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Módulo 04 – Professora Maria Helena Zamora 1 Vídeo Aula 2 2 Adolescentes em Conflito
Módulo 04 – Professora Maria Helena Zamora 1 Vídeo Aula 2 2 Adolescentes em Conflito

Módulo 04 – Professora Maria Helena Zamora 1

Vídeo Aula 2 2

Adolescentes em Conflito com a Lei e a Escola

Iniciaremos este texto explicando o que são é uma ato infracional, que está descrito no Estatuto da Criança e do Adolescente, como aquele ato que é considerado um crime ou uma contravenção penal (artigo 103 do ECA). Chamamos de adolescente infrator, ou, num termo mais adequado, de adolescente em conflito com a lei, aquele que cometeu este ato infracional. É importante destacar que nós não devemos adotar

a terminologia “menor” para este adolescente, pois ela é considerada discriminatória e pejorativa.

Vamos pensar sobre o adolescente em conflito com a lei, como um menino, um rapaz ou uma moça, como qualquer outro que passa na nossa sala de aula. É

importante que comecemos a abrir o nosso olhar para o quanto ele está presente, ou já esteve presente, na nossa escola. Portanto, saber do cometimento do ato infracional

e do universo das medidas sócio-educativas é uma questão para a escola.

Os atos infracionais, quando visualizados em nível nacional, em termos de números, são, em sua maioria, referentes a delitos leves, dirigidos contra a propriedade, ocorrendo, em número muito pequeno, os delitos mais graves.

As medidas socioeducativas têm, não apenas um caráter retributivo, ou seja, que vai sancionar negativamente este ato que o adolescente cometeu, mas também elas devem tentar fazer a recomposição da cidadania do adolescente, além de garantir os seus direitos previstos em lei. A medida tem que ser pensada realmente com o

1 Maria Helena Zamora é doutora em Psicologia e professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Também é professora convidada da especialização em Psicologia Jurídica da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e da Psicologia Jurídica da Universidade Potiguar (RN), e vice-coordenadora do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa e Intervenção Social (LIPIS/PUC-Rio). 2 Foram feitas apenas as adaptações necessárias à transposição do texto falado para o texto escrito.

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olhar da educação, como mais uma iniciativa educativa. Esta educação que precisa ser assegurada ao

olhar da educação, como mais uma iniciativa educativa. Esta educação que precisa ser assegurada ao adolescente infrator, não importando qual o tipo de ato infracional foi cometido. Os professores sabem perfeitamente que este é o caminho para a recomposição das vidas, para a recomposição da cidadania.

Quando examinamos os adolescentes em conflito com a lei do ponto de vista estatístico qualitativo, as pesquisas já feitas mostram, geralmente, que aquele que é acusado mais frequentemente de um ato infracional, em 90% dos casos, é do sexo masculino e com idade a partir dos 14 anos, aumentando o número de infratores à medida que aumenta a faixa etária 3 . Também ocorre muitas vezes, que o adolescente em conflito com a lei não tem uma correspondência entre a sua idade e a série que ele está cursando, ou seja, ele deveria estar mais adiantado em seus estudos. Metade destes adolescentes continuam na escola e é interessante pensarmos que pedido este adolescente faz ao se manter na escola. O que ele ainda quer na escola, de que maneira podemos chamá-lo, como envolvê-lo, principalmente frente ao mundo atual que, nós sabemos, precisa cada vez mais da educação.

O adolescente em conflito com a lei também é, em sua maioria, de classes menos privilegiadas. É pobre ou muito pobre, embora nós saibamos perfeitamente que os atos infracionais podem ser cometidos por adolescentes de todas as camadas sociais. É preciso que nos livremos do tipo de preconceito que diz que a pobreza está ligada ao cometimento de atos infracionais, ao crime ou à violência, a gente não deve trabalhar dessa maneira.

O adolescente infrator é, em geral, alguém muito despossuído de sua cidadania, do acesso aos direitos sociais, às suas necessidades mais básicas, destituído de equipamentos sociais que poderiam lhe dar melhores condições no mercado de trabalho, por exemplo, afinal, é próprio da adolescência, fazer planos para a idade adulta. Este perfil do adolescente atingido por toda esta vinculação com uma realidade marginalizada, ou com o cometimento de atos infracionais, mostra um adolescente em situação de maior risco social, de maior vulnerabilidade e, muitas vezes, de maior pobreza, embora saibamos perfeitamente que os adolescentes de classes altas e médias também podem estar em situação de vulnerabilidade.

Conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente, em seu artigo 112:

“verificada a prática de um ato infracional, a autoridade competente poderá aplicar ao adolescente as seguintes medidas sócio-educativas”:

I – advertência: ou seja, uma chamada formal à reflexão sobre o seu ato, evidentemente, dirigida aos atos infracionais mais leves,

3 Considera-se criança a pessoa até doze anos de idade incompletos, e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade (artigo 2 o do Estatuto da Criança e do Adolescente).

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o adolescente também reflita e ofereça ao ofendido, à sociedade, algum tipo de reparação, III

o

adolescente também reflita e ofereça ao ofendido, à sociedade, algum tipo de reparação,

III - prestação de serviços à comunidade, uma medida que, sendo em meio

aberto, precisa ser desenvolvida com a comunidade e no âmbito da Assistência Social,

II -

obrigação de reparar o dano, que é de grande valor

para que

IV - liberdade assistida, que já apresenta certa restrição da liberdade,

V – inserção em regime de semi-liberdade,

VI - internação em um estabelecimento educacional.

É importante dizer que todas estas medidas podem e devem ser aplicadas pelo juiz, que também poderá aplicar uma ou mais das medidas previstas no artigo 101 (de I a VI), que são as medidas de proteção. Não podemos deixar de proteger estes adolescentes, pois, em geral, estão envolvidos em perigo para a sua própria vida, em dinâmicas criminais, ou em delitos por pessoas mais velhas, precisam de proteção também.

O sistema sócio-educativo deve ser entendido numa lógica distante da lógica do sistema penal. Os adolescentes não vão para a cadeia, não se fala em cárcere. A questão também não é dizer, como acontece muito, que eles ficam impunes. Isso não tem nenhuma propriedade. O adolescente se responsabiliza por qualquer ato infracional que tenha cometido, ele precisa refletir, pensar e traçar, no âmbito da medida sócio-educativa, novos planos para a sua vida. Portanto ele responde pelo que cometeu. É uma falácia pensar que não, o que tem de diferente em relação ao sistema penal é que ele é uma pessoa em pleno desenvolvimento, ele ainda é um adolescente. Não se trata de pensar, erroneamente, que ele não consegue diferenciar entre o certo e o errado, não é isso que nós defendemos. Nós consideramos a imaturidade dele, que ele está em desenvolvimento, além de que ele é um sujeito de direitos e a plena cidadania precisa ser, na maioria dos casos, devolvida a ele. Nós não falamos em penas, pois queremos, propositadamente, se afastar do universo penal. Nós falamos em medidas sócio-educativas e a escola tem tudo a ver com isso.

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