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Capítulo 1

Falhas na Teoria Clássica e a


“Pré-Quântica”
Mário Ernesto Giroldo Valerio
Introdução à Mecânica Quântica
DFI-UFS 2007/1
Capítulos 1 a 3 do Eisberg e Resnik

Introdução à Mecânica Quântica 2007-1


1.1 Radiação Térmica
• Todo corpo emite e absorve “radiação térmica” (ondas
eletromagnéticas de baixa freqüência)
• A radiação térmica emitida pelo corpo depende da
temperatura do corpo
• Um corpo a uma temperatura maior do que o meio perderá
energia através da emissão da radiação até atingir o
equilíbrio.
• No equilíbrio as taxas de emissão e absorção são as
mesmas
• A matéria no estado condensado (líquido ou sólido) emite
um espectro contínuo de radiação térmica e a forma da
dependência do espectro da radiação com a temperatura
tem uma dependência “fraca” com a constituição da
matéria.
• A intensidade da radiação depende fortemente da
temperatura do corpo
Introdução à Mecânica Quântica 2007-1
• Nas temperaturas usuais, a
maioria dos corpos só é “visível”
porque absorve e/ou reflete a luz
visível (380nm≤λ≤730nm) que
nele incide.
• Em altas temperaturas no
entanto todo corpo passa ter ‘luz
própria’.
• A maior parte da radiação
emitida por um corpo esta na
faixa do infravermelho do
espectro (λ>730nm).

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The temperature of a Pahoehoe
lava flow can be estimated by
observing its colour. The result
agrees nicely with the measured
temperatures of lava flows at
about 1,000 to 1,200 °C.

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• Um corpo negro é aquele que absorve toda radiação que
nele incide mas não emiti.
• Este tipo de corpo emite radiação de forma ‘universal’, ou
seja independe do material do qual é feito só dependendo
da temperatura do corpo.
• Um exemplo de um corpo negro é uma cavidade isolada,
com um pequeno orifício.
– Se o orifício for muito pequeno, a quantidade de radiação que sai
da cavidade é desprezível em relação a quantidade de radiação
interna a cavidade.

orifício

“Forno”

Isolante

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• A distribuição espectral da radiação é
caracterizada pela grandeza “Radiança Espectral”,
ν).
RT(ν
• RT(ν) é definida de forma que a quantidade
RT(ν)dν é igual a energia total emitida pelo corpo
por unidade de tempo e por unidade de área do
corpo a temperatura T num intervalo de freqüência
da radiação entre ν e ν+dν.

Princípio de
RT(ν)dν funcionamento dos
pirômetros ópticos

ν ν+dν
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• A integral de RT(ν) em
todo ν é igual a energia
total emitida pelo corpo
a temperatura T por
unidade de área por
unidade de tempo.
– Este valor é chamado de R T = ∫ R T ( ν )dν
radiança RT
• A unidade de RT(ν) é:
 R T ( ν )  =
[ Energia ]
=
[tempo][área][frequencia]
J W
= =
s.m 2 .Hz m 2 .Hz
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• Lei de Stefan (1879): R T = σT 4

– Onde σ é a constante de
Stefan-Boltzmann e vale
5,67x10-8 W/(m2K4)

• Lei de Wien (1893):


νmax ∝ T
λ max .T = 2, 898 ×10−3 m.K

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1.2 – Teo Clássica para a Radiação de corpo negro
• A quantidade de energia perdida devido a
emissão de radiação em um corpo negro é
desprezível.
• Podemos supor então que a densidade de energia
(energia por unidade de volume) ρT(ν) no interior
da cavidade de um corpo negro é constante e está
em equilíbrio com as paredes da cavidade que
estão em uma temperatura T.
• A pequena quantidade de radiação que escapa
pelo orifício é uma ‘amostra’ da energia existente
no interior e guarda as mesmas relações com T e
ν.
• Podemos escrever então: ρT ( ν ) ∝ R T ( ν )

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• Modelo físico de um corpo negro:
– Cavidade isolada com paredes a uma temperatura T e
um pequeno orifício.
– Elétrons em agitação térmica (movimento acelerado)
emitem radiação.
– A radiação emitida pode ser absorvida pelos próprios
elétrons da parede da cavidade.
– A temperatura define o equilíbrio entre emissão e
absorção.
• Simplificando...
– Ao invés de tratarmos os elétrons todos da superfície
interna do corpo negro, vamos tratar apenas as ondas
eletromagnéticas existentes no interior da cavidade no
equilíbrio.

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• Primeiro tratamento foi feito por Lorde Rayleigh
(1900) e Rayleigh e Sir James Jeans (1905).

• Modelo de Rayleigh - Jeans:


1-”Demonstrar” que a radiação dentro da cavidade deve
ser na forma de ondas estacionárias e obter a equação
das ondas.
2-Usando argumentos geométricos contar o número de
ondas estacionárias com freqüência entre ν e ν+dν e
determinar como este número depende de ν ⇒ NT(ν)
3-Usando o resultado da teoria cinética clássica (teoria
cinética dos gases), calcular a energia total média das
ondas em equilíbrio térmico ⇒ 〈E〉
4-Multiplicando-se NT(ν) por 〈E〉 e dividindo pelo volume
da cavidade, obtiver a densidade de energia média
contida por unidade de volume no intervalo ν e ν+dν ⇒
ρT(ν)

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• “Demonstrar” que a radiação dentro da cavidade
deve ser na forma de ondas estacionárias.
– Por simplicidade vamos considerara uma cavidade
cúbica de aresta L.
– Ondas eletromagnéticas dentro da cavidade tem que
satisfazer a equação de onda:

– Como a radiação esta em equilíbrio térmico com a


cavidade, as ondas formadas tem que ser estacionárias
com nós nas paredes da caixa.
• O campo elétrico tem que se anular nas paredes da cavidade
para que não haja dissipação de energia!
– A solução da equação de onda pode ser escrita como:

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Modos possíveis para as
ondas eletromagnéticas
na cavidade cúbica.

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• Qtos modos existem na cavidade?
• Ou, de qtas formas diferentes podemos combinar
n1, n2 e n3 de forma a obter o mesmo λ?

•Construir o espaço ‘n’


•Cada ponto do espaço n representa um
possível modo para as ondas eletro-
magnéticas na cavidade.
•As combinações de n1, n2 e n3 que dão o
mesmo λ, estão sobre uma superfície
esférica de raio n12 + n 22 + n32
•O número de modos com comprimento
onda entre 0 e λ é dado então pelo
volume da esfera.
V= ( )
4 3

π n +n +n
2 2 2 2

1 2 3
3
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V= ( )
4 3

π n12 + n 22 + n32
2

• Nesta conta, temos que descontar os pontos com


ni<0, o que significa que os modos das ondas
eletromagnéticas estão dentro do 1º octante
espaço ‘n’.
– Volume deve ser dividido por 8 !!!
• Outro problema é que as ondas eletromagnéticas
podem ser polarizadas em duas direções
perpendiculares diferentes.
– Devemos multiplicar o resultado por 2 !!!

π  4L  8πL
3 3
 
π 2
( )
2 2

N=
3

N= n1 + n 22 + n32 =
2

3 3  λ2 
3λ 3

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8πL3
N=
3λ 3
• Qtos modos existem por unidade de comprimento
de onda? Ou, qual a densidade de modos?
dN d  8πL3 
 3 
8πL3
= =− 4
dλ dλ  3λ  λ

• Qtos modos existem por unidade de λ e por


volume da cavidade?
no. de modos 1 dN 8π
η(λ) = =− 3 ⇒ η(λ) = 4
por λ e por volume L dλ λ

• Apesar de termos iniciado com uma cavidade


cúbica, este resultado independe da dimensões
da cavidade e é valido para qquer cavidade !!!
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• Modelo de Rayleigh - Jeans:
1-”Demonstrar” que a radiação dentro da cavidade deve
ser na forma de ondas estacionárias e obter a equação
das ondas.
2-Usando argumentos geométricos contar o número de
ondas estacionárias com freqüência entre ν e ν+dν e
determinar como este número depende de ν ⇒ NT(ν)
3-Usando o resultado da teoria cinética clássica (teoria
cinética dos gases), calcular a energia total média das
ondas em equilíbrio térmico ⇒ 〈E〉
4-Multiplicando-se NT(ν) por 〈E〉 e dividindo pelo volume
da cavidade, obtiver a densidade de energia média
contida por unidade de volume no intervalo ν e ν+dν ⇒
ρT(ν)
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• Energia total média das ondas em equilíbrio
térmico:
– O princípio da equipartição da energia diz que
cada grau de liberdade do sistema contribui
com ½kT para a energia média.
– Para sistemas que executam ‘oscilações
harmônicas’, temos 2 graus de liberdade, a E
cinética e a E potencial. Assim, cada ‘modo’ das
ondas eletromagnéticas na cavidade contribui
com kT para a energia média.
– 〈E〉=kT

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• Modelo de Rayleigh - Jeans:
1-”Demonstrar” que a radiação dentro da cavidade deve
ser na forma de ondas estacionárias e obter a equação
das ondas.
2-Usando argumentos geométricos contar o número de
ondas estacionárias com freqüência entre ν e ν+dν e
determinar como este número depende de ν ⇒ NT(ν)
3-Usando o resultado da teoria cinética clássica (teoria
cinética dos gases), calcular a energia total média das
ondas em equilíbrio térmico ⇒ 〈E〉
4-Multiplicando-se NT(ν) por 〈E〉 e dividindo pelo volume
da cavidade, obtiver a densidade de energia média
contida por unidade de volume no intervalo ν e ν+dν ⇒
ρT(ν)
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• Densidade de energia média contida na cavidade
por unidade de volume:
du T ( λ ) 8πkT
E
1 dN
=− =
dλ L3 dλ λ4
• Reescrevendo em função da freqüência ν:
du T ( ν ) du T ( λ ) dλ du T ( λ )  c 

=
dλ dν
=
dλ  ν   − 2

• O sinal negativo indica que a freqüência decresce


com o comprimento de onda.
• A magnitude da densidade de energia em função
de ν na cavidade por unidade de volume é:
du T ( ν ) 8πkTν 4 c du T ( ν ) 8πkTν 2
= ⇒ =
dν c 4
ν 2
dν c3
8πkTν 2 8πkTν 2
du T ( ν ) = dν ⇒ ρT ( ν ) =
Lei de
3 Rayleigh-Jeans
c c3
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8πkTν 2
ρT ( ν ) =
c3

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Teoria clássica não explica a
radiação de corpo negro !!!!!

“Catástrofe do Ultravioleta”

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1.3 – Teo de Planck para a radiação de corpo negro

• Planck admitiu correto o número de modos da


radiação NT(ν) dentro da cavidade, preservando
esta parte do modelo de Rayleigh-Jeans:
8πν 2
NT ( ν ) = 3
c

• Para ele o problema residia no cálculo da energia


média 〈E〉 da radiação.
– O problema estaria resolvido em tese se a energia
média tivesse o seguinte comportamento:
E 
ν→0
→ kT e E 
ν→∞
→0

8πν 2
ρT ( ν ) = N T ( ν ) E = 3 E
c
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• O cálculo de 〈E〉 envolve a lei da equipartição de
energia.
• Como explicar que a radiação na cavidade viola
esta lei?
• A lei de eqüipartição da energia tem ligação direta
com a lei de distribuição de Maxwell-Boltzmann da
mecânica estatística:
– Sistema formado por muitas partículas indistinguíveis
que podem ter energia E qualquer.
– A probabilidade das partículas ocuparem um estado
com energia E é:
−E kT
P (E ) =
e
kT
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• Conhecendo então a lei de distribuição das ondas
eletromagnéticas nas possíveis energias, pode-se calcular
a energia média por ‘onda’ da seguinte forma:

∫ E.P (E ) dE

E =
kT
= = kT
∫ P (E ) dE
0

1
0

• Que é a lei da equipartição da energia.


• Usar esta lei então significa pressupor:
– Que existe uma quantidade muito grande de ondas estacionárias
na cavidade;
– que as ondas existentes na cavidade podem ter qualquer valor de
energia E.
• A segunda condição implica que as cargas que oscilam
nas paredes da cavidade podem emitir radiação
eletromagnética de qualquer valor de energia E.

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• Planck supôs então que a 2ª condição não
era válida, ou seja, que as cargas oscilantes
nas paredes da cavidade só podem emitir
alguns valores de energia.
• Supôs ainda que as energias possíveis
eram múltiplos, como se os osciladores só
pudessem emitir ‘pacotes’,
pacotes ou ‘quantum’
quantum
de energia de um mesmo tamanho e o que
mudasse de um oscilador para outro seria a
‘quantidade’
quantidade de pacotes emitidos.
E = 0, ε, 2ε, 3ε, 4ε, ...
Mas, como esta hipótese ‘resolve o problema’?

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Em = mε ,m = 0,1, 2, 3,⋯

E = 0, ε, 2ε, 3ε, ⋯ ⇒ 
∫ ...dE → ∑ ...
∞ ∞


 m =0 ∞


0
−E kT − mε kT EmPm
P (E ) = ⇒ Pm =
e e
E = m =0∞
kT kT ∑ Pm
∑ mε ε ∑ me − ε ∑ mα m
m =0
∞ − mε kT ∞ ∞
e mε
kT

E =
kT
com : α = e −
ε
m =0
= m =0
= m =0

∑ ∑e ∑
kT
∞ − mε kT ∞ ∞
e − mε kT
α m

m = 0 kT m =0 m =0

∑ αm = 1 + α + α 2 + α3 + α 4 + ⋯ =

1
, se α < 1
m =0 1− α
d  ∞ m ε
∑ ∑  E =

d
( ) ( )
−1 −2
α = α α = α − α = α − α
dα  m = 0 
m
m 1 1
m =0 dα ε
e kT
−1
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• Então a densidade de energia na cavidade
é:
8πν 2 8πν 2 ε
ρT ( ν ) = N T ( ν ) E = 3 E = 3 ε
c c e kT − 1

• Quem é ε?
• ε tem necessariamente depender de ν !!!
• Planck postulou que:
ε = hν
– h constante determinada através do ‘ajuste’ da
equação aos dados experimentais

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hν
hν  kT → 0, E → kT e ρT ( ν ) → ρT ( ν )  clássico

8πν 2
ρT ( ν ) = 3 hν
c e kT − 1  → ∞ , E → 0 e ρT ( ν ) → 0


kT
pequeno ⇒ e ( )

Para hν kT
→ 1 + hν
kT kT

Coblentz 1916,
h= 6,57 x 10-34J.s

Valor aceito atualmente: h=6,63 x 10-34J.s


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• Conseqüências da Teoria de Planck:
– Leis de Stefan e de Wein são deduzidas da lei de Planck;
– A lei de Stefan é obtida integrando-se a expressão de
Planck em todo o espectro de frequências.
• Fazendo isso obtém-se a dependência com T4 da radiança e a
constante de Stefan pode ser escrita como:
2π 5 k 4
σ=
15c 2 h 3
– A Lei de deslocamento de Wein é obtida fazendo-se
dρ⁄ =0.

• Fazendo isso encontramos para a constante de Wein:
hc
λ max T = 0, 201
k
– Usando agora os dois valores experimentais das duas
constantes, Planck determinou h e k concordando com
valores determinados por outros métodos.

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• Conseqüências da Lei de Planck:
– Pirômetro óptico
– A lei de Stefan diz que a radiança total depende de T4.
Então em tese medindo-se a radiação emitida EM
TODO O ESPECTRO, pode-se determinar a
temperatura.
– Medir a radiança em todo esepctro é muito dificil e
consistia no principal dificuldade experimental para usar
a lei de Stefan para determinar temperaturas a partir da
radiação emitida
– Com a lei de Planck, pode-se medir a radiança em um
intervalo de frequencias mais conveniente e usar a
expressão de Planck para ‘calibrar’ o pirômetro.

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• Conseqüências da Lei de Planck:
– A radiação é emitida em um número inteiro de
‘quantum’ de radiação.
• Um feixe monocromático de radiação:

Efeixe =nhν
– A emissão é quantizada !

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