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A POSSÍVEL ENTRADA DE LAMPIÃO NA CIDADE DE ITABAIANA:

MEDO OU RESPEITO AO SEU SEMELHANTE?

Flávio Passos Santana1 (UFS)

Introdução

O presente trabalho é um recorte das análises feitas por nós no PIBIC (Programa
Institucional de Bolsas de Iniciação Científica) compreendido entre os anos de 2012-
2013, intitulado Desvendando Itabaiana: análise das imagens discursivas da Cidade
dos Caminhoneiros e que compôs o plano de trabalho Itabaiana Cultural, coordenado
pela professora Dra. Márcia Mariano. Durante esse período, propomos analisar a trilogia
da reportagem Lampião arrudiano (sic) Itabaiana, publicada na revista OMNIA2, que
contava fatos e causos sobre a possível passagem do cangaceiro nas terras itabaianenses,
no intuito de tentarmos evidenciar quais os ethé que emergem da cidade de
Itabaiana/SE, fazendo com que seus moradores e pessoas de fora passassem a conhecer
melhor o local, os seus costumes, as suas crenças e suas tradições.

Com base nisso, nesse artigo, apresentaremos as análises da segunda parte da


trilogia, intitulada Lampião estava com o livro de Ranulfo Prata na sacola quando
morreu, que integrou a 14º edição da revista, publicada em junho de 2011. Nesse
registro, o autor fala sobre a ida de Lampião ao Cinema em Capela com a aparelhagem
de Itabaiana; além de contar que o motivo de Lampião não ter invadido a cidade Serrana
foi por causa de o cangaceiro ser amigo de Otoniel Dórea; ainda narra o episódio em
que uma mulher itabaianense desacatou o famoso Cangaceiro e este deu-lhe uma surra.

Com base nesses fatos e de acordo com os estudos da Argumentação e Retórica,


da Semiótica discursiva e da Análise do Discurso francesa, objetivamos verificar como
as figuras retóricas foram utilizadas para ajudar na persuasão do auditório e como as
estratégias argumentativas foram utilizadas para construir esse(s) ethos ou ethé dos
habitantes da cidade.

1
Mestrando em Estudos Linguísticos pela Universidade Federal de Sergipe. E-mail:
flavio_cdb@hotmail.com.
2
Revista produzida por um escritor itabaianense, veiculada na cidade e em regiões vizinhas, trazendo
em seu bojo questões relacionadas à história e cultura da cidade.
A Retórica e as estratégias argumentativas

Levando em consideração a proposta elencada por nós para a análise desse


trabalho, apresentamos, nesse momento, os estudos da Retórica aristotélica a fim de que
possamos dialogar com o público-leitor.

A Retórica alcançou seu auge até o século XIX, ela começou com os estudos da
argumentação e aos poucos foi se transformando na arte de bem falar, assim, tudo que
era persuasivo foi deixado de lado e restaram apenas os estudos das figuras. No entanto,
estas, sozinhas, não são capazes de persuadir o auditório. O fato de a Retórica estar
voltada para o uso de textos orais colaborou para essa desvalorização, porque, na época
de Aristóteles, era uma realidade totalmente diferente. Porém, vale destacar que Mosca
(2001) nos diz não podermos falar em morte da Retórica por causa da longevidade das
ideias aristotélicas.

Assim sendo, podemos diz que a Retórica fala da verossimilhança, ou seja, uma
aparência da verdade, uma representação da verdade que é feita a partir da construção
do texto por um sujeito que faz escolhas mesmo sendo determinado sócio-histórico-
culturalmente, ou seja, ele não é um sujeito assujeitado, pois ele tem objetivos e
finalidades, consegue influenciar o outro, embora seja influenciado pela ideologia
dominante. Desse modo, na Retórica, ele é o sujeito da ação.

Seguindo essa linha de raciocínio, a eficácia em um discurso persuasivo desse


sujeito ocorre a partir de escolhas de determinadas estratégias argumentativas em que o
objetivo é provocar certos efeitos de sentido que levem à adesão do outro. Isso relaciona
a Retórica aos estudos da Semiótica, especificamente, ao percurso gerativo de sentido,
do nível narrativo, quando se dá a manipulação, em que um sujeito tenta fazer com que
outro sujeito pratique uma mudança. Essa manipulação pode ocorrer de diferentes
formas, sendo que todas têm o objetivo da adesão do Outro, dessa forma, o destinatário
consegue levar esse Outro a entrar em conjunção ou disjunção com determinados
objetos de valor que representam algo também importante para o destinador, para o
sujeito manipulador.

Componentes do Sistema Retórico na análise da reportagem

No campo básico da Retórica, as partes componentes do sistema retórico


necessárias para construir um texto persuasivo indicam que é preciso escolher bem os
temas e argumentos; dispor isso no texto (oral ou escrito); adequar a linguagem ao
auditório, ou seja, escolher bem as figuras para provocar paixões no outro, utilizar
linguagem formal ou informal e, a partir dessas atividades, emitir o texto construído
com a intenção de captar a atenção do auditório e a persuasão. O argumento pode ser o
mesmo, mas vai depender do auditório o modo como o sujeito vai colocar tudo isso e a
melhor forma é buscar a adequação do auditório.

Assim, o orador escolhe os argumentos – inventio; faz a disposição no texto –


dispositio; adequa-se ao auditório – elocutio e, por fim, apresenta esse discurso de
forma eficaz - a actio. No texto escrito, que é o nosso caso nesse trabalho, a actio está
disposta na fonte utilizada, nas cores, etc.

O segundo campo básico da Retórica são os gêneros do discurso, são eles:


discurso judiciário, que tem o objetivo de destruir os argumentos favoráveis, a fim de
contestar o outro, ligados a textos que usam a acusação e a defesa em relação à coisa
passada; o discurso deliberativo, que trata de discursos ligados à coletividade, com o
intuito de obter decisões a serem tomadas em prol de um povo; e o discurso epidítico,
que são os discursos de cerimônias, eventos, relacionados ao elogio ou à censura,
estando também ligado à ética pública. Todos esses discursos buscam, a partir de
argumentos, persuadir o auditório da validade de sua tese e conseguir a aprovação. No
caso da nossa análise, o gênero utilizado é o judiciário, já que a reportagem trata de
argumentos que tentam convencer o leitor de que Lampião “arrudiou” Itabaiana, ou
seja, fatos relacionados à história e a cultura da cidade e do Brasil, tendo em vista que o
Cangaceiro é conhecido nacionalmente.

Ao trazermos à baila os argumentos, deve-se levar em consideração que existem


argumentos inesperados e esperados. Os esperados estão colocados de acordo com a
situação, o gênero do texto falado e com o jogo de palavras estabelecidos na interação
verbal, já os argumentos inesperados causam surpresas e, por esse motivo, são tidos
como Figuras de Argumentação e Retórica. Com base em Perelman (1996), Mosca
(2001, p. 37) diz que o estudioso “considera a figura segundo o fim a que se prestam na
argumentação e as classifica em figuras de presença, figuras de seleção e figuras de
comunhão”. Diz também que essa classificação não prescinde dos objetivos gerais da
argumentação.

As figuras de presença são aquelas figuras inesperadas que vêm para manter no
texto a presença daquilo que está sendo falado, ou seja, o uso de muita repetição,
paráfrases para que o outro se convença pela exaustão; as figuras de escolha dizem
respeito à seleção de estratégias, que podem ir desde o dialeto até escolhas discursivas,
inclusive a escolha de um tema pode ser uma figura de Argumentação e Retórica, caso o
tema seja inesperado; nas figuras de comunhão, espera-se que o outro vai entrar em
comunhão com o argumento do sujeito enunciador.

Segundo Perelman & Tyteca, as figuras de comunhão:

[...] são aquelas em que, mediante procedimentos literários, o orador


empenha-se em criar ou confirmar a comunhão com o auditório. Amiúde essa
comunhão é obtida mercê de referências a uma cultura, a uma tradição, a um
passado comuns. A alusão [...] certamente desempenha esse papel. Há alusão
quando a interpretação de um texto, se omitisse a referência voluntária do
autor a algo que ele evoca sem designar, estaria incompleta; esse algo pode
consistir num acontecimento do passado, num uso ou num fato cultural, cujo
conhecimento é próprio dos membros do grupo com os quais o orador busca
estabelecer essa comunhão. A esses fatos culturais atribui-se em geral uma
afetividade particular: enternecimento ante as lembranças, orgulho da
comunidade; a alusão aumenta o prestígio do orador que possui e sabe
utilizar tais riquezas (2005, p. 201).

Nesse sentido, podemos observar o uso da alusão no primeiro fato exposto na


reportagem, quando o orador fala sobre a ida de Lampião ao cinema em Capela com a
aparelhagem de Itabaiana, assim, o orador já cria uma aproximação com o leitor ao
explicitar que Lampião assistiu a um filme, cuja aparelhagem pertencia à cidade em
questão, e sendo que os prováveis leitores da revista são moradores desse município,
criando ao que Perelman & Tyteca alcunharam de “afetividade particular”.

De acordo com o texto, o filme que estava sendo exibido era O Anjo das Ruas,
cuja a narrativa diz respeito à história de uma mulher que foi presa por tentar roubar
dinheiro para poder comprar o remédio para a sua mãe doente. Diante dessa narrativa,
podemos fazer uma alusão à história de Lampião, pelo fato de que, segundo alguns
relatos, dizem que o cangaceiro roubava dos ricos para dá aos pobres. Outra alusão de
suma importância é em relação à história de Robin Hood, conhecida mundialmente.

Com base nesses apontamentos, sabemos que a Literatura inglesa traz em sua
bagagem esse famoso personagem, Robin Hood, um fora da Lei e excelente arqueiro,
que, para escapar da injustiça e da opressão, foge para a Floresta de Sherwood, após ter
matado um guarda florestal que o zombou e tentou acertá-lo com uma flecha. Com esse
acontecimento, o xerife e parente do guarda que Robin matara, entra numa busca
constante atrás do Fora da Lei, este recebe esse apelido pela morte do guarda e por ter
abatido um cervo do rei, daí duzentas libras foram oferecidas pela sua cabeça como
recompensa.

Na Floresta de Sherwood, Robin encontra outros homens como ele, que se


afastaram das pessoas por terem matados cervos do rei por estarem com fome, outros
por terem perdido suas terras para homens de poder, sendo que todos fugiram para
esquivar-se da injustiça e opressão, assim como Robin.

Com a união desses homens tendo o mesmo propósito, Robin reúne um bando
ao seu redor, todos o elegem como o seu líder e declaram que assim como foram
extorquidos por barões, cavaleiros e escudeiros; o grupo de Robin tomaria desses
malfeitores o que fosse arrancado dos pobres por impostos injustos, multas altas,
aluguéis. E ajudariam os pobres, quando necessitados, além de devolverem a eles o que
lhes fosse tomado. Não se pode esquecer que também juraram em não fazer mal às
crianças e mulheres que fosse donzela, esposa ou viúva.

Dessa forma, Robin seguia sempre suas aventuras tirando dos ricos e dando aos
pobres. Nesse sentido, podemos fazer uma comparação com a história de Lampião, pois
sabemos que o motivo da criação do cangaço se deu por causa das más condições de
vida que havia no sertão nordestino. Além do mais, em alguns relatos da história,
Lampião é visto como um defensor dos pobres e não maltratava crianças e mulheres,
assim como o famoso Fora da Lei.

Além disso, ao fazer essa alusão o orador cria uma afetividade, comove o
auditório e desperta o orgulho de ter na história de sua cidade a passagem por esse
personagem tão importante para a cultura e história nacional. Não devemos esquecer
também que, segundo Perelman e Tyteca (2005), a utilização da alusão vai aumentar o
prestígio do orador por saber utilizar desses fatos. Assim sendo, o orador pode ter
destacado a história da película que estava sendo reproduzida no cinema, quando o
cangaceiro chega à Capela, no intuito de criar uma comunhão com o auditório
imaginando que talvez seu público conheça as histórias e possam fazer essa relação.

Ainda sobre as figuras de comunhão, destacamos as citações que, segundo


Perelman e Tyteca (2005), só serão figuras de comunhão quando não forem utilizadas
pela sua função normal e que os provérbios e máximas também entram nesse grupo de
figuras. No texto em análise, há a presença de diversas citações e o uso delas remete a
uma aproximação com seu leitor. Porém, as figuras de comunhão, no texto, não virão
necessariamente pelas citações, mas também pela aproximação ao utilizar na citação o
nome completo do autor, sua profissão, sua naturalidade e isso faz com que o autor
citado passe a ser conhecido pelo seu auditório.

1. Segundo relata Joãozinho Retratista no jornal O Serrano, no 187 de 10


de dezembro de 1972 na matéria História do Teatro e do Cinema de
Itabaiana.”
2. O lagartense Ranulfo Prata em 1934 já havia narrado este fato”.
3. [...] no livro do jornalista Fernando Portela e do advogado carioca
Cláudio Bojunga no aclamado livro Lampião, O Cangaceiro e o Outro
de 1982.”
4. [...] renomado pesquisador/escritor, Frederico Pernambucano de Mello.”
5. Segundo Luís Antônio Barreto em “Lampião em Sergipe II”, publicado
em 09 de julho de 2004 nas páginas do portal na internet, Infonet.”

Seguindo essa linha, podemos dizer ainda que o orador faz uso de argumentos de
autoridade, pois, conforme Perelman & Tyteca (2005), estes nos dizem que há
argumentos influenciados pelo prestígio e alguns são totalmente condicionados pelo
prestígio, sendo o argumento de autoridade o mais caracterizado pelo prestígio, pois é
utilizado como meio de prova a favor de uma ideia de atos ou juízos de uma pessoa ou
grupo de pessoas. Nos casos apresentados, isso é comprovado quando o orador dá
ênfase nas profissões e naturalidade dos escritores citados. Ou seja, o caráter e o
prestígio desses autores têm grande valor para a precisão dos intuitos do orador, que
seria persuadir o leitor ao mostrar os autores que o enunciador acredita serem dignos de
fé.

O motivo da não entrada de Lampião em Itabaiana

No segundo fato que é apresentado nessa reportagem, será exposta a amizade de


Lampião e Otoniel Dórea, que, segundo o orador, foi o motivo da não entrada de
Virgolino em Itabaiana. Vejamos o trecho, conforme a revista

Segundo Ranulfo Prata em “Lampião”, nas páginas 84 e 89 de 1934 diz: “Do


saco do Ribeiro-SE, lugarejo da fronteira (com Itabaiana), telefonou ao
delegado de polícia e chefe de Itabaiana/SE, Otoniel Dórea, chamando-o de
‘colega’. – Colega por quê? Indaga intrigada, a autoridade. Explica Lampião:
-‘Pruque você é cego de um oio cumo eu!’”, finalizou esse bate papo
produtivo de mangações entre os dois cangaceiros (agora fui eu quem zoei
kkkkkk).
Assim sendo, embora o orador diga que havia um coleguismo entre ambos, a
citação vai mostrar que o itabainense fica intrigado quando é chamado de colega, desse
modo, podemos dizer que no ethos dito temos o itabaianense amigo de Lampião, porém,
no ethos mostrado há uma igualdade, equivalência entre os dois personagens.

Ainda, o orador chama o itabaianense de cangaceiro caracterizando uma cidade


que possui gente como Lampião, e isso nos remete ao trabalho anterior (Parte 1), em
que corroboramos com a tese de que Virgolino não invadiu a cidade por saber que havia
pessoas tão temidas e perigosas quanto ele. Nesse sentido, cria-se um ethos ou ehté de
uma cidade perigosa, de gente valente que nem mesmo Lampião com sua valentia foi
capaz de invadir.

Essa visão de cidadãos perigosos e valentes também é observada no último caso


da reportagem, em que narra um episódio que aconteceu a poucos quilômetros de
Itabaiana, em que Virgolino deu uma surra em uma mulher por ter desacatá-lo com
impropérios. Aqui, pode-se constatar que não eram apenas os homens da cidade que
eram valentes, mas também as mulheres. Com isso, cria-se o estereótipo do homem e da
mulher nordestinos: o cabra macho e a mulher macho. E, sendo itabaianenses, a
macheza entre ambos os sexos seria maior que a do temido Lampião.

Convencer ≠ persuadir e a construção do ethos

De acordo com Ferreira (2010), todos nós somos seres retóricos pelo motivo de
possuirmos crenças, valores e opiniões e utilizarmos a palavra como o objeto para
mostrar nossos pensamentos sobre o mundo. E, a partir da palavra, tentamos levar o
outro a aceitar ou não no nosso objetivo. Caberá ao outro/auditório aceitar ou não o que
o orador expõe. Para conseguir a adesão do auditório é necessário argumentar, nesse
sentido, é necessário mostrar ao leitor o que e como pensamos em relação a
determinado assunto.

Ferreira (2010) nos diz que a primeira função da retórica é a de persuadir, para
isso, é necessário que o orador utilize de meios racionais e afetivos, já que, segundo ele,
“razão e sentimento se amalgamam num complexo inseparável”. Como sabemos,
persuadir e convencer são palavras com conceitos parecidos, portanto, deve-se explicitar
a distinção entre elas. A persuasão é movida pela emoção, por apelo às paixões do outro
e o convencimento é movido pela razão, utilização de provas lógicas, racionalidade.
Vale lembrar que a persuasão funde-se em três ordens de finalidade, a saber:
Docere – lado argumentativo do discurso; Movere – lado emotivo do discurso;
Delectare – lado estimulante do discurso. E, segundo Aristóteles (2011, p. 46), “a
persuasão é obtida através do próprio discurso quando demonstramos a verdade, ou o
que parece ser verdade”.

Ainda de acordo com a persuasão, se tem a presença de: um orador, um


auditório e um discurso, que seria o ethos, o logos e o pathos, respectivamente, e,
juntos, compõem o triângulo retórico.

Ethos

Pathos Logos

O logos, segundo Ferreira (2010), a partir dos estudos filosóficos de Heráclito de


Éfeso passou a ter o conceito de razão. O estudioso nos diz que todo discurso é
construído em torno de um tema que é problematizado e vai gerar questões, nesse
sentido, o logos se encarrega do discurso persuasivo, já que é a partir dele que
evidenciamos o que parece ser verdade levando em consideração o que se conhece do
assunto.

O pathos, por sua vez, é um argumento de natureza psicológica que se vincula à


afetividade, que vai remeter ao auditório, ao conjunto de emoções, às paixões e
sentimentos que o orador é capaz de despertar no ouvinte.

Por fim, o ethos, que está ligado à imagem que o orador constrói de si em seu
discurso, a sua postura; é o lugar da identidade assumida pelo orador. De acordo com
Ferreira (2010), modernamente, o termo sofreu ampliação no seu significado e é
considerado como a imagem que o orador constrói de si e dos outros no seu discurso.
Seguindo essa linha, podemos dizer que, ao enunciar seu discurso na Revista OMNIA, o
orador não só está construindo a sua imagem, mas também a imagem do povo
itabaianense, já que a revista diz respeito à cultura e história da cidade e de seus
habitantes.
Ferreira nos diz que o primeiro ponto a ser observado na construção do ethos do
orador é verificar a construção da imagem pública, ou seja, é importante observar se o
discurso desse orador cria condições para que o auditório o julgue como digno de fé.
Outra característica fundamental é demonstrar confiança e para isso deve demonstrar
conhecimento da causa, demonstrar honestidade e segurança. Aristóteles nos diz que

A confiança suscitada pela disposição do orador provém de três causas, as


quais nos induzem a crer em uma coisa independentemente de qualquer
demonstração: a prudência, a virtude e a benevolência [...]. Conclui-se que
todo aquele que é considerado detentor de todas essas qualidades [que atuam
como causa] suscitará confiança em sua audiência (ARISTÓTELES, 2011, p.
122)

Portanto, demonstrar sabedoria para o auditório é essencial, bem como


demonstrar experiência sobre o tema, opiniões fundamentadas e sabedoria são chaves
retóricas que alicerçam positivamente o ethos. Nesse sentido, o orador do texto
analisado possui características de ethos positivo, já que percebemos que ele conhece
bem o tema e apresenta várias citações de livros que já leu.

Em relação às estratégias de polidez (eunoia) elas podem ser vistas a partir da


demonstração de desejo do orador de satisfazer as aspirações do auditório, mostrando
desejos comuns entre ambos. Como representação de fatores negativos da eunoia
podemos dizer que elas estão representadas por expressões que significam evasão de
comprometimento, termos que atribuem responsabilidade auditória sem justificativas
aceitáveis. No texto, são visíveis as estratégias de polidez, pois o orador defende os
assuntos históricos da cidade, ele quer mostrar uma imagem de cidade que possui
homens corajosos e valentes e ele crê que os seus habitantes (leitores da revisa OMNIA)
desejam isso também. Aliás, quer destacar a importância que a cidade teve na história
de Lampião, inclusive arrudiou o município antes de ir para Poço Redondo, lugar em
que foi assassinado.

Na reportagem podemos encontrar também o uso da polidez indireta que,


Segundo Ferreira é

[...] um ato comunicativo em que o orador deixa uma saída para si pela
enumeração de interpretações defensáveis. Com essa estratégia, preserva a
face e evita responsabilidades ao deixar uma interpretação por conta do
auditório. Pode-se verificar, então, se o orador fornece pistas e sugestões
indiretas, se explora as pressuposições, se, conscientemente, minimiza a
expressão para não dizer tudo o que seria necessário [...] A impessoalização é
a estratégia mais usada [...] (FERREIRA, 2010, p. 143).
Isso é observável quando nos mostra o último caso e fala que o contador do fato
ao ser indagado responde: “Rapaz, o povo conta, né? ”. Nesse sentido, a polidez indireta
está presente já que o enunciador faz uso da impessoalização e preserva sua face,
deixando uma interpretação por conta dos leitores da revista OMNIA ao dizer que é o
povo que conta e ele só apenas está transmitindo o que já ouviu.

Dessa forma, o orador utilizou esse caso intencionalmente ou não, usou fatos
históricos da cidade de Itabaiana para construir uma imagem de cidade de homens
corajosos e destemidos, e que, por esses motivos e sua amizade com Otoniel Dórea, o
famoso e valente Lampião não teve coragem e audácia para invadir a cidade Serrana por
saber que no município havia homens como seu amigo, chefe de Itabaiana.

Outro fato que vai reforçar a ideia de cidade valente será no uso das falácias que,
segundo Ferreira é

[...] quando parece que as razões apresentadas sustentam a conclusão, mas na


realidade não sustentam. As falácias normalmente, são erros de raciocínio,
mas podem ser utilizadas, por oradores, como mecanismos persuasivos
(FERREIRA, 2010, p.120).

Ou seja, ao dizer no título “Lampião arrudiano Itabaiana” ele quer passar para o
auditório que o cangaceiro não invadiu a cidade. No entanto, no fato contado sobre um
filme “Ói, os Firimento foram muitos (...) O derradeiro (ferimento) foi coisa leve no
quadrí, lá em Pinhão, ‘Tabaiana’. ” vai evidenciar um erro de raciocínio, pois, se
Pinhão faz parte de Itabaiana, então Virgolino entrou na cidade, mesmo sendo um
povoado seu. Dessa forma, mostra que, quando o cangaceiro entrou na cidade, foi
ferido, evidenciando a valentia e destemor do povo itabaianense.

Considerações Finais

Partindo do pressuposto de que somos sujeitos sociais, podemos afirmar que, ao


enunciar, construímos, além do ethos individual, um ethos coletivo (ethe), que nos
identifica como participantes de um grupo, refletindo seus valores, sua ideologia e sua
cultura (Mariano, 2012). Nesse sentido, o autor da reportagem que analisamos
representa os ethe dos itabaianenses e da própria cidade, ethe caracterizados pela
valentia, aqui “comprovados” culturalmente, já que a revista e o autor se preocupam em
divulgar a cultura e história da cidade.

Assim, podemos dizer que a análise dessa reportagem se assemelha ao resultado


da parte 1, ou seja, de acordo com os ethé evidenciados, mostrados no modo de dizer,
que o povo itabaianense tem orgulho de ter tido na sua história homens valentes e
corajosos e de ser considerada uma cidade que causa temor nas pessoas e nos bandidos
de fora, como foi no caso de Lampião.

Referências Bibliográficas

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