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Módulo 04 – Professora Irandi Pereira 1 Vídeo Aula 4 2 Medidas Sócio-educativas Medidas sócio-educativas
Módulo 04 – Professora Irandi Pereira 1 Vídeo Aula 4 2 Medidas Sócio-educativas Medidas sócio-educativas

Módulo 04 – Professora Irandi Pereira 1

Vídeo Aula 4 2

Medidas Sócio-educativas

Medidas sócio-educativas são medidas aplicadas aos adolescentes em conflito com a lei, que são aqueles que, por um motivo ou outro, praticaram atos infracionais. A eles são destinadas um rol de medidas como dispõe o Estatuto da Criança e do Adolescente.

Dependendo do ato infracional cometido, e dependendo do envolvimento que este adolescente tem com as práticas infracionais, ele recebe uma medida da mais amena até a de maior gravidade.

Nós temos as medidas de advertência e de obrigação de reparação do dano, que começam e terminam na ação do Sistema de Justiça, composto pelo Poder Judiciário, pelo Ministério Público e pela Defensoria Pública, entendida aqui, como a defesa técnica que o adolescente, com o Estatuto da Criança e do Adolescente, tem por direito. Ao contrário do que ocorria na antiga legislação de menores (Código de Menores), que colocava esta defesa apenas como uma possibilidade, hoje qualquer adolescente que comete ato infracional não pode ser julgado se não tiver a defesa técnica por profissional qualificado, ou seja, um advogado. Os adolescentes das camadas populares podem contar com o trabalho gratuito da defensoria pública.

Outras medidas também são aplicadas ao adolescente, uma delas, considerada uma das mais importantes, porque de fato leva à educação, uma educação diferenciada, de um novo tipo para estes adolescentes que um dia cometeram um ato infracional, é a prestação de serviços à comunidade. O nome já

1 Irandi Pereira. Graduada em Pedagogia, e doutora em Educação pela USP. É docente no mestrado profissional "Adolescente em Conflito com a Lei" da UNIBAN, foi membro do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente / CONANDA (gestão 2002-2004) e é ativista do movimento dos direitos da criança e do adolescente.

Foram feitas apenas as adaptações necessárias à transposição do texto falado para o texto escrito.

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diz: prestar serviços à comunidade. Se um adolescente cometer um ato infracional de natureza leve,

diz: prestar serviços à comunidade. Se um adolescente cometer um ato infracional de natureza leve, ou tiver um primeiro envolvimento com esta prática, ao receber a medida, ele terá o tempo máximo de seis meses para o seu cumprimento. A média, no Brasil, para o cumprimento dessa medida, é de três a quatro meses. Esta sentença judicial, que chamamos de medida sócio-educativa, será cumprida numa instituição de atendimento ao público, que pode ser na área da educação, da saúde, ou de entidades assistenciais, ou seja, o interesse público é que está em consideração.

Outra medida que o adolescente recebe é a chamada de liberdade assistida. O melhor termo para se referir à liberdade assistida é, na minha opinião, ‘assistir a liberdade de um adolescente’, que cometeu um ato infracional. O adolescente é encaminhado a um programa sócio-educativo, de base municipal, porque as medidas sócio-educativas em regime aberto, que são a prestação de serviço à comunidade e a liberdade assistida, devem ser de base municipal, pois as instituições, os adolescentes e as suas famílias estão no município. A medida de liberdade assistida comporta o mínimo de seis meses para o seu cumprimento, porque há um envolvimento um pouco maior deste adolescente com o delito, uma recorrência ou uma continuidade nesta prática, ou porque o adolescente teve o que é chamado, na área de “quebra de medida”, explicada abaixo.

Com cada adolescente em cumprimento destas medidas deve ser feito um Plano de Atendimento Individual, chamado hoje de PIA. Este plano é composto por uma série de obrigações e de responsabilidades, tanto da instituição que atende, quanto do adolescente e da sua família, para um cumprimento eficiente e eficaz da justiça. Um dos quesitos importantes é a questão da escolarização. Se este adolescente, por exemplo, não faz o seu retorno à escola, ou a uma atividade de formação profissional, diz-se que houve quebra da medida e é preciso rever esta atitude. A quebra de medida pode se dar por vários modos, inclusive pelo próprio programa de atendimento, quando este não oferece ao adolescente os chamados requisitos legais para o cumprimento da medida.

Outras duas medidas, de caráter mais grave, são a semi-liberdade e a internação.

A semi-liberdade é prevista para o adolescente que cometeu um ato infracional que se considera muito mais grave do que os anteriores, quando há recorrência na prática do ato, ou ainda, quando houve a quebra de medida. Acontece, também, do adolescente sair de uma medida de internação, por exemplo, e ir para a semi- liberdade, fazendo suas atividades fora da instituição de atendimento e retornando à noite, ou no final da tarde para a instituição. Diferente da prestação de serviços à comunidade, ou da liberdade assistida, na semi-liberdade ou na internação o adolescente não estará em companhia de sua família ou se sua comunidade, mas

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tutelado por uma instituição de atendimento. A medida de internação é considerada a mais grave

tutelado por uma instituição de atendimento.

A medida de internação é considerada a mais grave de todas. Quando recebe esta medida, aplicada pelo sistema de justiça, está claro que o adolescente cometeu um ato infracional de natureza grave, como um homicídio, um latrocínio ou um assalto a mão armada, por exemplo. Sendo uma medida privativa de liberdade o adolescente passa a rever os seus conceitos, repensar as suas atitudes e o seu projeto de vida, a partir de uma instituição na qual fica em período integral.

Na internação, como em todas as outras medidas sócio-educativas, os adolescentes precisam de um Plano Individual de Atendimento muito cuidadoso, e neste Plano a educação escolar é fundamental. Independentemente da medida recebida, a educação escolar é condição sine qua nom 3 para que estes adolescentes tenham responsabilidade no cumprimento de medidas sócio-educativas. A responsabilidade não é só do adolescente em ir para a escola e ter sucesso nela. A instituição escolar e os outros programas de atenção a este adolescente devem fazer todo o esforço para garantir que ele tenha a melhor educação.

A gente sabe que educação não rima com coerção, mas infelizmente, o adolescente tem o tempo todo, no caso de semi-liberdade e internação, para praticar e exercitar a educação escolar. Eu acredito que se for trabalhada a educação escolar no sentido das disciplinas obrigatórias e também de outras atividades que elevem a condição do adolescente em termos de oportunidades e habilidades, nós vamos conseguir com que este adolescente não cometa mais ato infracional e não precise mais de nenhum tipo de medida sócio-educativa.

3 Sine qua non ou condição sine qua non originou-se do termo legal em latim para “sem o qual não pode ser”.

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