Você está na página 1de 8

EXCELENTÍSSIMO (A) SENHOR (A) DOUTOR (A) JUIZ DA __ª VARA

CÍVEL DA COMARCA DE VITÓRIA DA CONQUISTA/BA

GERALDO SILVA, brasileiro, solteiro, empresário, portador do


documento de identidade RG nº XXX e inscrito no CPF/MF sob o nº XXX, titular do
e-mail XXX, residente e domiciliado em Vitória da Conquista/BA, por intermédio de
seu advogado e procurador, vem, muito respeitosamente, à presença de Vossa
Excelência, propor:

AÇÃO DE RESCISÃO UNILATERAL DE CONTRATO DE PROMESSA DE


COMPRA E VENDA C/C DEVOLUÇÃO DE QUANTIAS PAGAS, em face de:

INÁCIO GUERRA, brasileiro, menor, casado, empresário, portador do


documento de identidade RG nº XXX e inscrito no CPF/MF sob o nº XXX, titular do
e-mail XXX, residente e domiciliado em Vitória da Conquista/BA, pelos motivos de
fato e de direito a seguir aduzidos.
PRELIMINARMENTE - DA TEMPESTIVIDADE

A ação proposta pelo autor é tempestiva, visto que versa sobre


ressarcimento e a tal pretensão prescreve em 3 (três) anos, estando, portanto, dentro do
prazo para a busca de seus direitos.
O Artigo 206, parágrafo 3, inciso IV, do Código Civil trata do tema de prescrição:

Art. 206. Prescreve: § 3o Em três anos: IV - a pretensão de


ressarcimento de enriquecimento sem causa.

Os demais pedidos também são tempestivos, pois se encontram na descrição


do Art. 205 do Código Civil, estando os mesmos dentro do prazo geral de 10 (dez) anos.

II - DOS FATOS

O Requerente firmou Instrumento Particular de Promessa de Compra e


Venda com o Requerido na data de 10/01/2017, tendo por objeto a aquisição de uma
máquina pelo valor de R$ 200.000,00 (duzentos mil reais) na cidade de Vitória da
Conquista/BA.

A forma de pagamento acordada entre as partes previu o seu cumprimento


da seguinte forma: Pagamento de R$ 90.000,00 (noventa mil reais) a título de
amortização, comprometendo-se, o Requerente, a pagar o restante na data da entrega
da máquina na mesma cidade em que ocorrera a celebração do contrato no dia
10/01/2018.

No entanto, Vossa Excelência, em 10/11/2017, a Requerente comunicou o


Requerido sua intenção em desfazer o negócio, sugerindo que eles assinassem um
Distrato da Promessa de Compra e Venda, porém o Requerido não aceitou a proposta
e informou ao autor que reteria o valor pago a título de amortização.

Neste contexto, o Requerido faltou com o princípio da boa-fé para com o


Requerente, pois não levou em conta a justificativa apresentada fundamenta com
alegações plausíveis visto o momento em que o país se encontra. Justificando que tal
crise econômica não fora esperada e se o contrato permanecesse vigente, precisaria
dispensar muitos de seus funcionários, sendo inúmeras pessoas prejudicas.

Assim, não restou alternativa ao Requerente, senão a buscar a via judicial,


a fim de ver restituído pelo valor pago ao Requerido, que se recusa a tanto.

III - DO DIREITO

III. I - DA BOÁ-FÉ OBJETIVA NA RELAÇÃO CONTRATUAL E RECISÃO


UNILATERAL

Em toda relação contratual, ambos os contratantes devem seguir e colocar


em prática em todos os atos do negócio jurídico o princípio da boa-fé, pois o mesmo
permeia todas as relações jurídicas e possui um aspecto objetivo.

O instrumento que regula todas as relações contratuais é o Código Civil, e


o mesmo trata desse tema em seu Artigo 422, in verbis:

Art. 422. Os contratantes são obrigados a guardar, assim


na conclusão do contrato, como em sua execução, os
princípios de probidade e boa-fé.

Neste contexto, podemos observar Vossa Excelência, que o autor desde o


começo do negócio manteve a boa-fé para com o requerido, pois o mesmo efetuou o
pagamento antecipado de uma grande quantia, mantendo assim a confiança de que o
requerido iria cumprir sua parte no contrato entregando o objeto na quitação total.

O autor ainda oportunizou ao requerido a alternativa do distrato pelo mesmo


instrumento do contrato de compra e venda, entretanto não obteve êxito em nenhuma
das negociações a esse respeito com o requerido.

Cumpre salientar que o requerido em nenhum momento apresentou motivos


relevantes para não efetuar a devolução da quantia paga a título de amortização, agindo
assim de má-fé, não levando em conta em nenhum momento os motivos do autor para o
desfazimento do contrato.

Em que se pese a justificativa do autor, a mesma está amparada no Artigo


421, também do Código Civil:

Art. 421. A liberdade de contratar será exercida em razão e


nos limites da função social do contrato.

O artigo acima trata da função social do contrato, que é nada mais, nada
menos do que os efeitos que a celebração de um contrato acarretam para a sociedade e
não somente aos contratantes em uma relação contratual bilateral, sua finalidade é evitar
que a liberdade contratual seja exercida de maneira abusiva, garantindo, dessa forma, o
equilíbrio entre os contratantes e que o contrato atinja aos interesses sociais, sem
prejudicar terceiros.

Levando em conta esta definição, Vossa Excelência, o autor baseia sua


justificativa de rescisão do contrato, na demissão de inúmeros funcionários se o mesmo
manter sua vigência, afetando assim, terceiros de boa-fé que nada tem a ver com a
relação do autor e do requerido.

Tal motivo foi acarretado de fato imprevisível, visto que o país passa por
grandes dificuldades e uma crise que não cabia ao autor prever, no momento da
celebração do contrato, pois a mesma foi iniciada de eventos políticos que não estavam
ao alcance do autor.

Os tribunais vêm decidindo dessa maneira sobre a imprevisibilidade em


contratos:

APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO DECLARATÓRIA DE


RESCISÃO CONTRATUAL - CONTRATO DE
PROMESSA DE COMPRA E VENDA - IMÓVEL -
APLICAÇÃO DO CDC - REVISÃO DAS CLÁUSULAS
CONTRATUAIS, EM RAZÃO DE FATO
SUPERVENIENTE QUE TORNEM AS
PRESTAÇÕES EXCESSIVAMENTE ONEROSAS -
TEORIA DA IMPREVISÃO - APLICABILIDADE,
DIANTE DA PRESENÇA DOS REQUISITOS
LEGAIS - RECURSO DO AUTOR PROVIDO E DO
RÉU NÃO PROVIDO. (TJ-MS - AC: 542 MS
2003.000542-0, Relator: Des. João Maria Lós, Data de
Julgamento: 07/08/2007, 1ª Turma Cível, Data de
Publicação: 23/08/2007).
Portanto, estando preenchidos os requisitos para aplicar a teoria da
imprevisão, a mesma deve prosperar e, da simples análise dos fatos narrados, todos os
requisitos estão presentes, sendo eles: Contrato sinalagmático, oneroso, comutativo e
de execução continuada ou diferida; Acontecimento extraordinário, geral e
superveniente; Imprevisibilidade do acontecimento; Desproporção, de forma que a
prestação do devedor se torna excessivamente onerosa, ao mesmo tempo que há um
ganho exagerado do credor.

Este contrato, portanto, Vossa Excelência, se continuar produzindo efeitos,


estará fora dos limites de sua função social.

III. II - DA DEVOLUÇÃO DOS VALORES PAGOS

O autor pagou a título de amortização o valor de R$ 90.000,00 (noventa


mil reais), e como mencionado anteriormente, ao pedir distrato da promessa de
compra e venda, o requerido negou a devolução do valor, se enriquecendo às custas do
autor.

O Artigo 884 do Código Civil trata a respeito de enriquecimento ilícito:

Art. 884. Aquele que, sem justa causa, se enriquecer à


custa de outrem, será obrigado a restituir o
indevidamente auferido, feita a atualização dos valores
monetários.
Portando, como o requerido, sem qualquer justificativa, mantém com eles
os valores pagos indevidamente, é direito do autor sua restituição como demonstrado
em lei.

III. III - DA ADMISSIBILIDADE DAS PROVAS

Como o presente caso versa sobre uma relação contratual, é presumível


que o mesmo tenha sido celebrado entre as partes, no entanto, como o autor perdeu
sua via da Promessa de Compra e Venda assinada por ambas as partes, o mesmo
pretende provar a relação jurídica entre as partes por meio de e-mails trocados com o
requerente.

Neste contexto, como dispõe os artigos 107, 225 do Código Civil e artigo
441 do Código de Processo Civil:

Art. 107. A validade da declaração de vontade não


dependerá de forma especial, senão quando a lei
expressamente a exigir.

Art. 225. As reproduções fotográficas, cinematográficas,


os registros fonográficos e, em geral, quaisquer outras
reproduções mecânicas ou eletrônicas de fatos ou de
coisas fazem prova plena destes, se a parte, contra quem
forem exibidos, não lhes impugnar a exatidão.

Art. 441. Serão admitidos documentos eletrônicos


produzidos e conservados com a observância da
legislação específica.

Portanto, existe validade jurídica no uso de e-mails como provas em um


processo, pois são considerados documentos eletrônicos quando devidamente
assinados.

V – DOS PEDIDOS
Posto isso, requer:

A) A designação de audiência de conciliação ou mediação, caso entenda-se pertinente;

B) A citação do Requerido para que, querendo, compareça à eventual audiência


designada, bem como para que apresente resposta à presença ação, sob pena de revelia
e confissão;

C) Seja julgada TOTALMENTE PROCEDENTE a presente ação para reconhecer e


declarar a ocorrência da rescisão contratual;

D) Dado o reconhecimento da rescisão, que seja o Requerido compelido a restituir ao


Requerente o valor pago de R$ 90.000,00 (noventa mil reais), devidamente corrigidos
monetariamente;

D.1) A restituição do valor pago seja feita em única parcela, com acréscimos de juros
de mora de 1% (um por cento) ao mês, a contar da citação;

E) Seja o Requerido condenado ao pagamento das custas processuais e honorários


advocatícios de sucumbência, que requer sejam fixados no percentual de 20% (vinte
por cento) do valor da condenação;

F) Pretende provar o alegado por todos os meios de prova em direito admitidas,


incluindo os e-mails acostados aos autos pelo Requerente, sem exceção, requerendo,
desde logo, a oitiva de testemunhas, cujo rol será apresentado no momento oportuno, e
a juntada de novos documentos, sem prejuízo da produção de outras provas que se
mostrem necessárias durante a instrução processual.

Dá à causa o valor de R$ 90.000,00 (noventa mil reais).


Nestes termos, pede deferimento.

Vitória da Conquista, data.

Advogado
OAB/XX nº XX

Você também pode gostar