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Módulo 03 – Professora Aída Monteiro 1 Professor Renê Dutra 2 Vídeo Aula 5 3
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Módulo 03 – Professora Aída Monteiro 1

Professor Renê Dutra 2

Vídeo Aula 5 3

A relação entre Escola e Conselho Tutelar

Prof a Aída Monteiro: Olá professor, professora, nós vamos, neste módulo, tratar da questão da relação da escola com o Conselho Tutelar, aprofundando alguns pontos além dos que já foram abordados nos outros módulos, para que fortaleçamos o nosso processo de conhecimento.

Um dos pontos que me parece muito importante destacar, que muitas vezes nós, professores, temos certa dificuldade, é em relação à confiança e ao sigilo do Conselho Tutelar, ou seja, o sigilo que este órgão deve manter quando a escola comunica casos de violência, evasão ou repetência.

A escola precisa repensar o seu trabalho. Precisa rever como esta trabalhando com o aluno, se, de fato, está sendo motivadora, instigando o aluno a buscar informações, a buscar o conhecimento, fazendo também com que o aluno se sinta pertencente ao trabalho. Se tudo isso foi feito e os casos de repetência continuam, ou de evasão, já é momento, após as tentativas da escola, no sentido de que o aluno retorne às aulas, da comunicação ao Conselho Tutelar.

1 Aída Monteiro é pedagoga e doutora em Educação, é secretária-executiva de Desenvolvimento da Educação de Pernambuco com experiência na Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República (SEDH – PR).

2 Renê Dutra é conselheiro tutelar de Rio das Ostras/RJ, representante da Associação de Conselheiros Tutelares do Rio de Janeiro e membro do Fórum Colegiado Nacional de Conselheiros Tutelares (FCNCT).

Foram feitas apenas as adaptações necessárias à transposição do texto falado para o texto escrito.

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Nesse sentido, gostaria que o Renê Dutra, representante do Conselho Tutelar, deixasse mais claro a

Nesse sentido, gostaria que o Renê Dutra, representante do Conselho Tutelar, deixasse mais claro a função do conselho e o compromisso que ele tem de manter o sigilo em relação aos comunicados que chegam.

Prof. Renê Dutra: Esta questão é muito importante. O conselheiro não pode romper o sigilo, pois estará infringindo a lei. A lei garante a denúncia anônima. Qualquer pessoa, qualquer professor, pode fazer uma denúncia sem se identificar, é um direito, está garantido na lei. E a confiança no conselho também deve existir. A comunidade escolar deve confiar que a denúncia não vai “vazar”, que os pais não ficarão sabendo que foi a escola que comunicou.

É óbvio porém, nós sabemos, que, muitas vezes, a associação é direta. Quando o conselho chega na família, conforme o que está sendo denunciado, ela imediatamente relaciona isso com a escola, mas o Conselho Tutelar não deve nunca dizer quem fez a denúncia.

O Conselho tem toda uma abordagem, uma forma de chegar à família,

para que se tente resguardar ao máximo a escola. Não podemos esquecer que a denúncia é uma obrigação da escola. A lei diz que ela tem que fazê-la, é uma responsabilidade. Seria ilusório, por isso, dizermos que há total segurança da escola, em relação às denúncias, não há como garantir que a escola vai ficar totalmente imune e que nunca sofra algum tipo de ameaça. Isso acontece, a professora sabe, no país inteiro. Às vezes os pais vão ameaçar a professora, a própria direção, considerando que não deveriam estar se intrometendo na vida da criança, o que também é uma visão errada, uma vez que o foco do Conselho Tutelar e da escola é resolver o problema, é cessar a violação.

Eu gosto sempre de dizer que o “problema” do conselho não é com a família, o conselho não tem nada contra os pais, mas quer resolver a situação da criança. A questão do sigilo é também ética. O Conselho Tutelar tem que privar ao máximo para que não vaze a informação de que foi a escola que fez esta denúncia. Isso é responsabilidade do conselho.

O Conselho Tutelar, ele é escolhido pela comunidade, quem escolhe os

cinco conselheiros é a própria comunidade, então a ela tem que se sentir responsável por este órgão, porque às vezes, a comunidade escolhe e “deixa pra lá”. Ao contrário, ela deve acompanhar o conselho, pois ele é parte dela.

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Prof a Aída Monteiro: Exatamente, e eu gostaria de chamar a atenção ainda que, além

Prof a Aída Monteiro: Exatamente, e eu gostaria de chamar a atenção ainda que, além da problemática da evasão e da repetência, muitas vezes há questões que ocorrem no interior da escola e a própria escola não se apercebe. Quantas vezes estabelecemos relações com os alunos que não contribuem, não ajudam, para que ele realmente se motive, que procure a escola, tenha confiança nela, não somente nos processos educativos, no sentido da aprendizagem, do conhecimento, mas também em ver na escola aquele parceiro que ele pode confiar, que pode chegar junto ao professor, ao diretor, ao coordenador pedagógico, não importa a quem ele vai procurar, contanto que seja um educador que possa ouvi-lo e, se for o caso, fazer os comunicados necessários para a garantia de proteção, para que ele de fato tenha os seus direitos assegurados. É neste sentido que verificamos a validade da relação próxima da escola com o Conselho Tutelar e com outros organismos da sociedade.

Penso que a mensagem que nós vamos deixar aqui para vocês é a da necessidade de que a escola assuma isso como um projeto mais amplo, que vai além do seu interior, buscando o envolvimento com toda a comunidade. A escola precisa também repensar o seu papel. Ela é formadora, tem a incumbência de trabalhar os conteúdos, o conhecimento cognitivo, mas ela também trabalha com valores, com atitudes e comportamentos. Nesse sentido é preciso que ela também assuma a sua condição de ser uma das instituições que protege a criança e o adolescente e, para isso, ela precisa fazer uma comunicação eficaz, que dê condição para que o Conselho Tutelar ajude a família, que forneça elementos para que o conselho vá buscar também outros organismos da sociedade para, juntos, trabalharem nas soluções dos problemas.

É importante que haja uma atitude de conhecimento da criança, da família, do ambiente e do contexto em que esta família está vivendo. Frequentemente as violações não ocorrem somente dentro da casa, quantas vezes temos a informação de que violações sexuais estão se dando com vizinhos, por exemplo, por isso a importância de conhecer esta vizinhança. Ao fazer isso a escola vai ter muito mais condições de fornecer elementos que ajudem o Conselho Tutelar a ter uma ação mais eficaz.

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Prof. Renê Dutra: Sim, penso que esta questão é fundamental, porque a criança confia muito

Prof. Renê Dutra: Sim, penso que esta questão é fundamental, porque a criança confia muito no professor e na professora, no “tio” e na “tia”. Assim, se o professor mantém uma proximidade com os alunos, se observa “com o olhar de quem quer observar, olhar de quem quer ver”, certamente perceberá algum problema e conseguirá conversar com a criança sobre o que lhe aflige.

Muitas vezes temos uma aluna que geralmente era muito falante, e de repente, o professor percebe aquela criança quieta, percebe mudanças de comportamento, é preciso ficar muito atento, ninguém muda o comportamento por nada. Os professores precisam ter esta sensibilidade, esta percepção. É óbvio que nós sabemos que temos realidades de salas com 40 alunos e que isso dificulta o trabalho. Sabemos que o professor não trabalha em situações adequadas, mas, dentro do possível, ele pode estar mais atento, com o olhar mais apurado, pois convive diariamente com os alunos. Ao perceber algo estranho, a notificação precisa ser feita para garantir que a criança não sofra, que cesse o sofrimento do aluno.

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