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Mediação e Experiência Estética com Estudantes e Não Estudantes de Arte

Amanda Borges1

Resumo

O presente artigo discute uma possível diferença nas respostas de alunos universitários de arte e de
outros cursos em questões sobre mediação e experiência estética, bem como possíveis razões para
estas divergências. Trata-se de uma pesquisa quantitativa que promove a investigação da relação
entre mediação e experiência estética com estudantes universitários de cursos diversos. Incentiva-se
a produção de cada vez mais conhecimento na área.

Palavras chave: mediação, experiência estética, estudantes de arte, universitários.

Introdução
A relação entre a prática da mediação e a aproximação do espectador com a obra de arte é algo
frequentemente relacionado à educação. Projetos de mediação direcionados a escolas de ensino
básico são pensados com intuito de contribuir para a vivência artística de estudantes e aproximá-los
de obras das mais diversas linguagens.

Dentro do tema, é importante ressaltar a formação do público para contribuir com seu contato com
as obras de arte, inserindo profissionais do meio artístico nesta tarefa agregada à arte-educação.

[...] essa aproximação entre educação e mediação é sem dúvida significativa.


Essa é, inclusive, uma vertente que caracteriza a formação docente na esfera
artística em nosso país. Espera-se do profissional especializado na arte teatral
que faça pontes entre a escola e as artes da cena; uma dupla competência,
artística e pedagógica, reunida em um único profissional deve ser dinamizada
tendo em vista a formação de indivíduos familiarizados ou até mesmo
envolvidos com a esfera artística. (PUPO, 2011, p. 114)

Uma vez que a elaboração de projetos de mediação compete aos indivíduos das áreas de artes, há
relevância na investigação do modo como a mediação é vivida por eles como espectadores. Em
outras palavras, na forma como a prática da mediação, quando realizada por outrem, influencia ou
não sua experiência estética. Seria relevante, portanto, investigar de que forma os profissionais das
artes vivenciam a mediação como espectadores e se essa vivência difere dos profissionais de outras
áreas.

Para Pupo (2011, p. 114), "[...] mediar a relação entre o público e a obra implica a realização de
esforços visando à aprendizagem da apreciação artística por espectadores pouco experimentados."
Desse modo, é comum a noção de que um certo grau de conhecimento é necessário para que se
tenha um contato proveitoso com obras artísticas no geral.

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Amanda é graduanda do segundo semestre de Artes Cênicas da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes.
Bailarina de danças urbanas. Frequenta cursos de teatro no DF há cinco anos.
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Existem muitos artistas dispostos a não fazer arte apenas para um pequeno
círculo de iniciados, que querem criar para o povo. Isso soa democrático, mas, na
minha opinião, não é totalmente democrático. Democrático é transformar o
pequeno círculo de iniciados em um grande círculo de iniciados. Porque a arte
necessita de conhecimentos. (BRECHT apud DESGRANGES, 2010, p. 32)

Sendo assim, uma analogia válida a se fazer envolve a comparação do "pequeno círculo de
iniciados", do qual fala Brecht com estudantes universitários de artes, os quais trabalham
diariamente conteúdos e conceitos que os aproximam de obras de arte. O "grande círculo de
iniciados", nesta comparação, poderia ser a necessidade de expansão desses conhecimentos para
além da academia.

Ainda retomando Desgranges (2010, p. 29) para ele, "[...] é preciso capacitar o espectador para um
rico e intenso diálogo com a obra, criando, assim, o desejo pela experiência artística.". Desse modo,
conduzindo para o objetivo da presente pesquisa, seria plausível supor como hipótese que os
estudantes de arte possuem esse conhecimento necessário para dialogar com as obras e julgam que
não precisam de mediação, ou ainda, que tais estudantes avaliam a influência da mediação na
própria experiência estética de forma mais frequentemente negativa, em relação a estudantes de
outros cursos.

Material e Métodos

A amostra da presente pesquisa quantitativa realizada em 2017 foi de 60 estudantes matriculados


em cursos superiores do DF, sendo 30 de artes e 30 de outras áreas. Foram considerados cursos de
arte os cursos de Artes Cênicas, Artes Visuais, Música, Dança, Cinema, Design, Moda e Teoria
Crítica e História da Arte. O objetivo desta pesquisa é avaliar as respostas dos participantes quanto
a influência da mediação na própria experiência estética.

Foram elaborados dois questionários iguais na plataforma Google Forms, os quais foram enviados
virtualmente para os participantes da pesquisa. A separação em dois questionários foi feita apenas
para facilitar a análise dos dados.

O questionário foi composto de uma questão de múltipla escolha sobre qual o curso do participante
estudante de arte, ou, no caso dos universitários de outros cursos, perguntou-se a que área do
conhecimento seu curso pertence.

Em seguida, questionou-se se o participante estava familiarizado com o conceito de mediação, de


modo que as respostas possíveis eram "sim", "não" e "não sei dizer". Nesse momento há uma breve
contextualização sobre o tema da mediação retirada de Pupo (2011, p.114) seguida de uma
exemplificação mais coloquial.
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As próximas três perguntas, também no formato de "sim", "não" e "não sei dizer" questionam,
respectivamente, se o participante já teve contato com a mediação nas artes visuais, nas artes
cênicas e, por último, se está familiarizado com o conceito de experiência estética.

Do mesmo modo citado anteriormente, em seguida há uma contextualização teórica sobre


experiência estética, retirada de Pereira, (2012, p. 187) seguida de exemplo coloquial para facilitar
compreensão.

As três perguntas seguintes foram elaboradas utilizando a escala Likert, na qual coloca-se uma
questão e o participante deve responder marcando um item dentro de cinco propostos em uma linha
horizontal. Os itens seguem uma ordem que varia de 1 a 5, sendo 1 correspondente a "discordo
fortemente" e 5 correspondente a "concordo fortemente". Desse modo, as questões seguintes
abordavam a possível influência positiva, negativa e não influência da mediação na experiência
estética do estudante.

Por fim, houve um questionário socioeconômico sobre gênero, raça/cor e renda familiar em salários
mínimos.

Resultados

As figuras abaixo dizem respeito à população estudada. O primeiro gráfico de cada figura será
sempre referente aos universitários de cursos diversos e o segundo, aos estudantes de artes.

Figura 1 - População estudada (cursos).


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Fonte: Google Forms

Figura 2 - População estudada (gênero).

Fonte:
Google Forms

Figura 3 - População estudada (raça/cor).


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Fonte: Google Forms

Figura 4 - População estudada (renda).

Fonte: Google Forms

Figura 5 - População estudada (familiarização com o conceito de mediação).


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Fonte: Google Forms

Figura 6 - População estudada (contato com mediação nas artes visuais).

Fonte: Google Forms

Figura 7 - População estudada (contato com mediação nas artes cênicas).

Fonte: Google Forms


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Figura 8 - População estudada (familiarização com o conceito de experiência estética).

Fonte: Google Forms.

Após a análise estatística, percebe-se que 73,3% dos estudantes de artes participantes afirmaram
que a mediação influencia positivamente sua própria experiência estética, enquanto apenas 13,3%
concordaram, de alguma forma, com o oposto. Por fim, 6,7% declaram que a mediação não tem
qualquer influência em sua experiência estética.

Além disso, 63,4% dos estudantes de cursos diversos afirmaram que a mediação influencia
positivamente a sua experiência estética, enquanto 16,7% afirmaram o contrário. Finalmente,
apenas 3,3% concordam que a mediação não tem influencia em sua experiência estética pessoal.

Observando os números obtidos, é nítida a lacuna na propagação da prática de mediação em artes


cênicas fora do ambiente acadêmico das artes. Ainda retomando Pupo (2011, p.114), há um lapso
na "aprendizagem da apreciação artística" fora dos cursos superiores de arte, sendo necessária a
criação de um "desejo pela experiência artística", como em Desgranges (2010, p. 29).

Desse modo, apesar dos grandes esforços para se mediar a arte teatral, essa prática ainda se mostra
pouco difundida fora da academia, o que tem estreita relação com a formação de espectadores para
teatro, como fala Desgranges (2008, p. 29)

O despertar do interesse do espectador não pode acontecer sem a implementação


de medidas e procedimentos que tornem viáveis seu acesso ao teatro. Na
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verdade, duplo acesso: físico e linguístico. [...] No entanto, não é suficiente ter
oferta de peças em cartaz, é preciso mediar esse encontro entre palco e plateia.

A importância da formação de espectadores fora da academia vai além da arte teatral, passando
pelas mais diversas esferas da sociedade.

[...] formar espectadores consiste também em estimular os indivíduos (de todas


as idades) a ocupar o seu lugar não somente no teatro, mas no mundo. Educar o
espectador para que não se contente em ser apenas o receptáculo de um discurso
que lhe propõe um silêncio passivo. A formação do olhar e a aquisição de
instrumentos linguísticos capacitam o espectador para o diálogo que se
estabelece nas salas de espetáculo, além de lhe fornecer instrumentos para
enfrentar o duelo que se trava no dia-a-dia. (DESGRANGES, 2010, p. 37)

Desse modo, a mediação teatral tem uma importante função social, outra razão pela qual a
realidade do resultado do estudo deve ser revertida.

Assim, "pensar hoje o tema da ação cultural no campo das artes cênicas implica necessariamente
refletir sobre os desafios decorrentes da relação entre essas artes e a sociedade." (PUPO, 2011,
p.114). Portanto, é de suma importância estimular o desenvolvimento da mediação teatral pensando
não só na função artística, mas também na significativa função social que tem a questão.

Desse modo, para Pupo (2011, p.114), "Embora a noção de mediação cultural ou artística
certamente apresente superposições com a preocupação educacional, o termo emerge dentro de
uma outra filiação. Ele designa o modus operandi do ideário da chamada democratização cultural.".
Isto posto, um outro aspecto a se discutir acerca dos números da pesquisa é o da democratização da
cultura. Retoma-se portanto, aqui, o "grande círculo de iniciados" de Brecht. Cabe dizer que este
círculo ainda não é uma realidade para este estudo, uma vez que a democratização do acesso à arte,
segundo ele, deve incluir a difusão de conhecimentos para a inclusão do maior número de pessoas
possível dentro deste "círculo".

A hipótese de que estudantes de arte avaliam a influência da mediação na própria experiência


estética de forma mais frequentemente negativa, em relação a estudantes de outros cursos foi
refutada. Ao contrário, observou-se que os alunos universitários de cursos de arte afirmaram, de
forma mais frequente, que a prática da mediação influencia positivamente sua experiência estética,
se comparados aos estudantes de outros cursos.

Uma possível razão pra esse resultado é a necessidade existente de "dilatação dos sentidos", termo
que usa VON-SOHSTEN (2016, p.74) Para ela,

A mediação compreende basicamente dois movimentos: a dilatação dos sentidos


para a experiência estética – o que acontece antes do contato com a obra; e a
dilatação da experiência estética – que acontece após [...]. Relembrando que a
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dilatação é no sentido estrito da possibilidade, não da garantia, posto a


impossibilidade de assegurar a experiência.

Essa "dilatação dos sentidos" tem direta relação com o resultado da mediação que os estudantes de
cursos diversos tiveram ou esperam ter. Pensar que a mediação não tem influência positiva na
experiência estética pode ser resultado de uma "dilatação de sentidos" comprometida, bem como do
pouco contato com mediação teatral que os estudantes em questão mostraram ter tido.

Outra possível razão para os números obtidos é a associação da mediação à informação, advinda do
senso comum. Segundo Desgranges (2010, p. 32) "A conquista da linguagem teatral propicia ao
espectador uma atitude não submissa diante do fato narrado e das opções cênicas propostas.". Os
estudantes de artes, desse modo, mostraram ter uma ideia de mediação que foge do senso comum
devido a sua formação em arte. Assim, a partir da noção de que mediação não se limita a
transmissão de informação, têm uma relação de maior protagonismo em relação às obras de arte
com as quais têm contato, se comparados aos estudantes de outros cursos, o que resulta em um
melhor aproveitamento e avaliação da prática da mediação.

A relevância da mediação em artes cênicas pode, inclusive, ser uma temática desconhecida dentro
de ambientes distantes da arte. Em outras palavras, a amplitude da prática da mediação, bem como
seus resultados, pode fazer parte de um estudo que ainda não saiu do ambiente artístico acadêmico.

A especialização do espectador se efetiva na aquisição de conhecimentos de


teatro, o prazer que ele experimenta em uma encenação intensifica-se com a
apreensão da linguagem teatral. O prazer estético, portanto, solicita aprendizado.
A arte do espectador é um saber que se conquista com trabalho.
(DESGRANGES, 2010, p. 32)

Se o aprendizado é fundamental para o "prazer estético" que cita Desgranges, uma avaliação da
mediação como elemento de influência positiva na própria experiência estética torna-se uma
possibilidade mais remota a medida em que se distancia essa discussão do universo acadêmico das
artes.

Dessa forma, debruça-se novamente na questão da aquisição de conhecimentos necessários para


apreciação artística, ponto que permeia todo o estudo. O desfecho, novamente recai sobre a
importância da multiplicação da prática da mediação teatral como forma de contribuição para a
experiência estética, o que se incentiva seriamente neste estudo.

Um dos fatores que aponta uma possível limitação do estudo é a heterogeneidade da amostra
estudada. A grande diferença de números em renda, gênero, raça/cor e curso podem enviesar os
resultados e comprometer a confiabilidade da pesquisa. Além de heterogênea, a amostra foi
pequena, configurando outra limitação.

Conclusões
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Nota-se que o presente estudo produz resultados pontuais, simbólicos e sintomáticos, porém de
confiabilidade ligeiramente reduzida. Entretanto, um estudo com este formato, que envolva coleta
de dados qualitativos e análise estatística é algo pouco explorado dentro das artes e principalmente
dentro do tema.

É provável que uma variação dos formatos dos artigos realizados dentro da temática de mediação e
experiência estética tenha grandes contribuições para a área. Desse modo, incentiva-se sempre, e se
reconhece a necessidade de maiores estudos sobre o tema e, de preferência, com formatos variados.

Referências

DESGRANGES, Flávio. A pedagogia do espectador. 2ª edição. São Paulo: Hucitec,


2010.

DESGRANGES, Flávio. Mediação teatral: anotações sobre o projeto formação de público.


Urdimento-Revista de Estudos em Artes Cênicas. N. 10, 2008.

PEREIRA, Marcos Villela. Contribuições para entender a experiência estética. Revista


Lusófona de Educação. N. 18, 2011.

PUPO, Maria Lúcia de Souza Barros. Mediação artística, uma tessitura em processo. Urdimento-
Revista de Estudos em Artes Cênicas. N. 17, 2011.

THE FUTURE PLACE BLOG. The Likert Scale - Things All Researchers Should Know 14.
Disponível em: <http://thefutureplace.typepad.com/the_future_place/2010/09/the-likert-scale-tarsk-
14-things-all-researchers-should-know.html.> Acesso em: 6 maio 2017

VON-SOHSTEN, Arlene Oliveira. A mediação como (dilatação da) experiência estética: uma
análise do projeto mediato. Dissertação de mestrado - Departamento de Artes da Universidade de
Brasília, 2016.

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