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Cadernos de Tradução nº 33, p.

367-396, Florianópolis - jan/jun 2014/1 385

http://dx.doi.org/10.5007/2175-7968.
2014v1n33p385
Tentei abalar uma teoria cômoda e
atraente sobre os distúrbios de lin-
Obras incompletas de Sigmund guagem e, se tiver sido bem-sucedi-
Freud. Sobre a concepção das do, só terei colocado em seu lugar
afasias: um estudo crítico, tradu- algo menos claro e menos comple-
to. Espero apenas que a concepção
ção de Emiliano de Brito Rossi. que defendi seja mais adequada às
Belo Horizonte: Autêntica Edito- circunstâncias reais e que exponha
ra, 2013. 172 p. melhor as reais dificuldades.

(Sigmund Freud ([1891] 2013,


p. 132)
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Digna de nota, a iniciativa de finem a correlação precisa das


Gilson Iannini e Pedro Heliodoro perturbações da linguagem com
Tavares, através da Editora Au- regiões determinadas no cérebro:
têntica, de nos presentear com um enquanto as imagens mnêmicas
texto de fundamental importância dos movimentos da linguagem
da obra de Freud, durante muito são conservadas no centro motor
tempo inadequadamente conside- (área de Broca), as imagens so-
rado “pré-psicanalítico” e, por noras são armazenadas no centro
consequência, de menor interesse sensorial (área de Wernicke). As
para a psicanálise. Sobre a con- lesões ocorridas em um desses
cepção das afasias: um estudo centros resultam, respectivamen-
crítico (Freud [1891] 2013), na te, em afasia motora ou senso-
tradução do alemão realizada por rial. Além da afasia decorrente
Emiliano de Brito Rossi, traz- de uma lesão central, Wernicke
-nos em uma leitura rigorosa, os propõe ainda uma afasia de con-
primórdios da reflexão crítica de dução, a parafasia, resultante da
Freud sobre linguagem, com afir- lesão nas vias de associação entre
mações e propostas desconcertan- os centros (p. 22).
tes até para os dias atuais. Nesse ensaio, Freud percorre
Mesmo sem possuir uma pes- e analisa inúmeros casos de per-
quisa própria sobre o assunto, turbações da linguagem descritos
Freud decide, em 1891, investi- segundo a concepção de autores
gar a literatura sobre as afasias cujo trabalho ele toma como pon-
(Wernicke, Broca, Meynert, to de partida e analisa resultados
Kussmaul, Lichtheim, Grashey, de casos cujos sintomas, além de
Hughlings Jackson, Bastian, se revelarem incompatíveis com a
Ross e Charcot, entre outros) teoria proposta por esses autores,
para introduzir um avanço na dis- demonstram a impossibilidade de
cussão da época (p. 17). uma explicação baseada inteira-
Na literatura médica sobre a mente na hipótese da localização
afasia, até 1891, a faculdade da anatômica. A partir dos casos em
linguagem articulada estava lo- que não se podem explicar os dis-
calizada nos lobos anteriores do túrbios da linguagem localizando
cérebro. Broca e Wernicke de- pontualmente o correspondente
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fisiológico da representação no dido como um “aparelho para


cérebro, Freud os avalia como a linguagem”) é efeito de uma
resultado de complexos proces- concepção complexa do que vem
sos associativos que se estendem a ser, para Freud, o “campo da
além dos assim chamados centros linguagem”.
da linguagem. De início, Freud questiona a
necessidade de haver uma lesão
O que Freud fez da teoria da orgânica para se justificar um
localização distúrbio de função nesse apa-
relho. Há casos de afasia que
É muito clara a intenção de surgem devido a um mero dano
Freud em seu ensaio crítico so- funcional, sem que haja uma le-
bre as afasias: “com base nessa são orgânica responsável. Segun-
estrutura do aparelho de lingua- do Freud, há décadas deixamo-
gem, investigar quais as suposi- -nos guiar pela concepção de que
ções de que necessitamos para o uma lesão destrói integralmente
esclarecimento dos distúrbios da elementos do sistema nervoso e
linguagem; em outras palavras, deixa outros intactos. No caso
o que nos ensina o estudo dos de uma lesão parcialmente des-
distúrbios da linguagem sobre a trutiva, diz ele, o aparelho pode
função desse aparelho” (p. 97). reagir à lesão como um todo, de
Quanto à estrutura desse apa- maneira solidária, não permitin-
relho – “um campo contínuo do do encontrar uma deficiência em
córtex” (p. 91) - Freud não se partes isoladas, porém apresen-
limita a reconhecer a existência tando uma deficiência de função.
de lugares psíquicos distintos, Justamente por não se restringir a
mas vai atribuir a cada um deles centros de linguagem separados e
uma natureza e um funcionamen- localizados, o aparelho de lingua-
to diversos. Quanto à sua função: gem responde a uma lesão parcial
esse aparelho é preparado para a de maneira solidária, apresentan-
associação (p. 115). do uma perturbação de ordem
Vemos que a diferença em funcional (pp. 50-51).
propor um “aparelho de lingua- A Psicologia localizava facul-
gem” (que não deve ser enten- dades psíquicas inteiras (“vonta-
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de”, “inteligência”, entre outras) tre a periferia e o córtex cerebral.


em determinados territórios do Freud coloca em questão a rela-
cérebro. De maneira que, se- ção anterior, não dinâmica, entre
gundo Freud, quando Wernicke funções e localizações, e toma a
propõe que só se podem localizar noção de modificação de signifi-
os elementos psíquicos mais sim- cação funcional para qualificar
ples, ou seja, cada uma das re- esse trajeto da excitação sensorial
presentações sensórias isolada na através das fibras nervosas até à
terminação do nervo periférico célula central.
que recebe a impressão, esse fato Freud está interessado na re-
deve ter se configurado como um lação entre o fisiológico e o psi-
grande passo à frente nas pes- cológico, mas de um ponto de
quisas sobre as afasias. Porém, vista não causal, que se reduzia
Freud considera que, em ambos até então a buscar, a partir dessa
os casos, comete-se o mesmo noção de modificação, o correla-
“erro de princípio” [principiellen to fisiológico da representação.
Fehler] (p. 78) (localizar na ter- Na visão anterior não se consi-
minação do nervo periférico um derava o trajeto da excitação,
conceito complexo ou um úni- apenas sua ligação entre um
co elemento psíquico), pois não ponto inicial e um ponto final.
existe justificativa plausível para A representação estava localiza-
o fato de se tomar do psíquico a da na célula nervosa (p. 77). É
terminação de uma fibra nervo- a partir dessa afirmação sobre a
sa - que foi, em seu percurso, localização da representação que
uma formação fisiológica sujeita Freud levanta a questão funda-
a modificações puramente fisio- mental em torno da qual vai girar
lógicas - e acrescentar a ela uma sua hipótese sobre as questões de
representação ou uma impressão linguagem, pois o que importa é
mnêmica. Nessa concepção se saber primeiramente o que vem a
considerava que uma excitação ser esse “correlato fisiológico da
qualquer passava pelas fibras representação” (p. 79).
nervosas e estas permaneciam Ao refletir sobre a natureza
inalteradas. Sua função era ape- da modificação funcional, Freud
nas a de conduzir a excitação en- propõe que não se tome como
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causal a relação entre a cadeia localização de uma representação


dos processos fisiológicos e a nada significa além da localização
dos psíquicos, de tal forma que de seu correlato, então devemos
se correspondam duas coisas que necessariamente recusar colocar
não têm necessariamente uma a representação em um ponto do
semelhança entre si: o físico e córtex cerebral e a associação em
o psíquico. O psíquico, para outro. Ao contrário, ambas partem
Freud, é um processo paralelo de um mesmo ponto e nunca se
ao fisiológico, a dependent con- encontram em repouso em ponto
comitant (p. 78, em Inglês, no algum (p. 80, grifos do autor)
original). É preciso, portanto, ob-
servar as propriedades dessa mo- Com essa recusa em aceitar a
dificação, independentemente do localização como efeito de uma
seu correlato psicológico. Freud causalidade físico-psíquica, Freud
propõe, então, que o correlato fi- pode deixar de lado a distinção
siológico da representação, a par- entre “centros” e “vias de condu-
tir dessa mudança de posição de ção da linguagem”. Essa rejeição
causalidade para paralelismo, seja permite-lhe pressupor, a partir
“algo da natureza de um proces- dos distúrbios da fala, por um
so”, processo esse que distribui a lado, a existência de processos
localização (p. 79). Com essa vi- funcionais (radicalmente opostos
sada de um processo, em vez de aos processos mecânicos) nos
uma causalidade, não se podem mecanismos da linguagem, e, por
mais distinguir duas partes no outro, aquilo que já se configura
correspondente fisiológico - a da como um deslocamento da noção
sensação e a da associação -, pois de patológico no que diz respeito
são dois nomes para designar duas aos distúrbios de linguagem.
perspectivas do mesmo processo: Nesse estudo, como conse-
quência primeira de sua hipótese
Não podemos ter sensação alguma sobre o fato de a relação entre
sem associá-la imediatamente [...] o correspondente fisiológico e a
A localização do correlato fisioló- representação ser da natureza de
gico é, então, a mesma para repre- um processo paralelo, Freud cri-
sentação e associação, e, já que a tica a localização pontual da fun-
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ção da linguagem nos “centros” do o aparelho pelas suas frontei-


de Broca e de Wernicke e propõe ras e não pelo seu centro. Freud
uma localização global, articula- não critica, portanto, a noção de
da e contínua, em função de um localização, mas propõe seu des-
campo complexo de associações locamento: “o processo é que
que nomeia Sprachapparat (apa- distribui a localização” (p. 79).
relho de linguagem): A localização passa a ser efeito
de distribuição, resultado de um
Rejeitamos, pois, as suposições de processo, uma vez que se estende
que o aparelho de linguagem seja por entre outros campos sensó-
constituído de centros distintos, rios e motores:
separados por campos corticais
sem função [...]. Então, resta-nos Se os “centros” aparentam ser os
apenas expor a ideia de que o cam- ângulos do campo da linguagem,
po da linguagem no córtex é um deve-se considerar, a seguir, em
território contínuo, dentro do qual quais outros campos esses centros
as associações e transferências, encontram suas fronteiras [...] O
nas quais se baseiam as funções campo de associação da lingua-
da linguagem, ocorrem com uma gem, do qual participam elementos
complexidade, cujos detalhes exa- ópticos, acústicos e motores (ou
tos escapam à compreensão (p. 86, cinestésicos), estende-se, por isso
grifos do autor). mesmo, pelos territórios corticais
desses nervos sensórios e pelos re-
Nesse campo complexo de spectivos territórios corticais mo-
associações vislumbrado por tores (pp. 87-88, grifos do autor).
Freud, a região da linguagem
define-se por sua extensão, e não A crítica à localização permi-
pela localização pontual nos cen- te a Freud não apenas apresentar
tros. Ao estabelecer relação com a plasticidade do aparelho de lin-
as funções da visão, da audição e guagem, como também abordar
da motricidade, essa região avan- uma outra consequência da teoria
ça por entre os campos corticais da localização. Trata-se da afir-
“sem função” propostos por mação, na doutrina de Meynert-
Meynert-Wernicke, apresentan- -Wernicke de que os centros de
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linguagem estão separados por de escrita, - todas essas atividades


“lacunas sem função”: “[...] É (e as imagens de lembrança utiliza-
muito provável que seja também das para tanto podem superar em
imposto, pelas células do córtex muitas vezes o número daquelas da
à memória, como a base de to- primeira língua) estão obviamente
das as atividades intelectuais, um localizadas nas mesmas áreas que
limite de armazenamento” (Mey- reconhecemos como os primeiros
nert 1884, apud Freud [1891] centros da língua aprendida (pp.
2013, p. 81). Ou seja, frente à 83-84, grifos do autor).
limitação da memória, ocupam-
-se territórios vazios, para novos Aqui, Freud está nos dizen-
conhecimentos. do que toda produção simbólica,
Freud questiona essa concep- como uma espécie de work in
ção limitada de memória porque progress, tem sempre o mesmo
concebe o aparelho de linguagem funcionamento, e que, portanto,
como uma estrutura efeito da re- a língua materna prepara, à sua
lação dinâmica entre os campos maneira, o leito para outras aqui-
acústico, visual e motor. Um sições, não havendo necessidade
processo de diferentes níveis fun- da existência de “lacunas sem
cionais, uns mais complexos e re- funções” especiais para novas
finados; outros, mais primitivos atividades – em outras palavras,
e menos diferenciados, de ma- tudo está sempre em atividade, o
neira que a própria estruturação que nos permite supor que o cam-
da função da linguagem contém po simbólico não é diferente para
exemplos de novas aquisições: a língua materna e para a língua
estrangeira.
Todas as outras novas aquisições Assim, segundo Freud, nun-
da linguagem – se aprendo, então, ca ocorre de uma lesão orgânica
a compreender e falar várias lín- provocar um distúrbio na língua
guas estrangeiras, se, além do alfa- materna, ao qual escape a língua
beto primeiramente aprendido me estrangeira adquirida posterior-
aproprio do grego e do hebraico e, mente. Se - no caso de um ale-
além de minha escrita cursiva exer- mão que também compreende
cito a estenográfica e outras formas o francês - os sons das palavras
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francesas estivessem localizados qual a sucessão de associações


em um lugar diferente dos sons vem a ser uma combinação de
da língua alemã, uma lesão na elementos que se mantêm inalte-
área da linguagem faria com que rados no interior do conjunto for-
esse alemão deixasse de entender mado por eles. Dessa maneira,
sua língua, mas continuasse a o conjunto associativo resultante
compreender o francês. dos elementos é concebido como
No entanto, é o contrário que sua soma, de forma que as pro-
ocorre. Perde-se primeiro a com- priedades desse conjunto são re-
preensão do francês, a aquisição dutíveis às propriedades de seus
mais recente, de acordo, então, elementos. À medida que cada
com a estruturação de todas as elemento psicológico se liga a
outras funções da linguagem (p. um elemento fisiológico, a asso-
84). Estas foram estruturadas em ciação entre duas impressões sig-
tempos diversos: primeiro o cen- nifica uma associação automática
tro sensório acústico, depois o de duas representações.
motor, posteriormente o visual e, O que se depreende dessa te-
por fim, o gráfico. oria é a noção de substancialida-
Nos casos patológicos, a per- de psíquica, efeito do fato de se
turbação da linguagem repete tratarem os elementos psíquicos
uma situação que se apresenta da mesma maneira que os físi-
normalmente durante a aquisição cos, ou seja, de a representação
das funções da linguagem, ou se encontrar sempre localizada
seja, “o centro que será convo- como um correspondente psíqui-
cado a ajudar primeiramente será co interno, causado por fatores
aquele que tiver permanecido o externos da experiência com o
mais capaz de desempenhar suas objeto. O caráter não dinâmico
funções” (p. 64). dessa postura tem como conse-
quência a redução da associação
O que Freud fez das noções de a apenas uma lei: à de uma cor-
associação e de representação respondência entre o pensamento
e o objeto (percebido como tal,
Na Psicologia do século XIX inteiramente pela consciência),
predomina uma lei segundo a ou seja, uma impossibilidade de
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se pensar uma independência en- para Meynert a reprodução de


tre representação e objeto. Nesse toda percepção tanto na substân-
modo de pensar, a linguagem é cia cinzenta quanto no córtex é
concebida como tendo sido feita uma projeção, para Freud, ape-
para designar as coisas. nas a primeira parte (atravessar
O conceito de representação, as substâncias cinzentas) poderia
por sua vez, apoiava na teoria ser chamada de projeção. Mesmo
anátomo-fisiológica das localiza- que nesse trajeto as fibras mante-
ções cerebrais do século XIX – na nham uma relação com “a peri-
forma de um atomismo – a ideia feria do corpo”, não podem pro-
de que há um duplo psíquico para jetar uma imagem ponto a ponto
tudo o que se passa no somático, do corpo. Por essa razão, Freud
ou seja, a de que a cada tipo de considera mais apropriado dar a
representação corresponde um essa segunda fase do processo o
suporte neurológico rigorosa- nome de representação:
mente localizado. Quando Freud
toma, da Psicologia, a palavra Elas [as fibras] contêm a periferia
como a unidade de base da fun- do corpo assim como – para tomar-
ção da linguagem e a concebe, mos de empréstimo um exemplo
de início, como uma representa- ao objeto a que estamos aqui nos
ção complexa (ver Figura 1), não dedicando – um poema contém um
apenas toma a palavra mesma alfabeto, em uma reordenação que
como representação, como tam- serve a outros propósitos, em uma
bém está nos dizendo que toda e múltipla e diversa conexão entre
qualquer operação de linguagem cada elemento tópico, de maneira
aciona simultaneamente funções que alguns podem ser representa-
relativas a mais de um ponto no dos várias vezes, ao passo que ou-
campo da linguagem. tros podem não ser representados.
A esse respeito, há uma pas- [...] seu fundamento é puramente
sagem especialmente interessante funcional. [...] temos o direito de
no texto de Freud, quando dialo- presumir que a periferia do corpo
ga com Meynert sobre a necessi- não está mais contida topicamente
dade de se distinguir a projeção nas partes mais elevadas do cére-
da representação (pp. 73-74). Se bro, bem como no córtex cerebral,
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mas apenas conforme a função. Ao propor a divisão da pala-


(pp. 76-77, grifos do autor) vra em representação de palavra
e associações de objeto, Freud
Destacando que deseja sepa- retira a representação de sua uni-
rar o lado psicológico do ana- dade psicológica e a transforma
tômico do objeto em questão, em uma entidade lógica e dialéti-
Freud apresenta, na figura 1, o ca. A representação deixa de re-
conceito de representação de ma- presentar o objeto, para se tornar
neira inédita, ao escolher a pala- a diferença entre séries de pro-
vra, para apresentá-la como um cessos. Não se trata, portanto,
intrincado processo associativo da diferença entre entidades pre-
para o qual concorrem elemen- viamente existentes, mas de um
tos de origem visual, acústica e processo de diferenciação como
cinestésica. Com isto, avança princípio de constituição desse
a tese sobre uma diferenciação aparelho.
entre representação de palavra À palavra corresponde uma
[Wortvorstellung] e associações associação de imagens mnêmi-
de objeto [Object-Associationen], cas auditivas, visuais e motoras
dois complexos que, não estando e seu significado se constrói na
em uma relação de oposição, vão articulação da imagem acústica
possibilitar as mais variadas con- da representação de palavra com
figurações das funções da lingua- as imagens visuais das associa-
gem a partir de singulares trajetos ções de objeto. As associações de
associativos das representações. objeto, por sua vez, não consti-
tuem, para Freud, o objeto ou a
coisa externa, a referência, mas

sinais de uma percepção difu-
sa. Porém, o fundamental dessa
proposta é que à palavra é dada
a possibilidade (por sua constitui-
ção complexa) de ser sempre um
ponto nodal (p. 92), e facilitar o
deslocamento no caminho das as-
sociações do falante, proporcio-
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nando os disfarces da ambiguida- ções, é possível para Freud, atra-


de e da condensação. vés da observação das patologias
Não existe, então, um cam- de linguagem, perceber que a
po da linguagem antes de ha- fala é um lugar de manifestação
ver linguagem, ou que não seja dos efeitos associativos da lin-
construído por linguagem. Não guagem e a partir daí separar fun-
há, portanto, nessa concepção do ção e funcionamento no aparelho
aparelho de linguagem, nada da psíquico. Tal separação – que
ordem da mecânica de uma cau- na concepção anterior era vista
salidade. Freud já está trazendo como deficiência do aparelho –
uma dinâmica da simultaneidade passa a ter um peso fundamental
na constituição desse aparelho. para Freud, porque lhe permite
As diferenças na associação des- ouvir, nos ultrapassamentos da
ses elementos visuais, auditivos e fala, aquilo que chamará depois
motores constituem as represen- de movimentos do inconsciente.
tações. É importante lembrar que Está implícita nessa articulação
a representação não pode ser, na de Freud a ideia de uma estrutura
proposta de Freud, anterior à as- de linguagem, efeito da relação
sociação. A representação não é dinâmica entre os campos asso-
uma unidade constituída que se ciativos acústico, visual e motor,
associa a outras unidades por so- que amplia as possibilidades de
mação. A lei da associação, ou descompasso entre a função de
sua razão, é a simultaneidade. associar e o modo de associar
Ao dizer que “não podemos ter constitutivos desse aparelho de
sensação alguma sem associá-la linguagem.
imediatamente” (p. 80), Freud Sendo a linguagem um cam-
está passando a limpo toda a teo- po complexo de associações de
ria da percepção, da associação, representações cujos efeitos se
para dizer que não há nada fora manifestam na fala (no sintoma,
da linguagem. no sonho), ela deixa de ser algo
destinado a designar as coisas,
Palavras finais para se presentificar, sobretudo,
Se o campo da linguagem é como aquilo que separa o falan-
um campo complexo de associa- te de si próprio. Se a linguagem
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representa, para Freud, o campo de uma descrição objetiva de um


do desconhecimento, só podemos funcionamento subjetivo.
saber do que não sabemos se fa- Nas diferenças com que abor-
larmos. O fato de as associações da os fenômenos da fala, supon-
de objeto só encontrarem uma do a anterioridade da linguagem,
significação ao se ligarem a uma Freud nos proporcionou os pri-
representação verbal coloca a meiros elementos para iniciarmos
fala entre sistemas de linguagem, uma reflexão sobre os estatutos
pois as manifestações inconscien- de língua e de materna. Com a
tes de linguagem encontram na leitura desse texto Freud nos con-
fala uma das possibilidades de vida a repensar a questão do erro,
mostrar seus movimentos. do lapso, do ato falho em língua
Acompanhando Freud, cons- materna e estender essa reflexão
tatamos sua determinação em para a língua estrangeira.
encontrar bases diferentes para
explicar os distúrbios da fala, as Maria Rita Salzano Moraes
hesitações, os esquecimentos e os Universidade Estadual de
lapsos. Freud não se apressa na Campinas
pressuposição de que esses acon-
tecimentos se explicariam pela via
dos fenômenos da consciência, Recebido em: 28-01-14
tomando-os rapidamente como Aceito em: 15-04-14
defeitos do aparelho, na tentativa