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05/04/2020 Revista Pessoa - A formação do campo literário na Belle Époque brasileira

TABACARIA

A formação do campo literário na


Belle Époque brasileira
BRIAN HENRIQUE DE ASSIS FUENTES REQUENA

2014-03-10
Com o advento da Primeira República (1889-1930), inaugura-se no Brasil um
período marcado por profundas transformações na produção da atividade
intelectual. A profissionalização dos escritores, a crescente institucionalização
da literatura à imprensa jornalística, os novos padrões estéticos da vida
artística/cultural brasileira à francesa, bem como os rumos de uma jovem
república ligada às antigas formas de poder oligárquicas, denunciam a
antinomia de um projeto pré-modernista.

No cânone conto de 1881, o escritor realista Machado de Assis recria num


diálogo permeado de ironia, a síntese cultural de sua contemporaneidade:
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uma sociedade baseada em valores distintivos e hierarquizantes. O prudente


e zeloso pai, num esforço preventivo, adverte seu filho, Janjão prestes a
completar vinte e um anos, das possíveis carreiras profissionais que sua
juventude lhe promete. Para tanto, após o jantar de comemoração, pai e filho
travam uma narrativa bivocal, enquanto Janjão escuta minunciosamente os
inescrupulosos conselhos paternos, do que deverá se tornar até a altura do
quarenta e cinco anos. Garantindo ao filho o status de um senhor de renome,
sem muito esforço. O empenho é gradual e progressivo como alerta, mas
garantirá um importante ofício distintivo superior a todos os outros: a figura do
medalhão:

— Entretanto, assim como é de boa economia guardar um pão para a velhice,


assim também é de boa prática social acautelar um ofício para a hipótese de
que os outros falhem, ou não indenizem suficientemente o esforço da nossa
ambição. É isto o que te aconselho hoje, dia da tua maioridade.

— Creia que lhe agradeço; mas que ofício, não me dirá?

— Nenhum me parece mais útil e cabido que o de medalhão. Ser medalhão


foi o sonho da minha mocidade; faltaram-me, porém, as instruções de um pai,
e acabo como vês, sem outra consolação e relevo moral, além das
esperanças que deposito em ti. Ouve-me bem, meu querido filho, ouve-me e
entende. És moço, tens naturalmente o ardor, a exuberância, os improvisos
da idade; não os rejeites, mas modera-os de modo que aos quarenta e cinco
anos possas entrar francamente no regime do aprumo e do compasso.

No transcorrer do diálogo, o pai dedica-se a pontilhar os passos que seu filho


deverá executar para se tornar um medalhão genuíno. Entre eles, a renúncia
de um intelecto próprio, o respeito a tradição, a abnegação de ideais ou
prática originas que levem a propagação de conflitos divergentes, que
possam causar animosidade entre os membros de sua sociedade, o bom uso
da oratória para propagação e manutenção de um status respeitado, a
castração do racionalismo no discurso político, privilegiando as emoções em
vez de explicações lógicas e causais que possam lhe trazer desafetos. Por
fim, sob a linha tênue da ironia, a figura paterna, ao observar que seu filho
não o entendera completamente anuncia:

— Vamos dormir, que é tarde. Rumina bem o que te disse, meu filho.
Guardadas as proporções, a conversa desta noite vale o Príncipe de
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Maquiavel. Vamos dormir.

Guardada as devidas proporções históricas, a teoria do medalhão contempla


corretamente as anunciações alegóricas que perdurariam até o século XX, na
escrita e na sociedade do período republicano. A personificação do medalhão
levaria à distinções mais complexas, de um indivíduo a uma instituição, da
literatura à prática jornalística. No conto fictício, Janjão, talvez não tenha
levada a cabo os ensinamentos do pai. Mas, a teoria machadiana foi
compreendida, com rigor pelos dirigentes responsáveis pelas letras e pelo
poder no Brasil pós-monárquico.

A Composição da Belle Époque brasileira: a moderna tradição brasileira Para


elucidarmos o fenômeno de formação do campo literário nacional, ainda
incipiente, recordemos as condições históricas e culturais que influenciaram a
trajetória social dos escritores deste período, da prosa ao verso e do romance
à crônica. A abolição da mão de obra escrava em 1888, o fim do Império
português e a instauração/transição para uma república provocaram abalos
significativos nas tradições políticas e econômicas no país, não isentando a
vida artística de seus efeitos reversos. A República Velha proclamava uma
peculiar modificação na correlação entre o artista literário, tido como um
boêmio excêntrico a um profissional assalariado. As mudanças estéticas não
ficariam imunes a esta translação, como veremos doravante.

Os olhos, da então capital federativa brasileira (Rio de Janeiro), miram-se


para os valores culturais e ideológicas da bela capital francesa. A urbanização
crescente, impulsionado pelo ciclo da borracha em Manaus e Belém e a
indústria cafeeira paulista permitiram a formação de novas classes sociais –
da diferenciação entre o público e o privado na política nacional. As antigas
oligarquias rurais perdem gradativamente espaço para uma nova burguesia
urbana, não obstante, ainda fortemente marcada pelo tradicionalismo,
patrimonialismo e patriarcalismo, tantas vezes citadas pelo importante
intérprete brasileiro, o historiador Sérgio Buarque de Holanda, como
característica principal do nosso desenvolvimento cultural. A busca por uma
república nacional, trouxeram marcas pouco nacionalista para o período.

As escolas artísticas francesas renomadas, infiltra-se numa versão nada


antropofágica em solo brasileiro de diversas nuances, como o
impressionismo, simbolismo e art-nouveau. Dentro da literatura, o romance
começa a entrar em desuso. Os ideais positivistas e evolucionistas, em voga
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na França influenciariam nossos poetas que optariam, cada vez mais para o
Realismo- em especial o Parnasianismo (que será muito presente até a
Semana de Arte Moderna, de 1922 e do advento de grupos intelectuais
denominados modernistas). É neste itinerário impreciso e instável, que se
forma o que chamamos hoje de Belle Époque brasileira, clara alusão a
semântica e aos valores da escola francesa, que vigorará juntamente ao
início e fim da República Velha. Salienta-se, como a crítica literária do Galês
Raymond Williams, na obra O campo e a cidade: na história e na literatura
figura-se como exemplo homólogo à nossa vida literária nacional, ou seja,
uma antinomia entre o rural e a vida urbana, a divisão do trabalho social
fortemente tradicionalista e as contradições de uma pretensa civilização
marginal nutrida por valores importados. A moderna tradição brasileira que
entrava em compasso.

Os anatolianos: os profissionais polígrafos entre a literatura e a crônica

Os primeiros profissionais da literatura, formado neste período são


usualmente denominados de pré-modernistas. O prefixo deste termo, bem
como sua delimitação a um movimento posterior, tende a uma
institucionalização empobrecida. Como apresentaremos, o próprio conceito
escolástico, pré-modernista é facilmente questionado. Com aproximadamente
60 literários conhecidos deste período, que vai de nomes como Machado de
Assis, Aluízio de Azevedo e Olavo Bilac, torna-se necessário compreender
um grupo reduzido, com similaridades sociais que possam ilustrar como as
relações políticas possibilitaram literários profissionalizarem-se, num mercado
editorial incipiente. Humberto de Campos, Lima Barreto, Hermes Fontes,
Manoel Bandeira e Paulo Setúbal são o que denominamos de Anatolianos.

O nome provém do escritor francês do século XIX, Anatole France, que serviu
de grande referência aos intelectuais brasileiros da República Velha. Em
suma, a principal característica dos Anatolianos era a poligrafia e a imposição
aos ajustes de gêneros importados da imprensa francesa. Esta demanda
provinha de jornais e revistas sob o controle dos dirigentes e mandatários
políticos das antigas oligarquias, assumindo sobretudo, a crônica como
gênero dominante. Uma parcela considerável de escritores do período
aceitavam os postulados afim de garantir salários, estabilidade profissional na
carreira de escritor ou cargos burocráticos. Uma das análises pioneiras deste
grupo intelectual foi realizada pelo sociólogo brasileiro, Sergio Miceli, no título
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Poder, Sexo e Letras na República Velha: estudo clínico dos Anatolianos,


publicado em 1977, no Brasil. A publicação causou grande repercussão no
meio acadêmico. Ao buscar refazer a biografia dos escritores, juntamente de
uma análise comparativa das origens sociais dos mesmos, e como elas
influenciarão na história social dos primeiros profissionais da escrita brasileira,
Sergio Miceli se tornou um nome indispensável para compreensão dos
Anatolianos:

“Não havendo, na República Velha, posições intelectuais autônomas em


relação ao poder político, o recrutamento, as trajetórias possíveis, os
mecanismos de consagração, bem como as demais condições necessárias à
produção intelectual sob suas diferentes modalidades, vão depender quase
que por completo das instituições e dos grupos que exercem o trabalho de
dominação” (Intelectuais à brasileira, in Poder, Sexo e Letras na República
Velha. P.17. Companhia das Letras, 2001).

Para que essas trajetórias fossem recontadas a rigor, Miceli utilizou biografias
e memórias dos letrados desta fase, onde o mercado editorial brasileiro não
estava amplamente estabelecido. Entre os escritores analisados, o sociólogo
elenca um grupo de autores como Manoel Bandeira, Lima Barreto e
Humberto de Campos, e os nomeia como Anatolianos. Parcela representativa
destes literários era proveniente de setores empobrecidos da antiga
oligarquia. A literatura era uma das poucas opções que estes autores
encontravam como forma de aproximação das elites dirigentes, e assim evitar
o rebaixamento social. Além de resgatar as trajetórias e origens sociais dos
Anatolianos, Sergio Miceli expõe as fragilidades que estes letrados
enfrentavam, em especial, a dependência política.

Outro ponto inovador de Poder, Sexo e Letras na República Velha era o meio
explicado pelo sociólogo para que esses parentes pobres da oligarquia
pudessem mobilizar seu capital social, e assim se aproximarem dos setores
dirigentes. Esse contato acontecia, por exemplo, através trabalhos femininos
(como costuras e rendas) que permitiam aproximação de familiares
pertencentes aos setores privilegiados dentro da Primeira República,
principalmente a política. Com a expansão de novos postos culturais ligadas
às condições consolidadas pelas oligarquias, a literatura (socialmente definida
como uma carreira feminina em oposição às masculinas como política ou
militar) representava naquele momento para os parentes desprivilegiados a
única forma de reconversão social (uma forma de não rebaixamento desses
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escritores, uma vez que a maioria não podia seguir carreiras masculinas
como as militares ou políticas, devido ao agravamento de problemas de
ordem da saúde, dilapidação do patrimônio ou a morte do paterna).

Anatomia do medalhão: a história social dos anatolianos e o prelúdio do


modernismo brasileiro
A relação entre os intelectuais e o Estado é uma controvérsia na história
nacional. Dos reformistas liberais do final do Império, aos positivistas
republicanos (e seus críticos), os intelectuais têm buscado uma justificativa
para suas obras, numa espécie de ethos de missão nacional, onde são porta-
vozes privilegiados. A isenção política em relação a produção cultural não
deixa ser uma ideia atraente e romântica. Ao analisarmos as origens sociais
dos Anatolianos e suas respectivas posições nas estruturas de poder,
sobretudo em relação ao Estado é possível detectar as estratégias de
inserção às instituições dominantes. O recrutamento dos intelectuais pela
República Velha dependeu das redes de relações sociais e familiares
(contrastando dos modernistas, onde exigia-se distintivos como diploma).
Portanto, as relações de apadrinhamento eram unânimes. Ao analisarmos as
diferenciações nas hierarquias de poder, em contraposição com a origem
social destes primeiros escritores profissionais, veremos que a literatura foi
uma das poucas formas encontradas para reconversão social e inserção nas
camadas médias urbanas. Ao dispormos de um estudo comparativo entre
Humberto de Campos, Lima Barreto, Hermes Fontes, Manoel Bandeira e
Paulo Setúbal (semelhante ao quadro que Sergio Miceli o perfaz), algumas
características são semelhantes entre os Anatolianos: origem social marcada
pela ligação de redes sociais de dependência, problemas de saúde (da
infância e/ou a velhice), alguns estigmas sociais (beleza física até o biótipo),
manutenção financeira através da publicação de crônicas, e outros gêneros
jornalísticos, que não somente da Literatura, e alguns casos o exercício de
atividades públicas e burocráticas.

Ao perscrutar a biografia dos autores Anatolianos, nota-se uma clara


evidência de quão frágil era a atividade literária no Brasil em sua Belle
Époque.

Com um público leitor que não ultrapassava a faixa de 500 mil, concentrados,
sobretudo nas capitais paulistas e fluminenses, a alta taxa de analfabetismo
nacional e a incipiência de um mercado consumidor de livros, forçou boa
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parte da trajetória dos primeiros escritores profissionais a dedicarem-se a


mais de uma tarefa intelectual para proverem estabilidade financeira e
prestígio literário. A imprensa jornalística apresentava boas promessas. As
crônicas se tornaram um veículo mais acessível de notoriedade e sucesso
profissional. A atividade intelectual nos trópicos se caracterizava por um
acentuado processo se massificação das letras que tornava palpável a vida
de um escritor. Não havendo um mercado editorial robusto, mais de 2/3 dos
literários da Primeira República dependiam dos ditames dos grupos dirigentes
responsáveis pela ascensão da imprensa neste período, e o ingresso na
produção jornalística (quando não, em setores da vida pública burocrática)
era o caminho mais qualificável. Houve também, escritores resistentes, e
críticos desta apresentação estética. Mas, salienta-se aqui como o postulado
contemporâneo de Machado de Assis tinha uma envergadura que se casava
perfeitamente com os limites profissionais da época.

A anatomia do medalhão continha a teoria correta: independente da carreira


que os Anatolianos trilhassem todas elas estavam correlacionadas com as
camadas de poder do período. Intelectuais e a elite dirigente à frente dos
grupos jornalísticos sustentavam uma cadeia retroalimentava, os primeiros
obtinham o reconhecimento de suas produções nos periódicos, retendo dali
lucros financeiros estáveis, e o segundo recrutava bons literários para
seguirem seus padrões estéticos e ideológicos. Neste itinerário, os
Anatolianos anunciavam as características da literatura pré-moderna. Este
grupo mais reduzido é como uma pequena clareira que permite conhecer os
embargos da nossa história literária neste período. Ao testá-los como
hipóteses, sua problematização se torna mais evidente: o questionamento da
tradição intelectual inaugurada pela Semana de Arte Moderna de 1922 impôs
um pretenso sentido político na institucionalização do modernismo. Ao
demarcar a geração de intelectuais entre 1889-1930 com o sufixo “pré” cria-
se um painel ilusório, de algo antecedente, ou um projeto não terminado. Não
obstante, o que a própria história nos reconta é que o recrutamento dos
intelectuais pelas esferas de poder dominante (o Estado, sendo apenas um)
foi uma prática constante nos campos culturais brasileiros, entre os séculos
XIX e XX, sobretudo na literatura. Se na República Velha, grupos como os
Anatolianos dependiam das redes de relações sociais e familiares para se
manterem como escritores profissionais, a primeira e segunda geração
modernista exigia redes mais complexas de diferenciações e hierarquias. Se
nos primeiros a origem social era preponderante à prática de recrutamento,
para os modernistas a cooptação dos intelectuais pelo Estado se tornara uma
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rede complexa e distintiva. Por tanto a designação de pré-modernista, torna-


se redundante e caduca a estes primeiros profissionais das letras. Uma vez
que toda nossa produção literária foi marcada por grupos posteriores, que
apesar de apontarem rupturas estéticas, continuaram a deflagrar a
manutenção de certos valores da eterna tradição modernizadora brasileira.

“Difícil mesmo é fugir da constatação de que, seja tomando-o pelos laços


familiares, pessoais ou sociais, seja pelas obras, o intercâmbio entre as
forças sociais que se organizam no Estado e o trabalho dos intelectuais
acaba por circunscrever a própria identidade desses autores, bem como suas
possibilidades efetivas ou veleidades. Esse intercâmbio, ainda que em
medidas diferentes (que devem ser qualificadas) criou uma situação histórica
de dependência, tanto para o intelectual que serviu, tanto para aquele que se
vendeu ao poder” *

*Prefácio escrito por Antonio Candido para o livro, Intelectuais e a Classe


Dirigente no Brasil, de Sergio Miceli

ESCRITA ÀS PRESSAS: OS ESCRITORES JORNALISTAS


A formação do campo literário nacional só se torna possível na República
Velha, através de uma integração ambígua do escritor (considerado
anteriormente, como um boêmio excêntrico, que buscava solapar os códigos
sociais) e a articulação com entidades de poder político e administrativo. A
imprensa sob a égide da elite dirigente se torna uma entidade legitimadora
aos primeiros literários profissionais. Deste vínculo, o jornalismo foi a
instância mais beneficiada. De acordo com P. Albert em A História da
Imprensa, o período entre o final do século XIX e o primeiro quartel do século
XX, justamente na Belle Époque literária nacional, podemos considerar como
a Idade do Ouro da imprensa. O jornal passa a ser um produto de consumo
crescente. Credita-se esta inovação na produção intelectual brasileira a
fatores como generalização das instruções, a crescente democratização da
vida pública, desenvolvimento dos transportes e dos meios de comunicação e
da modernização propiciada à imprensa. Neste momento há uma
consagração profissional do jornalista – um autêntico profissional da escrita,
de prestígio. A consolidação da imprensa brasileira foi tardia, mas não sua
institucionalização. D. João VI a implementou como ofício da burocracia
administrativa da corte.

O jornalismo, nos primeiros anos da república, muda sua conceituação


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original. Além disso, torna-se uma instância legitimadora de dupla


perspectiva: abre oportunidades profissionais aos escritores, levando-os a
consagração intelectual, na medida que desvaloriza esteticamente a literatura
numa espécie de escrita às pressas (em analogia a Maurício Silva e seu
termo, escrita apressada). Instaura-se no Brasil, um novo tipo de intelectual
de categoria bivocal: o escritor jornalista. A literatura ao escritor é apenas um
ofício cordial neste momento. São gêneros mais efêmeros produzidos no
jornalismo, como o romance, poemas, contos, novelas e sobretudo as
crônicas lhe proporcionavam estabilidade profissional e visibilidade ao
pequeno grupo letrado consumidor.

A aquisição de estatuto empresarial assumida pela imprensa na Belle Époque


nutria o ethos de divulgação cultural das letras, ainda incipiente, enquanto
dava suporte a uma estrutura burocrática comercial de apoio à organização
administrativa das capitais letradas do país. É impossível a avaliação do
campo literário do período sem a perspetiva da mesma: sua função como
instrumento moderno e de modernização assumia uma ubiquidade em todos
setores da vida cultural brasileira. Neste contexto, a célebre máxima de Burke
acerca da imprensa como quarto poder se torna evidente. Os Anatolianos
ligados as suas redes de interdependência social a agarram tão firmemente,
quanto suas penas. Sem antes criticá-las: Humberto Campos através de suas
crônicas mundanas, ou Lima Barreto para quem “o jornal é uma empresa de
gente poderosa” reconheciam os perigos da transformação de suas
produções literárias em meros produtos de consumo massivo efêmeros.

OS ANATOLIANOS E SUAS “VOCAÇÕES” BIVOCAIS: DA LITERATURA À


IMPRENSA
A relação entre a imprensa e a literatura e do escritor com o jornal ganhava
envergadura à medida que a própria imprensa brasileira definia a
profissionalização dos escritores Anatolianos. É por meio deste processo que
a imprensa consolidada ajustará as exigências literárias para os gêneros
jornalísticos. Esta prática de escrita às pressas entre o escritor/jornalista se
torna preponderante para atividade intelectual nos trópicos. Há raros
registros, inclusive latino-americanos de autores que viviam exclusivamente
de seu trabalho literário. Enquanto os meios de retenção de capitais
econômicos estava garantido aos homens das letras, a literatura se tornava
apenas uma atividade circunstancial. Até porque não havia entidades de
proteção aos direitos autorais. Ao se tornarem polígrafos, os Anatolianos
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transformam suas atividades de meras práticas ocasionais em uma profissão


legítima.

A literatura oficial, ligada ainda a política era claramente influenciada pelo


poder político. A produção artística ganha roupagem ideológica política à
medida que se profissionalizava. Uma antinomia que marcara a história social
dos primeiros escritores brasileiros profissionais e deixara um lastro de
interferência entre a arte utópica romântica de seus visionários e a prática
real, direcionada às instituições de poder, que em nada almejavam garantir
uma pretensa autonomia artística aos seus produtores. É neste emaranhado
que se inicia a formação do campo literário brasileiro. E os próprios polígrafos
já compreendiam esta intensa ambiguidade.

Não causa surpresas, as palavras de Hermes Fontes no prefácio de sua


sugestiva obra Juízos Ephemeros, de 1916. Na crônica, o escritor Anatoliano
aborda os novos ritmos da modernização republicana. Sem dúvidas, as
palavras do autor descreve as transformações também de sua profissão:

“Dou a este volume o nome que parece caber-lhe- Juízos Ephemeros: prosa
ligeira e gárrula jornadeando ao acaso, conceitos em trânsito, ideais de livre
curso, vozes que se perdem, cantando, no diapasão do vozeiro geral […] São
páginas menos escritas do que salpicadas, em borrifo, a cada movimento da
vida, a cada impressão do mundo, na órbita dos meus sentidos e na ordem
de minhas cogitações”.

O depoimento de maior reconhecimento deste crescente processo de


proletarização do escritor, e dos percalços de uma autonomia literária, cada
dia mais corrompida pelos ditames da produção massiva dos grandes jornais,
é encontrado na declaração de Humberto de Campos, em Os Párias, de
1933:

“Não há, na minha vida, ambição maior que a de escrever obras que se
tornem úteis aos homens de hoje, e fiquem na memória dos homens da
amanhã. Como poderei eu, porém, fabricar um móvel majestoso e sólido, se
na minha existência de carpinteiro das letras eu tenho de pôr a venda, cada
manhã, no mercado, a tábua que aplainei à noite? Como poderei eu escrever
um romance forte, um trabalho de meditação ou observação, se tenho de
vender, a retalho, as ideais miúdas que me vem, se não há compradores na
praça para as outras de maior parte? Que alimentação pode alimentar ainda,
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um escritor cujas ilusões caíram todas, e morreram, como pássaros, na gaiola


da realidade, e que tem que ralhar diariamente com o cérebro por ordem
imperiosa do estômago?

“No Rio de Janeiro é raro o homem de Letras que não é jornalista Em 1895,
o renomado poeta e jornalista Olavo Bilac faz uma importante declaração
acerca da literatura na Belle Époque brasileira, que traduz a trajetória social
dos seus contemporâneos das letras, sobretudo aos Anatolianos, que “no Rio
de Janeiro é raro o homem de letras que não é jornalista; isso se explica pelo
fato de ser a literatura de jornal muito mais rendosa do que a literatura de
livros”. Ao elucidar a história social, de um pequeno grupo de literários, do
período da Belle Époque, podemos atinar as condições de formação do
campo literário brasileiro. Suas produções artísticas; bem como as
declarações acerca de suas atividades profissionais traz à tona a dimensão
de suas contribuições, desilusões e mágoas do ofício das letras.

A dependência, seja ela institucionalizada pela imprensa, ou pelas regras


burocráticas dos dirigentes, nas quais viviam sob forte imperativos, de lado a
lado, possibilitaram a profissionalização de suas atividades à medida que
posteriormente se tornaram grupos de uma chamada “literatura menor”. A
Semana de Arte Moderna de 1922, e seus intelectuais, fizeram questão de
reduzir qualquer vestígio de dependência destes primeiros profissionais das
letras. Alegaram ruptura e autonomia, só possível para eles, modernistas. O
prefixo pré-modernista, ainda hoje desbota a real importância destes
primeiros profissionais das letras. Homens que trabalhavam com as penas
nas mãos, e com o estômago na cabeça...

BRIAN HENRIQUE DE ASSIS FUENTES


REQUENA
Brian Henrique de Assis Fuentes Requena é Jornalista
Cultural. Bacharel em Comunicação Social e Mestrando do Programa
de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade de São Paulo.

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