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TEXTO 2

DIVERSIDADE MUSICAL E ENSINO DE MÚSICA


Luis Ricardo Silva Queiroz 1

RESUMO

Neste texto, o objetivo é discutir a diversidade musical e possíveis metodologias de ensino de


música. Aproximações com o campo da etnomusicologia serão apresentadas como possibili-
dades de ampliação do entendimento e das concepções de música que poderiam fazer parte
do currículo escolar. Serão também discutidas questões didáticas para o ensino de música,
tratando da inclusão de experiências diversificadas com a música no contexto escolar.

Nas últimas décadas, temos aprofundado mo tempo a compreensão e o respeito


significativamente o debate acerca de ques- pelo diferente e pela diversidade são
tões emergentes na sociedade que, por dife- dimensões fundamentais do processo
rentes perspectivas, são fundamentais para educativo (BRAGA; SILVEIRA, 2007, gri- 17

as definições da educação. Assim, cada vez fos meus).


mais, têm sido reconhecidas a necessidade
e a importância de trazermos para o âmbi- Com efeito, a diversidade, em suas diferen-
to educacional temas que permeiam a vida tes facetas, tem sido foco de debates em dis-
humana e as relações sociais na atualidade. tintas áreas de conhecimento, evidenciando
Nesse universo, tem-se entendido que: as implicações do tema para a sociedade. O
que se percebe é que, no mundo atual, não
(...) a educação não pode separar-se, é possível pensar em definições, proposi-
nos debates, de questões como desen- ções e ações de cunho social, entre as quais
volvimento ecologicamente sustentável, a educação, sem considerar a diversidade
gênero e orientação sexual, direitos hu- como elemento intrínseco ao homem, que
manos, justiça e democracia, qualifica- tem impacto direto em suas relações com a
ção profissional e mundo do trabalho, natureza e com a cultura. Temos, portanto,
etnia, tolerância e paz mundial. Ao mes- caminhado na direção de uma política edu-

5 Doutor em Etnomusicologia pela Universidade Federal da Bahia. Atualmente é professor adjunto do


Departamento de Educação Musical e do Programa de Pós-Graduação em Música da Universidade Federal da
Paraíba e Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Música da UFPB.
cacional e uma ação pedagógica orientadas elementos que constitui a vida dos indivíduos
pelos valores da diversidade e do direito à e que faz da escola um lugar plural e comple-
diferença (HENRIQUES, 2007). xo. Um lugar de confrontos e disputas, mas
também de diálogos e interações.
Com vistas a contribuir para este debate, Essa multiplicidade que constitui a escola na
mais especificamente no campo da educa- atualidade é retratada nas palavras de Cali-
ção musical, este trabalho apresenta refle- man, quando afirma que:
xões e perspectivas para o ensino de música,
considerando a diversidade musical como (...) agora quem frequenta a escola são
elemento social de grande valor para a edu- jovens de extrações sociais diversas,
cação, tanto no que se refere às especifici- cada um deles com uma história pesso-
dades dos conteúdos musicais quanto no al que para alguns é regular, mas para
que tange a dimen- outros é marcada por
sões educativas mais fracassos, desvanta-
Na sala de aula, se
abrangentes. gens, mal-estar e so-
manifestam muitos frimentos dos mais
aspectos relacionados diferentes tipos (CALI-
DIVERSIDADE 18
às diferenças, que estão MAN, 2006, p. 385).
NA SALA DE
AULA
imbricados em todas as
Cientes dessa reali-
áreas e nos conteúdos
Ao considerarmos a dade, os profissio-
trabalhados. nais que atuam em
diversidade na sala de
aula, é importante ter diferentes áreas do

em mente que não se conhecimento preci-

trata de considerar unicamente a diversidade sam considerar que as fronteiras entre disci-

musical, mesmo para o professor de música. plinas e conteúdos são diluídas na convivên-

Na sala de aula, se manifestam muitos aspec- cia social e na inter-relação que estabelecem

tos relacionados às diferenças, que estão im- no contexto cultural dos indivíduos. Precisa-

bricados em todas as áreas e nos conteúdos mos pensar que cada área tem suas especi-

trabalhados. Nesse sentido, a diversidade na ficidades no processo de formação escolar,

sala de aula, independente do componente mas que todas elas lidam com pessoas; pes-

curricular trabalhado, abarca fatores econô- soas de naturezas distintas, pensamentos e

micos, étnicos, religiosos, sexuais, artísticos, objetivos diversificados, vivências e acessos

entre tantos outros. É a conjuntura desses singulares etc.


Considerando as diversidades que se mani- Como expressão cultural, a música pode ser
festam na escola, me atenho a discutir, a se- considerada veículo universal de comunica-
guir, aspectos relacionados a uma delas, a ção, pois não se tem registro de qualquer
diversidade musical, que não se separa das grupo humano que não realize experiências
demais, mas que tem implicações específi- musicais como meio de contato, apreen-
cas à prática educacional escolar. são, expressão e representação de aspectos
simbólicos culturais. Todavia, o fato de ser
utilizada universalmente não faz da prática
A MÚSICA COMO FENÔMENO
musical uma “linguagem universal”, tendo
SOCIAL em vista que cada cultura tem formas par-
ticulares de elaborar, transmitir e compre-
A música constitui uma rica e diversificada ender a sua própria música, (des)organizan-
expressão do homem, sendo resultado de vi- do, idiossincraticamente, os elementos que
vências, crenças e valores que permeiam a a constituem (QUEI-
sua vida na sociedade. ROZ, 2004, p. 101).
Como prática social, a A música constitui uma rica
música agrega, em sua e diversificada expressão do Dessa forma, a mú-
constituição, aspectos homem, sendo resultado de sica como cultura
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que transcendem suas
vivências, crenças e valores cria mundos diver-
dimensões estruturais sificados, mundos
que permeiam a sua vida
estéticas, caracteri- musicais que se es-
zando-se, sobretudo,
na sociedade.
tabelecem não como
como um complexo universos e territó-
sistema cultural que rios diferenciados pelas linhas geográficas,
congrega aspectos estabelecidos e compar- mas como mundos distintos dentro de um
tilhados pelos seus praticantes, individual e/ mesmo território, de uma mesma sociedade
ou coletivamente. De tal maneira, a forte e e/ou até dentro de um mesmo grupo. Com-
determinante relação com a cultura estabe- partilhando do pensamento de Finnegan, en-
lece para a música, dentro de cada contexto tendo que os mundos musicais são “distintos
social, um importante espaço com carac- não apenas por seus estilos diferentes, mas
terísticas simbólicas, usos e funções que a também por outras convenções sociais: as
particularizam, de acordo com as especifici- pessoas que tomam parte deles, seus valores,
dades do universo que a rodeia (MERRIAM, suas compreensões e práticas compartilha-
1964; BLACKING, 1973; NETTL, 1992; QUEI- das, modos de produção e distribuição, e a
ROZ, 2005). organização social de suas atividades musi-
cais” (FINNEGAN, 1989, p. 31). micos, estruturas melódicas etc.

A segunda vertente do trabalho com a di-


A DIVERSIDADE DE MÚSICAS DA
versidade está relacionada à inserção, na
ESCOLA E A DIVERSIDADE DE
prática escolar, de músicas de diferentes
MÚSICAS PARA A ESCOLA
contextos culturais, visando à ampliação e/

A diversidade musical se manifesta natural- ou transformação do universo musical dos

mente na escola, já que distintas expressões alunos, a partir da descoberta e da incorpo-

musicais adentram cotidianamente o uni- ração de estéticas e experiências musicais

verso escolar, vindas na bagagem cultural variadas. Trata-se de planejar e estruturar

dos alunos, a partir das experiências sociais uma diversidade de músicas para a escola.

que estabelecem em sua vida cotidiana. As- Nessa categoria podem ser incluídas mú-

sim, de forma individual ou coletiva, seja sicas locais, que não têm veiculação midi-

ouvindo rádio, assistindo televisão, nave- ática e que, muitas vezes, são desconheci-

gando pela internet, brincando com amigos das pelos estudantes; músicas singulares

etc. o fato é que a música está no nosso dia de outras cidades, estados, regiões, países

a dia e, de forma mais ou menos conscien- etc. O objetivo não é, simplesmente, levar
para a escola um amontoado de expressões 20
te, todos estabelecem algum tipo de relação
como essa expressão cultural. musicais desvinculadas de suas realidades
sociais, mas sim, possibilitar que os alunos

Para o professor, há pelo menos duas ver- reconheçam vários “sotaques”, para que,

tentes centrais para lidar com a diversidade assim, possam reconhecer melhor, inclusi-

musical: a primeira está relacionada ao uni- ve, o seu próprio “sotaque” e, a partir daí, a

verso musical trazido pelos alunos, o que ca- seu critério, (re)significá-lo, ampliá-lo e/ou

racteriza a diversidade de músicas da esco- transformá-lo.

la. Assim, músicas que os alunos ouvem em


Todavia, é preciso ter em mente que, em
casa, que compartilham em suas relações
ambas as vertentes, considerar a diversida-
sociais, que assimilam a partir da veiculação
de significa reconhecer as várias músicas
midiática, entre outras, devem ter lugar ga-
como legítimas, havia vista que não é possí-
rantido na prática docente. Essas músicas,
vel afirmar, segundo determinados critérios
além de terem significados culturais para os
estéticos, que uma música é melhor que
estudantes, possibilitam diversos trabalhos
outra. Em hipótese alguma, deve-se traba-
relacionados à linguagem musical, exploran-
lhar a diversidade para se chegar à homo-
do aspectos como: sonoridades e timbre dos
geneidade, como ainda sinalizam algumas
instrumentos, formas de cantar, padrões rít-
propostas na área de educação musical. As- Nacionais (BRASIL, 1997; 1998); pesquisar e
sim, seria como, por exemplo, trabalharmos descobrir diversificados aspectos musicais
maracatu, congadas, bumba-meu-boi, cava- de distintas culturas (instrumentos, ritmos,
lhadas, fandango, rock, samba, entre outras melodias, estéticas vocais etc.); conhecer e
práticas da cultura popular para, a partir daí, vivenciar a diversidade do patrimônio cul-
chegar à música de Mozart, Beethoven, Bach tural imaterial do mundo, caracterizado
etc., como se um tipo de música fosse me- pela música de diferentes etnias, entre ou-
lhor e/ou superior ao outro. O que precisa- tros (QUEIROZ; MARINHO, 2009).
mos e que essas diversas músicas dialoguem
na sala de aula e, dessa forma, convivam de- Todavia, um trabalho dessa natureza exige
mocraticamente, trabalhando as diferenças do professor habilidades para lidar com as
e os seus distintos valores e significados que diferenças e para estabelecer diálogos entre
permeiam cada ex- diferentes universos
pressão musical. musicais, pois todo
Em hipótese alguma,
trabalho, independen-
deve-se trabalhar a
te do tipo de música
PERSPECTIVAS diversidade para se chegar que contemple, deve
PRÁTICAS PARA à homogeneidade, como propiciar uma expe- 21
O ENSINO DE
ainda sinalizam algumas riência significativa e
MÚSICA DIANTE
propostas na área de reveladora de desco-
DA DIVERSIDADE bertas musicais. Ao
educação musical.
lidar com várias ma-
No que se refere es-
nifestações culturais,
pecificamente ao
não se pode cair, simploriamente, na repro-
trabalho de educação musical, lidar com
dução de músicas “exóticas”, desprovidas de
diferentes expressões culturais permite
valor simbólico para os alunos.
contemplar uma série de objetivos funda-
mentais para o ensino de música nas esco-
Assim, ao contemplar a diversidade musical
las, como: desenvolver práticas integradas
da sala de aula, e para a sala de aula, é possí-
com os temas transversais, contemplando
vel planejar, elaborar e realizar atividades de
a “pluralidade cultural” de múltiplos con-
interpretação, apreciação e criação musical
textos sociais; compreender diferentes ex-
trabalhando elementos como:
pressões culturais (do bairro, da cidade,
do estado, da região, do país e do mundo),
˜ Pesquisa de aspectos organológicos: vi-
conforme enfatizado na proposta para a
sando a descobertas de instrumentos mu-
área de música dos Parâmetros Curriculares
sicais de várias culturas musicais, suas fundamentalmente, é necessário reconhe-
sonoridades, formas de execução etc. cer as suas vivências, os seus anseios e as
suas (inter)relações com a música.
˜ Exploração e descoberta de elementos re-
lacionados à estética vocal: trabalhando Assim, é possível pensar num ensino da mú-
múltiplas formas de colocação da voz, sica democrático e inclusivo, que respeite a
timbres utilizados, efeitos vocais, alturas, diferença, não para utilizá-la como base para
técnicas de canto coletivo e individuais, a formação de iguais, mas principalmente
entre outros aspectos. para, por meio dela, construir saberes con-
textualizados com o universo particular de
˜ Desenvolvimento rítmico: conhecendo
cada indivíduo e de cada grupo social.
e explorando singularidades do ritmo de
manifestações musicais diversas. O reconhecimento à diversidade nos fez per-
ceber que não existe uma única música e/
˜ Compreensão e práticas de estruturas so-
ou sistema musical e que, portanto, não po-
noras em geral: alturas, melodia, harmô-
demos ter uma educação musical restritiva
nica etc.
e unilateral. Essa perspectiva nos conduz a
Essas são apenas algumas possibilidades, novos direcionamentos pedagógicos e nos
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entre as inúmeras possíveis, que o um tra- leva a caminhos abrangentes, reconhecen-
balho que lide com a variedade de músicas do a variedade de músicas e suas diversas
do mundo pode possibilitar no contexto es- possibilidades educacionais. Em face dos ru-
colar. O fato é que, se realizado com objeti- mos das músicas do mundo na atualidade,
vos e propostas consistentes, um trabalho nos vemos diante do desafio de estabelecer
inter-relacionado à diversidade musical po- direcionamentos coerentes para o ensino
derá ser rico de descobertas estéticas, téc- de música na escola. Ensino este que preci-
nicas, perceptivas e culturais no âmbito da sa ser abrangente e diversificado, contem-
música e, portanto, da sociedade. plando, principalmente, propostas e ações
educativas contextualizadas com contextos
Entendo que para concretizar ações educa- escolares das múltiplas realidades sociocul-
tivas abrangentes, que contemplem a músi- turais do país.
ca em suas distintas facetas, é preciso mais
que a inclusão de repertórios e de ativida-
REFERÊNCIAS
des relacionadas à diversidade musical. É
importante ter em mente que, em qualquer
BLACKING, John. How musical is man? Lon-
processo educativo-musical, é preciso ex-
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