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M I S T I C I S M O l C I Ê N C I A l A R T E l C U L T U R A

PRIMAVERA 2015
Nº 294 – R$ 10,00

ISSN 2318-7107
É o que desejamos…
E que não permaneçamos presos ao passado,
Nem a recordações tristes…
Que não revolvamos dores e sofrimentos antigos!
Que, seja qual for a nossa decisão, não a temamos!
Tudo o que fizermos, que seja com firme propósito
E com o pensamento voltado para Deus. Com Fé!

Assim, tudo nos sairá bem,


Ainda que possamos sofrer algum revés…
O resultado é o que importa.
Vamos neste momento construir uma vida nova,
Refletindo-a para o Alto
E caminhando sempre para a frente,
Trabalhando para o presente – o futuro é o resultado.

Façamos como o Sol que se ergue no horizonte


A cada novo dia, com seu majestoso brilho,
Sem se incomodar com a noite que passou,
Mesmo que tenha havido uma tempestade.

Deus sempre está abençoando


Cada instante de nossa vida aqui na Terra…

E que a Paz e a Luz


A saúde, a amizade,
A harmonia e o Amor
Estejam com todos
Para festejarmos juntos
O Espírito do Natal
– Cidinha Frigéri, SRC
n MENSAGEM

Prezados Fratres e Sorores,


© AMORC

Saudações nas três pontas do nosso Sagrado Triângulo!

Esta é a edição de primavera da nossa revista O Rosa-


cruz. Seus artigos foram selecionados com critério e
acredito que os fratres e sorores apreciarão sua leitura.
No dia 9 de maio de 2016 a GLP comemorará o seu ani-
versário de 60 anos e celebraremos juntos esse marco
histórico em duas ocasiões: na data da fundação na sede
da Grande Loja, com um momento cívico, uma Convocação Ritualística especial e
outras atividades; e durante a XXIV Convenção Nacional, de 21 a 24 de setembro.
Excelentes palestrantes foram convidados e será uma ocasião de confraternização e
cultura rosacruz. A OGG também terá sua Convenção na épica ocasião.
Lembro que cada membro da Ordem deve optar quanto à modalidade de recebi-
mento das revistas, impressas ou digitais, conforme minha comunicação anterior.
O mundo precisa do trabalho mental e espiritual dos rosacruzes e espero que cada
Membro Regular, Oficiais, Artesãos, Martinistas, jovens e adultos visualizem um
mundo pacífico e um planeta saudável para se viver. Conclamo todos os fratres e
sorores a se recolherem em seu sanctum pessoal e vibrar por mais espiritualidade,
mais harmonia e maior consciência ecológica.
Que estes princípios se revertam em Luz, Vida e Amor para que o espírito regenerador
e crístico do Natal possa preencher o nosso coração e abençoar-nos na renovação de
propósitos como fratres e sorores, irmãos e irmãs, homens e mulheres de boa vontade.
Um Feliz Natal e um Ano Novo repleto de realizações materiais e espirituais.

Assim seja!

Hélio de Moraes e Marques


Grande Mestre

PRIMAVERA 2015 · O ROSACRUZ


1
n SUMÁRIO

04 A herança da Rosacruz
Por CHRISTIAN BERNARD, FRC – Imperator da AMORC
04
12 Aspectos teóricos e práticas da Arte Rosacruz de Viver
Por IRENE BEUSEKAMP FABERT, SRC – Grande Mestre da Jurisdição da Língua Holandesa

16 URCI: novas definições para novos tempos


REUNIÃO ANUAL DA URCI – OUTUBRO 2015

19 A Paz

12
Por ANDRÉ GENERINO DA SILVA, FRC

20 O menino de luz e o barquinho de papel


Por MARIA JOSÉ QUEIROGA, SRC

23 Reunião anual da Suprema Grande Loja


OUTUBRO 2015

24 Doze faces do Graal

20
Por PHILIPPE DESCHAMPS, FRC

34 Como você considera o mundo atual?


Por SERGE TOUSSAINT, FRC

38 A compaixão: um duplo benefício


Por DOMINIQUE DUBOIS, SRC

46 Sanctum Celestial
“militância e serviço” por ivar piazetta, frc

52 Ecos do passado
UMA HOMENAGEM À HISTÓRIA DA AMORC NO MUNDO
24
2 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2015
O
s textos dessa publicação não representam a palavra oficial da
AMORC, salvo quando indicado neste sentido. O conteúdo dos
artigos representa a palavra e o pensa­mento dos próprios autores
Publicação trimestral da e são de sua inteira respon­sabilidade os aspectos legais e jurídicos que
Ordem Rosacruz, AMORC
possam estar interrelacionados com sua publicação.
Grande Loja da Jurisdição de Língua Portuguesa
Bosque Rosacruz – Curitiba – Paraná Esta publicação foi compilada, redigida, composta e impressa na Ordem
Rosacruz, AMORC – Grande Loja da Jurisdição de Língua Portuguesa.
Todos os direitos de publicação e repro­dução são reservados à Antiga
e Mística Ordem Rosae Crucis, AMORC – Grande Loja da Jurisdição de
Língua Portu­guesa. Proibida a reprodução parcial ou total por qualquer meio.
As demais juris­dições da Ordem Rosa­cruz também editam uma revista
do mes­mo gênero que a nossa: El Rosacruz, em espanhol; Rosicru­cian
Digest e Rosicrucian Beacon, em inglês; Rose+Croix, em francês; Crux
Rosae, em alemão; De Rooz, em holandês; Ricerca Rosacroce, em italiano;
Barajuji, em japonês e Rosenkorset, em línguas nórdicas.
CIRCULAÇÃO MUNDIAL

Propósito da expediente
Coordenação e Supervisão: Hélio de Moraes e Marques, FRC
Ordem Rosacruz n

A Ordem Rosacruz, AMORC é uma orga- n Editor: Grande Loja da Jurisdição de Língua Portuguesa
nização interna­cio­nal de caráter templário,
místico, cul­tural e fraternal, de homens e
n Colaboração: Estudantes Rosacruzes e Amigos da AMORC
mulheres dedicados ao estudo e aplicação

como colaborar
prática das leis naturais que regem o uni-
verso e a vida.
Seu objetivo é promover a evolução da
huma­nidade através do desenvolvimento
das potencia­lidades de cada indivíduo e
n Todas as colaborações devem estar acom­panhadas pela declaração do
propiciar ao seu estudante uma vida har- autor cedendo os direitos ou autori­zando a publicação.
moniosa que lhe permita alcançar saúde,
felicidade e paz.
n A GLP se reserva o direito de não publicar artigos que não se encaixem
Neste mister, a Ordem Rosacruz ofe- nas normas estabelecidas ou que não esti­verem em concor­dância com a
rece um sistema eficaz e comprovado de pauta da revista.
instrução e orientação para um profundo
auto­c onheci­mento e compreensão dos n Enviar apenas cópias digitadas, por e-mail, CD ou DVD. Originais não
processos que conduzem à Iluminação. serão devolvidos.
Essa antiga e especial sabedoria foi cui-
dadosamente preservada desde o seu n No caso de fotografias ou ilustrações, o autor do artigo deverá providenciar
desenvolvimento pelas Escolas de Misté- a autorização dos autores, necessária para publicação.
rios Esoté­ricos e possui, além do aspecto
filosófico e metafísico, um caráter prático. n Os temas dos artigos devem estar relacionados com os estudos e práticas
A aplicação destes ensinamentos está ao rosacruzes, misti­cismo, arte, ciências e cultura geral.
alcance de toda pessoa sincera, disposta a
aprender, de mente aberta e motivação
positiva e construtiva. nossa capa
A capa desta edição da revista O
Rosacruz retrata o quadro de Jesus, O
Cristo, pintado em 1928, pelo nosso
primeiro Imperator para o atual ciclo
de atividades da Ordem Rosacruz –
Rua Nicarágua 2620 – Bacacheri AMORC, Frater H. Spencer Lewis.
82515-260 Curitiba, PR – Brasil
Tel (41) 3351-3000 / Fax (41) 3351-3065
Frater Lewis, além de todos os outros
www.amorc.org.br talentos foi também um grande pintor.

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n IMPERATOR

Por CHRISTIAN BERNARD, FRC – Imperator da AMORC

© AMORC/THINKSTOCK.COM

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Q
uando a palavra “herança” e, portanto, não teria razão de ser. Estou cer-
nos vem à mente, logo pensa- to de que você tem plena consciência disso,
mos nos bens materiais que e, por conseguinte, sinto que não é necessá-
podemos receber do passado rio salientar esse ponto. Além disso, sei que
ou legar ao futuro. Contudo, em termos todo rosacruz é orgulhoso das edificações
místicos, não apenas é possível que her- que a Ordem sempre consagrou à Verdade
demos algo que ainda não existe no plano e dedicou a cada um de seus membros.
terreno como também podemos construir Gostaria de abordar agora o assunto de
no presente uma herança de ideais ou de nossa responsabilidade enquanto membros
valores espirituais. Consequentemente, de uma nação ou, se preferir, como habi-
sugiro que todos reflitamos sobre o signifi- tantes de um país específico. Em primeiro
cado que os rosacruzes devem dar às suas lugar, devemos ter plena consciência de que
vidas presentes para que a herança material não é por acaso que existe uma miríade de
e espiritual que legamos aos nossos suces- idiomas e um determinado número de ra-
sores seja digna de adeptos rosacruzes. ças. Da mesma forma, o fato de ser o mundo
De que consiste a nossa herança material? dividido em diversos continentes, cada qual
Para responder a esta pergunta precisamos composto de diferentes países, não é o re-
ter três fatos em mente: primeiro, que somos sultado de um decreto cósmico arbitrário. É
membros da AMORC; segundo, que vivemos uma necessidade, pois a Unidade em todos
num determinado país; e terceiro, que somos os planos e em todos os níveis só pode se
cidadãos do mundo. Nossa herança material desenvolver através do processo da multi-
é, portanto, tríplice. Aplicada à nossa Ordem,
ela designa todas as edificações – em espe-


cial aquelas das diversas Grandes Lojas ao
redor do mundo – que foram erigidas ou que A nossa
se tornaram sede das atividades rosacruzes
desde o começo do século XX. Cada um des- própria existência
ses prédios constitui uma parte da estrutura
material legada a nós por nossos predecesso-
é a imagem da
res ou pela Providência para que a Rosacruz
pudesse cumprir sua missão com dignidade
multiplicidade, pois
no mundo de hoje. Nesse particular, deve- cada um de nós
mos fazer tudo o que estiver ao nosso alcan-
ce para preservar esse legado de uma forma reencarna múltiplas
ou outra para os futuros rosacruzes. Como
as coisas estão no presente, não devemos ja- vezes em corpos,
mais esquecer que vivemos num mundo ma-
terial e que é impossível ministrar orientação
países, raças,
espiritual sem recorrer a recursos materiais. culturas e religiões


Se a AMORC não possuísse construções, não
poderia desempenhar sua função espiritual diferentes…

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n IMPERATOR

plicidade. De fato, tal processo aumenta o comum – a da Harmonia Cósmica. Portan-


número de experiências. Para provar isso to, é muito importante que cada um de nós,
basta pensarmos na Grande Alma Universal. no decurso de nossas vidas, se torne plena-
Ela é una em essência; porém, em virtude mente impregnado daquilo que constitui a
de uma necessidade cósmica, ela se cinde beleza, a grandeza e o valor do país em que
em bilhões de partículas anímicas. A nossa residimos. Assim, o pensamento rosacruz
própria existência é a imagem da multi- emergirá enobrecido e enriquecido, pois ofe-
plicidade, pois cada um de nós reencarna recerá uma síntese das características mais
múltiplas vezes em corpos, países, raças, positivas de cada nação. Para conquistar
culturas e religiões diferentes, mas sempre isso, devemos nos imergir o máximo possí-
preservando no fundo de nós mesmos a vel não apenas na cultura, na história e nas
mesma fagulha da Divindade. Assim, apesar tradições de nosso país, mas também em
das aparências, a grande lei de evolução é seus objetivos. Em poucas palavras, deve-
servida quando divisão, diferença e multipli- mos nos esforçar para estarmos em sintonia
cidade são canalizadas num objetivo cons- com sua consciência coletiva, pois ela é um
trutivo. Este princípio é muito bem expresso testamento de seu passado e pressagia o seu
no Hino a Aton, um dos mais belos textos futuro. Se fizermos isso com seriedade, um
simbólicos legados a nós por Akhenaton. profundo laço se desenvolverá entre nós e
Em nossos dias, há muitos rosacruzes a nação onde residimos, seja no começo de
falando os idiomas de todos os países em que nossa encarnação ou mais tarde. É notório
a AMORC está ativa. Porém, o simples fato que cuidamos daquelas coisas às quais nos
de serem membros da Ordem os vincula a apegamos e é esse apego às coisas que faz
um ideal comum, pois vibram numa nota com que elas sejam parte não apenas de nos-

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6 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2015



sa própria história, mas também da história
da coletividade à qual pertencemos, pois … no esquema
um país nada mais é do que um grupo de
indivíduos ligados a uma memória comum.
da evolução humana,
É verdade que nem todas as nações têm
o mesmo passado e que algumas delas são
cada país tem um
muito mais novas do que outras. Porém, papel distinto a
como diz o ditado, “a idade não influi na
pena”, pois a rosa que floresce na roseira de desempenhar, pois
dois anos é tão bonita quanto aquela que
adorna a de quinze. O que importa não é cada nação tem
a magnitude do passado histórico de uma
nação, pois no mais das vezes esse passado
uma percepção
consiste apenas de uma sucessão de con- particular quanto ao


flitos e guerras, mas sim o escopo místico
que damos ao seu presente. Assim sendo, bem e ao mal.
independente do país em que vive um rosa-
cruz, ele ou ela deve provar a cada dia que
é possível reconstruir aquilo que os sécu- que a solução para a maior parte dos pro-
los podem ter ajudado a destruir. Como? blemas internacionais reside na combina-
Simplesmente servindo como exemplo hu- ção de todas as reações. Por conseguinte,
manitário, solícito para preservar valores enquanto místicos devemos canalizar os
tradicionais e morais que constituem a glória mais elevados sentimentos que nossa nação
de todas as sociedades civilizadas. Com esse pode expressar política, econômica, social
objetivo em mente, onde quer que esteja- e, sobretudo, misticamente. Se formos todos
mos e independentemente de serem nossas bem-sucedidos nisso em nossos respectivos
responsabilidades grandes ou pequenas, países, as futuras gerações herdarão socie-
nossa tarefa é agir de modo que nossos con- dades distintas, porém unidas no amparo
cidadãos possam evoluir elevando a cons- às obrigações e aos direitos de cada pessoa.
ciência coletiva da nação que eles formam. Isto me leva a examinar o terceiro aspec-
Nesse particular, estou convencido de to da herança material que devemos legar à
que, no esquema da evolução humana, cada humanidade do terceiro milênio. É fato que
país tem um papel distinto a desempenhar, todos nós, rosacruzes, somos membros de
pois cada nação tem uma percepção par- nações distintas, porém do ponto de vista
ticular quanto ao bem e ao mal. São como místico somos primeiramente cidadãos do
diferentes notas de um único instrumento mundo. Consequentemente, seria um grave
musical que, nas mãos do Grande Arquiteto erro comportar-se como um nacionalista
do Universo, são harmonizadas de modo determinado a defender exclusivamente
a tocar a mesma melodia. Isto explica por os interesses de sua própria nação. Para
que cada nação reage de modo diferente voltarmos à nossa analogia, é impossível
aos mesmos fatos, mas também evidencia tocar uma melodia usando uma única nota

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n IMPERATOR

por causa de nossas atividades, isto não


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apenas significaria o fim da humanidade


– ao menos da forma como a conhecemos
agora – como também o início de uma
grande perturbação em nosso sistema solar,
a qual se estenderia ao universo adjacente.
Na verdade, é fácil entender que o cosmos
é governado pela ordem e pela harmonia e
que qualquer perturbação produzida num
determinado ponto do mundo reverbera no
infinito. A mesma coisa se aplica ao nosso
corpo, pois é bem sabido que, quando um
de nossos órgãos é afligido por alguma do-
ença, o organismo como um todo é afetado.
Portanto, as escolhas que devemos fazer
para remediar a destruição que agora ame-
aça a sobrevida de nosso planeta não apenas
de um instrumento. Da mesma forma, a afetam a evolução da humanidade como
humanidade não levará a cabo seu último também a própria existência de outros pla-
objetivo de evolução – ou seja, a Perfeição netas de nosso sistema solar, pois todos estão
Absoluta – se cada nação agir sem levar em conectados por laços afins extremamente
conta o bem-estar das demais. Nesse nível, sutis. É importante, pois, que cada um de
é importante compreender que, qualquer nós – não apenas enquanto membro de um
que seja a nossa nacionalidade individual, país específico, mas também como cidadão
todos pertencemos ao mesmo corpo coleti- do mundo – esteja implicado com o futuro
vo. Portanto, é óbvio que a melhor herança de nossa Terra. Desse ponto de vista, deve-
que podemos legar às crianças de amanhã mos ser exemplos perfeitos de comporta-
não é outra senão a própria Terra. Como mento respeitoso para com a Natureza. De-
você sabe, a Terra está enferma, sofrendo vemos nos opor com determinação a todos
de muitas doenças. Por causa de interesses os interesses fúteis que são os responsáveis
pessoais e de egoísmo, os seres humanos pelo massacre de determinadas espécies ani-
alteraram o planeta e, como dizem alguns mais e vegetais. Não devemos menosprezar
cientistas, o puseram em grande perigo. o perigo representado por algumas formas
Minhas observações não pretendem ser de energia – penso mais especificamente na
uma avaliação de todas as formas de po- energia nuclear – e pelo transporte de outras
luição que ameaçam o futuro da espécie formas de energia, como o óleo. Parece óbvio
humana, pois isto foi por algum tempo o que as pesquisas científicas deveriam todas
tópico de um número crescente de confe- convergir para a energia solar. A propósito,
rências, artigos de jornal e emissões de tele- isto tem acontecido há muitos anos, mas
visão. Contudo, julgo importante enfatizar infelizmente a aplicação da energia solar
o fato de que se a Terra fosse desaparecer ainda não se manifestou como deveria.

8 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2015


O Sol sempre foi a fonte de toda a vida. ou tradições, mas, pelo meu conhecimento,
Ele não pertence a nenhuma nação em nenhum deles possui uma herança cultural
particular e, portanto, não pode ser obje- e espiritual tão vasta como a da Rosacruz.
to de nenhuma apropriação – o que não Por outro lado, há um grande número
acontece com o carvão, com o óleo e com de ordens, sociedades e grupos pseudo-
o gás. Se admitirmos que o Sol simbolize místicos que são em sua maioria novos e
a Grande Luz da Consciência Cósmica, e que refletem apenas a filosofia pessoal – e,
sabendo que “assim como é em cima é em- consequentemente, temporária – de seus
baixo”, a escolha também deveria ser de fundadores. Por fim, acrescento que movi-
trazer luz e calor para toda a humanidade. mentos autênticos de âmbito internacional,
Estou perfeitamente ciente de que esse tipo como a Antiga e Mística Ordem Rosacruz,
de discussão não é algo novo, mas hoje são são extremamente raros. Então, por essas
necessárias soluções, pois o tempo das cons- razões e por muitas outras, acredito que a
tatações oficiais já se passou há muito. Esta AMORC pode e deve atender as exigências
é a razão pela qual é tão importante rever místicas da Nova Era. Para tanto, é bastan-
os problemas que têm sido o tema de tantas te óbvio que ela precisa ser conhecida. A
campanhas ecológicas. Portanto, sejamos esse respeito, acredito sinceramente que a
responsáveis; não deixemos nossa consci- herança que devemos legar para o terceiro
ência adormecer sobre os problemas de que milênio reside primordialmente na espiri-
está ciente, mas que não quer enfrentar; e tualidade que a Rosacruz se empenhou em
tratemos de dar nosso apoio incondicional transmitir desde a mais remota Antiguidade.
àqueles que estão investidos da autoridade A Antiga e Mística Ordem Rosacruz sem-
para preservar a saúde de nosso planeta, pre se adaptou às várias eras que marcaram a
pois a herança terrena que legaremos às fu- história da evolução e a evolução da história.
turas gerações depende da vontade deles.
Agora examinemos o legado espiritual
que precisamos construir para o futuro.
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Como você sabe, esse legado se baseia no


conhecimento das leis e princípios que, des-
de tempos imemoriais, unem a humanidade
ao Criador. Todos aqueles que têm a honra
e o privilégio de pertencer a uma ordem
tradicional como a AMORC têm a missão
específica de transmitir o conhecimento que
herdaram de um passado milenar. Acredito
que possa afirmar em verdade que nossa
Ordem constitui a mais antiga e mais abran-
gente senda mística para a espiritualidade no
mundo ocidental. Naturalmente, há outros
movimentos filosóficos e místicos que, por
séculos, ecoaram determinadas religiões

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n IMPERATOR

Assim sendo, nunca no passado aconteceu dade em campos particulares do conheci-


de seus ensinamentos se cristalizarem no mento, como ciências, arte, literatura etc.
tempo. Eles são constantemente atualizados, As pesquisas que conduzem, individual ou
clarificados e aprofundados ao longo dos coletivamente, são regularmente publica-
séculos, de forma a manter o passo com o das nas revistas rosacruzes e por vezes em
progresso da sociedade ao mesmo tempo em periódicos especializados, de forma a con-
que anteveem o futuro. No atual ciclo, ela tribuir para a evolução da consciência ao
não foge à regra, especialmente desde que o passo que provam o dinamismo da pesquisa
ritmo da vida se acelerou. Naturalmente, o rosacruz. Seu trabalho é também discutido
propósito dessa atualização não é – e nunca em palestras e seminários, alguns dos quais
foi – mudar a direção, o espírito ou a essên- são abertos ao público. Devido às atividades
cia da Tradição Rosacruz, pois o Cósmico patrocinadas pela URCI, o conhecimento
não estaria de acordo com isso – e, conse- científico, literário e artístico legado aos
quentemente, algo assim não poderia ser futuros rosacruzes e a toda a nossa fraterni-
levado a cabo. Seu objetivo é antes garantir dade humana, ilustrará claramente o pro-
que seus ensinamentos estejam completa- gresso conquistado nesses vários campos de
mente adaptados à evolução da consciência conhecimento durante as últimas décadas.
e das mentalidades, pois é importante que Naturalmente, nem todos os rosacruzes
os rosacruzes de hoje e do futuro não sin- estão qualificados a conduzir pesquisas em fí-
tam que os ensinamentos ficam para trás sica, química, astronomia, música, medicina,
perante as referências culturais ou até mes- psicologia e outras áreas. Consequentemente,
mo sociais de um determinado período. que legado podem deixar para o conheci-
Com relação aos ensinamentos místicos mento? Em resposta a esta questão, desejo
perpetuados pela Ordem, preciso mencionar relembrar-lhe que ser um rosacruz significa
também as atividades culturais conduzidas antes de tudo estudar e aplicar conscienciosa-
pela Universidade Rose-Croix Internacional, mente os ensinamentos da AMORC em cada
que é composta por rosacruzes de autori- pensamento, palavra e ação. Também envolve
trabalhar no plano espiritual de forma a mo-
ver energias capazes de purificar e regenerar
a consciência coletiva da humanidade. Ade-
mais, exige que meditemos sobre as grandes
verdades da vida, de forma a iluminar aqueles
que estão menos adiantados do que nós na
senda da vida. Por fim, significa orar para que
cada ser humano receba a Iluminação que
nós mesmos buscamos. Viver plenamente o
Rosacrucianismo é, portanto, irradiar a Luz
ao redor de nós e, através de nosso exemplo,
despertar em mais pessoas o desejo de seguir
o mesmo caminho que nós trilhamos. Nesse
nível, não é preciso absolutamente ser uma

10 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2015


autoridade nos campos científico, artístico ou
literário. Tudo o que é necessário é simples-
mente querer isto; se aceitarmos essa Missão
Cósmica de guiar para a Luz aqueles que ain-
da perambulam nas trevas, então oportunida-
des não faltarão. Por outro lado, quanto mais
investirmos nesse papel de condução, mais
apoio e energia receberemos dos Mestres Cós-
micos. Acrescentarei que, quanto mais usar-
mos esse apoio e canalizarmos essa energia,
mais poderoso será o legado espiritual para o
bem universal que transmitiremos ao futuro.
Falando em termos gerais, a coisa mais
bonita que podemos legar àqueles que se se-
guirão a nós não é outra senão uma pirâmide
de ideais que serão suficientes para remover
a humanidade do caos aparente em que se
encontra imersa. É, portanto, no Invisível iniciação. Portanto, sejamos honrados traba-
que devemos assentar as fundações para a lhadores e, deixando de lado pensamentos,
espiritualidade, pois é preciso não esquecer palavras e atos mercenários ou mesmo in-
de que tudo surge do Invisível. Os rosacruzes dignos, trabalhemos seriamente pela causa
possuem à sua disposição todas as ferramen- na qual acreditamos: o desabrochar final da
tas místicas necessárias para cumprir essa rosa humana sobre a cruz temporária deste
missão. Se não as usarem e contentarem-se mundo terreno. Se formos bem-sucedidos
com o mero fato de possuí-las, terão então nesse cometimento, os filhos de nossos filhos
falhado em sua tarefa e sua responsabilida- herdarão um mundo em que, pela primeira
de cármica será considerável no momento vez na história conhecida, o ideal de Paz
final de cruzar o umbral para a mais alta será uma realidade material e espiritual. 4

“ … a coisa mais bonita que podemos


legar àqueles que se seguirão a nós não
é outra senão uma pirâmide de ideais
que serão suficientes para remover a
humanidade do caos aparente em que
se encontra imersa.

PRIMAVERA 2015 · O ROSACRUZ
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n ROSACRUCIANISMO

© AMORC/THINKSTOCK.COM

Por IRENE BEUSEKAMP FABERT, SRC – Grande Mestre da Jurisdição da Língua Holandesa

12 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2015


T
odos nós fazemos parte da vasta co- sem esse auxílio. Fui para a escola primária,
munidade que é a humanidade, mas frequentei aulas de catecismo e com onze
cada um de nós é um ser único com anos recebi minha primeira comunhão. Para
características únicas e uma percep- isso acontecer, tive que aprender a prática
ção única do mundo que nos cerca. Ao nos do exame de consciência e da confissão.
reunirmos aqui na qualidade de Rosacruzes, Foi então que começou minha busca
temos em comum o fato de que todos nós, em espiritual. Comecei a me fazer todo tipo de
algum momento de nossa vida, tornamo-nos perguntas, e no segundo ano do curso se-
membros da Ordem Rosacruz. Mesmo que cundário entrei em contato com a literatura
estudemos os mesmos ensinamentos, receba- francesa da Idade Média, sob a orientação
mos as mesmas iniciações, nossas experiências de um eminente e entusiasta professor de
diferem e são exclusivas a cada um de nós. literatura, e, entre outros livros, li o “Roman-
Desejo contar-lhes minhas experiên- ce da Rosa”. Acho que foi naquele preciso
cias pessoais, mesmo que quando crian- instante que eu – sem me dar conta – dei
ça – o que já faz muito tempo! – tenha o primeiro passo na Senda Rosacruz.
aprendido que não devemos falar a nosso No ano seguinte Rabelais estava no pro-
próprio respeito. Por causa disso, ten- grama de minha escola. O que havia sido
tarei observar a necessária modéstia. despertado em mim pelo “Romance da Rosa”
As mais distantes lembranças que tenho foi reforçado pela leitura de Rabelais, um
de minha infância (acho que eu tinha uns dos grandes nomes da literatura mundial.
três anos de idade) são duais. Lembro muito Mais tarde, quando eu já era membro da
bem que estava escuro. Sirenes uivavam e eu Ordem Rosacruz e estudava nossos ensi-
fui tirada do berço e levada para o portão, namentos, passei a compreender que tanto
onde fui colocada em outra cama até que Jean de Meung, autor da segunda parte do
o Big Bertha (um canhão pesado de longo “Romance da Rosa” e Rabelais, com toda
alcance – conforme fiquei sabendo muito a certeza, tinham tido contato com o her-
mais tarde) se calou até o ataque seguinte, e metismo, a alquimia e o rosacrucianismo.
os aviões inimigos voltaram para suas bases. Eu me casei muito jovem, pouco an-
A Primeira Grande Guerra acabou. tes do início da Segunda Grande Guerra.
Na hora de dormir, minha mãe me punha Meu marido era holandês, por isto deixei a
na cama em um quarto que ficava com- França e fui morar na Holanda, onde duas
pletamente escuro quando a porta para o tarefas me aguardavam: primeiro, apren-
corredor era fechada. Eu não tinha medo der a falar holandês e, segundo, sobrevi-
do escuro e para mim era quando a festa ver às tribulações dos anos de guerra.
começava. Eu ficava deitada quietinha, com Após a guerra eu me tornei mãe e ao
os olhos bem abertos, e o quarto se enchia mesmo tempo retomei meus estudos. Com-
de magnífica luz com todas as cores do pletei meus estudos de literatura francesa
arco-íris. Era um espetáculo de cores dan- e iniciei minha carreira de professora.
çantes. Eu ficava olhando até adormecer. Conforme mencionei anteriormente, ainda
Não tenho ideia de quanto tempo esse pequena eu já me fazia perguntas sobre a hu-
tipo de experiência durou, só sei que uma manidade e o mundo, e lia bastante, sendo que
noite acabou. Aparentemente, “meu cor- meu amor pela leitura aumentou com o passar
dão umbilical espiritual” foi cortado e eu dos anos. Eu havia crescido intelectualmente,
tive que continuar minha vida de criança mas desejava mais. As questões existenciais,

PRIMAVERA 2015 · O ROSACRUZ


13
n ROSACRUCIANISMO

que eu debatia comigo mesma, tornaram-se perimento nem sempre tem sucesso. Torne-
cada vez mais urgentes. Tenho certeza de que -se “disponível” para o experimento, isso é o
todos “ganham” sua oportunidade de receber que importa. No final dos Graus de Neófito,
“mais”. O Cósmico não se esquece de ninguém você é convidado a fazer um ritual e assinar o
e não me esqueceu: um dia, durante uma Juramento do Neófito, que deve ser enviado
visita à minha família e amigos em Paris, en- ao seu Grande Mestre. Para mim, isto foi de-
contrei em uma mesa uma brochura chamada cisivo para o meu relacionamento com a Or-
“Uma Mensagem”. Eu estava sozinha na sala dem Rosacruz. Depois que realizei o ritual,
e comecei a ler o livreto. Cada palavra parecia li e reli o Juramento algumas vezes, mas não
ter sido escrita para mim. Eu tinha entrado pude assiná-lo naquela oportunidade. Tive
em contato com a Ordem Rosacruz, AMORC. que deixar as palavras ressoarem em minha
A dona da casa não sabia de onde tinha vin- mente e considerar seriamente as consequên-
do o livreto. Ela tinha filhos frequentando a cias de apor a minha assinatura ao documen-
escola e eles costumavam trazer amigos para to. Somente seis meses mais tarde eu assinei
casa. Um deles talvez tivesse o Juramento, plenamente


deixado a brochura sobre convicta e consciente do
a mesa. Ela me disse que Amor é fato de que eu havia feito
eu podia levá-la comigo, um pacto, não só com a
sem problemas. Já de volta a palavra de Ordem Rosacruz, mas
à Holanda, escrevi para a
sede da jurisdição de língua
passe. Carregue também comigo mesma.
Eu me senti prepa-
francesa, que na época era
em Villeneuve-Saint Geor-
o amor dentro rada: De todo o meu
coração, tinha me tor-
ges, pedindo mais informa- de si e o mundo nado uma Rosacruz.
ções, e subsequentemente A experiência que se
pedi admissão à Ordem. será carregado seguiu foi avassaladora. Eu
pelo amor.

Tive a resposta após algum me senti absolutamente
tempo e assim começou livre. Eu estava livre, e, na
uma nova vida para mim. qualidade de ser humano
Logo descobri que deveria aderir estrita- livre, prossegui a jornada na Senda Rosacruz.
mente às instruções dadas ao Neófito no iní- Este talvez seja o momento certo de confes-
cio da Senda, particularmente com respeito sar que nunca enviei o Juramento de Neófito
à atitude correta no estudo das monografias: que eu havia assinado para a Grande Loja.
Deixe de lado tudo que você pensa que sabe, Guardei esse documento em meu caderno,
pois você só sabe com a cabeça, com o cére- onde ainda está, como testemunha silenciosa
bro, e agora precisa aprender, a saber, com o de minha íntima relação com nossa Ordem.
coração: adote uma atitude aberta e humilde Aquele que avança com firmeza na Sen-
para receber as lições. Leia cada lição com da pelo estudo regular das monografias, e
atenção, anote em seu caderno os pontos que se dispõe a fazer os exercícios e harmoni-
acha difíceis de entender, e que você pretende zações, muda, mesmo que ele próprio não
apresentar ao Mestre de Sua Classe. Quando perceba. Torna-se uma pessoa diferente,
uma lição contiver um experimento, leve o um ser humano melhor. Eu mesma me
tempo necessário para realizá-lo. Também tornei uma mãe melhor e uma professo-
aceite com naturalidade o fato de que um ex- ra melhor. Passei a encarar meus alunos

14 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2015


como meus irmãos de humanidade, como nossa Ordem, tornara-se membro, e, junto
espelhos meus. Nas classes adiantadas do com outros irmãos e irmãs, participava do
Colégio, tínhamos trocas espirituais es- progresso da Ordem no Suriname. As pala-
peciais durante a aula de literatura. Eles vras desse frater ainda soam em meus ouvi-
aprendiam comigo e eu aprendia com eles. dos: “Sou um homem feliz, a Rosacruz me
Eu ainda era um membro de Sanctum deu tudo. Devo minha felicidade à AMORC”.
de nossa Ordem, mas comecei a sentir von- Ele carregava nossa Ordem no coração. Nele,
tade de ter contato com outros Rosacruzes. comemoro e celebro todos os obreiros Rosa-
Tornei-me membro do Capítulo Isis (que cruzes que incondicional e lealmente deram
hoje é uma Loja) em Haia, e passei a partici- o melhor de si a serviço de nossos ideais.
par de corpo e alma das atividades oferecidas Sabemos que em muitos lugares nosso
pelos Organismos Afiliados Rosacruzes. mundo é marcado pelo sofrimento. Contudo,
Aprendi muito na Loja Isis, tanto no pla- não desejo tocar neste assunto agora. Não
no místico quanto humano, e, quando entrei existe vida sem dor e sofrimento, mas tam-
pela primeira vez no Templo como Mestre do bém nela existe alegria e júbilo. Entre as nu-
Capítulo, vivenciei o poder do Amor Cósmico vens negras que pairam acima da Mãe Terra,
que me guiou para o Leste e fez de mim uma existem lindas nesgas de céu azul. Olhemos
obreira com o dever de servir. Em 1983 fui bem para elas. Tenhamos fé de que um dia o
chamada a servir como Grande Mestre. Leal azul predominará sobre as nuvens escuras.
ao pacto que havia feito com a Rosa e a Cruz Esta é a promessa do novo milênio. Olhe-
quando assinei o Juramento de Neófito, con- mos para as crianças e bebês, e observemos
cordei humildemente e comecei a trabalhar. seus olhos. Ouçamos as vozes que cada vez
É com respeito que comemoro o meu mais exigem um mundo melhor. Esperan-
predecessor, Frater van Drenthem Soesman. ça e confiança não são palavras vãs. Muitas
Quando ele passou pela transição, eu estava pessoas (e entre elas muitos jovens) agora
traduzindo a última sentença de seu derra- conhecem o caminho certo a ser seguido.
deiro discurso de templo, do holandês para o Durante a inesquecível Convenção em
francês. A sentença era a seguinte: “E quan- solo africano, eu disse que gostaria de dar
do aqueles que levam o archote Rosacruz à nossa tríade a seguinte sequência: Amor,
não se encontrarem mais entre nós, outros Luz, Vida, Ainda acredito que o Amor é a
portadores do archote virão substituí-lo”. primeira, mais elevada e mais poderosa Lei
Nada mais verdadeiro, fratres e sorores. Divina. Deus criou o homem com amor e
Cada um de vocês é um portador do archote depositou Amor no coração de Sua criatu-
da Rosacruz e está preparado para carregá- ra, para que da profundeza de seu ser essa
-lo e passá-lo adiante quando chegar a hora. criatura possa participar com amor em
Como Grande Mestre, tive grandes expe- ação e em espírito na criação de Deus.
riências e conheci pessoas muito especiais, Chegou a hora, portanto, de usarmos o
não somente em minha Jurisdição, mas tam- amor como nosso material de construção.
bém durante Convenções e outros encontros. Comecemos a assentar os tijolos das simples
Por exemplo, durante minha primeira ações diárias, usando “amor” como argamassa,
visita ao Suriname, conheci um alegre senhor para depois expandir tudo isso gradualmente.
de oitenta anos, Tio Nick. A mãe dele fora Amor é a palavra de passe. Carregue o
uma escrava e ele também sempre tivera que amor dentro de si e o mundo será carregado
trabalhar muito. Ele tinha ouvido falar de pelo amor. 4

PRIMAVERA 2015 · O ROSACRUZ


15
n ESPECIAL

16 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2015


N
os dias 18 e 19 de setembro
p.p, foi realizada a reunião
anual da URCI que teve vários
objetivos: empossar os novos
componentes do Conselho Jurisdicional
de Ensino, Pesquisa e Extensão, eleger o
Coordenador Geral e Científico para o bi-
ênio 2015/5017, avaliar as atividades que Momento da posse dos novos componentes do Conselho
vem sendo desenvolvidas e planejar as Jurisdicional de Ensino, Pesquisa e Extensão
atividades para os próximos dois anos.
Entre as importantes medidas para im-
pulsionar ainda mais as atividades da URCI deseja contribuir com pesquisas e trabalhos
em nossa Jurisdição, foi criado o Instituto para o crescimento da nossa Ordem e para o
Rose-Croix de Pesquisa, Ensino e Exten- bem da Humanidade. Naturalmente, os crité-
são - IRCEPE nome formal da Universida- rios da metodologia científica são essenciais
de para fins oficiais com CNPJ próprio. para respeitar as exigências da Academia.
Com a criação do IRCEPE, agora a URCI É importante lembrar que todo Ro-
tem possibilidades formais de estabele- sacruz pode participar dos cursos, con-
cer convênios com outras Universidades e gressos, seminários, oficinas, workshops
desenvolver cursos com certificação, pre- etc., realizados pela URCI, na condi-
sencias e à distância (EAD). Com Perso- ção de membro ativo da AMORC.
nalidade Jurídica autônoma, a criação do Para registro como pesquisador da URCI,
Instituto também permitirá parcerias com as exigências curriculares vão depender do
Universidades Federais e Particulares para tipo de participação: para Pesquisador Co-
cursos de graduação e pós-graduação. laborador, o Rosacruz deve ter completado
Após a posse dos novos componentes do o 4º Grau de Templo nos seus estudos da
Conselho Jurisdicional de Ensino, Pesquisa e AMORC, ter formação superior ou estar
Extensão, foi realizada a eleição para o novo cursando Bacharelado ou Licenciatura ou
Coordenador Geral e Científico, sendo elei- ainda ser reconhecido com pessoa de notó-
to o Frater Alfredo dos Santos Junior, que rio saber pelos Conselheiros empossados.
exercerá a função para o biênio 2015/2017. O Pesquisador Pleno deve ter atingido no
Entre as mudanças que serão realizadas mínimo o 9º Grau de Templo e ter formação
no início desta nova gestão, está a revisão da superior em Tecnologia, Licenciatura, Ba-
antiga Seção 230 do Manual Administrativo charelado ou superior lato sensu (Aperfeiço-
e Ritualístico que trata da URCI, que passará amento /Especialização) em área específica
a compor seu regimento interno regula- do conhecimento ou apresentar notório
mentando as ações da nossa Universidade. saber. O Pesquisador Sênior (Stricto Sensu)
Atualmente, A URCI possui Núcleos em deve ter título mínimo de mestre, desejável
São Paulo, Campinas, Rio de Janeiro e Nor- ser doutor, pós-doutor ou livre docente.
deste com dois em formação: Goiânia e Curi- Entretanto, todos aqueles que expres-
tiba. Trabalhando de forma autônoma, mas sarem desejo de participar de um núcleo
em parceria com os Grandes Conselheiros e da URCI terão seus projetos avaliados,
Organismos Afiliados das Regiões, a URCI pois existem muitas possibilidades para
está aberta para receber todo Rosacruz que colaborar com a nossa Universidade. 4

PRIMAVERA 2015 · O ROSACRUZ


17
n ESPECIAL

URCI
Composição de Conselho
Regional de Ensino,
Pesquisa e Extensão para Prof. Ms. Hélio de Prof. Ms. Alfredo
Moraes e Marques dos Santos Junior
o Biênio 2015/2017: REITOR Coordenador Geral
e Científico

Prof. Dr. Adílio Prof. Dr. Carlos Prof. Dr. Carlos André Profº Ms. Carmelinda
Jorge Marques Alberto Ferrari Macedo Cavalcanti Ana Galilhete
CONSELHEIRO CONSELHEIRO CONSELHEIRO CONSELHEIRO

Prof. Ms. Fábio Prof. Dr. José Prof. Dr. Julio Cesar Prof. Dr. Luiz Eduardo
Mendia Eliezer Mikosz Mendonca Gralha Valiengo Berni
CONSELHEIRO CONSELHEIRO CONSELHEIRO CONSELHEIRO

Profª Dra. Marly Prof. Dr. Moacir Prof. Ms. Paulo Ricardo Prof. Ms. Paulo
da Silva Santos Fernandes de Godoy Santos Dutra Roberto Paranhos
CONSELHEIRA CONSELHEIRO CONSELHEIRO CONSELHEIRO

18 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2015


n POESIA

Desejo a todos a paz!


A paz das três horas da madrugada,
Do sono profundo do meu filho
E do silêncio que escuto em volta
E dentro de mim.

Desejo a todos a paz!


Por ANDRÉ GENERINO DA SILVA, FRC A paz do homem que encontrou um tesouro...
Que não é ouro nem prata
Mas brilha,
Tal e qual o verdadeiro sentido da vida.

Desejo a todos mais do que a minha paz!


Desejo a paz dos rios
Que nascem, humildes, nas montanhas
Entre rochas, percorrem milhares de quilômetros
E vão desaguar no mar,
Cumprindo com serenidade sua sina.
© THINKSTOCK.COM

Desejo a todos
A paz dos Concertos de Brandenburgo!
A paz da música divina
Que Deus legou ao homem
Como um caminho a seguir.

Desejo a todos a paz dos ventos,


Dos pássaros, das nuvens, das altas montanhas.
A paz que habita
O profundo oceano
E as galáxias.

Desejo a todos a paz dos anjos,


Dos Arcanjos, Serafins, dos Espíritos de Luz
E de todos que conseguiram
A Iluminação, o Nirvana, o Paraíso...

Desejo a todos a paz dinâmica,


Que, na loucura do dia a dia, escapa-nos por entre os dedos
Mas, ainda assim, é a meta principal dos seres em vias de evolução,
Que acreditam em um destino glorioso para a Criação
E trabalham arduamente para que a humanidade
Alcance a Paz Profunda! 4

PRIMAVERA 2015 · O ROSACRUZ


19
n ESPIRITUALIDADE

© THINKSTOCK.COM

e o barquinho de papel
Por MARIA JOSÉ QUEIROGA, SRC

E
stava já muito calor quando na Sítio de tradição do milagre de Jesus
manhã de 19 julho de 2007 cheguei da multiplicação do Pão e dos Peixes; é
às margens do Lago da Galileia, um lugar abençoado, jardim sagrado,
também conhecido por Lago de colocado numa colina nas margens do
Tiberíades ou de Genezareth. lago (de onde não se tem acesso) e tendo
Tinha estado em primeiro lugar, com por fundo, no horizonte, os Montes
os meus companheiros, peregrinos como Golan, a Síria e a Jordânia. Este lugar nos
eu, em mais uma viagem na Terra de envolve e nos conclama à partilha dos
Israel, no Monte das Bem-Aventuranças. pães e dos peixes da nossa vida terrena.

20 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2015


Mas agora já estava no jardim que dá olhos e suavemente deixei que meu pen-
acesso direto ao mar. De um lado, ruí- samento se unisse ao mar e à névoa azul
nas de um antigo porto de pescadores que pairava sobre ele. “O Espírito de Deus
da Galileia e, do outro, uma igreja – a repousa sobre as águas.” Paz e Tranquili-
do Primado – a lembrar São Pedro e os dade… nem sei quanto tempo passou.
pescadores que seguiram o Mestre. “Maria, Maria”, alguém chamava pelo
Ao passar por ela pensei: “tu és pedra…” meu nome. Sobressaltei-me. Afinal tinha
e lá segui, radiante, tendo deixado os meus adormecido. Olhei em volta e vi aproximar-
companheiros de viagem no anfiteatro das -se um homem de cerca de 50 anos, cabelos
ruínas a ouvir as explicações da Guia. Dei- compridos sobre os ombros, cor de prata.
xei na margem do lago a minha carteira e o Estava vestido com uma calça cinza cla-
meu lenço da Síria e munida de um caderno ra e uma camisa branca, apoiado numa
de desenho e um lápis (eu tinha prometido bengala. Ao seu lado, estava uma criança
a mim mesma tentar escrever ou desenhar de cerca de 6 anos, menino, vestido com
alguma coisa neste santuário natural que eu um calção branco e camiseta também
tanto amo), descalça entrei dentro da água do branca. Foi ele que me chamou? Que es-
mar. Não tinha mais ninguém neste lugar… tranho! Não, foi só impressão minha…
Fiz como sempre: lavei meu rosto, O homem saudou-me com um aceno
minhas mãos, braços e pés nessa água de cabeça e o menino correu para dentro
bendita que é morna, límpida e cheia de da água rindo de contentamento e com as
pedras carregadas de uma grande ener- mãozinhas em concha começou a espargi-la
gia curativa. Minhas mãos correram pelas à sua volta. O seu riso cristalino soou dentro
águas. Um profundo sentimento de Paz e de mim e lembrei-me do meu netinho de 4
Amor me assolou. Mais uma vez, graças anos, uma saudade imensa me assolou.
a Deus, eu estava de novo neste mar… “Olá”, disse interiormente a este menino,
De repente, senti-me muito cansada, que, entretanto, se tinha aproximado de mim.
pois o dia anterior tinha sido esgotan- Nessa altura, fiz o que sempre faço a todas as
te, todo passado entre Paris e Tel-Aviv, crianças: peguei nas suas mãozinhas peque-
para chegar à Terra Santa. Assim, sentei- ninas e apercebi-me, naquele momento, que
-me, com os pés dentro da água, fechei os era extraordinariamente bonito. Tinha olhos
OM
K.C
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PRIMAVERA 2015 · O ROSACRUZ


21
n espiritualidade

cor de mel, uma auréola de cabelos em cara-


cóis à volta da sua cabeça e um sorriso doce,
radiante. Mais uma vez o sentimento de
amor e alegria pairou sobre nós nessa manhã
de luz. “Que vou dar a esta criança?”, pensei.
Peguei no meu caderno de desenho, retirei
uma folha e com ela fiz um pequeno barco de
papel que entreguei ao menino.
A sua alegria foi tão grande que seu riso
de felicidade se espalhou pelo ar. Correu Depois destas palavras, traçou com a
para o lago onde colocou o barquinho que, ponta da sua bengala na areia um pequeno
rapidamente, se fez ao mar tocado suave- símbolo, colocou a sua mão direita à altu-
mente por pequenas ondas. Fiquei a ob- ra do coração, olhou nos meus olhos… o
servar a cena. O homem de olhar sereno e tempo parou. A seguir, pegou na mão do
bondoso, o menino alegre e feliz. Tudo era menino e lá foram pela rampa que os iria
vivo, esplendoroso… senti mais uma vez a levar até à saída. Fiquei a vê-los até desapa-
suprema beleza deste lugar e mais uma vez recem, mas com a certeza de que ficavam,
deixei que meu ser se unisse à natureza. para sempre, na memória do meu coração.
Mas logo fui arrancada a esta contem- “Acorde, acorde”! Uma mão amiga pou-
plação. A mãozinha pequena do menino, de sou no meu ombro. Abri os olhos! Ao meu
novo de pé diante de mim, tocou a minha lado, uma companheira de viagem a avisar-
mão esquerda e nela depositou uma pequena -me que o grupo já estava a caminho do
pedra. Lágrimas rolaram por minha face. autocarro, para seguirmos para Kfar Naum.
Nunca em toda a minha vida recebi uma Afinal, tudo não passara mesmo de um so-
dádiva com tanta alegria e reverência. En- nho… mas esse homem e essa criança ali
tretanto, o homem também se aproximou e comigo no meu coração, falavam de um
apercebeu-se da minha emoção. encontro tão lindo! Levantei-me, recolhi
– Minha irmã – disse ele – Sei dos teus me- as minhas coisas e, em silêncio, juntei-
dos, sei dos teus anseios e das tuas esperanças… -me aos meus companheiros de viagem.
Mas como, ele conhecia-me? Eu nun- Na curva do caminho, voltei o meu olhar,
ca o tinha visto? Mas falava comigo e eu mais uma vez, para o lugar abençoado onde
percebia-o. E continuou: – Mas não temas. o Mestre falava com os pescadores. O sol,
Só tens que pedir como saber amar e quan- já muito alto, plasmava milhares de peque-
do isso acontecer tudo em ti cantará, tudo nos pontos de luz sobre o lago e, ao longe,
vibrará em harmonia. Mesmo que não fales muito longe, pareceu-me ver o pequenino
dele, esse amor exprimir-se-á através de barco que seguia a sua rota. Gratidão e
todo o teu ser e influenciará beneficamen- Bênção, Amado Deus do meu coração…
te tudo o que te rodeia, antes de voltar a Nessa noite, já no hotel, em Nazare-
ti. Mesmo uma pedra que tocas com amor th, quando procurava um lenço no bol-
começa a vibrar de um modo diferente. Só so das calças, junto com ele estava uma
o amor que ordena, que acalma, que dul- pequena pedra em forma de peixe…
cifica, harmoniza e ilumina é verdadeiro. Paz, Luz e Alegria em todas as Vidas! 4

22 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2015


n amorc no mundo

O Grande Selo do
Conselho Supremo
© AMORC

Reunião anual da Suprema Grande Loja


Como acontece todos os anos, os dirigentes da AMORC se reuniram em Lachute, Québec,
no Canadá, de 05 a 09 de outubro de 2015. Nessa reunião são tomadas importantes decisões
sobre o destino da AMORC, bem como são feitos os planejamentos, sempre sob a orienta-
ção do Imperator, Frater Christian Bernard. A maioria dos dignitários esteve presente.

Na foto podemos observar, da esquerda para a direita (em pé):


Frater Maximilian Neff – Grande Mestre para a Língua Alemã e Diretor-Tesoureiro da Suprema Grande Loja
Frater Atsushi Honjo – Grande Mestre para a Língua Japonesa
Frater Hélio de Moraes e Marques – Grande Mestre para a Língua Portuguesa
Frater Kenneth Idiodi – Grande Administrador para a Nigéria
Frater Serge Toussaint – Grande Mestre para a Língua Francesa
Frater Claudio Mazzucco – Grande Mestre para a Língua Italiana
Frater Hugo Casas Irigoyen – Grande Mestre de Língua Espanhola para Europa, África e Australásia
Frater Sven Johansson – Grande Mestre de Língua Inglesa para Europa e África
Soror Live Söderlund – Grande Mestre para as Línguas Escandinavas
Frater Klaas-Jan Bakker – Grande Mestre para a Língua Holandesa

Da esquerda para a direita (sentados):


Frater Zaven Paul Panikian – Grande Mestre de Língua Inglesa para Austrália, Ásia e Nova Zelândia
Frater Michal Eben – Grande Mestre para as Línguas Tcheca e Eslovaca
Frater Christian Bernard – Imperator da AMORC
Soror Julie Scott – Grande Mestre de Língua Inglesa para as Américas
Frater Frederick Henry Roland Brisson – Grande Mestre de Língua Espanhola para as Américas

PRIMAVERA 2015 · O ROSACRUZ


23
n PESQUISA

© THINKSTOCK.COM

Por PHILIPPE DESCHAMPS, FRC

24 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2015


O
tema do Graal, ou o objeto
que ele designa, tem sua ori-
gem nas obras de Chrétien de
Troyes e assume plenamente
seu espaço na lenda do rei Artur e de seus
cavaleiros. Esta saga foi escrita no sécu-
lo XII no Ocidente: isto para a história e
para o conhecimento acadêmico. Porém, o
apaixonado pelo assunto descobre cedo ou
tarde sua natureza universal e intemporal.
Noutras palavras, há múltiplos protótipos
do Graal que induzem a pensar que se trata
de um símbolo ligado àquilo que foi cha-
mado de “a Tradição Primordial”. Aqui,
reteremos voluntariamente doze deles.
Comecemos por aquilo a que devemos
chamar de “Graal luciferino”. Alguns mitos
gnósticos consideram o Graal das origens
como uma taça talhada numa pedra de
esmeralda caída da fronte ou da coroa de
Lúcifer. De maneira simbólica, é possível
visualizar essa pedra como uma espécie de
terceiro olho, instrumento pelo qual o anjo
destronado pretensamente se comunicaria Yima/Jamshid
com a Inteligência Cósmica. Segundo o fi-
lósofo Jacob Boehme, esse Portador de Luz,
que se torna o Satã da Bíblia, representava espécime de cada planta. Ordena-lhe que os
uma primeira imagem do Deus criador. reúna num recinto a fim de lhes colocar a sal-
Banido de sua posição preeminente, foi vo da provação catastrófica que os aguarda.
substituído pelo Adão que devia ocupar Yima possuía também um anel de ouro capaz
seu trono e, para aquilo que nos interessa, de fazer a Terra crescer em caso de superpo-
recuperar a famosa pedra de esmeralda. pulação – poder o qual ele usou três vezes,
Tendo Adão fracassado na manutenção de haja vista que nessa idade de ouro ninguém
seu papel e de seu lugar, este foi transmitido morria. A preocupação com a superpopu-
a personagens como Seth, Enoque ou Noé. lação não é portanto de hoje. Entretanto,
Segundo o Zend Avesta, o escrito sagrado não há mais anel mágico para resolvê-la.
dos zoroastristas, Yima foi o primeiro ho- Muito mais tarde, no começo do século
mem a poder se comunicar com a Divindade. XI, o poeta iraniano Firdoussi escreveu o
De acordo com a alegoria, ele pode ser com- Livro dos Reis. Ele relata a existência de um
parado a uma espécie de Noé pois, ao passo denominado Jamshid, geralmente identifi-
que lhe anuncia uma catástrofe iminente, cado com Yima. Ele explica que Jamshid, o
Ahura Mazda, o deus dos zoroastristas, lhe maior rei da Terra, estava rodeado de uma
aconselha reunir os melhores dos homens luz e que possuía uma taça com sete anéis
e mulheres, um casal de cada animal e um mágicos. A esse respeito, podemos ver uma

PRIMAVERA 2015 · O ROSACRUZ


25
n PESQUISA

relação com o ás de copas do tarô que, atra- Maomé respondeu claramente: “Foi Jamshid,
vés de sete torreões, faz alusão a esses sete pois apoderou-se da soberania sobre todo o
anéis. Esse recipiente, nosso segundo Graal, universo [ou seja, a famosa taça].” Ele era
lhe permitia observar o universo. Esse “es- de uma beleza extraordinária. Então Iblis, o
pelho do universo” era preenchido com um satã dos muçulmanos, veio tentá-lo fazendo-
líquido que tornava imortal e, de fato, é dito -se passar por Deus. Jamshid, que queria
que Jamshid teria vivido mil anos. Ele tam- ascender ao céu, fabricou, a conselho deste,
bém dotava o seu possuidor de um poder de cinco ídolos e lhes atribuiu o nome de seus
divinação. Durante os trezentos primeiros lugares-tenentes. Segundo o Alcorão (surata
anos de seu reino, Jamshid reinou em paz e Noé 22-24), esse culto aos ídolos conduziu ao
trouxe saúde e longevidade para o seio dos Dilúvio. Com esse Jamshid/Yima, vemos que
homens. Um dia, porém, seguindo os con- a posse da taça permite um exercício pacífi-
selhos de um servidor do mal, encheu-se de co do poder. Inversamente, quando o poder
orgulho e esqueceu a fonte de todas as suas ultrapassa seus limites, conduz a uma ruptu-
benesses: a própria divindade. Perdeu então o ra do equilíbrio cósmico e à perda do objeto
Farr, a luz da glória. O povo se revoltou con- sagrado. Dois temas universais são então
tra ele, que foi morto num combate contra tratados conjuntamente: a taça e o Dilúvio.
um sectário de Ahriman, o satã iraniano. Co- O Livro dos Reis, o Shah Nameh de Fir-
meçava então a era sombria da humanidade. doussi, reporta que após a desventura de
A Sirah, ou Tradição Islâmica, relata um Jamshid a taça não foi entretanto perdida.
diálogo entre o profeta Maomé e alguns ju- Ela passou pelas mãos de Kay Kosrou, oi-
deus. Estes queriam colocar o profeta à prova tavo e último rei da dinastia kayanida, à
e lhe perguntaram: “Quem foi o primeiro qual o místico persa Soravardhi faz alusão
homem a introduzir o culto aos ídolos?” E com os seguintes termos: “A taça, o espelho
do universo, pertencia a Kay Kosrou. Nela,
ele podia ler tudo o que desejasse, contem-
plar as coisas ocultas e conhecer as coisas
manifestas. É dito que a taça se encontrava
num estojo atado por dez laços. Quando Kay
Kosrou quis ver certo dia as coisas ocultas,
ele desfez os laços. Quando todos estavam
desfeitos, a taça se tornou invisível. Quando
o estojo, lugar de sua função, foi reatado, a
taça se tornou visível novamente”. Na reali-
dade, o estojo representa o próprio homem.
O advento e a vida desse Kay Kosrou
parecem muito com as peripécias vividas
pela assembleia da Távola Redonda e, mais
particularmente, com as de Percival o Galês.
Assim como Percival, ao nascer, seu pai foi
assassinado. Cresceu junto com uma viúva
numa floresta. Ainda jovem, sentiu-se fasci-
nado pela cavalaria. Muitas vezes fala como
Percival um sonso e não evoca suas origens. Porém,

26 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2015


se engajará num combate contra o mal. Nada
impede de se pensar que a aventura de Kay
Kosrou tenha servido de protótipo irania-
no para a de Percival. A versão do romance
escrito por Wolfram von Eschenbach tem
sua origem, segundo o autor, num manus-
crito árabe descoberto em Toledo. A versão
de Chrétien de Troyes interpretaria um
texto descoberto na Terra Santa por Filipe
da Alsácia, conde de Flandres. Para além
da realidade histórica dessas afirmações,
existe sim portanto um perfume de Orien-
te islâmico, até mesmo zoroastriano, que Caldeirão de Gunderstrup
emanaria dos romances arturianos. Uma
pequena informação complementar: o jogo
de xadrez vem do Irã e foi introduzido na deles tinham por atributos os instrumentos
Europa no século XII. Nos romances artu- apresentados a Percival no castelo do Graal:
rianos, são numerosas as cenas em que se a espada, para o deus guerreiro ou rei Nuada;
joga xadrez – jogo iniciático por excelência. a lança, para o deus luminoso Lug (a cidade
O quarto protótipo do Graal no qual nos de Lyon, Lugdunum, é dedicada a Lug); e por
deteremos é o Nartamonga, do povo Nartz. fim o caldeirão, equivalente do Graal, para
Os Nartz são os descendentes dos Sármatas, Dagda, o Deus druida. Esse caldeirão celta é
tribo ariana do começo da nossa era cuja o mesmo que é imortalizado por Panoramix
origem geográfica se situa próximo ao Mar numa célebre história em quadrinhos. Nós
Cáspio. Os Ossetas modernos se reivindicam o retemos portanto como um quinto Graal,
como sucessores longínquos desses povos. Os com mais facilidade ainda pelo fato de os
Nartz possuíam portanto essa taça peculiar historiadores considerarem hoje em dia que a
chamada “Nartamonga”, disputada pelos che- origem dos romances arturianos se encontra
fes da tribo. E por uma razão evidente! Esse nas lendas célticas. O Dagda era por vezes
recipiente também possuía virtudes mágicas. representado como um gigante dissoluto. Ele
Ele devia servir unicamente para a produ- é frequentemente comparado com o deus
ção de alimento destinado aos heróis e lhes gaulês Gargan, a partir do qual Rabelais
trazia inspiração. Finalmente, é o maior dos concebeu seu pândego e enorme Gargântua.
heróis e guerreiros Nartz, Batradz, que ob- O caldeirão do Dagda tornava imortais os
tém o privilégio da guarda do Nartamonga. guerreiros mortos em combate quando estes
Através dessa lenda dos Nartz, a existência eram imersos nele. Representava também a
do símbolo fortíssimo da taça é colocada soberania e o arquétipo dos famosos caldei-
como sendo comum a toda a esfera indo- rões de abundância das tradições populares.
iraniana e aos povos que se lhe aparentam. O caldeirão de Gundestrup, descoberto na
É dito que os Celtas teriam descendido Dinamarca pelos arqueólogos, é uma boa
também desses povos antigos. Diz-se dos representação desse maravilhoso recipien-
deuses de seu ramo irlandês, os Tuatha dé te. Além disso, alguns cientistas estudam
Danann, que teriam vindo do Oriente, ou do seriamente hoje em dia os pontos comuns,
Norte do mundo, ou ainda da Grécia. Três ou até mesmo a origem comum, entre a cul-

PRIMAVERA 2015 · O ROSACRUZ


27
n PESQUISA

tem começo e nem fim. No que toca o nosso


assunto, retemos que esse rei partilhou o pão
e o vinho com Abraão, que naquela ocasião
recebe uma espécie de iniciação cujo traço é
revelado por sua súbita mudança de nome.
De Abraão ele se torna Abrahão. A adjunção
da letra hebraica He se revela aqui de uma
importância capital, uma vez que designa
um novo estado de tomada de consciência.
E naturalmente, ainda que o texto não o
diga, o vinho foi consumido numa taça que
representará o nosso sexto Graal. O que en-
sina essa cena, tão breve na Bíblia mas que
paradoxalmente dá tanto pano para manga?
A prática da Eucaristia da igreja cristã
possuía provavelmente uma origem bem an-
terior ao Cristianismo e ao Judaísmo, e Paulo
certamente sabia disso, pois faz de Jesus um
sacerdote-rei da Ordem de Melquisedeque.
A propósito do próprio Davi, declara-se o
O encontro de Melquisedeque com Abraão seguinte no salmo 110-4: “O Eterno o jurou, e
disso não se arrependerá: és para sempre sa-
crificador à maneira de Melquisedeque”. Essa
tura religiosa dos Celtas e a da antiga Índia. fórmula é por vezes traduzida como: “És para
Deixemos agora a esfera ariano-céltica. sempre sacerdote segundo a Ordem de Melqui-
Mais próxima de uma influência judaico- sedeque”. Existiria portanto uma Ordem invi-
-cristã, trataremos agora da personagem sível dita “de Melquisedeque”, a qual possuiria
enigmática de Melquisedeque. Esse “rei de por instrumento fundamental uma taça de
justiça”, conforme a tradução de melchi – sé- soberania cujas origens seriam anteriores
dech, aparece discretamente no Antigo Tes- ao Cristianismo e ao Judaísmo. Salientemos
tamento, mas sua importância real ou sim- que Melquisedeque era o grande sacerdote
bólica se revela inversamente proporcional à do “altíssimo” El Elyon, e que esse El Elyon
quantidade de suas aparições. Ele também é era de fato um deus fenício. Esse “detalhe”
qualificado de “Rei de Salem”, ou seja, da Je- sugere a ideia de uma religião universal que
rusalém antiga – o termo salem significando recobre todas as religiões locais e temporais.
“paz” (salam, entre os muçulmanos). Mais do Prossigamos porém com a pesquisa, pois
que a cidade designada por esse termo, é o outra personagem importante da Bíblia,
estado espiritual mais elevado que é indica- que parece ter passado completamente des-
do por esse nome. Melquisedeque teria sido percebida sob este ângulo, também possuía
uma personagem de carne e osso ou o sím- uma taça de virtudes prodigiosas: José é um
bolo de um determinado nível da hierarquia dos doze filhos de Jacó, ele próprio filho de
universal? Sobre ele, Saulo de Tarso afirma, Isaque, o segundo rebento de Abrahão. Ele
em sua Epístola aos Hebreus, que não tem pai, nasceu de Raquel, a amada esposa de Jacó,
nem mãe, nem genealogia e que sua vida não embora esta fosse estéril. Seu nascimento

28 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2015


deveu-se portanto a uma intervenção divina. mais novo. Então, acusa-os de roubo. Eles,
José é vendido e deixado para morrer por naturalmente, clamam sua inocência. José,
seus irmãos ciumentos, que queriam se livrar “em quem estava o espírito de Deus”, tendo
dele. De certa forma, ele se torna um apátrida se tornado primeiro-ministro do faraó, pede
rejeitado por seu povo e levado ao Egito. Lá, que sejam abertos os sacos e, fingindo sur-
José se vê aprisionado. Contudo, ele possui presa, lhes diz: “Por que roubaram a taça que
um dom excepcional – o do “verdadeiro uso para adivinhar?” (Gen 44,4 a 17). A taça
sonho”. Ele interpreta os sonhos do faraó, de José será o sétimo Graal que reteremos.
sobretudo o famoso episódio das “vacas Associamos a faculdade particular de José
gordas” e das “vacas magras”. Isso lhe valerá o de utilizar o sonho com a existência dessa
cargo de ministro do faraó. Anos mais tarde, taça de divinação. Torna-se então possível
sucede uma fome que aflige os Hebreus. Os deduzir disso que esta taça simboliza a Alma
irmãos de José vêm ao Egito em busca de Universal e os poderes proporcionados pela
alimento. Eles reencontram o irmão mas não faculdade particular desenvolvida pelos
o reconhecem. Ele conhece suas identidades místicos de estabelecer um contato com ela.
e deseja zombar deles. Faz com que seus Possuir a taça pressupõe, portanto, adotar
sacos de grãos sejam enchidos e coloca uma uma atitude de disponibilidade e de abertura
taça de prata no conteúdo do saco do irmão particular diante das forças invisíveis na fonte

José encontra a taça de prata no saco de grãos de Benjamin, seu irmão mais novo

PRIMAVERA 2015 · O ROSACRUZ


29
n PESQUISA

A Última Ceia

da Criação. E o que aparece aqui cada vez filtrada e várias vezes destilada. Partilhar o
mais claro é a existência, relatada por meio pão e o vinho se tornava então o símbolo
da alegoria, de um místico rei do mundo cuja de uma atitude tendendo a reforçar os elos
identidade aparente foi conhecida pelos no- da coletividade e da civilização humana, e
mes de Yima, Jamshid, Kay Kosrou, Melqui- até mesmo de uma capacidade de entrar em
sedeque, Abrahão, José, Davi, Jesus, José de contato com o seu inconsciente coletivo.
Arimateia e, por fim, Artur. A essa lista po- Esse rito, cujo valor se perde na mediocri-
deríamos acrescentar nomes aceitos pela Tra- dade em nossa sociedade de superconsumo
dição Esotérica, tais como Hermes, Pitágoras e de abundância, servia de argamassa social
e Salomão. O rei deve possuir em seu arsenal e para consolidar a paz entre os homens.
a faculdade de se comunicar com a Sabedo- Se por um lado Chrétien de Troyes não
ria Divina, simbolizada pela taça sagrada. revela verdadeiramente a natureza do Graal,
Essa taça, associada à tradicional partilha a versão cisterciense por sua vez a associa
do pão e do vinho, pertence provavelmente claramente, através da lenda de José de
ao patrimônio da Tradição Primordial, em Arimateia cuja fonte pode se encontrar no
sua versão inicialmente médio-oriental e Evangelho de Nicodemos ou nos Atos de
posteriormente ocidental. O pão, de fato, Pilatos, à taça da ceia, cerimônia no decur-
na sua forma chata, é um dos mais antigos so da qual o Mestre Jesus partilhou o vinho
alimentos produzidos pela humanidade. O com seus discípulos. A esse respeito, eis o
vinho, por sua vez, também é uma das bebi- que declara o psicanalista C. G. Jung em
das mais antigas já elaboradas. Ele se torna sua obra As Raízes da Consciência: “O vinho
até mesmo o símbolo daquilo que existe de fortifica, mas noutro sentido que não o de
melhor – o nec plus ultra, a quintessência um alimento. Ele estimula e rejubila o cora-

30 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2015


ção do homem graças a uma determinada bebida sagrada, pelo Soma dos indianos. Este
substância volátil que se costuma chamar de Soma era consumido pelos brâmanes e ofe-
‘espírito’. Diferentemente da água inofensiva, recido em sacrifício aos deuses. Assim como
ele constitui uma essência que inspira, pois no Cristianismo o vinho e o pão são identi-
é habitado por um espírito ou um deus que ficados como sendo o sangue e o corpo do
engendra o êxtase da ebriedade... o pão re- Cristo, Soma, mais do que um líquido, era na
presenta o meio de existência física; o vinho o realidade um deus da chuva e da Lua. Quan-
meio de existência espiritual.” Especificamos do a Lua cresce, diz-se que Soma, ou a ener-
aqui que o pão integral fermentado teria gia vital, flui para a Terra como numa taça.
uma natureza próxima à do corpo humano. Soma e o seu conteúdo, nosso décimo Graal,
De fato, esse vinho, assim como o das cujo equivalente iraniano é haoma, permi-
bodas de Cana do Evangelho de São João, te ressaltar a identidade estreita que existe
conduz diretamente aos mistérios dionisíacos entre a Divindade e o estado de consciência
e às beberagens prodigiosas evocadas tanto induzido pelo consumo de Amrita, outro
por Rabelais quanto pelos Hindus através do qualificativo da beberagem da imortalidade.
Soma, ou ainda pelos Gregos e o “néctar dos O décimo primeiro Graal, do qual tratare-
deuses”. Rabelais, no quinto livro do seu Pan- mos, é certamente o mais universal de todos.
tagruel, realiza, através de um conto tão ex- O bávaro Wolfram von Eschenbach escreve
travagante quanto iniciático, a síntese dessas no século XIII uma adaptação do romance
noções. Ele conduz os heróis de seus roman- de Chrétien de Troyes. Este, por sua vez, não
ces, no desfecho de suas aventuras, ao templo disse grande coisa a respeito da natureza do
da “diva garrafa”. No centro do santuário Graal. Wolfram tentará fazê-lo em seu lugar.
iluminado por uma lâmpada perpétua se en- Declara ter recebido suas informações de um
contra justamente um afresco que representa misterioso provençal, Mestre Kyot, que des-
o combate de Dionísio contra os indianos. cobre um manuscrito sobre o assunto escrito
Ele está acompanhado pelo deus Pã e seus em árabe. O autor do texto é um judeu de
Bacantes. Na ocasião dessa visita ao templo, nome Flegetanis, cujo pai era adorador de
no qual eles descem os degraus “tetrádicos”, um bezerro: seria esta uma referência à Era
os heróis de Rabelais recebem uma iniciação de Touro? Esse Flegetanis, sendo astrólogo,
que se encerra com o consumo do conteúdo vive nas constelações, e o nome do Graal está
da “diva”, ou divina, “garrafa”, o que é forço- inscrito claramente entre as estrelas. Segun-
samente uma alusão ao nosso nono Graal. E do ele, um séquito de anjos o havia posto
o doutor Rabelais, sob o pseudônimo Alco- na Terra antes de retornar para as estrelas.
fribas Nasier, distila conselhos sutis: “Não se E são cristãos desconhecidos, e depois os
deve beber o vinho do vulgar, pois do vinho Templários, os seus depositários. Kyot, per-
divino se torna.1”; ou ainda: “No vinho está a sonagem provavelmente inventada, se pôs
verdade. Beba, imagine e diga que para Deus a procurar esses seres desconhecidos que
nada é impossível.”; e por fim, de uma ma- possuíam as mais altas virtudes humanas.
neira toda poética, na forma de uma canção: E ele explica: trata-se da dinastia mítica
“No vinho se encontra a última libertação.” angevina à qual pertenciam Gahmuret e seu
A guerra de Dionísio na Índia nos leva a filho Parzival. Ora, do ponto de vista político,
evocar o contato entre a Grécia e aquelas pa- foram os condes de Anjou – os verdadei-
ragens distantes. Esse encontro simboliza efe- ros – e seus descendentes que financiaram
tivamente a substituição do vinho, enquanto a maior parte dos romances arturianos. Os

PRIMAVERA 2015 · O ROSACRUZ


31
n PESQUISA

serviço. O Graal de Wolfram aparece então


como algo bastante curioso. Ele parece trans-
cender as noções religiosas clássicas e mora-
lizadoras veiculando uma determinada ideia
de pureza. Tudo se passa como se Wolfram
houvesse querido indicar uma via capaz de
transcender o discurso das religiões oficiais,
tomando cuidado para não ser taxado de he-
rege. Flegetanis é um judeu que se interessa
pela tradição astrológica dos magos. Gahmu-
ret, o pai de Parzival, já teve um filho, Firefiz,
com uma moura da Espanha. O meio-irmão
de Parzival é portanto um árabe. A via in-
dicada parece estar portanto diretamente
ligada à Tradição Primordial, entendida
como a garantia que Deus deixou ao coração
As sete taças da ira de Deus
de todo homem de boa vontade, para além
de sua filiação religiosa ou mesmo étnica.
condes angevinos tinham relação com a Or- O último tipo de Graal que iremos exa-
dem do Templo: Ricardo Coração de Leão minar pertence ao fim dos tempos. O Apo-
e René d’Anjou teriam pertencido à Milícia calipse de São João evoca de fato sete anjos
do Cristo; mas que buscavam eles transmitir detentores de sete taças. O texto sugere que
através da lenda do Graal? Eis o que escreve essas taças dão testemunho da onipresença
Wolfram a respeito do objeto sagrado: “Ele e da onipotência da Divindade, não mais
é chamado ‘lapis exillis’ [a pedra do exílio]. conforme o modelo do Criador e do Recon-
Por sua virtude, a fênix se consome, se torna ciliador, mas segundo o destruidor. Essas
cinza e renasce de suas cinzas. Torna-se mais taças contêm de fato sete pragas e o vinho da
bela do que antes. O Graal protege homens e cólera de Deus. É com esse Graal escatoló-
mulheres do envelhecimento. Na sexta-feira gico final, o qual podemos ligar ao do prin-
santa uma pomba desce sobre essa pedra e cípio, a mítica pedra de esmeralda caída da
deposita nela uma hóstia. Essa presença lhe fronte de Lúcifer, que se encerra este périplo
confere seus poderes e uma mensagem. Ela através dessas doze faces do Graal, ou “outros
pode então prodigalizar toda espécie de ali- Graals”. O objetivo desse estudo consistia
mento aos Templários ligados à sua guarda.” em mostrar a universalidade do tema. Sem
Para Wolfram, o Graal é portanto uma pe- dúvida, outras pesquisas poderiam ser feitas
dra descida sobre a Terra. Aqueles que, antes na África, na América ou noutras partes...
dos homens, foram os primeiros associados Em todos os casos abordados, esse símbolo
à sua guarda foram os anjos que permane- permanece sendo portador de diversas ver-
ceram neutros no combate que opôs Deus dades esotéricas profundas sobre as quais
e Lúcifer. Eles não tomaram partido, não fi- cada um deve meditar inabalavelmente. 4
cando nem do lado do bem e nem do lado do
mal, e Wolfram chega a se perguntar se Deus Nota: 1. Aqui temos um jogo de palavras sofrivelmente
não os teria perdoado. Desde então, a pedra traduzível em português, cuja sonoridade em francês não é
equiparável: “Il ne faut pas boire le vin du vulgaire, car de vin,
chama aqueles que estão destinados ao seu divin on devient”. (N. do T.)

32 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2015


PRIMAVERA 2015 · O ROSACRUZ
33
n NATUREZA

Como você
considera
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o mundo
atual?

Por SERGE TOUSSAINT, FRC – Grande Mestre da Jurisdição de Língua Francesa*

34 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2015


T
rata-se aqui de uma questão grave a que vou tentar respon-
der com objetividade, ou seja, sendo nem pessimista, nem
otimista, mas realista. Vou começar com o que me parece ao
mesmo tempo negativo e preocupante. No aspecto ecológico,
todo mundo sabe que nosso planeta está gravemente doente e que já
é tempo de agirmos individual e coletivamente para tratá-lo, curá-lo
e o regenerar. No aspecto econômico, acho que as sociedades mo-
dernas se tornaram muito mais materialistas e que elas criaram um
mundo de exclusão em que o ser humano cada vez tem menos lugar.
No aspecto social, tenho o sentimento de que cada vez
mais indivíduos reivindicam direitos que nem sem-
pre são legítimos e não se dão conta dos deveres
que cabem a todo cidadão digno deste nome.
No aspecto moral, parece-me que os valores
essenciais são cada vez mais ultrajados e que a
violência, a vulgaridade, a falta de pudor e de
respeito para com os outros, constituem hoje
em dia as normas de um “imoralmente correto”.
No aspecto científico, certos estudiosos chegaram
aos limites do inaceitável e agem como aprendizes
de feiticeiros, principalmente no campo da clonagem
e das manipulações genéticas. No aspecto tecnológico, a

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mecanização se tornou excessiva e constitui um inegável
fator de desumanização. Enfim, no aspecto religioso, é
preciso reconhecer que a maioria das religiões, embora
úteis e respeitáveis em si mesmas, não respondem
mais as questões de fundo que os homens e as mu-
lheres da nossa época se colocam em matéria de
espiritualidade. Vista sob estes ângulos, a situa-
ção atual me parece muito preocupante e reflete
certo declínio da Civilização.
Vejamos agora a contrapartida positiva dos
pontos precedentes. No aspecto ecológico, nunca
houve tantas ações empreendidas para proteger as
espécies animais ameaçadas, lutar contra as princi-
pais formas de poluição, deter o desmatamento exces-
sivo etc, o que reflete uma salutar tomada de consciência
neste campo. No aspecto econômico, a crise atual provoca
reações que refletem cada vez mais a exasperação das pes-
soas ante um sistema em que o dinheiro e o lucro contam
mais do que o próprio ser humano. No aspecto social, as
ações de solidariedade para com os desprovidos se multipli-
cam e mostram que há maior preocupação com a sorte deles,
o que não se pode deixar de aprovar. No aspecto moral,

PRIMAVERA 2015 · O ROSACRUZ


35
n NATUREZA

denunciam-se cada vez mais situações, comportamentos ou


regimes que atentam para a dignidade humana: violação dos
direitos do ser humano, corrupção, abuso de poder, ditadura etc.
No aspecto científico, é preciso admitir que muitas desco-
bertas contribuíram para o nosso bem-estar no campo
da saúde, aumentaram nossa esperança de vida,
abriram-nos horizontes mais vastos (conquista do
espaço) etc. No aspecto tecnológico, as máquinas
libertaram as pessoas dos trabalhos mais peno-
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sos e lhes permitiram ao mesmo tempo fazer


contato e se encon­trarem de um continente para
outro, o que contribui para criar entre elas rela-
ções mais fraternas. No aspecto religioso, o declí-
nio das religiões provoca uma crise existencial que
impele muitos indivíduos a refletirem por si mes-
mos sobre o sentido da vida e buscarem outros apoios
para sua busca espiritual. Vemos então que uma evolução
positiva também ocorreu em muitos campos.
Em matéria de balanço, acho que há hoje em dia um frá-
gil equilíbrio entre os aspectos negativos e positivos
do comportamento humano, tanto no plano indi-
vidual quanto no coletivo. É justamente por esta
razão que o período atual é determinante para
o mundo, no sentido de que seu destino depen-
de do lado para o qual ele vai fazer “a balança
pender”. Se é um fato que o ser humano dá a
impressão de ter regredido em certos aspectos,
creio não obstante que esta regressão é apenas
passageira e que a humanidade evoluiu posi-
tivamente na sua globalidade. Outrora havia a
mesma quantidade se não mais violência, corrupção,
injustiça, egoísmo, falta de respeito para com o am-
biente etc, mas ignorava-se isto. Hoje tudo é trazido ao nosso
conhecimento por intermédio da mídia. Decerto pode-se lamentar
esta supermediação do que é mau no comportamento humano, pois
ela nutre a morosidade e faz supor que a Civilização está vivendo um
declínio inexorável. Mas ela tem pelo menos a vantagem de nos co-
locar ante nós mesmos e de nos fazer tomar mais consciência da ne-
cessidade de nos comportarmos melhor individual e coletivamente.
Em suma, acho que o ser humano de hoje é talvez melhor do que o do
passado, mas que ainda lhe falta a vontade de agir realmente a serviço
do bem comum. 4

* Publicado no livro Questões Místico-filosóficas – o que você pensa delas?, editado pela GLP.

36 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2015


MANIFESTO
Appellatio
Fraternitatis Rosae Crucis
1614 ~ 2014
Quatrocentos anos após o primeiro Manifesto intitulado “Fama Fraternitatis Rosae Crucis”
ter se tornado público, este novo documento que colocamos em suas mãos está baseado na
trilogia: ESPIRITUALIDADE, HUMANISMO e ECOLOGIA. É um apelo para que cada
pessoa habitante do nosso planeta assuma sua reponsabilidade perante seu próprio desen-
volvimento, perante seus irmãos humanos e perante a natureza.

Solicite sua cópia pelo fone (41) 3351-3000 ou faça download em formato PDF no endereço:
www.amorc.org.br/manifesto-appellatio/
VERÃO 2015 · O ROSACRUZ
37
n SABEDORIA

CK.COM
© THINKSTO

Por DOMINIQUE DUBOIS, SRC

I
ntegrar plenamente o valor, o significado mágoa e de prostração, de onde a expressão
e a pertinência de uma palavra significa errar como uma alma cheia de pena! A com-
antes de tudo ter o tempo de acolhê-la para paixão, por sua vez, é no mais das vezes defi-
medir seu impacto. É deixá-la nos invadir a nida como uma sensibilidade aos sofrimentos
ponto de interpretar seu sentido pelos nossos de outrem a ponto de incitar a reagir.
sentidos e de vibrar inteiramente no coração Pena e compaixão – eis aqui duas palavras
de suas profundezas até entrar em ressonância que não são sinônimos, mas complementares
com sua razão de ser. É deixá-la nos submer- em suas acepções. Pela atração que exercem
gir a ponto de comungar em consciência com uma sobre a outra, elas determinam a mescla
sua essência até viver, por fim, a dimensão que de respostas intuitivas, emotivas e afetivas
ela veicula. Uma única palavra pode, pois, ser próprias aos seres vivos e à sua necessidade
finalmente portadora de toda uma mensagem, inata de bem-estar, de amor e de contenta-
de uma emoção ou de seu oposto. A pena, por mento, a ponto de projetar esses seres no seio
exemplo, é traduzida como um sentimento de de uma mesma realidade.

38 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2015


O gesto de bendo-se na fonte de afeição do ser miseri-
cordioso, se liberta incontestavelmente de um
compaixão fragmento de seu sofrimento em benefício
de um novo ganho de energia e de confiança,
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) enunciou ao passo que aquele que oferece, abraçando
perfeitamente essa fusão íntima das psiques por sua devoção a aflição do primeiro, alivia
na seguinte frase, dedicada ao sofrimento seu próprio coração, liberta um pouco mais a
animal: Como é que deixamo-nos emocionar sua alma do domínio do ego e se enriquece,
por piedade senão pelo ato de nos transpor- acima de tudo, da história e da vivência do
tarmos para fora de nós e nos identificando primeiro. Tal é a principal característica das
com o animal que sofre – deixando, por assim semeaduras e das colheitas da compaixão:
dizer, o nosso ser para assumir o dele? uma simbiose e um duplo benefício.
Tudo se passa no tempo de um sorriso, de Assim que a intensidade da conexão des-
um gesto ou de uma prece, mas também às ses dois seres por um instante fusionados se
vezes simplesmente de um silêncio, onde a em- abranda – que o enlace é suavizado e que a
patia espontânea e o eclipse total de um para projeção sem mescla de um para o outro é
o outro confundem momentaneamente duas interrompida –, o vazio perturbador da se-
personalidades-almas distintas, ou mesmo dois paração e o espectro igualmente insuportável
seres vivos de naturezas ou de reinos distintos. de um novo abandono são instantaneamen-
Esse élan sincero e instintivo, marcado te suprimidos e anulados sob os auspícios
simultaneamente por discernimento e benevo- da compaixão pela poderosa evocação dos
lência, prodigalizará um imenso reconforto ao laços indissolúveis do ato de partilha e de
ser náufrago ao inflamá-lo com o facho de luz compromisso sem dependência que acaba
e de calor próprio do amor desinteressado, são de acontecer. Eles
e inequívoco. Esse sentimento, ao mesmo tem- doravante têm
po fortificante e apaziguador de ser compreen-
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consciência de que
dido, aceito tal e qual em toda a sua fragilida- todos os reinos são
de, é um bálsamo oferecido à dor, um esboço atravessados por
de cura, uma clareira no precipício da solidão uma mesma cor-
e do aprisionamento, o hino à vida que res- rente vital – uma
suscita com um fermento de fé. Esse parêntese mesma sinergia
roubado ao espaço-tempo é também a carícia –, que nenhuma
e o sopro abençoados da providência que já vida está isolada
talvez não sejam esperados e que, pelo fato de das outras e que a
se ter sabido resistir e sobreviver à falibilidade miríade dos seres
– às vezes reduzido ao nada em plena fortaleza forma uma mesma
em ruína – e existir ao menos pela esperança, família motivada
pelo bem ou pela utopia, repentinamente nos por um mesmo
recompensa pela certeza sem ilusões de uma destino. Depois da
saída acessível e pela santificação da espera de coincidência dos contrários, do sofrimento
uma mão estendida para a salvação. e da felicidade, se manifesta agora um doce
Durante a efusão física, mental, psíquica e sentimento de universalidade. A via transfor-
espiritual que acompanha a realização de tal madora e humanista da compaixão operou
ato de compaixão, aquele que recebe, embe- pela fraternidade e para a fraternidade.

PRIMAVERA 2015 · O ROSACRUZ


39
n SABEDORIA

A compaixão
universal
Agora sabemos que uma mesma energia
impregna todas as coisas e que somos todos
oriundos da mesma fonte, posto que somos
todos compostos de átomos – eles próprios
provenientes de minúsculas partículas origi-
nárias do universo. Somos cada qual um ele-
mento, uma célula do corpo desse universo,

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um ser vivo e sensível, e estamos de acordo
quanto ao fato de evoluirmos para uma pers-
pectiva universal enquanto irmãos e irmãs de
uma entidade global. Graças à nossa natureza
dupla, material e imaterial, corpo e alma, eu e
Eu, isso se cumpre sob a égide de um elo im- redor dos quais todos nós gravitamos. Trata-
palpável, porém inalterável entre o visível e o -se antes de ter consciência de que os mais
invisível – entre a terra e os céus. desfavorecidos e os mais aflitos aspiram ao
Ora, geralmente, nas sociedades moder- mesmo estado de leveza e de liberdade, ou
nas e desenvolvidas, a maioria das pessoas mesmo de impermanente frivolidade. Sentir
permanece preocupada apenas com o au- necessidade e encontrar o impulso de par-
mento de seus bens e de suas futuras aquisi- tilhar essa felicidade com eles oferece uma
ções, com a preservação de seus privilégios, nova perspectiva, qual seja, a de vencer o
daqueles de sua família e eventualmente caráter agora infundado de um sistema es-
de seus amigos, sem se dar conta de que os tabelecido sobre a base da lei do mais forte,
sentimentos que nutrem por esse círculo ín- da ignorância e da inconsciência absolutas. É
timo dizem também respeito muitas vezes ao definitivamente reconhecer que a felicidade
apego, ao preconceito e à possessão. Por essa de uns não deve acarretar o infortúnio dos
obsessão pelo desenvolvimento material, o outros, mas que – exatamente ao contrário
homem destrói tudo em sua passagem, até os – deve contribuir para a plenitude deles.
mais fracos dentre os seus semelhantes. Ten- Para se opor ao individualismo que pre-
do se tornado paralelamente impermeável às valece e aspirar abertamente à autêntica
necessidades existenciais e fundamentais da compaixão, a filosofia budista preconiza que
vida mineral, vegetal, animal e ambiental, às se medite sobre a igualdade de direitos a fim
quais, entretanto, tudo deve e das quais seu de suplantar o apego ao seu próprio círculo
futuro depende integralmente, ele se com- racional, seja ele familiar, social ou profissio-
praz em suas falibilidades e negligencia deli- nal, para abri-lo progressivamente aos outros
beradamente a maior e mais fascinante parte até expandir-se à infinidade dos seres vivos e
de si mesmo: a de sua própria vida interior. ao conjunto dos reinos. Os inimigos também
Quanto à compaixão, o problema não são considerados tendo direito à felicidade e
está no fato de se acumular riquezas e querer ao não-sofrimento; em outras palavras, à paz,
fazer seus próximos felizes, pois o bem-estar, independentemente da atitude que tenham
a felicidade e a alegria são ideais vitais ao para com o ser misericordioso.

40 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2015


Por sua vez, a filosofia rosacruz se apoia De tudo o que precede, vemos bem que a
sobre a alquimia espiritual, utilizada princi- compaixão exige um esforço particular: o de
palmente para a transmutação dos defeitos da estender seus sentimentos de benevolência
natureza humana em suas qualidades opos- e de altruísmo para todo o planeta, ou seja,
tas. O essencial da prática rosacruz consiste, bem além do seu círculo íntimo de relações.
portanto, em se trabalhar para o aprimora- Trata-se verdadeiramente de um engajamen-
mento individual a fim de se tornar melhor, to – de uma suplantação de si pela inteligên-
a ponto de manifestar um verdadeiro ideal cia e pelo movimento do coração. Enquanto
de comportamento para com todos. Trata-se, ser sensível, aquilo que o outro sente todo
pois, de melhorar o mundo reformando-se a mundo é passível de sentir um dia, pois nos-
si mesmo até se atingir um estado de espírito sa natureza é fundamentalmente a mesma.
propício a cada vez mais humanismo e frater- Conscientemente ou não, somos todos en-
nidade, colocando, dessa forma, a cultura da sombrados e desacelerados pela infelicidade
compaixão e do auxílio mútuo no centro de dos outros, ao passo que a verdadeira felici-
suas preocupações maiores. dade só pode ser engrandecida na proporção
Dessas duas concepções, evidencia-se da felicidade deles. Em seu livro intitulado
que a compaixão solicita mais do desen- A Montanha no Oceano, Jean-Yves Leloup
volvimento das qualidades humanas e da declara: Meu próprio corpo é o corpo do uni-
prática de um comportamento virtuoso verso e se, nesse universo, um único membro
para com todos aqueles que sofrem do que estiver sofrendo, não posso conhecer a pleni-
da fé ou da crença propriamente tude ou, em termos cristãos, a bea-
ditas, o que lhe confere, in- titude... Fazer o bem a um ele-
contestavelmente, uma mento do universo é fazer o


conotação mais filosófi- bem ao universo inteiro.
ca do que religiosa. É Por essa malha de
o que levou o Dalai
Lama a dizer, em
a felicidade almas e sua ressonân-
cia suprassensível de
seu livro intitulado de uns não uma entidade à ou-
O Poder da Com- tra, toda experiência
paixão: Não preci- deve acarretar o tem um sentido e
samos nos tornar
religiosos. Não pre-
infortúnio dos serve ao conjunto.
Se alguém sofre e se
cisamos de ideologia. outros… restabelece de uma


O que nos é necessário provação com a ajuda
é o desenvolvimento de outrem, qualquer
das qualidades humanas. que seja o grau de dificul-
Da mesma forma, Serge dade dessa provação, juntos
Toussaint, Grande Mestre da abrem um rastro luminoso. Essa
AMORC, destaca em seu blog na via redentora acelerará o processo de
internet: Não é necessário de forma al- cura e de transformação daqueles que, um
guma ter fé para se compadecer do sofri- dia, serão levados a viver a mesma coisa e aju-
mento de outrem e para agir na tentativa dará a suplantar o obstáculo mais facilmente
de aliviá-lo ou fazer com que desapareça. até abolir definitivamente a necessidade dessa
Basta – se ouso dizê-lo – ser humanista. experiência. É a razão pela qual todo sofri-

PRIMAVERA 2015 · O ROSACRUZ


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n SABEDORIA

utilizar essa força e renegá-la redunda em

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obscurecer a mente, impedir o movimento
do coração, coagir o corpo e sacrificar a
alma. Nesse mundo perturbado e brutali-
zado sempre há uma ocasião para se mani-
festar atenção, afeto e empatia, não apenas a
alguém em particular, mas também a todos
os seres vivos e a todas as formas de vida.
Nesse sentido, nossos pensamentos, nos-
sas emoções, nossas preces e nossos élans,
quando são marcados pela sinceridade e pela
benevolência, podem ser destinados a uma
pessoa particular, mas também dirigidos
para todos os reinos e todos os elementos
que compõem o nosso planeta. Nesse último
caso, mesmo que não vejamos objetiva-
mente o fruto de nossos atos de compaixão,
eles jamais são vãos e permanecem sempre
mento abrandado e superado é um presente oportunos e legítimos. Confiados ao Cós-
para si mesmo e uma oferenda para outrem. mico e guiados pelo sopro providencial da
Eis a razão pela qual a história não precisa universalidade, são sempre garantidos pelo
sempre se repetir, pois, enquanto se repete mais justo destino e pela maior eficácia.
ela reflete a falta de despertar e de consciên-
cia das mentalidades. Eis porque a filosofia,
o misticismo e a espiritualidade têm todos o No fio do processo
seu lugar e devem, ao contrário, se renovar,
perdurar e brilhar para estimular as almas de compaixão,
e impulsionar a regeneração de uma huma-
nidade desgarrada e em busca. Eis porque é uma alma viva
indispensável propor amplamente o acesso Para compreender bem a ligação entre o
ao Conhecimento – para que os homens ces- ato de compaixão e a participação do Cós-
sem, em todas as circunstâncias, de abusar mico, é importante definir o processo de
uns dos outros, para que se motivem a se compaixão e depois tomar consciência da
tornarem atores de um mundo melhor, os dupla natureza do homem e da interação
precursores de uma utopia e os instauradores entre a alma individual e as leis divinas.
de uma autêntica fraternidade mundial e de O processo de compaixão se manifesta
uma nova humanidade tão esperadas. por uma série de sensações que vão da em-
Existe em nós uma dimensão de doa- patia (faculdade intuitiva de se colocar no
ção, acolhimento e receptividade tal que lugar de outrem e perceber aquilo que ele
dissimulá-la ou ignorá-la é forçosamente sente) à pena, depois da pena à simpatia
prejudicial à saúde física, mental e psíqui- (participação benévola na alegria ou na dor
ca, e é tanto em nome do bem individual de outrem) e, por fim, da simpatia ao im-
quanto do bem comum que ela merece ser pulso de auxílio. Nesse estágio, não convém
descoberta, encarnada e fortificada. Não mais considerar a empatia e a compaixão

42 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2015


como eventuais sinônimos, mas sim perceber para a existência de um princípio divino no
que uma é apenas um componente da outra homem, o qual o religa infalivelmente ao
– sua forma passiva, seu esboço. Com efei- Cósmico. Afirmando-se, assim, em sua dupla
to, o fato de perceber intuitivamente aquilo natureza, o homem percebe que não é apenas
que o outro sente não induz, forçosamente, um ser vivo, mas também, e, sobretudo, uma
a uma necessidade de agir. É quando ocorre alma viva. Tal como um guia espiritual inte-
a manifestação de um desejo de consolo, rior, ela o convida então a se engajar na via
de uma vontade de compreensão, de acom- da prece e da meditação a fim de sentir, de
panhamento e de apoio que a compaixão captar a corrente divina em movimento e em
assume todo o seu significado sob a forma ação em toda a Criação e de se associar a ela
ativa de auxílio. Para tomarmos um atalho, para melhor restituí-la em seu cotidiano.
podemos considerar a compaixão como a
resultante da empatia e do auxílio reunidos.
Elevada a esse nível, a compaixão revela O desenvolvimento
todo o seu valor, pois traz em si o gérmen da
nobreza e do domínio próprio às virtudes, no das virtudes e o
sentido do serviço e da ética; em outras pala-
vras, próprio aos sentimentos de humanismo e despertar do eu
de fraternidade tão caros à filosofia, à espiritu- Tendo sua busca pelo bem sido confortada,
alidade e ao misticismo. Esclarecida em todo o seu poder de auxílio metafísico ampliado
seu sentido, sua natureza benévola nos protege consideravelmente, sua capacidade de doação
e nos distancia logo da armadilha opaca da aprimorada e seu amor pela humanidade e
piedade, da condescendência ou da indiferença pela vida reforçado, o homem pode então re-
para nos conduzir – munidos simbolicamente fletir, em seu comportamento, a luz brilhante
das chaves da consciência, do livre-arbítrio e da obra à qual sua consciência, seu livre-
da alma – ao umbral das leis divinas. -arbítrio e sua alma se consagram, ou seja, o
É precisamente nesse momento que nos é advento de um mundo melhor.
dado perceber em nós outra dimensão – um Ao longo de toda essa progressão, é pre-
espaço virgem ao mesmo tempo subjacente ciso constatar que uma única virtude mani-
e incriado, uma energia emergente até então festada pode bastar para iniciar o homem ao
insuspeita e, no entanto, onipresente, oni- objetivo ontológico da vida – da sua vida –,
potente e onisciente. Além dos limites do contribuindo, assim, para o despertar, a rea-
racional e do espaço-tempo, sentimos logo, lização e a perfeição de seu ser interior. Sem
em todo o nosso ser, a presença vibratória de essa fusão cósmica entre a alma individual e
uma essência ao mesmo tempo íntima, inten- a Alma Universal, o eu, ainda muito sequioso
sa, sutil e sublime a que chamamos “alma”. de amor, permaneceria prisioneiro de seu
Certamente, penetramos o seio de um próprio ego e inibiria qualquer veleidade de
território desconhecido do qual nunca nos compaixão a longo prazo, ao passo que o eu
falaram no mais das vezes – uma atmosfera estagnaria sufocado, não podendo revelar
algo abstrata para a qual não fomos prepara- sua natureza essencial feita de consciência e
dos. Todavia, a despeito de certo problema altruísmo universais. Eis em que o desenvol-
passageiro, uma janela acaba de se abrir vimento das virtudes é o suporte evolutivo
inexoravelmente para a evidência da duali- da alma e a alma a inspiradora espiritual do
dade da natureza humana e, por conseguinte, desenvolvimento das virtudes.

PRIMAVERA 2015 · O ROSACRUZ


43
n SABEDORIA

do Cósmico e oficia doravante com Ele a


serviço da Compaixão e do Bem universais.
Se o despertar das qualidades inerentes
ao desenvolvimento da compaixão se mos-
…a pobreza tra primordial, isto se deve ao fato de que a
grassa nos países compaixão contribui incontestavelmente
para o estabelecimento de um mundo
em que o nível de melhor. Ora, em seu livro intitulado A
Utopia Rosacruz, Serge Toussaint lembra
vida é, todavia, que, de acordo com a UNESCO, 70% da
população são pobres, 95 países do planeta
considerado são igualmente pobres e 80 outros estão

confortável… em vias de desenvolvimento. Ele confirma


também que a pobreza grassa nos países em


que o nível de vida é, todavia, considerado
confortável e atesta que tal situação não
pode satisfazer a quem aspira à felicidade
de todos os homens. Paradoxalmente, na
introdução do livro de Steve Melanson, Jung
Dessa simbiose até então incriada surge e a Mística, é dito que o homem ocidental
uma chama viva, nascida do despertar do sofre no interior: Como se todas as graças
eu e suscetível de abrir uma eclusa de luz materiais que ele concedeu a si mesmo em
propícia a deter o ciclo das repetições, a menos de um século não pudessem jamais
curar todos os males e a agir de modo que, bastar para preencher sua alma, ele traz
a despeito de circunstâncias desesperadas o vazio e muitas vezes, escondendo-o de si
e de situações abomináveis, o mundo ain- mesmo, permanece ignorante de sua lacuna.
da se mantenha de pé, se equilibre bem ou Contudo, essa vacuidade poderia ser
mal e se eleve apesar de tudo em espírito. proporcionalmente coberta por todo o
Evidentemente, cada qual tem a escolha bem que deixamos de fazer. O bom e o
de contribuir ou não com essa alquimia for- justo se apoiam sempre sobre uma ou
midável que se opera entre o eu e o Eu. Em várias qualidades superiores particulares
função de seu próprio livre-arbítrio, cada
qual pode permanecer surdo às aspirações
de sua alma ou a satisfazer suas exortações
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abrindo-se à sua divindade. É precisamen-


te sondando a imensidade de seu coração
que ele se torna o artesão individual de
seu próprio despertar, livre para escolher
a obra que vai servir e as ferramentas de
contribuição que vai desenvolver para a
sua consecução. Agindo assim, ele dá uma
orientação resolutamente espiritualista à sua
existência, considera o mundo inteiro como
seu único filho, se beneficia dos auspícios

44 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2015


que todos possuímos no fundo de nós
mesmos. Além disso, é bem sabido que
ninguém é jamais totalmente mau. Disso
decorre que toda personalidade dispõe

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de uma aptidão particular que já contém
em si a quintessência do despertar do eu.
Trata-se de uma sólida fundação para a
construção de outra ideia do homem e
de outro olhar sobre o mundo. Se esse natureza e nos aproximar dela com uma
não fosse o caso, como explicar o fato de consciência muito mais justa. Nesse sentido,
que, depois de mais de cem mil anos de a alquimia espiritual se associa maravilho-
existência e persistência de nossa espécie samente bem com a psicologia, assim como
humana, tenha ela atingido um nível de a toda iniciativa de desenvolvimento pessoal
consciência sem precedente e ainda esteja que contribua para a revelação de si mesmo.
apta a prosseguir com sua evolução? Sem Concretizar essa resolução redunda em assi-
a multiplicação de atos de compaixão, nar um pacto de paz com sua personalidade-
simplesmente não estaríamos mais aqui. -alma e revelá-la ao mundo inteiro outor-
Porém, se por um lado a compaixão é gando-se simplesmente a liberdade de amar
uma virtude que o homem deve se esforçar o seu próximo cada dia um pouco mais.
para despertar no decurso de seu percurso De tudo isso que precede, não é em vão
interior, por outro o desejo e a vontade de dizer que o progresso na senda mística, e,
ajudar os outros, as qualidades comporta- portanto, na via do amor, não pode ser reali-
mentais e a prática mística ainda não são zado sem esforços consideráveis. Esse cami-
absolutamente suficientes para a sua justa nho convoca incontestavelmente a determi-
aplicação. Ela pressupõe um perfil psico- nação, a constância e, sobretudo, o desapego.
lógico equilibrado e uma estrutura mental A profundidade de cada palavra se en-
clara, capazes de suplantar o sentimentalis- volve logo em solenidade e os textos que
mo excessivo, a boa consciência, a piedade lhes servem de suporte realçam o sagrado.
ou a indiferença. A esse respeito, o Dalai Manter-se de pé, estender a mão, abrir seus
Lama escreveu: A compaixão não é apenas braços e oferecer seu coração estão longe
uma resposta emocional, mas um sólido en- de não significar nada: significam aceitar
gajamento construído sobre a razão... Nossa libertar a alma do amor que até então estava
definição de compaixão deve ser clara. aprisionada. Essa libertação pelo amor, sím-
Nossa presença na Terra por si só dá bolo de um coração sem limites, é o brilho
testemunho de nossa imperfeição. A toma- da rosa no centro da cruz que, assim como
da de consciência das distorções de toda os círculos inundados de sol na água, se de-
espécie que perturbam nossa ascensão para sabrocha e brilha pela graça e pelo sopro do
a expressão de sentimentos puros, simples Espírito Santo. É a unificação dos contrários,
e desinteressados, ao invés de nos levar à a pacificação das oposições e a transcendên-
desconsideração de nós mesmos ou mesmo à cia das diferenças, pois a inteligência que
culpabilidade, deve, ao contrário, nos incitar ama e o Verbo Divino que iluminam essa
a trabalhar incessantemente para pôr fim a rosa eterna – essa alma do amor – espalham
isso. É esse trabalho sobre nós mesmos que por toda parte a mesma mensagem universal
nos fará por fim descobrir nossa verdadeira de misericórdia e, sobretudo, de verdade. 4

PRIMAVERA 2015 · O ROSACRUZ


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A Magia
do Sigilo
Por H. SPENCER LEWIS, FRC

N
o mundo inteiro, há lioso, deve ser oferecido li- mesmo tempo, o mais reve-
centenas de milha- vremente ao mundo. Fazem lador de todos quantos já se
res de pessoas que eles a pergunta: “Se o conhe- escreveu. Suas grandes ver-
buscam a verdade e se es- cimento pode elevar a hu- dades estão veladas, mas não
forçam por compreender as manidade, por que é manti- com peso tal que o véu não
leis subjacentes que regulam do longe de todos, a não ser possa ser levantado. Por que,
a vida em geral. Vagueiam dos iniciados?”. Essa pergun- então, poucos são os que as
de seita a seita, culto a culto, ta geralmente é formulada compreendem? A resposta é
jamais encontrando a con- somente por aqueles que não simples: A maioria das pes-
tento o que buscam. Não se estão dispostos a fazer algum soas não se disporá a gastar
afiliam a nenhuma organi- esforço deliberado em prol o tempo ou a fazer o esforço
zação secreta simplesmente do que poderiam receber. consciente necessário a le-
porque se recusam a ligar-se No decorrer dos séculos vantar o véu para enxergar
a tudo que seja privado ou grandes verdades foram as grandes verdades.
oculto aos olhos do público. veladas. Tais verdades, Consideremos a orga-
Os que se recusam a se porém, não foram oculta- nização secreta conhecida
afiliar a alguma organização das à mente do homem. com Franco-Maçonaria,
de natureza secreta acham A Bíblia, por exemplo, por exemplo. Afirma-se
que o conhecimento, se va- é o livro mais secreto e, ao que a Maçonaria encerra

46 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2015


muitas leis e princípios ouvidos; menos compreen- Na busca da Verdade, o
secretos que são revelados deriam e menos ainda os indivíduo ficou tão enredado
apenas a seus iniciados. colocariam em prática para no labirinto das complexi-
Não sendo membro dessa colher seus benefícios. No dades exteriores, que não se
augusta fraternidade, eu entanto, os ensinamentos permite ouvir e compreen-
não sei exatamente o que rosacruzes não são ocul- der as simplicidades inte-
ela contém ou revela, mas tados do público; estão à riores. Ele procura em toda
é evidente que deve re- disposição de todos que os parte, esperando encontrar
ter e revelar algo valioso, busquem com sinceridade fora a resposta que deve pro-
caso contrário, não seria no coração. Por que, então, vir da silente voz interior.
a organização tão pode- a maioria dos que buscam O Homem interior a tudo
rosa que sabemos ser. a verdade não tira deles conquista, se tem a necessá-
Entretanto, se a maçona- proveito? Será simplesmente ria oportunidade. Ele nada
ria retém o conhecimento porque devem gastar tempo pede, mas oferece tudo, e
de todos os princípios e leis e energia para absorver e busca a Deus somente visan-
e se revela meios pelos quais compreender tais ensina- do ao poder de romper as
seus membros podem usar mentos? Isso eles não estão correntes e abrir a porta pela
esse conhecimento de modo dispostos a fazer! qual poderá sair e conquis-
a realizar feitos considerados
miraculosos, seria despro-
positado espalhar ao mundo
esse conhecimento. As mul-
tidões talvez ouvissem, espe-
rando algo extraordinário:
mas não estariam preparadas
para receber as grandes ver-
dades em sua singeleza, de
modo que virariam as costas.
Tomemos os Rosacru-
zes, que se sabe possuírem
e ensinarem muitos dos
princípios e leis secretos
que possibilitam ao homem
viver segundo seu criador
pretendeu. O que ocorreria
se essa grande fraternidade
oferecesse ampla e livre-
mente seus ensinamentos
ao mundo inteiro? Muito
poucas pessoas dariam

PRIMAVERA 2015 · O ROSACRUZ


47
tar. Ele se projeta ao espaço aprendemos que as grandes
cósmico e usa as forças mais verdades só podem ser pre-
sutis. Cria vida em todas as servadas se forem mantidas
células e percebe quando e em segredo e consideradas
onde existe o mal. Ele en- sagradas. Para que os que
contra força no amor. as conhecem realizem o
De que modo, pois, esse máximo bem possível,
homem interior pode ser devem trabalhar em se-
libertado? O que Deus con- gredo, sem revelá-las aos
cedeu é sagrado; contudo, que não estão preparados
por que o homem inferior
é agrilhoado, aprisionado e
impedido de se manifestar?
Que maior problema conhe-
“ Com base
em nossos
registros e
para receber esse conhe-
cimento. “Não atire suas
pérolas aos porcos” seria
mais bem entendido se
ce o homem que não esse fosse expresso “não atire
problema tão pessoal? experiência, suas grandes verdades às
Conhecendo muito bem mentes despreparadas”.
o poder do eu interior, Jesus aprendemos Essa afirmação é válida,
só pedia que seus seguidores
tivessem fé. Ele sabia que eles
que as a despeito de como a enca-
remos, e algum dia todos
não podiam compreender as grandes os buscadores chegarão a
leis e princípios subjacentes
a suas obras, mas que pela fé
verdades só perceber que as grandes
verdades são compreendidas
eles teriam a capacidade de podem ser somente por aqueles que são
conseguir o que pretendiam. dignos e que estão prepara-
Compreendidas por aqueles preservadas dos para recebê-las. Os des-
que estavam despreparados
ou que eram indignos, as
se forem preparados compreendem-
-nas equivocadamente.
leis seriam perniciosas à mantidas em Só Deus, em Sua infini-
influência de Jesus. O mes- ta sabedoria, possui toda a
mo aconteceria no caso do segredo e verdade e toda a lei desse
garoto diante do mágico: o consideradas grande poder chamado si-


garoto vê o mágico realizar gilo. Deus é sempre o mais
um truque extraordinário sagradas. secreto dos segredos, que
e lhe pede que ele revele o jamais pode ser contem-
segredo. Não obstante, ao plado pelo homem mortal
tentar fazer o mesmo que faz mágico. Tivesse explicado e que só é revelado através
o mágico, não o consegue. as leis e os princípios sim- do homem interior e imor-
Após várias tentativas sem ples, todos teriam buscado tal, pois se Ele Se revelas-
sucesso, o garoto volta-se demonstrá-los. Dado o seu se aos olhos do homem
para o mágico e exclama: “Eu extremo despreparo, o fra- profano ou exterior, logo
sabia que não ia dar certo!”. casso teria sido o resultado. seria considerado uma im-
Jesus, portanto, esta- Com base em nossos possibilidade por causa de
ria na mesma posição do registros e experiência, Sua própria simplicidade.

48 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2015


O Poder nos tornarmos um sucesso.
De que modo podemos
somente com isso não con-
seguiremos alcançar nossos
do Sigilo alcançar nosso objetivo?
Através do trabalho árduo?
objetivos. Todas essas coisas
são inúteis sem o grande
O Poder do sigilo – o gran- Muitas pessoas trabalham poder a elas subjacentes.
de, místico e dito mágico arduamente todos os dias,
poder do sigilo – sempre
está presente no interior
dando o máximo de si e tra-
balhando conscientemente; A Lei
de todos nós. Trata-se do
poder que, conhecido e
contudo, poucas são bem-
-sucedidas ou alcançam seus Subjacente
praticado, muda toda a vida objetivos. Economizando A totalidade do universo
da pessoa e das condições centavos? As agências de pou- está baseada na grande lei
que a cercam, inclusive seu pança possuem milhares de subjacente ao poder do sigi-
progresso material e espi- clientes que são econômicos, lo. Não há uma única pessoa
ritual. Trata-se do poder entretanto, poucos estão mais no mundo inteiro que possa
pelo qual ascenderam todos próximos do sucesso do que nos dizer o que Deus é, pois
os grandes homens, foram estavam muitos anos atrás. Ele é um segredo para o
realizadas todas as grandes Estudando muito e ab- homem. Ninguém pode nos
obras e conseguidos todos os sorvendo todo o conheci- dizer como a menor folha de
progressos do homem inte- mento que possamos? Que relva é criada, pois isso tam-
rior e do homem exterior. dizer dos milhares de forma- bém é um segredo. Se todas
Alcançar o sucesso é dos em curso superior que as secretas leis do universo
o fator mais destacado na têm na ponta da língua vasto fossem reveladas, por seu
mente de todos. A despeito e valioso conhecimento? egotismo o homem tentaria
de como visualizemos o su- Alguns estão em cargo cujo fazer um melhor trabalho
cesso, temos certo objetivo salário mal dá para o susten- que Deus, e ocorreria de o
para alcançar. Tendo alcan- to; alguns são incapazes de universo ficar numa condi-
çado o sucesso, diremos: sou manter sua posição; outros ção crítica. Por isso, Deus
bem-sucedido. Talvez nossa são tristes e fracassados. e Suas leis necessariamente
concepção de sucesso seja Planejando e progra- precisam continuar secretos.
acumular imensa quantia mando? Em quase todos os Há muitos pretensos pe-
em dinheiro para realizar casos, fracassos decorrem de ritos prontos para nos dizer
algum grande plano em planos e esquemas que, em- o que é Deus, assim como há
prol de todos os envolvidos. bora bastante viáveis e que cientistas prontos para nos
Ou pode ser que desejemos trouxeram sucesso a alguns, revelar o que é uma folha
alcançar sucesso como pin- trouxeram a muitos fracasso. de relva. Eles e nós sabemos
tor, engenheiro, músico ou Não, o sucesso não é alcan- que a relva é constituída de
escultor, ou talvez desejemos çado por nenhum desses moléculas compostas de
dedicar a vida ao serviço da métodos exclusivamente. É certos elementos químicos,
humanidade, mas somos verdade que é necessária cer- e que as moléculas são com-
impedidos por algumas ta dose de trabalho, conhe- postas de átomos, estes de
circunstâncias. Qualquer cimento, economia, planeja- elétrons etc., mas o como e
que seja o nosso objetivo, mento e programação para o porquê de os elétrons se
precisamos alcançá-lo para alcançar o sucesso; mas tão combinarem para constituir

PRIMAVERA 2015 · O ROSACRUZ


49
átomos, estes para consti- exterior se separa do homem Nossa mente objetiva
tuir moléculas, estas para interior, vindo a conhecer recebe instruções pelos
constituir a folha de relva, o fracasso. Ele se recusa a impulsos ou sugestões da
dando-lhe cor e forma, é um comungar e dar ouvidos à mente interior. Devemos
segredo, e sempre continu- voz interior, impedindo-a ouvir e seguir essas sugestões
ará sendo um segredo para de criar e completar aquilo em seus mínimos detalhes
o egótico homem exterior. que o eu exterior deseja. para alcançarmos o suces-
O homem interior, po- É pela atividade mental so. Não devemos permitir
rém, a única parte real do que sabemos que vivemos. interferência da mente obje-
homem, pode conhecer - e Por essa mesma atividade, tiva, exterior, nem permitir
de fato conhece - o segredo concebemos ideias, fazemos que realize coisas que se
da criação, pois o utiliza planos e decidimos como e oponham às sugestões inte-
em todas as oportunidades. quando essas ideias e planos riores. Não devemos deixar
O eu interior se projeta ao devem se manifestar. Todos de lado tais sugestões senão
espaço cósmico e usa suas os nossos planos, ideias num momento futuro, pois
energias sutis, que criam e ações são concebidos, o eu interior sabe mais o
vida em todas as células. criados e dirigidos pelo eu que fazer e quando fazer.
Para que tenha o poder e a interior, e são manifestos
capacidade de criar coisas,
deve também possuir o
por meio de atividade física.
Assim, concebemos uma Mantenha
segredo desse poder. Pode
concretizar seu desejo se
ideia, fazemos planos de
acordo com ela, e levamos Sigilo
este estiver conforme a lei e os planos até o fim, o que Devemos também fazer ou-
ordem do próprio universo. resulta ou em sucesso ou tra coisa, fácil num aspecto,
A chamada mente do em fracasso. O resultado mas, difícil em outro: Man-
homem, isto é, a mente exte- será o sucesso se permitir- ter sigilo! Devemos manter
rior, objetiva, não é nada em mos que o eu interior tra- sigilo quanto às coisas que
si mesma, porque só a mente balhe sem interferências. pretendemos realizar, pois é
de Deus, a mente interior, O melhor meio de che- só desse modo que podemos
cria e manifesta todas as garmos ao nosso objetivo de esperar conseguir a necessá-
coisas. Em sua manifestação sucesso é trabalhar segundo ria energia mental que nos
exterior, o homem não passa a linha de menor resistên- leve a nosso objetivo. Não
de um meio ou máquina cia. Nosso eu interior nos devemos falar a ninguém.
cuja finalidade é cumprir as dá a noção do que signifi- Só devemos falar com nós
orientações do homem inte- ca para nós o sucesso, de mesmos, pois no próprio ato
rior. Porque o homem exte- modo que fica estabelecido de revelarmos nossos pla-
rior, através de uma vontade o objetivo. Desejamos al- nos usamos energia mental
própria, tem até certo ponto cançar o sucesso; por isso, necessária para realizá-los.
o direito de escolher e fazer o só devemos fazer as coisas Sigilo significa a conserva-
que lhe agrade, vê isso como que contribuirão para tanto. ção da energia mental, que é
poder. Crê que também ele Alguns perguntarão: quais necessária ao sucesso.
pode criar, e assim coloca- são essas coisas? É aqui que Para ilustrar o modo
-se à parte de tudo o mais. É tocamos a lei diretora do pelo qual o sigilo conserva
desse modo que o homem poder do sigilo ou segredo. e acumula energia men-

50 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2015


tal, recorramos ao dínamo saremos a ser vistos como
comum usado para gerar pessoas que não conhecem o
eletricidade. O dínamo gera fracasso. O mundo aplaude
energia elétrica somente o sucesso. Recorra a pessoas
enquanto há outra fonte de bem-sucedidas em busca de


energia que o ponha em mo- conselhos. A pessoa bem-
vimento. Quando essa outra Sigilo -sucedida é depositária de
fonte de energia é suprimida,
o dínamo para. Enquanto o
acarreta confiança, e grandes oportu-
nidades lhe são concedidas.
dínamo é levado a trabalhar, poder, porque O sigilo, combinado com
temos a energia, que pode
ser usada de muitos modos.
os outros uma dose normal de traba-
lho, inteligência, economia
Se não usamos a energia, ela nunca saberão e ideias acarreta o sucesso
é desperdiçada. Se a usamos, em qualquer empreendi-
devemos usá-la segundo é se nossos mento, desde que aceitemos
gerada pelo dínamo.
A energia consumida
planos foram as sugestões de nosso eu
interior, que jamais nos leva
só pode ser substituída mudados, por caminhos errados. Si-
por uma nova carga, que gilo exige silêncio, pois no
é suficiente apenas para as descartados silêncio chegam as maiores
necessidades atuais. Se não ou se dádivas de Deus. No silêncio
precisamos imediatamente podemos comungar com
da energia e nem sempre deixaram de nosso eu interior e receber
se cumprir

dispomos da força que move instruções. O silêncio é har-
o dínamo para gerá-la, pre- monização com as forças ou
cisamos acumular algo da energias mais refinadas do
energia para usá-la quando bateria pode ser comparada Cósmico. Ele nos dá força,
necessário. Fazemos isso por à vontade do homem, por coragem e confiança. O sigi-
meio de uma bateria, para meio da qual ele produz lo requer que o eu exterior
que possamos usar energia um esforço volitivo, mas, coopere com o eu interior.
imediatamente. fazendo isso, retém a maior Tenhamos sempre em
A mente objetiva pode parte da energia produzida mente o poder do sigilo.
ser comparada com o dína- pelo eu interior. Decidin- Carreguemo-lo sempre em
mo, e a mente interior com a do manter sigilosos seus nosso íntimo e comecemos
força ou poder por trás dele. planos e ações, o indivíduo a pô-lo em prática agora.
Enquanto o homem des- acumula enorme quanti- Temos livre acesso a ele. De-
perdiçar a energia dinâmica dade de energia mental. vemos usá-lo com a mesma
de sua mente, jamais terá Sigilo acarreta poder, espontaneidade, doando-
energia suficiente para con- porque os outros nunca sa- -nos a nós mesmos, a nosso
cretizar seus grandes planos berão se nossos planos fo- Deus e a nossos semelhantes.
ou ideias. Usa-se a energia ram mudados, descartados, Usemos esse segredo para
para revelar desnecessaria- ou se deixaram de se cum- alcançarmos o sucesso. Essa
mente seus planos a outrem, prir por nossas próprias de- é a lei de Deus, que é sempre
esgota o abastecimento. A cisões. Por causa disso, pas- o poder secreto e a glória. 4

PRIMAVERA 2015 · O ROSACRUZ


51
Nesta seção sempre
homenagearemos a história
de nossa Ordem no mundo
e na língua portuguesa,
lembrando por meio de
imagens os pioneiros que
.com

labutaram pelo Ideal Rosacruz


© thinkstock

e plantaram as sementes cujos


frutos hoje desfrutamos. A
todos eles, a nossa reverência.

3
2

E
stamos numa quinta-feira, 24 de setembro de 1964. Com a presença do então Imperator,
Frater Ralph M. Lewis, do Supremo Secretário, Arthur C. Piepenbrink e de sua esposa, So-
ror Helen, autoridades locais, do Grande Tesoureiro, Frater José de Oliveira Paulo e a então
Grande Secretária, Soror Maria Moura, foi realizada a inauguração dos edifícios da Admi-
nistração e do Grande Templo da Grande Loja do Brasil, AMORC.
Foto 1: O edifício inaugurado abrigava a Administração e o Grande Templo; Foto 2: Com a presença do Imperator, da Grande Secretária e Gran-
de Tesoureiro, o representante do Prefeito Municipal desata a fita simbólica; Foto 3: O Imperator Ralph M. Lewis descerra a placa comemorativa.

52 O ROSACRUZ · PRIMAVERA 2015


Tradicional Ordem M artinista
INICIAÇÃO
Herança Divina
A INICIAÇÃO é o caminho pelo qual o(a) candidato(a) se vê ligado à Tradição
Primordial, imemorial, que transcende a nossa limitada noção de tempo e espaço.
Essa Tradição imemorial, única e transcendente, está ligada à Luz original, fonte
de onde vêm todas as luzes.
É transmitida de Mestre a discípulo através das eras, quando confere ao Ini-
ciado sua filiação espiritual. A Antiga e Mística Ordem Rosae Crucis – AMORC
e a Tradicional Ordem Martinista – TOM estão, em seu centro invisível, fora do
tempo profano, unidas ao princípio original que lhes dá força, vida e perenidade.
Na verdade, a INICIAÇÃO é que assegura a transmissão da Tradição e afasta as
grandes verdades dos olhos dos insensatos. O buscador sincero saberá reconhecer
e onde encontrar a fonte.
FONTE Eterna de tudo aquilo que existe. O Iniciador e Iniciado(a) devem estar
de mãos limpas e coração puro. Os nossos Rituais não são simulacros representan-
do alegorias teatrais, são realmente revelações Divinas das verdades superiores que
estão sendo transmitidas e perpetuadas de geração em geração desde o princípio.
Para Louis-Claude Saint-Martin, filósofo do século XVIII, a INICIAÇÃO ter-
rena é a representação de uma INICIAÇÃO transcendental (Iniciação Central).
É aquela pela qual podemos entrar no coração de DEUS e fazer entrar o coração
de DEUS em nós, para aí fazer um casamento indissolúvel.
Amados Irmãos e Irmãs, não há outro mistério para se chegar a essa INICIAÇÃO
Sagrada, que o de mergulharmos cada vez mais nas profundezas de nosso Ser.
Que a Eterna Luz da Sabedoria Cósmica nos ilumine sempre!

S.I.
A
humanidade recebe de tempos em tempos personalidades-
© manfredo ferrari

alma que são “divisoras de águas”, ou seja, o mundo é um


antes delas e outro após elas.
Como verdadeiros mensageiros de Luz a serviço da humanidade,
esses seres receberam do Cósmico a missão de causar uma forte
influência na sociedade em que estavam inseridos, recebendo
postumamente o reconhecimento de sua visão, liderança e
iluminação que abrangeram todo o nosso mundo. Vieram para
mudar, romper paradigmas e deixar os seus pensamentos, palavras e
ações como exemplos de seres humanos especiais.
Esta capa da revista “O Rosacruz” é dedicada a estes Seres de
Luz que, como Mestres, nos ensinaram o Sentido da Vida.

Madre Teresa de Calcutá – Conhecida


mundialmente como uma das pessoas mais importantes do
século passado, Anjezë Gonxhe Bojaxhiu ou Madre Teresa de
Calcutá, de etnia albanesa, nascida em 26 de agosto de 1910,
em Üsküp, então capital do Vilayet do Kosovo, no Império Otomano, hoje capital da atual República da
Macedônia, foi uma mulher muito religiosa que dedicou sua vida aos pobres. Na Índia foi naturalizada e
lá exerceu um grande trabalho dedicado a caridade. Em 1973 foi agraciada com o Prêmio Templeton e em
1979 recebeu o Prêmio Nobel da Paz.
Muitas pessoas a chamavam de “a missionária do século XX”. E não foi em vão, pois Madre Tereza
fundou a congregação Missionárias da Caridade e com isso seu trabalho se expandiu pelos cinco
continentes. Todo o esforço desta grande personalidade foi reconhecido mundialmente. Em 124 países
foram instaladas 565 casas assistenciais mantidas pelas Missionárias da Caridade. Destas, 10 no Brasil.
Dentre tantos serviços filantrópicos prestados, problemas mundiais eram tratados com muito amor e
dedicação por aquela que se tornou um mito humanitário mundial: acolhia crianças abandonadas, tratava
de pessoas que sofriam com a AIDS, cuidava de mulheres que sofriam abusos sexuais e engravidavam e de
pessoas muito doentes.
Madre Tersa faleceu em 1997 com 87 anos. Mas seu legado continuou com a irmã Nirmala Joshi, eleita
na época com sua sucessora (Irmã Nirmala faleceu aos 81 anos no dia 23 de junho deste ano). Em 2003
Madre Teresa foi beatificada pelo Papa João Paulo II. Um reconhecimento muito importante para aquela
que não mediu esforços: lutou sua vida inteira em prol daqueles que não tinham esperança nenhuma.
O Vaticano está investigando um milagre que pode ter ocorrido em Santos, litoral de São Paulo, em
2008. O caso é de um paciente em estado terminal que estava internado em um hospital da cidade e, de
forma inexplicável, foi curado. Se a investigação for apurada como verdadeira, Madre Teresa de Calcutá
poderá ser canonizada.

“Não usemos bombas nem armas para conquistar o mundo. Usemos o amor e a
compaixão. A paz começa com um sorriso”.
– Madre Teresa de Calcutá (1910 -1997)