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Manfred Luciano Uaitara

Moçambique independente (1975-1992)

Licenciatura em Gestão Ambiental e desenvolvimento comunitário

Universidade Púnguè

Extensão de Tete

2020
Manfred Luciano Uaitara

Moçambique independente (1975-1992)

Trabalho da disciplina de Historia de


Moçambique a ser apresentado no curso de
Gestão Ambiental e desenvolvimento
comunitário, a ser entregue ao departamento de
ciências da terra e ambiente, como requisito de
avaliação Parcial.

Docente: Victor Braga Sortante

Universidade Púnguè

Extensão de Tete

2020
Índice
1. Introdução............................................................................................................................4

2. Estratégias de desenvolvimento do país nos campos político, económico e social entre


(1975-1992).................................................................................................................................5

2.1. Aspectos coloniais do País antes do alcance da sua independência.............................5

3. Transição e consolidação da independência nacional (1974-1977)....................................7

3.1. Aspectos Económicos de Moçambique após o alcance da sua independência............7

3.2. A abertura da economia e para uma transição política (1984-1992)............................9

3.3. Aspectos Sociais de Moçambique após o alcance da sua independência..................10

3.4. A construção do socialismo (1977-1983/4)...............................................................11

3.5. Aspectos Políticos de Moçambique após o alcance da sua independência................12

3.6. Reconstruindo uma nova sociedade (1992-1999)......................................................14

4. Impacto na sociedade moçambicana: as ciências sociais..................................................14

5. Conclusão..........................................................................................................................18

6. Referencias Bibliográficas.................................................................................................19
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1. Introdução

Neste presente trabalho de pesquisa que surge no âmbito da disciplina de Historia de


Moçambique, visa contextualizar o cenário de Moçambique apos a sua independência no que
concerne no aspecto politico; social e económico. É importante ter em consideração que,
Moçambique tornou-se independente em 1975, depois de uma luta armada de libertação
nacional. A FRELIMO - Frente de Libertação de Moçambique, que havia conduzido a luta
durante 10 anos, formou o primeiro governo, com um programa de trabalho orientado para a
construção de uma sociedade socialista.

Em 1976 surgiram os primeiros indícios de desestabilização em Moçambique, cujo


desenvolvimento atinge a forma de uma guerra civil alargada a todo o país, sobretudo na
década de 80, opondo o governo e a RENAMO - Resistência Nacional de Moçambique. A
desestabilização provocada por estes conflitos internos é agravada por agressões militares que
a Rodésia faz a Moçambique, mais tarde transferidas para o regime de apartheid da África do
Sul. Apenas em 1992, com a assinatura do ‘Acordo Geral de Paz’ entre a FRELIMO e a
RENAMO, cessam as hostilidades e inicia-se um processo de paz e reconciliação.

A década de 80 marca a transição de uma economia centralmente planificada para uma


economia aberta, de mercado. Nos anos 90, concretiza-se a transição política anteriormente
iniciada, onde se destaca a introdução de uma constituição pluralista e a emergência de um
processo de descentralização política e administrativa.

Com este perfil, pretendemos apresentar um resumo informativo sobre a evolução dos
acontecimentos políticos, económicos e sociais em Moçambique, no período pós-
independência, e os desenvolvimentos no campo científico, particularmente nas Ciências
Sociais, que acompanharam estes processos.
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2. Estratégias de desenvolvimento do país nos campos político, económico e social entre


(1975-1992)

Dado que este conjunto de informações, cuja análise resulta do trabalho sobre fontes
secundárias e não sobre dados empíricos provenientes do trabalho de pesquisa, pretende-se
contextualizar alguns pontos que consideramos importantes para fazer face o
desenvolvimento da pesquisa em Moçambique.

Muito embora o nosso enfoque se concentra num passado mais recente, começaremos a
nossa apresentação por introduzir o período colonial, uma forma de introduzir os problemas
de transição do colonialismo para a independência do país.

2.1. Aspectos coloniais do País antes do alcance da sua independência

Entre a chegada do primeiro navegador português a Moçambique (1498) e o controlo


efectivo do território e a instalação da administração colonial, decorreu um processo difícil de
dominação das diversas organizações políticas africanas que detinham o poder no território. A
ocupação efectiva ocorreu em finais do século passado, com a dominação do Estado de Gaza
no sul do país, embora apenas na década de 20, a administração colonial tenha passado a
assumir um real controlo do território.

O desenvolvimento do colonialismo Português em Moçambique, pode ser dividido em três


(3) períodos abaixo em destaque:

a) (1885-1926): com uma economia dominada por grandes plantações exploradas por
companhias majestáticas não portuguesas onde se praticava a monocultura de produtos
de exportação (sisal, açúcar e copra), no centro e norte do país, com base em mão-de-
obra barata. As companhias, por sua vez, também controlavam o mercado da venda de
força de trabalho para países como a Rodésia, Malawi (Niassalândia), Tanganhica,
Congo Belga e em alguns casos a África do Sul (WUYTS, 1980:12-13). No sul,
predominava a exportação de mão-de-obra para alimentar o capital mineiro da África
do Sul. Os acordos assinados entre Portugal e a África do Sul para a exportação da
mão-de-obra, traziam rendimentos específicos ao Estado colonial, quer através de
impostos, quer da utilização dos caminhos-de-ferro que ligavam o porto de Lourenço
Marques à África do Sul, quer ainda através da utilização do próprio porto, para o
trânsito de mercadorias;
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b) (1926-1960): sob influência da construção do nacionalismo económico, este período é


marcado por uma intensificação do trabalho forçado e integração crescente da
economia de Moçambique numa economia regional dominada pela África do Sul. O
princípio do trabalho forçado e da introdução de culturas forçadas marcam este
período, como uma forma de proteger a burguesia portuguesa, incapaz de concorrer
com o capital mineiro e com as plantações, no acesso à mão de obra.

c) (1960-1973): As mudanças políticas mundiais e a crise do regime de Salazar durante


este período levaram a diversas reformas políticas e económicas, que conduziram,
entre outras medidas, à abolição do trabalho e das culturas forçadas e ao traçar de
novas estratégias de desenvolvimento para as colónias. Algumas das consequências
das reformas políticas levaram à modernização do capital, com a abertura da economia
ao investimento estrangeiro. É neste período e neste contexto de modernização do
capital que se fazem investimentos na indústria manufactureira.

A economia colonial sobreviveu durante muitos anos na base de uma dependência de dois
sistemas, o trabalho migratório e o trabalho e agricultura coercivos, mesmo depois da abolição
formal das culturas e do trabalho forçado. O colonialismo português introduziu mecanismos
impeditivos do crescimento de uma burguesia negra, agrícola ou comercial.

Assim, embora houvesse uma diferenciação de classe e até mesmo alguns ‘koulaks’ e
pequenos comerciantes, o sistema de produção agrícola e industrial manteve-se nas mãos da
burguesia portuguesa (FIRST, R., MANGHEZI, A., et al ,1983; CEA,1998; WUYTS, M. &
O’LAUGHLIN, B.,1981).

Um olhar sobre a rede de estradas e caminhos-de-ferro de Moçambique, no período


colonial, facilmente nos ajudará a avaliar a orientação destes para uma economia de serviços,
que ligava os países do ‘hinterland’ ao exterior, através dos portos moçambicanos.

Cerca de metade das divisas de Moçambique eram geradas pelos serviços de transportes e
portos para os países vizinhos. A reacção à dominação colonial havia sido marcada por vários
tipos de contestação, através da literatura, arte e greves de trabalhadores, movimentos esses
que assumiram aspectos mais radicais com o desenvolvimento dos movimentos nacionalistas
em finais da década de 50 e inícios da década de 60. Nos anos 60, a FRELIMO, Frente de
Libertação de Moçambique, fundada no exílio, inicia a luta armada de libertação nacional
(1964), que só veio a culminar 10 anos depois.
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No processo de luta, a FRELIMO criou as ‘zonas libertadas’, áreas no interior do


território moçambicano fora do controle da administração portuguesa, funcionando como um
‘Estado dentro de um Estado’, com um sistema próprio de administração. À medida que a
guerra avançava, as ‘zonas libertadas’ foram nascendo sucessivamente nas províncias de
Cabo Delgado, Niassa e Tete. A sua forma de organização é uma ilustração dos esforços
tentativos feitos pela Frente de Libertação de Moçambique para criar uma alternativa à
sociedade colonial, com uma economia sem ‘exploração do homem pelo homem’, com
formas colectivas de produção e de comercialização e a implantação de bases democráticas
(ADAM, 1997: 4). Como diz Yussuf Adam, o modelo idealizado pela FRELIMO, acabou por
ser mais uma utopia do que uma realidade, tendo porém, pelo menos até certo ponto, servido
de inspiração para traçar o modelo socialista de desenvolvimento implantado em Moçambique
depois da independência, onde se pretendia negar quer os modelos de desenvolvimento
coloniais, quer os neo-coloniais.

3. Transição e consolidação da independência nacional (1974-1977)


3.1. Aspectos Económicos de Moçambique após o alcance da sua independência

Com o cessar-fogo e a assinatura dos ‘Acordos de Lusaka’ em Setembro de 1974, sucede-


se a criação de um governo de transição, composto por representantes da FRELIMO e do
governo português, cuja duração se estende até à independência nacional de Moçambique, a
25 de Junho de 1975.

O hiato provocado pela saída massiva dos portugueses que haviam preenchido a maior
parte dos lugares do quadro da administração e do aparelho económico, depois da
proclamação da independência nacional, teve que ser preenchido e assumido pela FRELIMO.
As mudanças operadas em Moçambique pelo sistema de administração portuguesa em finais
do período colonial, não foram suficientemente abrangentes de molde a criarem uma élite
negra educada. Na altura da independência, Moçambique tinha uma população com uma
percentagem de 90% de analfabetos, um número reduzido de técnicos e pessoas com
formação superior. No geral, havia poucas pessoas preparadas para preencherem os lugares
abruptamente deixados pelos portugueses. É importante registar que o êxodo de portugueses e
de alguns indianos neste período entre a transição e o pós-independência, foi acompanhado
por uma ‘sabotagem’ da economia de Moçambique, que pode ser caracterizada pelo
esvaziamento das contas bancárias, fraudes na importação de mercadorias e exportações
ilegais de bens (carros, tractores, maquinaria,etc).
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Na mesma altura, empresas e bancos portugueses procederam ao repatriamento do activo e


dos saldos existentes, criando assim um rombo na economia de Moçambique Logo após os
primeiros anos de independência, a África do Sul iniciou um processo de repatriamento de
trabalhadores moçambicanos com contratos nas minas, e o fluxo de recrutamento de
trabalhadores sofreu uma redução nos anos seguintes (de 120 000 para 40 000 num só ano)
(HERMELE, 1998).

Este processo foi acompanhado por um redireccionamento da utilização dos serviços dos
portos e caminhos-de-ferro de Lourenço Marques, pela África do Sul (recorde-se que por
altura da independência nacional, mais de 90% dos serviços prestados pelos portos e
caminhos de ferro de Moçambique eram direccionados para os países vizinhos). Em
1976,Moçambique adere às sanções das Nações Unidas contra a Rodésia (Zimbabwe) e
encerra as suas fronteiras com este país.

Recorda-se que a Rodésia era uma importante fonte de captação de divisas para
Moçambique, não só através da utilização do porto e dos caminhos-de-ferro da Beira, para o
transporte de mercadorias de trânsito, mas também através do consumo de derivados do
petróleo provenientes da refinaria em Maputo, para suprir os problemas de uma economia
embargada. O encerramento das fonteiras com a Rodésia, para além das consequências
económicas mencionadas, trouxe também um processo de desestabilização a Moçambique
(HANLON, 1997), como será referido mais à frente. Com uma economia largamente
dependente dos serviços prestados aos países vizinhos, e na sequência do novo tipo de
relações agora existentes com a Rodésia e a África do Sul, Moçambique viu assim
drasticamente diminuída a entrada de divisas para o país.

As calamidades naturais que afectaram o país entre 1977 e 1978, os efeitos da depressão
sobre a economia moçambicana, de base agrícola, agravados pelos aspectos acima
mencionados, levaram o país a um declínio económico em espiral.

O novo governo independente, deveria não só organizar o funcionamento da administração


mas também garantir a produção e os mecanismos necessários para manter uma economia
operacional. Utilizando a sua experiência das zonas libertadas e guiada por um programa de
transformação socialista, a FRELIMO traçou as suas estratégias para mudar a estrutura
económica e social do país. As mudanças radicais preconizadas pelo novo governo passavam
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necessariamente pelo exercício de um controlo estatal nas zonas rurais e por uma política de
intervenção nos sectores económicos e sociais.

As estratégias introduzidas pela FRELIMO depois da independência para manter a


produção e a economia em andamento, não conseguiram superar de imediato a crise
económica que afectava o país: ‘Entre 1974 e 1976, a produção de colheitas para exportação
diminuiu em 40%, o milho cultivado pelos camponeses em 20%, a mandioca em 61% e a
produção agrícola dos colonos (produtos hortícolas e alimentares para abastecimento das
cidades) em 50%. No mesmo período, a produção industrial baixou em 36%’ (NEWITT,
1997: 473; WUYTS, 1985: 186).

3.2. A abertura da economia e para uma transição política (1984-1992)

As pressões políticas no campo interno e externo e a necessidade de receber ajuda


alimentar para superar a crise económica e as consequências da guerra e das calamidades
naturais levaram a FRELIMO a redefinir a sua política externa:

a) Em 1982 o governo ‘começou a cortejar os Estados Unidos e a fazer a sua "viragem


para o Ocidente" (HANLON, 1997: 15);
b) Em 1984, assinou o ‘Acordo de Nkomati’ com a África do Sul, uma tentativa de cortar
os apoios da África do Sul à RENAMO. Com este acordo, criaram-se também alguns
espaços para negociações sobre a mão-de-obra moçambicana, e sobre o fornecimento
da energia eléctrica de Cabora-Bassa para a África do Sul.

Depois de uma fase de economia centralmente planificada, em 1985 dão-se os primeiros


passos para a sua liberalização, o que leva a uma transição. Visando reverter as tendências
negativas do crescimento económico através de um reajustamento estrutural, em 1987 é
introduzido o Programa de Reabilitação Económica (PRE) e em 1990 o Programa de
Reabilitação Económica e Social (PRES). O programa de ajustamento estrutural, é um pacote
que envolve o livre comércio, a desregulamentação e a privatização. O governo liberalizou os
preços, praticamente terminou a sua gestão do mercado, cortou o seu orçamento nos sectores
sociais, e introduziu mudanças nas políticas da saúde e da educação, onde foi estabelecido um
sistema que atribui acesso com base no rendimento.
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As reformas económicas introduzidas em Moçambique, nas duas últimas décadas


levaram a uma revitalização da economia, o que não pode ser mecanicamente traduzido por
uma redução da pobreza. ‘A pobreza, entendida como ausência das condições para uma vida
longa, instrução e um padrão de vida aceitável, afecta a maioria esmagadora da população de
Moçambique’ (PNUD, 1996: 81). Organizações como o Banco Mundial e o Fundo Monetário
Internacional classificaram este país na posição dos mais pobres do mundo.

3.3. Aspectos Sociais de Moçambique após o alcance da sua independência

Duas das grandes áreas de investimento na área social, foram a saúde e a educação. Na
educação, tentando contrariar as políticas coloniais, criam-se condições para a entrada
massiva de crianças nas escolas primárias, e priorizaram-se estratégias para diminuir
rapidamente os índices de analfabetismo e promover a educação de adultos. Na área da saúde,
criaram-se programas de saúde rural, tentando assim estender a rede sanitária a todo o país e
privilegiando a medicina preventiva. Uma leitura pelos dados estatísticos sobre as áreas
sociais, mostra-nos que em 7 anos o número de ingressos nas escolas primárias duplicou e que
no mesmo período, quadruplicou o número de postos sanitários. No seu processo de
intervenção, com vista à massificação dos serviços sociais, o Estado procede à nacionalização
da saúde, da educação, da habitação e dos serviços de advocacia privada (1975), e mais tarde
a outras intervenções no campo económico.

A estratégia económica preconizada pela FRELIMO assentava na transformação social


baseada na modernização do campo através da criação de aldeias comunais com facilidade de
acesso a infraestruturas sociais como a saúde e educação, aumento da produtividade através
de um programa de introdução de uma agricultura mecanizada nas machambas estatais, uma
tentativa para inverter o processo de exploração colonial dos camponeses, e onde o Estado
passava a fazer a acumulação. Caberia também às machambas estatais o fornecimento de
alimentos às zonas urbanas, antes abastecidas pelos farmeiros portugueses. Esta estratégia foi
aprovada pelo 3º Congresso da FRELIMO, realizado em Maputo, em Fevereiro de 1977, e era
conhecida como a ‘estratégia de socialização do campo’. Neste Congresso, a FRELIMO
também declarou a sua passagem de Frente para um ‘Partido de Vanguarda Marxista-
Leninista’, com a missão de liderar, organizar, orientar e educar as massas, visando destruir as
bases do capitalismo e construir uma sociedade socialista.

Os mesmos factores contribuíram ainda para a criação de dívidas de importação. Assim,


os trabalhadores desempregados do sector agrícola e das minas sul-africanas iniciaram um
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processo de migração para as cidades. Numa tentativa de controlo da crise, o governo criou a
Comissão Nacional de Abastecimentos. Nesse processo, foi introduzido um sistema de
controlo de preços e um cartão de racionamento, o ‘cartão de abastecimento’, por cada
agregado familiar. ‘A estratégia de desenvolvimento permitiu um total monopólio pelo poder
do estado, e a sua hegemonia sobre todas as forças económicas e políticas’ (ADAM, 1997: 5
6).

3.4. A construção do socialismo (1977-1983/4)

Com a criação do Partido Marxista-Leninista, em 1977, criaram-se também os


‘movimentos democráticos de massas’ para enquadrar os trabalhadores, as mulheres, a
juventude, organizações criadas ‘de cima para baixo’ sob a tutela e orientação do Partido.
Durante este período, Moçambique estabelece relações com os países do Leste europeu, de
quem recebe inicialmente uma ajuda no campo militar. Recorde-se que os primeiros indícios
de conflitos armados haviam surgido em 1976.

A adesão de Moçambique ao processo de sanções contra a Rodésia e o encerramento das


fronteiras entre os dois países, abriu o caminho para uma história de hostilidades que havia de
durar até aos anos 90. O apoio dado por Moçambique aos guerrilheiros e refugiados
zimbabwianos, agravou ainda mais as relações entre os dois países. As incursões militares
perpetradas pelo regime de Ian Smith ao interior de Moçambique, foram agravados pelo apoio
dado à criação e desenvolvimento de um movimento de oposição à FRELIMO, a RENAMO.
Com a independência do Zimbabwe, em 1980, a base de apoio deste movimento foi
transferida para a África do Sul, que por sua vez também realizou incursões militares ao
interior de Moçambique e criou um clima permanente de instabilidade. A África do Sul tinha
como objectivos retaliar a FRELIMO pelo apoio dado ao ANC (Congresso Nacional
Africano), através da destruição das infraestruturas e da sua economia, por forma a obrigar a
FRELIMO a sentar-se a uma mesa de negociações. Com o apoio militar sul-africano, a
RENAMO aumentou o seu exército, de menos de 1000 efectivos em 1980, para 8000
efectivos em 1982 (Human Rights Watch, 1994: 8). Com zonas de combate em Manica e
Sofala, rapidamente as suas operações militares se expandiram por todo o país. Em 1982, a
guerra tinha-se alastrado às províncias do sul, Gaza e Inhambane, e à Zambézia.

Como diz Hanlon (1997), desde os anos 60, quando a FRELIMO iniciou a guerra, pairava
sobre ela a nuvem da guerra fria, com os Estados Unidos e a NATO ao lado de Portugal, o
que levou este movimento a aliar-se à União Soviética e à China. Nos anos 70, o
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abrandamento da guerra fria trouxe novas esperanças à África Austral, e o debate sobre a
Nova Ordem Internacional havia mesmo criado ao ‘terceiro mundo’ a esperança de acesso ao
‘financiamento internacional para os seus programas de modernização’.

3.5. Aspectos Políticos de Moçambique após o alcance da sua independência

Em Moçambique, o novo governo tentava introduzir uma política de desenvolvimento


socialista. Depois da independência do Zimbabwe em 1980, os regimes de maioria formaram
a SADCC (hoje SADC), Conferência para a Coordenação do Desenvolvimento da África
Austral. Logo a seguir, com Reagan nos Estados Unidos e Tacher na Grã-Bretanha, há um
‘volt-face’, e a guerra fria explode de novo, com consequências no Afeganistão, Camboja, El
Salvador, Angola e Moçambique (NEWITT, 1997).

O governo de Moçambique foi rotulado como comunista, e entrou na ‘lista negra’ dos
Estados Unidos da América, que em consequência disso apoiou indirectamente e encorajou a
guerra de desestabilização contra Moçambique, através da África do Sul. A guerra que durou
até aos anos 90 teve prejuízos inestimáveis (HANLON, 1997: 14.): a guerra atingiu
principalmente as zonas rurais, onde foram destruídas escolas e hospitais, raptados alunos e
professores, destruídas infraestruturas económicas, como pontes, estradas, cantinas e
tractores; das 5886 escolas do ensino primário do primeiro grau, 3498 (60%) foram
encerradas ou destruídas; na Zambézia, só 12% continuaram a funcionar até ao fim da guerra;
do número de postos de saúde de nível primário, que entre 1975 e 1985, havia passado de 326
para 1195, cerca de 500 foram encerrados ou destruídos pela RENAMO; mais de 3000
cantinas rurais foram encerradas ou destruídas; estima-se que cerca de 1 milhão de pessoas
tenha morrido, 1,7 milhões se tenha refugiado nos países vizinhos e pelo menos 3 milhões
estivessem deslocadas das suas zonas de origem.

A componente externa de apoio a esta guerra, se bem que não possa ser ignorada, reflecte
apenas uma parte das razões que levaram à sua manutenção. É também necessário tomar em
linha de conta os problemas internos do país e as políticas e estratégias utilizadas pela
FRELIMO como resposta à crise existente, que marcaram um distanciamento entre o governo
e a população, criando um descontentamento que ajudou a alimentar o conflito armado.
13

A reestruturação radical da economia, através do modelo de economia centralmente


planificada pelo Estado, estava longe de solucionar os problemas advenientes da tentativa de
suprir a crise económica resultante da destruição da economia colonial e mostrou ser a menos
adequada para a solução dos problemas económicos e sociais existentes no país. As medidas
económicas preconizadas pelo Estado, tinham marginalizado os camponeses familiares a
favor do desenvolvimento de uma agricultura mecanizada, destruindo assim o sistema que
havia garantido a maior parte da produção para consumo interno e uma parte da produção
para exportação deste país. Era pois necessário repensar a estratégia e avaliar o papel a
desempenhar pelo Estado na gestão da economia (ADAM, 1997: 6-7).

A guerra, a seca e as calamidades naturais alargaram o âmbito das pressões internas para
alteração das políticas da FRELIMO. A situação económica e social sofria uma degradação
crescente. Em algumas províncias era já visível o espectro da fome e era necessário mobilizar
recursos para o pagamento da dívida externa. As medidas de emergência para tentar suster a
economia não poderiam ser permanentes. Era difícil manter os níveis de emprego na indústria
com baixos níveis de rendimento ou subsidiar a improdutividade das machambas estatais e
manter também os subsídios para a alimentação das populações urbanas ou para as áreas
sociais como a saúde, a habitação e a educação, que acabaram por conduzir a uma
deterioração destes serviços. Entrara-se já numa fase de ruptura do mercado, com uma
hegemonia do mercado negro e uma consequente baixa cambial. Nos princípios da década de
80, a situação económica do país transportava já sinais alarmantes: crescimento do nível de
importações sem que houvesse disponibilidade de divisas; os subsídios estatais à educação,
saúde e despesas correntes do sector estatal incluindo as empresas estatais levaram a um
défice no orçamento do Estado. Isto resultou no endividamento público interno e externo;
depois de 1984, Moçambique entra na fase da crise da dívida e perde a credibilidade
‘creditícia’ junto dos mercados internacionais (PNUD, 1998: 51).

O decréscimo dos níveis de produção não podia de modo algum compatibilizar-se com o
nível de crescimento das populações, pelo que foi necessário fazer uma contracção dos
consumos, com impactos na redução da produção do bem-estar das populações e a
consequente deterioração dos seus níveis de vida. A estratégia socialista apresentava sinais
evidentes de desmoronamento. Em contrapartida, as conversações para adesão ao Banco
Mundial (BM) e ao Fundo Monetário Internacional (FMI) avançavam progressivamente no
cenário sócio-económico local, o que veio a resultar no lançamento das reformas económicas.
14

Em meados da década de 80, são visíveis os esforços da FRELIMO no campo político e


económico, para alterar as consequências negativas resultantes da estratégia de
desenvolvimento utilizada anteriormente.

3.6. Reconstruindo uma nova sociedade (1992-1999)

Em 1990 a FRELIMO introduziu uma nova constituição que permitia eleições


multipartidárias, a liberdade de imprensa e o direito à greve. Desde 1987 que se faziam
esforços para estabelecer conversações entre a FRELIMO e a RENAMO. Em Julho de 1990 o
governo e a RENAMO deram início às conversações em Roma e em Outubro de 1992,
também em Roma, Joaquim Chissano e Afonso Dlakama assinaram o Acordo de Paz. O
processo de cessar-fogo, a desmobilização e o repatriamento decorreram sem incidentes de
maior, e em Outubro de 1994, realizavam-se as primeiras eleições multipartidárias
(presidenciais) em Moçambique. Em 1998 realizaram-se as primeiras eleições para os órgãos
locais, estando também em preparação as segundas eleições presidenciais, calendarizadas para
1999.

O processo de transição política já embrionário na década de 80, tem a sua concretização


nos anos 90. As crises económicas sucessivas e os processos de transição que marcaram
Moçambique entre 1974/75 e 1999 têm custos sociais, que se reflectem na qualidade de vida
das populações. A necessidade de contrair os níveis de consumo para os adaptar à realidade
económica do país e a incapacidade e impossibilidade do Estado para prover o bem estar
social impede que se crie um sistema para a minimização dos efeitos sociais negativos das
reformas económicas, elevando os níveis de pobreza e o crescimento da exclusão, da
reivindicação e da violência.

4. Impacto na sociedade moçambicana: as ciências sociais

Nas colónias portuguesas, o desenvolvimento das Ciências Sociais, moldado para


legitimar o sistema político vigente, transformara o Estado colonial no sujeito da história e as
populações africanas no seu objecto. Em Moçambique, a maior parte dos estudos produzidos
durante este período, consistiam em descrições etnográficas, estatísticas, estudos sobre
questões da diplomacia portuguesa, monografias, leis e instituições coloniais, visando
legitimar e dar visibilidade à presença portuguesa em Moçambique. O sistema de educação
fora estruturado para reforçar a ideologia do regime, e os paliativos introduzidos com as
15

reformas tentavam contornar a possibilidade de produzir uma élite educada que viesse a
constituir uma oposição política e um grupo forte de intelectuais.

Os estudos universitários foram apenas introduzidos nos anos 60, com a criação de uma
escola superior. Os cursos de Ciências Sociais e Humanas, estavam restringidos apenas a
algumas disciplinas, onde não havia lugar para estudos relativos à Sociologia, à Antropologia
e às Ciências Políticas. A táctica de ‘dividir para reinar’ que tão bem caracterizou vários
processos de colonização no mundo, foi também aplicada pelo governo colonial no
direcionamento da produção intelectual em Ciências Sociais, como o atestam as formas como
o regime manipulou a produção científica nos campos da História e da Antropologia.

A independência de Moçambique, em 1975, trouxe consigo novos desafios nos campos


político, social e económico, e a necessidade de reconstruir e dar uma nova direcção à
produção científica na área das Ciências Sociais. Apesar do reduzido número de pessoas com
formação superior existente nessa época, uma jovem geração de intelectuais moçambicanos
estabeleceu a ruptura com os moldes de produção científica vigentes, e trouxe uma nova
abordagem à produção científica e consequentemente aos programas e métodos de ensino
neste mesmo campo. Neste processo, jogou um papel vital o Centro de Estudos Africanos da
Universidade Eduardo Mondlane, particularmente no domínio da pesquisa, onde as práticas
de campo e a necessidade de combinar o trabalho empírico e o teórico foram valorizadas, e a
Faculdade de Letras da mesma universidade, que através de debates, reformas curriculares e
produção científica, trouxe também novas contribuições.

Mesmo assim, era ainda muito fraca a quantidade de cientistas sociais e a produção
científica estava ainda muito longe de responder às necessidades reais de então. O impacto do
capitalismo colonial e a sua relação com a economia sul-africana e o paradigma dos
movimentos de libertação dominaram as temáticas da maior parte das pesquisas realizadas
durante este período (JOSÉ, 1989), uma ilustração dos esforços feitos na época para a
‘recuperação’ da história de Moçambique e da interpretação dos diversos processos de luta
que haviam ocorrido, envoltos em novas análises.

Do período da produção socialista à economia de mercado e ao processo de paz e


reconstrução, a produção em Ciências Sociais no período pós-independência em
Moçambique, mostra-nos uma marcada influência dos diversos desafios, processos de
transição e reformas que num período tão curto abrangeram Moçambique. Assim, o processo
relativo à implantação de uma economia e uma sociedade socialista, o impacto da guerra, o
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processo de paz e a construção de uma sociedade democrática, marcam a produção científica


em Moçambique. Não se pode de modo algum ignorar o contexto regional, onde a dominação
económica sul-africana, o regime do apartheid e a nova África Austral pós-apartheid fazem
também parte dos interesses dos cientistas sociais deste período.

No processo das transições políticas porque Moçambique passou desde a independência,


diferentes disciplinas e áreas de trabalho foram recuperadas, de acordo com necessidades
específicas, justificações sociais e jogos e interesses do poder. A título de exemplo poderemos
mencionar o caso da Antropologia, que foi severamente rejeitada por alguns intelectuais, logo
após a independência nacional, pela sua relação com a legitimação do poder colonial, e a
produção paternalística sobre a história dos povos africanos, seus ‘usos e costumes’, que
agora está num processo de ‘recuperação’ e num nítido processo de manipulação pelo poder
para justificar a necessidade política de ‘reafricanização’ e da integração das ‘autoridades
tradicionais’ e ‘poder tradicional’ em Moçambique. Mais recentemente, passaram também a
desempenhar um papel de destaque os estudos sobre religião e sociedade e sobre mulher e
género, que em muitos casos são também utilizados para servir os interesses das classes no
poder e também para atrair doadores. Muitos outros exemplos poderiam ainda ser aqui
apresentados para ilustrar a influência e o impacto que os desenvolvimentos políticos sociais e
económicos podem ter na produção científica.

A falta de recursos financeiros, a dependência em relação aos doadores e a


‘burocratização’ da investigação, gerida de uma forma administrativa e onde a consultoria e
pesquisa muitas vezes não se destrinçam (REIS, 1997), fazem também parte dos nós de
estrangulamento para uma efectiva produção científica. A necessidade de alargar o âmbito de
pesquisa levou à criação, nas duas últimas décadas, de vários centros de investigação
multidisciplinares especializados, como são os casos do Centro de Estudos Estratégicos do
Instituto Superior de Relações Internacionais, o Centro de Estudos de População e o Núcleo
de Estudos da Terra, ambos na Faculdade de Letras da Universidade Eduardo Mondlane. Fora
das instituições de ensino superior, é importante mencionar o caso do ARPAC-Arquivo do
Património Cultural, ligado ao Ministério da Cultura, que reunindo um corpo de
investigadores, entre antropólogos, sociólogos, historiadores e musicólogos, faz um trabalho
de levantamento e análise na área de Ciências Sociais, e promove novas publicações.
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Depois da independência nacional, Moçambique tinha apenas uma Universidade. Hoje,


tem uma universidade pública e dois institutos superiores, para a formação de pessoal docente
e na área de relações internacionais, contando ainda com 3 escolas superiores privadas, onde
se leccionam alguns cursos de formação na área de Ciências Sociais. Depois do encerramento
dos cursos de Letras (História, Geografia e Linguística) e de Ciências da Educação, em 1979
(por um período de quase cinco anos), e mais tarde o curso de Direito, por razões que se
prendem com as estratégias políticas da época, em finais da década de 80 e inícios da década
de 90, cria-se uma nova abertura para o repensar da importância das Ciências Sociais no país.
Abre-se a formação em Ciências Sociais, com a UFICS-Unidade de Formação e Investigação
em Ciências Sociais, com ramificações para a Sociologia, Antropologia e Administração
Pública. É importante referir o facto das instituições do ensino superior terem iniciado,
também nas duas últimas décadas um grande investimento na formação do seu corpo docente
e os esforços que se realizam para promover práticas de investigação.

No campo das publicações está talvez uma das maiores fragilidades, uma vez que as
nacionais não são difundidas, e vivem permanentemente entre a falta de fundos, de pessoal
qualificado para realizar a gestão da sua produção, e muitas vezes até de um desinteresse da
parte de investigadores moçambicanos em publicar em revistas moçambicanas. Assim, é por
vezes mais fácil encontrar artigos e até livros sobre Moçambique e elaborados por autores
moçambicanos em revistas e editoras no estrangeiro do que no país. Devemos no entanto
destacar duas revistas, que apesar de enfrentarem algumas dificuldades vão conseguindo
manter um perfil de qualidade e reconhecimento internacional:

i. Arquivo uma revista de História e Ciências Sociais, editada pelo Arquivo Histórico de
Moçambique, e
ii. Estudos Moçambicanos, uma revista de Ciências Sociais, editada pelo Centro de
Estudos Africanos, ambas da Universidade Eduardo Mondlane.
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5. Conclusão

Durante o desenvolvimento deste presente trabalho, constatou-se que a economia


moçambicana, basicamente agrícola (80%), assenta em grande medida na produção familiar
camponesa. A economia socialista havia orientado os investimentos nesta área para as grandes
machambas estatais e a produção e organização dos camponeses em aldeias comunais.

A liberalização da economia e o fim da guerra melhoraram a situação da produção


alimentar mas não resolveram os constrangimentos que impedem o crescimento e expansão
desta actividade, bem como do comércio rural. A indústria manufactureira desenvolvida no
país durante o sistema colonial tinha uma base frágil. A política socialista tinha como
objectivo fazer um investimento na indústria pesada. Com a guerra e o processo de
privatização, crescem as taxas de desemprego na indústria manufactureira, em crise. Entre
1995 e 1997 verificou-se um nítido crescimento do Produto Interno Bruto, o qual passou, de
1.3 em 1995, para 6.6 em 1996 e 14.1 em 1997 como afirma PNUD,1998.

Depois da independência (1975), o governo expandiu os cuidados primários de saúde às


zonas rurais e introduziu a educação nas componentes fundamentais dos programas de
desenvolvimento da sociedade. Entre 1975 e 1982 duplicou o número de ingressos nas escolas
primárias e a taxa de analfabetismo foi reduzida em 20%. A guerra destruiu uma parte
importante de infraestruturas económicas e sociais, tendo afectado as comunicações dentro do
país, o comércio rural, a saúde e a educação. Está em processo, um programa para a
reabilitação dessas infraestruturas, com particular atenção para escolas, postos de saúde e vias
de comunicação mais importantes para garantir o estabelecimento das ligações entre as
diversas províncias e distritos.
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