Você está na página 1de 8

O "deus" Huracán

(Interessante episódio vivenciado e narrado pelo próprio médium


Divaldo Pereira Franco, transcrito do livro "O Semeador de Estrelas", de
Suely Caldas Schubert).

Em 1985 fui à Guatemala, e após fazer a conferência em Guatemala


(DF), os confrades me disseram que a palestra do dia seguinte seria em
Coatepec e que haviam feito uma larga propaganda para atrair umas seis
mil pessoas.

- Mas, em Coatepec, seis mil pessoas? - indaguei.

- Sim, irmão Divaldo, há um mês estamos viajando pelos vales, pelas


montanhas e o irmão vai falar ali no Palácio de Metal.

Eu comecei a imaginar a beleza do Palácio de Metal. Tenho a mente


muito entusiasta e logo imaginei alguma coisa de belo como os palácios
da Índia.

Quando chegou o dia, os confrades estavam entusiasmadíssimos


com a minha palestra no Palácio de Metal.

- Irmão - disse-me um deles - toda a província de Coatepec virá para


assisti-lo.

Viajamos trezentos e vinte quilômetros e quando chegamos perto,


disseram-me:

- Vamos esperar a comissão de recepção.

Veio a comissão e entramos, na cidade, em caravana. Eu imaginava


a cidade de Coatepec, com o seu Palácio de Metal, imponente e
grandioso.

Quando entramos, porém, constatei que era um lugar mais simples e


menor do que eu esperava.

O hotel, onde me hospedei, era quase todo de tábuas, ainda em


construção.

Às quinze horas começou a chover, a relampejar, a trovejar. O


presidente amigo me disse:

- Aqui chove muito; é chuva tropical, dá aquela pancada e logo


passa. Às dezessete horas a chuva prosseguia. Ele voltou a afirmar-me:

- Passará já.
Às dezoito e trinta a cena se repetiu e ele garantiu-me que a chuva
logo passaria. Eu me aprontei, e, às dezenove horas, disse-lhe que já
podíamos ir.

- Ainda não. Só iremos quando faltarem quinze minutos, pois


preparamos uma entrada triunfal. O irmão já imaginou quase sete mil
pessoas aplaudindo a sua entrada?

Tentei demovê-lo desse propósito, dizendo que preferia entrar por


alguma porta lateral, pois fico constrangido, quando tenho que passar
pelo meio do povo a me aplaudir.

- Não - respondeu-me. - Tudo está preparado; tem mestre-de-


cerimônias, o salão mede setenta metros por dez.

Fiquei a imaginar um salão assim, devia ser quase uma quadra. Mas
a chuva prosseguia, torrencialmente.

Às dezenove e quarenta, saímos de carro. Quando chegamos a uma


certa distância, tudo estava interrompido. As enxurradas eram como rios.
Carroças, carros, ônibus, caminhões, tudo interditado. O meu anfitrião
olhou para mim e falou:

- O irmão trouxe guarda-chuva?

- Não, eu não sabia que ia chover.

- E se importa de se molhar? Porque não vamos conseguir ir até lá de


carro.

- Não havendo outra alternativa...

- Então vamos correr.

Quando desci do carro a água me veio quase aos joelhos. Fomos


andando pela rua, bem devagar, cercados d'água com chuva caindo sobre
nós.

Então, chegamos ao local. Quando eu parei para olhar o Palácio de


Metal...

Era enorme e estava superlotado. Era, porém, um barracão de meia


parede e a chuva entrava por um lado quase saindo pelo outro. Em cima
era de zinco, daí a razão do nome - Palácio de Metal. A chuva caindo
sobre o zinco fazia um barulho de estremecer. O mestre-de-cerimônias
falava ao microfone e o povo permanecia firme.

- É o irmão Divaldo! Anunciou.


Entrei e foram muitas as palmas. Fui sendo levado até o meu lugar.
Sentei-me e olhei o público. E o que vi, me comoveu. Foi um dos dias mais
belos da minha vida.

Ali estavam índios e mestiços guatemaltecos. Alguns haviam vindo


desde mais de cem quilômetros de distância: a cavalo, de caminhão, de
carruagem, de carroça, de ônibus para ouvir a mensagem. Mães com
filhinhos às costas e um xale, como é comum na região, ali estavam, de
pé. Não tinha um assento, todos paradinhos ...

Cheguei ao palco e exclamei intimamente: - Meu Deus! - Comovi-me,


e fiquei envergonhado de mim próprio.

- O que vou dizer a eles, se não tenho o que dar. Se Jesus não vier, o
que será de mim? - conjecturei.

Havia, na cidade, um problema, porque o senhor bispo, a véspera,


atacara duramente o Espiritismo e ameaçou de excomunhão a quem
fosse assistir a palestra espírita. Esta seria irradiada. Os intelectuais, o
bispo e as autoridades iriam ouvi-la em casa, certamente, mas aquele
povo ali era modesto, semi-alfabetizado, simples de discernimento. Eu
teria que falar para os críticos que ficaram em casa, sem esquecer-me dos
necessitados ali presentes.

Supliquei intimamente: - Meu Deus, tenha misericórdia de nós! Se eu


jamais fui inspirado, meu Jesus, hoje, por caridade para com eles, inspire-
me. Eu afirmo que, a partir de hoje, irei mudar para melhor, procederei
bem, para o Senhor me inspirar sempre, sem eu o pedir. - Comecei a orar.
As lágrimas me corriam pela face. Olhei o público novamente. Havia
próximo uma indiazinha, com imensa pureza me olhando como se eu
fosse um tóten. Deram-me a palavra. Levantei-me, o microfone com
defeito de transmissão, um som descontrolado.

Fechei os olhos, para me concentrar, porque a zoada externa era


terrível. Comecei a falar, a falar e a pedir intimamente: - Meus Deus, pare
a chuva!

Falei sobre a imortalidade da alma, que é um tema universal.

De repente, ouviu-se um estrondo. Caiu um raio em algum lugar;


faltou luz; pararam os sons e eu me sentei; não podia continuar, porque a
sala era muito comprida, embora eu tenha a voz muito forte, não
conseguiria fazer-me ouvir.

Eu fiquei sentado, mas ninguém saiu do recinto, nem mesmo a


chuva. O silêncio era sepulcral. Vinte minutos depois voltou a luz
fluorescente, voltou o rádio. Alguém disse alto: - Continue! (Mas eu me
esquecera onde havia parado.)
O presidente, então, falou: - Irmão, estamos esperando.

Eu me aproximei do microfone e, nesta hora, lembrei-me da parte em


que parara.

Continuei a falar, mas, com uma ternura diferente. Eu estava falando


para as minhas necessidades espirituais. Descobri que me amava pela
onda de amor que senti por aquele povo. Prossegui, e, quando me
preparava para a pré-tarefa de terminar, vi aparecer, à porta de entrada,
um ser luminescente, estóico, em corpo espiritual como nunca havia visto
antes com tanta beleza. Parecia um deus da mitologia, mas era um deus
asteca. Ele estava de torso nu, uma compleição robusta, parecendo ter
dois metros de altura, uma perfeição; os olhos eram duas lâmpadas que
me alcançavam. Sobre a cabeça havia um tipo de cocar especial, feito de
plumas de quetzal, que é a ave nacional (de onde se originou a moeda)
que dá uma pluma que chega a ter dois metros. E uma ave que só existe
na Guatemala e só em Coatepec, porque só ali tem um fruto, que parece
grão de café, de que a ave se nutre. O macho é lindo, a fêmea é
pequenina, não tem a mesma plumagem. Ele me apareceu com tal
adorno.

O espírito de Joanna (guia espiritual do médium), então, alertou-me: -


Continue falando.

Ele veio andando, triunfalmente, se pode falar, como se deslizasse.


Comecei a ouvir uma música no ar. Uma melodia de ordem ritual, aquela
melodia infinita, em muitas vozes, que balsamizava o ambiente.

Mas, esqueci-me de um detalhe. Quando entrei, do lado esquerdo,


estava uma mulher deitada ao solo, visivelmente paralítica, no palco; e no
lado direito estavam dois outros paralíticos, igualmente deficientes nas
pernas e nos braços.

O Espírito veio vindo, chegou-se até mim e, naquela grandiosidade,


disse-me:

- Chamam-me Huracán; eu sou tido como o deus que criou o povo


asteca. Sou teu amigo e teu irmão. Venho para encerrarmos a nossa
noite. Continua!

A mente dele, entretanto, era tal que a minha se inundou de


inspiração e, dentro do tema da imortalidade, eu dizia, terminando:

- Para vós não é estranho o tema da imortalidade, porque quando


Huracán desceu à Terra, tomou do lodo do riacho para formar a raça
asteca, soprou-lhe a imortalidade da alma.., e comecei a contar a história
do povo asteca, que não conhecia, mas que me chegava em clichês
psíquicos transmitidos pelo Espírito.
Ele foi até a mulher paralítica e curvou-se. Foi até o outro lado,
curvou-se e chegou a mim, envolveu-me por detrás e me senti flutuar. Ele
atravessou-me o corpo e, chegando, naquele imenso corredor, eu já
estava terminando o tema, ele abriu os braços (necessitei de muita
imaginação para entender) e por ideoplastía eu o vi numa forma
cerimonial do povo: sobre a cabeça estava uma moldura de águia, nos
dois braços cresceu uma plumagem e ele, de repente, como uma seta
voou, e, ao voar, naquela inclinada em direção ao infinito, deixou um
rastro de luz, com os braços abertos, ficando sobre o povo uma imensa
cruz dourada, flutuando no ar, que gotejava uma luz violácea ou dourada-
prateada.

Eu terminei a palestra e percebi que as pessoas choravam. Notei cair


sobre a multidão flocos de luz e todos ficaram como que revestidos de um
ectoplasma de luminescência invulgar. Sentei-me, fechei os olhos, e a
chuva parou.

Nesse momento, eu disse à Joanna de Ângelis:

- Que pena, se a chuva tivesse parado antes ...

- Meu filho, porque recalcitras? Tu achas que deves dizer a Deus o


que fazer? Se choveu, havia uma razão. Esta região está invadida por
lutas camponesas, pela guerra civil que ronda a Guatemala, provinda de
El Salvador, da Nicarágua, de Honduras. Estas almas estão sendo
aliciadas pelos fomentadores das guerras pelas terras. Elas não sabem o
que é "direito de terras", mas estão sendo envenenadas para matar e
morrer, e quando foi anunciada a palestra, o Mentor da comunidade pediu
aos céus para que uma tempestade varresse o ar, retirasse os miasmas...
(Eu me lembrei de Obreiros da Vida Eterna, de André Luiz, ao referir-se ao
fogo purificador para limpar a psicosfera). E agora - prosseguiu ela - que a
mensagem terminou, esses vibriões mentais, essas construções pestíferas
do ódio foram afastadas ou destruídas pelos raios, os trovões, a chuva, e
a paz permanecerá neste ambiente. Nunca suponhas que o Senhor não
sabe. Aprende a submeter-se sem sugerir.

A solenidade foi encerrada. A cruz permanecia no ar como nunca vi


nada igual antes, em quarenta anos de mediunidade consciente.

Fui saindo, e quando passei pela senhora paralítica, muito comovido,


aproximei-me, passei-lhe a mão na cabeça e perguntei-lhe: - A senhora
gostou?

Veio um rapaz, um indiozinho, correndo, e respondeu-me:

- Ela não fala espanhol, só o asteca e o maia.

Então, pensei:
- Meu Deus, ela não entendeu nada.

Vendo o meu interesse, o jovem intérprete esclareceu:

- Esta senhora é minha mãe. O senhor quer saber alguma coisa?

- Pergunte-lhe se gostou da palestra.

Ele inquiriu-a e traduziu-me a resposta:

- Sim, ela gostou.

- Volte a perguntar-lhe - insisti - se me compreendeu.

Ele indagou e respondeu-me:

- Não, ela não compreendeu, ela entendeu, ela sentiu; não é


necessário falar quando se pode penetrar a idéia.

Admirado ante tal resposta, prossegui:

- Indague-lhe o que ela veio fazer. (Mas não esperava a resposta). Ela
falou através do intérprete:

- Eu vi o deus e ele me disse que eu trouxesse os doentes e os


aleijados para escutar o "emissário do Senhor".

- O "emissário do Senhor"?

Ela me olhou, profundamente, e completou:

- O senhor tem a "voz de Deus". Eu vi chegar o deus Huracán e senti


o rociar de suas asas abençoando-nos.

Ela falou qualquer outra coisa e o filho esclareceu-me:

- Mamãe o está abençoando. Ela é quem recebe as mensagens do


nosso deus. Ele mandou que se espalhasse pelas aldeias que o "emissário
do Senhor" viria a Coatepec, e que todo o mundo viesse assisti-lo.

Eu tomei aquela mão engelhada, olhei aquela mulher sofrida,


encostei a minha na sua cabeça e ela sorriu. Quase não se podia mexer. O
rapazinho então esclareceu-me:

- Nós moramos a quase trinta quilômetros daqui. Mamãe veio


amarrada num cavalo e eu vim noutro, puxando-a.

Ouvindo-o, senti-me envergonhado. Fui levado pelo jovem aos outros


dois paralíticos e um deles falou-me:

- Nosso deus mandou dizer que se nós viéssemos ficaríamos curados.


Estamos esperando que o senhor dê a ordem.

Hesitei, emocionado, mas Joanna orientou-me:

- Mande-o levantar-se, meu filho.

Eu vi que não tinha a "fé que remove montanhas", porque sendo um


homem racional, naquela hora a primeira coisa que pensei foi: quem sou
eu? Mas, num momento como aquele é o Cristo quem está em nós,
naquela hora não somos nós.

Joanna me deu segurança e amparo. Ficou atrás de mim e tornou a


dizer-me:

- Fale, meu filho.

Aproximei-me, e, olhando-o fixamente, disse-lhe:

- Você crê em Deus?

- Creio! - respondeu-me.

- Então, levante e ande, em nome de Deus e de Huracán! Venha!

Ele foi escorregando do palco como quem ia cair. Quiseram segurá-


lo, porém, pedi que o deixassem. Ele caiu mais ou menos em pé e qual
um pêndulo de relógio oscilou. Equilibrou-se e deu o primeiro passo.

O silêncio em todo o salão era total. Todos permaneciam numa


postura de dignidade, como se já soubessem o que iria acontecer.
Nenhum grito, nenhuma emoção. Fé! A fé que nos falta. E o amor!

Ele andou, segurou o meu braço. Fomos até ali, voltamos até acolá.

- E eu, e eu? - indagou o outro, afobadamente.

- Venha, o Senhor está mandando-o também. Venha, em nome de


Deus!

Ele foi desentortando, como se estivesse obsidiado, padecendo de


uma obsessão física. Não era um paralítico orgânico.

Recordei-me, imediatamente, de que Kardec narra, no capitulo 23, de


O Livro dos Médiuns, o caso de um obsessor que atuava nos jarretes de
um homem, fazendo-o cair de joelhos diante de uma moça, humilhando-o
terrivelmente.
Mas, ele se foi retorcendo, e do seu corpo saiu um fluido, como um
fumo, como que uma nuvem escura e ele começou a andar.

- Deus abençoe o "emissário do Senhor" - disseram repetidas vezes.

A minha emoção foi tão grande que eu não saberia descrevê-la. Vi


que estava na hora de ir-me embora, porque não podia suportar mais tão
intenso estado emocional -um sentimento intraduzível. Só sei dizer que
meu coração parecia querer arrebentar-se dentro do peito.

Chamei o presidente e amigo anfitrião, que estava a regular


distância, e pedi-lhe, quase sem voz:

- Vamos? Já que a chuva parou, vamo-nos embora.

Fomos atravessando o salão. Olhei o relógio, eram vinte e duas e


trinta. Alguém veio e me abraçou. Veio outro e fez o mesmo. E veio outro,
mais outro. Quando cheguei à porta, após atravessar o largo recinto,
faltavam quinze minutos para a meia-noite.

Eram o amor e a visão do deus Huracán, porquanto vivendo eles no


contexto de uma crença totêmica, é óbvio que a resposta espiritual se
apresentaria de igual forma. Huracán, seria, pois, o Mentor, o Guia
Espiritual da comunidade, que se apresentava conforme a concepção
deles: uma águia que habita as grandes alturas, nas montanhas mais
elevadas.

A rua escoara, não havia mais água ou enxurrada.

Não pude dormir. Durante um largo tempo não consegui dormir,


porque o deus Huracán havia vindo e a mensagem do amor tornara-se
realidade em Coatepec.