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Capitulo 3

Novos caminhos para a educação CTS: Ampliando a participação

No auge do século XIX e início do século XX foi construído uma visão tecnocrática, de que as
ciências eram um substituto para a política e outras questões que fossem passiveis da
subjetividade. Sintetizado pelo lema “a ciência descobre, a indústria aplica. O homem se
conforma”

Na educação de ciências principalmente no movimento CTS, as tenções entre


postulação democrática e tecnocráticas, em temas envolvendo ciência e tecnologia tem sido
constantes, onde a maior parte dos pesquisadores/educadores do campo CTS tem sua origem
em campos como física, química e biologia; ciências estão dentro de uma suposta neutralidade
e determinismo tecnocrático, sem margem para as construções históricas e as concepções
tecnocráticas são pouco questionadas.

Mitos tecnocráticos

A suposta superioridade, neutralidade do modelo de decisões tecnocráticas, parte do


pressuposto da possibilidade de neutralizar/eliminar a influencia do sujeito no processo
cientifico-tecnológico. O expert pode solucionar os problemas, inclusive os sociais de modo
eficiente e ideologicamente neutro. Para cada problema existe uma solução ótima, portanto
deve-se eliminar os conflitos ideológicos e/ou de interesses

Em algum momento do presente ou futuro, CT resolverão os problemas de hoje, existentes,


conduzindo a humanidade ao bem-estar social.

Teses de Gómez -i) a mudança tecnológica é a causa da mudança social, considerando-se que a
tecnologia define os limites do que uma sociedade pode fazer -ii) a tecnologia é autônoma e
independente das influencias sociais.

Auler em analise apoiada em Garcia et al. Destaca que a partir de meados do século XX, em
alguns dos países capitalistas centrais, foi crescendo um sentimento de que o desenvolvimento
cientifico, tecnológico e econômico não estava conduzindo linear e automaticamente ao
desenvolvimento do bem-estar social. A degradação ambiental, bem como o desenvolvimento
das CTs vinculado a guerra fez com que as decisões tecnocráticas fossem alvo de um olhar
mais critico em alguns contextos

Auler afirma: é insustentável a crença de que o avanço tecnológico responde unicamente a


impulsos internos, por ser uma atividade social é condicionada por fatores econômicos,
políticos e sociais, por conseguinte a direção de seu desenvolvimento atende aos interesses
particulares de determinados autores sociais

Essa visão impede a compressão da tecnologia como processo social, no qual estão embutidos
interesses, na maioria das vezes de grupos econômicos hegemônicos. Deixando o sujeito numa
aceitação passiva dos milagres da tecnologia, sem tomar participação ativa da mesma.
Democracia, tecnocracia e educação em ciências na América Latina

Ainkenhead citando fensham, destaca que mudanças curriculares ocorrem quando há


mudanças na realidade social, respondendo as mesmas. Com a segunda guerra mundial novas
e diversas propostas de ciência escolar foram introduzidas, estimuladas por fatores como: uma
reavaliação da cultura ocidental, uma emergente necessidade de educação política para a
ação, uma demanda de aproximações interdisciplinares na educação cientifica organizada ao
redor de problemas amplos.

E a américa latina?

Nesse capitulo assume-se como horizonte, a democracia participativa. Busca-se como ponto
de partida no campo educacional, particularmente na educação em ciências, ampliar os
mecanismos de participação, contribuindo coma construção de uma cultura de participação
em processos decisórios. Dentro da referida articulação Freire-CTS,

Devemos considerar que o movimento CTS repercute de forma mais sistemática em contextos
em que as condições materiais da população estão satisfeitas, o que acaba não ocorrendo em
parte das populações da américa latina, além disso, a maioria desses países tem um histórico
de passado colonial, cuja suas marcas se manifestam no que Paulo freire denominou de
cultura do Silencio, caracterizada pela inexperiência de participação do conjunto da sociedade
em processo decisórios.

Tomada de decisão

Na educação em ciências, mais especificamente em encaminhamentos CTS, na efetivação de


implementações a tomada de decisão tem sido postulada e praticada como potencializadora
de participação, defendendo-se uma “participação fundamentada em processos decisórios”

Mas o que significa participação fundamentada? Fundamentada em que?

Processos de tomada de decisão tem ocorrido em configurações curriculares organizadas em


torno de temas, problemas, temas controversos, temas sociais, temas socioeconômicos. Esses
problemas/temas contemporâneos são complexos, não compreensíveis, apenas pelo olhar CT.
Podemos citar: transgênicos, clonagem, células-tronco e a degradação socioambiental. Em
todos eles além da dimensão cientifica, fundamental e não negligenciável, há outras.

Os processos de discursão e tomadas de decisão (real ou simulada) fundamentados apenas em


critérios técnico-científicos, reforçarão o mito da neutralidade/superioridade das decisões
tecnocráticas, negligenciando a amplitude do tema, bem como os valores envolvidos. Separar
“fatos científicos” de “juízes de valor” reduz a discussão sobre os temas contemporâneos á
“fatos científicos “silenciando outras dimensões, cristalizando as concepções tecnocráticas a
serviços de maximização do lucro provado.

Para Fourez et al. A escolha de projetos tecnológicos não representa escolha de meios neutros,
mas a escolha de modelos de sociedade. Assim uma efetiva democratização de processos
decisórios implica em ampliar o espectro de dimensões que balizam a fundamentação e a
argumentação. Trazendo outros elementos presentes nos projetos tecnológicos, no âmbito
dos juízos de valor.
Desafios

Qual é situação curricular atual? O ensino parte de uma perspectiva tecnocrática ou pautada
na tomada de decisões?

Os currículos de física e química, tem permanecido intocáveis por muitas décadas, tudo indica
que sem enfrentar debates curriculares com efetivas mudanças teórico-metodológicas na
educação básica, o campo de trabalho CTS transformara-se em mais um modismo. Sendo os
currículos atuais pautados pelos valores tecnocráticos.

Auler, Dalmolin e Fernalti, ao examinarem a construção curricular e a origem dos


temas/problemas abordados em configurações CTS, concluíram que em nenhum desses há a
participação da comunidade escolar na identificação/seleção dos problemas, são os
professores que executam esse papel (como técnicos) mesmo isso já podendo ser considerado
um passo importante em termos de ampliação da participação na elaboração curricular.

No brasil, de forma geral, estamos ainda muito aquém dessa prática, houve historicamente
uma desprofissionalização do professor, sendo atribuída a esta o papel de mero executor de
currículos. Representa a transposição do modelo da fabrica indústria/capitalista para o campo
educacional. Representa a cristalização da racionalidade instrumental, da separação entre
teoria e prática, entre concepção e execução. De um lado especialistas, técnicos, concebem
não um currículo neutro, mas marcado por intencionalidades. De outro cabe ao professor
executar currículos e intencionalidades definidas, concebidas por outros, em outros âmbitos. É
a cristalização da logica tecnocrática. Onde ao professor cabe “cumprir programas” e “vencer
conteúdos”

Um currículo que busca potencializa a compreensão, a participação em debates, a tomada


fundamentada de decisões em temas sociais, marcados pela CT, por sua natureza complexa
não abarcáveis por um único campo disciplinar e, numa perspectiva de democratização, não
restrito ao campo técnico-cientifico, precisa ser radicalmente modificado. Um caminho
plausível consiste em estrutura-lo em torno de temas, de problemas reais, de controversas,
que constituem o ponto de partida, onde os conteúdos disciplinares vêm depois, assumindo o
papel de ferramentas culturais, que ajudam a esclarecer o problema. Nessa nova concepção
curricular, o conjunto de conhecimentos trabalhados necessita ser redimensionado, contribuir
através da educação para a democratização de processos decisórios implica considerações de
natureza econômica e sociológica.

Excluir, da análise, do debate sobre temas sociais, temas sociocientificos, a dimensão política,
econômica reduzindo a analise ao campo técnico-cientifico, além de contribuir para a
constituição de valores tecnocráticos, impede a compreensão de que uma educação em
ciências, que contribua para constituição de valores democráticos e sustentáveis.