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HISTORIOGRAFIA DO PROTESTANTISMO NO BRASIL Rodrigo da Nobrega Moura Pereira rodrigonobregamoura@ig.com.br Resumo: A presenga do protestantismo no Brasil durante muito tempo ndo despertou o interosse de nossos historiadores. Somente # partir da obra “Protestantismo Brasileiro” da autoria de Emile G. Leonard, publicado em 1963, 6 quo surgiram, em ntimero reduzide, outras produgbes historiograficas relativas a este tema no meio univarsitério. O propésito deste artigo é anafiser, em linhas gerais, as fontes, os métodos © as referéncias tedricas desta historiografia Abstract: The presence of Protestantism in Brazil during long time not awaked interest ours historians. Only with the writings Protestantismo Brasileiro by Emile G. Leonard, published in 7963, appeared in reduced number others praductions historiographics relatives a this theme. The presont work intends to analyze the ‘sources, mothods and theories from this historiography, Aquestao da presenca do protestantismo no Brasil no despertou muito interesse em nassos historiadores e fol, por muito tempo, quase totalmente ignotada pela historiogratia brasileira Por outro lado, a partic da 9 cast durante todo o século XX, mas especialmente em suas tltimas décadas, um nimero crescente do antropélogos, sociélagos e cientistas politicos voltaram sua atenodo para o tema, disso resultando uma profusio de novos estudos' Antes, porém, que os protestantes ganhassem maior evidénela no plano nacional efossem estudedos pels inflectuas © académicns xia uma historiogratia Toca historiografa surg apart da exsténcia de insituigbes de ensino teokgico.fundadas no pais desde as primeiras décadas do século XX, por igrejas protestantes chamadas reformadas ¢ tradicionais.? Tais denominagdes, desde que se implantaram no Brasil, tiveram como uma de suas prioridades a preocupagdo pedagégica, pelo que elaboraram projetos educativos ¢ fundaram colagios por toda 6 pals. Cutrossim, se interessaram pela formagSo teoldgica de seus ministios por sua propria meméria historica. professores de teolagia e pastores por suas préprias igrejas e denominacses sofre, como é de ‘se compreender, de uma série de limitacées. Nao deixa, contudo, de ser importante para quem @siuda @ historia do protestantismo no Brasil, nem deixa de conter algumas obras de qualidade. Portanto, s6 depois de uma breve andlise dessa historiografia vamos exerminar alguns livros dente 08 poucos em que historiadores universitarios dissertaram sobre o protestantismo brasileiro. Devido ao fato de tal produgdo ser relativamente numorosa fragmentada — cada segmento evangélico tem seus préprios semindrios, sua proptia editora e suas obras de histéria especificas = limitar-nos-emos aqui a andlise geral das linhas mestras da historiografia evangélica, no que diz respeito a sua forma, suas fontes e seus fundamentas teéricos. Antes, porém, convém citar algumas das obras mais importantes relativas as principais denominagoes. Entre os batistas encontramos Histéria dos Batistas do Brasil, da autoria do norte-americano A.R. Crabtree (Rio: Casa Publicadora Batista, 1937), que foi acrescido de um segundo volume por Anténio N. de Mesquita, em 1940, pela mesma editora. Sobre os presbiterianos 6 preciso mencionar a obra de Vicente Thamudo Lessa, Anais da 1° Igre/a Presbileriana de So Paulo, 1863-1903 (So Paulo: Ed. Igreja Presbiteriana Independente, 1938) — 2 qual, apesar do titulo, trata do presbiterianismo brasileiro de um modo geral. Entre os mesmos, também a obra de Julio de Andrade Ferreira, Historia da Igreja Presbiteriana do Brasil, em 2 vols. (So Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1960). Entre os melodistas podemos mencionar o livro Histéria do Metodismo no Brasil, de Paul E. Buyers (So Paulo: Imprensa Metodista, 1845) € o recente esforgo de reuniao 84 | Revise ia-Logos 2004 de documentos sobre a histéria do protestantismo brasileiro em geral, feito pelo metodista americano Duncan A. Reily, Historia Documental do Protestantismo no Brasil, (Sao Paulo: ASTE, 1984). Os luteranos tém uma producao a parte, em que a historia da cultura dos alem&es no Brasil se confunde com a histéria de sua religido. Sobre o luteranismo no Brasil podemos citar igreja ¢ Germanidade, de Martin Dreher (So Leopoldo: Ed. Sinodal, 1985) ¢ /greje na Migracéo @ Colonizagao, de Oscar Luiz Witt (Sdo Leopoldo: Ed. Sinodai, 1978) — historiadores que nao devem ser classificados como amadores. As formas de governo, de administragao e de organizacao eciesiastica variam de uma para outra denominagao citada. we concentra o poder decisério em voto universal, em assembléias mensais consideradas soberanas, fals variagdes 1ém uma importancia consideravel no aspecto da produc&o de fontes documentais. Cada uma das insténcias decisérias mencionadas produz regularmente altercagbes @ resclugdes sobre todos os aspectos da vida das igrejas, que s4o devidamente registradas em atas © arquivadas. Isto se passa no s6 no nivel local, mas nas associagdes regionais, estaduais € nacionais. Tal produgae tem proporcionado um acervo inesgotavel de fontes escritas aos que se interessam pola pesquisa sobre a historia destas igrejas. E natural que os pesquisacores das histérias denominacionais estivessem familiarizados com estas fontes, uma vez que também participaram da elaboragao de suas paginas mais recentes, no cotidiano da vida eciestastica. Debrucaram-se, pois, sobre elas, na busca da historia de si mesmos. Temos, entéo, que na maior parte das vezes o produto documental das reuniées das instancias deliberativas das igrejas so as fontes principais, ou em alguns casos Unicas, das historias escritas pelos histortadores amadores do protestantismo brasileiro. Nao se pode esquecer também que os jomais @ ravistas editados periodicamente por cada uma das denominagbes sao fontes indispensdveis a muitos destes trabalhos. Esto registradas ali informagbes do dia-a-dia, dos sucessas @ percalgos das igrejas de diversos cantos do pals, bem camo textos dadicados a debates teolégicos. importa, ainda, observar que ha também uma utlizagao consideravel da tradi¢éo oral como fonte para pesquisa historica. Isto certamente se da porque as igrejas protesiantes ~ como de resto toda comunidade religiosa —, t&muma forte cultura oral, Para demonstrar isso, basta dizer que, nas igrejas reformadas histéricas, o momento maximo do culto 6 aquole em que o pastor prega seu sermo, fazendo explicagao do texto biblico e, via de regra, ilustrando seus ensinamentos com casos, histérias e parabolas, que povoam o imaginério coletivo daquela comunidade. Figuram all oxperiéncias e feltos herdicos, tanto de personagens biblicos, quanto de homens que fizeram parte da histéria da igreja, apresentados como exemplos de fé e moral. N&o raro, essas historias ganham a forma de livros, multas vezes de memérias autobiogréficas. Estas, por sua vez, tomam-se fontes para livros de histéria que tem uma preocupacao mais acentuadamente moral e apologética. Nao 6 0 caso das obras enumeradas acima, mas certamente de livros como O Arauto de Deus, de Eula K. Long (Sao Paulo: Imprensa Metodista, 1960) e Memarias do Passado, do congregacional Joo G. da Rocha (Rio: cidade, 1946) - este, apesar do tom pietista, apresenta também um conjunto importante de fontes documentais. Quanto ao aspecto da forma de abordagem é que a questo da finalidade da escrita do texto histérico ss torna ainda mais relevante. De um modo geral, podemos considerar nesta historiografia duas possiveis finalidades que, conquanto no necessariamente antagonicas, demarcam polos que tendom a atrair a si a forma dos textos, um em detrimento do outro. © primeira passive! fim, como jé fol indicado, £0.da pedagagia maral.e.da apolagia Obras presas a tais fins sofrem muito com a caréncia da objetividade, que é fundamental ao texto historico. Como advertiu Patrick Hutton, nao se nega que o historiador normalmente escolhe um objeto por uma questéo de afinidade para com ele. Isto, contudo, nao significa que o texto histérico se preste a defender seu objeto ou comemora-lo.* Se isto se aplica ao plano das ideologias politicas, muito mais ao das RevistDirtogos 200s § 55 doutrinas religiosas. Na verdade, a idéia de que a apologia religiosa nao deve pautar a escrita da historia parece a nds tao ébvia, que se faz dispensével mencioné-la. Temos, no melo académico, a impressdo de estarmos ha anos luz das vetustas querelas dagmaticas.* Para a historiografia om questo, porém, nem sémpre, essa nogao néo é tao evidente. Ha obras que se perdem sm polémicas estéreis, tentando extrair da sucesso dos acontecimentos histéricos a prova de verdades metafisicas, que 86 s40 concluidas da anélise dos eventos, porque j faziam parte do credo do escritor, a prior’ E flagrante que para estes a historia mesmo ndo tem nada a dizer, ela 6 apenas utilizada como pretexto para a reafirmacao do dogma ou como parabola para aplicagdo de uma licdo moral. Sobre a necessidade de isentarmos de juizo de valor um conhecimento que se pretende valido ante os eritérios da racionalidade cientifica, jé nos falara Max Weber.” E, muito tempo antes, Maquiavel {4 nos prevenira do fato de os eventos histéricos no respeitarem a logica de uma ética metafisica, ndo prestando, porianto, para o aprendizado da moraliade tradicional.” Com certeza, a fraqueza de subordinar a escrita da historia a moral ¢ 4 apologia 6 um dos motivos do desprezo dos académicos pelos textos que provém dos meios eclesiastioos ¢ teologicos. Por outro lado, é uma grande injustiga classificar assim toda a historiografia de que estamos tratando. Uma parte considerdvel dela é muito pouco, ou nada, influenciada por esta tendéricia, Este é, agora sim, 0 caso da maior parte dos textos mencionados acima — 0 que tem um peso decisivo na definigdo de sua qualidade. Neste caso, mormente, vemos a orientag&o da forma de abordagem das obras historicas para um outro fim: aprasensaraooutecunetaraodaimeméria. istorica identi ul temos uma questo, nao tao grave quanto a primeira, mas ainda assim problemética, Toda histéria que serve estritamente ao propésite pragmatico de fundamentar ¢ justificar uma identidade, sem respeitar minimamente uma metodologia objetiva de pesquisa, corre o sério risco de se tornar mero instrumento de construgo de uma ideologia. Habsbawm nos adverte sabre este perigo, afirmando que o exemple classico deste tipo de historia vem da tradicional historiografia nacionalista.® Importa, porém, dizet que nao € interditade ao historiador identificar-se com seu objeto de pesquisa. Nem tampouco protbido elaborar um texto histbrico com a consciéncie de que, uma vez escrito 6 aprasentado ao pubblico, seré utilizado pelo grupo do quat trata, no proceso de formagao da idéia que o mesmo grupo tem acerca de si. (© que Hobsbawm recomenda & que, t8o somente, na escrita da historia, o pesquisador i i preciso, entéo, dizer que hé obras da historiografia agora em exame que escapam totalmente, ou em parte, dos perigos do comprometimento da objetividade acima descritos. Os que, contudo, nao escapam, nao se aniquilam por causa disto. Conservam seu interesse, inclusive, como paca de representagdo da mentalidade do grupo de que tratam e a que pertencem. Acrescente-se também que textos com finalidade puramente cientifica, ou com finalidade estética, como queria Hayden White, néo fazem muito sentido aos escritores desta historiografia. ‘Ainda quanto a forma, 6 importante assinalar que ocorre uma predominancia da “histéria narrativa’, no sentido definido por Lawrence Stone.’ As abordagens, porém, nem sempre se restringem somente ao encadeamento de fatos corridos na vida de personagens que foram fideres religiosos e ocuparam lugares de destaque nas instituigdes denominacionais. Ha deveras, em boa parte desta historiografia, hegemonia de escritas com forte acento biagrafico e narrativo; 6 0 caso dos livros de Lessa, Ferreira, Crabtree e Mesquita, citados acima.”” Por outro lado, na pradugae mais recente, é possivel encontrarmos textos que estéio longe de se ocupar com os eventos do tempo superficial, como, por exemple, Celebragao do Individuo — formagao do pensamento batista brasileiro, de Israel Belo de Azevedo (Piracicaba/Sao Paulo: Unimep/Exodus, 1996), o qual nada deve em termos de erudigao académica e pode ser considerado uma auténtica histéria das mentalidades. Mesmo na historiografia mais tradicional, existe a abordagem de temas como os sucessos dos empreendimentos educacionais evangélicos na sociedade ¢ 0 desenvolvimento das igrejas como corpos coletivos. De fato, nao ihe interessava apenas a vida de “grandes personagens’ . E imporiante dizer que este termo (grandes personagens) tem uma interpretagao problemética dentro do ideario protestante. Esta 6 uma questao que nos remeie ao exame dos fundamentos teéricos desta historiografia. 5G | Revise Dinogos 2008 i “a E Hegel quem nos esclarece sobre o catater anti-hierérquico da Reforma Protestants. Ao defender a doutrina do “sacerdécio universal dos crentes’, 0 protestantismo dsseverou uma relag&o pessoal do individuo com Deus, independente de qualquer Intermediagao de lideres ou estruturas eclesidsticas."" Uma vez que a divirdade se encontra de forma plena na subjelividade de cada individuo, temos que a ago da Providéncia na Historia se manifesta néo apenas em alguns personagens, mas em todos. E lugar-comum entre os protestantes a idéla de que dentro da Igreja e de sua histéria, Deus habita em todos ¢ age através de todos. Por outro lado, como também elucidou Hegel, ha figuras emblematicas, que em cada época sobressaem, as quais sintetizam o espitito de seu tempo c tem em si mesmaso universal." 0 que importa é perceber que no existe uma elite ou um conjunto de figuras notaveis que proporcionam 0 sentido e 0 ritmo dos acontecimentos historicas. Pelo contrario, 0 verdadeiro sentido é atributo do Espirito Absoluto, cula manifestagSo fenoménica 6 a propria Historia. Desta forma a fdéia, se manifesta tanto através de individuos em papel de destaque, quanto através da colelividade sem rosto, ou da soma conjunta de todos os individuos. Outrossim, os homens no so senhores do sentido titima de suas ages, mas sao tanto mais livres quanto mais concordes com o Espirito. A razo da Historia, inclusive, usa de saus ardis para transformar o resultado das agbes humanas ‘em algo diforente das intengdes particulares dos homens, de acordo com seus préprios propésitos (op. cit, p. 12). Dentro desta perspectiva, coloca-se em relevo 0 papel da Providéncia. Ela é a detentora do plano misterioso, de acordo com 0 qual tudo 0 que acontece na Histéria aponta para um rumo & tem uma razao de ser. Mais do que Issa, na metanarrativa hegeliana, a Hist6ria é a expressao efetiva da Razdo do mundo, om seu movimento de autoconhecimento, no pensamento livre de simesma.** ‘Queremos dizer, assim, que 0 pensamento de Hegel, sem duvida, esté na base teérica da historiografia protestante. Deve-se, contudo, notar que ha elementos da filosofia hegeliana que 80 rejeitados pela corrente mais tradicional da teologla protestante norte-americana da qual se origina a maior parte dos evangélicos brasileiros. Como ja foi possivel observar, com a excegao dos luteranos, todas es denominagies citadas vieram dos EUA. Por isso, boa parte dos livros de historia das igrejas evangélicas brasilelras fol escrita por norte-americanos — quando ndo escritas por estadunidenses, o foram por brasilelros formados em seminérios fundados por eles influenciados por sua cultura teoi6gica. Dentro da mesma cultura, a destituicao do caréter pessoal de Deus — que foi, afinal, 0 que Hegel foz através de seu conceito de Espirito Absoluto ~ nao recebia boa acolhida. Era mister um hegelianismo depurado de tals extravagancias."* Este poderia ser encontrado em uma retomiada do modelo mais cléssico da Filosofia da Historia crist&, a teodicéia agostiniana, revisada de acordo com os pressupostos do hegelianismo e adaptada as concepgées teolégicas do tradicional protestantismo norte-americano. Tal elaboragao ‘encontrada em um historiador respetiado dentro do cenério teclégico protestante norte-americano. Philip Schaff, ainda no século XIX, fol o autor de uma vasta History of the Christhian Church, em 8 volumes, contend cada um cerea de mil paginas, cobrindo desde a Era Apostélica até a Reforma. Esta obra tornou-se paradigma, nos meios teolégicos protesiantes, como modelo de escrita da Historia da Igreja.® A idéia da Providéncia divina nela contida serviu om muito para orientar a perspectiva que a historiografia ora em exame adotou. assim que, em tais livros de hist6ria, muitas vezes encontramos um tecido narrative que segue um onredo tipico da logica da palxao crist’, na qual os movimentos dos personagens, individuais ou coletives, so obliterados por empecilhos e antagonismos, que redundam, ao fim, ‘am uma consagrago dos fins meta-histéricos e um passo além na propria Historia.® O padrao classico deste tipo de enredo &, naturalmente, a Paixao de Cristo, sua morte ¢ ressurreigéo, mas também, a Histéria da igreja primitiva, na qual o sofrimento dos mértires ao tempo das persequicdes, contribuiu para a expansdio da Igreja e, conseqdentemente, para seu triunfa no Império Romano =o que, aliés, em Hegel se traduz em nada menos que: tose, antitese e sintese. Cabe ainda dizer que, como era de se Imaginar, a historiografia luterana & uma excego no que diz respeito a flliagao a uma metanarrativa a moda da teologia norte-americana, visto que reobe influéncia direta da filosofia, teologia o historiografia alemas.” ee Reva Dintogse 2004 | ST Tendo procedido a uma anélise geral e passageira da historiografia produzida por pesquisadores oriundos dos seminarios taolégicos, passemos a examinar o que mais se pode encontrar de escritas da histéria que versem especificamente sobre o protestantismo no Brasil. Fora uma ou outra men¢éo passageira, a chamada Ristoriografia tradicional nao deu atengo ao fendmena do protestantismo brasileiro. Além disso, ¢ interessante nolar que, entre os historiadores profissionais que se dedicaram a pesquisar sobre o tema, praticamente tados eram protestantes ou tinham formagao protesiante. ‘Quanto aos representantes da historiografia até aqui analisada, tornaram-se historiadores diletantes, ou profissionais, por serem ministros © professores de teologia evangélica — S80 protestantes que so historiadores. Quanto aos historiadores universitérios que adiante consideramos, valtaram-se para o protestantismo como seu objeto de pesquisa motivados por seu interesse pessoal em conhecer metodicamente a religiéo em que foram educados ~ S80 historiadores que so protestantes. Essa inverséo faz grande diferenga. Ela é uma das chavos para o distanciamento critico de quem conhece seu objeto de estudo por dentro, mas é capaz de enxergélo de fora. Entre os historiadores do meio universitario, 0 primeiro a apresentar uma obra especffica sobre a histéria do protestantismo no Brasil foi o francés Emile Guillaume Léonard, professor da USP, de cuja autoria foi publicado, em 1983, o livro Protestantismo Brasileiro - Estudo de Eclesiologia @ Historia Sosial. Leonard, seguindo a tendéncia da historia estrutural de seu colega Braudel, relegou ao plano secundario os protagonistas e os eventos pontuals do tempo curto. Sua busca por uma histéria social o levou a privilegiar a tradugao das linhas mestras do comportamento e do ponsamonto da coletividade-alvo de sua pesquisa, os protestantes brasileiros. Nisto aproximava- se, nitidamente, de uma histéria das mentalidades, certamente, sob e influéncia dos escritos de Lucien Febvre e Marc Blach sobre aspectos do imaginério coletivo religioso."* Preocupava-se justamente em relacionar os modes de pensar e sentir a religiosidade entre os protestantes brasileiros, com aspectos proprios da cultura brasileira. Sua hipétese era o estabelecimento de um paralelo de similitude entre a ecloséo da Reforma Protestante na Europa eo surgimento do protestantismo no Brasil."* Léonard defendeu que, comona Europa as vésperas da Reforma, a fragilidade, a deterioragao a heterodoxia das estruturas institucionais do catolicismo no Brasil criaram ensejo para a formacdo de manifestacBes de religiosidade popular mais esponténeas, as quais deram o tom do protestantismo brasileiro. Este paralelo, contudo, encontra sérlas dificuldades para se sustentar mediante uma andlise mais atenta das especificidades da sociedade brasileira, bem como do protestantismo que aqui foi implantado. Isto porque: “ 1) No Brasil, a elite politica jamais esteve perto de reformular os dogmas da Igreja ou dectinar da confissio de fé catdlica, diferentemente dos processos de reforma na Europa, onde, em regra, © poder politico instituido associou-se as novas doutrinas religiosas dos reformadores, para efetuar um conveniente desligamento do poder central de Roma, realizando uma transformacao dos sistemas religiosos “de cima para baixo", por iniclativa direta dos Estados; 2) Enquanto nas reformas européias a reformulaga da organizagao edlesidstica e do sistema doutrinario, assim como o re-enquadramento da igreja dentro do aparetho do Estado, respondia a demandas proprias do conjunto da sociedade e das politicas iocais, no Brasil imperial, 0 protestantisma fol introduzido, em pequentssima escala, como elemento allenigena, nao reciamado e nem produzido originalmente pela propria socledade brasileira, mas difundido a partir da presenca estrangeira. Havia, portanto, ao contratio do que Léonard quis, uma tensdo latente entre a cultura do protestantismo introduzido aqui por estrangelros - ainda que praticado por brasilairos —e a prdpria cultura brasileira, Ha quem aponte a auséncia de um mergulho mals profundo nesta Ultima cultura como uma deficiéncia da obra do francés.2° A despeito das objegdes acima citadas, o trabalho de Léonard teve importancia capital ¢ tornou-se referéncia indispensavel a tudo que viria a ser escrito posteriormente sobre o tema. Na década seguinte a sua publicacao, surgiram dois outros trabalhos de pesquisa, que tinham como Pontos de partida quesibes levantadas por este livro, O primeira fei Protestantismo no Brasil Mondrquico, de Boanerges Ribeiro, publicado em 1973. Nolo, Ribeiro desenvolveu a questo, suscitada por Léonard, acerca da ambiéncia cultural 5B | RevctaDiatogos 2004 a prasileira favoravel a entrada @ proliferago do protestantismo no Brasil, durante © Império. © objetivo expresso de sua pesquisa foi “examinar aspectos da nossa cultura, no século XIX, que possibilitaram e facllitaram a aceltag&o do protestantismo no Brasil".*" O autor ressaltou os aspectos: da flacidez das instituicbes eclesidsticas brasileiras; do regalismo do Estado imperial; eda formagdo liberal da elite ~ apesar de a elite jamais ter aderido 20 protestantismo. Boanerges Ribeiro, na verdade, nao é, exatamente, um historiador, Seu livro é fruto de uma tose de pés-graduacdio em Ciéncias Socials. De fato, ao longo de suas paginas, Ribeiro procede a uma espécie de sociologia do passado. Seus fundamentos tedricos sao pesadamente estruturais € estaticos — 0 que atrapalha seu texto. Sabemos que isso @ um serio problema, pois nao se pode concillar coerentemente um texto histérico cam uma teoria de demarcagdes sociais imutaveis e atemporais. No caso am questo, o autor baseia-se numa ceria Teoria da Organizagéio Humana, da autoria de Anténio Rubbo Muller, orientador da pesquisa de Ribeiro, o qual dividiu a sociedade em 14sistemas socials “ospecificos © para-autoniomos", absolutamente impassiveis de transformagao no tempo (pp. 12-13). Fora isso, 0 livro se sai bern como uma historia das idéias religiosas, que na se encontram pairando no vento, mas enraizadas no embate des acontecimentos e dos grupos humanos, relacionando-se com os movimentos da classe politica, das comunidades religiosas @ do mundo juridico, © segundo trabalho {oi 0 exaustivo estudo do professor David Gueiros Vieira, inlitulado 0 Protestantismo, a Magoneria @ a Quostao Reiigiosa no Brasil, publicado em 1978. O autor considerou que o “germe da idéia” de seu estudo encontrava-so no texto de Léonard, @ que a pesquisa de Boanerges Ribeiro era “paralela e complementar” ao seu trabalho.” De fato, Vieira suplantou os antecedentes no aspecto factual, produzindo um texto muito mais extenso, no qual incansaveimente, ao longo de dez anos, esquadrinhau todos os eventos e personagens relativos a0 seu objeto de pesquisa, que Ihe foram acessivels em arquivos do Brasil, Europa e EVA. A impresséo que se tem 6 que — como se isso fosse possivel - nenhume fonte escrita @ arquivada escapou a sua andlise, tel é o numero de referéncias apreseniadas a cada pécina. Vieira, em plena época de grande vigor do estruturalisma no Brasil, nao teve nenhum pudor em dedicar a maior parte de seu texto a infindavels ¢ minuciosas narrativas, com suas tramas e subtramas que quase nos deixam perdidos na complexidade labirintica dos fatos. Isso absolutamente ndo significa que nao exista analise e explicacéo em sou texto - 9 que, alids, & reconheckde por Gilberto Freyre, que elaborou o prefacio do fivro. Tudo que é narrado esta, enfim, coligido por um enredo estritamente subordinado 4 hipétese central. Por outro lado, a0 longo de todo o livro, hé um olhar docididamente voltado, antes de tudo, para as fontes, para os acontecimentos ¢ para 0s personagens individuais que fazem parte de sua historia. Seu objetivo foi comprovar “que @ presenca protestante no Brasil ¢ seu envolvimentc com 0 grupo magénico-liberal fora o elemento catalitico das conbovérsias locais que culminaram na Juta entre os bispos @ a Coroa" (p. 13). Procurava levar nova luz sobre a historia da Questéo Religiosa, trazendo a tona o decisive aspecto da introdugao do protestantismo no Brasil, até entao ignorado pela historiografia. Gueiros demonstrou que a disputa entre catélicos conservadores — 0s *ultramontanos” — e liberais agons deu-se, no s6 por causa da condenagao da magonaria, por parte do Vaticano, e concomitante afirmagao do regalismo, por parte da Coroa imperial. Entre outras causas do confito, encontrava-se também o fato de que membros destacados da elite politica liberal eo proprio Estado imperial, om momentos decisivos, deram seu aval a difusao do protestantismo no Brasil. Assim, David Gueiros Vieira transita no circuito das vidas @ das agées dos integrantes da elite imperial, dos circulos macOnicos, do clero catélico e das igrejas protestantes. Ja faz mais de 25 anos da publicagao deste livro — que foi o Ultimo estudo histérice de félego a tratar da questao do protestantismo no Brasil. De 14 para ca muita coisa mudou no cenatio evangélico brasileiro. Sem divida, hd muito que se pesquisar e estudar nesta historia. A historiografia do protestantismo brasileiro mal comegou a ser escrita. oe ovata Diatoges 2008 1 59 + Umbom exempio go trabalho Nova Nascimento - Os evangétias em casa, naigreja @ ne police, da sutoria de Rubem ©. Ferrandes, Sanchis, Clavie G. Velho, Leandro P. Cameiro, Cacia Mariz ¢ Clara Mafra, Rio de Jarelro: Maviad, 1998. > Chemamos aqui reformades” as denromhagies do protestanlsma cléssica(uterana e angicena, por oxampl), ¢ “isléicas” ou “trod ais" as denominegdes onundas ce dssidbne'as dos tonooe pinpale da Reforma Protestants, que surgram antes do sécule XX, © qual fol marcado palo advento ca pentacastalsma ~ por exempla, os presbilerianos, os batslas # os metodistas. > Patrick Hutton, The role of memory in historiography ofthe French revolution \ History as an art of memory. Hanover Loncon: Universi of Vermanu University Prass of New England, 1993. p. 126 Cama a clénela nos poder conduir 9 Daus? (..} 0 pressuposle fundamental ds qualquer vide om eorsuntio com Dow apele 0 homem a s@ emancipar do racionalismc @ do intsiectualsmo da céncia” Max Weber, Ciro coma Vocagao. in: Cia e Pottca: ‘Dues Vacagées, SAo Pauio: Mertin Clare, 2002. p42. Stim exempla & 0 livro Brave Histiris dos Gatistas, de losé R. Pereira, Rio: Ed. Juerp. 1994. Recoreno 86 obras do nossos histoviadores, tenho concigdo de tes fornscer prova de que, sempre que um homem de ciéncia pomige que ¢@ ranifesters seus proprios juizaa de vale, ele perde a compreensto Inlagra dos faos". Cxéncia como Vocaca. In: Ciéncia 2 Police: Duns Vocwpe9, 7-47. "Maquiavel, © Principe, Sie Paulo: Nova Cutural 1098. p. 9%. FE inevtével que a versao nacionaisis da histeia consisa de anacionfsmo, omissdo, descontextualzagéo e, em casos extrem as, rrentras. Em um grav menty, sao 6 verdade pera todso oe formas de histria de dentidede, anigas ou rocantea’. Néo Basta atria de Idertidade, In: Sobro Histéria, Sho Paulo: Companhia das Letras, 1908. p. 285, A mamrativa aqul designa a orgenizarao de materials numa ordem de seqiancia cronolésica e a cancentvacdo do contetdo’numa estore ovarente, embora paceuinde subirares. Abistoanaraliva se distingue da hiskiria estrutural por cols aspectos essencials: Suz lsposicdo # mais dasertiva do que enalitca,e sau enfoque central dizrespeilo ao home @ nao as creunstancias’. 0 ressurgimenta dia naratve:reflaxdee sobre uma nova velha hist. "umexeripo cassico deste ipa de tte estitamente factual bografio¢ Galeria Evangéica~ bograas te pastores prastierianos de tabatharam no Bvasi de Juio A. Ferreira (S80 Paulo: Casa Ed, Presbiterana, 1952). Um livre repente que segue a mesmo pada 6.0 pionciros proabllerianes no Brasl, de Alderio Matos (S80 Paulo: Exltora Cultura Cris, 2004). “que o individ agora sabe que esta plenficada com 0 espito vino, cam supcimidas tades as relacbes de extereridade: no existe mals dferenga ente eacerdoto okigo, nEo hd mais uma classe que deterha excusivamente o cometido da verdade, assim como tedoe a2 tocouror eepiitcle» temporale da lore. Eo coracto, = esprtualdade sensival de hamen, que pode @ deve spodera-se 4s verdad ~ 0 osea eubjofvidads 6 a de todos os homens” Fiosofta da Histris, Bras: Ed, UnB, 1909. p. 345, "2"Estes sao os grandes homens da histria,cujs ns partculares conlém 0 essencia cue @ a vontace do esplito universe. Nesse serlide devem ser chemados de herbs." Kiem. p. 33. “a Providanela cvina € sebedoa que, com umn poder infite, concretiza os seus objetvos, flo €,o objtiva absokito ¢ racienel do mundo: a razéo € 0 pencar ve determinante de si mesma’. fie. p19. “Paul Tilich, Perspectives da Teologle Protestant nos Séculos XIX @ XX, So Paulo: ASTE, 198.9. 19. ‘Sinelizmanta, nae ha expago aqui para a andlise de suas fonles, ora e conteddo. Ficaentao uma referencia de seus pressupostos osoico-tecloyicas, mais especticamente sobre sua concepgao da Providencia.. we mist by allmeans keep tothe great histedce! Paingiple, that al repreventalive characters ao, consciously or unconsciously, 2¢ the frae and responsible organs of tha spt of te ‘98, Which moulds them frst before Wey cen mould tin wm, and wat He SPL ofthe aga sel, whether good or bad or mixed, is Dut fan instumentia the hands of divin Providence, which rues and ovemules all he actions and reaives of men" Philp Schl, Histor ofthe Cristian Church, volure Il, Michigan: Eemans, 1881. p. 13. “WSbre trabalho do historiador como criador de anrodos quo d30 samt 20s falos: Hayden White, O Texto Histo come Artefota terion: Trépizos do Discurso ~ ansalos sche a critica da cultura, Sz0 Paulo: Edusp, 1904. p. 07-16. VE de se nokar a existércia de obras ulerenas ialuenicedas por um iarssmo Inde, revised pela Teologa da Liberiayéo, como por example: Ingolone &. Xach (arg), Brael, outros 500: prolastantiomo o a ceaktBncle indlgona, negra e popu, Sao Leopold: ‘Sinodal, 1999, Contudo, a relagao entre marsismo ¢ Teologia da Livertacao @ cortroversa. Ver: A. G. Rubio, Teofonie de Litertacdo: Poiica aw Profetismo, $30 Paulo: Loyola, 1283. p. 236-228. Lucien Fabvre, Le probléme de Fincraynce au 16° scl: la religan de Rabelais (1920) : © Merc Bloch, Le rois theumaturges 1924). “Bile G. Léonard, Protestantism Brasisro. S80 Paulo: ASTE, 1983, 9.17. A, G. Mendonga e F. V. Fhe, Introdueo 20 Protestantismo no Brasil, Séo Paul; Loyeia, 1999... 61. Boenerges Ribuiro. Proteslanisme a0 Bras! Monérquico, Ske Peul: Pioneta Editora, 1978, p. 22. David Guokos Viva. O Protstanlismo, 2 Maconaria © a Questo Reigosa no Gras 2.” ed Brastie: UnB, 1200. p, 18-19. GD | Revise ieLogos 2001

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