizar o fuzil calibre
7,62mm NATO e quais deveriam utilizar o fuzil calibre 5,56mm NATO.

Em seu trabalho sobre a adequação de calibres para o EB para as tropas de


cavalaria, ele descreve como é importante o constante desenvolvimento de cartuchos
que se adaptam melhor às condições de batalha. Isso mostra que, historicamente,
existe uma evolução nos calibres e na forma das partes de um cartucho para que o
soldado possua melhores condições de combate.

Segundo Acosta, desde a Segunda Guerra Mundial (II GM) existem estudos
que buscam “o desenvolvimento de Fz menores (sic) com soldados carregando maior
quantidade de munição”. Concomitante a isso, a munição deve possuir também poder
de letalidade suficientemente útil no combate aproximado nas diversas dimensões do
campo de batalha.

Acosta nos conta, ainda, que durante a II GM as tropas norte americanas


observaram a maior eficiência do cartucho que estava sendo usado, à época, pelas
tropas alemãs, o 7,9mm Kurz, e pelas tropas soviéticas, o 7,62mmx39, utilizado com
o fuzil de assalto Kalashnikov. Nesse contexto, o US Army decidiu montar um comitê
para analisar a proposta de um novo cartucho e, consequentemente, um novo fuzil,
que atendessem às demandas que a evolução do combate exigia.

Porém, apenas em 1953 os países aliados às Nações Unidas adotaram um


novo calibre: o 7,62x51 padrão OTAN. Com essa evolução de cartucho, o Exército
dos Estados Unidos desenvolveu, para este calibre, o seu fuzil de assalto Colt M14,
mais leve que o antigo M1 Garand .30-06, e com maior capacidade de tiros por minuto.
Já na campanha do Vietnã, o exército americano utilizou um calibre considerado mais
versátil, o 5,56mmx45 OTAN, com projétil mais leve e de maior velocidade. O fuzil Colt
M14 evolui então para o M16, dando ao soldado maior velocidade e flexibilidade no
combate aproximado.

No trabalho realizado por Acosta, ele demonstra, valendo-se de testes


realizados em campo, que a simples mudança do tipo de munição em um mesmo
armamento pode causar efeitos diferentes no campo de batalha:
76

Pequenos testes realizados no âmbito de algumas OM no CMS por ocasião


de Estágios de GLO, empregando a 7,62 x 51 mm e 9 x 19 mm, temos
demonstrado que a SIMPLES TROCA DA MUN utilizada muda
completamente o efeito balístico, e que, com o mesmo armamento de
dotação, podemos cumprir as mais diversas missões impostas à F Terr. Em
um mesmo Fz e Pst, utilizando-se da munição adequada para a missão
imposta, podemos manter a capacidade de neutralização de alvos com o
mínimo de dano colateral, mantendo as características de emprego da Tropa.
(ACOSTA, 2015)
3.13 CALIBRES

O calibre é a “medida do diâmetro interno do cano de uma arma. Nas armas de


cano com alma raiada deve-se fazer distinção entre calibre real, calibre do projétil e
calibre nominal.” (BRASIL, 2017, p. 7). A maioria dos autores cita dois tipos de
calibres: o calibre real e o calibre nominal. Porém alguns ainda acrescentam a variante
calibre do projétil. O calibre real é “medido na boca do cano, corresponde ao diâmetro
interno da alma do cano, sendo, portanto, uma grandeza concreta.” (TOCCHETTO,
2013, p. 103). Essa medida é realizada entre as partes “cheias das raias de um cano,
ou seja, é o diâmetro que existe antes do cano ser raiado. Já o calibre nominal, “é
sempre designativo de um tipo particular de munição e da arma na qual este tipo de
munição deve ser usado corretamente.” (TOCCHETO, 2013, p. 104). Já o calibre do
projétil, “é a medida do diâmetro interno do cano de uma arma raiada, medido entre
‘fundos’ das raias.” (BRASIL, 2017, p. 8).
77

Fig. 19 Esquema de corte transversal do cano raiado de uma arma de fogo.


Fonte: BRASIL, 2017, p. 15

A partir desses conceitos, verificamos que o diâmetro do projétil é ligeiramente


maior que o diâmetro do cano da arma de fogo. Isso permite que o projétil, em sua
trajetória no interior do cano, se “agarre” às raias do cano, permitindo que ele obtenha
um movimento giratório em torno de seu próprio eixo. Ao abandonar o cano da arma
com um movimento giratório, o projétil adquire maior estabilidade no seu voo,
permitindo um desempenho balístico superior.
Quanto às medidas dos calibres, que dão nome inclusive ao armamento e à
própria munição, existem alguns padrões seguidos internacionalmente. Basicamente,
os sistemas de medição utilizados são: o sistema métrico; o sistema imperial; e o
sistema misto.
No sistema métrico o diâmetro do projétil é designado em milímetros,
acompanhado pelo tamanho do estojo do cartucho separados por um “x”. Geralmente
são seguidos pelo nome do fabricante, a abreviatura de milímetros “mm”, nome do
inventor da munição e outras variações. Ex.: 7,62x51mm, 9x19mm Parabellum,
5,56x45mm NATO. Em cartuchos com características especiais, podemos ter ainda a
nominação seguida das letras “R”, que significa rimmed, ou com aro; e “+ P” ou “+ P
+”, que significa poder, ou uma carga maior de pólvora.
No sistema imperial o diâmetro do projétil é designado em frações de
polegadas, representados por um ponto seguidos do valor, omitindo-se, assim, o zero
à esquerda. Geralmente também são seguidos pelo nome do fabricante ou inventor
78

do calibre. Ex.: .50 Browning, .38 S&W, .223 Remington, .308 Winchester. Em
cartuchos com características especiais podemos ver ainda: AUTO, cartucho para
pistola; SPL, cartucho special com mais energia; MAGNUM, projétil que ultrapassa
720 m/s de velocidade; BELTED, cartucho cinturado; dentre outros.
No sistema misto, além de apresentar as características dos sistemas
anteriores, designa o diâmetro do projétil em fração de polegadas, com ou sem o
ponto, seguido do peso da carga de pólvora em Grains (Gr), separados por um traço.
Pode vir seguido do nome do fabricante, do inventor do calibre, etc. Ex.: .32-20
Winchester, .30-30 Winchester. Em suma, nesse sistema admite-se todas as outras
formas de denominação, de acordo com quem cria ou produz a munição.
Na notação de cartuchos observa-se que cartuchos que possuem projéteis com
o mesmo diâmetro real, apresentam nomes diferentes. Para armas de fogo que
possuem o mesmo calibre real podemos encontrar diversos cartuchos com calibre
nominal diferentes. Assim, temos que as munições 9mm Parabellum, 9mm Browning
(ou short), .380 AUTO, e .357 Magnum, por exemplo, são todas com projéteis de
diâmetro entre .355 e .357 polegadas. O que se costuma diferenciar é o peso do
projétil, a quantidade de propelente, o tamanho do estojo, ou simplesmente um projeto
de marketing da fabricante. Para se aferir o diâmetro real de um projétil, deve-se
utilizar uma ferramenta chamada micrômetro, capaz de realizar medições em
pequenas dimensões.

3.13.1 Calibre em armas de cano liso

Para munições de armas de cano liso, o calibre é medido tomando-se uma


perfeita esfera de chumbo, com massa de uma libra (0,453 Kg.), obtendo o calibre 1.
Seguindo o mesmo raciocínio, se fracionarmos aquela esfera de chumbo (com uma
libra de peso) em 12 partes iguais e dessas partes fazermos esferas idênticas, o
diâmetro de cada uma dessas 12 esferas resultantes será o calibre 12. Assim também,
fracionando-se a mesma esfera (com massa de uma libra) em 28 partes e fazendo
com essas partes 28 esferas iguais, o diâmetro de cada uma delas nos daria o calibre
28. Isso explica porque, neste sistema, quanto maior é o número que exprime o
calibre, menor é seu diâmetro, ou seja, o calibre 28 é menor que o 12.
79

Nesse contexto, esse tipo de medida nos fornece um equivalente em


milímetros, como pode-se observar a seguir:

Calibre Diâmetro do
(Gauge) cano (mm)
12 18,2 - 18,6
16 16,8 - 17,2
20 15,6 - 16,0
24 14,7 - 15,1
28 14,0 - 14,4
32 12,75 - 13,15
36 10,414
Fig. 20 Relação entre o calibre Gauge e o
diâmetro do projétil em mm
Fonte: BRASIL, 2017, p. 31

O calibre de munições e armas de cano de alma lisa não são medidos de


acordo com os padrões de sistemas formais de medição internacional. Ele utiliza um
padrão de medição numérica de espessura ou pressão de materiais ou gases,
chamado Gauge (em homenagem ao seu inventor). Assim, uma espingarda calibre
12 na verdade possui calibre 12 Ga (doze gauge).

Outra particularidade da medição de calibre é o das espingardas. As


espingardas podem ter um estreitamento na parte anterior do cano, chamado de
choke (ou choque), “com a finalidade de produzir melhor agrupamento dos chumbos,
visando a obtenção de maior alcance e precisão no tiro.” (TOCCHETTO, 2013, p. 121).
Esse coque se apresenta de diversas formas, mas a maioria dos autores classifica-o
em três categorias gerais: choque pleno; choque modificado; e choque cilíndrico.
Outros tipos de choque mesmo comuns, são utilizados em armamentos para
caçadores esportivos e atletas de tiro, com a finalidade de uma maior precisão para
fins específicos. A figura a seguir ilustra com clareza a diferença entre esses três tipos,
sendo os mais utilizados para fins militares, policiais e comercial geral:
80

Fig. 21 Tipos de choque e suas finalidades.


Fonte: BRASIL, 2017, p. 31

Podemos observar pela figura que para cada tipo de choque, existe um
intervalo de utilização onde o tiro será aproveitado com maior precisão e
concentração. O choque pleno, por possuir uma precisão melhor para maiores
distâncias, geralmente é utilizado para caça e esporte. O choque modificado, por ter
uma precisão melhor em nível intermediário, é mais utilizada no meio militar e policial.
Já o choque cilíndrico é mais indicado para defesa pessoal, para utilização com
munição menos letal e dispersão de motins e turbas.

3.14 BALÍSTICA

Nesse estudo é abordado o ramo da balística de uma forma superficial, tendo


em vista que o Caderno de Instrução proposto também aborda o tema
superficialmente. O objetivo é levar ao militar os conceitos e efeitos básicos da
balística das munições de armamentos leves.

“Balística é a ciência e arte que estuda integralmente as armas de fogo, o


alcance e a direção dos projetis por ela expelidos e os efeitos que produzem.”
81

(ALBARRACIN apud TOCCHETTO, 2013, p. 22). Esses efeitos são “o conjunto de


forças que atuam em um corpo durante sua trajetória.” (BRASIL, 2005, p. 39). A
trajetória do projétil segue desde o interior do cano da arma de fogo, passando pelo
meio em que se propaga após sair da “boca” do cano até atingir o alvo. Ainda no alvo
o projétil percorre uma trajetória, que só termina quando toda a sua energia cinética
estiver sido dissipada.

Para cada parte da trajetória do projetil a balística dedica um estudo específico.


Assim, segundo TOCCHETTO (2013) a balística pode ser dividida em: balística
interna, balística externa e balística dos efeitos. Por ser um conceito extremamente
técnico, alguns autores podem elencar outras subdivisões.

A balística interna é o estudo mais direcionado para a arma de fogo, já que


nesse momento o projétil encontra-se recebendo a energia proveniente da queima da
pólvora, bem como sofrendo os efeitos do cano da arma de fogo. Tecnicamente, é
assim conceituada:

Conhecida também como balística interior, é a parte da balística que estuda


a estrutura, mecanismos e funcionamento das armas de fogo e a técnica do
tiro, bem como os efeitos da detonação da espoleta e deflagração da pólvora
dos cartuchos, no seu interior, até que o projetil saia da boca do cano da
arma. (TOCCHETTO, 2013, p. 22)

A balística externa estuda a trajetória do projetil fora da arma. É muito


importante para o meio militar pois analisa o alcance útil, o alcance máximo e o
alcance com precisão do projétil até o alvo. Seu estudo se baseia em diversos ramos
da física, e demanda complexos conceitos matemáticos. Para um conceito mais
técnico:

Balística externa ou balística exterior estuda a trajetória do projetil, desde que


abandona a boca do cano da arma até a sua parada final. Analisa as
condições do movimento, velocidade inicial do projetil, sua forma, massa,
superfície, resistência do ar, a ação da gravidade e os seus movimentos
intrínsecos. (TOCCHETTO, 2013, p. 23)
82

A balística dos efeitos foca seu estudo no efeito que o projétil causa em seu
alvo. Como o alvo pode ser qualquer coisa, os efeitos balísticos de efeitos em alvos
humanos são os que mais interessam no estudo de munições de armamentos leves.
Porém, dependendo da finalidade do armamento e da munição utilizados, os efeitos
balísticos em metais, alvenaria ou blindagens também são levados em considerações.
Tecnicamente se conceitua balística terminal como:

Também denominada como balística terminal ou balística do ferimento,


estuda os efeitos produzidos pelo projetil desde que abandona a boca do
cano até atingir o alvo. Incluem-se, neste estudo, possíveis ricochetes,
impactos, perfurações e lesões internas ou externas, nos corpos atingidos.
(TOCCHETTO, 2013, p. 23)

3.14.1 O poder de parada (Stopping power)

Quando abordamos os efeitos causados pelos projéteis em alvos vivos, um


termo controverso é muito utilizado para classificar os projéteis: o poder de parada,
ou em vernáculo inglês, o stopping power. Segundo TOCCHETTO (2013), o poder de
parada é simplesmente a capacidade que o projétil possui, durante o impacto, de
incapacitar uma pessoa ou um animal, instantaneamente, impedindo que continue a
fazer o que estava fazendo no momento do impacto. Ele considera esse instante
sendo o intervalo de até dois segundos após o impacto.

Essa incapacitação “instantânea” citada por TOCCHETTO pode ser


complementada, ainda:

Interrupção imediata da agressão em curso, sem que outro tiro, estocada ou


pancada fosse desferida. Se o suspeito estivesse correndo, deveria, além
disso, cair num espaço de três metros de onde recebeu o tiro, considerando
como sendo o impacto no tronco. (MARSHAL apud ACOSTA, 2015, p. 21)

É interessante verificar que a incapacitação não é necessariamente a


neutralização do alvo, ou seja, a ameaça deverá ser cessada com apenas um disparo.
Isso pode acontecer, por exemplo, caso a ameaça fique inconsciente por algum
83

tempo, permitindo ao agente ameaçado imobilizar a ameaça e controlar a situação


sem risco de morte ou agressão.

Dentro dos esforços para se quantificar o poder de parada de uma forma


simples, para facilitar as comparações e a escolha da munição, destaca-se o trabalho
do General Julian Hatcher, do Exército norte-americano, que, entre 1927 e 1935, com
base nos testes da Comissão Thompson La Garde (VANZETTI, 2007), desenvolveu
uma fórmula denominada de Relative Stopping Power (RSP), que atribui o poder de
parada essencialmente ao produto da quantidade de movimento no impacto, pela área
da seção reta (função do calibre) e pelo fator de forma (Sp), conforme ilustrado abaixo
(RINKER, 2006, p. 360). A expansão dos projetis não é considerada de forma direta,
mas, como altas velocidades exercem grande influência no resultado final, existem
efeitos da energia embutidos no cálculo.

RSP= mp . vp . Ap . Sp

Posteriormente, em 1983, de forma a estabelecer um parâmetro de


comparação para as munições expansivas em uso pelas forças policiais, o Instituto
Nacional de Justiça dos E.U.A. encomendou uma pesquisa conduzida pelo
Laboratório de Pesquisa Balística do Exército norte-americano, que levou em conta a
cavidade temporária produzida no impacto e conduziu uma ampla gama de testes
envolvendo vários parâmetros de natureza balística. O resultado final não foi uma
fórmula, mas uma relação dos valores atribuídos a cada tipo de projetil testado e que
recebeu a denominação de Relative Incapacitation Index (RII) (RINKER, 2006, p. 361).

A comparação dos valores de RSP e RII faz retornar à discussão sobre grandes
calibres e grandes cavidades temporárias e, apesar de haver algumas críticas quanto
à natureza imprecisa do cálculo da RSP, testes realizados pelo FBI, em 1989, também
lançaram dúvidas sobre a verdadeira representatividade dos valores de RII, por terem
considerado que o enfoque no choque hidrostático foi demasiado em face dos
resultados da vida real (RINKER, 2006, p. 364). Não obstante, algum conhecimento
prático ainda pode ser obtido desses dois métodos,

Para TOCCHETTO (2013), o poder de parada de um projétil será eficiente em


um alvo humano quando ele destruir ou ocasionar severo dano ao suprimento de
84

oxigênio carregado pelo sangue ao cérebro. No corpo humano, esses danos podem
ocorrer caso o sistema vascular ou o sistema nervoso forem danificados. Assim,
percebe-se que o poder de parada de um projétil é relativo, já que não basta apenas
que o projétil possua características incapacitantes, mas também o local do corpo
humano que ele irá atingir.

O entendimento atualmente mais difundido, é que:

Exceto por um impacto no cérebro ou na medula espinhal, o único


modo de incapacitar um animal ou um ser humano é a perda maciça
de sangue, porém demanda algum tempo e não se caracteriza como
uma incapacitação imediata, pois há oxigênio suficiente no cérebro
para fazer com que o oponente reaja ainda por alguns segundos.
(VASCONCELOS, 2015, p. 72)

Sabemos então que a região do impacto do projétil, no corpo humano, é


essencial para parar uma determinada ameaça. Para atingirmos uma hemorragia a
ponto de incapacitar rapidamente um alvo, é importante que o projétil penetre algum
órgão vital do alvo, causando o que a medicina chama de choque hipovolêmico (perda
maciça de sangue). Essa penetração, para ser efetiva, deve ser de “10 a 15
polegadas, mais ou menos um palmo de mão” (VASCONCELOS, 2015, p. 76).
Além disso, para causa uma pane no sistema nervoso a ponto de incapacitar
rapidamente um ser humano, o projétil deve atingir a região do tronco cerebral ou
medula espinhal. O tronco cerebral é a parte do sistema nervoso central responsável
pelo ritmo cardíaco, pela respiração e pela percepção de dor. Desta forma, é a
natureza da estrutura danificada que causa incapacitação, não a natureza do projétil
(DI MAIO, 1999, p. 381-382).
Apesar do tipo de munição influenciar diretamente no dano causado em um
alvo, fatores como localização do impacto, distância do tiro, tipo de proteção utilizada
pelo alvo e trajetória do projétil no interior do corpo podem ser decisivos na estimativa
do poder de parada de um projétil.
Uma grande discussão sobre projéteis que possuiriam relevante poder de
parada recai sobre os projéteis expansivos. Esses projéteis tem a característica de,
ao atingirem um alvo, expandirem a sua ponta, ou seja, a superfície de contato anterior
com o alvo, causando um dano mais significativo que projéteis com características
85

transfixantes. Isso poderia ser considerado um grau de força maior que o necessário
para tirar um combatente da batalha, e seria um dos motivos para que fosse instituído
na Convenção de Haia de 1899, versando que “utilizar balas que se expandem ou
achatam facilmente no interior do corpo humano, tais como balas de revestimento
duro que não cobre totalmente o interior ou possui incisões”.
O principal argumento contra os projetis expansivos é a elevada pressão
hidrostática formada no interior do corpo pela massiva perda de velocidade, que causa
um ferimento muito maior que o necessário para colocar um adversário fora de ação,
pelo menos segundo o argumento articulado pelo Dr. Kocher13. Apesar de pouco
conhecida, sua pesquisa lançou as bases científicas para o estudo moderno dos
ferimentos balísticos e para o desenvolvimento das modernas munições de infantaria
(FACKLER, 1991, p. 153).
Com início em 1875, uma de suas primeiras descobertas foi que um dos
mecanismos pelo qual se produz um ferimento e os tecidos se rompem ocorre por
pressão hidrostática, que é diretamente proporcional à velocidade do projétil ou, mais
propriamente, à sua energia cinética. Kocher verificou que ao atingir o alvo um projétil
perde energia de quatro formas distintas, a saber: parte é transformada em calor e
não contribui para o ferimento; parte é usada para forçar a passagem do projetil e
produzir um canal de tecidos rasgados e rompidos que é denominado de cavidade
permanente; parte é transformada em forte pressão hidrostática que desloca
radialmente o tecido vizinho à passagem do projétil, em um efeito denominado
cavidade temporária; e parte é utilizada para deformar o projétil diante da resistência
ao seu avanço, o que também irá contribuir para aumentar as cavidades permanente
e temporária (FACKLER, 1991, p. 156).
Com base no experimento acima descrito, e em vários outros posteriores,
Kocher argumentava em favor do princípio da “guerra civilizada”, pelo qual suprimir a
capacidade combativa de um soldado deveria ser mais importante que simplesmente
matá-lo, para o que advogava a redução dos calibres do armamento militar para
menos de 10 mm, preferencialmente entre 5 e 6 mm, e que os projetis fossem
construídos de material mais duro que o chumbo, de maneira a evitar sua deformação
no impacto. Kocher também recomendava a adoção de projéteis de ogiva estreita

13
Emile Theodor Kocher (1841-1917) foi um renomado cirurgião e professor da Universidade de Berna, que criou
instrumentos e procedimentos ainda hoje utilizados em cirurgia e foi o primeiro cirurgião a receber o prêmio
Nobel em medicina, em 1909.
86

(pontiagudos), ao invés das tradicionais pontas esféricas, para facilitar a penetração


dos tecidos; bem como maior velocidade rotacional, para incrementar a estabilidade
dos projéteis e evitar oscilação longitudinal, que eventualmente poderia aumentar a
superfície de contato. Não obstante, Kocher alertava que os projéteis não fossem
feitos totalmente de cobre devido à menor gravidade específica desse material, que
comprometeria sua capacidade de reter velocidade e seu desempenho a longas
distâncias (FACKLER, 1991, p. 156).

4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

Nesse capítulo, serão apresentados os dados da pesquisa e a discussão sobre


em que medida a elaboração de um caderno de instrução sobre munições de
armamentos leves contribuirá para melhorar a formação dos sargentos de carreira da
Escola de Sargentos das Armas (ESA).
87

Referente à metodologia utilizada na pesquisa, salienta-se que esse capítulo


teve por objeto a análise do processo ensino aprendizagem na disciplina armamento,
munição e tiro, assim como procurar detalhar o método científico utilizado, e deixar
claro os objetivos a serem alcançados.
Para responder o problema abordado nesta pesquisa, bem como atingir os
objetivos geral e específicos propostos, os resultados obtidos serão apresentados e
discutidos em duas fases.
No primeiro momento, foi verificado o teste realizado pela amostra dos Alunos
da ESA sobre armamento, munição e tiro (AMT). Para tal, foram analisados os dados
obtidos por intermédio do desempenho dos Alunos no questionário/teste realizado.
Na segunda fase, foram verificadas as opiniões e contribuições de especialistas
no assunto e instrutores dos EE, visando responder as questões de estudo
apresentadas. Trouxe diferentes visões do estudo e da instrução, complementando a
interpretação dos dados obtidos na primeira fase. Para isso, foram utilizados os dados
colhidos nas entrevistas realizadas.
Para fins didáticos, cada pergunta constante do questionário foi abordada de
maneira separada, o que não impediu o surgimento de interessantes conexões entre
elas, assim como com os comentários realizados pelos especialistas do tema e com
o material do referencial teórico.
Em ambas as fases, poderá ser verificada a relação da operacionalidade das
variáveis, demonstrada anteriormente no capítulo 2 (Quadro 1), com os dados obtidos
na pesquisa.
Por se tratar de uma pesquisa qualitativa, ressalta-se que as percentagens
apresentadas neste capítulo serviram somente como base para o desenvolvimento
das discussões sobre o tema.
Por fim, as observações encontradas serão discutidas e os dados analisados,
de onde serão tiradas as conclusões parciais e finais.
4.1 RESULTADOS DO QUESTIONÁRIO/TESTE DOS ALUNOS DA ESA

A partir de agora pode-se observar e discutir os resultados obtidos através do


questionário/teste aplicado à amostra de Alunos da ESA, possibilitando concluir
parcialmente sobre o problema da pesquisa. Nesta seção, são expostos os índices
alcançados pelos alunos referentes ao seu nível de conhecimento na disciplina
88

armamento, munição e tiro, mostrando uma “radiografia” de como essa disciplina está
sendo tratada, principalmente ao analisar os resultados da parte do teste sobre
munições.

4.1.1 Aplicação dos instrumentos de pesquisa

A fim de verificar a finalidade e eficácia da instrução específica sobre munições


de armamentos leves na ESA, foi realizado um procedimento experimental. Assim,
255 (duzentos e cinquenta e cinco) Alunos do Corpo de Alunos (CA) da ESA, sendo
parte da amostra de 338 Alunos, foram submetidos a uma instrução específica em
sala de aula sobre o assunto munições de armamentos leves.
Para tal, o Instrutor Chefe da Seção de Tiro da ESA foi incumbido de ministrar
uma instrução de dois tempos de aula (uma hora e trinta minutos) sobre o assunto
munições de armamentos leves (Anexo A). Tal instrução ocorreu no dia 1º de agosto
de 2018, no auditório da ESA. O assunto, que já consta no PlaDis do CFS/ESA, está
inserido no conteúdo Armamento, Munição e Tiro, como instrução geral.
Como um importante passo rumo à implementação efetiva da pesquisa, é
importante esclarecer que a instrução se desenvolveu da forma que adiante segue:
os 255 Alunos participaram da instrução, todos ao mesmo tempo, no auditório da ESA.
Durante a exposição, foram utilizadas técnicas de ensino de palestra, demonstração
e atividade em grupo. Os slides da apresentação foram confeccionados com base
conceitual descrita na proposta do Caderno de Instrução de Munições de Armamentos
Leves (proposta do autor). Os principais tópicos abordados foram: características das
munições de armamentos leves; noções de calibres; e noções de balística.
Para avaliar o conhecimento dos Alunos da ESA no assunto munições, no dia
11 de agosto de 2018, no auditório da ESA, foi aplicado um questionário/teste para
toda a amostra de 334 (trezentos e trinta e quatro) Alunos do Corpo de Alunos. Assim,
foi possível aplicar um teste para 255 Alunos que tiveram a instrução de munições de
armamentos leves, baseada na proposta de caderno de instrução de munições de
armamentos leves, e para 79 Alunos que tem o conhecimento do assunto baseado no
atual arcabouço de instruções de AMT, e não tiveram a instrução específica. Nesse
contexto, a análise dos resultados obtidos foi baseada em dois grupos da amostra em
estudo:
89

− Grupo 1: grupo dos 255 Alunos que tiveram a instrução de munições; e


− Grupo 2: grupo dos 79 Alunos que não tiveram a instrução de munições
Como pode ser observado, o questionário/teste abordou a disciplina AMT e foi
concebido em três partes: 1ª parte: assunto armamento; 2ª parte: assunto munições;
e 3ª parte: assunto tiro. Cada parte possuindo 5 questões, que colocadas em
sequência permitiram a condução de um raciocínio encadeado sobre o tema. Os
Alunos realizaram o questionário/teste individualmente, em tablets e celulares, com
tempo máximo de trinta minutos para realização, e sem direito a qualquer tipo de
consulta. Após a realização do teste, os Alunos enviaram suas respostas via internet
para a plataforma digital utilizada pelo aplicador.
Dessa forma, os resultados não foram utilizados de forma somativa no CFS.
Porém, foi uma atividade obrigatória, com autorização do Comandante do Corpo de
Alunos. Além disso, não se tratou de um “teste surpresa”, pois foi anunciado com 48
horas de antecedência, dando a oportunidade para os Alunos se prepararem
intelectualmente para sua realização.

4.1.2 Questionário 1ª Parte: assunto armamento

É importante chamar a atenção para o fato de que os Alunos foram submetidos


a cinco questões sobre o assunto armamento, caracterizando a primeira parte. A partir
da correção dessas questões, foram calculadas a média geral de acertos por questão
por grupo, e a média geral de acertos por assunto por grupos de análise de resultados.
As questões abordam assuntos previstos nos manuais de referência do PlaDis da
ESA, e são alvo das instruções do período básico da formação no CFS.
90

100,00%
90,00%
80,00%
70,00%
60,00%
Acertos

50,00%
40,00%
30,00%
20,00%
10,00%
0,00%
Questão 1 Questão 2 Questão 3 Questão 4 Quetão 5
GRUPO 1 92,55% 97,65% 83,92% 17,65% 70,98%
GRUPO 2 78,48% 98,73% 84,81% 11,39% 63,29%

GRÁFICO 1: média geral da 1ª parte dos Grupos 1 e 2, por questão.


Fonte: O Autor

67,34%
GRUPO 2

72,55%
GRUPO 1

0,00% 20,00% 40,00% 60,00% 80,00% 100,00%


Acertos

GRÁFICO 2: média geral dos acertos da 1ª parte por grupo.


Fonte: O autor

Conforme pode ser verificado nos resultados obtidos, observa-se através do


Gráfico 1, que os resultados das questões 2 e 3 foram próximos entre os grupos,
considerando a variação da média de acertos por questão menor que 2% entre eles.
Nesse caso, 2% representa, em número de pontos por questão, apenas 10% do valor
da pontuação atribuída a uma questão, haja visto que todas as cinco questões da 1ª
parte do questionário/teste possuem o mesmo valor.
91

Todavia, nas questões 1, 4 e 5, é possível observar uma variação da média de


acertos por questão maior que 5% nos resultados entre os grupos, sendo: 6,26% na
questão 4; 7,69% na questão 5; e 14,07% de diferença de média de acertos na
questão 1.
Nas questões onde houve pouca variação da média de acertos entre os grupos
(questões 2 e 3), o Grupo 2 obteve uma porcentagem média levemente maior que o
Grupo 1. Já nas questões onde houve uma variação da média de acertos maior entre
os grupos (questões 1, 4 e 5), o Grupo 1 obteve uma porcentagem média de acertos
maior que o Grupo 2.
A partir dos resultados obtidos verificados no Gráfico 2, onde é apresentado o
resultado da 1ª parte do questionário/teste como um todo, é possível observar que o
Grupo 1 atingiu uma porcentagem média de acertos de 8,21% maior que o Grupo 2.
Também é possível verificar que ambos os grupos atingiram a meta mínima de 51%
de média de acertos estipulada inicialmente pelo autor no estudo operacional da
variável independente, na dimensão “assunto armamento”.

4.1.2.1 Discussão dos resultados da 1ª Parte do questionário/teste

Diante dos resultados obtidos na 1ª parte dos testes, verificou-se que a amostra
dos Alunos da ESA demonstrou conhecimento razoável no assunto armamento, em
particular os Alunos do Grupo 1.
Em acordo com o anteriormente exposto, uma possível causa do desempenho
menos satisfatório do Grupo 2 em relação ao Grupo 1, pode ter sido a influência da
instrução de munições ministrada ao Grupo 1. Percebe-se que na instrução sobre
munições, por diversas vezes é realizado um link com o assunto armamento, tendo
em vista que um está diretamente relacionado ao outro, e eles são interdependentes
para que haja funcionalidade no processo do tiro de arma de fogo.
Observando-se o material de ensino utilizado na Escola Naval, na Academia
Militar do Exército de Portugal e do Exército do Uruguai, percebe-se que eles
apresentam, no mesmo material, os assunto armamento e munição. Isso corrobora
com o melhor resultado obtido pelo Grupo 1, pois tais assuntos devem ser abordados
em conjunto.
92

É fato que a instrução básica sobre armamento, durante a formação do


sargento no CFS, é realizada nas Organizações Militares do Corpo de Tropa (OMCT),
e não na ESA. Assim, os diferentes níveis de instrução podem influenciar no
conhecimento dos Alunos de diferentes maneiras. Apesar disso, existem fontes de
consulta militares no assunto, como os manuais do Fuzil FAL 7,62mm e do Fuzil IA2
IMBEL 5,56mm. Tais manuais são de acesso ostensivo, e previstos nos PlaDis da
formação do período básico do CFS, e permitem padronizar a abordagem do assunto
nas instruções.
É possível verificar, no cálculo da média dos resultados obtidos entre os
dois grupos, que obtemos o valor de 69,95% de acertos. Isso nos dá um valor
superior àquele esperado para o teste no assunto armamento, considerando o valor
mínimo de média de 51% de acertos. Esse dado final deve ser levado em
consideração para avaliarmos o conhecimento no assunto, tendo em vista que ele é
abordado em manuais regulares do Exército Brasileiro.

4.1.3 Questionário 2ª parte: assunto munição

Por ocasião da aplicação do questionário/teste, os Alunos foram submetidos a


5 questões sobre o assunto munição, na segunda parte. A partir da correção dessas
questões, foram calculadas a média geral de acertos por questão por grupo, e a média
geral de acertos por assunto por grupos de análise de resultados.

100,00%
90,00%
80,00%
70,00%
60,00%
Acertos

50,00%
40,00%
30,00%
20,00%
10,00%
0,00%
Questão 6 Questão 7 Questão 8 Questão 9 Quetão 10
GRUPO 1 91,44% 77,43% 78,21% 35,02% 71,21%
GRUPO 2 55,70% 0,08% 0,08% 0,00% 0,00%

GRÁFICO 3: média geral da 2ª parte dos Grupos 1 e 2, por questão.


Fonte: O Autor
93

11,17%
GRUPO 2

70,66%
GRUPO 1

0,00% 10,00% 20,00% 30,00% 40,00% 50,00% 60,00% 70,00% 80,00% 90,00% 100,00%
Acertos

GRÁFICO 4: média geral dos acertos da 2ª parte por grupo


Fonte: O autor

A partir dos dados demonstrados no GRÁFICO 3, é possível observar que as


questões 7 a 10 foram as de maior dificuldade para responder pelos integrantes do
Grupo 2. Porém, o Grupo 1 conseguiu melhores índices, sendo os menos expressivos
na questão 4 e os mais expressivos na questão 6.

Outro aspecto bastante destacado é que ambos os grupos obtiveram


resultados mais expressivos no acerto da questão 6, em relação às demais questões.
A variação da média de acertos por questão chegou a 78,13% (na questão 8) entre
os grupos. Observa-se que o Grupo 1, que é o grupo daqueles Alunos que tiveram a
instrução sobre munições, obteve uma média de resultados bastante expressiva em
relação ao Grupo 2. No geral, o Grupo 1 obteve melhores resultados que o Grupo 2
em todas as questões da 2ª parte.
94

É notório ressaltar que os dados obtidos no GRÁFICO 4, onde é apresentado


o resultado da 2ª parte do questionário/teste como um todo, mostram que o Grupo 1
atingiu uma porcentagem média de pontos de 59,49% maior que o Grupo 2. Também
é possível verificar que o Grupo 1 atingiu a meta de no mínimo 51% de média de
acertos imaginada inicialmente pelo autor no estudo operacional da variável
independente, na dimensão “assunto munição”, enquanto o Grupo 2 ficou abaixo da
média estipulada.
4.1.3.1 Discussão dos resultados da 2ª Parte do questionário/teste

Com base nos percentuais demonstrados, pode-se aferir que os militares


consultados têm conhecimento variável no assunto munições, destacando os Alunos
do Grupo 1 com resultados mais expressivos em relação aos Alunos do Grupo 2. Este
último apresentou, inclusive, um desempenho abaixo da média de 50% de acertos,
como esperado pelo autor.
Verificou-se, com base no questionário, que uma possível causa do
desempenho pouco satisfatório do Grupo 2 em relação ao Grupo 1, pode ter sido a
falta de uma instrução sobre munições, aos moldes do que foi realizado com o Grupo
1. Não existe uma fonte de consulta militar que possa servir como base para consulta,
nem por parte dos Alunos, nem por parte dos instrutores, tornando esse assunto
pouco explorado no CFS, apesar de existir previsão de carga horária no PlaDis.
A média percentual de acertos do Grupo 1 no assunto munições foi bastante
aproximada à média percentual do mesmo grupo no assunto armamento. Isso pode
indicar um nivelamento de conhecimento dos assuntos, o que não foi verificado no
Grupo 2.
Pode-se concluir que, em nossos Estabelecimentos de Ensino, não é dada a
devida importância ao assunto munições, no contexto da matéria AMT. O que não se
verifica em Estabelecimentos de Ensino de Exércitos de países estrangeiros, bem
como em escolas de formação da agentes de órgão públicos, como levantado nos
materiais de ensino na revisão da literatura.
Pode-se observar, no cálculo da média dos resultados obtidos entre os dois
grupos, que se obtém o valor de 40,92% de acertos. Com isso, chega-se a um valor
inferior àquele obtido na 1ª parte – assunto armamento. Esse dado final deve ser
95

levado em consideração para avaliar o conhecimento no assunto, tendo em vista que


ele não é abordado em manuais regulares do Exército Brasileiro.

4.1.4 Questionário 3ª parte: assunto tiro

Em meio ao contexto apresentado, na terceira parte do teste os Alunos foram


submetidos a 5 questões sobre o assunto tiro, caracterizando a terceira parte. A partir
da correção dessas questões, foram calculadas a média geral de acertos por questão
por grupo, e a média geral de acertos por assunto por grupos de análise de resultados.

100,00%

90,00%

80,00%

70,00%

60,00%
Acertos

50,00%

40,00%

30,00%

20,00%

10,00%

0,00%
Questão 11 Questão 12 Questão 13 Questão 14 Quetão 15
GRUPO 1 88,72% 82,10% 91,83% 40,08% 84,44%
GRUPO 2 81,01% 75,95% 98,73% 43,04% 75,95%

GRÁFICO 5: média geral dos resultados da 3ª parte dos Grupos 1 e 2.


Fonte: O Autor
96

74,94%
GRUPO 2

77,43%
GRUPO 1

0,00% 20,00% 40,00% 60,00% 80,00% 100,00%


Acertos

GRÁFICO 6: média geral da 3ª parte por grupo.


Fonte: O autor
Ressalta-se que a partir dos resultados demonstrados no GRÁFICO 5, é
possível observar que a questão 14 foi a de maior dificuldade para responder pelos
integrantes de ambos os grupos. Porém, o Grupo 2 conseguiu melhores resultados,
mesmo sendo pouco expressivos.

Ambos os grupos obtiveram índices mais expressivos no acerto das questões


11, 12, 13 e 15. A variação da média de acertos por questão ficou entre 2,6% (na
questão 14) e 8,49% (na questão 15) entre os grupos. Observa-se que o Grupo 1
obteve uma média de resultados ligeiramente maior que o Grupo 2, nas questões 11,
12 e 15. Já nas questões 13 e 14, o Grupo 2 apresentou resultados ligeiramente
maiores que o Grupo 1.

No geral, os dois grupos atingiram resultados semelhantes e bem acima da


média esperada de 51% de acertos.

Ressalta-se que a partir dos dados levantados verificados no GRÁFICO 6, onde


é apresentado o resultado da 3ª parte do questionário/teste como um todo, é possível
observar que o Grupo 1 atingiu uma porcentagem média de pontos 2,49% maior que
o Grupo 2. Também é possível verificar que ambos os grupos atingiram a meta de no
97

mínimo 51% de média de acertos estipulada inicialmente pelo autor no estudo


operacional da variável independente, na dimensão “assunto tiro”.

4.1.4.1 Discussão dos resultados da 3ª Parte do questionário/teste

Diante dos resultados obtidos na 3ª parte dos testes, verificou-se que a amostra
dos Alunos da ESA demonstrou conhecimento sólido no assunto tiro, destacando os
Alunos do Grupo 1 com resultados mais expressivos em relação aos Alunos do Grupo
2, ainda que com uma diferença pouco expressiva.
Sabe-se que uma possível causa do desempenho satisfatório dos grupos em
relação às outras partes do questionário, pode ser o caráter eminentemente prático
da instrução de tiro. Além de existir o manual C23-1 Tiro das Armas Portáteis, que
define as técnicas e os fundamentos de tiro, os Alunos da ESA possuem uma forte
carga horária na prática de tiro, sendo cento e quatro horas no período básico, e
oitenta e duas horas no período de qualificação. Essa carga horária é traduzida em
oito módulos de tiro durante o ano de instrução em cada período, o que permite que
ele tenha maior facilidade em lhe dar com o manuseio do armamento e com as
técnicas de tiro.
A partir do que foi levantado na revisão da literatura, apenas o Exército do
Uruguai aborda, em manual, as técnicas e fundamentos de tiro. Escolas de formação
de agentes de segurança pública, abordam o tiro apenas em instruções práticas no
estande, sem possuir técnicas escritas em manuais ou notas de aula.
Como o desempenho dos grupos no assunto tiro foi bastante aproximado entre
os grupos, talvez a instrução sobre o assunto munições não tenha influenciado
diretamente o conhecimento no assunto tiro.

4.1.5 Resultado geral do questionário

É interessante destacar que por ocasião da aplicação do questionário/teste, os


alunos foram submetidos a responder 15 questões, abordando o conteúdo
armamento, munição e tiro. A partir da correção dessas questões, foram calculadas a
98

média geral, a mediana e a menção dos Alunos neste questionário. Os resultados são
apresentados nos gráficos 7 e 8 a seguir.
10

9
Mediana
Média 9
8
8,62
Mediana
7 8
Média
7,22
6

0
GRUPO 1 GRUPO 2

GRÁFICO 7: média de pontos geral e mediana no questionário/teste de AMT.


Fonte: O Autor

70,00% 64,94%
60,71%
60,00%

50,00% Insuficiente < 4 acertos


35,71% 4 ≤ Regular ≤ 7
40,00%
28,69% 8 ≤ Bom ≤ 11
30,00%
12 ≤ Muito Bom ≤ 13
20,00% 14 ≤ Excelente ≤ 15
5,58% 3,57%
10,00%
0,00% 0,70% 0,00% 0,00%
0,00%
GRUPO 1 GRUPO 2

GRÁFICO 8: menção dos Alunos no questionário/teste.


Fonte: O Autor

A partir dos resultados demonstrados no GRÁFICO 7, é possível observar que


a média de acertos entre os grupos, nas três partes do teste, apresentou uma
diferença de apenas 1,4 pontos. Também é relevante verificar que a média de acertos
dos grupos ficou levemente abaixo da mediana, sendo 0,38 ponto no Grupo 1 e 0,78
99

ponto no Grupo 2. O Grupo 1 apresentou uma média de acertos mais próxima da


mediana que o Grupo 2.

O Grupo 1 obteve uma média de acertos acima da média esperada para esse
questionário, que foi de 51% de acertos, ou 7,5 pontos. Já o Grupo 2 não atingiu a
média estipulada, ficando 0,28 ponto abaixo.

A partir dos resultados demonstrados no GRÁFICO 8, pode-se observar que


64,94% do Grupo 1 obtiveram menção “Bom”, o que significa intervalo de acertos
maior ou igual a oito e menor ou igual a onze. Já no Grupo 2, 60,71% obtiveram
menção “Bom”.

4.1.5.1 Discussão dos resultados do questionário/teste

O resultado geral do teste reflete o conhecimento dos Alunos na disciplina AMT


atualmente. Não é possível levantar uma média histórica, tendo em vista que esse
tipo de teste foi aplicado pela primeira vez na ESA.
Diante dos resultados médios obtidos nas três partes do teste, verificou-se que
a amostra dos Alunos da ESA examinada demonstrou conhecimento variável sobre o
conteúdo armamento, munição e tiro. É possível observar que o assunto que
descompensou o nível de conhecimento entre os Alunos dos dois grupos foi o assunto
munições. O Grupo 1, que recebeu a instrução sobre munições, conseguiu se
sobressair na média geral no conteúdo armamento, munição e tiro.
O Grupo 2 não conseguiu atingir a média mínima esperada de 51% de acertos,
ou média de 7,5 pontos. Quando examinado apenas os assuntos armamento e tiro (1ª
e 3ª partes do questionário, respectivamente), o resultado apresentado para esses
assuntos se mostra bastante interessante, na medida em que todas as opções de
resposta apresentaram percentual semelhantes. Dessa forma, vemos um maior
equilíbrio entre os grupos, e ambos superam a média mínima esperada de 51%, como
pode-se observar no gráfico a seguir:
100

78,00%
76,00% 74,99%
74,00%
Grupo 1
72,00% 71,14%
70,00% Grupo 2
68,00%
66,00%
64,00%
62,00%
60,00%
Média da 1ª e 3ª partes

GRÁFICO 9: Média de acertos das 1ª e 3ª partes do questionário.


Fonte: O Autor

4.1.6 Conclusão parcial

Viu-se que a estrutura atual do ensino de AMT na ESA fornece uma carga
horária destinada ao assunto “tipos de munição”, tendo como um dos objetivos
descrever as características delas. Porém, o que se vê na prática, é uma falta de
abordagem do assunto, e também uma falta de fonte de consulta militar para embasar
tal instrução. Isso ocorre em detrimento das instruções de armamento e de tiro, tendo
em vista serem abordadas a contento, com carga horária também definida e com
fontes de consulta militares capazes de suprir a demanda dos objetivos de instrução.
Observou-se que o Grupo 1 obteve um resultado geral no questionário/teste melhor
que o Grupo 2. Pode-se concluir que houve um impacto positivo considerável no
resultado do questionário/teste, fruto da instrução sobre munições ministrada ao
Grupo 1 em detrimento ao Grupo 2. Dessa forma, responde-se à questão de estudo
“Como é estruturado o ensino de AMT na ESA atualmente, de acordo com o PlaDis,
e qual o impacto de uma mudança no conteúdo de AMT na formação?”.
Como os sargentos formados na ESA são classificados para servirem em
quartéis por todas as regiões do Brasil, eles se tornam um dos principais vetores de
informação e instrução nos corpos de tropa. Geralmente se dá ao sargento recém-
formado a responsabilidade de ensinar sobre fundamentos de tiro e sobre os tipos de
munição para os soldados recrutas da Organização Militar a qual pertence. Contudo,
assim como na ESA, os Planos Padrão de instrução na tropa também preveem a
101

instrução sobre munições, sem o Exército possuir uma fonte de consulta militar sobre
o assunto. Conclui-se que a estrutura da instrução nos corpos de tropa é semelhante
à ESA, portanto apresentam uma lacuna sobre o assunto munições, podendo
acarretar num impacto abaixo do possível de se alcançar na instrução. Dessa forma,
responde-se à questão de estudo formulada: “Como é estruturada a instrução de AMT
nos corpos de tropa, de acordo com os PP do COTer?”.
Ao procurar responder à questão de estudo formulada, “Quais os materiais de
consulta de ensino militar, que abordam o assunto munições, no âmbito das Forças
Armadas nacionais, internacionais e órgão de segurança pública no Brasil?”,
chegamos a conclusão de que no Exército Brasileiro não existe uma fonte de consulta
padronizada, que normatize conceitos sobre as características das munições. Apesar
de encontrar-se notas de aula em alguns cursos militares do EB sobre munições, elas
apresentam conceitos difusos, não padronizados, incompletos e por vezes muito
rasos para a formação técnica do sargento combatente. Assim também é na Força
Aérea, onde não foram encontrados materiais didáticos, na formação, que trata
especificamente do assunto munições, apesar de possuírem uma matéria de instrutor
de tiro, específica para habilitar militares a serem instrutores de tiro para formação de
outros militares. Já no Corpo de Fuzileiros Navais, encontra-se o material mais
completo no que diz respeito ao ensino de AMT, onde é abordado o assunto munições
na mesma proporção de armamento e tiro, ainda que seja através de instrução e nota
de aula. Nos Exércitos do Uruguai, Portugal e Estados Unidos, existe material didático
direcionado para as características das munições, sendo o do Exército do Uruguai o
mais completo e que mais se aproxima de uma situação ideal e visualizada para a
ESA. Vale frisar que nos órgãos de segurança pública pesquisados a maioria deles
apresenta um material específico sobre munições, ensinado durante a formação de
seus agentes. Viu-se que é unanimidade nesses órgão que o ensino de AMT não pode
ser dissociado da instrução sobre munições. Isso ficou claro na pesquisa realizada,
quando se observou que o Grupo 2 obteve um desempenho muito inferior na parte do
questionário/teste que tratou sobre munições, em relação ao Grupo 1.
Verificando apenas os resultados das 1ª e 3ª partes do teste, o Grupo 2
apresentou uma média superior ao mínimo esperado, com um desempenho bastante
expressivo e mais próximo ao desempenho obtido pelo Grupo 1. Daí é possível
concluir que os Alunos que não receberam a instrução sobre munições já possuem o
conhecimento sobre armamento e tiro, provavelmente mais consolidados por existir
102

fontes de consulta militar que possibilitam ao instrutor aplicar melhor as técnicas de


ensino. Já em relação à 2ª parte do teste, ficou claro que a instrução sobre munições,
baseada na proposta de caderno de instrução sobre munições, influenciou
diretamente o resultado positivo do Grupo 1 no teste de AMT. Assim, o Grupo 1
apresentou um bom desempenho não só na 2ª parte, como no resultado geral. Esses
resultados respondem à última questão de estudo formulada: “Que média de
rendimento escolar os Alunos da ESA apresentam na matéria AMT atualmente, e se
essa média aumentaria caso houvesse um caderno de instrução sobre munições?”.

4.2 DISCUSSÃO DAS ENTREVISTAS

Em seguida serão analisadas as entrevistas realizadas, onde será possível


concluir parcialmente sobre como a apreciação de especialistas vai ao encontro dos
dados obtidos no experimento apresentado no item anterior.

4.2.1 Entrevista com instrutores

Interessante destacar que para complementar os dados obtidos com os testes


realizados pelos Alunos, foram realizadas entrevistas dirigidas com militares
instrutores da ESA, ESLog, AMAN e 1º BPE no Rio de Janeiro. Além dos militares da
ativa, foram entrevistados também militares na inatividade, agentes de segurança
pública e civis especialistas no assunto armamento, munição e tiro. Todos eles
exercendo alguma função relativa a essa matéria em suas respectivas organizações.
Assim, conforme comentado no item anterior, o intuito das entrevistas foi
verificar a opinião de especialistas e se existe ligação com os resultados dos testes
aplicados à amostra pesquisada. Assim, foi possível verificar que os principais
comentários corroboraram com os resultados quantitativos levantados no
questionário/teste. Além disso, levantou-se uma demanda por parte de instrutores
sobre a necessidade e importância de conhecer o assunto munição na formação
militar, em particular dos sargentos de carreira combatentes formados na ESA.
É necessário salientar que os comentários e opiniões foram extremamente
relevantes, inclusive norteando os trabalhos realizados na pesquisa.
103

Entrevistado Experiência Opinião


- Atleta de tiro como
“Conhecer a munição, suas características,
Cadete na AMAN;
balística, possibilidades e imitações, é tão
- Oficial de tiro
Oficial importante quanto conhecer o armamento
instrutor da como Asp e 2º Ten;
que está utilizando. Afinal, com a escolha da
ESA e
munição correta, pode-se obter diferentes
- Competidor de tiro
efeitos em um mesmo alvo.”
prático
“A existência de fonte de consulta sobre o
- Possuidor do
assunto padroniza o conhecimento no
Estágio de Caçador
Sargento âmbito do EB, evitando a difusão de
monitor da do EB; e
informações errada e/ou equivocadas devido
ESA - Competidor de tiro
ao grande número de fontes, muitas das
de precisão.
quais sem credibilidade.”
- Atleta de tiro
olímpico como
Cadete na AMAN;
- Atleta de tiro da
CDE (Confederação
de Desportos do
Exército);
- Instrutor de tiro
Instrutor
Chefe da olímpico na Escola “Existem muitos assuntos relacionados ao
Seção de de Educação Física tiro que merecem respeito. Esse é um deles.
Tiro da ESA do Exército
(EsEFEx);
- Possuidor do
estágio de caçador
do EB; e
- Participou de
diversas
competições de tiro
104

internacionais
representando as
Forças Armadas do
Brasil; e
- Foi instrutor da
Seção de Tiro da
AMAN.
- Atleta de tiro como
Cadete da AMAN;
- Atleta de tiro
olímpico da CDE;
- Instrutor de tiro da
Seção de Tiro da
“Importante (o caderno de instrução)
AMAN;
Instrutor principalmente para ser abordado nas
- Possuidor do
Chefe da escolas de formação de forma a
Seção de estágio de caçador
proporcionar ao instruendo a exata
Tiro da do EB; e
AMAN compreensão das munições dos
- Participou de
armamentos de dotação.”
diversas
competições de tiro
internacionais
representando as
Forças Armadas do
Brasil
- Possuidor do
“Um caderno de instrução serviria por melhor
estágio de caçador
apresentar o assunto munição aos futuros
do EB;
sargentos, que terão o poder de difundir
Sargento - Atleta de tiro
monitor da esses conhecimentos nos corpos de tropa,
prático e olímpico; e
Seção de após formados. Isso contribuiria para uma
Tiro da ESA - Participou de
melhor decisão quanto ao emprego de
diversas
determinado armamento nas diversas
competições de tiro
situações que poderão ocorrer quando em
no âmbito do EB.
105

emprego real ou até mesmo em


treinamentos diversos.”
- Atleta de tiro
olímpico e tiro
defensivo como “A instrução militar do Exército Brasileiro
Cadete da AMAN; carece de aprofundamento técnico sobre as
Oficial
- Possuidor do características das munições. Nos dias de
Instrutor da
Seção de estágio de caçador; hoje percebemos que não se precisa mais
Tiro da e decidir sobre mudar um calibre para
AMAN
- Possuidor de melhorar o desempenho ou se adequar à
cursos de tiro de uma necessidade.”
combate fora da
Força.
- Perito criminal
especializado em
Oficial balística forense; e
“Extremamente importante e vem para
instrutor do - Perito no 1º BPE,
Curso de preencher uma lacuna existente na instrução
com graduações e
Perito Militar individual básica.”
do 1º BPE pós-graduações na
área de perícia
criminal.
“Acho interessante (o estudo) pois a munição
- Atleta de tiro de
é o que dá o resultado no nosso objetivo. Se
precisão; e
Sargento conhecermos bem, poderemos usar
monitor da - Especialidade em
corretamente aumentando suas
ESLog mecânica de
capacidades e, consequentemente, o melhor
armamento.
resultado da missão.”
“Excelente estudo. Atualmente as gerações
- Atleta de tiro
de oficiais e sargentos combatentes de
Oficial da olímpico, tiro
reserva carreira têm sido testadas em combate real
defensivo e tiro
instrutor de com uma certa frequência. Isso faz crescer a
tiro prático, com armas
importância do estudo mais aprofundado do
longas e curtas;
material empregado em operações, não
106

- Possuidor de apenas referente à munição, mas um


empresa de conjunto que integra material (armamento e
formação de munição) e tática (módulos de tiro de
segurança privada; combate mais específicos para a realidade
- Possui diversos encontrada em combate urbano). Isso
cursos no Brasil e corrobora com o que já vem sendo
no exterior na área desenvolvido na ESA há mais ou menos
de tiro; e quatro anos.”
- Foi por diversas
vezes convidado a
ministrar instrução
de tiro para
organizações
militares, AMAN e
ESA.
- Instrutor de tiro da
Polícia Federal; e
Policial “Acredito que o conhecimento adquirido nas
federal - Autor de obras
escolas militares é muito raso, formando
instrutor na literárias e artigos
academia de oficiais e sargentos que não conhecem à
em periódicos sobre
Polícia da fundo munições e armamentos em utilização
Polícia tiro; e
no mundo.”
Federal - Atleta de tiro
defensivo.
- Instrutor de tiro de “O conhecimento à cerca das noções
combate em básicas de balística forense são
Policial civil instituição privada; fundamentais para quem atua na segurança,
instrutor de
- Oficial reservista sobretudo para o perfeito emprego das
tiro na
academia da do EB (R2); frações no amplo espectro das operações.
Polícia Civil - Foi convidado por Isso auxilia no controle de danos, que é uma
do Estado de diversas vezes para condicionante importante para o
Santa
ministrar instruções planejamento. Conhecer a balística
Catarina
de tiro em possibilitaria uma melhor escolha das
organizações munições a serem empregadas em cada tipo
107

militares, AMAN e de missão, bem como facilitaria os trabalhos


ESA; e atinentes à perícia criminal em operações
- Autor de artigos urbanas.”
em periódicos sobre
tiro.
Quadro 8: demonstrativo dos entrevistados
Fonte: O Autor

4.2.2 Conclusão parcial

Dessa forma é possível observar nas opiniões dos entrevistados que a quase
totalidade deles destaca a importância do conhecimento sobre o assunto munições.
Alguns observaram que o conhecimento sobre este assunto nas escolas de formação
é raso e insuficiente.
Entende-se assim que muitos dos entrevistados emitiram pareceres que foram
ao encontro dos resultados obtidos nos questionários aplicados aos Alunos. Segundo
o Sargento Monitor da ESA com boa experiência militar:

A existência de fonte de consulta sobre o assunto padroniza o conhecimento


no âmbito do EB, evitando a difusão de informações erradas e/ou
equivocadas devido ao grande número de fontes, muitas das quais sem
credibilidade.

Cabe ressaltar que quando se analisa os resultados da 2ª parte do questionário,


onde os Alunos do Grupo 2 obtiveram um resultado aquém da média mínima
estipulada na pesquisa. Além disso, os Alunos do Grupo 1, que tiveram a instrução
sobre munições, obtiveram um resultado melhor que o Grupo 2 e acima da média
mínima estipulada.
Corroborando com o contexto das entrevistas, o Policial federal instrutor na
academia de Polícia da Polícia Federal entrevistado, afirmou que:

Acredito que o conhecimento adquirido nas escolas militares é muito raso,


formando oficiais e sargentos que não conhecem à fundo munições e
armamentos em utilização no mundo.
108

Nesse sentido os resultados obtidos pelo Grupo 2 demonstraram que a falta de


uma instrução no assunto munições, bem como uma fonte de consulta militar, podem
ter influenciado no resultado do questionário teste sobre armamento, munição e tiro,
haja visto que este grupo não atingiu a média de acertos mínima esperada para o
teste.
Isso exigirá, em consequência, maior familiaridade com o assunto e proficiência
no conhecimento de AMT. Acredita-se que o caminho mais adequado para esse fim
seja a ampla difusão do assunto e sua difusão como doutrina pela Força. Há que se
considerar nesse processo, igualmente, o papel do treinamento diário e progressivo,
com o propósito de tornar o conhecimento do assunto parte efetiva da cultura militar.
Durante as entrevistas, foi levantado que grande parte dos entrevistados
militares não teve contato com instrução sobre munições na sua formação militar.
Quando perguntados sobre como atingiram um bom nível de conhecimento sobre o
assunto, muitos responderam que foi necessário recorrer a cursos fora da força, fontes
de consulta diversas e artigos na internet. Outros tantos alegaram ter saído das
escolas de formação sem se sentirem seguros para ministrar uma instrução sobre as
características das munições.
Como alegou o entrevistado Sargento Monitor da ESLog:

Acho interessante (o estudo) pois a munição é o que dá o resultado no nosso


objetivo. Se conhecermos bem, poderemos usar corretamente aumentando
suas capacidades e, consequentemente, o melhor resultado da missão.

Pode-se observar que o conhecimento sobre o assunto munições está ligado


ao aumento das capacidades do militar. Como o sucesso no cumprimento de missões
está diretamente dependente das capacidades do militar em resolver problemas, este
estudo seria muito importante, principalmente nos pequenos escalões.
Essas observações, por si só, valorizam a pesquisa e sublinham sua relevância
para o Exército Brasileiro, pois é necessário que o conhecimento em tela tenha
alcance em toda a Força, evidenciando a importância das noções sobre munições de
armamentos leves.
Dessa maneira, com base no anteriormente exposto, verifica-se ser necessário
que a elaboração de um caderno de instrução sobre munições de armamentos leves,
assunto já constante em algumas publicações de ensino, seja alvo de discussões e
109

abordagens mais abrangentes e aprofundadas, sobretudo nas principais escolas


militares. Assim, é possível criar uma massa crítica capaz de contribuir para o
aprimoramento e adaptação desse conceito à realidade da cultura militar brasileira.

5 CONCLUSÃO E RECOMENDAÇÕES

Este capítulo tem por finalidade apresentar os resultados alcançados pela


pesquisa, que foi desenvolvida a partir do seguinte problema: em que medida a
elaboração de um Caderno de Instrução sobre Munições de armamentos Leves
contribuirá para melhorar a formação dos sargentos de carreira da Escola de
Sargentos das Armas (ESA)?
110

Convém salientar que o objetivo geral da pesquisa foi analisar se a atual


abordagem da disciplina de ensino sobre Armamento, Munição e Tiro, ministrado na
ESA, está de acordo com as demandas da formação profissional do sargento
combatente de carreira do Exército, com ênfase no assunto munição.
Referente à metodologia utilizada na pesquisa, foi conduzido um procedimento
experimental, no qual Alunos matriculados no curso de infantaria do CFS da ESA no
ano de 2018 participaram, pela primeira vez, de uma instrução sobre munições de
armamentos leves (Apêndice A). Tal instrução foi baseada na proposta de caderno de
instrução apresentada pelo autor da pesquisa.
Em seguida, foi aplicado um questionário/teste (Apêndice B) aos Alunos dos
cursos de infantaria, cavalaria e artilharia do CFS da ESA do ano de 2018, abordando
os assuntos armamento, munição e tiro, a fim de levantar o nível de conhecimento
nestes assuntos na formação dos sargentos da ESA atualmente. Para complementar
a pesquisa, foram realizadas entrevistas com militares, agentes de segurança pública
e civis especialistas na disciplina AMT (Apêndice C).
Por meio dos dados coletados nos testes, e das apreciações nas entrevistas,
foi possível verificar que a abordagem da disciplina AMT na ESA é deficiente no
assunto munições. As questões de estudo levantadas foram plenamente respondidas.
Por ser uma pesquisa qualitativa, ressalta-se que as percentagens oferecidas nesse
capítulo convieram somente como base para o desenvolvimento das discussões sobre
o tema e indicaram, grosso modo, como os respondentes se comportaram ante os
questionamentos.
Dessa forma, foi possível observar que o grupo de Alunos que recebeu a
instrução sobre munições, baseada no caderno de instrução sobre munições proposto
pelo autor, obteve um resultado mais expressivo no teste, em relação àquele grupo
de alunos que não teve a instrução. Isso demonstrou a influência positiva de uma fonte
de consulta militar embasando uma instrução, no caso do assunto sobre munições.
Como pode ser observado, apesar do assunto munições estar previsto na
grade curricular (PlaDis) do CFS, o modo como é abordado não é satisfatório, tendo
em vista que aquele grupo de alunos que não teve a instrução prévia de munições
obteve um resultado extremamente abaixo da média mínima considerada na
pesquisa. Através das entrevistas, observou-se entre os instrutores que a existência
de uma fonte consulta militar no assunto é extremamente importante para realizar uma
boa instrução.
111

Complementando a ideia anterior, também foi levantado que os instrutores dos


estabelecimentos de ensino, em sua totalidade, não tiveram contato com este tipo de
instrução na sua formação militar. Foi esclarecido que o conhecimento que eles têm
hoje, no assunto munições, foi buscado fora da força, em cursos, obras literárias e
periódicos especializados.
Dessa forma, através do levantamento literário no assunto, o PlaDis do CFS
(Quadros 3 a 5) mostra que existe uma carga horária prevista para a disciplina AMT
de cento e oito horas/aula. Dentro desta disciplina, o conteúdo “1. Introdução ao
estudo do armamento” prevê carga horária de duas horas/aula para o assunto “tipos
de munição”, cujos objetivos da aprendizagem são, dentre outros: “Conhecer os
diversos tipos de munição do FAL. (FACTUAL); e agir de modo autoconfiante na
classificação dos tipos de armamentos e de munição (grifo do Autor)
(ATITUDINAL).”. Além disso, o PlaDis sugere, para abordagem deste assunto, o uso
de procedimentos didáticos de palestra e demonstração. Utiliza como referência as
IGTAEx e o Manual Técnico T9-1903, abordados na revisão da literatura.
A partir do anteriormente exposto, o procedimento se iniciou com uma instrução
sobre tipos de munição para os Alunos do curso de infantaria da ESA, utilizando os
procedimentos didáticos sugeridos em PlaDis (palestra e demonstração), dentro da
carga horária prevista, porém utilizando como referência a proposta de CI sobre
munições de armamentos leves, ao invés das referências do PlaDis atual. Com isso,
os Alunos do Grupo 1 atingiram os objetivos da aprendizagem previstos em
documento, enquanto os Alunos do Grupo 2 não atingiram a média mínima estipulada
no experimento de 51% de acertos.
Acerca do que foi levantado que nos assuntos armamento e tiro, o
conhecimento demonstrado no teste foi equivalente entre os dois grupos estudados.
A variação aconteceu apenas no assunto munições. Ora, se o assunto munições faz
parte da disciplina AMT, conclui-se que a disciplina não é abordada da melhor
maneira, pois não consegue atender à demanda da formação do sargento, prevista
em documento de ensino, que é conhecer a classificação dos tipos de munição. A
pesquisa também revelou que a fonte de consulta militar proposta sobre o assunto
influenciou no resultado positivo do grupo que teve contato com ela, antes da
realização do teste.
É possível então afirmar que a elaboração de uma fonte de consulta militar
sobre munições melhora a instrução na disciplina estudada, já que cobre uma lacuna
112

de ensino. Se for levado em consideração que a disciplina AMT é essencial na


formação militar, o que é indiscutível, temos que uma melhora na instrução nessa
disciplina acarretará diretamente uma melhora na formação militar, em particular no
CFS da ESA. Obtém-se aí uma resposta à nossa questão de estudo inicial.
Esta pesquisa contribui, assim, para que o conhecimento sobre munições seja
disseminado, como já deveria ser nos bancos escolares segundo os documentos de
ensino. Cada militar formado na ESA irá ocupar funções nos diversos quartéis em
todas as regiões militares do Brasil. As instruções nos corpos de tropa certamente
terão uma melhora, e os quadros poderão discutir o assunto com mais propriedade e
embasados por uma fonte militar. Além disso, o conhecimento básico sobre munições
pode fomentar discussões e aprofundamentos no assunto, pesquisas futuras e
mudanças na forma como se emprega o tiro no Exército.
Acredita-se que com a aquisição de novos armamentos, atualmente a força
terrestre demande por conhecimento nos efeitos colaterais que a munição pode ter, e
até mesmo como o soldado no combate irá se proteger da munição utilizada pelo
inimigo. Esse tipo de pesquisa pode estimular outros trabalhos técnicos sobre
munições, vindo a definir as características de munições que melhor possa atender o
combate enfrentado pelas tropas do Exército Brasileiro, à par do que hoje é realizado
em diversos países como EUA, Alemanha e Rússia. Esses dados técnicos específicos
para os combates das tropas brasileiras atuais não puderam ser estudados, porém as
características gerais servem de base para a pesquisa futura nesse sentido.
Nesse sentido, é necessário que os conceitos específicos sejam revisados
constantemente, apesar de as características gerais das munições de armamento leve
não terem uma previsão de pesquisa de mudança de suas configurações básicas,
pois uma munição sempre precisará de um projétil, uma carga para iniciar a queima
do propelente e um estojo para unir todos os componentes.
Nesse contexto, algumas perguntas surgiram durante o levantamento da
literatura sobre o assunto:
- Até que ponto a munição utilizada pelo Exército Brasileiro é eficaz no combate
moderno?
- Seria possível utilizar uma munição mais barata para a instrução e
adestramento da tropa?
113

- Seria possível/exequível dotar as tropas de naturezas diferentes com


munições de armamentos leves diferentes? Do mesmo modo, de acordo com a
finalidade da missão?
Por intermédio do resultado geral da pesquisa, é sugerido que o CI proposto
(APÊNDICE D) seja remetido para apreciação da Diretoria de Ensino e Cultura do
Exército (DECEx), permitindo que seja aplicado também na AMAN, cursos de
formação de sargentos temporários, núcleos e centros de preparação de oficiais da
reserva e outros estabelecimentos de formação de oficiais e sargentos do Exército.
Outra sugestão seria utilizar a proposta do CI como experimental, já a partir do mais
curto prazo, para incutir nos instrutores e militares recém-formados o conhecimento
sobre o assunto. Nesse caso, abordaria todos os estabelecimentos de ensino cujo
PlaDis contém a disciplina AMT.

_______________________________
IVSON BARBOSA MARINHO - Cap

GLOSSÁRIO
114

Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN): escola militar responsável pela
formação dos oficiais de carreira das armas do Exército Brasileiro.

Aprendizagem atitudinal: propor dilemas e solicitar posicionamentos dos


discentes; fomentar as atividades em grupo; revezar os discentes em posições de
comando; utilizar rituais e rotinas; dar o exemplo; discutir valores, a partir de situações
do cotidiano militar e da realidade nacional e internacional.

Aprendizagem conceitual: puxar pelos conhecimentos dos discentes,


indagando-os e fomentando a discussão através de estudos de caso, levando-os,
deste modo a construir conceitos e a associá-Ios, através de mapas conceituais,
sempre que possível.

Aprendizagem factual: associar ao aprendizado dos conceitos e


procedimentos, agrupando-os por grau de afinidade, para facilitar a memorização.
Utilizar processos associativos, através de demonstrações entre objetos,
configurações e suas respectivas denominações.

Aprendizagem procedimental: realizar demonstrações, exercícios, distribuindo


os alunos equilibradamente (em termos técnicos). O instrutor deve apoiar direta ou
indiretamente (por intermédio de monitores) as execuções dos discentes, até que
ganhem autonomia na execução. Além disto, deve pedir aos discentes para explicar
os procedimentos que executa.

Caderno de Instrução: caderno tipo apostila, padronizado pela Diretoria de


Ensino e Cultura do Exército, que contém instruções de diversos assuntos militares.

Comando de Operações Terrestres (COTer): órgão de direção setorial do


Exército Brasileiro, responsável por orientar e coordenar o preparo e o emprego da
Força Terrestre, alinhado com as diretrizes do Estado Maior do Exército.

Comando Militar de Área: grandes comandos militares do Exército Brasileiro,


responsáveis pela coordenação das tropas de determinadas áreas espalhadas pelo
território nacional.

Corpo de Tropa: organizações militares responsáveis por formar e adestrar as


tropas operacionais do Exército Brasileiro, dentro de suas armas, quadros e serviços.

Curso de Formação de Sargentos (CFS): curso aplicado em estabelecimento


de ensino militar, específico para formação de sargentos de carreira das armas.
115

Elementos Essenciais de Informação: informações levantadas durante um


combate, ou um reconhecimento, que vão alimentar o banco de dados da área de
operações do planejamento do escalão superior.

Ensino por competências: metodologia de ensino aplicada que visa mobilizar


uma série de recursos cognitivos, integrando-os para decidir e atuar em uma família
de situações.

Escola de Sargentos das Armas (ESA): escola responsável pela formação de


qualificação dos sargentos combatentes de carreira do Exército Brasileiro, situada na
cidade de Três Corações, Minas Gerais.

Estado Maior do Exército: órgão de direção geral responsável pela elaboração


da política militar terrestre, pelo planejamento estratégico e pela orientação do preparo
e do emprego da Força Terrestre.

Instrução Individual Básica: instrução inicial dos militares recém egressos nas
escolas e nos corpos de tropa.

Plano de disciplina (PlaDis): aos moldes da finalidade dos Programas padrão


de instrução, são voltados para instrução nos estabelecimentos de ensino militares,
sob responsabilidade do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx).
Plano de sessão: documento de ensino utilizado nos corpos de tropa e nos
estabelecimentos de ensino do Exército Brasileiro, confeccionado pelo
instrutor/professor da matéria, onde é descrito como ocorrerá aquela sessão de
aula/instrução. Neles constam dados como local, horário, métodos de ensino, meios
empregados, coordenação e controle, dentre outros.

Programa Padrão (PP): documento de instrução militar desenvolvido pelo


Comando de Operações Terrestres (COTer) do Exército Brasileiro. Para cada tipo de
formação e nível hierárquico existe um Programa Padrão de instrução. Eles
direcionam o planejamento das instruções no corpo de tropa.

Sargento de Tiro da Subunidade: sargento de uma companhia, esquadrão ou


bateria responsável pelas instruções de tiro de sua fração.

Secretaria Nacional de Segurança Pública (SeNaSP): órgão público superior


de nível federal, vinculado ao Ministério da Justiça, responsável pela política
de segurança pública no país.
116

REFERÊNCIAS

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Apostila de munições: nota de aula. Resende, 2005.

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Padrão de Instrução Individual Básica. 1. ed. Brasília, DF, 2013a.

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Instrução. Qualificação do Cabo e do Soldado de Infantaria. 3. ed. Brasília, DF,
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______. ______. EB60-ME-14.061 Manual de Ensino Armamento, Munição e


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______. ______. EB20-ME-60.XXX Manual do Instrutor e do Professor no


Âmbito do Departamento de Cultura e Educação do Exército. Edição
Experimental. Brasília, DF, 2013c.
117

BRASIL. Exército. Escola de Material Bélico. Nota de Aula: Munições de


Armamento Leve e de Arremesso. Rio de Janeiro, RJ, 2000.

______.______. IG 80-01: Instruções Gerais de Tiro com o Armamento do


Exército. 2. ed. Brasília, DF, 2001b.

______. ______. Portaria nº 734/Comandante do Exército, de 19 de agosto de


2010. Conceitua Ciências Militares, estabelece a sua finalidade e delimita o escopo
de seu estudo. Brasília, DF, 2010.

______. ______. T9-1903: Armazenamento, Conservação, Transporte e


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CARVALHO, Eduardo Atem de. Novo Calibre Padrão para os Fuzis da OTAN: Os
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MATIAS, Joaquim D’Andrea. Comprimentos de cano e desempenho. Revista


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TOCCHETTO, Domingos. Balística Forense: Aspectos Técnicos e Jurídicos. 7. ed.


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VANZETTI, Oscar E. Considerações sobre a energia cinética e o momentum de
um projetil de arma de fogo: a importância médico-legal. Sítio Full Aventura, 2007.
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VALLE, Lílian de Aragão Bastos do. Aristóteles e a Práxis: uma filosofia do


movimento. Educação. Porto Alegre, v. 37, n.2, p. 263-277, mai-ago, 2014.

VASCONCELOS, Cleidison. Armas de Fogo & Autoproteção: Técnicas, Táticas e


Procedimentos. 1. ed. Porto Alegre: Alcance, 2015.

VASCONCELOS, Flávia Cristina Gomes Catunda de; DA SILVA, Ladjane P.; DE


ALMEIDA, Maria Angela Vasconcelos. Um Pouco da História dos Explosivos: da
Pólvora ao Prêmio Nobel. In: Encontro Nacional de Ensino de Química, 15., 2010,
Brasília, DF: Tópico Temático...Brasília, DF: Instituto de Química da UNB, 2010.
p.1.

VERMELHO, Luís Carlos Rodrigues. Caracterização Física e Química da Pólvora.


2012. 45 f. Dissertação (Mestrado em Engenharia Mecânica)⎯Universidade de
Lisboa, Lisboa, Portugal, 2012.

ZANOTTA, Creso M. Identificação de Munições. Vol I. São Paulo: Editora


Magnum, 1992.
120

APÊNDICE A – INSTRUÇÃO SOBRE MUNIÇÕES DE ARMAMENTOS LEVES


121
122
123
124
125

APÊNDICE B – QUESTIONÁRIO PARA ALUNOS DA ESA

1. O presente instrumento é parte integrante da dissertação de mestrado em Ciências


Militares do Cap Inf IVSON BARBOSA MARINHO, cujo tema é: “Proposta de
caderno de instrução sobre munições de armamentos leves: um estudo de caso
para a escola de sargento das armas”.
2. Pretende-se, através da compilação dos dados coletados, propor um Caderno de
Instrução (CI) como sendo esta fonte de consulta.
3. Assim, no sentido de orientar esta pesquisa, foi formulado o seguinte problema: em
que medida a elaboração de um Caderno de Instrução sobre Munições de
armamentos Leves contribuirá para melhorar a formação dos sargentos de
carreira da Escola de Sargentos das Armas (ESA)?
4. Trata-se de conhecimento de nível básico sobre munições, especificamente de
armamento leve, considerando calibres de armas de fogo entre 5,5 mm e 15,24 mm.
126

5. Condições de execução:
a. O questionário é individual.
b. Tempo máximo para execução: 60 min.
c. Deverá ser preenchido de caneta esferográfica azul ou preta.
d. O Aluno deverá estar em sala de aula do CA da ESA, com mesa e cadeira para
apoio.
e. É permitido consulta apenas em materiais didáticos disponibilizados pela ESA,
ou publicações militares do Exército Brasileiro. É vedada a consulta em outras
publicações que não as já citadas, bem como a outro militar em sala de aula.
6. Solicito que seja sincero em suas respostas, não utilize de meios de consulta e
responda baseado em seus conhecimentos aprendidos durante a sua formação.
7. Desde já, agradeço pela colaboração prestada e coloco-me à disposição para
quaisquer esclarecimentos necessários, por intermédio dos seguintes contatos:
- Nome: IVSON BARBOSA MARINHO
- Celular: (35) 99709-9730
- E-mail: marinho.ivson@eb.mil.br

IDENTIFICAÇÃO

Por favor, preencha completamente o quadro abaixo, para fins de controle e


coleta de dados do trabalho.

P/G Curso Nome (Grifar nome de guerra)

Local
Data Assinatura
(sala de aula)

QUESTIONÁRIO

1ª PARTE - ARMAMENTO
127

QUESTÃO 1: Qual o alcance de utilização do FAL? Marque com um “x” a alternativa


correta.
a. ( ) 600m
b. ( ) 500m
c. ( ) 400m
d. ( ) 300m
e. ( ) 200m

QUESTÃO 2: Qual o nome das peças que compõem o aparelho de pontaria do FAL?
Marque com um “x” a alternativa correta.
a. ( ) alça de combate e maça de combate
b. ( ) alça de mira e massa de mira
c. ( ) mira holográfica e mira laser
d. ( ) mira holográfica e mira termal
e. ( ) todas as alternativas anteriores estão erradas

QUESTÃO 3: Quais são as medidas preliminares a serem realizadas antes da


desmontagem em primeiro escalão de uma pistola? Marque com um “x” a alternativa
correta.
a. ( ) retirar o carregador, executar dois golpes de segurança, checar a câmara
b. ( ) retirar o carregador e executar dois golpes de segurança
c. ( ) executar dois golpes de segurança, destravar, desengatilhar e travar
d. ( ) retirar a chaveta retém da armação
e. ( ) todas as alternativas anteriores estão erradas

QUESTÃO 4: O que é Headscape? Marque com um “x” a alternativa correta.


a. ( ) Parte da câmara da arma de fogo que limita a entrada do cartucho no
cano.
b. ( ) Parte anterior do cano por onde o projétil “escapa” da arma.
c. ( ) Parte da arma de fogo por onde escapam os gases
d. ( ) Todas as respostas estão corretas.
e. ( ) Não sei.
128

QUESTÃO 5: Resumidamente, como se dá o ciclo de funcionamento de um Fuzil


Para-FAL? Marque com um “x” a alternativa correta.
a. ( ) através de carregamento manual a cada tiro
b. ( ) através da ação da mola recuperadora
c. ( ) através da ação do ferrolho rotativo
d. ( ) através da ação dos gases provenientes da queima da pólvora do cartucho
e. ( ) todas as respostas anteriores estão corretas

2ª PARTE - MUNIÇÃO

QUESTÃO 6: Como se mede o calibre de uma munição? Marque com um “x” a


alternativa correta.
a. ( ) Através da medida do diâmetro do estojo do cartucho.
b. ( ) Através da medida do tamanho do cartucho.
c. ( ) Através da medida do tamanho do estojo.
d. ( ) Através da medida do diâmetro do projétil.
e. ( ) Não sei.

QUESTÃO 7: Assinale “V”, para afirmação verdadeira, ou “F”, para afirmação falsa:
( ) calibre 12 é uma medida em milímetros
( ) calibre 36 é uma medida em centímetros
( ) calibre .223 é uma medida em polegadas
( ) calibre 7,62mm possui uma energia maior que o calibre .308
( ) calibre .223 possui uma energia maior que o calibre 5,56mm
( ) ACP, em munições, significa Automatic Colt Precision

QUESTÃO 8: Dê os significados das seguintes siglas para projéteis:


a. ETPT: ________________________________________________________
b. ETOG: _______________________________________________________
c. EXPO: _______________________________________________________
d. CHOG: _______________________________________________________
e. FMJ: _________________________________________________________
f. Caso não saiba, marque aqui
129

QUESTÃO 9: Quais são as partes de uma munição de armamento leve utilizada pelo
Exército Brasileiro? Marque com um “x” a alternativa correta.
a. ( ) projétil, estojo, pólvora
b. ( ) projétil, estojo, espoleta
c. ( ) projétil, estojo, propelente, espoleta
d. ( ) estojo, propelente, espoleta
e. ( ) estojo, pólvora, cápsula, projétil

QUESTÃO 10: Qual a diferença entre um cartucho 7,62mm utilizado no FAL e um


7,62mm utilizado em um fuzil AK-47? (3 linhas para resposta)
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________

3ª PARTE - TIRO

QUESTÃO 11: Cite quais são os 4 (quatro) fundamentos de tiro, de acordo com o
Manual de Campanha C 23-1 Tito das Armas Portáteis, edição 2013.
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________

QUESTÃO 12: Durante a regulagem do aparelho de pontaria do Para-FAL, para que


o tiro possa variar para o lado direito, o atirador deve ajustar que parte do fuzil? Marque
com um “x” a alternativa correta.
a. ( ) maça de mira
b. ( ) acionamento do gatilho
c. ( ) alça de mira
d. ( ) coronha no cavado do ombro
e. ( ) nenhuma das respostas anteriores
130

QUESTÃO 13: Como deve ser o acionamento do gatilho na execução de um tiro de


precisão? Marque com um “x” a alternativa correta.
a. ( ) rápido e grosseiro
b. ( ) rápido e progressivo
c. ( ) lento e progressivo
d. ( ) lento e com força
e. ( ) todas as alternativas anteriores estão corretas

QUESTÃO 14: Ao realizar a pontaria pelo aparelho de pontaria de uma pistola, onde
o atirador deve manter o foco de sua visão? Marque com um “x” a alternativa correta.
a. ( ) no alvo
b. ( ) na alça de mira
c. ( ) no alvo e na maça de mira
d. ( ) na maça de mira
e. ( ) na alça e na maça de mira
QUESTÃO 15: Levando em consideração apenas o ciclo respiratório do atirador, qual
o momento mais propício para execução de um tiro de precisão? Marque com um “x”
a alternativa correta, e leve em consideração o previsto no Manual de Campanha C
23-1 Tiro das Armas Portáteis, edição 2013.
a. ( ) ao final da inspiração, por até 6 (seis) segundos
b. ( ) ao final da expiração, imediatamente
c. ( ) com pulmão meio cheio, por até 8 (oito) segundos
d. ( ) durante a pausa natural ao final da expiração, por até 8 (oito) segundos
e. ( ) nenhuma das respostas anteriores

FIM DO QUESTIONÁRIO
Obrigado pela participação!
131

APÊNDICE C – ENTREVISTA PARA MILITARES, AGENTES E CIVIS


ESPECIALISTAS NO ASSUNTO MUNIÇÕES

1. O presente instrumento é parte integrante da dissertação de mestrado em Ciências


Militares do Cap Inf IVSON BARBOSA MARINHO, cujo tema é: “Proposta de
caderno de instrução sobre munições de armamentos leves: um estudo de caso
para a escola de sargento das armas”.
2. Pretende-se, através da compilação dos dados coletados, propor um Caderno de
Instrução (CI) como sendo esta fonte de consulta.
3. Assim, no sentido de orientar esta pesquisa, foi formulado o seguinte problema: em
que medida a elaboração de um Caderno de Instrução sobre Munições de
armamentos Leves contribuirá para melhorar a formação dos sargentos de
carreira da Escola de Sargentos das Armas (ESA)?
4. A fim de encontrar respostas para o referido problema, este questionário tem por
finalidade levantar o nível de conhecimento do assunto Munições dos sargentos
132

recém-formados na ESA. Trata-se de conhecimento de nível básico sobre munições,


especificamente de armamento leve, considerando calibres de armas de fogo entre
5,5 mm e 15,24 mm.
5. As questões com “ * ” (asterisco) são de resposta obrigatória.
6. Solicito que seja sincero em suas respostas. O resultado desta pesquisa poderá
influenciar na formação do sargento de carreira combatente do Exército Brasileiro.
7. Desde já, agradeço pela colaboração prestada e coloco-me à disposição para
quaisquer esclarecimentos necessários, por intermédio dos seguintes contatos:
- Nome: IVSON BARBOSA MARINHO
- Celular: (35) 99709-9730
- E-mail: marinho.ivson@eb.mil.br

IDENTIFICAÇÃO

Para facilitar a consolidação dos dados, por favor, preencha as informações


solicitadas no quadro abaixo:

Escola e ano de
P/G A/Q/Sv Nome (Grifar nome de guerra)
formação

Data OM/ESCOLA Assinatura

ENTREVISTA

*QUESTÃO 1: O Senhor se sente habilitado a explicar as características das munições


de armamentos leves? Porque? (3 linhas para a resposta)
133

___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________

*QUESTÃO 2: O Senhor acha importante o estudo sobre as características das


munições de armamentos leves no EB (tipos de cartuchos e características de suas
partes)?
___________________________________________________________________

*QUESTÃO 3: O Senhor acha importante o estudo (introdução do assunto), do efeito


provocado pelos projéteis em seus alvos (balística terminal ou de efeitos)? Se sim,
esse estudo seria em Escolas de Formação, Centros de Instrução ou Corpo de Tropa
como instrução de quadros?
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________

*QUESTÃO 4: O Senhor já teve interesse em pesquisar, por conta própria, sobre


munições em geral? Se sim, o que motivou a pesquisa? (3 linhas para resposta)
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
*QUESTÃO 5: O Senhor acha importante que exista um Caderno de Instrução sobre
o assunto Munições, tendo em vista que já existem fontes de consulta militares no
assunto Armamento e Tiro?
___________________________________________________________________

QUESTÃO 6: Deixe aqui uma sugestão ou comentário sobre a iniciativa deste estudo,
caso sinta necessidade. (5 linhas para resposta)
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
134

___________________________________________________________________
___________________________________________________________________

FIM DO QUESTIONÁRIO
Obrigado pela participação!

APÊNDICE D – PROPOSTA DE CADERNO DE INSTRUÇÃO SOBRE MUNIÇÕES


DE ARMAMENTOS LEVES

EB-60-CI-00.000

MINISTÉRIO DA DEFESA
135

EXÉRCITO BRASILEIRO
DECEX

CADERNO DE INSTRUÇÃO
MUNIÇÕES DE ARMAMENTOS LEVES

1ª Edição

2017
EB60-CI-00.000
136

MINISTÉRIO DA DEFESA
EXÉRCITO BRASILEIRO
DECEX

CADERNO DE INSTRUÇÃO
MUNIÇÕES DE ARMAMENTOS LEVES
137

1ª Edição

2017
PORTARIA Nº 000-DECEX, DE 00 DE XXXXXX DE 2017

Aprova o Caderno de Instrução


EB60-CI-00.000 Munições de
Armamentos Leves, 1ª Edição, 2017
.
O CHEFE DO DEPARTAMENTO DE ENSINO E CULTURA DO
EXÉRCITO, no uso da atribuição que lhe confere o Art. 113 das IG 10-42 –
INSTRUÇÕES GERAIS PARA CORRESPONDÊNCIA, AS PUBLICAÇÕES E OS
ATOS ADMINISTRATIVOS NO ÂMBITO DO EXÉRCITO, aprovadas pela Portaria do
Comandante do Exército nº 041, de 18 de fevereiro de 2002, resolve:

Art. 1º Aprovar o Caderno de Instrução EB60-CI-00.000 Munições de


Armamentos Leves, 1ª Edição, 2017, que com esta baixa.

Art. 2º Determinar que esta Portaria entre em vigor na data de sua


publicação.

Gen Ex XXXXXXXXXXXXXXXXXXX
Chefe do Departamento de Ensino e Cultura do Exército

(Publicado no Boletim do Exército nº 00, de 0 de XXXXXX de 2017)


138

FOLHA REGISTRO DE MODIFICAÇÕES (FRM)

NÚMERO DE ATO DE PÁGINAS


DATA
ORDEM APROVAÇÃO AFETADAS
139

ÍNDICE DE ASSUNTOS

Pag
CAPÍTULO I – INTRODUÇÃO
1.1 Generalidades ............................................................................................ 2
1.2 Terminologia ............................................................................................... 3
CAPÍTULO II – PARTES DE UM CARTUCHO
2.1 Considerações Iniciais ............................................................................... 7
2.2 Estojos ........................................................................................................ 8
2.3 Espoletas .................................................................................................... 14
2.4 Propelentes ................................................................................................ 17
140

2.5 Projéteis ..................................................................................................... 19


CAPÍTULO III – CALIBRES
3.1 Definição de calibre .................................................................................... 32
3.2 Notação de calibres .................................................................................... 35
3.3 Canos de alma raiada ................................................................................ 38
3.4 Calibres restritos e permitidos .................................................................... 39
CAPÍTULO IV – BALÍSTICA
4.1 Introdução .................................................................................................. 42
4.2 Balística Interna: tamanho do cano X munição .......................................... 42
4.3 Balística Terminal ....................................................................................... 44

CAPÍTULO I
INTRODUÇÃO

1.1 GENERALIDADES

1.1.1 Este Caderno de Instrução tem a finalidade de regular e normatizar a


identificação das munições de uso nos armamentos leves em geral, e de dotação das
Forças Armadas em particular, no âmbito do Exército Brasileiro. Delimitamos como
munição de armamento leve aquelas entre 5,5 mm até 15,4 mm.
141

1.1.2 Nas operações de combate, o conhecimento da munição usada pela tropa amiga
e inimiga torna-se importante tanto para quem planeja quanto para quem executa as
operações na ponta da linha. Os que planejam podem dispor suas peças de manobra
no terreno de acordo com o alcance do armamento usado pela tropa e pelo inimigo,
bem como pelo efeito causado pelo tipo de munição utilizada. Os que executam
podem decidir como progredir no terreno, quais cobertas e abrigos o estarão
protegendo, como poderão causar baixas ao inimigo, de acordo com o tipo de munição
que lhe é distribuída.
1.1.3 Nos conflitos modernos, tendo em vista os combates aproximados em áreas
edificadas com a massiva presença de civis, a escolha de munições com certas
características pode evitar efeitos colaterais para a tropa e influenciar diretamente nas
condições do apoio da população local.
1.1.4 Nesse contexto, é importante ressaltar que o resultado do tiro depende da
harmonia entre atirador, armamento e munição. O atirador deve se manter sempre
adestrado e atualizado quanto às técnicas de tiro, bem como quanto ao conhecimento
de sua arma e munição utilizados. O armamento deve ser compatível com a finalidade
a qual se destina, deve estar bem cuidado e com os acessórios adequados para cada
tipo de missão. A munição obviamente deve ser equivalente à arma, e seus efeitos
devem ser suficientes para alcançar os objetivos impostos pela missão.

Fig. 1 Trinômio atirador x armamento x munição

1.1.5 Para que todos os militares possam identificar as diversas munições de


armamentos portáteis, é importante normatizar, dentro da Força, os termos técnicos
utilizados nessa identificação, tratando basicamente: de nomenclaturas gerais, partes
142

de um cartucho, as características de cada uma das partes, e de parte do estudo da


balística.

1.2 TERMINOLOGIA

1.2.1 Munição - artefato completo, pronto para carregamento e disparo de uma arma,
cujo efeito desejado pode ser: destruição, iluminação ou ocultamento do alvo; efeito
moral sobre pessoal; exercício; manejo; outros efeitos especiais.
1.2.2 Cartucho – formado por estojo, espoleta, propelente e projétil. Uma unidade da
munição.
1.2.3 Estojo – parte da munição que une o propelente, a espoleta e o projétil.
1.2.4 Espoleta – aloja a carga iniciadora do cartucho.
1.2.5 Propelentes – são substâncias que, isoladas ou em combinação com outras,
desenvolvem um impulso motor em um objeto por meio de uma combustão. Em
munições é a pólvora.
1.2.6 Projétil – objeto que atinge o alvo.
1.2.7 Tiro – lançamento de projétil balístico de uma arma.
1.2.8 Balística – ciência que estuda todas as fases do lançamento de um projétil.
1.2.9 Latão – liga de zinco e cobre utilizada na fabricação de estojos.
1.2.10 Stopping Power (poder de parada) – capacidade do projétil de incapacitar um
alvo vivo, através de transferência de energia cinética e de massa para o alvo.
1.2.11 Grains (Gr) – medida de peso utilizada para pólvoras e projéteis nas munições.
1 grain = 0,065g.
1.2.12 Headspace – espaço que delimita a entrada do cartucho na câmara do cano
através de uma parte do estojo, podendo ser o culote, o gargalo ou até mesmo a boca
do estojo.
1.2.13 Calibre - medida do diâmetro interno do cano de uma arma, medido entre os
fundos do raiamento; medida do diâmetro externo de um projétil sem cinta;
dimensão usada para definir ou caracterizar um tipo de munição ou de arma.
1.2.14 Deflagração - fenômeno característico dos chamados baixos explosivos, que
consiste na autocombustão de um corpo (composto de combustível, comburente e
outros), em qualquer estado físico, a qual ocorre por camadas e a velocidades
controladas (de alguns décimos de milímetro até quatrocentos metros por segundo).
143

1.2.15 Detonação - fenômeno característico dos chamados altos explosivos que


consiste na auto propagação de uma onda de choque através de um corpo
explosivo, transformando-o em produtos mais estáveis, com liberação de grande
quantidade de calor e cuja velocidade varia de mil a oito mil e quinhentos metros por
segundo.
1.2.16 Explosão - violento arrebentamento ou expansão, normalmente causado por
detonação ou deflagração de um explosivo, ou, ainda, pela súbita liberação de
pressão de um corpo com acúmulo de gases.
1.2.17 Explosivo - tipo de matéria que, quando iniciada, sofre decomposição muito
rápida em produtos mais estáveis, com grande liberação de calor e desenvolvimento
súbito de pressão.
1.2.18 Iniciação - fenômeno que consiste no desencadeamento de um processo ou
série de processos explosivos.
1.2.19 Raias - sulcos feitos na parte interna (alma) dos canos ou tubos das armas de
fogo, geralmente de forma helicoidal, que têm a finalidade de propiciar o movimento
de rotação dos projéteis, ou granadas, que lhes garante estabilidade na trajetória.
1.2.20 Provete - são canos de armas de fogo utilizados em laboratórios, para
ensaios balísticos, onde é possível controlar as variáveis.
1.2.21 Tombak – liga metálica usada para recobrir o núcleo de chumbo de um
projétil.
1.2.22 Ante carga – sistema de carregamento de arma de fogo que é realizado pela
boca do cano, pelo próprio atirador.
1.2.23 Retrocarga – sistema de carregamento de arma de fogo que é realizado pela
câmara, através de um cartucho.
1.2.24 Higroscopicidade – capacidade que uma substância tem de resistir aos
efeitos da umidade.
1.2.25 Nitrocelulose – substância feita de fibras do algodão, utilizada para
confeccionar explosivos.
1.2.26 Ação Simples - tipo de ação de arma de fogo na qual é necessário que o cão
seja armado para se efetuar o disparo; sistema de ação de revólver, que precisa que
o cão seja armado manualmente a cada tiro para poder disparar.
1.2.27 Ação dupla – tipo de ação de arma de fogo na qual é necessário que o cão
seja armado para se efetuar apenas o primeiro disparo (como uma ação simples),
144

sendo os demais disparos efetuados sem a necessidade de armar o cão (o gatilho


exerce essa função a partir do segundo disparo).
1.2.28 Dupla ação – tipo de ação de arma na qual o gatilho exerce duas ações
simultâneas: arma o cão e executa o disparo.
1.2.29 Arma de fogo - arma que arremessa projéteis empregando a força expansiva
dos gases gerados pela combustão de um propelente confinado em uma câmara
que, normalmente, está solidária a um cano que tem a função de propiciar
continuidade à combustão do propelente, além de direção e estabilidade ao projétil.
1.2.30 Espingarda - arma de fogo portátil, de cano longo com alma lisa, isto é, não-
raiada.
1.2.31 Carabina - arma de fogo portátil semelhante a um fuzil, com tamanho do cano
até 20 polegadas - cano longo, com alma raiada.
1.2.32 Fuzil - arma de fogo portátil, de cano longo (acima de 20 polegadas) e cuja
alma do cano é raiada.
1.2.33 Metralhadora - arma de fogo portátil, que realiza tiro automático.
1.2.34 Submetralhadora – arma de fogo portátil, que realiza tiro automático, com
canos de tamanho até 10 polegadas.
1.2.35 Pistola - arma de fogo de porte, geralmente semiautomática, cuja única
câmara faz parte do corpo do cano e cujo carregador, quando em posição fixa,
mantém os cartuchos em fila e os apresenta sequencialmente para o carregamento
inicial e após cada disparo; há pistolas de repetição que não dispõem de carregador
e cujo carregamento é feito manualmente, tiro-a-tiro, pelo atirador.
1.2.36 Revólver - arma de fogo de porte, de repetição, dotada de um cilindro giratório
posicionado atrás do cano, que serve de carregador, o qual contém perfurações
paralelas e equidistantes do seu eixo e que recebem a munição, servindo de
câmara.
1.2.37 Mosquetão – arma de fogo de emprego militar, com cano acima de 20
polegadas, de repetição por ação de ferrolho montado no mecanismo da culatra,
acionado pelo atirador por meio da sua alavanca de manejo.
1.2.38 Gas check – pequena lâmina circular, feita de cobre, que protege a base do
projétil contra as pressões dos gases emitidos pela explosão do propelente dentro
do cartucho.
145

1.2.39 Pólvora - baixo explosivo de queima rápida, cuja reação química produz
grande quantidade de energia. Na munição, essa energia sob pressão dentro do
estojo permite a expulsão do projétil pelo cano da arma de fogo.

CAPÍTULO II
PARTES DE UM CARTUCHO

2.1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS


2.1.1 O cartucho moderno, como o vemos hoje, é dividido em:
146

a. estojo;
b. espoleta;
c. propelente; e
d. projétil.

Projétil

Estojo

Propelente

Espoleta

Fig. 2 esquema de um cartucho seccionado.

2.1.2 Temos ainda, com uma configuração um pouco diferente, os cartuchos para
espingardas, formados por:
a. Estojo;
b. Espoleta;
c. Propelente;
d Bucha; e
e. Projétil.

Fig. 3 Desenho esquemático de um cartucho de espingarda

2.1.3 O estojo é onde se agregam todas as outras partes do cartucho. Tem a finalidade
de unir a espoleta, o propelente e o projétil em uma única peça, facilitando o
carregamento da arma. Foi com o seu surgimento que se modernizaram as armas de
fogo, passando de um sistema de carregamento de antecarga para retrocarga.
147

2.1.4 A espoleta é a carga de iniciação, responsável pela queima rápida do propelente.


Se encontra no culote do estojo.
2.1.5 O propelente é responsável, após sua combustão, pela projeção do projétil para
fora do cano da arma em direção ao alvo. Isso se dá pela expansão dos gases criados
dentro do estojo pela sua queima. Fica alojado no interior do corpo do estojo.
2.1.6 O projétil é a razão de ser do cartucho, pois é ele que, efetivamente, atinge o
alvo e causa danos. O resultado final ao atingir o alvo dependerá de seu formato,
composição e armamento que está sendo utilizado. O projétil é encaixado na boca do
estojo ou no interior do cartucho.

2.2 ESTOJOS

2.2.1 Nas munições utilizadas pelas Forças Armadas os estojos são fabricados de
latão, uma liga metálica de 70% cobre e 30% zinco. O latão permite uma facilidade na
produção industrial, não enferruja, pode ser recarregado, e possui uma dureza tal que
permite uma expansão e contração por meio de calor necessária ao funcionamento
das armas de fogo.
2.2.2 Existem também os estojos que possuem uma base de aço revestida com uma
camada de latão, e seu corpo de plástico. Esses são os estojos de armamentos de
cano com alma lisa, basicamente as espingardas. O plástico é um material
abundantemente produzido em escala industrial e também permite, mesmo que
limitadamente, que os cartuchos de espingarda possam ser recarregados.
2.3.3 Existem ainda os estojos feitos de alumínio, que possuem um valor, em média,
30% menor e são utilizados geralmente para atiradores que não têm interesse em
recarga de munições. Não é utilizado pelas Forças Armadas.
2.3.4 São partes de um estojo:
a. culote ou base: é onde se aloja a espoleta;
b. corpo: em seu interior fica o propelente e possui diversos formatos; e
c. virola: saliência entre o culote e o corpo do estojo que permite a extração do
cartucho.

Virola
Corpo
Culote
148

Fig. 4 Imagem de um estojo vazio.

2.3.5 Os estojos são classificados quanto:


a. ao formato de seu corpo;
b. aos tipos de culote ou base; e
c. ao tipo de carga de iniciação.
2.3.6 Classificação quanto ao formato do corpo: a classificação quanto ao formato do
corpo do estojo serve para verificar a maneira pela qual eles vão se alojar na câmara
do armamento e no Headspace:
a. Cilíndrico: é o formato mais utilizado em cartuchos de armas curtas, particularmente
os revólveres. Ex.: .38, .357 Magnum. Não é utilizado por tropas regulares das Forças
Armadas.
b. Cônico: utilizado em alguns cartuchos de armas curtas, particularmente as pistolas
semiautomáticas, e facilitam o alojamento do cartucho na câmara. Ex.: 9mm
Parabellum, .380 ACP, .40 S&W.
c. Garrafa: utilizado geralmente nos cartuchos de carabinas e fuzis automáticos e
semiautomáticos (armas longas). Possuem um afunilamento na sua parte anterior,
chamado de gargalo. O gargalo é o responsável por limitar a entrada do cartucho no
interior do cano, permitindo a percussão e extração do estojo vazio após o disparo.
Ex.: 7,62x51 NATO, 5,56mm NATO, .308 WIN e .223 Remington.

Fig. 5 Tipos de estojos.


149

2.3.7 Os estojos tipo garrafa utilizados em armas longas de dotação do EB são


cônicos. A olho nu a inclinação que diferencia os estojos cônicos e cilíndricos é
apenas levemente perceptível.
2.3.8 Classificação quanto aos tipos de culote ou base: a classificação quanto ao
tipo de culote do estojo serve para verificar a maneira pela qual eles vão se alojar na
câmara do armamento e no headspace, assim como o formato do estojo. Podemos
identificar também, através do tipo de culote, qual o tipo de carga iniciadora:
a. Com aro: possuem um culote com diâmetro maior que o do corpo do estojo.
Geralmente utilizados em revólveres e servem como limitadores da entrada do
cartucho na câmara. São também os estojos utilizados em cartuchos de fogo
circular. Ex.: .38 special, .357 Magnum, .22 LR.

Fig. 6 Cartuchos com aro .22 LR


b. Semi aro: possuem um culote com diâmetro ligeiramente maior que o do corpo do
estojo, e tem a função de limitador da entrada do cartucho na câmara. Ex.: .32 AUTO.

Fig. 7 Cartucho semi aro .32 S&WL CBC

c. Sem aro: o diâmetro do culote é alinhado com o diâmetro do corpo do estojo. São
atualmente os mais utilizados. São esses os estojos utilizados no âmbito das Forças
150

Armadas. O limitador da entrada desses estojos na câmara de um armamento é a


interseção do estojo com o projétil. Ex.: 5,56mm NATO, 9mm Parabellum.

Fig. 8 Cartucho sem aro 9mmx19 Parabellum e 9mmx23 Steyr, respectivamente

d. Rebatido: o diâmetro do culote é menor que o diâmetro do corpo do estojo. São


pouco utilizados. O limitador da entrada desses estojos na câmara de um armamento
é a interseção do estojo com o projétil. Ex.: .50 Beowulf.

Fig. 9 Comparação entre um cartucho sem aro (à esquerda) e outros rebatidos (à direita)

e. Cinturado: possuem uma cinta que envolve a parte imediatamente acima da virola.
Servem como um reforço adicional às altas pressões exercidas por ocasião de um
disparo. Utilizados geralmente em munições para caças de grande porte. O limitador
da entrada desses estojos na câmara de um armamento é a própria cinta que o
envolve. Ex.: .458 Winchester Magnum.
151

Fig. 10 Cartucho cinturado

Com aro Semi aro Sem aro Rebatido Cinturado

Fig. 11 Desenho esquemático das bases de cartuchos

Com aro e Garrafa Cinturado Sem aro e


Semi aro rebatido

Fig. 12 Desenho esquemático mostrando como são os limitadores de câmara de cada tipo de estojo
(headspace)

2.3.9 Classificação quanto aos tipos de carga de iniciação: Os estojos também são
classificados quanto ao tipo de carga de iniciação, ou formato da espoleta que alojam.
152

Podem ser classificados como de fogo central, ou percussão central; e de fogo


circular, ou percussão lateral.
2.3.10 Fogo central ou percussão central: são estojos onde a espoleta, ou carga
iniciadora, se encontra encaixada no centro do culote. Tem a vantagem de,
geralmente, poder ser recarregado. Ex.: 5,56mm NATO. Podem alojar três tipos de
espoletas: Boxer, Berdan ou Bateria.
2.3.11 Os estojos que alojam espoletas do tipo Berdan possuem dois eventos que
permitem que a energia da explosão da carga iniciadora seja transmitida para dentro
do corpo do estojo, e uma bigorna acoplada ao estojo.
2.3.12 Os estojos que alojam espoletas do tipo Boxer possuem apenas um evento,
sem a bigorna.

Fig. 13 Imagem do culote de um cartucho de fogo central .380 AUTO

2.3.13 Fogo circular ou percussão lateral: são estojos cuja carga iniciadora é alojada
no interior do culote, em sua borda. O percussor atinge o fundo do culote, em sua
parte mais lateral, amassando o latão e causando um choque que inicia a carga no
interior do cartucho. Não podem ser recarregados. Ex.: .22 LR.

Fig. 14 Imagem de um cartucho de fogo circular .22 LR


153

2.4 ESPOLETAS

2.4.1 As espoletas modernas também são produzidas em latão, e são em formato de


copo. Nos cartuchos de fogo central ficam alojadas em um orifício no centro do
culote do estojo, e transmitem a onda de choque proveniente de sua detonação
através de eventos ou orifícios no estojo. A detonação ocorre após o percussor
esmagar a base da espoleta, que se comprime de encontro a uma protuberância
chamada de bigorna. A bigorna está presente como componente da espoleta ou do
estojo.

Fig. 15 Imagem de uma espoleta tipo Boxer desmontada

2.4.2 A maioria das espoletas atuais são compostas por estifinato de chumbo (sal de
chumbo) e nitrato de bário, apesar de possuírem características de substâncias
tóxicas. Porém, existem espoletas sendo fabricadas com características não tóxicas,
compostas por nitrocelulose, nitrato de potássio, alumínio e Diazodinitrofenol (DDNP),
nominadas NTA (Non Toxic Ammunition). Ambas as composições são bastante
estáveis e não corrosivas.
2.4.3 As espoletas são classificadas como tipo Berdan, tipo boxer e tipo bateria
2.4.4 Espoletas tipo Berdan: tem esse nome por ter sido criada pelo norte americano
Hiram Berdan no Estados Unidos, em 1866. Consiste em um dispositivo em formato
de copo, que vai alojado no centro do culote de um estojo, que possui uma pequena
protuberância chamada de bigorna. No momento da percussão, o impacto do
percutor/percussor da arma sobre a espoleta a deforma, pressionando desta forma a
mistura iniciadora contra a bigorna, detonando a mistura. Nessas espoletas temos a
bigorna como parte integrante do estojo. Ao lado da bigorna, dois pequenos orifícios
154

permitem a passagem do calor proveniente da detonação da mistura iniciadora,


causando a explosão do propelente no interior do estojo. 2.4.5 São partes de uma
espoleta Berdan:
a. Copo – feito de latão e serve para unir os componentes;
b. Mistura iniciadora – estifinato de chumbo (em geral); e
c. Selador – pequeno disco de papel que serve para acomodar a mistura iniciadora
no copo.

Fig. 16 Desenho esquemático de uma espoleta tipo Berdan

2.4.6 Espoletas tipo Boxer: tem esse nome por ter sido criada pelo oficial britânico
Edward Boxer em meados do século XIX. O que a difere do sistema Berdan é que a
bigorna não é parte do estojo, ela vem embutida como parte da própria espoleta. Além
disso, o estojo possui apenas um orifício que permite a passagem do calor emitido
pela detonação da mistura iniciadora até o interior do estojo para explodir o propelente.
A bigorna possui um formato tipo cavalete de três pernas e se encaixa no copo da
espoleta, podendo ser retirada. 2.4.7 É o tipo mais utilizado entre atiradores que
realizam recarga e na munição usada pelos militares das Forças Armadas. São partes
de uma espoleta Boxer:
a. Copo – feito de latão e serve para unir os componentes;
b. Mistura iniciadora – estifinato de chumbo (em geral);
c. Selador – pequeno disco de papel que serve para acomodar a mistura iniciadora
no copo;
d. Bigorna – feita de metal.
155

Fig. 17 Desenho esquemático de uma espoleta tipo Boxer

2.4.8 Espoletas tipo bateria: são as espoletas utilizadas nos cartuchos de espingardas.
São maiores que as Berdan e Boxer por terem que suportar uma pressão maior de
energia devido a maior quantidade de mistura iniciadora. Possui a bigorna no formato
de uma bateria, o que facilita a recarga e impede que a espoleta saia facilmente.
a. Corpo (1) – feito de latão e aloja os demais elementos;
b. Copo (2) – recebe a mistura iniciadora;
c. Selador (3a e 3b) – sela a mistura iniciadora e a bigorna;
d. Bigorna (4) – feita de metal, tipo bateria; e
e. Mistura (5) - estifinato de chumbo (em geral).

5
Fig. 18 Desenho esquemático de uma espoleta tipo bateria

2.5 PROPELENTES

2.5.1 É a substância propulsora que irá queimar dentro do estojo, causando uma
pressão tal que expulsa o projétil engastado na boca do cartucho até atingir o alvo,
com altas velocidades. Os propelentes utilizados nas munições modernas possuem
compostos químicos e o produto de sua reação é uma combustão que emite grande
quantidade de energia e pressão, por isso são chamados também de pólvoras
156

químicas. Diferentemente das pólvoras mais antigas - as pólvoras negras, assim


chamadas por produzirem uma fumaça negra após sua explosão e que eram
compostas por nitrato de potássio, carvão e enxofre (mistura sem reação química) -
as pólvoras modernas de reação química praticamente não emitem fumaça.
2.5.2 Outros fatores que ajudaram à ascensão da pólvora química é sua maior
estabilidade e higroscopicidade, aumentando a segurança em seu armazenamento e
resistência a umidade. Em propelentes para munições, os fabricantes revestem a
pólvora com grafite, o que lhe garantem a cor acinzentada. Isso impede que a
eletricidade estática cause ignições indesejadas, dando mais segurança no transporte
e armazenamento. As pólvoras químicas são classificadas em três tipos: pólvora base
simples (BS); pólvora base dupla (BD); e pólvora base tripla (BT).
2.5.3 Pólvora Base Simples (BS): as pólvoras BS são compostas quase
exclusivamente por nitrocelulose e gelatinizado com álcool etílico como solvente.
Possui uma temperatura de queima mais baixa que as outras pólvoras, preservando
os canos das armas; gera menos energia que as demais pólvoras; conserva melhor
suas propriedades perante grandes variações de temperatura (tanto negativas quanto
positivas); e possui excelente higroscopicidade. É o propelente usado nas munições
empregadas pelas Forças Armadas. Ex.: 7,62x51 NATO, 9mm Lugger.
2.5.4 Pólvora base dupla (BD): as pólvoras BD são compostas por nitrocelulose e
nitroglicerina, numa proporção de 50% / 50%. A adição da nitroglicerina no propelente
oferece uma maior energia na hora da combustão. Apesar da nitroglicerina ser
bastante instável, a nitrocelulose consegue dar maior estabilidade ao propelente.
Outras características do propelente de BD são: a maior velocidade de queima,
exigindo um reforço maior do cano da arma de fogo; maior sensibilidade às variações
de temperatura em relação à pólvora BS; maior resistência à umidade; iniciação de
queima mais rápida que as pólvoras BS. Vale ressaltar que não é recomendável
utilizar uma munição com pólvora BD em uma arma feita para receber uma munição
com pólvora BS, mesmo sendo de mesmo calibre, como, por exemplo, adaptar uma
munição de .357 Magnum em um revólver .38. É geralmente utilizada para munições
de caça de animais de grande porte. Ex.: .357 Magnum, .44 ACP.
2.5.5 Pólvora base tripla (BT): as pólvoras BT são compostas por nitrocelulose,
nitroglicerina e nitroguanidina. Tem enorme velocidade de queima e despendem
grande quantidade de energia. Não são utilizadas em armas portáteis, e seu uso é
para mísseis ou munições de morteiros de grandes calibres.
157

2.5.6 As pólvoras são produzidas com vários formatos e tamanhos, dependendo de


sua finalidade. Devido à importância da velocidade de queima das pólvoras no
desempenho da balística do projétil, raramente as pólvoras se apresentam em pó, e
geralmente são confeccionadas em grânulos. Existem basicamente três formatos de
pólvoras químicas principais: cilíndricas: não perfuradas, monoperfuradas e
heptaperfuradas; disco compacto e disco; e lâminas de formato quadrado ou
retangular, e espessuras variadas.

Fig. 19 Desenhos esquemáticos dos formatos de pólvoras

2.5.7 Os formatos e tamanhos irão determinar, basicamente, a velocidade da queima


do propelente. Essa velocidade é medida em milissegundos, e tem relação direta entre
o tamanho do cano da arma e o efeito do projétil. Via de regra, usa-se pólvora com
velocidade de queima lenta para armas longas, e pólvoras com velocidade de
queima rápida em armas curtas.

Fig. 20 Desenho esquemático da forma de queima de pólvoras cilíndricas

2.5.8 Pólvoras de queima rápida são utilizadas para cartuchos de armas curtas porque
farão com que a total combustão do propelente se dê no momento em que o projétil
158

passa totalmente pela boca do cano da arma de fogo. Isso fará com que o potencial
da queima da pólvora seja totalmente aproveitado para empurrar o projétil para fora
do cano da arma, imprimindo nele uma velocidade máxima na saída da boca do cano.
2.5.9 Já as pólvoras de queima lenta são utilizadas para cartuchos de armas longas
pelo fato de que o projétil demora mais tempo para sair pela boca do cano da arma.
2.5.10 Quando se utiliza uma pólvora de queima rápida numa arma longa, a queima
da pólvora termina antes do projétil sair pela boca do cano da arma. Isso faz com que
o projétil saia do cano com uma velocidade mais lenta. Já o contrário, a queima da
pólvora não se dá por completo, e grânulos saem do cano ainda não queimados,
causando um desperdício de pólvora – a chamada pólvora incombusta.

2.5.11 Vemos então que teremos efeitos balísticos diferentes utilizando um mesmo
tipo de cartucho com armamentos diferentes, mas de mesmo calibre. Exemplo: FAL
FN 7,62mm M964, com cano de 21 polegadas, e Para-FAL 7,62mm com cano de 17
polegadas.
2.5.12 As pólvoras mais usadas nas munições para armamentos leves de dotação do
EB são as de formato tubular mono perfuradas nas munições para armas longas, e
disco compacto nas munições para armas curtas.

2.6 PROJÉTEIS

2.6.1 Via de regra, qualquer objeto sólido que pode ser lançado por uma energia que
o impulsiona pode ser considerado um projétil balístico. Ex.: pedras, flechas, esferas
de metal, etc. Em se tratando de armas de fogo modernas, os projéteis são
confeccionados de uma maneira tal que lhe darão uma melhor balística para alcançar
a finalidade que é atingir um determinado alvo.
2.6.2 Em se tratando de cartuchos de armas curtas e submetralhadoras, o principal
efeito balístico esperado de um projétil para estas armas é a máxima transferência de
sua energia cinética para o alvo. Já os projéteis de cartuchos para fuzis, carabinas e
metralhadoras, espera-se um efeito balístico de perfuração, fragmentação ou
especial, principalmente quando se trata de uso militar. Atualmente, muito se tem
pesquisado e criado para atender uma demanda de combates modernos que é um
projétil capaz de transferir o máximo de energia para o alvo, e ao mesmo tempo ter
159

certo poder de penetração e fragmentação, de forma que o projétil consiga causar


danos mesmo que o alvo esteja atrás de um anteparo ou abrigo.
2.6.3 Os projéteis para armas de fogo são fabricados geralmente com chumbo
associado a outros metais formando uma liga, o deixando mais mole ou mais duro,
dependendo de sua finalidade. Além disso o chumbo possui um baixo ponto de fusão,
permitindo uma maior deformação que irá facilitar a aderência nas raias de um cano
ou na transferência de energia para o alvo. Porém projéteis de chumbo também
podem danificar o cano do armamento devido exatamente ao seu baixo ponto de
fusão, ocorrendo o chumbamento do cano, quando essa substância se derrete e gruda
no interior das raias. Para estes casos existem os projéteis com núcleo de chumbo
revestidos com outros materiais, infringindo-lhe velocidade, maior poder de perfuração
e protegendo o cano da arma de fogo. Apresentam-se em diferentes formatos, pesos
e calibres, e são essas diferenças que darão as características da balística externa e
balística terminal do projétil.
2.6.4 Existem ainda projéteis confeccionados com outros materiais como o aço e o
cobre, sendo projéteis maciços. Já os projéteis revestidos, podem ter seu
revestimento total ou parcial, como veremos a seguir. Vale salientar que os cartuchos
considerados para armas leves, ou portáteis, são aqueles que possuem até 20mm de
calibre nominal, apesar de termos armas militares consideradas não portáteis dentro
desse limite. Ex.: Metralhadora Browning .50 (12,7mm de calibre nominal).
2.6.5 Para fins de conceituação, dividimos um projétil em:
a. base – é a parte inferior do projétil, fica engastada no estojo e está sujeita à ação
dos gases resultantes da queima da pólvora.
b. corpo – de formato cilíndrico, ajuda a fixar o projétil na boca do estojo.
c. ponta – parte superior do projétil, geralmente exposta em um cartucho.

Fig. 21 partes de um projétil


160

2.5.6 Para classificarmos os projéteis, dividimos em três grupos: projéteis de chumbo;


projéteis encamisados ou jaquetados; e projéteis especiais.
2.5.7 Projéteis de chumbo: são em geral feitos de um liga metálica de chumbo,
contendo além deste, o antimônio e/ou estanho, ou de chumbo “cru”. Os mais
utilizados atualmente por atiradores são cartuchos com projéteis de liga de chumbo.
São utilizados geralmente para uso civil e desportivo em revólveres, pois exigem baixa
velocidade do projétil (velocidades subsônicas).
2.5.8 Quanto ao tipo de ponta, os projéteis de chumbo são classificados como:
a. Chumbo ogival (CHOG) – mais utilizadas em armamentos de calibres permitidos
para uso policial e defesa.
b. Chumbo canto vivo (CHCV) – muito utilizada para tiro esportivo por permitir uma
melhor visualização da perfuração no papel.
c. Chumbo semi canto vivo (CSCV) – tanto utilizada para tiro esportivo quanto em
atividades policiais e de defesa pessoal.
d. Chumbo ponta plana (CHPP) – ponta que transfere uma maior quantidade de
energia para o alvo.
e. Chumbo expansivo ponta oca (CXPO) – ponta expansiva com melhor poder de
parada e características balísticas melhoradas.
f. Esférico – esferas de chumbo de diversos diâmetros, utilizadas em cartuchos de
caça. Também chamada de balim ou bago.
g. Outros – projéteis para armas de caça e de pressão possuem formatos variados,
todos com finalidades de causar um dano específico no alvo, ou alcançar melhores
velocidades e distâncias efetivas.

Fig. 22 Alguns exemplos de projéteis de chumbo

2.5.9 Quanto ao tipo de base, os projéteis de chumbo são classificados como:


a. Plana – uso geral.
161

b. Convexa – uso muito restrito.


c. Rebaixada – uso muito restrito.
d. Oca ou côncava – uso em projéteis para tiro desportivo de precisão. A pressão dos
gases força o projétil para um melhor engajamento nas raias, com consequente
melhoria na precisão.
e. Bisotada – usada geralmente por atiradores que praticam a recarga de munição,
devido ao seu formato anatômico que facilita a montagem.
f Rebatida – para uso em projéteis com gas check.
g Boat tail – utilizada em cartuchos para fuzil de precisão. Possui uma base com
formato parecido com a popa de uma embarcação, melhorando sua aerodinâmica.
2.5.10 Os corpos dos projéteis de chumbo possuem pequenas canaletas em seu
diâmetro que servem para permitir a lubrificação. Esta lubrificação é realizada com
graxa, e tem o objetivo de evitar que partículas de chumbo fiquem aderidas ao
raiamento do cano da ama, evitando seu chumbamento.

Fig. 23 Detalhes das canaletas de lubrificação


2.5.11 Existem ainda os projéteis de chumbo cilíndricos, ou balins, geralmente
utilizados em armas de cano de alma lisa, como espingardas e alguns revólveres.
Possuem diversos diâmetros e pesos, de acordo com a finalidade de utilização. A
Companhia Brasileira de Cartuchos fabrica diversos tipos deles, sendo os mais
utilizados pelas Forças Armadas e policiais e para defesa.
162

Fig. 24 Quadro demonstrativo dos tipos de projéteis de chumbo para cartuchos de espingarda da
CBC

2.5.12 Projéteis encamisados ou jaquetados: assim chamados por possuírem um


núcleo de chumbo revestido por uma proteção de liga de material não ferroso com
enchimento de outros materiais. Essa camisa em volta do núcleo visa proteger o cano
evitando o chumbamento, haja visto que os projéteis encamisados são utilizados em
cartuchos para armas semiautomáticas e automáticas, com o objetivo de alcançar
maiores distâncias e melhorar a aerodinâmica. Sem a camisa, a alta energia imprimida
nesses projéteis poderia deformar o chumbo de tal forma que muito de sua massa
ficaria “agarrada” nas raias do cano e se perderia.
2.5.13 Nos cartuchos para armas longas, que atingem velocidades supersônicas, a
camisa tem um papel ainda mais importante, devido à grande quantidade de energia
imprimida no interior do cano. Com a forte expansão dos gases para expulsar o
projétil, a camisa impede que escape qualquer quantidade de gás entre o projétil e as
paredes do cano, fazendo com que o projétil absorva toda a pressão recebida.

2.5.14 Já nos cartuchos perfurantes, os chamados AP (Armour Piercing), por


possuírem um núcleo de material de maior dureza (geralmente aço, tungstênio ou uma
liga desses), a energia imprimida é ainda maior. Com um projétil mais pesado, a
energia imprimida deve permitir um maior efeito perfurante a longas distâncias, e isso
denota a necessidade do projétil receber uma camisa de proteção para preservar o
cano da arma.
163

Fig. 25 Exemplo de projétil encamisado

2.5.15 Classificamos os projéteis encamisados em totalmente encamisados e semi-


encamisados, tanto para armas curtas quanto para armas longas.
2.5.16 Totalmente encamisados: são aqueles que recobrem totalmente o projétil.
Também conhecidos como FMJ (Full metal jacket). Ex.: 9mm Luger; 7,62mmx51
NATO. Podem ser:
a. Encamisado total ogival (ETOG) – geralmente utilizado para obter penetração em
alvos barricados. No calibre 9mm é de utilização militar. Usado em armas curtas.
b. Encamisado total ponta plana (ETPP) – mesmo uso da ETOG, porém com maior
transferência de energia para o alvo. Muito utilizado também para caça de animais de
grande porte em alguns calibres. Usado em armas curtas.
c. Expansivo ponta oca (EXPO) – projétil com excelentes características balísticas, de
uso policial. Possui grande transferência de energia para o alvo. São proibidas de
serem empregadas no uso militar pela convenção de Haia em 1899, da ONU. Usado
em armas curtas.
d. Encamisado total pontiagudo (ETPT) – utilizados em fuzis automáticos e
semiautomáticos. Alta precisão e penetração.
e. Hollow point boat tail (HPBT) – excelente característica balística de precisão e
expansão, também conhecido como ETPT “Match”. Utilizado em fuzis para snipers.
164

ETPP ETOG EXPO ETPT HPBT

Fig. 26 Exemplos de projéteis FMJ

2.5.17 Semi-encamisados: são aqueles cuja ponta do projétil não é recoberta pela
camisa, porém o corpo continua recoberto. Ex.: 9mm Lugger Soft Point. Podem ser:
a. Expansiva ponta plana (EXPP) – projétil expansivo de alto impacto de uso
geralmente policial e caça, em alguns calibres. Também chamada de ponta macia ou
soft point. Utilizado em armas curtas e longas.
b. Expansivo pontiagudo (EXPT) – projétil utilizado para armas longas, com ponta
expansiva. Ao mesmo tempo que apresenta poder de expansão, também tem uma
boa penetração.
c. Semi encamisado ponta plana (SEPP) – mesmo uso das EXPP, também chamado
de soft point, por possuir uma ponta mais maleável (sem a camisa).

EXPP EXPT SEPP


Fig. 27 Projéteis semi-encamisados

2.5.18 Projéteis militares: os projéteis militares são caracterizados por possuírem um


código de cores na ponta, padronizado internacionalmente, como no quadro a seguir:
165

Quadro 1: Código de cores para identificação de projéteis.

2.5.18 Projéteis especiais: são projéteis com características especiais, relativas à sua
balística terminal e à sua finalidade. Geralmente possuem composições e formatos
diferenciados e seu uso pode ser militar, policial ou até mesmo civil. São utilizadas
para algum propósito específico. Como alguns exemplos, temos:
166
167
168
169
170

Quadro 2: tipos de projéteis especiais


171

CAPÍTULO III
CALIBRES

3.1 DEFINIÇÃO DE CALIBRE

3.1.1 O calibre é a medida interna do cano de uma arma de fogo, ou tamanho da


circunferência do projétil de um cartucho. Genericamente, é usado para nominar
munições e armas de fogo.
3.1.2 Em espingardas (cano liso), o calibre é medido tomando-se uma perfeita esfera
de chumbo, com massa de uma libra (0,453 Kg.), obtendo o calibre 1. Seguindo o
mesmo raciocínio, fracionamos aquela esfera de chumbo (com uma libra de peso) em
12 partes iguais e dessas partes fazemos esferas idênticas; o diâmetro de cada uma
dessas 12 esferas resultantes será o calibre 12. Assim também, fracionando-se a
mesma esfera (com massa de uma libra) em 28 partes e fazendo com essas partes
28 esferas iguais, o diâmetro de cada uma delas nos daria o calibre 28. Isso explica
porque, neste sistema, quanto maior é o número que exprime o calibre, menor é seu
diâmetro, ou seja, o calibre 28 é menor que o 12.

Diâmetro do
Calibre (Gauge)
cano (mm)
12 18,2 - 18,6
16 16,8 - 17,2
20 15,6 - 16,0
24 14,7 - 15,1
28 14,0 - 14,4
32 12,75 - 13,15
36 10,414
172

Fig. 28 Tabela mostrando o diâmetro real do cano de espingardas, de acordo com seus calibres.

3.1.3 Portanto, o calibre de uma arma de cano liso não é dado em um sistema
métrico, e sim no sistema denominado GAUGE (Ga). Assim, temos calibre 12 Ga, 20,
Ga, 32 Ga etc.
3.1.4 As espingardas modernas possuem um leve estreitamento na boca do cano,
porém esse estreitamento não nomina o calibre da arma. O estreitamento serve para
diminuir a dispersão das esferas de chumbo, e é chamado de choke ou cone de
dispersão. Determina o alcance útil das espingardas. Existem três tipos de choke:
a. Choke pleno – possui uma maior concentração das esferas de chumbo até 45
metros. Mais utilizado em espingardas para caça.
b. Choke modificado – possui uma maior concentração das esferas de chumbo entre
22 metros e 36 metros. Mais utilizados em espingardas para fins militares e policiais.
c. Choke cilíndrico – possui maior concentração das esferas de chumbo entre 13
metros e 32 metros. Mais utilizados em espingardas para fins de dispersão de turbas,
motins e defesa pessoal.

Fig. 29 Gráfico demonstrativo dos tipos de choke em espingardas


173

3.1.5 Na nominação de munições e armas de alma raiada, são utilizadas duas


medidas de calibres: o calibre real e o calibre nominal. O calibre real é medido pelo
diâmetro interno do cano sem as raias, ou seja, entre os “cheios” do cano. O calibre
nominal, ou do projétil, é medido pelo diâmetro entre os fundos das raias do cano, ou
seja, é levemente maior que o diâmetro real.

Fig. 30 Esquema de um cano seccionado demonstrando as medidas de calibre

3.1.6 O diâmetro dos projéteis é maior que o calibre do cano para que o projétil,
quando estiver percorrendo o cano da arma, se “agarre” às raias e faça um movimento
giratório em torno de seu próprio eixo longitudinal. Isso dá maior velocidade e precisão
para o projétil que, ao sair do cano da arma, realiza uma trajetória mais estável até
atingir o alvo. Além disso, deixa estrias marcadas no projétil que são únicas, e auxilia
em trabalhos periciais.
3.1.7 Essa diferença entre diâmetros é essencial para o bom funcionamento da arma.
As medidas são padronizadas pela SAAMI, e podem ser conferidas através de
algumas ferramentas.
3.1.8 No caso dos projéteis, é usada uma ferramenta chamada paquímetro, que
serve para medir diâmetros com precisão em escalas muito pequenas. Já no caso do
diâmetro dos canos de alma raiada, são utilizados os calibradores, que conseguem
identificar através de uma faixa de medida padronizada dos cheios se o cano está em
condições de ser utilizado. Caso a medida acuse diferença maior que a faixa aceitável,
a arma deve ser enviada ao escalão de manutenção.
3.1.9 Um exemplo é a munição 7,62x51 e a .308 Win, ambas utilizadas pelo Exército,
sendo a primeira a munição comum para combate e a segunda utilizada por caçadores
por possuir melhor balística. Ambas têm o mesmo calibre, porém a 7,62x51 indica o
calibre entre cheios do cano (calibre real), e a .308 (aproximadamente 7,82 mm) indica
174

o calibre entre os fundos das raias (calibre do projétil). Vemos uma diferença nominal
de 0,20 mm, ou .007 polegadas, que é justamente a diferença entre o diâmetro do
cano sem as raias e o fundo das raias. Diferença esta praticamente imperceptível a
olho nu.

Esta Foto de Autor Desconhecido está licenciado em CC BY


Fig. 31 exemplo de um paquímetro

3.2 NOTAÇÃO DE CALIBRES

3.2.1 Os calibres das armas de fogo com cano de alma raiada são nominados em três
sistemas de medição: o sistema métrico, o sistema imperial e o sistema misto. Já
as espingardas, como falado anteriormente, são medidos de acordo com o sistema
Gauge, mas mesmo assim têm seus calibres correspondentes em milímetros.
3.2.2 Sistema métrico: no sistema métrico o diâmetro do projétil é designado em
milímetros, acompanhado pelo tamanho do estojo do cartucho separados por um “x”.
3.2.3 Geralmente são seguidos pelo nome do fabricante, a abreviatura de milímetros
“mm”, nome do inventor da munição e outras variações. Ex.: 7,62x51mm, 9x19mm
Parabellum, 5,56x45mm NATO.
3.2.4 Em cartuchos com características especiais, podemos ter ainda a nominação
seguida das letras “R”, que significa rimmed ou com aro; e “+ P” ou “+ P +”, que
significa powder ou uma carga maior de pólvora.
3.2.5 Sistema imperial: no sistema imperial o diâmetro do projétil é designado em
frações de polegadas, representados por um ponto seguidos do valor, omitindo-se,
assim, o zero à esquerda.
3.2.6 Geralmente também são seguidos pelo nome do fabricante ou inventor do
calibre. Ex.: .50 Browning, .38 S&W, .223 Remington, .308 Winchester.
175

3.2.7 Em cartuchos com características especiais podemos ver ainda: AUTO, cartucho
para pistola; SPL, cartucho special com mais energia; MAGNUM, projétil que
ultrapassa 720 m/s de velocidade; BELTED, cartucho cinturado.
3.2.8 Sistema misto: no sistema misto, além de apresentar as características dos
sistemas anteriores, designa o diâmetro do projétil em fração de polegadas, com ou
sem o ponto, seguido do peso da carga de pólvora em Grains, separados por um
traço. Pode vir seguido do nome do fabricante, do inventor do calibre, etc. Ex.: .32-20
Winchester, .30-30 Winchester.
3.2.9 Na notação de cartuchos observa-se que cartuchos que possuem projéteis com
o mesmo diâmetro real, apresentam nomes diferentes. Para armas de fogo que
possuem o mesmo calibre real podemos encontrar diversos cartuchos com calibre
nominal diferentes. Assim, temos que as munições 9mm Parabellum, 9mm Browning
(ou short), .380 AUTO, e .357 Magnum, por exemplo, são todas com projéteis de
diâmetro entre .355 e .357 polegadas. O que se costuma diferenciar é o peso do
projétil, a quantidade de propelente, o tamanho do estojo, ou simplesmente um projeto
de marketing da fabricante. Para se aferir o diâmetro real de um projétil, deve-se
utilizar uma ferramenta chamada micrômetro, capaz de realizar medições em
pequenas dimensões.
3.2.10 Verificamos ainda que as munições carregam inscrições na base, com a
finalidade de identificar o fabricante, país de origem, calibre, tipo, lote, ano de
fabricação etc. Essas inscrições são as mais variadas, podendo conter números,
letras, logomarcas símbolos ou emblemas, que são cunhados radialmente ou na base
do copo da espoleta. Cada fabricante possui sua própria padronização, seguindo
também as exigências de controle do seu país de origem. No Brasil, o fabricante
Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC), que fornece a munição governamental
para Forças Armadas e Policiais, utiliza os seguintes modelos de inscrição:
176

Fig. 32 Cartucho .40 S&W da CBC. Inscrição do calibre e do fabricante.

Fig. 33 Cartucho 9x19mm da CBC utilizado pelas Forças Armadas. Inscrição do calibre,
fabricante e ano de fabricação.
3.2.11 Existem dois órgãos internacionais que regulam as medidas oficiais para armas
de fogo e cartuchos, bem como as variações permitidas para cada calibre. Por isso
existe, por exemplo, uma variação tolerável na produção de cartuchos .38, que na
verdade variam entre .355 e .357 polegadas como mostrado anteriormente. Esses
órgãos são: SAAMI - Sporting Arms and Ammunition Manufacturers' Institute, atuante
principalmente no continente americano; e o CIP - Commission internationale
permanente pour l'épreuve des armes à feu portatives, que se trata de uma comissão
internacional permanente para padronizações técnicas na produção de armas de fogo
e cartuchos.

3.3 CANOS DE ALMA RAIADA


177

3.3.1 Para que possamos complementar o conhecimento de calibres, se faz


necessário conhecermos algumas características das armas de cano com alma
raiada.
3.3.2 Como visto anteriormente, as raias de um cano de arma de fogo têm a
finalidade de imprimir um movimento giratório no projétil, em torno de seu próprio eixo
longitudinal, que proporcionará características balísticas otimizadas ao próprio projétil.
Esse movimento giratório é dado devido à diferença do calibre real do cano e o calibre
do projétil, levemente maior. Essa diferença faz com que o projétil passe “apertado”
dentro do cano, se agarre às raias e que sua base receba toda a energia proveniente
da combustão da pólvora, ou seja, não existe um espaço se quer entre o projétil e o
cano da arma. Não fosse assim, parte da energia da combustão da pólvora poderia
ser dispersa entre o projétil e o cano, piorando as características balísticas do projétil.
3.3.3 Armas de fogo apresentam canos com raiados com diferente número de raias,
podendo ser em número par ou ímpar. Dependerá de qual finalidade e características
balísticas o fabricante quer imprimir em sua arma.
3.3.4 Outro conceito importante é o passo de raia. O passo de raia é a distância
necessária para que um projétil realize uma volta completa, em torno de seu eixo
longitudinal, seguindo as raias de um cano. O passo pode ser giro no sentido anti-
horário (sinestrogiro) e giro no sentido horário (dextrogiro). O passo de raia nada mais
é do que voltas x distância, esta “unidade de medida” é expressa em polegadas por
voltas, ou seja, quantas voltas o projétil vai dar ao percorrer a distância de uma
polegada. O passo de uma arma de fogo é assim representado: 1:10” (o projétil
completa um giro completo em torno de seu próprio eixo a cada dez polegadas), 1:7”,
1:12” etc.
3.3.5 O passo de raia define a precisão e o alcance do projétil. Os engenheiros levam
em consideração informações como peso do projétil, sua energia e diâmetro do calibre
real, para definir através de cálculos qual melhor passo de raia para determinado
calibre, a fim de estabelecer melhor equilíbrio entre alcance e precisão.
3.3.6 Podemos, ainda, classificar o passo de raia como simples ou misto. No passo
simples, a frequência de giro da raia é a mesma em todo o cano. Já no passo de raia
misto, a frequência de giro das raias varia dentro do comprimento do cano. Nesse
caso, ela pode começar com uma maior frequência e depois diminuir, ou vice-versa.
178

Fig. 34 Esquema de raiamento simples e misto


3.3.7 Nas pistolas de uso das Forças Armadas, encontramos passos de raia maiores,
ou seja, uma rotação menor do projétil imprimida pelas raias do cano. Já em armas
longas, como fuzis, encontramos um passo de raia menor, ou seja, o passo imprime
uma rotação maior no projétil.

3.4 CALIBRES RESTRITOS E PERMITIDOS

3.4.1 No Brasil, a legislação diferencia os calibres entre permitidos para uso civil e
calibres restritos, para Forças Armadas ou policiais. O critério utilizado foi definido pelo
Decreto nº 5.123, de 1º de julho de 2004, onde as armas de calibre restrito seriam
aquelas utilizadas pelas Forças Armadas, e as de calibre permitido as demais, de
acordo com as normas do comando do Exército.
3.4.2 Já o R-105, Regulamento para Fiscalização de Produtos Controlados, define o
que são armas de calibres de uso restrito e permitido pela energia do projétil no
momento da saída do cano.
3.4.3 Conforme os artigos 16 e 17 do R-105, são calibres restritos:
a. armas, munições, acessórios e equipamentos iguais ou que possuam alguma
carcterística no que diz respeito aos empregos tático, estratégico e técnico do material
bélico usado pelas Forças Armadas nacionais;
b. Armas, munições, acessórios e equipamentos que, não sendo iguais ou similares
ao material bélico usado pelas Forças Armadas nacionais, possuam cacterísticas que
só as tornem aptas para emprego militar ou policial;
179

c. Armas de fogo curtas, cuja munição comum tenha, na saída do cano, energia
superior a trezentas libras-pé ou quatrocentos e sete Joules, e suas munições,
como por exemplo os calibres .357 Magnum, 9 Luger, .38 Super Auto, .40 S&W, .44
SPL, .44 Magnum, .45 Colt e .45 Auto;
d. Armas de fogo longas raiadas, cuja munição comum tenha, na saída do cano,
energia superior a mil libras-pé ou mil trezentos e cinquenta e cinco Joules, e
suas munições como, por exemplo, .22-250, .223 Remington, .243 Winchester, .270
Winchester, 7 Mauser, .30-06, .308 Winchester, 7,62x39, .357 Magnum, .375
Winchester e .44 Magnum;
e. Armas de fogo automáticas de qualquer calibre;
f. Armas de fogo de alma lisa de calibre doze ou maior, com comprimento de
cano menor que vinte e quatro polegadas ou seiscentos e dez milímetros;
g. Armas de fogo de alma lisa de calibre superior ao doze e suas munições;
h. armas de pressão por ação de gás comprimido ou por ação de mola, com calibre
superior a seis milímetros, que disparem projetis de qualquer natureza;
i. armas de fogo dissimuladas, conceituadas como tais os dispositivos com
aparências de objetos inofensivos, mas que escondem uma arma, tais como
bengalas-pistola, canetas-revólver e semelhantes;
j. arma a ar comprimido, simulacro do Fz 7,62 mm, M964, FAL;
k. armas e dispositivos que lancem agentes de guerra qu´mica ou gás agressivo e
suas munições
3.4.4 Conforme os artigos 16 e 17 do R-105, são calibres permitidos:
a. Armas de fogo curtas, de repetição ou semiautomáticas, cuja munição comum
tenha, na saída do cano, energia de até trezentas libras-pé ou quatrocentos e sete
Joules e suas munições, como por exemplo, os calibres .22 LR, .25 Auto, .32
Auto, .32 S&W, .38 SPL e .380 Auto;
b. Armas de fogo longas raiadas, de repetição ou semiautomáticas, cuja munição
comum tenha, na saída do cano, energia de até mil libras-pé ou mil trezentos e
cinquenta e cinco Joules e suas munições, como por exemplo, os calibre .22
LR, .32-20, .38-40 e .44-40;
c. Armas de fogo de alma lisa, de repetição ou semiautomáticas, calibre doze ou
inferior, com comprimento de cano igual ou maior do que vinte e quatro polegadas ou
seiscentos e dez milímetros; as de menor calibre, com qualquer comprimento de cano,
e suas munições de uso permitido;
180

d. Armas de pressão por ação de gás comprimido, ou por ação de mola, com calibre
igual ou inferior a seis milímetros e suas munições de uso permitido;
e. Armas que tenham por finalidade dar partida em competições desportivas, que
utilizem cartuchos contendo exclusivamente pólvora;
f. Armas para uso industrial ou que utilizem projetis anestésicos para uso veterinário.

CAPÍTULO IV

BALÍSTICA

4.1 INTRODUÇÃO

4.1.1 Balística é a ciência que estuda o movimento de projéteis. O estudo é dividido,


no caso de armas de fogo, em:
a. Balística interna: estuda os fenômenos que acontecem com um projétil dentro do
cano da arma;
b. Balística intermediária: estudo dos fenômenos sobre os projéteis desde o momento
em que saem do cano da arma até o momento em que deixam de estar influenciados
pelos gases remanescentes da explosão do propelente;
c. Balística externa: estudo dos fenômenos que ingfluenciam na trajetória dos
projéteis, desde que perdem a influência dos gases remanescentes da explosão do
propelente, até atingir o alvo; e
d. Balística terminal: estudo da interação entre o projétil e seu alvo. Também chamada
de balística de efeitos ou de ferimentos.
181

4.1.2 Neste caderno de instrução, vamos nos ater a falar sobre a balística interna e
a terminal, para que possamos entender a relação entre o tamanho do cano de uma
arma e o tipo da munição, como o efeito que o projétil poderá causar em um alvo
animado.

4.2 BALÍSTICA INTERNA: TAMANHO DO CANO X TIPO DA MUNIÇÃO

4.2.1 A pólvora, quando queima na atmosfera, produz gases que que se expandem
centenas de vezes o volume do sólido da carga. Essa queima, e consequentemente
a expansão dos gases, se dá de forma muito rápida, porém gradual.
4.2.2 Essa reação, quando acontece confinada dentro do estojo de um cartucho na
câmara da arma de fogo, causa uma grande pressão nas paredes do estojo do
cartucho. Após o rápido e gradual aumento de volume, os gases agem em todas as
direções dentro do estojo e acabam escapando pela parte mais “frágil” do cartucho,
exercendo pressão na base do projétil, que está engastado na boca do estojo. Essa
pressão faz com que o projétil seja expulso do estojo, e percorra o cano da arma, até
que a expansão dos gases não faça mais efeito direto no projétil. Assim como a
queima da pólvora é gradual, o projétil também ganha aceleração gradual até a
queima total do propelente.

Fig. 35 Pressão dos gases da queima da pólvora, expulsando o projétil da boca do estojo

4.2.3 Com o progressivo deslocamento do projétil através do cano, os gases podem


melhor se expandir e a pressão diminuir. Se o cano for muito comprido, em algum
182

ponto a pressão não será suficiente para suplantar o atrito projétil/cano e, como
resultado, a velocidade do projétil começará a decrescer.
4.2.4 O atrito projétil/cano é, muitas das vezes, determinado pelo tipo de material que
constitui ou recobre a parte externa desse projétil. Projéteis encamisados em cobre,
latão ou Tombak possuem um coeficiente de atrito superior à dos projéteis constituídos
de chumbo puro ou liga de chumbo. Além disso, os projéteis em liga de chumbo são
lubrificados para que o atrito com o cano não derreta a sua superfície, facilitando o
seu deslocamento. Por esse motivo é que projéteis de mesmo peso, mas de
constituições diferentes, (liga de chumbo e encamisado) podem resultar em
velocidades iniciais e pressões de câmara distintas.
4.2.5 É importante observar que, quanto maior o atrito projétil/cano, menor a
possibilidade (ou até mesmo nula) de que a pressão que empurra o projétil seja
diminuída devido ao escape dos gases entre o projétil e o cano. Por isso projéteis
encamisados suportam maior energia sem danificar o cano da arma, e os projéteis de
chumbo sem a camisa são utilizados em munições com menor energia.
4.2.6 Inúmeras outras variáveis podem influenciar no desempenho do projétil, além
do tamanho do cano. Características como diâmetro interno do cano, número e passo
de raia, polimento do cano, tipo de projétil (jaquetado ou chumbo, peso, constituição
etc), são alguns dos fatores que afetam diretamente o desempenho do projétil. Esses
efeitos só podem ser melhores avaliados a partir de um estudo mais técnico sobre
balística interna, o que não é nosso objetivo. Basta saber que todas essas variáveis
devem ser levadas em consideração quando formos analisar o desempenho de um
projétil como, por exemplo, se ele poderá atravessar uma parede, ou uma árvore, ou
qualquer tipo de abrigo que o militar esteja querendo utilizar como proteção ou
querendo atingir um alvo que esteja abrigado.
4.2.7 Cabe ressaltar que, regra geral, armas de cano longo infringem maior precisão
no tiro, levando em consideração também todas as outras variáveis. Fuzis utilizados
por caçadores (sniper) tendem a ter um cano maior que 18”, porém seu maior
aproveitamento se dará com uma munição específica. Já fuzis de assalto tendem a
ter canos menores, porém precisão à longas distâncias também menores.
4.2.8 A balística interna abrange outros diversos temas e variáveis de desempenho
dos projéteis no interior do cano, porém no nível tático que nos interessa, iremos ficar
apenas no entendimento superficial sobre o desempenho de um projétil em relação
ao tamanho do cano da arma de fogo.
183

4.3 BALÍSTICA TERMINAL

4.3.1 A balística terminal é tratada por alguns estudiosos da balística forense como
sendo balística de ferimentos Este termo é utilizado principalmente quando se trata
de alvo animados, como humanos ou animais. A balística terminal, como num modo
geral, é utilizada em alvos inanimados, como paredes, vidros, viaturas etc. Trataremos
aqui da balística de ferimentos, focando os efeitos dos projéteis em alvos animados.
4.3.2 São inúmeros os efeitos que um projétil pode causar em um alvo animado, e vão
depender de variáveis como: tipo do projétil (material, formato, peso, velocidade etc),
fatores psicológicos e fisiológicos do alvo vivo (motivação, adrenalina, efeito de
substâncias psicotrópicas etc), local de impacto do projétil, entre outros. A literatura
da balística forense é bastante abrangente e específica, com autores divergindo em
alguns pontos importantes. Veremos aqui os efeitos de forma generalizada.
4.3.3 Geralmente, as características de um projétil são desenvolvidas para incapacitar
ou neutralizar um alvo, em uma determinada situação, seja ela de guerra, policial,
defesa pessoal ou caça. Para esse fim, existe o conceito de poder de parada do
projétil, também utilizado o termo em inglês stopping power. Esse termo é utilizado
quando se quer mensurar a capacidade que um determinado projétil tem de
incapacitar um alvo vivo, com apenas um disparo. Nesse caso, a incapacitação não é
necessariamente a neutralização do alvo.
4.3.4 Por ser um termo bastante discutível e controverso, o poder de parada de um
projétil é difícil de ser avaliado. Quando se quer incapacitar um alvo vivo
instantaneamente, o mais importante é o local onde o projétil atinge o alvo, porém o
calibre e o tipo do projétil também devem ser levados em consideração, principalmente
para evitar efeitos colaterais nas operações. Podemos listar dois dos principais
motivos de incapacitação imediata de um alvo vivo.
4.3.5 Danos no sistema nervoso central (SNC), atingindo a região entre os olhos do
alvo, na região conhecida como “T” mortal; ou na nuca, diretamente no cerebelo; ou
ainda na direção do ouvido, diretamente no tronco cerebral, que é o responsável pelo
controle de respiração e alguns atos reflexos.
184

Fig. 36 Demonstração das áreas do “T” mortal, cerebelo e tronco cerebral.

4.3.6 Perda maciça de sangue, o chamado choque hipovolêmico. Geralmente


ocorre após a perfuração de algum, ou alguns, órgãos vitais que podem causar
hemorragia arterial.
4.3.7 Os efeitos que um projétil de arma de fogo pode causar em um alvo animado,
de modo geral, podem ser divididos em efeitos primários e efeitos secundários.
4.3.8 Efeitos primários: como efeitos primários temos a chamada ação direta,
provocada pelo impacto do projétil contra os tecidos do corpo, e a ação indireta, que
dependerá de fatores fisiológicos ou psicológicos do alvo atingido. No estudo dos
efeitos primários, existem quatro componentes que devem ser levados em
consideração, para avaliar o poder relativo de incapacitação de um projétil:
a. Penetração: o tipo de tecido pelo qual o projétil passa, e quais estruturas são
rompidas ou destruídas. É a característica mais importante de um projétil quando se
quer avaliar seu stopping power. Estudos científicos demonstraram que para que um
projétil tenha eficácia no seu poder de parada, deve ter uma penetração mínima de
15 polegadas, ou a grosso modo, um palmo;
b. Cavidade permanente: o volume de espaço que era ocupado por tecido e que foi
destruído pela passagem do projétil. Ocorre em função da penetração e da área frontal
do projétil. É o canal que permanece após a passagem do projétil. Assim, fica claro
que projéteis mais pesados e de maior diâmetro causam uma cavidade permanente
maior, aumentando as chances de danificar um órgão vital e causar uma hemorragia;
185

c. Cavidade temporária: a expansão da cavidade permanente, devido à propagação


da onda de choque causada pela velocidade do projétil ao penetrar na massa líquida
dos tecidos do corpo. Essa onda de choque é a onda do som do deslocamento do
projétil pelo ar. Sabemos que a velocidade do som na atmosfera é de cerca de 340
m/s, e na água é maior, cerca de 1450 m/s. Levando em consideração que nosso
corpo é aproximadamente 70% (assim chamado massa líquida), a onda de choque
alcança uma velocidade maior no momento em que o projétil penetra no corpo
humano.
Nos projéteis subsônicos, com velocidades menores que a do som, a onda de choque
vai à frente da ponta do projétil. Já nos projéteis supersônicos, a onda de choque
segue no “arrasto” do projétil, e causa a cavidade temporária após a penetração da
ponta do projétil, fazendo com que essa cavidade temporária seja maior que nos
projéteis subsônicos.
A cavidade temporária possui o diâmetro muitas vezes maior do que o diâmetro do
projétil, e dura apenas frações de segundos. Pode causar danos em órgãos
adjacentes à cavidade permanente, aumentando o poder de parada do projétil.
Estudiosos afirmam que os danos da cavidade temporária são mínimos, quase nulos,
devido à elasticidade do corpo e pelo rápido período de tempo em que ela ocorre.
d. Fragmentação: pedaços de projétil ou fragmentos secundários de ossos que são
impelidos além da cavidade permanente e podem cortar tecido muscular, vasos, etc.

Cavidade permanente

Onda de
Cavidade temporária
choque

Fig. 37 Esquema de um projétil atravessando um alvo vivo


186

Fig. 38 Na imagem superior, a cavidade temporária causada pelo impacto de um projétil hollow point
comum. Na inferior, a cavidade temporária de um projétil fragmentável.

4.3.9 Efeitos secundários: são efeitos permanentes, pesquisáveis no corpo do alvo


atingido por projéteis de armas de fogo (orlas e zonas, e lesões típicas dos tiros à
queima-roupa). Estes efeitos não têm nenhuma relação com o poder de incapacitação
do projétil, estando restrito, seu estudo, à medicina legal e às práticas forenses.
4.3.10 Um dado importante que deve ser levado em consideração para avaliar o poder
de parada de um projétil, além de seu formato, peso, material e local atingido, é a
quantidade de energia que ele pode transmitir para o alvo ao atingi-lo. Esta energia é
calculada em Kgm (kilogrâmetros) ou J (Joules), através da fórmula:
𝟏 𝒎𝒗𝟐
𝑬= .
𝟐 𝒈
Onde: m = massa do projétil (dado tabelado); v = velocidade do projétil em
determinado ponto da trajetória; e g = aceleração da gravidade

4.3.11 1 Kgm (um kilogrâmetro) corresponde à energia do impacto sobre o solo de um


corpo de 1 Kg a uma altura de 1 m. A velocidade do projétil poderá ser levantada
através de uma ferramenta chamada cronógrafo, utilizado geralmente a uma distância
de 5 metros do cano da arma, que é a distância considerada para medir a velocidade
máxima do projétil na saída da boca do cano. Essa distância também caracteriza que
o projétil inicia seu deslocamento sem a ação dos gases provenientes da queima da
pólvora.
4.3.12 A transferência da energia cinética para o alvo pode ser calculada medindo a
diferença de velocidade do projétil entre o momento da penetração e da saída. Caso
o projétil consiga transfixar o alvo e continue em uma trajetória, significa que ele não
187

transferiu toda a sua energia cinética para o alvo. Já um projétil que penetra no alvo e
para no seu interior, consegue transferir toda a sua energia cinética, já que sua
velocidade final dentro do alvo é nula.
4.3.13 Para se conseguir uma boa penetração e uma máxima transferência de
energia, via de regra se usam projéteis de alta velocidade e massa menores. Além
disso, projéteis expansivos e/ou fragmentáveis também conseguem transferir o
máximo de energia para o alvo. É o caso dos projéteis hollow point, hydrachock, glaser
e frangíveis.
4.3.14 Cabe ressaltar que, mesmo projéteis que transfixam o alvo e não transferem
totalmente a sua energia, também possuem bom poder de parada, dependendo do
local do alvo onde atingem. Um projétil ogival, por exemplo, com grande velocidade e
massa, atingindo o coração de um ser humano, causará uma hemorragia severa,
choque hipovolêmico, trauma na vítima, e em alguns segundos conseguirá parar a
agressão ou ameaça.