Você está na página 1de 11

2 DO AUTOR DA SINFONIA

“[…] era de baixa estatura, cabeça volumosa e cabeleira farta,


eriçada e negra como carvão, emoldurando um rosto rubicundo onde
a varíola deixara suas marcas. A testa era ampla, e fortemente
sublinhada por sobrancelhas hirsutas. […] A animação e a
expressividade de seus olhos, capazes de refletir os sentimentos
mais íntimos com extraordinária acuidade – ora cintilantes, cheios de
brilho, ora toldados por uma indefinível tristeza. A boca era pequena
e delicadamente desenhada. Tinha dentes brancos. […] O queixo
sólido era dividido por uma fenda profunda. De compleição robusta,
tinha ombros largos, mãos fortes e peludas, dedos curtos e grossos.
[…] magro até os 30 e poucos anos. Carecia totalmente de elegância
física; seus movimentos eram desgraciosos e canhestros, derrubava
e quebrava coisas constantemente […]” (Solomon, em
BEETHOVEN).

Ludwig van Beethoven, compositor alemão, nasceu em Bonn e fora batizado


a 17 de dezembro de 1770, portanto, tendo nascido provavelmente em 15 ou 16 de
dezembro (embora por muitos anos o próprio Beethoven discordasse dessa data,
acreditando ter nascido no ano de 1772). De uma família de músicos, seu avô (cujo
nome ele herdara) era mestre-de-capela (termo utilizado para se referir ao diretor
musical de uma corte ou igreja) no Eleitorado de Colônia em Bonn. Filho de Maria
Magdalena Keverich, proveniente de uma família constituída por prósperos
mercadores e senadores, e Johann van Beethoven, tenor da corte e professor de
música.
A infância de Beethoven foi marcada por tensões e conflitos, principalmente
na conturbada relação com seu pai e o relacionamento insatisfatório com sua mãe
(considerada a origem de suas dificuldades para estabelecer uma relação de amor
na fase adulta, assim como suas tendências misóginas). Conforme escreveu Anton
Felix Schindler (músico, secretário, amigo e biógrafo de Beethoven), “O próprio
Beethoven, por via de regra, não falava de sua vida de criança e, quando o fez,
pareceu vacilante e confuso”. Esquivava-se dos traumas de infância, recordando sua
mãe com afeição e gratidão, evitando os comentários aviltantes a respeito do pai.
Quando criança, era retraído e apresentava dificuldade para progredir na escola.
Bernhard Joseph Mäurer (violoncelista e amigo do compositor) descreveu-o assim:

“Fora da música, ele nada entendia de vida social; por conseguinte,


era mal-humorado com outras pessoas, não sabia como conversar
com elas, ficava rabugento e por isso era visto por elas como um
misantropo”.
Essa relação marcou não só sua infância, mas deixou sequelas na vida
adulta. Relatos descrevem que Beethoven gostava de ficar só, “porque tinha
escasso pensamento de comunicação com outros” (escreveu Wilhelm Christian
Müller, cantor, professor e também amigo de Ludwig).
Desde cedo com a música, Beethoven criara uma capa protetora de seus
próprios devaneios. Freud escreveu que “desejos insatisfeitos são a força motriz de
fantasias; cada fantasia contém a realização de um desejo e melhora uma realidade
insatisfatória”. E a realidade de Beethoven perdia intensidade perto de seu mundo
ideal. Ele deixou muitas pistas sobre seu interior psíquico. Freud e Otto em
“Romance de Família”, descrevem a situação em que a criança substitui um dos pais
(ou os dois) por um representante excelso, que pode ser um herói, uma celebridade,
um nobre, e etc. No Romance de Família de Beethoven, apenas seu pai é
substituído por outra personagem mais elevada. Essa fantasia pode ter sido
implantada por sua mãe, pelo seu descontentamento no casamento, depreciando
Johann na frente do filho, por conta de seu alcoolismo. Aliás, havia por seu sogro
uma imensa admiração, e sempre que o enaltecia, deixava uma crítica subentendida
ao seu marido. Beethoven não queria ver seu pai como um homem ébrio, libertino,
servil, músico desditoso, entre outros atributos pejorativos. A sua recusa em aceitar
a própria data de nascimento faz parte de sua fantasia, onde ele considerava falsa
sua certidão.
O centro da vida e fantasia de Beethoven era a sua música. Seu pai
começou a instruí-lo ainda cedo, de quatro para cinco anos, no violino e no cravo,
mas de maneira severa, brutal e obstinada. Eram raros os dias em que o garoto não
era surrado. O pai Johann não era simplesmente rigoroso, era cruel. Alguns anos
depois, Tobias Pteiffer (companheiro de taverna de Johann) assumiu as aulas de
piano. Essas péssimas experiências em seus estudos musicais não o fez perder ou
diminuir sua fome de instrução, e procurou-a fora de seu lar. O organista da corte
Gilles van den Eeden ensinou-o brevemente em composição no final da década de
1770. Recebeu aulas de órgão de Frei Willibald Koch e de Zenser, então organista
da Münsterkirche. Também teve lições de violino com Franz Rovantini (um parente
seu) e Franz Ries, além de mais tarde estudar trompa com Nikolaus Simrock.
Sua carreira como músico iniciou-se na sua segunda década de vida. Não
era visto como um menino prodígio (tal como Mozart era), mas sim como um jovem
talentoso e significativo profissional para a sua idade. Em 1782 ele se tornou
assistente do organista da corte, e em 1784 foi nomeado como organista suplente.
Esse período marca o início de sua vida como compositor. Vida essa frisada por
vários períodos silenciosos, seguidos por outros de intensa criatividade. Christian
Gottlob Neefe foi o encarregado de instruir o jovem Beethoven na composição, e sob
tutoria dele, Ludwig produziu suas primeiras composições conhecidas, de 1782 a
1785. Neefe reconheceu o seu gênio, incentivou e foi seu único professor
significativo até 1792. A ele deve-se também a primeira notícia pública sobre Ludwig,
de março de 1783, no Magazin der Musik.
Em 1787 o jovem Beethoven foi enviado para Viena, para tocar e talvez
também receber lições de Mozart. No entanto, a viagem foi um fracasso. Pouco
tempo após sua chegada, começou a receber cartas seguidas de seu pai o
alertando sobre o estado de sua mãe, que adoecera, e pedia por seu regresso.
Assim o fez, viajando o mais rápido possível. Sua mãe morreu em julho, e em
seguida, sua irmã também faleceu (em novembro). A morte da mãe atribuiu à Ludwig
o papel de responsável pela sua família, tendo agora que ser o guardião de seu pai,
que a partir daí, renunciou aos vínculos com a realidade, apelando ainda mais ao
alcoolismo. “Seu alcoolismo tortura aqueles que cuidam dele… Seu vício é homicídio
crônico e suicídio crônico” (Ernst Simmel, neurologista e psicanalista alemão). Isso,
além do luto, criou um bloqueio no desenvolvimento criativo do compositor, que não
o suportou por muito tempo, e em 1789 pediu às autoridades que seu pai fosse
aposentado, exilado e que lhe fosse pago metade do salário dele. Seu pedido foi
acatado, seu pai seria dispensado do serviço, retirado para uma aldeia em Bonn e
seria-lhe pago 100 táleres renanos anualmente para sustento seu e de seus irmãos.
Este foi o maior passo para colocar-se na chefia da família. No entanto, Johann
implorou para Ludwig não prosseguir com isso, que realmente não deu continuidade,
para não ferir a imagem de seu pai. Johann viria a morrer em 1793.
Em Bonn, Beethoven deu forma às suas atitudes e pensamentos sociais e
culturais. Muitos de seus amigos integravam a Ordem dos Iluminados, e a partir
disso ele teve contato com a ideologia Iluminista, explícita em suas obras. Sobre
suas crenças religiosas, sabe-se pouco, não existem muitos indícios de que
praticava a crença religiosa na qual foi educado, o catolicismo. No entanto, isso não
diz que fosse um ateu confesso, tendo em vista que a fé religiosa não seria
necessariamente inimiga da razão Iluminista. Dizia com orgulho que tinha sido
educado com provérbios, e que Sócrates e Jesus foram seus mestres. Tinha em sua
vida adulta, uma elevada moralidade, retidão de princípios, justeza de sentimentos e
pura religião natural, como descreve Ignaz Xaver Ritter von Seyfried, maestro
austríaco que conduziu a estreia da ópera Fidelio, de Beethoven.
Desde novembro de 1792 Beethoven fixou-se em Viena, deixando seu pai já
doente em Bonn. Não se pode afirmar se isso foi um abandono ou um escape para
não sofrer a perda do pai. Talvez ambas as afirmações estejam corretas. Embora
mostrasse interesse em visitar sua cidade natal e os túmulos de seus pais,
Beethoven nunca mais viria a regressar a Bonn. Talvez rejeitasse suas memórias da
infância, ou seria isso também parte de sua fantasia.
Foi nítida a libertação criativa dele nessa década (até então suas
composições eram essencialmente exemplos imitativos de obras de seus
contemporâneos no estilo da sonata clássica) e sua ascensão como reconhecido
pianista. Nesse mesmo ano ele teve a oportunidade de mostrar a Haydn uma de
suas cantatas, que ficou impressionado e o aceitou como aluno. Pela influência de
Haydn, Beethoven teve acesso às casas da nobreza, tocando mais nelas e para os
burgueses, do que para o grande público. Foi inicialmente visto como um virtuose no
piano, suprindo a falta de um bom representante do teclado em Viena, já que
Clementi e Cramer instalaram-se em Londres, Wölffl em Varsóvia, e Mozart havia
falecido um ano antes. Suas interpretações estavam cheias de “paixão, brilho,
fantasia, profundidade e sentimento” (Liana Justus, 2007), adjetivos que atribuíam
um certo caráter obsceno que faziam os mais antigos como Cherubini criticarem seu
modo de tocar, classificando-o como áspero e desgracioso, mas que comovia aos
mais jovens, justamente por contrastar com o estilo doce e delicado dos antigos
virtuoses. Carl Czerny (futuramente viria a ser aluno de Beethoven) o descreve:

“Seja qual for o ambiente social em que possa estar, ele sabe como
produzir sobre cada ouvinte um tal efeito que, com frequência, não
há um olho que permaneça enxuto, enquanto muitos não se contêm
e acabam se desfazendo em ruidosos soluços; pois havia algo de
maravilhoso em sua expressão, além da beleza e originalidade das
ideias e do estilo vigoroso como as traduz. Após concluir uma
improvisação desse gênero, prorrompia em sonoras gargalhadas e
caçoava de seus ouvintes a respeito das emoções que ele mesmo
lhes causara.”

Ele disputava com todos potenciais pianistas “inimigos”, e sua grande


reputação não demorou para sair dos salões da aristocracia. Em 1795 começou a
realizar apresentações públicas em Viena (foram 11 em três anos). Em 1796 realizou
uma turnê, e nesse mesmo período começou também a ganhar espaço como
compositor, tendo suas obras divulgadas por cinco editoras até 1799. Estava
alcançando fama internacional. Haydn havia lhe orientado a colocar as palavras
“aluno de Haydn” junto ao seu nome em suas obras, mas Beethoven recusou e ficou
furioso, chegando a dizer: “Eu nunca aprendi nada dele!”. Na verdade Beethoven
não queria ser visto como um simples aluno de Haydn, ou que seu sucesso como
compositor dependesse dessa informação. Ele não queria se tornar mais um Ignaz
Pleyel, um eterno aluno de Haydn (mesmo embora Pleyel tenha se tornado um
concorrente à altura em Londres, sempre era lembrado como aluno de Haydn).
Beethoven passou a acreditar, em um certo momento, que seu mestre teria
inveja dele ou que não desejasse seu progresso, tendo em vista que as aulas de
contraponto deixavam a desejar. Beethoven apresentando um de seus contrapontos
a um amigo, este identificou erros em cada modo. Ludwig então procurou por ter
aulas secretas com outro professor, Johann Schenk. Talvez o desinteresse inicial de
Haydn ao lecionar não fosse proposital, sabendo-se que estava profundamente
afetado nesse período, pelas perdas de Mozart, também de uma amiga sua, sem
mencionar o fato de estar se envolvendo com duas mulheres, simultaneamente. Mas
Beethoven sabia que estudar com Haydn não lhe garantiria apenas nome e o
aprendizado das regras de contraponto, mas também os princípios de organização
formal, o tratamento das forças tonais, os contrastes de dinâmica, o
desenvolvimento temático e estrutura harmônica. Talvez Haydn não tenha o instruído
formalmente em cada matéria, mas Ludwig adotou seu mestre como modelo
musical, e absorveu dele o que precisava. Quanto ao professor, em cartas, Haydn
sempre demonstrava uma grande afeição por Beethoven quando o citava para
outras pessoas.
Em 1794 Haydn foi para Londres, encerrando os 14 meses seguidos de
aulas ao seu aluno. Beethoven continuou a estudar. A partir de 1798 estudou
composição dramática e vocal com Antonio Salieri. Sua relação com esse professor
foi realmente conturbada, e chegaram a considerarem-se como “antagonistas”
(termo usado por Beethoven ao se referir a Salieri). Também teve aulas com
Albrechtsberger, que descrevia seu aluno com hostilidade.
Beethoven tinha maior produtividade nos meses mais quentes do ano,
quando geralmente ficava fora da capital, passando o verão no campo. A sua busca
por tranquilidade fazia com que se mudasse de casa muito rapidamente. Seu
desassossego talvez fosse reflexo de seu desejo de estabelecer um lar verdadeiro,
uma família. Em Viena teve algumas amizades exageradamente românticas (tanto
com mulheres, quanto com homens), mas sua dificuldade de estabelecer uma
relação amorosa ainda a acompanhava. Em carta a Simrock, demonstrou uma
enorme ansiedade por se casar, cogitando até voltar a Bonn se Simrock lhe
garantisse uma de suas filhas como sua noiva.
A década de 1790 foi um período de crescimento profissional, desafio e
triunfo, atrelados à subordinação e satisfação às necessidades de outros. A próxima
década, nesse sentido, foi um alívio para o compositor. Até então absorveu
bastantes influências, destacando a de Gluck, de quem absorveu a expressão
dramática, energia de acento, concisão do discurso e clareza, colocando ao lado de
Handel, Bach, Mozart e Haydn. Já nos anos iniciais da década de 1800, sua carreira
teve um significativo avanço, passando a receber uma considerável anuidade, e
tendo também a oportunidade de promover o primeiro concerto público para
benefício próprio, em 2 de abril de 1800, onde foi apresentada pela primeira vez a
sua Primeira Sinfonia (foco desse estudo e descrita no próximo capítulo). Segue-se
a essa fase conflitos interiores. Em carta à Nikolaus Zmeskall (músico e amigo de
Beethoven), Ludwig escreveu: “Por vezes, sinto que enlouquecerei em breve, em
consequência de minha imerecida fama; a fortuna está me descobrindo e por essa
mesma razão quase temo alguma nova calamidade.” Por outro lado,
profissionalmente, estava satisfeito. Ninguém discutia valores com ele, apenas
aceitavam o preço que pedia. Se precisasse de dinheiro, bastava compor alguma
coisa, pois podia contar com seis ou sete editores.
Seu ânimo estava por definhar. Em 1802 percebeu que alguns sintomas que
vinha sentindo havia alguns poucos anos lhe tirariam sua tranquilidade. Em carta a
seu amigo Karl Amenda, revela:
“[…] Quantas vezes já o amaldiçoei [refere-se a Deus] por expor
suas criaturas a riscos e perigos, por menores que sejam, de modo
que a mais bela flor é, com frequência, espezinhada e destruída.
Informo-te que a minha mais valiosa possessão, o meu ouvido, se
encontra gravemente deteriorado. Quando ainda estavas comigo, eu
já começara sentindo os sintomas; mas nada disse a tal respeito.
Agora tornaram-se muito piores… Podes avaliar que triste vida estou
levando agora, vendo que sou desligado de tudo o que me é
precioso… Devo afastar-me de tudo; e os meus melhores anos
passarão rapidamente, sem poder realizar tudo o que meu talento e
meu vigor me ordenaram que fizesse. […]”
Em outra carta, endereçada a um amigo médico, descreve melhor sua
situação:
“[…] Devo confessar que levo uma vida deplorável. Faz quase dois
anos que deixei de frequentar funções sociais, simplesmente porque
acho impossível dizer às pessoas: Sou surdo. Se eu tivesse qualquer
outra profissão, talvez pudesse conviver com a minha enfermidade;
mas, na minha profissão, é uma desvantagem terrível. E se meus
inimigos, que tenho em bom número, soubessem disso, o que
diriam? Para te dar uma ideia desta estranha surdez, digo-te que no
teatro tenho que me colocar muito perto da orquestra a fim de
escutar o que o ator está dizendo e que, a uma certa distância, não
posso ouvir as notas mais altas de instrumentos ou vozes. Quanto à
voz falada, é surpreendente que algumas pessoas nunca tenham
notado a minha surdez; mas como eu sempre fui propenso a acessos
de distração, atribuem com frequência a isso a minha ausência de
resposta e não à dureza de ouvido. Por vezes, também tenho
extrema dificuldade em ouvir uma pessoa que fale com suavidade;
posso captar sons, é verdade, mas sou incapaz de perceber as
palavras. Mas se alguém grita, não suporto isso. Só Deus sabe que
futuro me está reservado. […]”

Seu problema causou desespero, e fez com que procurasse vários médicos,
até encontrar auxílio do professor da Academia Josefina, Johann Adam Schmidt, que
lhe inspirou confiança e otimismo. Beethoven voltou ao convívio social e demonstrou
amar uma moça, a condessa Giulietta Guicciardi, uma aluna sua de apenas 16 anos.
Ele pensava em casamento, mas tinha consciência que a diferença de classe seria
um empecilho. Apresentava oscilações do seu comportamento melancólico, e
chegou a escrever um testamento (uma impressionante declaração confessional que
mostra tocantes expressões de desespero) a seus irmãos, sugerindo que a morte
estava próxima. Não pela doença que o acometeu, mas na própria carta sugere o
suicídio. Descreve na carta testamento a injustiça feita a ele, por interpretarem-no
mal, e deseja que, pelo menos após sua morte, o mundo possa reconciliar-se com
ele.
O fim desse desespero o introduziu em um período de equilíbrio e
criatividade, que durou até 1812, compondo uma ópera, um oratório, uma missa,
seis sinfonias, quatro concertos, seis sonatas para piano, algumas obras incidentais
para o teatro, vários Lieder, cinco quartetos de cordas, três trios, três sonatas para
cordas, diversas aberturas sinfônicas, e quatro coleções de variações para piano.
Sua reputação internacional só crescia, suas obras estavam entrando no repertório
dos músicos de vários países, embora algumas composições suas recebessem uma
certa desaprovação. O fracasso de sua única ópera causou-lhe um desapontamento
amargo. Também enfrentou conflitos com seus irmãos. O casamento de Caspar Carl
levou Beethoven a se distanciar do irmão.
Em 1804 Beethoven estava revendo sua Terceira Sinfonia, até então
intitulada Bonaparte. Ele pretendia mudar-se para Paris, mas optou por permanecer
em Viena após Napoleão se autoproclamar Imperador. Ludwig nutria uma imensa
admiração por Napoleão quando este era o Primeiro Cônsul. Ao saber da coroação,
Beethoven enfureceu-se e gritou: “Quer dizer, então, que ele também não passa de
um reles ser humano? Agora, ele também tripudiará sobre todos os direitos do
homem e satisfará somente sua ambição […] tornando-se um tirano!” Beethoven foi
à escrivaninha, pegou a primeira página da sua Sinfonia, rasgou e reescreveu o
título, de Sinfonia Eroica. Este foi um exemplo da aversão do artista à tirania.
Essa década também foi marcada por outras tristezas, como a morte de seu
mestre, e a rejeição por parte de Therese Malfatti a uma proposta de casamento.
Teve ainda vários interesses amorosos, mas sem significativo progresso. Desde
Therese até o caso com a suposta Amada Imortal, Beethoven flertou apenas com
Bettina Brentano e Amalie Sebald. Podem muito bem todos os desgostos
vivenciados – audição, política, amor e casamento – por Beethoven serem
sacrifícios à sua carreira como compositor. Parafraseando Schopenhauer: “Se a
paixão de Petrarca tivesse sido saciada, seu canto teria caído no silêncio.”
A existência dessa Amada Imortal foi descoberta após a morte do artista,
quando foi encontrada a única carta puramente de amor de toda sua existência, em
meio aos seus objetos pessoais. Essa carta despertou seu amigo Schindler por
procurar quem seria a pessoa a recebê-la, já que na carta não havia nome. Ficaram
muitas dúvidas sobre isso. Schindler pensou inicialmente que seria Giulietta, ou
talvez Therese Malfatti ou até mesmo Therese Brunsvik. Apenas em 1909, Wolfgang
Amadeus Thomas-San-Galli colocou essa questão em estudo científico, partindo das
provas acumuladas. Após muita investigação, muitas provas, escritos e análises,
conclui-se que a Amada Imortal a quem Beethoven se refere em sua carta é Antonie
Brentano.
Antonie Brentano, de uma família aristocrata, nasceu em 28 de maio de
1780, em Viena. Foi casada com um comerciante de Frankfurt, Franz Brentano,
amigo de Beethoven. Beethoven entrou em conflito consigo mesmo, uma vez que
sua elevada moral não permitiria trair a um amigo, além de sua enorme
incapacidade para casar. Sua angústia é evidente ao declarar-se a ela. Após os
estudos, os pesquisadores chegaram ao consenso de que esse romance teve início
por volta de 1811. Brentano foi a primeira mulher a correspondê-lo amorosamente.
Os anos após 1812 não foram tão produtivos como os anteriores. Nenhuma
sinfonia foi composta entre esse ano e a conclusão da Nona Sinfonia, em 1824;
também não completou nenhum concerto. Beethoven encontrava-se novamente
deprimido com sua audição e também com o estado de saúde de seu irmão Caspar
Carl, que estava nas fases finais da tuberculose (mesma doença que acometera a
mãe deles). Isso tudo fez com que seus pensamentos suicidas retornassem a pairar
sobre sua mente. Schindler relatou:
“Em seu desespero, ele buscou conforto com sua particularmente
respeitada amiga, a condessa Marie Erdödy – em sua residência de
campo em Jedlersee… Depois, entretanto, ele desapareceu e a
condessa pensou que ele tivesse regressado a Viena, quando, três
dias depois, o professor de música da condessa Brauchle, o
descobriu numa parte distante dos jardins do palácio. Esse incidente
foi mantido por muito tempo como um segredo guardado a sete
chaves e só muito tempo depois os que estavam familiarizados com
ele o confidenciaram aos mais íntimos amigos de Beethoven, quando
o romance tinha sido há muito esquecido. Foi associado à suspeita
de que tinha sido intento do infeliz homem jejuar até morrer de fome.”

Caspar Carl morreu em 15 de novembro de 1815, deixando viúva Johanna,


e delegando a Beethoven a guarda de seu filho Karl (este foi um pedido de
Beethoven a seu irmão, que também deixou declarado que a criança não deveria se
separar da mãe em hipótese alguma). A tutela de seu sobrinho causou grande
alvoroço, tendo que enfrentar a mãe do garoto na justiça. Ludwig só sairia vitorioso
em 1820. Seis anos mais tarde, Karl tentaria o suicídio (fracassou na tentativa, mas
obteve sucesso em livrar-se da dominação do tio). Ludwig tentava fazer o papel de
bom pai (que não teve), espelhando-se em seu avô. Mas na verdade, estava
repetindo os maus tratos que seu pai lhe fizera. Fato é que ele tirou de sua cunhada
o seu único filho, sem motivo. A justificativa dada a justiça seriam os maus tratos e a
incapacidade de Johanna criar Karl. Estas eram falsas afirmações, e o verdadeiro
motivo do desejo pela guarda de seu sobrinho pode ser encontrado na teoria da
fantasia que ele criara em sua mente para sua família. Karl ocuparia o lugar do filho
que Beethoven não tinha. Seus contemporâneos sempre souberam de uma certa
excentricidade em Beethoven, mas que após a apropriação de seu sobrinho, tomou
ainda mais forma. Achavam-no louco e misantropo. Sua saúde começou a se
deteriorar, e em seus últimos anos fora diagnosticado com cirrose hepática,
agravada pela ingestão de bebidas alcoólicas.
Desde seu definhar, Beethoven já não encontrava inspiração entre seus
contemporâneos. Sua música final seria criada desde o íntimo do próprio
compositor, e não mais através de uma combinação de elementos musicais
existentes. Nascia um estilo sem precedentes, em um processo lento e difícil. Sua
produção desde a vitória nos tribunais em 1820 resume-se a poucas sonatas, uma
missa, uma abertura, a maior parte das 33 Variações sobre uma Valsa de Diabelli,
começou a planejar o Quarteto de Cordas op. 127, além do substancial progresso da
Nona Sinfonia. Em 1825 esboçou um Décima Sinfonia e uma abertura baseada no
nome de Bach (B – Si bemol; A – lá; C – Dó; H – Si). Havia um bom tempo ele já não
estava mais apto a tocar piano ou reger a orquestra. Ele podia compor, apenas.
Na virada de 1823 para 1824, Beethoven recebeu uma aberta de seus
admiradores vienenses (30 assinaturas, ao todo, de músicos, editores e amantes da
arte), impulsionando-o para o maior evento público de sua carreira: o concerto no
Kärnthnerthor Theater, no dia 7 de maio de 1824. O concerto viria a incluir a
Abertura op. 124; o Kyrie, Credo e Agnus Dei da Missa Solemnis; e a Nona Sinfonia.
O teatro estava lotado. Schuppanzigh partilhou a responsabilidade da regência com
Umlauf. Durante o concerto, Beethoven ficou em pé, folheando as partituras e
marcando o tempo. No entanto Umlauf avisou aos músicos para que não
prestassem atenção nele, pois estava surdo.
Em sua última década de vida, Beethoven começou a livrar-se de suas
fantasias. Em uma audiência (em 1818), diante do juiz, ele afirmou ser da nobreza.
Isso não era verdade, e custou para que ele aceitasse-a e deixasse de lado a sua
fantasiosa realidade. Com a tentativa de suicídio de seu sobrinho, anos mais tarde,
ele teve consciência de que Karl não era seu filho. Ludwig estava no caminho da
autoaceitação e autoconhecimento. Desde que entrou nessa jornada pelo
autoconhecimento, ele demonstrou o interesse de visitar sua terra natal, mas que
sempre adiou. Havia também aceitado sua data de nascimento. Em 1822,
Beethoven voltou a fazer contato com seu irmão sobrevivente, Nikolaus Johann,
com quem não falava desde que este se casou, em 1812. Houve também, por parte
de Ludwig, a intenção de reconciliar-se com Johanna, sua cunhada. Mas esta fez
saber a todos que não queria tornar a vê-lo.
A partir de abril de 1825, sua saúde deteriorou muito, e ele tornou a ter
premonições de morte. Com uma breve melhora, começava a desobedecer as
recomendações de seu médico contra a ingestão de bebidas alcoólicas, mas não
demorou muito para que seu fígado e intestinos lhe atormentassem novamente.
Quando as notícias começaram a circular, seus amigos acudiram para lhe dar votos
de melhoras, mas que na verdade eram despedidas.
Em 23 de março de 1827, Beethoven segurou pela última vez uma pena,
para escrever seu testamento. Deixou tudo o que tinha a seu sobrinho Karl e à mãe
dele, Johanna. No dia 24 ele disse a Schindler: “Plaudite, amici, comoedia finita est
[Aplaudi, amigos, terminou a comédia].” Entrou em coma nessa mesma tarde. Ao
entardecer do dia 26 de março, durante uma tempestade de neve e trovoada, ele
abriu novamente os olhos, ergueu a mão direita e fechou o punho, que caiu por
conta do esforço. Quando a mão tombou, Ludwig van Beethoven estava morto.

Você também pode gostar