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A afetividade e a

construção do sujeito –
Henri Wallon
PROF.ª ME. LUCIANA UHREN
A dimensão afetiva ocupa lugar central na construção da pessoa e
do conhecimento.
Emoção:

a) instrumento de sobrevivência da espécie humana – o choro do


bebê mobília a mãe;
b) expressão emocional tem alta contagiosidade, poder epidêmico;
c) fornece primeiro e mais forte vínculo entre os indivíduos;
d) supre a insuficiência da articulação cognitiva nos primórdios da
história do ser e da espécie.

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Atividade emocional: social e biológica.
a) Biológica – realiza a transição entre o estado orgânico do ser e sua
etapa cognitiva, racional que só pode ser atingida por meio da
mediação cultural.
b) Social – pelo vínculo que estabelece o ambiente garante o acesso
ao universo simbólico da cultura, elaborado e acumulado ao longo
da história pela humanidade.
Permite a posse dos instrumentos com os quais trabalha a atividade
cognitiva.

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Ativação ou redução da afetividade:
a) Natureza química – tem controles cerebrais e, por isso, pode ser
instigada ou reduzida por agentes químicos que atuam no cérebro;
b) Natureza tônico-muscular – pode ser alterada pelo tônus muscular,
como o efeito de relaxamento que acontece na realização de
massagens relaxantes;
c) Natureza abstrata, representacional – mantém relação de
antagonismo com a atividade cognitiva: 1) envolver alguém ansioso
em estado de reflexão diminui a ansiedade; 2) emoções podem ser
produzidas por meios representativos.

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Características do comportamento
emocional

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Função social da emoção explica seu caráter contagioso.
Adultos que convivem com crianças estão expostos ao contágio emocional.
A ansiedade infantil pode produzir no adulto angústia ou irritação.
O caráter social resulta na tendência de nutrir-se com a presença dos
outros. Caso seja deixada só, a pessoa tem a tendência de extinguir
rapidamente a manifestação emocional.
“[...] seu apogeu coincide com o período de imperícia máxima do ser, uma
vez que ela tem precisamente por função supri-lo por meio da mobilização
do outro. É possível afirmar, pois, que a emotividade é diretamente
proporcional ao grau de inaptidão, de incompetência, de insuficiência de
meios. Na vida adulta, ela tende a surgir nas situações para as quais não se
tem recursos, mas circunstancias novas e difíceis.” (DANTAS, 2019, p. 137).

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Afetividade e inteligência

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Afetividade – fase mais arcaica do desenvolvimento humano. Da
afetividade diferenciou-se lentamente a vida racional. No início da
vida, afetividade e inteligência estão misturadas com predomínio da
primeira.
Reciprocidade entre afetividade e racionalidade – os dois
movimentos se mantêm de forma que as aquisições de cada um
repercutem sobre a outra.
Movimento de alternância – atividade refluir para dar espaço para a
atividade cognitiva assim que a maturação põe em ação o
equipamento sensório-motor necessário a exploração da realidade.
A afetividade depende, para evoluir, de conquistas realizadas no
plano da inteligência, e vice-versa.
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Etapas de desenvolvimento da afetividade:
1) Afetividade emocional ou tônica – momento inicial; trocas afetivas
dependem inteiramente da presença concreta de parceiros. Construção do
sujeito se faz pela interação com outros sujeitos. Interpessoal;
2) Afetividade simbólica – construção da função simbólica e da linguagem; o
toque e a entonação da voz são acrescidos da comunicação oral e escrita. A
realidade externa se modela a partir da aquisição de técnicas elaboradas pela
cultura. Cultural;
3) Afetividade categorial – puberdade; exigências racionais às relações afetivas:
respeito recíproco, justiça, igualdade de direitos. Não atender a essas
exigências é percebido como desamor.
“Deve-se então concluir que a construção do sujeito e a do objeto alimentam-se
mutuamente, e até mesmo afirmar que a elaboração do conhecimento depende
da construção do sujeito nos quadros do desenvolvimento humano concreto.”
(DANTAS, 2019, p. 141).

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Wallon e os processos de ensino e de
aprendizagem

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Wallon apresenta proposta de uma psicologia integradora que
enfatiza os processos emocionais e afetivos, num cenário educacional
em que predomina o componente intelectual do conhecimento.
Existe uma conexão entre a emoção e o funcionamento da
inteligência, sendo a primeira um fenômeno cuja função é mobilizar o
outro, o que denota seu caráter socializador.
A emoção é um elemento de expressão, que inclui aspectos
orgânicos (tônicos/ musculares). Quando o componente emocional é
exacerbado, há uma tendência à inibição do componente intelectual,
e vice-versa, o que pode dificultar a aprendizagem do aluno.

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A escola necessita lidar adequadamente com as emoções dos
alunos, não intensificando situações de frustração e ansiedade, pois
isto poderia interferir no funcionamento intelectual da criança em
seu processo de aprendizagem.

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O desenvolvimento da pessoa atravessa momentos conflituosos, de
grande expressão emocional, como no período da Educação Infantil,
que corresponde aproximadamente à fase do personalismo.
Outro momento em que as questões emocionais estão
evidenciadas, podendo surgir conflitos na relação professor-aluno e
também entre os próprios discentes, é a adolescência.

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Conflitos: parte de uma etapa de construção do psiquismo do sujeito
e não, necessariamente, empecilhos para a aprendizagem.
O professor deve agir sem se deixar contagiar pelas situações
conflituosas tentando manter o equilíbrio e a racionalidade, pois os
processos relacionais (professor e aluno) são essenciais na
aprendizagem.
Para Wallon, a emoção contagia, mobiliza o outro, assim como
produz efeito no próprio sujeito.
Esse conceito ganha papel fundamental em sua obra, operando a
passagem do mundo orgânico (inicial) para o social, do plano
fisiológico para o psíquico.

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É na ação sobre o meio humano que deve ser buscado o
significado das emoções. E a escola torna-se um espaço de reflexão
não apenas acerca dos modos de aquisição de aprendizagens de
conteúdos, mas também sobre as formas de se lidar com
expressões da própria subjetividade.
O professor precisa saber distinguir os limites de uma situação
conflituosa em sala de aula, percebendo-a como necessária ou
mesmo transitória, ou como um fator de desorganização mais
severa e comprometedora da aprendizagem.

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O desenvolvimento do aluno e o papel
da escola

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A escola pode contribuir com a resolução de conflitos/dificuldades desse sujeito
nos seus diferentes estágios de desenvolvimento.
É necessário conhecer a criança em suas variadas dimensões:

Tipo de relação
Condições de
que trava com
vida
o meio

Grupos aos
Interesses
quais pertence

É importante compreender a criança em toda a sua complexidade (afetiva,


intelectual e motora) e oferecer atividades/vivências escolares coerentes com
essa visão integral de desenvolvimento.
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Concepção de sujeito/aluno

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Para aprender, o sujeito deve apropriar-se dos conhecimentos, dos
significados culturais a ele direcionados.
A aprendizagem não é um ato de recepção passiva de conteúdos a serem
internalizados, mas uma ação que requer atividade psíquica complexa e
estruturação do próprio sujeito.
Espera-se que ocorram experiências de ensino propiciadoras de
interações grupais.
O trabalho pedagógico deve ser realizado apresentando conteúdos que
alternem a construção do mundo (objetividade) e a construção do eu
(subjetividade), por meio de atividades que possibilitem a expressão
verbal, a corporal e a emocional.
A análise dos acontecimentos escolares deve levar em conta o contexto
total no qual estão inseridos.
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As dificuldades de aprendizagem podem ter relação com questões
que englobem e transcendam a interação professor e aluno, como:
Infraestrutura da escola

Recursos financeiros

Políticas públicas

Planejamento da instituição

Currículo

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Dinâmica de sala

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Muitas dificuldades de aprendizagem decorrem do não investimento
da pessoa no ato de aprender.
O ambiente escolar é fator interveniente na aprendizagem do sujeito
quanto à:
Espaço onde a
Seleção dos Materiais
atividade é
conteúdos utilizados
realizada

Interações
Organização e
sociais
uso do tempo
propostas

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Um fator de atenção relacionado às práticas pedagógicas,
especialmente com crianças pequenas, é o cuidado de não se exigir
comportamentos (estereotipados) para os quais elas não estejam
aptas. Um exemplo é a cobrança de que fiquem quietas por um longo
período a fim de que possam realizar determinadas atividades.
A escola deve incentivar a realização de atividades que favoreçam
intercâmbios grupais, que abranjam as dimensões motora, afetiva e
intelectual, favorecendo o desenvolvimento da pessoa.
O sujeito passa por um processo de socialização que deve permitir
sua individuação, pois a partir da interação com o outro vai se
tornando diferente dele, e construindo sua singularidade.

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Referências
DANTAS, H. A afetividade e a construção do sujeito na psicogênese de Wallon. In: LA
TAILLE, Y.; OLIVEIRA, M. K.; DANTAS, H. Piaget, Vigotski e Wallon: teorias
psicogenéticas em discussão. 28. ed. São Paulo: Summus, 2019, p. 131-152.

NUNES, A. I. B. L.; SILVEIRA, R. N. Psicologia da aprendizagem. 3. ed. Fortaleza: Ed.


UECE, 2015, p. 60-63.

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