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Relatos e Passagens | Roberto Herrera

Copyright 2016
Roberto Herrera
Título Original: Relatos e Passagens
Rio de Janeiro: Brasil
Todos os direitos reservados
Catalogação:

▪ Relatos de viagem,
▪ Aventureiros & exploradores
▪ Montanhismo

ISBN: 978-1534713604
“Os homens marcham aos confins do mundo por diferentes motivos.
Alguns são impelidos somente pelo desejo da aventura; outros sentem
uma intensa sede de saber; os terceiros obedecem à sedutora chamada
de uma voz interior, ao encanto misterioso do desconhecido que os
afastam dos caminhos rotineiros da vida cotidiana...” Ernest Henry
Shackleton
Índice

Sonhos de um aventureiro
Parque Nacional Picos De Europa
Parque Nacional do Itatiaia
Travessia da Serra Fina
De volta ao Açu
Literatura de Montanha
A Alimentação na Montanha
Rumo à Patagônia
Sobre o autor
Sonhos de um aventureiro

Este livro é uma espécie de diário de bordo. Aqui estão reunidos os textos
que escrevi até hoje contando minhas experiências adquiridas nos últimos
cinco anos, pelas montanhas e parques nacionais que visitei. Embora tenha
adquirido o gosto de articular palavras, e ultimamente tenha praticado a
escrita todos os dias, não me considero um escritor profissional. É como se
alguém que apenas saiba uns acordes de violão e se auto-proclama como um
músico. Não é bem assim, creio. Ao meu ver, profissionalismo na escrita e
nas demais áreas, requer uma prática de anos. Portanto, peço desde já
desculpas pelos eventuais erros que o leitor encontrará pelo caminho. Espero
que não sejam muitos. Dei o meu melhor de mim, sem dúvidas.
Curioso pensar que antigamente, as pessoas escreviam seus pensamentos
num caderno e os escondiam a sete chaves, enquanto hoje em dia, fazemos
questão de publicar para qualquer um ler essa tal intimidade, como se isso
fosse algo útil, ou realmente interessasse alguém. Pareço não me importar
com este fato, e além disso, quem escreve, de certa forma, está condenado a
se expor. Tal como um cineasta que ao apontar sua câmera para qualquer
realidade, está fadado a se conformar com seu próprio ponto de vista, em
detrimento dos demais pontos possíveis ao seu redor. Portanto, aqui vou eu.
Tenho estranhado a vida numa grande metrópole, como o Rio de Janeiro.
As correrias do dia a dia, os longos deslocamentos, as fobias, a competição,
as tragédias, a corrupção. Tudo isso me faz ver o estilo de vida urbano muito
prejudicial, em vários aspectos, principalmente ao da saúde. Diante disso,
cria-se um movimento interior de escape, como se tratasse de uma
autodefesa. As montanhas aqui, são como um movimento de fuga rumo ao
isolamento, onde acredito que encontrarei um algo a mais. Acredito que no
meu caso, as montanhas são a busca por uma intensa sensação de liberdade;
sei que os grandes espaços ao ar livre podem nos fornecer isso. Esse
movimento pode ser visto também como uma fuga do cotidiano. Além disso,
trata-se, ao mesmo tempo, de uma fuga para o encontro direto comigo
mesmo. Na montanha, o que me fascina é ir ao limite de nossas capacidades,
e neste limite podemos nos conhecer melhor. Tanto a si mesmo, quanto os
que nos acompanham nesses aventuras. É um lugar onde estamos
fortalecendo tanto o nosso autoconhecimento quanto nossas relações com as
outras pessoas. As experiências na montanha nos ajuda para enfrentar a vida
fora delas.
Neste momento estou pensado em dar um novo rumo à minha vida,
conhecer novas pessoas, e em como fazer com que minha paixão por grandes
espaços se incorpore de vez em meu cotidiano. Na verdade, estou como que
buscando algo, talvez espiritual, que projeto nesses lugares sobre os quais
sonho e escrevo. Quando me vejo escrevendo isto dá até a impressão do que
preciso mesmo é de um psicólogo, ou um coach profissional. Mas o que eles
me diriam se meus sonhos tem a ver com reviravoltas mirabolantes? Viver de
reportagens sobre os confins do mundo patagônico e outros lugares remotos,
desbravar os Andes de sul ao norte, as montanhas rochosas, percorrendo-as
do estado de Montana ao Alasca, na América do Norte; fazer um curso de
escalada em Chamonix na França, e explorar as Dolomitas na Itália, conhecer
a altitude dos Himalaias. E o dinheiro para isso? E os meus sonhos entre eles?
Neste momento resta-me escrever, apenas. Esta é uma forma de viajar
também, e de certa maneira, estou confortável com isso. Acho que muitos
aventureiros passam por situação parecida, onde seus sonhos não cabem em
seus bolsos. Outros mais resolvidos diriam que isso é uma desculpa. Quantos
casos como o esse já não houve, em que o sonhador simplesmente decide
partir em busca de suas miragens de um grande mundo afora, muitas vezes
estilizado em seu interior, como se o lado bom estivesse lá e não aqui;
confiando que a vida, e sua harmonia oculta, se encarregará de trazer-lhe
surpresas agradáveis?
Talvez eu coloque a desculpa na falta de dinheiro por saber que não
abandonarei minha família (nem meu cachorro) e as responsabilidades do lar
por uma causa egoísta, que é viajar por aí, para o meu próprio prazer. Sei
também que conquistarei alguns desses sonhos de qualquer maneira, cedo ou
tarde. Entretanto, receio que uma vida só não será suficiente para alcançar
todos eles. Quem sabe? Estou com 30 anos, e meus sonhos de montanha
começaram apenas há 5 anos atrás, os que já realizei estão escritos aqui, nos
capítulos que seguirão. Mas montanhas nunca serão o suficiente, trata-se de
um desejo insaciável. São essas as montanhas de minha mente. Quando se
está nelas, sobretudo quando enfrentamos uma dificuldade passageira,
pensamos que porra estou fazendo aqui? Mas justo ao regresar para minha
zona de conforto, e olhando para trás tudo que vivi naqueles espaços
grandiosos e magnéticos para minha alma, o bichinho montanhês me morde
novamente, e vem aquele desejo de começar de novo. As visões do mundo
em harmonia, a certa paz interior, meu ser presente. A jornada. Uma espécie
de vício, que faz parecer com que a vida nas cidades pareça simplesmente
chata. Enquanto que o único antídoto para isso é simplesmente partir.
Parque Nacional Picos De Europa

A viagem ao Parque Nacional Picos de Europa foi meu primeiro contato


sério com a montanha. Foi a partir dela que descobri finalmente qual é a
atividade física que me convém: as caminhadas de longas distância, ou
travessias em alta montanha. Claro que o prazer de viajar divide minha
motivação para isso; mas atualmente, passados 4 anos desta viagem, continuo
praticando esta atividade, hoje mais pelo esporte em si, do que pelo passeio.
Ao mesmo tempo, as belezas naturais das paisagens as quais me dirijo são
também uma escusa muito válida para partir; tudo isto compõe meus motivos
para ter ido aos Picos de Europa, em setembro de 2011. Trata-se de um local
um tanto inóspito ao ser humano inadaptado (neste caso, eu mesmo) ao qual
meu corpo teve que habituar-se, no que se refere ao esforço feito para
enfrentar longas subidas, atravessar os vales e os campos de altitude.

A Cordilheira Cantábrica ou Montes Cantábricos é um complexo de


montanhas ao norte da Espanha, que discorre paralelo ao Mar Cantábrico.
Tem um comprimento de 480 km desde a depressão basca até o Maciço
Galaico, passando pelos Picos da Europa. A cordilheira se situa nas
comunidades autônomas do País Basco, Cantábria, Principado de Astúrias e
Castilla y León e representa o limite pelo sul da chamada “Espanha verde”.
Enquanto que em sua vertente sul, desde o Maciço Central, existe pouco
desnível, na vertente norte o desnível é bastante acusado pela proximidade
ao mar, o faz que os rios, de caráter torrencial, e pendentes encalhadas em
vales em forma de V, de ladeiras pronunciadas. Seus cumes ultrapassam os
2000 metros nos vãos mais pronunciados de Astúrias, León, Palência e na
zona oriental, de Cantábria. Os ventos dominantes, de origem oceânica,
chocam com a cordilheira, ascendendo e condensando tendo como resultado
a refrigeração. Devido ao vento Föhn são produzidas abundantes
precipitações na vertente norte cantábrica (de até 2000 mm anuais) e para
quando os ventos descem até a vertente meridional estão já secos, dando
origem a um clima mais árido.
Cheguei a Madri vindo de Amsterdã, onde então vivia com minha ex-
mulher, Maartje, minha companheira nesta viagem. A primeira coisa que
fizemos foi alugar um carro, isso foi perto ao estádio Santiago Bernabeu. A
estrada de saída da capital era ali perto, e não demorou muito já estávamos
em direção ao norte, no sentido da provincia Cantabria. O destino era o
vilarejo Potes, um pequeno município de estilo alpino, destino tradicional do
turismo de montanha espanhol. No meio do trajeto paramos em Burgos para
fazer as compras necessárias, onde não resisti entrar numa chacutería, loja
típica da Espanha onde compra-se embutidos e queijos diversos. Comprei
1kg de jamón serrano para a viagem. Além do sabor incomparável, acho
cômodo de armazená-lo na mochila e levá-lo para trilha, ainda que não seja
aconselhável comê-lo durante a atividade física devido ao excesso de sal.
Mesmo assim este alimento, assim como o salame, representa uma
importante fonte de proteínas e minerais. Lamento pelos vegetarianos.

Quando chegamos à Potes já era bem tarde na noite, pela sombra da lua
via-se a silhueta de montanhas enormes ao fundo, causando verdadeira
ansiedade por vê-las à luz do dia. O vilarejo é muito simpático, e como em
qualquer lugar da Espanha, come-se muito bem. Dispõem de uma farta oferta
de lojas artigos de montanha, mercados, hotéis e acampamentos com toda
infraestrutura. Havia apenas poucos restaurantes abertos quando chegamos, e
somente algumas pessoas pela rua. Seguimos para perto dos acessos ao
parque pelo teleférico, um local chamado Fuente De, onde ingressamos num
acampamento bem próximo ao estacionamento principal deste acesso ao
parque. Embora tarde, fomos bem recebidos pelo pessoal. Ainda na recepção,
compramos um mapa do parque, e numa rápida conversa com o dono do
local, percebemos que o melhor a se fazer no dia seguinte era seguir a trilha
que nos leva ao refúgio Collado Jermoso.
Ainda de madrugada, montamos o acampamento em silêncio para não
incomodar os outros hóspedes do local. No dia seguinte bem cedo,
acordamos por volta das 6h00 da manhã, cheios de disposição e de ansiedade
por ver o ambiente ao nosso redor. Na luz do dia, o acampamento já nos
oferecia um panorama animador, cercados por formações rochosas
impressionantes. Estávamos nitidamente num vale. Após o café, separamos o
material necessário para subir o maciço central do parque, optando por 2
mochilas leves, com mais ou menos 6kg cada um. Deixamos o carro no
estacionamento com o material do campo base, e por volta das 9h00,
iniciamos a da trilha saindo de Fuente De com destino ao Refúgio Collado
Jermoso, a 2400 metros de altitude.
A primeira etapa é sem dúvida a mais exigente da caminhada, como
acontece com toda ascensão às partes altas das montanhas. Caminhamos
entre dois picos, chamados Tornos de Liordes, por uma subida 5.5km em
zigzag bastante íngreme, saímos de Fuente De a 1052m até 1900m, no vale
Vega de Liordes. Subindo por um terreno difícil, e rochoso. Não obstante, a
paisagem vista desde a altitude alcançada, nos compensava a cada metro
conquistado. Olhar para frente era olhar para o alto. Era neste momento que
sentíamos nossos corpos recebendo um tremendo desafio, e cada um deveria
encontrar seu próprio ritmo de passo. Numa subida assim é melhor não
forçar, ainda mais pessoas fisicamente despreparadas quanto éramos. Neste
caso, pelo menos eu não era muito acostumado a exercícios físicos regulares,
portanto, como quase do nada, de repente enfrentar aquelas encostas, era uma
atividade um tanto exigente. Hoje em dia penso que estou muito mais
condicionado, e já não me assusto com esse tipo de desnível. De todas as
maneiras, estes primeiros dias de atividade são muito importantes para
adaptação do corpo frente ao esforço enfrentado. Após esse período, é nítida
a diferença de como se percebe o próprio corpo, e de como ele ganha
resistência, sobretudo com uma alimentação e hidratação adequadas.
Com estes dois fatores em dia, os dias de caminhada por essas trilhas
deixam seu organismo visivelmente mais disposto e resistente. Mas a subida
é longa, e requer paciência. Quando o desgaste bate forte, procuro não me
queixar das dificuldades, mas absorver e me concentrar na pura sensação
deste cansaço. É incrível como a mente trabalha entre movimento de opostos:
no meu caso, quando evito pensar na fadiga, mais cansado fico, por outro
lado, quando somente observo o estado do corpo exausto, e então me deparo
com a realidade, eis o momento em que encontro a energia necessária para
seguir. Todos os sentidos estão em alerta. Sinto que nessas etapas mais
exigentes da subida, é necessário observar a si mesmo e ao corpo frente ao
esforço, ter paciência, confiando numa recompensa, que em casos como este,
trata-se mesmo do fim da subida.
Terminamos o primeiro trecho de elevação em 2h30, em seguida paramos
para um merecido e esperado lanche em Vega de Liordes. Um vale que é ao
mesmo tempo um imenso e pitoresco campo de altitude, onde o ruído do
vento passando por nós, a amplitude do espaço com suas belas formações
rochosas ao fundo, junto dos animais nas pastagens, dão-nos uma incrível
sensação de liberdade. Neste ponto já não há na paisagem vestígios de
civilização, exceto nós mesmos e os outros passageiros, e as placas
sinalizando a trilha ao refúgio. Depois do lanche de trilha, nos aproximamos
do caminho que segue ainda Vega de Liordes. Neste momento um grupo de
caminhantes pergunta-nos se por acaso sabemos onde está uma mina de água
subterrânea que provavelmente corre por esta área. Na verdade fiquei feliz
por saber que ali havia uma fonte, e que provavelmente seria a última até o
refúgio. Fazia um calor intenso por volta do 12:00. Juntei-me a esse grupo na
busca pela mina d´água, observando o solo atentamente, até que reparei que
haviam canais subterrâneos por onde a neve derretida escoava, vinda dos
picos acima de nós, porém ainda não encontrávamos o local onde poderíamos
captá-la em estado puro, sem estar suja com os resíduos o solo. De repente
um dos caras encontrou a fonte, e para nossa alegria, de uma água muito
gelada, perfeita para o momento.
Seguimos o caminho sinalizado sentido ao refúgio, onde se inicia uma
trilha chamada Colladina, a qual se desenvolve na própria encosta da
formação rochosa, que ao nosso lado transformara-se em uma parede. Em
certos pontos expunha-nos a um precipício vertiginoso, mas sem riscos
eminentes. Esta trilha incômoda e estreita segue por 1h00, num caminho que
como se não bastasse a vertigem à nossa esquerda, é dividido com cabras de
alta montanha, as quais impressionantemente se movem com desenvoltura e
se equilibram para alcançar o melhor pasto rasteiro que nasce por entre as
pedras. Quem não está habituado ou tem medo de altitude, encontrará
problemas neste trecho, pois a sensação de estar exposto ao abismo é latente.
Mesmo assim, não existe a necessidade do uso de cordas para cruzá-lo,
apesar de estreito, o caminho somente requer atenção.
No fim da trilha estreita chegamos num platô com uma vista privilegiada
da Torre de las Minas de Carbón (2595m), imponentes agulhas de uma pedra
esbranquiçada, formando junto ao terreno rochoso que compõe o local, o
aspecto de um espaço lunar. Foi um momento para descansar e refletir o que
estávamos fazendo. Uma pausa, nem tanto provocada pelo esforço, mas sim
para aliviar a pressão vertiginosa que a Colladina nos impôs, principalmente
para Maartje. Eu estava bem mais tranquilo com isso, o caminho até ali não
me causara fobias extremas, eu estava mais preocupado em como acalmá-la,
já que de sua parte, ela estava visivelmente afetada e não parecia estar
desfrutando do passeio a essas alturas. Tivemos uma pequena discussão.
Cheguei inclusive a propor para que voltássemos caso não quisesse mais
seguir, mas foi nesse momento em que ela se levantou. Maartje nunca foi de
desistir facilmente de qualquer coisa, esta é uma das qualidades que mais
admirava nela. Na nossa frente havia o próximo desafio, outra subida
bastante íngreme, porém mais curta que a da primeira etapa. Na verdade
estávamos um tanto exaustos e estressados. Talvez tenha sido positivo que
neste momento, passou por nós um grupo de corredores de alta montanha,
que com menos peso que nós (não iam pernoitar no refúgio). Caminhavam
num ritmo bem mais intenso comparado conosco. Isto nos deu ânimo para
encarar mais uma ladeira elevada.
Chegando lá em cima, tivemos nossa recompensa: já era possível avistar o
abrigo. Aqui, a sensação de isolamento é forte, pois no longínquo horizonte,
além daquela sensação de quanto o ser humano é pequeno frente a natureza, e
não haver resquícios da civilização salvo o próprio abrigo do outro lado, o
panorama das imponentes torres do maciço ocidental ao fundo de tudo, dava-
nos a verdadeira dimensão daquela cordilheira. Algo que jamais havia visto e
presenciado. No primeiro termo da vista, víamos o percurso restante até o
abrigo Collado Jermoso do outro lado e ao nosso alcance. O refúgio era
instalado num penhasco vertiginoso, coisas da engenharia, incrível como
puderam instalar um abrigo naquele local, pensei. Numa primeira impressão,
o que assustava neste trecho até o abrigo, era o nível de exposição, sobretudo
se comparado com sensações cruzando a Colladina. De longe parecia ser
inclusive uma exposição maior, embora mais curta. Outros grupos de pessoas
também iam passando por ali. Maartje e eu nos olhamos e desejamo-nos boa
sorte, desta vez dando risadas; estávamos um tanto aliviados por poder
avistar nosso destino. Assim, partimos para o trecho de descida que atravessa
o Collado, e finalmente subimos um trecho final até o abrigo.
Chegando lá, montamos acampamento, com uma vista incrível, para a face
sul da Torre de las Minas de Carbón. Fomos ao abrigo e conversamos
rapidamente com o guarda responsável pelo local, mas ele estava muito
ocupado junto com as outras pessoas que estavam ali, preparando um jantar
para um grupo enorme que havia reservado o local. Voltamos então para
nossa barraca para fazer o nosso merecido e saboroso jantar. Preparei minha
especialidade nas montanhas, lentilhas castellanas (mais a frente haverá um
capítulo sobre isso, incluindo essa receita). Tais comidas na montanha são as
verdadeiramente saboreadas. Comemo-las dando um valor maior do que
quando estamos nas cidades, talvez porque precisamos deste alimento mais
do que nunca nestes momentos. Não sei se há como comparar este prazer ao
de comer num restaurante confortável, mas para mim, essas refeições são os
momentos que valem a pena, pela alegria que nos dá. Tivemos a sorte de ter
uma noite aberta, banhados por um luar frio, mas sem ser desagradável. O
contorno daquela cordilheira sob esta luz noturna seguia nos impressionando,
tanto quanto nos impressionava durante o dia. Finalmente, olhando para o
outro lado, de onde viemos, lembramos, agora bem mais humorados, o
quanto difícil fora chegar até ali.
Parque Nacional Serra dos Órgãos - Subida à Pedra do Sino

Durante o réveillon em Ibitipoca (MG), fiquei de acordo com meu amigo


Daniel, que faríamos a travessia da Serra dos Órgãos, ou, como também
conhecida, Travessia Petrópolis x Teresópolis. Cinco meses depois, no
feriado de primeiro de maio, encontramos a janela perfeita para ir ao Sino, e
partimos do Rio de Janeiro para a região serrana do estado. Essa caminhada
se inicia pela sede principal do Parque Nacional Serra dos Órgãos
(PARNASO), em Teresópolis. Ficamos conformes que a travessia completa,
partindo de Petrópolis, deixaríamos para outro momento, e que a subida do
Sino, a qual Daniel já havia feito várias vezes, seria de todas as maneiras um
passeio interessante.
Chegamos a Teresópolis pela noite, e após uma volta pela cidade, fomos
dormir na casa de seu pai que mora ali, onde dá aulas de geografia na rede
estadual. Deixamos as mochilas preparadas, e na manhã seguinte partimos
para o parque. Chegando lá bem cedo, antes das 8h da manhã, fizemos o
trâmite necessário para a entrada, pagando o pernoite no refúgio. Poucos
metros acima da recepção de inicia a trilha até a Pedra do Sino. Uma das
caminhadas mais tradicionais de Teresópolis, e porque não, do Brasil inteiro,
inclusive. Montanhistas de todo o país vem até aqui para conhecer uma das
mais belas montanhas que nós temos, uma das mais altas. A Pedra do Sino,
ponto culminante da travessia da Serra dos Órgãos, está a 2275 metros de
altitude.
Começamos a longa subida, que iria durar 7 horas, ou 12 km, carregando
cada um, uma mochila de aproximadamente 7kg, entre roupas de frio, a
alimentação, e as câmeras fotográficas, cada um com sua reflex digital. Nós
na verdade temos poucos registros dessa subida, pois com o esforço da
atividade, não houve espaço para pensar em fotografar a q exuberância da
mata Atlântica.
Para quem vem da Travessia Petrô x Terê, este é o trecho final do
caminho, e apenas de descida; nós ao contrário, enfrentamos este trajeto
vencendo um desnível de 1405m, saindo de 870m de Teresópolis até os
2275m do cume. Para alguém inexperiente é uma caminhada pesada. Trata-se
de uma caminhada que pode ser pesada pois raramente há tréguas no trecho
inclinado, e por conta do peso na mochila. Nesta época eu ainda tinha pouca
experiência e fiquei com a sensação de ser uma atividade dura. Com o passar
dos anos, ao voltar na pedra do sino — fiz isso duas ou três vezes depois
dessa primeira vez — cada uma posterior a essa me parecia mais tranquila.
Sobretudo quando comparava a subida ao Sino com a subida aos Castelos do
Açu, do outro lado do parque. Esta sim, relataremos mais adiante, uma subida
muito forte que eu temo sempre que volto.
O mais interessante neste trecho de subida à Pedra do Sino, é reparar nas
mudanças da vegetação. Partimos de dentro da exuberante Mata Atlântica, na
base do parque, para assistir pouco a pouco, o porte das árvores baixando, até
a paisagem se transformar num típico campo de altitude, onde agora é
possível observar o horizonte desobstruído pelas grandes árvores da parte
baixa.
Na verdade, a chegada ao refúgio da Pedra do Sino não foi algo muito
agradável para mim. Estava realmente cansado, e para piorar, meu joelho
doía bastante. Meu mau humor ficou maior, quando aos poucos outros grupos
iam chegando, e o camping ia enchendo de pessoas bem barulhentas, que
gritavam, e bebiam. A área do acampamento neste refúgio é bem limitada, e
os visitantes ficam bem próximos um ao outro. Daniel teve que insistir
comigo para explorar os atrativos que havia a nossa volta, e acabei indo com
ele até o cume do Sino, que fica uns 20 minutos dali, numa última investida
por uma trilha que nem sempre está bem marcada, ainda mais com baixa
luminosidade.Fiz um esforço grande devido à dor em meu joelho, e fomos
ver o pôr do sol lá de cima. Valeu a pena, mesmo com as nuvens que
encobriam nosso entorno. Voltamos para o acampamento, e preparamos um
belo jantar regado de lentilhas, calabresa e batatas. Logo fomos a dormir,
porém, ainda incomodados com o barulho da vizinhança.
Eram umas 5hrs da manhã quando Daniel me acordou para ir ver o nascer
do sol. Eu não queria ir! Estava desmotivado com tudo. Além da noite mal
dormida, tinha uma sensação nostálgica e melancólica de voltar a acampar
numa barraca em que pela primeira vez utilizava sem minha ex-mulher, mas
isso é outra história. Mas meu amigo soube se colocar no meu lugar, e com
paciência convenceu a me levantar e sair da barraca. Começamos a trilha para
o cume, e chegamos a nos perder neste trajeto, tivemos que assistir o
espetáculo do sol nascente em algum ponto entre o abrigo e o cume. Tiramos
algumas fotos dali, de onde avistávamos com grande nitidez os Três Picos de
Friburgo.
Víamos a outras pessoas subindo, e então encontramos o caminho correto
ao cume da Pedra do Sino. Lá, eu já estava bem mais relaxado e agradecido
ao meu amigo. Tiramos belas fotos, e passamos ali o resto da manhã
explorando o local. O dia estava bem mais limpo que o anoitecer da jornada
anterior, e observamos a dança das nuvens abrindo e fechando a paisagem, a
qual por vezes, era possível avistar a Baía de Guanabara. Víamos também
com grande nitidez os campos de altitude da Serra dos Órgãos, diante de nós,
do outro lado da cordilheira, estava grande parte do caminho da travessia da
Serra dos Órgãos, vindo de Petrópolis. Aquela imagem me marcou pois me
projetei naquele momento realizando a travessia mais tradicional das
montanhas brasileiras. Coloquei esse sonho em perspectiva.
Depois de tomar um delicioso café naquele frio das altitudes, de
conversar, dar risadas — que me fizeram esquecer a dor no joelho — depois
de admirar aquela grandiosa paisagem, descemos até o abrigo. Logo,
desmontamos o acampamento. Numa conversa com outros montanhistas que
estavam no refúgio, consegui uns analgésicos para aliviar minha dor intensa
para enfrentar a descida. Na montanha, não se pode ir sem ibuprofeno. Além
de analgésico é anti-inflamatório. Isso foi minha salvação, não sei como teria
feito este regresso sem o medicamento. O joelho realmente doía, e na
descida, como há mais impactos justamente nessa região da articulação, o
sofrimento é grande. Cheguei a ir a um fisioterapeuta semanas depois, que
infiltrou uma injeção no joelho, como as de jogador de futebol, e resolveu o
problema. Mas desde esta atividade aprendi a importância de se levar consigo
um bastão de caminhada. Nunca mais voltei sem um desses nas montanhas.
Chegamos exaustos e sujos ao estacionamento do parque. Já em
Teresópolis, almoçamos como reis em um restaurante à quilo, e já no fim do
dia, pegamos a estrada de descida da serra, a caminho de casa, no Rio de
Janeiro.
Parque Nacional do Itatiaia

Acho que fui ambicioso demais na tentativa de passar seis dias isolado nos
campos de altitude do Parque Nacional do Itatiaia. No início era para ir
sozinho mesmo, mas quando dois amigos, Rodrigo e Felipe se animaram para
vir, obviamente fiquei contente pela companhia. Mas foi um alarme falso,
pouco a pouco os dois foram perdendo o entusiasmo, enquanto eu fui incapaz
de insistir mais para que eles mudassem de ideia e resolvessem ir também.
Com isso, o plano de enfrentar a solidão foi ganhando força dentro de mim.
Tive que mentalizar uma situação nova para mim, que era ir para as
montanhas sozinho. Quando chegou o dia marcado, me deparei com certo
dilema de encarar um ambiente desconhecido contando com minha sorte, ou
por outro lado, desistir, e ficar sem saber como isto era na verdade, um dos
mais emblemáticos parques nacionais do Brasil, e algo que no meu íntimo me
seduzia: a solidão na montanha. Fui. Deixei uma mensagem no face de feliz
ano novo, e parti pro meu destino. Aguentei 3 dias e duas noites. Neste
pacote de intenções, a primeira era comprovar um lugar do qual sempre
escutei falar maravilhas, a segunda era fotografá-lo. Pois bem, chegar lá não
foi tão difícil. Vindo do Rio de Janeiro, segue-se pela Dutra por 2 horas, vira-
se a direita no acesso à BR 354 e termina subindo a serra numa estrada de
terra até o parque. Se paga a entrada e os pernoites e é isso.
Chegando lá, as poucas pessoas que estavam também acampadas ou
alojadas no abrigo, a princípio olhavam-me, ao menos percebi assim, com
alguma estranhamento por estar ali sozinho. Impossível não me sentir
observado nesta condição. Impossível não observar os outros, melhor
dizendo. Conheci um grupo de paulistas no abrigo, conversei brevemente
com um casal que acampava na minha frente, logo, com uma família com três
filhos, e rápidas palavras com outros pelo caminho. Me perguntavam de
onde vinha, o que fazia, chegaram até a me tomar como montanhista
experiente, o que não era verdade. Enquanto isso eu falava com as pessoas
tomando cuidado para não me intrometer, mas me intrometendo mesmo
assim. Não queria parecer o cara sozinho que precisava de amigos embora
fosse exatamente isso! Mas todos me entendiam perfeitamente. Foi legal
quando após dar-me conta que minha bateria da câmera estava descarregada,
apareci de noite no abrigo onde havia 6 pessoas, e coincidiu que 4 eram
fotógrafos e me ajudaram com meu problema, pois estavam equipados com
Canon EOS. No segundo dia já estava com minha câmera funcionando, e foi
um alívio, pois no primeiro fiquei frustrado dando por feito que a ideia de
tirar as fotos iria por água abaixo. Mas também depois de três dias eu já havia
conhecido, além das pessoas, boa parte da parte alta do parque. Devo ter
caminhado uma média de 10 km por dia, e fiquei satisfeito com meu
desempenho subindo e descendo encostas. Diferentemente da Serra dos
Órgãos, por exemplo, os campos de altitude do Parque Nacional de Itatiaia
têm acesso por carro. É possível fazer a trilha de subida pela entrada de
baixo. Mas não foi o caso aqui. Gostaria um dia de fazer.
As barras de proteína, e o bom café da manhã regado a pão integral com
salame, frutos secos, generosas doses de cafeína, e principalmente o cuidado
constante com hidratação mantinham-me disposto e motivado. E também,
acordar com vista para o Pico das Agulhas Negras me enchia de prazer.
Mesmo se nenhuma pressa, nem receios por mau tempo (na verdade eu
gosto de caminhar na chuva, e a neblina no caminho é um ingrediente para
testar a capacidade de se manter calmo mesmo sem ver direito o caminho, o
que estando sozinho no meio do nada pode ser um problema). A montanha
exige muito de todas nossas capacidades físicas e mentais, e é isso o que
busco quando estou lá: testar-me. Uma espécie de exercício da
autossuficiência. Quando se chega à base do Pico das Agulhas Negras há uma
placa dizendo que a partir de tal ponto você está sobre seu próprio risco. Uma
voz diz pra mim mesmo "é cara, é melhor voltar". No entanto, segui um
instinto contrário a essa voz e comecei a subir. Um outro pensamento, agora
mais prudente, surge dizendo, "vamos até onde der". Nisso vou subindo e
olho para o GPS marcando 2500 metros, sendo que o cume está 2700, e
acima de mim, encontro uma barreira intransponível para alguém
propriamente não equipado com eu.
Rapidamente, formou-se uma névoa densa e neste movimento, justo
encima de minha cabeça as nuvens e o céu fizeram um formato de coração.
Mesmo sem ser uma pessoa muito mística, não foi por acaso a sensação de
que os deuses da montanha falassem comido naquele momento. Não acredito
muito em sinais, mas na hora me surgiu a ideia de descer como se estivesse
entendendo algum recado. Melhor assim . A chuva apertou um pouco depois
que encontrei o caminho, e isto me deu prazer, eu levava uma boa capa. O
barulho do vento ecoando dentro de mim, toda a magnitude da paisagem com
suas rochas colossais caídas pelo peso do tempo, como um fóssil gigante de
uma montanha que um dia foi um pico bem mais alto do que é hoje é dia.
Lendo um pouco sobre isso, entendi que no Brasil as montanhas não são tão
altas como as dos Andes, dos Alpes ou dos Himalaias, pois estas últimas são
formações geologicamente recentes. Portanto, os picos daqui são
geologicamente muito mais antigos que as grandes montanhas dessas
famosas cordilheiras.
O tempo havia fechado de vez, e naquela noite enfrentei bons ventos com
chuva em minha barraca. Embora fosse verão, as temperaturas em Itatiaia são
bem menores que em outros lugares do país, inclusive tão perto dali, como no
Rio de Janeiro, onde os verões beiram ao insuportável. Quando acordei pela
manhã, vi o tempo fechado, e meus colegas recém-conhecidos partirem para
seu réveillon na cidade. Despedimo-nos e voltei para o camping sozinho.
Ventava. Tentei me animar escutando alguma música, mas olhando para o
teto da minha barraca, e aquele cenário deprimente, percebi que não valia a
pena ficar mais. Decidi juntar minhas coisas, e passar o ano novo com meus
amigos na cidade.
Travessia da Serra Fina

Há dois lugares onde sinto minha vida intensamente: no cinema, e nas


montanhas. Na minha profissão, como programador de salas de cinema, trato
de investigar e exibir a sétima arte por um olhar histórico, procurando
entender, através das imagens em movimento, os retratos que o cinema
realiza, e nos oferece, sobre a sociedade durante e após o século XX.
Acompanhar isto, pra mim é intenso. Pois além de se lidar com algo abstrato
como emoções, no meio de dramaturgias concretas, o cinema é responsável
pelo retrato da condição humana através dos tempos. Além disso, na sala
escura, falando como espectador, viajo por inúmeras paisagens, e por relatos
provenientes dos mais variados horizontes. Por outro lado, tenho outra
paixão, que é subir montanhas. Desde que este bichinho me mordeu, ou seja,
desde o primeiro relato aqui deste livro (após minha visita ao Parque
Nacional Picos de Europa, na Espanha) sempre estou pensando em lugares
novos para visitar, em busca de paisagens inóspitas, do isolamento, como
também, em busca de um teste físico para meu corpo. Há tempos que, quando
penso em viajar, já não passa pela cabeça ir a determinadas cidades, e sim,
quando penso em viajar, isso significa a qual montanha ou parque nacional
irei subir ou visitar.
Tudo começou em 2013 durante minha visita ao Parque Nacional do
Itatiaia. Na portaria da parte alta do PNI, avista-se uma imponente cadeia de
montanhas ao outro lado. Perguntei para o guarda da portaria “Que lugar é
aquele?”. “É Serra Fina”, me respondeu. Com o passar do tempo, meu plano
imediato na verdade, era fazer a travessia da Serra dos Órgãos. Havia
inclusive definido uma data com uns amigos para realizar esta empreitada,
mas o projeto desandou. Depois disso, num belo dia, me informei que o
pessoal da agência Gente de Montanha anuncia uma saída para a Travessia da
Serra Fina. Fiquei olhando para aquele anúncio, e rapidamente percebi que
era a oportunidade que precisava para ganhar experiência em uma expedição
mais desafiadora. Conhecida como a mais difícil do Brasil, a Serra Fina é,
para usar uma expressão que escutei de um mineiro que encontrei em Passa
Quatro, (cidade onde começa o trajeto), “está para testar o caboclo”. Ou,
usando outra expressão, que escutei de nosso guia Pedro Hauck, da Gente de
Montanha, “lugar onde a criança chora e a mãe não ouve”. É até oportuno
citar o Pedro aqui, pois essa expressão na verdade, ele usou para descrever
certas trilhas que ele e Jurandir, (outro guia) realizaram nas montanhas do
Paraná. Pedro rebate a fama da Serra Fina como a travessia mais difícil do
Brasil. Segundo ele, há inúmeras outras mais difíceis que esta, porém,
desconhecidas. Não duvido nem um pouco. Até porque, a viagem que irei
relatar agora é a de alguém que enfrentou o tremendo desafio da Serra Fina,
mas que ao mesmo tempo, considerando minha pouca experiência, acredito
que a realizei sem muitas dificuldades. Digo isto sem me gabar, ou seja, foi
difícil? Claro que foi! Mas honestamente, pensava que ia ser mais. E digo isto
também, com a consciência de que claro, o serviço dos guias foi vital para
meu sucesso e meu conforto. Inclusive, sem eles, devo dizer que não haveria
menor chance de realizar a travessia, e caso a fizesse sem seu suporte, e se
caso a completasse, certamente iria passar por angústias traumáticas, das
quais seus trabalhos me pouparam.

Saí do Rio de Janeiro com destino a Passa Quatro, Minas Gerais. Mesmo
sentido de Itatiaia, portanto, já conhecia o caminho. Num dado momento, saí
da auto-estrada, na saída 34 que nos leva a Cruzeiro. Até aqui, estava ainda
incerto sobre o que me esperaria. No carro, não escutava música sequer, ia
apenas guiando o veículo com uma sensação duvidosa sobre se estava
realmente preparado para isso. Meus amigos de trilha aqui no Rio, a Lucélia e
o Norivaldo, indiretamente, diziam que eu estava sendo ambicioso demais, de
que nossas humildes subidas à Pedra da Gávea já nos bastava por um
momento. Além deles, na estrada, me lembrava também que o próprio guia
da agência, Bruno Poumayrac, antes de confirmar meu lugar no grupo, me
disse que era preferível alguém com mais experiência. Tomei isto quase
como uma questão pessoal hehe! Embora eu tenha que entender que para ele
eu era um completo desconhecido, e que também, para o sucesso de seu
trabalho, deve-se levar em conta a experiência de cada cliente seu. Mas
beleza, essas incertezas terminaram num determinado momento quando na
rodovia sentido Passa Quatro, avista-se de repente a imponente Serra Fina,
enorme! Gritei “uhuuu!”, enquanto meu carro cruzava a estrada em direção às
montanhas. O sol brilhava intensamente, as cores da paisagem me animaram
de tal maneira que finalmente subi o som do carro ao máximo, e
aleatoriamente tocava uma música a qual nunca havia prestado atenção, mas
desde aquele momento ficou gravada na minha mente como uma espécie de
trilha sonora da viagem, me lembrei dela algumas vezes durante a travessia:
se chamava “Red Thing Called Love”, de um grupo chamado Loopless. ♪ ♫
♩Kiss me tenderly♪ ♫ ♩, subia a música, bem antes do refrão, seguido por ♪ ♫
♩the way you want me to kiss you too♪ ♫ ♩. A música não tinha nenhuma
relação com montanhas ou viagens. ♪ ♫ ♩hold me in your arms, the way you
want me to hold you♪ ♫ ♩. Mas mesmo assim, me transmitiu uma sensação de
confiança vendo a Serra à minha frente, e me senti como abençoado ou
permitido por ela. ♪ ♫ ♩Love me in the way, you want me to love you♪ ♫ ♩.
Era como se minha amante não fosse um ser, mas uma entidade abstrata, que
agora me permitia seguir meu destino. ♪ ♫ ♩Sweet love, love me♪ ♫ ♩.
Finalmente cheguei a Passa Quatro, e ainda fui o primeiro do grupo a
marcar presença na pousada onde estava marcado o encontro com todo o
grupo. Eram umas 15h, e fui muito bem recebido pela dona Doca na pousada
Harpia, no centro da cidade. Deixei minhas coisas ali, e fui dar uma volta
neste agradável município. Descobri uma excelente loja de material de
montanha, que vendia artículos de marcas importadas que nem no Rio de
Janeiro se encontram. Depois disso, não resisti a uma mania que tenho, a de
cortar o cabelo em barbeiros do interior. Até hoje meus amigos me zoam
quando entrei numa barbearia de Matias Barbosa e pedi um corte igual ao do
Forest Gump. Desta vez fiz algo mais discreto, e não lancei nenhuma moda!
Voltei para a pousada e agora via a chegada de outros grupos. Conheci um
camarada de Roraima que veio de Boa Vista só para a travessia. Fomos jantar
num japonês ali perto, cujo o serviço nos decepcionou pelo preço cobrado.
Voltamos para a pousada. Mais gente chegando. Não havia muito o que fazer.
Fui para minha cama umas 21h e cochilei. Era umas 23h00 quando me
levantei e fui fora fumar (nesta época ainda tinha este péssimo hábito. Hoje
estou livre deste mau), e encontrei com dois porteadores de uma agência local
chamada “Andar”, eles me impressionaram muito. Estavam se preparando
para iniciar a travessia durante a noite, muito, mas muito carregados mesmo
— nunca havia visto nada igual em termos de volume nas costas. Seu
objetivo era montar o acampamento para seus clientes antes de qualquer
outro grupo, e desta maneira, assegurar os melhores lugares no primeiro
pernoite da travessia. Por volta da 00h30, o grupo da Gente de Montanha
chegou.

Reconheci o Maximo Kausch, grande mas montanhista brasileiro, cuja a


trajetória eu conhecia por matérias e reportagens da Internet. Ele entrou
rapidamente para inspecionar o quarto, nos cumprimentamos e voltei a
dormir. Logo entraram todos os outros que compunham nosso "time" e em
pouco tempo, todos a dormir. Eram umas 5h da manhã quando Maximo e
Pedro nos acordaram para a partida. Bruno estava em cima do meu beliche.
“Você é o Roberto?”, me perguntou. “Prazer”. Tomei meu banho antes de
sair, separei o essencial na mochila: roupas de frio, saco de dormir, isolante
térmico, meias, meu prato e meu copo, barraca, bastão de caminhada, etc. O
serviço da agência oferece barracas montadas pelos guias, tal como a agência
"Andar". Eu sempre prefiro garantir e exercitar minha autonomia na
montanha, e levo meu próprio equipamento. Apenas a comida deixei para
agência cuidar para mim, afinal fazia parte do pacote. Mas normalmente,
gosto de depender o mínimo possível de serviços quando estou em
expedições como está. O que mais preciso é o serviço de guias que uso
apenas para aprender o caminho para um dia, quem sabe, poder guiar meus
amigos.
Bruno é o responsável pela logística, e ia nos chamando para conferir o
material que cada um levava, e logo dividimos o peso da comida entre todos.
Mesmo minha mochila pesando aproximadamente 15kg, fiquei
impressionado com o peso que os guias carregam nas suas, é quase injusto,
mas, são os ossos de seu ofício. Por volta das 7h nossa van nos aguardava na
porta do hostel, e partimos rumo ao acesso da trilha, por uma estrada de terra.
Chegando lá, uma subida de leve pra começar, que nos leva até um poço d
´água, um local chamado “toca do lobo”, onde nos abastecemos, sempre
lembrando que a travessia da Serra Fina é conhecida também pelos poucos
pontos de acesso à água, o que corresponde a cada um, carregar no mínimo 3
litros. A próxima fonte estaria a umas 4 horas dali, depois, só haveria água no
dia seguinte, próximo à Pedra da Mina, na nascente do Rio Claro. Pois bem,
começamos a subida rumo ao pico do Capim Amarelo. A trilha inicial é uma
subida razoável de 1h30 mais ou menos, que nos leva até um platô de onde
podíamos avistar o tal Capim Amarelo. Rápida parada para um descanso.
Como quem não quer nada perguntei, não lembro a quem, “ Nós vamos subir
até ali? ”, após a resposta positiva, fiquei calado.
Já dava uma ideia do que seria a travessia, ou seja, a progressão em um
terreno de grande desnível, pela crista da serra, um eterno sobe e desce,
corriqueiramente num mato fechado por onde nossas mochilas se
enroscavam, o que me irritava muito! Acho que 70% da travessia se dá num
mato repleto de pequenos bambus, os quais muitas vezes dificultam nossa
passagem. Os outros 30% são o alívio de caminhar numa vegetação de
altitude, que na Serra Fina predomina uma espécie de capim, de vários
tamanhos na verdade, de cor amarelada, chamado ali de capim elefante. O
solo, muitas vezes é úmido, ou quase lama, e várias vezes escorregamos,
sobretudo em grandes inclinações. A subida ao Capim Amarelo foi nosso
primeiro teste. Nesta ascensão, era comum progredir por trechos de
escalaminhada, e encontrar cordas fixas por ali. Chegamos ao Capim
Amarelo e, inicialmente nosso objetivo era pernoitar neste local. Entretanto,
devido a quantidade de pessoas que já estavam acampadas, nossa única opção
foi seguir em frente, encarando um declive, o qual achei muito complicado de
fazer, muito pelo desgaste da ascensão até o Capim Amarelo; e também, por
ser o primeiro dia, estávamos como que frios ainda. Neste declive, meu
joelho já me perguntava quando iríamos chegar. Ao término do descenso do
Capim Amarelo, haveria outra subida para encarar, portanto, depois disso,
logicamente, haveria que descer de novo! Feito isto, agora faltava um pouco
mais para chegar ao acampamento de nosso destino, que se chamava
“Maracanã”. Antes, passamos por um acampamento, também lotado,
chamado “Avançado”.
Seguimos pela encosta da montanha até chegar ao “Maracanã”, onde já
havia também muitas pessoas acampadas. Fui recebido por um camarada
logo na “entrada”. Eu estava com fome e puto da vida por certos trechos do
caminho que nos levava até ali, pela dificuldade de avançar pelo mato, pelo
cansaço e pela fome. Falei isso resumidamente a este camarada, e sua
resposta foi “é cara, eu já havia prometido pra mim mesmo que nunca mais
voltaria a fazer a Serra Fina, e olha onde estou agora!”. Fui ao encontro de
meus colegas ao fundo do acampamento pensado que isso, provavelmente
iria acontecer comigo também. Chegando lá, as barracas do grupo já haviam
sido montadas pelo Pedro e Jurandir, faltava só a minha, que era individual e
eu a carregava nas costas. Enquanto montava minha barraca, Maria, a
namorada do Pedro, preparava o jantar junto com Maximo. A noite caiu, e
comemos um delicioso risoto ao funggi. Começou então a sessão de piadas
do Bruno, uma espécie de stand up pessoal que se repetiu todas as noites
seguintes. Dávamos muitas gargalhadas com ele. Nos relaxava. Era um ponto
alto da viagem estar com alguém tão divertido. Era umas 20h00 quando
fomos dormir, na verdade, desabar em nossas barracas. No dia seguinte teria
mais!
Acordamos por voltas das 6h00, desmontamos o acampamento. Tomamos
nosso café da manhã, que consistia em tapiocas com requeijão, queijo e mel,
bolos e café. Neste momento, um dos nossos colegas de grupo anuncia sua
desistência. Quando surge uma situação como esta, Bruno já estava
preparado, e fez um contato com alguém associado à sua empresa para levar
o cliente de volta. Na verdade, depois deste ponto, já não há como desistir.
Iniciamos o trajeto rumo à Pedra da Mina, um dos cartões postais da viagem,
e ponto da próxima coleta de água. A trilha começa contornando a montanha
pela encosta até chegar a um trecho de escalaminhada, de onde há uma
impressionante vista ao Capim Amarelo, dando-nos perfeitamente o
panorama do tortuoso declive percorrido no dia anterior. Era quase
inacreditável que havíamos feito este percurso. Pouco depois deste trecho de
escalaminhada, caminhamos pela crista da serra, para logo avistar a
impressionante Pedra da Mina. Antes dela, há um lindo vale, com vegetação
mais rasteira (para minha alegria). Com esta vista eu estava realmente
motivado e feliz por estar ali, já andava inclusive junto ao pelotão da frente.
Seguimos o declive até chegar ao vale onde paramos para almoçar e coletar
água na nascente do Rio Claro. Comemos sanduíches no pão sírio com atum
e cenoura ralada. Doce de leite de sobremesa. Passamos ali mais de 1 hora
acho, e dando gargalhadas com Bruno contanto suas histórias de quando era
barman num bar de São Paulo, chamado Sky.
Após o lanche, colocamos a mochila nas costas, e seguimos para o ataque
ao cume da Pedra da Mina. Maximo consultou seu GPS e calculou o
desnível, me disse que em 40 minutos estaríamos lá. Nessa hora eu era o
último do grupo, pois caminhava no modo japonês, fotografando
compulsivamente todos os ângulos que podia. No dia seguinte estaria algo
arrependido, pois a bateria da câmera iria acabar! Entretanto fiz belas fotos
nessa subida. Chegando ao cume todos nos saudamos, e consegui um cigarro!
Havia decidido não levar fumo comigo, mas este cigarro estava muito bom!
Tiramos as fotos oficiais da conquista do cume da Pedra da Mina, 2798m,
quinta montanha mais alta do Brasil. Pouco depois iniciamos a descida para
outro vale do outro lado do cume, onde iríamos passar a noite. Linda vista.
Eu estava muito feliz, me sentia ótimo, este segundo dia era o que realmente
esperava da travessia. Nesta descida ia conversando com Maximo sobre suas
experiências no Aconcágua, onde ele passa boa parte do ano, e me contava
casos vividos nessa montanha. Falávamos também de livros sobre montanha,
e sobre o potencial do Brasil, pouco explorado, em turismo de aventura; e da
gestão burra dos parques nacionais brasileiros, que não permitem a ampla
visitação, como no caso de Itatiaia, altamente restrito. Diga-se de passagem,
que a Serra Fina não está em nenhum parque, o que permite portanto o alto
fluxo de pessoas. Se isto é bom ou ruim, não sei dizer. Desde já não é nítido
nenhum impacto ambiental significativo. Por outro lado, posso estar de
acordo quanto à uma organização melhor dos locais de acampamento, mas
não é nada que tenha nos prejudicado. No término da descida da Pedra da
Mina, chega-se a um vale bem encharcado. Pedro já nos havia alertado pelo
rádio de Maximo sobre isso. E ali, pois, encharquei meus pés, e para piorar,
eu estava vestindo dois dos 4 pares de meia que havia levado, sendo que um
já estava sujo; ou seja, na metade da travessia eu tinha só um par de meia
limpo e seco. A noite ia caindo e o frio chegando, e meus pés estavam
molhados! Chegamos no acampamento, o ritual de sempre, armei minha
barraca enquanto o jantar era preparado: macarrão! Muito carboidrato! E de
entrada umas linguiças fritas! Bruno mais uma vez, fez a todos rir muito,
desta vez contando a história de como conquistou sua namorada Bárbara.
No dia seguinte, levantamos às 6h00 da manhã, mas antes de sair das
barracas escutamos um grupo de porteadores passando ao nosso lado,
provavelmente eram da agência Andar, eles balbuciaram algo como gabando-
se de estar saindo na nossa frente. Logo, no café demos risada desse suposto
espírito competitivo. De nossa parte, já tínhamos uma rotina estabelecida: a
de desmontar o acampamento e tomar café da manhã. Nesta manhã foi
cogitada a ideia de fazer a travessia em três dias, ou seja, ir até o Itamonte
naquela mesma jornada, mas isto foi logo deixado de lado. Estávamos
tentando planejar um modo de chegar à Passa Quatro antes dos outros grupos,
para não haver congestionamento no banho do hostel, e para não ficar muito
tarde para grupo que voltaria à São Paulo, . Decidimos que faríamos neste
dia, portanto, uma investida maior que nos outros, e passaríamos a noite em
algum ponto bem próximo ao trecho final da travessia, isto é, na base do
Cume Alto dos Ivos - 2520m. Ao mesmo tempo, resolvi o problema das
minhas meias usando a limpa que me restava, e colocando a suja e seca por
cima dela para enfrentar o dia. Não tive problemas de frio nos pés naquela
noite. O dia amanheceu bem fechado, estávamos no meio de uma nuvem, que
encobria todo o vale, e nossa visão não chegava a 20m à nossa frente.
Partimos para a marcha do dia, com Pedro e Jurandir largando adiantados,
como sempre. Não parava de me impressionar a capacidade desses dois andar
tão rápido com todo aquele peso. A uns 200 metros do acampamento
paramos à beira do riacho para nos abastecer de água. O lugar era estreito
para acomodar a todos, e eu estava em último da fila. Como calculei que
ainda tinha água o suficiente vindo do dia anterior, ou seja, uma garrafa de
1.5l e metade de minha bolsa hidratação, me calei quando Bruno perguntou
se todos já haviam enchido seu estoque. Seguimos em frente, subindo mais
uma encosta como de costume, no meio dos bambus finos e irritantes.
Conforme o dia avançava, a visibilidade continuava escassa, e assim
permaneceu durante toda esta etapa, infelizmente; pois quando por alguns
lapsos, a nuvem dava tréguas e uma pequena fresta de horizonte se abria,
podíamos supor que estávamos rodeados de belas paisagens, compostas por
montanhas rochosas que se abriam entre falhas enormes. Dava uma breve
dimensão que o lugar deveria ser impressionante. Perguntei ao Bruno se
estávamos realmente perdendo alguma vista fora de série, e sua resposta foi
“sinto dizer que sim”. E era essa a sensação que tinha ao caminhar pela
estreita crista da Serra Fina. Era claro para mim, o fato de que em alguns
trechos, a passagem era mais estreita que nos outros dias, e isso me deixava a
imaginar o cenário pelo qual estava rodeado, mas que infelizmente não podia
ver. Continuamos com os típicos sobes e desces da Serra, e logo percebi
também que a investida mais longa na caminhada estava atrasando nosso
almoço. Minha água na bolsa de hidratação havia terminado, e minha garrafa
de 1.5 l estava dentro da mochila. Não podíamos parar, tudo bem. Numa
escalaminhada no meio do bambuzal, e nas dificuldades do passo no solo
lamacento, vi que Francesc, um catalão que mora em São Paulo, talvez
dividisse comigo um certo desconforto a mais nessa jornada. Disse a ele
quase sussurrando “tengo hambre, tío”, e ele com a mesma sutileza disse “yo
también”. Finalmente paramos para almoçar, e comi tudo o que podia. Nesta
hora, era bom comer bastante, pois os guias também queriam tirar peso da
mochila; podíamos comer quantas maças quiséssemos, havia fartura.
Estávamos na base do Pico dos Três Estados, 2665m.
Meu ânimo e meu humor havia melhorado consideravelmente depois da
comida, e estava pronto para atacar a 11ª montanha mais alta do Brasil. A
inclinação desta me havia impressionado. Alguns trechos eram bem
íngremes, maior até mesmo que a da Pedra da Mina, e com o vento frio
batendo forte e aquele som ecoando nos ouvidos, me dei conta que eu estava
praticamente escalando uma montanha! Isso me deu prazer. Cheguei ao
cume, e o resto do pessoal já estava lá. Dessa vez nem havia cumprimentado
ninguém pela conquista, já era rotina estar em cumes, hehe. Consegui um
cigarro de palha com o grupo da Andar, que me durou até depois do jantar!
Ficamos no cume por menos de 30 minutos e iniciamos a descida, que não
me pareceu tão acentuada como o da subida. Na verdade eu já estava até
acostumado. Pouco mais abaixo fizemos um contorno na encosta de uma
montanha, e de repente, mais uma escalaminhada, esta, a mais acentuada de
todas. Eu costumava compará-las com a carrasqueira da Pedra da Gávea, mas
acho que encontramos poucas deste nível, mas parecidas, havia com certeza.
Não houve maiores problemas. Seguimos para mais um declive, e, conforme
avançávamos, íamos escutando uns estalos de bambus sendo quebrados.
Acho que foi Bruno que me disse, era Pedro e Jurandir abrindo o terreno para
o acampamento. Nesta decida, a mata foi fechando mais até que chegamos
num bosque denso, repleto de árvores e bambus, de modo que quase não
havia como ver o céu. Ali estavam Pedro e Jurandir montando nosso
acampamento. Dei uma olhada no terreno e conversei com os guias sobre o
lugar onde colocar minha barraca. Prontamente, Pedro, Jurandir e Fransesc
me ajudaram a limpar a área, e pouco depois meu local estava pronto. O
jantar da noite era arroz com legumes, feijão e frango desfiado. Mais um
banquete! Comi muito bem. Nossa rotina seguia com Bruno e suas piadas,
mas hoje pude conversar mais com Pedro, que é geógrafo também, e nos deu
uma aula sobre como a paisagem brasileira, sobretudo no Paraná, foi alterada
pela colonização. Me indicou também o livro “A Ferro e a Fogo”, de um
brasilianista chamado Warren Dean, sobre a exploração dos bandeirantes.
Antes de dormir, ficou combinado que acordaríamos às 4h00 e partiríamos
nos mais tardar, às 5h00 para o trecho final, a fim de executar o plano de
chegar adiantados à Passa Quatro.
Em ponto, saímos para a última investida. A boa notícia foi dada por
Pedro, que anunciou o bom tempo. Deveríamos, portanto, ter vistas limpas no
amanhecer. Com cada um portando sua lanterna na cabeça, iniciamos a
subida do último cume a ser conquistados por nós: O Alto dos Ivos. Durante
esta ascensão, tivemos o privilégio de presenciar um espetacular amanhecer,
agora sim, com a paisagem despejada, olhávamos para trás, e estava ali o
imponente Três Estados, e mais várias outras montanhas que compunham a
paisagem. Chegamos ao Altos dos Ivos por voltas das 6h15. Pouco depois,
mais um privilégio, assistimos ao sol surgindo por trás do Parque Nacional do
Itatiaia, e os contornos do Picos das Agulhas Negras, das Prateleiras e o
Morro do Couto. Foi foda. Me lembrei do dia de 2013 em que eu estava do
outro lado me perguntado, que lugar era aquele ao guarda do Parque Nacional
do Itatiaia. Maximo estava ao meu lado e me disse, “cara, já vi isso tantas
vezes na minha vida, e nunca me canso”. Sua sinceridade ao dizer isso me
impressionou, pois ele já presenciou amanheceres de lugares como
montanhas de 8000m nos Himalaias, de 6000m nos Andes, de 5000m na
Patagônia; e agora, nossa “humilde” Serra Fina ainda era capaz de
impressioná-lo. Fiquei pensando nisso por alguns minutos, de como cada
lugar e cada momento é único em si mesmo.Tiramos a foto oficial. Nesta
altura eu já não tinha mais bateria, nem de câmera, nem de GPS. A da
câmera, me doía mais, com certeza. Agradeci ao Maximo, ao Bruno ao Pedro
e ao Jurandir pelo brilhante trabalho que fizeram.
Para finalizar a travessia, o descenso dos Altos dos Ivos foi um mais do
mesmo, no meio do mato fechado. A caminhada durou umas 6 horas, até
chegar à estrada onde nosso resgate nos esperava, para nos levar à Passa
Quatro. Assim foi, chegamos no hostel Harpia por volta do meio dia.
Tomamos banho. Pouco depois me despedi de todos, e voltei para casa.
Travessia da Serra dos Órgãos

Esta é minha quinta expedição em altas montanhas, dentro da investigação


que pretendo continuar a fazer por toda minha vida, que é visitar o máximo
de cordilheiras que quiser ou puder, locais que estão pelo mundo, mas são
também as cordilheiras de minha mente. Não é que penso apenas em escrever
sobre viagens, pois ali também posso me dedicar um pouco à fotografia; são
muitas as coisas que me interessam neste ambiente. As montanhas possuem
uma cultura própria, ali nascem novas amizades e as antigas se fortalecem. E,
além disso, ao atravessar montanhas, estimulam-se vários sentidos vitais para
sobrevivência, a autossuficiência, o autocontrole, a consistência física,
autonomia em geral, ou até mesmo, uma volta a certo primitivismo. Em
suma, a aquisição de vários macetes e conhecimentos úteis, de certa forma
um resgate ou regresso a sabedorias milenares que todos temos em nosso
DNA, desenvolvido para minimizar o impacto de estar expostos a certos
elementos ou condições absolutamente naturais. Elementos tais que
desapareceram no cotidiano da modernidade, extintos por nossas metrópoles
serviçais e apodrecidas. Trata-se também de um escape, sem dúvidas, rumo
aos restos de um ambiente natural que está ameaçado.
Uma das coisas que me chamaram a atenção nesta viagem foi a
constatação de que os campos de altitude do Parque Nacional Serra dos
Órgãos está seco. Em todos os pontos que nos haviam informado para coletar
água, os pontos oficiais indicados no mapa, não havia nada, ou apenas água
parada. Perguntava-nos se a seca podia ser consequência da ação do homem,
ou se era um fenômeno natural de estiagem, o qual seria compensado num
futuro imprevisto, tal como tudo na natureza, com um fenômeno
radicalmente oposto, que neste caso, seria um dilúvio torrencial que jorraria
para aqueles vales, centenas de metros cúbicos capazes de restaurar a
harmonia da região. Era nisto no que queríamos acreditar, ou apenas
imaginávamos ingenuamente algo que nos deixasse com mais esperança no
homem e na terra; pois na dura realidade, o que é muito evidente, há um
desequilíbrio ecológico provocado por falta de água no Parque. E isso é
muito triste de se ver. No entanto, este fato nem era tão novidade assim, já
que poucos dias antes de nossa travessia, fora amplamente divulgado na
mídia, que a sede de Teresópolis havia sido fechada por primeira vez na
história por conta da falta d'agua.
Mas apesar desses pesares, a travessia Petrópolis x Teresópolis me deu a
chance de adentrar num dos melhores passeios em alta montanha de nosso
país. Para esta expedição, nosso grupo foi de 6 pessoas: Eu, Norivaldo,
Rodrigo Ximenes, Rodrigo Amaro, Felipe, e a representante feminina,
Lucélia. Ficamos tão animados em formar um grupo de caminhada que
demos inclusive um nome para nós: a Mustang Expedições. Mustang é um
reino perdido no Nepal, um lugar que mexe com nosso imaginário.
Conversávamos sobre a possibilidade de um dia poder visitar esse local
remoto nos confins dos Himalaias. Mas voltando para nossa preciosa Serra
dos Órgãos, nós que moramos no Rio, somos privilegiados por ter ao lado de
casa um lugar tão impressionante. Os outros estados também tem suas
belezas, ou seja, não se trata de um bobo orgulho carioca (até porque sou
paulista), mas a Serra dos Órgãos é de fato, uma das cadeias de montanha
mais belas do Brasil, isso ninguém discute. Muitos montanhistas dizem que
entrar neste terreno é algo extremamente difícil e etc, mas acredito que com
um pouco de treinamento e muita determinação, acredito que qualquer um é
capaz de superar os obstáculos da travessia Petrópolis x Teresópolis. Todos
montanhistas tem sua opinião sobre qual é o trecho mais difícil desta
caminhada. A minha, é que o obstáculo mais complicado de superar desta
trilha, é o primeiro dia, ou seja, a subida até os Castelos do Açu. Acho esta
subida particularmente difícil, não só pelo grande desnível, mas ao ser no
primeiro dia da travessia, estamos com a mochila muito carregada com os
mantimentos. A subida aos Castelos do Açu consiste superar um desnível de
1300 metros, percorrendo 6,5 km, carregados com 12 ou 15 quilos nas costas,
numa marcha de aproximadamente 7 horas.
Embora seja um obstáculo de respeito, todos do grupo aguentamos esse
trecho sem muitas queixas. Íamos conversando e ouvindo música, eu ia ao
som de Lamont Dozier - Going To My Roots (1977). A subida íngreme
chega aos campos de altitude na quinta hora de caminhada,
aproximadamente. Quando a vegetação é baixa, isto é, sem vestígios de mata
Atlântica, chega-se a um local conhecido como "Ajax". De lá é possível
avistar a baía de Guanabara quando o dia estiver livre de nuvens. A Partir do
“Ajax”, já não há subidas íngremes. Estamos na crista da Serra. Não é
estreita. Essa crista é composta de pedras planas e de vegetação rasteira, mas
com inúmeros sobes e desces. Aqui é preciso ficar atento aos sinais gravados
nas rochas e aos totens de pedras para não se perder. Desde o “Ajax” até o
abrigo, caminhamos mais aproximadamente 2 horas entre platôs de pedras e
alguns desníveis não muito expressivos.
Chegamos aos Castelos do Açu (2216m) no meio de uma forte neblina,
estávamos nas nuvens. O abrigo estava desativado para manutenção. Fazia
meses que o abrigo estava assim. Portanto, não era possível fazer uma reserva
prévia pelo site, apenas para o acampamento foi possível marcar. A
administração do parque dizia que uma obra haveria que ser feita para cobrir
os estragos de uma ventania que havia danificado a estrutura do abrigo.
Como tudo neste país, quando conversei com os administradores do parque
sobre o assunto, percebi que a solução desta obra estava no meio de um
empurra-empurra de responsabilidades e atribuições, de modo que,
infelizmente, não temos previsões concretas de sobre quando os montanhistas
poderão usufruir deste belo abrigo. Escrevo isso em novembro de 2015 e o
abrigo vai para mais de seis meses desativado.
Mesmo assim, eu particularmente prefiro sempre ficar acampado (ao
contrário dos meus colegas). Além de ser mais barato, gosto da sensação que
dormir ao livre proporciona. O que eu gosto do abrigo é poder jantar na mesa
com os colegas, e o ambiente relaxado no topo da montanha. Portanto,
quando possível, é sempre bom que pelo menos um integrante da expedição
peça para se alojar no abrigo, para que de camaradagem, o guarda do abrigo
permita que os resto dos integrantes possam circular ali dentro. Como não
havia muitos grupos fazendo a travessia neste fim de semana, o guarda do
abrigo nos permitiu circular ali, que preparássemos nossas refeições dentro
do abrigo interditado. Foi inclusive sorte nossa, pois normalmente a travessia
da Serra dos Órgãos é uma atividade bastante concorrida. Sempre há grupos,
alguns grandes, fazendo a travessia. Talvez pela previsão do tempo (que logo
não se confirmou), outros grupos tenham desistido de fazer a travessia. É até
bom mencionar aqui, uma outra crítica que tenho aos administradores do
Parque Nacional Serra dos Órgãos, é que se você cancelar a reserva por
motivos de clima, simplesmente perde o dinheiro pago adiantado para
realizar a reserva. Eu passei por isso recentemente e tomei um prejuízo de
mais de R$100. Eu não concordo com essa política de cancelamento. Se não
usei o serviço, não vejo porque não ser reembolsado. Ao ler os termos da
reserva, com a expectativa da viagem, nunca achamos que isso possa
acontecer, mas o tempo na Serra é imprevisível. Hoje sei que cancelamentos
por conta disso é algo bastante frequente, infelizmente. E quem ganha com
isso é apenas a administração do Parque Nacional, que fica com nosso
dinheiro, injustamente, creio.
Preparamos um risoto com gorgonzola e pedaços de pera, mas exagerei
em troços extras de parmesão, que fez com que as peras desaparecessem do
prato, e que o arroz ficasse com uma textura pegajosa demais — um
eufemismo para gororoba, sejamos francos — mas o pessoal pareceu que
gostou. Com tanta fome, no final das contas, qualquer risoto seria bem vindo.
Depois do jantar, e do banho (paga-se uma taxa para utilizar água quente. Só
um adendo aqui. Lembro-me também do guarda do abrigo contando que ele
sobre a trilha dos Castelos do Açu, esse desnível assustador que narrei no
começo deste relato, com um botijão de gás nas costas. Escutava ele
contando como fazia, com uma cara de incredulidade. Os guardas do Parque
tem todo meu respeito. Não é um trabalho fácil manter os abrigos de
montanha. São profissionais admiráveis. Conversar com eles é muito
enriquecedor para montanhistas iniciantes e experientes. São pessoas
idealistas, e com conhecimentos muito úteis para nós). Passamos uma boa
noite lá em cima. Em nossas barracas, estava bastante frio. No meio do ano,
durante a temporada de travessia (não é muito recomendável fazer a travessia
no verão devido ao intenso calor), as temperaturas nos campos de altitude do
PARNASO podem ser bastante rigorosas. Recomenda-se um bom saco de
dormir, assim como apropriada para montanha. Nada de jaquetas comuns,
que além de serem mais pesadas que a roupa técnica de montanha, não são
impermeáveis nem cortam o vento. Isso é muito importante, assim como boas
botas e meias grossas.
Pela manhã, bem cedo, abrimos as barracas para contemplar o espetáculo
e o privilégio de naquelas altitudes, ver o sol surgindo no horizonte, deixando
o céu e as nuvens abaixo de nós, entre tons de azul, amarelo e laranja. Isso é
sempre bonito de ver, ainda mais tomando um café e comendo tapiocas com
queijo e mel.
Desmontamos o acampamento, e saímos para caminhada do segundo dia.
Norivaldo era nosso porto seguro. Do nosso grupo ele era o único que
conhecia os caminhos da travessia. Este segundo dia exige alguém no grupo
com experiência. É fácil se perder entre o percurso do Abrigo do Açu ao
Abrigo da Pedra do Sino. Além desta questão de navegação, de conhecimento
da trilha, outra dificuldade reside no fato deste segundo dia de travessia seria
tão ou mais exigente que a do primeiro dia. Isto não está ligado ao desnível
do terreno somente. A subida ao Açu é o trecho mais íngreme da travessia,
como dito antes, minha opinião é que o primeiro dia é o mais difícil . No
entanto, o segundo dia é igualmente puxado. Ao mesmo tempo, temos uma
recompensa aqui; este é também o trecho mais bonito da travessia, pois trata-
se de cruzar os campos de altitude do Parque Nacional Serra dos Órgãos, com
uma das vistas mais bonitas de todo o Brasil (sem exageros). Este trecho
consiste em subir e descer 7 cumes da parte alta do Parque, até chegar ao
outro lado da cordilheira, cujo o cume, é a Pedra do Sino (2275m). Partindo
do Açu, caminhamos cerca de 1h30 com destino ao Morro da Luva, e deste
último, tivemos a vista mais impressionante que encontramos em toda
travessia, diretamente para o Garrafão com o Dedo de Deus mais a fundo.
Seguimos felizes e admirados com a paisagem. Cogitamos por alguns
instantes ir até o mirante que é um dos cartões postais do Parque, um local
chamado “Portais de Hércules”. Mas como isso exigia um desvio de quase 1
hora e nenhum de nós havia jamais ido até lá, logo decidimos não fazer essa
visita. Após o Morro da Luva, inicia-se uma descida uma localidade chamada
de “Vale das Antas”. Aqui o tempo fechou definitivamente. Mas antes,
passamos pelo conhecido trecho chamado "elevador", por onde "escalamos"
uns 100 metros agarrados em vigas de ferro instalados na pedra. Pouco
depois de chegarmos ao Vale das Antas, procuramos por um ponto de coleta
d´água que o guarda do abrigo havia nos indicado, mas não encontramos,
infelizmente. As minas de água estavam secas ou enlameadas. No Vale das
Antas, nem sempre é simples encontrar a trilha novamente. Por isso mesmo
este vale tem esse nome, creio. Ficamos ali como umas antas buscando em
volta do vale algo que nos indicasse o caminho. Norivaldo, sempre ele,
encontrou e nos colocou novamente na rota rumo à Pedra do Sino. Em
seguida, chega-se à “Pedra da Baleia”. Neste ponto, um pouco mais adiante
está outra beleza do Parque. Um lugar conhecido como “Terra de Gigantes,
de onde se avistava o Dedo de Deus, o Garrafão e a Pedra do Sino. É um
lugar onde o Garrafão, o Dedo de Deus e a Pedra do Sino são avistados num
ponto muito mais próximo do que o visto desde o Morro da Luva, e as
dimensões, portanto, dessas montanhas, ficam ainda mais impressionantes..
Mas aqui, infelizmente para nós, já estávamos completamente imersos numa
nuvem densa, fazendo com que não enxergássemos além de 10 metros à
frente.
Serpenteando a encosta após a Pedra da Baleia, chegasse na base do
obstáculo mais temível de toda a travessia. Durante toda a caminhada é
comum conversar sobre este ponto. O chamado “cavalinho”. É o trecho mais
exposto da travessia. Por uma fenda estreita, só passa um de cada vez.
Primeiro vão as mochilas. Norivaldo tomou a dianteira. Escalou a fenda e fez
o cavalinho. O cavalinho é uma pedra que você tem que agarrar e logo,
passar a perna por cima como se estivesse montando num cavalo. Só que do
teu lado, ao lado da fenda, há um abismo assustador .Todos concentrados
aqui, qualquer deslize pode ser fatal. Com Norivaldo já lá em cima, fizemos
uma fila indiana passando as mochilas de cada um até ele. Difícil explicar
isso aqui, estávamos algo tensos, e, por isso mesmo, nos esquecemos de tirar
fotos deste trecho. Mas apesar da seriedade do momento, não houve maiores
problemas para ninguém vencer o cavalinho. Concentração é a chave.
Questão de metros mais acima, deparamo-nos com outro ponto onde era
necessário passar novamente as mochilas antes de nós, pois além da
inclinação nos jogar para trás junto com o peso, a estreita fenda nos deixava
entalados com as mochilas entre as pedras, e assim, repetimos o ritual de
transportar a bagagem numa fila indiana. Feito isso, seguimos a marcha
montanha acima, rumo ao ponto mais alto da Travessia, e de toda Serra dos
Órgãos, o cume da Pedra do Sino (2275m). Na verdade, pegamos a trilha
direto ao abrigo, para não subir ao cume carregados. A Pedra do Sino está a
20 minutos do abrigo.
Chegamos no abrigo 4 do Parque Nacional Serra dos Órgãos. Montamos
acampamento. E apenas Rodrigo Ximenes se animou para subir ao cume.
Além de muito cansados, os outros do grupo não foram pois o tempo estava
muito fechado. Rodrigo Amaro estava com joelho machucado, eu estava
exausto também, ainda tinha que preparar o jantar pra galera. Fizemos um
macarrão com atum.Comemos bastante,e depois disso era umas 19h30,
quando fui pra barraca e dormir até o dia seguinte. Amanheceu com muita
neblina e vento. Clima típico da Serra.. Durante o café, não nos animamos
novamente a subir ao cume do Sino, eu já havia ido em 2013, e com o tempo
daquele jeito achei que era melhor me guardar para a longa descida até
Teresópolis. Guardamos tudo na mochila, e por volta das 11h00 iniciamos a
descida de 12km, o trecho mais longo, porém mais leve, rumo a sede
principal do parque em, e finalizamos a travessia.
No final da trilha estavam meu pai e seu amigo Chico, que moram e
Petrópolis, mas que fizeram a gentileza de nos resgatar em Terê. E para
fechar com chave de ouro, nos levaram para almoçar em um de seus
botequins prediletos, na estrada de Itaipava, o Bulgarin, onde bati um prato
enorme de contrafilé uruguaio com tudo o mais que tinha direito. Nesta época
eu ainda comia carne!
A temida Travessia da Serra dos Órgãos foi vencida. Fiquei muito feliz
com meu desempenho pois ficara nítido que minha resistência aumenta a
cada expedição. Eu a comparava com minha primeira subida à Pedra do Sino
em 2013, quando, por estar sem ritmo e com as mesmas condições físicas,
voltei naquela ocasião, destruído de uma caminhada que hoje me parece
simples. Claque que a Travessia da Serra Fina também me calejou. Inclusive,
em nosso grupo, eu era até respeitado por ter feito a Serra Fina antes, e por ter
liderado a equipe nos preparativos de logística e alimentação. Ter feito essa
travessia me deu mais experiência na montanha. Hoje me sinto mais
confortável para encarar desafios deste e de maior nível.
De volta ao Açu

Alguns meses depois da Travessia da Serra dos Órgãos, voltei aos


Castelos do Açu com minha parceira de trilhas, Lucélia. Como já havíamos
feito o trajeto recentemente, acreditamos que não teríamos maiores problemas
para concluir essa empreitada. Não é que tivemos muitos imprevistos, mas
desta vez o clima da região teve um papel importante na caminhada.
Começamos a trilha debaixo de um sol forte. Realmente, o PARNASO, ou
pelo menos a travessia Petrópolis x Teresópolis, não é uma atividade
adequada para se fazer no verão. No entanto, as cachoeiras da parte baixa
sim, são um grande atrativo para dias quentes. Tanto que tivemos a
oportunidade de dar um mergulho numa das piscinas naturais que se formam
antes do acesso à cachoeira Véu da Noiva, a mais conhecida da região,
aproximadamente a 1 hora da entrada do parque. Entretanto, seguir a trilha
rumo aos campos de altitude da serra, debaixo de um sol forte, é um grande
desafio, ainda mais carregado com aproximadamente 15 kg nas costas.
Outro imprevisto que tive, foi ter colocado umas palmilhas
"massageadoras" em minhas botas, no entanto, o que aconteceu na verdade,
foi que elas apertaram meus pés no calçado, gerando bolhas em meus
calcanhares, tornando meus passos cada vez mais insuportáveis. Tive que
tirar as botas no meio da subida ao Açu, trocando-as por um par de crocs que
levava na mochila. Ainda bem que os tinha ali, pois deram conta do recado, e
alívio aos meus pés. Além disso, descobri que sou alérgico a certos tecidos de
camisetas, esses dry-fit, infelizmente era o tipo de material que usava nesse
dia. O peso da mochila, e o atrito provocado por ela entre o tal tecido e meu
ombro, geram irritação em minha pele, que vão piorando com passar da
trilha. Já havia tido essas irritações no ombro causadas pelo mesmo motivo,
mas julgava ser apenas pelo peso da alça. Mas não, ao trocar de camiseta e de
tipo de tecido, a irritação na pele deu uma aliviada. Mesmo assim, estou com
os ombros bem irritados. Vai demorar ainda uma semana aproximadamente
para sarar.
Ao chegar no Açu, havia pouca gente, três pessoas além de nós, e o
guarda do abrigo, o qual segue interditado. Fizemos a subida em menos de
seis horas, e chegamos lá com o sol ainda alto, por volta das 17h. O tempo
estava aberto, era possível avistar a baía de Guanabara, o Corcovado, Pão de
Açúcar, todo o Maciço da Tijuca, e até a Pedra da Gávea! Infelizmente, não
pude levar minha câmera reflex, portanto, tive que me contentar com fotos
feitas do celular. Montamos nossas barracas na área de camping. A noite
caiu, e o tempo seguia limpo e sem vento. Preparamos um super jantar com
lentilhas, batatas e cenoura, que rapidamente fez efeitos em nossa disposição.
Divagamos se a palavra "restaurante" tem haver com o fato do alimento ser
algo "restaurador" para as pessoas. Fato é que estávamos revigorados.
No dia seguinte, tomamos um super café, com nossas usuais tapiocas com
queijo e mel. Era curioso assistir a dança das nuvens que ora nos envolvia
densamente, ora dissipava clareando o céu, mas deixando-nos expostos ao sol
ardente, e nos aliviando quando voltavam, trazendo o frescor da umidade.
Mas chegou um momento que elas ficaram de vez, mau víamos o Açu. Lucio,
o guarda do abrigo, veio nos alertar quanto a isso para nossa descida, e sobre
o perigo de raios. Disse que era importante partir o quanto antes pois havia
previsão de chuva. A descida logo em seguida, foi bem puxada, o joelho deu
uma reclamada de leve. O legal dessa descida foi ter enfrentado todos os
tipos de clima na montanha. Vento, neblina, sol de novo, e assim que pisamos
na sede do parque, finalizando a trilha, caiu uma chuva torrencial, que há
muito era esperada. Pareceu que estávamos cronometrados com ela.
Literatura de Montanha

Quando comparado com outros países, principalmente os de língua


inglesa, no Brasil há pouquíssimos livros publicados sobre literatura de
montanha, e relatos de viagem em geral. Por exemplo, é muito estranho, pra
não dizer inconcebível que por aqui, jamais tenha sido lançado nenhum livro
de Reinhold Messner ou Walter Bonatti; dois dos maiores alpinistas do
século XX, cuja produção literária, (além de seus feitos assombrosos nas
montanhas), sejam tão relevantes. Messner, como se sabe, foi o primeiro
homem a escalar o Everest sem oxigênio suplementar, e solo em estilo
alpino, para citar apenas uma de suas grandes façanhas; e autor de best sellers
na Europa, como seu último livro "Minha vida no limite". Bonatti, por sua
vez, liderou a expedição italiana ao K2, na primeira conquista deste cume em
1954, e é autor de vários outros livros, incluindo seu último lançado pelo
prestigiado selo Penguin Modern Classics, "As Montanhas de minha vida".
De fato, livros sobre o K2 são ainda mais escassos por aqui que os do
Everest. Por agora apenas me recordo do relato de Waldemar Niclevicz, “Um
sonho chamado K2”, publicado pela editora Record, entre outros autores
internacionais, como Graham Bowley, autor de "Morte e Vida no K2",
lançado aqui pela Objetiva. Outro detalhe, é que se faltam livros publicados
em formato tradicional, é notável que em formato e-book, (o que mais utilizo
atualmente) a escassez de títulos é ainda mais evidente. E o que falar então
sobre a ausência de um dos maiores clássicos deste segmento,
"Conquistadores do Inútil" do francês Lionel Terray? o qual conta seguidas
reedições, e dentro deste nicho, está entre os mais vendidos na Europa
(segundo a livraria espanhola Desnível), e por aqui nunca visto.
Recentemente li dois livros escritos por alpinistas brasileiros, "Sonhos
Verticais" do Manoel Morgado, e "Everest: viagem à montanha abençoada",
de Thomaz Brandolin. É interessante comparar as duas narrativas, a começar
pelo fato de que enquanto Morgado escalou a montanha pela rota mais
tradicional, e, portanto, mais conhecida pelo público em geral, pelo Nepal,
Brandolin realizou sua tentativa pela mesma rota do lendário George Mallory
e a de Messner, ou seja, pelo Tibete. Seguindo esta comparação, tive a
impressão que Morgado sofreu muito mais com essa experiência, já que em
seu relato, ele deixa claro as debilidades de seu corpo em altitude, ao
descrever como que sistematicamente sofre com dores de cabeças e náuseas a
partir dos 5000 metros. O relato de Morgado é bem mais dramático e
emotivo. Já no livro de Brandolin, há muito pouco sobre os efeitos da altitude
nos membros de sua expedição em geral. Talvez porque não tenham chegado
à marca dos 8000 metros devido aos fortes ventos enfrentados nos
acampamentos avançados. Cabe dizer também, com respeito à estratégia de
aproximação, chamou minha atenção, ao passo de que pela rota nepalesa são
instalados apenas 4 acampamentos, sendo que o C4 está já na zona da morte,
à 8000 metros; pela rota tibetana, são previstas 6 paradas, sendo que 2
acampamentos base, o segundo chamado de base avançado. Embora pelo
lado nepalês, chegar ao CB é mais difícil (são 10 dias de trekking), a
estratégia tibetana me pareceu mais complicada, e mais exposta ao vento (se
bem que o vento está ligado à estação do ano), já que o ataque ao cume é
feito por uma exposta aresta, e pelo Nepal, isso ocorre pela base do monte
Lothse, o que provavelmente é mais protegido destes ventos. Até o nome do
local do C4, segundo Morgado, é chamado de "vale do silêncio”; enfim,
nunca estive lá para saber, apenas transcrevo o que entendi pelas leituras e
pelas imagens disponíveis. Também destaco as diferenças dos autores sobre o
aspecto religioso, o livro de Morgado toca de forma recorrente neste ponto,
deixando evidente sua relação pessoal entre o budismo e montanhas, e por
sua vez, Brandolin é mais técnico. Isso não é um valor que dou ou tiro de
cada livro, apenas uma constatação. No geral gostei bastante dos dois relatos.
Pretendo inclusive comprar o livro do Morgado, " Manaslu", publicado
pelo Portal Extremos; que por sinal vem fazendo um interessante trabalho de
publicação de livros de autores nacionais. Dei uma folheada nas amostras
enviadas pelo aplicativo Kindle, e toda diagramação e design são de alto
nível. Exceto pelo livro "O Sentido da Vida", que de conteúdo achei
insuportável, na minha opinião se destaca negativamente com o resto do
catálogo. Mas tenho certeza que há público para sentimentalismo barato e
filosofias rasas relacionados com experiência em montanhas (apenas uma
opinião de crítico que sou). Acho também, ou pelo menos gostaria que fosse,
o Portal Extremos responsável pela publicação dos livros do Messner aqui no
Brasil, tem tudo haver com o editorial da empresa.
A Alimentação na Montanha

Montanhas não são lugares para se passar perrengue e desconfortos,


embora se o mochileiro não calcular bem os itens que irá levar para sua
viagem, alguns probleminhas como fome e frio poderão acontecer. Por
exemplo, os menos experientes facilmente são vistos nas trilhas sem o
calçado e mochila adequado, não calculam bem a quantidade de água e
comida. Já vi algumas situações dessas em minhas viagens.
Sou bastante metódico quanto a isso. É importante encontrar um equilíbrio
entre o que levar na mochila e o peso que se irá carregar. Em média, para
uma travessia de 3 dias, carrego de 15 a 20 kg em minha mochila, podendo
ser até mais, se o houver mais mulheres no grupo, já que na hora de dividir o
peso, nós carregamos mais mantimentos que elas (depende da mulher, claro,
e dos outros homens!)

Mas o que levar para comer numa travessia de três dias, por exemplo?

Antes de tudo, é importante planejar cada refeição que o grupo, ou a


pessoa irá fazer. Calcular exatamente as porções de cada alimento, para evitar
carregar peso desnecessário, e armazenar essas quantidades em sacos ziploc.
Diversificar os alimentos, sobretudo os jantares, já que no fim do dia todos
estão famintos.

Eu costumo levar o seguinte:

Café da manhã:

• 2 tapiocas com queijo e mel por pessoa


• 2 ou 3 taças de café ou chá, ou uma garrafa térmica de 1L
• Pode-se variar a tapioca com pão sírio regada a queijo e salame.
• Salame - o queridinho dos montanhistas carnívoros, indispensável em
qualquer trilha de longa duração por ser excelente fonte de proteína.

Para a travessia Petrópolis x Teresópolis, nosso grupo era de 6 pessoas,


levamos 1kg de queijo prato, e sobrou 1/3 disso, o ideal seria ter levado uns
600g. Levamos 750g de salame e sobrou a metade, portanto deveríamos ter
levado uns 350g.
Lanche de trilha:

• Banana Passa - Uma das melhores fontes de energia que há. Prefiro
muito mais elas do que chocolates.
• Nuts - Um mix de nozes, castanhas, uva passa, e frutos secos em geral.
Excelente fonte de energia.
• Sanduíche de atum no pão sírio - Este tipo de pão é uma das melhores
opções para se levar a uma trilha, mas pela minha experiência, ao menos que
o grupo ou a pessoa não esteja faminta durante a trilha, com os alimentos
acima se estará muito bem servido. Mantendo uma hidratação adequada, a
pessoa aguentará a jornada feliz da vida.
Jantar:

É refeição mais importante e completa do dia, onde a energia é reposta, e


o mochileiro estará pronto para ir descansar plenamente saciado. O que
costumo fazer é planejar o cardápio para os 3 dias. Os pratos que costumo
fazer em montanhas são os seguintes, não necessariamente nesta ordem:

• Dia 1 - Lentilha com batatas, cenouras e calabresa + 1 cebola.


• Dia 2 - Macarrão com atum, molho de tomate + 1 cebola, azeitonas, e
alho se quiser. Pode-se fazer este macarrão com carne de soja em vez do
atum. A soja rende muito, e é excelente fonte de proteína, ferro, fibras.
• Dia 3 - Risotto ao funggi - muita gente acha que isso é muito gourmet
para trilha, mas além de ser fácil de fazer é excelente, tanto quanto paladar
quanto para repor as energias. Aprendi isto com os guias da Serra Fina, aliás,
aprendi tudo isso com eles

Sobre as quantidades, para uma travessia de 3 dias, baseado num grupo de


6 pessoas:
• 600g de queijo prato
• 1 kg de tapioca
• 250ml de mel
• 500g de café
• bolsas de chá
• 12 pães sírios
• 350g de salame
• 500g de banana passa
• 500g de nuts
• 300g de lentilha
• 2 calabresas
• 2 batatas
• 1 beterraba
• 2 cenouras
• 3 cebolas
• 500g de arroz
• 300g de funggi
• 300g de parmesão em barra
• 3 pacotes de parmesão ralado
• 300ml de azeite de oliva
• 200g de azeitona
• 3 dentes de alho, ou alho desidratado
• 1kg de macarrão (cozimento de 6min)
• 2 latas de atum
• 3 bolsas de molho de tomate
• 2 garrafas de vinho
• de sobremesa, 6 barras de chocolate - ou doce de leite
• para higiene do grupo e manipulação dos alimentos, álcool em gel é
essencial
• Sabão de biodegradável em barra, e uma esponja para lavar a louça

Pode parecer muito, mas se o grupo tiver boas mochilas e as quantidades


forem divididas racionalmente, não haverá problemas quanto ao peso.
Para a travessia Petrópolis x Teresópolis, gastamos R$ 250 para comprar
esses itens, dando R$40 para cada um.
O grupo precisará dispor de um bom set de cozinha para camping, como
pelo menos 2 panelas e 2 fogareiros, além de pelo menos 2 cartuchos de gás.
Só lembrando também, que ao invés de levar tudo isso, existe no mercado,
alimentos liofilizados, que ocupam bem menos espaço que os acima citados,
e de preparação muito mais simples. Eu prefiro ir para montanha bem
servido. Cabe cada um decidir sua preferência.
Rumo à Patagônia

Após as experiências narradas neste livro, eu fiquei ávido por conhecer


montanhas geladas, e lugares mais inóspitos. As montanhas brasileiras são
belas, porém para ter experiências em montanhas e paisagens mais extremas,
eu deveria viajar a outros países. No caso, a Patagônia, concretamente, o sul
da Argentina, me pareceram o lugar ideal para me iniciar neste campo do
montanhismo. Transcorrido os relatos deste livro, tive a experiência de ir para
a montanha tanto em grupo, como sozinho. Eu gosto das duas experiências.
Tanto sozinho como em grupo, são experiências que nos servem de
aprendizado. Um aprendizado no convívio com outras pessoas, como
também, por outro lado, um aprendizado sobre autoconhecimento. Neste
caso, na viagem para a Argentina, eu fui sozinho para ficar lá por duas
semanas. El Chaltén, é uma cidadezinha de 5000 habitantes, conhecida como
a capital mundial do trekking. Um lugar que mexe com meu imaginário desde
que ouvi falar, em 2013. Desde então planejo ir para lá; só não fui até hoje
porque o trabalho e a saúde financeira não me permitiram até o momento.
Isso mudou em 2015, quando os fatores e as condicionantes entraram no
caminho da concretização deste sonho. Este texto não será sobre o relato em
si desta viagem, que terá uma publicação exclusiva sobre a experiência, no
título “Os Glaciares”, que escrevi logo após o regresso. O resultado foi uma
narração em 100 páginas, também disponível para Kindle.
Este texto é sobre os preparativos da viagem. Consultei o preço do
camping, num lugar que me pareceu ideal, chamado El Relincho - $100 pesos
por dia, uns R$ 40. Pela fotos e localização do camping me pareceu um lugar
perfeito. Caso não gostasse, pensei, bastaria mudar de local estando lá. O
importante era ter uma reserva. Liguei para lá, fiz várias perguntas e fui
convencido que o camping Relincho era o melhor. Hoje, passada a
experiências, tenho certeza que voltaria a me hospedar lá. Melhor camping de
El Chaltén, sem dúvidas.
Com respeito aos equipamentos, para enfrentar o clima patagônico, optei
pelo saco de dormir Deuter forrado com plumas de ganso com limite -20ºC.
Foi um dos investimentos que tive que fazer. Como sempre, eu não fico em
pousadas e sim, apenas em camping, por causa do preço e porque eu
realmente gosto de acampar. Em viagens como esta eu gosto de levar dois
tipos de barraca. Uma maior e mais confortável, que chamo de acampamento
base; e outra, desses modelos ultra-light — a minha é da Nature Hike e pesa
1kg aproximadamente. Posso garantir que ela aguenta os ventos da
Patagônia, que não são qualquer coisa. A barraca leve serve para as aventuras
dentro do Parque Nacional Los Glaciares, enquanto que a base ficava em El
Chaltén. O resto do equipamento, seria uma pá portátil que pode ser bem útil
para necessidades gerais, um saco estanque impermeável, onde eu guardo os
alimentos, e uma mala estanque com alça, chamada duffel bag. A duffel serve
para levar todo equipamento (cozinha, bastão de caminhadas, jaquetas,
calças) numa mala só, inclusive a mochila cargueira dentro. Ela fica guardada
no camping base enquanto saio para caminhadas e pernoites dentro do
parque.
Meu orçamento foi minuciosamente planejado. Tive que abrir mão de
comer em restaurantes e cozinhar todas as minhas refeições. Assim como abri
mão de outros luxos, como o conforto das camas de hostel, ou seja, fiquei
duas semanas dormindo apenas em minha barraca. Não tive problemas. Na
verdade não queria voltar tão cedo. Duas semanas na Argentina apenas me
deu o gosto de quero mais. O gosto de querer visitar Torres del Paine, no
Chile, não muito longe de El Chaltén. Cortar esses luxos que citei, certamente
ajuda a baratear a viagem, mas além disso, condiciona-me a ampliar a
sensação que busco na montanha, a de autossuficiência. Hoje, passada essa
experiência em El Chaltén, meu erro,talvez, tenha sido ficar os 14 dias no
mesmo vilarejo. Talvez tenha sido uma estadia longa demais. Normalmente
as pessoas que vão para El Chaltén ficam apenas alguns dias, e visitam outros
lugares da região (visto os relatos que andei lendo), como El Calafate,
Ushuaia, Torres del Paine na mesma viagem. Mas de minha parte, ao apostar
nesta estadia prolongada somente em Chaltén, tive a oportunidade de
conhecer o Parque Nacional Los Glaciares profundamente; deixando esses
outros destinos para uma próxima ocasião. Olhando para esta viagem, talvez
eu tenha me preocupado demais em minimizar os gastos e ter perdido a
oportunidade de ir a Torres del Paine. No entanto, foi muito bom estar
tranquilo em um lugar só. Eu gosto de sentir o local. Como turista que apenas
passa e vai para o próximo destino, muitas vezes, perde-se outras
experiências que só o tempo e a falta de pressa proporcionam.
Se eu tivesse mais U$ 500 faria eu teria feito o que hoje é a travessia dos
meus sonhos: os 8 dias sobre os campos de gelo continental. Este é o passeio
mais radical da região, mas infelizmente não foi possível. Tinha visto vídeos
no Youtube de brasileiros que fizeram essa travessia sem guias. Eram três
brasileiros. O vídeo era bastante completo, mostrando os trechos a serem
vencidos a cada dia, Mas mesmo que eu estudasse minuciosamente este
percorrido, fazê-lo sozinho envolvia perigos demais. Jamais me atreveria.
Nesta viagem, você pode ler no meu livro “Os Glaciares”, conheci uma
parceira de trilhas e chegamos a fazer uma caminhada bem longa, de El
Chaltén até uma localidade chamada “Lagunda Toro”, mas essa atividade,
embora acompanhado, não fazia sombra ao desafio que representa a travessia
do gelo continental.
Sobre o autor

Roberto Herrera é formado como diretor de fotografia pelo Centro de


Estudos Cinematográficos da Catalunha.

Em 2015 começa a publicar uma coleção de seus relatos de viagem, a fim


de ampliar seu campo de atuação dentro de uma nova cultura digital.
Seu estilo busca inspirar as pessoas a viajarem junto do autor, e motivá-las
a prática esportiva nas montanhas, numa narrativa que envolve a auto
superação e o gosto pela aventura.

É autor do livro “Os Glaciares”, que narra as aventuras vividas na


Patagônia. O título também está disponível na loja Amazon Kindle.