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SILVA, Tomaz Tadeu da. Documentos de identidade: Uma introdução às teorias do currículo. Belo Horizonte: Autêntica, 2005.

[original: 1999]

Parte 2 – Capítulo 9 - “Quem escondeu o currículo oculto?”, pp. 77-81.

1. A estranha atração pela noção de “currículo oculto”. (pp. 77-81)


1.1. Ela está subentendida em algumas das teorizações que já consideramos.
1.1.1. Bowles e Gintis: no “princípio da correspondência”, as relações sociais na escola é que realizavam a
socialização de tipo capitalista.
1.1.2. Na noção de “ideologia” de Althusser: esta se expressa através de rituais, gestos e práticas corporais
também.
1.1.2.1. I.e.: “aprendia-se” a ideologia quase que “na prática”.
1.1.3. E em Bernstein: o aprendizado do código de classe através do currículo e da pedagogia.
1.2. Originalmente, ela foi usada explicitamente pela primeira vez em 1968: Philip Jackson, Life in classrooms.
1.2.1. Jogo de poder e elogio, que alunos e professores têm que aprender para terem sucesso.
1.3. Foi ampliada por Robert Dreeben, On what in learned in school: abordagem funcionalista.
1.3.1. Características estruturais da sala de aula e da situação de ensino é que “ensinavam” certas coisas:
as relações de autoridade, a organização do espaço, a distribuição do tempo, os padrões de recompensa e
castigo etc.
1.4. A diferença entre essa perspectiva e as teorias críticas seria basicamente se isso é desejável ou não.
1.4.1. Para Dreeben, é um tratamento necessário para o perfeito funcionamento da sociedade “avançada”.
1.4.2. Para os críticos, é a forma de adaptar as crianças às injustiças estruturais da sociedade capitalista.
1.5. Mas o que é, afinal de contas, “currículo oculto”?
1.5.1. Basicamente: “O currículo oculto é constituído por todos aqueles aspectos do ambiente escolar que,
sem fazer parte do currículo oficial, explícito, contribuem, de forma implícita, para aprendizagens sociais
relevantes”. (p. 78)
1.5.2. Que “aspectos”? “O que” se aprende com o currículo oculto?
1.5.2.1. Para os críticos: atitudes, comportamentos, valores e orientações às estruturas sociais
dominantes.
1.5.2.1.1. Ou seja: ensina o conformismo, a obediência inconteste, o individualismo etc.
1.5.2.1.2. Para as crianças das classes operárias, é o aprendizado da subordinação.
1.5.2.1.3. Para as crianças das classes dominantes, é o aprendizado da dominação.
1.5.2.2. Mas não só: aprendem-se os valores próprios da nacionalidade, do ser homem ou mulher,
do ser de determinada raça ou etnia etc.
1.5.3. Que “aprendizagens”? Como se aprende com o currículo oculto?
1.5.3.1. Já vimos: as relações sociais na escola.
1.5.3.1.1. Relação professores-alunos, administração-alunos, alunos-alunos etc.
1.5.3.2. Também: a organização do espaço escolar na conformação de comportamentos sociais.
1.5.3.2.1. Um espaço mais rígido ensina certas coisas; um mais frouxo, outras.
1.5.3.3. A distribuição do tempo: pontualidade, controle, divisão em unidades dedicadas para cada
tarefa etc.
1.5.3.4. Através de rituais, regras e normas.
1.5.3.5. E: categorizações explícitas ou implícitas sobre quem são os “capazes” e os “incapazes”.

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1.6. O que fazer com um currículo oculto quando se encontrar um?
1.6.1. Na teoria crítica: buscar a conscientização (desocultar o currículo oculto).
1.6.1.1. Desocultando-o, ele perde parte de sua eficácia: permite a mudança.
1.6.1.1.1. Algo próximo das iniciativas da sociologia crítica da educação vista aqui: descrever
os processos sociais que moldam a subjetividade sem nossa consciência.
1.6.1.1.2. É, portanto, um instrumento conceitual poderoso para tirar a opacidade da vida
cotidiana da sala de aula.
1.6.1.1.2.1. E isso apesar da ênfase pós-estruturalista na “visibilidade” dos textos
sociais, mais do que na “invisibilidade” das relações sociais.
1.6.2. No entanto, esse conceito tem se desgastado recentemente: trivialização.
1.6.2.1. Houve uma verdadeira “caça” a currículos ocultos em toda parte, um esforço de catalogação
que esqueceu como ele se conecta com os processos sociais mais amplos.
1.6.2.2. Além disso, como o conceito foi gerado dentro do estruturalismo, quando este caiu em
descrédito, ele passou a ser visto com suspeita.
1.6.2.2.1. O “oculto” do currículo oculto é uma expressão impessoal, estrutural.
1.6.2.3. Por fim, diante do neoliberalismo, não há mais mesmo muita coisa oculta: o currículo é
descaradamente a afirmação dos valores capitalistas.