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ÍNDICE

0. INTRODUÇÃO ....................................................................................................................... 2

1. DESAFIOS DE USO DE TERRA EM MOÇAMBIQUE .......................................................... 4

1.1. Acesso a Terra e DUATs ......................................................................................................... 4

1.2. Segurança de posse da terra ..................................................................................................... 6

1.3. Usurpação de Terras ................................................................................................................ 7

2. CONFLITOS DE TERRAS EM MOÇAMBIQUE .................................................................... 8

2.1. Conflitos de terras no bairro Mali .......................................................................................... 10

2.2. Causas dos Conflitos em Moçambique .................................................................................. 11

2.3. Resolução de Conflitos .......................................................................................................... 12

2.4. Recomendações para acabar com os conflitos de terra .......................................................... 12

CONCLUSÃO .............................................................................................................................. 14

BIBLIOGRAFIA .......................................................................................................................... 15
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0. INTRODUÇÃO

Em Moçambique a terra não pode ser vendida, mas ela é comprada. O Estado não reconhece a
propriedade privada sobre a mesma, muito menos a sua venda, ainda que de maneira mais ou
menos generalizada aquela exista, envolvendo nas transacções diferentes atores a diferentes
níveis da hierarquia social, inclusive entre as elites que integram os sistemas do poder
(Mandamule, 2017).

Situado na África Austral, com uma população estimada em 29 milhões de habitantes


(INE, 2017) e uma superfície total de 801.590 km², Moçambique é ainda considerado um dos
mais pobres do mundo, com mais de metade da sua população (54%) vivendo em situação de
pobreza absoluta (menos de 1 dólar/dia).

Assim, este trabalho pretende mapear os discursos à volta dos desafios de uso e propriedade da
terra em Moçambique, é realizado no âmbito de avaliação, na disciplina de Sistemas e
Instrumentos de Ordenamento territorial em Moçambique.

Objectivos:

Geral

 Compreender os desafios de aquisição e uso da terra em Moçambique.

Específicos:

 Conhecer os efeitos do land grabbing (usurpação de terras) no acesso e segurança de


posse no meio rural;
 Debruçar de uma forma geral sobre os conflitos de terras em Moçambique (Causas,
resolução e recomendações);
 Falar do caso de conflitos de Terras no bairro Mali, distrito de Marracuene.
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Metodologia

Para a elaboração do presente trabalho foi realizada uma revisão bibliográfica, necessária ao
enquadramento teórico do estudo.

Enquadramento regional

O presente estudo foi realizado em Moçambique, que se localiza na costa Oriental da África
Austral, limitado a Norte pela Zâmbia, Malawi e Tanzânia, a Leste pelo Canal de Moçambique e
pelo Oceano Índico, a Sul e Oeste pela África do Sul e a Oeste pela Suazilândia e pelo
Zimbabué. Com uma área de 799 380 km2 e população de cerca de 29,67 milhões de habitantes
(INE, 2017).

Fonte: Reprodução dos autores no ArcMap, 2020.


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1. DESAFIOS DE USO DE TERRA EM MOÇAMBIQUE

Em África, o crescimento da população, a rápida urbanização, os interesses económicos na


agricultura e indústria, têm aumentado a procura de terra. Devido a esses interesses e o facto de a
terra ser um recurso fundamental para a sobrevivência da maior parte da população de África
Subsaariana que depende dela, os conflitos estão a aumentar em muitos países (Deininger e
Castaganini, 2004; Yamano e Deininger, 2005; Mwesigye e Matsumoto, 2016 citados por Uate).

Dado que, não se pode contestar a importância vital da terra para o desenvolvimento económico
e social de África, também incontestável que os conflitos de terra trazem muitos desafios para as
sociedades africanas (Leeuwen e Haatsen, 2005). Em muitos países de África, as instituições
governamentais de administração de terra incluindo as legislações sobre acesso, uso e
aproveitamento bem como os mecanismos de resolução dos conflitos são ainda fracos
(Mwesigye e Matsumoto, 2016). Assim, esta fraqueza, faz com que estas instituições sejam
muitas vezes substituídas pelas autoridades comunitárias (Yamano e Deininger apud Uate,
2017).

Moçambique como um país de África Subsaariana também enfrenta sérios problemas de


conflitos de terra, que resultam do movimento da demanda de terra nas zonas rurais, motivado
pelos projectos de desenvolvimento realizados pelo governo e empresas privadas, pela rápida
urbanização e também pelo crescimento populacional. Depois da independência em 1975, o país
contava com um pouco mais de 10 milhões de habitantes, actualmente conta com mais de 20
milhões de habitantes e projecta-se mais de 30 milhões em 2024 (Francisco apud Uate, 2017:
01).

1.1. Acesso a Terra e DUATs

Em sociedades maioritariamente rurais, como a moçambicana, além de constituir a


fonte primeira de subsistência das famílias, a terra tem um valor e significados sagrados
determinados, por um lado, pela ligação que esta cria com os ancestrais e, por outro lado, pelo
poder que ela confere a quem é, legal ou tradicionalmente, o legítimo responsável pela sua
gestão.
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Considerado um direito natural dos indivíduos, o acesso à terra no meio rural, bem
como o sentimento de apropriação, são relativamente fortes pois a terra e todos os recursos
que dela provêm são considerados pertença das famílias que os gerem segundo normas e
práticas costumeiras adquiridas, apropriadas, reproduzidas e transmitidas rotineiramente de
geração em geração, conferindo-lhes, assim, maior aquiescência, relevância e segurança.
Estas normas são igualmente aceites e respeitadas pelos Estados, que, em alguns contextos,
são os legais proprietários da terra, mas não o seu legítimo dono. (Mandamule: 2017: 46).

A primeira lei de Terras é aprovada em 1979 (LEI Nº 6/79 de 3 de JULHO) que em


decorrência da constituição de 1975, igualmente consagrava a propriedade estatal sobre as
terras. Uma legislação suplementar é aprovada em 1987 (Decreto Nº 16/87 de 15 de
JULHO) que determina que a terra não pode ser vendida. Esta disposição é reforçada, quer na
Constituição de 1990 (Artigo 46º) como na Constituição de 2004 (Artigo 109º), que
simultaneamente determinam que “a terra é propriedade do Estado. A terra não pode ser
vendida, ou por qualquer outra forma alienada, nem hipotecada ou penhorada. Como meio
universal de criação da riqueza e do bem-estar social, o uso e aproveitamento da terra é direito
de todo o povo moçambicano. O Estado determina as condições de uso e aproveitamento da
terra” (Ibid)

A actual Lei de Terras (Lei Nº 19/97 de 1 de Outubro) é aprovada em 1997 e entra


em vigor em Janeiro de 1998, após um enorme trabalho de auscultação levado a cabo por
organizações da Sociedade Civil junto às comunidades locais, num processo considerado dos
mais democráticos até então vividos no país (HANLON, 2002).

Esta lei prevê as seguintes formas de acesso à terra:

(i) pelo reconhecimento da ocupação10 segundo normas e práticas costumeiras;

(ii) por ocupação de boa-fé e;

(iii) por meio da autorização pelo Estado de um pedido de uso e aproveitamento da terra.

Um dos principais avanços da Lei de Terras foi o reconhecimento do papel das


comunidades na gestão dos seus próprios recursos naturais, resolução de conflitos.
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1.2. Segurança de posse da terra

Segurança de posse assume, junto com o acesso à terra, uma importância crescente, que se têm
concentrado nos melhores mecanismos de protecção dos direitos à terra. A segurança de posse da
terra corresponde ao conjunto de regras e normas (formais e informais) que regulam o acesso,
uso e gestão da terra, e que oferecem a quem a explora direitos sobre o seu uso e ocupação, bem
como autonomia de produção e comercialização. (DIOP, 2007)

Considerada pelos camponeses o garante da estabilidade social, económica, cultural e


antropológica das famílias, a segurança de posse permite que, na disponibilidade de recursos,
conhecimento e meios técnicos necessários, estas possam investir de forma contínua na terra,
aumentando desta forma a sua produção e produtividades, garante melhores condições de
negociação em caso de deslocações e oferece maior garantia para as iniciativas de investimento
empresarial.

Segundo Mathieu citado por Mandamule (2017), a segurança de posse depende da existência de
três condições fundamentais:

 Um espaço disponível para colocar os novos requisitantes ou para onde mudar as


comunidades, caso necessário;
 Comunicação entre os membros da comunidade ou grupo para a troca de bens,
significações e negociar as condições da sua convivência;
 Uma autoridade forte e respeitada capaz de arbitrar as competições que possam emergir.

Os conflitos de terra que acontecem na hora actual resultam do fato de que as


condições acima descritas não são observadas, quer pelos Estado e suas administrações
(autoridade) assim como pelos novos requisitantes (espaço) e comunidades (MATHIEU apud
Mandamule).
Estes atores, na tentativa de maximizar a concretização dos seus interesses, mobilizam
diferentes recursos e capitais (BOURDIEU, 1987) gerando, desta forma, graves oposições e de
difícil resolução onde, na maioria dos casos, os indivíduos bem posicionados socialmente,
letrados e com poder financeiro conseguem facilmente fazer aprovar os seus interesses, em
detrimento dos menos privilegiados quer em termos de escolaridade, informação assim como
recursos.
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A disponibilidade do espaço a principal causa da insegurança de posse, mas sim as condições


geológicas, infra-estruturais e antropológicas finais em que se encontram as comunidades
transferidas, que não se equiparam e muito menos superam as condições iniciais em que aquelas
estavam instaladas. Os solos são de baixa (ou menor) qualidade produtiva, a habitação é
melhorada mas de fraca qualidade e sem consideração do tamanho e tipo de famílias
(monogâmicas ou poligâmicas), os novos mercados localizam-se longe dos centros habitacionais
dos produtores, as vias de acesso são construídas porém sem serviços de transporte, e os serviços
de saúde e educação não têm profissionais especializados devido à falta de atractividade das
regiões onde se localizam estas infra-estruturas (Mandamule, 2017).

O reassentamento não obedece aos aspectos culturais, antropológicos, hábitos e


costumes das comunidades que têm na terra um elemento de ligação e adoração aos
antepassados. Ainda que as famílias sejam compensadas pelas benfeitorias (culturas, árvores,
casa, etc.), elas não o são pelos elementos não tangíveis (sepulturas, por exemplo), gerando
assim resistência e conflitualidades (Idem).

1.3. Usurpação de Terras

O termo “land grabbing” ou usurpação de terras refere-se precisamente ao aluguer ou compra de


vastas extensões de terra por parte de nações mais ricas com insegurança alimentar, e de
investidores privados destes mesmos países a países mais pobres e em desenvolvimento de modo
a produzir alimentos para exportação (Shepard e Mittal, 2009 apud justiça ambiental e UNAC,
2011).

Moçambique é o terceiro dos onze países mais afectados pelas transacções fundiárias
em África (56,2 milhões de hectares), a seguir ao Sudão e à Etiópia (ANSEEUW, et. al, 2012),
tendo já sido transferidos para países e investidores (estrangeiros e nacionais) cerca de 2,7
milhões de hectares de terras do total de 36 milhões hectares aráveis de que dispõe o país
(COTULA et. al. 2009; DEININGER et. al, 2010 citados por Mandamule, 2017).

Para além da aquisição de novas extensões de terras, o Land Grabbing em Moçambique assume
a forma de recuperação de propriedades de colonos abandonadas por estes após a
nacionalização das terras com a independência e o início da guerra civil. Algumas das terras
destas propriedades foram intervencionadas transformando-se em grandes machambas estatais
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e outras deixaram de produzir por causa da guerra e ainda pelo fraco investimento no sector
agrário no período pós-independência, a falta de tecnologias e os fracos níveis de investigação
em matéria agrícola (ROSÁRIO, 2012).

A maioria dos grandes projectos analisados são recentes, pertence a investidores estrangeiros e
actuam nos sectores de agro-negócios, turismo e mineração. Os investidores dos países nórdicos
apesar de nos seus países de origem cumprirem com os mais elevados padrões de respeito pelos
direitos humanos e por todos os processos de participação pública, em Moçambique não
respeitam isso.

O fenómeno de usurpação de terra ocorre em Moçambique e é facilitado pelas inúmeras falhas


em todo o processo de atribuição do Direito de Uso e Aproveitamento de terra, beneficiando os
investidores em detrimento das comunidades rurais. Constituem factores que contribuem para o
fenómeno de usurpação de terra:

 O fraco conhecimento das comunidades sobre os seus direitos e lei de terras;


 A fraqueza institucional dos governos locais;
 A corrupção de autoridades e líderes comunitários;
 Falta de consciência sobre os benefícios dos processos formais de posse de terra;
 Vulnerabilidade resultante das inúmeras carências características da pobreza que estas
comunidades estão sujeitas.

2. CONFLITOS DE TERRAS EM MOÇAMBIQUE

Amoretti e Carlet (2012), olham para os conflitos de terra como uma acção de resistência e
enfrentamento pela posse ou uso da terra que envolve vários intervenientes, pequenos
arrendatários, pequenos proprietários, ocupantes, sem terra dentre outros.

Para Alfredo citado por Uate (2017), os conflitos de terra, devem ser vistas como uma situação
que opõem duas ou mais pessoas que alegam ser possuidoras do direito sobre a terra, cuja
solução deve ser entendido como uma situação de tensão e disputa claramente manifestadas
pelas partes que reivindicam um direito sobre a terra.
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Os conflitos de terra de acordo com Manhicane-Jr (2007), mostram no país, uma tendência
crescente para o seu aumento. A semelhança das constatações de Yamano e Deininger (2005), a
maior parte desses conflitos, são resolvidos localmente pelas Autoridades comunitárias. Assim,
um trabalho do domínio sociológico, mostra-se necessário para se compreender a maneira como
estas autoridades estão organizadas ou se estruturam para solucionarem os problemas de
conflitos de terra no país.

Em Moçambique ao se analisar o trabalho de Valá (2002) citado por Uate (2012), pode se
afirmar que a questão de disputas de terra situa-se desde o período colonial com o processo de
criação de colonatos pelo governo colonial português. Este processo resultou na expropriação de
terras dos autóctones em favor dos brancos. Durante o período da vigência do colonato do
Limpopo, ocorriam com frequência conflitos entre os africanos e os europeus pois, os primeiros
estavam insatisfeitos pelo facto de os portugueses terem vindo ocupar as suas terras.

Segundo Uate (2017), as leis actuais em Moçambique afirmam que a terra é do Estado, porém,
na prática sempre que há interesses empresariais de vulto, recorre-se a uma autêntica
expropriação da terra dos camponeses, mesmo numa situação quando a mesma está a ser
utilizada pelas comunidades rurais para sua agricultura de subsistência. As multinacionais
acabam por ter acesso às terras comunitárias, impedindo desta forma as famílias de realizarem a
sua actividade agrícola. O outro factor prende-se com a alocação de terras a pessoas consideradas
de elite possuindo grandes extensões sem realizarem nenhum investimento. Estas terras
pertencem às comunidades rurais que se vêem privadas de sua utilização.

Ao analisar criticamente a Lei de terras, a Lei n° 19/97, Rosário (2000), refere que esta lei ao
estabelecer e regular acesso e uso da terra actua como instrumento de orientação de modos de
ocupação de espaços. Todavia, para além de definir as formas que devem ser usadas para a sua
aquisição, apresenta algumas contradições que contribuem para a eclosão de conflitos. Ao
efectuar uma análise do artigo 12 alínea a) que diz que o direito de uso e aproveitamento da
terra é adquirida por ocupação pelas comunidades locais e do artigo 14 n° 1 da mesma afirma
que a constituição, modificação, transmissão e extinção do direito de uso e aproveitamento da
terra estão sujeitas a registo, este aspecto é aproveitado pelas instituições para usurparem a terra
em poder daqueles que a ocupam por direito histórico e atribuírem a novos interesses,
considerando que os legítimos desconhecem a lei (idem)
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Alguns casos de conflitos

1) Conflito empresas chazeiras Vs comunidades (Gurué);


2) Hoyo Hoyo e os conflitos com a comunidade de Ruace;
3) AgroMoz e os conflitos com a comunidade de Wakhua;
4) Mulhulametene e os conflitos com a comunidade de Cumbeza;
5) Conflitos do bairro Mali (Marracuene);

2.1. Conflitos de terras no bairro Mali

Em Moçambique, em particular na província de Maputo, no distrito de Marracuene os conflitos


de terra são uma realidade, constituem um fenómeno social que ocorre sempre, acima de tudo,
constituem um problema social. Nos orgãos de informação, quase todos os dias são reportados
problemas de conflitos de terra que têm vindo aumentar devido ao aumento de número de
pessoas que procuram a terra no distrito. As obras de construção da estrada circular de Maputo, a
ponte sobre o Rio Incomati vulgarmente conhecida pela ponte de Macaneta que dá acesso à
“famosa zona de praias de águas limpas de Macaneta”, incrementaram os interesses pela terra
nos bairros do distrito com a finalidade de habitação e investimentos em diversas áreas tais
como: comércio, agricultura, turismo, dentre outras. (Uate, 2017: 12)

Todavia, esses interesses na maior parte das vezes, desaguam em problemas de conflitos de terra.
Assim, Governo do Distrito de Marracuene ciente do problema, criou uma comissão de
resolução de conflitos de terra no distrito, que funciona na vila ao lado dos Serviços Distritais de
Planeamento e Infra-estruturas (SDPI). A comissão, normalmente resolve problemas de conflitos
de terra entre camponeses e empresas privadas, mas também resolve conflitos que não são
conseguidos a nível dos bairros (Ibid, 13)

O bairro Mali, uma vez situado no distrito de Marracuene, no que concerne aos problemas de
conflitos de terra, não constitui excepção. Observa-se no bairro uma demanda de terra para fins
de habitação e investimentos. Como consequência, muitos são os conflitos que derivam desta
demanda, actualmente o bairro depara-se com vários problemas de conflitos de terra, que têm
vindo a merecer uma atenção especial por parte das Autoridades comunitárias do bairro, isto
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porque dos vários conflitos sociais existentes no bairro e resolvidos pelas mesmas autoridades, os
conflitos de terra são os mais frequentes e predominantes.

Os conflitos de terra começaram a surgir no bairro Mali a partir dos anos 2003, 2004 e se
intensificaram a partir do ano 2014 até o presente momento quando a demanda da terra
aumentou consideravelmente. Como resultado, não passa quarenta e oito horas no bairro, sem se
solicitar as autoridades comunitárias para resolver os conflitos. (Idem)

No bairro, é observável a procura massiva das autoridades comunitárias pelos residentes e outros
indivíduos que estão no processo de fixação de residência, para intervirem em questões de
conflitos de terra, ajudando as partes conflituantes a encontrar uma solução. Nesta matéria, as
autoridades comunitárias constituem a primeira instância a ser recorrida, isto significa que, as
pessoas quando possuem um problema ligado a terra, dirigem-se em primeiro lugar a Secretaria
administrativa do bairro Mali, raras são as vezes que se dirigem em primeiro instante aos
tribunais judiciais para a resolução destas questões.

2.2. Causas dos Conflitos em Moçambique

Tanner (1996), aponta que a causa dos conflito de terra em Moçambique, tem a ver com as
transformações que estão acontecer nas zonas rurais, as reformas económicas registadas nos
finais da década oitenta, encorajadas pelo acordo de paz assinado em Outubro de 1992,
precipitaram uma procura significativa de terras, surgindo disputas entre aqueles que foram
forçados a abandonar as suas terras durante a guerra e que agora pretendem regressar e a elite
que pretende ter acesso a terra para fins comerciais principalmente nas zonas agrícolas. Embora
haja “muita terra” num sentido absoluto, torna-se aparente que tanto os pequenos agricultores
como os grandes investidores, estão cientes de que há falta de terras no país quando se trata de
criação de empresas rurais viáveis e produtivas.

Muitos dos conflitos de terra envolvendo comunidades, investidores e Estado resultam


da falta de realização da consulta comunitária ou ainda da fraca clareza nas informações
transmitidas durante a mesma, gerando diferentes interpretações e expectativas (Mandamule,
2017).
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 Crescimento demográfico;
 Expansão das cidades e à procura de terra para habitação que a acompanha;
 Questões culturais ligadas à herança e à tradição;
 Fraco conhecimento da legislação de terras;
 Deficiências na implementação da Lei de Terras e outros instrumentos legais;
 O pedido de grandes extensões de terras que não raras vezes envolvem mais do que uma
comunidade;
 Desconhecimento dos limites ou da titularidade original;
 Práticas corruptas por parte de alguns oficiais da administração de terras;
 Práticas corruptas por parte de alguns líderes comunitários, permitindo a entrada de um
investidor sem realizar as consultas comunitárias e ignorando os interesses dos seus
liderados.

2.3. Resolução de Conflitos

Em Moçambique, em particular, o Estado reconhece o poder das autoridades e notáveis


comunitários (chefes tradicionais, secretários de bairro ou de aldeia, régulos, etc.)
como sendo os legítimos representantes das comunidades. Aquelas participam através de
instituições de participação e consulta comunitárias (Comités, Conselhos, Fóruns) na gestão
dos recursos naturais, tal como veremos de seguida.

As comunidades locais, segundo a alínea b) do número 1 do artigo 24 da Lei de Terras, nas zonas
rurais, as comunidades participam na resolução de conflitos, utilizando, entre outras, as normas e
práticas costumeiras.

As associações não-governamentais, entidades religiosas, as autoridades tradicionais, a polícia,


os órgãos administrativos locais, funcionam como instâncias de resolução de litígios.

2.4. Recomendações para acabar com os conflitos de terra

É, assim, possível avançar algumas recomendações:

i. Estudar a viabilidade de criação e instalação de tribunais/secções especializados na


resolução de conflitos de terras
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ii. Revitalizar os tribunais comunitários e regulamentar o seu funcionamento;


iii. Promover a disseminação da informação jurídica aos cidadãos;
iv. Promover a distribuição de legislação relevante às instituições públicas;
v. Promover a elaboração e distribuição de ordens de serviço que apoiem os agentes
públicos na implementação da legislação;
vi. Alargar os serviços de informação e assistência jurídica às populações mais
desfavorecidas;
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CONCLUSÃO

Após uma avaliação sucinta do trabalho e dos objectivos do mesmo, conclui-se que é necessário
definir claramente os mecanismos de protecção dos direitos das comunidades camponesas que
dependem da terra para a sua subsistência, por forma a evitar problemas de insegurança
alimentar e exclusão ou estratificação social. À medida que o interesse pela terra e outros
recursos naturais aumenta, maior é a pressão sobre a terra e para a formalização dos direitos de
posse das comunidades que se acompanha por outras estratégias de associação ou resiliência à
penetração de novos ocupantes.

O reassentamento deve obedecer aos aspectos culturais, antropológicos, hábitos e


costumes das comunidades que têm na terra um elemento de ligação e adoração aos
antepassados.
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BIBLIOGRAFIA

MANDAMULE, Uacitissa António. Discursos sobre o regime de propriedade da terra em


Moçambique. Revista Nera – ano 20, nº. 38 - Dossiê 2017.

REPÚBLICA DE MOÇAMBIQUE. Lei n.º 19/97, de 1 de Outubro. Lei de Terras. Promulgada a


1 de Outubro de 1997.

REPÚBLICA DE MOÇAMBIQUE, Justiça ambiental e UNAC. Os senhores da terra - Análise


Preliminar do Fenómeno de Usurpação de Terra em Moçambique. Ficha técnica, Maputo,
Março de 2011.

UATE, Arlindo João. Mecanismos e Papel das Autoridades Comunitárias na Resolução de


Conflitos de Terra: Uma análise a partir do Bairro Mali, distrito de Marracuene. Dissertação
para obtenção do grau de Mestrado (Sociologia rural e gestão de desenvolvimento). Maputo,
Faculdade de letras e ciências sociais, UEM, 2017.