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Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic/UFPE/CNPq)

Orientadora: Profa. Dra. Maria Luisa Freitas


Aluna: Ingrid Nascimento Fernandes
Departamento de Letras
Centro de Artes e Comunicação
Título do Projeto: Estudo do Sistema de Caso da Língua Ya:thê: uma abordagem
comparativa

1. Introdução

A língua Ya:thê, pertencente ao tronco linguístico Macro-Jê (Rodrigues, 1986), é


a única língua indígena falada no nordeste brasileiro. O povo indígena Fulni-ô, falante
desta língua, vive no município de Águas Belas, a 300 quilômetros de Recife (Costa,
2008). Este projeto tem por intuito iniciar uma investigação sobre o sistema de Caso da
língua Ya:thê, tendo em vista uma perspectiva tipológico-formalista. Considerando a
análise dos sistemas de Caso e Concordância existentes em línguas do tronco linguístico
Macro-Jê1, descritos em diversos trabalhos (Maia et al. 1999, Silva 2001, Campos 2009,
entre outros), a aluna passará a verificar o funcionamento do fenômeno morfossintático
em foco na língua Ya:thê, a partir de dados disponíveis em diversos trabalhos científicos
(Lapenda 1968, Costa 1994, 1998, entre outros) e, em especial, na tese de doutoramento
de Costa (1998), que traz uma análise robusta sobre os principais aspectos
morfofonológicos e morfossintáticos da língua Ya:thê.

Segundo Costa (1998), Ya:thê é uma língua com tipologia morfológica


fusionante, cuja ordem básica é SOV e com características de ergatividade tanto
morfológica quanto sintática. A hipótese que iremos investigar se relaciona à presença, na
língua, de um mecanismo de ergatividade cindida, que exibe diferenças na codificação do
sujeito intransitivo a depender da estrutura argumental do verbo: sujeitos de verbos
inacusativos são tratados como objeto, ao passo que sujeitos de verbos inergativos são
marcados como o sujeito transitivo.

O estudo aprofundado do sistema de Caso de uma língua é uma porta de entrada


importante para a compreensão do funcionamento da sintaxe da mesma, uma vez que os
alinhamentos de Caso apresentam implicações para a concordância, para os mecanismos
de subordinação e de voz e para a codificação dos argumentos nucleares. Sendo assim,
esta pesquisa justifica-se porque pode trazer novos olhares para o fenômeno em foco,
colaborando para a descrição e análise de uma língua minoritária e ameaçada de extinção.
Ademais, o estudo comparativo da morfossintaxe do Ya:thê com outras línguas do tronco
linguístico Macro Jê pode possibilitar, futuramente, uma melhor classificação genética da
mesma, uma vez que a classificação de Rodrigues (1986) para o Ya:thê é um pouco
incipiente, em virtude da falta de dados disponíveis para o autor.


1
O tronco linguístico Macro-Jê conta com aproximadamente nove famílias linguísticas, a saber: Bororo,
Krenak, Guató, Jê, Karajá, Maxacali, Ofayé, Rikbaktsá e Yathê.
1

Outra questão importante se relaciona à formação em pesquisa científica da aluna
do curso de Bacharelado em Letras, com um tema de relevância descritiva, teórica e de
responsabilidade social2. Este projeto possibilitará a formação da aluna para o uso de uma
ferramenta interessante para a pesquisa linguística (Toolbox), bem como a permitirá criar
familiaridade com dados de línguas pouco descritas e tipologicamente distintas das
línguas mais conhecidas, como as indo-europeias, por exemplo.

Assim sendo, o presente projeto tem os seguintes objetivos:

- Desenvolver uma base de dados morfologicamente anotados, em formato .txt, a


partir do uso do software Toolbox, que compreenda os dados disponíveis
(publicados) da língua Ya:thê e dados de outras línguas3 do tronco Macro Jê.

- Descrever e analisar o sistema de caso da Língua Ya:thê, a partir da comparação


com outras línguas do tronco Macro Jê.

2. Fundamentação Teórica

As línguas do mundo distinguem, segundo uma perspectiva tipológica, sentenças


que envolvem um verbo com um único argumento e aquelas que envolvem um verbo e
dois ou mais argumentos nucleares. Segundo Dixon (1994), há uma premissa de que as
línguas funcionem em termos de três relações primitivas:

(S) – sujeito intransitivo


(A) – sujeito transitivo
(O) – objeto transitivo

Assim, nas línguas em que há um sistema nominativo-acusativo, (S) e (A)


receberão o mesmo tratamento gramatical4. Já nas línguas do tipo ergativo-absolutivo, (S)
e (O) recebem, em geral, uma mesma marca gramatical. Dessa forma, é possível
esquematizar essas relações da seguinte maneira:

(1) Sistema Sistema


Nominativo Arg. Ergativo

A Ergativo
Nominativo {
S
} Absolutivo
Acusativo O


2
A documentação, descrição e análise de línguas minoritárias nativas do Brasil, que vivem um perigo
iminente de extinção, é uma necessidade urgente.
3
Veja na seção 3 deste projeto como será feita a seleção de línguas que serão incorporadas à base de dados
comparativa.
4
O tratamento gramatical a que nos referimos aqui relaciona-se ao aparecimento de morfemas casuais nos
D/NPs; morfemas no núcleo do predicador; ordem fixa; etc.
2

Muitas línguas apresentam, entretanto, uma mistura entre o sistema nominativo-
acusativo e o ergativo-absolutivo. Nestas situações, ocorre uma cisão no sistema de
codificação dos argumentos nucleares (A), (S) e (O). Esta cisão é comumente rotulada de
ergatividade cindida e é, em geral, engatilhada por vários fatores gramaticais, dentre
esses, vale destacar: a natureza semântica e argumental do verbo; o papel temático
atribuído aos argumentos nucleares na posição de sujeito (A)/(S) e (O); o traço aspectual
da sentença; o modo em que a sentença se encontra; dentre outros.

Para a gramática gerativa, a categoria de Caso não é uma propriedade privativa


das línguas que a exibem na morfologia, como acontece no Latim, no Alemão, entre
outras. Nesta abordagem, todos os sintagmas nominais (doravante DP, do inglês
determiner phrase) foneticamente realizados devem receber Caso abstrato na sintaxe, o
qual pode ou não se manifestar fonologicamente nas línguas naturais. Nesse sentido, a
categoria de Caso é o traço formal ininterpretável por excelência, uma vez que regula a
distribuição dos DPs na sentença, sem alterar seu significado. Adger (2002:211) propõe
que Caso (estrutural) tem a seguinte função:

(...) the function of case features is to regulate the syntactic


distribution of nominal phrases, rather than to mark any special
semantic properties.

A atribuição de Caso estrutural se dá de maneiras distintas nas línguas naturais.


Os núcleos funcionais To, vo e Po são os atribuidores dos Casos estruturais nominativo,
acusativo e oblíquo, respectivamente. O Caso nominativo é atribuído, em geral, em uma
relação de SPEC-NÚCLEO, enquanto o acusativo e o oblíquo podem ser atribuídos em uma
relação NÚCLEO-COMPLEMENTO ou SPEC-NÚCLEO, variando de língua para língua.

Em muitas línguas naturais, a atribuição do Caso estrutural pode ter reflexos na


morfologia nominal por meio de sufixos de Caso. Esta é a situação no Latim, como pode
ser observado nos exemplos abaixo:

LATIM
(2) Puella seruum uidet (Rezende, 2003)
menina-NOM escravo-ACUS ver-3s
“A menina vê o escravo”

(3) Líber discipŭlum delectat


livro-NOM aluno-ACUS encantar-3s
“O livro encanta o aluno” (Rezende, 2003)

Em outras línguas, por sua vez, é a rigidez na ordem dos argumentos nucleares da
sentença que será responsável pela identificação do Caso estrutural dos argumentos. Esta
parece ser a situação em Português, em Inglês e em Mekéns (família Tuparí). Isto
significa que uma mudança na ordem dos argumentos nucleares pode alterar a sua função
sintática na sentença, conforme os dados a seguir:

(4) O menino viu a menina.


3

(5) A menina viu o menino.

Notem que, nos exemplos acima, o DP que recebe Caso nominativo ocupa a
posição canônica à esquerda do verbo, enquanto o DP que recebe o Caso acusativo situa-
se na posição à direita do verbo, mais precisamente na posição de argumento interno de
V°. Assim, se variarmos a ordem, o Caso também será alterado. Em suma, a codificação
da categoria de Caso envolve, portanto, variadas questões morfológicas e sintáticas e
representa um importante mecanismo formal de funcionamento das gramáticas das
línguas.

3. Metodologia

Inicialmente, aluna deverá fazer um levantamento de trabalhos publicados (teses,


dissertações e artigos científicos) que descrevem os sistemas de Caso localizados em
línguas do tronco linguístico Macro-Jê. Para tal, selecionaremos uma amostra que seja
representativa das nove famílias linguísticas (que contam com um total aproximado de 18
línguas), considerando o volume de material disponível e a pertinência ao tema
investigado. A nossa proposta inicial seria a de incluir três línguas, além do Ya:thê, a
saber: Maxacali (Campos 2009); Mebengokré (Kayapó; Silva 1991); e Karajá (Maia et al
1999). Os dados selecionados irão compor uma base de dados textual em formato .txt, a
partir do uso do software Toolbox (SIL, 2015). Adicionalmente, os dados disponíveis da
língua Ya:thê também serão incorporados à base de dados, permitindo a comparação com
as demais línguas selecionadas.

Os dados serão anotados morfologicamente, o que significa que a glosa contará


com uma camada em que identificaremos a tradução palavra por palavra dos itens, bem
como as funções gramaticais dos morfemas. A partir da etiqueta POS (part of speech),
usada na anotação morfológica, é possível mobilizar ferramentas de busca para que a
pesquisa linguística seja facilitada. Os dados priorizados para compor esta base de dados
serão sentenças declarativas independentes transitivas e intransitivas e pequenos textos.

4. Resultados esperados

Ao final de um ano da execução deste projeto de iniciação científica, esperamos


obter os seguintes resultados:

- Formação da aluna para uso do software Toolbox, que permite a criação de bases
de dados lexicais e textuais, bem como a interlinearização de dados linguísticos,
com a criação de glosas em quatro camadas: texto na língua objeto, transcrição
fonética, tradução palavra por palavra e tradução livre.

- Criação de base de dados morfologicamente anotados, em formato .txt, para


investigação do fenômeno em foco nesta pesquisa.

4

- Descrição e análise dos sistemas de Caso localizados nas línguas em estudo e, em
particular, na língua Ya:thê.

5. Viabilidade de execução

Este projeto apresenta boa viabilidade de execução, uma vez que o projeto
envolverá levantamento bibliográfico e os dados que serão analisados estão publicados
em diversos trabalhos científicos. A ferramenta Toolbox é um software livre de fácil
execução e manuseio, com uma interface bastante ‘amigável’. Trabalharemos junto à
aluna na configuração do programa, bem como no seu treinamento para uso.

6. Cronograma de Atividades

Para realização desse projeto, são propostos 12 meses de trabalho, com 20


horas de dedicação semanais. Para isso, a aluna deverá desenvolver as seguintes
atividades.

A1 Levantamento bibliográfico
A2 Treinamento para uso do Toolbox
A3 Inserção dos dados na base de dados
A4 Leitura e fichamento de bibliografia
A5 Descrição e análise dos dados
A6 Elaboração de artigo
A7 Participação em evento científico
A8 Elaboração e entrega de relatório

Atividade 1° Bim. 2° Bim. 3° Bim. 4° Bim. 5° Bim. 6° Bim.


A1
A2
A3
A4
A5
A6
A7
A8

5

7. Bibliografia

ADGER, D. Core Syntax: A minimalist approach, 2004.


CAMPOS, Carlo Sandro de Oliveira Morfofonêmica e morfossintaxe da língua Maxakalí.
Tese de Doutorado em Linguística. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas
Gerais. 2009.
COSTA, Januacele F. Bilinguismo e atitudes linguísticas interétnicas. Aspectos do
contato Português-Ya:thê. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal de
Pernambuco. 1993
________. Ya:thê: a última língua nativa no nordeste brasileiro. Tese de Doutorado.
Universidade Federal de Pernambuco. 1999.
DIXON, R. Ergativity. Language, volume 55, p.59-138, 1979.
_________. Ergativity. Cambridge, England: Cambridge University Press, 1994.
LAPENDA, Geraldo. Estrutura da Língua Iatê. Recife: Editora Universitária. 2ed. 2005.
MAIA, Marcus, FRANCHETTO, Bruna, LEITE, Yonne de Freitas, SOARES, Marília
Facó, & VIEIRA, Marcia Damaso. (1999). A estrutura da oração em línguas indígenas
brasileiras. DELTA: Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e Aplicada, 15(1),
00. https://dx.doi.org/10.1590/S0102-44501999000100001
REZENDE, A. M. Latina essentǐa: preparação ao latim. Belo Horizonte: Ed. UFMG,
2003. 3 ed.
RODRIGUES, A. D. Línguas brasileiras: para conhecimento das línguas indígenas. São
Paulo: Ed. Loyola, 1986.

Recife, 12 de Abril de 2017.

Ingrid Nascimento Fernandes (Aluna)

Maria Luisa de Andrade Freitas (Orientadora)