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Ant onio Donizet i da Cruz R 1

2 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody


Ant onio Donizet i da Cruz R 3

O universo imaginário e o fazer poético de


Helena Kolody

Em comemoração ao centenário de
nascimento de Helena Kolody - 12 de Outubro de 2012
4 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

REITOR Paulo Sérgio Wolff

VICE-REITOR Carlos Alberto Piacenti

EDITORA DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DO OESTE DO PARANÁ EDUNIOESTE

DIRETORA Aparecida Feola Sella

ASSISTENTE EDITORIAL Daiane Soraia de Souza

EDITORA CIENTÍFICA Sanimar Busse

ESTAGIÁRIA Jocineli Polis Colombo

CONSELHO EDITORIAL Liliam Faria Porto Borges


Gilmar Baumgartner
Silvio César Sampaio
Aparecida Feola Sella
Clodis Boscarioli
Marina Kimiko Kadowaki
Loreni Teresinha Brandalise
Beatriz Helena Dal Molin
Lavínia Raquel Martins
Samuel Klauck
José Ricardo Souza
Adílson Francelino Alves
Yolanda Lopes da Silva
Antonio de Pádua Bosi
Mário Luiz Soares
Gustavo Biasoli Alves
Jefferson Andronio Ramundo Staduto
Soraya Moreno Palácio

A Edunioeste é afiliada a
Ant onio Donizet i da Cruz R 5

Antonio Donizeti da Cruz

O universo imaginário e o fazer poético de


Helena Kolody

EDUNI OESTE
CASCAVEL
2012
6 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

 2012 By Antonio Donizeti da Cruz

C O L E Ç Ã O T H É S I S

Coordenação Editorial Diagramação


Aparecida Feola Sella André Crepaldi

Projeto Gráfico Ficha Catalográfica


André Crepaldi Marilene de Fátima Donadel
(CRB 9/924)

Cruz, Antonio Donizeti da


C957u O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody /
Antonio Donizeti da Cruz. — Cascavel : EDUNIOESTE, 2012.
373p.

Edição comemorativa do centenário de nascimento de


Helena Kolody – 12 outubro de 2012
Originalmente apresentado como tese do autor (Doutorado
- Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre,
BR-RS, 2001).

ISBN: 978-85-7644-246-2

1. Poesia brasileira 2. Poesia paranaense 3. Kolody, Helena,


1912-2004 – Crítica e interpretação I.T.

CDD 20. ed. B869.1

E D U N IO E S T E

Universidade Estadual do Oeste do Paraná


Rua Universitária, 1619 - Jardim Universitário - Cascavel - PR
CEP: 85814-110 — Caixa Postal 701
Tel.: (45) 3220-3026 — Fax: (45) 3224-4590
www.unioeste.br — editora@unioeste.br
Ant onio Donizet i da Cruz R 7

ESTRELAVIVA1

A Helena Kolody

A cortina branca na janela


esconde um perfil secreto
um olhar de quem mira
por trás dos girassóis abertos
como um cálice ou uma flor
que teima em existir sem o saber
A mulher que lê o livro
sagrado das tradições de seu povo
vestida com o xale escuro
que cobre seus ombros
contempla as palavras
ícones sagrados
cheiro de maresia
pássaros azuis
enfeitam a paisagem
e ela olha além da janela:
uma miragem
entre a página em branco e as palavras
os olhos passeiam...
mas não em vão.

Antonio Donizeti da Cruz

1
Prêmio: VI Concurso ‘Helena Kolody’ de Poesia. Governo do Estado do Paraná – Secretaria do Estado da Cultura
do Paraná – Curitiba – 1994. In: Os poetas: antologia de poetas contemporâneos do Paraná. VI Concurso ‘Helena
Kolody’ de Poesia. Curitiba: Secretaria de Estado da Cultura, 1995, p. 4.
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DEDICATÓRIA

Aos meus pais: Domingos e Firmiana (in memoriam), pela vida.

À companheira Maria de Fátima, pela compreensão e incentivos.

À filha Caroline Marlene e ao genro Rafael, com carinho.

Aos meus irmãos Manoel, Fátima, José Carlos e Paulo César.

À Ana Maria Lisboa de Mello.

À Beatriz Helena Dal Molin.

À Clarice Nadir von Borstel.

À Lília A. Pereira da Silva.

À Olga Kolody Muñoz Ferrada, irmã de Helena Kolody, e Familiares.

À Helena Kolody (in memoriam), pela amizade, atenção, diálogo


constante e pela confiança por ter depositou em minhas mãos os
originais para a elaboração da obra Tear de Palavras: poemas
inéditos e reunidos.
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AGRADECIMENTOS

À UNIOESTE, pela licença concedida para realizar o curso de Doutorado.

À Professora e Orientadora Drª Ana Maria Lisboa de Mello, pelo


incentivo ao ingresso no doutorado e pela disponibilidade da orientação,
com minha gratidão-sempre.

Aos Professores do Curso de Pós-Graduação em Letras da UFRGS e


da PUCRS.

Às Professoras Drª Alice T. Campos Moreira e Dra. Maria do Carmo


Campos, pelas observações e sugestões no momento do exame de
qualificação.

Ao Professor Dr. Édison José da Costa, pelas observações e sugestões


precisas ao trabalho e pelo diálogo constante.

Aos Professores Doutores:


Alice T. Campos Moreira,
Ana Maria Lisboa de Mello,
Maria do Carmo Campos,
Denis Germano Schell,
Eduardo F. Coutinho,
João Alexandre Barbosa, (in memoriam),
Ir. Elvo Clemente (in memoriam),
que através das mais diferentes abordagens sobre o literário contribuíram
para a realização do meu trabalho.
12 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

Às Professoras:
Esp. Aparecida Fátima da Cruz, Ms. Rozelia Scheifler Rasia, Drª Solange
Fiuza Cardoso Yokozawa, Esp. Sonia Maria Hanauer e Drª Vilma Mota
Quintela, que colaboraram para a conclusão desta pesquisa, com leituras
e sugestões precisas.

À Profª Drª Aparecida Feola Sella.

À Profª Drª Beatriz Helena Dal Molin.

À Profª Drª Clarice Nadir von Borstel, pela leitura e revisão.

À Profª Drª Lourdes Kaminski Alves.

À Profª Drª Rita Felix Fortes.

À Profª Drª Roselene de Fatima Coito.

Ao Prof. Dr. Tarcísio Vanderlinde.

Às Bibliotecárias
Márcia Elisa Sbaraini Leitzke (UNIOESTE) e Maria Cristina Burger
(UFRGS).

Ao André Crepaldi pelas sugestões e diagramação.

Aos Colegas do Colegiado de Letras da UNIOESTE – Campus de


Marechal Cândido Rondon.

Aos Colegas do Programa de Pós-Graduação Stricto Senso em Letras


- Área de Concentração: Linguagem e Sociedade, da
UNIOESTE - Campus de Cascavel.

À CAPES-PICD – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de


Nível Superior – pela concessão de bolsa de estudo.
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SUMÁRIO

LISTA DE FIGURAS .................................................................... 15

APRESENTAÇÃO .......................................................................... 17

1 HELENA KOLODY: POESIA E VIDA ..................................... 23

2 IMAGINAÇÃO, POESIA E MODERNIDADE ........................ 59

3 UNIVERSO IMAGINÁRIO: A VISÃO DE VIDA E A


IMAGEM DO MUNDO .............................................................. 85
3.1 – TEMPO, SOLIDÃO E MEMÓRIA........................................................ 89
3.2 – O JOGO DIALÉTICO: VIDA E MORTE .............................................. 125
3.3 – DUPLA FACE: AS IMAGENS DO DESDOBRAMENTO DO EU E O ESPELHO...... 139
3.4 – A VIAGEM EM VERSOS: UMA POÉTICA DA TRAVESSIA ........................... 158

4 O FAZER POÉTICO: A BUSCA DO ESSENCIAL ................. 185


4.1 – A POÉTICA DA BUSCA E DO PROGRESSIVO ALCANCE DA
ESSENCIALIZAÇÃO ................................................................................ 186
4.2 – A CONSTRUÇÃO POÉTICA E O PROJETO ESTÉTICO KOLODYANO ............... 217

CONSIDERAÇÕES FINAIS ......................................................... 231

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................... 239


OBRAS DE HELENA KOLODY ................................................................. 239
SOBRE HELENA KOLODY ....................................................................... 241
GERAL ............................................................................................. 245
14 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

APÊNDICE A - TEAR DE PALAVRAS: POEMAS INÉDITOS


E REUNIDOS – POEMAS DE HELENA KOLODY. ORGANIZAÇÃO,
ILUSTRAÇÃO, PREFÁCIO E REUNIÃO DOS POEMAS POR ANTONIO
DONIZETI DA CRUZ.............................................................................. 253
PALAVRAS PRIMEIRAS ............................................................................ 254
POEMAS DE HELENA KOLODY E ILUSTRAÇÕES DE ANTONIO DONIZETI
DA CRUZ ......................................................................................... 257
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DOS POEMAS DE TEAR DE PALAVRAS: POEMAS
INÉDITOS E REUNIDOS............................................................................ 335

ANEXOS........................................................................................ 339
MANUSCRITOS DE HELENA KOLODY ...................................................... 341
HAICAIS E TANKAS DE HELENA KOLODY (MANUSCRITOS DA OBRA REIKA) ........ 351
ALGUNS MANUSCRITOS DE HELENA KOLODY, DE TEAR DE PALAVRAS: POEMAS
INÉDITOS E REUNIDOS .......................................................................... 355
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LISTA DE FIGURAS

LISTA DE FIGURAS

F IGURA 1: CINTILAÇÕES. ÓLEO SOBRE TELA


(DIMENSÃO: 1,30 CM X 80 CM.). ADC ............................................... 80

F IGURA 2: AÉREOS. DESENHO - GIZ DE CERA. ADC .............................. 113

F IGURA 3: CLAUDE MONET, FRENCH, 1840-1926, WATER LILIES,


1906, OIL ON CANVAS, 34 1/2 X 36 1/2 IN. (87.6 X 92.7 CM), 
MR. AND MRS. MARTIN A. RYERSON COLLECTION, 1933.1157, 
THE ART INSTITUTE OF CHICAGO.  PHOTOGRAPHY © THE ART
INSTITUTE OF CHICAGO ........................................................................ 138

F IGURA 4: DUPLICIDADE. FOTOGRAFIA. 10X15. ADC ............................. 149

F IGURA 5: CÍRCULOS & CÍRCULOS. PASTEL OLEOSO SOBRE TELA


(DIMENSÃO: 90 CM X 60 CM. – 1988). ADC ..................................... 163

F IGURA 6: DESDOBRAMENTOS. - ÓLEO SOBRE TELA


(DIMENSÃO: 1,00 CM X 70 CM.). ADC ............................................... 172

F IGURA 7: TRANSPARÊNCIAS. FOTOGRAFIA, 10X15. ADC .......................... 269

F IGURA 8: ESTRELA-DO-MAR. DESENHO - GIZ DE CERA. ADC .................. 271

F IGURA 9: LÍRICAS. DESENHO - GIZ DE CERA. ADC ............................. 274


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F IGURA 10: CONFIGURAÇÕES. ÓLEO SOBRE TELA


(DIMENSÃO: 1,20 CM X 81 CM.) ADC ............................................... 284

F IGURA 11 : ARTÍFICES. GIZ DE CERA. ADC ...................................... 307

F IGURA 12 : PEDRAS & PEDRAS. GIZ DE CERA. ADC ........................... 309

F IGURA 13 : VÉRTICES. GIZ DE CERA. ADC ....................................... 321

F IGURA 14: FITAR.: DESENHO - GIZ DE CERA. ADC ............................. 324

AUTORIA E COPYRIGHT © DAS ILUSTRAÇÕES: ANTONIO DONIZETI DA CRUZ


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APRESENTAÇÃO

Este livro tem por propósito apresentar o universo imaginário e


poético de Helena Kolody, que engloba uma constelação de temas e
imagens1, contribuindo assim para propor (re)significações à sua obra
no contexto da Literatura Brasileira.
O fio condutor que orienta a composição textual é o entrelaçamento
das imagens poéticas e das temáticas que emergem da obra kolodyana.
Estes elementos remetem ao fazer poético, a concepção do duplo –
representada pelo espelho, a sombra, o reflexo, o retrato –, ao tema da
viagem, da efemeridade e permanência, da solidão, da memória e da
religiosidade, constantes nas obras kolodyanas.
Esta obra sobre a poesia de Helena Kolody tem uma relevância
especial e justifica-se por se tratar de uma obra literária que, por sua
sensibilidade e autenticidade, ultrapassou os limites do panorama
paranaense e conquistou seu espaço no cenário brasileiro. Reconhecida
pela crítica nacional, a poeta tem seu nome registrado e consagrado em
manuais de literatura. Sua obra poética é lida e admirada por leitores
leigos e especialistas2.
O corpus para as análises da obra de Kolody constitui-se das
seguintes obras de Helena Kolody, com suas respectivas siglas3: Paisagem
interior (PI – 1941), Música submersa (MS – 1945), A sombra no rio (SR
– 1951), Vida breve (VB – 1964), Era espacial (EE – 1966), Trilha sonora
(TS – 1966), Tempo (TE – 1970), Infinito presente (IP – 1980), Sempre
palavra (SP – 1985), Poesia mínima (PM – 1986), Ontem agora (AO –
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1991), Reika (RE – 1993). São também objetos deste estudo, poemas de
Helena Kolody constantes no livro Tear de palavras: poemas inéditos e
reunidos (TP), obra inédita, que constitui o Apêndice A deste livro. E,
ainda, Viagem no Espelho4 (VE – 1999, 5.ed.), obra completa que reúne
os livros da poeta até 1993. Para a publicação de Viagem no espelho,
Helena Kolody (re)trabalhou alguns poemas, deixando-os mais enxutos.
A obra Tear de palavras: poemas inéditos e reunidos engloba 184
poemas de Helena Kolody. A inclusão dos poemas da coletânea (Apêndice
A), justifica-se por eu estar trabalhando a sua obra completa e pelo trabalho
e pesquisa realizados nesses anos todos com a obra de Helena Kolody.
Assim, um número significativo de poemas inéditos foi cedido e confiado
a minha pessoa pela própria poeta. Outros poemas, aqui transcritos, fo-
ram localizados em livros, revistas e jornais especializados. A organização,
a reunião dos poemas, a apresentação e as ilustrações da obra (pinturas,
desenhos e fotografias de pinturas a partir das telas pinturas de tela a
óleo) são de minha autoria.
A consolidação dos espaços conquistados por Helena Kolody
justifica-se pela qualidade estética do conjunto de sua obra e pela
produção constante. Desde a publicação de seu primeiro livro, Paisagem
interior (1941), a Reika (1993) – composto de haicais e tankas5 – sua
obra sobressai no cenário literário paranaense e, cada vez mais, ganha
espaços no quadro geral da literatura brasileira. A poesia de Kolody
apresenta uma multiplicidade de temas e formas, privilegiando uma
construção poética, cuja economia dos meios de expressão – dísticos,
tankas, haicais, entre outras formas sintéticas – ficam evidentes no
conjunto da obra kolodyana.
O presente livro, além dos objetivos já explicitados anteriormente,
visa ampliar os limites da pesquisa incluindo no corpus a obra inédita
Tear de palavras. Justifica-se esta opção, porque, a meu ver, a referida
obra traz contribuições relevantes para o delineamento e amplitude da
atual proposta de abordagem, devido às qualidades estéticas e à
simbologia veiculada em seus textos.
A principal motivação para o desenvolvimento desta proposta é a
necessidade de ampliar o reconhecimento da escritora Helena Kolody,
cuja produção poética está em sintonia com o seu tempo, qualifica a
poesia contemporânea e afirma-se por uma trajetória poética alicerçada
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em um “fazer” que faz da poesia um sinal de permanência frente à


transitoriedade da vida. Para desenvolvê-la e atingir os objetivos
anunciados, este livro baseia-se em depoimentos de Kolody, em seus
livros publicados, em poemas inéditos e em pesquisa bibliográfica de
autores relacionados a teoria e crítica literárias.
O primeiro capítulo do livro apresenta o percurso de vida e as obras
de Helena Kolody. Delineia-se fases da vida da poeta e opiniões da crítica
sobre a obra kolodyana, bem como as intertextualidades com outras
formas de arte.
O segundo capítulo trata da questão da imaginação, poesia e
modernidade. Desenvolve-se, inicialmente, uma reflexão teórica cujos
conceitos são retomados no momento da análise das obras de Helena
Kolody. Aborda-se, também, o universo imaginário e poético da poeta no
que diz respeito aos signos da “poesia da vida”.
A pesquisa teórica remete ao exercício analítico e interpretativo da
obra de Kolody, tendo em vista, por um lado, o enfoque do mito de
Narciso, das imagens do desdobramento do eu e do tema da viagem,
aliados às imagens tradicionais da cultura, por outro, a análise das formas
poéticas e da concepção do fazer poético pela autora. A modernidade na
obra kolodyana situa-se, entre outras variantes, no fato de Kolody
apresentar uma linguagem que converge para a exploração das palavras.
O terceiro capítulo do livro constitui-se da análise temática sobre
o universo imaginário de Helena Kolody. Este capítulo divide-se em quatro
subcapítulos. No primeiro, são apresentados e analisados poemas tendo
em vista as temáticas, como a temporalidade, a solidão e a memória. Na
poesia de Kolody estes temas se interligam formando uma sequência
dinâmica que é marcada pelo constante fluir temporal dos ciclos da vida
aos quais a poeta imprime elementos ficcionais para alicerçar o real e o
imaginário. No segundo subcapítulo, aborda-se o tema do homem frente
à não-permanência. Os textos kolodyanos instauram momentos de diálogo
frente à transitoriedade da vida, mas é na experiência do sagrado ante a
vertigem do “próprio vazio”, no dizer de Octavio Paz, é que o homem se
aceita como é: “contingência e finitude” 6. No terceiro subcapítulo,
apresentam-se o tema do duplo e do espelho, nos quais se evidenciam
poemas selecionados em que aparecem as imagens dos desdobramentos
do sujeito poético. A principal característica da dualidade existencial é a
20 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

tendência à oscilação, através da qual o eu-lírico se debruça ora sobre o


presente, ora sobre o passado. O quarto subcapítulo gravita em torno da
temática da viagem. Os poemas kolodyanos com os recortes baseados
nesta temática apontam para a viagem enquanto busca e fuga.
O quarto capítulo trata da questão do fazer poético na poesia de
Helena Kolody. No primeiro subcapítulo, aborda-se o fazer poético
kolodyano sob a perspectiva de como Kolody interpreta sua poiesis e
como ela define a poesia em conformidade com seus textos, ou seja, o
processo criativo. Nesse ponto, são apresentados poemas em que aparece
de maneira nítida a metapoesia. No segundo subcapítulo, analisam-se a
construção poética e a “arquitetura” do projeto estético kolodyano
enquanto busca da síntese, projetada nas formas escolhidas, nos ritmos
e no enxugamento dos textos, tais como os poemas dísticos, tankas,
haicais, epigramas, quadras, entre outros. Assim, seus poemas sintéticos
indiciam o teor de modernidade e contemporaneidade.
Tear de palavras: poemas inéditos e reunidos – coletânea ( Apêndice
A), que integra o corpus da pesquisa, foi organizado e ilustrado por Anto-
nio Donizeti da Cruz.
Seguindo caminhos trilhados pela moderna lírica ocidental, a
produção de Helena Kolody apresenta os seguintes eixos norteadores: a
busca da palavra essencial, a contenção da linguagem, a reinvenção das
relações de sentidos entre o eu e o mundo, a metalinguagem, a luta do
poeta com as palavras, a comunicabilidade lírica, o compromisso social,
as indagações metafísicas, a condição do poeta, as inquietações e as
dúvidas do sujeito poético em relação à vida e ao fazer poético, entre
outros.
A amplidão da temática abordada por Kolody e a multiplicidade
das imagens exploradas pela poeta, não se esgotam nestas páginas. A
poesia kolodyana revela flagrantes do cotidiano de gerações que
atravessaram o mais importante século da historicidade paranaense e
brasileira.
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NOTA S

1
Cumpre ressaltar que o fio condutor do livro será guiado pela grande constelação de
imagens presentes na obra kolodyana, uma vez que trabalharemos vários temas distintos,
mas que se entrelaçam. Para Alfredo Bosi, a imagem é “palavra articulada”. Ela “é afim
à sensação visual. O ser vivo tem, a partir do olho, as formas do sol, do mar, do céu. O
perfil, a dimensão, a cor. A imagem é um modo da presença que tende a suprir o contato
direto e a manter, juntas, a realidade do objeto em si e a sua existência em nós”. (BOSI,
Alfredo. O ser e o tempo da poesia. São Paulo, Companhia das Letras, 2000, p. 19). Para
o poeta Octavio Paz, a imagem é “toda forma verbal, frase ou conjunto de frases, que
o poeta diz e que, unidas, compõe o poema.” (PAZ, Octavio. O arco e a lira. Trad. Olga
Savary. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982, p. 119). De acordo com Paz, a palavra
poética é ritmo, cor, significado, e mais, ela é “imagem. A poesia converte a pedra, a cor,
a palavra e o som em imagens.” (Id., ibid., p. 26-27).
2
É conveniente destacar que a poesia de Helena Kolody é apreciada por um amplo público.
Como sua obra é divulgada em muitas escolas do Paraná, as crianças e os jovens têm
contato desde cedo com a poesia kolodyana. Helena Kolody figura por seu dinamismo e
pela sua atuação competente no magistério paranaense. Nome de várias entidades e
escolas do Paraná, ela tem a admiração dos leitores e dos críticos. As ligações entre poesia
e ensino estão cada vez mais presentes no universo escolar. Esta abordagem será retomada
no primeiro capítulo, quando apresentaremos a homenagem que Helena Kolody recebeu
de alunos da Capital, em 1999. Eles entrevistaram a poeta, declamaram e ilustraram
poemas de Helena Kolody.
3
As siglas são utilizadas para identificar as obras; essas não obedecem à ordem cronológica,
mas às afinidades temáticas. As referidas citações constam das referências bibliográficas.
Os poemas e versos transcritos são acompanhados da sigla da obra, ano e número da
página em que se encontram. Em relação aos poemas da obra Viagem no espelho,
apresentados no presente livro, a primeira sigla refere-se ao título do livro e a seguinte,
separada por hífen, remete à Viagem no espelho (1999), 5. ed., publicado pela editora
da UFPR. Já as notas de rodapé iniciam a cada capítulo.
4
Viagem no espelho, obra completa que reúne os livros de Helena Kolody. A poeta participou
na organização da referida obra. Kolody sintetizou e enxugou poemas das três primeiras
obras: Paisagem interior, Música submersa e A sombra no rio, para a publicação da
Antologia Correnteza (1977) e que também aparecem aprimorados em Viagem no
espelho. Tal título é oriundo da obra Tempo (dividido em duas partes, uma dela é
intitulado “Viagem no espelho”), de Helena Kolody. Os poemas que aparecem seguidos
da sigla (TP) pertencem à obra Tear de palavras: poemas inéditos e reunidos. Cumpre
observar que no momento em que eu apresentar os livros de Kolody, no primeiro
capítulo, os poemas remetem às páginas do ano da primeira edição.
5
O tanka é um poema de origem japonesa composto de cinco versos, na ordem de 5-7-5-
7-7, totalizando 31 sílabas. Na origem, ele era denominado waka (poema do Japão) e
que contrastava com kanshi (poema chinês). Geralmente, os primeiros autores de
tankas escreviam em dupla. O primeiro compunha os três primeiros versos. O segundo
poeta completava o poema com dois versos finais. O haicai tem sua origem no tanka,
ou seja, são os primeiros três versos do tanka. Para Octavio Paz, essas duas formas de
composição clássica da arte japonesa revelam momentos “tensos e transparentes”, ou
seja, “instantes de equilíbrio entre vida e morte. Vivacidade: mortalidade.” (PAZ, Octavio.
Convergências: ensaios sobre arte e literatura. Trad. Moacir Werneck de Castro. Rio de
Janeiro: Rocco, 1991, p. 198).
6
PAZ, op. cit., 1982, p. 175.
22 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody
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1 HELENA KOLODY: POESIA E VIDA

“A consciência de que nada se repete na


travessia – longa despedida sem retorno
– e que a própria vida não dura, torna
mais precioso cada instante existencial,
com seu agudo timbre de plenitude”.

Helena Kolody (TP)

Helena Kolody, poeta, professora, “Cidadã Honorária de Curitiba”


e “Vulto Emérito de Curitiba”, nasceu a 12 de outubro de 1912, no recém-
fundado núcleo colonial de Cruz Machado (PR). Faleceu no dia 14 de
fevereiro de 2004, em Curitiba. Filha primogênita de Miguel Kolody1 e
Victória Kolody2, imigrantes ucranianos que vieram para o Brasil, ainda
crianças, aqui se conheceram e constituíram família.
Conforme depoimento de Helena Kolody 3, seu pai que era
agrimensor prático4, estava trabalhando na abertura da primeira estrada
do núcleo colonial de Cruz Machado. Em relação ao dia de seu nascimento,
ela salientou que ao amanhecer, geava forte, mas depois fez muito sol e
complementou dizendo:

Nasci num ranchinho de chão batido, feito de tábuas toscas, morada


provisória de meus pais. Embora de sangue eslavo, nasci como uma
índia e orgulho-me disso. Antes do alvorecer, milhares de pássaros se
punham a gorjear: eu me acordava e ficava ouvindo aquele canto.
Impregnei-me de natureza desde os primeiros dias de minha vida. Talvez,
isso explique o aspecto telúrico de muitos dos meus poemas.5
24 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

É no contexto de mundo da imigração e da colonização das terras


paranaenses pelos imigrantes, na primeira década do século XX, que
Helena Kolody teve seu primeiro contato com a natureza e a realidade
circundantes. O prazer pela leitura e pela poesia foi despertado em Kolody
por meio de seus pais e avós. A esse respeito ela declara:

Eu venho de uma família de leitores. Meu pai, embora trabalhasse muito,


à noite, com o lampião na mesa, cada um se sentava no seu lugar, lendo
e lendo sem parar. [...] lembro de mamãe recitando poemas nesta língua,
porque ela lia em voz alta para a gente: ‘Pensamentos, meus caros
pensamentos, eu sou infeliz convosco...’ (Não podemos esquecer que
Tarás, autor destes versos, viveu exilado). ‘Por que se alinham no papel
em fileiras tão tristes? Por que o vento não vos espalhou na estepe,
como pólen das flores?’ Minha mãe recitava isso em ucraniano e eu
decorei por influência dela.6

Ainda na infância, ela ouvia sua mãe declamar versos de Tarás


Chewtchenko7, poeta da Ucrânia. A esse respeito ela assinala:

Desde criança, ouvi os versos desse poeta. Na adolescência, cheguei a


ler seus versos no original. E comecei a traduzir alguns poemas. Os
ucranianos ficaram felizes e publicaram as traduções. Então, papai me
disse: estão bem traduzidos, mas a tradução exige muito cuidado, porque
no original, certas palavras têm uma conotação poética diferente, uma
força expressional que se perdem na tradução. Eu me acovardei e não
traduzi mais. [...] as poesias do Tarás eram rimadas, eu também quis
traduzir com rimas e introduzi palavras que não existiam no original e,
com isso, traí o poeta.8

O ambiente familiar contribui para despertar o seu amor e enlevo


para com a poesia. Provavelmente, reside nisso a sua fascinação pelos
motivos eslavos. Kolody acredita que há uma certa “eslavidade” em sua
maneira de ser, como marca de sua origem. Embora ela seja
“apaixonadamente brasileira”9, reconhece a influência da cultura ucraniana
que recebera do meio familiar, ao afirmar:

Eu fui uma criança bilíngue porque falava português com meus irmãos e
ucraniano com mamãe. Vivia-se todo aquele cultivo que até hoje se tem
das tradições. Sou a primeira brasileira da família, então isso tem de
Ant onio Donizet i da Cruz R 25

influenciar a gente e até mesmo certas características psicológicas acabam


sendo marcas da gente.10

No ambiente de sua infância predominava a cultura ucraniana. Sua


família, distante da terra de origem, teve a preocupação de conservar os
costumes, a cultura e a língua ucraniana. Em Três Barras, Helena Kolody
viveu a maior parte de sua infância (1914 a 1920) e ingressou no mundo
da leitura e da escrita. Foi alfabetizada pela tia Rosa Procopiak. As
reminiscências dessa fase aparecem em poemas como “Infância”, em
que a poeta cantará em versos de beleza ímpar, através da revisitação do
eu-lírico: “Aquelas tardes de Três Barras,/ Plenas de sol e de cigarras!”11.
Segundo Kolody, Três Barras foi uma vila que cresceu em torno da
Serraria Lumber, que extraía madeira dos pinheirais da região. Era a maior
serraria do Sul do país, onde “havia uma montanha de serragem que à
noite a gente via como uma montanha de brasas. [...] Lá iam os pinheiros
do Brasil...”12.
A constatação da destruição da natureza se faz presente nos
seguintes versos do poema “Serraria”: “Longo estilete, o agudo som das
serras / Transpassa o silêncio. // [...] // Brancos cadáveres mutilados, /
Toras, no pátio, jazem ao sol. // [...] // No cheiro penetrante da madeira, /
Evola-se em fragrância a alma da selva. // Distante, o coração da mata
estremece / Ao choque dos pinheiros derrubados.”13
São versos que revelam a preocupação do sujeito poético para com
a destruição da natureza. A imagem do pinheiro (símbolo do Paraná)
aparece de maneira recorrente na obra de Helena Kolody, bem como no
imaginário14 dos escritores, poetas e pintores paranaenses.
De 1920 a 1922, Kolody estudou no Grupo Escolar “Barão de
Antonina”, de Rio Negro (PR), onde concluiu o curso primário. Nessa
cidade, ela pastoreou cabras: “Enquanto elas pastavam, eu conversava
sozinha. [...] Como eu falava! Deve ser porque sempre fui do tipo solitário
e os meus pensamentos já voavam com muita intensidade... eu já era
‘poeta’!”15.
De 1923 a 1924, ela estudou no Colégio Divina Providência e na
Escola intermediária (atual Instituto de Educação do Paraná), na Capital.
Em 1924, ela foi morar em Mafra (SC). Formou-se em guarda-livros,
estudou piano, pintura e escreveu seus primeiros poemas, por volta dos
treze anos. Kolody afirma que, na sua adolescência, começou a escrever
26 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

poesia por um “imperativo interior”, sem ter nenhum conhecimento de


arte literária, mas ressalta que, desde os tempos do Grupo Escolar,
habituara o ouvido à música dos versos. Ao voltar ao passado, ela lembra
que: “Por puro prazer, eu decorava as poesias de meu livro de leitura e
procurava cantá-las com a melodia dos hinos escolares”16.
No ano de 1927, a família Kolody passou a residir em Curitiba e se
estabeleceu com um armazém de secos e molhados. Em 1928, Helena
Kolody publicou o primeiro poema, intitulado “A lágrima”17, na revista O
garoto, editada por estudantes.

A lágrima18

Oh! lágrima cristalina,


Tão salgada e pequenina,
Quanta dor tu não redimes!
Mesmo feita de amargura,
És tão sublime, tão pura
Que só virtudes exprimes

Ao coração torturado,
pela saudade magoado
Pelo destino cruel,
Tu és a pérola linda
do rosário que não finda,
Feita de tortura e fel

1928

A partir 1930, por iniciativa dos escritores Ilnah Secundino e Rodrigo


Júnior, seus poemas foram publicados no jornal Diário dos Campos (jornal
de Ponta Grossa) entre outros e, também, na revista Marinha,19 editada
em Paranaguá.
De 1928 a 1931, Helena Kolody cursou a Escola Normal Secundária
(atual Instituto de Educação do Paraná). Em 1931, recebeu o diploma de
normalista. Em 1932, estreou no magistério, na mesma Escola de Rio
Negro, em que havia estudado. Em 1933, passou a atuar na Escola Nor-
mal de Ponta Grossa, onde lecionou durante quatro anos. Em 1937, ela
fixou residência em Curitiba, pois se transferiu para a Escola Normal de
Curitiba (atual Instituto de Educação do Paraná). Ensinou em Curitiba
Ant onio Donizet i da Cruz R 27

durante 23 anos (com interrupção no ano de 1944, quando atuou na Escola


de Professores de Jacarezinho, PR.), até aposentar-se. Exerceu
simultaneamente o magistério e a função de inspetora federal do MEC.
Dessa maneira, prestou serviços a vários estabelecimentos de ensino na
Capital; cumpriu também a função de secretária do Fundo Nacional de
Ensino Médio. Professora dedicada, Kolody conquistou popularidade e
respeito entre seus alunos. Sobre a conjugação poesia e ensino, ela declara:

O magistério e a poesia são as duas asas de meu viver. O magistério foi


escolha. A poesia, um imperativo psicológico. Fui professora pelo impulso
irresistível da vocação. Dediquei, com amor e entusiasmo, os melhores
anos de minha vida à missão de educar. A sala de aula era o meu lar, o
meu mundo; os alunos, minha família pedagógica.20

Da confluência magistério e poesia, a poeta se insere no tempo e


registra seu depoimento:

Sou Helena Kolody, paranaense de Cruz Machado, vivendo há mais de


meio século em Curitiba. Por vocação e escolha fui apaixonadamente
professora. Nasci poetisa. Desde criança amei os pássaros, as palavras
e as canções. Na adolescência, comecei a cantar meus sonhos em versos.
De sonhos aprisionados em poemas inventei muitos livros. Dedico-me
agora a aplaudir as novas gerações.21

São afirmações que demonstram sua paixão pelo magistério e à


literatura, registrando, assim, seu contato com as palavras, com a poesia
e sua atuação no exercício de ensinar e de aprender no Paraná.
Helena Kolody, personalidade humana e literária marcante, tem uma
trajetória poética singular, tal como comprova a fortuna crítica de sua
obra. Publicou doze livros de poesia e doze antologias, além de inúmeros
poemas publicados em revistas e jornais. Emergiu para a literatura
brasileira em 1941, com o livro Paisagem interior22, publicado às suas
próprias expensas23. Essa obra é muito bem realizada, por ser de uma
jovem estreante. No ano seguinte, a obra foi classificada em 2º lugar no
“Concurso de Poesia” promovido pela Sociedade de Homens de Letras,
do Rio de Janeiro, mas não recebeu o prêmio. Esta publicação foi decisiva
para Helena Kolody, pois registra seu nome no panorama da literatura
28 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

brasileira e marca o início do reconhecimento pelo círculo crítico-literário


paranaense e brasileiro dos quais vem recebendo destaque por sua
constante produção poética.
Ao elogiar a obra inaugural de Helena Kolody, Rodrigo Júnior afirma
que ela revela um espírito independente em arte: não se apega a cânones
estéticos, não se submete à imposição de preceitos ou regras escolásticas.
Ao situar a poesia kolodyana no que há de mais moderno, o autor salienta
que, “irrefragavelmente, o verso da autora de Paisagem Interior se destaca,
com magnífico relevo, exibindo um colorido inédito, um frisson de ideias
modernas, na poesia feminil paranaense da hora presente”24.
Já o escritor Tancredo Morais, em artigo intitulado “A poesia
paranaense apreciada lá fora”, publicado em O Dia, de Curitiba, faz a
seguinte crítica sobre a obra de Kolody:

São poemas de real valor e ‘deliciam’ pela musicalidade, pela síntese,


pela beleza dos símbolos, pela elevação dos vôos do pensamento. Em
sua maioria, são versos íntimos, – uma introspecção – o que justifica o
título da obra, – porém, versos cheios de um espiritual lirismo, vazados
numa variedade de ritmos polimétricos, é verdade, mas com segurança,
repassados de ternura, e na sua essencialidade sobrevoados de conceitos
filosóficos, onde há inspiração e talento.25

Registra-se, aqui, a observação atenta do autor em relação ao


processo de síntese que é a marca da poesia de Helena Kolody,
característica que, no panorama da literatura brasileira, partilha com Paulo
Leminski, Alice Ruiz, Pedro Geraldo Escosteguy, Sérgio Rubens Sossélla,
João Manuel Simões, entre outros.
Com Paisagem interior, Kolody desenvolve uma poética centrada
na linguagem com seus jogos de imagens, alternando formas livres e
metrificadas. O soneto intitulado “Sonhar”, em versos alexandrinos, traduz
toda a criatividade da poeta em relação ao mundo onírico, tais como
revelam os seguintes versos: “Sonhar é transportar-se em asas de ouro e
aço/ Aos páramos azuis da luz e da harmonia;/ É ambicionar o céu; é
dominar o espaço/ Num vôo poderoso e audaz da fantasia”26. Nota-se
que na referida obra aparecem quatro sonetos. Ainda em Paisagem inte-
rior, destacam-se a linguagem coloquial e prosaica, o versilibrismo, a
Ant onio Donizet i da Cruz R 29

musicalidade, o perfeito jogo sonoro e o ritmo bem acentuado (elementos


preponderantes na poesia kolodyana). Por trás de uma aparente
simplicidade dos poemas, há toda uma elaboração rigorosa em relação à
linguagem. A poeta alterna poemas longos27 com poemas sintéticos, tal
como no haicai intitulado “Felicidade”: “Os olhos do amado/ Esqueceram-
se nos teus,/ Perdidos em sonho”28. A temática onírica e o tema do amor
estão presentes nos versos deste poema miniatural de origem japonesa.
Dialogando constantemente com o leitor, Kolody realiza uma poiesis
que opera como exercício máximo de rigor e emoção com a linguagem,
sobressaindo a maneira de dizer e nomear as coisas, com versos repletos
de recursos imagéticos. Em “Atavismo”, o eu-lírico declara:

Quando estou triste e só, e pensativa assim,


É a alma dos ancestrais que sofre e chora em mim.
[...]

Saudade singular da estepe que não vi!


Pois até o marulhar misterioso e sombrio
Da água escura a correr com a imponência dum rio
Lembra, sem o querer, numa impressão falaz,
O soturno Dniepér29 cantado por Tarás...30

O elemento atávico, a saudade, a melancolia, são temas recorrentes


na poesia kolodyana. Os impulsos criadores oriundos da ancestralidade
e da memória coletiva ganham contornos próprios em sua obra.
Música submersa (1945) é uma obra que apresenta a temática so-
cial de forma sintética. Nos versos do poema “A injusta oferenda”, há o
diálogo da poeta com o mundo e o tempo presente, marcado pela Guerra
e problemas sociais. Por ter crescido em meio à opressão “entre os braços
da guerra”, o “menino sem terra” não acredita nos heróis. Sugere-se, nos
versos, a ideia de obliteração, fechamento, angústia, marcada pela dor
face à guerra. No dizer do eu-lírico:

Não há sombra de mágoa, ou sinal de pavor,


Nem relâmpagos de ódio, ou lampejos de amor
Nessa ausente expressão do menino sem nome,
Que impassível se junta às fileiras da fome.
30 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

Que é dos brinquedos, dos mitos, das lendas?


Quem manchou de miséria, e de lodo, e de sangue
A formosa alvorada inocente da infância?31

Com nuanças diversificadas, Música submersa apresenta o tema


da brevidade da vida. Em “Efêmera”, o eu-lírico afirma: “A inexpressiva
multidão dos anos/ Passou, anônima e apressada.// Afinal./ Eu vivi,/ Ou
sonhei que vivi?”32 Os questionamentos do eu em relação à vida e ao
tempo que passa célere ficam patentes no texto. Já nos versos do poema
“Paradoxo”, o eu-lírico declara: “Por que há um rosto sombrio voltado
pra parede/ A soluçar baixinho, algures, dentro de mim?”33 Nota-se, nos
versos, o tema do duplo.
Helena Kolody aprimora a condensação da linguagem e os seus
poemas se tornam mais breves, entre eles, o haicai “Pereira em Flor”:
“De grinalda branca,/ Toda vestida de luar/ A pereira sonha”34. Nota-se
que a poeta constrói seus poemas de forma concentrada, enxuta e
imagética. O lirismo flui livremente, imbuído de uma carga semântica
espontânea.
O poeta Carlos Drummond de Andrade, ao se referir à obra Música
submersa, diz que encontrou, “com alegria, poemas como ‘Rio d’água’ e
‘Pereira em flor’, em que à expressão mais simples e discreta se alia uma
fina intuição dos ‘imponderável’ poéticos”35. Esta afirmação é importante,
pois Drummond observa na poesia kolodyana a linguagem marcada pela
singularidade e pela discrição aliadas a um fazer poético em que
sobressaem as sutilezas da poesia. Há que se destacar que a poiesis
kolodyana se estrutura na palavra elaborada com preciso rigor e coerência.
Ao realizar uma poesia aparentemente simples, mas portadora de uma
essência e profundidade verdadeiras, Kolody consegue atingir um
diversificado público leitor.
Para o cineasta e escritor Sylvio Back, Helena Kolody tem uma
obra de indiscutível permanência, de originalidade e de modernidade
diccional, pois sua matéria-prima é “um mergulho abissal na alma das
palavras e nas palavras da alma. Para tudo fluir como se uma epifania
fora em torno dela, seu memorial atávico, sua religiosidade quase ímpar
[...], seu estar aí na própria arquitetura do poema36”. Back tece ainda a
seguinte opinião sobre as formas poéticas empregadas pela poeta ao
longo de sua trajetória:
Ant onio Donizet i da Cruz R 31

Não demorou, e teve que aprender a metrificar à moda de Olavo Bilac.


Meteu-se pelos arraiais do soneto – quase uma lei para o poeta iniciante,
o paradigma-mor da poesia, ainda que já vigorasse a implosão do
Modernismo nos idos de 1930. Helena logo pulou fora e ancorou seu
estro no verso livre. Dele – quando estréia com ‘Paisagem interior’ (1941)
e reincide em ‘Música submersa’ (45) – para o hai-kai foi o amadurecimento
de um estilo que acabou virando marca.37

Nas afirmativas de Back encontra-se uma exposição de maneira


sucinta do percurso poético de Kolody, que inicia no movimento
modernista e que, aos poucos, vai se encaminhando para uma poesia
cada vez mais sintética.
Múltiplas são as publicações e opiniões da crítica sobre a poesia
de Kolody, sobre as quais faz a seguinte afirmação sobre o incentivo que
tem recebido da crítica: “Desde o início encontrei estímulo e apoio, embora
os poetas da ‘velha guarda’ daquele tempo lamentassem minha paulatina
libertação do metro e da rima. Naquela época ainda imperava o soneto”38.
A poeta salienta ainda que os primeiros incentivos vieram de duas grandes
amigas: Helvídia Leite e Iva Mendes. Depois, de Ilnah Secundino, Eolo
César de Oliveira, Heitor Stokler e Rodrigo Júnior. A crítica construtiva
de Andrade Muricy foi por demais relevante, afirma. Helena ressalta que,
ao longo de seu caminho de poesia, sempre encontrou compreensão e
apoio de escritores ilustres, amigos, colegas, alunos e, se não os cita é
“para não incorrer em erro de omissão”39. A crítica de Muricy tocou no
aspecto essencial de sua obra, ao observar que, nos poemas breves,
Kolody conseguia atingir uma maior concentração verbal dizendo muito
em poucas palavras.
Em 1949, com os originais de A sombra no rio, Helena obtém o
terceiro lugar no “Concurso de Livros”, gênero poesia, promovido pelo
Centro de Letras do Paraná. Recebe o prêmio “Ismael Martins” (publicação
da obra), sob o patrocínio da Prefeitura Municipal de Curitiba. A obra,
editada em 1951, é composta de versos livres. Os versos são
essencialmente líricos, acentuados pelos ritmos fluentes e cadenciados.
“Segredo” traz a temática da morte de maneira clara: “Há um segredo
transcendente/ na quieta face dos mortos:/ Não sei que ar de pássaros
em viagem,/ De água de rio a integrar-se no mar.// Que sobre-humana
alegria os transfigura?”40. Os temas da viagem, dos desdobramentos do
32 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

eu, da morte e vida formam constelações poéticas com as quais Kolody


registra seu olhar atento à relação natureza-mundo sem jamais perder de
vista o eu e o outro. Da confluência poesia-natureza surgem poemas
miniaturais: “Alegria”: “Trêmula gota de orvalho/ Presa na teia de aranha/
Rebrilhando como estrela” 41. Ou ainda: “Ipês floridos”: “Festa das
lanternas!/ Os ipês estão luzindo/ De globos cor-de-ouro”42. “Orgulho”:
“Com frios dedos convulsos/ Desfolhas tua alma orgulhosa,/ Como se
fosse uma rosa”43. Registra-se aqui, a poesia-síntese de origem japonesa.
Cecília Meireles, ao se referir à obra A sombra no rio, em carta
datada de 6 de março de 1952 e publicada em Rumo paranaense, tece
a seguinte afirmação: “Muito sentido, o seu livro; muito melancólico –
mas que é a poesia senão sentido melancólico?”44.
O crítico e escritor Tasso da Silveira publica em A Estante, revista
do Rio de Janeiro, o artigo “Pura poesia e crítica impura” e, ao comentar
sobre a obra A sombra no rio, afirma que a poesia de Helena Kolody “é
feita de amargor e sabedoria a um só tempo. E traz a marca do poeta
verdadeiro: o do amor profundo ao vocábulo”45.
A escritora Pompília Lopes dos Santos, em seu artigo “A sombra
do rio”, publicado em O Estado do Paraná, a 14 de março de 1952, afirma
que esta obra é “a projeção do eterno sobre o transitório” e traduz “uma
espiritualidade surpreendente”, isto é, “trata com sabedoria invulgar das
coisas subjetivas. [...] Há música, beleza, harmonia e espiritualidade na
poesia de Helena Kolody”46.
As afirmações dos autores direcionam para uma observação de
temas que são trabalhos em todas as obras de kolody: o tempo, o
sentimento de melancolia do eu-lírico, a questão da efemeridade e
permanência, a dicotomia do plano terreno versus espiritual, o amor
sublimado, a solidão, a memória com suas lembranças e esquecimentos,
entre outros.
Em 1964, Helena publicou Vida breve. Na obra, vigoram os temas
recorrentes: a efemeridade da vida, a viagem enquanto busca e refúgio, a
solidão, a vida e a morte, a natureza com suas mutações e o tempo,
como sugere o próprio título do livro. No tocante ao aspecto formal, os
poemas são construídos em versos livres. Sobressaem os poemas curtos,
sintéticos. Os dísticos e tercetos aparecem de maneira acentuada na
referida obra, tal como nos versos do poema intitulado “Cisterna” – “Nem
Ant onio Donizet i da Cruz R 33

o bailado leve das avencas/ Consola a água prisioneira”47 –, que projetam


uma aguda consciência dos limites humanos. A voz do sujeito lírico se
faz nítida nos versos do poema “Cantiga”: “Tudo que a vida negou,/ O
sonho sempre me deu./ O próprio sonho rolou/ Nas águas fundas do
olvido”48. O onírico é força capaz de realizar os anseios mais profundos
do eu. A vida tem seus limites, mas há o sonho.
Assim, a poesia kolodyana dá sinais de um fazer poético e temáticas
múltiplas em que predominam as impressões subjetivas e ternas frente
a um mundo agressivo, hostil. Dessa maneira, o momento presente é
visto pelo eu-lírico da seguinte maneira: “Violentos vendavais de todos
os quadrantes/ Quebraram o equilíbrio estável da existência./ O tufão
apagou os antigos roteiros”49. Na observação do desequilíbrio da natureza
e instabilidade das coisas e acontecimentos, a voz do poeta é canto capaz
de concretizar os desígnios de uma construção alicerçada no poder do
verbo, na participação e no amor, pois como diz Edgar Morin, “o sentido
do amor e da poesia é o sentido da qualidade suprema da vida. Amor e
poesia, quando concebidos como fins e meios do viver, dão plenitude de
sentido ao ‘viver por viver’”50.
O escritor Manoel Lacerda Pinto, em seu artigo “Helena Kolody e
Vida Breve”, publicado no Jornal do Commércio, do Rio de Janeiro, a 20
de setembro de 1964, afirma que “tudo é precioso neste livro, de forma
que o destaque de alguns poemas não significa desdém pelos demais”51.
Em 1966, Helena publicou Era espacial. O tema da viagem sobressai
nesta obra, mas outros também se interligam a esse de maneira
recorrente: a solidão, a transitoriedade, os elementos solares, o
“maquinomem” (neologismo), a natureza, a religiosidade, entre outros.
Os poemas são curtos, sintéticos. No texto intitulado “Século atômico”52,
fica evidente a preocupação do eu-lírico em relação às guerras nucleares,
ao afirmar: “Mundo pletórico e aflito,/ em perigo de explodir” (primeira
estrofe). Na segunda estrofe, constata-se o aprisionamento do homem:
“Nas metrópoles milimetradas,/ cortadas de ordenadas e abscissas,/
vivem homens do século atômico/ enlatados nos arranha-céus,/ selados
pelos regulamentos,/ catalogados”53. Os versos do poema “Herança
atômica” também trazem a seguinte constatação e inquietação do eu-
lírico: “Atra nuvem radiativa/ chove morte sobre os campos”54. Kolody
escreve esta obra em meados dos anos 60, numa década caracterizada
34 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

pela noção de “absurdo”, contestações, massificação e, também, marcada


pela guerra fria entre russos e americanos, salientando sempre a
possibilidade de uma guerra atômica, que poderia levar o mundo a um
holocausto.
Segundo Reinoldo Atem, na obra Era espacial, a linguagem de Hel-
ena Kolody assimila a modernidade, com o predomínio do verso livre, o
abandono das maiúsculas em início de verso e a introdução de
neologismos. “A poeta está encantada com a tecnologia que permite ao
homem vencer os limites naturais do planeta. Mas não adota a atitude
de deslumbramento submisso de algumas vanguardas perante o universo
da tecnologia”55.
Na opinião de Paulo Venturelli, Era espacial traz no título uma adesão
à contemporaneidade e um sentido de avanço no que diz respeito ao
progresso no mais amplo sentido, “sugerindo um trabalho sobre a
tecnologia e a partir de novas visões que ela proporciona, além de levar
em consideração os limites que vão sendo superados à medida que o
homem mais se conhece e conhece o universo”56. Daí o autor afirmar:
“Parece que à poeta é importante dizer: todo o avanço da ciência não tem
trazido nenhum lenitivo às antigas chagas que ferem a humanidade desde
sempre”57.
Em Trilha sonora (1966), acentuam-se os temas da natureza com
suas mutações, o tempo, a solidão, a incompreensão humana, a
melancolia, e outros. Os versos metafóricos do poema dístico “Cromo”
privilegiam os elementos da natureza: “No silêncio luminoso da tarde/
as árvores desfolham-se em pardais”58. A imagem do tempo se destaca
no poema “Fardo”: “Como pesa o vestido do tempo/ no espírito
imortal!” 59. A transcendência fica explícita nos versos do poema
“Ressurreição”: “Esse corpo que levas como um fardo/ ressurgirá na pleni-
tude da beleza/ para a vida perfeita/ e se erguerá da cinza do tempo,/
como existiu no pensamento de Deus,/ desde toda a eternidade”60. São
versos que direcionam para o tema da religiosidade e, ao mesmo tempo,
exprimem a autocontemplação espiritual de um eu que deseja alcançar a
transcendência.
Para Vasco José Taborda, Trilha Sonora “traz ao espírito a gravação
sônica dos filmes”, cujos versos refletem “estados de alma motivados
pelo mundo que vive [...]. Versos que lembram ao homem a fugacidade
da vida perante o eterno, o inexorável”61.
Ant onio Donizet i da Cruz R 35

O crítico e escritor Andrade Muricy, incentivador e divulgador


da poesia de Helena Kolody, escreveu-lhe, em carta datada de 26 de
setembro de 1968, publicada em Rumo Paranaense, tecendo a seguinte
crítica sobre poemas da obra Tempo, de Kolody:

Il est encore des îles de lumière. A expressão é de Daniel-Rops, em ‘Présence


et Poésie’. Aceite tranquilamente que essas ‘îles de lumière’ as lembre
pensando em sua poesia. A expressão do grande ensaísta vai como luva
na sua obra, feita de pureza, luminosidade espiritual e alada vivacidade.
Esta breve série: ‘Tempo será’, ‘Calidoscópio’, ‘Arte’ e ‘Dilema’,
representa uma essencialização progressiva, e, em cada um dos pontos
de incidência de sua criatividade, um momento definitivo, – sem
contradição de termos. Não sei decidir-me por preferência particular:
os quatro poemas são admiráveis! De perfeita maturidade, sem perda
de frescura e qualidade da imaginação.62

Muricy, perspicaz em sua crítica, encontra na obra kolodyana o


processo de “essencialização progressiva” de quem busca a síntese como
uma constante na concepção poética.
Em 1970, Helena Kolody publicou Tempo, onde o conflito homem
versus mundo fica claro no conteúdo dos poemas. Há vários temas, já
trabalhados, que se entrelaçam: o tempo, a solidão, o atavismo, a
religiosidade, a metaliteratura, a viagem enquanto busca e fuga.
Comparece, também, a temática social, como nos versos do poema
“Pesadelo”: “Em colunas cerradas de algarismos/ a fome agredia/ a vida
nascitura”63. O texto “Caleidoscópio”64, com seus versos: “A cada giro
de espelhos,/ muda o vitral da vivência./ Não permanece a figura./ Nem
um desenho regressa”65, deixa claro que a vida é um processo contínuo
sem voltas. A não-permanência das coisas fica evidente, pois as imagens
da figura e do desenho não conseguem perdurar. Nada resiste ao tempo,
nada permanece. Em “Tempo será”, o eu-lírico acredita que um novo
tempo virá, um tempo sem angústias, “Tempo em que o novo de agora/
será longínquo e perdido [...]./ Tempo será sem assombros”66.
Para Graciette Salmon, os versos de Tempo são “rápidos, curtos,
mas transbordantes de autenticidade”. Seus poemas são sustentados
“pelo equilíbrio entre a condição humana e o sopro da alma. Assim, o
universo poético, engendrado nas páginas desse livro, é reafirmação de
36 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

uma voz em permanente compromisso com a Arte e nunca desvirtuada


na intenção de sua mensagem”67.
Miguelina Soifer, em seu artigo “Tempo e instantaneidade em
Kolody”, publicado na revista Letras, de Curitiba, afirma que Tempo é um
“livro-resumo”, em que “o poeta ascendido e despojado para a visão
retrospectiva, pronuncia seu Benedicite à vida”68, e também lança seu
“olhar interior a procura de respostas para as grandes interrogações:
sentido da arte, missão do poeta, poesia como destino. Kolody ‘situa-se’
na vida como poeta”69.
Publicado em 1980, o livro Infinito presente70 reúne 58 poemas
sintéticos, nos quais vários temas se entrelaçam: a viagem, a efemeridade,
a solidão, o silêncio, a morte e a metaliteratura. Os poemas dessa obra
são marcados por um lirismo contido numa linguagem que persegue um
mesmo tema: a natureza e a função da poesia. No texto “Retrato” – com
epígrafe de Jorge de Lima: (O poeta é um pantomimo”) –, o poeta é
definido como:

RETRATO

(“O poeta é um pantomimo”)


Jorge de Lima

Um sagaz ilusionista,
cria prodígios do nada.

Malabarista de imagens,
trapezista e dançador,
faz destras acrobacias
em barras de alegorias.

Voa entre o céu e os abismos


o feiticeiro inventor.71

A figura do poeta enquanto “feiticeiro inventor” surge em destaque.


Ele é também capaz de praticar todas as peripécias e procedimentos
relacionados à arte da palavra. Assim, ele é capaz de operar as magias
das palavras e fazer do ato criador um momento de descontração, podendo
até mesmo “voar”.
Ant onio Donizet i da Cruz R 37

O poeta Carlos Drummond de Andrade, em carta datada de 25 de


agosto de 1980, a respeito dessa obra, dirige a seguinte observação à
Kolody: “Tão simples, tão pura – e tão funda – a poesia de Infinito
Presente! Você dominou a arte de exprimir o máximo no mínimo, e com
que meditativa sensibilidade!”72. Cumpre destacar que, para Drummond,
nesse livro, a característica essencial na poesia kolodyana é a síntese
poética. Com esse procedimento, a poeta aprimora e realiza o fazer poético
com competência. A cada nova publicação, os poemas aparecem mais
sintéticos, privilegiando a economia dos meios de expressão, o
enxugamento e atingindo um grau máximo de reflexão.
Segundo a escritora Pompília Lopes dos Santos, os poemas do
Infinito presente conduzem às mais profundas reflexões, observando que,
há muito consagrada pela crítica especializada, “Helena Kolody – poeta
essencial e magistral da terra das araucárias, coloca nesse instante o
selo de ouro em sua produção artística. É a hora apoteótica em que as
emoções oriundas de sua delicada sensibilidade se transformam em
conceito”73.
Em 1984, Maria de Lourdes Martins escreveu a primeira dissertação
de mestrado sobre a poesia de Helena Kolody intitulada O infinito como
motivo poético em Helena Kolody74. Essa foi apresentada no Curso de
Pós-Graduação em Letras da Universidade Católica do Paraná. Para a
autora, o motivo poético “infinito” estabelece dois planos na cosmovisão
da obra de Kolody. O primeiro refere-se a sua sensibilidade diante da
vida, com uma transparente preocupação com a problemática da
fragilidade da humanidade as quais se expressam nas carências do
homem, como a fome, a tristeza, a solidão e a pequenez diante da
grandiosidade da natureza – e que é enquadrada como “plano de ideal
comum e potencial”. O segundo diz respeito à concepção de um “plano
de ideal superior”, que “estabelece a religiosidade em sua vida, fazendo
com que seus anseios se voltem para o outro lado da vida, o da
eternidade”75.
Sempre palavra (1985) é uma obra marcada pela brevidade, em
que os signos linguísticos apontam para o grande poder de permanência
projetada na visão lúdica, participativa e atuante do sujeito lírico. A eficácia
dessa obra reside na força da linguagem poética, concentrada, meio de
comunicação que torna solidários o poeta e o leitor. O poema “Outra
38 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

dimensão” instaura questões para as quais não há respostas fáceis ou


imediatas. A qualidade oscilante no ritmo e as interrogações inexoráveis
apontam para dilemas como a do questionamento da linguagem. O
sujeito lírico indaga: “Quem pintará/ a voz e a canção?// Quem prenderá/
no cárcere do verso/ a miragem e o sonho,/ o vôo e o pensamento?”76
Pela palavra, a poesia torna-se expressão de uma mediação fraterna e de
comunhão. No haicai “Que sabem?”, com seus versos: “Que sabem do
sol/ os morcegos e corujas?/ São filhos da noite”77, expressa-se a oposição
dos contrários, sempre relacionados à natureza. Já o tema da morte é
latente no poema “insinuação”, com seus versos: “Aragem ou vento forte,/
insinua-se nas mais/ transbordantes alegrias/ e nas tristezas totais,/ o
sentimento da morte”78. A temática da morte é recorrente na obra
kolodyana.
A respeito de Sempre palavras, o escritor Paulo Leminski tece a
seguinte opinião:

A padroeira da poesia em Curitiba acaba de fazer mais um milagre.


Chama-se Sempre palavra, tem apenas cinquenta páginas e inclui uns
quarenta pequenos poemas. Mas tem luz bastante para iluminar esta
cidade por todo um ano [...]. Vida. Esse é o assunto de Helena Kolody.
Não é à toa que essa nossa mestra de poesia é professora de biologia.
Mas tudo isso que eu digo não passaria de uma efusão sentimentalóide,
se a poesia de Helena não se sustentasse em nível de linguagem, de
design, de essência.79

Ao se referir à Helena Kolody, Leminski, assinala que “nossa


padroeira é o poeta mais moderno de Curitiba, de uma modernidade de
quase oitenta anos”:

Quando, em 1941, Helena publica, em Curitiba, as suas próprias custas,


a coletânea ‘Paisagem Interior’, seu primeiro buquê de poemas, Bilac
ainda é um Deus, o Modernismo de 22 ainda é apenas um escândalo e
a poesia só é reconhecível nos trajes de gala do soneto. [...] o rico
movimento simbolista [...] presente no Brasil todo, tinha tido em Curitiba
o seu centro mais ativo: É Brito Broca quem diz, em 1910, Curitiba era
cidade literalmente mais importante do Brasil. Basta ver que oito das
quinze revistas do Simbolismo brasileiro foram editadas aqui, entre 1895
e 1915. Mas quando Helena começa a produzir e publicar, esse momento
Ant onio Donizet i da Cruz R 39

já tinha passado, deixando atrás de si apenas um perfume e uma


vibração.80

Segundo Leminski, há uma grande aproximação do texto de Hel-


ena Kolody com o do gaúcho Mario Quintana, cujo processo refratam “a
mesma pureza, a mesma entrega, a mesma singeleza, a mesma santidade.
Só que Helena é a mais hai-kai”81.
Poesia mínima (1986), livro sintético, condensado, é marcado pela
simplicidade, fluidez do discurso. Ele é resultado de um esforço criativo
e da experiência poética e humana de Helena Kolody. O canto solidário, a
exaltação cósmica e a valorização da vida ficam evidentes na obra, que
está “regida pelo duplo princípio da variedade dentro da unidade”, tal
como observa Octavio Paz82 em relação à lírica, que vê o poema sintético
como “uma canção”, justamente por estar “reduzido à sua forma mais
simples e essencial”83. Tais procedimentos podem ser verificados no
poema:

POESIA MÍNIMA

Pintou estrelas no muro


e teve o céu
ao alcance das mãos.84.

O texto – metafórico e sintético – projeta uma linguagem


artisticamente elaborada. Ou ainda, uma poesia com registros de
indagação, como no poema “Qual?”, com seus versos: “Damos nomes
aos astros.../ Qual será nosso nome/ nas estrelas distantes?”85. A brevidade
é “marca registrada” da poesia kolodyana. Com sua maneira de sintetizar
o pensamento, Kolody articula a linguagem e faz da poesia um credo.
Nos versos do poema “Pingo de chuva”, a relação do eu com a natureza-
mundo fica evidenciada na voz do sujeito lírico: “o que penso,/ o que
digo/ o que sou.../ pingo de chuva no mar”86. No ofício do verso, a poeta
registra seu olhar atento perante a vida.
Para Alice Ruiz, na obra Poesia mínima, “a frase/poema sai do
cotidiano, passeia pela experiência da sensibilidade e termina por acertar
no ponto limítrofe entre o pensar e o sentir”87. Segundo Ruiz, a poesia
kolodyana é repleta de “gotas de sabedoria”, ou seja, “quando Helena
40 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

fala e escreve, poesia e vida se confundem uma na outra. Aqui, o coração


está exposto e, por isso mesmo, destinado a ser mistério, no texto e na
fala”88.
A dissertação de mestrado, intitulada Panorama da poesia
contemporânea em Curitiba89 de autoria de Reinoldo Atem, apresentada
no Curso de Pós-Graduação em Letras, do setor de Ciências Humanas,
Letras e Artes da Universidade Federal do Paraná, em 1990, dedica parte
do estudo à obra de Kolody. Atem assinala que a poesia kolodyana visa
“dialogar com amplos públicos, indiscriminadamente, sem selecionar
platéias, dirigindo-se a todas as pessoas [...]. Essa posição da poeta perante
o receptor, de envolvimento, mesmo que na distância de sua solidão,
permanecerá por toda sua obra, de linguagem clara, sem
rebuscamentos”90.
Ontem agora: poemas inéditos (1991), com poemas breves e
condensados, apresenta uma multiplicidade de temas tais como: o fazer
poético, o tempo, o memorialismo fixado na infância, a presentificação
do momento passado revisitado pelo sujeito, a saudade, a natureza, a
vida e a morte, entre outros. O livro foi organizado pela escritora Regina
Benitez, com uma edição muito bem realizada 91. Todos os poemas
aparecem em manuscrito92. A obra é prefaciada pelo escritor Helio de
Freitas Puglielli. Quanto a sua publicação, eis o que observa Helena Kolody:

A culpada é a Regina Benitez. Eu estava firmemente decidida a não publicar


mais nada. Ela, porém, com aquela serena persistência de gota d’água
caindo na pedra, foi minando minha resistência. E venceu. Publicar um
livro... Mas, que livro? Comecei a colher algumas papoulas dispersas
no campo ceifado.93

A síntese sobressai na referida obra. Os poemas, na maioria, são


dísticos e tercetos, quadras, entre outras formas sintéticas. No poema
“Sem aviso”, o eu-lírico salienta: “Sem aviso,/ o vento vira/ uma página
da vida”94. São versos que mostram a questão da brevidade da vida. Na
mesma perspectiva, a poética da brevidade é a tônica que movimenta a
poesia kolodyana.
A obra Reika95, publicada em outubro de 1993, por iniciativa de
Nivaldo Lopes, reúne 28 poemas (haicais e tankas), marcados pela síntese
e brevidade que apontam para a sutileza das imagens, para a manifestação
Ant onio Donizet i da Cruz R 41

da natureza, em que a poeta capta o instantâneo, o momento único,


engendrado por uma “lumino-transparência”. Os haicais e tankas de
Kolody deixam transparecer momentos tensos e transparentes, que se
direcionam à observação da natureza, feita de um lirismo melancólico.
Tais elementos podem ser verificados nos versos do haicai “Os tristes”,
que evidenciam, de forma clara, a inquietação do sujeito lírico que se
expressa em questionamento: “Em seus caramujos,/ os tristes sonham
silêncios./ Que ausência os habita?96 Salienta-se a temática da solidão,
ou seja, em meio a “ausência” e “silêncios”, os tristes mergulham no
mundo onírico. A imagem do caramujo remete à ideia de isolamento e
introspecção. O verso final é interrogativo, procedimento poético
recorrente na produção lírica moderna. A temática de Reika trata também,
de maneira reiterada, da questão do tempo e suas relações subentendidas,
da observação do elemento sazonal, da solidão e da metapoesia.
Também compõe o grupo de trabalhos acadêmicos sobre a poesia
de Helena Kolody a minha dissertação de mestrado, apresentada em 1993,
no Curso de Pós-Graduação em Letras, da Pontifícia Universidade Católica
do Rio Grande do Sul, e intitulada Helena Kolody: a poesia da inquietação97.
A dissertação objetiva resgatar parte do material crítico sobre a poesia
kolodyana, bem como analisar seus poemas que tratam da temática da
inquietação, que, ao ser exteriorizada, indica caminhos para a descoberta
da interioridade da poeta. O texto dissertativo estrutura-se em quatro
capítulos. O primeiro consiste na abordagem da situação da Ucrânia,
dos antecedentes históricos do povo ucraniano, ou seja, uma breve
contextualização histórica, no intuito de apresentar a trajetória da
integração destes imigrantes no Estado do Paraná. No segundo, traça-se
o itinerário existencial e poético de Kolody, marcando sua atuação no
contexto literário e social. No terceiro segmento, aborda-se a inquietação
que emerge da poesia, tomando como base estudos referenciais e teóricos
de autores como Esteban, Lavigne, Paz, Jakobson, Barbosa dentre outros.
O quarto capítulo constitui-se da análise de poemas kolodyanos, e di-
vide-se em quatro subcapítulos: “Inquietação: signo e comunicação
lingüística”; “Fazer poético: luta com as palavras”; “Busca de sentido
existencial: questionamento do ser”; “Nostalgia: retorno às origens”. A
conclusão dedica-se à inter-relação entre os capítulos buscando configurar
a inquietude temática na poesia kolodyana.
42 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

Em 1997, Marly Catarina Soares apresentou a dissertação de


mestrado intitulada Helena Kolody: uma voz imigrante na poesia
paranaense98 ao Curso de Pós-Graduação em Teoria literária do Instituto
de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas. A autora
realizou um estudo sobre a poesia de Helena Kolody escolhendo como
perspectiva de análise o tema “literatura e imigração”, justamente pelo
fato de sua poesia apresentar indícios culturais “estrangeiros”. A partir
de abordagens e discussões de diferentes autores sobre a questão do
processo de imigração, tais como acomodação, absorção cultural,
transculturação, Soares analisou poemas que tratam das referidas
questões, uma vez que, um dos temas ligados à imigração diz respeito
“ao deslocamento do imigrante. O tema da viagem aparece na obra desta
poeta não só como translado do imigrante, mas também como diversas
formas de escape, evasão: a interioridade, a morte, o espaço, o universo,
as drogas, os livros”99. Dessa forma, “do deslocamento, que traz consigo
elementos originários da imigração”, a autora aborda a análise da
“acomodação do imigrante: da sua chegada ao processo de adaptação –
absorção; o encontro com outras culturas; a preservação da cultura do
povo ucraniano”100.
Soraya Rozana Sartorelli, em fevereiro de 2001, apresentou a sua
Dissertação de Mestrado intitulada: Em busca do pássaro inatingível: o
processo criativo de Helena Kolody101, defendida junto ao Curso de Pós-
Graduação em Letras da Universidade Estadual de Londrina. A autora
selecionou poemas e manuscritos das três primeiras obras publicadas
por Helena Kolody - Paisagem interior, Música submersa e A sombra no
rio, cujos textos foram (re)trabalhados pela poeta para a publicação da
antologia intitulada Correnteza (1977) -, nos quais analisa o processo de
enxugamento da linguagem, as razões e as conseqüências das mudanças
operadas por Kolody nesses textos, para identificar o percurso criativo
da poeta, levando-se em conta os mecanismos de construção textual,
recorrentes durante o aprimoramento dos poemas.
Em 1999, organizei a obra inédita de Helena Kolody intitulada: Tear
de palavras: poemas inéditos e reunidos102. Esta coletânea revela que a
poesia é comunicação e sinal de permanência. Helena Kolody, em seu
“tear de poesia”, vai escolhendo as palavras e tecendo um manto todo
bordado de “palavras-estrelas” para “alegrar os corações”. Nessa obra,
Ant onio Donizet i da Cruz R 43

imagens remetendo ao efêmero e ao eterno cruzam-se, formando redes


de sentidos. Os poemas convergem para uma atitude inquieta do eu
poético que anseia por atingir um estado transcendente. No poema abaixo,
emerge o questionamento do sujeito poético, ciente de sua efêmera
condição existencial:

Como prender na imagem


a dança e o vôo,
a cada instante mutáveis?103

O tom indagativo do poema constitui uma marca do estilo da


poeta,ou seja, o registro de um momento único diante da linguagem
enquanto busca de um estado original. A poiesis kolodyana identifica-se
com a metalinguística recorrente na poesia contemporânea: a incessante
procura de uma poesia sobre a poesia.
O poema “Como prender na imagem” reconduz ao tema da
instantaneidade. Para a poeta, a palavra tem o poder de imortalizar o
momento existencial: “É a palavra que aprisiona o fugitivo instante e
impede que ele mergulhe, para sempre, no esquecimento”104.
Tear de palavras é uma obra em que as imagens do desdobramento
do eu aparecem de maneira nítida. Há, também, um entrelaçamento de
temáticas: a religiosidade enquanto experiência de vida, a infância, o
tempo, a solidão, a memória, a efemeridade e permanência, o humor, a
ironia, entre outras. O fazer poético também fica notório no realce ao
amor às palavras, à metapoesia, ao diálogo com o leitor, à comunicação
literária, etc. Na poesia kolodyana, o sentimento de ligação com o mundo
e com a natureza são elementos que se presentificam, tal como afirma o
eu-lírico afirma no seguinte poema:

Poesia

Poeira de orvalho
na flor do cardo.105

Nos versos deste poema dístico, o sujeito poético articula a


linguagem de forma metafórica, apontando para os indícios flutuantes
do texto. O olhar do sujeito da enunciação é direcionado à “poeira de
44 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

orvalho” que está na flor “amarela” do cardo e não nas suas folhas
acinzentadas e espinhentas. A natureza está presente na poesia kolodyana
(cardo é comum na Europa, podendo-se dizer que simboliza a lembrança
da terra de seus pais).
No poema “Na chuva”, o sujeito lírico se vale de elementos
espaciais e naturais que o envolvem para neles se integrar e, através deles,
se expressar:

Na chuva

Isola-me a cortina de cristal.


É meu o momento.

Devolve-me o ser
a chuva amiga.

Solta-se na rua
o pensamento.106

A interação do eu com a natureza ocorre de maneira harmoniosa


no texto. O eu-lírico afirma possuir o domínio sobre o tempo, representado
pela palavra momento. Por estar isolado pela “cortina de cristal”, que
funciona como metáfora de chuva, o sujeito se vê protegido. A chuva é
vista como amiga, capaz de lhe devolver o ser, ou seja, ela tem o poder
de rejuvenescer, de dar vida às coisas sequiosas. Já o verbo “soltar” faz
referência à liberdade do pensamento. O poema é elaborado em dísticos,
realçando uma das características da obra kolodyana: a opção pelas formas
breves: dísticos, haicais, epigramas, tercetos, tankas, entre outras.
Assim, das treze obras apresentadas, pode-se inferir que, o conjunto
da obra kolodyana traz a marca nuclear da modernidade, ou seja, a
operacionalização da linguagem. Teixeira Coelho afirma que, “antes de
falar de qualquer coisa, antes de apontar para qualquer realidade exterior,
a obra da modernidade fala de si, isto é, fala de sua especificidade, a
linguagem para qual aponta todo o tempo”107. Os questionamentos da e
na linguagem visam, essencialmente, a uma profunda reflexão sobre os
fatos, pois a modernidade, no dizer desse autor, é “a interrogação, a dúvida
e a reflexão”108. Dessa forma, a metalinguagem está presente em todos
os livros de Kolody. Ao questionar o fazer poético e descrever o processo
Ant onio Donizet i da Cruz R 45

de criação, o poeta mantém um diálogo permanente do eu com o mundo,


articulado com o encanto da linguagem, cujo fator imprescindível reside
no exercício de uma poiesis que converge para a experiência poética
centrada no encontro do ser humano com os temas antitéticos mais
inquietantes, como vida/morte, presença/ausência, ser/não-ser.
As temáticas poetizadas por Kolody têm o poder de despertar a luz
da compreensão dos aspectos mais subjetivos e misteriosos que
envolvem o sujeito nessa relação do eu mais profundo com a linguagem-
mundo-universo.
As antologias de poemas de Helena Kolody são as seguintes: A
sombra no rio e poesia escolhidas (1957); em 1959, o Centro Paranaense
Feminino de Cultura publicou Trilogia, separata de Um século de poesia;
20 poemas109 (1965) é uma antologia organizada pela poeta; Antologia
poética (1967); Poesias escolhidas (1983); Correnteza (1977); em 1994,
Livrarias Curitiba publicou a obra Sempre poesia: antologia poética,
organizada por Reinoldo Atem; em 1996, Caixinha de música foi publicada
pela Secretaria de Estado da Cultura; em 1997, publicou-se a antologia
Luz infinita 110, edição bilíngue português-ucraíno, com tradução de
Ghryghory Kotchur e Wira Selanski. Nesse mesmo ano, a Editora Letraviva
publicou a antologia poética Sinfonia da vida: Helena Kolody, organizada
por Tereza Hatue de Rezende.
Suas Obras Completas foram sendo editadas ao longo de sua
carreira artística, acrescentando a cada edição novos títulos, a saber:
Poesias completas111 (1962); Viagem no espelho112 (já na 5ª edição).
Cumpre lembrar ainda que, no ano do 1959, Helena Kolody
colaborou na organização da Antologia da literatura ucraniana113, obra
bilíngue português-ucraíno, que reúne poemas de autores ucranianos sob
a redação da escritora Wira Selanski114.
As obras sobre Helena kolody e sua poesia são as seguintes: o
depoimento da escritora ao Museu da Imagem e do Som de Curitiba
resultou na publicação da obra Helena Kolody: poetisa (1989); em 1986,
Kolody participa do projeto da Biblioteca Pública do Paraná, que deu
origem à publicação da obra Um escritor na Biblioteca: Helena Kolody115,
com colaboração de Alice Ruiz, Paulo Leminski, entre outros.
Em 1992, o cineasta Sylvio Back realizou o curta-metragem
“poemografilme”, A Babel da luz 116, no qual Helena Kolody dá
46 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

depoimentos, declama e canta. No 25º Festival de Brasília do Cinema


Brasileiro, realizado em dezembro do mesmo ano, ele foi premiado como
melhor curta metragem, recebeu, também, o prêmio de melhor
montagem. No ano de 1984, sob a minha orientação, Marly Alves Sallet
escreve a monografia intitulada Helena Kolody: a poesia da vida,
apresentada no curso de Pós-Graduação, especialização em Literatura
Brasileira na Unioeste/Facimar. Em 1995, a Editora da UFPR publicou a
obra Helena Kolody117, organizada por Paulo Venturelli. Em 1996, o pro-
fessor Édison José da Costa entrevista Helena Kolody. O resultado foi o
video-depoimento intitulado Helena Kolody: Personalidades, produção
realizada pelo Museu da Imagem e do Som de Curitiba. Em 1997, a
escritora Shyrlei Maria de Andrade Queiroz editou a obra Helena
Kolody: mestra na vida e na poesia; ainda em 1997, a Luz da Cidade
lançou o CD intitulado Helena Kolody por Helena Kolody, que faz parte
da coleção “Poesia falada”. Ele foi idealizado e produzido por Paulinho
Lima; a trilha musical, composta e executada por Iuri Cunha. Essas são
algumas das produções que apresentam a personalidade Helena Kolody
e sua obra poética.
São várias as distinções e homenagens à Helena Kolody. Em 1985,
ela recebeu o “Diploma de Mérito literário”, conferido pela Prefeitura
Municipal de Curitiba; em 1987, recebeu o título de “Cidadã Honorária
de Curitiba”; Alice Ruiz, em homenagem à Helena Kolody, presenteia a
poeta pela passagem de aniversário (1987), com seus “hai-kais
discípulos”118, a exemplo: “quanto mais longe vejo/ mais luzes ficam/
até o próximo reflexo”, publicados no Correio de Notícias; nesse mesmo
ano, o escritor Delores Pires coordenou um recital sobre a poesia de
Helena Kolody na “Feira do Poeta” de Curitiba; em 1988, a Secretaria de
Estado da Cultura, por intermédio da escritora Regina Benitez (ex-aluna
de Helena Kolody), institui o “Concurso de Poesia Helena Kolody”119,
como duplo reconhecimento pela sua participação ativa no magistério
paranaense e pela grandeza do conjunto de sua obra literária. Em 1989,
Kolody recebeu do Centro Paranaense Feminino de Cultura, a Cadeira
Patronal e tornou-se patronesse de todas as cadeiras da referida instituição;
no dia 22 de dezembro de 1990, o grupo da Oficina Livre de Teatro fez
uma homenagem à Helena Kolody ao apresentar o espetáculo teatral
“Helena Kolody, uma mulher”, promovido pelo Museu da Imagem e do
Ant onio Donizet i da Cruz R 47

Som, de Curitiba, sob a coordenação de Marcelo Marchioro; em 25 de


março de 1992, Kolody ingressou na Academia Paranaense de Letras,
onde ocupa a cadeira n. 28, fundada por Rodrigo Júnior e anteriormente
ocupada pelo escritor Leonardo Hencke; em 13 de junho de 1993, a
comunidade nipo-brasileira de Curitiba, em comemoração aos 300 anos
de Curitiba e aos 85 anos de imigração japonesa, homenageou a poeta
com a outorga do nome haicaísta REIKA, em reconhecimento à divulgação
do haicai; em 1994, a professora Beatriz Helena Dal Molin coordenou o
evento “Helena Kolody – Nossa Poeta Maior”120; em 29 de abril de 1999,
Helena Kolody recebeu o título de “Vulto Emérito de Curitiba”, pela Câmara
Municipal de Curitiba.
Poesia e magistério são forças motrizes na vida de Helena Kolody.
Em 29 de setembro de 1999, a professora e a poeta foi homenageada por
aproximadamente 300 alunos do pré-escolar a 4ª série da Escola Munici-
pal São Luiz, em Curitiba. As crianças a entrevistaram, cantaram,
declamaram e ilustraram poemas de Kolody que serviram de tema para
pinturas feitas na fachada da escola. O encontro com a poeta fez parte do
projeto desenvolvido pela referida escola nas áreas de arte e literatura. As
entrevistas com Helena Kolody foram utilizadas em sala de aula e em
atividades do projeto Ler & Pensar, promovido pelo jornal Gazeta do povo.
Em depoimento, Helena Kolody afirma que “é muito comovente perceber
que a escola não vive apenas a parte intelectual, mas também emotiva e
psicológica”. A poeta ficou sensibilizada com a maneira de cantar das
crianças e relatou que “elas cantaram com a alma, vivenciaram a música”.
Escutou atentamente as crianças declamarem seus poemas. Em relação
à homenagem, declarou: “É uma prova de amor que me sensibiliza até
as lágrimas. E fico feliz com o fato dessa escola ensinar as crianças a
gostarem de poesia”121.
As intercorrências da poesia de Kolody com outras artes, tais como
a música, teatro, artes plásticas, são realizadas de maneira recorrente,
envolvendo artistas em geral. Vários poemas de Helena Kolody são
musicados. O primeiro foi “Prece”, da obra Paisagem interior, pela cantora
carioca Babi de Oliveira. O maestro Pedro de Castro também musicou
este poema em 1970. A pianista e compositora Helza Camêu musicou
alguns poemas de Kolody: “Ilusão”, “Crepúsculo de Abril”,
“Sobrevivência”, “Canto” e “Entardecer”. Num concerto de composições
48 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

de Camêu, apresentado no dia 29 de outubro de 1965, no auditório do


Conserto Brasileiro de Música, no Rio de Janeiro, foram interpretados
poemas de Kolody: “Prenúncio de outono” e “Sombra no rio”, cantados
por Hermelindo Castello Branco, e “Música eterna”, por Sylvia Pinto. O
maestro Wolf Schaia retomou muitos de seus poemas. “Carroça de tolda”
foi cantado na Sociedade Ucraína, com música e interpretação coral de
Pedro Kutchma. Cumpre destacar ainda que muitos poemas de Kolody
foram e continuam sendo ilustrados, pintados por artistas: Guido Viaro,
Garbácio, Denise Roman, Seto, João V. Suplicy, Guinski, e outros.
A “poetisa das Araucárias”122, que já comemorou “bodas de ouro”
na literatura brasileira, tem uma voz lírica própria, consolidada na força
das palavras. Marilda Binder Samways afirma que a poesia de Helena
Kolody sempre se caracterizou pelo humanismo, realizando uma poesia
voltada à vida, aos temas sociais, sempre atenta aos conflitos e
problemas existenciais. Para Samways, um outro aspecto essencial da
sua poesia é a consciência de que,

aprisionada nos limites do corpo, a alma entende que está fazendo uma
travessia. Porém, esse entendimento não vem acompanhado pelo próprio
corpo, que se debate, em solicitações imediatas. Donde o conflito, a
angústia, o desespero pela libertação, o jogo entre a vida e morte, almejada
a morte (que é vida) pela alma e repugnada pelo corpo. Daí os melhores
momentos poéticos da escritora, repartindo-se entre o fugaz e o eterno,
o momento e o duradouro, a luz e a sombra, o ficar e o partir, o aqui e
o além.123

O poeta Sérgio Rubens Sossélla tece o seguinte comentário crítico


sobre a poesia de Helena Kolody:

Desde o seu primeiro trabalho ela perquire acerca dos limites do ser (e
de seus relacionamentos), quanto ao sentido secreto da vida. Os seus
versos cromáticos (com larga predominância do azul) são preces
veiculadoras do pedido e da resposta, rezas ardentes revelando sonhos,
meditações profundas e apaixonadas entre a angústia e a esperança. [...]
A religiosidade da autora cunhou a sua estética, o seu morrer-viver
diário.124
Ant onio Donizet i da Cruz R 49

A afirmação de Sossélla aponta para a temática da religiosidade e


para a busca de sentido existencial que há na poesia de Kolody. Essa
vertente temática, a aproxima de autores como Cecília Meireles, Murilo
Mendes, Lila Ripoll, Jorge de Lima, Augusto Frederico Schmidt, entre
outros, no que diz respeito à busca do transcendente.
Para Wira Selanski, na primeira obra da “poeta brasileira do Paraná,
de origem ucraniana, já desvenda diante do leitor sua essência: Helena
Kolody é cantora das verdades abismais, não de efeitos exteriores”125.
Em relação ao tema da religiosidade, a autora afirma que, “todos os
processo espirituais de Helena Kolody são lentos, subterrâneos, com a
finalidade e maturação [...]. As poesias religiosas são geralmente
conceituais e aforísticas. Ali as impressões sensoriais cedem diante da
meditação filosófico-teocêntrica”126. No que diz respeito ao tema da
imigração, Selanski declara que

Helena Kolody se revela poeta de uma profunda e tranquila tragicidade


de um ser transplantado em solo diferente. Para todas as criaturas
telúricas, com forte consciência de suas raízes, o transplante, como o
amor não consumado ou a maternidade não realizada, torna-se constante
fonte de saudade e sofrimento. Helena Kolody é consciente da correnteza
atávica que a une ao povo de seus antepassados.127

Oksana Boruszenko, escritora e estudiosa do tema da imigração


ucraniana, tece o seguinte depoimento sobre Helena Kolody:

Há mais de quarenta anos, alguém escreveu a ‘Prece’ de Helena Kolody


em meu álbum de recordações [...]. Por um feliz acaso, no ano seguinte,
fui apresentada a ela, no meio da rua, e fomos andando, Helena falando
de ipês, pois era setembro, e eu, de girassóis, a cor era a mesma e
lembrava a minha pátria. Descobrimos que tínhamos em comum a
origem, Helena é a primeira brasileira de uma família de imigrantes
ucranianos, enquanto eu, aqui cheguei no pós-guerra. Tínhamos as
tradições, os costumes, a língua que ele falava na infância, e sobretudo
a crença. Eram tantas as semelhanças que os anos de diferença perderam-
se no tempo. A partir de então, nossos caminhos sempre se cruzaram.
[...] eu vejo Helena, como viajante através da vida, colhendo experiências
e distribuindo bondade e meiguice, sem esquecer os seus ancestrais.128
50 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

No elenco de opiniões, Nicolás Hec declara que o elemento


ucraniano se faz presente na poesia de Helena Kolody, aparecendo
nitidamente “sua conexão sanguínea e espiritual-atávica com a pátria de
origem, a Ucrânia, com sua história, com seu povo, sua vontade de
liberdade e finalmente, com a imigração ucraniana e sua luta dolorosa”129.
Na poesia de Helena Kolody, destaca-se uma identificação com o
legado cultural da Ucrânia e, também, uma certa celebração telúrica com
relação ao país de seus ancestrais. O retorno às origens, a referência à
imigração ucraniana, a revisitação da infância pelo sujeito lírico e a nos-
talgia são temas recorrentes na poesia kolodyana.
Segundo Wilson Martins, Helena Kolody vive o paradoxo de ser,
enquanto poeta, uma “figura exponencial das letras paranaense”, sem
ter gravado o seu nome e sua obra no quadro mais amplo da literatura
brasileira. No dizer do autor, isso se deve ao fato de “suas atitudes
discretas, alheias às autopromoções e à celebração interessada de
grupetos, no que, mais do que qualquer outro, responde ao caráter
específico da psicologia local”130. Para o crítico, “pelo tom da voz, pela
delicadeza dos sentimentos, pela autenticidade lírica e temática”, Kolody
é, com certeza, “o poeta representativo” do Paraná não só pela sua
“natureza regional, mas também por haver acrescentado a voz do
imigrante à temática da poesia brasileira”131.
Em relação à fortuna crítica, a escritora Olga Savary salienta que
Helena Kolody é “a alta voz da poesia brasileira”, pois sua poesia solar
revela “a beleza e a dignidade do ser humano e, em última instância da
vida. Toda uma existência dedicada à poesia e décadas de fazer poético,
só tinha que dar em tais frutos”132.
Helio de Freitas Puglielli, ao prefaciar a obra Ontem agora, afirma
que Helena Kolody é telúrica e pertence ao Paraná, embora nome de
dimensão nacional, porque nela “o Paraná encontrou sua voz feminina e,
porque nela nos encontramos, como se fosse o eco sussurrante dos
próprios devaneios paranaenses”133. Consoante Puglielli, Kolody está
acima de gerações e correntes. Admirada e respeitada pelo seu trabalho
sempre sincero e comprometido com a máxima honestidade poética:
“Uma voz sonora, sem arrogância, sem estridências retóricas ou piegas.
Uma voz que não se alterou ao longo do itinerário, modulada pela
Ant onio Donizet i da Cruz R 51

autenticidade temperada pelo vigor de uma sensibilidade que nem o passar


dos anos conseguiu reduzir”134.
Segundo Miguel Sanches Neto, Helena Kolody, dentro da literatura
paranaense, é a ponte que liga uma sensibilidade mais tradicional e a
modernidade. Ela fez, numa literatura sem continuidade como a nossa, e
de maneira natural, sem sobressaltos, a passagem da poesia de expressão
simbolizante para a atualidade, ocupando, em última análise, o papel de
elo na corrente que vai de Emiliano Perneta a Paulo Leminski, Alice Ruiz
e poetas mais jovens. É este caráter mediador que a torna a imagem da
própria poesia paranaense135. Ainda no dizer de Neto, Helena Kolody é
uma “poeta mística”, pois “o seu pensamento vai se concretizar a partir
das antinomias: absoluto e precário, eterno e instantâneo, espírito e
matéria, sonho e realidade, elevação e queda. Logicamente, emanando
uma concepção mística do universo, ela buscará um caminho de superação
do segundo elemento destas antinomias”136.
O crítico João Manuel Simões, em A tangente e o círculo, a respeito
da poesia de Kolody, salienta:

Na poesia emblemática de Helena Kolody há mármores de Carrara e


cristais luminosos, cintilantes – ainda que brilhando nos latifúndios da
noite. Nela, a forma e o conteúdo, o significado e o significante, a super-
estrutura exterior e a infra-estrutura essencial, abraçam-se, num grande
amplexo cósmico de beleza, ritmo, música e cor. [...] Se a luz da poesia
viaja, vertiginosamente, através do verbo, é evidente que não é a
quantidade de palavras – mas as sua qualidade intrínsica – que define,
estrutura e engrandece o poema. E é por isso que, em pequenos poemas
de três ou quatro versos, Helena Kolody consegue mostrar toda a força
e todo o vigor da sua ‘poiesis’.137

A fortuna crítica comprova a maneira como a obra kolodyana é


vista no panorama da literatura brasileira. Com uma produção poética
considerável, marcada pela brevidade, ela tem trilhado os caminhos da
lírica sem estar presa a correntes e movimentos literários.
A poesia de Helena Kolody contém uma vasta intersecção de
relações infinitas entre os signos da arte e da vida, sendo sua poesia
portadora de momentos singulares, cuja disciplina poética interioriza
sentidos de vivências plenas.
52 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

Desde Paisagem interior (1941) passando por Reika (1993) até Tear
de palavras, que reúne poemas inéditos, a poeta concretiza uma trajetória
que se revela em uma poesia participativa e harmoniosa. A opção pela
composição das formas breves para expressar um estado de lirismo, como
se pode ver em Paisagem interior (1941), até alcançar uma aguda
consciência sintética, como ocorre na obra Reika (1993), efetiva uma
construção poética que se concretiza de maneira concisa, com alto grau
de lirismo espontâneo, contido numa linguagem lúdica e de
encantamento perante a vida e o fazer poético.
Helena Kolody realiza uma escrita em constante processo, que
exprime sua maneira de interpretar o mundo. A poesia kolodyana tem o
poder de projetar palavras que despertam o leitor para uma observação
atenta das coisas mínimas, mas indispensáveis à conjugação dos entes
e seres. Ou seja, sua trajetória poética e pessoal é animada pelo sentido
de permanência, pois seus textos convertem-se em valores que são
capazes de corporificar palavras e imagens que direcionam para uma
dialética permanente. A lírica de Kolody converge para o sentido da vida,
uma poesia que tem múltiplas facetas, qual um caleidoscópio que a cada
movimento modifica a imagem.

NOTA S
1
Miguel Kolody (1881-1941) nasceu em Bibrky (Ucrânia). Em 1894 veio para o Brasil com sua
mãe e irmãos, fugindo da grande epidemia de cólera. Segundo Nicolás Hec, Miguel foi
um dos membros-fundadores da primeira sociedade ucraniana Prosvita na Capital, onde
entre 1902 e 1909 desempenhou funções de tesoureiro e também, participou como
“membro do comitê editorial do “Zoriá”, o primeiro jornal ucraniano no Brasil (1907-
1909)”. (HEC, Nicolás. Helena Kolody: biografia. In: KOLODY, Helena. Luz infinita.
Curitiba: Museu – Biblioteca Ucranianos em Curitiba da União Agrícola Instrutiva, Clube
Ucraíno-Brasileiro, Organização Feminina, 1997. p. 19, grifo do autor).
2
Victória Kolody (1892-1975) nasceu em Yuriampol (Ucrânia), e veio para o Brasil em 1911,
com seus pais. Em busca de melhores condições de vida, sua família se estabeleceu no
recém-fundado núcleo colonial de Cruz Machado, no sul-paranaense. Cumpre lembrar
que Victória e Miguel casaram-se em Cruz Machado (PR), no dia 13 de janeiro de 1912
e tiveram quatro filhos: Helena Kolody, José Kolody, Rosa Kolody e Olga Kolody.
3
KOLODY, Helena. Helena Kolody: poetisa. Curitiba: Museu da Imagem e do Som do
Paraná, 1989, p. 5 (Caderno do MIS, n. 13).
4
Ao residir em Curitiba, Miguel Kolody passa a exercer a atividade de comerciante.
5
Loc. cit., 1989, p. 5.
6
KOLODY. In: HELENA Kolody. (Org. por Paulo Venturelli). Curitiba: Ed. da UFPR, 1995, p.
27-28 (Série paranaenses, n. 6).
Ant onio Donizet i da Cruz R 53

7
Tarás Chewtchenko é poeta ucraniano (1814-1861). Sua obra épica Kobsar trata da
memória do passado heróico da Ucrânia e revela anseios pela liberdade. Segundo
depoimento de Helena Kolody, sua mãe era leitora apaixonada pela poesia desse autor.
8
KOLODY, Helena. In: __. Um escritor na Biblioteca: Helena Kolody. Curitiba: BPP/SECE,
1986b, p. 19.
9
Id., ibid., p. 19.
10
KOLODY. In: HELENA Kolody, op. cit., 1995, p. 27.
11
KOLODY, Helena. A sombra no rio. Curitiba: Escola Técnica de Curitiba, 1951, p. 58.
(Edição do Centro de Letras do Paraná. 80 p.). O referido poema será analisado no
subcapítulo 3.1. Os poemas de Helena Kolody, apresentados neste capítulo, remetem
às edições originais das obras da poeta.
12
KOLODY. In: HELENA Kolody, op. cit., 1995, p. 40-41, grifo nosso.
13
KOLODY, Helena. Vida breve. Curitiba: SENAI, 1964, p. 160. (Edição da autora. Impresso
na Escola de Aprendizagem do SENAI. 76 p.)
14
Helena Kolody, Alice Ruiz S, Paulo Leminski, Rodrigo Júnior, entre outros, exemplifica esta
questão. Note-se o haicai de Ruiz: “tantos outonos/ em uma paisagem/ chuva nos
pinheiros”. (S RUIZ, Alice. Desorientais (hai-kais). São Paulo: Iluminuras, 1998, p. 39).
15
KOLODY. In: HELENA Kolody, op. cit., 1995, p. 41, grifo nosso.
16
Entrevista de Helena Kolody a RUMO paranaense, Curitiba, ano II, n. 35, p. 1-14, nov.
[197-], p. 9.
17
Helena Kolody. “A Lágrima” - TP. In: CRUZ, 2011, Apêndice A, TP, Vol. II, p. 12.
18
Primeiro texto publicado de Helena Kolody na revista O garoto (1928), intitulado A
lágrima. In: HELENA Kolody, a normalista e a poeta. O Estado do Paraná, Curitiba, 5
abril 1987. p. 15; A lágrima. In: PIRES, Delores. Helena Kolody e a poesia. O Estado
do Paraná, Curitiba, 12 abril 1987. p. 5. Leia-se o poema: “Ó lágrima cristalina,/ tão
salgada e pequenina,/ quanta dor tu não redimes!/ Mesmo feita de amargura,/ és tão
sublime e tão pura/ que só virtudes exprimes”. p. 5.
19
Em Marinha, Helena Kolody publica poemas na década de 30. Esta revista foi responsável
por divulgar seus poemas nos Estados do Sul do Brasil e no estrangeiro.
20
BASSETTI, Alzeli. Helena Kolody: poesia feito gente. Brasília: revista de circulação nacional,
Brasília, n. 53, jul. 1990, p. 2-5. (Entrevista de Helena Kolody a Alzeli Basseti).
21
OS POETAS: antologia de poetas contemporâneos do Paraná. Curitiba: SEEC, 1990, p. 7
(I Concurso de Poesia “Helena Kolody”).
22
KOLODY, Helena. Paisagem interior. Curitiba: Escola Técnica e Curitiba, 1941. 106 p.
(Edição da autora. Capa de Helvídia Leite. Impresso nas Artes Gráficas da Escola Técnica
de Curitiba). Poemas em versos livres, sonetos e também três haicais, que são os primeiros
publicados no Paraná. Em entrevista ao Jornal do livro, Helena Kolody diz que, em 41 seu
pai ia fazer 60 anos. “Era o tipo do pai coruja e nem sabia que eu estava para publicar
o livro”. Seria um presente de aniversário, não fosse a morte repentina de seu pai, em 21
de setembro. O livro foi impresso na Escola Técnica de Curitiba, pois os escritores
pagavam o material e eles imprimiam. “Eu quis tirar o livro da gráfica, mas os meus
amigos me disseram: agora é que você precisa fazer uma homenagem a seu pai”. In:
JORNAL do livro, 1985, p. 4.
23
Somente em 1985 é que a Criar Edições investe comercialmente em suas obras. Em
entrevista à revista RUMO paranaense, Helena declara: “A publicação foi, sempre, um
angustioso problema pecuniário. Tive, porém, a sorte de editar a maioria de meus livros
pela Escola Técnica e pelo SENAI, aos quais rendo minha gratidão”. [197-], p. 9.
24
JÚNIOR, Rodrigo. “Paisagem interior”. Diário da tarde, Curitiba, 21 jan. 1942. N. 14104,
p. 3. Grifos nossos.
25
MORAIS, Tancredo. A poesia paranaense lá fora. O Dia, Curitiba, 25 fev. 1945, n. 6604,
p. 9. Aspas do autor e grifo nosso. Localizei o presente artigo em microfilme da Biblioteca
54 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

Pública do Paraná. O autor tece críticas à Paisagem interior.


26
KOLODY, op. cit., 1941, p. 1.
27
Em Paisagem interior, o poema com maior número de versos é “As obras de Misericórdia”,
com 74 versos.
28
KOLODY, loc. cit., p. 48. Este é um dos três haicais publicados pela poeta em Paisagem
interior.
29
Em Viagem no espelho, Kolody alterou o nome do rio Dniepér por Dnipró (nome atual do
rio que atravessa a Ucrânia).
30
Id., ibid., p. 25-27.
31
KOLODY, Helena. Música submersa. Curitiba: Escola Técnica de Curitiba, 1945. 96 p.
Impresso na Artes Gráficas da Escola Técnica do Paraná ).
32
Id., ibid., p. 19.
33
Id., ibid., p. 43.
34
Id., ibid., p. 17.
35
ANDRADE. In: RUMO paranaense, [197-], p. 4. Aspas do autor.
36
BACK, Sylvio. O poema, afinal, continua a vida & Rasteira do tempo. In: A BABEL da luz,
O Estado do Paraná, Curitiba, 11 out. 1992. Almanaque, p. 1.
37
Id., p. 1. Aspas do autor e grifo nosso no título das obras do Kolody.
38
KOLODY. In: RUMO paranaense, [197-], p. 9. Entrevista a Valfrido Piloto. Grifo da autora.
39
Id., p. 9.
40
KOLODY, op. cit., 1951, p. 13.
41
Id., ibid., p. 52.
42
Id., ibid., p. 67.
43
Id., ibid., p. 45.
44
MEIRELES, Cecília. Carta a Helena Kolody. In: RUMO paranaense. Curitiba, ano II, n. 35,
p. 4, nov. [197-].
45
SILVEIRA, Tasso da. Pura poesia e crítica impura. A Estante: revista brasileira de bibliografia
e cultura, Rio de Janeiro, jul. 1952. p. 9.
46
SANTOS, Pompília Lopes dos. A sombra do rio. O Estado do Paraná, Curitiba, 14 mar.
1952. p. 12.
47
KOLODY, Helena. Vida breve. Curitiba: SENAI, 1964, p. 60. (Edição da autora. Impresso
na Escola de Aprendizagem do SENAI. 76p.).
48
Id., ibid., p. 49.
49
Id., ibid., p. 26.
50
MORIN, Edgar. Amor, poesia, sabedoria. Trad. Edgard de Assis Carvalho. Rio de Janeiro:
Bertrand Brasil, 1998, p. 59. Grifo do autor.
51
PINTO, Manoel Lacerda. Helena Kolody e Vida breve. Jornal do Commércio, Rio de
Janeiro, 20 de set. 1964. n. p.
52
KOLODY, Helena. Era espacial. Curitiba: SENAI, 1966, p. 20. (Edição da autora. Impresso
na Escola de Aprendizagem do SENAI. 84 p.). O primeiro verso desse poema foi
suprimido pela autora na antologia Viagem no Espelho. Esse fato é devido ao constante
“burilamento” com que Kolody trabalha seus poemas.
53
Id., ibid., p. 20.
54
Id., ibid., p. 37.
55
ATEM, Reinoldo. Panorama da poesia contemporânea em Curitiba. Curitiba, 1990.
Dissertação (Mestrado em Literatura Brasileira) – Setor de Ciências Humanas, Letras e
Artes, Universidade Federal do Paraná, 1990, p. 72.
56
VENTURELLI, Paulo. In: HELENA Kolody, op. cit., 1995, p. 17.
57
Id., ibid., p. 17.
58
KOLODY, Helena. Trilha sonora. Curitiba: 1966, p. 23. (Edição da autora. Impresso na
Escola de Aprendizagem do SENAI. 84p.).
Ant onio Donizet i da Cruz R 55

59
Id., ibid., p. 31.
60
Id., ibid., p. 32.
61
TABORDA, Vasco José. Livros na Mesa. Jornal de Curitiba, Curitiba, 13 nov. 1966, p. 2.
62
MURICY, Andrade. Carta a Helena Kolody. In: RUMO paranaense. Curitiba, ano II, n. 35,
nov. [197-], p. 6. Grifos do autor. Cumpre ressaltar que Muricy acompanhava a produção
literária de Helena Kolody, dando muita atenção e incentivos à poeta.
63
KOLODY, Helena. Tempo. Curitiba: SENAI, 1970, p. 5. (Edição da autora. Impresso na
Escola de Aprendizagem do SENAI. 56 p.).
64
Segundo Helena Kolody, o poema “Caleidoscópio”, de 1970, é essencial. Em criança,
gostava de brincar com caleidoscópio. Muitas vezes tentei conseguir outra vez um
desenho que me encantara. Cinquenta anos mais tarde, essa experiência aflorou como
símbolo da vida provisória e irreversível”. In: SINFONIA da vida: Helena Kolody (Antologia
poética organizada por Tereza Hatue de Rezende). Curitiba: Pólo Editorial do Paraná –
Letraviva, 1997, p. 39.
65
KOLODY, 1970, p. 17.
66
Id., ibid., p. 3.
67
SALMON, Graciette. Helena Kolody e seu livro “Tempo” (1970). In: RUMO paranaense,
Curitiba, ano II, n. 35, nov. [197-], p. 11. Maiúscula da autora.
68
SOIFER, Miguelina. Tempo e instantaneidade em Kolody. LETRAS: revista do Instituto de
Letras da UFPR, Curitiba, v.1, n. 19, 1971. p. 196.
69
Id., ibid., Aspas da autora.
70
KOLODY, Helena. Infinito presente. Curitiba: Repro-set, 1980. (Edição da autora. Impresso
na Gráfica Repro-Set. 64 p.). Os poemas de Infinito presente são sintéticos. Sobressaem
os dísticos, tercetos, quartetos e poemas com no máximo três estrofes de três ou quatro
versos. Saga é o único poema com 33 versos.
71
Id., ibid., p. 51.
72
ANDRADE, Carlos Drummond de. Carta à Helena Kolody. In: HELENA Kolody, op. cit.,
1995, p. 7. Grifo do autor.
73
SANTOS, Pompília Lopes dos. Sesquicentenário da poesia paranaense (Antologia). Curitiba:
Litero-técnica, 1985, p. 138.
74
MARTINS, Maria de Lourdes. O infinito como motivo poético em Helena Kolody.
Curitiba: 1984. Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade Católica do Paraná, 1984.
75
Id., ibid., p. 57-58.
76
KOLODY, Helena. Sempre palavra. Curitiba: Criar Edições, 1985, p. 41.
77
Id., ibid., p. 21.
78
Id., ibid., p. 28.
79
LEMINSKI, Paulo. Santa Helena Kolody. Gazeta do Povo, Curitiba, 26 jun. 1985, p. 11, grifos
do autor.
80
Id., ibid., p. 11, aspas do autor.
81
Id.
82
PAZ, Octavio. A outra voz. São Paulo. Siciliano, 1993, p. 12.
83
Id., ibid., p. 13.
84
KOLODY, Helena. Poesia mínima. Curitiba: Criar Edições, 1986a. p. 41.
85
Id., ibid., p. 8.
86
Id., ibid., p. 7.
87
RUIZ, Alice. Opiniões da crítica. In: HELENA Kolody, op. cit., 1995, p. 51.
88
Id., ibid., p. 50.
89
ATEM, Reinoldo. Panorama da poesia contemporânea em Curitiba. Curitiba, 1990.
Dissertação (Mestrado em Literatura Brasileira) – Setor de Ciências Humanas, Letras e
Artes, Universidade Federal do Paraná, 1990.
90
Id., ibid., p. 161.
56 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

91
Obra editada pela Secretaria de Estado da Cultura do Paraná. Editoração: Regina Benitez.
92
Os poemas, em sua maioria, trazem as datas abaixo do título.
93
KOLODY, Helena. Ontem agora: poemas inéditos. Curitiba: SEEC, 1991, p. 7. (Editado
pela Secretaria de Estado da Cultura do Paraná. 86 p.).
94
Id., ibid., p. 25.
95
KOLODY, Helena. Reika. Curitiba: Fundação Cultural de Curitiba: Ócios do ofício, 1993.
(Série Buquinista). A obra foi editada por Nivaldo Lopes, da Ócios do Ofício e integra a
Coleção Buquinista – Poesia II. Foi impressa na Feira do Poeta da Fundação Cultural de
Curitiba, em tipografia na prensa Magdala. O livro recebeu o mesmo título de outorga
dado à poeta. Em 1993, por ocasião da defesa da dissertação, Helena Kolody enviou-me
os originais (manuscritos) de Reika (a obra encontrava-se no prelo), assim, foi possível
apresentar haicais e tankas em nosso trabalho acadêmico, com plena autorização da
poeta. É relevante destacar que, das ocasiões de minha visita a Helena Kolody, muitos
poemas ficaram registrados em livros com dedicatória da poeta. Os poemas registrados
em livros (doados pela poeta) eram sempre inéditos. Em tais ocasiões, Helena Kolody
fez questão de registrar as “afetuosas lembranças poéticas”. Em momento algum estes
poemas inéditos de que tinha conhecimento foram levados a público pela minha pessoa.
96
KOLODY, RE, 1993, p. 33.
97
CRUZ, Antonio Donizeti da. Helena Kolody: a poesia da inquietação. Porto Alegre: 1993.
Dissertação (Mestrado em Teoria da Literatura) – PUC-RS, 1993.
98
SOARES, Marly Catarina. Helena Kolody: uma voz imigrante na poesia paranaense.
Campinas, 1997. Dissertação (Mestrado em Teoria Literária) – Instituto de Estudos da
Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, 1997.
99
SOARES, loc. cit., p. 7.
100
Id., ibid.
101
SARTORELLI, Soraya Rozana. Em busca do pássaro inatingível: o processo criativo de
Helena Kolody. Londrina: 2001. Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade Estadual
de Londrina, 2001.
102
CRUZ, 2011, Apêndice A – TP, vol. II.
103
Helena Kolody. “Poesia” - TP. In: CRUZ, 2011, Apêndice A, TP, Vol. II, p. 90.
104
KOLODY, Helena. Discurso pronunciado por Helena Kolody. In: Helena kolody & Eduardo
-
Rocha Virmond. Curitiba: Academia Paranaense de Letras, 1994b, p. 1.
105
Helena Kolody. “Como prender na imagem” - TP. In: CRUZ, 2011, Apêndice A, TP, Vol.
II, p. 70.
106
Helena Kolody. “Na chuva” - TP. In: CRUZ, 2011, Apêndice A, Vol. II, TP, p. 13.
107
COELHO, Teixeira. Moderno “pós” moderno. São Paulo: Iluminuras, 1995, p. 44.
108
Id., ibid., p. 17.
109
KOLODY, Helena. 20 poemas. Curitiba: Santa Cruz, 1965. 28 p. (Edição da autora.
Impresso na Gráfica Santa Cruz). Helena Kolody organizou esta antologia.
110
KOLODY, Helena. Helena. Luz infinita: Helena Kolody. Curitiba: Museu – Biblioteca
Ucranianos em Curitiba da União Agrícola Instrutiva: Clube Ucraíno-Brasileiro: Organização
Feminina, 1997. 204p. (Edição bilíngue. Tradução de Ghryghory Kotchur e Wira Selanski
para o ucraniano. Esta obra, antologia, reúne os textos: Helena Kolody: biografia, por
Nicolás Hec; um ensaio intitulado “Peregrinação pela poesia de Helena Kolody”, da
escritora Wira Selanski e 74 poemas de Kolody, em português e ucraíno.).
111
KOLODY, 1962. 208p. Em 1962, Helena recebeu uma homenagem especial de seus
alunos pela passagem dos seus 50 anos. Eles editam Poesias completas, reunindo os livros
publicados até essa data.
112
KOLODY, Helena. Viagem no espelho. Viagem no espelho. 1. edição. Curitiba: Criar
Edições, 1988. 208p. (Esta antologia reúne as obras completas da autora até esta data);
Ant onio Donizet i da Cruz R 57

2. ed. 1995, acrescida das Ontem agora e Reika; 3. ed. 1997; 4. ed. 1998 e 5. ed. 1999.
Da 2. ed. em diante, esta obra foi editada pela Editora da UFPR.
113
ANTOLOGIA da literatura ucraniana, 1959. Kolody colabora na organização desta referida
obra a redação de Wira Selanski (a referida escritora usa o pseudônimo de Wira Wouk.
Ela é a tradutora da obra de Kolody para o ucraniano).
114
A escritora Wira Selanski declara ter conhecido Helena Kolody quando chegou a Curitiba,
no ano de 1950. Afirma ainda que encontrou “uma amiga-irmã na Cidade-Sorriso” que
lhe deu amparo “após o inferno dantesco da Segunda Guerra Mundial. Trabalhamos
juntas em traduções do ucraniano para o português e vice-versa, trocamos, nos anos
seguintes, muitas cartas, que dão testemunho de uma longa vivência poética da qual me
orgulho”. In: SINFONIA da vida, op. cit., 1997, p. 16.
115
KOLODY, Helena. In:___. Um escritor na Biblioteca: Helena Kolody. Curitiba: BPP/SECE,
1986b. 42 p. Nesta obra Helena Kolody dá depoimentos em Entrevista. Também são
apresentados poemas de Kolody e ensaios críticos sobre a poesia kolodyana.
116
BACK, Sylvio. O poema, afinal, continua a vida. In: A BABEL da luz, op. cit., 1992, p. 1.
O Cineasta define o filme: “A Babel da Luz é o tráfico metafórico entre o falado e o
calado, entre o escrito e o traduzido, entre o filmado e o gravado.[...]. Helena Kolody
falando em versos, pelos seus versos – como se falasse de (a) cada um de nós, e à
posterioridade [...]. Helena Kolody incorpora e verbaliza aqui a vocação inata do cinema,
o poema deslocado do real para renascer sob o signo da aura tecnológica” (Id., p. 1).
117
HELENA Kolody, 1995. Esta obra reúne ensaios de vários autores sobre a poesia kolodyana,
entre eles o relevante ensaio intitulado: “Investimento no próprio tom”, do organizador
desta obra, o escritor Paulo Venturelli; entrevista com Helena Kolody; poemas; cronologia
da vida e obra e referências bibliográficas.
118
RUIZ, Alice. “Helena querida”. In: ROMARIA à padroeira da poesia. Correio de Notícias,
Curitiba, 2 out. 1987. p. 18.
119
Atualmente, o concurso, em âmbito nacional, intitula-se: Concurso Nacional de Poesia
“Helena Kolody”.
120
O referido evento foi uma homenagem de aniversário à Helena Kolody e fez parte do
Projeto Universidade em tempo de todas as artes, apresentando “Helena Kolody –
Nossa Poeta Maior”, coordenado pela Professora Beatriz Helena Dal Molin, com minha
participação e com a do 4º ano de Letras da UNIOESTE/FACIMAR (Atualmente,
UNIOESTE – Campus de Marechal Cândido Rondon). Tal evento conjugou poesia, artes
plásticas e música. Cumpre ressaltar que o artista plástico Gercinei da Silva criou o quadro
intitulado “Estrela Viva” (desenho-ilustração do poema de minha autoria), que foi
presenteado à Helena Kolody, por ocasião da visita e entrega dos resultados do projeto.
121
NICOLATO, Roberto. Alunos “pintam” os poemas de Helena Kolody. Gazeta do povo,
Curitiba, 29 set. 1999.
122
Designação dada à Helena Kolody pela escritora Pompília Lopes dos Santos.
123
SAMWAYS, Marilda Binder. Introdução à literatura paranaense. Curitiba: HDV, 1988, p
130.
124
SOSSÉLLA, Sérgio Rubens. Helena Kolody, minha Helena. In: Um escritor na Biblioteca:
Helena Kolody. Curitiba: BPP/SECE, 1986, p. 38.
125
SELANSKI, Wira. Peregrinação pela poesia de Helena Kolody. In: KOLODY, Helena. Luz
infinita. Curitiba: Museu – Biblioteca Ucranianos em Curitiba da União Agrícola Instrutiva,
Clube Ucraíno-Brasileiro, Org. Feminina, 1997, p. 37.
126
Id., ibid., p. 43-44.
127
Id., ibid., p. 38.
128
BORUSZENKO, Oksana. Depoimento (“contracapa”). In: KOLODY, Helena. Luz infinita.
Curitiba: Museu – Biblioteca Ucranianos em Curitiba da União Agrícola Instrutiva, Clube
Ucraíno-Brasileiro, Organização Feminina, 1997.
58 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

129
HEC, Nicolás. Helena Kolody: biografia. In: KOLODY, op. cit., 1997, p. 22.
130
MARTINS, Wilson. Poetas do Paraná. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 19 de março de
1994. Ideias. p. 4.
131
Id.
132
SAVARY, Olga. A poesia solar de Helena Kolody. In: O Estado do Paraná, Curitiba, 11 out.
1992. Almanaque, p. 1.
133
PUGLIELLI, Helio de Freitas (prefácio). In: KOLODY, Helena. Ontem agora. Curitiba:
SEEC, 1991. p. 5-6.
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NETO, Miguel Sanches. Um estado de síntese (II). Gazeta do Povo, Curitiba, 04 nov. de
1996.
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SIMÕES, João Manuel. Helena Kolody: Viagem em torno de um continente poético.
In: __. A tangente e o círculo. Curitiba: Lítero-Técnica, 1984, p. 91-97. Grifo do autor.
Ant onio Donizet i da Cruz R 59

2 IMAGINAÇÃO, POESIA E MODERNIDADE

“É pela intencionalidade da imaginação


poética que a alma do poeta encontra a
abertura consciencial de toda a verdadeira
poesia.”

Gaston Bachelard

O trinômio – imaginação, poesia e modernidade1 – aglutina os


ícones presentes na poesia de Kolody. Para abordá-los no universo poético
e inter-relacioná-los à obra Kolodyana, elencam-se as palavras de diferentes
autores.
O poeta Samuel Taylor Coleridge, ao tratar da emergência das
imagens, reencontra uma filosofia platônica do imaginário. Em Biographia
literária (Excertos), ele parte da teoria associacionista diferenciando fan-
tasia e imaginação para, em seguida, conceituar a poesia. Para o autor, o
poder associativo se torna fantasia ou memória. A fantasia é uma faculdade
acumuladora de memória antecipada do tempo e do espaço, cujas
impressões ou sensações podem ser modificadas pela escolha ou pela
vontade, ou seja, ela “precisa receber, da lei de associação, todos os
materiais já prontos” 2. A memória comum recebe os materiais já
preparados da lei associativa, porém não se encontra deslocada da ordem
do espaço e do tempo.
A imaginação, para Coleridge, é superior à fantasia por ser mais
original e criativa. Ela é uma autêntica potencialidade criadora que se
desdobra em dois tipos: a primária e a secundária. A imaginação primária
é o agente primordial de toda a percepção humana, de onde origina a
60 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

representação, ou seja, a imagem. Sua função não é passiva. Ela “é como


que uma repetição da mente finita do eterno ato da criação no infinito Eu
Sou”3. A imaginação secundária é como que um eco da imaginação
primária, coexistindo sempre com a vontade consciente. É muito idêntica
à primeira no tocante à sua espécie de ação, mas difere-se pelo grau e
forma de atuação. Essa imaginação tem o poder de diluir a imagem para
recriá-la, ou seja, ela “dissolve, dilui, dissipa, a fim de recriar; ou então,
quando este processo se torna impossível, luta ainda, em todas as
circunstâncias, para idealizar e unificar. É essencialmente vital, mesmo
quando os objetos são fixos e inertes”4.
No dizer de Octavio Paz, o poeta romântico Samuel Taylor Coleridge
compreende a imaginação não apenas como um órgão do conhecimento,
mas também como uma faculdade de expressá-lo mediante símbolos e
mitos5. “Imaginação e razão, em sua origem uma só e mesma coisa,
terminam por se fundir numa evidência que é o indizível, exceto através
de uma representação simbólica: o mito”6.
O homem é desejo e imaginação, afirma Octavio Paz. Por obra da
imaginação,

o homem sacia seu infinito desejo e converte-se ele mesmo num ser
infinito. O homem é uma imagem na qual ele mesmo se encarna. O
êxtase amoroso é essa encarnação do homem em sua imagem: uno
com o objeto de seu desejo, uno consigo mesmo. Portanto, a verdadeira
história do homem é a de suas imagens: a mitologia.7

O autor assinala que o exercício imaginativo é o agente que move


o ato poético e erótico. A imaginação se concretiza em desejo; o desejo,
ato e energia. Ela é a potência que transfigura o rito e a linguagem em
ritmo e metáfora. Na conjugação das palavras “ver” e “crer” consiste o
segredo da poesia e de seus testemunhos, pois a poesia é feita de palavras
enlaçadas que emitem nuanças, reflexos e vislumbres. A imaginação
poética é “descoberta da presença”. Por isso, desvendar “a imagem do
mundo no que emerge como fragmento e dispersão, perceber no uno o
outro, será devolver à linguagem sua virtude metafórica: dar presença
aos outros. A poesia: procura dos outros, descoberta da outridade”8.
Conforme Paz, a imaginação é um “órgão do conhecimento” e,
como tal, é manifestação da temporalidade, pois desdobra e apresenta
Ant onio Donizet i da Cruz R 61

os objetos à sensibilidade e ao entendimento. Ao mesmo tempo, ela é


uma “faculdade que expressa, mediante mitos e símbolos, o saber mais
alto”9.
O mundo de operação do pensamento poético é a imaginação e
esta consiste, basicamente, na faculdade de relacionar realidades
contrárias ou dessemelhantes. A poesia tem o poder de exercitar nossa
imaginação e nos ensinar a reconhecer as diferenças e descobrir analogias
presentes nas formas poéticas e nas figuras de linguagem nas quais se
“descobrem semelhanças ocultas entre objetos diferentes”10. Paz observa
que a “imagem é abraço das realidades opostas e a rima é cópula de
sons; a poesia erotiza a linguagem e o mundo porque ela própria, em seu
modo de operação, já é erotismo”11. Assim,

A poesia nos faz tocar o impalpável e escutar a maré do silêncio cobrindo


uma paisagem devastada pela insônia. O testemunho poético nos revela
outro mundo dentro deste, o mundo outro que é este mundo. Os
sentidos, sem perder seus poderes, convertem-se em servidores da
imaginação e nos fazem ouvir o inaudito e ver o imperceptível.12

A linguagem do poema – “som que emite sentido, traço material


que denota ideias corpóreas – é capaz de dar nome ao mais fugaz e
evanescente: a sensação” 13. A linguagem ultrapassa a esfera dos
significados relativos – o isto e o aquilo – e nomeia o “indizível”, ou seja,
ela representa, sugere. O poema não tem por objetivo explicar, muito
menos representar, ele “apresenta”. A imagem não explica. Ela convida-
nos a recriá-la e, literalmente, a revivê-la, justamente pelo poder que ela
tem em transmudar o homem e convertê-lo em imagem, ou seja, “em
espaços onde os contrários se fundem. E o próprio homem, desenraizado
desde o nascer, reconcilia-se consigo quando se faz imagem, quando se
faz outro”14.
Em relação à poesia, Paz salienta que ela é “tempo revelado”, ou
seja, “enigmática transparência”15. O autor observa que toda sociedade
tem sua “imagem do mundo”, que se insere na “estrutura inconsciente
da sociedade”, por estar sustentada por uma concepção particular de
tempo. Por meio da imaginação, a sociedade produz imagens e acredita
nelas, uma vez que “todos os grandes projetos da história humana são
obras da imaginação, encarnada nos atos dos homens”16, ou seja, suas
62 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

palavras e ações são tempo. “O poeta diz o que diz o tempo, até quando
o contradiz: nomeia o transcorrer, torna palavra a sucessão. A imagem
do mundo se desdobra na ideia de tempo e esta se desdobra no poema”17.
Para Octavio Paz, o vocábulo imagem possui múltiplas definições,
entre elas um valor psicológico, pois elas são produto do imaginário. A
imagem é toda forma verbal, frase ou conjunto de frases, que o poeta diz
e que interligadas entre si compõem o poema. Toda imagem, ou cada
poema composto de imagens, enquanto “cifra da condição humana”,
contém um número extraordinário de significados contrários ou díspares,
sendo que “[...] toda imagem aproxima ou conjuga realidades opostas,
indiferentes ou distanciadas entre si. Isto é, submete à unidade a
pluralidade do real”18. Entretanto, os elementos da imagem não perdem
sua marca concreta e peculiar. Ela resulta indecorosa porque desafia o
princípio de contradição. Ao anunciar a identidade dos contrários, atenta
contra os fundamentos do pensar. O poeta, ao nomear e dizer, não o faz
como é, mas como poderia ser. A imagem revela o que é e não o que
poderia ser, tal como queria Aristóteles, pois o reino da poesia é o do
“impossível verossímil” e não o do ser19.
Mikel Dufrenne vê a imaginação como forma de subjetivar o
sentido. Ela pode ser potência do sonho ou delírio que traz à luz as
agitações e inquietações inconfessáveis do ser. O autor observa ainda
que:

a imaginação é uma fonte porque provém da fonte da vida como fonte,


sendo a própria fonte daquilo que a nega. O fato de a imaginação ser
realmente criadora, de definir o homem como capaz de transpor os
limites pelo ‘poder de despertar as fontes’, com bem lembra Bachelard20,
é reconhecido hoje pelo próprio racionalismo.21

Para Dufrenne, a imagem é o fenômeno de uma consciência


imaginante, como no sonho, que reconduz o sonhador a si mesmo.
Porém, há imagens provenientes de outro lugar, e que constituem um
apelo vindo do exterior, mesmo que a consciência as recolha e as esconda
em si mesmas. As imagens, pelas quais a Natureza22 inspira, não são
exatamente as coisas percebidas, mas o que se revela por meio dessas
coisas. Dessa forma, “a imagem não designa o saber virtual que dá sentido
ao percebido, pois esse é, parte por parte, imagem, mas sem que o real
Ant onio Donizet i da Cruz R 63

seja irrealizado, convertido em imaginário”23.


Dufrenne salienta ainda que, para Hegel, a conciliação do verdadeiro
com o real não tem lugar no pensamento, pois se processa na imaginação
e que a poesia “deve concretizar, pela força da imaginação, o pensamento
especulativo no próprio âmago do espírito. Deve descer ao núcleo íntimo
e próprio do homem: às profundezas da imaginação” 24. Assim, o
imaginário é o correlato noemático25 de uma consciência imaginante,
diferenciada pelo sentido com o real que é o objeto de uma consciência
perceptiva e desperta. Entretanto, é possível que alguns objetos, que são
perceptíveis, provoquem no homem uma circunscrição do imaginário,
sem estar relacionado diretamente ao ilusório ou ao irreal, tal como ocorre
no sonho.
Para Gaston Bachelard, a imaginação não é, como sugere a
etimologia, “a faculdade de formar imagens da realidade; é a faculdade
de formar imagens que ultrapassam a realidade, que cantam a realidade”26.
Mais do que inventar coisas e dramas, a imaginação “inventa vida” e
“mente novas”. O filósofo define a imaginação como uma potência
máxima da natureza humana. A imaginação, com sua “atividade viva”,
desvincula-se, simultaneamente, do passado e da realidade, direcionando-
se para o para o futuro. Nesse sentido, a “fenomenologia da imaginação”
não se contenta “com uma redução que transforma as imagens em meios
subalternos de expressão”. Ela “exige que vivamos diretamente as
imagens, que as consideremos como acontecimentos súbitos da vida.
Quando a imagem é nova, o mundo é novo”27.
Segundo Bachelard, a verdadeira imagem, quando é vivida
primeiramente na imaginação, “deixa o mundo real e passa para o mundo
imaginado, imaginário. Através da imagem imaginada, conhecemos esta
fantasia absoluta que é a fantasia poética”28. No dizer do filósofo, quando
alguma imagem “assume um valor cósmico, produz o efeito de um
pensamento vertiginoso. Uma tal imagem-pensamento, um tal
pensamento-imagem não tem necessidade de contexto”29. As proezas
das palavras vão além da expressão do pensamento.
Por sua vez, Gilbert Durand realiza importante contribuição para o
estudo e valorização da imaginação enquanto processo mental criador
que é capaz de dar dinamismo ao saber humano. Ao mesmo tempo,
resgata o valor da imaginação frente ao desgaste da utilização dos termos
64 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

relativos ao imaginário que têm ocorrido no pensamento ocidental.


Segundo o filósofo, no Ocidente, o “museu”, denominado imaginário,
constitui as imagens passadas, possíveis, que já foram produzidas e as
que serão produzidas, não só foi considerado suspeito como reprimido
durante séculos pelos valores cognitivos vigentes30. Seu objeto de estudo
é a imaginação e seu produto a imagem que se desenvolvem pela
permanente relação entre o eu interior e o meio social e cósmico. Assim,
a cultura é formada pela unificação entre o que se origina no corpo e o
que é oriundo do mundo.
Na acepção de Durand, o imaginário é o “conjunto das imagens e
relações de imagens que constitui o capital pensado pelo homo sapi-
ens”31. Ele é o grande denominador fundamental para onde se convergem
“todas as criações do pensamento”32. O filósofo salienta ainda que, o
imaginário humano constitui o conector inevitável pelo qual se forma
qualquer representação humana, pois “todo pensamento humano é uma
re-presentação, isto é, passa por articulações simbólicas” 33. Durand
complementa ainda que, o imaginário institui a priori um “domínio do
espírito sobre o mundo”, sendo que,

É a objetividade que baliza e recorta mecanicamente os instantes


mediadores da nossa sede, é o tempo que distende a nossa saciedade
num laborioso desespero, mas é o espaço imaginário que, pelo contrário,
reconstitui livremente e imediatamente em cada instante o horizonte e a
esperança do Ser na sua perenidade. E é de fato o imaginário que aparece
como recurso supremo da consciência, como coração vivo da alma cujas
diástoles e sístoles constituem a autenticidade do cogito.34

Já as imagens, qualquer que seja “o regime a que pertencem, em


contato com a duração pragmática e com os acontecimentos, organizam-
se no tempo, ou seja, ordenam os instantes psíquicos numa ‘história’”35.
A concepção durandiana de imaginação tem por base dois aspectos
abordados por Gaston Bachelard: o primeiro parte da ideia de que a
imaginação é um dinamismo organizador de imagens e o outro parte do
pressuposto básico de que o dinamismo organizador é elemento de
homogeneidade na representação. Para Durand, a imaginação se define
como uma reação defensiva da natureza contra a representação da
inevitabilidade da morte, por meio da inteligência. Dessa forma, a
Ant onio Donizet i da Cruz R 65

imaginação simbólica é um elemento de equilíbrio psicossocial,


sociológico, psíquico e biológico. A função da imaginação é, acima de
tudo, “uma função de ‘eufemização’, mas não é simplesmente ópio
negativo, máscara que a consciência ergue diante da hedionda figura da
morte, mas pelo contrário, dinamismo prospectivo que através de todas
as estruturas do projeto imaginário, tenta melhorar a situação do homem
no mundo”36.
A imaginação revela-se como o fator de equilíbrio do homem. Do
ponto de vista antropológico, o filósofo afirma que o dinamismo
equilibrante, que é o imaginário, apresenta-se como a tensão de duas
forças de coesão, de dois regimes: o regime diurno e o noturno, em que
cada um inventaria as imagens em dois universos antagônicos.
Durand parte do princípio de que há uma grande relação entre os
gestos do corpo, os centros nervosos e as representações simbólicas.
Ele desenvolve os pressupostos teóricos da imaginação sob dois
sistemas. O primeiro sistema (tripartite) é de “natureza reflexológica”,
ou seja, aponta para os gestos primordiais. O segundo sistema que
fundamenta a teoria antropológica durandiana em relação à imaginação
é formado sobre “a tripartição reflexológica”, composta por dois regimes
do imaginário: o diurno e o noturno.
O “regime diurno das imagens” é determinado pela dominante
postural e apresenta-se como o regime da antítese, da separação, da
distinção e das antinomias. Representa a luta contra a passagem tempo-
ral, contra a morte. Esse regime se define, de maneira geral, pelas antíteses
presença e ausência, ser e não-ser, ordem e desordem. Essa oposição de
“contrários”, cujas partes antitéticas têm sentido, na medida em que
manifestam convergência, ou seja, a primeira está voltada pela perda da
luz; a segunda revela a reconquista metódica do que foi perdido pela
primeira37. Busca-se, ainda, no regime diurno, o antídoto do tempo em
relação à transcendência e pureza das essências.
Já o “regime noturno das imagens” subdivide-se nas dominantes
digestivas e rítmicas e, opõe-se ao regime diurno, por substituir a antítese
pelo eufemismo. Por exemplo, no regime noturno ocorre uma eufemização
da morte. Ela possibilita viver em outra dimensão, sempre acolhedora.
Durand realça que a classificação não está organizada em quadros
estanques, pois, muitas vezes, os símbolos são polivalentes, obrigando
66 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

mais de um enquadramento. No dizer do autor, o regime noturno da


imagem, ao contrário do regime diurno, tem uma outra atitude
imaginativa frente ao tempo, justamente por ocorrer a procura da
intimidade das substâncias ou das constantes rítmicas dos fenômenos.
Se a imaginação é a força dinâmica pela qual o homem consegue
imaginar mundos e dar sentido à vida através de imagens, a poesia é o
vetor de operacionalização dos instantes vividos, das transmutações da
linguagem, da valorização dos sentimentos e das coisas mais simples. É
por meio da imaginação e da concretização da poesia que o ser humano
consegue dar forma às coisas mais tênues, evanescentes e se autoafirmar.
Sendo assim, a poesia é transcendência, contemplação, força que edifica
e revigora o homem frente às vicissitudes da vida. É também “milagre”
da linguagem.
O filósofo Edgar Morin define a poesia como amor, estética, gozo,
prazer, participação e, principalmente, vida 38. Ela é, igualmente, a
manifestação de possibilidades infinitas da indeterminação humana. Já a
criação poética tem o poder de reativar os conceitos analógicos e mágicos
do mundo e, também, despertar as forças adormecidas do espírito, com
o intuito de reencontrar os mitos esquecidos. Para o filósofo, a poesia
não é somente um modo de “expressão literária”, mas um “estado
segundo” vivenciado pelo sujeito e que deriva da participação, da
exaltação, embriaguez e, acima de tudo, “do amor, que contém em si
todas as expressões desse estado segundo. A poesia é liberada do mito e
da razão, mas contém em si sua união”39. Essas duas forças são capazes
de realizar a grande transformação vital, quer dizer, o amor se liga à “poesia
da vida”. Amor e poesia se mesclam e se identificam entre si. Já o sentido
do amor e da poesia aponta para a qualidade suprema da vida. Amor e
poesia, quando concebidos como fins e meios do viver, dão plenitude ao
“viver por viver”40. O filósofo ainda complementa:

A vida é um tecido mesclado ou alternativo de prosa e poesia. Pode-se


chamar de prosa as atividades práticas, técnicas e materiais que são
necessárias à existência. Pode-se chamar de poesia aquilo que nos coloca
num estado segundo: primeiramente, a poesia em si mesma, depois a
música, a dança, o gozo e, é claro, o amor.41
Ant onio Donizet i da Cruz R 67

Em relação à figura do poeta, Morin destaca que este é portador de


uma competência plena, “multidimensional”, pois sua mensagem poética
tem a capacidade de reanimar a “generalidade adormecida”, ao mesmo
tempo em que “reivindica uma harmonia profunda, nova, uma relação
verdadeira entre o homem e o mundo”42.
Em meio à crescente “crise contemporânea da linguagem”, o
escritor Italo Calvino, em Seis propostas para o próximo milênio 43,
identifica as seis qualidades que só a literatura tem o poder de salvar:
leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência44,
virtudes estas que balizam não apenas as atividades dos escritores em
geral, mas também os gestos precisos da existência humana. Nesse
sentido, “o artista da palavra”, através das escolhas formais na
composição literária, faz com que a obra literária seja “uma dessas
mínimas porções nas quais o existente se cristaliza numa forma, adquire
um sentido, que não é nem fixo, nem definido, nem enrijecido numa
imobilidade mineral, mas tão vivo quanto um organismo”45. Por essa
razão, a poesia é “filha do acaso”, mas também “a grande inimiga do
acaso”, mesmo que este venha “em última instância” ganhar “a partida:
‘Un coup de dés jamais n’abolira le hasard’”46, afirma Calvino.
Nesse sentido, a frase de Mallarmé e as observações precisas de
Calvino em relação à poesia convergem para o universo da linguagem
capaz de traduzir as nuanças do pensamento e imaginação, sem esquecer
também o aspecto lúdico da linguagem, pois a poesia é capaz de instaurar
uma espécie de jogo, em que o poeta e o leitor surgem como criadores.
O primeiro é capaz de decifrar a Natureza e dar forma viva à linguagem.
O segundo interpreta o momento de criação do poeta e completa o
“circuito da poesia”.
Por sua vez, o poeta Armindo Trevisan, salienta que a poesia tem o
poder de despertar e animar o homem para a própria sobrevivência. A
poesia – captação de realidade – se caracteriza por uma espécie de
“imediatez e tato”, ou seja, uma maneira de “apalpar as coisas e o
coração”. Ela “nos obriga a ir além daquilo que se vê, a transpor as palavras.
Tentamos produzir em nós uma sensação ou sentimento semelhante ao
do poeta. Nesse sentido, toda poesia exige um poeta, ou antes, dois: o
poeta-autor e o poeta-leitor”47. Trevisan salienta que é preciso ver a poesia
como uma experiência a ser vivida. Ela é uma arma da natureza, pois
68 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

através dela o homem se protege e se empenha por sobreviver. A poesia


reencontra na natureza instintiva, sua funcionalidade vital, por ser “uma
emoção revivida na tranquilidade”48.
A poesia é força capaz de transfigurar a realidade do homem. Palavra
essencial, a lírica tem o poder de operacionalizar o discurso verbal, de
dar sentido à vida e elevar o pensamento do homem.
Retomando o pensamento de Paz, agora em relação à lírica, o autor
registra que ela é sempre uma experiência arriscada, pois a poesia diz
respeito aos momentos afins ao sentimento oceânico que, para Freud,
era peculiar à experiência religiosa e que consiste em se sentir agitado
nas águas primordiais da existência. Nesse sentido, na história da poesia
moderna reaparece a mesma obsessão dos gnósticos e dos cristãos
primitivos, dos xamãs da Ásia e da América: a busca de uma linguagem
primordial, anterior a todas as linguagens e que restabeleça a unidade de
espírito. Essa linguagem, intraduzível não carece de sentido, ou seja,
“aquilo que anuncia não está antes, mas depois da significação”49.
De acordo com Octavio Paz, o artista antigo desejava ser parecido
com seus maiores, ser digno deles através da imitação. O artista moderno
almeja alcançar a eternidade e, ao mesmo tempo, quer ser diferente. Ele
realiza sua homenagem à tradição fora do Ocidente, na arte dos primitivos
ou na de outras civilizações.
Em relação à poesia da modernidade, Paz observa que ela remete à
crítica da sociedade burguesa. Simultaneamente, ela nega e afirma essa
sociedade. Ao fazer sua própria crítica instaura o espírito moderno. Os
poetas, a partir da modernidade, se deparam frente ao vazio. O espaço
em branco faz do poeta moderno um ente solitário, cuja busca e solidão
são iguais a todos os homens. Assim, “a história da poesia moderna é a
do contínuo dilaceramento do poeta, dividido entre a moderna concepção
do mundo e a presença às vezes intolerável da inspiração”50. Para o referido
autor, a crítica à civilização ocidental foi iniciada pelos poetas românticos
precisamente no começo da era industrial. A poesia do século XX recolheu
e assimilou a revolta romântica, porém só agora é que essa rebelião
espiritual começa impregnar o espírito das maiorias.
Octavio Paz observa que, geralmente, os artistas esquecem que as
suas obras participam do segredo do verdadeiro tempo: a vivacidade do
instante, até mesmo porque “a obra de arte tem a capacidade de fecundar
Ant onio Donizet i da Cruz R 69

os espíritos e de ressuscitar, até como negação, nas obras que são sua
descendência”51. Paz salienta que a obra de arte começou como uma
crítica de todas as mitologias, incluindo a cristã. O tempo moderno se
originou do tempo cristão. Os fundamentos da modernidade sofrem um
duplo paradoxo: “[...] por um lado, o sentido não reside nem no passado
nem na eternidade, mas no futuro, de onde a história se chamar também
progresso; por outro, o tempo não repousa em qualquer revelação divina,
nem em algum princípio inamovível: nós o concebemos como um
progresso que se nega incessantemente e assim se transforma”52.
No dizer do autor, o que diferencia a modernidade é a crítica, uma
vez que “o novo se opõe ao antigo e essa oposição é a continuidade da
tradição”53.
Para o crítico Javier Gonzáles54, a modernidade começa com a
reivindicação do direito de a poesia criticar a sociedade e exaltar os
sentimentos, e chega, com Baudelaire, à crítica dos fins mesmos da
poesia, pois o movimento da modernidade implica, em certo sentido,
um retorno ao momento inicial em que a arte e a vida não se haviam
escindido. Gonzáles assevera que a poesia é palavra original. É também
linguagem que conhece os fracassos e limitações e, por essa razão, ela
“compreende as iluminações do silêncio” 55. Já a poesia moderna
representa o esforço de devolver à linguagem o poder de clarificar e
especificar as coisas e os valores. Por isso, o poema moderno mostra “a
vacuidade que habita as palavras” e, ao mesmo tempo, faz com que “a
linguagem regresse ao silêncio”56.
Para Charles Pierre Baudelaire, “a modernidade é o transitório, o
fugaz, o contingente, a metade da arte, cuja metade restante é eterna e
imutável”57. Para o autor, o poeta da modernidade não só consegue extrair
o eterno do transitório, mas também realiza por meio da linguagem uma
operação capaz de registrar o transitório, as coisas mais evanescentes.
Da ligação entre o imutável e o contingente, o passageiro e o eterno,
surge uma linguagem estável. Ou seja, na esfera da duplicação, a
“dualidade da arte” remete sempre à “consequência fatal da dualidade do
homem”.58
Fundamentando-se na estética e no pensamento baudelairiano, o
crítico João Alexandre Barbosa, afirma que, a poesia moderna não é
somente aquela que se situa num determinado período, ou seja, “a partir
70 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

da segunda metade do século XIX, mas aquela que torna inseparável da


poesia a problematização dos modos de relacionamento entre poeta e
linguagem que, a partir daquele momento, entram em crise: ruptura”59.
Entretanto, esta não é somente uma crise relacionada à poesia da
modernidade, mas também põe às claras a “consciência do poeta”. Por
esta razão, o poeta moderno é, principalmente, aquele que é capaz de
transformar “a linguagem do poema em linguagem da poesia”. Segundo
o autor, o poeta repensa as dimensões da realidade através da
metalinguagem, ou seja, o poema metalinguístico interioriza a alegoria
ao problematizar os fundamentos analógicos da linguagem. Assim, “não
há modernidade na poesia sem esta estratégia: a linguagem do poema é
a afirmação de uma crise da linguagem que, por sua vez, espelha a ruptura
para com os mecanismos de representação da realidade”60. O autor
observa ainda que, na poesia moderna, “a busca pelo começo” (ato este
capaz de deflagrar a linguagem) se explicita por meio da consciência de
leitura, em que a linguagem do poeta é de certa forma a tradução/traição
desta consciência. Entre a linguagem da poesia e o leitor, o poeta se
instaura como “operador de enigmas” e, ao mesmo tempo, transforma a
linguagem do poema a seu emitente domínio, pois o dizer gera a
reflexividade. Pela cumplicidade e parceria, o poeta e o leitor aproximam-
se ou afastam-se mediante “o grau de absorção da/na linguagem”61.
O poeta moderno, no dizer de Barbosa, “é aquele que sabe o que
há de instável na condição de encantamento de seu texto, sempre
dependente de sua condição de enigma”62. Para ele, a alegoria deixou de
ser uma tradução do oculto para ser uma possibilidade de, na linguagem
do poema, insinuar a consciência de sua historicidade. Quer dizer: ao
“recifrar-se” enquanto alegoria, o poema resgata no espaço da linguagem
da poesia o distanciamento entre o poeta e o público. Nesse sentido, o
poema “é pensado e realizado para o leitor, enquanto enigma, todavia, e
é o caso do poema moderno, entre leitor e poeta estabelece-se a parceria
difícil de quem joga o mesmo jogo”63.
Conforme Barbosa, para Baudelaire, ser moderno significava,
sobretudo, dar ao presente histórico a ilusão de uma intemporalidade,
ou seja, modernidade é “ilusão de intemporalidade”. Esta ilusão é cultivada
com todo rigor da consciência, em que a busca do intemporal faz com
que o poeta “mergulhe” no transitório, no fugitivo e no contingente,
Ant onio Donizet i da Cruz R 71

justamente por ele – mais do que os artistas anteriores – assumir a


consciência nostálgica da eternidade. Dessa forma, a busca pelo poema
é sempre uma projeção em direção àquilo que está para além de uma
forma particular. “Como o artista moderno, o poeta e tradutor moderno é
um iludido. Ele, no entanto, persegue esta ilusão pois sabe que as
inadequações entre a sua condição e a da sociedade negam-lhe o direito
do vaticínio e da intemporalidade”64.
Segundo as palavras de Philippe Willemart, a modernidade, definida
por Baudelaire, tendo como ponto de partida a pintura, se projeta na arte
teatral com Malllarmé, que re(organiza) sistematicamente a disposição
das letras ou das palavras na página branca ou das dançarinas no palco.
Ou mais precisamente,

É o transitório levado até a unidade mínima da linguagem atingindo o


que parecia o mais estável da poesia: a distribuição das letras, o eixo
sintagmático, o alinhamento dos versos, a relação estratificada entre a
página e os caráteres tipográficos. A revolução artística na publicidade,
na gravura, na pintura, na poesia ou na arte tipográfica, suspeitada desde
os ensaios de Baudelaire e de seu alter-ego Edgar Allan Poe, foi
desenvolvida por Mallarmé e atravessou as colagens dos cubistas, os
Calligrammes de Apollinaire, a poesia sonora de Iliazd, o Futurismo de
Marinetti, os manifestos de Tzara e do movimento holandês De Stijl, o
poema-cartaz de Haussman, os surrealistas, os Bauhaus de Weimar,
Finnegan’s wake, de Joyce etc. e continua influenciando a poesia
contemporânea.65

Assim, o artista da modernidade “será o vidente”, aquele que


descreverá histórias de seu século vistas sob prismas diferentes, isto é,
ao se deparar com “as sereias modernas, ele as transfigura e as devolve
em uma forma nunca vista e sempre original”66.
Conforme Maria do Carmo Campos, “o poeta moderno desde
Baudelaire não é mais, no entanto, segundo Benjamin, um salvador, nem
um mártir, em mesmo um herói, mas um “mímico” que tem de
desempenhar o papel de poeta perante um público e uma sociedade que
já não mais precisam do poeta autêntico67". No dizer de Campos, “[...]
caberá sempre ao poeta resgatar a palavra, lírica ou irônica, a palavra
silêncio, meio e fim na desvendação do possível, do oculto, da outra face
da história”68. A autora registra também que, “a ideia de correspondência
72 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

universal é tão antiga quanto a sociedade humana. Se a poesia pode ter


sido a primeira linguagem dos homens, a linguagem pode também ser
concebida como uma operação poética que consiste em ver o mundo
como uma trama de símbolos e de relações desses símbolos”69.
O poeta português António Ramos Rosa, ao discorrer sobre a poesia
moderna, afirma que ela, enquanto “procura sempre incerta do sentido”,
é uma aventura que se instaura em um “espaço interdito, o espaço do
não-sentido”. Dessa forma,

Através das sucessivas rupturas, desde Baudelaire, com a sua busca do


novo e do desconhecido, de Rimbaud, com a fulguração do seu gênio e
o seu silêncio, e de Mallarmé perante a vertigem da folha em branco
– essoutro silêncio ou a original interdição, – a poesia moderna tem
manifestado, de múltiplas formas, a busca de um inacessível sentido
que é o do próprio inacessível.70

A constante interrogação que caracteriza a literatura moderna gira


em torno desse lugar que o próprio branco da página sugere, para restituir
à palavra a dinâmica do desejo, o qual suscita, pela contínua transmutação
dos significantes, novos sentidos e possibilidades de ser71. A aventura
poética torna-se possível graças à “impossibilidade do inacessível”, uma
vez que a “ausência de sentido” direciona para o “deserto em que busca
a linguagem de um silêncio, a sua própria origem”72. Para Rosa, os poetas
do deserto dão continuidade à aventura da poesia – uma revolução
contínua – tratando-se de uma procura que, sendo específica da
modernidade poética, se liga à busca essencial da poesia de sempre. A
poesia do deserto reencarna as aspirações incessantes da “encarnação
do desejo”. “Os poetas do deserto realizam uma revolução permanente
a partir do ponto extremo que põe em causa a linguagem mas que
incessantemente a alimenta e a instaura”73.
Segundo Rosa, o poeta moderno não escreve para dizer algo que já
sabe, mas para expressar o que ignora, com o intuito de encontrar o
verdadeiro desconhecido, o novo, o inicial. A distância que a linguagem
estabelece em relação ao real, conduz efetivamente à concretização de
uma inusitada relação com o mundo. Na perspectiva da criação não está
uma “positividade ou uma plenitude de ser”, uma realidade já firmada,
mas “o vazio e a distância constitutiva da linguagem, a negatividade e a
Ant onio Donizet i da Cruz R 73

carência. É este ‘nada’ que põe em ação a imaginação, que a torna a um


só tempo receptiva e criadora, permitindo à consciência abrir-se à
inapreensível totalidade”74. Para o referido autor, a finalidade do trabalho
poético é o próprio poema, pois é esta mesma objetividade interna que
“o abre ao mundo e permite a comunicação. O que o poema canta, seja
qual for o seu motivo ou tema explícito, é o momento sublime da
criação”75. Daí a revelação do poema enquanto “ação da linguagem”,
instante de ordenação e unificação com o mundo. As palavras não se
diferenciam das coisas. O que as interligam “não é a relação de um signo
a um referente, ou significado, mas a energia que, através da operação da
linguagem, as percorre e assim desvenda a unidade do presente criador”76.
Já o processo simbólico na arte tem por objetivo desvendar a ausência
que lhe é intrínseca.
Lúcia Fabrini de Almeida, ao investigar a relação entre tempo e
otredad em Octavio Paz, afirma que, “a poesia da modernidade se inicia
como crítica da sociedade burguesa e como subversão de seus valores.
Entretanto, ao fazer isso não o faz livre dos conflitos gerados pelo embate
entre a razão crítica e a consciência poética”77. Em relação à contradição
poesia e modernidade, Almeida ressalta que esta pode ser esquematizada
da seguinte forma,

[...] objetivando a sociedade moderna e exercendo sobre ela a crítica, a


poesia nega essa sociedade e assim se afirma; ao conceber a si mesma
como objeto de reflexão, a poesia faz sua própria crítica e assim afirma
o espírito moderno. Nessa dupla negação-afirmação consiste a sua
modernidade. A inserção da crítica na criação poética faz dela uma criação
histórica, pois a consciência histórica é inseparável da crítica. Porque
reflete sobre si mesmo, o texto poético manifesta a consciência da
mudança e, portanto, de sua transitoriedade, de sua imortalidade.78

O poeta da modernidade, no dizer de Almeida, é como que um


“Narciso às avessas”, capaz de se encantar frente à “imagem do nada”.
Por isso, a superfície espelhada não é capaz de lhe devolver a face, afirma
a autora.
Para Eduardo Subirats, o homem contemporâneo “vive perdido num
mundo de símbolos e normas que, embora mostrem inequívoca
funcionalidade objetiva, estão tão privados de dimensão interior que não
74 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

lhe deixam espaço para reconhecer-se”79. Assim, ele “se sente como
náufrago extraviado num mar de signos que compreende e manipula,
mas que de maneira alguma pode sentir como parte sua”. Entretanto,

As formas e normas da cultura revelam-se como um universo frio de


substâncias mortas, e nessa nulidade ele se experimenta a si mesmo
como identidade subjetiva carente de valor próprio. Na separação entre
a realidade das leis sancionadas pela cultura e a existência subjetiva,
isolada assim de qualquer referência objetiva ou talvez por ela assediada,
manifesta-se a profundidade da crise atual da cultura, como crise de
suas formas.80

Subirats observa também que a crise da modernidade é um


fenômeno interligado “ao processo de dissipação da dimensão interior
de seus valores”. É possível notar tal situação com maior nitidez nos
objetos que, necessariamente, “nossa cultura privilegia como portadores
de seus últimos valores: nas obras de arte e de arquitetura, e no desenho
dos objetos que rodeiam nossa existência quotidiana”81. Ainda para o
autor, o homem contemporâneo “converteu-se no náufrago de um mundo
civilizado repleto de objetos esvaídos, carentes de sentido humano. A
cultura deixa hoje o indivíduo desamparado, porque não é capaz de oferecer
os símbolos que o formem, quer dizer, que permitam sua realização como
indivíduo”82.
O escritor e crítico Andrade Muricy, no prefácio de sua obra
intitulada A nova literatura brasileira, afirma que a modernidade tem
significado concreto, isto é, não se refere somente ao presente, mas a
um “certo estado de permanência instável. Qualquer coisa que acompanha
sempre o homem, realidade aguda, chegando periodicamente a uma
espécie de maturidade bem acusada, de onde ressalta um caráter
distintivo”83. O autor ressalta ainda que o contemporâneo seduz por
muitos motivos alheios ao puro mérito literário, por exemplo: pela
surpresa e pela audácia. Segundo Muricy, foram os modernistas que
tiveram força de ânimo e coragem para realizar a inovação, mesmo em
“meio do sorriso verde-acre dos cépticos, e do abandono e desmazelo
generalizados”84.
Nesta perspectiva, pode-se dizer que os autores modernistas
levaram avante o projeto de solidificação de uma literatura que visava à
Ant onio Donizet i da Cruz R 75

liberdade de criação, ao anseio em traduzir um sentimento nacional, à


busca do original rompendo com os modelos pré-estabelecidos.
Na poesia brasileira há um número muito vasto de poetas que têm
suas obras marcadas pelo teor de modernidade85: Carlos Drummond de
Andrade, Cecília Meireles, Helena Kolody, Mario Quintana, Manuel de
Barros, Orides Fontela, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Hilda
Hilst, João Manuel Simões, Armindo Trevisan, Paulo Leminski, Alberto
Cardoso, entre tantos outros. Kolody é nome representativo da poesia
brasileira86, pois ela tem uma obra valiosa que apresenta aspectos da
realidade que abordam fatores sociais e psicológicos. Registra-se, em
sua linguagem, o vigor das palavras, os questionamentos e as operações
metalinguísticas. Nesse sentido, retomando o pensamento de Barbosa,
“o Moderno é indissociável da insegurança: entre buscas, rupturas e
retomadas, o seu desígnio é a desconfiança em relação ao ajuste entre
representação e realidade”87. Daí resulta a “crítica das articulações”, que,
por sua vez, faz com que “o Moderno, em literatura e nas artes, esteja
saturado pela consciência en abîme que a crítica traz em seu bojo e que
se instala como substância do texto criativo, abrindo sulcos de grande
tensão no próprio tecido da composição”88.
Essas afirmativas de Barbosa podem ser observadas na poesia
kolodyana, isto é, a busca, a metalinguagem, o sentido de ruptura, a
articulação crítica da linguagem, o questionamento sobre o fazer poético,
entre outros, são procedimentos observáveis em sua obra. Com uma
poiesis alicerçada no grande poder de síntese, seus poemas sugerem
abstrações rápidas e aproximações de sentidos. A poeta opera em exercício
lúdico através de sua maneira de dizer e nomear as coisas. Sua poesia
manifesta um lirismo singelo, com uma linguagem expressiva que busca
constantemente o tema do fazer poético.
A obra de Kolody é portadora de muitos sentidos e preocupação
com a linguagem. Sua maneira peculiar de nomear as coisas contagia o
leitor. Uma das razões de sua popularidade é a maneira como ela articula
a linguagem e expressa uma mensagem marcada pela singeleza.
Na poesia kolodyana, a palavra adquire a inflexão da interrogação
ontológica. A poesia, enquanto busca de sentido, faz com que o poeta e
o leitor mantenham na atualidade um procedimento de indagação perante
esta arte, pois, no dizer de Octavio Paz, na modernidade, o poema adquire
76 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

a forma de questionamento e, ao mesmo tempo, é “recuperação da


outridade, projeção da linguagem num espaço despovoado por todas as
mitologias, o poema assume a forma de interrogação. Não é o homem
que pergunta: a linguagem nos interroga”89.
A permanente interrogação – marca profunda da literatura moderna
– gira em torno da ausência que o branco da folha sugere. Dessa forma,
é pela palavra que o poeta desenvolve a contínua indagação perante a
linguagem, gerando novos sentidos e possibilidades de ser. Na poesia de
Kolody, a metapoesia ocorre em muitos poemas que testemunham o ato
criador. Uma das marcas da modernidade literária é o permanente ato de
acreditar na linguagem. O poeta é sempre um apaixonado pela linguagem,
ou seja, um lutador e resistente no sentido de desafiar as palavras. Mas
ele é, também, um ser frágil e impotente perante o tempo e a vida. O
poeta – com suas “antenas sensíveis” – escuta o que o tempo diz, ainda
que seja o nada, pois hoje ele percebe que “o próprio silêncio é voz,
murmúrio que busca a palavra de sua encarnação”90. Assim, através do
ato poético, ele insere-se na história. O estar sempre em busca de si
mesmo faz com que se identifique com suas criações, tendo em vista o
encontro consigo mesmo e com seus semelhantes. O poeta, com sua
necessidade de transcender a história, se encontra frente “a esse antigo e
perpétuo dilaceramento do ser, sempre separado de si, sempre em busca
de si”91, como no poema dístico:

ESSÊNCIA

Oculta na roupagem metafórica,


92
palpita a realidade essencial.

São versos que revelam que o poema pode ser comparado a uma
concha que guarda preciosa pérola, ou ainda, tal como uma pedra preciosa
já lapidada. Desvendar os segredos da poesia é ofício do poeta e do leitor
no que diz respeito à tarefa de desvendar os enigmas da linguagem.
A linguagem apresenta-se como transcendência no seguinte texto:
Ant onio Donizet i da Cruz R 77

ELOGIO DO SILÊNCIO

A expressão do ser profundo


transcende a linguagem.

Falar é traçar limites


ao ilimitado.

Espelho do intransitivo.
Somente o silêncio
93
reflete o indizível.

Os versos do poema registram a contenção, o rigor da linguagem


e as sutilezas das imagens, que resultam no equilíbrio e na condensação
textual. É a memória que se cristaliza no instante de dizer. A palavra é
busca de síntese necessária à expressão, ainda que o silêncio seja maior
e a realidade mais pura, portadora de um mundo de sentidos e significações
em que o ato de nomear, de “quase-dizer”, realça a condição do poeta:
ser solitário e, ao mesmo tempo, solidário. É a impotência da linguagem
e das palavras, tal como afirma Cecília Meireles: “Ai, palavras, ai, palavras,/
que estranha potência, a vossa!”94. Nesse sentido, a literatura é um refúgio
do homem contra as desilusões, frustrações e limitações. Ela é uma força
capaz de impulsioná-lo a atingir seus sonhos, objetivos e realizações. Na
criação literária o escritor reinventa seu mundo, dá sentido à vida através
do reino encantado das palavras.
Em sua poesia, os sentimentos mais puros estão presentes, tal
como nos versos do poema “seres límpidos”, em que o sujeito lírico
afirma:

seres límpidos

Amo os seres límpidos:


mãe,
fonte,
cristal,
pássaro,
criança.95
78 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

Esses versos representam os signos mais puros, transcodificados


na força das palavras. São imagens vitais que simbolizam a vida e
traduzem as relações do homem com a natureza. Os substantivos estão
ligados por um único verbo intransitivo: amar. O presente do indicativo
direciona o poema no sentido do amor e do ato de nomear as coisas.
Emerge do poema uma relação de sentidos que se conjugam em torno
do verbo amar, permitindo remetê-la à uma afirmação de Morin: “o amor
é algo único, como uma tapeçaria que é tecida com fios extremamente
diversos”, isto é, “o amor enraíza-se em nossa corporeidade e, nesse
sentido, pode-se dizer que o amor precede a palavra”96.
A poesia de Kolody apresenta as coisas mínimas, a alegria de viver,
a humildade e plenitude, o desejo de atingir a realização pessoal, a
preocupação com o tempo, a angústia, a solidão, a melancolia, tão
próprias do homem do século XX. Em sua poesia há uma celebração e
glorificação da “palavra essencial”, e também uma vasta intersecção de
relações infinitas entre os signos da arte e da vida.
Kolody realiza uma poesia que efetiva, de maneira geral, a
presentificação dos elementos puros, tais como a fonte, a mãe, a água, a
natureza, o sol, o fruto, a água, o mar. A interioridade aflora na poesia
kolodyana através da alegria de viver, da celebração e glorificação do
mundo, valendo-se de sua visão de mundo, seu eu questionador, sua
condição de viajante e de observador atento, que está no mundo só de
passagem.
Já o poema – sinal de “quase-permanência” num mundo transitório
– acaba por ser expressão da consciência de um sujeito que faz da
imaginação uma viagem inusitada através da linguagem. O poeta se volta
à experiência poética no afã de atingir o equilíbrio e a contenção da
linguagem, pois na procura mais essencial da palavra para transmitir
uma emoção, ele nomeia as coisas criando uma nova realidade poética.
Helena Kolody, com sua linguagem imagética, retrata a condição
humana e dá testemunho de uma construção poética que privilegia o
sentido da vida. As imagens dessa reflexão aparecem de forma nítida e
recorrente: o rio, a travessia, a viagem, as estações, as gerações, a vida e
a morte, a solidão, a nostalgia, entre outros.
Ant onio Donizet i da Cruz R 79

Em sua poesia, o essencial reside na busca profunda do sentido da


existência e do intemporal, enquanto substância de seu pensamento, tal
como afirma no poema dístico:

Para além das fronteiras do conhecimento


fogem os caminhos da imaginação.97

Da confluência conhecimento/imaginação, há toda uma


correspondência dos pólos balizadores da vida: a imaginação é elemento
dinâmico que impulsiona o poeta ao ato de criação. Não há como delimitar
o mundo do conhecimento e da imaginação, fatores estes sempre abertos
à reflexão e à interiorização das coisas mais simples da vida.
A imaginação poética kolodyana está fundamentada nos valores
mais singelos como a valorização da vida, a observação atenta à natureza
e a busca de perfeição, tal como ocorre no poema intitulado:

Maneiras de ser

Os que são raízes


amam profundezas.
Crescem em segredo
em busca de fontes.

Os que são asas inquietas


anseiam por amplidões.
Desenham signos de vôo
98
no azul do sonho infinito.
80 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

Figura 1: Cintilações. Óleo sobre tela, 1,30 cm x 80 cm. Antonio Donizeti


da Cruz – [Premiado no Concurso Internacional de Poesia e Desenho
“Lília A. Pereira da Silva”, Itapira – SP).
Fonte: CRUZ (2010, p. 28)

A linguagem do poema é elaborada de forma criativa. Nota-se a


duplicação semântica e espacial, cujos versos ultrapassam limites e
delineiam buscas de verdades e conhecimentos mais profundos. Numa
linguagem sutil e vigorosa, o poeta “desenha seus signos” e deixa ao
leitor a tarefa de descobrir o mundo mágico das palavras do poema. Nesse
sentido, Jorge Luis Borges afirma que “a linguagem é uma criação – vem
a ser uma espécie de imortalidade”99.
A poesia de Helena Kolody projeta-se como potencialidade e
transcendência. É a consciência das potencialidades que faz com que o
poeta busque novas formas de arte, no jogo com as palavras e na revelação
portadora de novos sentidos. É uma poesia que leva à reflexão e busca
um preenchimento de paz, resistência frente à insensibilidade. O universo
imaginário e poético de Kolody apresenta imagens, signos e símbolos
que valorizam a vida e seus instantes. Assim, é através da viagem em
versos e de sua maneira especial de encarar a vida que Helena Kolody
marca sua presença humana e poética no contexto da literatura brasileira.
Ant onio Donizet i da Cruz R 81

NOTA S

1
Neste capítulo abordar-se-á os assuntos: imaginação, poesia e modernidade. Assim, cumpre
ressaltar que não será apresentada a fundamentação teórica dos autores numa ordem
cronológica, mas seguindo uma abordagem temática tal como aparece na sequência. Daí
a necessidade de retomada de alguns autores.
2
COLERIDGE. In: LOBO, Luiza. Teorias poéticas do romantismo. Porto Alegre: Mercado
Aberto, 1987, p. 201.
3
Loc. cit., grifo do autor.
4
COLERIDGE, loc. cit.
5
COLERIDGE apud PAZ, Octavio. O arco e a lira. Trad. Olga Savary. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1982, p. 286.
6
Id.
7
PAZ, op. cit., 1982, p. 290.
8
Id., ibid., grifo do autor.
9
Id., ibid., p. 286.
10
PAZ, Octavio. A outra voz. São Paulo. Siciliano, 1993, p. 146-147.
11
PAZ, Octavio. A dupla chama: amor e erotismo. São Paulo: Siciliano, 1994, p. 12.
12
Id., ibid., p. 11.
13
Id., ibid., p. 12.
14
PAZ, op. cit., 1982, p. 137, grifo do autor.
15
PAZ, Octavio. Convergências: ensaios sobre arte e literatura. Trad. Moacir Werneck de
Castro. Rio de Janeiro: Rocco, 1991, p. 98.
16
Id., ibid., p. 119.
17
Id., ibid., p. 97-98.
18
PAZ, op. cit., 1982, p. 120.
19
Id., ibid., p. 121.
20
BACHELARD apud DUFRENNE. Essai sur la connaissance approchée, de Gaston Bachelard,
p. 290.
21
DUFRENNE, 1969, p. 161.
22
O autor usa o conceito de Natureza como Ser, ou seja, “A Natureza é antes de tudo a
realidade inesgotável. [...] Se a Natureza tem um sentido, é o ente mesmo de sua
realidade, o ente como ser”. Op. cit., 1969, p. 196-197.
23
DUFRENNE, op. cit., 1969, p. 223.
24
Id., ibid., p. 159.
25
Na fenomenologia, o termo se refere ao aspecto objetivo da vivência, isto é, remete ao
objeto percebido. O noema é o objeto tornado fenômeno para uma consciência, ou seja,
a “coisa-sentido”.
26
BACHELARD, Gaston. A água e os sonhos: ensaios sobre a imaginação da matéria. Trad.
Antonio de Padua Danesi. São Paulo: Martins fontes, 1989a, p. 18, grifo do autor.
27
BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes, 1993, p. 63.
28
BACHELARD, op. cit., 1989b, p. 10, grifo do autor.
29
Id., ibid., p. 28.
30
DURAND, Gilbert. O imaginário: ensaios acerca das ciências e da filosofia da imagem. Rio
de Janeiro: DIFEL, 1998, p. 6.
31
DURAND, Gilbert. As estruturas antropológicas do imaginário: introdução à arquetipologia
geral. Trad. Hélder Godinho. São Paulo: Martins Fontes, 1997, p. 18.
32
Loc. cit.
33
DURAND, op. cit., 1998, p. 40-41, grifo do autor.
34
DURAND, op. cit., 1997, p. 433.
82 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

35
DURAND, Gilbert. A imaginação simbólica. Lisboa: Edições 70, 1995b, p. 75-76, grifo do
autor.
36
Id., ibid., p. 99, grifo do autor.
37
DURAND, op. cit., 1997, p. 67-68.
38
MORIN, Edgar. Amor, poesia, sabedoria. Trad. Edgard de Assis Carvalho. Rio de Janeiro:
Bertrand Brasil, 1998, p. 59.
39
Id., ibid., p. 9.
40
Id., ibid., p. 9-10.
41
Id., ibid., p. 59-60.
42
MORIN, Edgar. O homem e a morte. Mira-Sintra: Europa-américa, 1988, p. 158.
43
CALVINO, Italo. Seis propostas para o próximo milênio. Trad. Ivo Barroso. São Paulo:
Companhia das Letras, 1999.
44
Este seria o tema da última proposta que Italo Calvino pretendia escrever e transmitir aos
homens do próximo milênio, não fosse sua morte súbita. As cinco propostas anteriores são
conferências que o autor elaborou para a Universidade de Harvard.
45
CALVINO, loc. cit., p. 84.
46
MALLARMÉ apud CALVINO, 1999, p. 84. Grifo do autor. Tradução: “Um lance de dados
jamais abolirá o acaso”.
47
TREVISAN, Armindo. Reflexões sobre a poesia. Porto Alegre: InPress, 1993, p. 38.
48
Id., ibid., p. 33, grifo do autor.
49
PAZ, op. cit., 1991, p. 16-17, grifo do autor.
50
PAZ, op. cit., 1982, p. 201.
51
PAZ, op. cit., 1991, p. 56-57.
52
Id., ibid., p. 98.
53
PAZ, Octavio. Signos em rotação. São Paulo: Perspectiva, 1996, p. 134. Grifo do autor.
54
GONZÁLES, Javier. El cuerpo y la letra: la cosmología poética de Octavio Paz. México –
Madrid – Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 1990.
55
Id., ibid., p. 211.
56
Id.
57
BAUDELAIRE. In: CHIAMP, Irlemar (Org.). Fundadores da modernidade. São Paulo: Ática,
1991, p. 109. Esta definição de modernidade se encontra no ensaio “O pintor da vida
moderna”, em que Baudelaire analisa a obra de Constantin Guys, a partir de desenhos
e aquarelas do artista. Este artigo foi publicado em 1863, no Figaro.
58
BAUDELAIRE. In: CHIAMP, 1991, p. 105.
59
BARBOSA, João Alexandre. As ilusões da modernidade. São Paulo: Perspectiva, 1986, p.
98.
60
Id., ibid., p. 98.
61
Id., ibid., p. 14-15.
62
Id., ibid., p. 14-15.
63
Id., ibid., p. 21-22
64
Id., ibid., p. 31
65
WILLEMART, PHILIPE. A modernidade na literatura francesa. In: CHIAMP, Irlemar (Org.).
Fundadores da modernidade. São Paulo: Ática, 1991, p. 101. Grifos do autor.
66
Loc. cit.
67
BENJAMIN apud CAMPOS. In: CAMPOS, Maria do Carmo. A matéria prismada: o Brasil
de longe e de perto & outros ensaios. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1999, p. 101.
“Parque Central, 8”, de Walter Benjamin.
68
CAMPOS, 1999, p. 166. Na passagem, a autora se refere à obra de Carlos Drummond de
Andrade.
69
Id., ibid., p. 143.
70
ROSA, António Ramos. Os poetas do deserto. In: Cadernos de Literatura. Centro de
Ant onio Donizet i da Cruz R 83

Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra. Coimbra, n. 11, 1982, p. 35.


71
ROSA, António Ramos. O conceito de criação na poesia moderna. COLÓQUIO/LETRAS,
Lisboa, n. 56, julho, 1980, p. 7.
72
ROSA, op. cit., 1982, p. 35.
73
Id., ibid., p. 36.
74
ROSA, op. cit., 1980, p. 5-6.
75
Id., ibid., p. 6.
76
ROSA, loc. cit.
77
ALMEIDA, Lúcia Fabrini. Tempo e otredad nos ensaios de Octavio Paz. São Paulo:
ANNABLUME, 1997, p. 38.
78
Id., ibid., p. 39.
79
SUBIRATS, Eduardo. Da vanguarda ao pós-moderno. São Paulo: Nobel, 1991, p. 72.
80
SUBIRATS, loc. cit.
81
Id., ibid., p. 73.
82
Id., ibid., p. 73-78.
83
MURICY, ANDRADE. A nova literatura brasileira: crítica e antologia: Livraria do Globo:
Porto Alegre: 1936, p. 12.
84
Id., ibid., p. 7.
85
Modernidade não no sentido de movimento literário, tal como o modernismo, mas em
relação à estética em que privilegia a auto-referencialidade, a metalinguagem, o
autoquestionamento, entre outros.
86
Essa não é uma afirmação só minha, ela está respaldada pela afirmação de críticos de
renome., conforme registra-se na fortuna crítica de Helena Kolody. As referências
bibliográficas das obras de Helena Kolody e sobre a autora, que comprovam a grandeza
de sua produção poética.
87
BARBOSA, João Alexandre. A modernidade do romance. In: O LIVRO do seminário. São
Paulo: LR editores, 1982, p. 23.
88
Loc. cit. Grifo do autor.
89
PAZ, op. cit., 1982, p. 345.
90
Id., ibid., p. 347.
91
Loc. cit.
92
KOLODY, IP, 1980, p. 36.
93
KOLODY, IP, 1980, p. 37.
94
MEIRELES, Cecília. Flor de poema. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1983, p. 235.
95
KOLODY, SP, 1985, p. 29.
96
MORIN, Edgar. Amor, poesia, sabedoria. Trad. Edgard de Assis Carvalho. Rio de Janeiro:
Bertrand Brasil, 1998, p. 16-17.
97
Helena Kolody. “Para além das fronteiras do conhecimento” - TP. In: CRUZ, 2011,
Apêndice A, Vol. II, TP, p.101.
98
Helena Kolody. “Maneiras de ser” - TP. In: CRUZ, 2011, Apêndice A, Vol. II, TP, p. 29.
99
BORGES, Jorge Luis. Jorge Luis Borges: cinco visões pessoais. Trad. de Maria Rosinda
Ramos da Silva. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1987, p. 20.
84 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody
Ant onio Donizet i da Cruz R 85

3 UNIVERSO IMAGINÁRIO: A VISÃO DE VIDA E A


IMAGEM DO MUNDO

Cada civilização é uma “metáfora do tempo”, afirma Octavio Paz.


A imagem do mundo – estrutura inconsciente da sociedade, animada
por uma concepção particular de tempo1, – se alicerça nas produções
culturais, por isso que ela é efetivação de uma presença. É pelo diálogo
com o mundo que o homem se instaura frente à realidade na qual se
insere. A imagem do poema é sempre um convite à “transmutação de
sentido”. Já a imaginação é a manifestação da temporalidade. Cada
civilização imagina o tempo de diversas formas. Há as que o entendem
“como eterno retorno, outras como eternidade imóvel, outras como
vacuidade sem data ou como linha reta ou espiral”2. Se cada época escolhe
sua definição de homem, para Paz, a do nosso tempo é “o homem é um
emissor de símbolos”3.
Desde os primórdios, o homem encontrou símbolo para registrar
sua presença no mundo, para traduzir os mistérios da natureza, para
enfrentar a vida e escapar da morte, para identificar-se na oposição do
bem e do mal, para recriar o antigo e instaurar o novo e para produzir ou
reproduzir os conhecimentos derivados de sua trajetória no tempo e no
espaço. Assim,

Em cada sociedade podemos encontrar, em formas verbais e não verbais,


um mundo de imagens; essas imagens representam ideias, conceitos e
crenças sociais. Pensemos nas mais simples: a cruz, a meia-lua, as cores
de uma bandeira. Essas imagens não somente se referem ao visível mas
também ao invisível, pois o homem, que está em contínuo diálogo com
a natureza, também dialoga com o desconhecido e o invisível. Às vezes
86 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

essas imagens representam entes abstratos: um triângulo, uma esfera;


ou então seres imaginários: um centauro, uma sereia, um dragão. E há
algo mais: cada um dos elementos que mencionei – os objetos e os
utensílios materiais, as ideias, as instituições – são imagens e estão
próximas do imaginário: uma cadeira pode se converter num trono,
uma balança em emblema da justiça.4

A sociedade, no dizer de Paz, elabora imagens do futuro ou do


outro mundo; depois, os homens as imitam. A imaginação social é o
principal agente das transformações históricas. Assim, “a sociedade é
continuamente outra, se faz outra, diferente: ao se imaginar, se inventa”5.
Esse autor, afirma que a imagem poética possui a sua própria lógica. Na
frase, mantém uma pluralidade de significados, absorvendo e elevando
todos os valores das palavras, sem excluir os significados primários e
secundários; na lírica, as imagens têm sentido em diferentes níveis. Em
primeiro lugar, elas possuem autenticidade, pois o poeta as viu ou ouviu.
São expressões autênticas de sua visão e experiência do mundo. Em
segundo lugar, são portadoras de uma realidade objetiva, legitimada por
si mesma, isto é, são obras6 que reproduzem a pluralidade da realidade
e, ao mesmo tempo, outorga-lhe unidade, pois são irredutíveis a qualquer
explicação ou interpretação. As imagens são, ainda, recursos desesperados
contra o silêncio que invade o poeta toda vez que busca exprimir a terrível
experiência que o rodeia, justamente pelo fato de o poema ser linguagem
em tensão7. Cumpre observar que, através do poder da imaginação, o
poeta é capaz de elaborar uma poesia no mais alto grau de refinamento
da linguagem.
O escritor e teórico Lubomír Dolezel, em A poética ocidental:
tradição e inovação, afirma que a linguagem poética – enquanto fator
imprescindível na “criação de mundos ficcionais” e, sempre a serviço da
imaginação – tem o poder de inovar, ou seja, ela realiza uma permanente
capacidade de “alargar o universo dos mundos imaginários”8. Dolezel
salienta ainda:

Na criação de mundos ficcionais radicalmente novos – os mundos do


Wunderbare9 –, o poder de inovar tem de aliar-se ao poder evocativo. A
um nível mais geral, Breitinger atribui à ‘inovação’ um lugar central no
sistema da poética – o estatuto de uma força poiética independente.
Ant onio Donizet i da Cruz R 87

Numa de suas sugestões mais originais, Breitinger adianta que enquanto


a imaginação é o poder que permite a criação de mundos, a inovação é a
geradora de prazer estético.10

Os conceitos de mundo imaginários e possíveis reaparecem na


poética contemporânea, especialmente no que tange à questão da “auto-
referencialidade”. Ou seja, na eterna contenda entre os “antigos” e os
“modernos”, a poética da inovação, que se situa no início “da história
moderna da poética, tornou-se uma aliada e uma intérprete das tendências
poéticas que lutam pela liberdade criativa e pela mudança estética”11.
Para o filósofo Gaston Bachelard, os poetas ordenam suas
impressões associando-as a uma tradição. O mundo é um espelho do
nosso tempo e também a reação das nossas forças. “Se o mundo é a
minha vontade, é também o meu adversário”12. Resulta desse embate a
compreensão do mundo mediante a surpresa das próprias forças incisivas,
nas quais consistem as renovações, pois é através da imaginação que o
homem se situa frente ao “mundo novo”, cujos detalhes predominam
sobre o panorama, decorrendo daí a expressão: “uma simples imagem,
se for nova, abre o mundo”13. Assim, “o poeta vive um devaneio que
vela; e, acima de tudo, seu devaneio permanece no mundo, diante dos
objetos do mundo. Ele acumula o universo em torno de um objeto, num
objeto”14.
A imaginação é o elemento basilar de toda a poética de Helena
Kolody. Ao elaborar uma poiesis alicerçada em um mundo de significações,
ela realiza um fazer poético que remete à condição humana: transitoriedade
e permanência. Nessa perspectiva, Kolody elabora os poemas dando-lhe
sentidos, formas e um colorido singular, que exprimem um “sentimento
do mundo”, basta ver suas preocupações em relação à temática social:
preocupação com os “pequeninos” e desamparados, com os “sem vez e
sem voz”. A temática social kolodyana está alicerçada numa construção
poética capaz de valorizar os sentimentos de amor, participação frente
aos inquietantes desafios que a vida impõe. É o desafio de vencer os
obstáculos e redimensionar o pensamento frente à dura realidade cotidiana
que faz do poeta um ente atento às dificuldades da vida. Por isso que o
poeta, ser solidário, busca transpor as barreiras de um mundo repleto de
angústia, dor e sofrimento, tendo em vista superar os conflitos e, por
88 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

meio da linguagem, realizar, assim, uma poesia capaz de “evocar mundos


imaginários”, no dizer de Dolezel.
A poesia enquanto comunicação, busca de sentido, tem o poder de
proteger o homem contra a automação, “contra a ferrugem que põe em
perigo a nossa fórmula do amor e do ódio, da fé e da negação, da revolta
e da reconciliação”15, como afirma Jakobson. Nesse sentido, tem o poder
de despertar na consciência dos homens – amantes da vida e da arte – a
sensibilidade, a paixão e prazer pela linguagem. O poeta – através da
palavra recriada no “coração da linguagem” e de sua visão de mundo –
faz do poema um registro, um sinal de distinção do homem frente às
ameaças da crescente robotização, da indiferença e da falta de amor que
se acentuam nesse período de fim de século. O poema intitulado
“Apelidos” mostra a paradoxal relação entre a afetividade e automação:

Apelidos
1973

Eram Jucas e Chiquinhos,


Ninas, Lolas, Mariquitas.
Apelidos que o amor
selava nas criaturas.

Hoje são números.


(Computadores não programam ternura)16

Com seus versos livres em ritmo fluente, o poema aponta para


dois momentos distintos, o passado e o presente, ambos marcados pelo
verbo ser. Da conjugação dos nomes (apelidos), a poeta imprime as marcas
do hoje que são, muitas vezes, impressas em números. Ou seja, as
afirmativas do sujeito lírico apontam para as impassibilidades e apatias
que ocorrem na sociedade atual. A poesia é ato de fé, comunicação,
experiência mística, paixão, alegria, participação. Sabedor de sua condição,
Kolody realiza uma poesia capaz de superar obstáculos ao entrelaçar sonho
e realidade, pois acredita que a poesia seja uma “invenção da verdade”,
como afirma Mário Quintana17.
O universo imaginário na poesia de Helena Kolody é espaço aberto
no qual a poeta concretiza sua visão da vida e imagem do mundo. Já a
Ant onio Donizet i da Cruz R 89

linguagem poética é uma forma de (re)invenção e articulação do eu com


o mundo. De acordo com Alfredo Bosi, a linguagem poética é capaz de
“combinar arranjos verbais próprios com processos de significação pelos
quais sentimento e imagem se fundem em um tempo denso, subjetivo e
histórico”18. A obra kolodyana, inserida na modernidade, apresenta no-
vas formas, perspectivas e possibilidades de significação, sem abdicar
do passado. Através do ato de nomear, de operacionalizar o discurso, a
poeta projeta espaços de conscientização e cumplicidade com o leitor.
Nesse sentido, seu fazer poético é invenção, redescoberta da presença e
construção de espaços possíveis operacionalizados pela linguagem.

3.1 Tempo, solidão e memória

CRONOS

Não é o tempo que voa.


Sou eu que vou devagar.

Helena Kolody (PM, p. 42)

Para Octavio Paz, “a poesia é a Memória feita imagem e esta


convertida em voz. A outra voz não é a voz do além túmulo: é a do homem
que está dormindo no fundo de cada homem”19. No dizer do autor, os
poetas têm sido a memória de seus povos, pois “cada poeta é uma pulsão
no rio da tradição, um momento da linguagem. Às vezes os poetas negam
sua tradição mas só para inventar outra”20. A invenção lírica se projeta do
presente para o futuro. O poeta é ciente de sua tarefa: ser elo da cadeia,
uma ponte entre o ontem e o amanhã. Entretanto, no findar do século XX,
ele “descobre que essa ponte está suspensa entre dois abismos: o do
passado que se afasta e o do futuro que se arrebenta. O poeta se sente
perdido no tempo”21. Nesse sentido, ao recriar sua experiência, leva avante
um passado que é um futuro. O tempo possui uma direção, um sentido,
ou seja, “ele deixa de ser medida abstrata e retorna ao que é: concretude
e dotado de direção. O tempo é um constante transcender”22.
A função essencial do tempo na estruturação da imagem do mundo
reside, conforme Octavio Paz, no fato de que o homem, dotado de uma
direção e apontando para um fim, faz parte de um processo intencional23.
90 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

Os atos e as palavras dos homens são feitos de tempo. Assim, a


cronologia está fundamentada na própria crítica. Já a poesia é tempo
revelado, isto é, o enigma do mundo que se transforma em “enigmática
transparência”. O poeta diz o que diz o tempo, até quando o contradiz,
pois ele é capaz de nomear o transcorrer, e ainda, “torna palavra a
sucessão”24.
Para Jean Cohen, a existência é temporalidade e o tempo é negação,
ou seja, é a dimensão essencial da alteridade, a fonte básica do prosaísmo
do mundo. Para o autor, a memória voluntária retém os fatos; a memória
involuntária, a impressão. Ele destaca que o poema tem por objetivo
descrever a experiência vivida em termos de vivência, isto é, diz a existência
na sua própria linguagem. Ele também é “fonte inesgotável de
comunicação”, porque é compreendido pelo leitor como algo já
vivenciado, experimentado. Assim, “diferente do que se verifica com o
conceito, ele não pode ser armazenado na memória, integrado no saber
do sujeito. A experiência é sempre para viver ou para (re)viver. E a
linguagem que o exprime é, também ela, uma vivência, um momento de
existência”25. O autor complementa ainda que, toda a poesia é, dessa
maneira, “poesia do acontecimento”, e nisso consiste a sua especificidade.
Mauro Mancia, em No olhar de Narciso, defende a tese de que,
uma das tarefas primordiais do poeta está na tentativa de elaborar a
construção de seu mundo interno e a possibilidade de poder representá-
lo por meio de formas simbólicas. Através da imaginação, ele constrói
uma poética capaz de re-criar um mundo de sentidos que se interligam à
“memória ontogenética”, pois todo o (re)criar “remete à criação artística
e à fruição estética da obra de arte”26. Sendo assim, ao criar, o artista
percorre “todas as etapas do processo que o levou a construir o seu mundo
interno”, no sentido de recriar objetos que correspondem ao “seu mundo
‘ideal’ ou ‘sublime’, aos quais confere uma nova disposição espaço-tem-
poral”27. No dizer de Mancia,

O homem é dominado pela necessidade, intrínseca à própria economia


psíquica, de representar o seu mundo interior, segundo um princípio
formal específico, que pertence ao domínio da estética, e segundo uma
necessidade específica de conhecimento, entendida como capacidade
para estabelecer relações significativas e coerentes entre vários sistemas.
[...] ‘O próprio desenvolvimento da linguagem está ligado à necessidade
Ant onio Donizet i da Cruz R 91

primária do homem de transformar simbolicamente as próprias


experiências’. (Cassirer, 1923). Talvez se encontre nesta mesma
necessidade o caráter religioso do homem, que o leva a dar um sentido
à sua vida.28

Os artistas, segundo Mancia, “são capazes de representar


simbolicamente a própria realidade psíquica através de formas
significativas, que passam a fazer parte dos diversos sistemas semânticos
de significação: icônico, plástico, sonoro, linguístico”29.
Mancia define a memória como uma função que, reativada no sonho
e no processo analítico, tem o poder de ligar a experiência da vivência
atual à representação da vivência mais antiga e das relações de objeto
mais arcaicas, tais como: as fantasias e desejos, ânsias e defesas e as
modalidades mais específicas, que reaparecem no transfert30. Para o autor,
o sonho pode ser entendido como “um pontifex constante e necessário”,
enquanto elemento criador de uma ligação permanente entre a realidade
atual e as experiências de outros tempos, ou seja, o sonho é “o
acontecimento que, mais do que qualquer outro, facilita a construção,
em conjunto com as fantasias da vigília”31.
Para o filósofo Gaston Bachelard, o homem sonha através de uma
personalidade de uma memória muito antiga. Ele mira-se em seu passado,
pois toda imagem para ele é lembrança. “As verdadeiras imagens são
gravuras. A imaginação grava-as em nossa memória. Elas aprofundam
lembranças vividas, deslocam-nas para que se tornem lembranças da
imaginação”32. Nesse sentido, memória e imaginação não se deixam
dissociar, ou seja, ambas trabalham para o aprofundamento mútuo. Elas
constituem, na ordem dos valores, uma união da lembrança com a
imagem. “Uma memória imemorial trabalha numa retaguarda do mundo.
Os sonhos, os pensamentos, as lembranças formam um único tecido. A
alma sonha e pensa, e depois imagina”33.
Para Gilbert Durand, “a memória, longe de ser intuição do tempo,
escapa-lhe no triunfo de um tempo ‘reencontrado’, logo negado. [...].
Longe de estar às ordens do tempo, a memória permite um redobramento
dos instantes e um desdobramento do presente”34. Assim, ela tem o
poder de dar “espessura inusitada ao monótono e fatal escoamento do
devir, e assegura nas flutuações do destino a sobrevivência e a perenidade
de uma substância”35.
92 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

Ao realizar uma comparação entre a nostalgia da experiência infantil


e a nostalgia do ser, Gilbert Durand afirma que,

A memória pertence de fato ao domínio do fantástico, dado que organiza


esteticamente a recordação. É nisso que reside a ‘aura’ estética que
nimba a infância; a infância é sempre e universalmente recordação da
infância, é arquétipo do ser eufêmico, ignorante da morte, porque cada
um de nós foi criança antes de ser homem... Mesmo a infância
objetivamente infeliz ou triste de um Gorki ou de um Stendhal não pode
subtrair-se ao encantamento eufemizante da função fantástica. A nostalgia
da experiência infantil é consubstancial à nostalgia do ser. [...] qualquer
recordação de infância, graças ao duplo poder de prestígio da
despreocupação primordial, por um lado, e, por outro, da memória, é
de imediato obra de arte.36

Essa afirmativa de Durand pode ser verificada nos textos de Helena


Kolody, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de
Andrade, entre outros, que abordam a temática da infância, enquanto
fator não só de rememorização nostálgica do passado, mas também como
desdobramento de imagens que convergem para esse período da vida,
pois os elementos catalisadores – infância e memória – dão formas
estéticas à relação e confluências com e na própria obra de arte literária.
Durand salienta que a memória tem “o caráter fundamental do
imaginário, que é ser eufemismo, ela é também, por isso mesmo,
antidestino que se ergue contra o tempo”37. É ainda “poder de organização
de um todo a partir de um fragmento vivido”. Essa potência “reflexógena”
é “o poder da vida”, que por sua vez, é capacidade de reação, de regresso.
A organização que faz com que uma parte se torne “dominante” em relação
a um todo é a negação da capacidade de equivalência irreversível que é o
tempo. Por isso, a memória – bem como a imagem – é a magia dupla
“pela qual um fragmento existencial pode resumir e simbolizar a totalidade
do tempo reencontrado”38. O ato reflexo é ontologicamente esboço da
recusa fundamental da morte. Longe de estar do lado do tempo, “a
memória, como o imaginário, ergue-se contra as faces do tempo e
assegura ao ser, contra a dissolução do devir, a continuidade da consciência
e a possibilidade de regressar, de regredir, para além das necessidades
do destino”39.
Ant onio Donizet i da Cruz R 93

Frente às “faces do tempo” e à cristalização da “memória”, o homem


se vê isolado, ilhado, mesmo estando rodeado por uma multidão.
Mergulhado em um mundo de imagens e realidades que dão uma
configuração à própria vida, ele é sabedor da sua condição existencial: a
solidão habita a sua vida. Ou seja, ela é experiência viva que se concretiza
não só enquanto recolhimento, mas, acima da tudo, como sentimento
intrínseco frente à sensação de isolamento e vazio vivenciado pelo sujeito
humano.
Na poesia kolodyana, tempo, solidão e memória se entrelaçam. O
poema “A sombra no rio” reflete o fugaz e o eterno que disputam espaço
na poesia de Kolody:

A sombra no rio

Noto a passagem do tempo,


Porque minh’alma imutável
Projeta na correnteza
Fugaz dos dias da vida
A quieta sombra do eterno.

Passo e permaneço.

Passo nessas águas


Tão atormentadas
Pelas asperezas,
Tão escravizadas
Dentro do limite,
Que não sabem nada
De sua trajetória.

Passo... e permaneço!

Fico nessa sombra


De contorno exato,
Quase perturbado
Pela correnteza.
Sombra do “eu” imóvel
Que conhece o rumo
Para além dos dias.40
94 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

O texto converge para o tema do tempo relacionado à obliteração


do eu causada pela falta do sentido de permanência. Nota-se que o fator
tempo se incorpora no poema e reconduz à ideia de um fluir temporal e
de continuidade do ser no tempo. Nesse sentido, é possível rememorar
situações vivenciadas, articuladas aos dados da memória em função de
uma unidade que visa resgatar o tempo e as lembranças vividas.
Se, por um lado, o sujeito lírico sente-se incapaz de atingir uma
realização plena, uma duração, por outro, ele sabe que é preciso buscar
“o contorno exato” das coisas, pois “a sombra do ‘eu’ imóvel” conhece a
direção “para além dos dias”41. Essa busca de realização faz vir à tona a
problemática vivenciada pelo ser humano: sua condição de finitude.
O sintagma “passo e permaneço” dá uma ideia da irreversibilidade
do tempo e traduzem o paralelismo e a similaridade, enquanto os sons
sibilantes de /s/ lembram a mobilidade sobre a qual o tempo desliza num
vai-vem entre o fugaz e o eterno. A passagem do tempo é comparada à
correnteza do rio. Já a “sombra do ‘eu’ imóvel” é projetada nas águas
correntes. Aqui a imagem da sombra pode simbolizar a “própria imagem
das coisas fugidias, irreais e mutantes”42, no dizer de Jean Chevalier e
Alain Gheerbrant.
No poema “Mergulho”, o tema da solidão e a questão da brevidade
da vida ficam evidentes. O sujeito lírico mostra-se dividido entre o plano
terreno e o espiritual, ao afirmar:

mergulho

Almejo mergulhar
na solidão e no silêncio,
para encontrar-me
e despojar-me de mim,
até que a Eterna Presença
43
seja a minha plenitude.

No texto, percebe-se a busca do plano espiritual pelo eu-lírico. O


silêncio está associado à condição de solidão. Entre as limitações da
vida no plano físico e no plano espiritual, há o espaço intermediário, ou
seja, o momento presente, no qual o poeta deseja mergulhar. Na
interiorização do instante e no despojamento, o eu-lírico constata que,
Ant onio Donizet i da Cruz R 95

através de seu canto, é quase possível preencher o vazio existencial. Essa


introspecção do sujeito lírico pode remeter às palavras de Emil
Staiger, quando afirma que, o poeta lírico é solitário e “sua poesia
manifesta-se como arte da solidão, que em estado puro é receptada apenas
por pessoas que interiorizam essa solidão”44.
No poema “Ensaio”, os signos vida e morte convergem para o tema
da solidão, condição esta inelutável à vida humana. Em três versos, com
uma linguagem precisa, o sujeito lírico afirma:

Ensaio

A solidão da vida.
Longo ensaio
45
Da solidão da morte.

Nos versos do poema, a vida e a morte se fundem numa rede de


sentidos. O paralelismo semântico do primeiro e do terceiro versos se
apóia no redobramento do vocábulo solidão. Assim, a primeira solidão é
continuidade da segunda. Este encadeamento aponta para um
“paralelismo de sentido” que se interliga, pois “a solidão da vida” remete
ao sentido da “solidão da morte”. Segundo Paz, a “vida e morte são
apenas dois movimentos, antagônicos mas complementares, de uma
mesma realidade”46. O texto artístico, por mais simples que possa
parecer, revela “um sentido construído com complexidade”. Esse poema
reforça o dizer de Iuri Lotman, “todos os elementos são elementos de
sentido”47.
Os versos “Longo ensaio/ Da solidão da morte” funcionam como
um desdobramento do primeiro verso: “A solidão da vida”. A reiteração
do signo “solidão” garante um acréscimo de intensidade por realizar o
poder operante da linguagem: “exprimir”, no dizer de Cohen, pois, é por
isso que “a linguagem repetitiva é linguagem da emoção”48. A mensagem
do poema sugere que a vida é preparação para a morte. De acordo com
Paz, nascer e morrer são experiências de solidão, pois, “nascemos
sozinhos e morremos sozinhos. Nada é mais grave quanto esta primeira
imersão na solidão que é nascer, a não ser esta outra queda no
desconhecido que é morrer”49. Ainda consoante ao pensamento de Paz,
“viver é nos separarmos do que fomos para nos adentrarmos no que
96 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

vamos ser, futuro sempre estranho. A solidão é a profundeza última da


condição humana”50.
Para Bachelard, “a solidão da morte é tema de meditação grande
demais para o sonhador de solidão”51. O filósofo salienta ainda:

É preciso imaginar a solidão para conhecê-la, para amá-la ou para


defender-se dela, para ser tranquilo ou para ser corajoso. Quando se
quiser fazer a psicologia do claro-escuro psíquico em que se clareia ou
se escurece esta consciência do nosso ser, será preciso multiplicar as
imagens, duplicar toda imagem. Um homem solitário, na glória de ser
só, acredita às vezes poder dizer o que é a solidão. Mas a cada um cabe
uma solidão. E o sonhador de solidão não pode nos dar mais que algumas
poucas páginas deste álbum de claro-escuro das solidões.52

O ato de dar presença às imagens que configuram a irreversibilidade


da matéria e das leis que regem a vida, faz com que o “sonhador de
solidão” busque no outro uma forma de “preservar o ser”, ou seja, nessa
procura incessante do outro, o eu se depara com a própria solidão:
“imagens-sonhos” que demarcam os limites da linguagem e da existência
humana.
Em “Solidão”, a temática expressa no título apóia-se no tempo, na
insatisfação humana e no sofrimento de forma clara. Nos versos do
poema, o eu-lírico confirma:

Solidão

Estamos sempre sozinhos


Em nossas horas maiores.

A dor, veneno latente,


Corrói-nos a alma em segredo.

A mais gloriosa alegria


Floresce na solidão.53

Nota-se no poema uma composição metafórica em que a solidão,


mesmo simbolizando a dor, pode gerar alegria. Na primeira estrofe, o
verbo flexionado e plural “estamos” realça a condição solitária do ser
humano. No eixo paradigmático, aparece a antítese dor versus alegria.
Ant onio Donizet i da Cruz R 97

Os termos “sozinho” e “solidão” apontam para a condição dos entes,


pois a vida é marcada pelo sentido de não-permanência. O nascer e morrer
são balizas da solidão.
A mesma temática aparece no poema “Ilhas”, no qual o sujeito da
enunciação afirma que, através da poesia, é possível realizar o ato
comunicativo:

Ilhas

Somos ilhas no mar desconhecido.

O grande mar nos une e nos separa.

Fala de longe o aceno leve das palmeiras.


Mensagens se alongam nas líquidas veredas.

Cada penhasco é tão sozinho e diferente!


Ninguém consegue partilhar a solidão.

Ilhas no grande mar, aprisionadas.


Apenas o perfil de outras ilhas, vemos.
54
Só Deus conhece nossa exata dimensão.

São versos que sugerem que o homem é por natureza solitário. A


afirmação do eu-lírico de que “somos ilhas” já direciona para a temática
do aspecto insular da vida do homem. As imagens do “mar desconhecido”
e do “grande mar” convergem para a relação de isolamento e enigma e,
simultaneamente, ligam os pontos de união e separação. As imagens da
ilha, do penhasco, das palmeiras se sobressaem enquanto paisagem
desértica, solitária. No dizer do eu-lírico, a vida é limitada pelos
“penhascos”, ou seja, não há como partilhar os momentos de introspecção
e de um “olhar para si mesmo”. Dessa forma, o homem se encontra
ilhado, impotente perante uma efetiva participação da vida. O verso final,
a constatação de que “só Deus conhece nossa exata dimensão”, alude à
condição da solidão humana. Em relação a este tema, Octavio Paz afirma
que o homem é o único ser que se sente só e, também, o único que se
busca no outro. Ele é nostalgia e comunhão, por isso, cada vez que se
sente a si mesmo, sente-se como carência do outro, como solidão55.
98 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

Essa afirmativa de Paz pode ser constatada nos versos dos poemas
“Solidão” e “Ilhas”, em que o sujeito é sempre a primeira pessoa do
plural: “Estamos sempre sozinhos”, “somos ilhas”. Este plural indica
que o sentimento de solidão é inerente a todo ser humano.
Conforme Charles Baudelaire, “Multidão, solidão: termos iguais e
permutáveis para o poeta ativo e fecundo. Quem não sabe povoar sua
solidão, tampouco sabe estar só em meio à massa atarefada. O poeta
goza deste incomparável privilégio de poder ser, a bel prazer, ele próprio
e outrem”56. Nesse sentido, a afirmativa de Baudelaire se faz ressoar no
seguinte poema dístico inédito de Kolody:

Mergulhar na multidão...
57
um jeito disfarçado de ser só .

As possibilidades que o homem inventou para fazer da solidão uma


companheira nas grandes metrópoles, na constante agitação da vida
citadina, caracteriza um “disfarce”, o qual no dizer do sujeito lírico, acaba
por retratar a condição existencial do homem contemporâneo, marcado
pelo isolamento e melancolia.
A fuga instigada pela despersonalização total do eu-lírico, pode-se
verificar no texto:

ÚLTIMO

Vôo solitário
na fímbria da noite,
58
em busca do pouso distante.

A imagem do “vôo solitário” remete ao tema da viagem enquanto


busca de um lugar distante, apenas intuído. O alçar vôo aplica-se
universalmente à alma em sua aspiração ao estado supra-individual. Ir
ao encontro do “pouso distante” é querer alcançar um estágio
transcendente onde é possível a realização no plano espiritual, já que as
asas (subentendidas) indicam sublimação e, em geral, elas exprimem
“uma elevação sublime, um impulso para transcender a condição
humana”59.
Ant onio Donizet i da Cruz R 99

“Coragem de cantar” é um texto que inicia com flores e canções


como contraponto ao tema latente da solidão:

CORAGEM DE CANTAR

Florescer em canções
entre o metálico estridor
do transcorrer diário.

Cantar a alegria,
em meio à tristeza pungente
do mundo precário.

Mais forte que o desamor,


elevar acima da solidão
60
o canto solidário.

No texto, o sujeito lírico acredita que somente através do canto


solidário é possível viver em plenitude, ou seja, cantar é uma forma de
vencer os descaminhos do mundo, a dor, a tristeza e o desamor. O
sintagma “canto” funciona como metáfora de poesia. Assim, partilhar o
canto tendo em vista vencer a solidão e a tristeza de um mundo precário
é mister dos que buscam o outro.
Ao se referir, a uma de suas temática mais significativas e
recorrentes, a solidão, Helena Kolody declara:

Há uma espécie de solidão positiva e necessária: para pensar, para sonhar,


para criar, ou, simplesmente, olhar pela janela a paisagem lá fora. É na
solidão que a gente consegue olhar para dentro de si e encontrar-se. O
próprio sonho floresce na solidão. E toda criação é, a princípio, um
sonho lúcido.61

O não-conformismo em relação ao sofrimento, à angústia e à


tristeza, por parte do sujeito lírico que se questiona, fica latente no poema
“Queixa”:
100 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

Queixa

Tu, Senhor, que repartes os destinos:


Por que me deste o árido quinhão
De sonho, de tristeza e solidão?62

Percebe-se a introspecção do sujeito lírico, inconformado com seu


destino. Os vocábulos “sonho”, “tristeza” e “solidão” traduzem um
sentido de fechamento, que culmina com o ponto de interrogação. O
tom de indagação que norteia o poema mostra um conflito entre o eu e o
mundo circundante. O questionamento da condição humana pode estar
relacionado à consciência tensa, inquieta do sujeito poético, em constante
interrogação.
No poema “Âncora e porto” (inédito), o eu-lírico afirma:

Âncora e porto

Venho de um dia longo de trabalho,


a tiritar de solidão.

Seu meigo olhar


me aguarda no umbral.
Tem doçuras de acalanto
o timbre de sua voz

Apaziguada,
repousa minh’alma
em seu coração materno,
âncora e porto.63

Na afirmação do eu-lírico, nota-se que as agruras de um final de


dia, após muito trabalho, só pode ser suavizado pela presença materna,
cujo coração é simbolizado pela âncora (possibilidade de aconchego e
refúgio) e porto (paragem ou partida para novas aventuras). A mãe, com
sua afável ternura e com sua voz de “acalanto”, traz o apaziguamento
recuperador das lutas de cada dia. Só no “coração materno”, há a
possibilidade de amparo, proteção e segurança. As palavras do poema
têm uma carga semântica que refletem a ternura e o amparo. O tema da
solidão também fica claro, pois o “tremer”, o tiritar de solidão gera uma
Ant onio Donizet i da Cruz R 101

atitude de busca, na presença e amor maternos, uma maneira de


compartilhar e dividir suas amarguras.
O poema “Nascem das calmarias” apresenta imagens que apontam
para os mistérios da vida e da natureza:

Nascem das calmarias


as grandes tempestades.

Germina a vida em silêncio.

Na solidão noturna
florescem sonhos,
o pensamento inventa,
a alma se encontra.64

O poema evidencia a questão do homem, ser solitário, que está


sempre em busca de algo que possa preencher o seu vazio. Mas é só no
silêncio e recolhimento que “germina a vida”. A relação da vida com as
palavras calmaria, silêncio e solidão acentuam o fator imprescindível à
vida: a “germinação”. A poeta articulada de maneira sugestiva a
imaginação e utiliza-se dos elementos da natureza e da condição de
solidão para fazer a correspondência com o ato de criação. É na “solidão
noturna” que os sonhos afloram e o eu mais profundo se encontra.
Ao tratar da função da memória nas sociedades antiga e
contemporânea, Ecléa Bosi salienta que, nos primórdios da civilização
grega, a memória funcionava como “vidência e êxtase”; nos dias atuais,
a sua função é a de “conhecimento do passado” que se estrutura, ordena
o tempo e o localiza de forma cronológica. O passado revelado, dessa
maneira, “não é o antecedente do presente, é a sua fonte”65. Transferindo
a afirmativa da autora para as reflexões sobre a lírica de Kolody, pode-se
dizer que, a memória aparece enquanto baliza capaz de realizar e resgatar
fatos e lembranças passadas, mas sempre organizada de maneira indi-
vidual, centrada nos artifícios da linguagem, nas modulações de um
pensamento que reelabora o passado, dando novos sentidos ao ato de
rememorar. Bosi lembra que, memória não é sonho, é trabalho, pois
“lembrar não é reviver, mas reconstruir, repensar, com imagens e ideias
de hoje, as experiências do passado”66.
102 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

A não-permanência se configura no poema “passado presente”,


registrando a preocupação do sujeito lírico em relação ao tempo e à
memória:

passado presente

Ilusório regressar,
pelos caminhos de agora,
aos dias que se apagaram.

O rosto de ontem mudou.


Lugar que foi, não é mais.
O viver é diferente.

Somente em nos, tudo, existe


e não se extingue jamais.

Tempo guardado em lembranças,


a saudade nos devolve
todo o presente de outrora67

Os versos do poema sugerem que a poesia cristaliza-se na


intensificação de uma lembrança nostálgica que tem o poder de reanimar
as aspirações mais profundas do eu. A poesia faz parte do mundo sensível,
ponto basilar em que o sujeito poético toma consciência das constantes
mudanças tempo-espacial: o “rosto de ontem” está modificado, o lugar
que já não é o mesmo, o viver não coincide. Entretanto, o instante poético
é que importa ao sujeito lírico, pois na memória não há delimitação de
tempo e espaço, ambos se fundem num único instante. As lembranças
trazem elementos sugestivos em que o “viver é diferente”, o rosto já não
é o mesmo, o lugar e o espaço já são outros. Elas fazem ressurgir cenas
vivenciadas no passado. Todo o eixo temático do poema liga-se ao modo
de rememorar o tempo passado, ou seja, o viver envolve o processo das
reminiscências. A poesia revela-se portadora de vida na transmutação
Ant onio Donizet i da Cruz R 103

poética do instante, ou seja, as recordações são forças vitais frente à


inexorável passagem do tempo. O eu-lírico salienta que, através da
lembrança, é possível reviver o tempo, as coisas, as situações ocorridas,
mesmo que o viver já não seja o mesmo. Nos versos do poema, a memória
está relacionada aos conflitos do ser no esquema temporal.
Através do ato de rememorar, Kolody faz com que sua poesia se
desdobre verso a verso, dando a impressão de que, em cada composição
verbal, ela busca uma “unidade totalizadora” do espaço e do tempo,
anteriormente vivenciada, e que logo é retomada pela consciência da
fragilidade frente ao esquecimento e às lembranças. Assim, a poeta
reinventa através do ato de rememorar um mundo de sentidos. Nessa
perspectiva, pode-se dizer que ao tematizar o tempo, a solidão e a
memória, a poeta se inserir na história e dá sentido às manifestações
espaços-temporais relacionadas às mais simples formas de ver o mundo
e interpretá-los sob o signo das reminiscências, tal como ocorre no poema
“Infância”, no qual a meninice é rememorada pelo eu-lírico:

Infância

Aquelas tardes de Três Barras.


Plenas de sol e de cigarras!

Quando eu ficava horas perdidas


Olhando a faina das formigas
Que iam e vinham pelos carreiros,
No áspero tronco dos pessegueiros.

A chuva-de-ouro
Era um tesouro,
Quando floria.
De áureas abelhas
Toda zumbia.
Alfombra flava
O chão cobria...

O cão travesso, de nome eslavo,


Era um amigo, quase um escravo.

Merenda agreste:
104 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

Leite crioulo,
Com mel dourado,
Cheirando a favo.
[...]

Do tempo, só se sabia
Que no ano sempre existia
O bom tempo das laranjas
E o doce tempo dos figos...

Longínqua infância... Três Barras


Plena de sol e cigarras!68

Os versos acentuam o valor da memória enquanto reconquista de


um tempo “vivido” pelo sujeito lírico, recuperando a pureza original da
infância, com suas aspirações mais puras. A evocação é a tônica que
movimenta o texto. Ao revisitar o tempo da infância, o eu-lírico relembra
momentos de contemplação da natureza: “Quando eu ficava horas
perdidas/ Olhando a faina das formigas/ Que iam e vinham pelos
carreiros,/ No áspero tronco dos pessegueiros”, nota-se a despreocupação
do sujeito lírico nessa fase da vida, rememorando com saudade e
melancolia aquele “tempo bom”. Há uma integração perfeita do sujeito
lírico com os elementos da natureza, como pode ser verificada nos versos:
“A chuva de ouro/ Era um tesouro,/ Quando floria./ De áureas abelhas/
Toda zumbia./ Alfombra flava/ O chão floria”69. O eu-lírico recorda-se,
também, do “cão travesso, de nome “eslavo”, da “merenda agreste”, do
“leite crioulo”, do “pão feito em casa,/ Com mel dourado,/ Cheirando a
favo”70. Pode-se dizer que há, por parte do eu-lírico, uma saudade do lar,
da vida de outrora. O presente texto fornece múltiplas categorias de
percepção do mundo, cujas imagens instauram uma operacionalização
que remetem para uma reconstrução de acontecimentos passados. O
olhar que se volta para as rememorações vividas anteriormente acentua
o poder das imagens e seu poder de simbolização, pois no dizer de Jean
Davallon, “a imagem é antes de tudo um dispositivo que pertence a uma
estratégia de comunicação: dispositivo que tem a capacidade, por exemplo,
de regular o tempo e as modalidades de recepção da imagem em seu
conjunto ou a emergência da significação”71. Note-se que a afirmação do
autor vai ao encontro das correspondências imagéticas que ocorrem no
Ant onio Donizet i da Cruz R 105

texto de Kolody. No texto, as imagens têm o poder de reconstruir os


acontecimentos a partir de uma observação atenta do poeta, que registra
o seu “estar no mundo” ao “rememorar o passado”. Por isso, a força da
“imagem como um operador de memória no seio de nossa cultura”72, no
dizer de Davallon.
Na penúltima estrofe, constata-se, que “do tempo”, somente
conhecia-se o “bom tempo das laranjas/ E o doce tempo dos figos...”.
Assim, desse tempo passado só restaram as lembranças. O poema
representa a tentativa de reencontrar a harmonia anteriormente vivenciada,
na qual o eu-lírico encontra uma forma de reavivar os fatos que ficaram
marcados na memória.
Na literatura brasileira o tema da infância é recorrente. O poema
Infância de Helena Kolody é um texto que “dialoga” e se aproxima muito
– pelo tom memorial e evocativo – dos poemas “Infância”, de Cecília
Meireles, “Evocação do Recife”, de Manuel Bandeira e “Infância”, de
Carlos Drummond de Andrade.
Manuel Bandeira, no poema “Evocação do Recife” 73, da obra
Libertinagem, 1930, aborda a tema das perdas e do memorialismo fixado
na infância. Nos versos do poema, o tempo, as perdas, a evocação, a
memória são tomados pelo poeta como momentos da infância, pois re-
side nessa fase da vida as origens de suas aspirações mais ternas e puras.
Tal como na passagem: “A rua da União onde eu brincava de chicote-
queimado e partia a vidraça da casa de dona Aninhas Viegas [...]/ A gente
brincava no meio da rua/ [...] Rua da União.../ Como eram lindos os nomes
das ruas da minha infância”74. O sujeito poético, no início do poema, já
antecipa o Recife que evocará: o da infância. As lembranças aparecem de
forma nítida e ficam acentuadas através do enunciado de um eu que traz
em si uma certa melancolia. O tema da morte, acentuado pelas perdas, é
sugestivo no texto de Bandeira. “A casa de meu avô.../ Nunca pensei que
ela acabasse!/ Tudo lá parecia impregnado de eternidade”75. A destruição
da casa do avô remete para o tema da morte e, ao mesmo tempo,
simboliza a efemeridade, deixando transparecer que não há nada
permanente na vida. Percebe-se que, primeiramente, há o tempo con-
creto, vivido pelo eu, depois há o momento de solidão e finalmente a
memória. As lembranças e o sentimento de perda projetam sentimentos
melancólicos marcados pela transitoriedade dos entes e das coisas.
106 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

No poema “Infância”76, de Carlos Drummond de Andrade, fica


expresso a rememoração, no qual o poeta desenvolve o tema das
reminiscências do tempo da infância. Para além das despreocupações, o
eu-lírico registra um dia na vida da fazenda. O sujeito “eu sozinho
menino”, que lê as histórias de Crusoé, afirma não saber que a sua própria
história “era mais bonita” que a do livro. A solidão do eu-lírico é
“suavizada” através das leituras da história de Robinson Crusoé, que
surge como forma de refúgio: “Eu sozinho menino entre mangueiras/ lia
a história de Robinson Crusoé/ Comprida história que não acaba mais”.
Há também a “voz que aprendeu a ninar nos longes da senzala – e nunca
se esqueceu”. Essa voz de mulher que “chama para o café” ficou na
recordação do eu-lírico.
A memória é a tônica que movimenta o poema. Através das
reminiscências, o poeta recorda o tempo da infância, no qual centra as
suas aspirações mais ternas. No texto, o tempo e a memória são forças
mediadoras e potências capazes de interligar os fatos, as pessoas e suas
ações e as coisas do mundo.
Cecília Meireles, em seu poema “Infância”, da obra Retrato natu-
ral, apresenta o tema da reminiscência relacionado às perdas. A memória
e o sonho são os elementos que restaram para o eu-lírico:

INFÂNCIA

Levaram as grades da varanda


por onde a casa se avistava.
As grades de prata.

Levaram a sombra dos limoeiros


por onde rodavam arcos de música
e formigas ruivas.

Levaram a casa de telhado verde


com suas grutas de conchas
e vidraças de flores foscas.

Levaram a dama e o velho piano


que tocava, tocava, tocava
a pálida sonata.
Ant onio Donizet i da Cruz R 107

Levaram as pálpebras dos antigos sonhos,


deixaram somente a memória
e as lágrimas de agora.77

No texto de Cecília Meireles, note-se a efemeridade da vida e das


coisas que passam sem deixar vestígios. Há todo um despojamento dos
elementos e dos entes (representado pela figura da dama), tais como: as
grades da varanda, a sombra dos limoeiros, a casa de telhado verde, a
dama e o “velho” piano. Ou seja, não restou sequer os antigos sonhos,
“metonimizados” pela palavra “pálpebras”. Para o sujeito lírico restou
somente a memória e as lágrimas (estas do momento presente). A não-
permanência é o tema das cinco estrofes que compõem o texto. Todas
elas iniciam com a indeterminação do sujeito expressa na ação do verbo
“levaram”. Só na última estrofe aparece o verbo oposto “deixaram”,
contrastando com o verbo levar, dando indícios de que somente a memória
e a dor permanecem. No texto, a memória é duração e permanência, pois
essa ninguém pode tirá-la do eu mais profundo. A melancolia é realçada
através do sintagma “lágrimas de agora”. Assim, na oposição dos
contrários, presença-ausência, a certeza de que mediante o ato de
rememorar, o eu poético realiza o diálogo com o mundo e, através do
espaço e circunstâncias que o envolve, operacionaliza o “eu penso” em
oposição ao desespero do aniquilamento frente à objetividade mortal.
Observe-se que do tempo da infância só resta tênues “vestígios”
de sonata, cujas notas soavam do velho piano. A reiteração do verbo
“tocava” realça a condição de um fluxo temporal, no qual as imagens
apontam para o caráter transitório da vida. Ao analisar a poesia de Cecília
Meireles, Ana Maria Lisboa de Mello afirma que o recordar é termo
recorrente na obra da poeta, pois “o ser humano tem um conhecimento
prévio dos fenômenos e dos seres, o qual fica apagado na consciência,
durante o período de sua trajetória no plano terreno, e precisa ser, com
esforço rememorado. Recordar é reavivar na memória o conhecimento
anterior, momentaneamente obnubilado”78.
Na poesia kolodyana, o ato de recordar é elemento inerente ao fazer
poético. O poema “Curitiba – Cidade Menina” apresenta a cidade de
Curitiba, com suas formas e cores, em que o sujeito lírico descreve
acontecimentos vivenciados. A enunciação é realizada no tempo pretérito.
108 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

Nota-se as rememorações e a maneira como Kolody organiza o texto,


direcionando o tempo e imagens que trazem uma certa nostalgia e
sentimento melancólico, circunscrito pela denominação de Curitiba –
“cidade menina” –, em dois momentos: “paisagem de meu amanhecer”
(primeira estrofe) e “paisagem de meus dias” (estrofe final):

Curitiba – cidade menina,


paisagem de meu amanhecer.

[...]

Jardins
Pomares
Pinheiros e mais pinheiros,
onde moravam sabiás cantores
e bem-te-vis moleques.

As torres da Catedral
olhavam por sobre os sobrados79.

Preguiçosos circulavam pela cidade,


bondes elétricos.

Carroças de Santa Felicidade


trepidavam nos paralelepípedos,
fazendo tremer a voz cantante
das colonas italianas,
que cheiravam a sal
e a manjerona.
[...]

Curitiba sonora de pregões.


Corria pelas ruas
o grito dos pequenos jornaleiros:
– Gazeta e Dia!
Diário da Tarde – Grande crime!

Perdia-se nos longes


o pregão do peixeiro português:
– Peixe... camarããão!
[...]
Ant onio Donizet i da Cruz R 109

Curitiba, paisagem de meus dias.


Radiosa manhã,
Meio-dia pleno,
sereno anoitecer.80

O eu poético, nessas estrofes, resgata fatos e acontecimentos que


realçam a trajetória de um eu que relembra a cidade no tempo de sua
juventude, quando os pássaros – sabiás e bem-te-vis – tinham por habi-
tat os jardins, os pinheiros e os pomares. A expressão “pinheiros e mais
pinheiros” registra a observação atenta de um eu que, na atualidade, nota
a escassez dos pinheiros no espaço citadino. A constatação dos bondes
elétricos “preguiçosos”, sem muita presa, que circulavam as ruas da
cidade, em contraste com a agitação e frenesi da vida contemporânea.
São tempos outros, com suas carroças oriundas de Santa Felicidade. Há
ainda as vozes das colonas italianas, a voz do peixeiro português – “as
vozes” dos imigrantes – e a do menino jornaleiro. Os pregões acentuam
as marcas da agitação dos centros da metrópole. No poema, há também
os olhares “por sobre os sobrados” das torres da Catedral. Aqui, o olhar
aparece como elemento diferenciador, pois da mesma forma como as
torres observam as coisas, o poeta lança o olhar no tempo. No texto
apresenta dois momentos da cidade: o tempo do início da modernização
e o atual. Já a memória é o lugar que permite à poeta dialogar com o
passado. Lugar de refúgio e manifestação permanentemente atualizada
do passado, a memória é capaz de reativar imagens que ficaram distantes
no tempo. Ela faz reviver as coisas que ficaram “marcadas” na vida do
sujeito da enunciação e, simultaneamente, operacionaliza a imaginação
desse eu que “inventa imagens novas” a partir da realidade concreta;
memória essa como combinação de múltiplos elementos: recordações,
esquecimentos, fantasias, imaginações, ressonâncias de fatos e da
história, evocações, e outros.
Marilene Weinhardt, em “O Paraná no discurso literário”, salienta
que “a periferia agricultora ocupando os espaços do centro da cidade” é
“uma das marcas da recordação de Helena Kolody sobre a Curitiba de
sua infância e adolescência”81. E complementa:

A partir da pergunta82 cujo centramento residia numa sensação tátil,


versando a respeito de uma vivência que deve ter sido sua significativa
110 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

dose de dificuldade, a poeta migra para o mundo das sensações visuais


e, sobretudo, auditivas. Ela não se preocupa com os pés no chão, seja
barro, assoalho encerado ou macio tapete. O ambiente lhe chega por
outras vias. Como as torres da catedral e as copas dos pinheiros, ela
olha de cima, não por falta de modéstia, mas por preferir o que a vista
abarca desse ângulo. Seus ouvidos ouvem a canção dos pássaros e as
vozes e ruídos que anunciam produtos à venda [..].83

De acordo com Ecléa Bosi, “cada geração tem de sua cidade, a


memória de acontecimentos que permanecem como pontos de
demarcação em sua história” 84. Esta afirmativa da autora pode ser
constatada nesse poema de Kolody, anteriormente apresentado, no qual
se verifica o compasso social do tempo e a memória registrada através
das declarações do eu-lírico. Ainda no dizer de Bosi, o tempo social é
capaz de absorver o tempo individual, pois cada grupo vivencia de forma
diferente o tempo da família, da escola, das relações de amizades, da
própria cidade. Outrossim, a autora observa que, “por muito que deva à
memória coletiva, é o indivíduo que recorda. Ele é o memorizador e das
camadas do passado a que tem acesso pode reter objetos que são, para
ele, e só para ele, significativos dentro de um tesouro comum”85.
O poema a seguir, apresenta de maneira detalhada a descrição da
referida Praça Rui Barbosa e a recomposição do tempo e espaço realizado
pelo eu poético através da rememoração:

Praça Rui Barbosa

Quando a conheci, chamava-se, ainda, Praça da


República.
Era um grande retângulo de argila amarela
servia de pátio de exercícios para o 15º BC.
[...]

Mudou-se o 15. O quartel foi desativado.


A praça começou a mudar. Ganhou árvores,
ajardinamento,
calçadão de “petit-pavé”, repuxo iluminado, onde
sonhavam garças.
Ficou linda!
Ant onio Donizet i da Cruz R 111

Com a instalação de terminais de ônibus


perdeu em beleza, ganhou em humanidade.
Desde a madrugada até o início de outra
os expressos despejam e recolhem milhares de
[pessoas.
[...]

O cansaço anoitece nas solidões aglomeradas.


Um rumor de mar em ressaca
ressoa no tráfego intenso.

Depois de instalada a feira, a praça enlouqueceu:


Vozes, gritos, risadas, piadas e insultos
se entrecruzam entre as barracas.

[...]
De momento a momento, a fisionomia da praça muda.
Com o avançar das horas, diminui a maré do
[movimento.

Alta noite,
Velam janelas
Nos prédios ao redor.
Janelas acessas
Semáforos insones.

Dorme a praça o sono dos abandonados:


Estiram-se nos cantos escuros,
encolhem-se nos desvãos dos prédios.

Noite fria,
os menores se escondem nos caixotes de papelão
que o comércio deixa nas calçadas, rumo ao lixo.
Luz e sombra,
esplendor e miséria da cidade grande.

Na Praça Rui Barbosa,


a vida escreve uma página
da História Curitibana.86

O sujeito lírico relembra o passado através do exercício efetivo das


lembranças. As reminiscências são formas de articulação de uma
observação atenta de um eu que resgata a história de um símbolo que
112 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

une passado e presente numa “geometria” memorial. Nos versos, o eu


onisciente descreve a estaticidade da praça; surge o espaço para as
transformações de embelezamento do local, como sinal dos novos tem-
pos. Nesse ínterim, o eu-lírico afirma que a nova praça “ficou linda”. Se
antes o que marcava a praça era a aridez, a nova configuração descrita,
imprime-lhe dinamismo e funcionalidade, estas características acentuam-
se através dos versos, onde se ressalta a instalação dos terminais de
ônibus que permutou parte da beleza da praça por toques de um
humanismo utilitário. Há também o paradoxo das “solidões aglomeradas”
que insistem em conviver com a multidão.
A poeta – com sua imaginação verbal – descreve o movimento do
tráfego, em “mar em ressaca”. Há, também, a evidência da loucura da
praça através da enumeração caótica dos sons dos personagens e da
cores, que são descritos pelo eu-lírico. Ela fica alucinadamente vivaz.
Chega a noite. Só a praça dorme o sono dos abandonados, a figura dos
meninos desperta para a denuncia sobre a existência dos desamparados
que dormem gratuitamente em espaços públicos.
O contraste advindo da estratificação social, acentuado pela
crescente urbanização, é desvelado pelo olhar do eu crítico que de forma
consistente tece uma contundente crítica social. A poeta sobrepõe riquezas
e misérias para explicitar os contrastes da “luz e sombra”. A constatação
na última estrofe de que “na Praça Rui Barbosa, a vida escreve uma página
da história curitibana” é um testemunho que registra as transformações
que ocorreram no microuniverso da praça e no macrouniverso da cidade.
O apanhado de versos e estrofes evidencia a memória social, crítica e
interpretativa da condição humana, ou seja, a memória individual
configurada na esfera do social.
A temática da memória está novamente presente no poema dístico
“Nostalgia”, no qual fica evidente a relação do som como despertador do
passado adormecido:

Nostalgia

Gorjeiam sempre em nós


os pássaros de antigamente.87
Ant onio Donizet i da Cruz R 113

Figura 2: Aéreos. Desenho - Giz de cera. Antonio Donizeti da Cruz –


[Premiado no Concurso Internacional de Poesia e Desenho “Lília A.
Pereira da Silva”, Itapira – SP).
Fonte: CRUZ (2001, p.167)

Nos versos, a imagem “pássaros de antigamente” sugere que o


passado permanece na memória: “gorgeiam sempre em nós”. No texto,
o eu poético através da memória reencontra o tempo concretamente
perdido. O “gorjeio” é “revivido” através das lembranças, ou seja, por
meio do ato de rememorar. O título do poema remete à saudade e suscita
uma aproximação semântica em relação à memória. Na busca de um
tempo que sobreviva ao instante fugaz, o eu poético concretiza um
momento único e intransferível. No confronto da brevidade da vida, a
poesia é o sinal do ser humano e o seu testemunho perante o futuro,
protegendo-o contra a automatização.
Um outro poema que revela um lirismo nostálgico, numa linguagem
lúdica, metafórica e organizada, é “saudades”, com um tênue acento de
melancolia:
114 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

Saudades

Um sabiá cantou.
Longe, dançou o arvoredo.
Choveram saudades.88

Esse haicai miniatural apresenta a saudade e a natureza interligadas,


pois o canto do sabiá, mesmo distante, é capaz de despertar o sujeito
para uma observação atenta da natureza. Na primeira estrofe, a
constatação do canto do sabiá direciona os versos seguintes. O canto
funciona como um circuito entre o pássaro, as árvores e a saudade. O
tema da saudade está ligado ao da memória, pois “chover saudade” é
uma forma de rememorar, de lembrar as coisas que ficaram “adormecidas”
em outro tempo distante. Daí o vetor da memória: cintilações de
lembranças e esquecimentos, pois como bem lembra Bachelard, “o
homem mira-se no seu passado, toda imagem é para ele uma
lembrança”89.
O signo memória – fator de identidade pessoal – permite o
equilíbrio e a organização do discurso poético, tendo em vista a unidade
do sujeito lírico, no texto:

A esfera do tempo

O passado é presente
– navegada memória –
na esteira do porvir.

Voga o navegante
na correnteza do agora.
E passa no instante.90

Os versos acentuam o valor da memória enquanto lugar de


preservação das coisas aparentemente perdidas no presente. Os tempos
– passado, presente e futuro – se cruzam numa rede de sentidos. O eu-
lírico, oculto, sabe da finitude das coisas e da irreversibilidade do tempo
que passa, tal como o “rio” de Heráclito.
Ant onio Donizet i da Cruz R 115

Em “Levam o amanhecer”, o sujeito lírico, ao debruçar-se sobre “o


rio da memória”, recolhe algumas imagens do passado, potencializando-
as novamente no fluxo recorrente do ritmo poético:

LEVAM O AMANHECER

Partem.
E levam consigo
a memória
de nosso amanhecer.

A quem dirigir
a pergunta mágica:
Lembra-se?

Quem,
entre os jovens,
acreditará
que fomos jovens também?91

Os versos do poema são marcados pela tônica da interrogação,


em que o eu-lírico se volta sobre a condição existencial. Esse texto traz
uma linha de tempo, no qual a palavra introdutória indica uma ação
pretérita; na segunda estrofe, o verbo marca o presente e, na última,
projeta uma ação futura para os jovens do hoje, sobre personagens cuja
juventude já passou. Na primeira estrofe, destaca-se o verbo flexionado
“partem”. Na última estrofe, percebe-se que a interrogação parte de um
sujeito lírico que se encontra em face da velhice, pois indaga: “Quem
acreditará que já fomos jovens também?” Este mesmo sujeito não tem
um interlocutor para que possa dirigir a questão mais importante: “lembra-
se?”. Note-se, nos versos do poema, a constante indagação, que surge
como uma das marcas da modernidade. O poeta sabe que não há
respostas cifradas às perguntas.
Para Claude Esteban, o poeta, homem inquieto, é, de certa maneira,
aguilhoado em busca de respostas inacabadas que recebe. Por isso, ele
sente um permanente desequilíbrio entre o eu e o mundo, a que ele
desejaria, com certeza, pôr fim a toda forma de obliteração e angústia,
mas reconhece, ao mesmo tempo, sua impossibilidade de satisfação.
116 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

O que reanima e estimula o homem inquieto, nos momentos de dúvida


e desorientação, é o sonho de uma dinâmica representada pelo inacessível.
A inquietação do homem habita somente o indefinido. Talvez “para além
da consciência e finitude, o lugar simples da despreocupação”92.
O poeta Paulo Leminski, no poema “Saudosa amnésia” (com a
dedicatória: “a um amigo que perdeu a memória”), através da indagação
e humor, traz à tona o tema da memória de uma maneira sutil. O eu-
lírico declara:

SAUDOSA AMNÉSIA

a um amigo que perdeu a memória

Memória é coisa recente.


Até ontem, quem lembrava?
A coisa veio antes,
ou, antes, foi a palavra?
Ao perder a lembrança,
grande coisa não se perde.
Nuvens, são sempre brancas.
93
O mar? Continua verde.

Registra-se, através dos versos de Leminski, os questionamentos


tão próprios do poeta da modernidade e, também, o fino humor com que
o sujeito poético articula a linguagem, especialmente no primeiro verso.
Mediante uma refinada ironia, o eu-lírico afirma ser a memória algo criado
“recentemente”. A expressão “a coisa veio antes” se volta à memória
lírica. O segundo verso “Até ontem, quem lembrava?”, aproxima-se muito
do estilo do poema “Levam o amanhecer”, de Kolody, já que apresenta o
mesmo tom de interrogação, ou seja, sobressai a atitude indagativa do
poeta perante a linguagem, marca da modernidade.
O texto “Tempo de recordar”, a temática da memória, expressa no
título, alude ao poder sugestivo das palavras:

Tempo de recordar

Brilham palavras antigas


no ingênuo rio da memória.
Ant onio Donizet i da Cruz R 117

A lágrima prisioneira
orvalha a flor da lembrança.94

Nos versos do poema, as lembranças são associadas a pontos


brilhantes no manancial pelo qual a viagem metafórica transcorre. Na
reminiscência poética, destacam-se os vocábulos como rio, palavras,
lágrima e flor. Com grande força de sugestão, o eu poético cria uma
experiência mítica ao buscar na realidade uma dimensão absoluta. A
palavra poética visa recuperar o tempo, espaço mágico das rememorações
da infância, nascedouro da identidade, para resgatar do “rio da memória”,
as “palavras antigas” que têm o poder de fazer reaparecer a “flor da
lembrança”, ou seja, reavivar o ser da linguagem. Na palavra e pela palavra,
o eu poético encontra sua realização, mesmo que seja no “tempo de
recordar”, tempo este marcado pela vivacidade e nostalgia.
No texto “Cantiga de recordar”, a saudade está vinculada a uma
fase temporária da vida, na qual o sujeito lírico rememora nostalgicamente
as coisas e acontecimentos outrora vividos:

Cantiga de recordar
1970

Doce lembrança orvalhada


de madrugadas antigas.

Fumaça de chaminé
subindo na manhã fria.

Florescida malva-rosa
debruçada no jardim

Uma revoada de sonhos


na vida que amanhecia

Cantiga de recordar...
Ai, que saudade de mim!95

O ato de rememorar é a tônica que movimenta o poema. O eu-


lírico se diz com saudade do eu de outrora, e tenta resgatá-lo através da
118 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

“memória”, que funciona como instrumento de caça à “revoada de


sonhos”. A sinestesia “doce lembrança” acentua o fator da rememoração
mediante o sintagma “madrugadas antigas”. A nostalgia e as
reminiscências estão presentes no texto. Em relação à memória, aqui se
presentifica o que Mancia denomina de elo de ligação entre a realidade
atual vivenciada pelo eu poético e as experiências anteriores, isto é, o
sonho é o elemento facilitador da construção do ato de recordar, mas
juntamente com as fantasias da vigília96.
Neste poema, os sentidos aguçam as lembranças. As marcas do
clima são reveladas na experiência tátil da manhã fria. A gustação está
impregnada em doce lembrança orvalhada, a audição está presente na
“cantiga de recordar”, o cheiro da fumaça e da malva-rosa exala no jardim
e a visão permeia todas as imagens que compõem o quadro descrito
com todos os sentidos.
“Pêndula” é um poema marcado pelas lembranças do passado,
mesmo que o sintagma inicial “vão demolir” aponte para o tempo fu-
turo, o que mais fica evidente é a descrição do presente com todas as
suas correspondências no que se refere ao casarão. O eu-lírico afirma:

Pêndula

Vão demolir o casarão da esquina:


a casa antiga, ornada de volutas,
folhas de acanto na fachada, em frisos,
a sacada uma renda em ferro azul,
e a cascata de mármore da escada.

Móveis de estilo nos salões, galas de outrora,


grandes espelhos, porcelanas, alabastros.
Pêndula preguiçosa a demorar o tempo.
Gotas de luz do carrilhão cantando as horas.

No casarão vazio, acordam os fantasmas


dos que viveram no aconchego da lareira,
dos que dançaram sob a luz dos candelabros
e usaram linhos e baixelas e cristais
e finos gestos de olvidada cortesia.97
Ant onio Donizet i da Cruz R 119

Na primeira estrofe, o eu-lírico anuncia a demolição do casarão. O


espaço é demarcado: o casarão da esquina. A afirmativa é realçada pelo
aposto, que é destacado pelo sujeito da enunciação “a casa antiga”.
Percebe-se que há toda uma descrição do exterior e do interior da casa.
No texto, a poeta coordena os elementos: o som, o sentido, a realidade
e o imaginário, a sintaxe, a dupla invenção da forma e conteúdo. Destaca-
se a elaboração textual relacionada à descrição dos detalhes
arquitetônicos do casarão. Isso prova o cuidado da poeta com a escolha
precisa das palavras que mostram aspectos minuciosos. Nota-se, na
segunda estrofe, as descrições do interior da casa: os relógios, “os
móveis de estilo nos salões”, “os grandes espelhos”, “alabastros”, “ga-
las de outrora”. As imagens dos relógios – “pêndula” (relógio de parede)
e “carrilhão” (relógio de parede que dá horas por música) que “cantam
as horas” – remetem à questão temporal. As imagens no poema são
balizas do tempo e do espaço. Na terceira estrofe, o eu-lírico descreve o
“casarão vazio”, ou seja, de todas as coisas só restou a esquecida
“amabilidade” dos que viveram ali. Por isso, “acordar os fantasmas”
significa, metaforicamente, rememorar as antigas lembranças. Os verbos
flexionados na terceira plural, indefinem os sujeitos que “viveram”,
“dançaram”, “usaram” e apontam para o pretérito, tempo este que não
volta jamais.
O poema “Pêndula” pode ser classificado de “imagético” ou
“pictórico”. Käte Hamburger observa que esta forma de poema descreve
“uma pintura ou escultura”98. Aqui o termo é utilizado por extensão, ou
seja, a descrição de uma arquitetura, no caso, a do “casarão da esquina”.
Verifica-se também a escolha precisa do léxico por parte de Helena Kolody.
Tal como um pintor que vai selecionando as cores para a “aquarela”, da
mesma forma, o poeta vai construindo a “arquitetura” do poema, que
pode ser comparado a construção de uma casa. Esta tem o sentido de
refúgio, de aconchego, tal como aparece nos versos: “no casarão vazio,
acordam os fantasmas/ dos que viveram no aconchego da lareira”. Aqui,
a imagem da lareira, metonímia de casa, funciona como símbolo de
bem-estar e de aconchego. No dizer do filósofo, a casa é também símbolo
feminino, de mãe, de seio maternal. É ainda a imagem do universo.
Assim, “a casa é um corpo de imagens que dão ao homem razões ou
ilusões de estabilidade”99. Em relação ao poema, pode-se concluir que a
120 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

imagem do casarão a ser demolido representa a não-permanência, a


instabilidade das coisas que passam sem deixar vestígios, ou seja, não
há nada permanente na vida. Nesse sentido, o sujeito lírico, ao “recordar”
o casarão, recupera lembranças de um passado que se perdeu no tempo,
isto é, o “discurso-memória” do eu-lírico funciona como pura recordação.
No poema abaixo, o eu poético cria significados precisos com a
linguagem:

Origem

(aquarela eslavo-brasileira)

Na memória do sangue,
há bosques de bétulas
estepes de urzes floridas
canções eslavas.

Arde o trópico nos nervos.


Crepita a alegria da pátria jovem.
A alma se aquece na chama das cores.

Dança o coração em ritmo sincopado.100

A metáfora “memória de sangue” está ligada ao atavismo, tão bem


abordado por Kolody. No texto, há toda uma relação com as paisagens
do país de seus antepassados, a Ucrânia, tais como nas expressões
“bosques de bétula”, “canções eslavas” e “estepes de urzes”. Já os
sintagmas: “pátria jovem”, “ritmo sincopado”, “trópico nos nervos”
remetem ao Brasil. A memória é o elã, isto é, a disposição na qual está
instaurada a base das lembranças e esquecimentos. É, sobretudo, uma
forma de reavivar as impressões “adormecidas” e, fazer com que o passado
enquanto tema lírico surja como um “tesouro de recordações”, no dizer
de Staiger101.
“Bola de cristal” é um poema que retrata o tempo e aponta para
questões fundamentais: o sentido da existência, as inquietações frente
às vicissitudes da vida e o de estar no mundo. A memória atua como um
mecanismo de defesa, no dizer do eu-lírico, pois ela é capaz de “encobrir”
a realidade, ou seja, funciona como uma válvula de escape para suavizar
Ant onio Donizet i da Cruz R 121

as coisas e acontecimentos que ficaram presos na “retina” do tempo


passado:
BOLA DE CRISTAL

Se interrogas o passado,
mente o cristal da memória
para tornar-te feliz.102

No presente texto, o poder da memória aparece como uma força


capaz de direcionar o pensamento e ações do sujeito. O ato de interrogar
o passado pode ficar obliterado pela clarividência com que a memória é
capaz de suavizar lembranças e acontecimentos passados.
O haicai, abaixo, intitulado “Noite” 103, reconduz ao tema da
memória e da velhice:

As imagens “luar”, “constelações” e “orvalho” remetem à noite. Já


os vocábulos: “cabelos”, “memória” e “olhar” apontam para a velhice.
Três versos que marcam o período da velhice. Basta ver a imagem do
“luar nos cabelos”. A primeira versão deste haicai foi escrito em 1946, e
se intitulava “Velhice”: “Orvalho no olhar. / Constelações na memória. /
Nos cabelos, luar.”104:
122 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

A última palavra do segundo poema é a mesma que introduz o


primeiro, a inversão completa-se com o verso final do primeiro poema,
que é o ponto de partida para o segundo. Parece que o sujeito lírico quer
reverter o irreversível início e fim de sua jornada.
O título do haicai “Noite”, metáfora de velhice, está direcionado
para a fase de envelhecimento na qual as recordações e lembranças vêm
à tona. Sobre a condição da velhice ela afirma:

Sempre tive para mim que eu não queria envelhecer. A própria memória
se despoja de um monte de fatos e lembranças, principalmente de coisas
que eu li e não lembro mais. Dos meus próprios versos eu esqueço. E
com isso, eu não me conformo, porque, sempre tive uma memória tão
boa, eu era capaz de guardar de cor livros inteiros [...]. Ganhei raciocínio
com a idade, mas perdi muito de memória e memória é meu arquivo.
Daí começo a pensar como professora de biologia: todos os dias morrem
milhares de células em meu cérebro e isto não é recuperado, é muito
trágico.105
Ant onio Donizet i da Cruz R 123

Kolody vê a vida como um mistério, pois “nunca se sabe o que vai


trazer amanhã”, muito menos a reação de cada pessoa frente aos
acontecimentos inesperados. Com o passar do tempo, “a solidão acaba
doendo muito... Este é o ponto trágico no envelhecer: vamos perdendo
os amigos, a família, o grupo ao qual pertencíamos vai se desfazendo,
vamos perdendo o contato com as gerações mais novas”106, conclui a
poeta.
Nos versos da “trova” (inédito), de Kolody, verifica-se a fusão do
sonho e da realidade, vivenciada pelo sujeito da enunciação:

Flor azul da soledade,


luz do que tenho sonhado,
transfigurou-se em saudade
a lembrança do passado107.

As imagens do poema revelam o confronto do eu com o mundo


onírico, ou seja, há toda uma relação de nostalgia e sonhos vividos
anteriormente. “A lembrança do passado” é o vetor que aponta para a
imagem da saudade, representada pela “flor azul da soledade”. Já a solidão
é cifra da condição humana, ou seja, faz parte da vida. As imagens do
poema apresentam, ainda, uma maneira especial do eu poético ver e
interpretar o mundo, a partir das lembranças e da força onírica que faz
com que o poeta seja um “sonhador de palavras”. Nesse sentido,
Bachelard, em A chama de uma vela, afirma que,

[...] todo sonhador inflamado é um poeta em potencial. [...] Todo sonhador


inflamado vive em estado de primeira fantasia. Esta primeira admiração
está enraizada em nosso passado longínquo. [...] temos mil lembranças,
sonhamos tudo através da personalidade de uma memória muito antiga
e, no entanto, sonhamos como todo mundo, lembramo-nos como todo
mundo se lembra – então, seguindo uma das leis mais constantes da
fantasia diante da chama, o sonhador vive em um passado que não é
mais unicamente seu, no passado dos primeiros fogos do mundo.108

Para o filósofo, o sonhador inflamado conjuga o que vê ao já visto,


ou seja, conhece perfeitamente a associação entre imaginação e
memória109.
124 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

Assim, fundamentando-se em Bachelard, pode-se dizer que Hel-


ena Kolody realiza um fazer poético organizado no mundo das imagens e
na rememoração das coisas mais singelas: a infância, a casa, a cidade,
os amigos, as lembranças do passado, enfim, uma poesia que desperta
para as imagens mais ternas.
Através dos poemas analisados, constata-se que, na poesia de
Helena Kolody, o tempo, a solidão e a memória aparecem de forma
articulada, ou seja, são temas que se interligam. Primeiramente, há o
tempo vivido, cronologicamente, base para situar as reminiscências
vivenciadas, que são reelaboradas, reorganizadas pelo sujeito. Em um
segundo momento, a memória tem o poder de ativar ou reter as coisas.
A memória faz parte da vida, ou seja, somos feitos, de certa forma de
memória, mas também de lembranças e esquecimentos. Da conjugação
do tempo e memória, a solidão aparece enquanto momento vital de um
eu que busca “reviver”, ou simplesmente lembrar o passado, mesmo
que de forma evanescente, pois através do ato de rememorar, se realiza o
milagre da linguagem.
Os poemas de Kolody expressam potencialidade, busca de sentido
existencial e resistência frente ao tempo humano. Eles têm o poder de
fazer com que as palavras ganhem dimensão e sentidos plenos. O poeta
faz de sua arte um momento de entrega e realização, no sentido de
redimensionar o tempo humano.
Na poesia de Kolody as experiências vitais – a alegria de viver, o
sonho, a revisitação da infância – aparecem de forma nítida, mas também
há a marca da solidão e da melancolia, tão próprias do ser humano. A
recordação é o fator imprescindível que movimenta as aspirações e
sentimentos do sujeito poético, pois no momento da recordação o eu
rememora, com profundidade, os acontecimentos e experiências
anteriormente vivenciados, podendo até imaginar situações que apontam
para o tempo futuro, ou seja, por meio das lembranças e da memória, é
possível concretizar as objetivações à esfera vital.
A poesia kolodyana, lapidada no cinzel da memória, instaura um
procedimento poético em que a linguagem – enquanto magia e encanto
– desperta no leitor uma atenção voltada para as coisas mais sensíveis,
pois a linguagem é sinal de vida e permanência. Ao mesmo tempo, ela é
afirmação do eu que se presentifica no ato de dizer, de realizar e descobrir
Ant onio Donizet i da Cruz R 125

sentidos mediante as palavras. O homem – marcado pela finitude – vive


uma vida transitória, em permanente viagem. Entre buscas e fugas, ele
se vê frente à instabilidade das coisas. Entretanto, a poesia tem o poder
de despertar o homem para a consciência e horizonte dos mundos
possíveis.

3.2 O jogo dialético: vida e morte

“O tempo joga um xadrez sem peças


Ali no pátio. O rangido de uma rama
Rasga a noite. Lá fora, a planície
Léguas de pó e sonho esparrama.
Sombras os dois, copiamos o que ditam
Outras sombras: Heráclito e Gautama.”
Jorge Luis Borges (1999, p. 505)

A palavra vida deixou de ser imagem e ideia: é nome vazio, afirma


Octavio Paz. O significado vida indicava uma realidade única. “Havia um
momento (qual? onde? como?) em que a matéria mudava e se
transformava em vida, ou seja, numa matéria qualitativamente diferente
do resto da matéria”110. A vida é uma combinação insólita, um caso even-
tual da natureza. Para a biologia molecular, as palavras vida e morte não
têm existência própria, pois a vida se resolve (se dissolve) numa relação
físico-química que denominamos morte, e esta se dissolve (se resolve)
no processo da vida. Se o físico-químico absorve a biologia, a diferenciação
entre vida e o que nomeamos morte é pura ilusão. Vida e morte, embora
inseparáveis, são dois momentos complementares da mesma operação.
O que se nomeamos vida é um sistema de chamadas e respostas, uma
complexa rede de comunicação que é também um circuito de
transformações. O sistema é um mundo de equivalências e
correspondências. Vida e morte são termos correspondentes entre as
células, mas não na consciência. Morte é morte, e vida é vida; deriva daí
a grande lacuna: silêncio e vazio111.
Octavio Paz salienta que vida e morte são inseparáveis. A morte
está presente na vida, pois o homem vive morrendo. Ela não está fora do
homem, não é algo estranho que provém do exterior. A condição humana
exige ser transcendida. Daí o caráter primordial da poesia: revelação.
126 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

O poeta revela o homem criando-o. Entre o nascer e o morrer existe o


viver, com a possibilidade de conquista do próprio ser. Por essa razão,
Octavio Paz afirma:

A morte não está fora do homem, não é um fato estranho que venha do
exterior. Se considerarmos a morte como um fato que não faz parte de
nós, a atitude estóica é a única possível: enquanto estamos vivos, a
morte não existe para nós; mal entra em nós, deixamos de existir – por
que temê-la então e fazer dela o centro de nosso pensamento? Mas a
morte é inseparável de nós. Não está fora: a morte é nós. Viver é
morrer.[...] A morte não é falta da vida humana; ao contrário, ela a
completa. Viver é ir para diante, avançar para o desconhecido e esse
avançar é um ir ao encontro de nós mesmos.112

Consoante ao pensamento de Paz, pode-se dizer que a poesia abre


um “leque” de possibilidade de ser que todo nascer contém; recria o
homem e o faz assumir sua verdadeira condição, que não é a separação
vida e morte, mas a totalidade: vida e morte em um só “instante de
incandescência”. Através da “experiência do sagrado – que vem da
vertigem ante seu próprio vazio –, o homem consegue se aceitar tal como
é: contingência e finitude”113.
Mediante o oxímoro, “a morte é uma viagem e a viagem é uma
morte”, Gaston Bachelard apresenta uma das mais inquietantes
indagações: “não terá sido a Morte o primeiro navegador?” Para o filósofo,
a morte não seria a última viagem, mas a primeira viagem. Nesse sentido,
a imaginação material remete à água, pois, nela a morte tem sua parcela,
ou seja, “ela tem necessidade da água para conservar o sentido de viagem
da morte”114. Sendo assim, a morte é viagem que não tem fim, isto é,
“uma perspectiva infinita de perigos115.
No universo imaginário de Helena Kolody, a efemeridade e
permanência são pólos de uma realidade mais abrangente: vida e morte
se configuram e se estruturam a partir da linguagem. Os questionamentos
da existência humana são tratados sutilmente pela poeta.
Na poesia kolodyana, a tensão tempo-eternidade é uma constante.
Na busca de um tempo que sobreviva ao instante fugaz, o poeta faz do
ato de escrever um momento único e intransferível. No confronto com a
brevidade da vida humana, a poesia de Kolody é sinal de permanência
Ant onio Donizet i da Cruz R 127

perante o futuro. Ela articula a linguagem de forma clara, privilegiando a


simplicidade, linguagem essa que retrata a condição humana e dá
testemunho de uma construção poética que privilegia o sentido da vida.
As imagens que direcionam para o caráter transitório, tais como “rio”,
“travessia”, “viagem”, “estações”, “gerações”, são recorrentes em sua
poesia. Dessa forma, o essencial reside na busca de um sentido profundo
da existência e do intemporal, enquanto registro de pensamento capaz
de (re)inventar as coisas mais simples. Por meio da observação existencial
da ação do tempo e das questões metafísicas, a poeta dá forma a essa
luta de vida e morte a que todos os homens estão submetidos.
Vida e morte se entrelaçam na poesia de Helena Kolody, em que o
eu-lírico expressa os sentidos da existência:

Vida

Semente oculta na polpa do fruto.


A morte habita o âmago da vida.

Demora em nós a eternidade


E espera que se cumpra
O tempo da sazão.

Tombaremos no solo escuro.


Do alto ramo oscilante,
Procuramos ignorá-lo.

Semente oculta na polpa do fruto.


A vida brota do âmago da morte,
Imperecível.116

Os versos quiasmos “A morte habita o âmago da vida” versus “A


vida brota do âmago da morte”, destacam-se no texto. Eles revelam um
eu que se inquieta perante a vida e a morte. A vida pode “brotar” tanto da
“semente oculta” quanto do “âmago da morte”. Na primeira estrofe do
poema, esse eu compara a morte como uma semente que se encontra
“oculta na polpa do fruto”. Nessa perspectiva, a “semente” é metáfora
de vida, símbolo da vida. Na segunda estrofe, o eu poético mostra-se
consciente de sua condição de finitude. A inquietação do eu poético em
relação ao “tempo da sazão” – tempo próprio para a colheita do fruto –
128 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

remete à ideia de que o homem é “contingência” e tem uma vida incerta,


“no limite de duração” e finitude. A eternidade é “a ausência ou a solução
de todos os conflitos”, ultrapassando contradições, tanto no plano
cósmico quanto no plano espiritual. Para o homem, “o desejo de
eternidade do homem reflete sua luta incessante contra o tempo e, talvez
ainda mais, sua luta por uma vida que, de tão intensa, possa triunfar para
sempre sobre a morte”117. Na terceira estrofe, o eu poético tem perfeita
consciência da morte, ao declarar: “Tombaremos no solo escuro./ Do
alto ramo oscilante,/ Procuramos ignorá-lo”118. Mas, se a morte é uma
certeza para o eu poético, ela é também uma esperança de “vida
imperecível”, para “além das fronteiras e dos símbolos”, pois na quarta e
última estrofe, ele salienta: “Semente oculta na polpa do fruto./ A vida
brota do âmago da morte,/ Imperecível”119. Ou seja, a vida “oculta” na
semente revela-se plenamente.
A poesia, consoante Paz, não tem por objetivo suavizar a aflição do
homem frente à morte, mas fazer com que ele perceba que a vida e a
morte são inseparáveis, isto é, são “totalidades”. Por isso, “recuperar a
vida concreta significa reunir a parelha vida-morte, reconquistar um no
outro, o tu no eu, e assim descobrir a figura do mundo na dispersão de
seus fragmentos”120. Na poesia de Kolody, contatam-se as afirmações de
Octavio Paz, visto que o texto kolodyano apresenta-se como residual da
experiência, trazendo como saldo a consciência da vida e da morte,
associadas ao próprio sentimento lírico, em que o eu funciona como
“filtro do mundo”.
A morte aparece como sinônimo de libertação. A temática da
transitoriedade do ser e da brevidade da vida salientam-se nos versos do
poema:

ARGILA ILUMINADA

Somos o eterno
aprisionado
na argila perecível.

Inábeis equilibramos
o intemporal no precário.

E só a morte nos liberta.121


Ant onio Donizet i da Cruz R 129

Emerge dos versos a capacidade do sujeito em equilibrar, mesmo


que seja de maneira limitada, “o intemporal no precário”. O desejo de
vencer os conflitos, leva o eu-lírico a afirmar: “só a morte nos liberta”.
Assim, nascer e morrer são experiências concretas de solidão. Mais
do que viver, a vida ensina o homem a morrer.
Na poesia de Kolody, a morte aparece como experiência cotidiana,
mas marcada por ausências e despedidas, conforme se constata na
afirmação do eu-lírico:

ANOITECER

Amiudam-se as partidas...
Também morremos um pouco
no amargor das despedidas.

Cais deserto, anoitecemos


enluarados de ausências.122

Verifica-se, nos versos, a busca da poeta em relação à palavra exata


para concretizar um estado de solidão. A imagem do “cais deserto” remete
à ideia de solidão. O “morrer um pouco”, as “partidas” e “despedidas”
são expressões que revelam a ausência dos que se foram. Já o vocábulo
“anoitecemos” indica a metáfora de envelhecer. São imagens vigorosas
que se projetam frente a uma visão do tempo sempre relacionado à
experiência humana. Através de um lirismo singelo, o sujeito poético
declara que as despedidas amargas fazem com que o sujeito plural morra
“um pouco”. Os pequenos interregnos das “partidas” destroem
paulatinamente a resistência do sujeito lírico. Na segunda estrofe, os
versos “cais desertos, anoitecemos/ enluarados de ausências”, aparecem
como uma extensão da primeira, isto é, o processo de “eufemização” da
morte fica evidente. Cumpre observar que a morte, no texto, tem sentido
análogo a “despedidas”. Assim, “partir” é sempre morrer um pouco. Ainda
nessa estrofe, a imagem do “cais deserto” está ligada ao tema da solidão
e do isolamento do eu que se vê envolto em meio às ausências e
despedidas. A afirmação do eu-lírico que se sente envolvido pela noite –
metáfora de despedida e morte – traz em sua essência o brilho da lua. No
texto, as imagens subentendidas da noite e da lua apontam para o caráter
130 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

transitório e efêmero da vida. Segundo Bachelard, “no reino poético”, a


imagem da lua é “matéria antes de ser forma, é um fluido que penetra o
sonhador”123. Dessa forma, para o poeta, em seu estado natural e pri-
mordial, a lua é uma influência no sentido “astrológico do termo”.
Os versos de “Anoitecer” condensam vários sentidos em um espaço
gráfico mínimo. A poesia é entre as formas literárias a que mais requer
introspecção por parte dos operadores da linguagem e também dos
leitores. A singularidade da poesia não surge somente das ideias ou
atitudes do poeta, mas acima de tudo de sua voz, ou seja, ele faz do
poema um ato. Este fazer é essencialmente um “fazer-se a si mesmo”,
daí a poesia ser também autocriação, conhecimento e transmutação de
sentidos.
No texto intitulado “Jogo”, o sujeito poético mostra que a poesia é
jogo e luta “de vida e morte” com as palavras:

Jogo

A morte espreita, em silêncio


O vivo jogo dos homens
No tabuleiro do tempo.

Estende, às vezes, de repente,


longa mão feita de sombra
E tira um peão do tabuleiro.124

Nos versos, a vida é comparada a um jogo. Somos peças do


tabuleiro. A jogo é metáfora de vida. Já a expressão “tirar um peão”
funciona como metáfora de morte. Na primeira estrofe, “a morte” observa
o “vivo jogo dos homens” para, só depois, estender sua “mão de sombra”,
e tirar um “peão do tabuleiro”. Com uma linguagem metafórica, o poema
direciona para o caráter permanente da palavra enquanto potência e sinal
de permanência. As palavras-imagens são pedras singulares jogadas no
tabuleiro do poema até que o destino declare o derradeiro xeque-mate.
No prólogo da obra O outro, o mesmo, o escritor Jorge Luis Borges,
afirma que a poesia é um xadrez misterioso, cujas peças mudam como
um sonho125. Já nos sonetos intitulados “XADREZ”, número I e II, da
Ant onio Donizet i da Cruz R 131

obra O fazedor (1999), de Jorge Luis Borges, apresenta-se a disposição


“mágica” do jogo de xadrez, quer os jogadores regendo as peças no
tabuleiro preto e branco, quer na “batalha armada”, cujas peças são
movidas pelos jogadores, sem esquecer, ainda, a interferência divina
regendo os jogadores:

I
Em seu austero canto, os jogadores
Regem as lentas peças. O tabuleiro
Os demora até o alvorecer nesse severo
Espaço em que se odeiam duas cores.

Lá dentro irradiam mágicos rigores


As formas: torre homérica, ligeiro
Cavalo, armada rainha, rei postreiro,
Oblíquo bispo e peões agressores.

Quando os jogadores estiverem ido,


Quando o tempo os tiver consumido,
Certamente não terá cessado o rito.

No Oriente acendeu-se esta guerra


Cujo anfiteatro é hoje toda a terra.
Como o outro, este jogo é infinito.

II
Tênue rei, oblíquo bispo, encarniçada
Rainha, peão ladino e torre a prumo
Sobre o preto e o branco de seu rumo
Procuram e travam sua batalha armada.

Não sabem que a mão assinalada


Do jogador governa o seu destino,
Não sabem que um rigor adamantino
Sujeita seu arbítrio e sua jornada.

Também o jogador é prisioneiro


(A máxima é de Omar) de um tabuleiro
De negras noites e de brancos dias.
132 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

Deus move o jogador, e este, a peça.


Que deus detrás de Deus o ardil começa
De pó e tempo e sonho e agonias?126

Os versos do poeta Jorge Luis Borges apontam para a idéia do


inesperado e do jogo. Ou seja, os homens fazem parte da peça de um
tabuleiro de xadrez; invisíveis mãos jogam com nosso destino e, em
momento que não sabemos, somos retirados do jogo.
Dessa forma, os versos de Kolody e de Borges apresentam a ideia
do inesperado e do jogo, ou seja, os homens fazem parte da peça de um
tabuleiro de xadrez; invisíveis mãos jogam com nosso destino e, em
momento que não sabemos, somos retirados do jogo.
A mesma temática da vida e da morte está presente no poema
dístico intitulado “Tempo”, marcado pela síntese:

Tempo

Cai a areia da vida


127
Na ampulheta da morte.

A brevidade da vida, no poema, é simbolizada pela imagem da


“ampulheta”. Nos versos do poema, o sujeito poético define o tempo de
forma condensada e poética e, ao mesmo tempo, joga com metáforas
que sintetizam o sentido da vida. Na antítese “vida” versus “morte”, o
jogo de palavras é arquitetado de maneira clara. A imagem da areia caindo
na ampulheta dá um sentido inexorável à existência humana, porque não
há como deter o fluxo. A areia desce de forma implacável. Essa metáfora
também remete ao período vital, o tempo cíclico do homem na terra.
Note-se que o poema aponta para o caráter lúdico da linguagem poética,
no ato de jogar com as palavras. As imagens da areia e da ampulheta
estão organizadas na estrutura do poema de forma harmoniosa,
confrontando com os signos vida versus morte.
O tempo é problema essencial. Por ser sucessão, ele se torna uma
perplexidade ao homem. A imagem da ampulheta, cuja areia escorre
inexoravelmente, dá uma ideia do problema latente: o fugidio. O passado,
o presente e o futuro direcionam para uma questão fundamental: a
temporalidade. Para Octavio Paz, “o tempo não está fora de nós, nem é
Ant onio Donizet i da Cruz R 133

algo que passa à frente de nossos olhos como os ponteiros do relógio:


nós somos tempo, e não são os anos mas nós que passamos”128.
Em “Areia”, poema composto por três versos, percebe-se a temática
da efemeridade da vida relacionada com o jogo de palavras e imagens:

AREIA

Da estátua de areia
nada restará
129
depois da maré cheia.

O caráter transitório da existência é sugerido no texto. A expressão


“estátua de areia” simboliza o corpo; “maré cheia” funciona como metáfora
de “morte”. A imagem da estátua de areia simboliza o efêmero e
passageiro. Nos versos, o poeta consegue articular a linguagem como
um jogo. Na negação através do sintagma “nada restará”, a constatação
da finitude da vida. A imagem da “estátua de areia” aponta para a questão
da efemeridade. No último verso, pode-se inferir que a lua brilha oculta,
pois ela determina as marés, que, como a vida, tem ciclos de cheia e de
baixa que se repetem indefinidamente.
Os mistérios da vida, da morte e suas nuanças, da travessia e do
tempo, apresentam as indagações do sujeito da enunciação:

Mutação

Onde a fonte habitual do sonho?


Onde a esperança?
Onde aquela segura confiança
No dia de amanhã?

E o suave rosto amanhecente,


Com seu olhar e seu sorriso?
E as tempestades emotivas,
A desabar em pranto e sorriso?

Como chegou, tão de repente,


Este sabor de tédio e morte?

Despreocupada, a gente adormece


Em mocidade.
134 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

Eis que desperta, subitamente,


Na outra margem.
130
Quando se faz a travessia?

As expressões “dia de amanhã”, “tão de repente”, “subitamente”


revelam um acentuado sentido de transitoriedade dos entes e das coisas.
A mocidade, como um período de vivência despreocupada, é um lapso
no tempo que se esgota. O sintagma “outra margem” indica que o tempo
decorreu célere. De repente, o eu se encontra na outra margem, olhando
a vida que passou. A primeira estrofe revela uma certa instabilidade das
coisas, comprovada pela expressão “Onde aquela segura confiança/ No
dia de amanhã?”. A anáfora aparece nos três primeiros versos, que também
são marcados pelos paralelismos semânticos, sintáticos e sonoros. As
afirmações do eu-lírico resulta, no verso final, na indagação de como
ocorre a “travessia” (esta realizada sem que o sujeito se dê conta do
trajeto e do tempo percorrido no decurso da vida, mais precisamente da
fase da juventude).
“Mutação” mostra a preocupação do sujeito lírico para com o
decorrer do tempo e a busca de respostas às suas indagações. Não se
trata apenas de questionamentos em relação às questões metafísicas. O
ponto de interrogação aparece sete vezes no texto, assinalando questões
que não apresentam respostas que satisfaçam o sujeito lírico. As tentativas
de desvendar os mistérios da vida jamais se concretizam. Os mistérios
da morte são suplantados pela “despreocupação”, mesmo que o “sabor
de tédio e de morte” habite as aspirações e sentimentos do eu-lírico, a
“travessia” é o signo que baliza os sentidos da vida e da morte.
O sonho é a imagem que direciona o curso da vida. A
despreocupação do eu-lírico emana no poema:

Alto mar

Na amurada do tempo,
Debruço-me, a sonhar.
Que importa que derive para a morte,
131
Sem cessar?
Ant onio Donizet i da Cruz R 135

Verifica-se, no poema, a indagação do eu-lírico no sentido de viver


o carpe diem, pois no sonho e no tempo presente se concretizam as
relações vitais de um eu sabedor de sua finitude. No poema, ocorre um
abrandamento do absurdo da morte. Note-se que a ela não aparece no
sentido trágico, pois no dizer do eu-lírico o sonho, no presente, é mais
importante do que qualquer outra coisa. O eu que se debruça sobre a
amurada do tempo direciona o olhar à reflexão que antecipa a serena
espera junto ao divisor invisível do tempo que separa vida e morte. Neste
ínterim, o outro lado da amurada deixa de ser uma incógnita para ser o
elo flexível entre o agora que se esvai.
No texto “Diálogo”, o tema diz respeito à questão da vida,
relacionada à problemática do ser que se questiona, em busca do sentido:

DIÁLOGO

Debruçados sobre a vida,


indagamos seus mistérios
e raramente alcançamos
suas respostas cifradas.

Ao calor do interrogar-se
nuvens ocultas esgarçam-se,
132
a luz em nós amanhece.

No texto sobressai a linguagem metafórica. A “luz” é metáfora de


conhecimento. Na primeira estrofe, o eu-lírico afirma a incapacidade de
o homem decifrar respostas para a vida e seus mistérios. Essa distância
entre o sujeito e as respostas o torna impotente perante a ação temporal
e espacial. No entanto, “respostas cifradas” ganham espaços, na segunda
estrofe, como desafios que antecedem o ato de amanhecer na luz que se
escondia além das nuvens ocultas. De tanto interrogar, o eu alcança o
conhecimento.
O poema “Alegria de viver” apresenta o canto da vida e a exaltação
do presente, na voz lírica:
136 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

Alegria de viver
1987

Amo a vida.
Fascina-me o mistério de existir.

Quero viver a magia


de cada instante,
embriagar-me de alegria.

Que importa a nuvem no horizonte,


chuva de amanhã?
133
Hoje o sol inunda o meu dia.

A consciência da brevidade da vida e do futuro incerto faz com que


o sujeito lírico valorize o momento presente. A consciência de que a
morte pode chegar a qualquer momento não é obstáculo para o sujeito
lírico viver de maneira intensa o momento presente, embriagando-se de
alegria. Assim, no texto, o eu poético faz valer a máxima horaciana do
carpe diem, que aqui é tomado como tema. A vida é para o eu-lírico um
“mistério” e só o fato de existir leva-o a sentir-se fascinado e “amante”
da vida. No último verso do poema “Alegria de viver”, o signo “sol” aponta
para a luminosidade das coisas e também do eterno renascer para a vida.
O sol é a imagem do imutável e do duradouro. Fonte de luz e vida, ele
tem o poder de regenerar e revitalizar a natureza. Pela constante renovação
cíclica dos dias e dos anos, o sol é capaz de dar vida e, ao mesmo tempo,
triunfar sobre as trevas e a morte.
O poema traz o registro do dinamismo e dos contrastes. Como
tudo que é marcado pela dinamicidade, as imagens movimentam-se,
constantemente, em um jogo de contrários para encontrarem-se na
sensibilidade do sujeito poético. Chuva e sol, hoje e amanhã são opostos
que alternam luz e sombra. Nuvem e horizonte, pontos inatingíveis que
se movem na imensidão. Esses elementos, presentes na segunda estrofe,
explicam o mistério, a magia e a alegria expressas na primeira estrofe,
onde a palavra instante sustenta a brevidade da alegria e estende-se para
equilibrar a alternância entre momentos de chuva e momentos de sol.
Observa-se que os poemas de Helena Kolody instauram momentos
de diálogo frente à transitoriedade da vida, mas é na experiência do sagrado
Ant onio Donizet i da Cruz R 137

ante a vertigem do “próprio vazio”, no dizer de Octavio Paz, é que o


homem se aceita como é: “contingência e finitude”134.
Esta afirmação do autor pode ser vista, por analogia, no tanka
intitulado “Sabedoria”, que apresenta a temática do efêmero, da brevidade
da vida, do tempo e da saudade:

Sabedoria

Tudo o tempo leva.


A própria vida não dura.
Com sabedoria,
colhe a alegria de agora
135
para a saudade futura.

A poeta descortina o tempo que passa e leva o “tudo” para o


nada. A alegria presente em outros poemas repete-se, como subtemática,
nestes versos que cantam a brevidade da vida. A alegria, armazenada na
lembrança, pode ser a energia que permitirá o longo percurso para o
futuro. Acentua-se no texto, uma questão essencial: o ser humano tem
um tempo a cumprir na existência. Por isso, a necessidade de se viver
intensamente o presente, ou seja, é necessário buscar com sabedoria “a
alegria de agora”, tendo em vista “a saudade futura”. Os versos do poema
se voltam para a temática da brevidade da vida. A imagem do tempo, que
tudo arrasta consigo, faz com que o sujeito lírico lance o olhar para o
tempo futuro. Registra-se ainda, no texto, o alto teor de “esperança”,
relacionado ao tempo presente, acentuando o carpe diem horaciano.
Os signos vida e morte fazem parte da vida do homem. Sob esta
perspectiva, a poesia de Helena Kolody tematiza a vida e a morte,
apresentando imagens que se desdobram e que realçam a condição
humana ante a finitude. Mediante as imagens dos desdobramentos do
eu e da busca do outro, a vida necessária se concretiza frente à
precariedade do instante e à certeza da morte, ou seja, o efêmero e o
eterno instauram sentidos dicotômicos perante a vida: indelével viagem
marcada por presenças e ausências.
Na poesia de Helena Kolody, a polaridade permanência/efemeridade
e as “oposições dos contrários” ficam evidentes no conjunto de sua obra
que brincam com a certeza de que morte rima com vida.
138 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

Figura 3: Claude Monet, French, 1840-1926, Water Lilies, 1906, Oil on


canvas, 34 1/2 x 36 1/2 in. (87.6 x 92.7 cm), Mr. and Mrs. Martin A.
Ryerson Collection, 1933.1157, The Art Institute of Chicago. 
Photography © The Art Institute of Chicago.
Ant onio Donizet i da Cruz R 139

3.3 Dupla face: as imagens do desdobramento do eu e o espelho

Retrato antigo
1988

Quem é essa
que me olha
de tão longe,
com olhos que foram meus?

Helena Kolody (AO, p. 35)

O tema do duplo pode expressar-se mediante os recursos


imagéticos: espelho, alteridade, retrato, sombra, reflexos136, o mito de
Narciso, personagem gêmeo ou sósia, entre outros. A princípio, este
tema se refere à existência do outro, que duplica a existência do sujeito
lírico. O tema do eu e do outro é regido por uma lógica que lhe confere
unidade: relacionado ao tema do duplo, o desdobramento do eu reflete
uma inquietude metafísica e, ao mesmo tempo, aponta para uma pro-
funda reflexão sobre a vida. A interrogação que, em um primeiro momento,
pode se delinear da maneira mais simples: “quem somos?”, porém, é
um questionamento que evolui para: “somos quem realmente cremos
ser?”, até a mais profunda e inquietante indagação: “somos?”.
De acordo com Octavio Paz, “se fôssemos como as células, nosso
único desejo seria morrer para nos duplicar”137. Dessa forma, a ideia da
duplicação, bem como a da morte, assusta o homem. Entre o programa
das células e o do homem há uma disparidade radical, porém o homem
é um aglomerado de células que nascem e morrem a cada instante.
Paradoxalmente, vivemos na alternância cíclica de vida e morte de parte
de nós mesmos. Aos poucos morremos para a grande morte. As células
estão feitas para morrer, mas sobrepujam a morte, ao duplicarem-se
buscam a imortalidade. Dessa maneira, “matamos o nosso duplo e
buscamos (inutilmente) a imortalidade em nós mesmos”138. Em relação
ao duplo, Paz certifica:
140 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

Nosso duplo é o outro, e esse outro, por ser sempre e para sempre
outro, nos nega: está além, jamais conseguimos possuí-lo de todo,
perpetuamente alheio. Ante a distância essencial do outro, abre-se uma
dupla possibilidade: a destruição desse outro que é eu mesmo (sadismo
e masoquismo) ou ir ainda mais além. Nesse além estão a liberdade do
outro e o meu reconhecimento dessa liberdade. O outro extremo do
erotismo se chama amor.139

Para o autor, a crítica do eu é essencialmente uma autocrítica. O


homem moderno se encontra “desamparado, angustiado, buscando esse
outro que é ele mesmo. E nada pode fazê-lo tornar a si, exceto o salto
mortal: o amor, a imagem, a Aparição”140.
A medula das grandes constelações da poesia kolodyana é o
problema do duplo. O tema do duplo tem sido recorrente na literatura
ocidental, aparecendo sob as mais diversas formas. Na história da
literatura uma das primeiras manifestações do duplo aparece no mito de
Anfitrião quando o deus Júpiter toma a aparência física de Anfitrião,
enquanto este estava no campo de batalha, adentra no palácio e seduz
Alcmena, esposa de Anfitrião. Na obra Anfitrião, de Plauto, tem-se a versão
conservada do mito. Já nas versões posteriores, tais como a de Molière,
Juan de Timoneda, entre outros, caracteriza-se o aspecto cômico.
Nas palavras de Otto Rank, em O duplo, a sombra, inseparável do
homem, tornou-se a primeira objetivação da alma humana, provavelmente
bem antes de o homem ter percebido sua imagem refletida na água. Foi
através da sombra e do reflexo que o homem viu pela primeira vez a sua
forma. Posteriormente, representou a sua alma e esta crença primitiva se
tornou a origem da crença na alma, sustentada pelos povos da cultura
antiga. E salienta, ainda, que o duplo é a própria personalidade (sombra,
reflexo), assegurando sobrevivência futura141.
Para Jorge Luis Borges, a definição de duplo é comum a muitos
povos. Ele é “sugerido ou estimulado pelos espelhos, as águas e os irmãos
gêmeos”. Na Alemanha denominaram-no doppelgänger; na Escócia fetch,
“porque vem buscar (fetch) os homens para levá-los à morte”. Assim,
encontrar-se consigo mesmo é, consequentemente, funesto. No tema
do duplo, a noção de encontro consigo mesmo provém da Alemanha e
Escócia. Na acepção judaica, “a aparição do duplo não era presságio de
morte próxima, mas a certeza de se ter alcançado o estado profético. [...]
Ant onio Donizet i da Cruz R 141

Na poesia de Yeats, o duplo é nosso anverso, nosso contrário, o que nos


complementa, o que não somos nem seremos”142.
O duplo desempenha um papel de destaque na literatura. Todas as
associações ao duplo – sombra, espelho, reflexo – evocam a morte.
Segundo Edgar Morin, “a literatura narcisística aprofundou, entre outros
temas antropológicos, o duplo tema de sobrevivência à morte e do temor
da morte, que provêm, um do outro, da contemplação do espelho”143. O
motivo do espelho remete ao amor e à morte. Assim, o duplo romântico
que traz a morte perdeu completamente a sua virtude primitiva,
metamorfoseou-se no símbolo do temor à morte. Dessa maneira, todos
os temas primitivos de conteúdo pré-histórico se impregnam de
melancolia, estetizando-se, uma vez que encerram, nos seus comoventes
símbolos, a marca horrível de uma morte que a consciência moderna
não conseguiu subjugar. “Daí o caráter próprio da arte, que é ópio que
não adormece, mas que abre os olhos, o corpo e o coração à realidade do
homem e do mundo”144.
Para Gilbert Durand, o espelho é parte do “processo de
desdobramento das imagens do eu, e assim símbolo do duplicado
tenebroso da consciência, como também se liga à coqueteria, e a água,
constitui, parece, o espelho originário”145. Para o autor, o reflexo na água
está associado ao complexo de Ofélia. Mirar-se é já, de algum modo,
“ofelizar-se” e participar na vida das sombras. O tema do espelho remete
para dois mitos da antiguidade clássica, e acentua de maneira notável o
poder das imagens míticas engendradas pela convergência dos esquemas
e dos arquétipos. O primeiro desses mitos é o de Narciso, o irmão das
Náiades, perseguido por Eco, companheira de Diana, e a quem estas
divindades femininas fazem padecer a metamorfose mortal do espelho.
O segundo é o de Acteão, em que se cristalizam “todos os esquemas e
símbolos dispersos da feminidade noturna e terrível”146. Este mito é
animado pelo esquema heraclitiano da água que flui ou da água cuja
profundidade, pelo seu negrume, nos escapa, e também, pelo reflexo que
duplica a imagem, tal como a sombra que redobra o corpo. Assim, a
teriomorfia é apresentada na sua forma fugaz e devorante, água profunda,
“dramatização negativa, tudo isso envolto numa atmosfera de terror e
catástrofe”147.
142 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

Para Gerárd Genette, em Figuras, o tema de Narciso constitui o


que em nossos dias Gaston Bachelard chamará de “complexo de
cultura”, em que se fundem dois motivos ambíguos: o da fuga e o do
reflexo. Essa imagem de si mesmo sobre a qual se inclina Narciso, não
lhe traz, em sua semelhança, suficiente segurança, pois em si mesmo, o
reflexo é um duplo, ou seja, ao mesmo tempo um outro e um mesmo. O
eu se confirma, mas sob as espécies do outro: a imagem especular é um
perfeito símbolo de alienação. Prisioneiro de sua imagem, Narciso fixa-
se numa imobilidade inquieta, justamente por ele saber estar à mercê do
mínimo desvio que, ao suprimir seu reflexo, do qual já não é senão uma
pálida dependência, viria a destruí-lo. Ao menos o espelho é imóvel. A
fonte de Narciso é menos segura, sempre pronta a retirar novamente, por
um imprevisível capricho, a imagem que parece oferecer148.
Segundo Augusto Estellita Lins, Narciso se encontra “lúcido quando
serenamente contempla refletida na água sua própria imagem. Apaixona-
se por ela, pela perfeição de sua beleza, ele quer se unir a ela e no gesto
precipitado afoga-se no lago dando origem a uma flor que o simboliza”149.
Para o autor,

Narciso é também a imagem do homem cósmico que surge em muitas


doutrinas e religiões, pois sendo cada indivíduo uma pequenina parcela
do todo, também é capaz de se reunir a ele no homem cósmico total.
Essa reunião pode se fazer fisicamente pela morte e dispersão do corpo
em partículas de energia que voltam ao cosmos, ou pode se realizar por
um processo mental ou psíquico ou anímico ou virtual que invade o
mundo físico.150

Assim, Lins observa a integração do homem com a “natureza-


mundo-cosmos”, representado por Narciso. Note-se que essa busca do
eu se dá por meio de uma objetividade que tende para a totalidade, ou
seja, para a reunião dos opostos, quer no âmbito da vida ou da morte.
O mito de Narciso tem uma relevância muito grande na nossa
época. Ele alude à difícil tarefa de relacionamento com o outro, pois este
é um elemento fundamental na constituição do sujeito. Para Raïssa
Cavalcanti, o mito de Narciso narra o surgimento da consciência, o seu
desenvolvimento e a ampliação no processo do conhecimento. Ele
expressa o “arquétipo” do nascimento da consciência a partir do
Ant onio Donizet i da Cruz R 143

artifício de mitificação do herói Narciso, no qual se encontram “o despertar


da consciência, o nascimento do ego, da identidade e a ampliação da
consciência e do conhecimento na busca da individuação”151.
Segundo Ana Maria Lisboa de Mello, o mito e a poesia são criações
da cultura humana que têm em comum certo uso recorrente da linguagem,
diferindo-se do profano ou prosaico. Marcas de origem arcaica e mítica
delimitam a produção poética na sua evolução até a modernidade152. A
autora assinala ainda que,

Como o mito, a poesia é revelação. O mito é uma expressão simbólica


que trata de conhecimentos essenciais ao ser humano. Refere-se à
essencialidade de sua vida, seu lugar no cosmo e suas formalizações
culturais. Se a palavra mítica revela ao homem o sentido de seu estar-
no-mundo, os mistérios que envolvem o existir, tendo na divindade o
sustentáculo do enunciado, a palavra poética provém do interior do
homem e nele tem ressonância [...].153

As articulações da linguagem no sentido de apresentar o tema do


duplo e o mito de Narciso se concretizam na poesia de Helena Kolody.
Nessa perspectiva, o poema “Espelhismo” registra a sutileza de um fazer
poético alicerçado na força da linguagem e na efetivação de um dizer que
registra imagens visuais, momentos de observação atenta de um eu em
sintonia com o mundo circundante:

Espelhismo
1988

Olhou numa poça d’água


e viu a mão estendida.

Alongou a própria destra,


num impulso de acolhida

Mas, a mão tocou em nada

Era, apenas, refletida


no espelho da água parada,
154
a sua mão estendida.
144 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

Nos versos do poema, o sujeito lírico busca sua própria imagem


na “poça d’água”, sem atingir seus objetivos. O fazer poético, elaborado
a partir do mito de Narciso, focaliza uma construção em que se privilegia
a beleza que se origina da própria imagem “narcísea”. A impossibilidade
de acolhida por parte do eu que olha a imagem da “mão estendida” gera
uma certa incapacidade de realização por parte do sujeito frente à imagem
refletida no espelho.
Essa maneira de estruturar o mito, enquanto forma e palavra,
contribui para a aproximação entre o mito e a experiência poetizada da
busca do “outro” que é “ele mesmo”, pois, conforme Paz, imaginar outros
corpos e, em seguida, ir à busca da encarnação dessas imagens num
corpo real, partindo do próprio corpo, remete à origem da cerimônia
erótica, pelo fato de o erotismo ser, também, uma busca. “De que ou de
quem? Do outro – e de nós mesmos. O outro é nosso duplo, o outro é o
fantasma inventado pelo nosso desejo”155. Consoante ao pensamento de
Paz em relação ao duplo, percebe-se que, no poema “Espelhismo”, através
da referencialidade mítica, ocorre o exercício do autoconhecimento que
se caracteriza pela interiorização, ou seja, um mergulho em si mesmo
sempre em busca do outro eu. No jogo da duplicidade do eu-lírico e das
coisas que o rodeiam, é possível projetar ausência e presença no encontro
do outro. Dessa maneira, o outro é sempre apresentado enquanto
possibilidade, mas sempre com a face velada.
Em “Espelhismo”, o eu poético cria, através do texto, uma rede de
sentidos, interligada por palavras, metáforas, símbolos, que mostram
variações de representações relacionadas ao duplo, tais como “a poça
d’água”, “a mão estendida”, “o espelho de água parada”. Essas imagens
reconduzem ao mito de Narciso, revivido na multiplicidade do espelho,
aludido no título do poema. O eu-lírico, ao desdobrar-se frente à imagem
da mão refletida na poça de água, busca o “outro” (inutilmente) num
sentido de acolhida. Nesse jogo de espelhismos e reduplicação, o ato de
reconhecer-se o mesmo e o outro converge sempre à temática da busca
do eu.
Ainda no texto “Espelhismo”, o signo água é como que “ponto de
partida e retorno”, vinculando a ideia de vida e morte. Dessa forma, em
“Espelhismo”, a água pode simbolizar a fonte da vida e da morte. Força
Ant onio Donizet i da Cruz R 145

vital fecundante, ela também “é símbolo das energias inconscientes, das


virtudes informes da alma, das motivações secretas e desconhecidas”156.
As imagens visuais, aparentemente desconexas, se fundem e
refundem num fluxo constante da linguagem. Para Antonio Manoel, em
“Espelhismo” é possível desvendar, na própria linguagem, a instauração
do drama sugerido, pois “a dilaceração do poeta rima semanticamente
com a quebra do espelho, e ambas com a dispersão da estrofe e do verso.
Por trás, a trama oculta da presença ativa da poeta que, ausente, se
presentifica nas palavras”157. Já os elementos fônicos conduzem de
imediato à musicalidade, tais como: “mão estendida”, “impulso de
acolhida” e “apenas, refletida”. Ao mesmo tempo em que a poeta articula
a linguagem de maneira lúdica, dando unidade ao verso livre, tecendo
imagens no branco do papel, sua poesia projeta novos significados à luz
do processo interativo com o leitor, ou seja, o poema é o espaço no qual
o eu poético transcende sua linguagem em busca de respostas no tocante
à problemática existencial. Mediante os desdobramentos do eu e ao falar
de si mesmo, o sujeito lírico busca o outro, que pode ser também o
leitor. Na duplicação fica a garantia de que o leitor faz parte do duplo
jogo, isto é, poesia enquanto possibilidades e transcendência poética.
Maria Inês R. França, em “Narcisismo e o duplo”158, o eu estrutura-
se na imagem concebida a partir do outro. É através da intervenção desse
outro, marcado pela duplicidade, que o eu fascinado se conduz
passivamente na trilha imaginária. Para Narciso, o movimento é envolver-
se, é estar ligado ao esplendor constituído como um outro, isto é, como
um duplo. Para a autora, o duplo tem uma consistência imaginária, cujo
fenômeno remete a uma dimensão exterior ao eu, de um funcionamento
soberano de um outro, de uma força maior do que o eu. Assim, o duplo
surge do narcisismo primário, da constante inquietação da morte fora de
nós. “Daí ser o duplo a repetição do idêntico, e provocar o inquietante
prenúncio da morte. A dimensão estranha mostra a exterioridade – eu ou
o duplo”159.
De acordo com França, na estrutura narcísica, evidencia-se o
fenômeno do duplo, do diferente, do estranho. A referência ao duplo alude
a um determinado momento em que “duas situações que seriam opostas
estão lado a lado. Não há contradição. Então, no duplo, vai se viver a
146 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

relação do idêntico, a dimensão do imaginário, através da crença de que


se está diante do igual”160.
O tema do duplo, na poesia de Kolody, constitui um recurso literário
por meio do qual a poeta desenvolve a análise reflexiva de uma de suas
grandes inquietações: o problema da identidade. Por outro lado, aparecem
elementos relacionados à duplicidade, às indagações, tais como: a
coincidência dos opostos, o oxímoro, o problema do tempo e a
interrogação da própria essência da linguagem.
No poema “Espelho”, a linguagem se apresenta enquanto arte da
estranheza e do assombro, num mundo estranho, no qual o homem,
dividido, se vê frente às situações de incertezas e questionamentos e,
sempre em busca de si mesmo:

Espelho

Por que te inclinas sobre a paisagem


Como sobre o cristal de um espelho?

Tudo sorri em cores vivas,


Quando teus olhos comovidos resplandecem
Desse íntimo calor da ventura e do sonho.

Quando sofres,
A sombra de tua mágoa empana o próprio sol.

A paisagem és tu,
Pois teu olhar somente alcança a perceber
161
O que reflete a luz que emana do teu ser.

Na primeira estrofe (dístico) ocorre a indagação do eu-lírico, com


o intuito de expor os motivos que levam o sujeito a dar novo rumo a seus
versos. O questionamento é feito para o outro e por extensão a si mesmo:
aquele que se inclina sobre a paisagem, tal como o “cristal de um espelho”.
Esses versos reconduzem ao mito de Narciso, no gesto de debruçar-se
“sobre a paisagem”, a atitude reflexiva ocorre como busca de significado
no processo de individuação, pois o ato de “inclinar” frente ao “espelho”
está ligado à diferenciação do eu em relação ao outro. Nesse sentido, o
olhar que busca a si mesmo funciona como uma metáfora, uma vez que
a vida do homem está ligada a um contínuo ato de reflexão.
Ant onio Donizet i da Cruz R 147

Na segunda estrofe, as imagens das “cores vivas”, dos “olhos”


remetem à contemplação de um eu que observa a atitude do outro e as
correspondências com a natureza, num jogo de luz e sombra. Evidencia-
se a emanação telúrica das “cores vivas”, estas refletem o poder das
palavras do texto, com imagens marcadas pela introspecção do eu em
relação ao mundo circundante. Percebe-se, nos versos, uma interação do
eu com o outro. Também a “oposição de contrários” se faz presente,
mas esta se desfaz no momento em que o outro vive plenamente a vida
quando “tudo sorri em cores vivas”, pois os “olhos” resplandecem ao
“calor da ventura e do sonho”.
Na terceira estrofe, a imagem da sombra funciona como o duplo
do eu que se desdobra em imagens e na “paisagem” que representa o
outro. Na última estrofe, o eu-lírico declara que o “outro” é a “paisagem”
em que ele se declinava tal como “o cristal de um espelho”. Essa atitude
“artística narcisista”, esse “desdobrar-se sobre si mesmo” do fazer
poético, que encontra no leimotiv do espelho, leva a uma aproximação
com o mito de Narciso, apontando para um fazer poético enquanto
construção autoconsciente que implica uma revelação do ser.
O mito de Narciso retorna de forma expressiva no seguinte poema:

Poço

Debruço-me à beira de mim


e sinto a vertigem do inviolável,
guardando o espelho profundo
162
que dorme no fundo.

O poema reconduz ao mito de Narciso, redivivo na superfície do


espelho, levando avante o jogo especular no qual o eu-lírico afirma sentir
a “vertigem do inviolável”, ao se debruçar “à beira de si mesmo”, tal
como Narciso frente ao espelho de água. Através do exercício efetivo do
fazer poético, as imagens dos desdobramentos do eu encontram no tema
especular um dos seus símbolos mais recorrentes. Nesta perspectiva, a
literatura é um jogo combinatório, comprovado pela linguagem do poema,
como nos dois últimos versos, em que o poeta joga com as palavras:
“espelho profundo” versus “dorme no fundo”. Esta construção
148 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

autoconsciente implica em uma visão de mundo que remete à


introspecção.
No imaginário, o signo “poço”, título do poema, simboliza a fonte
da vida, o segredo e o conhecimento. No texto, ocorre um desdobramento
do eu, quando o sujeito lírico debruça-se sobre o “espelho profundo”
(metáfora da subjetividade), vê seu duplo, ou seja, o seu “eu profundo”.
O espelho reflete o outro que é ele mesmo. Para Bachelard, a água tem
por objetivo “naturalizar a nossa imagem”163. Um poeta que inicia pelo
“espelho” precisa chegar à “água da fonte” se quiser transmitir “uma
experiência completa”. Narciso diante das águas tem a revelação de sua
identidade e de sua dualidade. Somente junto à fonte secreta, no mais
recôndito dos bosques, ele sente que é “naturalmente duplo; estende os
braços, mergulha as mãos na direção de sua própria imagem, fala à sua
própria voz [...].”164. Já o narcisismo, no dizer do filósofo, nem sempre é
neurotizante. Tem também um papel positivo na obra estética,
especialmente na obra literária. “A sublimação nem sempre é a negação
de um desejo; nem sempre ela se apresenta como uma sublimação con-
tra os instintos. Pode ser uma sublimação por um ideal”165.
Os temas do duplo e da transitoriedade da vida estão presentes no
seguinte poema:

Reflexo

Existe a figura ao sol.

E há seu reflexo n’ água:


cabelos de longos limos flutuantes,
rosto de linhas imprecisas
arrastadas pela correnteza,
nítido pranto de seixos
166
na face difusa.
Ant onio Donizet i da Cruz R 149

Figura 4: Duplicidade. Fotografia. 10x15. Antonio Donizeti da Cruz.


Fonte: CRUZ (2001, p. 93)

A imagem da figura ao sol duplifica-se no “espelho da água”. Assim,


ela torna-se força mágica, ou seja, pólo de uma mesma realidade em
dinâmica mutação. No reflexo, o duplo se localiza nas formas naturais
remetendo sempre para a constituição do outro. Mais do que nomear, o
sujeito poético articula a linguagem sugerindo indícios flutuantes do texto.
Na primeira estrofe, a afirmação é categórica: a existência da figura ao
sol. Na segunda estrofe, há uma reiteração por parte do eu-lírico: a figura
(imagem) está refletida na água, tal como Narciso no mito grego. A
imagem duplicada do rosto disforme, com suas “linhas imprecisas”,
sendo arrastada pelas correntezas direciona para o caráter efêmero da
vida, com suas mortes e renascimentos. No texto ocorre também um
redobramento da imagem da “figura ao sol”, a qual emerge do sujeito
poético e (re)cria um mundo imaginário, um universo de imagens
conotativas, capaz de desvendar as coisas mais ocultas, indizíveis.
150 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

O olhar e a poça d’água são essenciais ao aparecimento do mito de


Narciso que aparece de forma expressiva nos versos do poema abaixo,
em que o eu-lírico declara:

Seu olhar profundo


olha na poça d’água
167
e enxerga estrelas no fundo.

No texto, o sujeito poético leva avante o jogo especular. A água da


poça tem o poder e a magia da duplicação. A expressão “poça d’água”
pode significar a fonte da vida, o segredo e o conhecimento. Essa imagem
pode representar o homem que atingiu o conhecimento. Nos versos do
poema, o sujeito poético constrói uma rede de imagens especulares, com
seus jogos de duplicidade, configurando, assim, a participação de um eu
que está atento à poça d’água. O signo olhar destaca-se no poema. É um
olhar que vê mais longe, capaz de captar além da materialidade das coisas,
ou seja, consegue desvendar as coisas mais essenciais. Para Lins, “o
olho humano é o espelho da natureza”. É, igualmente, um metassigno
da natureza, “o signo que representa a si mesmo: o olho que se
reflete no espelho, o jogo de espelhos que se refletem repetindo-se, o
olho que reflete a pessoa refletida no lago: o mito de Jacinto multiplicado
em todas as telas e prismas do universo sensível”168.
Nesse breve poema, verso e reverso da imagem disputam o brilho
efêmero da íris refletida no fundo da poça. A estrela narcísica, menina-
dos-olhos, lembra a luz, que brilha na noite da vida e, que se renova no
outro lado da imagem não refletida.
O espelho de palavras é imagem que se destaca no seguinte poema
inédito. O eu-lírico, tal como Narciso, se vê frente à superfície espelhada,
não das águas, mas das palavras:

Miro-me no espelho mágico


de suas palavras
169
e me vejo moça e linda...

O ato de olhar situa o eu-lírico no centro das lembranças, pois as


palavras conseguem dar forma de vida nessa luta contra o tempo. A magia
das palavras movimenta o texto no sentido do olhar. O ato de se ver no
Ant onio Donizet i da Cruz R 151

espelho de palavras, faz com que o eu-lírico sinta a juventude e a beleza


renascidas. Nesse ato de desdobramento frente ao “espelho de palavras”,
o eu-lírico se realiza através da voz do outro.
A voz do outro desperta a vitalidade adormecida pela passagem do
tempo. Os dois “eus”, o presente e o da linda moça, bailam no espectro
do espelho mágico das palavras. Sons e imagens giram no calidoscópio
que separa a moça e a mulher madura, ambas encontram-se no espaço
atemporal e ilimitado da saudade de si mesmas.
O tema do duplo rivaliza com a busca da identidade de forma latente
no seguinte texto:

ESPELHOAUSENTE

Existia no espelho.

Súbito,
buscando sua imagem,
não mais se encontrou
170
no espaço vazio.

O poema se organiza em torno da imagem do espelho e do sujeito


lírico que busca sua própria imagem e não a encontra. A primeira estrofe
(monóstica), “Existia no espelho”, aponta para a imagem do duplo, da
imagem do eu refletida no espelho. A dicotomia do ser e não-ser está
presente no poema, o qual se nutre no imaginário enquanto fonte de
duplicação de um eu que se situa frente ao espaço vazio, ou seja, entre
presença e ausência, a instauração de sentidos que implicam
desdobramentos. Os versos são livres, cadenciados por um ritmo que
decorre da sucessão dos grupos de força valorizados pela entonação,
pela maior ou menor rapidez na enunciação. Kolody faz da linguagem
um momento de busca da palavra mais adequada para transmitir seus
pensamentos e mensagens, encontrando assim, novas formas ao seu
ato criador.
O poema “Espelho ausente”, com seus jogos de palavras e imagens
especulares, converge de imediato ao tema do espelho. Se a primeira
estrofe refere-se à questão do ser (presença), a segunda estrofe aponta
para a problemática do não-ser, ou seja, do “eu” que procura sua imagem
152 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

no espelho e não a encontra (ausência). Assim, em “Espelho ausente”,


percebe-se que o sujeito lírico “luta” contra a passagem temporal, entre
o ser e não-ser, presença e ausência, acentuada pela duplicidade.
A imagem do espelho simboliza o espaço mágico e a reciprocidade
das consciências. De acordo com Chevalier e Gheerbrant, o espelho é
“símbolo da sabedoria e do conhecimento”, e também “da manifestação
que reflete a inteligência criativa”. A palavra espelho também pode
significar “a pureza perfeita da alma, do espírito sem nódoa, da reflexão
de si na consciência”171. Já a função do espelho, no dizer dos autores, não
é somente a de “refletir uma imagem”. Ao se tornar um “espelho perfeito”,
a alma “participa da imagem e, através dessa participação, passa por
uma transformação. Existe, portanto, uma configuração entre o sujeito
contemplado e o espelho que o contempla. A alma termina por participar
da própria beleza à qual ela se abre”172.
O escritor Umberto Eco define o espelho como qualquer superfície
regular capaz de refletir a radiação luminosa incidente. O espelho,
enquanto fenômeno-limiar, demarca as fronteiras entre o simbólico e o
imaginário. Para o autor, o fato de a imagem especular ser, entre os casos
de duplicata, o mais notório, e exibir características de unicidade, sem
dúvida explica a razão pela qual os espelhos têm inspirado tanta literatura.
Esta virtual duplicação dos estímulos – que às vezes funciona como se
existisse uma duplicação e do meu corpo objeto, e do meu corpo sujeito,
que se desdobra e se coloca diante de si mesmo – e, este roubo de
imagem, esta atenção contínua de considerar-se um outro, tudo faz da
experiência especular uma experiência absolutamente única, no limiar
entre percepção e significação. O espelho é prótese. Do espelho não surge
registro ou ícone que não seja um outro espelho. No mundo dos signos,
o espelho transforma-se no fantasma de si mesmo, caricatura, escárnio,
lembrança173.
No poema “Presença”, substancial é a revelação do poeta frente a
seu duplo: “seu rosto de palavras”. O título remete a um jogo paradoxal,
pois, na ausência da infinitude do poeta, o homem mortal olha seu rosto
no espelho, que, embora quebrado, guardará eternamente sua obra em
cada palavra gravada:
Ant onio Donizet i da Cruz R 153

PRESENÇA

O poeta ausentou-se.

Deixou seu rosto de palavras


inteiro
multiplicado
174
no espelho quebrado.

Nos versos, além da temática do duplo enquanto desdobramento


do eu, verifica-se também a temática da solidão e do fazer poético, através
do qual o poeta-personagem deixa em cada poema uma parte de si como
fragmento de um espelho. O signo espelho pode ser a metáfora do
eu, ou seja, da consciência do sujeito lírico. O título do poema
contrasta, já no primeiro verso, com a ausência do poeta. São versos que
se fragmentam de forma proposital. Mesmo “ausente”, o poeta deixa
“seu rosto de palavras” (metáfora de poema) inteiro que se multiplica
nos fragmentos do espelho.
Os versos estão dispostos na folha em branco de forma
fragmentada, tal como o “espelho quebrado”. Percebe-se também que
os versos são marcados por uma organização rítmica, em que o eu poético
utiliza-se do recurso de espacialização textual, dando unidade ao texto e,
ao mesmo tempo, dinamizando o material verbal em versos curtos, que,
se opondo aos versos longos, estabelecem um perfeito equilíbrio rítmico
ao poema. Já a palavra espelho, no final da estrofe, é marcada pela
separação do determinado “espelho” e do epíteto “quebrado”.
Nota-se que o poema “Presença” é marcado por dois momentos
distintos. O primeiro pela ausência do poeta no tempo. O segundo pela
multiplicação de “seu rosto de palavras” multiplicado no “espelho
quebrado”. É a relativização do tempo, o “grande tempo da memória”,
em que o tempo finito e o absoluto se cruzam numa rede de sentidos,
pois o caráter pessoal do “rosto” que se multiplica no “espelho quebrado”
dá um sentido próprio de “quase permanência”, ilusório, ou seja, é capaz
de deixar marcas no tempo e espaço. Dessa maneira, a insistência do
sujeito na questão da multiplicidade das formas tal como o espelho
direciona para o tempo da memória e reconduz à necessidade de se notar
as “quebras” da percepção temporal, em que o tempo presente, pessoal,
154 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

histórico, pode ser substituído pelo tempo absoluto. Na multiplicidade


temporal, o poeta perpetua o tempo, cuja contínua imobilidade,
relativização e fluidez remetem ao “rio da memória”, feito de
esquecimentos e lembranças. Assim, nesse poema, acentuam-se os
reflexos e as multiplicações do rosto nos fragmentos do espelho quebrado.
Em “Presença”, a poeta tematiza a literatura em si mesma, e
transforma sua arte poética em reflexão. Ocorre, assim, um
desdobramento da linguagem que passa a se contemplar deparando-se
com seu duplo: “espelho e ameaça”. Voltada à própria imagem, a
linguagem simula um procedimento arquetípico de Narciso.
No poema, o eu poético projeta-se como um “operador de enigma”,
pois converte a linguagem do poema em poder, em ludicidade, pois através
do ato de nomear as coisas, poeta e leitor, parceiros de um mesmo jogo,
aproximam-se consoante “o grau de absorção da/na linguagem” 175, no
dizer de Barbosa. Ainda para o autor, o poeta moderno é aquele que sabe
o que há de inconstante na circunstância de “encantamento de seu texto”,
e é o caso do poema moderno, “entre leitor e poeta estabelece-se a parceria
difícil de quem joga o mesmo jogo”176.
Em “Escuros caminhos”, a linguagem adquire o tom de
interrogação, em que o eu-lírico declara:

Escuros caminhos

Quem chorava em meu sonho?


Eu ia, deslembrada,
pelos caminhos sem nexo
no escuro sono,
quando alguém soluçou.
Onde, nas algas profundas,
se enredava essa dor?
(Seu pranto doía no mundo.)
Quem soluçava em meu sonho,
177
tão perto que me acordou?

Expresso numa linguagem aparentemente simples, mas


estritamente metafórica, esse poema exemplifica o lirismo kolodyano. O
conjunto de versos revela uma perfeita identificação com as características
Ant onio Donizet i da Cruz R 155

do modernismo brasileiro, destacando-se a aproximação com a linguagem


da prosa, o abandono de regras e modelos preestabelecidos, abrindo,
assim, múltiplas possibilidades internas da linguagem, como a
organização inédita de imagens e associações criativas, constada em
versos polimétricos, cuja construção poética possui uma marca
predominantemente acústica.
Os desdobramentos do eu, de maneira acentuada, aparecem no
texto através da unidade e compacidade dos versos. O sujeito poético
constrói o espaço do poema com sílabas, palavras e frases, mas é a frase
a unidade superior, a grande “energizadora” do poema. Pode-se observar
que, mesmo nos versos livres e aparentemente prosaicos do poema
“Escuros caminhos”, a predominância rítmica faz com que se possa
considerá-lo poesia no mais pleno sentido da palavra. A construção poética
desse texto é determinada pelo ritmo fluente, apressado e dinâmico.
O verso introdutório lança uma indagação, a mesma repete-se no
verso conclusivo, quando acrescenta elementos novos ao poema: “Quem
soluçava em meu sonho, tão perto que me acordou?” Ambas deixam a
formulação da resposta para o leitor ou para o próximo sonho. Essa
abertura caracteriza a mediação entre questionar e refletir em um
paradigma no qual o outro encontra espaço para responder.
O jogo de lançar questionamentos segue em “Hermetismo”, o qual
revela a preocupação do sujeito lírico em busca de respostas às suas
indagações. Os versos apontam para o conflito existencial do ser humano
frente à realidade da vida. As imagens do poema remetem para o tema
especular:

HERMETISMO

Círculo fechado em si mesmo,


vive de seu próprio sigilo.
Em sua secreta alquimia,
não cessa jamais de crescer.

Quais serão as chaves mágicas


da sutil encantação?
156 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

Desafio de esfinge interrogante.


Escuro labirinto metafórico.
Espelhos refletindo outros espelhos.
178
Em máscaras de imagens, os enigmas.

O ato de indagar vai além da pontuação e explicitamente irrompe


no desafio da esfinge interrogante, permanece implícito nos demais versos
da última estrofe e emerge através da palavra final: enigmas.
No poema, a linguagem assume uma conotação relacionada à
noção de vazio, ausência e solidão. Pode-se perceber a circularidade do
texto, ou seja, o fechamento do texto que remete ao título, que, por sua
vez, se volta à arte poética. O título “Hermetismo” sugere uma relação
com o vocábulo Hermes, deus grego, que na mitologia era o inventor de
todas as artes, ou seja, “o deus do hermetismo e da hermenêutica, do
mistério e da arte de decifrá-lo”179. Hermes interpretava a mensagem
cifrada dos deuses para os homens. No texto, a imagem do círculo
reconduz ao símbolo do tempo. Desde os tempos mais remotos, o círculo
tem servido como indicador da perfeição, da totalização. O círculo é signo
de “unidade de princípio”. Ele pode simbolizar o mundo e, em um outro
nível de significação, “o próprio céu torna-se símbolo, o símbolo do
mundo espiritual, invisível e transcendente. Mais diretamente, porém, o
círculo simboliza o céu cósmico, de maneira especial em suas relações
com a terra”180.
O primeiro verso do poema – “Círculo fechado em si mesmo” –
remete à figura da serpente Ouroboros, que morde a própria cauda e
simboliza um ciclo de evolução encerrado nela mesmo. Esse símbolo
contém as ideias de movimento, de continuidade, de eterno retorno. Ao
desenhar uma forma de círculo, a serpente impede a evolução linear e
marca uma transformação de tal natureza que parece emergir para o nível
de ser superior ou espiritualizado, simbolizado pelo círculo. Ouroboros
simboliza o eterno retorno, “o círculo indefinido dos renascimentos, a
repetição contínua, que trai a predominância de um fundamental impulso
de morte”181.
Em “Hermetismo”, o sujeito lírico dá testemunho das incertezas e
das desordens do mundo, de um “mundo-labirinto”. Verifica-se, nos
versos, o conflito interior do sujeito lírico, dividido entre os mistérios do
ser. A sintaxe simbólica anuncia o desejo de descobrir os segredos ocultos,
Ant onio Donizet i da Cruz R 157

mas o eu sente-se incapacitado de desvendar os “enigmas”, pois, vivendo


de seu próprio sigilo, interroga-se sobre “as chaves mágicas”. Uma das
imagens que se destacam no poema é a do espelho, símbolo da
manifestação que refrata a inteligência criadora. Os versos do poema
apresentam imagens reveladoras da tendência de supremacia do duplo
em relação à fragilidade do eu. Já as imagens do “círculo”, das “chaves”,
da “esfinge”, do “labirinto”, dos “espelhos” e das “máscaras” são
acompanhadas de epítetos, que apontam para as significações
metafóricas que remetem ao vazio da espera.
Na poesia kolodyana, observa se uma luta constante entre realidade
e ilusão, entre a experiência concreta do real e a realidade que a imaginação
constrói e que se diferencia da vida corrente. Em Kolody, a experiência
poética se constitui em um exercício fundamental de vida, pois através
da linguagem, tanto o poeta quanto o leitor partilham da interação da
arte poética. Enquanto sinal de revelação, a poesia em geral, tem o poder
de despertar o homem para os segredos da vida.
As imagens e o tema do duplo, na poesia kolodyana, podem ser
vistos como dois pólos de uma única realidade. Eles detêm o poder
mágico, justamente por representarem um aspecto latente do tempo
reencontrado. Para Isabelle Tiret, é o duplo “ele-mesmo” que se presentifica
no reflexo da água ou do espelho, isto é, a magia universal do espelho
não é outra que a do duplo. No reflexo, o duplo se localiza nas formas
naturais e impalpáveis que constituem o outro. Ou dito de outra maneira,
o outro sempre nos persegue, manifesta a evidente exterioridade do duplo
no mesmo tempo que sua cotidiana e permanente presença182.
A capacidade criadora de Helena Kolody em dar sentido às imagens
através dos desdobramentos do eu, e consequentemente, a toda a sua
construção lírica, em que a própria indagação traz a marca de uma busca
poética, imaginativa. Tal como Narciso busca a fonte, o poeta se debruça
sobre o poema, espelho de palavras, capaz de projetar e espelhar as
múltiplas facetas do eu.
O recurso do mito de Narciso para alicerçar um poema e, ao mesmo
tempo, dar consistência a um elemento imaginário totalmente inusitado,
pode ser visível nos poemas de Helena Kolody. A criatividade da poeta
está, também, na tentativa de encontrar um suporte imagético ao recorrer
à mitologia greco-latina, por exemplo, quando trata do mito de Narciso.
158 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

O tema do duplo ou o desdobramento de eu aparece sob as mais diversas


formas na poesia kolodyana vestido miticamente de Narciso. Assim,
poeticamente, cada verso reflete a imagem do eu poético na amplidão do
espelho, no reflexo, na sombra e entre outras maneiras de duplicação
que só o universo poético possibilita.

3.4 A viagem em versos: uma poética da travessia

Para o poeta moderno a viagem não significa somente uma


conquista cumulativa de espaços inusitados, mas “a criação de um espaço
em que seja possível reduzir a multiplicidade individual da linguagem da
poesia aos parâmetros homogêneos da linguagem do poema”183. João
Alexandre Barbosa lembra que viagem é linguagem e destaca ainda que o
poeta moderno é sabedor de sua condição de iludido, pois “a procura da
consciência nostálgica da eternidade” faz com que ele se lance na busca
da conquista do intemporal, porém se vê frente ao transitório, ao fugidio
e ao contingente. Ele se imagina intérprete do Homem, e não dos homens,
pelo cultivo de uma outra ilusão: a da onipresença.
Mas, se o ser humano é um exilado no mundo, ele é também um
ser que está em viagem, de passagem. O motivo da viagem, repetido
obsessivamente na obra kolodyana, aponta, de imediato, para uma linha
da literatura ocidental que remete à Odisséia de Homero, passa pelas
aventuras de Dom Quixote, pelas literaturas de viagem e por tantas outras
que tratam desta temática. A viagem na obra de Kolody tem o sentido de
travessia para dentro de si mesmo, em que o eu-lírico mergulha em busca
do eu totalizante. Na circularidade do tempo e do espaço, o sujeito poético
faz da viagem convite à fuga, ilusão de paz, busca de sentido vital e
descobertas. Através das palavras, realiza-se uma viagem em que os
espaços vazios são preenchidos pelas palavras e sentidos, pois a solidão
do eu, na travessia, se presentifica num mundo que se caracteriza pela
ruptura.
A palavra “viajante” é termo que aparece com frequência na poesia
kolodyana. Por terra, mar e ar, o viajante concretiza seu estar no mundo
e faz do ato de viajar uma potência criadora de descobertas, desvendando
novos espaços intransitáveis, tal como nos versos do poema “Viagem
Ant onio Donizet i da Cruz R 159

infinita”, em que o eu-lírico expressa a condição do homem peregrino


que está constantemente em viagem:

Viagem infinita
18/4/90

Estou sempre em viagem.

O mundo é a paisagem
que me atinge
184
de passagem.

São versos marcados pela simplicidade da linguagem que revela a


condição de um eu-lírico em viagem, ou seja, um observador atento ao
mundo circundante. Na primeira estrofe, a afirmação do sujeito lírico é
categórica e revela a consciência de um eu que realiza uma viagem em
constante transmutação, em mudança. A segunda estrofe alude à
observação atenta da natureza com seus signos vitais, quer dizer, “o
mundo” projeta paisagens tênues e evanescentes, que atingem o sujeito
lírico que se encontra “de passagem”. O “estar em viagem” comprova a
condição itinerante do ser humano. Evidencia-se a confluência do “mundo
externo”, ou seja, o mundo equivale a paisagem que atinge o eu-lírico
nas circunstâncias da trajetória. O mundo é a paisagem que o eu contempla.
O transcurso da viagem apresenta traços da imanência através das
palavras “me atinge de passagem” que podem ocorrer além do itinerário
planejado.
A viagem, na poesia kolodyana, aponta para a busca e para a
redescoberta de um centro espiritual. A viagem também simboliza a busca
do plano transcendente. O mundo apresenta-se como uma morada
transitória dos homens, pois ele é só uma paisagem que atinge o sujeito
lírico de passagem.
As rimas, na poesia de Kolody, são recursos fundamentais que
suscitam inesperadas alianças de termos, de sentido. Não se trata apenas
da sonoridade, musicalidade, mas o que está em jogo é a estrita relação
entre som e sentido.
O poeta, através do ato de nomear, de poetizar o mundo e de dar
sentido às coisas, faz da linguagem uma viagem em versos. Mediante a
160 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

atividade criadora, o poeta, enquanto viajante no e do mundo, reafirma


sua condição de exilado, tal como no texto:

vôo cego

Em vôo cego,
singro o nevoeiro.
Onde o radar que me guie?

Perco-me em labirintos interiores.


Que mistérios defendem
tantas portas seladas?
185
Quem me cifrou em enigma?

Esse poema indica um momento de singular aflição, de uma viagem


que não tem ponto de partida, nem destino determinado. O desejo de
segurança, no percurso incerto, é expresso no verso: Onde o radar que
me guie?
A imagem da viagem por um labirinto interior sobressai no texto.
Há todo um questionamento do eu-lírico em relação à sua condição de
viajante que não tem um rumo certo de trajetória. Apesar de encontrar-se
perdido, o “viajante” segue através do nevoeiro.
A ausência de luz é marcada pela expressão “vôo cego”. Tal
imagem, no primeiro verso, já acentua a condição do eu que se diz
desorientado, por não ter um radar que o guie. Os pontos de interrogação
no final de cada estrofe reforçam ainda mais a condição indefinida do
sujeito lírico que busca respostas diante de portas lacradas, mas se detém
por considerar-se a personificação de um segredo: “Quem me cifrou em
enigmas?”.
“Navegante”, com seus versos livres, é um texto no qual o tema da
viagem relacionado ao mundo da palavra escrita fica evidente:

NAVEGANTE

Navegou
no veleiro dos livros.
Ant onio Donizet i da Cruz R 161

Desembarcou
e conferiu.

E o mundo que viu


186
não era o que imaginou.

Ao lastrear o mundo da linguagem, o eu-lírico confessa toda sua


insatisfação frente à realidade. Através do sonho e da viagem opera-se o
exercício efetivo de descobertas ao mundo encantado da linguagem
escrita. A ação de navegar “no veleiro dos livros” direciona o sentido do
texto para uma “viagem figurada”. O “livro” como veículo para a viagem
de sonhos é a imagem que se destaca no poema. Em muitas tradições de
vários povos, o livro simboliza o “universo”, ou seja, “se o universo é um
livro, é que o livro é Revelação e, portanto, por extensão, a
manifestação”187. Na última estrofe, o eu poético constata que o mundo
presenciado, real, ficou muito aquém do idealizado que emergia na fan-
tasia da leitura.
O poema “Infinito presente” apresenta imagens relacionadas à
fugacidade do tempo. O eu-lírico afirma sua condição de viajante:

INFINITO PRESENTE

No movimento veloz
de nossa viagem,
embala-nos a ilusão
da fuga do tempo.

Poeira esparsa no vento,


apenas passamos nós.
O tempo é mar que se alarga
188
num infinito presente.

No texto, as imagens fugidias do “vento” e do “tempo” convergem


para a situação transitória do homem, condição essa representada no
poema pelo sujeito plural “nós”. A imagem da viagem é relacionada à
ilusão e à fuga temporal. O sujeito lírico, plural, se diz embalado pelo
“movimento veloz”, que, por sua vez, engloba todos. O sujeito “nós” é
comparado à poeira esparsa levada ao vento. Já o tempo é imagem que
se firma na projeção de um “infinito presente”. Nos versos do poema,
162 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

percebe-se a trajetória de um eu que se depara frente ao efêmero e ao


eterno. Ante o vazio e a finitude, resta a imersão no mar (metáfora de
tempo) da vida, ou seja, o sujeito lírico se encontra mergulhado na viagem
temporal, pois o tempo é o signo que dá forma à sensação de ilusão e
fugacidade. O eu-lírico define o tempo como mar “que se alarga num
infinito presente”. A infinitude que a poeta imprime ao “presente” amplia
a significação e redimensiona a efemeridade dos “momentos” que
compõem a intangível linha do tempo.
Tal como o vento e o mar que estão sempre em movimento, o
sujeito se encontra em permanente viagem. Os signos viagem, tempo,
vento e mar imprimem ao texto um caráter dinâmico e não-permanente,
pois eles remetem à temática da transitoriedade da vida. Semelhante ao
mar, que muda de forma, cores e contornos, o tempo deixa suas marcas
em todo aquele que navega através dele. O desafio é o leme que nos
permite atravessar o “mar que se alarga” e, assim, faz a margem ficar
cada vez mais distante.
O poema dístico “sempre madrugada”, com suas mínimas
proporções, é plenamente inundado pela luz das estrelas. O prenúncio
da longa madrugada que antecede o nascer do astro-rei é acentuado pelo
advérbio “sempre”, o que determina a infinitude de um período entre a
escuridão e a luz do dia. O período de trevas da madrugada é atenuado
pela determinação na busca do sol. A elipse entre as horas do pôr do sol
e do início da madrugada deixa um vazio que será preenchido na ânsia
pelo tempo da luz. O eu-lírico declara:

sempre madrugada

Para quem viaja ao encontro do sol,


189
é sempre madrugada.
Ant onio Donizet i da Cruz R 163

Figura 5: Círculos & Círculos. Pastel oleoso sobre tela (dimensão: 90 cm


x 60 cm. – 1988), de Antonio Donizeti da Cruz – [Premiado no Concurso
Internacional de Poesia e Desenho “Lília A. Pereira da Silva”, Itapira –
SP). Acervo de Helena Kolody (Doação à Poeta), Curitiba, 2001.
Fonte: CRUZ (2010, p. 13)

Os versos apontam para a temática da realização humana, pois o


homem está sempre em “viagem”, em busca de um “sol” que o realize,
mas não o alcança. O poema dístico revela a tensão de uma busca
necessária e, ao mesmo tempo, as imagens fundadoras de sentidos
convergem para a relação plena do eu/cosmo. Nos versos do poema, a
viagem tem a conotação de busca, pois “viajar ao encontro do sol” é se
lançar à procura de luz, de vida e do plano transcendente, já que para
muitos povos o sol simboliza a manifestação divina. A afirmativa “sempre
madrugada” fica no plano da promessa e expectativa de realização humana
frente ao dia e ao sol que não chegam e que não são alcançados.
Em “Sempre em viagem”, o sujeito lírico afirma sua condição
itinerante, que nem se percebe em viagem:
164 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

SEMPRE EM VIAGEM

Rodopiando com a Terra,


girando em torno do Sol,
viajamos velozmente
pela Via Láctea.

(...tão minúsculos
que nem percebemos
190
esse estar sempre em viagem.).

A viagem contínua é tema central do poema. Registra-se, nos


versos, a constatação da pequenez do homem frente à grandiosidade do
cosmos, representado pela Via Láctea.
A viagem também é tema do haicai intitulado “Depois”. O momento
presente inquieta o eu-lírico que sabe de sua situação enquanto “viajante
das galáxias”, ao afirmar:

Depois

Será sempre agora.


Viajarei pelas galáxias
191
universo afora.

A temática da transitoriedade do ser se faz presente nos versos do


poema. A inserção na temporalidade, cuja afirmação do eu-lírico é reiterada
pelo sintagma “sempre agora”, revela uma escrita em que o regime
dialético se dá na aceitação do fluir temporal e no reconhecimento do
processo permanente de transformação vital. Os versos do poema indicam
que o espaço terrestre não basta para o “viajante”; esse precisa deslocar-
se pelo universo “afora” para transpor o “agora”.
O haicai “No mundo da lua” acentua o tom afirmativo no que se
refere à combinação e ao dinamismo da linguagem. O eu-lírico declara
sua condição de caminhante e sonhador:
Ant onio Donizet i da Cruz R 165

No mundo da lua

Não ando na rua.


Ando no mundo da lua,
192
falando às estrelas.

São versos que mostram a imaginação do sujeito poético, capaz


de articular a linguagem de maneira lúdica. Há, nos versos, o afastamento
da realidade cotidiana, através da negação de andar à rua. O eu-lírico
afirma divagar no mundo da lua e conclui revelando seus interlocutores:
as estrelas. O verbo no gerúndio dá uma ideia de movimento aos versos.
Nota-se que o “andar no mundo da lua” tem sentido figurado, de sonhar,
de desligar-se da realidade imediata.
“Jornada” é mais um haicai voltado para a temática do tempo, da
viagem que aponta para a vida e para a morte. O poema, com seu tom
lúdico e miniatural, expressa todo um pensamento elaborado:

Jornada

Tão longa a jornada


E a gente cai, de repente,
193
No abismo do nada.

No primeiro verso do poema, o tempo aparece representado por


uma conotação metafórica, pois a palavra “longa” remete à duração tem-
poral da jornada. Em contrapartida, o sintagma “de repente” contrasta
com o primeiro segmento do poema. Os versos “e a gente cai, de repente/
no abismo do nada” denunciam que a vida, sem consulta prévia, prepara
para todos, o desfecho. O verbo cair aponta para a condição da
transitoriedade humana. No dizer de Morin, “o homem traz consigo o
mistério da vida, a qual por sua vez traz consigo os mistérios do
mundo”194.
No haicai “Desafio”, o sujeito lírico declara que os obstáculos que
impedem a passagem podem servir de estímulo para novas buscas:
166 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

Desafio

A via bloqueada
instiga o teimoso viajante
195
a abrir nova estrada.

Nos versos, a vida torna-se personagem da odisséia da aventura de


construir novas perspectivas. A estrada é símbolo de viagem e
transitoriedade do ser que está sempre em busca de realizações.
A perfeita integração do “eu-natureza-cosmo” é sugestiva nos
versos do poema:

Identificação

Eu me diluí na alma imprecisa das coisas.


Rolei com a Terra pela órbita do infinito,
Jorrei das nuvens com a torrente das chuvas
E percorri o espaço no sopro do vento;
Marulhei na corrente inquietadora dos rios,
Penetrei a mudez milionária das montanhas;
Desci ao vácuo silencioso dos abismos;
Circulei na seiva das plantas,
Ardi no olhar das feras,
Palpitei nas asas das pombas;
Fui sublime n’alma do homem bom
E desprezível no coração do mesquinho;
Inebriei-me da alegria do venturoso;
E deslizei dolorosamente na lágrima do infeliz.

Nada encontrei mais doloroso,


Mais eloquente,
Mais grandioso
Do que a tragédia cotidiana
196
Escrita em cada vida humana.

As imagens do desdobramento do eu aparecem relacionadas ao


tema da viagem e há toda uma integração do eu com os elementos da
natureza. As duas estrofes do poema apontam para o tema da viagem. A
primeira indica a trajetória e procura de um eu que realiza uma “viagem”
por caminhos diversos, quer interior, quer no tempo e no espaço.
Ant onio Donizet i da Cruz R 167

A segunda é a constatação da desilusão de ter encontrado, nessa busca,


somente “a tragédia cotidiana”, ou seja, a dor de viver.
Os paralelismos sintáticos, sonoros e semânticos estão presentes
nos versos: “Circulei na seiva das plantas,/ Ardi no olhar das feras,/ Palpitei
nas asas das pombas”. Mais que uma sábia melodia interior, eles dão
uma sensação de liberdade ao ato criador. No verso livre não são os
acentos, não são as sílabas, mas é a entonação da frase que se repete,
formando por essa reiteração regular a própria base do verso. Nas
repetições das sílabas, dos acentos, das entonações, as palavras se
correspondem pela posição, formando assim equivalências 197. Essa
afirmativa fica comprovada, entre outras, na seguinte passagem: “Nada
encontrei mais doloroso,/ Mais eloquente,/ Mais grandioso/ Do que a
tragédia cotidiana/ Escrita em cada vida humana”. A melodia das palavras
e a musicalidade dos versos evidenciam-se nesta passagem.
A luta contra a passagem temporal se presentifica nesta passagem:
“Eu me diluí na alma imprecisa das coisas./ Rolei com a Terra pela órbita
do infinito,/ Jorrei das nuvens com a torrente das chuvas/ E percorri o
espaço no sopro do vento;/ Marulhei na corrente inquietadora dos rios”.
A viagem estende-se por uma longa estrofe que mostra detalhes oníricos,
elementos inusitados, cenas pitorescas e momentos alegres e tristes. O
poema brota da sensibilidade desperta, passa pelo crivo avaliativo das
imagens apreendidas e termina com poucas palavras que traduzem a
tragicidade do cotidiano de cada ser humano.
O poema “Covardia” traz as marcas de um eu que se desdobra em
imagens relacionadas ao tema da viagem. Ao trilhar os caminhos da
“estrada da vida”, o sujeito lírico se diz incapacitado para conseguir realizar
a sua jornada:

Covardia

Meus olhos perscrutaram a extensão desconhecida


Da senda acidentada e inquietadora:
Era tão estranha, tão sinuosa
A estrada da vida!

Meus pés sentiram um medo misterioso


De palmilhar o mais antigo dos caminhos:
Medo do pó, medo das pedras, medo dos espinhos,
168 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

Receio daquelas sombras estranhas


que subiam dos abismos e desciam das montanhas.

Covarde, circundei minh’alma de penumbra.

Encontrei mãos que se estenderam, tão amigas,


Oferecendo amparo certo na jornada.
Eu, porém, não confiei no auxílio de outra mão.

E fiquei isolada, fiquei esquecida


198
À margem do agitado caminho da vida.

Nos versos da primeira estrofe do poema, encontra-se o anúncio


de uma análise retrospectiva que se baseia em imagens guardadas no
arquivo do olhar. Do signo viagem subentende-se as aproximações
semânticas: estrada sinuosa, jornada, caminho da vida, antigos caminhos,
senda acidentada e inquietadora. Na primeira estrofe, o eu-lírico descreve
a estrada da vida: sinuosa, acidentada, inquietadora, extensão
desconhecida e estranha. Na segunda estrofe, os pés (sinédoque) é que
sentem medo do pó, das pedras e espinhos. A terceira estrofe é uma
frase isolada, tão isolada quanto a revelação que o eu poético constrói
para explicar como fez da penumbra um escudo para proteger sua alma.
O eu maduro de hoje se defronta com o passado e tem a coragem de
adjetivar-se como covarde. Na quarta estrofe, uma autocrítica do eu-lírico
emerge ao falar nas mãos (sinédoque de pessoas) que tentaram ajudá-lo,
porém ele não acreditou no outro solidário. A última estrofe inicia com o
conetivo “e”, que nesse instante se enche de poder elucidativo, pois
relaciona os últimos versos da última estrofe aos anteriores para relacionar
o isolamento do eu-lírico às suas próprias atitudes, as quais culminaram
por impor-lhe a sentença de ser esquecido e empurrado para a margem
do caminho da vida.
No poema abaixo, intitulado “Transeuntes”, o efêmero e o eterno
cruzam-se numa rede de sentidos. Os versos revelam uma atitude
inquieta do eu-lírico que anseia por atingir o mundo transcendente:
Ant onio Donizet i da Cruz R 169

transeuntes

Transeuntes
da vida provisória:
que rumor de asas eternas
199
para além das fronteiras e dos símbolos!

O poema apresenta uma escrita interligada por dois planos: o


terreno e o transcendente. Na vida provisória, os viandantes se vêem
envoltos num mundo de incertezas e mistérios, porém seguem em frente
porque sabem que além das fronteiras espaço-temporais existe o mundo
onírico. O desejo de refúgio em um espaço privilegiado distante da
“vida provisória” e do “burburinho do mundo” é um processo que remete
a uma progressiva imersão no plano transcendente. A imagem “asas
eternas” aponta para esse plano, pois o vocábulo asa sugere o alçar vôo,
o dinamismo, a liberação e espiritualização.
O texto “A miragem no caminho” expressa a autocrítica do sujeito
peregrino diante da análise de sua jornada em busca de realização:

A miragem no caminho
1978

Perdeu-se em nada,
caminhou sozinho,
a perseguir um grande sonho louco.

(E a felicidade
era aquele pouco
200
que desprezou ao longo do caminho.)

No primeiro momento, o eu-lírico salienta a busca da felicidade


através de grandes sonhos; no segundo, mostra que a felicidade estava
nas pequenas coisas não valorizadas. Já a solidão é condição vital de um
eu que sabe dos obstáculos e dificuldades permanentes de se conseguir
a felicidade plena. As rimas, acentuadas pelos sintagmas “sonho louco”
versus “aquele pouco”, dão musicalidade e cadência sonora ao texto. As
palavras “caminhou” e “caminho” prolongam os efeitos sonoros. A perda
é sentimento nutrido pelo eu-lírico em oposição ao desejo de conseguir
170 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

superar as dificuldades oriundas das relações humanas. Os versos aludem


que a felicidade era “um sonho louco”. Ao buscá-la, o eu-lírico confessa
que desprezou ao longo da vida as pequenas coisas que constituíam a
possível felicidade, como no texto:

Viagem

Era um pássaro triste.


Andorinha exaurida,
A viajar para longe,
Em suas asas tremia
Um prenúncio de morte.
A árvore acenou da distância
Um fraterno chamado.

Repousou a andorinha
E sonhou longamente,
Acordada.
201
E foi, aquele sonho, a vida.

A escolha do símbolo “andorinha” como elemento metafórico


remete ao sentido de coletividade. Os versos apresentam a vida enquanto
“sonho” de uma “andorinha” (metáfora do ser humano). Na primeira
estrofe, o anúncio da tristeza da ave prepara o desfecho contido na viagem
necessária, que, indubitavelmente, direciona para a morte (preconizada
pelo fremir das asas). Na segunda estrofe, a imagem da árvore se destaca
por ela ser um ponto de contato entre as instâncias aérea e terrestre. A
personificação da árvore através do gesto de acenar concretiza a ligação
entre estas duas instâncias. Na estrofe final, efetiva-se o “repouso” da
andorinha que fez do longo sonho a sua efêmera vida.
Em “Convite à viagem”, o sujeito lírico convida o leitor a uma
“viagem” através do sonho e do pensamento:

Convite à viagem

Já se apresta o navio.
A marujada canta,
Marulha e arfa o mar,
O céu palpita.
Ant onio Donizet i da Cruz R 171

Deixe esse continente inóspito que


habitas.
Iça teu sonho – vela branca – em altos mastros
E singra, solitário, rumo aos astros.

Nem tempo nem espaço a perturbar a viagem...


Navegas ao sabor do pensamento
202
Por águas infinitas.

Mais que um convite à fuga, a viagem tem o sentido de busca, ou


seja, o texto aponta para a questão da solidão, pois a viagem deve ser
feita de maneira solitária, “ao sabor do pensamento”, no dizer do eu-
lírico. Deixar o “continente inóspito” significa desprender-se das coisas
materiais, das preocupações cotidianas, tendo em vista um espaço onírico,
em que é possível toda e qualquer realização, tal como a “Pasárgada”, de
Manuel Bandeira. Os verbos, na segunda pessoa, indicam a evocação do
outro para que empreenda a viagem rumo ao mar que “arfa” e ao céu que
“palpita”, enquanto o eu se coloca na posição de observador crítico e
amigo incentivador.
O mar é um dos signos representativos da poesia kolodyana. Na
simbologia aquática, o mar simboliza a vida, pois com sua natureza de
movimento constante ele é local das metamorfoses, das transformações
e renascimentos. Símbolo da dinâmica da vida, tudo sai do mar e retorna
a ele, ou seja, “lugar dos nascimentos, das transformações e dos
renascimentos. Águas em movimento, o mar simboliza um estado
transitório entre as possibilidades ainda informes as realidades
configuradas, uma situação de ambivalência, que é a de incerteza, de
dúvida, de indecisão, e que pode se concluir bem ou mal.203
No imaginário kolodyano, o mar tem uma relevância muito grande,
bem como as imagens da água em geral – fontes, rios, lagos, mares –
são recorrentes, e muitas vezes, estão relacionadas ao tema da viagem,
como nos versos do poema:

Barcos pesqueiros

Velas de barcos pesqueiros


asas pousadas no mar.
172 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

Nítido sol. Pleno dia.


Florescem plumas de espumas.
O vento brinca, a plasmar
peixes de prata no mar.

Regressam barcos pesqueiros


adernando, balançando.
Velas rosadas e brancas,
204
balões perdidos no mar.

Figura 6: Desdobramentos. Óleo sobre tela (dimensão: 1,00 cm x 70


cm). Antonio Donizeti da Cruz – [Premiado no Concurso Internacional
de Poesia e Desenho “Lília A. Pereira da Silva”, Itapira – SP).
Fonte: CRUZ (2001, p. 41)

Os versos do poema, em redondilha maior, são marcados pela


contenção, pelo rigor e simplicidade da linguagem e pelas sutilezas
das imagens – velas, barcos, mar, peixes – que resultam numa harmonia
semântica e em equilíbrio e condensação do ato de dizer. Os paralelismos
semânticos, sintáticos e sonoros destacam-se no texto. O ritmo do
Ant onio Donizet i da Cruz R 173

poema é cadenciado e regular, produzindo uma sensação de unidade ao


texto, evitando que ele caia na prosa. Como numa tela, iluminada pelo
sol que destaca as cores suaves, branco e rosa, junto com formas
pontiagudas de velas e, também, redondas de balões, os barcos
pesqueiros formam contrastes com a cor do mar e com a imensa
horizontalidade do desenho da água pontilhado de peixes de prata.
“Ponto de partida” é mais um texto em que o tema da viagem
aparece no sentido de procura: o eu em busca de si mesmo. O sujeito
lírico expressa sua condição de viajante solitário, ao declarar:

PONTO DE PARTIDA

Parte do porto
do próprio ser
o itinerário
do conhecer.

Em nós mesmos navegamos.


Somos barco e marinheiro,
205
continente e oceano.

O sintagma “parte do porto”, do primeiro verso, aponta para o


indício flutuante do verso seguinte, quer dizer, ele funciona como um
desdobramento. Partir do próprio ser para se atingir o conhecimento é
tarefa que pode englobar a todos. A imagem do barco (metáfora de viagem)
está relacionada ao sujeito plural nós. Na duplicidade barco/marinheiro e
continente/oceano reside a essência do sujeito: navegante sempre em
busca de realização. Note-se que o “porto do próprio ser” é início do
“itinerário do conhecer”. A viagem remete ao sentido de introspecção,
de subjetividade, ou seja, viagem que se processa no interior de nós
mesmos, pois “em nós mesmos navegamos”. O destino nas mãos do
viajante em busca de sua autodefinição como referência para traduzir a
exterioridade é a temática dominante desse poema.
O texto abaixo, intitulado “convite”, é um exemplo claro da eterna
busca e/ou fuga. O itinerante sabe que viajar é preciso206 e que a jornada
nunca termina:
174 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

convite

Completou-se uma jornada.

Chegar é cair na inércia


de um ponto final.

Na euforia da chegada,
há um convite irrecusável
207
para uma nova partida.

Da concretização da jornada a um novo convite, o caminhante


sabe que, a cada ciclo, tudo volta ao ponto de origem. Nos versos, há a
afirmativa da jornada que se completou. Já a ação de chegar é comparada
a uma atitude de alegria. Constata-se, todavia, que o entusiasmo da
chegada é acentuado pela certeza de novos convites que não podem ser
recusados. Partir é o verbo que redimensiona a existência humana. O eu
está sempre em busca de algo. Outrossim, é através da consciência de
uma necessidade vital da viagem que o homem se cumpre e se afirma
enquanto ente itinerante, sem paragens certas.
Já o poema intitulado “Sem retorno” realça a condição do viajante
que não tem paragem, eterno estrangeiro e exilado, nessa vida de tantas
incertezas:

Sem retorno

Nada se repete na travessia.


Longa despedida sem retorno.

Marcos de nunca mais


balizam o contínuo transformar-se.

Vivos desenhos de sombra


sublinham o passante
e se desvanecem
208
ao anoitecer.
Ant onio Donizet i da Cruz R 175

A afirmação do eu-lírico de que não há repetição alguma no ato da


travessia faz com que a condição existencial seja marcada pela aceitação
da irreversibilidade do tempo que passa sem deixar as marcas e os
desenhos gravados “no muro” do tempo. O sentimento de incapacidade
de modificar o ritmo das constantes transformações da realidade
circundante e as circunstâncias existenciais leva o sujeito lírico a aceitar
o fluir do tempo passivamente, pois a poesia – consciência da
transitoriedade do ser – tem para o ser humano o poder de resistência e
aceitabilidade frente às vicissitudes da vida. Daí a viagem ser signo de
exílio e ter a marca da brevidade da vida.
O texto “Cantar”, com seus versos sintéticos, apresenta uma forma
positiva de ver a vida. O eu-lírico afirma:

CANTAR

Quem vai cantando


não vai sozinho.
Dançam em seu caminho
209
o sonho e a canção.

Cantar é uma forma de suavizar a dor e partilhar da alegria.


Companheiro do caminhante, o sonho e a canção dão sentidos ao viver.
Na esfera vital, de tantas travessias sem retorno, o eu se desdobra verso
a verso, num esforço de autocompreensão frente à multiplicidade de vozes,
ou seja, uma viagem que se processa na busca de si mesmo e na busca
do outro. Viajar por mundos imaginários é uma maneira de amenizar “as
paisagens do mundo” nem sempre belas, nem sempre harmoniosas,
muitas vezes cruel e dolorosa. Certamente, a personificação de sonho e
canção como alegres amigos supre a ausência de companheiros reais.
O grande segredo da poesia reside no fato de se poder inventar
mundos, “luas cheias”, palavras, canções. Já a viagem requer força por
parte do viajante, como diz Cecília Meireles, no poema:

CONSTÂNCIA DO DESERTO

Em praias de indiferença
navega o meu coração.
Venho desde a adolescência
176 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

na mesma navegação.
– Por que mar de tanta ausência,
e areias brancas de tão
despovoada inconsistência,
de penúria e de aflição?
(Triste saudade que pensa
entre a resposta e a intenção!)
Números de grande urgência
gritam pela exatidão:
mas a areia branca e imensa
toda é desagregação!
Em praias de indiferença
navega meu coração.
Impossível, permanência.
Impossível, direção.
E assim por toda a existência
navegar navegarão
os que têm por toda ciência
210
desencanto e devoção” .

Aqui reside a chave do encantamento do poeta com as palavras: a


viagem como forma de resistência às coisas que passam sem deixar
marcas. A falta de rumo da existência humana não é razão para deixar de
acreditar na vida, ou antes, é através do ato de “navegar” que o eu busca
a própria realização. Assim, navegar na certeza de que é preciso, “chegar
ao porto/ da vida finda/ cantando sempre,/ sonhando ainda”211, tal como
afirma Kolody.
Nos versos de Helena Kolody, a repetição do tema da viagem aponta
para a esperança e certeza de que as palavras têm o poder de despertar o
homem para o sonho, para iniciar a busca e chegar à realização.
A remissão constante ao tema da viagem relaciona-se à procura do
eu em permanente busca de si mesmo, ao refúgio, à evasão, e reporta às
mais diversas formas de desdobramento do sujeito lírico sempre à procura
de algo que preencha o vazio e dê sentido à sua grande inquietação: o
sentido da existência ante a certeza da finitude. É essa agitação interior
que parece impulsionar Kolody na busca de uma linguagem essencial
que traduza a instabilidade do eu e dê sentido à vida. A poeta, ao trilhar
os caminhos da modernidade, projeta um mundo de descobertas e
experimentações com a linguagem. Sua lírica opera como exercício efetivo:
poesia que é antes de tudo alquimia das palavras.
Ant onio Donizet i da Cruz R 177

O tema e o movimento vital da viagem na obra kolodyana faz com


que o sujeito poético se volte ao tempo passado e também se lance ao
tempo futuro. Para Erico Verissimo, o ser humano viaja por dois motivos
básicos: “para fugir ou para buscar. Os fugitivos cedo ou tarde descobrem
que seus problemas são de natureza geográfica”212. Nesse sentido, a
viagem não é só um processo de redescoberta, mas uma experiência que
se realiza no plano pessoal e espacial, pois a travessia faz parte da vida.
À luz do que precede, pode-se dizer que Helena Kolody realiza uma
poesia que é, acima de tudo, busca de uma expressão adequada, concisa,
memorável, cujo universo imaginário e poético213 são essenciais.

NOTA S

1
PAZ, Octavio. Convergências: ensaios sobre arte e literatura. Trad. Moacir Werneck de
Castro. Rio de Janeiro: Rocco, 1991, p. 97.
2
Id., ibid., p. 98.
3
Id., ibid., p. 114.
4
PAZ, op. cit., 1991, p. 118-119.
5
Loc. cit.
6
PAZ, Octavio. O arco e a lira. Trad. Olga Savary. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982, p.
129-133. Coleção Logos
7
Id., ibid., p. 129-133.
8
DOLEZEL, Lubomír. A poética ocidental: tradição e inovação. Lisboa: Fundação Calouste
Gulbenkian, 1990, p. 81.
9
BREITINGER apud DOLEZEL, 1990, p. 74. Segundo Dolezel, Breitinger define o “maravilhoso”
da seguinte forma: “Por maravilhoso (das Wunderbare) entendo tudo aquilo que é
excluído, por uma representação ou afirmação contraditórias, daquilo que é aceite como
verdadeiro”, i. e. tudo o que “parece negar as nossas concepções habituais da essência
das coisas, das forças, leis e curso da natureza, como também todas as verdades
previamente reconhecidas”. (Esta definição de maravilhoso, de Breitinger, encontra-se
em BreitCD 1, p. 130 e ss.).
10
DOLEZEL, op. cit., 1990, p. 81. Grafia da palavra “poiética” e grifos do autor. Segundo
Dolezel, o procedimento básico da lógica da imaginação, estruturada na semiótica da
linguagem se encontra no segundo volume do CD (BreitCD 2, p. 400-403 e ss.), no qual
Breitinger esboçou uma semiótica da linguagem e estabelece a sua conexão com a
poética dos mundos imaginários. Ainda no dizer de Dolezel, o teórico Breitinger traçou
uma classificação tipológica tão somente na área do universo imaginário, ou seja, a dos
mundos maravilhosos (das Wunderbare), adiantando, assim, uma teoria do maravilhoso.
11
Loc. cit., p. 82. Grifos do autor.
12
BACHELARD, Gaston. A água e os sonhos: ensaios sobre a imaginação da matéria. Trad.
Antonio de Padua Danesi. São Paulo: Martins fontes, 1989a, p. 165-166.
13
BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes, 1993, p. 143.
14
Id., ibid., p. 97.
15
JAKOBSON, Roman. O que é poesia? In: TOLEDO, Dionísio (Org.). Círculo linguístico de
178 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

Praga: estruturalismo e semiologia. Porto Alegre: Globo, 1978, p. 177.


16
KOLODY, OA, 1991, p. 71.
17
QUINTANA, Mario. Caderno H. Porto Alegre: Globo, 1994, p. 119.
18
BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. São Paulo, Companhia das Letras, 2000, p. 9.
19
PAZ, Octavio. A outra voz. São Paulo. Siciliano, 1993, p. 144, grifo do autor.
20
PAZ, ibid., p. 109.
21
Id., ibid., p. 108-109.
22
PAZ, op. cit., 1982. p. 69.
23
PAZ, op. cit., 1991, p. 97.
24
Id., ibid., p. 98.
25
COHEN, Jean. A plenitude da linguagem: teoria da poeticidade. Coimbra: Almedina,
1987, p. 159.
26
MANCIA, Mauro. No olhar de Narciso: ensaios sobre a memória, o afecto e a criatividade.
Lisboa: Escher, 1990, p. 155-159. Grifo do autor.
27
Id., ibid., p, 167. Grifos do autor.
28
Id., ibid., 168. Grifo nosso.
29
Id., ibid., p. 167-168. Grifo do autor.
30
MANCIA, ibid., p. 198-199.
31
Id., ibid., p. 197-198. Grifo do autor.
32
BACHELARD, op. cit., 1993, p. 49. Grifo do autor.
33
BACHELARD, op. cit., 1993, p. 181. Grifo do autor.
34
DURAND, Gilbert. As estruturas antropológicas do imaginário: introdução à arquetipologia
geral. Trad. Hélder Godinho. São Paulo: Martins Fontes, 1997, p. 401-402. Grifo do
autor.
35
Id., ibid., p. 402.
36
DURAND, op. cit., 1997, p. 402.
37
Loc. cit. Grifo nosso. Durand toma o termo “Antidestino” de Malraux, e acrescenta: “É
Malraux quem, num livro, define a arte plástica como um “Antidestino” e, noutro livro,
mostra como o imaginário emigra pouco a pouco das profundezas do sagrado para a
irradiação do divino, depois metamorfoseia-se cada vez mais até a transposição profana
da arte pela arte e, por fim, instala o grande museu imaginário da arte em honra do
homem”. DURAND, op. cit, 1997, p. 405, nota 34. Grifo nosso. Os livros referidos
intitulam-se: Les voix du silence e La métamorphose des dieux, de Malraux.
38
DURAND, op. cit., 1997, p. 403.
39
Loc. cit.
40
KOLODY, SR – VE, 1999, p. 163-164.
41
KOLODY, loc. cit.
42
CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionários de símbolos. Rio de Janeiro: José
Olympio, 1993, p. 842.
43
KOLODY, SP, 1985, p. 44.
44
STAIGER, Emil. Conceitos fundamentais da poética. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975,
p. 49.
45
KOLODY, VB – VE, 1999, p. 156.
46
PAZ, Octavio. O labirinto da solidão e post-scriptum. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984,
p. 175.
47
LOTMAN, Iuri. A estrutura do texto artístico. Lisboa: Editorial Estampa, 1978, p. 41.
48
COHEN, op. cit., 1987, p. 210.
49
PAZ, op. cit., 1984, p. 176.
50
Id., ibid., p. 175.
51
BACHELARD, Gaston. A chama de uma vela. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989b, p. 56
52
Id., ibid., p. 57.
Ant onio Donizet i da Cruz R 179

53
KOLODY, SR – VE, 1999, p. 170-171.
54
KOLODY, VB – VE, 1999 p. 145.
55
PAZ, op. cit., 1984, p. 175.
56
BAUDELAIRE, Charles Pierre. Petits poèmes en prose; pequenos poemas em prosa. Trad.
Dorothée de Bruchard. Florianópolis: Ed. da UFSC, 1996, p. 65.
57
Helena Kolody. “Mergulhar na multidão... “ - TP. In: CRUZ, 2011, Apêndice A, Vol. II, TP,
p. 37.
58
KOLODY, IP, 1980, p. 43.
59
CHEVALIER; GHEERBRANT, op. cit., 1993, p. 91.
60
KOLODY, IP, 1980, p. 19.
61
KOLODY. In: BASSETTI, Alzeli. Helena Kolody: poesia feito gente. Brasília: revista de
circulação nacional, Brasília, n. 53, jul. 1990, p. 5.
62
KOLODY, MS – VE, 1999 p. 196.
63
Helena Kolody. “Âncora e porto” - TP. In: CRUZ, 2011, Apêndice A, Vol. II, TP, p. 10.
64
Helena Kolody. “Nascem das calmarias” - TP. In: CRUZ, 2011, Apêndice A, Vol. II, TP,
p. 127.
65
BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: Companhia das
Letras, 1994, p. 89.
66
Id., ibid., p. 55.
67
KOLODY, SP, 1985, p. 26.
68
KOLODY, SR – VE, 1999, p. 182-183.
69
Id., ibid., p. 182.
70
Loc. cit.
71
DAVALLON, Jean. A imagem, uma arte da memória? In: PAPEL da memória / Pierre
Achard... [et al.]; tradução e introdução de José Horta Nunes. Campinas, SP: Pontes,
1999, p. 30. Grifo do autor.
72
Id., ibid., p. 31.
73
BANDEIRA, Manuel. Antologia poética. Rio de Janeiro: José Olympio, 1990, p. 69-73.
74
Id., ibid., p. 70-71.
75
Id., ibid., p. 72-73.
76
ANDRADE, Carlos Drummond de (Org.). Antologia poética. Rio de Janeiro: Record, 1998,
p. 67.
77
MEIRELES, Cecília. Flor de poema. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1983, p. 157.
78
MELLO, Ana Maria Lisboa de. O texto lírico: imagem, ritmo e revelação. Porto Alegre,
1991. Tese (Doutorado em Teoria da Literatura) – Instituto de Letras e Artes, Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 1991, p. 195.
79
Observe-se que este mesmo poema, publicado na obra Helena Kolody (Org. por Paulo
Venturelli), em 1995, a presente estrofe aparece assim: “As torres da catedral olhavam/
sobre os telhados”. Também, a estrofe seguinte a esta, traz a presente estrofe: “Naquela
época não havia arranha-céus,/ eram só sobrados com quintais./ Todas as ruas principais/
eram assim.” (p. 39). Este é um procedimento comum realizado por Helena Kolody, que
sempre está burilando o próprio texto. Trataremos desta questão no último capítulo, que
trata da construção poética e o projeto estético kolodyano.
80
Helena Kolody. “Curitiba – Cidade Menina” - TP. In: CRUZ, 2011, Apêndice A, Vol. II, TP,
p. 49-50.
81
WEINHARDT. Marilene. “O Paraná no discurso literário”. LETRAS: revista do Curso de
Letras da UFPR, Curitiba, n. 48, 2º sem. 1997, p. 83.
82
A autora refere-se à entrevista de Paulo Venturelli. Helena Kolody “ao ser questionada
sobre a experiência de morar ‘na Itupava, naquela época, cheia de lama, indo a pé para
a escola’, a poeta opta por responder com um poema [...]”. In: WEINHARDT, loc. cit.,
180 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

p. 83. Tal poema intitula-se “Pinheiro e mais pinheiros”. In: HELENA Kolody, 1995, p. 39.
83
WEINHARDT, loc. cit., p. 84.
84
BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: Companhia das
Letras, 1994, p. 418.
85
Id., ibid., p. 411.
86
Helena Kolody. “Praça Rui Barbosa” - TP. In: CRUZ, 2011, Apêndice A, Vol. II, TP,
p. 195-196.
87
Helena Kolody. “Nostalgia” - TP. In: CRUZ, 2011, Apêndice A, Vol. II, TP, p. 168.
88
KOLODY, RE, 1993, p. 21.
89
BACHELARD, op. cit., 1989a, p. 69.
90
KOLODY, TE – VE, 1999, p. 105.
91
KOLODY, PM, 1986, p. 17.
92
ESTEBAN, Claude. Crítica da razão poética. São Paulo: Martins Fontes, 1991, p. 46.
93
LEMINSKI, Paulo. Distraídos venceremos. São Paulo: Brasiliense, 1987, p. 21.
94
KOLODY, TS – VE, 1999, p. 123.
95
KOLODY, OA, 1991, p. 11.
96
MANCIA, op. cit., 1990, p. 198.
97
KOLODY, TS – VE, 1999, p. 125.
98
HAMBURGER, Käte. A lógica da criação literária. São Paulo: Perspectiva, 1975, p. 212.
99
BACHELARD, op. cit., 1993, p. 36-37.
100
KOLODY, TE – VE, 1999, p. 107-108.
101
STAIGER, op. cit., 1975, p. 55.
102
KOLODY, IP, 1980, p. 28.
103
KOLODY, RE, 1993, p. 19.
104
Conforme manuscrito de Kolody. Ver anexo.
105
KOLODY. In: HELENA Kolody, op. cit., 1995, p. 43-44.
106
Id., ibid., p. 45-46.
107
Helena Kolody. “Flor azul da soledade” - TP. In: CRUZ, 2011, Apêndice A, Vol. II, TP,
p. 108.
108
BACHELARD, op. cit., 1989b, p. 11, grifo do autor.
109
Id., ibid., p. 19.
110
PAZ, op. cit., 1991, p. 237.
111
Id., ibid., p. 236-240.
112
PAZ, op. cit., 1982, p. 181-182.
113
Id., ibid., p. 175-190.
114
BACHELARD, op. cit., 1989a , p. 77-78.
115
Id., ibid., p. 82.
116
KOLODY, VB – VE, 1999, p. 148.
117
CHEVALIER; GHEERBRANT, op. cit., 1993, p. 409.
118
KOLODY, loc. cit.
119
Loc. cit.
120
PAZ, Octavio. Signos em rotação. São Paulo: Perspectiva, 1996, p. 110.
121
KOLODY, IP, 1980, p. 4.
122
Id., ibid., p. 33.
123
BACHELARD, op. cit., 1989a, p. 126.
124
KOLODY, VB – VE, 1999, p. 147.
125
BORGES, Jorge Luis. Obras completas de Jorge Luis Borges. São Paulo, Globo, 1999,
p. 258.
126
BORGES, op. cit., 1999, p. 211.
127
KOLODY, VB – VE, 1999, p. 145.
Ant onio Donizet i da Cruz R 181

128
PAZ, op. cit., 1982, p. 69.
129
KOLODY, IP, 1980, p. 30.
130
KOLODY, SR – VE, 1999, p. 166-167.
131
KOLODY, VB – VE, 1999, p. 157.
132
KOLODY, IP, 1980, p. 5.
133
KOLODY, OA, 1991, p. 23.
134
PAZ, op. cit., 1982, p. 175.
135
KOLODY, RE, 1993, p. 61.
136
A exemplo das pinturas de Monet, do lago de Giverny (França), com suas ninféias e
nenúfares.
137
PAZ, op. cit., 1991, p. 238.
138
Id., ibid., p. 239.
139
Id., ibid., p. 77-78. Grifos do autor.
140
PAZ, op. cit., 1982, p. 162.
141
RANK, Otto. O duplo. Rio de Janeiro: Alba, 1939, p. 96.
142
BORGES, Jorge Luis. O livro dos seres imaginários. Porto Alegre: Globo, 1981, p.153-154.
143
MORIN, Edgar. O homem e a morte. Mira-Sintra: Europa-américa, 1988, p. 162.
144
Id., ibid., p. 163. Grifos do autor.
145
DURAND, op. cit., 1997, p. 100.
146
Id., ibid., p. 100-101.
147
Loc. cit.
148
GENETTE, Gérard. Figuras. São Paulo: Perspectiva, 1972, p. 24-25.
149
LINS, Augusto Estellita. Missões históricas. In: Literatura: revista do escritor brasileiro.
Brasília, n.12, jun. 1997, p. 25. Este artigo faz parte da obra inédita O diplomata e seus
signos, resenha de três conferências pronunciadas no Instituto Rio Branco.
150
Id., ibid., p. 25.
151
CAVALCANTI, Raïssa. O mito de Narciso: o herói da consciência. São Paulo: Cultrix, 1992,
p. 12.
152
MELLO, op. cit., 1991, p 46.
153
Id., ibid., p. 42-43.
154
KOLODY, OA, 1991, p. 17.
155
PAZ, op. cit., 1991, p. 77.
156
CHEVALIER; GHEERBRANT, op. cit., 1993, p. 21-22.
157
MANOEL, Antonio. Helena Kolody: invenção e disciplina. In: KOLODY, Helena. Viagem
no espelho. Curitiba: Ed. da UFPR, 1999, p. 11.
158
FRANÇA, Maria Inês R. “Narcisismo e o duplo”. In: BARROS, Enaide Bezerra de. Eu
Narciso, outro Édipo. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1991, p. 81-83.
159
Loc. cit. Grifo da autora.
160
FRANÇA, ibid., p. 91.
161
KOLODY, MS – VE, 1999, p. 197.
162
KOLODY, TE – VE, 1999, p. 113.
163
BACHELARD, op. cit., 1989a, p. 23, grifo do autor.
164
Id., ibid., p. 25. Grifo do autor.
165
Loc. cit., Grifos do autor.
166
Helena Kolody. “Reflexo” - TP. In: CRUZ, 2011, Apêndice A, Vol. II, TP, p. 94.
167
Helena Kolody. “Seu olhar profundo” - TP. In: CRUZ, 2011, Apêndice A, Vol. II, TP,
p. 133.
168
LINS, Augusto Estellita. A magia dos signos: ensaio de semiologia. Brasília: Editora Ser,
1996, p. 54.
169
Helena Kolody. “Miro-me no espelho mágico” - TP. In: CRUZ, 2011, Apêndice A, Vol. II,
182 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

TP, p. 138.
170
KOLODY, IP, 1980, p. 40.
171
CHEVALIER; GHEERBRANT, op. cit., 1993, p. 394-395, grifo do autor.
172
Id., p. 396.
173
ECO, Umberto. Sobre os espelhos e outros ensaios. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989,
p. 37.
174
KOLODY, PM, 1986, p. 29.
175
BARBOSA, João Alexandre. As ilusões da modernidade. São Paulo: Perspectiva, 1986,
p. 14-15.
176
Loc. cit.
177
KOLODY, TE – VE, 1999, p. 116.
178
KOLODY, IP – VE, 1999, p. 94.
179
CHEVALIER; GHEERBRANT, op. cit., 1993, p. 488.
180
Id., ibid., p. 250-254.
181
Id., ibid., p. 922-923.
182
TIRET, Isabelle. Le réel et l’imaginaire ou la traversée du miroir. Sociétés. Revue des
Sciences Humaines et Sociales. Paris, Dunod Reveues, n. 49. 1995, p. 249-253.
183
BARBOSA, João Alexandre. As ilusões da modernidade. São Paulo: Perspectiva, 1986,
p. 32.
184
KOLODY, OA, 1991, p. 53.
185
KOLODY, SP, 1985, p. 24.
186
KOLODY, PM, 1986, p. 14.
187
CHEVALIER; GHEERBRANT, op. cit., 1993, p. 555.
188
KOLODY, IP, 1980, p. 01
189
KOLODY, SP, 1985, p. 45.
190
KOLODY, PM, 1986, p. 47.
191
KOLODY, RE, 1993, p. 25.
192
KOLODY, RE, 1993, p. 31.
193
Id., ibid., p. 41.
194
MORIN, Edgar. O homem e a morte. Mira-Sintra: Europa-américa, 1988, p. 327.
195
KOLODY, RE, 1993, p. 35.
196
KOLODY, PI – VE, 1999, p. 214-215.
197
JAKOBSON, Roman. O que fazem os poetas com as palavras. Colóquio/Letras, Lisboa:
Calouste Gulbenkian. v. 1, n. 12, mar. 1973, p. 3.
198
KOLODY, PI – VE, 1999, p. 218.
199
KOLODY, SP, 1985, p. 8.
200
KOLODY, OA, 1991, p. 79.
201
KOLODY, VB – VE, 1999, p. 155.
202
KOLODY, SR – VE, 1999, p. 168.
203
CHEVALIER; GHEERBRANT, op. cit., 1993, p. 592.
204
Helena Kolody. “Barcos pesqueiros” - TP. In: CRUZ, 2001, Apêndice A, Vol. II, TP, p. 42.
205
KOLODY, IP, 1980, p. 9.
206
Por analogia à expressão dos navegadores antigos: “Navegar é preciso”, bem lembradas
por Camões e Fernando Pessoa.
207
KOLODY, SP, 1985, p. 32.
208
KOLODY, IP – VE, 1999, p. 75.
209
KOLODY, PM, 1986, p. 20.
210
MEIRELES, Cecília. Flor de poema. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1983,
p. 129-130.
211
Versos do poema “Cantiga”. In: KOLODY, TE – VE, 1999, p. 108.
Ant onio Donizet i da Cruz R 183

212
VERISSIMO, Erico. A liberdade de escrever: entrevista sobre literatura e política.
Apresentação de Luis Fernando Veríssimo; organização de Maria da Glória Bordini). São
Paulo: Globo, 1999, p. 145.
213
Nos capítulos seguintes trataremos do fazer poético e do projeto estético de Helena
Kolody.
184 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody
Ant onio Donizet i da Cruz R 185

4 O FAZER POÉTICO: A BUSCA DO ESSENCIAL

A poesia é potência capaz de dar sentido à vida. Ao buscar a essência


da linguagem, o poeta realiza o poder mágico das palavras: ser mediação,
comunicação, exercício de construção de sentidos. Através das palavras,
o poeta projeta no plano verbal um universo poético capaz de nomear o
mundo. Ao se apoiar nos aspectos lúdicos, rítmicos e imaginários da
linguagem, ele concretiza a operação poética: manifestação dos
sentimentos humanos e diálogo operante do eu em relação ao outro, às
coisas e ao mundo circundante. Destarte, a função poética funciona como
um vetor constitutivo da natureza humana, em que o poeta desvenda e
constrói mundos inusitados, fazendo valer a força da palavra enquanto
instrumento capaz de conter uma multiplicidade de significações, de
imagens e signos que possibilitam interpretar a vida com suas variações
e transmutações, isto é, ele sabe que o uso da linguagem abre múltiplos
espaços de “comunicação e de nominação dos objetos: o uso da palavra
é um exercício de constituição de sentido”1, no dizer de Gonzáles.
Para Helena Kolody, “Poesia é a transfiguração/ da realidade em
beleza,/ pela magia das palavras”2, definição essa que remete ao poder
mágico da linguagem e à alquimia do verbo, com as quais a poeta tem
elaborado uma poética centrada no seu dinamismo vital.
A metalinguagem está presente em todas as obras de Helena
Kolody. O eu poético tematiza a literatura em si mesma, transformando
o poema numa reflexão sobre o ato poético, ou seja, numa linguagem
que trata da linguagem, convertendo-a num instrumento de indagação
186 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

interior. A poeta articula a linguagem e elabora uma poética reflexiva,


organizando esteticamente a construção do poema.
O universo poético de Kolody articula-se através da multiplicidade
das imagens de um eu que se desdobra verso a verso, das imagens e
figuras densas, das consonâncias e dissonâncias dos versos com seus
ritmos bem acentuados. A essência fundamental da poesia kolodyana
reside na harmonia e na beleza com que organiza seus poemas, quer
dizer, nesse “universo” de relações recíprocas entre os “sons” – a
musicalidade, o ritmo, o movimento, o timbre, a entonação, a voz
transmudada em ação – e os “significados” – as ideias, as imagens, as
excitações do sentimento e da memória e as formações de compreensão.
Através dessas relações, o poeta cria seu universo poético
operacionalizando a linguagem no sentido de que fala Paul Valéry: o
poema “não morre por ter vivido: ele é feito expressamente para renascer
de suas cinzas e vir a ser indefinidamente o que acabou de ser. A poesia
reconhece-se por esta propriedade: ele tende a se fazer reproduzir em
sua forma, ela nos excita a reconstruí-la identicamente”3 .
Na poesia de Helena Kolody verifica-se uma constante
preocupação do eu poético frente à linguagem e à palavra. No subcapítulo
a seguir, serão apresentados depoimentos da poeta sobre suas
concepções poéticas e sobre o modo como ela utiliza a metalinguagem. E
no subsequente, trataremos da construção poética e do projeto estético
kolodyano.

4.1 A poética da busca e do progressivo alcance da essencialização

ESSÊNCIA

Oculta na roupagem metafórica,


palpita a realidade essencial.

Helena Kolody (IP, p. 36)

Helena Kolody é poeta do cotidiano, das realidades simples e


comuns, interpretadas por seu singular modo de ser e de dar sentido às
coisas e à vida. Sua poesia apresenta uma construção textual alicerçada
em elementos mais simples que cantam a vida e seus instantes, sendo o
Ant onio Donizet i da Cruz R 187

lirismo uma forma singular de arranjo da linguagem e de recorte do


mundo. A poesia kolodyana revela-se portadora de conhecimento e
comunicação. É conhecimento porque desautomatiza a linguagem e revela
o mundo sob ângulos diversos dos incorporados na rotina. É comunicação
pelo constante diálogo com o leitor.
A poesia de Kolody adota as características da dualidade mediante
o jogo das palavras vida e morte, dor e alegria, luz e sombra, nunca e
sempre, presenças e ausências, como nos versos do poema:

Modo de ser
12/4/85

Rir,
às vezes,
é um modo altivo
4
de chorar” .

A ironia aparece de forma clara através da afirmação do eu-lírico.


No jogo das palavras riso versus choro, a certeza de elevar os sentimentos
de alegria no intuito de superar as tristezas da vida. O sujeito lírico se vê
envolto frente a agitações e inquietudes da vida.
A poiesis kolodyana identifica-se com uma certa problemática
recorrente na poesia contemporânea: a busca de criação de uma poesia
sobre a poesia. Na palavra (re)criada “no coração da linguagem”, Kolody
faz a história e se insere nela. Com uma poesia sutil, clara e simples, a
poeta apresenta uma maneira intensa de entender e expressar os
sentimentos do mundo, com uma voz capaz de concretizar as palavras
da canção.
O poema sintético “Significado”, com seus versos polimétricos,
mostra que a poesia pode ser descoberta, comunicação, olhar atento às
coisas e à própria vida:

SIGNIFICADO

No poema
e nas nuvens,
cada qual descobre
5
o que deseja ver.
188 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

O poema é um convite ao leitor para partilhar do processo poético.


Além de comunicação, a poesia é participação e revelação. Nos versos
do poema, o vocábulo “nuvens” sugere o caráter efêmero e evanescente
das coisas que passam sem deixar vestígios. O sujeito lírico afirma que
é possível desvendar através do poema e da observação das formas
“criadas” pelas nuvens, o poder sugestivo de interpretação e de
descobertas de sentidos. O ato de olhar para o poema e para as nuvens
remete, imediatamente, o leitor a um espaço imaginário, no qual é possível
realizar o desejo de buscas e descobertas mediante as palavras.
Outro texto-convite ao leitor para que partilhe o estado de poesia é
o poema dístico:

CIRCUITO

Os olhos que mergulham no poema


6
completam o circuito da poesia.

No presente texto, o ato de criação é retomado pelo sujeito lírico,


sob o ponto de vista das polaridades criador/leitor. Somente através da
leitura do poema é que ocorre o “circuito” completo da poesia.
Seus versos distinguem-se pela capacidade peculiar de sugerir
fenômenos imperceptíveis, tais como as lembranças, os sonhos, a
imaginação. Conforme Kolody, “há um elemento lúdico do fazer poético,
uma emoção de prazer, como em qualquer jogo. É um jogo fascinante,
feito de palavras” 7. Nesse sentido, a poeta faz da linguagem seu
instrumento, gerando múltiplas possibilidades internas da linguagem (o
ritmo, a sonoridade, as associações criativas com as palavras, a
ambiguidade de sentidos, a organização inédita de imagens do
desdobramento do eu, as variações temáticas, os símbolos e alegorias) e
fazendo expandir seu lirismo terno e questionador. Ao mesmo tempo
surge uma lírica sintética, mas, acima de tudo, acentuada pelo teor de
modernidade, cuja linguagem indaga sobre o fazer poético, como nos
versos do poema abaixo (inédito), em que o sujeito lírico questiona a
relação do eu com o mundo e se diz abandonado pela poesia:
Ant onio Donizet i da Cruz R 189

Que estrela sumiu no horizonte?


Que fonte secou?
O que morreu em mim?
8
A poesia me deixou.

São versos que apresentam a linguagem poética pautada pela


imaginação e permite ao leitor observar a maneira como o sujeito articula
a linguagem ao inventar novas formas e estruturas a partir de uma visão
própria de um eu que nota que não é possível viver sem poesia. Nesse
sentido, a linguagem tem o poder de imortalizar o instante, de dar sentidos
à vida. Assim, através da viagem em versos e do poder de auto-afirmação
do poeta, a poesia instaura sentidos múltiplos frente aos mistérios da
existência.
Os três versos interrogativos questionam transformações que
culminam com o vazio da ausência. A poeta deixa para o leitor a busca de
uma resposta: a “estrela” que sumiu e a “fonte que secou” relacionam-
se com o que nela morreu? Porém, no último verso, um lamento lança o
desfecho: a poesia é mais que a estrela, mais que a fonte; ela é a ligação
entre a poeta e o mundo.
Através do ato imaginativo, Kolody concretiza uma poesia que é
mediação solidária com o leitor, ou seja, sua voz “participativa” abre
múltiplos espaços de diálogo. A lírica kolodyana parte da experiência
cotidiana e transcende-a mediante a imagem poética, que se reporta a
uma dimensão maior, capaz de despertar no leitor um sentimento de
plenitude e fascinação perante as palavras. Assim, a poesia é uma forma
de auto-revelação, que permite um constante “recriar-se e recriar-nos”,
pois conforme Octavio Paz, “é um tecido de conotações, feita de ecos,
reflexos e correspondências entre som e sentido”9. Esta afirmativa do
autor pode ser constatada no poema kolodyano:

ONDE?

Em que furna,
em que torre,
em que cisterna funda
dormia o poema
10
em mim?
190 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

Este poema revela, que a poeta descobriu que a poesia não morreu,
pois um poema despertou. A musicalidade das palavras como “furna”,
“torre” e “cisterna funda” apontam para imagens que levam ao caráter
de elevação e, ao mesmo tempo, de profundidade. Aqui, há oposição dos
contrários descida/elevação. Já a indagação é elemento norteador do
poema.
O poeta busca a origem do processo de construção poética, sem,
no entanto, obter respostas. Kolody realiza uma poesia em que fica claro
o jogo metafórico da linguagem, os questionamentos e a elaboração do
texto voltam-se para a auto-reflexão.
Maria Beatriz Zanchet, ao analisar o poema “Onde?”, destaca que,
Helena Kolody, “a partir de um questionamento, situa o fazer poético
numa dimensão de interioridade. A imagem resultante é informada por
ondas de tensão que se espraiam no texto pelo predomínio da
musicalidade”11. Em relação ao esquema anafórico, que estabelece um
ritmo próprio ao texto, a autora afirma que,

O poema vai encaminhando, verso após verso, ondas de tensão que vão
culminar na interrogação final. O texto investe em recursos significativos:
metáforas que conotam fechamento, pontuação calcada em interrogações,
reiterações de vogais graves e fechadas e nasalização acentuada em todos
os versos. Articulando esses recursos, o esquema anafórico confere um
ritmo peculiar. O retorno das imagens ‘Em que furna/ em que torre/ em
que cisterna funda’ se amplia na latência do eu poético projetando, em
ondas rítmicas, uma musicalidade prenhe de significações.12

Zanchet observa ainda que, “ao fechamento das imagens


corresponde um fechamento simbólico de sons, evocando toda uma
ambientação de angústia, obscuridade e interioridade”13. Já a musicalidade
na poesia de Helena Kolody, como bem observa a autora, no poema
apresentado, é significativa em toda a produção literária kolodyana.
Em relação às imagens e sons no poema “Onde?”, fica latente o
diálogo que a poeta trava com o leitor. Mediante o discurso poético,
enquanto trabalho laborioso, o poema tem o poder de projetar espaços
de introspecções, resistência e rupturas. Para Bosi, a poesia mostra, sob
as espécies da figura e do som, realidades pelas quais vale lutar.
“Projetando na consciência do leitor imagens do mundo e do homem
Ant onio Donizet i da Cruz R 191

muito mais vivas e reais do que as forjadas pelas ideologias, o poema


acende o desejo de uma outra existência, mais livre e mais bela. E
aprimorando o sujeito do objeto, e o sujeito de si mesmo, o poema exerce
a alta função de suprimir o intervalo que isola os seres”14.
O fazer poético na poesia de Kolody remete à afirmativa de Octavio
Paz, quando diz que as experiências do poeta não são feitas de ideias ou
de sensações, mas de “ideias-sensações” que se manifestam no interior
do poeta e são, “por natureza, evanescentes”. A linguagem, em um
primeiro instante, assimila aquelas sensações, depois as fixa, as
transforma e as reinventa. O poeta repete a operação do que viu e sentiu
de maneira muito mais complexa e aprimorada15. Dessa maneira, “o
poeta, ao nomear o que sentiu e pensou, não transmite as ideias e
sensações originais: apresenta formas e figuras que são combinações
rítmicas nas quais o som é inseparável do sentido”16. Tais formas e
sentidos geram sensações e ideias-sensações semelhantes, mas não
similares às da experiência primordial vivenciada pelo poeta. Por isso, “o
poema é a metáfora do que o poeta sentiu e pensou. Essa metáfora é a
ressurreição da experiência e sua transmutação”17.
Para Kolody, o poema surge das impressões apreendidas as quais
vão se acumulando no inconsciente. O presente haicai é um exemplo do
lirismo kolodyano:

Pereira em flor

De grinalda branca,
Toda vestida de luar,
18
A pereira sonha.

Os versos do poema trazem a personificação da pereira, tal qual


noiva, a sonhar. Esta imagem compõe uma tela de singular beleza. A luz
da lua, marca a noite, que embala o sonho, de toda jovem pereira.
Elogiado por Carlos Drummond de Andrade, este haicai alude ao
caráter efêmero da existência. Helena Kolody descreve como surgiu o
poema:

Eu morava na Rua Carlos de Carvalho. Uma noite, ao sair da casa de


uma amiga, dei com aquela pereira completamente florescida, banhada
192 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

pela luz da lua cheia. A beleza do quadro foi um impacto na minha


sensibilidade. Fiz o poema bem mais tarde. Associei a pereira com a
noiva: a noiva toda vestida de branco, sonhando, como a pereira ao
luar.19

No que diz respeito ao ato criador de Helena Kolody, pode-se dizer


que ele é um processo que se operacionaliza de maneira organizada,
através das observações atenta da natureza com o mundo circundante
vivenciado pela poeta. Nas afirmações abaixo, nota-se a correspondência
de sentidos que há entre a elaboração do poema e os elementos biológicos.
Provavelmente, por ter lecionado Biologia, ela faz uma aproximação
analógica, no mínimo inusitada, sobre a sua criação poética:

Às vezes meus poemas vêm por inteiro. São os poemas vivíparos. Eles
são os melhores e geralmente dormiram muito tempo dentro de mim.
Outras vezes é só um núcleo de poemas, os ovíparos, que têm que ser
chocados. Eles se estruturam devagar. E, de repente, nasce a ave, porque
há um longo processo de celebração inconsciente.20

Conforme Kolody, seus poemas parecem surgir de uma inquietação


interior, da luta constante com as palavras a que todos os poetas estão
submetidos, tal como afirma Carlos Drummond de Andrade: “Lutar com
palavras/ é luta mais vã./ Entanto lutamos/ mal rompe a manhã”21. Para o
poeta, as palavras têm o poder de cristalizar o momento nascente de um
projeto estético, no qual sua atitude é de combate, de luta com as palavras
precisas, ou seja, não há hora demarcada para se travar a luta corporal.
São versos que mostram um alto teor de concentração verbal, rigor e
concretização de um pensamento capaz de (re)inventar mundos
imaginários. Mesmo que tal luta pareça frívola, ao poeta compete a tarefa
de realizar a “poesia da vida”.
A escolha exata das palavras e a maneira como são articuladas no
texto é que faz do poeta um operador de enigmas, um “feiticeiro inven-
tor”. Verifica-se que na poesia de Helena Kolody, a inspiração é um
processo primeiro, depois vem “o combate com as palavras”, o constante
burilar, tal como afirma a poeta:
Ant onio Donizet i da Cruz R 193

Eu sou uma poeta que não faz o poema na hora que quer. É a poesia
quem quer. Ela me agita, me obriga, é uma compulsão interior [...]. Às
vezes o poema já vem mais ou menos pronto [...]. Outras vezes é preciso
suar muito [...]. É uma luta terrível com as palavras. Mas há ocasião que
estou em estado de poesia e os poemas vão saindo: um, dois, três
poemas seguidos.22

Em relação ao “estado de poesia”, Kolody compara a inspiração


como o vento, que sopra onde quer. Assegura ainda que “a inspiração é
como um estado de embriaguez; eu me desligo das preocupações
imediatas e começo a sonhar versos. Preciso escrevê-los imediatamente,
senão me fogem e não os recupero mais. Há um sentimento de alegria
no ato de criar. Há um prazer lúdico nesse jogo realizado com palavras”23.
Assim, o fazer poético não fica somente em nível da inspiração.
Kolody salienta que depois ocorre o momento da reflexão, da análise e da
crítica ao poema. Já não é autora, é leitora do poema. Começa a burilá-lo,
travando “um combate sem tréguas com palavras indomáveis”. Ela vê a
poesia como uma expressão transfigurada da vivência humana, num certo
tempo e em determinado lugar. Mesmo que não pareça “as circunstâncias
de nossa vida impregnam, sutilmente, nossa arte”24. Helena Kolody de-
fine a poesia da seguinte forma:

A poesia, para mim, é como o jogo. Mas um jogo difícil, ainda que
tenha elementos lúdicos de prazer. É como um jogo que você não
consegue vencer. Às vezes não era aquela a palavra que você queria.
Então, você muda, tira um verso, corta. O meu normal é cortar muito.
A poesia é um jogo no qual a gente perde sempre.25

Ainda sobre o seu fazer poético, Helena Kolody declara que compõe
para seu próprio prazer “esse jogo de palavras que é o poema. Muitas
vezes, o poema vem incompleto, ou não me satisfaz. Antigamente, eu
rasgava o escrito. Hoje, guardo. Quando surge a minha ‘musa remendona’,
pego de novo o poema e encontro a solução”26.
Além do jogo, para o sujeito criador, a poesia também significa
“Loucura lúcida”, título do poema que revela a busca de tradução do
estado poético e do momento de criação:
194 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

Loucura lúcida
1988

Pairo, de súbito,
noutra dimensão

Alucina-me a poesia,
27
loucura lúcida

O primeiro verso do poema sugere o repentino cessar de um vôo.


A oposição entre o movimento e o ato de pairar destaca-se pela ênfase
dada ao verbo como vocábulo introdutor, sobre o qual recai a ação e o
significado. O único ser que paira é o beija-flor. Seria assim que o eu
poético sentia-se? Frágil, mas, intrepidamente capaz de abandonar o doce
da flor e aventurar-se noutra dimensão.
No oxímoro “loucura/lúcida”, há todo um procedimento lúdico com
as palavras, mostrando que a poesia é capaz de “alucinar” o eu-lírico,
justamente pela sua força estranha e poderosa, sendo capaz de
proporcionar, ao poeta e ao leitor, cintilantes momentos de diálogo. A
palavra poética tem toda uma magia que transcende a expressão comum.
Os versos do poema convergem para um centro comum, pois ocorre de
forma figurada a analogia entre a existência humana e o jogo. No texto, o
jogo com as palavras funciona como um mergulho no desconhecido:
busca de existência. “Loucura lúcida” é um poema que trata da literatura
em si mesma, transformando o poema numa reflexão sobre ele próprio,
ou seja, numa linguagem sobre a linguagem. Ou dito de outra forma, o
poeta converte a linguagem num “instrumento de indagação e crítica de
si mesma, e, ao mesmo tempo, da própria realidade, tornando o discurso
literário também um registro de perplexidades metafísicas”28.
A poética kolodyana converge para o mundo ilusório, numa atitude
lúdica e lúcida da construção literária, pois o jogo é capaz de instaurar
um mundo extraordinário. No instante em que a linguagem deixa de se
referir a um objeto diferente dela própria, para se “encaracolar sobre si
mesma”, deixando aflorar o jogo literário, é quase sempre “o momento
da substituição dos códigos estabelecidos, das convenções dominantes,
ou seja, é o momento ambíguo, de destruição e construção; apocalíptico
e cosmogônico, a um só começo. À beira do impasse e do recomeço”29.
Ant onio Donizet i da Cruz R 195

A poiesis kolodyana pode ser comparada a um “árduo ofício”, que


exige perseverança e labor por parte do poeta, em versos que condensam
uma multiplicidade de sentidos, numa linguagem lúdica:

Pérola

Áspero grão de sofrimento


molesta a branda consistência
da alma do artista.

Verte luar a alma ferida


e veste a dor de opalescência:
30
gera o poema.

Pela passagem, percebe-se que o fazer poético, enquanto ato


inventivo, é gerado a partir de uma inquietação, uma agitação interior do
eu-lírico. O sujeito poético compara o ato criador do poema com a
formação da pérola. Nesse breve poema, com seus versos livres, nota-se
a síntese poética: força capaz de dinamizar o pensamento e de dar sentido
à criação do poema. Na redescoberta da condição humana, a certeza de
que o poema é resultado de uma expressão vivencial superada pelo
sofrimento e pela dor, ou seja, a tarefa nomeadora em que o sujeito poético
realiza um embate com as palavras até gerar o poema. A imagem da
alma (metáfora do eu), com seus indícios flutuantes: “a branda
consistência da alma do artista” e “verte luar a alma ferida”, aponta para
a superação da dor. Nesse sentido, o poeta, através do seu impulso criador,
transfigura os sofrimentos ao elaborar uma linguagem poética cuja
contemplação da vida e do mundo se transmuda em poesia.
Os versos revelam que a poiesis não é algo gratuito, dado pelo
acaso. Nesse sentido, Kolody observa que, “junto com a alegria de criar,
existe a agonia de perseguir o inatingível31.
Na obra kolodyana, verifica-se que a atividade poética e a atividade
reflexiva são inseparáveis. Kolody é “poeta artesã”, no sentido a que se refere
Dufrenne, no qual o poeta “encarna a linguagem” em seu trabalho laborioso
realizando um fazer poético centrado no “destino da linguagem”. Ao mesmo
tempo, ele tem consciência de que “através da linguagem, pelas relações en-
tre o homem e o mundo: sua operação o transcende e o associa ao sagrado”32.
196 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

Ou seja, a poeta está sempre fazendo e reelaborando seus textos, considerando


que “fazer é sempre desfazer e refazer, e antes de tudo julgar: na medida em
que compõe, o poeta é seu primeiro leitor e abre caminho aos outros”33. Ela
é, também, “poeta inspirada”, não no sentido de “receber as musas”. Se as
há, são as “remendonas”, como bem afirma Kolody. Note-se que ela realiza
um trabalho aprimorado com a linguagem e com as palavras. O poema não
surge de um passe de mágica, é antes esforço concentrado, em que a poeta
alia o momento nascente do poema com o rigor e a precisão da criação
poética. Para Dufrenne, não há como separar inspiração e trabalho, quer
dizer: “o trabalho explora a inspiração, é propriamente ele que é inspirado.
Se a inspiração fosse uma graça de instantes, se não acompanhasse o trabalho
paciente, nada seria: um relâmpago na noite, uma ilusão...”34.
Dessa forma, nota-se na poesia de Kolody as operacionalizações da
linguagem. No poema dístico “Criação” ocorre os efeitos momentâneos da
criação poética, que sintetizam todo um pensamento reflexivo em relação ao
fazer poético:

Criação

Martírio transpassado de alegria,


35
inefável agonia de criar!

O ato criador aparece com o jogo da antítese martírio/alegria. O


fazer poético é um processo que exige concentração e acima de tudo
sacrifício, pois na dicotomia dor/prazer reside a construção do poema.
Assim, a poesia pode ser também pura invenção de um sujeito que é
capaz de perceber o brilho da luz cheia clareando seu corpo.
O fazer poético, que finaliza o poema acima, amplia-se para dar à
natureza o dom de “inventar” um mar, nos versos do poema dístico,
inédito, intitulado:

Artista

O vento inventa o mar


36
nos trigais adolescentes
Ant onio Donizet i da Cruz R 197

A poeta compara a criação do poema com a imagem do vento. Está


atenta, observa a natureza. A ondulação do vento no dourado do trigal,
lembra o movimento do mar.
Da imaginação do poeta surge uma linguagem metafórica, lúdica,
como nos versos do poema dístico (inédito) abaixo, no qual a continuidade
da ação de inventar, já explorada no poema anterior, repete-se:

Num jogo de “faz-de-conta”,


37
O poeta inventa a vida.

A imagem do poeta inventor se destaca no texto. Entre a realidade,


fantasias, imaginações e simulacros, o poeta, instaurador de sentidos, é
capaz de jogar com as palavras e fazer com que a vida tenha seus
momentos de revelações e fluidez natural. Daí a poesia ser invenção,
espaço imaginário e concentração verbal. Aqui o simulacro ganha forma
na articulação do fazer enquanto jogo e criação. “Inventar a vida” é uma
forma de dar presença às coisas mais singelas e concretas. O ato criativo
do poeta se edifica em torno da imagem “do jogo de ‘faz-de-conta’”.
Reinventar a vida através do mundo da linguagem é tarefa nem sempre
fácil ao poeta. Um dos artifícios da criação verbal é a simulação do real.
A poesia auxilia o homem no esclarecimento de uma das questões
psicológicas mais relevantes: “a determinação do seu próprio ser”38.
Indubitavelmente, o minúsculo poema de Kolody apresenta um sentido
vital no que diz respeito ao fazer poético relacionado ao jogo: “poesia-
invenção” que veicula o máximo de informação em um número restrito
de palavras.
No texto “Invenção”, com seus versos metafóricos, nota-se que o
sujeito lírico é capaz de inventar uma “lua cheia”. O eu-lírico salienta
que o fazer poético é puro engenho criativo:

Invenção
1989

Invento uma lua cheia.


39
Clareia a noite em mim.
198 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

Para o poeta, inventar é uma maneira de instaurar um diálogo do


eu com o mundo. O ato de inventar um farol para iluminar a noite inte-
rior, através de “uma lua cheia”, indica, de antemão, um dos traços
característicos da poeta: a criação literária enquanto jogo de palavras, ou
seja, o ato poético implica sempre o plano ontológico, tendo em vista a
essência das coisas.
“Rodeio”, poema dístico, apresenta a luta incessante do sujeito
lírico com as palavras:

RODEIO

Travo um combate sem tréguas


40
com palavras indomáveis.

Os versos revelam que as palavras tomam forma e proporções ao


ponto de se tornarem fortes oponentes. Ao poeta cabe a tarefa de
remodelá-las, de resistir à luta e transformá-las de pedra bruta em
“brilhante”. A palavra é elemento essencial, vital, que tem o poder de
imortalizar o momento. No dizer de Helena Kolody: “É a palavra que
aprisiona o fugitivo instante e impede que ele mergulhe, para sempre, no
esquecimento”41. A palavra é força que redimensiona o querer do poeta.
Através de sua imaginação criadora, ele constrói um mundo de sentidos,
com palavras que se interligam e apontam para o caráter efêmero da
vida, como no texto inédito, intitulado:

A palavra

Potro selvagem
Leva-nos, às vezes, à revelia,
42
por veredas desconhecidas.

A temática da palavra como sujeito capaz de ação e de


transformação, reafirma-se no delinear da imagem “potro selvagem”
(metáfora de palavra como um ser rebelde), que é articulada por meio de
uma linguagem lúcida, que direciona para a relação do poeta com o objeto
verbal, o poema. Ao mesmo tempo, tal como o potro que pode ir a
caminhos desconhecidos, também a poesia pode conduzir e despertar
Ant onio Donizet i da Cruz R 199

no poeta/leitor o fascínio e a revelação das palavras. No texto, predominam


as vogais /a/ e /e/, que do ponto de vista acústico são ondas periódicas,
compostas de movimentos regulares. As reiterações das vogais e
consoantes dão uma singular sonoridade e cadência aos versos.
O haicai “Alquimia”, com seu caráter ideográfico expandido, aponta
para o caráter revelador da poesia:

Alquimia

Nas mãos inspiradas


nascem antigas palavras
43
com novo matiz.

Esse é mais um texto kolodyano a afirmar o poder das palavras e


jogo metafórico da linguagem. Nos versos do poema, o sintagma “mãos
inspiradas” remete ao esforço do poeta perante o fazer poético. Esta
metáfora aponta para o trabalho do poeta, cujo ofício é ser intérprete da
consciência e vivências humanas. Aqui o artesão se apresenta
objetivamente. A mão (metonímia de corpo) reconduz para o ato criador
do poeta na tarefa de dar forma e sentidos à vida. No eixo sintagmático,
a sonoridade rítmica fica patente: “mãos inspiradas”; “antigas palavras”
e “novo matiz”. Já os vocábulos no eixo paradigmático são apresentados
pelas palavras: “mãos”, “palavras” e “matiz”. O trabalho da criação
poética reside em o poeta dar novo matiz às antigas palavras, como no
poema dístico, em que o eu-lírico declara:

Poeta

O poeta nasce no poema,


44
inventa-se em palavras.

O poeta “inventor” é capaz de dar sentido a tudo que toca. No


momento da criação o poeta deixa aflorar à consciência, como parte mais
secreta, sua maneira de ver e de dar sentido às coisas e à vida. Aí está a
essência do fazer poético: transformar o poema em mediador da relação
entre o eu e o mundo. Os versos desse poema dístico transmitem uma
carga de sentidos estritamente peculiar, comprovando que “as palavras”
200 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

mostram que a linguagem é uma condição da existência humana e não


apenas um objeto, um organismo ou um sistema puramente convencional
de signos, os quais se pode aceitar ou rejeitar. Nesse sentido, Octavio
Paz afirma que “a palavra é o próprio homem. Somos feitos de palavras.
Elas são nossa única realidade ou, pelo menos, o único testamento de
nossa realidade”45. Já o ritmo do poema é marcado pelo uso reiterativo
de certas sequências de sílabas: as assonâncias das vogais /a/, /e/ e /o/ e,
também, pelas aliterações /t/, /n/, /v/ e, pela consoante /p/ nas palavras
“poeta”, “poema” e “palavras”, que convergem a um campo semântico
similar.
O poema “Captura”, com seus três versos, expressa toda uma
associação imagética revelando as magias que há nas palavras:

CAPTURA

Ao dizer PÁSSARO
sinto a palavra fremir,
46
alada e prisioneira.

O poder da palavra fascina o sujeito poético, pois ela é capaz de


agitar o “eu”, a consciência do poeta. O signo “pássaro”, em versais,
remete às palavras “alada” e “prisioneira”, pautadas no jogo da antítese.
O ânimo que a poesia empresta à palavra, se revela nas características de
pássaro, pois, embora alada, ela fica retida, até que num sopro articulado,
ganha o espaço e adquire vida própria no mundo dos significados.
A temática da palavra como ser animado e livre, após a eclosão,
ganha novos elementos, isto é, sentimentos de posse e de perda no poema
“Pássaros libertos” e expressa todo um conceito em relação à palavra e
ao poema, que uma vez criado ganha independência:

pássaros libertos

Palavras são pássaros.


Voaram!
47
Não nos pertencem mais.
Ant onio Donizet i da Cruz R 201

É um texto que aborda o fazer poético, explicando a relação poesia/


linguagem. A palavra “pássaro”, nos versos, simboliza o poema ou a
palavra poética, cuja associação imagética justifica-se pelo fato de o
pássaro e outros seres alados simbolizarem a “espiritualização”. O
vocábulo “pássaros” associado a “palavras” refere-se, também, ao fazer
poético, ou seja, uma vez capturadas, elas deixam de pertencer ao poeta.
O título “Pássaros libertos” apresenta toda uma correspondência de
sentido com a recepção do poema por parte do leitor. O poeta sabe que
depois que escreve, a razão de ser do poema é o leitor.
No poema “Jardim”, o processo dinâmico de troca entre o poeta e
sua ação criadora se destaca através dos diferentes desempenhos que o
mesmo poema assume em diferentes momentos. A temática da sucessão
cíclica aparece em duas versões, as quais estão ilustrativamente expressas
assim:

Jardim

Sonambulamente,
apanho um punhado
de escuras palavras
e espalho nas leiras
que o lúcido sonho
arou na emoção.

Se a estranha semente
cai no solo exato,
brotam-lhe raízes,
cresce em permanência,
como ser vivente.48
202 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

O poeta é comparado ao jardineiro que faz de seu ofício um


momento de “atração-sedução” perante o exercício poético. Com sua
capacidade criadora, o sujeito poético dá sentido ao ato de criação. As
palavras que o poeta colhe já estavam plantadas, ele só tem o trabalho de
escolher e de dar novos sentidos, revitalizando as palavras já gastas.
Na segunda versão, o poema com o mesmo título, “Jardim”, é
reescrito de forma que amplia a atuação do jardineiro: “Cultivo um jardim
Ant onio Donizet i da Cruz R 203

de palavras. // Apanho um punhado / de vivas sementes / no escuro celeiro


/ do vocabulário / e espalho nos sulcos / que o sonho acordado / abriu na
emoção. // Se a palavra é exata, / põe-se a germinar, / brotam-lhe raízes,
/ cresce em permanência, /como um ser vivente.”:49
204 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

A palavra enquanto signo aparece de maneira nítida nas duas


estrofes. Na primeira, o sujeito apenas colhe as flores plantadas no solo
arado pelo sonho no domínio da emoção. Na segunda, ele cultiva vivas
sementes do vocabulário que o sonho acordado abriu na emoção. De
forma que o sujeito é mais atuante e mais seletivo nas escolhas das
“flores” que compõem o segundo ramalhete.
Os dois poemas comprovam os constantes “burilamentos” com
que Kolody tem realizado uma poesia centrada na elaboração cuidadosa
da linguagem.
O tanka intitulado “Aquarela”, a seguir, apresenta marcas da rica
imaginação da poeta ao elaborar a linguagem e dar contornos às imagens,
integrando-as de forma harmoniosa: “Sol de primavera. / Céu azul, jardim
em flor. / Riso de crianças. / Na pauta de fios elétricos, / uma escala de
andorinhas.”50:

A conjugação vital integrada aos elementos da natureza direciona


para uma permanente renovação cíclica da vida. No “âmago” do poema,
destaca-se o verso “riso de criança”, que simboliza a espontaneidade, a
simplicidade natural. As imagens visuais relacionadas à estação da
Ant onio Donizet i da Cruz R 205

primavera se destacam nos três primeiros versos. Os versos são marcados


pela justaposição. Na última estrofe, o vocábulo “andorinhas” remete de
imediato à referida estação. As palavras do mesmo campo semântico
são escolhas motivadas e intencionais por parte da poeta.
O poema teve sua primeira versão em 1967, quando a poeta o
intitulou “Notação”, com os seguintes versos: “A primavera escreveu,
de súbito, / Uma escala de andorinhas / na pauta de fios elétricos.”51:

Observe-se que somente em 1988, Kolody dá uma nova versão a


sua “experimentação”, com o título “Música viva”: “Vibrou / uma escala
de andorinhas / na pauta de fios elétricos.”52:
206 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

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Ant onio Donizet i da Cruz R 207

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Nesta segunda versão, já se verifica uma condensação do texto.


Note-se, entretanto, que na década de 90, ele será transformado no tanka
“Aquarela”, acima apresentado, que faz parte da obra Reika. A simples
mudança dos versos finais direcionam para um novo sentido e dão mais
musicalidade ao poema.
Cumpre destacar que o projeto do livro Reika (composto por tankas
e haicais) já era anterior à outorga recebida por Helena Kolody em 1993,
ou seja, os poemas que fazem parte desta obra já estavam sendo escritos
208 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

na década de 80 e mesmo nas anteriores, conforme pode ser comprovado


com o haicai intitulado “Noite”, já apresentados em momentos anteriores.
Um outro haicai ilustrativo desta questão é “Flecha de sol”, da
obra Reika:

Flecha de sol

A flecha de sol
pinta estrelas na vidraça.
53
Despede-se o dia.

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Ant onio Donizet i da Cruz R 209

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A sutileza das imagens, o registro do instantâneo, o encadeamento


dos dois primeiros versos, a duplicidade (reflexo das estrelas na vidraça),
a imagem da “flecha de sol” e do dia que finda, são artifícios da linguagem
e da imaginação de Kolody, ao construir o minúsculo haicai, que traz o
máximo de informação e criatividade em três versos. A imaginação é o
suporte da construção textual e a marca de um pensamento capaz de
reinventar a linguagem.
210 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

A primeira variante deste haicai é escrita em 1988, e que já aparece


com o mesmo título: “sobe a noite dos vales. // Súbita flecha de sol /
incendeia as nuvens, / põe estrelas nas vidraças, /retarda o anoitecer.54:

Note-se a condensação do texto realizada por Kolody. Cumpre


destacar que, em 1991, o referido haicai aparece com uma pequena
variação da que se encontra na obra Reika, o sintagma “estrelas nas
vidraças” está no plural. Em vários momentos, Kolody (re)elabora o haicai
Ant onio Donizet i da Cruz R 211

e faz mudanças precisas, suprimindo palavras e versos, acrescentando


sinônimos, isto é, na busca da palavra “exata”, o poeta faz do ato criador
um procedimento constante por meio do qual “o artista aproxima-se de
seu projeto poético”55, tal como afirma Cecília Almeida Salles. Ainda no
dizer da autora, o ato criador, enquanto processo,

está inserido no espectro da continuidade; desse modo, a obra desenvolve-


se ao mesmo tempo em que é executada. Tratando-se de um processo
contínuo, a possibilidade de variação é permanente; assim, precisão
absoluta é impossível. A obra está em estado permanente de mutação,
refazendo-se ou talvez fazendo-se, já que cada versão é uma possível
obra. É a criação sempre em processo.56

Consoante as palavras da autora, frente às permanentes “testagens


que as versões da obra concretizam, encontramos diferentes universos
coexistindo ao longo do processo. Formas que podem ser obras, outras
que serão metamorfoseadas. A fragilidade e a vagueza iniciais ganham
algum tipo de consistência”57. Destarte, o poeta dá contornos diferentes
ao seu produto, cujas alterações são realizadas tendo em vista a coerência
interna que ocorre ao longo do percurso de “experimentação” e elaboração
do processo de construção da obra literária.
Em relação ao percurso poético criativo de Helena Kolody, Soraya
Rozana Sartorelli salienta que ele está interligado ao

seu esforço obstinado em busca de um lento esclarecimento que nunca


se dará por completo. Isso porque o seu processo de criação tem uma
tendência, um rumo que não deixa o trabalho parar, que é o de atingir o
sonho por meio de poucas e exatas palavras. Como esse objetivo nunca
se realizará completamente, a busca pelo pássaro inatingível – a palavra
– é um processo incessante e recursivo.58

Nessa linha de pensamento, a poiesis kolodyana funciona como


uma busca permanente. Sua poesia centraliza-se nos artifícios da
construção poética: arquitetura das palavras, operação alquímica. Kolody
realiza uma lírica fundamentada no “depuramento” da matéria verbal,
capaz de transcender a expressão comum. Assim,
212 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

Falar é um perigo:
desvela e revela,
59
partilha o particular.

Para o sujeito lírico é pelo ato da linguagem, especialmente através


da fala que o homem se revela. Escrever é sempre um risco, pois através
da fala desvela-se o ser e as coisas. Através das palavras – comunhão e
partilha – é possível desvendar as coisas mais íntimas, latentes.
Na obra kolodyana há toda uma preocupação do sujeito poético no
sentido de elaboração constante com a linguagem e a invenção de um
“corpo” e de um “espaço”. O ato de escrever é conquista, fruto de um
trabalho lento e árduo, que requer do poeta muita concentração. Na luta
com as palavras e do confronto do silêncio e do branco da página, ele se
vê frente ao jogo imaginativo da busca de realização.
Operador de enigmas, o poeta faz da linguagem um espelho de
dupla face: de um lado a palavra e do outro o silêncio. Na conjugação das
formas dialéticas ele constrói o universo imaginário em que é possível a
realização, daí a linguagem do poema estar nele e somente nele se revelar.
Quer dizer, “a revelação poética pressupõe uma busca interior. Busca
que em nada se assemelha à análise ou à introspecção, mais que busca,
atividade psíquica capaz de provocar a passividade propícia ao surgimento
de imagens”60.
No poema “Não era isso”, o eu-lírico sabe de sua incapacidade de
expressar a essência da linguagem, ao dizer,

NÃO ERA ISSO

Não.
Não era isso.

O que eu queria dizer


era tão alto
e tão longe
que nem consegui soletrar
61
suas palavras-estrelas.
Ant onio Donizet i da Cruz R 213

Os versos sugerem que por mais que o eu “cante as palavras da


canção”, sempre falta algo que poderia ser dito, pois a não-completude e
a insatisfação fazem parte da vida humana. Já o paralelismo é um
procedimento poético cuja organização estrutural dá uma cadência sonora
e reiterativa ao poema, tal como nos versos: “era tão alto”, “e tão longe”.
A anáfora, no primeiro verso, se destaca pelo seu caráter reiterativo e
pelo uso do advérbio de negação. O eu-lírico afirma sua “impotência”
perante a linguagem.
Impotente e fragilizado, o poeta revela a sua luta com as palavras
na tentativa de expressar a palavra mais fecunda e essencial, como nos
versos “Não./ Não era isso.”. Mas quem é o poeta? – esse “legislador
desconhecido do mundo” – no dizer de Percey B. Shelley. A poeta Adélia
Maria Woellner62, com seu poema que aponta para a resposta:

Poeta

Poema inteiro
é o Universo.

Poeta?
É o clandestino da poesia,
que se contenta
63
com pequenas viagens.

Assim, é no “uni-verso da linguagem” que o poeta consegue se


afirmar e registrar seu “estar no mundo” e sua maneira de ser e de ver as
coisas.
Os poemas de Kolody revelam um fazer poético em que aparece de
maneira nítida o limite entre o sujeito e seu objeto de criação: o poema.
Verifica-se também a expressão suave das palavras que rompem do branco
da página, transformando-se em “flor de poema”. Nesse sentido, Rosa
observa que, por meio da linguagem, o poeta preserva o ser, pois o que
ele realmente sente não é, de maneira alguma, um conhecimento prévio,
o passado, o já realizado, mas um mundo que, por meio da ação, “o
poeta exerce sobre a linguagem e, reciprocamente, da linguagem sobre o
poeta, se constitui, revelando a potencialidade infinita, um novo modo
de ser aberto ao futuro”64.
214 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

No poema “Dom”, as afirmativas acima podem ser verificadas.


Nos versos, Kolody sintetiza as aspirações mais puras de realização ou
não-realização dos ideais que cada ser humano busca atingir. No dizer
do eu-lírico:

DOM

Deus dá a todos uma estrela.


Uns fazem da estrela um sol.
65
Outros nem conseguem vê-la.

Na passagem, fica projetada a questão da religiosidade e gratuidade


do “dom” que cada um recebe. O sucesso depende do esforço e da
efetivação do “fazer”, de transformar “a estrela” em “sol” (concretização
de um ideal, de um sonho almejado). Se há os que conseguem suplantar
os problemas e vicissitudes da vida, há os que ficam à “margem” da
vida, ou seja, nem todos aproveitam esse dom recebido.
Em relação à gênese do poema “Dom”, Helena Kolody declara que,
“quando este poema nasceu, era só o primeiro verso. Dormiu dois anos
na minha ‘gaveta de sapateiro’, onde guardo alguma coisa que aparece.
Guardei e esqueci. Mais tarde, eu o retomei, experimentei até chegar ao
que é hoje”66. Comentando o mesmo poema, em “Diálogo” (entrevista
com Paulo Venturelli), Kolody afirma:

Há dois anos de intervalo entre o primeiro verso e os outros [...].


Enquanto isso houve uma celebração inconsciente. Quando mais tarde
eu o retomei, percebi o que estava evidente: nem todos vêem a sua
estrela. Então trabalhei a ideia. E acabei fazendo o segundo verso assim.
Uns fazem dela..., mas não gostei do ‘faz dela’. Precisava experimentar
outras fórmulas e cheguei a este resultado que é o poema como temos
hoje. Mas eu nunca fico satisfeita com o que faço e estou sempre
aprimorando.67

A “experimentação”, na poesia kolodyana, é um processo contínuo.


O procedimento “composicional” de Kolody aproxima-se, e muito, do
que Gilberto Mendonça Teles afirma a respeito do sentido da
experimentação na obra de Manuel Bandeira: “O seu processo de
experimentação se dá por dentro da linguagem, sem romper com as
Ant onio Donizet i da Cruz R 215

estruturas sintáticas, sem recorrer a signos não linguísticos, tudo dentro


da possibilidade do idioma”68. A afirmativa de Teles remete ao pensamento
de Paul Valéry, ao dizer que “o poeta consagra-se e consome-se, portanto,
em definir e construir uma linguagem dentro da linguagem”69.
A experimentação linguística também se concretiza na obra de
Helena Kolody. Na luta com as palavras, ela elabora uma poética centrada
na força da linguagem. Nesta perspectiva, pode-se dizer que os poemas
kolodyanos refletem – como bem afirma Octavio Paz ao definir poema –
“a solidariedade das ‘dez mil coisas que compõem o universo’, como
diziam os antigos chineses”70. De acordo com Paz, o mundo de operação
do pensamento poético é a imaginação, e esta consiste, essencialmente,
na faculdade de relacionar realidades contrárias ou dessemelhanças, ou
seja,

Todas as formas poéticas e figuras de linguagem têm um traço em


comum: procuram e, com frequência, descobrem semelhanças ocultas
entre objetos diferentes. Nos casos mais extremos, unem os opostos.
Comparações, analogias, metáforas, metonímias e os demais recursos
da poesia: todos tendem a produzir imagens nas quais se juntam isto e
aquilo, o um e o outro, os muitos e o uno. A operação poética concebe
a linguagem como um universo animado, perpassado por uma dupla
corrente de atração e repulsão.71

Sob este ponto de vista, o pensamento poético ocupa um lugar


especial no que se refere ao ato criador, pois o poeta sabe que sua tarefa
é árdua no sentido de elaborar uma poesia centrada nos jogos e artifícios
da linguagem.
As afirmações de Paz podem ser verificadas na poesia de Helena
Kolody, na qual se reproduzem os questionamentos, os conflitos, as
ligações, os anseios, os amores e as separações, as duplicidades, os
desdobramentos, os conflitos do eu versus mundo, com uma linguagem
comunicativa, essencial, instauradora de “mundos possíveis”. Seus
poemas – cosmos animados – apresentam uma variedade de temas,
formas e ideias que veiculam uma multiplicidade de imagens, símbolos
e signos, que revelam uma poesia que é antes de tudo diálogo,
comunicação e linguagem viva. Pelos tênues fios de um lirismo
216 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

contagiante e singelo, a poeta conjuga uma poesia com “traços rápidos”


e concisa.
A poesia kolodyana reside na busca memorável e densa das palavras
e na concretização de um fazer poético enquanto “felicidade da expressão
verbal”, no dizer de Calvino, que pode efetivar-se mediante “uma
fulguração repentina”, em alguns casos, mas na maioria das vezes, tal
processo implica sempre em “uma paciente procura do mot juste, da
frase em que todos os elementos são insubstituíveis, do encontro de
sons e conceitos que sejam os mais eficazes e densos de significado”72.
O fazer poético de Kolody está embasado, essencialmente, na procura da
palavra exata para efetivar a comunicabilidade lírica.
Os versos singelos do poema “Esboço” da poeta Lila Ripoll 73
apresentam pinceladas leves, rápidas, com um lirismo intenso:

Esboço

Um leve traço
de luz, ligeiro.
Um sol escasso,
74
meu rosto inteiro.

Tal como o rosto que se mostra por inteiro, a poesia é força


transformadora e energia vital.
A poesia de Kolody é marcada pela rapidez, pelos traços ligeiros,
que revelam a exaltação intensa da vida e a constante interrogação do
sentido da vida. Já o ato criador é uma luta de corpo a corpo com as
palavras em que a poeta se dedica sem tréguas ao seu ofício de lapidar
as palavras e, ao mesmo tempo, constrói uma sólida arquitetura do
poema com “palavras indomáveis”, como diz Kolody. Através do fazer
poético e da força das palavras, ela realiza o poema – ser de palavras –
enquanto experiência humana concreta de busca de liberdade e revelação.
Já o torneio coloquial e semântico revela o poder de nomeação da
linguagem, cuja síntese perfeita, baseia-se no jogo de palavras. Por isso,
o poema é sempre um convite à participação do leitor.
O fazer poético kolodyano, sob a perspectiva de como Helena
Kolody interpreta sua poiesis e como ela define a poesia em conformidade
com seus textos, não fica somente em nível da inspiração. Após compor
Ant onio Donizet i da Cruz R 217

o poema, a poeta se torna leitora e crítica, burilando, reescrevendo o


texto, enxugando-o e travando um combate com as palavras, até atingir
a síntese, “expressando o máximo no mínimo”. Também são apresentados
poemas em que aparecem de maneira nítida a metapoesia, isto é, a poeta
articulando a linguagem e expressando sua maneira de ver a poesia, de
dialogar e interpretar esse mundo organizado, cuja arte se centraliza na
beleza e na elaboração precisa da linguagem.

4.2 A construção poética e o projeto estético kolodyano

gestação

Do longo sono secreto


na entranha escura da terra,
o carbono acorda diamante.

Helena Kolody (SP, p. 39)

A literatura faz parte de uma constelação sincrônica de obras que


se interligam tal como o emaranhado de uma rede. Sendo assim, qualquer
elemento material que entre no sistema literário transforma-se em função
que integra os outros elementos através da construção artística. A
literatura está ligada à história. Não é possível entendê-la desvinculada
do contexto integral de toda a cultura de uma determinada época.
Para Iuri Tinianov, a história da literatura – que traz à luz o caráter
de uma obra literária e dos seus fatores – é como uma espécie de
“arqueologia dinâmica”. O autor vê a obra de arte como uma combinação
complexa de numerosos fatores. Já os períodos, no desenvolvimento da
poesia, ocorrem, evidentemente, segundo uma certa alternância,
caracterizando-se ora por prevalecer o aspecto acrítico na criação poética,
ora por enfatizar outros componentes do verso, passando a um segundo
plano, períodos nos quais prevalece o elemento acústico75. É mediante a
essa multiplicidade de ocorrências que a literatura se configura no amplo
quadro da arte e da vida.
Segundo Mikhail M. Bakhtin, a contemporaneidade conserva sua
importância decisiva: sem ela não existiria a obra em si mesma. A obra
literária revela-se, principalmente, na unidade diferenciada da cultura da
218 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

época de sua criação, mas não se pode aprisioná-la dentro dessa época:
sua plenitude apenas mostra-se tão somente na grande temporalidade76.
Consoante ao pensamento de Bakhtin, todo poeta, escritor, criador, por
mais criativo que seja, é sempre “fruto” de sua época. A obra literária
constitui um processo consecutivo em que as novas formas, por mais
inusitadas que sejam, se apóiam nas precedentes.
As afirmativas de Bakthin revelam a literatura como um fenômeno
de múltiplas “faces” e complexo. Muitas vezes os “processos literários”
de uma determinada época, com suas análises e estudos de correntes
literárias ficam reduzidos, em alguns trabalhos, a uma visão superfi-
cial das correntes literárias, e quando se trata dos tempos modernos (de
maneira particular do século XIX), as “profundas e poderosas” correntes
da cultura (em especial, as populares), que efetivamente determinam a
obra dos escritores, permanecem ocultas77. Conforme Bakhtin, os críticos,
geralmente, se esforçam por explicar um escritor e sua obra a partir de
sua contemporaneidade e de seu passado próximo (geralmente inseridos
nos limites de “época”). Entretanto, às vezes, é preciso um afastamento
no tempo, em relação ao fenômeno estudado, pelo fato de a obra ter,
muitas vezes, suas raízes num passado longínquo. As grandes obras
literárias preparam-se durante séculos e, na época de sua criação, apenas
recolhem os frutos de uma prolongada e complexa gestação. No dizer do
autor, a obra não pode sobreviver nos séculos futuros se não recolhe
dentro de si, de alguma maneira, também, os séculos passados. Tudo o
que pertencer apenas ao presente morre com ele. Bakhtin assinala que
Belinski já afirmava em seu tempo sobre o fato de que “cada época sempre
descobre algo novo nas grandes obras do passado”78.
O significado da produção literária, a reação do material escrito
com sua época, a intemporalidade da obra de arte se imbricam e tomam
formas a partir de uma tomada de consciência por parte do artista,
fundamentada na questão estética tendo como eixo norteador da relação
do eu com o mundo. Nessa perspectiva, a história está interligada à vida
e ao fazer poético, uma vez que a produção literária se insere no campo
da história literária.
Em relação ao processo histórico da literatura no Paraná, Marilda
Binder Samways, em Introdução à literatura paranaense79, afirma que a
bibliografia sobre a matéria historiográfica paranaense é escassa e são
Ant onio Donizet i da Cruz R 219

poucos os autores, tais como Octávio de Sá Barreto e Erasmo Pilotto,


que delinearam uma proposta no que tange à questão do estabelecimento
do processo literário no Paraná. Para Samways, Joaquim – revista
publicada em 1946, pelos diretores Dalton Trevisan, Antônio Walger e
Erasmo Pilotto – é o ponto culminante no processo histórico da literatura
paranaense. Para a autora, é difícil imaginar a nova geração de escritores
paranaenses desconhecendo o papel histórico de Erasmo Pilotto, Dalton
Trevisan, Rodrigo Júnior, Helena Kolody e tantos outros construtores da
herança cultural paranaense80.
O movimento modernista, em nível nacional, legou à poesia
brasileira o verso livre, a “liberdade de linguagem” sem estar presa às
regras da gramática e da retórica, o humor, a naturalidade e a sinceridade
de expressão, uma maior “humanização” através do aproveitamento lírico
do cotidiano. Helena Kolody é uma representante em potencial dessas
tendências, uma leitora da tradição brasileira, européia e oriental e,
ainda, uma observadora atenciosa do falar coloquial, das coisas simples,
mas essenciais que, através do verso livre, ganham expressão. Kolody
reflete muito sobre a poesia e o fazer poético. Tendo optado pelo verso
livre, suas fontes são, todavia, a lírica de Fernando Pessoa, Camões, a
poesia de Rabindranath Tagore, a poesia de Cecília Meireles, entre outros.
A presença do Oriente em sua poesia, deve-se, no dizer de Kolody, às
suas leituras “prediletas”, em sua juventude, das obras de Tagore. “Talvez
aí também esteja a influência do meu sangue eslavo, porque esse pessoal
é muito místico. Eu sou de origem ucraniana, mas li mais os orientais do
que propriamente os ucranianos. Vejo que a espiritualidade de Tagore me
marcou muito”, afirma Kolody81.
Na base da criação kolodyana estão o senso de trabalho poético e
a noção de ritmo, entre outros procedimentos. Optar pelo verso livre, no
final da década de 30 e início da de 40, quando começa a escrever e
publicar, enquanto boa parte da poesia escrita no Paraná se resumia à
arte poética metrificada e do soneto, significou para a poeta questionar a
rigidez da métrica parnasiana e, ao mesmo tempo, levar adiante as
pesquisas da musicalidade e do simbolismo brasileiro. Nesse sentido,
nota-se em seus primeiros livros uma maior ênfase na linguagem
simbólica. Grandes nomes da poesia modernista brasileira como Manuel
Bandeira, Cecília Meireles, Ronald de Carvalho, Mario Quintana, entre
220 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

outros, iniciaram suas incursões poéticas compondo versos com


influências simbolistas. Kolody também vivenciou estas experiências.
Dessa forma, assumir o verso livre foi para ela uma maneira de refletir
sobre o que pode haver de trabalho efetivamente poético, ou seja, que
vai além das simples resposta a imposição e regras dos versos
metrificados. Afirma Helena Kolody:

Venho de um tempo em que a poesia era rigorosamente metrificada, do


tempo do soneto, embora sempre procurando caminhos novos. Hoje,
meus versos são polimétricos e, ainda, têm ritmo. Embora não pareça,
o verso moderno é muito mais sutil do que o tradicional. Na poesia
moderna, os ritmos são livres, nascidos da ideia a expressar-se; o poema
tem um ritmo interno, ajustado ao corpo da ideia. Esse modo de versejar
não é tão novo como parece. Até os versos da Bíblia são de ritmo leve.82

Assim, na obra kolodyana, nota-se uma firme deliberação por parte


da poeta em não ficar presa a técnicas precedentes. Os textos de Helena
Kolody, estando, muitas vezes, aparentemente calcados no prosaico e no
cotidiano, apresentam uma visão de mundo marcada pela aspiração à
transcendência.
Paisagem interior é uma obra que se insere na estética modernista,
mas nota-se, também, que ela traz marcas daquilo que Fábio Lucas
denomina conexão “simbolismo-modernismo”, pois o modernismo na
literatura brasileira “constitui um prolongamento dentro da corrente
inovadora da literatura brasileira”83. Para o crítico Andrade Muricy, o
modernismo, ao engendrar uma ruptura radical com a tradição,
impregnou-se de tendências e atitudes espirituais que poderiam ser
denominadas de simbolistas Manuel Bandeira, Henrique Lisboa, Jorge
de Lima, Augusto Frederico Schmidt, Guilherme de Almeida, em cuja
poesia se percebe a musicalidade, a expressão diáfana. Também o “Grupo
Festa” se insere no referido quadro, representado pelos escritores Tasso
da Silveira, Cecília Meireles, Murilo Araújo e Andrade Muricy, com uma
poesia em que sobressai a economia dos meios, os contornos intimistas,
a motivação social, entre outros84.
As primeiras obras de Helena Kolody, tais como Paisagem interior,
Música submersa e A sombra no rio, inserem-se na estética modernista
com uma temática acentuada pelo registro do cotidiano, as angústias
Ant onio Donizet i da Cruz R 221

frente à passagem temporal, a valorização do passado, a busca do


subconsciente e do inconsciente. A poeta, por conhecer Tasso da Silveira,
tem contato com a produção literária do grupo Festa, liderado pelo referido
escritor e poeta. O grupo visava, segundo Bella Josef, “redefinir em termos
de reespiritualização, o Modernismo. A poesia passou a ocupar-se dos
conflitos interiores do homem, com seus dramas íntimos, através da
obra de Jorge de Lima, Murilo Mendes e Cecília Meireles”85. A autora
observa ainda:

Da poesia de Mário de Andrade, com seu elogio do sentimento e do


subconsciente, com a valorização do papel desempenhado pela
subjetividade na deformação à obra de arte e a poesia contida e reduzida
ao essencial de Oswald de Andrade, chegou-se, passando por Carlos
Drummond de Andrade na década de 30 à engenharia poética de João
Cabral de Melo Neto e à poesia concreta.86

A concretude do modernismo no processo histórico, segundo Josef,


ocupou um espaço literário acentuado pela visão e adesão ao “hoje”,
dando o devido valor à temática do efêmero e do momento presente.
A busca do essencial, na poesia de Kolody, está centrada na questão
da transcendência e também na prática poética que visa à síntese. Ao
mesmo tempo, em suas produções literárias verificam-se influências de
poetas, de movimentos literários, porém, é importante realçar que a poeta
tem realizado uma trajetória poética sem estar ligada a qualquer grupo
ou corrente literária.
Em relação à estética kolodyana, o escritor Temístocles Linhares
afirma que Helena Kolody é “uma voz que o Brasil precisa ouvir”, pois,

a sua trajetória de poeta já percorreu várias estradas. Não porque tenha


vindo do romantismo, ainda presente em muitos de nossos poetas, ou
porque tenha desembocado em qualquer tipo de poesia de vanguarda.
As suas mudanças têm sido realizadas mais através de suas hesitações
secretas, à custa de muito esforço, com a sua arte reduzida a alguns
raros signos concretos: a estepe que ela não viu, a infância, a solidão, a
voz das raízes, entre outros.87

Para o crítico Hélio C. Teixeira, a mensagem poética de Kolody se


apresenta “atual”, com uma linguagem marcada pela “concisão”. “Até
222 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

mesmo os versos da mocidade da autora já revelam a força de sua


sensibilidade e inspiração”88. O autor salienta que:

A poetisa, tendo recebido influência das diversas escolas ou correntes


literárias, teve o talento de adaptar ao seu artesanato o que lhe pareceu
o melhor dessa influência. Por isso, observamos, na sua coletânea de
produções de várias décadas, os diferentes aspectos de seus nomes,
que revelam ser a poetisa algumas vezes clássica e parnasiana, outras
vezes, lírica e simbolista; e, diversas vezes, moderna, sem adotar, no
entanto, os excessos do modernismo desvairado daqueles que deturparam
o objetivo do movimento de 1922.89

Essas afirmativas dos autores traduzem opiniões relacionadas à


estética kolodyana. Note-se que mais que situar a produção literária de
Kolody dentro de movimentos ou correntes literárias, os críticos observam
que a sua poesia não fica presa às regras e modelos estabelecidos, mas
vai além, pois sua lírica de uma vertente mais universal se encaminha
para a concisão, para a economia dos meios de expressão poética.
Ao observar o conjunto de obra de Kolody, verifica-se a constante
condensação e burilamento da linguagem tendo em vista a síntese do
poema. Se na década de 40 os poemas kolodyanos se “derramavam em
versos longos” na forma do verso livre e com uma aproximação da
linguagem da prosa, esse procedimento justifica-se pelo fato de a poeta
estar conjugando uma poiesis bem aos moldes do movimento modernista
brasileiro. Basta comparar poetas da tradição brasileira dessa década para
notar que são procedimentos estéticos comuns nesse período, tais como
o verso livre, a aproximação com a linguagem em prosa, em que se
conjuga a regularidade e as variações construtivas dos poemas, tendo
em vista os modelos fixos e as formas livres.
Helena Kolody – herdeira da uma tradição modernista e poeta da
modernidade – procura constantemente no quotidiano a matéria de sua
lírica, a realidade entrelaçada à maneira de compor as relações entre poesia
e vida. Em relação ao quotidiano e lírica, Solange Fiuza Cardoso
Yokozawa tece o seguinte registro sobre tal procedimento na obra de
Mario Quintana, assinalando que,
Ant onio Donizet i da Cruz R 223

[...] o poeta não reproduz o olhar automatizado que lançamos sobre a


vida de todo dia. Trata-se de um olhar que reinventa o quotidiano. Nessa
reinvenção, o poeta recorre muita vez ao humor, a uma ironia sutilíssima,
de modo a apresentar uma visão desestabilizadora da vidinha diária
aparentemente estabilizada, das verdades assentadas do senso comum,
ou ainda dos valores estabelecidos pela tradição literária. O quotidiano
também é muita vez reinventado em flagrantes poéticos originais que
lembram os haikus japoneses.90

Assim, pode-se inferir que há, tanto na obra de Kolody quanto na


de Quintana, o olhar projetado no cotidiano e nas suas reinvenções, em
suas transmutações da realidade convertidas em matéria verbal capaz de
refletir e de dar novos direcionamentos à vida e à arte, como bem lembra
Paulo Leminski, ao comparar a obra de Kolody e a de Quintana.
Cumpre lembrar que Kolody, já em sua primeira obra, Paisagem
interior, demonstra uma tendência para a poesia sintética, pois nesta
aparecem três haicais publicados que remetem à “poesia-síntese” de
origem japonesa. Em relação à arte do haicai, Kolody declara:

Os literatos e os críticos simplesmente ignoraram essa poesia que


ninguém, ainda, estava fazendo no Paraná. No entanto, meus alunos,
alunas principalmente, decerto porque eram muito jovens, e os jovens
adoram novidades, gostaram muito. Tanto que a turma de 1943, se não
me engano, ofereceu-me, como presente de aniversário, seis quadros,
em pergaminho, com ilustrações dos três ‘hai-kais’ de Paisagem interior:
três quadros de Guido Viaro e três iluminuras de Garbácio. Meus alunos
sempre amaram minha poesia; divulgaram-na pelo Paraná afora.91

A poeta assinala que a comunicação com outros centros culturais


é por demais relevante. Ela destaca que foi através do Jornal de Letras e
da correspondência com a escritora paulista Fanny Dupré que teve
conhecimento do poema miniatural japonês.
Já os haicais de Kolody registram momentos privilegiados na
percepção da paisagem do mundo e/ou da realidade comum. Os poemas
são marcados pela brevidade e pela concentração intensa de uma
linguagem esteticamente organizada. Neles, a poeta instaura um jogo de
cumplicidades com o leitor. No olhar do poeta e do leitor, a linguagem
ganha contornos e se torna “poesia-revelação”. Nesse sentido, a poesia
224 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

kolodyana opera como “caminho-síntese” de uma tensa jornada em busca


do eu-outro-cosmo. Daí a relação e valorização da natureza circundante
e a serenidade a sublimar. Para a poeta Alice Ruiz, “Helena nos mostra,
como um mestre zen, que a poesia está nas coisas, é só acertar o olhar”,
pois “poesia não é perfumar a flor. Poesia é o perfume da flor. Tal como a
poesia de Helena Kolody”92. Com admiração confessa para sua cúmplice
em poesia, Ruiz declara que recebeu juntamente com Helena Kolody a
outorga de nome haicaísta em 1993. Afirma ainda:

Vivi, com Helena Kolody, a maior homenagem que meu coração de


poeta já recebeu. O nome de haicaísta, tradicionalmente dado pela
comunidade nipônica aos que se destacam nesta poesia, nos foi outorgado
na mesma cerimônia, em 13 de junho de 1993. Talvez, pela primeira
vez, para duas ocidentais. Homenagem ainda maior por ter sido ao lado
de nossa poeta mais amada. Ela, Reika e eu, Yuuka. O Ka dos dois
nomes significa flor. Os prefixos Rei e Yuu são adjetivos/virtudes
específicas da flor. Ambos apontam para formas de grandeza. Superlativos
para quem pratica a poesia mínima. [...] Helena é mestra desta grandeza
desde 1941, quando publicou seus primeiros haikais, até os dias de
hoje, num aperfeiçoamento em que espírito e técnica se fundem para
deixar em nós, definitivamente, o perfume da mais autêntica poesia.93

Em suas três primeiras obras Kolody se encaminha cada vez mais


para a poesia intimista, confessional e auto-indagadora em que predomina
o subjetivismo, a introspecção e o “mergulho” no mundo interior, no
qual o eu-lírico vai se desdobrando em imagens, deixando transparecer
uma consciência de mundo projetada na questão pessoal e social. A
partir de Vida breve verifica-se, ainda mais, a condensação e a
síntese, que será a marca atual de sua poesia, ou seja, ocorre uma
“progressiva essencialização”94 em sua obra, consoante afirmativa de
Andrade Muricy. Em relação a evolução de sua poesia, Helena Kolody
declara:

Minha poesia foi crescendo no sentido da síntese. No meu primeiro


livro há poemas com três páginas, eu me derramava muito nas palavras.
Hoje busco a síntese para traduzir o pensamento. Os meus melhores
livros são aqueles em que digo muito em poucas palavras.95
Ant onio Donizet i da Cruz R 225

Entre os primeiros críticos a apresentar a poesia Helena Kolody


estão Rodrigo Júnior e Andrade Muricy. A poeta teve orientação muito
especial de Andrade Muricy. Ela declara que na sua formação escolar seu
contato era com textos literários simbolistas e parnasianistas, e que
chegou à literatura modernista através da obra A nova literatura brasileira,
de Andrade Muricy. “Por ser amigo de meus amigos, ele me ofereceu o
livro e para mim foi uma descoberta. Eu não conhecia nenhum daqueles
autores, porque nada do que eu lia ia além de Olavo Bilac96”.
Kolody afirma ainda que o crítico Muricy lia seus textos, mas “não
mexia no que a gente escrevia. [...] Uma vez ele me falou: ‘reparei que
você chega mais ao objetivo nos poemas curtos. Você tem talento para a
síntese. Os seus poemas mais breves são os melhores’”97.
Consoante as afirmações de Helena Kolody e a evolução de sua
obra, nota-se que na lírica kolodyana ocorre um “enxugamento” dos
textos, encaminhando-se cada vez mais para um estilo direto,
privilegiando a economia dos meios de expressão. A poeta realiza um
fazer poético marcado por uma linguagem densa, sutil, registrando o
instantâneo, o fugaz e as coisas mais simples. Tal como o tecelão que vai
escolhendo os fios e emaranhando-os no tear, da mesma forma Kolody
constrói seus poemas – tecidos de palavras – com precisão e arte.
Os poemas kolodyanos possuem uma relação de sentido que os
mantêm interligados a uma constante temática: a construção do poema,
o fazer poético e o uso de seu material, discutindo o valor das palavras,
frases, linguagem, as dificuldades encontradas pela poeta na construção
de seus poemas. Nota-se, também, a tentativa de Kolody em transpor
muros e barreiras através do trabalho da linguagem, tendo em vista a
livre expressão de seus anseios e desejos.
Helena Kolody surge para a poesia brasileira na década de 40, com
Paisagem interior (reunião dos textos escritos na década anterior98), numa
época pautada pela desilusão com o presente sem visão de perspectivas,
num contexto social marcado pela falta de liberdade, crises das
democracias liberais, ditadura, tortura, falta de liberdade e pela Segunda
Grande Guerra. É nesse contexto que surge a geração de 45. A poesia
kolodyana, publicada na década de 40, revela uma obra repleta de
símbolos de descrença, mostrando o mundo submerso, a preocupação
com o presente, com a violência de sua época, tal como a II Guerra
226 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

Mundial, que não permitia que os jovens de 45 vivessem


despreocupados. Esse panorama histórico e social sombrio se reflete na
fase inicial da poesia de Kolody.
A escritora Maria Lúcia Pinheiro Sampaio, em História da poesia
modernista, afirma que a geração de 45 nasceu oprimida pelo Estado
Novo, pelas ameaças de prisão, exílio e tortura, desesperançada com a
falta de perspectiva do presente. Assim, a fase dos anos 40 é marcada
pela seriedade, pelas preocupações políticas, pela angústia, pela descrença
no presente, pelo medo, pela hostilidade a 22, pela recuperação dos
valores do passado99. Para a autora, a geração de 45 conseguiu o equilíbrio
entre o social e a elaboração requintada do poema. Entre as características
da geração de 45 estão, entre outras, o primado da forma, a preocupação
com o fazer poético e com a linguagem. Esta geração recriou artisticamente
o contexto histórico de 40, com suas perplexidades e tensões.100 Sampaio
observa que a geração de 45 cultivou os temas eternos da poesia bem
como os temas considerados antipoéticos pela poesia clássica. Com
relação à linguagem de 45, não há uma uniformidade. A linguagem
despojada, precisa, exata, sem ornamentos inúteis é uma das
características marcantes da geração de 45101.
Em relação ao perfil de uma geração, Sampaio destaca que o diálogo
com os mestres do passado iniciado em 30 se intensifica em 45 e os
integrantes da geração buscam sua inspiração na tradição clássica da
poesia, mesclando o passado com o presente e criando novos ritmos e
formas, inovando a poesia brasileira que segue a trajetória normal de sua
evolução. No dizer da autora, não há uma radicalização para o social,
mas a coexistência de vários tipos de poesia, que está centrada em temas
existenciais e comprometida com o social. Presente na maioria dos poetas
de 45, a temática social é tratada de forma diferente pelos poetas102.
A visão de mundo do sujeito e a pluralidade de temas dão
configurações próprias às obras de Kolody, inseridas na tradição, na
universalidade e no testemunho amoroso que direciona para o “espetáculo
do mundo”, cuja contemplação reconduz ao amor e à poesia em um
mundo aprazível aos sentidos. É por isso que a melhor forma de
“testemunhar a contemplação” é, no dizer de Darcy Damasceno, “fazer
do mundo matéria de puro canto, apreendendo-o em sua inexorável
mutação e eternizando a beleza perecível que o ilumina e se consome”103.
Ant onio Donizet i da Cruz R 227

Na poesia de Helena Kolody verifica-se a constante preocupação


da poeta em relação à poesia sintética, condensada, pois no trabalho de
criar e “re-criar” os poemas, a autora dá provas de que sua poesia é uma
constante busca da palavra essencial. O universo poético de Helena Kolody
se apóia nos aspectos lúdicos, rítmicos e imaginários da linguagem, cuja
função poética funciona como um vetor constitutivo da natureza humana.
É pela palavra que a poeta se lança no plano expressivo e transforma sua
arte em matéria dinâmica, capaz de nomear o mundo, com uma linguagem
que tem o poder de “conter a surpreendente variedade do real”, isto é,
que abre múltiplos espaços de “comunicação e de nominação dos
objetos”104, no dizer de Gonzáles.
Pode-se concluir que a construção poética e o projeto estético
kolodyano, enquanto busca do essencial, residem nos procedimentos e
nas formas escolhidas, nos ritmos, no enxugamento dos textos. Assim,
seus poemas sintéticos registram o teor de modernidade e
contemporaneidade. Na poesia de Kolody, verifica-se a preocupação do
eu poético em relação à elaboração precisa da linguagem, registrada na
maneira de interpretar o mundo e as coisas. Tais procedimentos poéticos
e estéticos de Helena Kolody se concretizam de maneira harmoniosa,
em que prevalece a síntese, a economia dos meios, a linguagem singela
e vigorosa, as imagens e os símbolos. Com sua maneira própria de
atuação, a poeta apresenta o ato criador como um exercício e
comprometimento perante a vida e a arte. Por meio da efetivação de um
pensamento capaz de reinventar universos imaginários, Kolody elabora
uma poesia essencial, singela, lúdica e, acima de tudo, participativa e
reveladora da condição humana.

NOTA S

1
GONZÁLES, Javier. El cuerpo y la letra: la cosmología poética de Octavio Paz. México –
Madrid – Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 1990, p. 156-157.
2
Helena Kolody. “Poesia é a transfiguração “ - TP. In: CRUZ, 2011, Apêndice A, Vol. II, TP,
p. 5.
3
VALÉRY, Paul. Variedades. São Paulo: Iluminuras, 1991, p. 213.
4
KOLODY, OA, 1991, p. 69.
228 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

5
KOLODY, PM, 1986, p. 33.
6
KOLODY, IP, 1980, p. 52.
7
KOLODY, Helena. In:___. Um escritor na Biblioteca: Helena Kolody. Curitiba: BPP/SECE,
1986b, p. 15.
8
Helena Kolody. “Que estrela sumiu no horizonte?” - TP. In: CRUZ, 2011, Apêndice A, Vol.
II, TP, p. 72.
9
PAZ, Octavio. Convergências: ensaios sobre arte e literatura. Trad. Moacir Werneck de
Castro. Rio de Janeiro: Rocco, 1991, p. 151.
10
KOLODY, PM, 1986, p. 12.
11
ZANCHET, Maria Beatriz. Leminski, Ruiz e Kolody: a pretexto do criação poética. In:
FORTES, Rita Felix; ZANCHET, Maria Beatriz; SOARES, Claudia Campos. O texto
poético: crítica e devaneio: análise de poemas. Cascavel: ASSOESTE, 1994, p. 96.
12
Id., ibid., p. 97. Grifo da autora.
13
Loc. cit.
14
BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. São Paulo, Companhia das Letras, 2000, p. 277.
15
PAZ, op. cit., 1991, p. 19.
16
Loc. cit.
17
Loc. cit.
18
KOLODY, MS – VE, 1999, p. 189. Este é o único poema que repetimos, uma vez que ele
tem a função de elucidar o processo criativo de Helena Kolody.
19
KOLODY, op. cit., 1986b, p. 22.
20
KOLODY. In: SERUR, Telma. “O coração numeroso de Helena Kolody”. Nicolau, Curitiba,
n. 8, 1988, p. 8.
21
ANDRADE, Carlos Drummond de (Org.). Antologia poética. Rio de Janeiro: Record, 1998,
p. 182.
22
KOLODY. In: JORNAL do livro, Curitiba, n. 7, abr./ jun. 1985, p. 5.
23
­KOLODY. In: BASSETTI, Alzeli. Helena Kolody: poesia feito gente. Brasília: revista de
circulação nacional, Brasília, n. 53, jul. 1990, p. 5.
24
Loc. cit.
25
KOLODY, Helena. In: JORNAL do livro, Curitiba, n. 7, abr./ jun. 1985, p. 5.
26
KOLODY, op. cit., 1986b, p. 30.
27
KOLODY, OA, 1991, p. 19.
28
ARRIGUCCI Jr., Davi. O escorpião encalacrado: a poética da destruição em Julio Cortázar.
São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 153.
29
ARRIGUCCI, ibid., p. 156.
30
KOLODY, TS – VE, 1999, p. 122.
31
KOLODY. In: HELENA Kolody, 1986, p. 31.
32
DUFRENNE, Mikel. O poético. Porto Alegre: Editora Globo, 1969, p. 123.
33
Id., ibid., p. 129.
34
Id., ibid., p. 138.
35
KOLODY, TE – VE, 1999, p. 105.
36
Helena Kolody. “Artista” - TP. In: CRUZ, 2011, Apêndice A, Vol. II, TP, p. 76.
37
Helena Kolody. “Num jogo de “faz-de-conta” - TP. In: CRUZ, 2011, Apêndice A, Vol. II,
TP, p. 74.
38
LOTMAN, Iuri. A estrutura do texto artístico. Lisboa: Editorial Estampa, 1978, p. 119-123.
39
KOLODY, OA, 1991, p. 33.
40
KOLODY, IP, 1980, p. 49.
41
KOLODY, 1994b, p. 1.
42
Helena Kolody. “A palavra” - TP. In: CRUZ, 2011, Apêndice A, Vol. II, TP, p. 157.
43
KOLODY, RE, 1993, p. 27.
Ant onio Donizet i da Cruz R 229

44
KOLODY, IP, 1980, p. 38.
45
PAZ, Octavio. O arco e a lira. Trad. Olga Savary. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982,
p. 37-38.
46
KOLODY, TE – VE, 1999, p. 115.
47
KOLODY, SP, 1985, p. 17.
48
KOLODY, TE – VE, 1999, p. 115.
49
Helena Kolody. “Jardim” - TP. In: CRUZ, 2011, Apêndice A, Vol. II, TP, p. 26. Ver também
manuscritos em Anexo.
50
KOLODY, RE, 1993, p. 55.
51
Conforme manuscrito de Helena Kolody. Ver anexo.
52
Conforme manuscrito de Helena Kolody. Ver anexo.
53
KOLODY, RE, 1993, p. 17.
54
Conforme manuscrito de Helena Kolody. Ver anexo.
55
SALLES, Cecília Almeida. Gesto inacabado: processo de criação artística. São Paulo:
FAPESP: Annablume, 1998, p. 130.
56
Id., ibid., p. 131.
57
Loc. cit.
58
SARTORELLI, Soraya Rozana. Em busca do pássaro inatingível: o processo criativo de
Helena Kolody. Londrina: 2001. Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade Estadual
de Londrina, 2001, p. 81.
59
Helena Kolody. “Falar é um perigo:” - TP. In: CRUZ, 2011, Apêndice A, Vol. II, TP, p. 158.
60
PAZ, op. cit., 1982, p. 65.
61
KOLODY, PM, 1986, p. 56.
62
Adélia Maria Woeller é escritora paranaense. Pertence à Academia Paranaense de Letras;
ao Centro de Letras do Paraná; à Academia de Letras José de Alencar, entre outras.
63
WOELLNER, Adélia Maria. Infinito em mim. Curitiba: 1997, p. 75.
64
ROSA, António Ramos. O conceito de criação na poesia moderna. COLÓQUIO/LETRAS,
Lisboa, n. 56, julho, 1980, p. 9.
65
KOLODY, PM, 1986, p. 23.
66
KOLODY. In: SINFONIA da vida: Helena Kolody (Antologia poética organizada por Tereza
Hatue de Rezende). Curitiba: Pólo Editorial do Paraná – Letraviva, 1997, p. 41. Grifo da
autora.
67
KOLODY. In. HELENA Kolody, 1995, p. 24. Grifos da autora.
68
TELES, Gilberto Mendonça. A escrituração da escrita: teoria e prática do texto poético.
Petrópolis, RJ: Vozes, 1996, p. 240. Grifo do autor.
69
VALÉRY, op. cit., 1991, p. 30, grifo nosso.
70
PAZ, Octavio. A outra voz. São Paulo. Siciliano, 1993, p. 147.
71
PAZ, loc. cit.
72
CALVINO, Italo. Seis propostas para o próximo milênio. Trad. Ivo Barroso. São Paulo:
Companhia das Letras, 1999, p. 61. Grifo do autor.
73
Lila Ripoll nasceu em Quaraí, RS, no ano de 1905 e faleceu em 1967, em Porto Alegre,
RS.
74
MOREIRA, Alice Campos (Org.), LILA Ripoll: obra completa, 1998, p. 227.
75
TINIANOV, Iuri. O problema da linguagem poética I: o ritmo como elemento construtivo
do verso. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975a, p. 17-20
76
BAKHTIN, Mikhail M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1997, p. 366.
77
Ibid., p. 362-363.
78
Ibid., p. 364-365.
79
SAMWAYS, Marilda Binder. Introdução à literatura paranaense. Curitiba: HDV, 1988.
80
Loc. cit., p. 10-12.
230 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

81
KOLODY. In: HELENA Kolody. (Org. por Paulo Venturelli). Curitiba: Ed. da UFPR, 1995, p.
23-24.
82
KOLODY, 1986, p. 15.
83
LUCAS apud MURICY, ANDRADE. Panorama do movimento simbolista brasileiro. São
Paulo: Editora Perspectiva, 1987, p. 8.
84
MURICY, loc. cit.
85
JOSEF, Bella. A máscara e o enigma. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1986, p. 140.
86
Id., ibid., p. 140-141.
87
LINHARES, Temístocles. A poesia de Helena Kolody (I). Gazeta do Povo, Curitiba, 16 fev.
1969, p. 1.
88
TEIXEIRA, Hélio C. Poemas do Paraná. Diário popular. Curitiba, 1 ago. 1977, p. 17.
89
Loc. cit.
90
YOKOZAWA, SOLANGE FIUZA CARDOSO. A memória lírica de Mário Quintana. Porto
Alegre, 1991. Tese (Doutorado em Literatura Brasileira) – Instituto de Letras, Programa
de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2000, p. 55.
91
KOLODY, 1986, p. 27.
92
RUIZ, Alice. In: HELENA Kolody. (Org. por Paulo Venturelli). Curitiba: Ed. da UFPR, 1995,
p. 50-51.
93
RUIZ, Alice. In: SINFONIA da vida, 1997, p. 15.
94
MURICY, Andrade. RUMO paranaense, Curitiba, ano II, n. 35, nov. [197-], p. 6.
95
KOLODY, Helena. In: JORNAL do livro, Curitiba, n. 7, abr./ jun. 1985, p. 5.
96
KOLODY. In: HELENA Kolody. (Org. por Paulo Venturelli). Curitiba: Ed. da UFPR, 1995,
p. 27.
97
Id., ibid., p 20.
98
RUMO paranaense, [197-], p. 9. Em entrevista a esta Revista, Helena Kolody afirma:
“Hesitei muito antes de publicar “Paisagem Interior”, livro que reúne poemas escritos no
decurso de 10 anos. Um profundo pudor de alma impedia-me de desnudar ao público
as expressões de minha vivência, pois os poemas eram a confissão de meus sentimentos
e de minhas ideias” (p. 9). Grifo nosso.
99
SAMPAIO, Maria Lúcia Pinheiro. História da poesia modernista. São Paulo: João Scortecci
Editora, 1991, p. 76.
100
Id., ibid., p. 77-93.
101
Ibid., p. 79.
102
Loc. cit.
103
DAMASCENO. In: MEIRELES, Cecília. Flor de poema. Rio de Janeiro: Editora Nova
Fronteira, 1983, p. 17. Ensaio intitulado “Poesia do sensível e do imaginário”, no qual o
autor analisa a obra de Cecília Meireles.
104
GONZÁLES, op. cit., 1990, p. 156-157.
Ant onio Donizet i da Cruz R 231

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A poesia de Helena Kolody é uma luta incessante para atingir um


estado original. Cada poema é marcado por uma visão peculiar de mundo
que os deixa impregnados de transcendência. Para comunicar uma pro-
funda consciência do sentido da vida e dos limites humanos, os seus
poemas evidenciam a construção de espaços harmoniosos que se dirigem
à essência primordial das coisas e dos seres. Ou seja, a poesia não é
opinião, muito menos uma “interpretação da existência humana”, mas
“uma revelação de nossa condição original, qualquer que seja o sentido
imediato e concreto das palavras do poema”1.
Uma das características fundamentais da poeta é a sua disciplina
artística, a clareza verbal e o labor, e mais ainda, o seu constante ato de
burilar o poema, em que alia a inteligência crítica ao gênio poético. O ato
que conduz a sua poesia denomina-se trabalho, luta com as palavras,
construção sistemática do verbo. Nesse sentido, a poesia de Kolody
apresenta uma atitude intelectiva, acentuada pela simplicidade e
dinamismo. No exercício efetivo de sensibilidade e racionalidade, Kolody
burila o texto até achar a forma mais desejada para apresentá-lo ao leitor.
Ela desvela as coisas mais sublimes através de sua maneira de ver o
mundo com “os olhos da imaginação”, aliando clareza e técnica à arte
poética.
A poesia de Helena Kolody, por suas características formais e
temáticas, insere-se na modernidade e continuará a encantar os amantes
da poesia pelo tempo adiante. Entre o dizer e o silêncio, o poeta opera de
232 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

maneira efetiva com a linguagem que lhe é própria. Entre metáforas e


expressões comuns, Kolody afirma seu “estar no mundo” e sua presença
constante com o ofício da poesia: sinal de permanência num mundo
transitório. No reino das palavras, a força da linguagem é, antes de tudo,
comunicação de um estado original. Ao trilhar as sendas da linguagem,
o poeta não vai sozinho, convida o leitor a partilhar e a ser cúmplice da
poesia.
O poeta da atualidade se volta constantemente à mesma
interrogação: “no que reside o segredo da origem de todas as coisas?”
Nesse sentido, o poeta constrói mundos imaginários, universos de
imagens, que não precisam estar acoplados à realidade sensível. Na
maioria das vezes, as imagens possuem uma função “iluminadora”,
revelando as coisas ocultas, obscuras e, muitas vezes, indizíveis.
Na poesia de Helena Kolody, a indagação, a metalinguagem, a
comunicação literária têm suas bases na força da expressão e nos
questionamentos da linguagem. Da matéria comunicável à singularidade
de um fazer poético, a poeta (re)cria mundos de sentidos vinculados à
“memória ontogenética”2.
Neste tempo de incertezas, angústias e “nebulosas”, que
caracterizam o final do Século XX, a poesia é força transformadora,
“operação alquímica”, como afirma Octavio Paz. Já o poeta – ser solitário
e solidário – edifica a construção lírica na buscas e no canto do amor e
seus mistérios. Consciente de sua transitoriedade no tempo e espaço, e
de que faz parte da “memória de seu povo”, o poeta se sente apenas
como um “elo da cadeia”, uma ponte entre o passado e o presente.
Na obra kolodyana, as palavras e os modos temporais (presente,
passado, futuro, duração, simultaneidade) sugerem uma carga temporal
explícita, tais como: “infinito presente”, “nostalgia”, “envelhecimento”,
“nunca e sempre”. O vocábulo tempo é recorrente na poesia kolodyana,
basta ver alguns títulos das obras de Kolody: Tempo, Infinito presente,
Ontem agora e Vida breve. São recorrências que compõem uma
constelação de palavras e imagens que remetem à representação de uma
permanente busca através das sendas da linguagem e do discurso poético
refratados na tênue ligação entre presente e passado, tendo em vista as
incertezas do futuro e a expectativa do eu-lírico em relação à esperança
de eternidade.
Ant onio Donizet i da Cruz R 233

No dizer de Hugo Friedrich, no século XX, a relação da poesia com


o mundo circundante projeta múltiplos aspectos resultando sempre na
“desvalorização do real”, isto é, “o mundo é neutralizado a tal ponto
como se ele não mais pertencesse ao homem. Quase não mais existe
uma lírica mediadora que, através de coisas e paisagens, deixe falar uma
alma humana próxima”3. Para o autor, a lírica moderna tem o poder de
impor à linguagem a tarefa de expressar e, ao mesmo tempo, encobrir
um significado. A lírica de Kolody traz a marca da modernidade no sentido
de apresentar poemas que revelam uma linguagem mágica, condensada,
com um tom extático suave, o lusco-fusco do significado, o ecoar da
transcendência indeterminada.
A brevidade é marca registrada da grandeza da poesia de Helena
Kolody em relação à inserção do diálogo com as linhas de força da poesia
brasileira. Primando pela síntese, a linguagem poética kolodyana é rica
em recursos imagéticos, temáticos e formais, sugerindo múltiplos
sentidos, ou seja, na maneira como a poeta articula a linguagem e constrói
seus poemas reside o segredo de sua arte. Seus poemas tematizam um
fazer poético em que é nítido o limite entre o sujeito e seu objeto de
criação: o poema. Verificam-se as expressões suaves das palavras que
rompem do branco da página, transformando-se em matéria verbal e
signos que apontam para o deslumbramento lírico. A metalinguagem –
um dos fios condutores da modernidade – está presente em todas as
obras da poeta.
A criação literária de Kolody apresenta imagens que fazem parte do
universo imaginário kolodyano e do grande museu imaginário da arte, de
que fala Durand, e que estão presentes “na produção mítico-literária da
humanidade”4, as quais revelam as mais tênues relações do homem com
o plano terreno e o metafísico, com as questões ligadas às contingências
da vida, aos desafios enfrentados pelo ser humano, os segredos
insondáveis da vida e da morte. A poeta transita no regime diurno e
noturno das imagens. Dessa forma, na poesia kolodyana há, sobremaneira,
uma eufemização da morte e uma atitude imaginativa em relação ao tempo,
pelo fato de ocorrer a busca da intimidade das substâncias ou das
constantes rítmicas dos fenômenos, no dizer de Durand.
Mais do que buscar respostas aos mistérios da vida, há que se
sonhar, percorrendo os campos dos sonhos e devaneios, ou dito de
234 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

outra forma, é preciso ir mais além, no campo dos mundos possíveis e


imaginários, buscando as realizações diante do “grande museu das coisas
insignificantes”5, como afirma Bachelard. Mas, além disso, é necessário
que o poeta-sonhador vivencie a vida intensamente, de forma que “a
imagem poética é uma emergência da linguagem, sempre um pouco
acima da linguagem significante. [...] A poesia põe a linguagem em estado
de emergência. A vida se mostra nela por sua vivacidade”6. Este estado
operante da linguagem aparece de maneira reiterada na poesia kolodyana.
Seus poemas – cristalizações verbais – mostram uma linguagem marcada
pela simplicidade. Assim, tal como as palavras que se entrelaçam e que
podem ser comparadas a um rio de água corrente, a linguagem poética
kolodyana, com suas invenções e configurações imaginárias, dão sentido
à existência humana.
A viagem, na poesia de Kolody, enquanto busca e como fuga, ao
mesmo tempo, expressa todo um sentimento e toda uma afirmação do
sujeito poético ao se situar no tempo e espaço. Através da viagem em
versos e das operacionalizações articuladas pela linguagem, o poeta se
vê inserido nas múltiplas facetas espaço-temporais. A viagem ganha, na
poesia de Kolody, uma dimensão de destaque de um eu que está em
constante busca e em viagem permanente.
O tempo, na poesia de Kolody, aparece como duas formas distintas:
tempo existencial e tempo da memória. Ao historicizar o tempo vivido, o
eu poético dá testemunho de sua transitoriedade e deixa claro que,
enquanto processo de transição, a temporalidade e a historicidade dos
fatos e acontecimentos são matérias de preocupação alicerçadas nas
circunstâncias da vida concreta e do mundo imaginário.
Nesse sentido, uma das inquietações latentes da poeta é o constante
direcionamento de seus textos em relação ao tempo humano e memo-
rial. Note-se, porém, que face às indagações perante o tempo, à
linguagem e à vida, o poeta – “guardião da substância do inexistente
como posibiliter”7, no dizer de José Lezama Lima, – realiza uma poesia
que é instante e descontinuidade, cuja plenitude frente ao “mundo da
ressurreição” adquire domínios vastos, pois o poeta, “ser causal para a
ressurreição” faz da poesia uma potência justamente pelo poema
apresentar “o testemunho ou a imagem desse ser causal para a
Ant onio Donizet i da Cruz R 235

ressurreição, verificável quando o potens da poesia, a possibilidade de


sua criação na finitude, atua sobre o contínuo das eras imaginárias”8.
Na poesia kolodyana, há um universo de recordações que apontam
para lugares e espaços vitais. Através da linguagem poética, enquanto
viagem e travessia, Kolody dá forma de vida às suas inquietações e recupera
os fatos do mundo e vivências. Daí o tom memorial que marcam muitos
dos seus poemas, que trazem forças irredutíveis da marcha dos dias
vividos e rememorados através das lembranças. A memória, território do
sagrado e espaço mágico por excelência, opera em sentido de
“eternidade”, como afirma Borges, pois o tempo “presente do passado”
se chama memória. Nesse sentido, “a eternidade é todos os nossos tem-
pos passados, todos os tempos passados de todos os seres conscientes.
Todo o passado, esse passado que não se sabe quando começou. E
naturalmente, todo o presente”9. A memória, no dizer do autor, permanece,
justamente por ser individual. Ou seja, somos feitos, em boa parte, de
nossa memória. Mas essa mesma memória é feita também de
esquecimento10. Dessa maneira, tempo e memória se entrelaçam.
A consciência da fugacidade do tempo é um procedimento constante
na lírica kolodyana. Em alguns poemas, a vida é vista como um sonho.
Em sua poesia percebe-se uma inquietude permanente, com uma
linguagem fundadora que remete à origem, ao silêncio pré-linguístico,
pois seus poemas trazem as marcas da poesia da modernidade.
Uma característica própria da poeta é sua disciplina espiritual, sua
maneira de ver o mundo com “os olhos da imaginação”. Ao projetar sua
consciência artística, em que reúne técnica poética aliada a uma
inteligência crítica, ela dá forma e procedimento artístico e poético à sua
arte.
As imagens, nos poemas de Helena Kolody, apontam, muitas vezes,
para o sentido metafísico, para as coisas que só uma mente aberta à
contemplação com a natureza e o mundo circundante é capaz de observar.
Tal afirmação pode ser comprovada através da elaboração dos haicais de
Kolody relacionados à contemplação da natureza, à observação atenta
das pequenas coisas da vida, as quais podem passar despercebidas para
muitos, não para o poeta. Assim, os versos kolodyanos direcionam para
o sentido da “poesia-milagre”, ou seja, daquilo que Roman Ingarden,
declara a respeito da obra de arte, a qual tem o poder de trazer à luz
236 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody

“determinadas qualidades metafísicas” e, ao mesmo tempo, revelá-las.


É por essa razão que ele a vê como um milagre, ou seja, ela “existe e atua
sobre nós e enriquece extraordinariamente a nossa vida, oferece-nos
momentos de deleite e de descida às profundezas abissais do ser”41.
A obra kolodyana traz à tona as temáticas dominantes do final do
milênio e refletem a visão particular de mundo da poeta e sua atitude
frente à problemática que envolve o ser humano. Assim, o geral e o par-
ticular entrelaçam-se num bailado de imagens e de sons. Seus poemas
são construídos a partir das coisas simples e cotidianas, que remetem às
profundas reflexões sobre o sentido da existência humana. Sua poesia é
essencialmente lírica, comunicativa e tem o poder de sensibilizar o leitor,
mostrando que ela pode ser vida, revelação, poder, nostalgia, alquimia.
Na trajetória do fazer poético de Kolody, verificam-se temáticas
recorrentes, dentre as quais, a questão da brevidade da vida, a temática
do amor, dos sentimentos e dos sonhos, do desejo de realização, da vida
cotidiana, da questão da vida e da morte, da solidão, do questionamento
e da busca de sentido à vida.
Ainda em relação ao embasamento temático da obra kolodyana,
cumpre destacar que o conjunto de obras indica um trânsito aberto à
mistura de melancolia e saudosismo nostálgico do passado à fugacidade
do amor. Do olhar direcionado às origens eslavas, ao encanto e ao
desencanto frente à vida, da permanente preocupação com o tempo, que
geram buscas e encontros essenciais do eu e do outro, Helena Kolody
elabora uma poética que é, acima de tudo, comunhão, realização de vida
e completude humana.

NOTA S

1
PAZ, Octavio. O arco e a lira. Trad. Olga Savary. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982, p.
180.
2
MANCIA, Mauro. No olhar de Narciso: ensaios sobre a memória, o afecto e a criatividade.
Lisboa: Escher, 1990. Termo do autor.
3
FRIEDRICH, Hugo. Estrutura da lírica moderna. São Paulo: Duas cidades, 1978, p. 196-197.
4
Expressão de Ana Maria Lisboa de Mello, ao se referir à poesia de Cecília Meireles.
5
BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes, 1993, p. 151.
6
BACHELARD, ibid., p. 11.
Ant onio Donizet i da Cruz R 237

7
LIMA, José Lezama. A dignidade da poesia. Trad. José Vianna Baptista. São Paulo: Ática,
1996, p. 190. Grifo do autor. Na concepção do autor, o poeta é o guardião das três
grandes eficácias ou temeridades concebidas pelo homem: 1- a conversão do inorgânico
em vivente, da substância em espírito, pela penetração do alento do oficiante, ato
nascente de transubstancialização, superação do ato nascente aristotélico em puro
Nascimento. 2- O inexistente hipostasiado em substância. 3- A exigência total ganha
pela superabundância na ressurreição.
8
LIMA, ibid., p. 221. Grifo do autor.
9
BORGES, Jorge Luis. Jorge Luis Borges: cinco visões pessoais. Trad. de Maria Rosinda Ramos
da Silva. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1987, p. 42-43.
10
Id., ibid., p. 42.
11
INGARDEN, Roman. A obra de arte literária. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian,
1979, p. 409.
238 O universo imaginário e o fazer poético de Helena Kolody
Ant onio Donizet i da Cruz R 239

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