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Orelha – João Manuel Cardoso de Mello (1985) Sônia Draibe Rumos e Metamorfoses

Nestes tempos em que a americanização caricata da universidade brasileira conduz à


irrelevância dos temas, à ligeireza teórica e à pesquisa superficial, ingredientes certos da
carreira rápida e do currículo gordo, é bom ir logo dizendo ao leitor que Rumos e
Metamorfoses trata de um problema crucial, o das relações entre Estado e
Industrialização durante o período que vai da revolução de 30 aos anos JK. E que o faz
de um ângulo privilegiado, o do planejamento, compreendido quer como estruturação
dos aparelhos de regulação da atividade produtiva, quer como expressão unificada dos
objetivos de política econômica.
Um minucioso trabalho de pesquisa rastreou, passo a passo, a montagem do
aparelho econômico de Estado, ao mesmo tempo em que reconstruiu pacientemente as
linhas fundamentais dos “planos” de governo, do primeiro Vargas e Kubitschek. Foi
possível verificar que, além do processo geral de concentração e centralização do poder,
há um movimento de estatização das relações econômicas, na medida em que o Estado
inscreve em seus aparelhos o conjunto de interesses presentes na sociedade para regular
seus conflitos. Em consequência, as lutas econômicas são politizadas e globalizadas,
transformando-se o que era localizado, particular e imediato no interesse geral, no
“interesse da Nação”. Mas, contraditoriamente, sanciona e aprofunda o que já é
heterogêneo e fragmentado, imprimindo uma forte tendência à privatização da coisa
pública. Por outro lado, a diferenciação e complexidade crescentes do aparelho
econômico, num momento de transformações sociais rápidas, colocam dramaticamente
a questão do projeto de desenvolvimento capaz de dar unidade à política econômica, ao
hierarquizar interesses e estabelecer um marco a partir do qual possam ser
encaminhados os conflitos particulares. Se tomarmos o conjunto do período, como se
tem feito, é correto afirmar que o Estado assume a direção econômica e impulsiona a
industrialização. No entanto, Sônia Draibe mostra claramente que existem profundas
diferenças entre os dois Vargas, entre o primeiro e o segundo Vargas e o Governo
Draibe, ou entre o segundo Vargas e Kubitschek. Estas distinções só puderam ser
apreendidas porque há um ponto de partida teoricamente correto: as especificações do
processo da industrialização e de Revolução Burguesa no Brasil, apreendidas através do
conjunto de questões (a agrária, a nacional, a social etc.) que permitem entrever
alternativas histórico-estruturais de desenvolvimento capitalista, capazes de iluminar o
entendimento das lutas sociais e políticas concretas.
É a partir daí que se pode fazer uma reflexão sobre o caráter do Estado. Trata-se
de um Estado de Transição, de um Estado nacional capitalista em formação, cuja
autonomia particular está fundada na heterogeneidade social reproduzida e transformada
pela industrialização. O equilíbrio instável das forças políticas heterogêneas, ao mesmo
tempo em que abre espaço para a autonomia do Estado e sua direção econômica,
estabelece limites para ação estatal e lhe imprime um “sentido” determinado.
Por tudo isso, Rumos e Metamorfoses é destes trabalhos raros que combinam
imaginação, solidez teórica e pesquisa cuidadosa, reequacionando velhas questões e
abrindo caminho a novas indagações. É um livro fundamental para a compreensão do
Brasil contemporâneo.