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M I S T I C I S M O l C I Ê N C I A l A R T E l C U L T U R A

OUTONO 2016
Nº 296 – R$ 10,00

ISSN 2318-7107
n MENSAGEM

Prezado Fratres e Sorores


© AMORC

Saudações Rosacruzes!
É com satisfação que apresento esta edição de outono de O Rosacruz.
A beleza da revista pode ser observada na composição das suas ilustrações
em seu objetivo de elucidar o conteúdo apresentado.
Selecionamos assuntos de interesse de nossos membros e do leitor não
rosacruz evidenciando a universalidade dos nossos ensinamentos.
O pensamento do nosso Imperator remete-nos ao tema da força represen-
tada pela espiritualidade e pelo domínio de si no seu pensamento, nas suas
palavras e ações. Uma lição a ser praticada.
O artigo do Frater Zaneli Ramos procura levantar o véu numa abordagem
mística do mistério da vida. Deve ser relido muitas vezes.
O artigo do Frater Nicholas Roerich foi traduzido de uma edição do Rosicrucian
Digest de 1933 e convido-os a avaliarem o quanto continua atual após 80 anos.
Conheci o Frater Lino Mensato Filho em suas palestras sobre acupuntura eletrônica na década de 80. Didático,
esclarecedor o Frater Lino “falava” como médico e como membro vibrante da Ordem. Seu tema do lado místico
da acupuntura demonstra isto.
Como estudante rosacruz temos interesse pelo aspecto não convencional das artes e o Frater Gilbert, músico de
profissão traz informações não comuns da teoria e da história da música que todos devemos conhecer.
Temos muitos membros que contribuíram para a história da Ordem nestes últimos 60 anos. Sem eles, o brilho
e o crescimento da Ordem Rosacruz, AMORC na Jurisdição Portuguesa não seria o mesmo. Temos um número
relevante nestas condições, mas neste momento refiro-me ao Frater Adilson Rodrigues, Orador oficial da Grande
Loja do Brasil nos primórdios da GLB, ex-diretor Adjunto, ex-diretor de Planejamento e Patrimônio, médico psi-
quiatra, palestrante competente e leal servidor da Rosacruz. Neste seu artigo – Relacionamento humano, ele coloca
um pouco do seu conhecimento como membro da Ordem e profissional da Medicina.
A importância do imaginário é didaticamente explorada pelo Frater Christopher sobretudo por sua surpre-
endente conclusão. Deve ser objeto de nossa reflexão.
Este ano lançaremos as monografias virtuais da Ordem e da OGG – Ordem Guias do Graal, como já acon-
tece nas jurisdições inglesa, americana e francesa.
O caminho para o acesso é a ÁREA DO AFILIADO em nosso Portal. Entretanto, é muito importante o
recadastramento de todos os membros para atender ao novo sistema e a circular 3.656/2013 do Banco Central
que exige o CPF (Cadastro de Pessoas Físicas) para a emissão de boletos a partir de 2017. Seus dados atuali-
zados permitirão acessar as revistas virtuais como O Rosacruz, o Fórum, o AMORC-GLP e a OGG. Peço que
leiam com atenção as instruções das páginas 42 e ss.
A Oração é inspiração e refúgio de todo místico. O Dr. H. S. Lewis sabia como poucos ensinar e praticar a oração.
Reeditamos este artigo por seu caráter útil para quem está sendo treinado para encontrar refúgio e inspiração no
silêncio do seu coração.
Vamos comemorar juntos os 60 anos da Ordem no Brasil.
Espero revê-los(as) em Curitiba em nossa XXIV Convenção Nacional Rosacruz.
Paz Profunda a todos!
Sincera e Fraternalmente
AMORC-GLP

Hélio de Moraes e Marques


GRANDE MESTRE

OUTONO 2016 · O ROSACRUZ


1
n SUMÁRIO

04 A força
Por CHRISTIAN BERNARD, FRC – Imperator da AMORC
04
06 O mistério da vida
Por ZANELI RAMOS, FRC

10 Mutatis mutandis
Por NICHOLAS ROERICH, FRC

16 O lado místico da Acupuntura


Por LINO MENSATO FILHO, FRC
10
22 O canto e seu poder místico
Por GILBERT BASTELICA, FRC

32 Relacionamento humano
Por ADILSON RODRIGUES, FRC

36 Geografia do Imaginário
Por CHRISTOPHER AUGUSTO CARNIERI, FRC
16
42 Portal AMORC
MONOGRAFIAS VIRTUAIS, REVISTAS DIGITAIS E OUTRAS FACILIDADES PARA OS ROSACRUZES

50 Sanctum Celestial
“COMO ORAR” Por H. SPENCER LEWIS, FRC

56 Ecos do passado
UMA HOMENAGEM À HISTÓRIA DA AMORC NO MUNDO
22
2 O ROSACRUZ · OUTONO 2016
O
s textos dessa publicação não representam a palavra oficial da
AMORC, salvo quando indicado neste sentido. O conteúdo dos
artigos representa a palavra e o pensa­mento dos próprios autores
Publicação trimestral da e são de sua inteira respon­sabilidade os aspectos legais e jurídicos que
ORDEM ROSACRUZ, AMORC
possam estar interrelacionados com sua publicação.
Grande Loja da Jurisdição de Língua Portuguesa
Bosque Rosacruz – Curitiba – Paraná Esta publicação foi compilada, redigida, composta e impressa na Ordem
Rosacruz, AMORC – Grande Loja da Jurisdição de Língua Portuguesa.
Todos os direitos de publicação e repro­dução são reservados à Antiga
e Mística Ordem Rosae Crucis, AMORC – Grande Loja da Jurisdição de
Língua Portu­guesa. Proibida a reprodução parcial ou total por qualquer meio.
As demais juris­dições da Ordem Rosa­cruz também editam uma revista
do mes­mo gênero que a nossa: El Rosacruz, em espanhol; Rosicru­cian
Digest e Rosicrucian Beacon, em inglês; Rose+Croix, em francês; Crux
Rosae, em alemão; De Rooz, em holandês; Ricerca Rosacroce, em italiano;
Barajuji, em japonês e Rosenkorset, em línguas nórdicas.
CIRCULAÇÃO MUNDIAL

Propósito da expediente
Coordenação e Supervisão: Hélio de Moraes e Marques, FRC
Ordem Rosacruz n

A Ordem Rosacruz, AMORC é uma orga- n Editor: Grande Loja da Jurisdição de Língua Portuguesa
nização interna­cio­nal de caráter templário,
místico, cul­tural e fraternal, de homens e
n Colaboração: Estudantes Rosacruzes e Amigos da AMORC
mulheres dedicados ao estudo e aplicação

como colaborar
prática das leis naturais que regem o uni-
verso e a vida.
Seu objetivo é promover a evolução da
huma­nidade através do desenvolvimento
das potencia­lidades de cada indivíduo e
n Todas as colaborações devem estar acom­panhadas pela declaração do
propiciar ao seu estudante uma vida har- autor cedendo os direitos ou autori­zando a publicação.
moniosa que lhe permita alcançar saúde,
felicidade e paz.
n A GLP se reserva o direito de não publicar artigos que não se encaixem
Neste mister, a Ordem Rosacruz ofe- nas normas estabelecidas ou que não esti­verem em concor­dância com a
rece um sistema eficaz e comprovado de pauta da revista.
instrução e orientação para um profundo
auto­c onheci­mento e compreensão dos n Enviar apenas cópias digitadas, por e-mail, CD ou DVD. Originais não
processos que conduzem à Iluminação. serão devolvidos.
Essa antiga e especial sabedoria foi cui-
dadosamente preservada desde o seu n No caso de fotografias ou ilustrações, o autor do artigo deverá providenciar
desenvolvimento pelas Escolas de Misté- a autorização dos autores, necessária para publicação.
rios Esoté­ricos e possui, além do aspecto
filosófico e metafísico, um caráter prático. n Os temas dos artigos devem estar relacionados com os estudos e práticas
A aplicação destes ensinamentos está ao rosacruzes, misti­cismo, arte, ciências e cultura geral.
alcance de toda pessoa sincera, disposta a
aprender, de mente aberta e motivação
positiva e construtiva. nossa capa
Hermes, como a personificação da Sabedoria Universal,
é retratado com seu pé sobre as costas do Tifão, o der-
rotado dragão da ignorância e perversão. Para os inicia-
dos egípcios, Tifão, o devorador de almas, representava
o mundo inferior que engole a natureza espiritual do
indivíduo que, sendo imperfeito, é forçado a descer das
esferas mais elevadas e renascer no universo físico. Por-
Rua Nicarágua 2620 – Bacacheri tanto, ser engolido pelo Tifão significa o processo de re-
82515-260 Curitiba, PR – Brasil
nascimento do qual o homem só pode se libertar ven-
Tel (41) 3351-3000 / Fax (41) 3351-3065
www.amorc.org.br
cendo seu Adversário mortal. Pintura de Manly P. Hall.

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3
n IMPERATOR

Por CHRISTIAN BERNARD, FRC – Imperator da AMORC

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D
e um ponto de vista tradicional, ou em cólera, temos a tendên-
dizemos que o homem foi criado cia, conforme se diz familiar-
à imagem de Deus. Ele recebeu, mente, de levantar a voz, isto
então, no momento de sua cria- é, de concentrar em nossa
ção, “a força”. No plano místico, esta força voz uma força maior do que
é sua aptidão para concentrar cada um de a habitual. Ao contrário,
seus pensamentos, de suas palavras e de quando estamos em prece,
suas ações na direção do Absoluto divino. de uma maneira que não
Ela representa o estado de consciência o mentalmente, as palavras
qual denominamos de “estado Crístico”, de que pronunciamos se per-
“estado Búdico” e de outros nomes mais. Pes- dem num vago sussurrar.
soalmente, o chamarei “estado Rosacruz”. A força de nossas pa-
A força à qual me refiro é perfeitamente lavras reflete com frequência o nosso estado
ilustrada na narrativa alegórica de Davi e interior, ou seja, o nosso estado de alma. O
Golias. Esta é uma profunda ilustração de mesmo se aplica aos movimentos que faze-
seu poder. O jovem Davi, com a ajuda de um mos. Por exemplo, um ato ritual nada tem
seixo, faz tombar o gigante Golias, acertando- a ver com um gesto de ira. O interesse desta
-o mortalmente na fronte. Quando sabemos relação corpo-mente-alma reside no fato de
que o futuro rei Davi simboliza o poder da que podemos agir e reagir sobre nosso estado
espiritualidade, neste conto, e Golias o poder interior, observando a intensidade da força
da materialidade, compreendemos melhor a que manifestamos em nosso comportamento.
que ponto o pensamento vence a matéria. Isto Para retornar ao exemplo da cólera, o fato
mostra que a nossa força não deve ser aquela de tomar consciência de que falamos muito
do corpo, mas sim a da alma. alto e que nossos gestos são discordantes de-
Encontramos uma outra ilustração deste veria nos incitar a agir mentalmente sobre nós
princípio na décima primeira carta do tarô, mesmos para nos acalmarmos. Infelizmente,
onde a força é simbolizada por uma jovem por falta de vontade e de mestria, não é sempre
mulher a qual, apenas com suas mãos, man- que pensamos fazê-lo. Inversamente, quando
tém aberta a boca de um leão. É evidente que fazemos nossas preces ou meditamos, nos de-
a força aqui representada nada tem de física. votamos a permanecer calmos e descontraídos,
Aí também ela simboliza a supremacia da a fim de estarmos receptivos interiormente.
força da alma sobre a do corpo. Isto não sig- Assim, creio que a força do ser humano
nifica que a energia corporal não possa servir reside não apenas em seu poder de concen-
a alguma finalidade espiritual: exatamente o tração mental, mas também em sua aptidão
contrário. Com efeito, o corpo e suas funções de dominar aquilo que diz e faz, isto é, suas
servem de veículo à alma e lhe permitem palavras, seus gestos e suas ações. Agindo
evoluir no contato com o mundo material. assim, ele coloca todo o seu ser a serviço da
Ao falarmos, utilizamos os órgãos da voz alma que evolui por meio dele e contribui po-
para exprimir aquilo em que pensamos. Nesse sitivamente para sua evolução espiritual. Essa
momento, requisitamos uma parte de nossa tomada de consciência é a chave mestra da
força física. A melhor prova é que a intensida- verdadeira força e do domínio de si mesmo.
de de nossas palavras está intimamente ligada Que a força esteja sempre em você e que
ao nosso estado mental e emocional do mo- ela lhe ajude a atravessar a vida com sucesso
mento. Assim, quando estamos exasperados e serenidade. 4

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n REFLEXÃO

Por ZANELI RAMOS, FRC

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A
vida é o tema central desta men-
sagem. Vida, proposta como
mistério. É então importante que
busquemos uma definição ade-
quada – e consentânea com o pensamento
rosacruz – para a expressão O MISTÉRIO
DA VIDA. Procuremos essa definição ques-
tionando de um ponto de vista místico as
palavras vida e mistério.
Que é vida? Todos aqueles que são Mem-
bros da Ordem Rosacruz há algum tempo,
mesmo relativamente há pouco tempo, sabem
que no pensamento místico a noção de vida é

“ Há vida na pedra,
muito mais abrangente do que no pensamento
mais comum ou generalizado da humanidade.
Com efeito, no pensamento mais comum,
a noção de vida é restrita e exclusivamente
na roseira, no cavalo,
aplicada aos seres que apresentam certas no ser humano e
características e manifestam certas funções
especiais, tais como respiração, metabolismo, talvez em seres
estrutura física celular baseada em compos-
tos de carbono ditos orgânicos, e um ciclo de
ou manifestações
existência tipicamente constituído de nasci-
mento, crescimento, maturidade, degenera-
de dimensões
ção orgânica e morte. Os seres tidos como que transcendem
vivos são os que apresentam essas caracterís-
ticas e funções especiais; todos os demais são nossa capacidade
perceptiva…

considerados sem vida ou inanimados.
No pensamento místico, a noção de vida
transcende a que acaba de ser mencionada
ou lembrada. Aqui é interessante atentarmos
para o fato de que transcender significa ul- tido místico, ultrapassa esse caso particular,
trapassar, isto é, passar além de ou exceder os transcende‑o, abrange muito mais.
limites de. A noção mística de vida transcen- Assim, na noção comum, o termo vida é
de a noção comum justamente por ultrapas- reservado à complexa manifestação de fun-
sá‑la, exceder os seus limites. E ultrapassar ções especiais que se observa somente nos
não é passar por fora ou contornar e, sim, reinos vegetal e animal. Já na noção mística,
passar por dentro, por assim dizer, e ir além. esse termo – vida – designa mais essen-
Não se trata, portanto, de que o pensamento cialmente um ATRIBUTO POTENCIAL E
místico negue ou não admita a vida como o TRANSCENDENTE DO PRÓPRIO SER
fenômeno restrito e especial apontado pelo CÓSMICO, manifesto ou não como o com-
pensamento comum. E sim de que, do ponto plexo de fenômenos que constitui o universo
de vista místico, esse fenômeno é justamente que podemos perceber e compreender, em
isso: especial, caso particular; vida, no sen- todos os reinos – do mineral ao humano.

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n REFLEXÃO


esse atributo ultrapassa nossas funções de per-
… o fenômeno cepção sensória e de expressão intelectual, ou
VIDA transcende seja, nossas funções de consciência em geral.
Portanto, um importantíssimo dado a que
nossa consciência; chegamos neste ponto de nossa reflexão é o
de que o fenômeno VIDA transcende nossa
não podemos conhe- consciência; não podemos conhecê‑lo em si
mesmo, em sua natureza absoluta. Depende-
cê-lo em si mesmo, mos sempre de sensações, pensamentos e emo-
em sua natureza ções. Com efeito, alguma combinação de sen-
sações, pensamentos e emoções, é o que cons-
absoluta.

titui a nossa consciência num dado instante
da nossa existência como seres humanos.
É válido, portanto, acrescentarmos a
Em outras palavras, na noção comum, há função CONSCIÊNCIA às características
vida numa roseira e num cavalo, por exemplo, já mencionadas para os seres vivos, con-
e num ser humano, mas não há vida numa pe- siderando a vida hierarquizada em níveis
dra. Segundo a noção mística, há vida na pe- de manifestação do potencial cósmico.
dra, na roseira, no cavalo, no ser humano e tal- Com isto passamos a atentar mais espe-
vez em seres ou manifestações de dimensões cificamente para os seres vivos superiores,
que transcendem nossa capacidade perceptiva capazes de autoconsciência, e particular-
ou sejamsubliminares a ela – quem sabe? mente para o ser humano. Em outras pala-
Vale a pena repetirmos a noção mística de vras, reconhecemos a vida do Ser Cósmico
vida em forma concisa: em todos os reinos que percebemos neste
planeta – na pedra, na roseira, no cavalo
VIDA É UM ATRIBUTO POTENCIAL E –, mas não podemos deixar de notar que
TRANSCENDENTE DE MANIFESTA- ocupamos o ápice da pirâmide de estrutu-
ÇÃO DO PRÓPRIO SER CÓSMICO. ras gradualmente mais complexas e mais
capazes de manifestar o potencial cósmico.
Assim expressa, esta noção nos fornece Uma outra consideração decorrente de
alguns dados importantes que merecem des- nossa constatação da função consciência
taque. Temos a afirmação de que a vida é um diz respeito ao problema existencial que
atributo DO SER CÓSMICO e não de algum nossa própria posição privilegiada, no ápice
ser em particular chamado de vivo, como cer- daquela pirâmide, acarreta. Com efeito, a
ta planta, certo animal, ou determinado indi- autoconsciência de que somos capazes nos
víduo humano. Temos também a afirmação de traz a possibilidade e inevitável propensão
que a vida é um atributo POTENCIAL do Ser de QUESTIONAR A PRÓPRIA VIDA!
Cósmico, ou seja, intrinsecamente indepen- Que somos nós? Que função nossa exis-
dente de alguma manifestação específica. Vale tência cumpre na vida do Ser Cósmico?
dizer que se determinada manifestação física Nosso problema é assim o de buscarmos
cessa, a vida que nela se expressava persiste conhecer cada vez mais, melhor, mais pura
como aquele potencial cósmico. E temos a de- e profundamente a nossa natureza, para
claração de que esse atributo do Ser Cósmico podermos estabelecer mais acertadamente
é TRANSCENDENTE. Isto implica dizer que nossos objetivos na vida, ou nosso objetivo

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maior na vida e o modo de viver capaz de re- E, com o Mistério da Vida, em nossas
alizá‑lo, em consonância com aquela função sensações, nossos pensamentos e nossas
da nossa existência na vida do Ser Cósmico. emoções manifestar‑se‑ão também o Misté-
Para isso, as ferramentas de que dispo- rio da Luz e o Mistério do Amor, num só e
mos são as nossas funções de consciência mais profundo mistério: o Mistério do Ser!
– sensações, pensamentos e emoções – que Tenhamos sempre em mente essa
são relativas e só produzem relatividades. SUPRACONSCIÊNCIA e em nossa vida
Através delas não podemos conhecer nos- busquemos alcançá‑la, não só em momentos
sa natureza mais profunda na vida do Ser especiais de abstração mística, mas, e
Cósmico. Qualquer coisa que elas produ- talvez sobretudo, nos momentos comuns
zam não poderá deixar de ser uma espé- do nosso dia a dia, em nossas sensações,
cie de “tradução” ou versão codificada. nossos pensamentos e nossas emoções.
Nossa esperança repousa então numa Não nos empenhemos tanto em sentir –
alternativa lógica: que sejamos capazes de deixemos Deus sentir em nós!
alguma função superior em que possamos Não nos empenhemos tanto em pensar –
de tal modo SER naquela natureza mais deixemos Deus pensar em nós!
profunda, que nossas funções mais comuns Não nos empenhemos tanto em nos emo-
sejam levadas ou inspiradas a “traduzir” cionar – deixemos Deus emocionar‑se em nós!
bem essa vivência transcendente. Foi a EX- Somente assim nossa vida de sensações,
PERIÊNCIA dessa alternativa suprema, pensamentos e emoções, poderá se transmu-
por parte de alguns indivíduos antes de tar na CONSCIÊNCIA DA VIDA DE DEUS,
nós, que produziu o pensamento místico que é o mistério da NOSSA vida! 4
que inclui o ensinamento de que essa fun-
ção superior realmente existe e pode ser
utilizada ou praticada por nós mesmos.
É nessa natureza transcendente do nosso
ser e em sua função na vida do Ser Cósmico
que se inspira a ideia do MISTÉRIO da
vida. Mistério, porque não podemos
realmente conhecer essa natureza
mais profunda pelas funções
comuns de nossa consciência.
Mas na SUPRACONSCI-
ÊNCIA de que somos todos
potencialmente capazes, po-
demos sim viver, vivenciar
esse mistério, SER nele. E
sempre que o fizermos nossa
consciência será iluminada,
no sentido de que consegui-
rá “traduzir” aquela vivência
transcendente, misteriosa, em
sensações, pensamentos e emoções
consentâneos com o Mistério da Vida.

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n SABEDORIA

Retrato de
Nicholas Roerich
pintado pelo seu
filho Svetoslav
Roerich.

Mensagem especial enviada


das montanhas do Himalaia
Por NICHOLAS ROERICH, FRC

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Nikolai Konstantinovich Roerich, mais conhecido como Nicholas Roerich, nasceu em 9 de
outubro de 1874 em São Petersburgo na Rússia e passou pela transição em 13 de dezembro
de 1947. Foi pintor prolífico - criou quase 7.000 obras de arte, ativista da paz, escritor, ar-
queólogo e filósofo. Foi nomeado três vezes para o Prêmio Nobel da Paz devido sua propos-
ta de acordo para a proteção de tesouros culturais durante tempos de guerra e paz, que se
tornou o Pacto de Roerich, assinado pelos Estados Unidos em 1935 que está vigente até os
dias de hoje. Frater Nicholas conviveu com os nossos Imperatores Harvey Spencer Lewis e
Ralph Maxwell Lewis e serviu como Legado da Ordem Rosacruz no Himalaia.
Quanta sabedoria nas palavras daquele que projetou a Paz em uma Bandeira e tantos
feitos realizou para colocar em prática a ética Rosacruz com um posicionamento firme e
objetivo como o descrito no artigo Mutatis Mutandis, que aqui transcrevemos na íntegra.

A
história nos dá inúmeros exem- dados. Por outro lado, outro historiador, de
plos desde a antiguidade das outra época, pode perceber com a mesma
consequências acarretadas pelas perplexidade e condenação essa preferência
apostas e pelos jogos de azar. óbvia pela especulação e pelos jogos, em vez
Mesmo as páginas mais significativas da his- de se prestar homenagem à figura máxima
tória estão repletas de episódios que contam do império. A mesma história registra a an-
como soberanos se tornaram escravos depois tiga bênção das armas antes de uma batalha
de terem perdido no jogo não só suas esposas mortal em nome do mesmo e único Deus.
e filhos, mas também todo o seu império. Mesmo em tempos mais recentes, podemos
Muitas obras da poesia e da dramaturgia são testemunhar vários países invocando o mes-
construídas sobre essas perversas tentações. mo Deus único para ajudá-los a aniquilar
Até mesmo a grande disputa sobre o tão seus inimigos. Já houve uma época em que
glorioso território de Kurukshetra come- os soberanos de impérios levavam sempre
çou com uma derrota num jogo de dados. consigo seus próprios cozinheiros para evitar
Acreditamos que as condições de vida envenenamento, e tinham uma pessoa espe-
já mudaram há muito tempo. Novos códi- cificamente para provar a comida. Mas, atu-
gos de leis foram elaborados, pressupondo almente, as personalidades de destaque não
atos e suas consequências. No entanto, a têm que lançar mão dos mesmos recursos?
imprensa nos traz a estranha informação Podemos apresentar inúmeras compa-
de que, devido às corridas e ao grande vo- rações desse tipo. Todas elas vão provocar
lume de apostas envolvidas nelas, a come- a mesma exclamação de espanto, mas se
moração do aniversário do Rei foi adiada.
Um historiador pode perceber o fato, com
perplexidade, do ponto de vista do gigantes-
co alcance e consequências de um jogo de

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n SABEDORIA

trata exatamente da mesma coisa, quer está se movendo da mesma forma que as
tenha ocorrido na venerável antiguidade, ondas do mar, apenas um pouco mais deva-
quer aconteça atualmente com um aspecto e gar. Seria de se esperar que a humanidade
costume um pouco diferentes. Isso significa tivesse se acostumado, durante sua longa
que não avançamos muito. Talvez, na anti- existência, ao movimento. E é exatamente
guidade, isso tudo tenha até acontecido de este princípio de relatividade e de movimen-
uma forma muito mais franca e pitoresca e, to que deveria acabar atraindo a atenção da
por isso, redimia até certo ponto a hipocrisia humanidade para sua própria evolução. Foi
e o banditismo subjacentes. Além do mais, o iluminado Marcus Aurelius que escreveu
nos tempos antigos, havia menos escritos o sábio contrato: “Estude o movimento das
hipócritas, e as leis de Namu, Hamurabi e dos luminárias como se você participasse desse
primeiros legisladores eram mais sucintas movimento”. Mas este conselho sábio aca-
embora, em muitos casos, bou não sendo praticado.
essa concisão as tornava Se a humanidade pudesse

“ Nas épocas
muito mais marcantes. se elevar em pensamento
Desde aqueles tempos para os mundos superiores,
antigos muitos novos im-
périos surgiram e caíram
das maiores que evolução rápida e bri-
lhante seria conseguida!
no esquecimento. Houve
tantas mudanças de gover-
calamidades Sei que se fala das mais
novas descobertas, referin-
nantes que os registros da é preciso do-se a elas como sendo a
história dificilmente conse- coroa da evolução. Fala-se
guiriam abarcar todas elas, mudar muito de teorias brilhantes e iso-
e é apenas pelas evidências
deixadas por artistas que,
rapidamente o ladas que são lidas como
passatempo. Finalmente,
através de uma moeda, de que precisa ser fala-se dos hábitos da assim


uma medalha ou de uma chamada “vida civilizada”,
Estela, que nos fornece o mudado. que atualmente disponi-
registro de um nome novo, biliza às grandes massas o
que temos as pistas de um que há algum tempo tinha
ou mais conquistadores que desapareceram. circulação restrita aos governantes e sumos
Mas essas mudanças não são surpreenden- sacerdotes. É verdade que nossas cidades, ao
tes diante das mudanças colossais que estão mesmo tempo em que envenenam o organis-
acontecendo atualmente em toda a superfície mo humano e criam uma geração deformada,
do planeta quando, além da semilegendária, abrem algumas possibilidades de utilização
mas já reconhecida Atlântida, temos todo das novas descobertas. Mas não estamos nos
um grupo de ilhas históricas que desapare- referindo aos sistemas de esgoto da civiliza-
ceram em épocas relativamente recentes. ção. Não estamos nos referindo às verduras
Algumas ilhas desaparecem e outras enlatadas e, muito menos, da música enlata-
praias e montanhas surgem. O solo, que da. Falamos, sim, do que nos impulsiona a
nos parece tão imóvel e firme, na realidade tomar as melhores decisões pela humanidade.

12 O ROSACRUZ · OUTONO 2016


brir mil maneiras de obter
ganhos pessoais, com co-
Bem recentemente nhecimento pleno de que
passamos por uma terrí- esses ganhos ilícitos teriam
vel guerra sem sentido1. uma ação implícita sobre
Estamos cientes de que, as gerações seguintes. E,
nesta década, as conse- se fosse realizado agora
quências da guerra não um plebiscito para ver
só não apagaram, mas, quem é a favor e quem é
ao contrário, se cristalizaram e incharam contra a guerra, é impos-
gerando uma verdadeira tragédia. Passaram sível prever quais seriam os resultados, se a
a constituir uma tragédia quase que irrepa- consulta fosse por voto secreto. É claro que
rável que só pode ser alterada por medidas a grande parte das mulheres votaria contra
indiscutíveis em sua essência. Quantas e a guerra e os círculos cultos, sem dúvida,
quantas vezes ouvimos na escola ou na facul- se revoltariam contra essa tragédia, assim
dade o velho conselho: “Mutatis mutandis” como muitos da classe trabalhadora. Que
– mude aquilo que deve ser mudado. Desde variedade de ramificações têm as raízes da
então presenciamos inúmeras barbaridades mesquinharia, e que razões únicas e tristes
de tempos de paz e de guerra invadindo serão apresentadas para que se retorne nova-
nossas vidas. A humanidade pode mais uma mente ao reino da irresponsabilidade em que
vez ficar certa de que, no mesmo momento tudo é permitido e tudo pode ser explicado
em que aqueles mais sinceros caíam nos pela participação hipócrita num trabalho em
campos de batalha como vítimas das cala- prol da coletividade. Dá medo só de lembrar
midades do mundo, as adaptações infames
engordavam traiçoeiramente com o sangue
dos outros. Que inventividade diabólica era
manifestada pelos “das trevas” para desco-

OUTONO 2016 · O ROSACRUZ


13
n SABEDORIA


tal sonha em receber o prêmio de química do
É preciso que mesmo Comitê que concede o prêmio pela
os melhores, paz? Mesmo nos dias de hoje alguns sonham
com uma determinada conquista da ciência
os Iluminados, como sonhariam – através de um despacho
fratricida – dizimar totalmente certas regiões
se unam num habitadas! E é possível que algum outro cien-
tista “iluminado” sonhe com o envenena-
esforço inadiável mento “bem-sucedido” de todas as fontes de
água, para que tudo que esteja vivo pereça!
para formar um A isso pode-se reagir dizendo que não são os
bloco de oposição cientistas que estão inventando essas forças
assassinas, mas que são os técnicos e os enge-
contra a escuridão, nheiros que o fazem. Não, caros leitores, sem
o conhecimento científico essa brutalidade
a ignorância, a assassina não poderia ser inventada. E, por
acaso, não foi um cientista que descobriu o
distorção e a raio da morte e que, por ordem da própria
traição.

justiça especial, partiu para as regiões infer-
nais juntamente com sua invenção venenosa?
Mas as coisas poderiam ser mais sim-
das negociações criminosas por matérias ples se os cientistas fizessem um juramento
podres ou até mesmo inexistentes. É horrível semelhante ao que fazem os médicos no
para a dignidade humana olhar para trás sentido de não permitirem que saiam de
e ver documentos fraudulentos, acusações seus laboratórios quaisquer descobertas
criminosas e ordens que colocaram em pe- prejudiciais. Principalmente porque mui-
rigo a vida de muitos milhares de pessoas. tos desses gases e raios terríveis poderiam
“Mas isso já passou”, poderão dizer. E, – com a adição de um ingrediente – se
desde então, já tivemos um grande número tornar de fato benéficos à humanidade.
de fatos, conferências e acordos econômicos. Mutatis Mutandis! Nas épocas das maio-
Planos desse tipo já foram realizados, mas res calamidades é preciso mudar muito
como resultado temos uma crescente de- rapidamente o que precisa ser mudado. E,
pressão. Navios velhos foram desarmados e em primeiro lugar, deve-se transformar o
mesmo destruídos para serem substituídos que é mais prejudicial ou de menor utili-
por construções ainda mais perniciosas. Até dade em algo que seja benéfico. É aí que
nas lojas tomamos o cuidado para que o ar está a verdadeira arte da transmutação dos
seja ozonizado, mas, ao mesmo tempo, os Rosacruzes. Não façam o papel de bobos,
laboratórios científicos têm utilizado sua como se não soubessem o que é benéfico.
infraestrutura para inventar novos gases No fundo de seu coração, todo homem sabe
venenosos. Não é verdade que o cientista da perfeitamente bem o que é benéfico para to-
área da química que inventou o gás mais le- dos, o que é benéfico para os mais próximos

14 O ROSACRUZ · OUTONO 2016


loucura já tentou imaginar uma corporação
que inseriria um tubo até as profundezas da
Terra para ser preenchido com explosivos
que arrebentariam o planeta numa explosão
sem precedentes. É um plano louco. Mas,
na sua inconsequência, ele merece muito
mais atenção do que as invenções dos no-
vos gases letais. E a tolerância velada aos
narcóticos que deterioram gerações inteiras
e que dizimaram nações inteiras com pas-
sados gloriosos – será que esse flagelo da
humanidade, que é mais perigoso do que
a sífilis, o câncer e a tuberculose, não deve
ser exterminado para sempre? Será que
cada um de nós não é capaz de listar um
grande número de problemas que merecem
ser extirpados imediatamente da vida?
É preciso que os melhores, os Iluminados,
se unam num esforço inadiável para for-
mar um bloco de oposição contra a escu-
ridão, a ignorância, a distorção e a traição.
É preciso que os melhores se unam em
todos os países não para fins de desenvol-
ver medidas policiais e contra-ataques que
requerem proibições, mas em nome da Luz,
A Bandeira da Paz na pintura intitulada da Vida e do Amor. Sentindo no coração a
“Madona Oriflama”, por Nicholas Roerich. premência da evolução das Culturas, essa
luminosa Fraternidade dos Iluminados
precisa agir no sentido de deixar de lado os
e, ao mesmo tempo, o que é benéfico para formalismos insignificantes e, para a bem-
o indivíduo! Não há qualquer momento no -aventurança da humanidade, precisa mu-
processo de criação em que seja necessária dar ativamente o que precisa ser mudado.
a autodestruição. O verdadeiro bem cole- Mutatis Mutandis!
tivo é também o bem do indivíduo, pois
o indivíduo faz parte da comunidade. – Himalaia, 1933. 4
Mudando aquilo que é prejudicial para
algo benéfico, em outras palavras, substi- Nota: 1. Segunda Guerra Mundial, ocorrida durante 1939 a 1945.

tuindo a destruição criminosa pela cons-


trução, faremos aquilo que é necessário não
para a civilização da evolução, mas para a
cultura da evolução. Alguém numa crise de

OUTONO 2016 · O ROSACRUZ


15
n SAÚDE

Por LINO MENSATO FILHO, FRC*

16 O ROSACRUZ · OUTONO 2016


C
ertamente todo estudante já positiva, e, por isto, a Acupuntura tem um
leu alguma coisa a respeito da vasto campo de ação, visto que é justamente
Acupuntura. Trata-se de uma com a energia positiva que ela trabalha.
terapêutica oriental milenar, que Vejamos como a Força Vital é recebida e
vem se desenvolvendo conside­ravelmente utilizada pelo organismo que se encontra em
no Ocidente a partir da década de 70. condições normais. Ao chegar aos pulmões,
Todavia, carece-nos de conhecer o lado através da respiração, as hemácias captam,
místico da Acupuntura, que jamais foi apre- além do oxigênio, parte da mesma. Em se-
sentado a outros estudantes, e que não é co- guida, o sangue assim vitalizado passa pelo
nhecido pelo mundo em geral. Mas, antes de coração e é distribuído por todo o corpo
falarmos da Acupuntura propriamente dita, através das artérias. Outra parte dessa Força
é neces­sário termos uma noção do que os Vital é captada pelas glândulas endó­crinas
antigos chineses sabiam a respeito do corpo (especialmente a pineal, a hipófise, e a tiroi-
humano. Diziam eles que nosso organismo de), sendo transferida depois ao sistema ner-
é mantido por três tipos básicos de energia: voso autônomo. Uma terceira parte da mes-
primeiro, a energia da herança física que ma energia parece ser captada diretamen­te
passa dos pais aos filhos através das gerações. pelo sistema nervoso autônomo, que é
Segundo, a energia negativa que recebemos formado por duas cadeias de gânglios com
dos alimen­tos, da água e do contato com a aparência de rosário, e que estão dispostos
Terra. E, finalmente, a energia positiva, que em ambos os lados da coluna vertebral. O
recebemos do ar, pela respiração. O ar, além sistema nervoso autônomo está ligado a to-
do oxigênio e outros gases, contém de fato dos os órgãos e partes do corpo, que são por
uma energia que não é química, e que ainda ele nutridos de vitalidade, vis-
não foi reconhecida pela Ciência dito “ofi- to ser ele o grande distri-
cial”. Referimo-nos à energia que as Escolas buidor da Força Vital.
Místicas atuais chamam de Força Vital; que Quando o or-
os antigos filósofos gregos chamavam de ganismo está
Pneuma; os antigos hindus, de Prana e, há doente, pode
mais de cinco mil anos, os chineses chama­ ser necessário
vam de Ki. Esta energia que existe no ar é que se forneça
justamente a que a Acupuntura utiliza, e que uma quantida­
logo estudaremos em detalhes. de extra de
No corpo humano só haverá a condição Força Vital. Isto Glândula
que chamamos de saúde quando estas três pode ser feito de pineal
energias estiverem bem equilibradas entre si. diversas maneiras.
Quando alguma delas se desequilibra, insta­ A primeira consiste
la-se no corpo a condição que chamamos de em se alcançar um estado
doença. Uma vez que a Acupuntura traba- de Paz Interior e Contentamento com a vida,
lha exclusivamente com a energia positiva, pois, aquele que alcança estas condições re-
não é indicada para tratamento de doenças tém tanta quanti­dade de Força Vital que isso
resultantes de desequilíbrio das energias se manifesta fisicamente como ótima saúde
da herança física ou negativa. Entretanto, geral, e, na aura, como forte magnetismo
na vida do dia a dia, a grande maioria das pessoal. Na verdade, este é o modo mais efi-
doenças resulta de uma carência da energia ciente de se obter saúde, mas também o mais

OUTONO 2016 · O ROSACRUZ


17
n SAÚDE

difícil, porque requer autêntico domínio da nervoso autônomo, provocar descontroles


vida. Esta é uma condição que nós, como ou doenças em qualquer parte do organis-
estudan­tes Rosacruzes, temos a oportunida- mo, conforme a natureza de cada pessoa.
de de obter, como ninguém mais, à medida Em conclusão, esta é uma Lei da Vida:
que atingimos os Graus mais elevados. “Não pode haver saúde onde não há har-
Outras formas de se reter mais Força monia emocional”, e isto é tão verdadeiro
Vital (tratamento por contato, tratamen- agora, como foi no passado, e continuará
to a distância, e técnicas respiratórias) sendo no futuro, pois, a Verdade é eterna.
são explicadas nas monografias oficiais. Existem outras causas de menor impor­
Finalmente, a última maneira de se aumen- tância que podem provocar a diminuição
tar a Força Vital do organismo consiste da Força Vital no organismo. Uma delas é
em fazer-se um pequeno ferimento (ponto a lesão de nervos, de modo que o órgão ou
de acupuntura) na pele. Cinco mil anos a área do corpo que recebia esses nervos
atrás, os antigos chineses já sabiam que fica enfraquecida em sua vitalidade. Outra
essa energia se concentra na parte do corpo causa é a bebida alcoólica. O álcool é uma
que recebe um ferimento, e este conheci- substância agressiva ao corpo humano que,
mento é a base de toda a Acu­puntura. durante toda a vida, procura neutralizar
Agora precisamos saber por que a Força as agressões que o organismo sofre, e, para
Vital pode faltar no organismo, levando ao tanto, gasta parte dessa energia que chama­
aparecimento da doença. Eis aqui a principal mos de Força Vital. Assim, numa pessoa
causa (em verdade, quase que a única): os bem saudável que toma uns aperitivos de
estados emocionais negativos. Como dis­ vez em quando, seu estado de saúde não se
semos há pouco, a paz interior e o conten­ altera, porque o sistema nervoso simpático
tamento com a vida são as maneiras mais atua de mil modos, e anula os efeitos nocivos
eficientes de se obter saúde. Por conseguinte, do álcool. Entretanto, a situação é outra se
é fácil compreendermos que o inverso, isto a pessoa já estiver doente, isto é, se seu nível
é, os conflitos interiores e a insatisfação com de Força Vital estiver abaixo do normal.
a vida são as fontes geradoras de doenças. Se um doente toma bebida alcoólica, seu
Todos os tipos de angústia, depressão, in- sistema nervoso autônomo se vê obrigado
satisfação e aborrecimento podem, depri­ a neutralizar os efeitos do álcool, gastando
mindo o fluxo da Força Vital pelo sistema parte da Força Vital, e piorando a doença.
Deixando a saúde de lado por um mo-
mento, devemos prestar uma informação

“ A Acupuntura importante, especialmente para os estudan­


tes de misticismo: “Dentre todos os órgãos
é uma maneira que podem ser afetados pelo álcool, o cérebro
é o mais prejudicado”. O cérebro apresenta
muito eficiente de diversos setores responsáveis pelas várias
funções do organismo; mas, também apre-
se dirigir a Força senta setores que estão relacionados com
Vital para um local as funções superiores da mente, e com a
percepção extrassensorial que todo estu-
do organismo.

dante Rosacruz se esforça por desenvolver. E
acontece que quanto mais refinada a função

18 O ROSACRUZ · OUTONO 2016


cerebral, tanto mais inibida se torna ela pelo
álcool. Em outras palavras, quanto mais
aperitivos tomarmos, tanto menores serão as
chances de sermos místicos bem-sucedidos.
Assim, depois destas considerações ini-
ciais, já podemos saber o que é a Acupun­
tura. Conta a História que seus princípios
foram estabelecidos pelo Imperador Chin
Nong, há mais de cinco mil anos. A partir de
então, foi ela sendo aperfeiçoada pelas gera-
ções seguintes. Os antigos chineses sabiam
que a Força Vital se concentra num local
ferido, e descobriram que não há necessidade
de realmente se ferir a pele, no sentido de
cortá-la ou dilacerá-la, para que isto ocor-
ra. Descobriram também que há muitos
pontos na pele que, uma vez picados com
agulhas, têm a capacidade de concentrar a
Força Vital, no próprio ponto, ou num órgão
ligado ao mesmo por um nervo. Isto quer
dizer que maior vida ou vitalidade pode ser
dirigida a esses locais, sem que a pele seja
de fato lesionada. Os chineses fizeram então
mapas desses pontos, que nada mais são do
que ramos nervosos estrategicamente locali­ Os meridianos no corpo humano
zados. Se traçarmos uma linha unindo os
diversos pontos relacionados com um único
órgão, teremos o que em Acupuntura se cha- Neste caso, o coração dispara, bate acelerada-
ma de Meridiano. Assim, temos o Meri­diano mente por alguns momentos, e isto pode se
do coração, da bexiga, do estômago, etc. repetir várias vezes ao dia. Para regularmos o
Vejamos como podemos dirigir a Força ritmo cardíaco, naturalmente não poderemos
Vital para uma região doente. Se um homem espetar agulhas no coração. A técnica deve
apresenta reumatismo no ombro direito, fa- ser outra. Sabe-se que desde o nascimento
zemos picadas de agulhas em pontos desse cada órgão está ligado à pele através de ner-
ombro, de modo que o sistema nervoso autô- vos. Os pontos de acupuntura são os locais
nomo ali concentre essa energia, vitali­zando em que esses nervos estão bem acessíveis às
assim os tecidos e eliminando a doença. De agulhas. Ao conjunto de pontos correspon-
modo geral, para toda doença que provoque dentes a um mesmo órgão, como dissemos
dor na superfície do corpo, as picadas de anteriormente, dá-se o nome de meridiano.
agulhas são feitas na região da própria dor, No caso do coração, seu meridia­no corres-
porque para lá se dirige a Força Vital, envol- ponde ao trajeto do nervo cubital, que fica
vendo a região doente. Todavia, é preciso ao longo do braço. Neste trajeto, há diversos
lembrar que nem toda doença apresenta dor. pontos que podem ser picados, de modo que
Exemplo disto é a taquicardia (palpitações). a Força Vital não se concentra apenas ali, mas

OUTONO 2016 · O ROSACRUZ


19
n SAÚDE

também se dirige ao órgão correspondente fazer. De modo geral, toda doença tem um
relacionado a esse ponto, que, no presente ponto em sua evolução a partir do qual tor-
caso, é o coração. Assim, é fácil eliminarmos na-se irreversível. Assim, quanto mais cedo
as palpitações por meio de picadas em pon- iniciarmos o tratamento pela Acupuntura,
tos das mãos próximos do dedo mínimo. Isto tanto melhor e mais rápido será o resultado.
não é teoria, e sim um fato de utilidade práti- Quarto: o paciente apresenta a doença há
ca para aqueles que trabalham com esta arte. muitos meses, mas não em estado avança-
A Acupuntura chinesa clássica é uma do. Começamos o tratamento e o paciente
terapêutica artesanal em sua técnica. melhora. Passa bem algum tempo, e torna
Atualmente, porém, já podemos limitar a piorar. O tratamento prossegue. Ele torna
uma sessão de acupuntura a apenas uma a melhorar e, depois, a piorar novamente.
ou duas picadas na pele, graças à eletri- E isto continua, como numa rosca sem fim,
cidade que é ativada pelas agulhas. Os mesmo que o tratamento dure um ano ou
antigos chineses, por não disporem de mais. Analisando o que se passa com pa-
eletricidade, utilizavam dezenas de agu- cientes deste tipo, descobrimos que eles têm
lhas, em sessões bem mais demoradas. uma vida por demais emotiva. Falando mais
Em conclusão, a Acupuntura é uma ma- claramente, podemos dizer que são almas
neira muito eficiente de se dirigir a Força que ainda não descobriram a Paz Interior e
Vital para um local do organismo. Mas, o o contentamento com a Vida. Nestas situa-
que deveremos esperar da Acupuntura? Que ções, nem a Acupuntura ou qualquer outro
pode ela realmente fazer na vida prática? tipo de tratamento pode dar uma solução
Para responder a estas perguntas, tome- permanente ao problema. Não estamos di-
mos o exemplo dos reumatismos, que são as zendo que esses casos não tenham solução.
doenças mais comuns em todo o mundo. A A solução existe, mas está dentro da própria
medicina tradicional os tem tratado com me- personalidade. Estas são pessoas que devem
dicamentos e fisioterapia, alcançando certa seguir um caminho de desenvolvimen­to pes-
margem de sucesso. A Acupuntura também soal e domínio da vida como a nossa Ordem
trata os reumatismos, mas com resultados Rosacruz, AMORC apresenta. Aqui tenho o
superiores. Entretanto, isto não quer dizer prazer de transcrever algumas palavras da
que ela seja infalível. Quando começamos Soror Djicéa Nobre: “Paz Profunda – quanta
um tratamento, a evolução do paciente irá harmonia nestas duas palavras! Nada mais
se enquadrar num dos tipos que a seguir maravilhoso, mais sublime que a mensagem
descrevemos. Primeiro: o paciente apresenta que elas encerram, quando são proferidas do
a doença há apenas alguns meses. Para se fundo do coração. São como uma melodia
obter a cura, serão necessárias cinco ou seis que agrada o ouvido e deleita a Alma! A Paz
aplicações, feitas com intervalos de alguns In­terior é realmente o maior bem que pode-
dias. Segundo: o paciente apresenta a doen- mos desejar ao nosso semelhante. Agora que
ça há muitos meses ou alguns anos. Neste conheço o sentido destas palavras, desejo à
caso, serão necessárias trinta ou quarenta humanidade inteira – Paz Profunda”. 4
aplicações semanais. Terceiro: o paciente
apresenta a doença há muitos anos; o reu- * “Conheci o Frater Lino Mensato Filho, médico de formação
na década de oitenta e assisti algumas palestras sobre o
matismo já avançou de tal forma, incluindo tema da Acupuntura, entre elas a de Acupuntura Eletrônica,
deformidades, que não é mais reversível. que ele era especialista.”

Nestes casos, a Acupuntura nada poderá – Hélio de Moraes e Marques, Grande Mestre da GLP.

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OUTONO 2016 · O ROSACRUZ
21
n MÚSICA

“O Teclado
Cósmico”, por
Nicomedes
Gómez

Por GILBERT BASTELICA, FRC*

22 O ROSACRUZ · OUTONO 2016


O poder místico
do canto “ Tudo é vibração,
porém o caráter
Não é absolutamente necessário acessar um
ensinamento secreto para tomar ciência de
vibratório das
que o canto possui um poder místico. Qual-
quer dicionário de língua francesa testemu-
coisas não nos é
nhará o seguinte a respeito: sempre facilmente
– Cantar tem por raiz cantare e significa
“produzir com a voz sons melodiosos”.

– Encantar vem de incantare e se define


perceptível.

associação emana um poder que ajuda a su-
por “pronunciar fórmulas mágicas, perar a tristeza ou o caráter trágico de uma
cantadas ou recitadas, para obter-se situação e a empreender uma atitude corajosa
um efeito sobrenatural”. Esse verbo e nela perseverar.
dá a ideia de “preencher com um “Tudo é vibração”, conforme o sabemos.
vivo prazer, seduzir, entusiasmar”. O Porém, o caráter vibratório das coisas não
prefixo in significa aqui a mistura e nos é sempre facilmente perceptível. Longe
a incorporação de uma intenção que disso. A densidade dos objetos sólidos, por
assegura a eficácia da fórmula. A relação exemplo, não nos dá diretamente a sensa-
entre o canto e o encantamento afirma- ção tátil vibratória daquilo que os sustenta.
se, pois, já na origem etimológica. Nossa percepção dos odores também não
a evoca. O gosto tampouco. Ainda que co-
Deixemos agora o vocábulo “magia”, nor- nheçamos intelectualmente o duplo aspecto
malmente discriminatório, e substituamo-lo corpuscular e ondulatório da luz visível
por “efeito paranormal” que, na terminologia aos nossos olhos, somos evidentemente
rosacruz, se chama “poder místico”, e eis que incapazes de sentir, como tais, as vibrações
então essa relação se consolida. A língua ale- extremamente rápidas que a produzem.
mã também é bastante alusiva quando utiliza O som, e mais particularmente o som
as palavras Stimme para “voz” e Stimmung cantado, constitui de certa maneira a exceção
para “estado de alma, estado de ser, esta- da regra. Algumas frequências promovem ao
do de espírito”; sich einstimmen é utilizado mesmo tempo uma sensação audível e uma
para “harmonizar-se” e etwas stimmt para sensação vibratória tátil. Nossa própria voz
designar uma coisa justa. Não é necessário, nos é, portanto, perceptível de duas maneiras:
portanto, insistir no caráter privilegiado da por um lado, ouvindo-a com nossos ouvidos
relação que têm os alemães com a música… e, por outro, colocando, ao cantar, uma das
Todos os fenômenos musicais geram um mãos em nossa garganta.
poder místico e não apenas o canto. O canto, Contudo, ainda mais do que a percepção
todavia, é a relação mais direta que o homem de vibrações, é a harmonia vibratória que o
pode ter com a música e com seu poder canto permite encontrar. Ora, a harmonia
místico; ele facilita a comunicação entre o vibratória é obtida pelo ajuste de diferentes
homem e a parte divina que há nele. Desta componentes sonoros.

OUTONO 2016 · O ROSACRUZ


23
n MÚSICA


Todos dispomos do instrumento mais
expressivo, mais acessível e mais cômodo –
mas que é também o mais delicado e, sem
dúvida, o mais difícil de se denominar à
perfeição: nossa voz.
Efetivamente, um som nunca está so-

ça com uma inspiração e se termina com o
zinho: ele vibra com toda a sua família de último suspiro. Místicos disseram que uma
harmônicos. Os harmônicos são múltiplos do encarnação humana corresponde a uma res-
som fundamental. São vibrações dentro da piração divina: Deus insufla a vida terrestre
vibração. As proporções desses componentes e a ela põe termo aspirando as criaturas de
constituem aquilo que os músicos chamam volta para seu seio. No intervalo entre seu
de “timbre” de um som. Para simplificar, di- primeiro e seu último respiro, o homem pode
gamos que é aquilo que permite diferenciar deixar a respiração funcionar automatica-
o la do clarinete do la de um trompete e re- mente, mas pode também, quando o desejar,
conhecer uma voz no meio de outras. Além colocá-la sob a direção de sua consciência
disso, um som ressoa num volume sonoro. objetiva e criar com ela vibrações sonoras
Esse volume sonoro – esse ressoador – o harmoniosas por sua intenção expressiva.
afeta bastante conforme suas dimensões, A natureza do ar se articula entre o pla-
sua forma e a natureza de seus componentes no material e o mundo sutil. A respiração
materiais. Este ou aquele harmônico se en- é uma função de nosso corpo que pode ser
contrará dessa forma amplificado ou abafado, voluntária ou involuntária. É, portanto, a
podendo em certos casos manifestarem-se conjugação de dois fatores, cada um deles
harmônicos que não existiam na emissão do bivalente, o ar e a respiração, que dá origem
som em questão. à voz humana. O canto, terceiro ponto ma-
O ar conduz a vibração sonora. Ele é o nifestado, tem, sem dúvida, algumas pro-
veículo do som. É sua vibração num regis- priedades particularmente poderosas.
tro de frequência definido que percebemos Todos dispomos do instrumento mais
como som. Na ausência de atmosfera, o som expressivo, mais acessível e mais cômo-
não existe. No meio humano, o ar é a ma- do – mas que é também o mais delicado e,
nifestação mais tênue da matéria que nos é sem dúvida, o mais difícil de se dominar
perceptível, constituindo uma fronteira aber- à perfeição, pois revela justamente a alma
ta entre o mundo material e o mundo ima- humana: nossa voz. Não dizemos que um
terial (muitas metáforas poéticas se referem choque emocional nos deixa “sem voz”?
a isso…). É um elemento ambivalente que O poder místico do canto é uma realida-
constitui para nós um acesso direto à energia de. Cabe a cada um, por meio de uma prática
cósmica por meio da inspiração. Essa energia regular, desenvolvê-lo e cultivá-lo, pois o
cósmica nos foi transmitida no momento de canto desenvolve seu poder – seja ele profano
nosso nascimento: nossa encarnação come- ou sagrado. Além disso, a busca sincera da

24 O ROSACRUZ · OUTONO 2016


beleza não se assemelha a um ato sagrado? por graves lesões cerebrais, e que habitual-
Ainda mais se for efetuada coletivamente. mente não se comunicam ou o fazem muito
Tive a oportunidade e o privilégio de re- pouco, relaxar e esboçar um sorriso. Para
ger regularmente cantores amadores (coralis- essas crianças, cantamos cantigas adequadas
tas adultos no âmbito de atividades culturais à sua idade e oferecemos tranquilas impro-
agremiadoras, crianças escolarizadas de 10 visações vocais, um pouco no espírito das
a 11 anos, pessoas com grandes e pequenas polifonias espontâneas que existem nas cul-
deficiências, cuidadores de enfermos) e de turas autênticas de muitas regiões do mundo.
testar as reações deles à seguinte situação. Quando nossas vozes formam os primeiros
Os cantores são dispostos num círculo ou acordes, a atenção é total e os efeitos positi-
semicírculo. Um a um são convidados a se vos se produzem imediatamente. A concor-
posicionarem no centro do círculo e rece- dância tangível das proporções frequenciais
bem dessa forma, na melhor situação que é, ao que parece, perceptível para “o lado
se possa imaginar, a harmonia vibratória de cá” da fronteira dos limites patológicos
emitida diretamente pelo canto de seus co- da consciência objetiva. Em contrapartida,
legas. Nesse caso, ocorre um acesso físico assim que reproduzimos para essas mesmas
direto e imediato à harmonia vibratória do crianças gravações vocais similares, as mani-
canto. A constatação desse equilíbrio sonoro festações de contentamento são bastante ate-
pode ser lida nos semblantes repentina- nuadas, como se carecessem da presença efe-
mente radiosos e literalmente maravilhados tiva da intenção consciente do instante, que
dos participantes do experimento. Atesto alimenta os cânticos que lhes oferecemos.
aqui que todas as pessoas manifestaram A harmonia vibratória produzida pelo
seu entusiasmo. Essa reação é unânime. canto existe e podemos facilmente constatar
Pude ver o semblante de crianças afetadas o bem-estar que ela produz. Naturalmente,
quando a ela acrescentamos uma forte
intensão sagrada, os resultados obti-
dos são ainda mais significativos.
© MARSHALL LEFFERTS – WWW.COSMOMETRY.NET

A B C D E F

Diagrama mostrando as relações intervalares entre as


notas musicais e os padrões geométricos resultantes:

A. Quintas; B. Tons inteiros; C. Terças menores; Logaritmo demonstrando a enarmonia


D. Terças maiores; D. Cromática; E. Trítonos entre as notas musicais.

OUTONO 2016 · O ROSACRUZ


25
n MÚSICA

O “monocórdio
cósmico”, de
inspiração
“ O cantar
simples e
natural já
pitagórica
e conforme
imaginado por
Robert Fludd em
contribui para
1617, ilustrava
uma associação a melhora das
condições
entre o universo
e os intervalos
musicais.

vibratórias.
Essa harmonia
produzida
localmente
estende seus
efeitos sem
limites. É
o conjunto
da Criação
que dela se

Todavia, o cantar simples e natural já


beneficia.

Se a forma aparente de certas músicas
contribui para a melhora das condições atualmente na moda é por vezes violenta
vibratórias que afetam os que cantam e e irreverente, não devemos nos esque-
os que escutam. Essa harmonia produ- cer do essencial: os incidentes sérios são
zida localmente estende seus efeitos sem muitíssimo raros nos shows de rock. Eu
limites, bem para além das distâncias fí- sugiro fazer a comparação com os vários
sicas onde ela é ouvida e, definitivamente, incidentes que infelizmente ocorrem em
em proporções modestas mais reais, é o certos eventos esportivos. Pode-se constatar
conjunto da Criação que dela se benefi- que essa expressão musical ensurdecedora
cia. Todos conhecemos o provérbio que mais canaliza o excesso de energia do que
diz que “a música acalma as feras”1. realmente encoraja a violência e que defini-
À cada época a sua expressão popular, tivamente é, para uma certa juventude, uma
com seus aspectos positivos e negativos. saída barulhenta, embora bastante inofesi-

26 O ROSACRUZ · OUTONO 2016


va. Naturalmente há exceções e a qualidade
vibratória nem sempre é de alto nível nessas A origem do canto
manifestações, mas eu não me recordo Desde quando cantamos? Não existe resposta
tampouco da java2 ter sido em seu tempo para esta pergunta. Foram encontradas flautas
uma música de grande valor espiritual! de osso com três ou quatro furos cuja data varia
O canto por vezes acompanha as tragé- entre trinta e cinquenta mil anos, talvez mais!
dias da vida. Ele pode ser o último recurso, Sem dúvida, o canto é anterior. Mas a que en-
como para os escravos que rebocavam os tão poderia se assemelhar esse primeiro canto?
navios sob o zurzir do chicote ao longo do Gosto pessoalmente de pensar que uma
Mississippi; a última marca da dig- mãe pré-histórica, tentando acalmar seu filho
nidade humana que ainda se afirma, assustado pela tempestade ou por qualquer
quando tudo está perdido. Após o nau- outra ameaça imediata, acompanhava es-
frágio do Titanic, as mulheres e crianças pontaneamente o balanço instintivo (?), do
que haviam conseguido se distanciar qual conhecia os efeitos calmantes, de sons
nos botes salva-vidas contaram que os vocálicos intencionalmente doces e recon-
homens que permaneceram a bordo fortantes. Começando com a boca fechada,
cantavam, enquanto o navio ia inexora- numa espécie de “M”, estes sons se prolon-
velmente a pique nas águas sombrias. gavam naturalmente, a mandíbula relaxando
Consolo, entusiasmo, distração, sociabi- para dar mostra da ausência de perigo, e se
lidade, apaziguamento, coragem… ouvimos abriam finalmente em “A”s cada vez mais
muitas virtudes acerca do canto, pois sabe- profundos. O primeiro som vocálico “MA”
mos poder contar com esse precioso e pres- acabava de nascer, e com ele o primeiro canto
tativo aliado. Mas ele também pode, por místico calmante da história do mundo…
fim, e para nós o mais importante, contri- Outros cenários são possíveis e muito tempo
buir para a elevação da consciência daque- se passará antes que sejam contraditos. Apro-
les que o praticam e que o escutam e parti- veite para inventar o seu, sem inibições! Em que
cipar intensamente no processo iniciático. momento específico aquilo que não era prova-
Você conhece alguma religião, ordem velmente outra coisa senão sinais de transmis-
iniciática ou movimento qualquer que te- são tornou-se uma espécie de música? Sem dú-
nha por objetivo a evolução das consciên- vida, jamais o saberemos. Mas no fim das con-
cias e fazê-las “descolar” do materialismo tas não seria mais útil questionarmo-nos a res-
e que se prive da música e mais particular- peito daquilo a que chamamos música e canto?
mente do canto para atingir essa meta? Será
que existe? Pessoalmente, não conheço!
O que melhor do que se empenhar A natureza do canto
para mostrar uma evidência? Que o O que é cantar, exatamente? Os pássaros can-
canto é um vetor importante do po- tam? Cantam ao menos se comparado àquilo
der místico, não há dúvidas. Convém, que “entendemos” por cantar? Será que eles
pois, agora questionarmo-nos sobre: não emitem antes sons funcionais e codifica-
dos para cumprir certas funções, sobretudo a
– sua origem: desde quando cantamos? de aproximação amorosa (não vemos aqui a
– sua natureza: o que é cantar? utilização do canto e de seu poder místico para
– sua prática: como cantar e quem pode transformar o psiquismo do indivíduo do sexo
cantar? oposto em vista da perpetuação da espécie)?

OUTONO 2016 · O ROSACRUZ


27
n MÚSICA

São sem dúvida os nossos ouvidos hu- foi destinado unicamente à satisfação da
manos que qualificam como cantos os sinais audiência. Longe disso! O consumidor so-
biológicos emitidos sem qualquer intenção berano a quem se deve agradar a qualquer
estética. Ou ainda, em outras palavras, basta custo é um fenômeno recente e, espero,
que uma consciência musical humana escu- efêmero na história das relações entre os
te com interesse emissões sonoras para que que cantam (ou tocam) e os que escutam.
estas mereçam o nome de canto? Um vasto Contudo, não subestimemos o conceito
campo de investigação sobre o qual cada um de estética, cuja origem grega, aisthêtikos,
poderá refletir. A definição de música talvez significa “que tem a faculdade de sentir ou
se esconda na resposta a essa pergunta. perceber a beleza”. Trata-se então de ir além
Os cantos pigmeus, agora facilmente dis- do utilitário. Assim como a dança transcen-
poníveis, dão testemunho de concepções mu- de o gesto funcional do corpo ao produzir
sicais muito elaboradas e bastante agradáveis voluntariamente a beleza, o canto ultrapassa
de se escutar. Mas o que talvez seja mais per- generosamente o sinal vocal portador de uma
turbador são os chamados vocais que enviam mensagem. Ele é uma ação de graças – uma
esses homens quando formam um círculo resposta reconhecedora e jubilosa.
que se fecha ao redor dos animais que eles Após as origens e a natureza do canto,
caçam. Esses chamados são estruturados de abordemos agora o assunto de sua prática.
tal maneira que nossa compreensão musical
encontra neles uma audição digna de inte-
resse. Trata-se para nós de “música”. Os pig- A prática do canto
meus, ao que parece, riram bastante ao sabe- Já estou ouvindo aqui e acolá: “Sou desa-
rem disso, pois para eles aquilo não passa de finado!”, ao que respondo: “Se você não
dispositivos sonoros destinados a assustar os cantar nunca, não estará jamais à vontade
animais e nada mais! Eu pessoalmente testei para cantar! Além disso, muitas pessoas são
a eficácia destes sinais num cão, que ficou de persuadidas a cantar desafinado simples-
fato impressionado pela emissão… mente porque memorizam imperfeitamente
E o que dizer sobre a vontade consciente melodias ouvidas ocasionalmente embora
de se fazer música e que diferença fundamen- sem tê-las trabalhado a sério. Um pouco de
tal existe entre essa vontade e o emprego em- insistência as teria rapidamente convencido
pírico de sons para fins utilitários? Eis aí mais do contrário. A real proporção de pessoas
uma pergunta sem resposta. que cantam desafinado após haver verda-
Aquilo que podemos talvez ousar afirmar deiramente tentado é ínfima, na ordem de
sem muito risco de erro é que o funcional duas a cada mil. De toda maneira, afinados
precedeu o estético. O poder místico do som, ou não, todos temos o direito de cantar,
e mais particularmente o do canto, foi posto uma vez que cantar nos faz bem. Cabe a
em prática muito antes de que se tratasse de nós mesmos reconquistar essa prática”.
se sentar confortavelmente na poltrona para No passado, até meados do século XX,
se preparar para ouvir um concerto vocal. cantar era considerado uma atividade na-
Esse ato que consiste em escutar música num tural. Naturalmente, uns cantavam me-
concerto não se remete à noite dos tempos. lhor do que outros, mas todos cantavam
Pode-se mesmo dizer que ele começou na diariamente. No trabalho, o canto era um
época do Renascimento, ou seja, há cerca companheiro que evitava o remoer de
de meio milênio… O canto nem sempre ideias morosas. Ele distraía da monotonia

28 O ROSACRUZ · OUTONO 2016


do gesto e fazia esquecer um pouco da fa-
diga do corpo. Se eram muitos a trabalhar,
esse era um excelente meio de agremiar o
grupo e facilitar o entendimento entre os
operários. O canto podia, assim, destacar
o caráter cíclico regular de gestos e mesmo
facilitar sua sincronização para assegurar
sua eficácia. À noite, canções e conversas se
alternavam. Muitos possuíam cadernos em
que canções eram copiadas. A prática regular
bastava no mais das vezes para conservar
e transmitir a música que poucos sabiam
escrever. As novidades eram raras e todos
tinham tempo de integrar as canções a seus
repertórios. Nos ofícios religiosos e em toda
ocasião festiva familiar ou comunitária, o
canto era praticado espontaneamente.
Por que isso já não mais ocorre? Nossos
modos mudaram consideravelmente no
espaço de algumas décadas e negligencia-
mos a salvaguarda daquilo que contribuía
para nossa qualidade de vida. Os meios de
reprodução e de difusão da música, e so-
bretudo da canção popular, pouco a pouco
tornaram os consumidores passivos. Não Os modos musicais gregos e suas correspondências
se ousa confrontar a si com o intérprete- simbólicas com as musas e os planetas astrológicos.
Figura extraída da obra “Practica musicae” (1496), de
-ídolo, e quando se ousa, a família “corta as Franchinus Gafurius, músico contemporâneo e amigo
asas”: “Fique quieto! Você canta como uma pessoal de Josquin des Prez e Leonardo da Vinci.

taquara!”. Como em várias outras esferas,


apenas os profissionais e os especialistas
são levados em consideração, e eles de fato por um lado, pela música comercial que
confiscaram uma liberdade de prática, pri- tenta seduzir o maior número possível de
vando, dessa forma, o sujeito de uma fonte consumidores e, por outro, por produções
gratuita de energia positiva e de felicidade. que tentam salvaguardar, em versões por
As atividades manuais, que sustentavam vezes felizes e por vezes não, músicas popu-
toda uma verve galhofeira, desapareceram, lares regionais do passado, atualizando-as
sendo substituídas por máquinas ruidosas. ou não. De qualquer maneira, uma reani-
O conforto doméstico, que não cabe na- mação cultural!
turalmente contestar, nos alivia de tarefas Assim como deixamos a sociedade de
penosas, repetitivas e ingratas, mas nos priva consumo nos inventar novas necessidades
de trabalhos em comum que favoreceriam a inúteis, nossa falta de vigilância, nossa cre-
prática do canto popular. dulidade e nossa indolência permitiram que
Com efeito, o canto popular tradicional essa mesma sociedade nos privasse de doces
praticamente já não existe: foi substituído, satisfações e felicidades gratuitas das quais

OUTONO 2016 · O ROSACRUZ


29
n MÚSICA

toda a humanidade se beneficiava tranquila-


mente desde o começo dos tempos. O canto coral
Na realidade, não existe nenhum dilema. Cantar sozinho é uma alegria inegável, mas
Por que escolher entre a música gravada e participar de um conjunto vocal é uma
a prática musical? Nada nos obriga a isso! oportunidade ainda mais maravilhosa de
Podemos ao mesmo tempo nos rejubilarmos vivenciar a harmonia vibratória de maneira
por dispormos de boa parte do patrimônio tangível – quase palpável. A cristalização
musical do mundo, de quase todas as épocas que constitui a formação de acordes, ou
desde há mil anos, na forma de gravações, e seja, três sons ou mais, cujas proporções
cantar sem complexos, no nosso nível parti- vibratórias manifestam uma entidade dis-
cular. Consumamos e cantemos! tinta que se agrega aos sons percebidos iso-
É indispensável reconquistar aquilo que ladamente, ilumina os olhares e rejubila as
jamais deveríamos ter esquecido, mas de que almas das pessoas presentes.
maneira? E cantar o quê? Canções de que De uma perspectiva relacional, a prática
gostamos, é certo, mas também e, sobretudo, do canto coral é um caminho que contribui
improvisações pessoais. Deixemo-nos cantar também para o processo iniciático, ao me-
serenamente “aquilo que vier” e estejamos nos no que diz respeito à tolerância: num
atentos àquilo que ouvimos. Pouco a pouco, primeiro momento, nos é difícil aceitar
alonguemos nossos vocalises, coloquemos- outras vozes que não a nossa. Ao cantar,
-lhes nuances, diversifiquemos suas trajetó- cada um tenta inicialmente se refugiar no
rias e tomemos iniciativas de interpretação. seu “quanto a mim”. É bastante natural que-
Ilustremos os diferentes registros das emo- rer consolidar sua própria emissão antes de
ções humanas, exploremos as possibilidades tentar fundi-la com as dos outros. Depois,
de nossa voz, divirtamo-nos e encantemo- as outras vozes tornam-se comparsas e,
-nos. Com ou sem a ajuda de textos, torna- mais tarde, aliadas. Percebe-se inicialmente
mo-nos alternadamente enfáticos atores trá- que, aqueles que cantam a mesma parte
gicos e tímidos suspirantes, escravos subjuga- que nós, ajudam-nos a assegurar nossa li-
dos e tiranos implacáveis, exaltados, contidos, nha vocal. Uma primeira fusão se opera.
triunfantes, estupefatos… e descobriremos as Logo, os outros componentes da polifonia
incontáveis facetas que nossa personalidade são percebidos em sua complementaridade e
vocal pode exprimir à vontade. E retornemos cada uma das estantes começa a se apoiar na
então aos sons e ao seu valor intrínseco. harmonia assim obtida com os demais. Pou-
Deixemos o teatro. Ele nos ajudou a co a pouco, a abertura se amplia, e com ela a
descobrir e exteriorizar aquilo que não ou- descoberta da beleza criada em comum – o
sávamos conhecer de nós mesmos e menos incrível aumento das possibilidades expres-
ainda mostrar. Sem o apoio dramático, escu- sivas oferecidas por essa prática tão acessível.
temos agora nosso próprio canto, da maneira Três etapas preliminares são, portanto, neces-
mais neutra possível. Tentemos ouvir a nós sárias:
mesmos – e encontrar a nós mesmos. Ame-
mos nossa voz e a nós mesmos ao cantar. – eu canto sozinho excluindo a voz dos demais.
Habitemos nosso canto, nutramo-lo com os – eu associo meu canto àqueles que can-
melhores sentimentos de que somos capazes tam a mesma coisa que eu.
de demonstrar e ornemo-lo com as mais sutis – eu sou consciente do papel que cumpro
inflexões que sejamos capazes de controlar. no interior da polifonia.

30 O ROSACRUZ · OUTONO 2016


E, por fim: eu não sei
mais se os outros cantam
com a minha voz ou se Uma alegoria
minha voz canta com os da “música
outros, pois o “eu” não das esferas”,
gravura do
está mais lá. O tempo foi pintor bolonhês
Agostino Carracci
suspenso… e só a har- (1557-1602)
monia vibratória existe.
A prática do canto
coral é uma exceção na
abordagem musical. É
importante salientá-la e
fazê-la conhecer, pois se
por um lado é ilusório
idealizar um grupo satis-
fatório de instrumentistas
principiantes, é perfeita-
mente possível para um
grupo de cantores neófitos interpretar honrada- resposta de um ser criado ao Ser criador.
mente, sob a direção de um regente compe- Seria natural ver nisso um acesso – uma
tente, “pequenas peças de grande música”. passarela – entre os planos material e imaterial
O canto parece ser uma consequência do – uma escada de Jacó ligando a Terra ao Céu e, à
bom humor, ao passo que ele também pode guisa de conclusão, lançar a seguinte proposição:
ser a sua causa. As pessoas me dizem com
frequência que eu devo ser alegre… porque Ao Verbo divino que cria o mundo
eu canto! É verdade. Mas quando assim não responde o canto do homem, que exprime
o for, eu começo a cantar e é o canto então o reconhecimento e a alegria da criatura,
que provoca a minha alegria! prolongando o ato criador inicial ao
O canto é a comunhão mais íntima entre acompanhá-lo livremente!
os planos vibratórios material e psíquico que
nos é dada sentir. Ele nos coloca na raiz e na O homem manifesta dessa forma, do seu
flor da criação. nível de criação, a parcela divina que existe
Certamente, a oportunidade de dar teste- nele, ancorando na matéria a vibração volun-
munho da luz do Verbo não reside exclusi- tária e consciente de sua voz e permitindo ao
vamente na vibração vocal do homem, pois plano físico que se eleve, na contracorrente
ele pode orientar seus pensamentos e suas da queda original, por esse ato redentor!
ações na mesma direção. Cante! Cantem todos! E se encantem! 4
A luz do sol, emanação da luz divina, se
reflete em tudo o que existe na Terra, mas sem Notas: 1. Em francês, “la musique adoucit les mœurs”; lite-
ralmente “a música abranda os modos”. (N. do T.); 2. Java é
que a vontade das coisas e dos seres intervenha uma dança francesa de salão, a três tempos, como a valsa, mas
de qualquer modo que seja. Refletir no seu mais rápida e de gosto mais popular. É evocada por Édith Piaf
na canção L’Accordéoniste, de autoria de Michel Emer: “Et tous
canto uma parcela, ínfima que seja, do Verbo les soirs pour elle / Il jouera la java / Elle écoute la java / Qu’elle
de Deus, é um ato de uma natureza completa- fredonne tout bas / Elle revoit son accordéoniste” (E todas as
noites ele tocará para ela a java. Ela escuta a java que ela canta-
mente diferente: é voluntário e consciente. É a rola baixinho. Ela revê seu acordeonista...) [N. do T.]

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n ORIENTAÇÃO

Por ADILSON RODRIGUES, FRC*

N
a história de nossa civilização, Com a evolução do pensamento humano
houve época em que os homens as causas físicas passaram a ser a explicação
acreditavam em forças externas e para as doenças, inclusive das tristezas, an-
invisíveis, causadoras de doenças gústias e de todo sofrimento emocional.
e malefícios e também em forças benéficas Assim, temos uma primeira fase cuja
à humanidade. Naquelas circunstâncias, o explicação para as nossas mazelas são forças
ser humano situava-se em posição passiva e externas e uma segunda onde as causas são
sentia-se manipulado como um fantoche. orgânicas.

32 O ROSACRUZ · OUTONO 2016


Entretanto, nossa evolução continua e mas muito importante para quem ouve e não
atingimos a terceira fase onde encontramos sabe defender-se dessas agressões mentais.
no interior do homem, no segredo do seu “O falar é de prata e o silêncio é de
pensamento, as causas dos desequilíbrios e ouro”. Se não pudermos falar para trans-
das doenças. Mas ali também estão a alegria, mitir, ensinar, elogiar, aliviar as angús-
a paz e a harmonia. O pensamento huma- tias de nossos irmãos, então calemos.
no é a grande fonte energética propulsora Os homens se comunicam de várias ma-
de estímulos que criam alegria e tristeza, neiras: pelo falar, por gestos, pelo olhar, pelas
paz e ansiedade, saúde e doença e é aí que expressões faciais e também telepaticamente.
se revela a importância do relacionamento A palavra é uma arma muito sofisticada
humano, do relacionamento entre pessoas. que precisa de técnica especial para o seu
O homem pensa. O pensamento é uma manejo e, em princípio, dentro do ponto de
energia de vital importância. O vista apresentado, não nos parece ver-
homem interage com outro dade a frase “falar é fácil, fazer
homem e esta interação é que é difícil”. Devemos
influencia o pensamento. lembrar do adágio dos


Se somos afetados sábios antigos de que
pela relação com A palavra não devemos temer o
outros seres huma-
nos porque a inte-
é fundamental que entra pela nossa
boca, mas sim o
ração influencia
o pensamento,
no relacionamento que sai dela. Se a
palavra expressas-
então o relaciona- humano, mas pode se sempre o nosso
mento humano,
por si só, pode- ser também uma verdadeiro senti-
mento e se a pa-
rá ser benéfico, arma quando mal lavra fosse sempre


ou não, ao nosso dirigida com bons
equilíbrio emocio- utilizada. propósitos, então não
nal e ao nosso desen- deveríamos temê-la.
volvimento espiritual A palavra é fundamen-
e por si só merece estudos tal no relacionamento huma-
e considerações especiais. no, mas pode ser também uma
O Dr. H. Spencer Lewis, em seu livro arma quando mal utilizada. Por isto,
Envenenamento Mental, de excepcional valor devemos estar atentos ao princípio de que
prático, conta-nos a história de “comadres” toda comunicação verbal traz consigo dois
que, sem conter o germe da maldade, ino- conteúdos: o conteúdo manifesto e o conte-
culam veneno em sua vítima: “Como você údo latente. Como exemplo, podemos citar
engordou!” ou “como você está pálida, está a pergunta de um garoto à sua mãe que sai
doente?”. E a vítima, por ser uma pessoa que para o trabalho: “Mãe, por que você precisa
não se defende muito bem, inculca, remói trabalhar?”. A mãe provavelmente responde:
seus pensamentos, deteriorando seu organis- “Bem, filhinho, precisamos de dinheiro...”.
mo pela desarmonia. O veneno mental foi Neste caso, o conteúdo manifesto é: mãe,
inoculado num relacionamento humano ina- por que você precisa trabalhar? Entretanto,
dequado. Sem muito valor para quem fala, esta pergunta contém outro significado. Se

OUTONO 2016 · O ROSACRUZ


33
n ORIENTAÇÃO

a mãe tivesse questionado a razão da per- agressão verbal recebida é quase sempre fle-
gunta poderia ter ouvido: mãe, quero ficar cha envenenada dirigida a outra pessoa, com
com você, quero mais carinho e atenção. frequência pai, mãe ou do ambiente familiar.
Se observarmos bem, vamos verificar Como exemplo podemos citar o marido que
que o conteúdo latente muitas vezes é o chega em casa furioso com o chefe e briga
mais importante, sendo a ele que devemos com a esposa; esta frustra-se e descarrega nos
responder, já que o conteúdo manifesto é filhos e talvez até no cachorro da família.
apenas um disfarce. Até aqui vimos três pontos importantes
Outro exemplo: Zezinho quebrou o vidro que devemos considerar:
da porta de propósito. Seu pai pode agredi-lo
com palavras ou perguntar por que ele fez 1. A importância do pensamento;
aquilo e então descobrir o conteúdo latente
da comunicação, neste caso não verbal. Esta 2. A importância do relacionamento humano;
é uma questão para reflexão. Quem solicita
comida se está fartamente alimen- 3. A importância dos conteúdos manifestos e
tado? Quem, abastecido de latentes da comunicação com outras pessoas.
amor, solicita guerra?
Lembremos que a Se pensarmos em ambientes onde deva
comunicação não estar presente a fraternidade, e considerando
verbal, um olhar, as diferenças e dificuldades humanas, todos
um sorriso, temos que cuidar, todos somos terapeutas. E
um gesto, tem todos somos pacientes também, porque não
tanto ou mais somos perfeitos. Nosso ambiente nos trata e
significado nos dá oportunidade de tratarmos dos outros.
do que a pa- Se compreendemos o que foi dito aci-
lavra. Uma ma, poderemos ser mais tolerantes. E se
criança, a quisermos ser mais tolerantes ainda, então
partir dos nos comuniquemos mais, sem defesas e
primeiros armaduras, pois nos filmes de super-heróis
momentos de só torcemos para o mocinho porque desco-
vida, tem per- nhecemos a história dos bandidos. É fácil
cepção verda- amá-los ou pelo menos sermos mais tole-
deira se é amada rantes se conhecermos sua história: seus
ou rejeitada. pais, suas privações, seu ambiente, suas
Lembramos que a dificuldades, seu grau de evolução. Tole-
maioria das agressões é rância é uma virtude experimentada com a
o resultado de descarregar- maturidade e adquirida com a experiência.
mos ou deslocarmos (termo usa- É oportuno lembrar que para uma criança
do na Psicologia médica) nossas frustrações de 1 a 5 anos, que enxerga um adulto, princi-
e aborrecimentos no “primeiro que passa”, palmente seus pais, como criatura onipoten-
se não estivermos vigilantes. te, tudo o que lhe for transmitido será regis-
Podemos conseguir um bom controle trado em seu subconsciente como Verdade.
da agressividade conhecendo os conteúdos Se isto é fato, que responsabilidade a nossa!
latentes e manifestos da comunicação. A Em A República, de Platão, obra escrita há

34 O ROSACRUZ · OUTONO 2016


2.500 anos, já encontramos estas conjecturas. vida, o ser humano
Diz ele para termos cuidado com as histórias, busca o contato
com as fábulas que contamos às crianças. com outros da
Para fazer valer seus conselhos, certos pais mesma forma
costumam usar o regime de terror: “Não sai em que busca
de casa senão o homem te pega”. Que condi- satisfação e
cionamento terrível: “O homem te pega” con- segurança
diciona o medo dos homens e futuramente internas.
dificuldades no relacionamento humano. Ora, dentro
E o que é válido para uma criança de 1 deste enfo-
a 5 anos é válido para muitos adultos, que que é fácil
não crianças indefesas, apesar do tamanho e imaginar que
idade. Quantas frases colocadas descuidada- buscamos con-
mente levam nossos irmãos ao sofrimento; tatos interpes-
quantos títulos negativos e apelidos maldosos soais amistosos,
acarretam conflitos íntimos. afetivos, que nos
Assim, fazemos duas advertências: ajudem em nossos
impulsos para obter sa-
1. Crítica: excelente arma para destruir; tisfação e segurança. Porém,
o que acontece frequentemente?
2. Agressividade: excelente arma para formar Os contatos humanos são tão inadequados
círculo de guerra e sofrimento. que desequilibram os pratos da balança e a
luta para obter segurança e satisfação deixa
Entretanto, apesar do peso de tudo o que de ser só com o meio ambiente natural para
é dito, em Psiquiatria dizemos que aprende- ser também uma luta interpessoal. Raios,
mos pelo processo de identificação. Apren- terremotos, vulcões, seres micro e macros-
demos mais pelo que as pessoas fazem do cópicos por um lado, e ódio, agressões, in-
que pelo que elas falam. Vivemos à cata de diferença e irresponsabilidade por outro.
exemplos, buscamos com curiosidade pesso- Assim, só podemos concluir com o Amor
as que se dizem evoluídas, ansiamos para ver que Jesus, o Cristo pregava em sua infinita
o Grande Mestre e o Imperator, buscamos sabedoria e deu o exemplo. Hoje, a ciência
pontos de referência. Mas, lembramos que vem catalogar o amor como arma fundamen-
também somos pontos de referência para tal no relacionamento sem angústias, afetivo,
outras pessoas? Então, se formos exemplo amistoso, cooperativo, tolerante, compreen-
dignificante, teremos um mundo muito me- sivo. Dizer “eu amo” difere significativamente
lhor, feliz e saudável. de experimentar o amor.
O ser humano é gregário por natureza; Amar é muito fácil, basta não temer. Cui-
a lei universal é que os seres humanos se de, esteja atento, mas não tema amar. Elogie,
unam, que exista cooperação mútua. Dentro tolere, compreenda, pois só assim o mundo
de cada pessoa existem impulsos que visam a será melhor e mais saudável. 4
obtenção de satisfação e segurança e há tam-
bém, além de muitos outros impulsos, um * Frater Adilson Rodrigues atuou como médico psiquiatra
que a leva a ter contato com outras pessoas. e homeopata; durante muitos anos foi palestrante oficial
da AMORC e na década de 90 e anos 2000, foi diretor de
Assim, desde os primeiros momentos de Planejamento e Patrimônio da AMORC-GLP.

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35
n PESQUISA

Por CHRISTOPHER AUGUSTO CARNIERI, FRC

“Não existe terra estrangeira;


é apenas o viajante que é estrangeiro.”
– Robert Louis Stevenson

36 O ROSACRUZ · OUTONO 2016


O
desconhecido, esse artesão de coisas como também fazer isso coletivamen-
mistérios! Olhar para as estrelas te. Com isso nasce a mitologia: e os mitos
e vislumbrar o horizonte além dão aos seres humanos a capacidade sem
do casco da tartaruga gigante1... precedentes de cooperar de modo eficaz em
corajosos aqueles exploradores. Aventu- grande número. Em outras palavras, toda
reiros que transcenderam as fronteiras das cooperação humana em grande escala – seja
convenções, primeiro em si mesmos e, de- um Estado moderno, uma igreja medieval,
pois, os horizontes. Talvez cruzar fronteiras uma cidade antiga ou uma tribo arcaica – se
seja uma configuração natural da aventura baseia em mitos partilhados que só existem
humana neste planeta. A fronteira entre o na imaginação coletiva das pessoas. Os tipos
silêncio e o som, entre o conhecido e o des- de coisas que as pessoas criam por meio des-
conhecido, entre o imaginário e o real. Quem sa rede de histórias são conhecidos nos meios
sabe a última fronteira seja transcender o acadêmicos como “ficções”, “construções
pensamento... será que existe algo além do sociais” ou “realidades imaginadas”. Em últi-
pensamento? Vamos descobrir; mas, por ma análise, para o autor, desde a Revolução
enquanto, precisamos entender a constru- Cognitiva, os seres humanos vivem, portan-
ção social da realidade em que vivemos. to, em uma realidade dual. Por um lado, a
Bem, em primeiro lugar, eu diria que o realidade objetiva dos rios, das árvores e dos
imaginário é um contexto para o desconhe- leões; por outro, a realidade imaginada de
cido. Segundo Yuval Harari, em Sapiens: deuses, nações e corporações. Com o passar
uma breve história da humanidade, a carac- do tempo, a realidade imaginada se tornou
terística verdadeiramente única da lingua- ainda mais poderosa, de modo que hoje a
gem humana é a capacidade de transmitir própria sobrevivência de rios, árvores e leões
informações sobre coisas invisíveis, ou seja, depende da graça de entidades imaginadas,
somente os seres humanos podem falar tais como deuses, nações e corporações.
sobre entidades que nunca viram, tocaram Gradativamente, o desconhecido se
ou cheiraram. Assim, lendas, mitos, deuses torna conhecido e o imaginário se torna
e religiões apareceram pela primeira vez “real”. Na verdade, se observarmos a histó-
com a Revolução Cognitiva2. Até então, o ria humana como a história da expansão da
ser humano já podia dizer: “Cuidado! Um consciência, podemos ver que aquilo que
leão!”, porém, somente com a Revolução era concebido como “realidade” apenas vai
Cognitiva, o ser humano adquiriu a capaci- recebendo novos traços, como os retoques
dade de dizer: “O leão é o espírito guardião de uma pintura que retrata uma paisagem.
da nossa tribo”. Isso fez toda a diferença Embora o quadro possa nos transmitir uma
na construção social da nossa realidade. bela expressão da paisagem, o quadro não é
Harari complementa seu raciocínio dizen- a paisagem, assim como a realidade imagi-
do que a ficção nos permitiu não só imaginar nada não é a realidade. Tudo bem até aqui?

“ Para compreender o outro, interpretar


outras paisagens e culturas, nós usufruímos
livremente do imaginário…

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37
n PESQUISA

Johann Baptist
Homann: “Planiglobii
Terrestris Cumutroq
Hemisphaerio Caelesti
Generalis Exhibitio”,
Nuremberg 1707

Um bom exemplo para entender esse dos distantes e desconhecidos. Derivados


contexto é o período das grandes navegações. da oralidade, os relatos de viagem descre-
Nessa época, a Europa viu crescer o fascínio viam com minúcia os espécimes vegetais e
pela literatura de viagem. Gênero literário animais, os costumes e aparência dos povos
que até hoje mistura realidade e fantasia, locais, e outros detalhes que compunham
fruto direto da experiência da alteridade. O narrações ora mais ora menos encantadas.
contato com outros povos e culturas colocou As descrições detalhistas eram frequente-
em destaque a diversidade das realidades mente acompanhadas por certificações de
imaginadas em que vive a espécie humana, veracidade que reforçavam a identificação
ou seja, cada cultura é uma forma de ser e entre narrador, viajante e testemunha.
estar no mundo, uma forma de ver o mundo. As viagens se relacionam ao conjunto
Assim, os relatos de viagem se constituíam heterogêneo de imagens que compõem o
como um testemunho voltado a revelar mun- imaginário sociocultural. O imaginário seria

38 O ROSACRUZ · OUTONO 2016


uma reunião de imagens sobre determina- do mundo, novos traços foram feitos para
do tema, lugar ou época. É uma dimensão retratar a paisagem mundial. Já não depen-
um tanto imponderável e intangível que díamos mais de uma tartaruga gigante e o
encarna uma força produtora de imagens. primeiro mapa fidedigno da Terra foi feito
Essa força conecta-se a várias culturas, por Johann Baptiste Homann, geógrafo
expande-se através de gerações e é sempre alemão, em 1707. O ponto importante para
alimentada e renovada em sua capacidade entender aqui é que não passamos a enxer-
de criar utopias, mundos fantásticos, ou seja, gar a realidade absoluta, nem pela expan-
alteridades que desafiam aquilo que conhe- são do espaço geográfico conhecido, nem
cemos por realidade. O que se convencionou pelo contato com outros povos e culturas.
chamar de realidade e caracterizar como O que aconteceu após o Iluminismo foi o
“real” não deixa de ser um tratamento dado nascimento das Nações e o nacionalismo.
a um aspecto do mundo feito por aventu- Benedict Anderson, em Comunidades
reiros cheios de imaginação. Nesse sentido, Imaginadas, define a nação como uma co-
as “realidades” são muitas e são sempre munidade politicamente imaginada, sendo
atravessadas pelo imaginário. No que diz ela intrinsecamente limitada e, ao mesmo
respeito às viagens, é interessante pensá- tempo, soberana. Ela é imaginada porque
-las em relação à criação de um imaginário mesmo os membros da mais minúscula das
específico que envolve e compõe as “reali- nações jamais conhecerão, ou sequer ouvirão
dades” dos mais diversos lugares e regiões. falar da maioria de seus companheiros, em-
Não há uma realidade única que sirva de bora todos tenham em mente a imagem viva
referência aos viajantes escritores. Afinal, a da comunhão entre eles. Na verdade, qual-
“realidade” do narrador é constituída por quer comunidade maior que a aldeia pri-
toda a sua história de vida, ou seja, da sua mordial do contato face a face é imaginada.
formação cultural, seus valores, sensibilidade Imagina-se a nação
e o modo particular de compreender o mun-
do. O que poderíamos chamar de realidade
de um viajante além da sua experiência
de viagem e de vida? Para compreender
o outro, interpretar outras paisagens e
culturas, nós usufruímos livremente
do imaginário, ainda que nem sempre
estejamos conscientes disso. Relatar
seria então uma maneira de imagi-
nar realidades outras. Em termos de
viagem, estamos mais próximos de
uma ficção coletiva que é partilhada
do que uma suposta “realidade” do
mundo que é retratada. Porém, isso
não quer dizer que uma realidade
absoluta não exista. Vou retor-
nar a esse ponto mais adiante.
Com as grandes navegações
e o gradual “encolhimento”

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n PESQUISA
om
ões c
s u a s divis omem
ie H
mund s pelo
Mapa imaginado
s
traço

sempre é conce-
limitada por- bida como uma profunda
que mesmo a maior camaradagem horizontal. A tal ponto
delas possui fronteiras finitas que que foi essa fraternidade que tornou pos-
para além das quais existem outras nações. sível, nestes dois últimos séculos, tantos
Imagina-se a nação soberana porque o con- milhões de pessoas terem se sacrificado a
ceito nasceu na época em que o Iluminismo morrer por essas criações imaginárias.
e a Revolução Industrial estavam destruindo O principal símbolo da cultura moderna
a legitimidade da monarquia de ordem divi- do nacionalismo são os famosos túmulos
na. E, por último, ela é imaginada como uma dos soldados desconhecidos, comuns em
comunidade porque, independentemente várias nações. Normalmente as pessoas não
da desigualdade e da exploração efetivas percebem que vivem em uma comunidade
que possam existir dentro dela, a nação imaginada, porém esse pertencimento só

“ … o mundo é hoje um grande mosaico


de comunidades imaginadas.

40 O ROSACRUZ · OUTONO 2016
“Túm
ulos
de d
esco
nhec
idos” é possível testemunhos dos místicos através dos tem-
nos E
UA. através das pos, passado e presente, é inevitável consta-
abstrações tarmos a unanimidade de concordância entre
da mente, eles. Eles nos contam sobre uma experiência
por exemplo, transcendental, obtida através da contem-
através de sím- plação, a qual nos revela a conexão com uma
bolos como a realidade absoluta. Essa experiência pode
língua, a gastro- receber diferentes nomes, dependendo da
nomia, a bandei- cultura na qual é experimentada, mas a expe-
ra, entre outros riência é a mesma. Como a água (experiência
atribuídos arbi- espiritual) que é carregada em vasos de dife-
trariamente. Onde rentes formatos e materiais (religiões).
começa ou termina Acredito que quando transcendermos
o Brasil? No mar, a realidade imaginada em que vivemos,
no rio? Na fronteira poderemos vivenciar o que Joseph Cam-
com o Paraguai? O pbell, em O Poder do Mito, chamou de
Paraguai é apenas o “mito do futuro”: o mito da Mãe-Terra,
outro lado do rio, onde onde poderemos viver em nossa casa como
falam outra língua e ela é de verdade, e não através das linhas
possuem outros sím- imaginárias que rabiscamos sobre ela. 4
bolos que caracterizam
Bibliografia: ANDERSON, Benedict. Comunidades imagi-
outra comunidade imagi- nadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2009; CAMPBELL,
nada, e assim por diante... Joseph. O poder do mito. São Paulo: Palas Athena, 2011; HA-
RARI, Yuval. Sapiens: uma breve história da humanidade. Porto
Mesmo a língua sendo o Alegre: L&PM, 2015; HULME, Peter; YOUNGS, Tim. The Cam-
símbolo mais visivelmente bridge companion to travel writing. Cambridge: Cambridge
University Press, 2002; UNDERHILL, Evelyn. Misticismo: estudo
reconhecível de uma nação, sobre a natureza e o desenvolvimento da consciência espiritual
é um símbolo insuficiente, do ser humano. Curitiba: Grande Loja da Jurisdição de Língua
Portuguesa, AMORC, 2008.
pois mesmo dentro de uma
mesma nação é comum o uso Notas: 1. Lenda hindu sobre a existência
do mundo; 2. O surgimento de
de dialetos, ou ainda, falarmos novas formas de pensar e
se comunicar, entre
a língua de outra nação: nós brasileiros fa- 70 mil ou 30 mil
anos atrás.
lamos a Língua Portuguesa, mas não somos
portugueses. Portanto, se percebermos bem,
o mundo é hoje um grande mosaico de co-
munidades imaginadas. Basta olhar o mapa
mundial e ver que para cada país temos uma
bandeira e traços tortos e imaginários que
nos confinam a determinadas nações.
Enfim, essa é, em linhas gerais, a realida-
de imaginada mundial em que vivemos. A
questão é: existe algo além dela? Sim, é este
o propósito do misticismo. Segundo Evelyn
Underhill, “misticismo é a arte da união
com a realidade”. Quando examinamos os

OUTONO 2016 · O ROSACRUZ


41
n INFORMATIVO

Monografias virtuais, revistas digitais e


outras facilidades para os rosacruzes

V
isando atender melhor os seus membros, a Gran-
de Loja está disponibilizando, através de seu por-
tal, uma área exclusiva para Afiliados Rosacruzes.
Esta área permitirá que o próprio rosacruz
acompanhe o andamento dos seus estudos, atualize seu
cadastro e tenha acesso a informações restritas a membros,
à revista “O Rosacruz” digital e outras funcionalidades.
O acesso a esta área se dá pelo Portal Rosacruz
www.amorc.org.br. Logo na primeira página, o estu- Caixa de login.
dante vai encontrar uma janela intitulada “Área do Afilia-
do”, a qual dará acesso a informações exclusivas em confor-
midade com o grau de estudos que o membro em questão tiver alcançado na AMORC.

Área do Afiliado – página inicial com informações sobre o status do


membro e menu de navegação para outras funcionalidades.

42 O ROSACRUZ · OUTONO 2016


Página pessoal e de contatos, onde o membro deve
verificar seus dados e atualizar as informações.

Área de informações sobre a vida ritualística e iniciática do membro, que


permite inclusive a impressão de um comprovante para acesso aos rituais.

OUTONO 2016 · O ROSACRUZ


43
n INFORMATIVO

Página de acompanhamento dos créditos junto à GLP.

Muito importante
ATUALIZAÇÃO DE CADASTRO ONLINE: Este é mais um benefício
do novo sistema. O Frater e a Soror deverão checar e atualizar seu cadastro
de maneira fácil e ágil. Verifique se os seus telefones e e-mails estão atual-
izados, pois muitos dos nossos membros deixam de receber notícias impor-
tantes ou contatos da Grande Loja por esquecerem de atualizar seus dados.

EXIGÊNCIA DO BANCO CENTRAL: É importante que todos os nossos


membros estejam com o seu CPF cadastrado porque a partir de 2017, con-
forme circular 3.656/2013 emitida pelo Banco Central, os boletos bancári-
os serão obrigatoriamente registrados pelo beneficiário (GLP) no banco
emitente. Na prática, isto significa que nenhum boleto bancário poderá ser
emitido sem a vinculação do membro rosacruz com o respectivo CPF.

JÁ DISPONÍVEL PARA ACESSO: Atualizações online; revistas O


Rosacruz e AMORC-GLP; Fórum Rosacruz e revista AMORC-Ordem Guias
do Graal – A PARTIR DE SETEMBRO: Monografias digitais.

É fácil e ágil. Acesse www.amorc.org.br

44 O ROSACRUZ · OUTONO 2016


Revistas digitais
Se você optou por receber a revista “O Rosacruz” ou “AMORC-GLP”
somente no formato digital, pedimos que entre no nosso portal e con-
firme sua escolha para que possamos cessar o envio das revistas impressas.
Lembramos da importância desta opção por pelo menos duas boas razões:
você estará ajudando a sua Grande Loja a diminuir as despesas operacio-
nais, o que reflete diretamente nas trimestralidades dos nossos membros,
e – mais importante – estará contribuindo para a sustentabilidade do
planeta, pois o papel é oriundo de árvores que, mesmo sendo de reflor-
estamento, fazem parte de um longo processo que traz consequências não
negligenciáveis ao meio ambiente.

A revista “AMORC-GLP” estará no ambiente online de forma mais


completa do que a impressa. Isto porque, como é um boletim informativo
sobre as atividades em nossos Organismos Afiliados, nem sempre há a
possibilidade de se colocar todas as fotos dos eventos ocorridos nos mes-
mos. No formato digital, não há limitação de espaço, permitindo que as
reportagens saiam na íntegra.

Ambiente de revistas online.

OUTONO 2016 · O ROSACRUZ


45
n INFORMATIVO

Monografias virtuais
Lançamento na XXIV
Convenção Nacional Rosacruz
As Grandes Lojas das jurisdições de língua francesa e ingle-
sa para as Américas já disponibilizam o acesso às monogra-
fias em formato virtual, com excelente aceitação por parte
dos rosacruzes daqueles países.

Se olharmos a longa trajetória do Conhecimento Tradicional


através das civilizações antigas e chegarmos ao Dr. Lewis,
que sistematizou o conhecimento legado pela Tradição
Rosacruz e resolveu que era necessário divulgá-lo de uma
forma mais eficaz para que atingisse o maior número de
pessoas possível, constatamos que ele fez uma revolução. O
conhecimento, que era transmitido a uns poucos e em am-
bientes fechados, passou a chegar às mãos de muitos busca-
dores. Estes, por sua vez, tiveram então a oportunidade de
conhecer algo antes inacessível em razão das distâncias que
necessitavam ser percorridas para que o objeto de busca
fosse encontrado. As instruções em forma impressa, que
deram origem às monografias que nós conhecemos hoje,
passaram então a seguir pelos correios.

Agora, damos mais um importante passo na transmissão


do Conhecimento Rosacruz, oferecendo aos nossos mem-
bros a possibilidade de terem suas monografias à mão em
qualquer lugar onde estiverem, de forma segura e prática.

O lançamento das monografias virtuais em nossa jurisdição


será feito durante a próxima Convenção Nacional, de 21 a 24 de se-
tembro, com uma palestra explicativa e um estande próprio para o esclare-
cimento de dúvidas acerca do seu funcionamento.

46 O ROSACRUZ · OUTONO 2016


Área de acesso às monografias online (a ser liberada na segunda fase do projeto)

Monografia aberta

OUTONO 2016 · O ROSACRUZ


47
n INFORMATIVO

Perguntas
e respostas
Abaixo, respondemos algumas questões que nos foram
direcionadas sobre esta nova modalidade de estudos:

1) Quem poderá acessar o ambiente de


monografias virtuais?
Somente rosacruzes habilitados, isto é, a partir do aceite
do ingresso na AMORC.

2) Como eu posso me cadastrar na Área do Afiliado?


É simples: tenha em mãos seus dados pessoais e seu código de afiliação na
Ordem. Caso alguma informação digitada não coincida com as registradas
no sistema da AMORC, este informará e será necessário entrar em contato
telefônico com a Grande Loja.

3) Será feito algum controle de acesso?


Sim, serão liberados apenas materiais aos quais o membro já estiver apto a
acessar. Isto facilitará inclusive o acompanhamento de membros duais, pois
o acesso às monografias é individual e elas serão liberadas conforme o estudo
de cada um, inclusive com login e senha próprios. Há necessidade também
de aceitar o termo de responsabilidade e confidencialidade que estará dis-
ponível antes da liberação do acesso ao ambiente.

4) Posso acessar a Área do Afiliado por meio de algum


dispositivo móvel?
Sim, o sistema permite o acesso através de outros dispositivos como smart-
phones e tablets, mas fica a seu critério decidir o acesso ideal para você.

5) Poderei imprimir as monografias?


Sim, mas elas serão impressas com uma marca d’água que identificará o
membro que a imprimiu. Esta é uma questão de segurança quanto à confi-
dencialidade dos conteúdos.

48 O ROSACRUZ · OUTONO 2016


6) Posso continuar a receber as monografias impressas?
Sim, nossos membros terão a liberdade de optar por uma das modalidades de
estudo ou por ambas. Se você escolher somente a modalidade virtual, se ben-
eficiará de uma pequena redução na trimestralidade, a qual será anunciada
no momento do lançamento. Em outubro será emitida uma circular especial
com todas as inovações referentes aos estudos.

7) Será possível antecipar as monografias na internet?


O ciclo trimestral permanecerá incluindo suas regras evolutivas de estudo e
o membro só terá acesso à próxima etapa quando tiver cumprido a etapa an-
terior. O formato digital é apenas um meio para alcançar as monografias na
internet de maneira integrada, protegida e individualizada.

8) Poderei acessar as monografias quando eu desejar?


Sim, cada monografia estudada estará sempre a sua disposição na internet
quando desejar e será disponibilizada também no formato PDF para que seja
possível a leitura em outros dispositivos mesmo desconectados da internet.
Lembramos que no formato PDF haverá as marcas de proteção citadas acima.

Todas as funcionalidades, com exceção das


monografias online,, já estão à disposição em
nosso site www.amorc.org.br.
www.amorc.org.br

O setor de atendimento da GLP está à


disposição para dirimir qualquer dúvida
que surja quanto à utilização desta
nova ferramenta através do e-mail
atendimento@amorc.org.br e
pelo fone (41) 3351-3063.

Esperamos que os
benefícios desta nova
modalidade de estudo
sejam visíveis no seu
relacionamento com a sua
Grande Loja, cuja existência tem por
objetivo servir aos buscadores rosacruzes.

OUTONO 2016 · O ROSACRUZ


49
Como
orar
Por H. SPENCER LEWIS, FRC*
Ex-Imperator da AMORC

A
oração é um pon- Sou um crente firme na e de como usá-la falta de
to grandemente oração e o leitor também tal modo no indivíduo
controverso da poderá ser, se der à oração comum, que é realmente
prática religiosa, seguido a devida oportunidade surpreendente que uma,
ou negado francamente. para demonstrar a sua dentre mil, traga quaisquer
Aqueles que utilizam eficácia. Acusamos erra- resultados. Nas igrejas, são
a oração como argumen- damente muitas coisas de usadas certas preces fi xas
to contra a existência serem ineficientes e recu- feitas por pessoas que pa-
de um Deus inteligente, samos a aceitá-las, depois recem mais interessadas
ou de qualquer Deus, de apenas umas poucas na eloquência florida do
afirmam que as orações tentativas de usá-las ou que na verdadeira oração.
seriam logicamente ra- demonstrá-las. A razão Jesus ensinou aos seus
zoáveis e eficientes se disso é a nossa própria discípulos como orar, e
Deus existisse. São muito ineficiência e ignorância. a versão correta das suas
perspicazes ao declarar Nessas circunstâncias, instruções e os exemplos
que setenta e cinco por surpreende-me que tantas que deu ao mundo são
cento das orações ficam orações sejam atendidas. diferentes das preces pro-
sem resposta ou são apa- A compreensão do feridas por aqueles que se
rentemente negadas. que realmente é a oração afastaram do misticismo

50 O ROSACRUZ · OUTONO 2016


fundamental da oração. -lhe que não permita que pedimos que a sua vida
A prece baseia-se na a vida abandone o corpo seja salva? Pense em duas
suposição de que Deus é dessa pessoa ou que certas pessoas, em lados opostos,
onipotente, onipresente condições se manifestem, cada uma pedindo forças a
e deseja atender às nos- é presumir que nós, com a Deus para que seja o ven-
sas súplicas. Essa é toda nossa compreensão finita, cedor numa luta entre elas.
a suposição ou base que sabemos, melhor do que Se Deus deve deci-
necessitamos na oração; Deus, se certas coisas de- dir a luta, não é melhor
penso, porém, que o lei- vem, ou não, acontecer. presumir que o Seu jul-
tor concordará em que a Se a pessoa foi ferida, gamento das condições e
média das pessoas tem em está prestes a falecer e princípios em ação será
mente algo mais. Tem em Deus não impede que isso suficiente para escolher
mente não só que Deus é aconteça, por que devere- a pessoa que deverá ven-
onipotente, onipresente e mos presumir que Deus cer? A oração, por ambas
misericordioso, mas, tam- modificará Seu modo de as partes, não poderá ser
bém, que, com toda a sua pensar quanto à transição, satisfatoriamente atendi-
harmonização com os seres permitindo que a pessoa da, pois ambas não po-
que criou, ignora, ainda, as viva, unicamente porque derão sair vencedoras.
suas necessidades, desco-
nhecendo completamente
o que necessitam na vida!
Este é o grande erro.
Entregarmo-nos à oração
com a crença ou sensação
de que Deus não sabe o
que necessitamos ou o que
é melhor para nós e deve-
mos dizer-lhe e explicar-
-lhe o que desejamos, é
cometer um grave erro.
Considerando o assunto
do ponto de vista pura-
mente razoável e sensível,
não parece estranho que
uma pessoa se ajoelhe e
peça a Deus que não tire
a vida de alguém que
acabou de sofrer um aci-
dente? Orar a Deus em tal
ocasião e quase ordenar-

OUTONO 2016 · O ROSACRUZ


51
O místico sabe que
qualquer oração ou súplica
baseada na suposição de
que Deus ou o Cósmico não
sabe o que é melhor e deve
ser orientado ou aceitar re-
comendações ou sugestões,
é perdida e inútil. Na ver-
dade, isso representa uma
censura à inteligência divina
e não vai além do campo das
nossas ambições pessoais.
Certamente, semelhante
prece não pode ser proferida
sinceramente ou merecer
a aprovação Cósmica. Está
fadada a fenecer ou a não
ter resposta, no próprio mo-
mento em que é concebida.

Um Encontro
de Mentes
Para o místico, portanto,
a oração é um encontro
de mentes. Não é ocasião
para pedidos pessoais, mas
para comunhão espiritual,
ocasião em que a alma e a
parte mais íntima de nós
mesmos, reverente, sincera
e tranquilamente, falam a oração e impediria a reali- devo ser atendido? Não é
Deus e expressam os desejos zação do que desejamos. isso concluir que Deus pode
do nosso coração e mente. A prece, portanto, deve não ter pensado em dar-me
Qualquer consideração ser a expressão do desejo vida mais longa ou pode ter
de que a nossa concepção de uma bênção. Tenho eu decidido de outro modo, e
humana das nossas neces- qualquer direito de me di- desejo modificar a decisão e
sidades deve ser exposta rigir a Deus, como faço na decreto da Sua Mente? Não
em detalhes ou feitas su- oração, e exigir ou mesmo é isso uma obstrução ao pró-
gestões ou recomendações, pedir que me seja dada prio efeito que desejo criar
seria tão incompatível uma vida mais longa, por- na consciência de Deus?
com a atitude verdadeira que esse é o meu desejo e Tenho eu qualquer direi-
de orar, que desvirtuaria a cheguei à conclusão de que to de me dirigir ao Criador

52 O ROSACRUZ · OUTONO 2016



de tudo e dizer que desejo Quantos, dentre nós, lim-
isto ou aquilo de um modo Quantos, pam as mãos de dívidas,
que indica que decidi a
respeito dessas coisas, ou
dentre nós, agradecendo a Deus cada
bênção individual recebida
solicitar que a Mente Divina
aceite o meu discernimen-
limpam as durante o dia? Afirma-se,
como norma legal, que não
to em vez do Seu próprio? mãos de podemos ir a uma corte e
Estou certo de que se pen- solicitar justiça, a menos que
sássemos em nos aproximar dívidas, a evidência de termos feito
do rei de um país ou do justiça a outros indivíduos
presidente de uma república, agradecendo prove que a merecemos.
cujos favores nos tivessem Como nos di­rigimos a
sido concedidos no passado
a Deus cada Deus em nossas orações?
e de cuja generosidade muito
tivéssemos nos beneficiado,
benção É verdade que o pecador
e aquele cujas mãos e alma
entregar-nos-íamos à oração individual estão enegrecidas pelo mal
de modo muito diferente. podem se dirigir a Deus da
Se tivéssemos recebido recebida mesma maneira que aquele
muitos favores de um rei que está puro e perfeito,
e nos fosse permitido ir à durante o mas, esse pecador de­verá,


sua presença para alguns primeiramente, buscar, na
momentos de comunhão, dia? miseri­córdia de Deus, o
encontrar-nos-íamos, pro-
vavelmente, proferindo,
antes de mais nada, palavras
de agradecimento pelo que
recebemos - acrescentando
que, se fosse da vontade real,
ficaríamos muito felizes se
pudéssemos continuar a
merecer as mesmas bênçãos
ou possivelmente mais.
Nenhum de nós pen-
saria em solicitar bênçãos
específicas sem, primei-
ramente, ter expressado
profundo agradecimento
pelo que já receberemos e
sem declarar que, embora
desejássemos a continuação
dos favores reais, não tínha-
mos direito de pedir mais.
Quantos, dentre nós,
oram com esta atitude?

OUTONO 2016 · O ROSACRUZ


53

perdão que não poderá en- e atividade plena de todas as
contrar nas cortes de justiça A oração nossas faculdades acarretam
dos ho­mens. Sua primeira
prece deverá ser de arrepen-
jamais deverá uma obrigação de traba­
lho, em nome de Deus, para
dimento e remorso, com um ser egoísta benefício da humanidade.
pe­dido de graça divina, de Se recebermos bênçãos sem
modo a poder comparecer, e pessoal termos prestado algum ser-
diante de Deus, purificado viço, ou devotado alguns dos
e digno de novas bênçãos. ao ponto nossos poderes e faculdades
Até certo ponto, so-
mos todos pecadores e,
de excluir ao benefício de outros, se-
remos pecadores, embora
para termos certeza de que os demais, possamos não ter cometido
compareceremos diante de ato evidente ou violado qual­
Deus com di­reito a bênçãos, especialmente quer determinação Cósmica.
nossa primeira súplica de-
verá ser de perdão e graça,
aqueles que Devemos estar seguros
de termos adquirido mere-
acompa­nhada de um sincero estão em cimento e obedecido, antes
sentimento de apre­ciação de podermos, razoavelmen-
pelas bênçãos já recebidas. maior aflição e te, esperar que as nossas
Se nos dirigirmos a Deus preces sejam consideradas.
deste modo, é mais do que necessidades Não deverá haver hipocri-
provável que ficaremos
tão impressionados com
do que aquele sia no coração ou mente,
autodecepção ou exaltação.
a magnificência da nossa que faz a Não deverá haver qualquer


participação na vida e com humilhação; por isso que a
a sublimidade das bênçãos súplica. grandiosidade e a bondade
divinas já desfrutadas, que de Deus, em nós, coloca o
nos esqueceremos das coi- Homem acima da humi-
sas de menor consequência lhação, se ele devidamente
que pretendíamos pedir. É considerar a sua relação
também provável que, se para com Deus. Deverá
analisarmos a nossa vida nas haver, todavia, humildade
últimas vinte e quatro horas de espírito, simplicidade de
e nos julgarmos corretamen- mente, pureza de coração.
te, chegaremos a compreen- Nossas orações deverão
der que não somos dignos ser expressões de desejos de
de maiores bênçãos - já maiores bênçãos, com o pen-
tendo recebido muito mais samento: “Seja feita a Vossa
do que poderemos compen- vonta­de, não a minha”, do-
sar ou, mesmo, merecer. minando a nossa mente. A
Nosso pecado poderá expressão simples: “Se for da
consistir, principalmente, de vontade do Pai, volte a saúde
omissões. A dádiva e bênção ao meu corpo” é uma súplica
de viver com a consciência muito mais contrita, sincera

54 O ROSACRUZ · OUTONO 2016


e digna do que uma que exi-
ja ou sugira que Deus mo-
difique a lei que se acha em
operação, coloque de lado
certas condições específicas
e estabeleça outras, simples-
mente porque é esse o nosso
desejo e a nossa conclusão.
O vaidoso que chegou à
conclusão de que ele, entre
todos os outros, deve ser o
vitorioso, não deve supli-
car a vitória, mas que Deus
conceda a vitória àquele que
tenha mais merecimento e
seja mais digno. Não só deve
a vontade de Deus ser o fator
decisivo, mas, também, a to-
dos os outros deve ser con-
cedido aquilo que merecem
e verdadeiramente necessi-
tam, quer tenham orado ou
negligenciado fazê-lo. A ora-
ção jamais deverá ser egoísta
e pessoal ao ponto de excluir
os demais, especialmente do com o fato de que não e dádiva além da própria
aqueles que estão em maior há nada que mais deseje do vida; não obstante, poucos
aflição e necessidades do que que as coisas almejadas por a apreciam em ocasiões
aquele que faz a súplica. inúmeras pessoas. Se apenas de paz, saúde e felicidade.
Gosto de pensar na ora- uma súplica puder ser feita Recorrem a ela somente
ção como raro privilégio de e uma bênção concedida, em momentos de triste-
uma entrevista pessoal com deverei ser suficientemente za, atribulações e penas.
o Rei dos Reis e o Senhor honesto para pedir que seja Aprendamos a orar e a
das Hostes e que me foi con­cedido a outros, e não fazer da oração uma comu-
proporcionada a oportu- a mim, aquilo que pedem. nhão real e um transborda-
nidade de pedir uma graça Embora cada ocasião mento da nossa mente, em
ou fazer uma súplica nessa possa se constituir em en- pureza e humildade. Essa
entrevista. Deverá ser a trevista privilegiada por será uma das perfeitas oca-
mesma coisa que eu pró- meio da qual entraremos siões de contato Cósmico.
prio concederia ao mundo em comunhão pessoal com Para o místico, é um mo-
e a todos, se fosse o rei. o Governador do Universo, mento transcendental em
Quando mpedito sobre a poderemos estabelecer essa nossa existência terrena. 4
súplica que farei, sinto-me, comunhão muitas vezes ao
muitas vezes, impressiona- dia. Esta é a maior bênção * Rosicrucian Digest, janeiro de 1931.

OUTONO 2016 · O ROSACRUZ


55
Nesta seção sempre
homenagearemos a história
de nossa Ordem no mundo
e na língua portuguesa,
lembrando por meio de
imagens os pioneiros que
OM

labutaram pelo Ideal Rosacruz


OCK.C

e plantaram as sementes cujos


INKST
© TH

frutos hoje desfrutamos. A


todos eles, a nossa reverência.

2 2

O
Museu Egípcio e Rosacruz foi inaugurado em 17 de outubro de 1990, com o objetivo
de divulgar a história de uma das principais civilizações da antiguidade oriental:
o Egito Antigo. A coleção do museu formou-se a partir da doação de réplicas de
artefatos egípcios realizados pelo artista plástico Eduardo Vilela. São cópias idênticas
aos originais. Com o tempo a coleção foi sendo ampliada e hoje conta com 700 objetos.
Em abril de 1995 somou-se à coleção a múmia de uma dama egípcia com cerca de
2.600 anos e batizada de Tothmea. Foi doada pelo Museu Egípcio e Rosacruz de San Jose –
Califórnia. Em 1999 foi iniciado um projeto no qual foi possível levantarmos sua história
– ela foi descoberta na atual Luxor e atuou possivelmente como cantora ou musicista de um
dos templos da deusa Isis. Foram realizadas duas tomografias computadorizadas avaliando
o processo de mumificação desta egípcia. Em 2012 um artista 3D realizou sua reconstrução
facial forense, concedendo um rosto à Tothmea.
Foto 1: Primeiro prédio do Museu Egípcio e Rosacruz, inaugurado em 17 de outubro de 1990; Foto 2: Frater Charles Vega Parucker, então
Grande Mestre da GLP, inaugurando o museu junto ao artista plástico Eduardo Vilela.

56 O ROSACRUZ · OUTONO 2016


Tradicional Ordem M artinista
Queridos Irmãos e Irmãs,
Saudações diante das Luminárias da Tradicional Ordem Martinistas!
A Angeologia (o conhecimento ou estudo dos Anjos) e a Hierarquia Celeste são temas abordados
no segundo grau da Tradicional Ordem Martinista. Algumas concepções são oriundas da abor-
dagem desenvolvida por Pseudo-Dionísio o Areopagita – século V – sobre o mundo angélico. O
excerto abaixo está fundamentado no que ele diz em seu livro “A Hierarquia Celeste”. Entendo
como oportuno a sua reflexão a respeito.
“Chamo de ‘Hierarquia’ uma santa disposição, um saber e um ato tão próximos quanto
possível da forma divina, elevados à imitação de Deus na medida das iluminações divi-
nas. Em sua simplicidade, em sua bondade, em sua perfeição fundamental, a Beleza que
convém a Deus, ela mesma pura de toda dessemelhança, comunica a cada ser, conforme
seu mérito, uma parte de sua própria luz, e o completa pela mais divina iniciação reves-
tindo com sua própria forma, de modo harmonioso e estável, aqueles a quem completa.
O objetivo da Hierarquia é, portanto, conferir às criaturas, o quanto for possível, a seme-
lhança divina, e uni-las a Deus. Deus é para ela, de fato, o Mestre de todo o conhecimento
e de toda a ação. Ela não cessa de contemplar Sua diviníssima bondade. Ela recebe Sua
marca na medida em que Ele estiver nela. De seus adeptos ela própria faz perfeitas ima-
gens de Deus – espelhos de transparência plena e sem máculas, aptos a receber o raio do
Fogo fundamental e da Tearquia (Governo de Deus ou Divina Providência) – e depois,
tendo santamente recebido a plenitude de seu esplendor, capazes então de, segundo os pre-
ceitos da Tearquia, transmitir livremente essa luz aos seres inferiores.”
Que a Eterna Luz da Sabedoria Divina os Ilumine Sempre!

Hélio de Moraes e Marques


Grande Mestre

S.I.
A
humanidade recebe de tempos em tempos personalidades-
alma que são “divisoras de águas”, ou seja, o mundo é um
antes delas e outro após elas.
Como verdadeiros mensageiros de Luz a serviço da humanidade,
esses seres receberam do Cósmico a missão de causar uma forte
influência na sociedade em que estavam inseridos, recebendo
postumamente o reconhecimento de sua visão, liderança e
iluminação que abrangeram todo o nosso mundo. Vieram para
mudar, romper paradigmas e deixar os seus pensamentos, palavras e
ações como exemplos de seres humanos especiais.
Esta capa da revista “O Rosacruz” é dedicada a estes Seres de
Luz que, como Mestres, nos ensinaram o Sentido da Vida.

Zilda Arns Neumann fundou e coordenou a


Pastoral da Criança e a Pastoral da Pessoa Idosa, instituições de
ação social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
Zilda Arns nasceu dia 25 de agosto de 1934, em Forquilhinha,
Santa Catarina. Mas foi em Curitiba que seu trabalho se tornou
mundialmente conhecido.
Na década de 50 começou a estudar medicina na Universidade Federal do Paraná UFPR. Dedicou mais
tempo de estudos em saúde pública, pediatria e sanitarismo, para dar seguimento aquele que se tornou seu
maior objetivo de vida: cuidar de crianças. Nesse contexto Zilda abraçou a causa da redução da mortalida-
de infantil e problemas com desnutrição e violência.
Assim que entrou na faculdade, começou a cuidar de crianças menores de um ano. Zilda ficou sensibili-
zada com o enorme número de crianças internadas por causa de doenças que eram de fácil prevenção.
O reconhecimento não tardou e na década de 80 o Governo do Estado do Paraná a convidou para coor-
denar uma campanha de vacinação no estado contra a poliomielite. Zilda criou seu próprio procedimento
com combate à doença que passou a ser adotado pelo Ministério da Saúde.
Muitos foram seus trabalhos com prevenção e cuidados médicos, mas um deu notória importância para
seu nome: a criação da Pastoral da Criança, no ano de 1983, que visava assistir crianças pobres menores de
6 anos, em vários municípios brasileiros. Zilda contou com a ajuda de milhares de voluntários que se soli-
darizaram em levar informações sobre saúde, alimentação, educação e cidadania em comunidades carentes
para que eles próprios mudassem seu contexto social.
Desde que foi implantada, a Pastoral da Criança já recebeu muitos prêmios. Zilda Arns também foi
homenageada com menções especiais e diversos títulos de cidadã honorária no Brasil.
Além das crianças, ela também passou a olhar pelos idosos. Em 2004 a CNBB lhe ordenou outra missão:
fundar, organizar e coordenar a Pastoral da Pessoa Idosa. Milhares de idosos são assistidos todos os meses
por mais de 19 mil voluntários.
Em 2010 Zilda Arns foi para a cidade de Porto Príncipe, no Haiti, para uma nova missão humanitária:
instalar a Pastoral da Criança naquele país. Mas um terrível terremoto pôs fim a vida daquela que se tornou
um exemplo para muitas pessoas. Em 2012 ela foi eleita a “17ª maior brasileira de todos os tempos”.

“A Pastoral da Criança, desde o início, teve a preocupação não só de reduzir a mortalidade


infantil e a desnutrição, mas também de promover a paz nas famílias e comunidades, pelas
atitudes de solidariedade e a partilha do saber a todas as famílias”.
– Zilda Arns