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INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS


REVISTA IHU ON-LINE

Anatomia do novo neoliberalismo. Artigo de Pierre Dardot


e Christian Laval
Edição: 537
MPVM - 16º domingo do tempo comum - Ano C - A alegria da hospitalidade e do
serviço ao outro

25 Julho 2019

“Já não há freio ao exercício do poder neoliberal por meio da lei, na mesma
medida em que a lei se tornou o instrumento privilegiado da luta do
neoliberalismo contra a democracia. O Estado de direito não está sendo
abolido de fora, mas destruído por dentro para fazer dele uma arma de
guerra contra a população e a serviço dos dominantes”, escrevem os
pensadores franceses Pierre Dardot e Christian Laval, em artigo publicado
pela revista Viento Sur n. 164 e reproduzido por Rebelión, 24-07-2019.
A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Há uma dezena de anos vem se anunciando regularmente o fim do


neoliberalismo: a crise financeira mundial de 2008 se apresentou como o
último estertor de sua agonia, depois, foi a vez da crise grega na Europa (ao
menos até julho de 2015), sem esquecer, é claro, o terremoto causado pela
eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, em novembro de 2016,
seguido do referendo sobre o Brexit, em março de 2017.
O fato de Grã-Bretanha e Estados Unidos, que foram terras de promissão
do neoliberalismo em tempos de Thatcher e Reagan, deixarem
parecer que lhe viraram as costas mediante uma reação nacionalista tão
repentina, marcou os espíritos em razão do seu alcance simbólico.
Depois, em outubro de 2018, ocorreu a eleição de Jair Bolsonaro, que
promete tanto o retorno da ditadura como a aplicação de um programa
neoliberal de uma violência e uma amplitude muito parecidas com as
dos Chicago Boys de Pinochet.
O neoliberalismo não só sobrevive como sistema de poder, como
também se reforça. É preciso compreender esta singular radicalização, o
que implica discernir o caráter tanto plástico, como plural do
neoliberalismo. Mas, é necessário ir ainda mais longe e perceber o sentido
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das transformações atuais do neoliberalismo, ou seja, a especificidade


do que aqui chamamos o novo neoliberalismo.
A crise como modo de governo
Recordemos de início o que significa o conceito de neoliberalismo, que
perde uma grande parte de sua pertinência quando é empregado de forma
confusa, como acontece muitas vezes. Não se trata somente de políticas
econômicas monetaristas ou de austeridade, de mercantilização das
relações sociais ou de ditadura dos mercados financeiros. Trata-se mais
fundamentalmente de uma racionalidade política que se tornou mundial e
que consiste em impor por parte dos governos, na economia, na sociedade
e no próprio Estado, a lógica do capital até a converter na forma das
subjetividades e na norma das existências.
Projeto radical e inclusive, caso se queira, revolucionário,
o neoliberalismo não se confunde, portanto, com um conservadorismo
que se contenta em reproduzir as estruturas desiguais estabelecidas.
Através do jogo das relações internacionais de concorrência e dominação e
da mediação das grandes organizações de ‘governança mundial’
(FMI, Banco Mundial, União Europeia, etc.), este modo de governo
se tornou com o tempo um verdadeiro sistema mundial de poder,
comandado pelo imperativo de sua própria manutenção.
O que caracteriza este modo de governo é que se alimenta e se radicaliza
por meio de suas próprias crises. O neoliberalismo só se sustenta e se
reforça porque governa mediante a crise. Com efeito, desde os anos 1970,
o neoliberalismo se nutre das crises econômicas e sociais que gera. Sua
resposta é invariável: em vez de questionar a lógica que as provocou, é
preciso levar ainda mais longe essa mesma lógica e procurar reforçá-la
indefinidamente.
Se a austeridade gera déficit orçamentário, é preciso acrescentar uma dose
suplementar. Se a concorrência destrói o tecido industrial ou desertifica
regiões, é preciso aguçá-la ainda mais entre as empresas, entre os
territórios, entre as cidades. Se os serviços públicos já não cumprem sua
missão, é preciso esvaziar esta última de qualquer conteúdo e privar os
serviços dos meios que precisam. Se a diminuição de impostos para os ricos
ou empresas não dão os resultados esperados, é preciso aprofundar ainda
mais nisto, etc.
Este governo mediante a crise só é possível, está claro, porque o
neoliberalismo se tornou sistêmico. Toda crise econômica, como a de 2008,
é interpretada em termos de sistema e só recebe respostas que compatíveis
com o mesmo. A ausência de alternativas não é tão somente a manifestação
de um dogmatismo no plano intelectual, mas a expressão de um
funcionamento sistêmico, em escala mundial. Para amparar a globalização
e/ou reforçar a União Europeia, os Estados impuseram múltiplas regras
e imperativos que os levam a reagir no sentido do sistema.
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Contudo, o que é mais recente e sem dúvida merece nossa atenção é que
agora se nutre das reações negativas que provoca no plano político, que se
reforça com a mesma hostilidade política que suscita. Estamos assistindo a
uma de suas metamorfoses, e não é a menos perigosa. O neoliberalismo já
não precisa de sua imagem liberal ou democrática, como nos bons tempos
que é necessário chamar, com razão, de neoliberalismo clássico. Esta
imagem inclusive se tornou um obstáculo para sua dominação, coisa que
somente é possível porque o governo neoliberal não hesita em
instrumentalizar os ressentimentos de um amplo setor da população, falta
de identidade nacional e de proteção pelo Estado, dirigindo-os contra
bodes expiatórios.
No passado, muitas vezes, o neoliberalismo se associou com a abertura, o
progresso, as liberdades individuais, com o Estado de direito. Atualmente,
conjuga-se com o fechamento de fronteiras, a construção de muros, o culto
à nação e a soberania do Estado, a ofensiva declarada contra os direitos
humanos, acusados de colocar em perigo a segurança. Como é possível esta
metamorfose do neoliberalismo?
Trumpismo e fascismo
Trump é incontestavelmente um marco na história do neoliberalismo
mundial. Esta mutação não afeta apenas os Estados Unidos, mas todos os
governos, cada vez mais numerosos, que manifestam tendências
nacionalistas, autoritárias e xenófobas até o ponto de assumir a referência
ao fascismo, como no caso de Matteo Salvini, ou à ditadura militar,
como Bolsonaro.
O fundamental é compreender que estes governos não se opõem em nada
ao neoliberalismo como modo de poder. Ao contrário, reduzem os impostos
para os mais ricos, cortam os subsídios sociais e aceleram as
desregulamentações, particularmente em matéria financeira e ambiental.
Estes governos autoritários, dos quais a extrema direita cada vez mais faz
parte, assumem na realidade o caráter absolutista e hiperautoritário do
neoliberalismo.
Para compreender esta transformação, primeiro convém evitar dois erros.
O mais antigo consiste em confundir o neoliberalismo com
o ultraliberalismo, o libertarianismo, o retorno a Adam Smith ou o fim
do Estado, etc. Como já nos ensinou há muito tempo Michel Foucault, o
neoliberalismo é um modo de governo muito ativo, que não tem muito a
ver com o Estado mínimo passivo do liberalismo clássico. Deste ponto de
vista, a novidade não consiste no grau de intervenção do Estado, nem em
seu caráter coercitivo. O novo é que o antidemocratismo inato do
neoliberalismo, manifesto em alguns de suas grandes teóricos,
como Friedrich Hayek, se plasma hoje em um questionamento político
cada vez mais aberto e radical dos princípios e as formas da democracia
liberal.
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O segundo erro, mais recente, consiste em explicar que estamos diante de


um novo fascismo neoliberal, ou então diante de um momento
neofascista do neoliberalismo [2]. Que seja ao menos frustrante, se não
perigoso politicamente, falar com Chantal Mouffe de um momento
populista para apresentar melhor o populismo como um remédio ao
neoliberalismo, isto está fora de qualquer dúvida. Que seja necessário
desmascarar a impostura de um Emmanuel Macron, que se apresenta
como o único recurso contra a democracia iliberal de Viktor Orbán e
consortes, isto também é certo. Mas, por acaso, isto justifica que se misture
em um mesmo fenômeno político a ascensão das extremas direitas e a
deriva autoritária do neoliberalismo?
A assimilação é evidentemente problemática: como identificar se não
mediante uma analogia superficial o Estado total tão característico do
fascismo e a difusão generalizada do modelo de mercado e da empresa no
conjunto da sociedade? No fundo, se esta assimilação permite lançar luz,
centrando-nos no fenômeno Trump, sobre certo número de traços do
novo neoliberalismo, ao mesmo tempo mascara sua individualidade
histórica. A inflação semântica em torno do fascismo, sem dúvida, tem
efeitos críticos, mas tende a afogar os fenômenos ao mesmo tempo
complexos e singulares em generalizações pouco pertinentes, que por sua
vez não podem a não ser dar lugar a um desarme político.
Para Henry Giroux [3], por exemplo, o fascismo neoliberal é uma
“formação econômico-política específica”, que mistura ortodoxia
econômica, militarismo, desprezo pelas instituições e as leis,
supremacismo branco, machismo, ódio aos intelectuais e
amoralismo. Giroux toma emprestado do historiador do
fascismo, Robert Paxton(2009), a ideia de que o fascismo se apoia em
paixões mobilizadoras que voltamos a encontrar no fascismo neoliberal:
amor ao chefe, hipernacionalismo, fantasmas racistas, desprezo ao débil,
inferior, estrangeiro, desconsideração pelos direitos e a dignidade das
pessoas, violência para com os adversários, etc.
Embora encontramos todos estes ingredientes no trumpismo e mais
ainda no bolsonarismo brasileiro, por acaso, não nos escapa sua
especificidade em relação ao fascismo histórico? Paxton admite que
“Trump retoma vários motivos tipicamente fascistas”, mas vê nele
sobretudo os traços mais comuns de uma “ditadura plutocrática” [4].
Porque também existem grandes diferenças com o fascismo: não impõe o
partido único, nem a proibição de qualquer oposição e de qualquer
dissidência, não mobiliza e enquadra as massas em organizações
hierárquicas obrigatórias, não estabelece o corporativismo profissional,
não pratica liturgias de uma religião laica, não preconiza o ideal do cidadão
soldado totalmente consagrado ao Estado total, etc. (Gentile, 2004).
A este respeito, todo paralelismo com o final dos anos 1930, nos Estados
Unidos, é enganoso, por mais que Trump tenha feito seu o lema “America
first”, nome dado por Charles Lindbergh à organização fundada em
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outubro de 1940 para promover uma política isolacionista frente ao


intervencionismo de Roosevelt. Trump não converte em realidade a
ficção escrita por Philip Roth (2005), que imaginou
que Lindberghtriunfaria sobre Roosevelt nas eleições presidenciais de
1940. Ocorre que Trump não é para Clinton ou Obama o
que Lindbergh foi para Roosevelt e que, neste sentido, qualquer
analogia é precária. Se Trump estimula cada vez mais a
escalada antiestablishment para agradar sua clientela eleitoral, não trata,
no entanto, de suscitar revoltas antissemitas, ao contrário
do Lindbergh do romance, inspirado diretamente no exemplo nazista.
Mas, sobretudo, não estamos vivendo um momento polanyiano, como
acredita RobertKuttner (2018), caracterizado pela recuperação do
controle dos mercados pelos poderes fascistas frente aos estragos causados
pelo não intervencionismo. Em certo sentido, é totalmente o contrário, e o
caso é bastante mais paradoxal. Trump pretende ser o campeão da
racionalidade empresarial, inclusive em sua maneira de realizar sua
política, tanto interior como exterior. Vivemos o momento em que o
neoliberalismo segrega a partir do interior uma forma política original que
combina autoritarismo antidemocrático, nacionalismo econômico e
racionalidade capitalista ampliada.
Uma crise profunda da democracia liberal
Para compreender a mutação atual do neoliberalismo e evitar confundi-la
com o seu fim é preciso ter uma concepção dinâmica do mesmo. Três ou
quatro decênios de neoliberalização afetaram profundamente a própria
sociedade, instalando em todos os aspectos das relações sociais situações
de rivalidade, de precariedade, de incerteza, de empobrecimento absoluto
e relativo. A generalização da concorrência nas economias, assim como,
indiretamente, no trabalho assalariado, nas leis e nas instituições que
marcam a atividade econômica, teve efeitos destrutivos na condição das
pessoas assalariadas, que se sentiram abandonadas e traídas. As defesas
coletivas da sociedade, por sua vez, se fragilizaram. Os sindicatos, em
particular, perderam força e legitimidade.
Os coletivos de trabalho se decompuseram, muitas vezes, por efeito de uma
gestão empresarial muito individualista. A participação política já não tem
sentido diante da ausência de opções alternativas muito diferentes. Por
certo, a social-democracia, assentida à racionalidade dominante, está em
vias de desaparecimento em um grande número de países.
Em suma, o neoliberalismo gerou o que Gramsci chamou de ‘monstros’
mediante um duplo processo de desfiliação da comunidade política e de
adesão a princípios etnoidentitários e autoritários, que colocam em
questionamento o funcionamento normal das democracias liberais. O
trágico do neoliberalismo é que, em nome da razão suprema do capital,
atacou os próprios fundamentos da vida social, do modo como havia sido
formulado e imposto na época moderna, através da crítica social e
intelectual.
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Para dizer isso de maneira um tanto esquemática, a implementação dos


princípios mais elementares da democracia liberal comportou rapidamente
muito mais concessões às massas do que poderia ser aceito pelo liberalismo
clássico. Este é o sentido do que se chamou justiça social ou
também democracia social, que não deixou de ser criticada pelos grupos
de teóricos neoliberais. Ao querer converter a sociedade em uma ordem da
concorrência que só conheceria homens econômicos ou capitais humanos
em luta uns contra outros, minaram as próprias bases da vida social e
política nas sociedades modernas, especialmente em razão da progressão
do ressentimento e da cólera que semelhante mutação não poderia deixar
de provocar.
Como se surpreender então com a resposta da massa de perdedores ao
estabelecimento desta ordem competitiva? Ao ver se degradar suas
condições e desaparecer seus pontos de apoio e de referência coletivos,
refugiam-se na abstenção política ou no voto de protesto, que é antes de
mais nada um chamado à proteção contra as ameaças que pesam sobre sua
vida e seu futuro. Em poucas palavras, o neoliberalismo engendrou uma
crise profunda da democracia liberal-social, cuja manifestação mais
evidente é a forte ascensão dos regimes autoritários e dos partidos de
extrema direita, apoiados por uma ampla parte das classes populares
nacionais. Deixamos para trás a época do pós-guerra fria, na qual ainda era
possível acreditar na expansão mundial do modelo de democracia de
mercado.
Assistimos agora, e de forma acelerada, um processo inverso de saída da
democracia ou de desdemocratização, para retomar a justa expressão
de Wendy Brown. Os jornalistas gostam de misturar a extrema direita e
a esquerda radical no vasto marasmo de um populismo antissistema. Não
veem que a canalização e a exploração desta cólera e destes ressentimentos
pela extrema direita dão luz a um novo neoliberalismo, ainda mais
agressivo, ainda mais militarizado, ainda mais violento, do qual Trump é
tanto a bandeira como a caricatura.
O novo neoliberalismo
O que aqui chamamos de novo neoliberalismo é uma versão original da
racionalidade neoliberal na medida em que adotou abertamente o
paradigma da guerra contra a população, apoiando-se, para se legitimar,
na cólera dessa mesma população e invocando, inclusive, uma soberania
popular dirigida contra as elites, contra a globalização ou contra
a União Europeia, de acordo com os casos.
Em outras palavras, uma variante contemporânea do poder neoliberal fez
sua a retórica do soberanismo e adotou um estilo populista para reforçar
e radicalizar o domínio do capital sobre a sociedade. No fundo, é como se o
neoliberalismo aproveitasse a crise da democracia liberal-social que
provocou e não cessa de agravar para impor melhor a lógica do capital
sobre a sociedade.
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Esta recuperação da cólera e dos ressentimentos requer sem dúvida, para


ser realizada efetivamente, o carisma de um líder capaz de encarnar a
síntese, outrora improvável, de um nacionalismo econômico, uma
liberalização dos mecanismos econômicos e financeiros e uma política
sistematicamente pró-empresarial. No entanto, atualmente, todas as
formas nacionais do neoliberalismo experimentam uma transformação de
conjunto, da qual o trumpismo nos oferece a forma quase pura.
Esta transformação acentua um dos aspectos genéricos
do neoliberalismo, seu caráter intrinsecamente estratégico. Porque não
esqueçamos que o neoliberalismo não é conservadorismo. É um paradigma
governamental cujo princípio é a guerra contra as estruturas arcaicas e as
forças retrógradas que resistem à expansão da racionalidade capitalista e,
mais amplamente, a luta para impor uma lógica normativa a populações
que não a querem.
Para alcançar seus objetivos, este poder emprega todos os meios que lhe
são necessários: a propaganda dos meios de comunicação, a legitimação
pela ciência econômica, a chantagem e a mentira, o descumprimento das
promessas, a corrupção sistêmica das elites, etc. Contudo, uma de suas
alavancas preferidas é o recurso às vias da legalidade, leia-se
da Constituição, de modo que cada vez mais o marco no qual todos os
atores devem se mover se torne irreversível. Uma legalidade que
evidentemente é de geometria variável, sempre mais favorável aos
interesses das classes ricas que aos do restante.
Não é necessário recorrer ao estilo antigo, aos golpes de Estado militares,
para colocar em prática os preceitos da escola de Chicago, se é possível
colocar um cadeado no sistema político, como no Brasil, mediante um
golpe parlamentar e judicial. Este último permitiu, por exemplo, ao
presidente Temer congelar durante 20 anos os gastos sociais (sobretudo
em detrimento da saúde pública e da universidade). Na realidade, o
brasileiro não é um caso isolado, por mais que lá os recursos da manobra
sejam mais visíveis que em outras partes, sobretudo após a vitória
de Bolsonaro como ponto de chegada do processo. O fenômeno, para
além de suas variações nacionais, é geral: é no interior do marco formal do
sistema político representativo que se estabelecem dispositivos
antidemocráticos de uma temível eficácia corrosiva.
Um governo de guerra civil
A lógica neoliberal contém em si mesma uma declaração de guerra a todas
as forças de resistência às reformas em todas as camadas da sociedade. A
linguagem vigente entre os governantes de todos os níveis não engana: a
população inteira precisa se sentir mobilizada pela guerra econômica, e as
reformas do direito trabalhista e da proteção social são realizadas
justamente para favorecer o envolvimento universal nessa guerra. Tanto no
plano simbólico como no institucional, ocorre uma mudança a partir do
momento em que o princípio de competitividade adquire um caráter quase
constitucional.
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Posto que estamos em guerra, os princípios da divisão de poderes, dos


direitos humanos e da soberania do povo já possuem apenas um valor
relativo. Em outras palavras, a democracia liberal-social tende
progressivamente a se esvaziar para passar a não ser mais que o
revestimento jurídico-político de um governo de guerra. Aqueles que se
opõem à neoliberalização se situam fora do espaço público legítimo, são
maus patriotas, quando não traidores.
Esta matriz estratégica das transformações econômicas e sociais, muito
próxima a um modelo naturalizado de guerra civil, se junta com outra
tradição, esta mais genuinamente militar e policial, que declara a segurança
nacional a prioridade de todos os objetivos governamentais. A fragilização
das liberdades públicas do Estado de direito e a extensão concomitante
dos poderes policiais se acentuaram com a guerra contra a criminalidade e
a guerra contra a droga dos anos 1970.
Contudo, foi sobretudo após a declaração de guerra mundial contra o
terrorismo, imediatamente depois do 11 de setembro de 2001, que se deu o
desdobramento de um conjunto de medidas e dispositivos que violam
abertamente as regras de proteção das liberdades na democracia liberal,
chegando inclusive a incorporar na lei a vigilância massiva da população, a
legalização do encarceramento sem julgamento e o uso sistemático da
tortura.
Para Bernard E. Harcourt (2018), este modelo de governo, que consiste
em “fazer a guerra contra todo cidadão”, procede em linha direta das
estratégias militares contrainsurgentes colocadas em prática pelo exército
francês na Indochina e na Argélia, transmitidas aos especialistas
estadunidenses da luta anticomunista e praticadas por seus aliados,
especialmente na América Latina e no sudeste asiático.
Hoje, a “contrarrevolução sem revolução”, como a denomina Harcourt,
busca reduzir por todos os meios a um inimigo interior e exterior
onipresente, que tem muito mais cara de jihadista, mas que pode adotar
muitas outras caras (estudantes, ambientalistas, camponeses, jovens
negros nos Estados Unidos ou jovens dos subúrbios na França, e talvez,
sobretudo neste momento, migrantes ilegais, preferentemente
muçulmanos). E para levar a bom término esta guerra contra o inimigo,
convém que o poder, por um lado, militarize a polícia e, por outro, acumule
uma massa de informações sobre toda a população com a finalidade de
impedir qualquer rebelião possível. Em suma, o terrorismo de Estado se
encontra novamente em plena progressão, até mesmo quando a ameaça
comunista, que lhe havia servido de justificativa durante a Guerra Fria,
desapareceu.
A imbricação destas duas dimensões, a radicalização da estratégia
neoliberal e o paradigma militar da guerra contrainsurgente, a partir da
mesma matriz de guerra civil, constitui atualmente o principal acelerador
da saída da democracia. Este enlace só é possível graças à habilidade com
a qual certo número de responsáveis políticos da direita, ainda que também
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da esquerda, se dedicam a canalizar, mediante um estilo populista, os


ressentimentos e o ódio aos inimigos escolhidos, prometendo às massas
ordem e proteção em troca de sua adesão à política neoliberal autoritária.
O neoliberalismo de Macron
No entanto, não é exagerado meter todas as formas de neoliberalismo no
mesmo saco de um novo neoliberalismo? Existem tensões muito fortes
em escala mundial ou europeia entre o que se deve qualificar como tipos
nacionais diferentes de neoliberalismo. Sem dúvida, não
assimilaríamos Trudeau, Merkel e Macron a Trump, Erdogan, Orb
án, Salvini e Bolsonaro.
Alguns ainda permanecem fiéis a uma forma de concorrência comercial
supostamente leal, sendo que Trump decidiu mudar as regras da
concorrência, transformando esta última em guerra comercial a serviço da
grandeza dos Estados Unidos (America is Great Again). Alguns
invocam ainda, de palavra, os direitos humanos, a divisão de poderes, a
tolerância e a igualdade de direitos das pessoas, quando aos outros tudo
isto não é cuidado. Alguns pretendem mostrar uma atitude humana frente
aos migrantes (alguns muito hipocritamente), quando outros não têm
escrúpulos na hora de rejeitá-los e repatriá-los. Portanto, convém
diferenciar o modelo neoliberal.
O macronismo não é trumpismo, ainda que só fosse pelas histórias e as
estruturas políticas nacionais em que se inscrevem. Macron se apresentou
como o baluarte frente ao populismo de extrema direita de Marine Le Pen,
como sua aparente antítese. Aparente, porque Macron e Le Pen, se não
são pessoas idênticas, na realidade, são perfeitamente complementares.
Um se faz de baluarte, quando a outra aceita vestir os hábitos do
espantalho, o que permite ao primeiro se apresentar como garantidor das
liberdades e dos valores humanos. Se preciso, como ocorre hoje nos
preparativos para as eleições europeias, Macron se dedica a alargar
artificialmente a suposta diferença entre os partidários da democracia
liberal e a democracia iliberal do estilo de Orbán, para que as pessoas
acreditem mais facilmente que a União Europeia se situa como tal do
lado da democracia liberal.
No entanto, talvez não se tenha percebido suficientemente o estilo
populista de Macron, que pode parecer uma simples máscara por parte de
um puro produto da elite política e financeira francesa. A denúncia do velho
mundo dos partidos, a rejeição ao sistema, a evocação ritual do povo da
França, tudo isto era talvez suficientemente superficial, ou inclusive
grotesco, mas não por isso deixou de fazer uso do emprego de um método
característico, justamente, do novo neoliberalismo, o da recuperação da
cólera contra o sistema neoliberal. Não obstante, o macronismo não tinha
o espaço político para tocar esta música durante muito tempo. Logo,
revelou-se como o que era e o que fazia.
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Em linha com os governos franceses precedentes, mas de maneira mais


declarada ou menos vergonhosa, Macron associa ao nome de Europa a
violência econômica mais crua e mais cínica contra as pessoas assalariadas,
aposentadas, funcionárias e assistidas, assim como a violência policial mais
sistemática contra as manifestações de oponentes, como se viu, em
particular, na Notre-Dame-des-Landes e contra as pessoas migrantes.
Todas as manifestações sindicais ou estudantis, inclusive as mais pacíficas,
são reprimidas sistematicamente por uma polícia armada até os dentes,
cujas novas manobras e técnicas de força são pensadas para aterrorizar
aqueles que se manifestam e intimidar o restante da população.
O caso de Macron está entre os mais interessantes para completar o
retrato do novo neoliberalismo. Levando mais longe ainda a identificação
do Estado com a empresa privada, até o ponto de pretender fazer da França
um start-up nation, não para de centralizar o poder em suas mãos e chega,
inclusive, a promover uma mudança constitucional que convalidará a
fragilização do Parlamento em nome da eficácia.
A diferença com Sarkozy neste ponto salta à vista. Enquanto este último
se agarrava a declarações provocadoras, ao mesmo tempo em que
alcançava um estilo relaxado no exercício de sua função, Macron pretende
devolver todo o brilho e solenidade à função presidencial. Deste modo,
conjuga um despotismo de empresa com a subjugação das instituições da
democracia representativa em benefício exclusivo do poder executivo.
Falou-se com razão de bonapartismo para lhe caracterizar, não só pela
maneira como tomou o poder, acabando com os velhos partidos
governamentais, como também por causa de seu desprezo manifesto a
todos os contrapoderes. A novidade que introduziu nesta antiga
tradição bonapartista é justamente uma verdadeira governança de
empresa. O macronismo é um bonapartismo empresarial.
O aspecto autoritário e vertical de seu modo de governo se encaixa
perfeitamente no marco de um novo neoliberalismo mais violento e
agressivo, imagem e semelhança da guerra travada contra os inimigos da
segurança nacional. Por acaso, uma das medidas mais emblemáticas
de Macron não foi a inclusão na lei ordinária, em outubro de 2017, de
disposições excepcionais do estado de emergência, declarado após os
atentados de novembro de 2015?
A aplicação da lei contra a democracia
Não cabe descartar que se produza no Ocidente um
momento polanyiano, ou seja, uma solução verdadeiramente fascista,
tanto no centro como na periferia, sobretudo caso seja produzida uma nova
crise da amplitude da de 2008. O acesso ao poder pela extrema direita na
Itália é um toque de advertência suplementar. Enquanto isso, neste
momento que prevalece até nova ordem, estamos assistindo a uma
exacerbação do neoliberalismo, que conjuga a maior liberdade do capital
com ataques cada vez mais profundos, contra a democracia liberal-social,
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tanto no âmbito econômico e social, como no terreno judicial e policial. É


necessário se contentar em retomar o tópico crítico de que o estado de
exceção se tornou a regra?
Ao argumento de origem schmittiano do estado de exceção permanente,
retomado por Giorgio Agamben, que supõe uma suspensão pura e simples
do Estado de direito, devemos opor os fatos observáveis: o novo
governo neoliberal se implanta e cristaliza com a promulgação de
medidas de guerra econômica e policial. Dado que as crises sociais,
econômicas e políticas são permanentes, corresponde à legislação
estabelecer as regras válidas de forma permanente, que permitam aos
governos responder a elas a todo momento e inclusive preveni-las.
Deste modo, a crise e urgências permitiram o nascimento do
que Harcourt denomina um “novo estado de legalidade”, que legaliza o
que até agora não eram mais que medidas de emergência ou respostas
conjunturais de política econômica e social. Mais que um estado de exceção
que opõe regras e exceções, precisamos vê-las com uma transformação
progressiva e muito sutil do Estado de direito, que incorporou em sua
legislação a situação de dupla guerra econômica e policial para a qual os
governos nos conduziram.
Para dizer a verdade, os governantes não estão totalmente desprovidos
para legitimar intelectualmente semelhante transformação. A doutrina
neoliberal já havia elaborado o princípio desta concepção do Estado de
direito. Assim, Hayek subordinava explicitamente o Estado de direito à
lei. Segundo ele, a lei não designa qualquer norma, mas, sim,
exclusivamente, o tipo de regras de conduta que são aplicáveis a todas as
pessoas por igual, incluídas os personagens públicos. O que caracteriza
propriamente a lei é, portanto, a universalidade formal, que exclui
qualquer forma de exceção.
Por conseguinte, o verdadeiro Estado de direito é o Estado de direito
material (materieller Rechtsstaat), que requer da ação do Estado a
submissão a uma norma aplicável a todas as pessoas em virtude de seu
caráter formal. Não basta que uma ação do Estado seja autorizada pela
legalidade vigente, à margem da classe de normas das quais deriva. Em
outras palavras, trata-se de criar não um sistema de exceção, mas, ao
contrário, um sistema de normas que proíba a exceção. E dado que a guerra
econômica e policial não tem fim e reivindica cada vez mais medidas de
coerção, o sistema de leis que legalizam as medidas de guerra econômica e
policial precisa se estender por força para além de qualquer limitação.
Dizendo de outra forma, já não há freio ao exercício do poder neoliberal
por meio da lei, na mesma medida em que a lei se tornou o instrumento
privilegiado da luta do neoliberalismo contra a democracia. O Estado de
direito não está sendo abolido de fora, mas destruído por dentro para fazer
dele uma arma de guerra contra a população e a serviço dos dominantes.
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O projeto de lei de Macron sobre a reforma das aposentadorias é, a este


respeito, exemplar: em conformidade com a exigência de universalidade
formal, seu princípio é que um euro cotado confere exatamente o mesmo
direito a todos, seja qual for sua condição social. Em virtude deste
princípio, está proibido, portanto, levar em conta a penúria das condições
de trabalho no cálculo do valor da aposentadoria. Nesta questão, também
fica evidente a diferença entre Sarkozy e Macron. Enquanto o primeiro
fez aprovar uma lei após outra, sem que lhe acompanhassem respectivos
decretos de aplicação, o segundo se preocupa muito com a aplicação das
leis.
Aí está a diferença entre reformar e transformar, tão cara a Macron: a
transformação neoliberal da sociedade requer a continuidade da aplicação
no tempo e não pode se contentar com os efeitos do anúncio, sem mais.
Além disso, este modo de proceder comporta uma vantagem inestimável:
uma vez aprovada uma lei, os governos podem escapar de sua parte de
responsabilidade sob pretexto de que se limitam a aplicar a lei.
No fundo, o novo neoliberalismo é a continuação do antigo de maneira
pior. O marco normativo global que insere indivíduos e instituições dentro
de uma lógica de guerra implacável, reforça-se cada vez mais e acaba
progressivamente com a capacidade de resistência, desativando o coletivo.
Esta natureza antidemocrática do sistema neoliberal explica em grande
parte a espiral sem fim da crise e o aceleramento diante de nossos olhos do
processo de desdemocratização, pelo qual a democracia se esvazia de sua
substância, sem que se suprima formalmente.
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Leia mais
 O Comum: um ensaio sobre a revolução no século 21
 “O imaginário de Estado-nação não é um imaginário alternativo ao
neoliberalismo”. Entrevista com Christian Laval e Pierre Dardot
 Comuns, a racionalidade do Pós-Capitalismo
 Neoliberalismo: A “grande ideia” que engoliu o mundo
 “As instituições europeias criadas nos últimos dez anos tornam o
neoliberalismo mais forte”. Entrevista com Costas Lapavitsas
 “Na reorganização do neoliberalismo, a extrema-direita apresentou um
projeto. E as esquerdas?” Entrevista com Ricardo Antunes
 “Para se defender, o neoliberalismo faz a democracia se esgotar”.
Entrevista com Grégoire Chamayou
 A nova equipe econômica e a continuidade do neoliberalismo.
Entrevista especial com Marcelo Carcanholo
 Neoliberalismo, distopias e Bolsonaro presidente
 Militarismo com neoliberalismo, tragédia para a economia
 A polarização política, as paixões da sociedade e a disputa pelos rumos
do neoliberalismo. Entrevista especial com Alana Moraes
13

 Apesar das desproporções, o Comum continua sendo a principal ameaça


ao neoliberalismo, segundo Christian Laval
 'Neoliberalismo está moribundo, mas não sabemos para onde vamos'.
Entrevista com Luiz Gonzaga Belluzzo
 Neoliberalismo e pós-fascismo. Artigo de Jorge Alemán
 “O neoliberalismo é uma perversão da economia dominante”. Artigo de
Dani Rodrick
 O neoliberalismo e sua falha fatal
 A subordinação da esquerda brasileira ao neoliberalismo e o abandono
da Teoria da Dependência. Entrevista especial com Carlos Eduardo
Martins
 Neoliberalismo: A “grande ideia” que engoliu o mundo
 "A alternativa ao neoliberalismo é... romper com o neoliberalismo!"
Entrevista especial com Marcelo Carcanholo
 A morte anunciada (e nunca ocorrida) do neoliberalismo. Artigo de
Roberto Esposito
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http://www.ihu.unisinos.br/186-noticias/noticias-2017/574765-o-neoliberalismo-e-uma-perversao-da-economia-
dominante-artigo-de-dani-rodrick

INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS


REVISTA IHU ON-LINE

“O neoliberalismo é uma perversão da economia


dominante”. Artigo de Dani Rodrick

21 Dezembro 2017

“Os neoliberais certamente não estão errados quando argumentam que


esses ideais preciosos são mais propensos a ser alcançados em uma
economia vibrante, forte e em expansão. No entanto, eles se enganam
quando pensam que existe uma receita única e universal para melhorar o
desempenho econômico, à qual eles teriam acesso. O erro fatal
do neoliberalismo é que ele se engana sobre o que é a economia em si. Este
deve ser rejeitado em seus próprios termos pela simples e boa razão de que
é uma economia ruim”. A reflexão é de Dani Rodrik, professor de economia
política internacional na Escola de Governo John F.
Kennedy na Universidade de Harvard, em artigo publicado
por Alternatives Économiques, 12-12-2017. A tradução é de André
Langer.
14

Eis o artigo.

Mesmo os críticos mais contumazes reconhecem: é difícil definir


o neoliberalismo. Em geral, este termo sugere uma preferência pelos
mercados e não pelo Estado, pelos incentivos econômicos, em vez das
normas culturais, e pelas empresas privadas em detrimento da ação
coletiva. De Augusto Pinochet a Margaret Thatcher ou Ronald Reagan, dos
democratas estadunidenses ao novo Partido Trabalhista britânico, da
abertura econômica chinesa até a reforma do Estado-providência
na Suécia, a palavra tem sido usada para descrever uma grande variedade
de situações.
Assim, a palavra “neoliberalismo” é usada como um coringa que qualifica
qualquer coisa relativa à desregulamentação, à liberalização, à privatização
ou à austeridade fiscal. Hoje, ele é rotineiramente difamado e equiparado
a todas as ideias e práticas que contribuíram para o aumento da
insegurança econômica e das desigualdades, o que nos levou à perda de
nossos valores e de nossos ideais políticos e, finalmente, precipitou o
surgimento de movimentos populistas.
Onde estão os neoliberais?
Aparentemente, nós vivemos na era do neoliberalismo. Mas quem são, no
final das contas, os seguidores e os disseminadores dessa corrente de
pensamento – os próprios neoliberais? Curiosamente, teríamos que voltar
quase ao início dos anos 1980 para encontrar alguém que tenha abraçado
explicitamente o neoliberalismo. Em 1982, Charles Peters – que durante
muitos anos dirigiu a revista política Washington Monthly – publicou
um “Manifesto Neoliberal”, que constitui ainda hoje, passados 35 anos,
uma leitura interessante, pois o neoliberalismo que ele descreve tem pouca
semelhança com o alvo de escárnio de hoje. De acordo com Peters, os
políticos que encarnam o movimento neoliberal não seriam semelhantes
a Thatcher ou Reagan, mas liberais – no sentido estadunidense da
palavra – que, após se decepcionarem com os sindicatos e a onipresença
dos governos centrais, abandonaram seus preconceitos contra os
mercados.
O uso do termo “neoliberal” explodiu na década de 1990, quando foi
associado a dois fenômenos, nenhum dos quais foi mencionado no artigo
de Peters. O primeiro deles é a desregulamentação financeira, que
culminaria na crise financeira de 2008 e na ainda atormentada fragilidade
da zona do euro. O segundo fenômeno é a mundialização econômica, que
se acelerou graças à livre circulação de capitais e a um novo e mais
ambicioso tipo de acordos comerciais. A financeirização e a globalização
tornaram-se as manifestações mais visíveis do neoliberalismo no mundo
de hoje.
15

Entre ciência e ideologia


O fato de que o neoliberalismo é um conceito escorregadio e maleável e que
não dispõe de um lobby explícito de defensores, não significa que seja
insignificante ou irreal. Quem pode, com efeito, contestar que o mundo não
experimentou uma mudança decisiva em relação aos mercados desde a
década de 1980? Ou o fato de que os políticos de centro-esquerda – os
democratas nos Estados Unidos, os socialistas e os social-
democratas na Europa – abraçaram com entusiasmo alguns dos credos
centrais do thatcherismo ou do reaganismo, como a desregulamentação, a
privatização, a liberalização financeira ou a iniciativa privada? Grande
parte das nossas discussões políticas contemporâneas está imbuída de
princípios baseados no conceito de homo œconomicus, um ser humano
perfeitamente racional que procura maximizar o interesse próprio e que
constitui um elemento central de muitas teorias econômicas.
Mas a elasticidade do termo “neoliberalismo” também significa que as
críticas que são direcionadas a essa corrente econômica erram muitas vezes
o alvo. Não há nada de errado nos mercados, na iniciativa ou na empresa
privada quando esses princípios são aplicados adequadamente. As
conquistas econômicas mais importantes do nosso tempo também
resultaram do uso judicioso desses últimos. E ao esquivar o neoliberalismo,
corremos o risco de privar-nos de algumas de suas ideias úteis.

O verdadeiro problema é que a economia mainstream cai muito facilmente


na ideologia, restringindo as escolhas que parece oferecer-nos e fornecendo
soluções de “cortador de biscoitos”. Uma compreensão adequada dos
fenômenos econômicos que fundamentam o neoliberalismo nos permitiria
identificar a ideologia e rejeitá-la quando se disfarçasse de ciência
econômica. Finalmente – e isso certamente é o mais importante –, isso nos
ajudaria a enriquecer a imaginação institucional que precisamos
desesperadamente para reconstruir o capitalismo do século XXI.
Experiência de pensamento
Nós pensamos, de modo geral, o neoliberalismo como a soma de
princípios-chaves da ciência econômica dominante. Para poder estudar
estes princípios sem ideologia, considere uma experiência de pensamento.
Suponhamos que um economista bem conhecido e muito respeitado
desembarca pela primeira vez em um país, sobre o qual não sabe nada. Ele
é convocado para participar de um encontro com os líderes políticos do país
em questão. “Nosso país está com sérios problemas”, disseram-lhe então.
“A economia está estagnada, o investimento é baixo e não há perspectivas
de crescimento à vista”. Os líderes se voltam para ele, cheios de esperança:
“Diga-nos qual é o caminho para que a nossa economia volte a crescer”.
O economista reconhece sua ignorância e explica que seu pouco
conhecimento sobre a economia do país o impede de fazer qualquer
16

recomendação. Ele precisaria estudar a história da economia, analisar


dados estatísticos e viajar pelo país antes de poder dizer qualquer coisa.
Mas seus anfitriões insistem: “Nós entendemos sua reticência, e
gostaríamos que tivesse tido tempo para tudo isso”, dizem eles. “Mas a
economia não é uma ciência, e você não é um dos seus praticantes mais
proeminentes? Mesmo que você não conheça muito bem a nossa economia,
certamente há algumas teorias gerais e algumas diretrizes que nos
ajudariam a orientar as nossas políticas econômicas e as reformas que
queremos implementar”.
O economista encontra-se num impasse. Por um lado, ele não quer imitar
esses gurus econômicos que há muito criticou por venderem seus conselhos
políticos favoritos. Mas ele se sente desafiado por esta questão. Existem
verdades universais na economia? Ele pode dizer algo válido (e
possivelmente útil)?
Que princípios?
Então ele começa a sua exposição. A eficiência com que os recursos de uma
economia são alocados é um determinante crucial do desempenho dessa
economia, diz ele. A eficiência exige, por sua vez, alinhar os incentivos
domésticos e das empresas com os custos e os benefícios sociais. Os
incentivos aos empresários, investidores e produtores são particularmente
importantes para o crescimento econômico. O crescimento precisa de um
sistema bem-sucedido de direitos de propriedade e execução de contratos
capaz de garantir que os investidores mantenham os retornos de seus
investimentos. Finalmente, a economia deve estar aberta a ideias e
inovações do resto do mundo.
Mas um período de instabilidade macroeconômica pode descarrilar a
economia, prossegue o nosso economista visitante. Os governos devem,
portanto, conduzir uma política monetária rigorosa, o que significa
restringir o crescimento da liquidez ao aumento da procura monetária
nominal até um nível razoável de inflação. Eles devem garantir a
sustentabilidade das finanças públicas, de modo que a dívida pública não
exceda a renda nacional. E devem realizar uma regulamentação prudencial
dos bancos e outras instituições financeiras para evitar que o sistema
financeiro como um todo se aproxime de riscos excessivos.
Na sequência, o economista aborda um tema que lhe é caro: “A economia
não se restringe apenas à eficiência e ao crescimento”, acrescenta. Os
princípios econômicos também incluem questões de política social e de
equidade. A economia tem, certamente, pouco a dizer sobre o nível de
redistribuição que uma sociedade deve buscar. Mas defende que a base
tributária deve ser a mais ampla possível e que os programas sociais devem
ser concebidos de forma a não encorajar os trabalhadores a abandonarem
o mercado de trabalho.
No momento em que o economista termina sua apresentação, parece que
ele estabeleceu uma verdadeira agenda neoliberal. Um ouvinte crítico, da
17

plateia, reconhecerá uma série de “palavras-chave”: eficiência, incentivos,


direitos de propriedade, política monetária saudável, prudência fiscal e
financeira. No entanto, os princípios universais que o economista acabou
de descrever são muito vagamente definidos: eles presumem uma
economia capitalista – em que as decisões de investimento são feitas por
agentes e corporações privadas – mas não muito além disso. Na realidade,
eles admitem – e até mesmo requerem – uma incrível variedade de
arranjos institucionais.
Então, o economista acabou de fazer uma análise neoliberal? Nós nos
enganaríamos acreditando nisso; nosso erro consistiria em associar cada
termo abstrato – incentivos, direitos de propriedade, política monetária
sólida – com uma contrapartida institucional predeterminada. E nisso
reside a reivindicação central e o principal erro do neoliberalismo: a crença
de que os princípios econômicos de primeira ordem correspondem a um
único conjunto de políticas, próximo de uma agenda ao estilo
de Thatcher ou de Reagan.
Tomemos os direitos de propriedade. Eles são importantes porque
permitem a distribuição dos retornos sobre os investimentos. Um sistema
ideal conferiria os direitos de propriedade àqueles que fariam o melhor uso
possível de seus ativos, e ofereceria, ao contrário, uma proteção contra
aqueles que correm o risco de se apropriar de todos os benefícios. Assim,
os direitos de propriedade são benéficos quando protegem os inovadores
de passageiros clandestinos, mas são prejudiciais quando os protegem da
concorrência. Dependendo do contexto, um regime jurídico que fornece os
incentivos adequados pode ser bastante diferente do regime padrão de
direitos de propriedade privada ao estilo estadunidense.
“Neoliberalismo” ao estilo chinês?
Isso pode parecer um parêntese semântico sem nenhum interesse prático.
Mas o espetacular sucesso econômico da China deve-se em grande parte ao
seu processo institucional que desafia toda a ortodoxia. A China voltou-se
para os mercados, mas não copiou as práticas ocidentais de direitos de
propriedade. As reformas realizadas no país produziram incentivos
baseados no mercado através de uma série de novos arranjos institucionais
mais adaptados ao contexto local.
Ao invés de passar diretamente da propriedade estatal para a propriedade
privada, por exemplo, o que teria sido limitado em todos os casos pela
fraqueza das instituições, o país passou a se apoiar sobre formas mistas de
propriedade. Isso provou fornecer aos empresários direitos de propriedade
mais eficazes. O Township and Village Enterprises (Programa de
Empresas de Municípios e de Aldeias), que liderou o crescimento chinês na
década de 1980, era de propriedade coletiva e controlado pelos governos
locais. Embora essas empresas pertencessem ao Estado, os empresários
receberam a proteção contra o risco de expropriação de que precisavam. Os
governos locais estavam diretamente interessados nos lucros das empresas
e, portanto, não tinham motivos para matar essas galinhas de ovos de ouro.
18

A China usou uma variedade dessas inovações; cada uma traduzindo os


princípios econômicos de primeira classe para arranjos institucionais
incomuns. As reformas chinesas ajudaram a proteger o setor público chinês
da concorrência global ao estabelecer zonas em que as empresas
estrangeiras poderiam seguir regras diferentes do resto da economia. Em
vista desses desvios dos padrões ortodoxos, qualificar as reformas chinesas
como neoliberais – como alguns críticos estão inclinados a fazer – distorce
a realidade em vez de esclarecê-la. Se nós quiséssemos chamar isso de
neoliberalismo, certamente deveríamos ser mais indulgentes com as ideias
que subjazem à mais espetacular redução da pobreza na história.

Alguns podem retorquir dizendo que as inovações institucionais chinesas


são puramente transitórias: o país, talvez, tenha que convergir para um
modelo de instituições ocidentais para apoiar o seu crescimento
econômico. Mas essa maneira de pensar negligencia a diversidade dos
arranjos capitalistas que ainda prevalecem nas economias avançadas,
apesar da relativa homogeneidade de nossos discursos políticos.
Um roteiro vazio
O que são, afinal, as instituições ocidentais? O peso do setor público varia
muito nos países da OCDE, de um terço do PIB na Coreia do Sul para quase
60% na Finlândia. Na Islândia, 86% dos trabalhadores são membros de
uma organização sindical, em comparação com apenas 16% na Suíça.
Nos Estados Unidos, as empresas podem demitir trabalhadores quase à
vontade, enquanto a legislação trabalhista francesa sempre impôs aos
empregadores várias etapas preliminares. Os mercados de ações
representam hoje quase uma vez e meia o PIB dos Estados Unidos, ao
passo que na Alemanha, sua importância é três vezes menor, cerca de
50% do PIB.
A ideia de que qualquer um desses modelos de tributação, de direito do
trabalho ou de organização financeira pode ser intrinsecamente superior
aos demais é desmentida pela alternância de períodos de prosperidade e
recessão experimentados por essas economias desenvolvidas em décadas
recentes. Os Estados Unidos passaram por vários períodos de turbulências
em que suas instituições econômicas foram julgadas inferiores às
da Alemanha, Japão, China e hoje, provavelmente,
da Alemanha novamente. Certamente, níveis comparáveis de riqueza e
produtividade podem ser alcançados através de modelos muito diferentes
de capitalismo. Poderíamos até dar um passo adiante: todos esses modelos
ainda estão longe de esgotar o campo do que poderia ser possível e
desejável no futuro.
O economista em visita da nossa experiência de pensamento conhece todos
esses exemplos, ele sabe que os princípios que enunciou precisam ser
alimentados por soluções institucionais antes de se tornarem operacionais.
Direitos de propriedade? Sim, mas como? Política monetária sólida? Sim,
19

mas como? Talvez seja mais fácil criticar esta lista de princípios por seu
vazio do que denunciá-la como um programa neoliberal.
Mesmo assim, esses princípios não são inteiramente desprovidos de
conteúdo. A China e, de um modo geral, todos os países que conseguiram
se desenvolver rapidamente, demonstram a utilidade desses princípios
uma vez adaptados ao contexto local. Por outro lado, muitas economias se
voltaram contra os líderes políticos que tentaram violar esses princípios.
Não precisamos ir muito longe – basta olhar para os nossos regimes
populistas da América Latina ou para os regimes comunistas da Europa
Oriental para apreciar a relevância de uma política monetária sólida, de
uma sustentabilidade fiscal e de incentivos privados.
Certamente, a economia não pode ser reduzida a uma lista de princípios
abstratos, em grande parte do senso comum. Grande parte do trabalho dos
economistas consiste em desenvolver modelos estilizados de como
funcionam as economias reais e, em seguida, confrontar esses modelos com
a realidade. Os economistas, portanto, tendem a descrever seu trabalho
como um aperfeiçoamento progressivo de sua compreensão do mundo:
seus modelos devem se tornar cada vez mais eficientes à medida que são
testados e revisados. Na realidade, os progressos na economia acontecem
de forma diferente.
Um modelo, mas qual modelo?
Os economistas estudam uma realidade social que é totalmente diferente
do universo físico dos cientistas naturais. Ela é inteiramente criada pelo
homem, altamente maleável e opera de acordo com regras que variam ao
longo do tempo e do espaço. A economia não avança, portanto, pela escolha
do modelo certo ou da teoria certa para responder às questões que se
podem fazer, mas melhorando a nossa compreensão da diversidade de
relações causais. O neoliberalismo e seus remédios habituais – sempre
mais mercados, sempre menos Estado – são de fato uma perversão da
economia dominante. Os bons economistas sabem que a resposta correta
para qualquer questão em economia é: “depende”.
Um aumento do salário mínimo é prejudicial ao emprego? Sim, se o
mercado de trabalho é competitivo e os empregadores não têm controle
sobre os salários que devem pagar para atrais os trabalhadores; mas não o
contrário. A liberalização do comércio incentiva o crescimento econômico?
Sim, se melhorar a rentabilidade das indústrias onde a maior parte da
inovação e investimento ocorre; mas não o contrário. Um aumento nas
despesas públicas melhora o emprego? Sim, se não há tensões na economia
e os salários não aumentam; mas não o contrário. Uma situação de
monopólio afeta a inovação? Sim e não: dependendo de uma série de
condições do mercado.
Na economia, os novos modelos raramente suplantam os antigos. Os
modelos do mercado concorrencial que remontam a Adam Smith foram
modificados ao longo do tempo pela inclusão – mais ou menos
20

cronologicamente – de questões de monopólio, de externalidades, de


economias de escala, de incompletudes e de assimetria de informações, de
comportamento irracional dos agentes e muitos outros aspectos do mundo
real. No entanto, os modelos antigos permaneceram úteis. Para entender o
funcionamento dos mercados, é necessário visualizá-los através de
diferentes prismas em diferentes momentos.
Um bom economista é um bom cartógrafo
Talvez a analogia mais apropriada para essa situação seja encontrada nos
mapas. Assim como os modelos econômicos, os mapas são representações
altamente estilizadas da realidade. Eles são úteis precisamente porque
abstraem muitos detalhes do mundo real que poderiam dificultar a
compreensão. Mapas em grande escala realistas seriam artefatos
irremediavelmente impraticáveis, como descreveu Jorge Luis Borges em
uma breve história que continua a ser a melhor e mais sucinta explicação
do método científico. Mas essa abstração também implica que precisamos
de mapas diferentes dependendo das nossas necessidades de viagem. Se,
por exemplo, eu ando de bicicleta, preciso de um mapa que indica as trilhas
para bicicletas. Se eu decido ir a pé, escolho um mapa que mostra as trilhas
para caminhadas. Se uma nova linha de metrô for construída, eu
certamente preciso de um novo mapa do metrô, sem precisar descartar
todos os mapas antigos que eu tenho.
Os economistas são excelentes na elaboração de mapas, mas não são bons
o suficiente para escolher o que é o mais adequado para a tarefa em
questão. Quando são confrontados com questões de política econômica –
como aquelas a que o economista que visita esse país desconhecido teve
que enfrentar –, muitos economistas recorrem a modelos de referência que
privilegiam o “laissez-faire”. As respostas automáticas e a arrogância
substituem a riqueza das discussões que podem ocorrer em um
seminário. John Maynard Keynes definiu a economia como “a ciência que
pensa em termos de modelos combinada com a arte de escolher os modelos
relevantes para o mundo contemporâneo”. Os economistas normalmente
têm dificuldades com a parte “artística” da disciplina.
Eu também ilustrei isso com uma parábola: um jornalista telefona para um
professor de economia para perguntar-lhe se, do seu ponto de vista, o livre
comércio é uma coisa boa. O professor responde com entusiasmo a ele
afirmativamente. Fazendo-se passar por estudante, o jornalista participa,
em seguida, do seminário de economia internacional ministrado pelo
mesmo professor em uma universidade. Ele faz a mesma pergunta: “O livre
comércio é benéfico?” Desta vez, o professor parece envergonhado: “O que
você quer dizer com ‘benéfico’? E benéfico para quem?”, pergunta-lhe.

O professor mergulha, então, em uma exaustiva explicação, para


finalmente concluir com um balanço muito mais matizado: “Se a longa lista
de premissas que eu acabo de fazer for satisfatória e assumindo que
podemos tributar os beneficiários para compensar os perdedores, então o
21

livre comércio pode potencialmente melhorar o bem-estar de todos”. Se


estiver bem humorado, o professor pode até acrescentar que o impacto do
livre comércio sobre o crescimento a longo prazo de uma economia não é
fácil de determinar e que depende também de uma série de condições.
Os guardiões das joias
O professor que o jornalista descobriu durante este seminário é, portanto,
bem diferente daquele com quem ele pôde conversar por telefone. No
primeiro encontro, ele estava muito confiante e não tinha reservas sobre a
política a ser adotada. Só haveria um modelo a ter em conta, pelo menos no
debate público; uma única resposta correta, independentemente do
contexto. Curiosamente, o professor acredita que os conhecimentos que ele
transmite aos seus alunos não são adequados – são inclusive perigosos –
para o público em geral. Por quê?
Os fundamentos de tal comportamento estão profundamente ancorados na
sociologia e na cultura da profissão de economista. Mas uma das principais
razões reside na ânsia deste último de apresentar as joias da coroa da
profissão como sendo irrepreensíveis – a eficiência dos mercados, a mão
invisível, as vantagens comparativas – para protegê-las dos ataques de
bárbaros guiados pelo seu interesse pessoal, nomeadamente os
protecionistas. Infelizmente, esses economistas tendem a ignorar os
bárbaros do lado contrário: os financistas e as multinacionais, cujos
motivos não são mais puros e que estão tão prontos quanto os
protecionistas para sequestrar essas ideias para seu próprio benefício.
Por conseguinte, a contribuição dos economistas para o debate público é,
muitas vezes, tendenciosa em uma direção: a favor de mais comércio, mais
finanças e menos governo. É por esta razão que os economistas
desenvolveram uma reputação de defensores incondicionais do
neoliberalismo, mesmo que a economia dominante esteja longe de ser um
hino à glória do laissez-faire. Os economistas que dão rédeas soltas ao seu
entusiasmo pelos mercados liberalizados não estão sendo de fato muito
fiéis à sua própria disciplina.
Repensando a mundialização
Como, então, podemos pensar na mundialização se quisermos liberá-la das
garras das práticas neoliberais? Devemos começar pela compreensão do
potencial positivo dos mercados globalizados. O acesso aos mercados
internacionais de bens, de tecnologias e de capital tem desempenhado um
papel importante em praticamente todos os milagres econômicos do nosso
tempo. A China é o lembrete mais recente e poderoso desta verdade
histórica; mas não é o único caso. Antes da China, milagres semelhantes
ocorreram na Coreia do Sul, Taiwan, Japão e vários países não-
asiáticos, como as Ilhas Maurício. Todos esses países abraçaram a
mundialização em vez de virarem as costas para ela, e eles se beneficiaram
generosamente.
22

Os defensores da ordem econômica existente sempre acabam invocando


esses exemplos quando a mundialização é questionada. O que eles
esquecem de dizer, no entanto, é que a maioria desses países se juntou à
economia mundial violando restrições neoliberais. A Coreia do
Sul e Taiwan, por exemplo, subsidiaram fortemente seus exportadores,
respectivamente, através do sistema financeiro e concedendo-lhes
vantagens fiscais. E, em geral, todos esses países levantaram a maior parte
de suas barreiras à importação muito depois do seu crescimento econômico
ter decolado.
Mas nenhum – com a única exceção do Chile de Pinochet na década de
1980 – seguiu a recomendação neoliberal de uma rápida abertura às
importações. A experiência neoliberal do Chile produziu a pior crise
econômica da América Latina. Embora as circunstâncias sejam
diferentes de país para país, em todos os casos os governos
desempenharam um papel ativo na reestruturação de suas economias e
protegendo-as de um ambiente externo altamente volátil. As políticas
industriais, as restrições aos fluxos de capital e os controles cambiais – tudo
proibido pela cartilha neoliberal – tornaram-se comuns.
Por outro lado, os países que se limitaram ao modelo de mundialização
neoliberal ficaram muito desapontados. O México fornece um exemplo
particularmente triste. Após uma série de crises macroeconômicas em
meados da década de 1990, o Méxicoadotou políticas macroeconômicas
ortodoxas, liberalizou fortemente a sua economia, desregulou o seu sistema
financeiro, reduziu drasticamente suas barreiras à importação e assinou
o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA). Essas
políticas permitiram alguma estabilidade macroeconômica e um aumento
significativo no comércio externo e no investimento interno. Mas, onde
mais importa – a produtividade geral e o crescimento econômico –, o
experimento foi um fracasso. Desde que o México empreendeu essas
reformas, sua produtividade geral estagnou e sua economia tem sido
contraproducente, mesmo diante dos padrões relativamente pouco
exigentes da América Latina.
Não existe um plano único
Estes resultados não são surpreendentes do ponto de vista de uma
abordagem econômica lógica. No entanto, há ainda uma outra
manifestação da necessidade de que as políticas econômicas sejam
ajustadas às deficiências enfrentadas por cada mercado e adaptadas às
especificidades nacionais de cada país. Não existe nenhum plano que seja
adequado para todos os lugares e de maneira indiferente.
Como atesta o Manifesto de Peters (1982), a definição de neoliberalismo
evoluiu consideravelmente ao longo do tempo, ao mesmo tempo em que a
conotação do termo tornou-se cada vez mais radical em sua relação com a
desregulamentação, a financeirização ou a mundialização. Mas há um fio
comum que liga as diferentes versões do neoliberalismo: a importância
atribuída ao crescimento econômico. Em 1982, Petersescreveu que essa
23

ênfase era justificada por causa do papel vital que o crescimento


desempenha na consecução de todos os nossos objetivos sociais e políticos
– comunidade, democracia e prosperidade. O empreendedorismo, o
investimento privado e a remoção de todos os obstáculos (como por
exemplo, uma excessiva regulamentação) que impedem o caminho são
todos instrumentos necessários para o crescimento econômico. Se um
manifesto neoliberal semelhante fosse escrito hoje, provavelmente
avançaria no mesmo ponto.
No entanto, os críticos do neoliberalismo muitas vezes apontam que essa
ênfase no crescimento degrada e sacrifica outros importantes valores
sociais e políticos, como a igualdade, a inclusão social, a deliberação
democrática ou a justiça. Valores cuja realização é, no entanto, essencial e
que, em certos contextos, são mais importantes do que os outros. No
entanto, nem sempre podem ser alcançados por meio de políticas
econômicas tecnocráticas; a política tem um papel central a desempenhar.

Os neoliberais certamente não estão errados quando argumentam que


esses ideais preciosos são mais propensos a ser alcançados em uma
economia vibrante, forte e em expansão. No entanto, eles se enganam
quando pensam que existe uma receita única e universal para melhorar o
desempenho econômico, à qual eles teriam acesso. O erro fatal do
neoliberalismo é que ele se engana sobre o que é a economia em si. Este
deve ser rejeitado em seus próprios termos pela simples e boa razão de que
é uma economia ruim.
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http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/562765-o-comum-um-ensaio-sobre-a-revolucao-no-seculo-21

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REVISTA IHU ON-LINE

O Comum: um ensaio sobre a revolução no século 21

25 Novembro 2016

Pierre Dardot e Christian Laval, em artigo publicado por UniNômade,


24-11-2016. A tradução é de Renan Porto.

“Os comuns não são ‘produzidos’ ou ‘instituídos’. É por isso que somos
muito relutantes em aceitar a noção de ‘bens comuns’. Parece-nos que o
raciocínio deveria ser o inverso: todo comum que é instituído é um bem,
mas nenhum bem é por si comum. É preciso cuidar para não confundirmos
um bem no sentido ético e político (agathon) e um bem no sentido de uma
24

aquisição que pode ser trocada e vendida (ktesis). Todo comum é um bem
no sentido ético e político, mas apenas na medida em que não é uma
aquisição. Uma vez instituído, um comum não é alienável; a partir de então
ele se instala na esfera de coisas que não podem ser apropriadas. Isto
significa que ele escapa da lógica proprietária em qualquer de suas formas
(privada ou estatal)”, escrevem Pierre Dardot e Christian Laval, em
artigo publicado por UniNômade, 24-11-2016. A tradução é de Renan
Porto.
Segundo eles, “o sentido revolucionário dos movimentos contemporâneos
não está baseado no modo de ação que eles adotam, eleitoralmente ou de
outra forma, e nem mesmo na pura consciência do objetivo final buscado.
Em vez disso, tem a ver com transformar a resistência persistente e
corajosa de amplos setores da sociedade às políticas de austeridade em
vontade e capacidade de transformar as próprias relações políticas, em ir
da representação à participação. Isso é o que significa unir a demanda do
comum ao seu maior ponto de expressão”.
Eis o artigo.
Nosso ponto de partida é que o comum é um princípio de atividade política
constituído pela atividade específica da deliberação, julgamento, decisão e
a aplicação de decisões. Contudo, essa, que é a mais completa definição que
nós apresentamos no início do nosso livro[1], não pretende ser universal,
trans-histórica e independente das condições temporais e geográficas. Em
termos etimológicos (cum-munus, literalmente ‘co-obrigação’ e ‘co-
atividade’), a intenção não é certamente sugerir que hoje o comum sempre
carregue o mesmo significado. Em Aristóteles, o comum (koinōn) é o que
resulta da atividade de agregação, que é o que constitui a cidadania, uma
atividade que implica a rotação de deveres ou a alternância entre os que
governam e os que são governados. Hoje, com um novo e singular tipo de
energia, o movimento das praças (15M, Gezi, etc) tem enriquecido esse
conceito com novas demandas.
O comum como um princípio das lutas
Essas demandas envolveram um questionamento radical da democracia
‘representativa’, que autoriza um número limitado de pessoas a agir e
falar em nome da grande maioria. Ao mesmo tempo, esses movimentos têm
desenvolvido demandas em torno da preservação dos ‘comuns’
(commons) (especialmente espaços urbanos). O comum nos parece ser o
princípio que literalmente emergiu de todos esses movimentos. Portanto,
não é algo que nós inventamos; isto surgiu das lutas correntes como seu
princípio interno. O termo adquiriu assim um significado completamente
novo, aquele da ‘democracia real’, para o qual a única obrigação política
legítima não decorre da adesão a uma determinada comunidade, por mais
amplo que isso possa ser, mas da participação nessa mesma atividade ou
nas tarefas que a constituem. Não deve haver equívoco sobre a nossa
proposta: embora o capítulo preliminar do nosso livro ofereça uma
‘arqueologia do comum’, nós não tivemos intenção de interpretar toda a
25

história humana através dessa arqueologia, no estilo das ‘grandes


narrativas’ que caracterizam a nossa modernidade. Nosso objetivo foi
muito diferente; foi mostrar que desde o início o comum assumiu um
significado que não poderia ser reduzido a ‘estatal’, até ser sequestrado e
adulterado tanto pelo Estado quanto pela teologia. Mas isso não significa
que a sua ‘redescoberta’ hoje seja um retorno a suas origens grega e
romana. Trata-se de outra coisa: definir uma alternativa
política positiva à razão neoliberal orientada pela competitividade.
Tal alternativa nos permitiu sair da dualidade entre propriedade
pública/estatal versus propriedade privada. Por muito tempo,
a esquerda tem vivido sob a ideia de uma oposição entre o Estado e
o mercado que fez do Estado a melhor defesa contra a ofensiva das forças
do mercado. Essa oposição, junto com a estratégia que cria, é totalmente
uma coisa do passado. Há trinta anos, o Estado tem sofrido uma profunda
transformação, que fez dele um verdadeiro protagonista neoliberal. Está,
ele próprio, sujeito à lógica empresarial, e, enquanto Estado-
empreendedor, ou “Estado corporativo/empresarial”, age como um
parceiro das grandes multinacionais na coprodução de novas formas
internacionais. A famosa fórmula de Marx de que o governo não é mais do
que um comitê executivo para gerir os negócios da burguesia está
largamente ultrapassada agora, não porque seja uma definição ultrajante;
ao contrário, porque fica aquém da realidade de hoje, em meio à crescente
hibridização entre Estado e mercado. O paradigma estatista precisa ser
impiedosamente desconstruído se quisermos trabalhar na reconstrução da
esquerda. O Estado é inclusive menos do que um instrumento que poderia
ser usado por ‘projetos políticos’, como se fosse o caso de direcioná-lo para
outros fins. Pelo contrário, o Estado é impõe a sua própria lógica sobre
aqueles que nutrem a ilusão de sua transformação possível, quando se está
imerso num ambiente de luta contra o capitalismo neoliberal.
Aqui vemos tudo que separa o comum, entendido nesse sentido, do Estado
e do Público. O Estado/Público repousa sobre dois requisitos
completamente contraditórios: por um lado, garantir o acesso universal aos
serviços públicos; por outro, dar à administração estatal o monopólio da
gestão desses serviços e reduzir seus usuários a consumidores, enquanto
são excluídos de qualquer forma de participação na gestão. É justamente
essa divisão entre ‘funcionários’ e ‘usuários’ que o comum tem de abolir.
Em outras palavras, o comum pode ser definido como o público não-
estatal, que garanta o acesso universal através da participação direta dos
usuários na administração dos serviços. Uma de nossas ‘propostas
políticas’, na terceira parte do livro, é a transformação dos serviços públicos
em instituições do comum. Isso significa que esses serviços não pertencem
ao estado no sentido de o Estado ser proprietário ou mesmo o único gestor.
Para realizar esse tipo de transformação, é necessário quebrar com o
monopólio da administração estatal de modo a garantir verdadeiro acesso
universal a esses serviços. Portanto, os usuários não devem ser
considerados como ‘consumidores’, mas como cidadãos participando lado
26

a lado dos funcionários nas deliberações e decisões concernentes a eles


próprios.
O comum e os comuns
Como podemos ver, nós estamos entendendo o comum no sentido de um
princípio político e não no sentido de um atributo naturalmente intrínseco
a certos tipos de ‘bens’. Entender a expressão ‘bens comuns’ num sentido
literal leva, primeiro, a estabelecer uma classificação de bens (bens
privados, bens públicos, bens comuns) de acordo os critérios relacionados
à sua natureza inerente. Essa abordagem, que pode apenas acabar
reificando o comum, foi sistematizada por uma específica política
econômica, antes de ser retomada por juristas. No entanto, nesse
propósito, se precisaram introduzir critérios externos à mera natureza das
coisas, a fim de distinguir bens comuns de bens públicos. Por exemplo,
a Comissão de Rodotà definiu bens comuns de acordo com a sua
relação com direitos fundamentais e o desenvolvimento humano. Porém,
começar com a classificação de bens conduz igualmente a um
desmembramento do comum, que vai distinguir os bens comuns entre
naturais, do conhecimento, genéticos ou biológicos etc. O comum (como
um princípio) é então confundido com aquilo que é comum (como um
atributo ou característica de certas coisas).
Nossa abordagem, similarmente, rejeita as teses de uma ‘produção
espontânea do comum’ que é ao mesmo tempo a condição e resultado do
processo de produção (análogo à dinâmica expansiva das forças de
produção encontrada numa certa vertente do marxismo). Idealizando a
autonomia do trabalho imaterial na era do ‘capitalismo cognitivo’, essas
teses não reconhecem os atuais mecanismos operativos de subordinação
do trabalho ao capital. Além disso, e isso é sem dúvida o seu maior defeito,
não reconhece a diferença irredutível entre produção e instituição: a
produção deve ser espontânea, enquanto a instituição é necessariamente
uma atividade consciente.
É por isso que nos esforçamos para distinguir entre o comum como um
princípio político – que não deve ser instituído, mas aplicado, – e os
comuns que sempre são instituídos dentro e através dessa aplicação. O
ponto essencial é que os comuns não são ‘produzidos’ ou ‘instituídos’. É por
isso que somos muito relutantes em aceitar a noção de ‘bens comuns’.
Parece-nos que o raciocínio deveria ser o inverso: todo comum que é
instituído é um bem, mas nenhum bem é por si comum. É preciso cuidar
para não confundirmos um bem no sentido ético e político (agathon) e
um bem no sentido de uma aquisição que pode ser trocada e vendida
(ktesis). Todo comum é um bem no sentido ético e político, mas apenas na
medida em que não é uma aquisição. Uma vez instituído, um comum não é
alienável; a partir de então ele se instala na esfera de coisas que não podem
ser apropriadas. Isto significa que ele escapa da lógica proprietária em
qualquer de suas formas (privada ou estatal).
27

Nós sustentamos que um comum é instituído através de uma práxis


específica que chamamos ‘práxis instituinte’, que não se refere a um
método geral para instituir um tipo de comum. Precisamos estar atentos
aqui para a noção controversa de ‘instituição’. Uma tradição sociológica
inteira tentou reduzir a instituição ao que é instituído sem realmente levar
em conta a dimensão da atividade instituinte. Além disso, uma crítica
política muito difundida na esquerda nos anos 1960 e 1970 identificou a
instituição com um aparato de poder que coage os indivíduos que
‘entravam’ a pertencer-lhe. Essa crítica não problematizou a dimensão
originária do que institui, que parece tão fundamental para nós. Na
verdade, instituir nem é institucionalizar no sentido de tornar oficial,
consagrar ou reconhecer após o fato que existiu bem antes (por exemplo,
no nível de um hábito ou costume) nem criar do nada. É precisamente
recriar com, ou com base em, o que já existe, portanto dadas as condições
independentemente de nossa atividade.
Nesse sentido, não há modelo de uma instituição nem pode haver capaz de
servir como um padrão para uma práxis instituinte. Cada práxis tem de ser
entendida e executada in situ ou in loco. Por isso, pode-se, e até deve-se
falar de ‘práxis instituintes’; no plural. Para reestabelecer um serviço
terminado previamente num hospital psiquiátrico após uma discussão com
os cuidadores e pacientes, se cai na categoria de uma práxis instituinte,
mesmo que seja na de ‘micropolítica’ em Foucault. Mas instituir um banco
de sementes para fazendeiros ou designar um sítio cultural para uso
comum enquadra-se na mesma categoria. Essas são práticas que preparam
e constroem a revolução como uma ‘auto-instituição da sociedade’.
O direito do comum como um novo tipo de direito de uso
Nós podemos tirar conclusões nos tempos do Direito. De fato, nós
pensamos que a instituição dos comuns envolve um conflito opondo o
direito do comum ao antigo direito de propriedade e que esse conflito entre
dois direitos é o conflito fundamental de nosso dia. O direito do
comum é um direito do que difere do antigo direito de uso coletivo
fundado em costumes antigos. Quer consideremos o uso como um simples
uso fora da lei (comer, beber, viver em uma casa etc), quer como um direito
coletivo surgido do costume (o direito de colheita ou de usufruto), o uso é
sempre entendido por ser a ação de usar uma coisa externa com o objetivo
de satisfazer necessidades vitais; usar como ação implica certo tipo de
relação com as coisas externas que frequentemente inclui consumo, que é
a destruição das coisas em questão (abuso, em latim, quer dizer uma
consumação completa). Mas, pode-se igualmente dizer em inglês ‘usar
com’, com outra pessoa, com uma pessoa particular, etc. Nesse caso, se
trata de agir ou conduzir-se de certo modo com os outros, na medida em
que haja uma relação ativa com os outros que é significativa, longe de
qualquer relação com coisas externas que teria como meta a destruição
completa, isto é, a consumação. Nesse novo sentido, o uso toma o
significado de supervisão, manutenção e preservação. Podemos então
sublinhar a diferença entre o antigo e o novo direito de uso.
28

A primeira diferença apreciável com o velho direito envolve a natureza do


objeto que é usado. No direito do comum, o uso não está relacionado a uma
coisa material externa, mas ao que nós chamamos de comuns (no plural).
Os comuns não são ‘coisas em comum’ (res communes). Certamente, coisas
em comum não são nada (o adágio res nullius primo occupant[2] não se
aplica a elas).
Mas a limitação dessa categoria inerente ao direito romano é que corta as
coisas da atividade. O conceito de comuns enfatiza as construções
institucionais através das quais a conexão entre as coisas e a atividade do
coletivo que se encarrega delas vem à tona. Assim, há comuns de diversos
tipos a depender do tipo de atividade dos protagonistas que instituem eles
e os mantenham vivos (rios comuns, florestas comuns, produções comuns,
sementes comuns, conhecimentos comuns, etc). Um rio comum não é um
rio; é a conexão entre esse rio e o coletivo que cuida dele.
Consequentemente, inapropriável não é apenas o rio entendido como coisa
física, mas também o rio na medida em que se realiza por certa atividade,
e assim também a própria atividade em si. Nesse sentido, o conceito de
‘comuns’ quebra com a polaridade sujeito/objeto, a polaridade de um
objeto oferecido por ser tomada em exclusividade pela primeira pessoa
(como na relação entre o dominus e o res), uma polaridade que é tão
recorrente em uma tradição jurídica e filosófica.
Nesse sentido, o uso cujo eixo é o direito do comum pressupõe como sua
condição de possibilidade um ato consciente de instituição, exatamente o
que nós chamamos de ‘práxis instituinte’. Por isso, não pode ser
confundido com o direito consuetudinário, que reduz as práticas à
perpetuação inconsciente e à transmissão de costumes. Os comuns estão
acima de todos esses problemas de instituição e governo. Ao contrário
da teoria da propriedade como um ‘pacote de direitos’ que faz do direito
consuetudinário um direito dentre outros, dissociado do direito de
administração e decisões, o uso dos comuns é inseparável do direito de
decidir e governar. A práxis que institui os comuns é a prática que os
mantém e lhes dá vida e assume total responsabilidade pela sua
conflitualidade através da coprodução de normas. De fato, a lógica de
agrupamento não deve ser confundida com a busca por unanimidade,
harmonia e consenso como algo absoluto. Ao invés disso, ela procura
superar os conflitos através da coprodução de normas e não através da
abolição imaginária de conflitos que são necessariamente uma parte de
toda vida coletiva. Esse ponto precisa ser enfatizado: conflito não é ruim
por si; ele não é de modo algum a semente da guerra civil; pelo contrário,
ele é seu antídoto desde que tenha uma expressão institucional.
Sob essas condições faz sentido falar do uso de um comum, isto é, falar
sempre do uso de um comum particular? A noção de ‘uso administrativo’
emprestada de Paolo Napolipermite um entendimento melhor da
diferença entre uso como uma ação de fazer uso de uma coisa externa e uso
como a supervisão e preservação de um comum (deve ser lembrado que
ministrare, do que é derivada a administração, significa antes de tudo
29

‘servir’ e não ‘aproveitar-se de’). Na verdade, não se usa um comum como


se faz uma coisa, porque um comum não é uma coisa, mas uma relação de
um coletivo com uma ou diversas coisas. O uso administrativo contrasta
com a relação de um proprietário com sua coisa. A noção de ‘apropriação’
deve ser clarificada para evitar alguma confusão. Há pertencimento-
apropriação quando alguém se apropria de uma coisa para si mesmo e
exclui qualquer outra relação de pertencimento que envolva a mesma coisa,
e destinação-apropriação, em que uma coisa é particular para certo
objetivo. Aqui também há um risco de equívoco: o que está em questão não
é a apropriação do comum para o que ele se destina, mas apropriar-se da
conduta dos membros do coletivo. O objetivo é garantir, através de normas
de uso coletivo, que o comportamento de apropriação predatória não
desvie do objetivo de uma específica destinação social em comum. Em
outras palavras, o objetivo é regular o uso do comum sem precisar
fazer-se seu proprietário, isto é, sem conceder a si o poder de dispor dele
como seu dono supremo.
A pluralidade dos comuns coloca a questão de sua coordenação através
da construção de instituições em comum, daí a ideia de uma federação de
comuns sócio-profissionais a depender do tipo de objeto pelo qual os
diferentes comuns são responsáveis. Não há comuns que sejam puramente
profissionais, apenas comuns sócio-profissionais que devem absorver neles
mesmos sua própria relação com o resto da sociedade. O exemplo
da Itália é unicamente instrutivo nesse ponto. Nápoles é um laboratório
político do comum, não só por causa da sua experiência na gestão
participativa da água, mas também por causa da importância assumida por
várias ‘ocupações’ (dentre elas, a ocupação do Asilo Filangieri, que tem
sido convertido em um espaço voltado a atividades culturais). Contudo,
essas experiências podem ser vividas apenas se elas promovem a demanda
de autogestão em todos os níveis, inclusive na coordenação dentre os
comuns.
Revolução e a instituição de democracia política
Essa demanda por autogestão não é outra coisa senão a demanda por
democracia política, que tem prevalecido em todas as esferas da vida
social. Ela impede qualquer tecnocracia ou “expertocracia” (grifo nosso:
governo dos especialistas) na medida em que tem de tornar a participação
de todos como regra.
‘Democracia Real’ é uma questão de instituir. Esta é a essência do que nós
gostaríamos de dizer. O que não devemos subestimar é a dificuldade de
inventar novas instituições que funcionem explicitamente no sentido de
impedir a apropriação por uma minoria, de proibir a deturpação de suas
propostas e também de prevenir a ‘ossificação’ de suas normas. A
experiência em andamento do Barcelona en Comú, na Catalunha, é
exemplar. A vitória eleitoral não deve ser deixada de fora do que a precedeu
e a tornou possível – muito trabalho nos bairros por quatro anos,
especialmente na área de moradia, que tornou possível acumular as
30

condições que permitiam o estabelecimento de uma lista eleitoral


independente. Um movimento de massa, uma sequência de mobilizações,
e confrontos múltiplos e contínuos transformados em formas políticas
inventivas que convertera a democracia interna num princípio operativo,
evitando qualquer tentativa, mesmo tentativas internas, de restabelecer
uma hierarquia vertical com o pretexto da maior eficiência (uma tentação
a que alguns líderes do Podemos têm se rendido). Através de todos esses
experimentos, a questão prática tem sido colocada numa ligação entre a
construção ‘aqui e agora’, começando com as condições existentes, de
novas formas de relação e atividades, e a transformação geral da sociedade.
Seu ponto em comum é a ruptura que eles têm introduzido com todo um
sistema político oligárquico, completamente interligado com os interesses
econômicos de um grupo social dominante. Contudo, o seu valor
insubstituível é ter demonstrado que é impossível combater o ‘sistema’ sem
ao mesmo tempo inventar, no nível prático, novas formas de sociedade e
política.
É essa dimensão inventiva do movimento que consiste hoje no fenômeno
mais surpreendente – a definição de uma sociedade desejável não está
escrita em lugar algum, em nenhum programa, que não é a propriedade de
um partido nem o monopólio de uma vanguarda. Nesse sentido é que esses
movimentos podem ser considerados profundamente ‘autônomos’, isto
é, no sentido etimológico do termo; através dos seus atos, eles demonstram
a necessidade de reinstituir toda a sociedade de acordo com a lógica do
comum. É por isso que nós dizemos que esses movimentos são
revolucionários, por repor ao termo ‘revolução’ o sentido mais preciso de
‘reinstituição da sociedade’. Em nossa opinião, isso não indica que
uma manifestação violenta ou uma insurreição sejam equivalentes à
revolução. Revolução envolve outra coisa. O sentido revolucionário dos
movimentos contemporâneos não está baseado no modo de ação que eles
adotam, eleitoralmente ou de outra forma, e nem mesmo na pura
consciência do objetivo final buscado. Em vez disso, tem a ver com
transformar a resistência persistente e corajosa de amplos setores da
sociedade às políticas de austeridade em vontade e capacidade de
transformar as próprias relações políticas, em ir da representação à
participação. Isso é o que significa unir a demanda do comum ao seu maior
ponto de expressão.

Notas:
[1] – Pierre Dardot, Christian Laval, Commun, Essai sur la revolution au
21eme siecle, Paris: Éditions La Découverte, 2014.
[2] – ‘Coisas que não pertencem a ninguém vão à primeira pessoa que se
ocupar delas’.

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http://www.ihu.unisinos.br/159-noticias/entrevistas/571195-a-subordinacao-da-esquerda-brasileira-ao-
neoliberalismo-e-o-abandono-da-teoria-da-dependencia-entrevista-especial-com-carlos-eduardo-martins
INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS
REVISTA IHU ON-LINE

A subordinação da esquerda brasileira ao neoliberalismo e o


abandono da Teoria da Dependência. Entrevista especial com
Carlos Eduardo Martins
Por: Patricia Fachin | 31 Agosto 2017

Com origem nos anos 1960, as “Teorias da Dependência surgiram como


crítica às teses nacionais-desenvolvimentistas que apontavam que, com
a industrialização, Brasil e América Latina superariam seus
problemas de subdesenvolvimento, desemprego, instabilidade política e
falta de autonomia, criando formações sociais com soberania tecnológica,
consumo de massas, predomínio das camadas médias e estabilidade
política democrática”, resume o sociólogo Carlos Eduardo
Martins à IHU On-Line, na entrevista a seguir, concedida por e-mail.
Segundo Martins, uma das propostas da Teoria da Dependência era
demonstrar que, ao contrário do que imaginavam os teóricos da Cepal e
os do Partido Comunista, “não havia uma burguesia industrial
latino-americana que buscasse a soberania produtiva e tecnológica
contra o capital estrangeiro, o fim da polarização centro e periferia, a
erradicação do latifúndio e das estruturas primário-exportadoras; e nem
havia uma divisão internacional do trabalho estagnada entre centros
industriais e periferias exportadoras de recursos naturais”. Ao contrário,
segundo o entendimento da Teoria da Dependência, “a economia
mundial era dinâmica e o capital estrangeiro no pós-guerra, sob hegemonia
dos Estados Unidos, liderava os processos de industrialização na
periferia, subordinava o capital produtivo local, que buscava a este se
associar para desfrutar de condição monopólica em situação de sócio
menor”.
Amplamente influente no pensamento social dos países latino-americanos,
especialmente no Brasil, a Teoria da Dependência foi expandida por
quatro fontes distintas: à esquerda, pelo pensamento neogramsciano, ao
centro, pelo pensamento neodesenvolvimentista, à direita,
pelo neoliberalismo, e oscilando entre o centro e a direita, a partir de uma
perspectiva weberiana da dependência.
Na prática, de acordo com Martins, ela seguiu ao menos um viés à direita,
com Fernando Henrique Cardoso, e outro à esquerda, nas propostas
de “construção do socialismo ou de uma economia capitalista sob
forte regulação estatal e controle popular na periferia”. Entre as
consequências dessas abordagens, avalia, houve uma “derrota da esquerda
32

brasileira” por conta do seu “abandono” de um “programa estratégico


soberano e popular enquanto a direita se une em torno a um programa de
transformação neoliberal da economia e do Estado numa ditadura política
rentista e privatista do grande capital”. E adverte: “Se formos perguntar
às esquerdas qual é o seu programa estratégico para o Estado e para a
economia do Brasil, dificilmente haverá consenso, ou predominará uma
resposta sem subordinação ou fortes concessões à ideologia neoliberal. O
resultado é um brutal paradoxo: temos um dos períodos mais medíocres e
inexpressivos do capitalismo no Brasil quanto aos seus resultados
econômicos e políticos e, simultaneamente, uma rendição quase que
completa de nossas esquerdas a este”.
Na entrevista a seguir, Martins expõe a proposta teórica de Ruy Mauro
Marini, um dos principais formuladores da teoria da dependência, que
“contribuiu para renovar amplamente o marxismo latino-americano e
mundial”, com a obra Dialética da dependência, de 1973, mas “só
publicada no Brasil em 2000, após a sua morte”.

Carlos Martins | Foto: Arquivo pessoal

Carlos Eduardo Martins é graduado em Sociologia e Política pela Pontifícia


Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUCRJ, mestre em
Administração pela Fundação Getúlio Vargas - RJ e doutor em Sociologia
pela Universidade de São Paulo - USP. Atualmente leciona no
Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de
Janeiro - UFRJ, é coordenador do Laboratório de Estudos sobre
Hegemonia e Contra-hegemonia - LEHC e pesquisador do GT de
Integração Regional e do GT de Estudos sobre Estados Unidos do CLACSO.
É autor deGlobalização, dependência e neoliberalismo na
América Latina(2011), publicado pela editora Boitempo.
Confira a entrevista.

IHU On-Line - Quem foi Ruy Mauro Marini? Pode apresentar, de


modo geral, a trajetória intelectual dele no Brasil e na América
Latina?
Carlos Eduardo Martins - Ruy Mauro Marini foi um dos mais
destacados intelectuais latino-americanos e articulou o trabalho teórico à
militância política. Foi um dos principais formuladores da teoria da
dependência e contribuiu para renovar amplamente
o marxismo latino-americano e mundial. Professor da UNB e dirigente
da Organização Revolucionária Marxista Política Operária -
POLOP, apontou os limites da democracia no capitalismo brasileiro e teve
seu trabalho interrompido pelo golpe de 1964, quando foi preso e torturado
no Centro de Informações da Marinha- Cenimar. Exilado
33

no México e no Chile, deu continuidade a seus trabalhos no Centro de


Estudios Socio-Económicos - CESO, onde formulou sua obra mais
famosa, Dialética da dependência (1973), só publicada no Brasil em
2000, após a sua morte. Perseguido pela ditadura de Pinochet, por suas
ideias e sua atuação como dirigente do MIR, exilou-se no México,
lecionando na Faculdade de Ciências Políticas e Econômicas da UNAM e
durante breve período no Instituto Max Planck na Alemanha.
De volta ao Brasil, com a anistia política, apenas pode reintegrar-se
plenamente à UNBem 1987, quando aquela se estendeu ao campo
profissional. Em meados dos anos 1990, voltou ao México e dirigiu
o Centro de Estudos Latino-Americanos - CELA da UNAM, quando
coordenou um amplo balanço do pensamento latino-americano que
resultou na publicação de quatro livros e três antologias sobre o tema.
Morreu em 1997 aos 65 anos de câncer linfático, deixando obra importante,
agora, quase toda disponibilizada em sítio eletrônico na internet.

IHU On-Line - O que é a Teoria da Dependência? Como a Teoria


da Dependência foi discutida no país entre os anos 1960 e 70 à
luz do marxismo? Que problemas os intelectuais da época
procuraram responder com essa teoria?
Carlos Eduardo Martins - As Teorias da Dependência surgiram nos
anos 1960 como crítica às teses nacionais-desenvolvimentistas que
apontavam que, com a industrialização, Brasil e América
Latina superariam seus problemas de subdesenvolvimento, desemprego,
instabilidade política e falta de autonomia, criando formações sociais com
soberania tecnológica, consumo de massas, predomínio das camadas
médias e estabilidade política democrática. Estas teses surgiram de duas
fontes nos anos 1950 e 60: da Comissão Econômica para a América
Latina - Cepal, principalmente, por meio das obras de Raul
Prebisch e Celso Furtado, e das teses dos Partidos Comunistas.
Para a Cepal, tratar-se-ia de impulsionar a industrialização pela via de
forte planejamento e coordenação estatal mediante a estratégia de
substituição de importações. O Estado manejaria os excedentes obtidos
com a agroexportação e os transferiria ao setor industrial para impulsionar
a importação de maquinarias e equipamentos protegendo o mercado
interno contra a concorrência externa. Este processo atuaria em três fases,
referentes à internalização da produção de bens de consumo leves, de bens
de consumo duráveis e de bens de capital, quando então se alcançaria a
autonomia tecnológica.
Ao Estado caberia, além do planejamento e da coordenação
macroeconômica, intervir diretamente quando necessário no setor de
infraestrutura, produzindo bens e serviços a taxas de lucro negativas para
subsidiar o capital industrial e a empresa privada no seu conjunto.
O capital estrangeiro era visto como um ator que poderia oferecer uma
contribuição marginal a este processo, não se interessando em investir
34

na industrialização da periferia, mas apenas em suas estruturas


exportadoras.
Para os Partidos Comunistas, tratar-se-ia de formar uma aliança de
classes entre a classe operária, o campesinato e as burguesias industriais
nascentes, com o objetivo de realizar uma revolução democrático-
burguesa contra o imperialismo e o latifúndio feudal. Tal revolução
democrático-burguesa imporia a reforma agrária, o desenvolvimento
industrial e o mercado de massas contra a burguesia compradora nacional
e estrangeira e seus aliados no campo.
Resposta da Teoria da Dependência
As teorias da dependência vão mostrar que, ao contrário do
que imaginavam a Cepal e os Partidos Comunistas, não
havia uma burguesia industrial latino-americana que
buscasse a soberania produtiva e tecnológica contra o
capital estrangeiro
As teorias da dependência vão mostrar que, ao contrário do que
imaginavam a Cepale os Partidos Comunistas, não havia
umaburguesia industrial latino-americanaque buscasse a soberania
produtiva e tecnológica contra o capital estrangeiro, o fim da polarização
centro e periferia, a erradicação do latifúndio e das estruturas primário-
exportadoras; e nem havia uma divisão internacional do trabalho
estagnada entre centros industriais e periferias exportadoras de recursos
naturais.
A economia mundial era dinâmica e o capital estrangeiro no pós-
guerra, sob hegemonia dos Estados Unidos, liderava os processos
de industrialização na periferia, subordinava o capital
produtivo local, que buscava a este se associar para desfrutar de condição
monopólica em situação de sócio menor. Esta subordinação implicava na
absorção da própria regulação da substituição de importações à abertura
da conta capital, que se articulava com o protecionismo comercial para
proteger o investimento estrangeiro contra a concorrência internacional,
usando para isso o Estado nacional.
Em linhas gerais, o projeto burguês nacional-
desenvolvimentista não rompia com a dependência tecnológica, nem
com a estrutura produtiva agroexportadora, e levava a balança de
pagamentos ao estrangulamento, ao pretender internalizar a indústria pela
via das divisas geradas com as exportações, uma das razões pelas quais
a reforma agrária não ganhou protagonismo neste enfoque teórico,
salvo honradas exceções e situações históricas específicas, onde o petróleo
podia substituir a agricultura.
Se atingiam este nível de consenso, as reflexões críticas ao nacional-
desenvolvimentismo partiam de matrizes teóricas, interesses sociais e
projetos políticos distintos. De um lado, surgiu uma intelectualidade
paulista uspiana, de inspiração weberiana que, embora empregasse
35

eventualmente uma linguagem marxista, buscou defender


a dependência como paradigma de desenvolvimento. De outro lado,
surgiu uma intelectualidade que renovou amplamente o marxismo e
buscou superar a dependência, mas apontou que isto levaria
necessariamente ao confronto com os setores mais dinâmicos do
imperialismo e da burguesia nacional a ele associados, e implicaria em um
projeto político de transição ao socialismo.
IHU On-Line - Qual foi a influência da Teoria da Dependência no
pensamento de esquerda latino-americano?
A teoria da dependência exerceu ampla influência nas
ciências sociais e no pensamento social dos países latino-
americanos e países centrais
Carlos Eduardo Martins - A teoria da dependência exerceu ampla
influência nas ciências sociais e no pensamento social dos países latino-
americanos e países centrais, ao desvelar as estruturas internas de nossos
países e suas articulações internacionais. Mostrou que o capitalismo se
desenvolvia no âmbito de uma economia mundial assimétrica, monopólica
e competitiva, integrada por uma divisão internacional do trabalho onde se
constituíam relações de poder que atravessavam os Estados, vinculando de
forma específica suas classes dominantes, não se exercendo o poder nem
apenas ou principalmente na relação entre eles, como supõem as
abordagens anglo-saxãs mais tradicionais das teorias das relações
internacionais.
Contribuiu para romper com o eurocentrismo e
o nacionalismo metodológico que viam o mundo como resultado da
interação entre estados autônomos, liderados por atores internos
independentes, e dividiam-no entre países desenvolvidos e países
atrasados, sendo aqueles o modelo de futuro dos últimos.
A teoria da dependência influenciou autores do próprio paradigma
nacional-desenvolvimentista, como Celso Furtado e Raul Prebisch,
aproximando-os da problemática da dependência; o pensamento
anticolonialista latino-americano, ao reorientar a problemática do
colonialismo interno e a sociologia da exploração em autores como Pablo
Gonzalez Casanova e inspirar a filosofia da liberação de Enrique Dussel,
uma das bases do pensamento decolonial contemporâneo; a antropologia
e a geografia latino-americanas, inscrevendo-as na análise das
macroestruturas sociais e da crítica ao capitalismo periférico e à civilização
capitalista, como demonstram as obras de Darcy Ribeiro e Milton Santos;
o pensamento sociológico, levando autores como Florestan Fernandes a
romperem suas ilusões nacional-desenvolvimentistas, manejarem o
conceito de superexploração do trabalho e introduzirem o de burguesia
compósita; a formação de um pensamento geopolítico latino-americano,
por meio de autores como Aña Esther Ceceña, Atilio Boron e Pedro
Paez Perez, que buscam definir o conceito de integração soberana para o
estabelecimento de projetos de emancipação.
36

A teoria marxista da dependência influenciou ainda a esquerda


estadunidense e europeia, contribuindo para a formulação dos enfoques do
sistema-mundo, que ganham destaque nas obras de Immanuel
Wallerstein, Giovanni Arrighi, Beverly Silver e Andre Gunder Frank.
IHU On-Line - Qual foi a abordagem feita por Ruy Mauro Marini
a essa teoria?
Fernando Henrique Cardoso e José Serra tiveram um papel
destacado na deformação e ocultamento da obra de Marini
Carlos Eduardo Martins - Ruy Mauro Marini desenvolveu conceitos
chaves para a economia política da dependência como os de
superexploração do trabalho e de subimperialismo. Mostrou que
o capitalismo não era apenas um instrumento de produção de mais-valia,
mas de apropriação de mais-valia e neste sentido superou uma leitura do
capital, restrita ao livro I, para integrá-la aos livros II e III.
Diferenciou o conceito de formações sociais do de modo de produção
capitalista, pois enquanto este se desenvolvia globalmente na economia
mundial, aquelas se articulavam a este desenvolvimento como partes
específicas desta totalidade, inscritas em Estados nacionais, e não como
expressão concreta e síntese do capital em geral.
Apontou que as formações sociais submetidas por monopólio tecnológico
internacional sofriam dupla transferência de mais-valia: no plano
da economia mundial, por se especializarem em produtos que
envolviam processos de produção abaixo da produtividade média mundial;
no plano nacional, pelo fato de a produtividade estar principalmente
determinada pela entrada da tecnologia estrangeira e sua apropriação pelas
corporações multinacionais e o grande capital nacional, criando-se
transferências de mais-valia da pequena e média burguesia ao grande
capital.
Assim as formações dependentes estariam duplamente sujeitas à mais-
valia extraordinária — no plano internacional e internamente — que, por
estar estruturalmente vinculada à própria dinâmica do progresso técnico
no capitalismo, levaria a mecanismos de compensação sobre
sua classe trabalhadora. Este mecanismo de compensação é a
superexploração do trabalho, por meio do qual não se paga ao trabalhador
parte do valor de sua força de trabalho. Incapazes de neutralizar as
transferências de mais-valia por meio da redução dos diferenciais de
produtividade, as formações dependentes recorrem à redução salarial; ou
à elevação da intensidade do trabalho e aumento da jornada de trabalho,
sem a remuneração salarial equivalente.
Explicação para a desigualdade
A superexploração do trabalho seria, portanto, a grande explicação
dos altos níveis de desigualdade, dos baixos salários, dos baixos níveis de
qualificação da força de trabalho e das fortes restrições nas sociedades
latino-americanas a democracias estáveis e de massa. O desenvolvimento
37

da democracia de massas e de projetos nacionais-populares,


quando implicam redução da desigualdade de renda ou
de propriedade, entraria em choque com a superexploração do trabalho,
levando à formação de estados de contrainsurgência, por meio dos quais os
processos democráticos são interrompidos e os avanços, movimentos e
lideranças populares, destruídos, e deEstados de 4º poder, quando os
mecanismos democráticos de representação são parcialmente restituídos,
mas encontram-se na prática submetidos a procedimentos de controle e
coerção que impedem o exercício da soberania popular nos termos
liberais representativos. O desmonte parcial ou completo dos Estados de
4º poder tenderia a levar novamente à agudização da competição política,
ao protagonismo popular e aos dilemas entre o avanço para o socialismo e
a imposição de golpe de Estado de contrainsurgência.
Trabalho e globalização
Em seus escritos dos anos 1990, Marini estende o conceito de
superexploração aos países centrais para explicar as transformações
na divisão internacional do trabalho trazidas pela globalização. Para
o autor, a globalização transfere o monopólio da tecnologia para a ciência
e reorienta as cadeias produtivas dos mercados internos para o mercado
mundial, permitindo situar, neste âmbito, a combinação entre alta
tecnologia e força de trabalho superexplorada como nova fonte de mais-
valiaextraordinária. Tal reconfiguração passa a situar a pequena e média
burguesia dos países centrais, que responde pela maior parte dos empregos
ali gerados, abaixo das condições médias de produtividade, levando-as a
recorrer à superexploração do trabalho.
Subimperialismo
Outra contribuição é o conceito de subimperialismo, pelo qual alguns
poucos países dependentes, como o Brasil, podem usar seu maior nível de
integração tecnológica ao capital estrangeiro para explorar assimetrias
regionais ou internacionais em seu favor. Segundo Marini, o
subimperialismo encontra dois tipos de expressão possíveis neste tipo de
país dependente: a) como política para o setor industrial, para o qual busca
gerar demanda internacional em razão dos limites da demanda interna
provocados pela superexploração do trabalho, bem como novas fontes de
investimento e suprimentos de matérias-primas em circuitos regionais ou
periféricos; b) como política de potência, por meio da qual busca elevar o
valor agregado da produção nacional e sua inserção na divisão
internacional do trabalho.
O lugar do subimperialismo nos países dependentes oscila então dentro
de uma certa margem de possibilidades estabelecida pela relação com os
países imperialistas: quanto maior a subordinação política ao
imperialismo, mais o subimperialismo se restringe a dimensões
econômicas, subordinando-se a outras prioridades na hierarquia das
políticas públicas; quanto maior a autonomia política na integração
tecnológica ao imperialismo, mais o subimperialismo se constitui como
38

um projeto de autonomia produtiva para alterar o lugar do país na


hierarquia de poder político e econômico mundial. Todavia tal projeto de
autonomia carece de bases políticas, sociais, econômicas e militares para
se sustentar de forma independente e tende a se ajustar às imposições do
imperialismo e às do conjunto da própria burguesia associada, que não
apoia a prioridade a uma política setorial, sob a perspectiva de
consequências favoráveis de médio e longo prazo ao seu Estado, em
detrimento do seu lucro imediato.
Um exemplo de política subimperialista de potência foi a realizada
pelos governos militares de Brasil e Argentina e pelo governo
de Saddam Hussein no Iraque. No caso brasileiro, destaca-se a
inviabilidade da tentativa de internalizar a indústria pesada mediante a
dependência financeira, processo estrangulado com a crise da dívida
externa, e de criar uma indústria de informática soberana, sem
investimentos massivos na educação pública. Nos casos argentino e
iraquiano, as tentativas de incorporar pela força as Malvinas e
o Kuwait abriram confrontos com o aparato militar do imperialismo,
sendo amplamente derrotadas.
Ele também não pode observar a retomada do
subimperialismo brasileiro, sob novo formato, através dos
governos petistas, que buscaram impulsioná-lo restringindo
sua amplitude setorial a nichos produtivos
A ofensiva neoliberal, como analisa Marini, colocou
o subimperialismo na retaguarda, destruindo cadeias produtivas
industriais e sua articulação interna, reprimarizando a pauta exportadora
e aprofundando a dependência tecnológica. Tal ofensiva e seus efeitos
sobre o aparato produtivo dos países latino-americanos abre, todavia,
fraturas entre as classes dominantes latino-americanas e segmentos
militares da região que, em determinados contextos, se incorporam à onda
nacional-popular que se impõe a partir da década de 2000, como foi o caso
da Venezuela, que Marini não pôde analisar, em razão de sua morte.
Ele também não pôde observar a retomada do subimperialismo
brasileiro, sob novo formato, através dos governos petistas, que
buscaram impulsioná-lo restringindo sua amplitude setorial a nichos
produtivos, como os setores de petróleo e gás, construção civil,
agroindustrial, automobilístico e de energia nuclear, mas combinando-o
com uma política externa de cooperação institucional entre os países
latino-americanos e com a ampliação de sua base interna de apoio popular,
a partir de uma conjuntura internacional favorável às nossas exportações.
Tal projeto, articulado principalmente via BNDES e que passou a disputar
com a política neoliberal a hegemonia de nossa política externa, foi
profundamente atingido pelo golpe de 2016 que alinhou radicalmente o
país, novamente, à ofensiva neoliberal.
IHU On-Line - Que outras abordagens foram feitas da Teoria da
Dependência por setores e intelectuais da esquerda? Ainda
39

nesse sentido, pode nos dar um panorama acerca de quais


aspectos da abordagem de Marini se contrapõem à abordagem
tanto de outras posições marxistas quanto da concepção da
Cepal?
Carlos Eduardo Martins - É preciso mencionar que a obra de Marini se
destaca no âmbito do que ele chamou de segunda onda de construção
da teoria da dependência e do início da terceira. A segunda onda se deu
no contexto da compreensão da reestruturação das economias periféricas
e suas contradições, a partir da reconfiguração da economia mundial
pela hegemonia estadunidense, que cria um novo padrão de acumulação
para a região, centrado na combinação do investimento direto das
corporações multinacionais com a arquitetura política da substituição de
importações, o que levou à industrialização parcial de algumas de suas
regiões, restringida, entretanto, pela incapacidade de internalizar de forma
significativa os segmentos geradores de progresso técnico para o conjunto
da indústria, tal como apontou Theotonio dos Santos e
demonstrou Fernando Fajnzylber.
Segunda onda de construção da teoria da dependência
Esta segunda onda se diferenciou da primeira, que se desenvolveu entre os
anos 1890-1920, quando o fenômeno da dependência foi percebido
embrionariamente por autores como José Martí, que apontaram a
contradição entre a autonomia política e a dependência econômica,
e por autores como Jose Carlos Mariátegui, que analisaram os limites da
dependência, então sob o padrão de acumulação estabelecido pela
hegemonia britânica, para industrializar a região. A terceira onda se refere
à necessidade de se compreender a reestruturação que incide sobre
as economias periféricas por fenômenos como a globalização
neoliberal e, tal como a segunda onda fez em relação à primeira, lança
novas luzes sobre o fenômeno da dependência em seu conjunto, sobre a
economia mundial capitalista e suas contradições.
Da segunda onda que conforma a teoria marxista da dependência se
destacam autores como Theotonio dos Santos, Vânia
Bambirra, Orlando Caputo, Jaime Osorio, Emir Sader, entre
outros. Theotonio dos Santos foi talvez quem mais defendeu a
necessidade de se compreender a teoria da dependência como parte da
construção de uma teoria marxista do sistema mundial, e aponta para a
sua aproximação dialética com os enfoques do sistema-mundo, trazendo
ainda para a teoria da dependência conceitos como os de revolução
científico-técnica e ciclos de Kondratiev.
Esta geração sofreu, todavia, uma contraofensiva à expansão do seu
pensamento, oriunda de quatro fontes:
a) à esquerda, do pensamento endogenista, que priorizou as
articulações internas sobre as articulações interna-externa para definir a
especificidade do capitalismo latino-americano, e do pensamento
40

neogramsciano que, partindo de uma leitura liberal de Gramsci, propôs


a questão democrática como central e superior à questão nacional, passível
de solução por um conjunto ampliado e sustentável de reformas
democráticas;
b) ao centro, pelo pensamento neodesenvolvimentista que
considerou o capitalismo brasileiro movido pela demanda interna, seu
padrão distributivo pelo grau de democracia, e sua capacidade de gerar
progresso técnico pela possibilidade de centralizar e concentrar capitais; e
c) à direita, pela ofensiva neoliberal, que absorveu parte dos autores do
centro e da esquerda; e
d) da teoria weberiana da dependência que oscilou entre o centro, ainda
que sem o mesmo otimismo desenvolvimentista, e à direita, de onde se
aproximou com a ofensiva neoliberal.
Terceira onda de construção da teoria da dependência
Uma das razões da derrota da esquerda brasileira foi o
abandono de um programa estratégico soberano e popular,
enquanto a direitase une em torno a um programa
de transformação neoliberal da economia e do Estado
numa ditadura política rentista e privatistado grande
capital
A terceira onda conta até certo ponto com a presença dos autores da
segunda onda e com a formação de uma nova geração, na qual incluo meus
trabalhos e onde se destacam autores como Adrian Sotelo
Valencia, Aña Esther Ceceña, Nildo Ouriques, Marcelo
Carcanholo, Mathias Luce, entre outros. Nesta onda algumas questões
teóricas, analíticas e empíricas se colocam:
a) a necessidade de se avançar na construção de uma teoria marxista do
sistema mundial para integrar a problemática da dependência na
compreensão das contradições do capitalismo mundial e das possibilidades
de superá-lo por um outro sistema;
b) a necessidade de se aprofundar o estatuto teórico e empírico
do conceito de superexploração do trabalho e seu desdobramento
para os países centrais no capitalismo atual; e
c) a necessidade de pensar as bases da emancipação da dependência, suas
dimensões geopolíticas, sua estrutura de classes e seus formatos políticos
vinculados à construção de novas formas de socialismo, que relancem
a democracia radicalmente, seja no plano nacional ou internacional, e um
novo padrão de desenvolvimento comprometido com a erradicação da
pobreza e com a preservação do meio ambiente.
Em nossos trabalhos, onde se destaca “Globalização, dependência e
neoliberalismo na América Latina”, publicado pela
editora Boitempo em 2011, e que está sendo atualizado para a versão em
inglês, temos buscado avançar nestas direções, construindo instrumentos
41

teóricos para a análise da conjuntura contemporânea, a partir da


extremamente complexa articulação de conceitos como os de revolução
científico-técnica, crise estrutural do modo de produção
capitalista, financeirização do capital e geração de capital fictício, ciclos de
hegemonia, ciclos de Kondratiev, ciclos específicos da dependência,
superexploração do trabalho e caos sistêmico.
Em relação ao conceito de superexploração do trabalho, temos
buscado contribuir para desenvolver o conceito que Marini lançou de
forma seminal e paradigmática, ampliando suas variáveis ao incluir, entre
elas, o aumento da qualificação da força de trabalho sem o pagamento
salarial equivalente; especificando as condições estruturais para sua
abrangência, ao buscar sua expressão matemática na teoria do valor de
Marx; e mencionando suas contratendências, ao incorporarmos os efeitos
da competição intercapitalista sobre a fixação da mais-
valia extraordinária.
IHU On-Line - FHC também é conhecido por ter feito uma
abordagem da Teoria da Dependência. Em que aspectos a
abordagem dele se aproxima e se diferencia da de Marini?
O governo Fernando Henrique Cardoso levou o Brasil a uma
nova etapa da dependência, de caráter neoliberal, com
predomínio da produção de capital financeiro fictício,
centralização e destruição de capitais, desmonte de direitos
trabalhistas e elevação das taxas desuperexploração do
trabalho
Carlos Eduardo Martins - Fernando Henrique Cardoso é um dos
principais formuladores do enfoque weberiano da dependência e
suas principais distinções do enfoque marxista da dependência, do
qual Marini é um dos mais destacados protagonistas, são as seguintes:
a. Situa a dependência como o paradigma de desenvolvimento dos países
periféricos, rechaçando o nacionalismo e o socialismo que associa à
estagnação, por desarticulá-los do dinamismo do mercado internacional.
Ateoria marxista da dependência defende a transição ao socialismo
como a alternativa à dependência, buscando redefinir as relações com a
economia mundial, sem rechaçá-la, uma vez que busca não apenas romper
com a condição dependente, mas superar a condição periférica;
b. Considera que a nova dependência se caracteriza por entradas de capital
superiores às saídas que, diferentemente da que vigia no período
imperialista descrito por Lenin, se tornam um instrumento de expansão da
demanda interna, da elevação das taxas de investimento e de superação do
estrangulamento do balanço de pagamentos. A teoria marxista da
dependência destaca o caráter cíclico das entradas de capitais
estrangeiros e o saldo líquido negativo no médio e longo prazo, computadas
as diversas formas de remessas em relação às entradas, reafirmando a
42

tendência estrutural ao caráter cíclico das crises do balanço de


pagamentos;
c. Restringe a análise da dependência a situações concretas específicas, sem
se comprometer sobre suas tendências reprodutivas de médio e longo
prazo, abrindo o espaço para o ressurgimento do
enfoque neodesenvolvimentista, e rechaçando o caráter de teoria para
o enfoque da dependência. A teoria marxista da dependência analisa
a dependência como parte do processo de desenvolvimento capitalista,
apresentando suas tendências evolutivas, novas etapas e padrões de
acumulação e as contradições que os permeiam; e
d. Rechaça a superexploração do trabalho como inerente ao
capitalismo dependente, destaca a relação do progresso técnico com a
produção de mais-valia, e não com sua apropriação, para afirmar a
generalização da mais-valia relativa e das democracias estáveis com o
progresso do capitalismo. A teoria marxista da dependência destaca
a forte relação entre progresso técnico e mais-valia-extraordinária, as
diferenças entre mais-valia extraordinária e mais-valia relativa, o papel
estrutural da mais-valia extraordinária nos países dependentes e na
economia mundial, os limites que coloca para a generalização da mais-valia
relativa, e as fortes consequências daí derivadas para a estruturação de
democracias estáveis na América Latina e nos países de capitalismo
periférico.
IHU On-Line - De que modo a Teoria da Dependência foi
implementada, na prática, nas decisões econômicas e políticas
do país e da América Latina, e o que isso significou em termos
políticos, econômicos e sociais?
Carlos Eduardo Martins - A teoria da dependência foi posta em
prática com diversos vieses:
a. À direita, para aprofundar a dependência, o governo Fernando
Henrique Cardoso levou o Brasil a uma nova etapa da dependência, de
caráter neoliberal, com predomínio da produção de capital financeiro
fictício, centralização e destruição de capitais, desmonte de direitos
trabalhistas e elevação das taxas de superexploração do trabalho.
Curiosamente esta nova etapa da dependência é a negação do
que Fernando Henrique Cardoso defendia como intelectual, vale
dizer, que a dependência representaria dinamismo econômico, o que
contrasta com o medíocre crescimento econômico de 0,9% a.a. durante seu
governo, e apenas de 1,2% a.a. a partir de 1994, o que significa que o Brasil
segue uma longa onda de fase B de Kondratiev, recessiva, desde 1980,
na contramão da economia mundial que estabeleceu uma fase A desde
1994, a qual vem implicando em crescimento econômico per capita de 2,3%
a.a. até 2015. Isto é assim porque a destruição de capitais nesta fase da
dependência, centrada na abertura comercial e financeira, é imensa e
porque a burguesia local já não consegue manter o controle sobre a classe
trabalhadora combinando tecnologias da revolução científico-técnica e
43

pleno emprego, recorrendo à produção de capital fictício como estratégia


principal de acumulação; e
b. À esquerda, a teoria da dependência tanto se inspira quanto inspira
processos históricos. Não é adequado fazer uma correlação direta, mas as
tentativas de construção do socialismo ou de uma economia
capitalista sob forte regulação estatal e controle popular na periferia têm
forte relação com esta, particularmente quando não propõem a ruptura
com a economia mundial, mas a mudança da relação com esta, capturando
suas externalidades para fortalecer a soberania nacional e elevar o nível
de poder do país no âmbito das hierarquias internacionais.
Um programa de políticas públicas inspirado na teoria marxista da
dependênciaimplica em aumentar o controle nacional sobre as cadeias
produtivas internas, romper com a superexploração do trabalho e criar um
importante sistema de ciência e tecnologia e inovação que propicie retirar
o país ou região da condição de periferia da economia mundial para
constituir um dos polos de poder de uma economia mundial multicêntrica
e pós-hegemônica.
Um programa de políticas públicas orientado pela teoria marxista da
dependência é também fortemente internacionalista e leva
necessariamente à construção de um novo eixo geopolítico para a
transformação da economia mundial, sendo esta uma das razões do porquê
de a teoria marxista da dependência ter que se desdobrar na construção de
uma teoria marxista do sistema mundial.
IHU On-Line - Quais são as consequências dessa teoria hoje,
tanto no Brasil quanto na América Latina?
A teoria marxista da dependência continua sendo um
importante instrumento de análise da realidade latino-
americana e brasileira e de construção de alternativas
estratégicas à dependência da região
Carlos Eduardo Martins - A teoria marxista da
dependência continua sendo um importante instrumento de análise
da realidade latino-americana e brasileirae de construção de
alternativas estratégicas à dependência da região: inspira as propostas de
integração regional e sua assimilação torna-se fundamental para
rompermos com o liberalismo e neoliberalismo que permeia
a esquerda brasileira.
Crise da esquerda
Uma das razões da derrota da esquerda brasileira foi o abandono de
um programa estratégico soberano e popular, enquanto a direita se
une em torno a um programa de transformação neoliberal da
economia e do Estado numa ditadura política rentista e
privatista do grande capital. Se formos perguntar às esquerdasqual é o
seu programa estratégico para o Estado e para a economia do Brasil,
44

dificilmente haverá consenso, ou predominará uma resposta sem


subordinação ou fortes concessões à ideologia neoliberal. O resultado é
um brutal paradoxo: temos um dos períodos mais medíocres e
inexpressivos do capitalismo no Brasil quanto aos seus resultados
econômicos e políticos e, simultaneamente, uma rendição quase que
completa de nossas esquerdas a este.
Importante mencionar que os retrocessos ocorridos na América do
Sul em grande parte só se tornam compreensíveis a partir da leitura
da teoria marxista da dependência. É preciso voltar criativamente às
obras de Ruy Mauro Marini, Theotonio dos Santos, Vania
Bambirra e Florestan Fernandes. Nossos cientistas sociais
institucionalistas e liberais venderam a ideia de que a democracia brasileira
havia se consolidado com a Nova República, mas quando se deram conta
descobriram que a Nova República havia acabado e que a democracia
respirava artificialmente por aparelhos.
IHU On-Line - Por que a obra de Ruy Mauro Marini é pouco
conhecida no país?
Carlos Eduardo Martins - Porque para além do exílio imposto
pelo golpe militar do grande capital, a obra de Marini sofreu o bloqueio
da intelectualidade liberal institucionalista, que quis eliminar riscos à
imposição de uma transição democrática conservadora, dirigida
pelos grandes grupos econômicos nacionais e estrangeiros, principais
beneficiários e articuladores do golpe, mas que com a redemocratização
abriram espaços à formação de uma nova elite intelectual para gerir seus
interesses.
A obra de Marini denuncia estes compromissos e suas consequências
como a persistência estrutural da desigualdade, da pobreza, da violação da
soberania nacional, da alienação de nossos recursos estratégicos, da
instabilidade democrática, do uso da violência política e
do subimperialismo brasileiro. Como tal, desafiou as estruturas de
poder que hegemonizaram a Nova República. Papel destacado na
deformação e ocultamento da obra de Marini cumpriram Fernando
Henrique Cardoso e José Serra, ao jogarem o peso de sua liderança
acadêmica e política para desqualificar e deformar rudemente seu
pensamento, quando seus escritos não haviam sido divulgados no país.