Você está na página 1de 7

Módulo 06 – Professor Mário Volpi1

Vídeo Aulas 4 a 62
A discussão sobre os direitos da criança e do adolescente em sala de aula, na
escola e na comunidade pressupõe uma reflexão inicial sobre um momento muito
importante, neste processo de discussão dos direitos, que é a sensibilização das
crianças e dos adolescentes sobre o tema, a partir de alguns conceitos muito básicos.
A primeira idéia é importante a se desenvolver com as crianças e com os
adolescentes para discutir direitos é que a todo direito corresponde uma
responsabilidade. Nós temos direitos individuais e a estes diretos correspondem
responsabilidades individuais. Eu tenho direito à saúde, por exemplo, mas eu tenho a
responsabilidade de cuidar do meu corpo, de me proteger, de evitar me expor a
situações de vulnerabilidade. Eu tenho direito à educação, mas tenho a
responsabilidade de freqüentar a escola, cumprir os horários, fazer as tarefas etc.
Esta reflexão é muito importante porque, algumas vezes, nós falamos nos
direitos como se eles fossem um tema de mão única, mas eles têm duas mãos. Se
uma se refere ao direito que a sociedade e o Estado democrático de direitos
concedem a cada um de nós, a outra trata da nossa responsabilidade. Nós temos
alguns direitos sociais coletivos e uma forma de organização da sociedade que
permite, por exemplo, que uma empresa produza e venda, mas esta empresa tem
uma responsabilidade social, ela tem que assegurar que a produção de alimentos
respeite o meio ambiente, seja sustentável, que o alimento chegue à mesa das
pessoas de forma saudável, não sendo prejudicial à saúde etc.
Esta primeira idéia de refletir sobre direitos e responsabilidades é muito
importante para introduzir esta tarefa mais concreta de reflexão sobre os direitos na
comunidade, na escola e na sala de aula.

1
Mário Volpi é formado em Filosofia e mestre em Ciências Sociais. Já atuou como professor e
hoje é oficial de Projetos do Unicef no Brasil.
2
Foram feitas apenas as adaptações necessárias à transposição do texto falado para o texto
escrito. 1
Uma segunda idéia importante é a da cidadania. O direito e a responsabilidade
criam em cada um de nós a condição de cidadão. Ser cidadão significa ter direitos e
responsabilidade. Para refletirmos sobre isso, nós podemos usar de quatro outras
pequenas idéias que compõem o que é a cidadania:
1 – Direito de ter direitos: A cidadania é o direito de ter direitos, ou seja, todo
mundo, pela sua simples condição de ser humano, já nasce com direitos. Todos temos
direitos, esta é uma condição mínima dos seres humanos que está, inclusive,
assegurada pela Convenção Internacional dos Direitos Humanos, que é um consenso
entre os países do mundo, além de constar em nossa Constituição e nas legislações
de diversos países.
2 – Direito de conhecer os direitos: Este curso que vocês estão fazendo está
tratando exatamente desse aspecto da cidadania, que é o direito de conhecer os seus
direitos, de estudá-los, de aprender e refletir sobre eles, de interpretá-los e questioná-
los, aprofundando o seu conhecimento. Todo este processo de conhecimento dos
direitos é um elemento fundamental da cidadania.
3 – Direito de usufruir dos direitos: Não adianta eu dizer que tenho direito à
educação, se não tenho uma vaga para ser matriculado numa escola. Não adianta eu
dizer que tenho direito à saúde, se na hora que preciso de um atendimento, ele não
existe. O direito de usufruir dos direitos é, normalmente, o aspecto da cidadania que a
gente mais reflete, mais discute, porque nós estamos constantemente nos
questionando sobre ele, porque a cada dia nós precisamos ter oportunidades para que
os nossos direitos sejam realizados.
4 – Direito de produzir novos direitos: Quando a constituição brasileira foi
aprovada em 1988, por exemplo, as crianças e os adolescentes tinham o direito a oito
anos de educação obrigatória, dos sete aos 14 anos, depois, com a evolução da
sociedade, foi acrescentado mais um ano de educação obrigatória, ou seja, dos seis
aos 14, e hoje, a discussão já é de ampliar a obrigatoriedade da educação dos quatro
aos 17 anos, incluindo também o ensino médio como um direito fundamental de cada
adolescente e uma obrigação do Estado, da sociedade, e do próprio cidadão. Este é
um exemplo de como, a cada dia, a sociedade vai produzindo novos direitos.
Um outro exemplo que podemos dar está na questão dos novos direitos da
comunicação, que as novas tecnologias da informação, a internet, os computadores,
os instrumentos de comunicação nos trouxeram e nos trazem a cada dia. Hoje nós já
estamos falando, por exemplo, em exclusão digital. Atualmente, uma parte das nossas
crianças e adolescentes, e mesmo de adultos, ou seja, uma parte da nossa sociedade
está sendo excluída de todos estes benefícios que as novas tecnologias da
informação estão trazendo, fazendo com que, gradativamente, se discuta e produza
um novo direito, que é o de usufruir destas tecnologias da comunicação. Esta reflexão
sobre o direito de produzir novos direitos dá um sentido dinâmico à cidadania.
2
Cidadania não é só ficar sentado em sua casa, escola ou comunidade, esperando que
as coisas aconteçam, mas é se mobilizar, refletir, pensar.
Com estes dois blocos de idéias, nós sugerimos aos professores, que façam
aquilo que nós chamamos de uma sensibilização sobre estes conceitos. É preciso
falar sobre estes conceitos, fazer alguns cartazes, colocando neles as palavras
‘direito’, ‘responsabilidade’, ‘cidadania’, ‘direito de conhecer os direitos’, ‘direitos de
usufruir dos direitos’, ‘direitos de produzir a cada dia novos direitos’ para, a partir
destes disparadores, promover uma reflexão que pode ser feita através de trabalhos
em grupos, ou propondo que façam redações, ou trabalhos nas aulas de educação
artística, por exemplo, pode-se fazer uma tentativa de desenhar o que são estes
direitos.
A idéia, nesta primeira reflexão, é dar alguns conteúdos aos alunos para que
eles possam desenvolver a sensibilidade para uma visão mais ampla sobre os direitos,
ou, dito de outra forma, nós queremos aumentar o repertório dos alunos sobre o seu
conhecimento em relação ao que é o direito. Nesse sentido, precisamos que os
alunos, que as turmas que vão desenvolver as atividades que nós vamos propor,
tenham assimilado bem estes conceitos. Para isso, sugerimos aos professores que
eles compartilhem estes conceitos, reflitam e, a partir de atividades concretas com os
alunos, consigam fixar estes conceitos.
Com base nas idéias de direito e responsabilidade e de cidadania, nós
sugerimos que seja proposto aos alunos que façam, na sua comunidade, na escola e
na sala de aula, um mapeamento de oportunidades e de problemas que existem em
relação aos nossos direitos. É muito importante que nós agreguemos a esta
discussão, a reflexão sobre as oportunidades, normalmente quando promovemos
discussões sobre direitos, é muito mais fácil avançar rapidamente na identificação dos
problemas. Falta médico no posto de saúde, falta computador na escola etc. É muito
importante que esta reflexão seja feita, que estas ausências, problemas e dificuldades
sejam elencadas e registradas, mas é importante também que, paralelo a este
processo de identificação dos problemas, os alunos sejam estimulados a identificar
nas comunidades, na escola e na própria sala de aula, os recursos e as oportunidades
oferecidas. Mapear aquilo que a comunidade oferece como oportunidade para o
desenvolvimento e a realização dos direitos.
Nesse sentido, nós podemos fazer desde coisas mais simples, como um jornal
mural, por exemplo, em que se coloque em uma cartolina duas colunas, uma para as
oportunidades e outra para os problemas, e distribua os alunos da turma em dois
grupos. Um grupo vai andar pela comunidade, entrevistando pessoas, observando,
levantando quais são os problemas, enquanto o outro vai refletir sobre as
oportunidades. Se existe centro de saúde na comunidade, ou uma escola, se existe
uma quadra esportiva, uma lan house ou outro espaço para acesso à internet. A
3
partir destes dois registros, podem surgir, por meio de colagens com fotos, recortes de
revistas ou desenhos dos alunos, um grande jornal mural que exponha para a sua
comunidade, como os alunos percebem os direitos naquela comunidade. Eu comecei
falando dessa tarefa mais simples porque ela vai poder ser executada por qualquer
escola que tenha cartolinas, pincéis atômicos, figuras, revistas antigas, tesoura, cola e
também a criatividade dos alunos. Esta é uma forma mais básica de levar para a sala
de aula uma reflexão concreta sobre os direitos. A partir de uma pesquisa rápida na
comunidade sobre os dois aspectos, os problemas e as oportunidades, seguida de
uma reflexão em sala e a construção de um jornal mural, ou um grande painel, onde
pudessem apresentar o resultado do trabalho aos demais.
Quero falar ainda de outras três possibilidades para a construção de
mapeamentos da situação dos direitos da criança na comunidade, na escola e na sala
de aula.
Cartografia Social - é uma técnica em que, com o uso de mapas, os alunos
vão desenhando a sua comunidade, o município, o bairro, ou até mesmo uma escola e
localizando, nestes mapas, ao redor desta escola, por exemplo, quais são os seus
problemas ambientais, sociais, de infra-estrutura, transporte, segurança etc. Ao
mesmo tempo, vão identificando neste mapa, quais são os recursos que existem na
comunidade. Os serviços e as oportunidades existentes para realizar os seus direitos
em uma comunidade.
A Cartografia Social é uma metodologia um pouco mais sofisticada. Ela foi
usada no Pará, por exemplo, com um grupo de adolescentes que fez este trabalho e, a
partir desta reflexão dos adolescentes, os municípios que foram envolvidos no projeto
puderam estabelecer algumas prioridades em relação às políticas municipais para
garantir os direitos da criança e do adolescente naquela região. É uma técnica que
demanda um pouco de estudo por parte do professor para conhecer bem a
metodologia, pois ela tem fases importantes que devem ser seguidas.
Mapeamento Social - É uma metodologia que também tem a ver com o uso de
mapas. Ela foi usada no Rio de Janeiro em um trabalho de pesquisa com
adolescentes. Fez-se um georeferenciamento, ou seja, um mapa também, no qual a
comunidade identificou quais são os serviços que existem, quais são as oportunidades
para os adolescentes, onde que eles podem ir quando precisam de algum apoio ou
serviço. Nesta atividade eles identificaram, previamente, por exemplo, a necessidade
de profissionalização, de educação, de acesso à internet, ou de apoio e
aconselhamento quando tinham alguma dúvida em relação às questões emocionais, a
orientações sexuais, à saúde reprodutiva das meninas etc. Eles identificaram uma
série de questões de interesse e, a partir desse mapeamento, usando as ferramentas
da internet para desenhar a sua comunidade, desenvolveram aquilo que se chama de
mapeamento social.
4
A partir do mapeamento feito, levaram para a sala de aula uma reflexão muito
importante sobre onde estavam as grandes questões da comunidade. Eu me lembro
que um dos temas que apareceram neste mapeamento foi a falta de uma escola de
ensino médio naquela comunidade. Havia muitos alunos que estavam fora da escola
de ensino médio porque ela era muito longe, e eles não tinham como pagar a
passagem. Começaram a fazer um processo de reflexão dentro da comunidade, e até
de reivindicação, para que houvesse uma escola de ensino médio naquela região.
Vejam vocês que esse mapeamento social permitiu um trabalho de reflexão para
identificar lacunas que existem na comunidade em relação aos direitos.
Educomunicação - Consiste na possibilidade de utilizar as ferramentas de
comunicação para desenvolver processos educativos nos quais os próprios alunos
produzem peças de comunicação. São utilizados os recursos da escola ou dos alunos,
como câmeras filmadoras ou fotográficas, celulares que filmam, fotografam ou gravam
voz etc.
A idéia é que o uso das ferramentas de comunicação seja feito a partir de uma
distribuição de tarefas nas quais os alunos vão poder filmar, fotografar, fazer
entrevistas com as pessoas da comunidade etc. Sempre com esta idéia: identificar
oportunidades e problemas. Este material todo é trazido para sala de aula, sendo
exposto para todos os alunos e eles vão analisar e escolher o que ficou melhor. Uma
foto que se destaca, uma entrevista bem feita, uma filmagem com qualidade ou
conteúdo significativos etc. Juntando tudo isso, os alunos podem construir um grande
painel de multimídia, mostrando os resultados para a comunidade e para outros
colegas da escola.
Em algumas escolas, por exemplo, estas técnicas de comunicação são usadas
para, no intervalo das aulas, transmitir pequenos programas de rádio, nos auto-
falantes da escola, ou às vezes, para reunir grupos na sala multiuso, ou em um
pequeno auditório, para assistirem um vídeo. Muitas vezes, um pequeno vídeo, de um
minuto, por exemplo, consegue transmitir mensagens super interessantes. O uso das
ferramentas de educomunicação também é uma estratégia muito importante para que
a reflexão sobre os direitos chegue à vida das crianças, sendo aprofundada na
realidade de cada uma das comunidades onde as escolas estão inseridas.
Estas três dicas em relação às metodologias para fazer uma reflexão sobre os
direitos na vida concreta das crianças e dos adolescentes têm a vantagem importante
de promoverem a interdisciplinaridade. Para usar a Cartografia Social, por exemplo,
não é preciso ser professor de geografia, porém, ela será uma boa oportunidade para
incluir o professor de geografia nas atividades, de modo que ele traga o seu
conhecimento dos mapas, das distâncias ou os conceitos básicos da geografia que
possam ser envolvidos nessa atividade. Um professor de educação física pode ser
envolvido nas atividades de educomunicação, promovendo atividades esportivas que
5
possam, depois, ser registradas por meio dos equipamentos de comunicação
disponíveis. Pode ser promovida uma gincana ou outra atividade participativa, por
exemplo.
Outra característica interessante destas tecnologias é que não é necessária a
presença de especialistas para desenvolvê-las, ao contrário, o próprio professor, de
qualquer área, pode realizá-las. Sempre em parceria com outros professores. O
professor de língua portuguesa pode contribuir com a revisão de textos, ajudando para
que sejam mais claros e objetivos, por exemplo, reformulando-os em relação ao
conteúdo e à forma.
A grande possibilidade que queremos apresentar é que estas técnicas e
metodologias vão contribuir para que os professores dialoguem entre si e com os
alunos, fazendo com que a reflexão sobre os direitos chegue à sala de aula de uma
forma atrativa, divertida, instigante. Para é preciso afirmar bem a importância de três
passos no processo de desenvolvimento da reflexão sobre os direitos:
1- Sensibilização - Todos os professores já têm esta idéia bem clara. Não se
faz nenhuma atividade em sala de aula sem criar sensibilidade, sem despertar os
alunos para o que vai acontecer. A sensibilização é muito importante e exige que se
dialogue com os alunos a fim de que conheçamos o universo de conhecimentos e
saberes e informações que os alunos já detêm, para que a atividade proposta possa
acrescentar ao repertório de conhecimentos algo novo.
Esta primeira fase da sensibilização implica em, por um lado, esclarecer alguns
conceitos que os alunos mais ou menos já detém, e por outro lado, trazer alguns
novos conceitos que permitam a eles dar um passo a frente na sua reflexão sobre os
direitos. Alguns professores usam a palavra ‘nivelamento’, porém, talvez o melhor
termo a usar seja ‘sensibilização’. Neste processo, o professor vai ouvir o aluno e este
ao professor, abrindo espaço para uma reflexão mais aprofundada sobre os seus
próprios direitos, criando nele o interesse, o entusiasmo e a disposição para explorar
novos conhecimentos que vão ser descobertos nas atividades propostas.
2 – Planejamento - O professor precisa fazer com o aluno um planejamento
claro sobre o que será realizado. Este pode se iniciar pela escolha da metodologia.
Por exemplo, fazer uma atividade de educomunicação para refletir sobre os direitos da
criança e do adolescente na escola, na sala de aula e na comunidade, explicando para
os alunos como ela funciona. Aqui citamos três possibilidades, mas existem muitas
outras formas ou métodos para trabalhar os mesmos conceitos. Um jornal mural, um
painel, enfim, muitas outras, Após saber qual vai ser a metodologia, é preciso distribuir
tarefas, cada uma com prazos bem definidos. Digamos, por exemplo, que a escolha
seja pela educomunicação. Alguns alunos vão fotografar, outros vão gravar entrevistas
etc. É muito importante que se defina atividade e prazo, além do formato, ou seja, em
que formato as informações devem chegar à escola. Depois de distribuídos, os
6
alunos vão fazer esta busca de informações que serão trazidas para a sala de aula,
quando o professor vai começar a sistematizar este conhecimento.
Nesta segunda fase do planejamento, é muito importante que tudo fique muito
claro para o professor e para os alunos, inclusive em relação ao objetivo final do que
está sendo proposto, ou seja, aonde é que se vai chegar, ou seja, qual é o desafio a
ser vencido e o que vai ser construído durante o processo. O professor vai explicar,
por exemplo, que o que se quer é fazer um painel sobre os direitos e as
oportunidades, ou sobre os problemas e as oportunidades que as crianças e os
adolescentes têm na comunidade para realizar os seus direitos.
3 – Avaliação - Um terceiro momento importante desse processo é o momento
de avaliação. Após a sensibilização, o planejamento e a realização da atividade,
chegou-se a um produto final e agora vai sentar todo mundo junto para avaliá-lo,
incluindo o processo e os resultados, o que foi construído e aprendido, sempre na
lógica de contribuir para que o adolescente e a criança tenham uma dimensão
concreta sobre os seus direitos.
A idéia deste curso, e da própria Lei 11.525/07, quando propõe a discussão
dos direitos da criança e do adolescente na escola, é exatamente o desenvolvimento
de uma sintonia com o tema do direito. Às vezes pode parecer uma coisa teórica ou
abstrata criar esta sintonia do direito com a vida cotidiana, com o dia a dia, com as
relações ou com a comunidade. Esta é uma oportunidade importante que o professor
deve aproveitar para transformar o processo pedagógico de aprendizagem sobre os
direitos num processo divertido, prazeroso, mas, principalmente, num processo de
cidadania no qual, mais do que aprender sobre os seus direitos na escola, as crianças
e os adolescentes poderão, de fato, vivenciá-los.