Você está na página 1de 16

Justiça e

diálogo sociaL 1

Estado Democrático
de Direito
Samuel Vasconcelos Marques
Copyright © 2020 Fundação Demócrito Rocha

FUNDAÇÃO DEMÓCRITO ROCHA (FDR)


Presidência: João Dummar Neto
Direção Administrativo-Financeira: André Avelino de Azevedo
Gerência Geral: Marcos Tardin
Gerência Editorial e de Projetos: Raymundo Netto
Análise de Projetos: Emanuela Fernandes e Fabrícia Góis

UNIVERSIDADE ABERTA DO NORDESTE (UANE)


Gerência Pedagógica: Viviane Pereira
Coordenação de Cursos: Marisa Ferreira
Design Educacional: Joel Bruno
Secretaria Escolar: Thifane Braga

CURSO JUSTIÇA E DIÁLOGO SOCIAL


Concepção e Coordenação Geral: Cliff Villar
Coordenação Executiva: Ana Cristina Barros
Coordenação Adjunta: Patrícia Alencar
Coordenação de Conteúdo: Gustavo Brígido
Editorial e Revisão: Verônica Alves
Edição de Design: Amaurício Cortez
Projeto Gráfico e Diagramação: Welton Travassos
Ilustração: Karlson Gracie
Coordenação de Produção: Gilvana Marques
Produção: Juliana Guedes
Análise de Projeto: Narcez Bessa
Marketing e Estratégia: Andrea Araújo, Kamilla Damasceno e Wanessa Góes
Performance Digital: Alice Falcão

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO CEARÁ


Presidente do Tribunal de Justiça do Ceará: Desembargador Washington Luís Bezerra de Araújo
Vice-presidente do Tribunal de Justiça do Ceará: Desembargadora Maria Nailde Pinheiro Nogueira
Corregedor-geral do Tribunal de Justiça do Ceará: Desembargador Teodoro Silva Santos

Este fascículo é parte integrante do projeto Justiça e Diálogo Social, em decorrência do contrato
celebrado entre a Fundação Demócrito Rocha e o Tribunal de Justiça do Estado do Ceará.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação

J97
Justiça e diálogo social / Cliff Villar (organizador); Gustavo Brígido
(coordenador); Karlson Gracie (ilustrador). – Fortaleza: Fundação Demócrito Rocha,
2020.
192 pg. 12 fascículos : il. color.

Todos os direitos desta edição reservados à:


1. Direito. 2. Poder Judiciário. 3. Democracia. 4. Direitos sociais. 5. Cidadania. I.
Título. II. Série.
Fundação Demócrito Rocha
Av. Aguanambi, 282/A - Joaquim Távora
CEP 60055-402 - Fortaleza-Ceará
CDD 340 Tel: (85) 3255.6073 - 3255.6203
fdr.org.br
Bibliotecário: Francisco Edvander Pires Santos (CRB-3/1212) fundacao@fdr.org.br
Sumário
1. Introdução.................................................................................................... 4

1.1. Tripartição dos Poderes .......................................................................... 5

1.2. Da Vontade do Rei à Vontade da Lei .................................................... 8

1.3. Democracia Indireta e Democracia Direta ..........................................11

1.4. O Estado Democrático de Direito e a Constituição de 1988. ...........13

1.5. Referências. ............................................................................................15


A concepção de Estado na con-
temporaneidade é caracterizada pelo
protagonismo do poder público, que
se encontra praticamente em todas as
áreas de relacionamento humano, fa-
zendo, assim, com que a expressão
“Estado Democrático de Direito” ganhe
uma maior notoriedade.
O fato de tal termo ter um status
constitucional, previsto no artigo 1º da
Constituição da República Federativa
do Brasil de 1988, torna obrigatória a
sua compreensão. Entretanto, tal status

1.
constitucional amplia a responsabilidade
ao interpretar tal termo, uma vez consi-
derada a natureza dinâmica da interpre-
tação constitucional, diante compreen-
são evolutiva dos dispositivos consti-
tucionais principiológicos, eliminando a
concepção de conceito estanque.
A fluidez do termo em análise está
Introdução relacionada aos distintos tipos de Esta-
dos existentes que serviram de influência
A utilização do termo “Estado Democrá- para sua definição, dificultando, assim, a
tico de Direito”, embora reiteradamente sua generalização. Além disso, impor-lhe
reproduzido no convívio social, muitas definição única e estanque seria des-
vezes é compreendido equivocadamen- considerar as formulações teóricas dos
te diante da dificultosa conceituação e elementos “democracia” e “direito”, haja
das várias facetas que esse representa. vista seus conceitos convergirem para
O fato de tal termo ter sido inserido no fundamentação de um Estado democrá-
texto da Constituição da República Fe- tico de direito. O estudo do “Estado De-
derativa do Brasil de 1988, em seu artigo mocrático de Direito” deve ser realizado
1º, demonstra a importância e necessi- mediante abordagem histórica, que se
dade de sua compreensão, levando em pode entender a partir de sua evolução
consideração todas as consequências no tempo e também em relação aos fa-
que dela podem advir. tos que o influenciaram.

4 FUNDAÇÃO DEMÓCRITO ROCHA | UNIVERSIDADE ABERTA DO NORDESTE


A análise da evolução do Estado judiciais devem ser exercidas por órgãos
Democrático de Direito é de fundamen- distintos, independentes e autônomos.
tal importância para compreensão do A teoria racionalista de Montes-
sentido que se deve empregar nos dias quieu, que foi base ideológica para revo-
de hoje para o termo que dá nome ao luções liberais, não serviu estritamente
presente escrito. O caminho a ser per- ao desenvolvimento de bases de uma
corrido, portanto, passará pela análise teoria abstrata, mas cuidou também de
de fatos históricos que influenciaram a aspectos objetivos ao associar a sepa-
conceituação de Estado Democrático de ração funcional à existência de órgãos
Direito, em relação ao desenvolvimento distintos a desempenhá-las, originando
do Direito. verdadeira técnica de contenção do po-
der pelo próprio poder, haja vista que ne-

1.1.
nhum dos órgãos estatais seria detentor
de estrutura e competências para sujei-
tar os outros.
A teoria separatista serviu também
Tripartição dos como contribuição ao advento do cons-
titucionalismo e do Estado de Direito,
Poderes tendo como fator determinante para tal
compreensão a inserção do artigo 16 da
A gênese da discussão em torno da Declaração de Direitos do Homem e do
separação de poderes remonta, inicial- Cidadão de 1789, através da afirmação
mente, a Aristóteles (Século IV a.C), “qualquer sociedade em que não esteja
aprimora-se em Locke (Século XVII d.C) assegurada a garantia dos direitos nem
e se propaga com Montesquieu (Século estabelecida a separação dos poderes
XVIII d.C), cuja sistematização lhe confe- não tem Constituição”.
riu fama que repercute até os dias atuais.
Aristóteles foi o primeiro filósofo a
catalogar as diferenças básicas e agru-
par as funções estatais em três catego-
rias distintas, delineadas como função
deliberante, função executiva e função
judiciária. Apesar disso, não se atribui
ao pensamento aristotélico a concepção
separatista dos poderes, uma vez que as
diferentes funções de governo naque-
la época ainda não permitiam que seu
exercício fosse realizado entre órgãos
distintos.
Posteriormente tais ideias foram
assimiladas por John Locke e, em se-
guida, aperfeiçoadas por Montesquieu,
considerado como o primeiro filósofo a
defender que o exercício das diferentes
funções estatais deve ser atribuído a ór-
gãos distintos.
Montesquieu defendeu que a divi-
são funcional do poder necessita de uma
real divisão orgânica, por isso, sustentou
que as funções legislativas, executivas e

JUSTIÇA E DIÁLOGO SOCIAL 5


Contudo, a aplicação de rígida sepa-
ração das funções estatais demonstrou-
-se como inviável na prática, levando em
consideração movimentos importantes
como as Revoluções Americana e Fran-
cesa, sobretudo diante da necessidade de
evitar que as funções estatais se tornas-
sem independentes a ponto de se afasta-
rem de uma vontade política central.
Aliás, Montesquieu, em sua teoria
funcional separatista, já havia alertado
sobre esse perigo ao sugerir a adoção de
mecanismos de controle recíproco entre
os poderes, objetivando uma convivên-
cia independente e harmoniosa entre as
funções estatais, na qual a independên-
cia fosse exercida por suas funções típi-
cas e a harmonia pelos mecanismos de
controle recíproco.
Diante disso, a noção de divisão fun-
cional do poder absoluta sofreu revisões
até ser completamente desmistifica-
da. De fato, a noção de poderes abso-
lutamente independentes não sujeitos
a qualquer tipo de ingerência externa
dificilmente se ambientaria a um cená-
rio cheio de complexos problemas que
pressupõem diálogo e interatividade.
A ampliação das atividades estatais
impôs novas formas de relacionamento
entre os órgãos do legislativo, do execu-
tivo e do judiciário, por isso, sucedeu-se a
doutrina da teoria dos freios e contrape-
sos, também conhecida do inglês como
teoria do checks and balances, cuja no-
ção parte da concepção de que cada ór-
gão do poder fiscaliza a atuação do outro,
principalmente no que diz respeito à ob-
servância das diretrizes constitucionais.
O princípio da separação dos po-
deres está expresso na Constituição da
República Federativa do Brasil de 1988,
em seu artigo 2º, apresentando limitação
ao poder estatal mediante a desconcen-
tração das funções estatais. Registra-se
importante destacar que o princípio da
separação dos poderes está também
inserido no rol das chamadas cláusulas
pétreas, no artigo 60, parágrafo 4º, inciso
III, do texto constitucional brasileiro.

6 FUNDAÇÃO DEMÓCRITO ROCHA | UNIVERSIDADE ABERTA DO NORDESTE


Tanto a interatividade quanto o con- funções judiciais, que são funções típi-
trole recíproco entre os poderes (freios e cas do Judiciário. Exemplo de tal pos-
contrapesos) podem ser percebidos em sibilidade na Constituição da República
diversas passagens constitucionais, a Federativa do Brasil de 1988, está no
exemplo da que permite a participação julgamento de infrações administrativas
do Chefe do poder Executivo no proces- cometidas por seus servidores em pro-
so legislativo, ora como titular da inicia- cessos administrativos disciplinares.
tiva de projetos, ora como responsável Contudo, destaca-se aqui a impre-
pela sanção ou veto de tais projetos. cisão técnica do termo “separação dos
Por outro lado, também se verificou a poderes”, haja vista que todos os atos
conveniência constitucional de estabele- estatais são oriundos da atuação de um
cer excepcionalmente a um dado poder o único poder. O poder, como sabido, é
exercício de funções atípicas que, a prin- apenas um, daí a razão de não se falar
cípio, seria função típica de outro poder. em divisão de poderes, mas sim em de-
Daí falar-se em funções típicas e atípicas, sempenho harmônico das funções esta-
realidade que traduz a divisão mais flexí- tais por órgãos distintos, independentes
vel das funções entre os distintos órgãos. e harmônicos.
De tal modo, tanto o Executivo, Por fim, pode-se destacar que o que
quanto o Legislativo podem exercer ex- existe expressamente no texto constitu-
cepcionalmente, de forma atípica, as cional é uma divisão horizontal funcional
entre os poderes legislativo, executivo
e judiciário, cuja caraterística da hori-
zontalidade é resultado da ausência de
hierarquia entre os órgãos exercentes
de tais funções estatais, o que permite
a operacionalização de suas competên-
cias constitucionalmente estabelecida,
assimilando a ideia de que o princípio da
separação dos poderes possui íntima li-
gação com o regime de governo demo-
crático e com a forma de governo repu-
blicana. Constata-se que a separação
dos poderes é fundamental para ma-
nutenção da ordem democrática, pois
impede a atuação prepotente do Estado
sobre os cidadãos, delimitando a atua-
ção das funções estatais.

JUSTIÇA E DIÁLOGO SOCIAL 7


1.2.
Da Vontade do Rei
à Vontade da Lei
Pretende-se nesta seção dissertar sobre O declínio do sistema político abso-
a evolução histórica do Estado, determi- lutista teve seu início por volta do Século
nando sobre a passagem do Estado Ab- XIX com o surgimento dos ideais ilumi-
solutista ao que chamamos hoje de Es- nistas que buscavam a descentralização
tado Democrático de Direito, o caminho do poder político, questionando a noção
a ser percorrido passará por uma análise de poder absoluto titularizado e exercido
histórica sobre a transição dos dois tipos por um monarca, que assim era conside-
de Estado. rado pela adoção da teoria da vontade
Até os séculos derradeiros dá con- divina, haja vista que o iluminismo pre-
siderada Idade Média não existiam Esta- gava como princípio a racionalização do
dos com poder concentrando nas mãos pensamento humano.
de um rei, mas sim a formação de diver- Com o surgimento dos ideais ilumi-
sos reinos com o poder político dividido nistas e o declínio do Estado Absolutista,
entre os senhores dos grandes feudos, surgiu uma nova ordem de poder exercida
denominados como senhores feudais. pelo Estado, inspirada em princípios oriun-
A noção de poder centralizado, dos das Revoluções Americana e Francesa,
como já subtendido no parágrafo acima, conhecida como Estado Liberal, que com-
então, surgiu a partir do final da Idade batia frontalmente os ideais absolutistas.
Média, como consequência de numero- Os princípios norteadores do Estado
sas crises ligadas ao feudalismo, como Liberal são os da liberdade e da igualdade,
as revoltas camponesas e a ascensão da gerando, assim, a noção de intervenção
burguesia. Tal contraponto gerou a con- reduzida do Estado nas relações sociais.
cepção do Estado Moderno que rompeu O aspecto central da ordem liberal está
com as peculiaridades da serventia feu- na noção de mercado natural, cuja par-
dal e com o regionalismo político. ticipação de todos é realizada com base
Em decorrência da consolidação do nos interesses individuais de cada um,
Estado Moderno, surge o Estado Abso- em substituição ao mercado artificial.
lutista como sistema político de Estado A racionalidade da limitação do
que pressupõe a centralizacão de todo poder estatal é sustentada a partir da
o poder político nas mãos de uma única concepção doutrinária dos direitos hu-
pessoa, muitas vezes denominada como manos, direitos que não podem ser
monarca, gerando a este a titularização suprimidos pelo Estado. De tal modo,
de poder absoluto e ilimitado. pode-se compreender que o cerne do
Diferentemente do que acontecia liberalismo está na limitação do poder e
da Idade Média, no Estado Absolutista, das funções estatais.
o monarca controlava todo o poder para A limitação das funções estatais
tomada de decisões da nação, o que fa- pode ser compreendida a partir da se-
cilitou a implementação mais simplifica- paração dos poderes, os quais exercem
das de medidas governamentais e, até funções independentes e realizam fis-
mesmo, de um exército, pois já não se- calizações mútuas, balanceando, assim,
ria mais necessário o auxílio dos nobres a estrutura social das funções estatais.
para sua composição. Como já delineado, não há preponde-

8 FUNDAÇÃO DEMÓCRITO ROCHA | UNIVERSIDADE ABERTA DO NORDESTE


rância de nenhuma das funções esta-
tais sobre qualquer outra, tendo essas a
mesma relevância na dinâmica do poder
público.
Na posição clássica de Adam Smi-
th (Século XVIII), o Estado Liberal, que
interfere minimamente nas relações so-
ciais do Estado, deve exercer tal inter-
ferência somente na promoção da se-
gurança interna e externa do país, assim
como prover obras e serviços que não
são de interesse dos particulares, con-
forme pode ser visualizado nas seguin-
tes passagens:
“O primeiro dever do soberano é
o de proteger a sociedade contra
a violência e a invasão de outros
países independentes” (SMITH,
1776, p. 689);
“O segundo dever do soberano é
o de proteger, na medida do pos-
sível, cada membro da sociedade
da injustiça ou opressão de todos
os outros membros da mesma,
ou o dever de estabelecer uma
administração judicial rigorosa”
(SMITH, 1776, p. 708);
“O terceiro dever é de criar e
manter essas instituições e
obras públicas que, embora
possam proporcionar a máxima
vantagem para uma grande so-
ciedade, são de tal natureza que
o lucro jamais conseguiria com-
pensar algum indivíduo ou um
pequeno número de indivíduos,
não se podendo, pois, esper-
ar que algum indivíduo ou um
pequeno número de indivíduos
as crie e mantenha.”(SMITH,
1776, p. 723)

JUSTIÇA E DIÁLOGO SOCIAL 9


O controle da economia pode par-
tir de poucos, o aumento substancial da
oferta de produtos e serviços e a diminui-
ção da procura, evidenciado no crack da
Bolsa de Nova Iorque em 1929, acabaram
gerando falta de credibilidade ao capita-
lismo liberal e ensejo ao crescimento de
uma ordem socialista de Estado.
Outro fator de colaboração ao de-
senvolvimento da ordem de Estado so-
cialista foi o advento da Revolução Rus-
sa, primeira experiência de aplicação
dos ideais do marxismo, que, além do
questionamento surgido ao sistema ca-
pitalista, desencadearam na decadência
do Estado Liberal, gerando ascensão ao
Estado Social.
O socialismo surgiu, principalmente,
como consequência da Revolução Indus-
trial, refletido através dos efeitos sobre a
classe operária. A tecnologia industrial ge-
rou o aumento da produção e as relações
existentes entre mestres e aprendizes fo-
ram modificadas e substituídas pela noção
de livre contratação e demissão.
Tendo em vista a decadência econô-
mica do Estado Liberal, o Estado Socia-
lista surge como alternativa para o cres-
cimento econômico do país, ao mesmo
tempo que também serviu para garantia
da proteção individual dos cidadãos. A
concepção de Estado Liberal foi apoiada
também no plano doutrinário econômico,
a partir da teoria de John Maynard Key-
nes, teoria keynesiana, que tem como
princípio o papel interventor do Estado
sobre a economia. A coletividade, e não o
indivíduo, passou a ser interesse do Esta-
do Socialista, gerando a noção do Welfare
State (Estado de Bem -Estar Social).
Por fim, em desenvolvimento ao
papel do Estado, influenciado pela uni-
versalização dos Direitos Humanos, sur-
giram os ideais do Estado Democrático
de Direito, em que o objetivo do Poder
Público não estava mais voltado sim-
plesmente aos interesses da coletivida-
de, mas também aos interesses de cada
um dos indivíduos, gerando um equilíbrio
entre a coletividade e a individualidade.

10 FUNDAÇÃO DEMÓCRITO ROCHA | UNIVERSIDADE ABERTA DO NORDESTE


O Estado Democrático de Direito os indivíduos, ao escolherem firmar um
pode ser definido como conjunto de re- contrato social, abririam mão, de forma
gras jurídicas, democraticamente e dis- voluntária, de alguns direitos em troca de
cursivamente adotadas, ou seja, é uma proteção contra os riscos possíveis de
compreensão de Estado que garante um estado natural.
uma igualdade inclusiva, na qual todos Para Rousseau (ROUSSEAU, 1999,
os direitos fundamentais da pessoa hu- p.51), a soberania popular é considerada
mana são relevantes. como inalienável e indivisível, devendo
O nascimento do Estado Democrá- esta ser exercida pela vontade de todos:
tico de Direito serviu para possibilitar a
A soberania é inalienável (...) só
ideia de que todos os homens, indistin-
a vontade geral pode dirigir as
tamente, possam eleger regras para de-
forças do Estado de acordo com
limitação do contorno social do Estado.
a finalidade de sua instituição
As regras que moldam as relações so-
que é o bem comum. Pois, se a
ciais são frutos do consenso e da vonta-
oposição dos interesses partic-
de humana.
ulares tornou necessário o esta-
Os princípios defendidos pelo Esta-
belecimento das sociedades, foi
do Democrático de Direito são os da li-
o acordo desses mesmos inter-
berdade e da igualdade. A liberdade que
esses que o possibilitou. É o que
deve ser garantida mediante um absen-
existe de comum nesses vários
teísmo do Estado e a igualdade mediante
interesses que formam o víncu-
uma postura de presença do Estado nas
lo social e, se não houvesse um
relações sociais. Todos são considerados
ponto em que todos os inter-
como de igual importância, pois a vonta-
esses concordassem, nenhuma
de do povo é considerada soberana. Por
sociedade poderia existir. Ora,
isso, o Estado Democrático de Direito
somente com base nesse inter-
garante sua solidez, pois ele rompe com
esse comum é que a sociedade
toda a ordem arbitrária e tendenciosa,
deve ser governada.
visando efetivamente a uma sociedade
melhor, sociedade onde haja inclusão e Segundo Rousseau, não há socieda-
desenvolvimento humano e social. de se os interesses forem esparsos e não
constituírem a vontade geral. Para o au-

1.3.
tor, a restrição ao acatamento de ordens
e leis faz com que o ser humano perca a
sua característica, já que configuraria a
presença de um senhor que governa, mas
Democracia não a de um soberano. A soberania está
inexoravelmente relacionada ao exercício
Indireta e Direta da vontade geral, apresentando-se como
vontade de um corpo político.
A soberania popular apresenta-se como Porém, para Benjamim Constant
elemento pelo qual o Estado é considera- (2005, p.16), torna-se necessário des-
do como sujeito à vontade do povo, que tacar que a Democracia não pode ser
é a fonte do poder político. Está indis- considerada como um fim em si mesmo,
sociavelmente relacionado aos nomes haja vista que nem sempre a vontade da
da Escola Contratualista, como Hobbes maioria é suficiente para tornar qualquer
(1588-1679), Locke (1632-1704) e Rous- ato como correto. Segundo o autor, o
seau (1712-1778). Todos clamavam que poder popular não pode ser considera-

JUSTIÇA E DIÁLOGO SOCIAL 11


do como ilimitado, haja vista que este é
limitado frente ao direito dos indivíduos,
bem como aos ideais de justiça.
O princípio da soberania popular se
manifesta tanto quando o povo, direta-
mente, faz as leis, assim como quando
o povo elege aqueles que agem em seu
nome e sob sua vigilância imediata. O en-
tendimento central apresenta-se como a
ideia de que a legitimidade do governo
deve estar fundada no consentimento
dos governados. Tratando-se a sobe-
rania popular como elemento básico da
maioria dos governos democráticos.
Trata-se de noção elencada pelo
ideal de Estado Democrático de Direi-
to, em contraposição ao absolutismo, a
adoção de um regime de governo que
permite ao povo a observância de sua
vontade. Sendo notório perceber que
quanto maior for o protagonismo do
povo, mais fortalecido será o regime de-
mocrático, implicação esta que não en-
sejaria no enfraquecimento dos elemen-
tos de representação política. De acordo
com essa realidade, apresentam-se os
institutos de exercício da democracia
direta, como expressão da democracia
participativa.
Sobre tal aspecto, surge a neces-
sidade de pensar na representatividade
e sua transformação, de modo que ga-
ranta a qualidade da democracia, apre-
sentando-se como reconfiguração da
representatividade política por meio de
alguns institutos jurídicos permissivos da

12 FUNDAÇÃO DEMÓCRITO ROCHA | UNIVERSIDADE ABERTA DO NORDESTE


participação popular, elencando, assim, geral da nação, bem como no exercício
uma noção de representatividade assu- do controle sobre os atos praticados pela
mida pelos atores populares no exercício Administração Pública, que é exercida
das funções políticas. pelos agentes políticos eleitos e outros
No Brasil, a Constituição Federal de agentes administrativos.
1988 consagra dentre os Fundamentos

1.4.
da República Federativa do Brasil (art.
1º), o princípio da Soberania, elencada no
parágrafo único do mesmo dispositivo
constitucional como Soberania Popular,
noção que atribui ao povo a titularidade O Estado
do Poder. A soberania popular será exer-
cida pelo sufrágio universal e pelo voto Democrático
direto e secreto, com valor igual para to-
dos, e, nos termos da lei, mediante ple-
de Direito e a
biscito, referendo e iniciativa popular. Constituição
de 1988
Além dos mecanismos tradicio-
nais de exercício da democracia direta,
também se encontram na Constituição
Federal de 1988 outras prerrogativas Com a consolidação da ordem constitu-
relacionadas ao exercício da cidada- cional diante da promulgação da Consti-
nia, que diz respeito à efetivação dos tuição da República Federativa do Brasil
direitos políticos, como a Ação Popu- de 1988, constituiu-se o Estado Demo-
lar, remédio constitucional que exige crático de Direito no direito brasileiro,
a comprovação da regularidade no consagrando em seu artigo 1º os princí-
exercício dos direitos políticos para sua pios fundamentais da soberania, cidada-
impetração. Apresentando-se como nia, dignidade da pessoa humana, valo-
instrumento que efetiva a noção de So- res sociais do trabalho e da livre iniciativa
berania Popular, inclusive sobre os atos e o pluralismo político.
administrativos praticados. A concepção de Estado Democrá-
A participação popular, presente no tico de Direito na Constituição Fede-
ordenamento jurídico brasileiro e fomen- ral brasileira, por sua vez, não significa
tada pelas fontes teórico-doutrinárias apenas a reunião dos princípios do Es-
sobre o assunto, tem sido desenvolvida tado de Direito e do Estado Democrá-
por meio das experiências obtidas du- tico, mas também a realização de um
rante o movimento de redemocratização conceito que qualifica o Estado de “de-
do País. Tal percepção é delineada por mocrático”, irradiando esse valor sobre
Santos (2011, p. 90): “É por esse proces- toda a estrutura organizacional dos en-
so de continuidade e reafirmação que tes da federação brasileira.
a vivência democrática de um Estado e A democracia que o Estado Demo-
sua comunidade deve ser analisada, de crático de Direito realiza tem que ser
modo a verificar a afirmação sucessiva considerada como processo de con-
de direitos e garantias”. vivência social fundamentada em uma
Nesse sentido, percebe-se que o sociedade livre, justa e solidária, como
povo, como titular do poder político, en- explicitada nos objetivos da República
contra ao seu alcance a responsabilidade Federativa do Brasil (artigo 3º), em que
pelo exercício da democracia direta (par- o Poder emana do povo e deve ser exer-
ticipativa) e democracia indireta (repre- cido com base nos anseios desse, como
sentativa) na determinação da vontade base à democracia.

JUSTIÇA E DIÁLOGO SOCIAL 13


O princípio democrático então se re- No Brasil, com a introdução da con- damental importância, presente no desen-
laciona com o direito de sufrágio, e este cepção de Estado Democrático de Direi- volvimento das sociedades, como um pilar
se conforma pelos princípios da univer- to, nos moldes das Constituições france- de respeito à lei. Sendo um importante pa-
salidade (em relação ao voto e à elegibi- sa e espanhola, em que o império da lei é radigma para as bases da democracia oci-
lidade), da imediaticidade (o cidadão dá a fundamentado, a justiça social deve res- dental. Os novos parâmetros substantivos
primeira e a última palavra), da liberdade peitar também a pluralidade do indivíduo, que permeiam a conformação do Estado
de voto (que também se revela no princí- abrangendo as liberdades econômicas, Democrático de Direito contemporâneo
pio do voto secreto), da igualdade de voto sociais e culturais. reintroduzem a consideração dos fins e
(mesmo peso e mesmo valor de resulta- O Estado de Direito nos dias atuais valores que a sociedade e o Estado devem
do), da periodicidade e da unicidade. tem um significado mais amplo e de fun- promover para o bem de uma sociedade.

14 FUNDAÇÃO DEMÓCRITO ROCHA | UNIVERSIDADE ABERTA DO NORDESTE


Referências CRUZ, Ferreira da; AFONSO, Luis Eduar-
do. Gestão fiscal e pilares da Lei de
mia Política. Tradução Márcio Puglier e
Norberto de Paula Lima. Editora Humes,
Responsabilidade Fiscal: evidências 1981.
ABRAHAM, Marcus. Orçamento pú- em grandes municípios. In: Revista ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso
blico como instrumento de cidada- de Administração Pública, p.126-148, de sobre a origem e os fundamentos da
nia fiscal. In: Revista de Direitos e v. 2018. Disponível em :<http:// http://bi- desigualdade
17, n. 17, p. 188-209, de 2015. Disponível bliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/rap/ SANTOS, Maria Clara Oliveira. Am-
em :<http:// http://revistaeletronicardfd. article/view/73930/70962>. Acesso em: pliação da democracia participati-
unibrasil.com.br/index.php/rdfd/article/ 18 jun. 2019. va: necessidade de manifestação do
view/596/421.htm>. Acesso em: 18 jun. dos Deputados, Coordenação de Publi- poder público após o procedimento
2019. cações, 1988. participativo. Belo Horizonte, 2011, 145f.
BASTOS, Celso Ribeiro; MARTINS, Ives HAYEK, F. A. O caminho da servidão. Dissertação (Mestrado em Direito). Fa-
Gandra. Comentários à Constituição Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército & culdade de Direito. Universidade Fede-
do Brasil. São Paulo: Saraiva, 1990. v. 1. Instituto Liberal, 1994. ral de Minas Gerais, 2011. Disponível em:
BOBBIO, Norberto. Estado, governo e KEYNES, John Maynard. Teoria Geral <http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/
sociedade; por uma teoria geral da po- do Emprego, de juro e da moeda. 14. dspace/bitstream/handle/dissertacao-
lítica. 11. ed. Tradução de Marco Aurélio ed. São Paulo: Atlas, 1982. mariaclara.pdf?sequence=1>. Acesso
Nogueira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, LASSALE, Ferdinand. A essência da em: 13.jun.2019.
2004. constituição. 6. ed. Rio de Janeiro: Lu- SMITH, Adam. A riqueza das nações:
BONAVIDES, Paulo. Teoria constitucio- men Júris, 2001. investigação sobre sua natureza e
nal da democracia participativa: por LOCKE, J. Segundo tratado sobre o suas causas. São Paulo: Abril Cultural,
um Direito Constitucional de luta e resis- governo. In: Dois tratados sobre o 1983.
tência, por uma Nova Hermenêutica, por governo. Trad. Julio Fischer. São Paulo. WEFFORT, Francisco C. (Org.). Os clás-
uma repolitização da legitimidade. São Martins Fontes. 2005. sicos da Política. 14.ed. Vol. I. São Paulo:
Paulo: Malheiros, 2003. RAWLS, John. Justiça como Equidade: Ática, 2006.
BONAVIDES, Paulo. Teoria do estado. Uma Reformulação. Tradução de Cláu-
3ª. ed. São Paulo: Malheiros 2001. dia Berliner. São Paulo: Martins Fontes,
BRASIL. Constituição (1988). Constitui- 2003.
ção da República Federativa. Brasília: ROUSSEAU, Jean Jacques. Do Contra-
Câmara to Social e Discurso sobre a Econo-
CONSTANT, Benjamin. Escritos de polí-
tica. Tradução de Eduardo Brandão. São
Paulo: Martins Fontes, 2005.

JUSTIÇA E DIÁLOGO SOCIAL 15


SAMUEL VASCONCELOS MARQUES (autor)
Mestre em Direito Constitucional nas Relações Públicas. Bacharel em Direito pela Universidade de Fortaleza. Professor de
Direito Constitucional e Direitos Humanos. Advogado (OAB/CE nº 35.187) e consultor jurídico. Membro do Grupo de Pesquisa
Relações Econômicas, Políticas e Jurídicas na América Latina (REPJAL).

KARLSON GRACIE (ilustrador)


Nasceu em Paulista, Pernambuco. Desenha desde criança. A arte e a leitura estiveram sempre presentes em sua vida. Filmes,
desenhos animados, histórias em quadrinhos e videogames eram inspirações para desenhar. Integra o Núcleo de Design (NDE)
da Fundação Demócrito Rocha, onde faz o que mais gosta: imaginar, criar e ilustrar.

Apoio Realização

16 FUNDAÇÃO DEMÓCRITO ROCHA | UNIVERSIDADE ABERTA DO NORDESTE