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Julho a Setembro 09

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boletim

Música na Escola
Nova orientação curricular
e aprendizagem em São Paulo

Avaliação em Arte será o tema do


XXIII Encontro da Rede Arte na Escola, em Recife
editorial Fala Prof essor
Este número - que inaugura Que filme você assistiu e que teve Ensino de
nossa migração para o forma- impacto em sua prática em sala de aula?
to digital - volta sua atenção para
as questões que preocupam hoje > “Quando assisti Nenhum a menos, em 2005, na
música é lei
mais do que nunca os educadores faculdade, pude compreender o verdadeiro papel de ser educa-
do Brasil: a avaliação. No momento dora. O filme propõe a reflexão sobre o motivo que leva um A partir de 2011, todas as escolas brasileiras serão obrigadas a ensinar Música
em que a Educação como um todo educador a se envolver com seus alunos e a compreender o seu para os alunos da Educação Básica, como prevê a lei 11.769.
se pauta na avaliação em sua busca papel na instituição de ensino. Mudei completamente a minha
de melhoria, o foco são os instru- maneira de dar aula, de avaliar. Priorizei o saber que os alunos >> Mas será que apenas uma lei irá garantir a aprendiza- soluções, mas, não nos enganemos, o professor de
mentos de que dispomos para ava- tinham para daí, então, construir com eles aquele saber que só gem musical dos alunos? Será que as escolas estão em Música deve também ter conhecimento pedagógico".
liar o ensino, o professor e o aluno. aprendemos na escola, valorizando cada progresso. Com essa condições de cumprir a lei? Será que os professores
Não há dúvida de que se esta é renovação aprendi muito como educadora e como cidadã. E gra- estão preparados? Para debater esta nova realidade da Carga horária
uma questão complexa no conjunto ças a esse filme pude perceber a EDUCADORA que estava ador- Educação, o Instituto Arte na Escola conversou com A carga horária para aulas de Música é motivo de preo-
de disciplinas ela se revela especial- mecida. Acordei! Ainda bem!” dois especialistas: os professores Sérgio Figueiredo, cupação, embora os professores reconheçam que não
mente delicada em Artes. O que, Guadalupe da Silva / São Leopoldo - RS presidente da Associação Brasileira de Educação Musical existe um tempo ideal para ensinar a disciplina. "Você
quando, como, quanto avaliar? O (ABEM), e Pedro Paulo Salles, do Departamento de pode realizar experiências rápidas, de repetição e eco
aprendizado de artes se avalia? O > "O filme que mais chamou atenção dos meus alunos e teve Música da Escola de Comunicações e Artes da rítmico e melódico, por exemplo, que poderiam durar 5
Boletim Arte na Escola vem realizan- impacto não só nas aulas, mas também na vida pessoal dos
Universidade de São Paulo (ECA/USP). minutos. Ao mesmo tempo você poderia engajar os
do uma pesquisa sistemática a este alunos foi Modigliani, paixão pela vida. É um ótimo
Ambos concordam: a lei ficará no papel se não aconte- alunos num projeto de criação sonora que levaria 12
respeito e gostaria de ouvir a voz de filme que aborda inúmeras questões de conduta, moral, vícios,
cer um esforço de todos os envolvidos. “Como toda lei, horas para ser concluído", sustenta o presidente da
seus leitores, o que já será possível arte, preconceito e amores. Trabalhei com este filme em algu-
ela só funcionará se tivermos ações muito com relação ABEM. Ele sugere que cada sistema educacional tenha
mas séries do ensino fundamental e médio e rendeu inúmeros
a partir do próximo número, num à sua implantação. A administração escolar, secretarias liberdade para organizar a sua carga horária. "Creio que
elogios!".
formato muito mais interativo. Neste e conselhos de educação, universidades, professores, a aula de Música deve ser discutida no coletivo da
Ieda Ghellere Cavalheiro / SForquilhinha - SC
número entrevista com uma especia- estudantes, comunidade, todos tem um papel nesta escola, buscando a melhor forma para a realização
lista argentina ajuda a aprofundar o mudança", afirma Sérgio Figueiredo. Pedro Salles diz deste trabalho nos diversos contextos”, diz.
tema e a ilustração da pauta curricu-
> "O filme que teve impacto em minha prática de sala de aula
que "como toda e qualquer lei, seu sucesso depende Embora ressalte que "idealizar é delicado”, Pedro Salles
foi o documentário Encontro: um processo e alfabeti-
lar de artes em São Paulo dá objeti- de como ela vai ser aplicada num sentido real". arrisca a dizer que "o ideal seria que os professores
zação estético-visual, da DVDTeca Arte na
vidade ao debate. Para eles, a questão central é a formação dos professo- trabalhassem com Música ao menos duas vezes por
Escola. Ele me despertou para a importância de se trabalhar
Desfrute! em sala de aula a educação do olhar dos alunos por meio da res. Com a nova lei, a tendência é que a demanda cres- semana". Ele destaca, no entanto, a importância de se
observação da natureza. Diversas vezes trabalhei o tema com os ça consideravelmente e o professor será obrigado a se estabelecer “pontes de ligação” entre a Música e as
alunos. Um deles foi apresentado num simpósio sobre meio especializar cada vez mais. "Não se pretende mais um outras áreas do conhecimento. "É nesses momentos
Evelyn Berg Ioschpe ambiente. No momento, estou com um projeto de educação do professor que ensine um ‘pouquinho’ de cada arte. Se que a formação musical do professor se faz indispensá-
Presidente do Instituto Arte na Escola queremos uma educação com qualidade temos que vel", afirma. O professor de Música da USP acha difícil
2 evelyn@artenaescola.org.br
olhar com duas turmas de segunda série. É maravilhoso perce-
ber o crescimento gráfico das produções dos alunos e a quebra
de estereótipos. ".
contar com profissionais muito preparados para ensina-
rem música na escola”, destaca o presidente da ABEM.
dividir uma aula semanal de 50 minutos entre todas as
linguagens da Arte e sugere um aumento na carga 3
expediente
O Boletim Arte na Projeto Gráfico
Julmara Goulart Sefstrom / Forquilhinha - SCJ

> "Foram tantos filmes assistidos e muitos contribuíram e con-


tribuem para a prática em sala de aula. O filme Sociedade
Futuro
Pedro Salles ressalta que "o número de professores
habilitados e o número de escolas de formação de pro-
horária. "A valorização das artes como formas de
conhecimento humano deveria também, no futuro,
refletir em aumento dessa carga horária, se não a lei
vira uma balela que nem inglês vê", diz
Escola é uma publicação Zozi dos Poetas Mortos é um clássico que inspira muitos fessores de Música são insuficientes” e acredita que a Como a Música tem um componente cultural amplo e
da rede Arte na Escola, educadores.". nova lei poderá reverter esta situação. “Essa demanda, diversas manifestações, os dois professores de Música
produzido Artigos, comentários e
Raquel Alvarenga / Campo Grande - MS forçosamente, culminará com um aumento de cursos e acreditam que cada professor tem condições de esco-
com o patrocínio da opiniões para este
Fundação Iochpe. informativo devem ser de professores especialistas, no futuro”, afirma. Como lher os melhores conteúdos e as maneiras mais eficazes
Conselho Editorial enviadas para: > "Há muitos filmes que me tocam, mas na vida profissional professor dos cursos de Música da ECA/USP, ele defen- para garantir o aprendizado dos alunos. "Os professo-
Evelyn Berg Ioschpe, Instituto Arte na Escola; cito O sorriso de Monalisa. É um filme agradável, insti- de que os cursos de licenciatura também precisam ficar res devem ensinar Música nas escolas proporcionando
Sebastião Gomes Alameda Tietê, 618 –
Pedrosa, Sandra Suely casa 3 CEP 01417-020, gante, que tange nos conceitos de uma época turbulenta, princi- atentos às novas tendências do ensino de Música. experiências e uma prática reflexiva, coisa que geral-
dos Santos Francisco e São Paulo, SP Fone (11) palmente para as mulheres e que fala de arte, do professor, do "Caso contrário, cairemos numa falácia educacional e mente não acontece", admite Pedro Salles. Sérgio
Ana Lúcia S. de O. 3103.8080 esforço, dos conceitos e preconceitos sobre a função do ensino pedagógica que conhecemos bem", alerta. Figueiredo diz que um professor tem que garantir a
Nunes contato@artenaescola.org.br
Editora
da Arte.educadores.". Além da importância do conhecimento e da experiência diversidade na aula de Música. “Se existem diversos
Mônica Kondziolková Priscila Anversa / São José , SC musical, os professores consultados ressaltam a neces- tipos de música, existem também diversos modos de
Jornalista responsável
sidade de o professor não esquecer a prática pedagógi- aprender e ensinar Música", afirma.
Fábio Galvão MTB
20.168/SP ca. "É preciso preparar um profissional capaz de lidar Pedro Salles considera ainda que este é o momento
Redação ILUSTRADOR CONVIDADO com os problemas da escola em geral, além de ser um para o professor de Música mostrar a sua força. "O
Fábio Galvão,
Cecília Galvão e Raquel
Marília Diaz profissional competente em uma linguagem artística", professor de Música tem agora um espaço a conquistar.
Zardetto diz Sérgio Figueiredo. Pedro Salles frisa que neste pri- Aula de Música faz barulho, e ele deve afirmar isso aos
(CGC Educação) meiro momento haverá um processo de adaptação, “no quatro ventos. Música é Arte, e ele deve dizer isso aos
qual diversas realidades deverão lidar com diferentes brados num megafone”, recomenda. <<
São Paulo adota >> produção cultural, com a valorização e o respeito
pela diversidade cultural e com a livre expressão,
aceitando o conflito, a desconstrução e reconstrução
gens das aulas, é o instrumento fundamental para
identificar os resultados do processo pedagógico",
diz o texto referente ao Fundamental I.

orientação curricular de identidades, a insegurança e a identificação com o


outro como algo positivo, algo que faz parte do pro-
cesso ensino-aprendizagem."
Já para o Fundamental II, as orientações curriculares
dividem a avaliação em três momentos. 1) Avaliação
diagnóstica: acontece antes da atividade, quando é
analisado o nível de conhecimento artístico e estético
e expectativa de Formação do professor
Embora reconheça o esforço da Secretaria em realizar
dos estudantes; 2) Avaliação formativa: é realizada
durante uma atividade e verifica como o estudante
a orientação, a coordenadora geral do Pólo Arte na interage com os conteúdos e transforma seus conhe-
aprendizagem Escola da Universidade Cruzeiro do Sul (Unicsul), São
Paulo, Solange Utuari, afirma que o material "não
cimentos; e 3) Avaliação somativa: ocorre depois de
um conjunto de propostas ou de um projeto didático,
avançou muito" em relação aos Parâmetros quando o professor avalia se o aluno correspondeu a
Curriculares Nacionais, criados em 1998. Ela cobra expectativa de aprendizagem proposta.
O que avaliar em Arte? Como avaliar em Arte? mais repertórios didáticos, culturais e conceituais na A diretora de Orientação Técnica da Secretaria de
formação do professor. Educação, Regina Lico, explica como o professor deve
O que é importante saber em Arte? Para ela, há pouco espaço dado para a Arte agir para realizar uma avaliação criteriosa. "O que se
Contemporânea e a bibliografia indicada é pequena. espera é que o professor avalie o quanto os alunos
"Embora seja dito que os professores devem traba- se aproximaram das expectativas de aprendizagem
>> A rede pública municipal de São Paulo adota desde Como a quantidade de conhecimentos que se pode
lhar com assuntos e matérias presentes na Arte descritas em cada uma das dimensões", diz ela.
2008 as "Orientações Curriculares e Proposição de trabalhar com os estudantes é imensa, as orientações
Contemporânea, não há indicações de livros", diz. Ela Apesar de as orientações recomendarem que o profes-
Expectativas de Aprendizagem", uma série de docu- curriculares sugerem vários critérios para a seleção e
sugere o conteúdo do site do Instituto Arte na sor de Arte e a instituição escolar precisam ser avalia-
mentos que abordam os principais conteúdos concei- organização das expectativas de aprendizagem. Entre
Escola: "Em dois links do Midiateca, DVDTeca e arte dos sobre o trabalho que realizam, Regina Lico diz
tuais e oferecem aos professores os procedimentos os critérios, estão a formação intelectual dos alunos e
br, encontramos materiais muito ricos e ainda pouco que ainda não há um programa exclusivo para avaliar
para a progressão do aprendizado dos alunos. seu potencial para construir habilidades comuns,
divulgados entre os educadores", afirma. o aprendizado de Arte, mas promete ampliar o deba-
A diretora de Orientação Técnica da Secretaria de estabelecendo conexões interdisciplinares e contex-
te. "O nível de profundidade na avaliação está relacio-
Educação, Regina Lico, explica que o projeto foi pro- tualizações. "Uma expectativa de aprendizagem só faz
duzido tendo como foco o que o aluno deve saber, sentido se ela tiver condições, de fato, de ser cons-
Bússola nado às exigências de aprendizagem de cada ano do
A professora de Artes Cinthya Bayma, que trabalha no ciclo. Trabalhamos, todavia, no sentido de aprofundar
em artes, ao final de cada ano do ciclo em cada uma truída, compreendida, colocada em uso e despertar a
CEU Vila Curuça, no Itaim Paulista, na zona leste da nossas discussões sobre esta questão", diz.
das manifestações culturais indicadas pelo projeto atenção do aluno", sustenta o texto.
capital paulista, elogia as orientações curriculares e Para Solange Utuari, do Arte na Escola, a avaliação
pedagógico das escolas. “No projeto curricular, a O documento apresenta três aspectos que potenciali-
diz que estão ajudando muito na sua prática em sala proposta no documento "está centrada no aluno e
escola leva em conta sua realidade, os resultados de zam a organização das expectativas de aprendizagem:
de aula. "Elas são como uma bússola. Conseguimos não no processo, que envolve também o professor",
aproveitamento dos alunos e ajusta o que o aluno a abordagem nas dimensões interdisciplinar e discipli-
avançar muito nestes dois anos", afirma. analisa. No entanto, ela destaca os instrumentos de
sabe ao que precisa aprender”, afirma nar, a leitura e a escrita como responsabilidade de
No entanto, ela reconhece que a aplicação destas avaliação contidos nas orientações curriculares.
A primeira parte dos textos dos ciclos 1 e 2 do todas as áreas de conhecimento e a perspectiva de
orientações depende muito das habilidades e compe- "Fazer um diário de bordo, refletir sobre a comunica-
Fundamental trata da articulação do programa com os uso das tecnologias disponíveis.

4 projetos pedagógicos em andamento, com as outras


áreas do conhecimento e explica os critérios para Habilidades
tências dos professores com o universo da Arte. Na
visão de Cinthya Bayma, o professor de Arte que tem
uma formação mais teórica, com ênfase na História
bilidade das propostas, acesso a materiais e se os
alunos estão fazendo um trabalho para eles ou para
o professor ou se há construção de conceitos ou exe-
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seleção e organização das expectativas de aprendiza- O processo de ensino-aprendizagem em Artes, desta-
das Artes, por exemplo, fica um "pouco tolhido na cução de tarefas, são aspectos que estão claros nes-
gem das unidades escolares. ca o texto, "refere-se ao desenvolvimento de habili-
hora de aplicar estas orientações". tes textos", diz.
dades relativas à percepção, à experimentação, à cria-
A professora acredita que o documento auxilia o A professora Cinthya Bayma afirma que adota vários
Aprendizagem significativa ção/produção, à comunicação/representação, à análi-
docente a refletir sobre sua prática pedagógica. "Nós instrumentos de avaliação sugeridos pela Secretaria,
No tópico Aprendizagem, Ensino e Avaliação, a se/interpretação, à pesquisa/reflexão, ao registro e à
temos a oportunidade de desenvolver várias ativida- como diário de bordo, por exemplo. "Eu avalio tam-
Secretaria Municipal de Educação de São Paulo defen- crítica/autocrítica". Estas habilidades são apresenta-
des, contextualizar, mediar e apreciar", elogia. bém a criatividade, a participação e envolvimento do
de a “aprendizagem significativa”. De acordo com o das em um detalhado quadro, organizado de forma a
Cinthya Bayma conta ainda que o fato de estar com aluno", afirma ela, que procura despertar nos alunos
texto, "a educação básica deve visar fundamental- tornar as expectativas de aprendizagem mais comple-
os mesmos alunos há três anos ajuda muito na hora a importância de contemplar o mundo, tendo a Arte
mente à preparação para o exercício da cidadania, xas a cada ano. Para o 1° ano do ciclo 1, por exem-
de ensinar. "A gente pode observar a evolução. É como meio.
cabendo à escola formar o aprendiz em conhecimen- plo, são 46 expectativas de aprendizagem sugeridas.
uma mão dupla", afirma. As "Orientações Curriculares e Proposição de
tos, habilidades, valores, atitudes, formas de pensar Já para o 4° ano do ciclo 2, este número salta para
Expectativas de Aprendizagem"
e atuar na sociedade por meio de uma aprendizagem 64, divididas nas linguagens visual, teatral, musical e
que seja significativa". todas as linguagens.
Avaliação estão na internet no endereço http://portalsme.prefei-
As orientações curriculares e a proposição de expec- tura.sp.gov.br/Projetos/BibliPed/Anonimo/ColecaoOrient
O documento rebate a idéia de um conhecimento O documento sustenta que "no início do século 21, o
tativas de aprendizagem sugeridas pela Secretaria tra- açõesCurriculares.aspx. A Secretaria Municipal de
linear e seriado e define o ensino como “um conjunto ensino de Artes vem se caracterizando como um ensi-
zem ainda dicas de como o professor deve proceder Educação de São Paulo também produziu um vídeo
de atividades sistemáticas, cuidadosamente planeja- no multi e interculturalista" e alerta que a cultura é
para adotar uma avaliação justa. "O educador deverá com as experiências dos professores de Artes e a
das, em torno das quais conteúdos e métodos articu- vista hoje como "um campo de conflitos e de nego-
adquirir o hábito de manter registros constantes das relação destas práticas com as novas orientações cur-
lam-se e onde professor e estudantes compartilham ciação". Neste sentido, a Secretaria Municipal de
suas observações durante as aulas. Esse 'diário de riculares. O vídeo pode ser visto no endereço
partes cada vez maiores de significados com relação Educação afirma que o ensino de Artes deve ter o
<< campo' do professor, que se tornará mais rico com o http://portalsme.prefeitura.sp.gov.br/Anonimo/videos/vi
aos conteúdos do currículo escolar”. "compromisso com a democratização de acesso à
arquivamento das produções dos estudantes ou ima- deo8.aspx. <<
A Rede debate
a Avaliação em Arte
A Avaliação em Arte será o tema central do XXIII
Encontro da Rede Arte na Escola, a ser realizado em
outubro, na cidade do Recife.

>> Para debater a questão e trazer novos olhares sobre Ema Brant ressalta, no entanto, que as chamadas
o assunto que vem pautando as edições do Boletim questões subjetivas não podem ser avaliadas. "Os
Arte na Escola, o Instituto Arte na Escola entrevistou a aspectos subjetivos não são passíveis de avaliar com
professora argentina Ema Brandt, Bacharel em Artes justiça, pois dependem do observador e podem
pela Universidade Nacional de San Martín e especialis- mudar conforme a pessoa que faz a avaliação", diz.
ta no ensino da Arte. Ela explica que é preciso diferenciar entre os propósi-
Professora de "didática das línguas estético-expressi- tos e os objetivos da aprendizagem. "Os propósitos
vas" na Universidade Nacional de Lujan, Ema Brant aludem ao que se espera que os alunos adquiram em
destaca que um dos principais aspectos enfocados na um tempo determinado. Os objetivos estão relaciona-

6 área do ensino da Arte em Buenos Aires é que "o


ensino deve promover as potencialidades de cada
aluno, entendendo que todos podem desenvolvê-las a
dos aos conteúdos, ao que se ensina e ao que se
espera que os alunos aprendam”, explica.
A professora da Universidade Nacional de Lujan anali-
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partir de sua participação em situações de aprendiza- sa as situações em que a proposta institucional/currí- >> tipos de estratégias para alcançar os objetivos pro- do portfólio como instrumento de avaliação no ensino
gem". culo não está explicitada pela escola ou pelo sistema postos". de Artes Visuais e as dificuldades dos professores em
Ela destaca que para poder avaliar é preciso saber o de ensino. Para ela, nestes casos, avaliar o ensino e a Ema Brant diz também que as diferentes propostas de lidar com até 15 turmas com mais de 30 alunos em
que se ensina e que tudo o que se ensina pode ser aprendizagem em Arte depende do programa que o ensino requerem que o docente determine "quando e cada sala, Ema Brant destaca que a qualidade do
avaliado. "Não existe só um tipo de avaliação. docente se proponha a desenvolver. “Esta opção o quê será avaliado, que critérios serão considerados ensino fica comprometida. "Não acredito que se
Podemos designar a avaliação que o professor faz deixa o docente que ensina Arte muito solitário e tem e quais os instrumentos ele utilizará”. Ela ainda reco- possa trabalhar de forma adequada em Arte com 30
com seus alunos; a que é encomendada por uma ins- a enorme limitação que depende de sua idoneidade, menda que estas questões sejam compartilhadas com crianças. Sobre o portfólio ou qualquer outro instru-
tituição para conhecer os avanços em determinada ao selecionar o quê e para quê ensina e como ava- os alunos mento de avaliação, é muito difícil de ser utilizado
disciplina e também, a que uma determinada rede de lia”, diz. Na avaliação de artes visuais, diz a professora argenti- com tantos alunos por classe e por um docente que
ensino faz para saber como progridem seus alunos. Ema Brant afirma que "são necessários diferentes na, "a idéia é reconhecer nos alunos o grau de tem tantos grupos sob sua responsabilidade", critica.
Todas elas buscam diferentes objetivos pontuais, tipos de avaliação e que todos são importantes". Ela conhecimento, nível de compreensão, apropriação e Ela sugere como estratégia subdividir os grupos e
embora todas pretendam saber o que seus alunos recomenda que o professor faça "uma avaliação de andamento dos conteúdos ensinados". Ela alerta que "trabalhar questões que implicam um olhar mais per-
aprenderam", destaca. diagnóstico no início do ano letivo, outra de proces- "não se deve compartimentar e rotular os alunos com sonalizado sobre os alunos, enquanto os demais
A professora argentina sustenta que as diferenças fun- so, na metade do ano, e outra para obter uma média definições como 'este é muito estereotipado' ou 'este fariam uma atividade mais conhecida, que não
damentais entre um processo de avaliação em Arte e do ciclo letivo". aluno tem dificuldade de fazer isto ou aquilo' " demandasse a atenção pontual do professor".
em outras áreas de conhecimento dependem da razão Na opinião dela, para poder avaliar, o professor preci- Outro ponto destacado por ela é que a avaliação per- Na opinião da professora argentina, é indispensável
pela qual se avalia. "Em Artes, como em outras disci- sa ter clareza sobre o que ensina e, de que tudo o mite ao professor obter informações para reformular avaliar e quais são as as questões que servirão para
plinas, dependerá do propósito da avaliação e do que ele ensina poderá ser avaliado. Este é portanto o suas estratégias didáticas. "A informação obtida servi- que o docente ensine melhor e os alunos aprendam e
enfoque que se quer dar ao ensino das linguagens aspecto sustentável da avaliação. Ela frisa que "toda rá de subsídio, um balanço da situação em determina- desfrutem das atividades artísticas. "Definitivamente,
artísticas, o que deve estar implícito, tanto na manei- avaliação compromete docentes e alunos, porque rela- do momento, com possibilidade de ser modificado a a tarefa do arte-educador é sensibilizar os alunos no
ra como se ensina como na seleção dos aprendiza- ciona os ganhos e dificuldades de ambos e atribui partir de trabalhos posteriores", diz. manejo das diferentes linguagens, promovendo a cria-
dos". aos docentes a responsabilidade de buscar diferentes >> Questionada sobre a disseminação, no Brasil, do uso tividade e o desenvolvimento da imaginação", ensina. <<
Portfólio como Procedimento
de Avaliação em Arte
A utilização do portfólio é importante,
tanto para o aluno como para o professor.

Com o auxílio do professor o aluno deve criar o Na medida em que o portfólio for conhecido e
portfólio para compilar suas produções artísticas, vivenciado de forma adequada e consciente, o
anotações, textos, relatórios, documentação foto- professor de Arte pode avançar em direção a
gráfica, entre outros, particularizando a reflexão avaliação emancipatória, se apropriando de pro-
do processo. Não precisa se caracterizar como cessos avaliativos contemporâneos e rompendo
pasta, pois, a sua estrutura física pode ser em com o sistema existente.
formato de álbum, caixa, CD-ROM, pode, inclusi- Marilene L.K Schramm é mestre em Educação
ve, ser associado à produção de livro de artista. pela Fundação Universidade Regional de
Na organização do portfólio, professor e aluno, Blumenau (FURB), professora titular da FURB e
em parceria, estabelecem critérios para a seleção tem experiência na área de Artes, com ênfase em
do material que dele fará parte. Da mesma Arte Educação.
forma, o professor também pode e deve fazer o Rozenei M. W. Cabral é especialista em Criação
seu próprio portfólio, compilando registros de Publicitária pela Fundação Universidade Regional
alunos, de forma individual ou coletiva, auxilian- de Blumenau (FURB), mestre em Educação e
do na auto-avaliação do professor. Cultura pela Universidade do Estado de Santa
Essa situação é válida tanto para professores de Catarina e professora titular da FURB. Tem expe-
Educação Básica como para os que atuam na riência na área de Artes com ênfase em Artes
graduação e pós-graduação. Considera-se o uso Plásticas.
desse procedimento válido para a avaliação em
todos os níveis de ensino para acompanhar o Referências
processo evolutivo da produção artística, refletin- GARDNER, Howard. Estruturas da mente:a teoria
do a trajetória da aprendizagem dos acadêmicos. das inteligências múltiplas. Porto Alegre : Artes
O portfólio rompe com a avaliação classificatória Medicas, 1994.
realizada na educação, deixando de lado os tra- HERNÁNDEZ, Fernando. Transgressão e mudança

8 dicionais testes e provas. Pode contar ainda com


a participação dos pais e colegas, contribuindo
na educação: os projetos de trabalho. Porto
Alegre: ArtMed, 1998.
nas reflexões e seleção de conteúdos. SAUL, Ana Maria. Avaliação emancipatória: desa-
Sabe-se que o portfólio vem sendo utilizado por fio à teoria e a prática da avaliação e reformula-
artistas, arquitetos, fotógrafos, estilistas, desig- ção de currículo. São Paulo: Cortez, 2000. <<
ners, como documento da sua trajetória profissio-
nal, bem como para apresentação em situações
de emprego. Espera-se que cada vez mais os
professores de Arte se utilizem desse procedi-
mento, ousando na busca de processos avaliati-
vos que respeitem o ritmo e a singularidade de
cada um.

Os endereços e dados para contato com os Pólos e parceiros da


Rede Arte na Escola estão no site www.artenaescola.org.br Patrocínio