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especial 2012

arquivo abl

aos leitores
Para o crítico pernambucano Álvaro Lins maior representante de uma tradição que
(1912-1970), cujo centenário celebramos tentava ser superada pela – supostamente
nesta edição especial da revista Continente, – mais rigorosa crítica acadêmica, que
“Um crítico não se define estritamente prometia um novo paradigma de análise
pelo valor somente literário e artístico literária, mais “teórico” e “científico”.
das suas páginas, mas pela sua atuação O conjunto da obra crítica e historiográfica
na vida literária, pela sua influência, pelos desse autor, que foi durante vários anos
resultados dos seus trabalhos, pelos erros o crítico mais influente do país – quando
que condena ou evita, pelas realizações manteve seu rodapé literário no importante
que sugere ou provoca com suas ideias”. E Diário da Manhã do Rio de Janeiro –,
nenhum crítico influenciou mais a literatura encontra-se até hoje completamente
e a vida literária brasileira na década de relegado, desprezado tanto por jornalistas
1940, e em parte dos anos 1950, do que como pelos críticos e acadêmicos.
Álvaro Lins, chamado por Carlos Drummond Nesta revista que o leitor tem em mãos,
de Andrade de “Imperador da Crítica a contribuição do crítico pernambucano a
Brasileira”. Talvez esse protagonismo – nossas letras (e à vida cultural e política do
num momento de crise e de transição país em geral) é reavaliada – e revalorizada
na crítica literária no Brasil – tenha sido, em muitos aspectos – sob diferentes
paradoxalmente, um dos fatores, além da perspectivas. Em todos os textos aqui
perseguição política, que o condenou ao publicados, algo fica sugerido, direta ou
ostracismo intelectual no final da vida, indiretamente: a importância de reler a
e ao quase completo esquecimento de obra de Álvaro Lins, não para seguir um
sua obra e do seu pensamento nos dias modelo, mas para contribuir na reinvenção e
de hoje, justamente por se tratar do revitalização da crítica de nosso tempo.

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sumário
o crítico e 12 os rodapés 25 o proust de lins
o seu tempo cláudia nina
Antes da especialização
paulo Gustavo
Com A técnica do
Ivan Junqueira universitária, o melhor romance em Marcel
A rica e conflituosa trajetória da análise literária Proust, Álvaro Lins
era praticado nas apresenta o primeiro
intelectual e política do páginas dos jornais estudo teórico
jornalista, diplomata, professor abrangente sobre o
e crítico pernambucano 16 uma polêmica autor francês no Brasil

4 João cezar de
castro rocha
A guerra intelectual
entre Álvaro Lins e
27 trajetória
humberto frança
As mudanças na
Afrânio Coutinho como orientação política de
marco de uma transição Álvaro Lins em cada
na crítica brasileira momento da vida
revelam um intelectual
21 brasil-portugal inquieto e autônomo
eDiÇÃo especial Eduardo Cesar maia José rodrigues
ilustraÇÃo De capa Pedro Zenival As relações de Álvaro Lins
com a literatura e vida
intelectual portuguesa

colaboraDores

claudia nina é jornalista, autora de Literatura nos jornais: a crítica literária dos rodapés às resenhas, entre outros. eduardo cesar Maia é jornalista,
mestre em Filosofia e doutorando em Teoria Literária. Foi convidado a conceber e editar esta edição especial sobre Álvaro Lins. humberto frança é poeta,
escritor e historiador. ivan Junqueira é poeta, crítico literário e jornalista. é membro da Academia Brasileira de Letras. João cezar de castro rocha é
ensaísta e professor universitário. Publicou o livro Crítica literária: em busca do tempo perdido. José rodrigues é professor de Literatura Portuguesa da
UFPE. paulo Gustavo é poeta, escritor e publicou o livro A tartaruga e a borboleta: um caminho para Proust.

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álvaro
lins
e a crise da
literatura
Comprometido com os grandes problemas do seu tempo, o jornalista,
diplomata, professor e crítico atuou de forma decisiva num
momento de audaciosa revisão dos valores literários nacionais
texto Ivan Junqueira

Ao longo dos quase 58 anos de de representante do Diretório dos as eleições em 1937. Álvaro Lins
sua existência, mais precisamente de Estudantes na abertura do ano letivo deixou então a Secretaria de Governo
14 de dezembro de 1912 a 4 de junho da Faculdade de Direito, pronunciou e abandonou seus planos políticos,
de 1970, Álvaro Lins, cujo centenário a conferência A universidade como escola mas não propriamente a política,
de nascimento agora se celebra, dos homens públicos, que despertou vivo como depois se veria. É nessa época,
desempenhou papel de destaque interesse nos círculos intelectuais da entretanto, que retorna ao exercício da
não apenas em nossas letras, mas capital pernambucana. crítica literária e publica seu primeiro
também na vida pública do país, pois Logo em seguida, passou a colaborar livro: História literária de Eça de Queirós
não se pode esquecer sua trajetória no Diario de Pernambuco e, em 1935, (1939), transferindo-se no ano seguinte
no magistério, no jornalismo, na concluiu o curso de Direito. Graças para o Rio de Janeiro, onde começa a
política e na diplomacia, em especial à sua participação em movimentos trabalhar no Correio da Manhã.
durante o mandato do presidente políticos no Recife, tornou-se Ainda em 1939, publica Alguns
Juscelino Kubitschek. Nascido em secretário de estado do governo de aspectos da decadência do Império e, dois
Caruaru, Pernambuco, fez o curso Pernambuco a convite do interventor anos depois, a primeira série de
primário em sua cidade natal e o (e depois governador) Carlos de Lima seu opulento Jornal de crítica, que se
secundário, já no Recife, no Colégio Cavalcanti. Já em 1936, seu nome desdobrará em outras seis, a última das
Salesiano e no Ginásio Padre Félix. fazia parte da chapa do Partido Social quais com data de 1963. Colaborador
Ingressou na Faculdade de Direito Democrático (PSD) de Pernambuco, do suplemento literário do Diário de
e, ainda estudante, começou a fundado por Lima Cavalcanti, para Notícias e dos Diários Associados e
lecionar História da Civilização no disputar uma cadeira à Câmara dos já então redator-chefe do Correio da
Ginásio Pernambucano e no Colégio Deputados, pretensão abortada pelo Manhã, função na qual permaneceria
Nóbrega. Aos 20 anos, na condição golpe do Estado Novo, que suspendeu até 1956, Álvaro Lins publica ainda

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durante esse período três outros


títulos de sua vasta bibliografia:
Poesia e personalidade de Antero de Quental
(1942), o primeiro volume de Notas
de um diário de crítica (1943) e Rio Branco
(1945). Em 1952, lecionou a disciplina
Estudos Brasileiros na Faculdade de
Filosofia e Letras da Universidade
de Lisboa, tendo permanecido
em Portugal até julho de 1953.

DE VOLTA AO PAÍS
Regressou ao Brasil em agosto de 1954,
em consequência da crise política
desencadeada pelo suicídio de Vargas,
época em que reassume as atividades
jornalísticas e a cátedra de Literatura
no Colégio Pedro II, que exercera como
interino entre 1941 e 1951, quando
se tornou titular graças à obtenção
do 1º lugar em concurso de títulos e
provas com a tese A técnica do romance
em Marcel Proust, publicada em 1956.
Em 1955, foi eleito por unanimidade
para a Academia Brasileira de Letras
na Cadeira 17, até então ocupada por
Edgar Roquette-Pinto. É também por
essa época que Álvaro Lins empenha-
se ativamente, como jornalista e
como político, na luta para garantir
a posse de Juscelino Kubitschek na
Presidência da República, o que afinal
se dará no início daquele ano. Nomeado
chefe da Casa Civil de Juscelino,
manteve-se nessa função até o fim
de 1956, quando foi indicado como
embaixador do Brasil em Portugal.
Logo após a chegada de Álvaro Lins
a Lisboa, em 1957, o presidente de
1
Portugal, Francisco Higino Craveiro
Lopes, visitou o Brasil, estabelecendo “Suas posições Kubitschek para participar dos festejos
na ocasião os termos dos atos de
regulamentação do Tratado de Amizade
tornariam inevitável em homenagem ao Infante D. Henrique
em Portugal na condição de coanfitrião
e Consulta entre o Brasil e Portugal. o choque com a e cochefe de estado português. O
Álvaro Lins considerava tal acordo
“lesivo aos interesses do Brasil”. De ditadura salazarista presidente brasileiro não só aceitou o
convite, como solicitou que Portugal
fato, suas posições tornariam inevitável e o colonialismo por concedesse asilo político em seu
o choque com a ditadura salazarista e território ao ditador Fulgêncio Batista,
o colonialismo por ela sustentado. O ela sustentado” deposto pela Revolução Cubana em
impasse foi criado quando, no início de janeiro de 1959. Pouco tempo depois,
1959, a embaixada brasileira concedeu Sentindo-se, nesse episódio, descontente com a posição assumida
asilo ao líder oposicionista português, abandonado por não ter podido por Juscelino, Álvaro Lins escreveu-
general Humberto Delgado. Esse asilo, contar com o apoio de Kubitschek lhe uma carta rompendo política e
homologado pelo Itamarati, como uma “para desagravá-lo e desafrontar a pessoalmente com o presidente e
decisão do governo brasileiro, não foi representação do Brasil em Lisboa”, condenando seu “compromisso com
reconhecido pelo governo de Portugal, Álvaro Lins protestou com veemência, a ditadura salazarista”. Exonerado
o que consistia, nas palavras de Álvaro quando uma comissão especial do da embaixada em Portugal em 1959,
Lins, um “flagrante desacato” ao governo português chegou ao Rio de devolveu ao governo português a
próprio governo Kubitschek. Janeiro com o objetivo de convidar condecoração da Grã-Cruz da Ordem

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1 anos 1920 em caruaru
Antiga Rua da Frente, atual
Rua 15 de novembro, com a
tradicional feira da cidade

Antônio Houaiss em seu discurso


de posse na Academia Brasileira de
Letras, na qual ocupou por 28 anos a
Cadeira 17, Álvaro Lins, “no que pôde
entremostrar como político, ter-se-
ia sacrificado, com vistas a servir,
jamais servir-se”. O golpe do Estado
Novo, em 1937, afastou-o da arena
política, ensejando-lhe a alternativa
do jornalismo, e se, como jornalista,
foi-lhe por vezes interdita a militância
didático-política que inerva o exercício
dessa profissão, teve ele uma segunda
alternativa, a que lhe oferecia a
oportunidade de ser fiel a si mesmo:
fazer-se crítico literário. Mas o crítico
literário, como ainda uma vez sustenta
seu sucessor na Cadeira 17, “foi nele a
maneira possível de ser político; todas
as instâncias que a vida lhe propiciou
para engajar-se na política – cultural,
administrativa ou internacional -,
preferiu-as a tudo mais”.

MILITÂNCIA
Em certo sentido, Álvaro Lins viria
a ser, como pretende Otto Maria
Carpeaux, “o crítico da crise das letras
brasileiras”, pois começou a atuar
num momento de audaciosa revisão
de valores que se encaminhava para
o reconhecimento de uma literatura
nacional definitivamente constituída.
Seu papel foi, assim, o de restabelecer
a ordem desses valores, de esclarecer
de Cristo, que lhe fora conferida pelo mortos de sobrecasaca e Jornal de crítica: os aspectos nebulosos da crise e de
presidente Craveiro Lopes. De volta ao Sétima série (1963). chamar a atenção para o aparecimento
Brasil, recolheu-se à sua cátedra de Embora de caráter quase de alguns notáveis escritores nas
Literatura e, em 1960, publicou Missão institucional, esse introito é importante letras brasileiras contemporâneas,
em Portugal, relato do dia a dia de sua para que se tenha uma ideia, ainda que o que constitui a responsabilidade
experiência na embaixada de Lisboa. fragmentária, da intensa participação e o dever dos intelectuais. E, para
Recebeu, entre outros, o Prêmio que teve Álvaro Lins na vida política tanto, era preciso coragem. Álvaro
Centenário de Antero de Quental, nacional. Ela explica, de certa forma, a Lins não temia glórias consagradas,
pelo ensaio Poesia e personalidade de crítica literária que exerceu o autor, que nem mesmo aquelas que eram
Antero de Quental (1942); o Prêmio já se insinua naquela conferência que assim consideradas em razão de
Felipe de Oliveira, da Sociedade proferiu aos 20 anos, ainda no Recife: A uma morte misericordiosa, porque
Felipe de Oliveira, e o Prêmio Pandiá universidade como escola de homens públicos. la mort n’est pas une excuse (a morte não
Calógeras, da Associação Brasileira de Ela atesta que nele já se percebia é uma desculpa). Com isso, tornou-
Escritores, pela obra Rio Branco (1945); aquilo que com ele morreria, o homem se um homem fora e acima dos
o Prêmio Jabuti Personalidade do público, o servidor da comunidade, partidos, e confirmou-o em seu artigo
Ano, da Câmara Brasileira do Livro, o político. Convém não ignorar aqui sobre Rui Barbosa, no qual reprova
pela sua obra Missão em Portugal (1960); o que disse Aristóteles há mais de corajosamente o escritor Rui, ídolo
e o Prêmio Luiza Cláudio de Souza, 25 séculos, ou seja, que somos todos da vertente gramático-filológica,
do Pen Club do Brasil, pelas obras Os animais políticos. E, como observa para erguer um monumento ao

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imagens: reprodução
2 Antecessor
Álvaro Lins
substituiu o
escritor e cientista
Edgar Roquette-
Pinto na ABL
3 Política
Lins assumiu
funções
diplomáticas
durante o governo
de Juscelino
Kubitschek
4 sainte-beuve
O jornalista
francês foi uma das
influências centrais
no pensamento
de Álvaro Lins

outro Rui, o homem da vida pública, Lins soube intuir as à vontade de arrumar a casa para
combatido e desdenhado por quase
todos os partidos ideológicos. E foi isso,
obras que mereciam restabelecer a ordem”, instituindo
assim um código de valores.
provavelmente, o que levou Carpeaux a reconhecimento Não há dúvida de que foi esse
afirmar: “A crítica do Sr. Álvaro Lins é a
menos doutrinária imaginável; parece imediato e os valores código que o levou a declarar, com
toda clareza e autoridade, que a poesia
até crítica impressionista”. emergentes da brasileira contemporânea possuía
Mas, aqui, convém esclarecer, como três vozes de primeira grandeza e
o faz oportunamente o autor de Origens e literatura da época que assim poderiam ser reconhecidas
fins: “É o impressionismo dum homem em qualquer literatura americana ou
profundamente impressionado, Lins era um crítico de rodapés, de europeia: as de Manuel Bandeira, de
angustiado pelas catástrofes da vida e suplementos literários, um hermeneuta Carlos Drummond de Andrade e de
da época, que o fizeram amadurecer fiel aos critérios judicativos que o Augusto Frederico Schmidt. Mais uma
antes do tempo”. Visto à distância de induziam ora ao acerto, ora ao erro. vez acertou. E mais uma vez se enganou.
mais de meio século, não há dúvida Reconheceu de pronto o gênio de Enganou-se porque não se poderia,
de que foi ele um de nossos últimos Guimarães Rosa, mas equivocou-se naquele momento histórico, julgar
impressionistas, numa época em no caso de Clarice Lispector. Como toda a nossa poesia contemporânea de
que as modernas correntes da crítica católico, tinha o sentido da ordem acordo com esse código, que colocava
europeia e norte-americana, como espiritual, da hierarquia dos valores e em situação subalterna autores como
as da Estilística e do New Criticism, já do mundo, e sabia que não se destrói Jorge de Lima, Murilo Mendes e Vinicius
começavam a interferir na literatura realmente senão aquilo que se pode de Moraes, ou que simplesmente
brasileira, especialmente nas substituir. Como observa uma vez mais omitia o nome de Cecília Meireles.
universidades, onde ganhavam corpo Otto Maria Carpeaux, “suas soluções, Ainda assim, foi muito o que fez pelo
os processos interpretativos. Mas Álvaro às vezes violentas, subordinam-se reconhecimento de nossa poesia, e

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Carpeaux não hesita em comparar seu
papel àquele que exerceu Sainte-Beuve
no que toca à poesia francesa. Em seus
julgamentos, muitas vezes intuitivos,
o que mais pesava era a expressão
dos estados de alma do escritor, razão
pela qual louvou entusiasticamente
Machado de Assis, José Lins do Rego,
Marques Rebelo, Lúcio Cardoso e Otávio
de Faria. Mas enganou-se outra vez
em seu julgamento precipitado sobre
Graciliano Ramos e Érico Veríssimo.
Crítico da crise espiritual de seu tempo,
são ainda memoráveis os ensaios que
nos deixou sobre a literatura europeia,
sobretudo aqueles em que aborda a
decadência francesa, a agonia dos
católicos, a arte do romance proustiano
ou o pensamento de André Gide.
Na verdade, há ainda muito mais
o que dizer sobre esse crítico que
consagrou à literatura quase quatro
décadas das pouco mais de cinco em
que se resumiu a sua existência, a última
das quais registra a publicação de 10
importantes títulos, como, entre outros,
A glória de César e o punhal de Brutus (1962),
Os mortos de sobrecasaca (1963), Literatura e
vida literária (1963), O relógio e o quadrante
(1964), Poesia moderna do Brasil (1967) e O
romance brasileiro (1967). É nessas obras
que se torna claro como o autor entendia
a literatura, ou seja, como uma forma
quase artística: o conhecer e o fazer que
3
se complementam apenas pelo exercício
da própria análise crítica ou conceitual,
unidade profunda que lhe conduzia
a navegação nos tormentosos mares
desde sempre ameaçados pelos riscos
dos julgamentos de valor. A propósito,
deve-se a essa prática temerária as
acusações, não de todo infundadas, de
que foi ele, acima de tudo, um crítico
impressionista, subjetivo, vivamente
influenciado pelos roteiros espirituais
de um Sainte-Beuve, de um Albert
Thibaudet, de um Benedetto Croce,
desses altos espíritos que se debruçam
sobre a literatura sem se sentir para
tanto obrigados a análises técnicas das
estruturas literárias.
Ao fazer o elogio de Álvaro Lins em
seu discurso de posse na ABL, Antônio
Houaiss observa, a propósito dessa
atitude temerariamente intuitiva de
Lins, que ele não ostentava “nenhuma
teoria de níveis, nenhuma busca de
funções específicas”. E acrescenta:
“Senhor de inteligência agílima, dono
4

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acervo anastácio rodrigues
5 Infância
Imagem rara de
Lins ainda em
Caruaru
6 Acadêmico
Cerimônia de
posse na ABL, em
que foi eleito por
unanimidade

fosse o instrumental com que aquela


pudesse, acaso, exercer sua soberania,
o julgamento de valor”. Percebe-se essa
preocupação em incontáveis passagens
de sua obra, como, entre outras, Literatura
e vida literária: diário e confissões, à qual
pertence esta significativa anotação:
“Como podemos distinguir Ciência
e Arte, desde de que ambas visam a
um conhecimento do homem e da
natureza? Distinguem-se pela maneira
de operar no ato de conhecer e pela
forma de revelar o conhecimento. Uma
se exprime em ‘conceitos’, a outra
em ‘imagens’”. Apoiado na Estética de
Croce, Álvaro Lins sustenta que foi o
filósofo italiano quem definiu com
maior exatidão essa dupla finalidade. O
conhecimento teria assim duas formas:
ou é intuitivo ou é lógico, conhecimento
pela “fantasia”, ou conhecimento
pela “inteligência”, conhecimento
do “individual” ou conhecimento do
“universal”, ou das coisas “particulares”,
5
ou de suas “relações”. Em síntese,
de memória singular, leitor perspicaz, crítico imediato, as tendências conclui o autor de Os mortos de sobrecasaca,
antena de correntes filosóficas e estéticas estético-literárias da época e os valores ou é produtor de “imagens”, ou é
de seu tempo, usava de todos os dados emergentes, deixando-nos assim um produtor de “conceitos”.
disponíveis para a militância de sua legado que até hoje perdura, ainda que Álvaro Lins buscou uma definição
crítica, que ia direto ao julgamento, marcado pelas manifestações ocasionais que justificasse a sua atividade literária
correndo assim todos os riscos”. Tornou- de seus humores. tal como a exerceu: “Quando se exige
se proverbial o seu passionalismo, de um crítico que ele seja também um
que fazia dele um árbitro às vezes LÓGICA E INTUIÇÃO criador, esta exigência não significa que
precipitado, capaz de transformar Lembra ainda Antônio Houaiss que lhe esteja a pedir que componha poemas
em evidência opiniões que poderiam Álvaro Lins tinha plena consciência e romances. Dentro da mais pura e
exigir esforços de prova e contraprova. de que lhe cabia distinguir o que seria mais estrita atividade crítica existe uma
Mas foi um dos poucos entre nós que crítica literária e ciência da literatura: função criadora. A criação do crítico
soube intuir as marés montantes, as “A esta, não apenas admitia, senão lhe vem da possibilidade de levantar,
obras que mereciam reconhecimento que louvava, com a condição de que ao lado ou além das obras dos outros,

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ideias novas, direções insuspeitadas, Álvaro Lins foi crítica, escreveu: “para traçar a genealogia
novos elementos literários e estéticos,
sugestões de bom gosto, sistematizações,
recebido na Casa de do tipo do Diário de crítica, seria preciso,
depois de Montaigne e Gide, falar
esquematizações, quadros de Machado de Assis de Charles Du Bos e Álvaro Lins”.
valores. Crítica num tríplice aspecto:
interpretação, sugestão, julgamento”. em 7 de julho de 1956 De Antonio Candido, por exemplo,
ressalta o orador que este ilustre
Ao concluir seu elogio, Antônio Houaiss pelo acadêmico João crítico de nossas letras, ao analisar a
salienta que Álvaro Lins foi, na sua obra do novo imortal, nela destaca
crítica, o militante da sua verdade. E Neves da Fontoura “o justo equilíbrio e a imparcialidade
remata: “E dessa militância teve nítida entre impressionismo estético, que
consciência trágica. Tão crescentemente iniciais no magistério, a sedução da ameaça os grandes individualistas, e a
trágica, que num dado momento – o política, o livro de estreia sobre Eça solicitação da atividade no mundo que
de seus últimos anos – se ilhou na de Queirós, o sentido de sua crítica arrasta o intelectual para o turbilhão dos
impotência de apegar-se a qualquer literária, a pertinácia de sua militância acontecimentos e das paixões políticas”.
valor circulável, o que o levou ao na imprensa, a sinceridade de seus E acrescenta o autor de Formação da
mutismo compulsório de quem, a dizer, juízos de valor, o julgamento pelos literatura brasileira: “Não quero dizer
diria o que os donos de outras verdades pares da época, a excelência de sua tese que o Sr. Álvaro Lins seja o ‘melhor’
não permitiriam que dissesse”. sobre o romance proustiano, o exercício crítico brasileiro, porque estas questões
Álvaro Lins foi recebido na Casa da cadeira de Estudos Brasileiros em não têm sentido. Não há dúvida de
de Machado de Assis em 7 de julho de Lisboa, a sua aguda interpretação de que ele é o ‘mais’ crítico”. Se de um
1956 pelo acadêmico João Neves da Rio Branco e o monumental discurso de lado Otto Maria Carpeaux o define
Fontoura, curiosamente o mesmo dia e posse em que fez o elogio do antecessor como o “crítico da coragem” por atuar
o mesmo mês que escolhi para minha Edgar Roquette-Pinto. Recorda ainda sempre acima de todo o doutrinarismo
posse em 2000, quarenta e quatro aquele diplomata o memorável e ideológico, de outro Alceu Amoroso
anos após a investidura do grande consagrador reconhecimento literário Lima louva-lhe “a independência, o
crítico. Neves da Fontoura louva-lhe a à obra do autor por parte de Antonio bom gosto, a pertinácia e a cultura”,
unanimidade da escolha (foram 34 votos Candido, Alceu Amoroso Lima, Otto valores em nome dos quais irá pouco
no primeiro escrutínio), os primeiros Maria Carpeaux e Roger Bastide, que, mais tarde proclamar Álvaro Lins como
frutos colhidos pelo autor, seus anos ao comentar as Notas sobre um diário de “o maior dos nossos críticos vivos”.

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jornalismo
7 século 20
O modelo francês
foi a principal

A crítica de rodapé e a
influência
da imprensa
brasileira até a

época do “império” de Lins


década de 1960

No começo do século passado, as páginas da imprensa eram


espaço privilegiado para análises pessoais e eruditas voltadas
para a produção literária do momento
texto Cláudia Nina
reprodução

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O centenário de um “imperador da sejam igualmente reacendidas. enumera características básicas das
crítica” só pode e deve reacender os O momento desta reflexão é a análises literárias praticada pelos
ânimos e os debates em torno dessa época que remonta ao trabalho dos bacharéis daquela época: a oscilação
atividade que começou na imprensa, intelectuais eloquentes e eruditos que entre a crônica e o noticiário puro e
de forma mutante e imprecisa, e se lançavam na primeira pessoa para simples, o cultivo da eloquência, já
depois ganhou status e jargões nas discorrer ampla e digressivamente que se tratava de convencer rápido
universidades. Sempre que se retoma sobre obras literárias em exibidas leitores e antagonistas, e a adaptação
o assunto e se menciona o perfil aventuras de personalidade e estilo. às exigências do entretenimento,
dos intelectuais daquele tempo – Era o chamado “rodapé”– assim abusando da redundância para
primeiras décadas do século 20 –, a ficou conhecido o modelo crítico uma “leitura fácil”, seguindo o
crítica dos jornais, em suas origens, que se produzia em jornal antes da ritmo industrial da imprensa. Flora
é mais uma vez revirada a fim de especialização da atividade promovida relembra que alguns desses analistas
que novas reflexões sobre os debates pelos estudos universitários. tinham tanto poder junto ao público
literários na imprensa contemporânea Os rodapés eram geralmente leitor que se julgavam verdadeiros
publicados na parte inferior da página: “diretores de consciência”, como
os “pés”; eram colunas exclusivas costumava dizer Álvaro Lins a
assinadas por autores bastante respeito da sua própria condição.
expressivos, tais como Alceu Amoroso O tom subjetivista dos rodapés
Lima (Tristão de Ataíde), Otto Maria estava ligado às origens da crítica
Carpeaux, Mário de Andrade, Sérgio literária no Brasil. Como na França,
Milliet e Álvaro Lins – o imperador da aqui, ela também nasceu na imprensa,
crítica no Brasil, segundo a definição de numa época em que o jornalismo
Carlos Drummond de Andrade – então ainda estava estreitamente ligado
redator-chefe do Correio da Manhã e à literatura, em meados de 1800.
colaborador assíduo do Diário de Notícias.
Lins atuou em um cenário Na verdade, a
extremamente fértil para as letras
brasileiras, pois, nas décadas
história da crítica
seguintes ao Modernismo, surgiam literária brasileira
autores do porte de Clarice Lispector,
com seu romance inusitado, Perto é indissociável das
do coração selvagem, de 1944, e várias polêmicas e
Guimarães Rosa, com Sagarana,
de 1946. Ambas as estreias foram disputas intelectuais
analisadas por Álvaro Lins em suas
crônicas, que influenciavam o gosto A partir do Romantismo, que se
do público de forma surpreendente. desenvolveu também através da
Enorme foi a importância de seu imprensa, com os folhetins, a crítica
trabalho para a época, a literatura, literária começou a adquirir, ainda
a história do gênero crítico e que lentamente, a consciência do seu
também para a imprensa literária. papel. Exemplo clássico é Machado de
Assis, autor do célebre O ideal do crítico,
O CASO SAGARANA espécie de manual, em que o autor,
Um breve exemplo do poder de que começou sua carreira de escritor
persuasão do “imperador”: no dia na crítica teatral e literária, publicada
seguinte à publicação do rodapé em jornais, expõe as virtudes e os
sobre Sagarana, assinado por Lins, defeitos desse gênero no seu tempo.
a obra de Guimarães passou a ser Um apanhado das características
muito procurada nas livrarias. Os da crítica literária nascente está no
anos 1940 e 1950 marcaram no livro de Ubiratan Machado, A vida
Brasil o triunfo da crítica de rodapé, literária no Brasil durante o Romantismo,
ou seja, aquela fundamentalmente em que o autor faz uma boa seleção
ligada à não-especialização e, de exemplos marcantes – alguns
ainda, a uma estreita relação com hilários – de como era o jargão
o movimento editorial da época e da época, incluindo os cacoetes,
ao mercado, por lógica extensão. trocadilhos e os excessos de estilo
No lúcido livro de ensaios Papéis que se espalhavam pelos rodapés.
colados, em um texto intitulado Rodapés, Ubiratan Machado destaca que a ação
tratados e ensaios, Flora Süssekind entre amigos – e inimigos – era muito

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con
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te
reprodução/biblioteca nacional
8 rodapé
Fac-símile
de página do
Correio da Manhã
com coluna de
Álvaro Lins
9 antonio candido
Intelectual carioca
atuou tanto nos
rodapés como
na Academia

comum. Elogiar com veemência os


afetos e destruir com igual veemência
as antipatias revelavam o quanto
oscilante era aquela incipiente
atividade, ainda sem muitos critérios
além da necessidade de exercitar um
estilo próprio – o do crítico-escritor
– e de delatar mazelas e amores.
Abusava-se, naqueles princípios,
dos arroubos poéticos em descrições
infindáveis – de que mesmo se falava?
Eram tantas as voltas, que o assunto
se perdia. Elogiar livros de colegas ou
destruir a obra dos desafetos mostrava
o quão parciais e inexperientes
eram os críticos de então, que viam
os jornais como uma arena onde
expunham suas rixas pessoais, tendo
a palavra como arma. A agressividade
era, portanto, bastante comum.
Exemplo disso: a série de críticas
publicadas por Bernardo Guimarães
no jornal Atualidade, no Rio, entre
os anos 1859 e 1860. Esquecido da
8
relatividade do julgamento literário,
divulgação

Guimarães destrói a obra Sátiras,


epigramas e outras poesias, do padre
Correia de Almeida, ao escrever: “Se
a vulgaridade da ideia, a sordidez do
pensamento, se a trivialidade dos
conceitos, a insipidez e a dissonância
do verso fossem os grandes dotes do
cultor das musas, o Sr. Padre Correia
seria o maior poeta do mundo”,
como registra Ubiratan Machado.
Na verdade, a história da crítica
literária no Brasil é indissociável
das várias polêmicas e disputas
intelectuais que acompanharam
9

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seu desenvolvimento ao longo dos isso, trocava-se o eixo: o templo
séculos. Entre as maiores disputas
que se travaram estão, em posição
da cultura literária não seria mais
o jornal e sim a universidade;
notas de um
privilegiada, as rusgas entre os críticos substituiu-se o rodapé pela cátedra. diário crítico
de rodapé, os bacharéis, representados Enquanto isso, pouco a pouco, os
principalmente na figura do seu editores dos suplementos eliminavam Por Álvaro Lins
imperador, Álvaro Lins, e os scholars, os rodapés dos jornais e privilegiavam
ou seja, os acadêmicos que, formados textos mais curtos, menos digressivos “Toda obra de arte há de ser pessoal;
pelas universidades, egressos das e mais objetivos. Muita coisa aconteceu a arte só é social na sua sugestão e na
sua repercussão: na sugestão que lhe
faculdades de Filosofia e de Ciências a partir daí. Se, por um lado, houve a
vem, como tema, da sociedade, e na
Sociais, a partir dos anos 40, passam a separação entre scholars e autodidatas, repercussão que ela transmite, sob a forma
exigir nos jornais o espaço dos antigos por outro, o jornalismo organizou-se de emoção, a esta mesma sociedade. Em
generalistas (impressionistas). No como profissão. As duas atividades – sua realidade íntima, porém, representa um
final da década, essa atuação se fez literatura e jornalismo – afastaram-se fenômeno rigorosamente individual”.
sentir de forma mais enfática. Um à medida que as técnicas jornalísticas
dos mais importantes representantes foram criadas. O texto jornalístico “A propósito de Gilberto Freyre, eu havia
da atuação da academia na crítica ganhava seus próprios códigos. escrito: – é um cético com a nostalgia
da Igreja e de Deus. Dias depois ele me
foi, sem dúvida, Antonio Candido. No cenário das universidades, a
respondeu: – O seu caso é exatamente
crítica literária, inchada de teoria, o contrário: um católico com a nostalgia
CÁTEDRA X RODAPÉ especializou-se cada vez mais. Com do ceticismo. Essa resposta deu-me
As mudanças de critérios na avaliação isso, os profissionais da imprensa a esquisita sensação de quem se vê
das obras foram marcantes. O viram nos jargões acadêmicos descoberto. Um católico com a nostalgia
“impressionismo” passou a ser uma linguagem excessivamente do ceticismo – esta frase é meu próprio
combatido especialmente pelo hermética para o público de jornal. retrato. O retrato de uma contradição
interior que nenhum recurso dialético
professor Afrânio Coutinho, autor da
seção Correntes Cruzadas, no suplemento O templo da cultura consegue apaziguar”.

literário Diário de Notícias de 1948 a


1966. Recém-chegado dos Estados
literária não seria “Arte desinteressada não é arte de torre
de marfim. Esta é a arte à margem da vida;
Unidos, onde assistiu aulas nas mais o jornal e, sim, aquela é a arte que se identifica com a vida.

a universidade;
universidades de Columbia e Yale, A vida, ela própria, tem teses, doutrinas,
além de ter sido redator-secretário ideologias? Sabemos que não”.
da revista Reader’s Digest, ele retornou substituiu-se o rodapé “A crítica tem um caráter casuístico. Ela se
ao Brasil influenciado pela nova
tendência da teoria literária, divulgada, pela cátedra exerce de um modo especial em face de
cada livro e de cada autor. Assim, não se
sobretudo, por René Wellek. devem ter regras duras para apreciar um
Iniciava-se, então, um duelo entre Os teóricos se fecharam nas salas de livro, mas deve-se fixá-lo dentro de suas
os que praticavam o autodidatismo e aula, dialogando com seus pares. próprias condições, respeitando-lhe as
os que tentavam usurpar o domínio O que se vê, hoje, são cenários tendências mais íntimas e o que há de mais
das páginas, exercendo o que Afrânio bastante diversificados, em que tanto particular na pessoa do seu autor.”
Coutinho defendia como “crítica o jornalista se especializa em Letras,
“Às vezes, quero irritar-me com a
estética”. Os recém-chegados scholars como os acadêmicos se aproximam subliteratura. Mas quando ouço falar
foram colocando os impressionistas dos jornais, na tentativa de fazer ou leio alguns dos seus membros
em desconforto. Coutinho levantou a com que suas reflexões encontrem representativos – logo vejo que
bandeira de uma metodologia rigorosa guarida na imprensa e alcancem um posso me dominar. Eles apresentam
de análise, impondo a necessidade, aos público mais amplo. Talvez estejam tal segurança, tal tranquilidade, tal
que abraçavam a carreira, de incorporar exercitando as lições do mestre inconsciência – que o meu sentimento
fica sendo somente o da piedade”.
uma investigação da literatura próxima Antonio Candido, grande autor de
à atividade científica, contra o que Formação da literatura brasileira (1959), “Sim: a Crítica Literária deve apresentar
chamava de “amadorismo” dos autores que atuou regularmente na Folha da na base e no ápice, como ponto de partida
de rodapé. O alvo predileto foi, claro, Manhã. Para ele, a clareza era mais e como finalidade – em suma: como seu
Álvaro Lins. Como explica Süssekind importante do que a profundidade. fundamento existencial – o caráter do
em seu Papéis colados: “A escolha do A questão de se descobrir onde – crítico na evidência de sua dignidade
alvo não era evidentemente gratuita. em que canto de página – ficou o pessoal e na estrutura indiscutível dos
Tratava-se de um dos críticos mais “impressionismo” de um autor como seus princípios morais. Princípios éticos
sem os quais a Crítica Literária ficaria
poderosos na época. Atingi-lo era, Álvaro Lins e quais os desdobramentos
sendo apenas um jogo de erudição
então, acertar em cheio nos próprios de sua ampla e importante atuação inumana ou uma miséria de paixões
mecanismos de qualificação intelectual na história da crítica brasileira, dos pessoais e interesses utilitários”.
vigentes. Era abalar o sistema literário rodapés aos dias que correm, é o
que fizera dele ‘imperador’”. Com desafio de repensar o tempo.

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con
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sávio

polemismo
Breve história de
uma discórdia
Uma reavaliação da disputa entre Afrânio
Coutinho e Álvaro Lins ajuda a entender as
transformações no papel da crítica literária
texto João Cezar de Castro Rocha

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curso de Letras no nível universitário. substituídos pela febre da informação
No posfácio de outro livro, cujo objetiva e do “furo”.
título, No hospital das letras, é uma Retorno, porém, à disputa entre os
declaração de princípios pelo avesso, dois intelectuais.
Coutinho alvejou o adversário com Posteriormente, Álvaro Lins
uma virulência contagiante: “Seria respondeu à acusação. Eis como o
desnecessário revelar o modelo que pernambucano explicou o ataque
inspirou muitas das análises e alusões de Coutinho: “A sua atitude, porém,
contidas nas páginas anteriores. Para tem uma origem mais melancólica
que não reste dúvida, porém, registro do que o seu conhecimento tão servil
aqui, embora com engulhos, o seu quanto grosseiro dos Estados Unidos da
nome: Álvaro Lins”. Contagiante América. Ele publicou um livro, certa
a virulência porque ainda hoje as vez; e enviou-o, solícito, aos redatores
reconstruções dessa polêmica são dos rodapés. Foi o fracasso do livro que
apressadas, limitando-se a considerar o conduziu agora a essa atitude de raiva
o debate, iniciado em 1948, o anúncio pueril e inofensiva contra a crítica”.
do triunfo da cátedra.
No fundo, a relevância da querela AS ORIGENS
da cátedra e do rodapé diz respeito Álvaro Lins não esclareceu o alvo, mas
a uma transformação decisiva do certamente aludia à publicação de A
papel do analista literário. Ora, se filosofia de Machado de Assis. Sobretudo,
tradicionalmente o crítico de rodapé não disse que ele mesmo foi o autor de
era compreendido como o mediador um dos artigos que teriam indisposto
por excelência da cidade letrada, com Afrânio Coutinho contra a crítica
o advento dos cursos universitários exercida nos jornais. Em rodapé de
de Letras, essa função começou a 1940, Álvaro Lins resenhou o livro.
tornar-se potencialmente obsoleta. Embora, em boa medida, a avaliação
Avanço, pois, na reconstrução da fosse positiva, ele destacou dois
polêmica-síntese desse período. aspectos francamente negativos: a falta
Em 1943, Coutinho escreveu um de método e a escrita arrevesada.
ensaio em Nova York condenando De um lado, Lins observou a
diretamente a crítica de rodapé: “É dispersão no tratamento de temas, o
a própria instituição do rodapé, que que comprometeria “a objetividade, o
é condenável por todos os aspectos método, a paciência”. Por isso, faltaria
como um dos responsáveis pelo ao ensaio de Coutinho precisamente o
atraso, ou, por que não dizer, pela que mais tarde ele exigiria do rodapé, ou
inexistência da crítica literária entre seja, rigor e regras. Para tudo dizer numa
nós”. Como consequência lógica do palavra, o livro de Coutinho parecia um
raciocínio, a superação desse modelo exercício de valor, mas, sobretudo, um
seria a condição indispensável para trabalho de diletante. Nada como um
o desenvolvimento de uma nova dia após o outro: na campanha contra o
mentalidade. Em suas palavras: “uma impressionismo, Coutinho considerou
temporada de estudos no estrangeiro o diletantismo o pecado original do
vale-nos para o espírito um grande rodapé, a ser purgado pelo santo
salto no tempo”. Tratava-se de remédio da especialização.
A época dos rodapés necessita modernizar a crítica literária brasileira De outro lado, e esse seria o problema
ser reavaliada e talvez a melhor através da adoção do modelo norte- mais grave, pois dificultaria a apreensão
forma de fazê-lo seja reconstruir americano em detrimento da tradição das ideias do autor, o imperador do
uma polêmica decisiva: a querela francesa, a verdadeira fonte do rodapé. rodapé tocou no calcanhar de Aquiles
da cátedra versus o rodapé. A disputa pela hegemonia linguística, do defensor da cátedra: “É uma pena
Na década de 1940, Álvaro Lins com a consequente substituição do constatar que o sr. Afrânio Coutinho não
era o representante mais influente da francês pelo inglês, é inseparável da tem uma forma correspondente ao valor
crítica de rodapé; portanto, tornou-se polêmica da cátedra com o rodapé. Não das suas ideias e do seu pensamento.
o alvo preferido da campanha levada se trata apenas da ascensão anglófona, Nota-se um desequilíbrio completo
a cabo pelo autor de Correntes cruzadas, mas da imposição progressiva do entre a sua expressão substancial e a
livro no qual Afrânio Coutinho reuniu modelo acadêmico norte-americano. Na sua expressão formal”. Esse aspecto
os inúmeros artigos que publicou ao imprensa, o mesmo modelo implicou o foi mencionado muitas vezes ao longo
longo de uma campanha incansável desaparecimento progressivo, em todas da carreira de Afrânio Coutinho e, em
pela implantação sistemática do as seções, de longos textos analíticos, alguma medida, em sua resenha de

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reprodução

desarvoramento e falta de direção,


substituíra-se uma convicção firme
e uma diretriz linheira. Ao vício, tão
comum entre nós, e de que participava,
de borboletear sem pousada, foi-se
opondo a tendência a restringir a mira,
na certeza de que ninguém serve bem
muitos senhores”.
E ainda não é tudo: a breve história
da discórdia pode tornar-se mais
interessante e tortuosa.
Em 1951 realizou-se, no Colégio
Pedro II, um concurso para o
provimento de duas cátedras de
Literatura. Apresentaram-se como
candidatos nomes consagrados: Álvaro
Lins, Afrânio Coutinho, Celso Cunha e
Vieira Souto. Coutinho já ocupava uma
das cátedras interinamente. O resultado
do concurso, porém, consagrou
Álvaro Lins no primeiro lugar, com
196 pontos, reservando um honroso
segundo lugar a Afrânio Coutinho,
com 187 pontos. No mencionado
discurso de posse, logo após nomear
“meu colega de cátedra o Professor
Álvaro Lins”, Coutinho parece não ter
resistido, aproveitando para alfinetar o
desafeto: “Quaisquer que tenham sido
as nossas divergências no passado, e
que considero enterradas no desvão das
más memórias, se algum ressentimento
me tivesse restado, bastar-me-ia,
como suprema vingança do destino, o
10
fato de que ele me terá que aguentar a
1940, Lins antecipou o debate posterior posição intelectual muito propícia seu lado o resto da vida, circunstância
acerca da linguagem adequada à aos estudos literários. Apresenta-se para mim extremamente agradável”.
expressão do conhecimento produzido como um católico, um afirmativo, um
na universidade. dogmático, mas na mesma proporção, O FIM DOS RODAPÉS
No universo da polêmica, contudo, um espírito muito compreensivo, Contudo, em texto muito posterior, de
a tentação do eterno retorno parece muito lúcido, muito sensível a 13 de dezembro de 1979, o ânimo bélico
irresistível. Por isso, Coutinho alvejou todas as manifestações literárias. não apenas se manteve inalterado,
a crítica de rodapé assinalando, E marcando tudo o que faz com os como assumiu nova dimensão. Ao
sobretudo, dois pecados imperdoáveis: sinais de uma ardente seriedade”. repisar mais uma vez seu desacordo
a falta de método e a forma da escrita... Portanto, pelo menos em aparência, com “o achismo, do gostei-ou-não-
O comentário de Álvaro Lins à obra Coutinho reconheceu o acerto das gostei, praticado à larga pelos donos de
de Coutinho fora justo e ponderado. ressalvas do “imperador” da crítica. rodapés de ‘crítica’ literária”, Coutinho
Decerto ele anotou problemas sérios, Ademais, na mesma época, outros atribuiu-se um papel pouco modesto
mas fez questão de destacar inúmeras críticos foram muito mais severos ao na transformação do espaço dedicado
qualidades do autor. Uma prova resenharem A filosofia de Machado de Assis. à literatura na grande imprensa:
irrefutável: em Correntes cruzadas, a fim E não é tudo. “Para minha satisfação íntima,
de divulgar o livro, Coutinho pinçou No discurso de posse da Cátedra com a minha campanha decidida e
uma frase elogiosa do rodapé de de Literatura do Colégio Pedro II, intimorata, consegui que aquele tipo
Lins, inteligentemente limitando a proferido em 1952, o próprio Coutinho de atividade fosse desacreditado e
referência aos cumprimentos. Vejamos reconheceu que, antes da experiência mesmo praticamente terminado”. Na
o mesmo trecho sem cortes: “O autor nas universidades norte-americanas, verdade, as transformações internas à
deste ensaio – um nome bastante sua perspectiva era mesmo a do própria linguagem jornalística já haviam
conhecido pelos seus numerosos diletante, justamente porque lhe decidido a sorte dos rodapés; como
artigos de jornal – encontra-se numa faltavam método e concentração: “Ao disse, aliás, em todas as seções do jornal!

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arquivo abl
10 Juventude
Compreende-se, então, que, No Recife, quando
entre 1958 e 1960, Álvaro Lins tenha aluno da Faculdade
de Direito
publicado uma série de artigos destinada
11 Opositor
a analisar o new criticism. Tratava-se de Desafeto de Lins,
atacar diretamente sua doutrinação, Afrânio Coutinho
foi o introdutor
ou talvez não seja excessivo supor que da Nova Crítica
também se tratava de uma questão de no Brasil
sobrevivência, pois, exatamente no
final da década de 1950, as condições
de ensino e pesquisa nos cursos de
Letras principiavam a transformar-se
decisivamente na direção sonhada
por Afrânio Coutinho. Esse processo
culminou com a consolidação do
sistema nacional de pós-graduação,
no final da década de 1960.
Já pelo simples título do primeiro
artigo da série, O autêntico new criticism
no estrangeiro, Álvaro Lins não procurou
disfarçar o propósito. Daí a ressalva
em tese anônima, mas que, no fundo,
apenas explicitava o alvo: “Sim, o
argumento de autoridade, sobretudo
de autoridade estrangeira, ainda faz
muito peso no Brasil, em tudo e a
propósito de tudo, desde as questões
metafísicas até as questões de dois
mais dois são quatro”. Ironicamente, a
fim de opor-se ao excesso de citações
presente nos textos do rival, Álvaro
Lins recorreu à autoridade de T. S.
Eliot, cuja obra pretendeu dissecar,
sugerindo que “tanto numa página de
jornal diário ou num rodapé de jornal
11
(...) pode ser publicado um trabalho
sério, um verdadeiro estudo e um alto Lins buscou A desimportância do new criticism em arrivistas
ensaio de crítica literária (...), como
também podem ser publicados em
potencialmente e carreiristas, dentro do Brasil. Logo no
primeiro parágrafo, aludiu à curiosa
revistas bem fundadas ou em livros equiparar imprensa categoria de “seres (...) tão espertos e
bem lançados os ensaios mais banais de
impressionismo demodé e ultrapassado e livro, isto é, rodapé ardidos em vossa pregação apostólica
de qualquer ‘vient de paraître’ estrangeiro
(...)”. Repare-se na estratégia: Lins e cátedra, (...) como da ‘nova crítica’ em terras do Brasil!”.
buscou potencialmente equiparar Nesse contexto, Lins adotou Eliot
imprensa e livro, isto é, rodapé e suportes neutros como o modelo de poeta-crítico que,
cátedra, compreendendo-os, em tese, partindo de uma oposição dogmática
como suportes neutros. é sistematicamente ignorado pelas a toda forma de impressionismo, em
Esse, contudo, era o ponto mais versões dominantes sobre a ascensão sua maturidade reencontrou o bom e
contestado por Afrânio Coutinho, pois, da cátedra. Porém, naturalmente, Lins velho ecletismo. Vale dizer que – na
em sua opinião, “O jornalismo moderno lutava para preservar a trincheira do projeção interessada do pernambucano
não comporta mais aqueles rodapés rodapé, ou seja, da imprensa, e, para – Eliot seria, em sua fase sectária, o deus
imensos, maçudos (...). O jornalismo tanto, relativizava o meio considerado tutelar de Afrânio Coutinho, mas, em
moderno só tolera a nota informativa, a por Coutinho como o único adequado seu momento, por assim dizer, superior,
notícia dos livros publicados, a resenha para a produção de crítica literária: seria a fonte de inspiração de Álvaro
ligeira sem pretensões à crítica”. revistas especializadas e livros. Para um Lins. Ele se sentiu, assim, “autorizado”
Sem dúvida, Coutinho estava certo, jornalista convicto como Álvaro Lins, a lançar o que talvez tenha sido uma
pois, a transformação da linguagem esse era o golpe mais duro. de suas mais fortes diatribes contra
jornalística pouco a pouco inviabilizou Por isso, no artigo seguinte, Lins o adversário: “todos os verdadeiros
o estilo derramado característico dos endureceu o ataque, enfeixando suas críticos do próprio new criticism, que
rodapés – esse dado fundamental reflexões num título nada diplomático, não são por certo estes seus postilhões

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da retaguarda provinciana de países o curso de Literatura Brasileira na evidente prazer o capítulo de Theory
sul-americanos, que apanham tais Faculdade de Filosofia e Letras da of literature dedicado aos “gêneros
movimentos culturais numa importação Universidade de Lisboa”. Contudo, literários”, escandalizando-se
em bruto como outros importam para como uma vivência posterior à com uma ausência aparentemente
a propaganda e venda certas máquinas polêmica não parecia argumento imperdoável: “Efetivamente, para
norte-americanas já construídas, suficientemente forte, Lins procurou uma obra deste modo citada – e
montadas e acabadas”. estabelecer sua primazia na própria famosa como se fora a ‘bíblia profana’
Ao que tudo indica, Afrânio postulação do ensino metódico de do new criticism na unção de alguns
Coutinho sentiu o golpe, procurando literatura. Afinal, em artigo de 28 indígenas nossos – a bibliografia
assimilá-lo a partir de nuance de novembro de 1942, portanto, daquele capítulo XVII, do livro
apresentada no discurso de posse anterior à pregação doutrinária do de Wellek e Warren, chega a ser
na Academia Brasileira de Letras, adversário, Lins escreveu: “Ocorreu- miserável de insuficiência, quanto às
proferido em 20 de julho de 1962. me um dia escrever que a crítica obras mencionadas, e lamentável de
Vale a pena trazer à baila sua nova era o professorado da literatura”. Na ‘oportunismo’ confusionista, quanto à
posição acerca do “impressionismo sequência, discutiu sua experiência qualidade delas em conjunto. Bastaria
crítico”: “Não é verdade que advogue como professor, recordando com lembrar, em suma, este escândalo de
a eliminação do impressionismo certa candura a inspiração para ‘impressionismo’ em tais ‘mestres’
(...). Não há crítica sem impressão alguns de seus rodapés: “De muitas do científico new criticism: não citam
ou resposta intuitiva, imediata, perguntas e questões que estudantes quaisquer obras italianas”.
despertada no espírito pela obra de O vocabulário empregado foi
arte”. Não se pense, contudo, que a O triunfo da cátedra escolhido a dedo, mas, ainda
trégua finalmente fora decretada, pois,
na sequência imediata do raciocínio,
tem como data assim, revelou o oposto do que
Lins desejava. Em outras palavras,
a verve polêmica continuou sendo mais adequada a o crítico de rodapé, o jornalista
a nota dominante: “Recuso-me,
porém, a aceitar que se reduza o ato resistência final por convicção, viu-se obrigado a
duelar com as armas do adversário.
crítico a essa operação primária, de Álvaro Lins, Nesse caso, independentemente
transformando a impressão em do resultado do duelo, a vitória
sistema e o seu registro em método”. iniciada em 1958 pertence sempre ao lado rival. Ora,
o triunfo da cátedra tem como
ESTRATÉGIA EQUIVOCADA do Colégio Pedro II colocavam diante data mais adequada a resistência
Ademais da inevitável argumentação de mim, e várias delas perturbadoras, final de Álvaro Lins, iniciada em
ad hominem, Álvaro Lins buscou fiz assuntos de crítica”. Ora, no 1958, e não o ataque de Afrânio
recuperar o terreno perdido, artigo de 1958, Lins ofereceu uma Coutinho, principiado em 1948.
afirmando, de um lado, sua inserção interpretação talvez demasiadamente Afinal, uma inversão de grande
universitária, e, de outro, assumindo livre dessa passagem, sugerindo que alcance teve lugar.
a aura do “discurso especializado”. seu argumento pretendia reunir “o Em 1948, a fim de atacar a crítica
Desse modo, passou a citar crítico e o universitário”. Vale a pena de rodapé, Afrânio Coutinho precisou
abundantemente títulos, autores e comparar os dois trechos: “e era nisto assenhorear-se de rodapé em jornal
passagens de ensaios e livros – numa que eu pensava, já há quinze anos, ao de grande prestígio, e, ao fazê-lo,
espécie de caricatura involuntária escrever (...) ‘a crítica é o professorado reconheceu, malgrado seu propósito,
do discurso acadêmico. O idioma da literatura’, explicando a seguir que a centralidade do jornalismo na vida
inglês passou a predominar nas não lançava a expressão em termos literária brasileira.
citações, em lugar do francês. De de estreito didatismo, mas como um Contudo, em 1958, para reafirmar
novo, à revelia de seu desejo, revelava método universitário de estudar a a legitimidade da mesma crítica de
a transição do modelo francês literatura (...)”. O artigo é dedicado à rodapé, Álvaro Lins não encontrou
para o sistema norte-americano, memória de João Ribeiro e estendeu- melhor recurso do que mimetizar
reino dourado da especialização, se por duas colunas. O leitor, contudo, o discurso universitário, e, ao
perdendo a guerra justamente ao procurará em vão qualquer menção fazê-lo, reconheceu, malgrado seu
endurecer o tom das batalhas. à universidade ou a um pretenso propósito, o triunfo da cátedra.
Vejamos alguns exemplos “método universitário”... Para dizê-lo Praticamente cinco décadas após
significativos da malograda estratégia. elegantemente, a memória interessada o êxito, quem sabe a reavaliação de
Em primeiro lugar, Lins procurou nem sempre é boa conselheira. certos aspectos da crítica de rodapé
equiparar-se a Afrânio Coutinho no Em segundo lugar, Álvaro Lins permitiria a renovação da cátedra?
terreno mesmo da especialização tanto passou a citar profusamente Porém, esse seria outro artigo.
universitária: “E tive a boa fortuna passagens em inglês quanto buscou
de poder completar a experiência atacar os mestres tutelares de Texto adaptado de capítulo extraído do
universitária como professor e como Coutinho. Desse modo, em artigo livro Crítica literária: em busca do tempo
crítico, quando me foi dado reger de 10 de julho de 1952, alvejou com perdido? Chapecó: Argos, 2011.

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arquivo abl

Influências Na atividade literária, datas


significativas como cinquentenários

A crítica em ou centenários de nascimento ou de


morte de escritores são excelentes

Portugal e no Brasil
pretextos para a revisitação às suas
obras. Não só como mera e gratuita –
ainda que merecida – homenagem,
Na primeira metade do século 20, pensadores de lá e mas, sobretudo, para reavaliação
equilibrada do que verdadeiramente
de cá tinham no biografismo e impressionismo dos elas representam para a literatura.
jornalistas franceses a maior referência De Álvaro Lins, crítico literário que
se notabilizou no cenário brasileiro
texto José Rodrigues de Paiva
e português das letras na primeira
metade do século passado, (e até

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con
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12 herança
Anatole France,
além de escritor,
cultivou a crítica
impressionista
em jornais
13 eça de queirós
O escritor (na foto,
acompanhado
pelos filhos) foi
objeto de um
estudo detalhado
de Álvaro Lins

o ensinamento dos franceses, a ele se


somaria o que vinha sendo produzido
por ensaístas como Edmund Wilson, T.
S. Eliot e Ezra Pound e por romancistas
ingleses, também críticos, como
Aldous Huxley, Virginia Woolf ou
Charles Morgan.

mestres e discípulos
Com estes, e principalmente com
os do primeiro grupo, aprenderam
os brasileiros Otto Maria Carpeaux
(austríaco por nascimento e brasileiro
por naturalização), Wilson Martins,
Vianna Moog, Paulo Cavalcanti,
Olívio Montenegro, Sérgio Milliet,
Antonio Candido, entre outros que
integram a geração a que pertenceu
Álvaro Lins, e que, entre os modelos
brasileiros, elegeram José Veríssimo
e Sílvio Romero. Com os mesmos
mestres franceses aprenderam, em
Portugal, os da geração da Presença,
formada a partir da revista desse nome
12
aparecida em Coimbra em 1927: João
meados dos anos 1960) decorrerá, em pergunte que outra espécie de crítica Gaspar Simões, José Régio, Adolfo
14 de dezembro próximo, o centenário literária se poderia fazer, no Brasil Casais Monteiro, e mesmo Jorge de
de nascimento. Boa oportunidade, ou em Portugal, nas décadas de 30, Sena, que geracionalmente já não
portanto, para se refletir sobre o que 40 ou 50, do século passado, senão a integra. Há nos dois grupos, entre
representou e ainda representa para a impressionista, a biográfica, a brasileiros e portugueses, alguns
os estudos literários feitos e a fazer psicológica aprendida por brasileiros autores que, mais do que na crítica
principalmente no Brasil. e portugueses a partir, sobretudo, da literária propriamente dita (ou tanto
Sabem, de antemão, os que lidam matriz francesa, desde Sainte-Beuve, quanto nela), se distinguiram no
com literatura, que se trata de um Jules Lemaître, Albert Thibaudet, gênero biográfico, fascinados pelas
autor “rotulado”, pelos redutores Brunetière, Charles Du Bos ou Anatole vidas de grandes escritores nacionais,
processos de classificação, como France. E ainda, se tais exemplos como Machado de Assis ou Eça de
“impressionista”. Lins exerceu o não bastassem, aprendida também Queirós. Tal é o caso de Vianna Moog,
seu ofício nos espaços dos rodapés na leitura de Gabriel Marcel, André João Gaspar Simões e Álvaro Lins,
jornalísticos, um “crítico-cronista”. Gide, André Rousseaux, Claudel ou que do autor de Os Maias produziram
E logo se faz colar ao nome do Paul Valéry (poetas e críticos, os dois importantes biografias. Mas ainda aí,
autor, na redução classificatória últimos). nos domínios do gênero biográfico, o
horizontal e apressada, a diminuição Preponderante, embora, na crítica magistério francês seria determinante
da importância que o conjunto da literária feita no Brasil e em Portugal no modelo deixado, sobretudo, por
obra feita tenha. Talvez ninguém se na primeira metade do século passado André Maurois, sem desprezo pelas

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leituras que os críticos-biógrafos da Com a História e dera início, a partir dos jornais
época fizeram de Stefan Zweig.
Não se limitavam as biografias de
literária de Eça de recifenses (Diário da Manhã, Jornal do
Commercio e Diario de Pernambuco), à
escritores feitas pelos críticos dos seus Queirós, o crítico sua atividade de crítico literário.
livros às narrativas mais ou menos
romanceadas dos acontecimentos assegurou um lugar Passaria depois aos do Rio de Janeiro
(Diario de Notícias e Correio da Manhã),
das suas vidas, mas também à entre os estudiosos da e, integrado no grupo dos Diários
interpretação de aspectos das Associados tinha os seus artigos
respectivas obras (principalmente o literatura portuguesa publicados nas principais capitais
estilo e as personagens, se se tratava do país, alcançando rapidamente a
de ficção) tornando-se inarredáveis os No Brasil, esse gênero literário notoriedade no ofício da crítica.
binômios vida e obra, ou a obra e o homem, ou modo de estudo da literatura
ou o homem e o artista quase sempre teve também a sua voga, sobretudo OBRA DE ESTREIA
compondo o título da biografia. Assim nos anos de 1940, mas com um História literária de Eça de Queirós é o
é em João Gaspar Simões (Eça de Queirós, ilustre e hoje quase desconhecido primeiro livro do escritor, com o
o homem e o artista [1945], depois Vida e antecessor, o jornalista Miguel Melo, qual ele abriu uma longa relação de
obra de Eça de Queirós [1973] e Vida e obra que, em 1911, publicava no Rio de obras onde predominam as de crítica
de Fernando Pessoa [1954]), assim seria Janeiro o primeiro livro que em literária, mas não só. Viriam depois as
em Júlio de Castilho nas biografias que língua portuguesa se editou sobre da famosa série do Jornal de crítica (sete
escreveu de António Nobre (1950) e o escritor da Póvoa de Varzim: Eça volumes), as das Notas de um diário de
de Raul Brandão (1979), assim seria na de Queiroz (Livraria Italiana). A esse crítica (dois volumes), as coletâneas de
tradição que em Portugal se fundou a trabalho pioneiro vários outros viriam artigos com sugestivos e metafóricos
partir destes modelos. Neles, à mescla somar-se, inclusive o de Álvaro Lins, títulos que tanto agradavam aos seus
tecida nas relações entre a vida e a obra a História literária de Eça de Queirós (José confrades portugueses – O relógio
do biografado não faltavam o apoio da Olympio), o terceiro livro sobre Eça falante, A glória de César e o punhal de
psicanálise de Freud, o da estilística e, a publicar-se entre nós, antecedido Brutus, Os mortos de sobrecasaca, O relógio
é claro, a subjetividade da intuição do pelo de Viana Moog (Eça de Queirós e o e o quadrante –, entre outras (como o
biógrafo que muitas vezes invadia o século XIX), lançado no ano anterior. importante estudo sobre A técnica do
espaço da interpretação literária. Álvaro Lins tinha então 27 anos romance em Marcel Proust, tese acadêmica

13

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páginas. Encerrando o livro,


segue-se um capítulo
dedicado à análise do
estilo de Eça e um outro
sobre o seu “socialismo”
confrontado com aspectos
da sua vida. Não falta, ao
estudo de Álvaro Lins, o
enfrentamento de questões
cruciais, como a famosa
crítica de Machado de
Assis aos dois primeiros
romances de Eça (sempre
essa questão “fatal”...), o
que lhe valeu a admiração
dos seus contemporâneos,
e, ainda hoje, a de um
queirosiano tão atual
quanto respeitado como o é
15
14-15 João gaspar simões A. Campos Matos. Continua
O crítico português, que a valer-lhe, também, o conjunto da
exerceu um papel semelhante
ao de Álvaro Lins, fundou e
sua obra crítica, mas particularmente
dirigiu a revista Presença o ensaio sobre Eça, as muitas
citações que dos seus estudos fazem
14
especialistas como Alfredo Bosi,
de 1951), até às últimas, que são os camoniana, viria a ser admirador Fernando Cristóvão, Beatriz Berrini,
estudos sobre a Poesia moderna do Brasil, de Álvaro, considerando-o Isabel Pires de Lima ou Carlos Reis,
O romance brasileiro e Teoria literária. entre os seus pares graças ao o que demonstra que, embora
Estes últimos livros são de 1967, e já ensaio deste sobre Camões. “datados” e representativos de uma
então a teoria da literatura, a nova crítica hoje depreciada no âmbito
crítica, o estruturalismo, a linguística O eça de Lins universitário, os seus julgamentos
haviam mudado radicalmente a face, Mas é sem dúvida com a História (com os acertos e com os erros em
os métodos e até o espaço da análise literária de Eça de Queirós que Álvaro que incidiu) e as suas reflexões sobre
literária que passava dos rodapés Lins assegurou o seu lugar entre os os diversificados temas e autores
dos jornais (os “folhetins semanais estudiosos da literatura portuguesa. de que tratou, permanecem muitos
de crítica literária”) para as revistas Sendo obra de juventude, tem já o deles válidos. “Mestre de todos
acadêmicas, mudava-se do jornalismo amadurecimento de um trabalho nós que lidamos com a crítica no
para as universidades. Álvaro crítico interpretativo e ideológico- Brasil”, disse Antonio Candido a
Lins – tal como alguns dos da sua biográfico (como eram os modelos seu respeito, num texto de 1946.
geração (Antonio Candido e Wilson da época) sistematizado, obedecendo Ainda com relação à literatura
Martins, Adolfo Casais Monteiro e a um projeto estruturado sobre portuguesa, o parâmetro crítico
Jorge de Sena) não esteve alheio um caminho a percorrer, com que daí se pode estabelecer com
nem indiferente a essas mudanças, princípio meio e fim, seguindo relação ao conjunto e abrangência
mas tinha já, então, uma vasta obra numa direção determinada. da obra de Álvaro Lins é o âmbito
construída sobre a velha tradição da O ensaísta estabelece o contexto português representa a de João Gaspar
crítica francesa. político, cultural e histórico português Simões. Ambos fizeram da literatura
Não se limita a Eça de Queirós o e nele a geração de 1865 (que ficou produzida no seu país desde as
interesse de Álvaro Lins pela literatura conhecida como geração de 70). primeiras décadas do século 20 e até
portuguesa. Ele ocupou-se, também, Nesse contexto, relata o encontro de aos anos de 1960 um recenseamento
de Camões, António Nobre, Antero Eça com a literatura, as influências quase exaustivo, de modo que, apesar
de Quental, Ramalho Ortigão, Fialho buscadas ou sofridas, a sua adesão de quantas restrições se façam hoje
de Almeida. Em matéria política, à escola realista, passando então ao ao trabalho de um e de outro, não se
interessou-se pela personalidade e estudo da obra romanesca (limitado pode, a bem da verdade, passar pela
pela ação do Marquês de Pombal, e, aos romances publicados em vida literatura produzida no Brasil e em
em crítica e historiografia literária, pelo autor). A esse estudo dedica Portugal, naquele tempo, deixando
pelos ensinamentos de Fidelino de quatro capítulos para, em seguida, ao largo as respectivas obras, mestres
Figueiredo e Álvaro Júlio da Costa analisar o que para ele seriam as que foram, ambos – altamente
Pimpão. Este, no seu tempo, um “exceções” ao realismo: Fradique, O atentos e produtivos –, na que era
renomado especialista da poesia mandarim e as Vidas de santos das Últimas então a melhor crítica possível.

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16 estudo
Com A técnica do
romance em Marcel
Proust, Álvaro Lins
conquistou uma
cátedra no Colégio
Pedro II

16

pioneirismo que intimidam um potencial leitor.


Proust pertence a uma família de

Proust pela “tela” autores que exigem muito não apenas


de si próprios como de seus leitores.

de Álvaro Lins
Diante de uma obra assim — que
rivaliza com a própria vida —, o leitor
poderá novamente fazer a si mesmo
A tese escrita pelo crítico pernambucano trouxe, pela a pergunta de Émile Faguet, optando,
quem sabe?, à revelia da resposta
primeira vez no Brasil, a consistência teórico-literária desse autor, pela mão segura de um
reclamada pela obra do escritor francês crítico antes de entrar no grande
romance proustiano.
texto Paulo Gustavo
Se esse leitor ainda virgem do
autor francês tiver escolhido, para
orientá-lo, A técnica do romance em
Eu construiria meu livro, não ouso dizer autor deve ter precedência. Marcel Proust, de Álvaro Lins, terá
ambiciosamente como uma catedral, mas Se, por um lado, a leitura da encontrado como “tela” quem soube
modestamente como um vestido. obra deve ter precedência — o que — para além do trabalho acadêmico
Marcel Proust é sensato —; por outro, nem sempre com que conquistou a cátedra do
podemos concordar que o crítico, Colégio Pedro II, em 1951, no Rio
Émile Faguet — crítico literário como intermediário qualificado, fique de Janeiro — analisar a estrutura de
contemporâneo de Proust —, em despido de seu papel de orientador e uma obra que à época, malgrado
sua Arte de ler, se interroga sobre guia numa aproximação inicial com sua tradução tardia (1948) no Brasil,
em que momento se deve ler um determinado autor, sobretudo quando já havia contagiado escritores
crítico: se antes ou depois da obra o leitor comum se depara com os como Gilberto Freyre (“O Proust da
que nos interessou. Uma pergunta chamados clássicos. Para Faguet, só Sociologia”, segundo o crítico Roberto
que muitos de nós costumamos num segundo momento o “crítico Alvim Corrêa), Carlos Drummond
fazer enquanto leitores e que tantas deve convidar a reler ou a repensar de Andrade, Augusto Meyer, Jorge de
vezes na vida universitária tem a leitura da obra”. Lê-lo antes Lima, Manuel Bandeira e Guimarães
tido como resposta a primazia do significará colocar “uma tela entre Rosa; e críticos como Tristão de
crítico. Mas, distinguindo entre o você e o autor”, influindo diretamente Athaíde (um pioneiro, em 1928, da
historiador das obras (“que não deve sobre a visão que se terá do livro. crítica proustiana no Brasil), Eduardo
julgá-las”) e o crítico propriamente Em busca do tempo perdido é bem Frieiro, Sérgio Buarque de Holanda,
dito, Faguet nos mostra que o uma daquelas obras hoje clássicas Lúcia Miguel Pereira e tantos outros.

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reprodução/desenho de stéphane heuet
17 quadrinhos
Versão desenhada sua vez, o meio ou a “ambiência” do
de Em busca do romance — salões, cidades, paisagens
tempo perdido
— merecem páginas agudas que em
18 em família
Álvaro Lins, com nada perderam sua atualidade. E tudo
esposa e filha, exposto com clareza e domínio, sem
ao regressar de
Portugal, em perder de vista o que Edmund Wilson
novembro de 1959: já observara na Recherche: “is in fact, a
crise diplomática
symphonic structure rather than a narrative
in the ordinary sense” — uma estrutura
sinfônica e polifônica a exigir leituras
e leitores igualmente múltiplos.
A conclusão do crítico (que hoje
seria praticamente uma obviedade)
volta-se, sobretudo, para a definição
do gênero do livro proustiano (sobre
o qual ainda gravitavam designações
como “memórias” e “confissões”)
como sendo de fato um romance e,
dessa forma, “um exemplar moderno
de epopeia herói-cômica, e não no
sentido de epopeia propriamente
burlesca, mas numa linha que
remontaria a Cervantes, por um lado,
e, por outro, a Ariosto. E isso não
representa uma descaracterização do
romance: é o romance mesmo naquela
categoria em que Fielding o imaginara
como uma epopeia cômica em prosa, o
romance dentro do qual se misturam,
17
se alternam ou se fundem, como na
consistência teórica O crítico buscou vida, a comoção e o riso, as situações
Com A técnica do romance em Marcel
Proust, Lins também foi um pioneiro. analisar o romance dramáticas e os episódios cômicos”.
A ênfase do crítico responde a uma
Por ter sido originalmente um proustiano em sua clara circunstância da recepção da

totalidade, com
trabalho acadêmico de mérito, seu obra, embora seja muito discutível
livro trouxe, pela primeira vez no — para não dizer imprópria — a
Brasil, a consistência teórico-literária
reclamada pela obra proustiana.
erudição e com uma subclassificação da Recherche como
epopeia “herói-cômica”. Mas, se
Até então, apenas artigos ou breves visão atualizada quisermos apontar um só grande
ensaios “impressionistas” tinham pecado em A técnica do romance em Marcel
tentado sondar o — para os leitores o livro de Lins continua a ser uma Proust, diríamos que houve apenas
brasileiros de então — estranho autor sensível propedêutica a Em busca do o pecado da gula. Guloso, o crítico
francês. Com uma erudição tão tempo perdido. Nosso crítico madruga buscou uma visão totalizante e, como
exemplar quanto atualizada sobre em descobrir em Proust não só o que dando asas a uma onipresente
seu tema, o crítico pernambucano esteta, o psicólogo e o sociólogo, mas ansiedade de compartilhar seu vasto
buscou analisar o romance em sua o artífice de uma obra rigorosamente conhecimento, tocou, apenas de
totalidade e de um ponto de vista planejada (percepção — ressalte- raspão, numa miríade de informações
imanentemente literário. Mas não se — ainda nova para a época). Por e subtemas. Nada, porém, que embace
o fez sem pautar-se pela própria outro lado, em velado diálogo com o brilho de sua intuição e do seu
palavra de Proust, pois, malgrado seus contemporâneos brasileiros, procedimento analítico. Não estávamos
sua objetividade, também se deixara desmistifica o enredo como elemento ainda no mundo de especializações
seduzir, como de resto todos nós, primordial da arte do romance. Ao do atual universo acadêmico. Nem
proustianos, pela vida singular do tratar das personagens, o faz com a ainda havia se produzido no Brasil e
autor. Não por acaso, Lins pontilhou amplitude de quem as sabe vitais para no mundo alguns livros fundamentais
seu trabalho com várias alusões a compreensão dos temas e episódios da fortuna crítica proustiana. À
biográficas, extraídas sobretudo da romanescos, mostrando como elas parte isso, a gula de Lins continua
correspondência ativa do romancista. foram construídas e desacreditando a nos inspirar para saborearmos
Apesar dos 61 anos que nos assim o tão comentado quanto cada iguaria que Proust nos oferece
separam da sua primeira edição, ocioso problema das “chaves”. Por ao longo de sua obra imortal.

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arquivo continente

18

TRAJETÓRIA experimentar um processo de


amadurecimento intelectual,

De integralista a quando propôs uma total


desvinculação entre a atitude

amigo de Cuba
ideológica e a do crítico literário.
Durante os anos da Segunda
Grande Guerra, manteve-se
Como tantos outros intelectuais brasileiros, Álvaro católico. Defendia as posições do
Vaticano, radicalmente hostis
Lins fez opções políticas da direita à esquerda, ao Comunismo. Após o conflito
culminando com o célebre episódio diplomático mundial, aproximou-se das
ideias de Harold Laski, apoiando
TEXto Humberto França
o sistema parlamentarista e o
diálogo da Igreja com os partidos
socialistas, desde que esses não
No início da década de 1930, Entre os anos de 1934 a 1937, Lins mantivessem, em seus programas,
Álvaro Lins já fazia po­l ítica como exerceu o cargo de secretário do o anticatolicismo e o ateísmo. No
presidente do Diretório Acadêmico da Governo de Pernambuco, na gestão entanto, perdeu a fé em 1952.
Faculdade de Direito do Recife. Mais de Carlos de Lima Cavalcanti. Com o A partir de 1950, Álvaro Lins
tarde, Lins, as­sim como a maioria golpe do Estado No­vo, foi destituído. exerceu importantes funções, como
dos intelectuais do seu tempo, passou A partir de então, o caruaruense a de vice-presidente da Unesco no
a integrar a Congregação Mariana. sofreu perseguições e ameaças. Brasil e trabalhou como consultor
E também ligou-se ao movimento Forçado a abandonar o Recife em técnico do Ministério das Relações
de tendências fascistas, a Ação 1940, transferiu-se para o Rio de Exteriores. A sua atividade política
Integralista. São daquela época os Janeiro. Indicado por Gilberto culminou, em 1955, quando, no
seus artigos políticos publicados Freyre, ele foi contratado para ser Correio da Manhã, lutou bravamente
no Diario de Pernambuco e no Diário crítico literário no Correio da Manhã. em favor da democracia,
da Manhã, defendendo a Igreja e os Instalado no Rio, abandonou desencadeando uma campanha
partidos nazifascistas europeus. as ideias totalitárias, passando a em defesa da legitimidade da

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eleição de Jus­celino Kubitschek e se


opondo valentemente aos golpistas Carta ainda mais nitidamente, num futuro
que queriam impedir a sua posse. que antevejo melhor, para os dois
Em 1956, foi nomeado chefe da
Casa Civil do presidente Juscelino
de álvaro lins países, na perspectiva do tempo.
Não fui eu quem mudou de
Kubitschek. Mas não se demorou ao presidente posição; quem mudou, e tornou-se
no cargo. Em seguida, iniciou infiel, foi o candidato de 1955, quanto
sua carreira diplomática como Juscelino às garantias de princípios, que me
embaixador do Brasil em Lisboa.
Em Portugal, deu-se, talvez, o
Kubitschek ofereceu, para que eu o apoiasse, e
quanto às promessas de natureza
mais importante acontecimento ideológica, que proferiu em praça
de sua vida política, quando em Senhor Presidente, pública. Pois, Senhor Presidente,
1959, o general Humberto Delgado, juntos lutamos, em 1955, para que
líder oposicionista português Quando me foi dado tomar Vossa Excelência cumprisse no
e candidato à Presidência da conhecimento das últi­mas governo os compromissos com o
República, sentindo-se perseguido, resoluções dos dirigentes do povo brasileiro e com a democracia
pediu asilo à embaixada do Brasil. meu País, com referên­cia à indivisível no mundo inteiro.
O embaixador Lins o acolheu. ditadura salazarista, decidi- Por conseguinte, voltando à
O ato instaurou uma crise me imediatamente a assumir minha condição de escri­tor e de
diplomática entre os dois países. duas atitudes, uma em face do homem livre, sem dependências
Nordestinamente corajoso, ele Governo por­tuguês, a outra em hierárquicas e sem compromissos
manteve-se firme. O governo JK face do Governo brasileiro. Ao políticos, eu não o traí. Fui traído
claudicava em suas ações. Não Governo português, havia que dar pela sua conduta para com os
desejava desagradar o governo precedência, porque tinha algo sentimentos democráticos da nossa
de Portugal. Cedia às pressões. O a restituir-lhe, simbolicamente. opinião pública e a dignidade da
embaixador Lins passou a atacar a Impunha-se o segundo lugar para representação diplomática do
ditadura salazarista. Pressionado, esta carta, porque nada tendo nosso País no estrangeiro. Traído
renunciou ao cargo de embaixador rece­bido de estável e permanente foi o espírito do Itamaraty, que
do Brasil e escreveu ao presidente JK do atual Governo brasileiro, o seu desrespeito aos princípios
a célebre carta de rompimento (leia por consequência nada tinha políticos e ao valor das tradições
ao lado). Nunca mais seria o mesmo. sequer para devolver a Vossa transformou de uma instituição
Regressou ao seu país, transtornado. Excelência. Todavia, a minha histórica num instrumento de
Após o retorno, Álvaro Lins decisão de considerar rompidos, política exterior improvisada e
retoma as atividades de professor e definitivamente, todos os laços incapaz, vacilante e indigna, sem
jornalista. Assume a militância de políticos e de amizade, que nos substância de doutrina e sem
esquerda. Publica Missão em Portugal, uniam desde a campanha de conteúdo de fé, servindo mais
no qual relata “o caso Delgado”. 1955, isto me cumpre comunicar, à vaidade pessoal e ao delírio
Em 1960, é nomeado presidente da mediante um preceito ético, publicitário do Pre­sidente da
I Confe­rência Interamericana de em documento direto a Vossa República do que aos imperativos
Anistia para os Exilados e Pre­ Excelência, antes de passar a da nossa posição internacional. [...]
sos Políticos da Espanha e de exercer, em plenitude, o direito de Mas o que se tornou imperdoável,
Portugal. Viaja para Moscou como agir em consequência. e jamais será esquecido pela
chefe da delegação brasileira ao Efetivamente, Senhor Presidente, nossa opinião pública, é que
Congresso Mundial da Paz, em as nossas escolhas já estão feitas: Vossa Excelência não tenha tido
1962. Em seguida, faz uma viagem os seus compromissos são com a a necessária dig­nidade de Chefe
a Cuba e preside, no Rio de Janeiro, ditadura salazarista; os meus são de Estado, ao longo de todos estes
o Instituto Cultural Brasil-Cuba. com a Nação portuguesa impe­ últi­mos meses, para desagravar
Movimenta-se. Escreve. Agita. recível; a sua posição é a de o seu embaixador em Por­tugal
Participa ativamente da Revolta fortalecer e reanimar um sistema e desafrontar a representação
dos Marinheiros. Desafia as forças ditatorial decadente, anacrônico do Brasil em Lisboa, ante o
que se opõem ao Governo de João e condenado; a minha é a de arbítrio e a intolerância de uma
Goulart. Com o Golpe de 1964, a sua solidariedade e apoio ao movimento ditadura estran­geira. E é isto o
carreira política se encerra. Sofre demo­crático de restauração das que nos separa para sempre.
perseguições. Passa a viver isolado. liberdades públicas e dos direitos
Adoece. Abandona os escritos e as da pessoa humana para todos os Trecho da carta de rompimento enviada por
publicações. Silencia como forma de portugueses. E isto, historicamente, Álvaro Lins ao então presidente Juscelino
protesto. Encerra-se em si mesmo, permanecerá assinalado desde já, Kubitschek (a versão integral da carta foi
apressando a morte que, finalmente, para ser configurado mais tarde, publicada no livro Missão em Portugal).
abate-o em 1970.

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