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Resenha do livro "A identidade do sujeito constitucional" - Michel

Rosenfeld

1-A natureza evasiva do sujeito constitucional

A definição do conceito de identidade constitucional, de acordo com Michel


Rosenfeld, é muito complexa,pois trata de questões que, além de abrangerem o tempo,
como certas leis nas quais mudam de acordo com a evolução da sociedade ou até mesmo
com as mudanças de paradigmas,incluem a religião e costumes de um povo.Outro aspecto
problemático das constituições é o fato de ser ela incompleta devido não só à falta de
abrangência de matérias cabíveis ao seu texto como a ausência de uma abordagem mais
ampla dos assuntos que ela contempla,o que possibilita a abertura para as mais diversas
interpretações.
Outro problema em relação à identidade constitucional é o confronto dessa com as
identidades relevantes que correspondem à religião,às etnias e à cultura.Segundo Michel
Rosenfeld, uma das soluções para as dificuldades das questões de natureza constitucional
seria encontrada pela contraposição da identidade constitucional pelas identidades
relevantes. Essa solução apresentada, porém, não seria eficiente pois,a constituição, não
contendo aspectos das identidades relevantes que, sem dúvida, fazem parte da essência de
um povo e estão presentes na vida cotidiana desses grupos sociais,se tornaria abstrata, e,
consequentemente, inútil, já que não considera os aspectos fundamentais que caracterizam
uma nação.Felizmente,a maioria das constituições trazem em seu texto algumas das
principais identidades relevantes,fazendo com que a constituição se torne um instrumento
útil e de extrema importância política, social e econômica nas relações cotidianas da
sociedade.
A identidade constitucional para Michel Rosenfeld, portanto, "é complexa,
fragmentada, parcial e incompleta." Isso ocorre porque a sociedade está em constante
transformação e para que a constituição não perca seu valor axiológico é necessário que as
normas tenham uma abrangência subjetiva, ou seja, contenha em seu texto aspectos que
considerem as identidades relevantes e algumas características do passado, muitas vezes
contidas em constituições revogadas, que foram incorporadas no presente. Além disso, a
evolução da sociedade traz consigo várias mudanças seja na política ou na concepção das
relações humanas da sociedade. Um exemplo desse tipo de transformação são as mudanças
de paradigmas que ocorreram após a revolução francesa no final século XVIII, com o
surgimento do socialismo no inìcio do século XIX e na segunda metade do século XX com
o pós-positivismo. De acordo com Rosenfeld, logo, "a identidade constitucional é o produto
de um processo dinâmico sempre aberto à maior elaboração e à revisão."
Um exemplo, apresentado por Rosenfeld da fragmentalidade que a identidade
constitucional pode apresentar,é a expressão "Nós, o Povo" usada na constituição
americana de 1787. Na época em que o texto constitucional dos EUA foi elaborado, logo
após a independência do país da Inglaterra em 1776, princípios como a igualdade e a
liberdade foram proclamados como fundamentais na nação. A construção dessas normas,
porém, foi feita por homens brancos, de classe mais favorecida, ou seja, a expressão "Nós,o
Povo", que deveria agrupar todos os cidadãos adultos, de qualquer raça e que pertencessem
a nação americana, designava apenas os grupos de homens brancos e proprietários, o que
fragmentava o conceito de igualdade nesse período. Além disso, a liberdade tinha seu
conceito restrito pois, até a guerra civil americana, os negros não tinham esse direito.

2-A posição do sujeito constitucional e a necessidade de reconstrução

2.1-O sujeito constitucional e o conflito entre o "eu" (self) e o "outro"

Na segunda parte do livro, A identidade do sujeito constitucional, Michel


Rosenfeld identifica o sujeito constitucional de acordo com a analogia Hegeliana do
conflito entre o eu e o outro. O eu, segundo Hegel, é o sujeito que apresenta a necessidade
de saciar seu desejo através do outro, que é o meio pelo qual o eu alcançará seu objetivo.O
eu, apesar de ter um aspecto dominante perante o outro, é, também, incompleto porque ele
precisa do outro para concretizar suas aspirações. Além disso, o eu, necessita do
reconhecimento outro para assumir sua posição de sujeito, logo, tem-se uma relação de
subordinação mútua. Nesse sentido, Rosenfeld elabora uma analogia bastante pertinente ao
sujeito constitucional pois, ao mesmo tempo em que ele é o eu , ou seja, possui o poder de
elaborar leis que colocarão toda a população de um país submetida às mesmas, ele se torna
o objeto do próprio poder(o outro), já que ele está subordinado à limitações relacionadas ao
direito natural e a ordens históricas. Além disso, ao elaborar a constituição, o eu, no caso,
representado pelo Poder Constituinte, será dissolvido após concluir seu exercício, pois será
este substituído pelas suas próprias criações que são os Poderes Legislativo, Executivo e
Judiciário. Dessa forma, o Poder Constituinte se torna o objeto ou o outro em relação aos
poderes criados pelo mesmo, já que, o Poder Constituinte foi o meio pelo qual os poderes
Executivo, Legislativo e Judiciário obtivessem seu reconhecimento e sua legitimidade.

2.2- Construção e reconstrução da identidade constitucional

Segundo Michel Rosenfeld, não é possível determinar a personificação do sujeito


constitucional porque este engloba não só aqueles que fazem parte do meio jurídico como
os que elaboram a constituição ou a interpretam, na verdade, todas as pessoas pertencentes
a um território soberano no qual possui um sistema de normas fundamentais são submetidas
à mesma. O autor, no entanto, destaca a auto-identidade do sujeito constitucional como o
fundamento para a obtenção de uma ordem promovida pela constituição. Essa auto-
identidade pode ser entendida como uma forma de agrupar todas as características
necessárias para a elaboração de um texto normativo legítimo para um determinado grupo
social. Algumas dessas características citadas por Rosenfeld são "[...] compressão de todas
as épocas e uma simultânea apreensão de todas as variáveis interpretativas possíveis,
combinadas com a habilidade de destilar, condensando tudo isso em uma narrativa coerente
e confiável [...]".
A auto-identidade não pode ser definida materialmente porque ela exige um
exercício imaginário para a sua compreensão que corresponde à antinomia entre fato e
norma. Michel Rosenfeld, para um melhor entendimento do seu pensamento, usa o conflito
entre o real e o ideal. Trata-se da simples idéia de que uma norma na qual idealiza certos
comportamentos ou preceitos por parte da população, a partir da sua vigoração, não seria
funcional em um determinado lugar onde as circunstâncias históricas, e as características
culturais são mais relevantes para um povo do que um texto exigindo um modo de agir
diferente do que a população, tradicionalmente, costuma agir. Apesar de se ter uma idéia de
oposição entre real e ideal, fato e norma, muitas vezes, o ideal não se torna algo impossível
de ser concretizado. Essa idealização pode ser objetivada através da construção e
reconstrução da identidade constitucional que, de acordo com Rosenfeld, são ferramentas
usadas para num primeiro momento vislumbrar a identidade constitucional,e em seguida
concretiza-la usando com principal meio, a persuasão.
A construção, fundamentalmente, usa a imaginação comparando a realidade com o
ideal para alcançar seu objetivo primeiramente. Essa idealização, porém, deve ser
possível,útil e aceitável, pois de acordo com o exemplo apresentado Michel Rosenfeld,"um
contrafactual que somente justifique o status quo a todo custo ou um outro ideal que de tão
elevado fizesse com que todas as ordens constitucionais fundadas na realidade parecessem
ilegítimas representaria um uso impróprio da construção."Após implantada a idéia da
norma pela construção, a reconstrução afirmará a capacidade da norma de trazer
transformações positivas na sociedade, através de argumentos que condizem com a
realidade jurídica e que assegurem limites normativos inerentes ao constitucionalismo que
são a limitação do Estado,a adoção do Estado Democrático de Direito e a proteção dos
direitos fundamentais. Respeitados os requisitos fundamentais, a próxima tarefa a ser
exercida pela reconstrução será a avaliação da legitimidade das efetivas normas
constitucionais.

3-O instrumental reconstrutivo do discurso constitucional: a negação, a


metáfora e a metonímia

Nas proposições anteriores, discutiu-se o conflito entre o eu e o outro e as


antinomias fato e norma, real e ideal para a busca da construção e reconstrução da
identidade do sujeito constitucional. Na terceira parte do livro, Rosenfeld irá desenvolver a
idéia de reconstrução como elemento persuasivo para o discurso constitucional
fundamentada na negação, na metáfora e na metonímia pois, segundo ele, é através da
interação entre as mesmas que o discurso constitucional adquire um sentido determinado.

3.1- A negação

O conceito de negação envolve a idéia de repressão, repúdio, exclusão, enfim,


palavras que representam, na maioria dos casos, um caráter de oposição a um discurso ou a
um fato. Nesse sentido, Michel Rosenfeld usa a negação com um dos objetos para se obter
a reconstrução. O principal argumento usado por Rosenfeld para determinar a negação com
essencial para a reconstrução do discurso constitucional é a dialética de Hegel, que
corresponde a um debate no qual são apresentadas teses antagônicas entre si que, através de
um confronto entre as mesmas, obtém-se um consenso entre elas para se chegar a uma
posição que beneficie a sociedade. Dessa forma, no primeiro estágio da discussão da
identidade do sujeito constitucional é apontada a fase negativa do processo enfrentado para
a aderência de um texto normativo, ou seja, a incompletude, a carência decorrente da fase
pré-revolucionária. Estabelecido o primeiro estágio, é promovido um questionamento
quanto ao passado negativo que, através das falhas do mesmo, busca-se a correção desses
erros para a implantação de uma identidade positiva. Apesar do passado provocar os
sentimentos de negação necessários para a obtenção da mudança da identidade do sujeito
constitucional, ele não é completamente descartado devido aos valores, à história, ao
costume, construídos ao longo do tempo que caracterizam um povo. A nova identidade,
portanto, não deve ser fundada simplesmente nos ideais do constitucionalismo e sim com
base na realidade que uma nação está inserida, ou seja, deve trazer uma perspectiva de
melhora para o futuro através dos erros do passado ao mesmo tempo em que deve preservar
os aspectos essenciais que determinam o modo de ser e de viver de uma população.

3.2- A metáfora

Métafora, segundo a gramática, é uma figura de linguagem em que a significação


natural de uma palavra é substituída por outra na qual possui relação de semelhança, um
exemplo comum de metáfora é quando chama-se de "raposa" uma pessoa considerada
astuta. De acordo com esse conceito, Michel Rosenfeld usa a metáfora para explicar a
eficiência da mesma usada como ferramenta de ponto de apoio tanto para retórica jurídica
quanto para o discurso constitucional. Devido à capacidade de comparação, equivalência e
similaridade, a metáfora,segundo o autor,exerce um papel essencial na construção da
argumentação jurídica. O exposto de Rosenfeld, em relação à metáfora utilizada na retórica,
se aproxima do pensamento de doutrinadores do direito como Perelman e Viehweg no
sentido de que argumentação jurídica repousa destacadamente sobre o estabelecimento de
analogias e similaridades, ou seja, a partir de fatos precedentes que podem ser comparados
com o caso concreto a ser analisado. Dessa forma, o texto constitucional passa a ser mera
referência, cabendo ao discurso, no caso específico da metáfora, encontrar a solução através
de medidas estratégicas das relações de similaridade. Um exemplo mostrado por Rosenfeld
foi a pretensão da Suprema Corte dos EUA de ampliar a privacidade constitucional para
proteger as relações entre homossexuais adultos. Instantaneamente, A maioria do tribunal
enfatizou que a sodomia homossexual era tradicionalmente proibida e criminalizada. Os
ministros dissidentes, no momento da contra-argumentação, no entanto, não voltaram sua
atenção para o tratamento do sexo homossexual nas diferentes culturas através da história,
ao contrário, eles enfocaram as similaridades entre os heterossexuais e os homossexuais e
por meio do pensamento metafórico conseguiram caracterizá-las como essencialmente
similares. Dessa maneira, a decisão tomada foi que a intromissão do Estado na conduta
privada de qualquer um deles é igualmente opressiva.

3.3-A metonímia

O sentido de metonímia usado por Michel Rosenfeld corresponde,ao contrario da


metáfora na qual propõe a simililaridade, à diferenciação. Isso ocorre porque o
costitucionalismo promove uma generalização do desejo das pessoas em relação às normas
a serem seguidas. Apesar de se poder considerar esse constitucionalismo como o "ideal", já
que representa a satisfação da maioria da população em relação a um determinado desejo,
ao mesmo tempo ele não seria justo com a minoria que não aspira à realização desse desejo.
De acordo com Rosenfeld, assim como a metáfora, a metonímia exerce um importante
papel na retórica júridica e no discurso constitucional pois ela tenta suprir o vazio e
carência daqueles que tem necessidades diferentes da maioria. É nesse sentido que a
metonímia usa a diferenciação como ferramenta de sua retórica, já que utiliza a
contextualização para uma maior especificação da matéria de que se trata. Dessa forma,
torna-se possível, por exemplo, a superação da dificuldade da exigência da indiferença à
cor na consecução da justiça racial contra os brancos que buscam colocar em desvantagem
os afro-americanos em razão de sua raça. Além disso, Rosenfeld afirma que o processo
metonímico contribui para a definição da identidade do sujeito constitucional já que
delimita certas aquisições de direitos pela constituição. Um exemplo muito importante e
ilustrativo para o entendimento do processo metonímico apresentado pelo autor é o da
liberdade religiosa: "Todos, em abstrato, deveriam gozar da mesma igualdade ou direitos de
liberdade de crença religiosa. Na prática, no entanto, esses direitos não podem ser
igualmente gozados a menos que sejam adequadamente moldados às diversas necessidades
e circunstâncias com que se defrontam seus beneficiários. [...] Uma lei que determine o
fechamento do comércio aos domingo, por exemplo, provavelmente seria onerosa para os
membros de religiões que guardam os sábados pois os forçaria a fechar seus negócios por
dois dias, enquanto seus competidores fechariam os seus por apenas um dia sem violar suas
convicções religiosas." A identidade constitucional construída levando-se em conta às
diferenças que compõe uma sociedade será mais satisfatória e eficiente pois agrupará
características específicas condizentes com as tradições, com as etnias e, principalmente,
com as religiões, que determinam os grupos que fazem parte de um povo.

3.4- O discurso constitucional reconstrutivo e a relação entre a negação, a


metáfora e a metonímia

Após apresentar um conceito sintético da negação, da metáfora e da metonímia,


será feito uma análise a partir do exposto de Michel Rosenfeld sobre a relação dessas
ferramentas para a formação da identidade do sujeito constitucional. De acordo com o que
foi apresentado na segunda parte dessa resenha, para que uma constituição seja formada é
necessário fazer uma construção e uma reconstrução da identidade constitucional que será
realizada a partir da negação, da metáfora e da metonímia. Segundo Rosenfeld, a negação
atuará na construção dessa identidade através da instigação à mudança de elementos
negativos da fase pré-revolucionária para a afirmação de uma identidade positiva em um
território, ou seja, a negação levará à formação do constitucionalismo bruto como fruto de
uma revolução e a lapidação desse constitucionalismo será feita através da metáfora e da
metonímia, simultaneamente, no processo de reconstrução. Nesse sentido, a metáfora
utilizará as similaridades como principal fundamento de sua retórica, enquanto a metonímia
usará as diferenças como fonte de argumentação para a reconstrução da identidade do
sujeito constitucional.
Pode-se dizer que a atuação da metáfora e da metonímia para a reconstrução da
identidade do sujeito constitucional se dá através de um processo dialético no qual as
argumentações antagônicas apresentadas por cada parte se equilibram numa síntese
contendo as proposições necessárias para se afirmar a identidade desejada. Dessa forma, de
acordo com Rosenfeld: "para aqueles que desejam ampliar a aplicação de uma norma
jurídica vigente apóiam-se na metáfora, ao passo que, os que buscam limitar o espectro da
abrangência dessa norma recorrem à metonímia." Um exemplo prático, apontado pelo
autor, que se pode denotar a convergência da aplicação da metáfora e da metonímia é a
questão da igualdade tratada pelos EUA. Em relação à escravidão, foram usados
argumentos apoiados na metáfora para identificar as similaridades dos escravos afro-
americanos com os homens brancos, e assim, abolir o regime escravocrata. A igualdade em
relação às mulheres,no entanto, através do processo metonímico, apoiou-se nas diferenças
de gênero para negar a igualdade às mulheres. Isso não significa, porém, que as mulheres
foram prejudicadas pela metonímia, já que as diferenças de gênero são essenciais para a
ampliação do âmbito dos direitos de igualdade como citado, no exemplo dado por
Rosenfeld, que os homens e as mulheres têm direito a igual satisfação, porém, cada qual
com sua necessidade específica.
Tratando-se da questão da igualdade, Michel Rosenfeld, apresenta a evolução da
mesma com base na reconstrução através da metáfora e metonímia. Segundo o autor, os
direitos à igualdade passaram por três estágios distintos. No primeiro, a igualdade era
marcada pelas diferenças, ou seja, a ênfase retórica era dada à metonímia, já que os
escravos e as mulheres não tinham os mesmos direitos que uma determinada parte da
população. Já no segundo estágio, com uma argumentação fundada na metáfora, equiparou-
se o direito dos escravos com os dos homens brancos e o das mulheres com os dos homens
independentemente das diferenças de gênero. O terceiro estágio enfatiza o uso da
metonímia, no sentido de que para haver igualdade, devem ser identificadas necessidades
distintas. Um exemplo dessa fase é dado da seguinte forma: "Para que o controle de uma
mulher sobre o seu corpo possa ser comparado ao que o homem exerce sobre o seu, é
preciso que se reconheça a ela certos direitos específicos, dentre os quais, o direito ao
aborto."
Uma das justificativas usadas na argumentação de Rosenfeld para a referência da
negação, da metáfora e da metonímia como fundamentais para a formação da identidade do
sujeito constitucional é o equilíbrio mútuo causado pela interferência de cada uma delas.
Nesse sentido, o autor usa como exemplo o próprio Direito Constitucional que, num
primeiro momento, pode ser considerado como o "eu", já que impõe ao "outro" as regras
criadas pelo primeiro, ou seja, o Direito constitucional exerce um poder sobre a população
através de normas determinadas por ele que devem ser seguidas por todos aqueles que
fazem parte daquela nação. Para que esse poder tenha legitimidade, no entanto, é necessário
que a população também imponha suas necessidades, pois uma constituição, na qual um
povo aceita seguir, deverá conter, além dos ditames fundamentais do constitucionalismo,
características essenciais daquele povo que revelam a realidade na qual a constituição deve
ser baseada. Dessa forma projeta-se um equilíbrio entre a negação, na qual atuará impondo
o constitucionalismo, e a metonímia e a metáfora que, simultaneamente, através da
dialética, buscarão limites a serem colocados diante do primeiro momento em que atua a
negação. Pode-se dizer, portanto, que o equilíbrio entre o eu e outro, a identidade e a
diferença, provocadas pela metáfora e metonímia, respectivamente, a imposição coercitiva
(constitucionalismo) e a emancipação, ou seja, a fixação de limites dados ao Direito
Constitucional são algumas das formas, citadas pelo autor, de promover a identidade
constitucional.
Um ponto muito importante também tratado nessa parte do livro por Rosenfeld é
a sobredeterminação da tradição. Como foi apresentada nessa resenha, a tradição é um fato
elementar para identidade do sujeito constitucional. No momento em que se institui o
constitucionalismo, usando a negação de um momento pré-revolucionário em troca de uma
identidade positiva, descartam-se todas as antigas normas vigentes, salvaguardo somente
fragmentos de tradições de uma determinada população para que essa participe da formação
de normas que atendam às suas necessidades e expectativas com relação ao fenômeno do
constitucionalismo. Segundo Michel Rosenfeld, no entanto, as tradições que dão acesso à
participação do povo na construção da constituição são limitadas por estruturas inerentes à
ordem constitucional e heranças socioculturais da comunidade política. Dessa forma, há o
que o autor chama de sobredeterminação da tradição, ou seja, uma forma de impor
restrições pela própria constituição em relação à abrangência da tradição no que diz
respeito à dimensão religiosa ou costumes historicamente enraizados que podem renegar
uma norma essencial para manter a ordem de um sistema, como no exemplo dado por
Rosenfeld, em que a tradição não aprova o uso de métodos anticoncepcionais entre casais
enquanto a constituição assegura esse direito em seu texto. Pode-se dizer, portanto, que a
identidade constitucional é um fenômeno dialético que se molda e se remolda com a
evolução da sociedade, pois, apesar da existência de tradições e princípios que são
culturalmente enraizados por um povo, existem aqueles que mudam com passar do tempo e
com a troca de gerações. Isso ocorre devido à carência dessas tradições e desses princípios
de responder a uma determinada dificuldade como, por exemplo, a violação de limites
estruturais inerentes ao constitucionalismo, o que promove a existência de normas
constitucionais que possam suprir a deficiência causada pelos mesmos, sem abdicar das
tradições arraigadas pelo passado.

4- Notas conclusivas: o potencial e os limites da busca pelo sujeito


constitucional para o equilíbrio entre o "eu" (self ) e o "outro"

A busca pela identidade do sujeito constitucional, de acordo com todos os fatos


apresentados nessa resenha, será sempre inconstante, pois, a carência e o vazio sempre
ocorrerão na medida em que a sociedade evoluir e houver necessidade de ter um maior
aperfeiçoamento em determinada matéria da constituição. De um lado essa mudança pode
ser bastante positiva devido à capacidade mutável das normas em relação ao meio em que
elas se propagam. Essa mutabilidade, porém, pode trazer um caráter negativo causado pelo
tratamento desigual que uma norma dá em relação a certos grupos em contraposição à
pluralidade de outros que ela tem abrangência. Dessa forma o papel da negação, da
metáfora e da metonímia de identificar o sujeito constitucional se torna árduo, já que, a
tarefa de assumir uma posição neutra em relação a todas as etnias, religiões e tradições, que
formam, em conjunto, uma nação, é praticamente impossível. Mesmo não tendo, a negação,
a metáfora e a metonímia, a capacidade para alcançar seu objetivo ideal que é a equiparação
completa do "eu" e do "outro", essas ferramentas são fundamentais para diminuir as
diferenças entre os mesmos e promover a identidade do sujeito constitucional a partir da
ênfase que é dada na determinação de características essenciais que identificam um povo.
Conclusões:

A obra de Rosenfeld é muito instigante no que toca ao contínuo diálogo que


o autor estabelece com a filosofia e a psicanálise, diálogo que demonstra o caráter
aberto, e por vezes ambíguo, que a identidade constitucional, entendida na tríplice
acepção de sujeito constituinte, destinatários da constituição (povo) e conteúdo
constitucional.
O ensaio de Rosenfeld nos convida a uma leitura reflexiva sobre a
identidade do sujeito constitucional e conseqüentemente sobre o papel da
sociedade nesta construção. Rosenfeld afirma com veemência que a constituição
não pode ser engessada assim como a sociedade não o é, não sendo de maneira
diferente a leitura deste ensaio se tratando de assunto extremamente
contemporâneo e extremamente vanguardista cumprindo seu papel no processo
de adequação sócio-histórica. Possivelmente trará a cada releitura um novo
questionamento.
A leitura do livro “A identidade do sujeito constitucional” nos faz chegar a
conclusão de que sociedade nunca deixou de não mudar suas convicções e
exigências sendo isto o correto, a constituição deve também mudar acompanhado
de maneira o mais ideal possível a evolução da sociedade.
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS

Trabalho apresentado à disciplina Teoria da Constituição da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais

Resenha do livro "A


identidade do sujeito
constitucional"
Alessandra Queiroga de Morais
Rafaela Queiroz Moisés

Belo Horizonte
2011
REFERÊNCIAS

ROSENFELD, Michel. A identidade do sujeito constitucional. Belo Horizonte:


Mandamentos, 2003. 115 p.

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