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Fabio Gustavo Romero Simeão

Matheus Pereira de Freitas

Vanguardas na pintura
e seus ecos na literatura
Contexto sociohistórico:
a Europa do século XX
• “Se na Europa as vanguardas
conviviam com uma sociedade de
tradição racionalista, em estágio de
industrialização avançada, com
poderosa burguesia e em meio à
convulsão bélica, os ecos que
penetram no Brasil interagem com um
país de tradição colonialista, largas
faixas latifundiárias, de incipiente
industrialização, desenvolvimento
desigual e alto hibridismo cultural.
Serão, pois, diversas as suas
correlações e os seus efeitos.”

(HELENA, 1986, p. 41)


Pensando as vanguardas

• “Movimentos do pensamento
como o Humanismo, a Reforma, o
Iluminismo e as vanguardas têm
em comum uma característica: o
questionamento de si mesmos e de
sua época, a ideia de renovação, de
reformulação sempre iniciada a
partir do zero de valores
individuais e coletivos, de objetivos
comuns a uma civilização.”

(SUBIRATS, 1987, p. 47)


Pensando as vanguardas

• “As vanguardas são,


fundamentalmente, um
fenômeno cultural de signo
negativo, crítico e combativo,
cuja razão de ser primordial se
estriba na oposição e
resistência contra a opacidade,
a reificação ou alienação das
formas culturais objetivas.”

(SUBIRATS, 1987, p. 49)


Pensando as vanguardas

Futurismo

Surrealismo

Cubismo

Expressionismo
Vanguardas
europeias:
Dadaísmo
Expressionismo

• “Van Gogh estava certo em dizer que o


método por ele escolhido podia ser
comparado ao do caricaturista. A
caricatura sempre foi ‘expressionista’,
pois o caricaturista joga com o retrato
de sua vítima e distorce-o para
expressar justamente o que sente a
respeito de seu semelhante. É a pura
verdade que nossos sentimentos acerca
das coisas dão colorido ao modo como
as vemos e, ainda mais, às formas que
recordamos. Todos nós teremos
experimentado como um mesmo lugar
parece diferente quando estamos
alegres e quando estamos tristes.”

(GOMBRICH, 2000, p. 405)


Manifesto expressionista,
por Kasimir Edschmid (1890-1966)
• “Assim o universo total do artista
expressionista torna-se visão. Ele não vê,
mas percebe. Ele não descreve, acumula
vivências. Ele não reproduz, ele estrutura.
Ele não colhe, ele procura. Agora não existe
mais a cadeia de fatos: fábricas, casas,
doenças, prostitutas, gritaria e fome. Agora
existe a visão disso. Os fatos tem significado
somente até o ponto em que a mão do
artista o atravessa para agarrar o que se
encontra além deles. Esse tipo de expressão
não é alemão nem francês. Ele é supre
nacional. Ele não é somente assunto da arte.
É exigência do espírito. Não é um programa
de estilo. É uma exigência da alma. Uma
coisa da humanidade.”

(EDSCHMID, 1918)
Expressionismo
Cubismo

• “Suponho que raciocinaram mais ou menos


assim: ‘Abandonamos há muito a pretensão
de que representamos as coisas tal como se
apresentam aos nossos olhos. Isso era um
fogo-fátuo que é inútil querer explorar. Não
queremos fixar na tela a impressão
imaginária de um momento fugaz. Por que
não ser coerente e aceitar o fato de que o
nosso objetivo real é construir algo, em vez
de copiar algo? Se pensarmos num objeto,
digamos, um violino, ele não se apresenta
ao olho de nossa mente tal como o vemos
com os olhos do nosso corpo. Podemos
pensar e, de fato, pensamos em seus vários
aspectos ao mesmo tempo.’”

(GOMBRICH, 2000, p. 411)


Manifesto cubista,
por Guillaume Apollinaire (1880-1918)
• “Todos os corpos são iguais ante a luz e suas
modificações surgem deste poder luminoso
que constrói à sua vontade. Nós não
conhecemos todos as cores e cada homem
inventa novas. Porém o pintor deve, diante de
todos, representar sua divindade, e os quadros
que oferece à admiração dos homens lhe
concedem a glória de exercer
momentaneamente sua própria divindade.
Para isto é necessário abarcar com uma olhada
o passado, o presente e o futuro. O quadro
deve representar esta unidade essencial que
por si só provoca êxtase. Então nada fugitivo
nos arrastará ao azar. Nós voltaremos atrás
bruscamente. Livres espectadores, não
abandonaremos nossa vida por nossa
curiosidade.”

(APOLLINAIRE, 1913)
Cubismo
Surrealismo
• “O mais conhecido dos movimentos artísticos entre
as duas guerras - o surrealismo – ilustra bem essa
dificuldade. O nome foi cunhado em 1924 a fim de
expressar o anseio dos jovens artistas de criarem
algo mais real do que a própria realidade, quer
dizer, algo de maior significado do que a mera cópia
daquilo que vemos. Mas, lamentavelmente, não
podemos tornar-nos ‘primitivos’ a nosso bel-prazer.
Enquanto alguns artistas foram impelidos por seu
frenético desejo de se tornarem pueris às mais
surpreendentes extravagâncias de um calculado
absurdo, outros foram levados a consultar
compêndios científicos sobre o que constitui a
mente primitiva. Ficaram altamente
impressionados com os escritos de Sigmund Freud,
os quais demonstraram que, quando os nossos
pensamentos em estado de vigília são entorpecidos,
a criança e o selvagem que existem em nós passam
a dominar.”
(GOMBRICH, 2000, p. 427)
Manifesto surrealista,
por André Breton (1896-1966)
• “O surrealismo, tal como o encaro, declara
bastante o nosso não conformismo absoluto para
que possa ser discutido trazê-lo, no processo do
mundo real, como testemunho de defesa. Ao
contrário, ele só pode justificar o estado
completo de distração da mulher em Kant, a
distração das ‘uvas’ em Pasteur, a distração dos
veículos em Curie são a esse respeito
profundamente sintomáticos. Este mundo só
relativamente está à altura do pensamento, e os
incidentes deste gênero são apenas os episódios
até aqui mais marcantes de uma guerra de
independência, da qual tenho o orgulho de
participar. O surrealismo é o ‘raio invisível’ que
um dia nos fará vencer os nossos adversários.
‘Não tremes mais, carcaça.’ Neste verão as rosas
são azuis, a madeira é de vidro. A terra envolta
em seu verdor me faz tão pouco afeito quanto um
fantasma. VIVER E DEIXAR DE VIVER É QUE
SÃO SOLUÇÕES IMAGINÁRIAS. A
EXISTÊNCIA ESTÁ EM OUTRO LUGAR.”

(BRETON, 1924)
Surrealismo
As vanguardas no Brasil:
a semana de 1922

• Mário de Andrade
• Oswald de Andrade
• Víctor Brecheret
• Plínio Salgado
Principais • Anita Malfatti
• Menotti Del Picchia
figuras: • Guilherme de Almeida
• Sérgio Milliet
• Heitor Villa-Lobos
• Tácito de Almeida
• Di Cavalcanti
As vanguardas no Brasil:
a semana de 1922
• “A nossa estética é de reação. Como tal,
é guerreira. O termo futurista, com que
erradamente a etiquetaram, aceitamo-lo
porque era um cartel de desafio. Na
geleira de mármore de Carrara do
Parnasianismo dominante, a ponta
agressiva dessa proa verbal estilhaçava
como um aríete. Demais, ao nosso
individualismo estético, repugna a jaula
de uma escola. Procuramos, cada um,
atuar de acordo com nosso
temperamento, dentro da mais arrojada
sinceridade.”
Menotti Del Picchia durante a semana de
1922
As vanguardas no Brasil:
o expressionismo
de Anita Malfatti
O expressionismo de Anita Malfatti
As vanguardas no
Brasil:
o cubismo de
Tarsila do Amaral
O cubismo de Tarsila do Amaral
As vanguardas no Brasil:
o surrealismo de
Cícero Dias
O surrealismo
de Cícero Dias
Ecos vanguardistas na literatura
brasileira: o caso expressionista
• “O Expressionismo é marcado pela
subjetividade do escritor,
despreocupado quanto à organização do
texto em estrofes, onde é feita uma
análise meticulosa do subconsciente dos
personagens, utilizando-se de metáforas
exageradas ou grotescas. Em geral,
utiliza uma linguagem direta e com
frases curtas. O estilo é abstrato,
simbólico e associativo. Como tudo era
expressão, não havia a preocupação
com a lógica do mundo exterior como
nas estéticas anteriores.”
Ecos vanguardistas na literatura
brasileira: o caso expressionista

“Encontrou Fräulein acabrunhada, com vontade de chorar. A


luz delirava, apressada a um vago aviso de tarde. Era tal e
tanta que embaçava de ouro a amplidão. Se via tudo longe
num halo que divinizava e afastava as coisas mais. Lassitude.
No quiriri tecido de ruidinhos abafados, a cidade se movia
pesada, lerda. O mar parara azul. Embaixo, dos verdes
fundos das montanhas uma evaporação rojava o escuro das
grotas, e o Corcovado, ver um morubixaba pachorrento,
pitava as nuvens que o sol lhe acendia no derrame. Fräulein
botara os braços cruzados no parapeito de pedra, fincara o
mento aí, nas carnes rijas. E se perdia. Os olhos dela pouco a
pouco se fecharam, cega duma vez. A razão pouco a pouco
escampou. Desapareceu por fim, escorraçada pela vida
excessiva dos sentidos. Das partes profundas do ser lhe
vinham apelos vagos e decretos fracionados. Se misturavam
animalidades e invenções geniais. E o orgasmo. Adquirira
enfim uma alma vegetal. E assim perdida, assim vibrando, as
narinas se alastraram, os lábios se partiram, contrações,
rugas, esgar, numa expressão dolorosa de gozo, ficou feia.”

Fragmento de Amar, verbo intransitivo, de Mario de


Andrade
Ecos vanguardistas na literatura
brasileira: o caso cubista
• “A literatura no Cubismo também
retratou a fragmentação e a
geometrização da realidade por
meio da linguagem: as palavras
são soltas e dispostas no papel
com o objetivo de criar uma
imagem.”
• Principais características:
• Ilogismo
• Linguagem caótica
• Tempo presente
• Humor
Ecos vanguardistas na
literatura brasileira:
o caso expressionista
HÍPICA

Saltos records
Cavalos da Penha
Correm jóqueis de Higienópolis
Os magnatas
As meninas
E a orquestra toca
Chá
Na sala de cocktails
Ecos vanguardistas na literatura
brasileira: o caso surrealista
• “Os autores do surrealismo
inovaram e renunciaram o romance
e a poesia em estilos clássicos, que
representavam os valores sociais
burgueses da época. As poesias e
textos deste movimento são
caracterizados pela liberdade e livre
associação de ideias, o uso da escrita
automática, que consistia em
escrever tudo aquilo que vem à
mente, sem cortes e, em frases feitas
com palavras recortadas de revistas,
jornais e imagens demonstravam as
ideias do inconsciente.”
Ecos vanguardistas na
literatura brasileira:
o caso surrealista
Invenções de Orfeu aves nos ramos
Canto III inexistentes;
tranças noturnas
Caída a noite mais que impalpáveis,
o mar se esvai, gatos nem gatos,
aquele monte nem os pés no ar,
desaba e cai nem os silêncios.
silentemente.
Bronzes diluídos O sono está.
já não são vozes, E um homem dorme.
(...)
seres na estrada
nem são fantasmas,
Considerações finais

• “É próprio da dialética das vanguardas


que, uma vez cumprida sua tarefa
iconoclasta e crítica, convertam-se elas
próprias em um fenômeno afirmativo,
de caráter normativo, e acabem
afirmando-se com um poder também
institucional e em seguida opaco. Assim,
a vanguarda afirma a sua própria
necessidade como exigência crítica e
como concepção dialética, inclusive ou
precisamente onde atraiçoa seu começo
original revolucionário e se converte a si
própria em força de signo conservador.
Sua verdade última é sua
autodissolução.”
(SUBIRATS, 1987, p. 49)
Referências

• BOSI, Alfredo. História concisa da


literatura brasileira. São Paulo:
Cultrix, 2017.
• GOMBRICH, E. H. A história da
arte. São Paulo: Editora LTC, 2000.
• HELENA, Lucia. Modernismo
brasileiro e vanguarda. São Paulo:
Editora Ática, 1986.
• SUBIRATS, Eduardo. Da vanguarda
ao pós-moderno. São Paulo: Nobel,
1987.

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