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O melhor lugar - Andréa Damasceno Raupp Causo premiado no Concurso Causos do ECA de
O melhor lugar - Andréa Damasceno Raupp Causo premiado no Concurso Causos do ECA de

O melhor lugar - Andréa Damasceno Raupp Causo premiado no Concurso Causos do ECA de 2008

Raupp Causo premiado no Concurso Causos do ECA de 2008 Andréa Damasceno Raupp Passo Fundo –

Andréa Damasceno Raupp Passo Fundo – Rio Grande do Sul

Sou professora do Ensino Fundamental da rede privada de ensino da cidade de Passo Fundo e trabalho com crianças bastante privilegiadas. Mas nem sempre foi assim. A história que segue aconteceu há 12 anos, em Porto Alegre, numa escola municipal, quando eu estava substituindo uma colega em licença, no início do ano letivo. Foi quando conheci uma turminha muito miúda, não pela idade, mas pela pouca estatura, provavelmente por causa da má nutrição. Eram crianças da periferia da cidade, onde as condições de vida eram precárias e os cuidados com

a saúde deixavam muito a desejar.

A principal refeição das crianças, como ocorre na maioria das comunidades

carentes, era a que a escola oferecia. Procurei não me abater diante de uma desigualdade tão cruel, e tentei colocar-me como alguém que iria trazer alguns momentos de aprendizado, alegria, descobertas etc.

Ao encontrar os alunos na fila, segurei a mão de Ricardo e de Maria, para

Ao encontrar os alunos na fila, segurei a mão de Ricardo e de Maria, para conduzir a turma até a sala. Durante o trajeto, alguém me puxou pela manga tão suavemente que quase não percebi. Mas foi tão insistente que acabei olhando para baixo, e então uma voz muito fraquinha, quase inaudível, me disse:

- Professora, a senhora está apertando muito a minha mão!

Quando me dei conta disso, soltei imediatamente a mãozinha de Maria e me desculpei. Esperei que todos entrassem na aula e se acomodassem, fiz a chamada e arrumei alguns lugares. Maria estava na última cadeira, chamei-a para sentar em minha frente, pois alguma coisa, como um sussurro, me dizia que ali seria o melhor lugar para ela.

Maria procurava fazer tudo com o maior capricho possível e realizava as tarefas solicitadas com o máximo de atenção. Mas, por mais que a elogiasse, nunca a via sorrir

Impossível não me apaixonar por Maria. Aos poucos, um sentimento de carinho e proteção foi se apossando de mim em relação àquela menina. Pequenina, muito, mas muito magrinha, eu tinha a impressão de que as pequenas mãos se quebrariam a qualquer aperto mais forte, mas aprendi a segurá-las sem machucar. Os cabelos

fininhos e escassos, uma voz que imagino ser igual à de um anjo e o olhar mais meigo e triste que já vi. O sorriso, só vi uma vez, e ainda hoje me emociono ao lembrar dele.

Maria procurava fazer tudo com o maior capricho possível e sempre realizava as tarefas solicitadas com o máximo de atenção. Mas, por mais que a elogiasse, nunca a via sorrir. Queria abraçá-la, fazer um carinho mais apertado, mas Maria sempre se afastava ao perceber minha intenção. Até que um dia não resisti, e a abracei de surpresa, num gesto de felicidade por ela ter conseguido realizar alguma tarefa que hoje nem lembro mais qual era. Que susto! Ela deu um gemido de dor tão forte que doeu em mim. Quando perguntei o que era, ela se atrapalhou toda e, num desespero, levantei sua pequena blusa pelas costas, sem sua permissão.

Quando vi o estrago feito no corpo de um ser tão indefeso, fui tomada por um

sentimento que nunca havia imaginado existir. Era uma mistura de raiva, indignação, pena, impotência e

sentimento que nunca havia imaginado existir. Era uma mistura de raiva, indignação, pena, impotência e outras sensações que não consigo distinguir. Então ela acabou contando: sua mãe havia batido nela, ou melhor, espancado com a cinta do pai, e, como se não fosse o bastante, tinha jogado dois tijolos nas suas costas quando ela tentou correr. Só não foi pior porque a vizinha viu e socorreu a menina. Chorei. Ela implorou para que eu não falasse nada a sua mãe, pois já estava acostumada e a dor iria passar. Então acabou me contando muitas outras barbaridades cometidas pelos pais, mas principalmente pela mãe. É claro que levei o caso adiante.

Na época, eu não sabia os detalhes do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), mas sabia que ele existia e que seu principal objetivo era o de proteger as crianças e socorrê-las. Nada mais adequado para o momento do que fazer valer o Estatuto por meio do Conselho Tutelar. As tratativas com a família de Maria aconteceram durante alguns dias, visando acabar com a situação de maus-tratos.

O início de uma transformação no comportamento da pequena já podia ser observado, pois ela não se afastava mais quando eu a abraçava

Nesse meio tempo, as aulas continuavam no seu ritmo e Maria as freqüentava normalmente. A menina acabou ficando sob tutela da avó. O início de uma transformação no comportamento da pequena já podia ser observado, pois ela não se afastava mais quando eu a abraçava. Meu tempo estava acabando e, a cada dia, meu envolvimento

com Maria se tornava mais forte.

Fui preparando a turma para a minha saída, para evitar transtornos e rupturas. Tentei fazer o mesmo com Maria, dizendo que ela ficaria bem, que jamais deveria aceitar ser maltratada por ninguém e que nunca se calasse perante a violência. E que, enquanto ela vivesse ali, na comunidade, que procurasse ajuda com as mesmas pessoas que a tinham auxiliado. Claro que tudo isso com uma linguagem à altura da pequena Maria. No último dia, despedidas, abraços, beijos e aquela voz com uma frase que ainda escuto com perfeição:

- A senhora me leva para sua casa?

Lágrimas. Uma dor no peito, um aperto, uma vontade de mudar tudo, de ficar e, ao mesmo tempo, de levá-la comigo na mesma hora. Mas a razão acabou se

sobrepondo à emoção e, com alguma iluminação divina, conversei com Maria e lhe expliquei que

sobrepondo à emoção e, com alguma iluminação divina, conversei com Maria e lhe expliquei que aquilo não seria possível.

Hora da saída. Subi no ônibus, vi muitos acenos, beijos e correria da “piazada”. Mas minha última imagem foi Maria, acenando, mandando um beijo e um sorriso, o mais lindo que já vi! Chorei novamente, muito mais do que agora, ao escrever esta memória, pois percebo que agi certo ao escutar aquele sussurro que sugeria colocar Maria sentada pertinho de mim. Ali foi o melhor lugar para ela, e para mim também!