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“A primeira experiência ou, para ser mais exato, a observação

primeira é sempre um obstáculo inicial para a cultura científica. De


facto, essa observação primeira apresenta-se repleta de imagens; é
pitoresca, concreta, natural, fácil. Basta descrevê-la para se ficar
encantado. Parece que a compreendemos. Vamos começar a nossa
investigação a caracterizar esse obstáculo e a mostrar que há rutura,
e não continuidade, entre a observação e a experimentação. (…)” G.
Bachelard, A formação do espírito científico, Dinalivro, 2006, pp. 28-34.

“Sabemos, pois, que mesmo o melhor saber no sentido ciências


da natureza não constitui saber no sentido clássico e, portanto, na
aceção da linguagem corrente. Isto implica uma efetiva revolução na
conceção do saber: o saber no sentido das ciências da natureza é um
saber conjetural, um decifrar ousado (…). Não deixa, porém, de ser
uma adivinhação, disciplinada através da crítica racional. O que exige
que se lute contra o pensamento dogmático. Como exige também
uma extrema humildade intelectual. E exige sobretudo oculto de uma
linguagem simples e despretensiosa, por parte de todos os
intelectuais. (…) Todos os grandes cientistas compreenderam que a
solução de qualquer problema científico traz consigo muitos
problemas novos por resolver. Quanto mais aprendemos sobre o
universo, tanto mais consciente, pormenorizado e rigoroso se torna o
nosso saber em virtude dos problemas ainda não resolvidos (…). K.
Popper, Em Busca de um Mundo Melhor, Fragmentos, 1992, pp. 49-50.

“Referir-me-ei daqui em diante às realizações científicas que


partilham estas duas características como "paradigmas", um termo
muito próximo de ‘ciência normal’. Ao escolhê-lo, quis sugerir que
alguns exemplos aceites de prática científica concreta – exemplos
que reúnem leis, teorias, aplicações e instrumentos – fornecem
modelos que dão lugar a uma determinada tradição de investigação
científica coerente (…). O estudo dos paradigmas (…), é aquilo que
prepara fundamentalmente o estudante para se tornar membro da
comunidade científica no seio da qual exercerá a sua prática. Pelo
facto de se associar a homens que aprenderam as bases do seu
campo de trabalho com os mesmos modelos, a sua prática
subsequente dificilmente suscitará discordância aberta sobre
questões fundamentais. Os homens cuja investigação se baseia em
paradigmas partilhados empenham-se em seguir as mesmas regras e
critérios de prática científica. Esse comprometimento e o consenso
aparente que ele produz são requisitos da ciência normal, isto é, do
nascimento e continuação de uma determinada tradição de estudo
científico. T. Kuhn, A Estrutura das Revoluções Científicas, Guerra e Paz, 2009, p. 32.