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Rafael Sanzio

SEXUALIDADE
À LUZ DA CIÊNCIA ESPIRITUAL ANTROPOSÓFICA

Dra Ana Paula I. Cury


Uma Visao da Sexualidade Ampliada pela
Antroposofia

Introdução

Nas primeiras décadas do século XX, o filósofo e cientista espiritual Rudolf


Steiner falou reiteradamente sobre novas capacidades anímicas, novos
poderes de alma que surgiriam como disposições nos seres humanos na época
presente. Estas novas faculdades, se adequadamente desenvolvidas, poderiam
oferecer à humanidade a possibilidade de atingir o espírito através do
pensamento – através de um pensamento mais elevado, capaz de transpor o
abismo entre a experiência sensorial e a suprassensível, fazendo alcançar a
experiência espiritual direta.

Em contrapartida ele também observou que se tais poderes fossem ignorados,


ou pior, subvertidos, o “efeito sobre a evolução humana seria o seguinte:
certos instintos relativos à vida sexual despertariam, mas não em plena e clara
consciência, ao contrário, de um modo pernicioso e destrutivo”. Os resultados
ultrapassariam a destruição moral e física de indivíduos; minariam toda a vida
da sociedade humana. “Esses instintos não seriam simples erros pessoais,
mas se estenderiam à vida social acarretando condições que impediriam os
homens de desenvolver qualquer tipo de fraternidade na Terra, levá-los-iam
até a opor-se à fraternidade. Esta oposição seria uma questão instintiva”. O
que se destinava a ser compreensão, visão, amor e livre iniciativa criativa, se
transformaria, pelo contrário, em brutalidade, degeneração, e uma frieza
nunca vista nos sentimentos entre os seres humanos.

Em 1918, Steiner predisse tanto o erotismo quanto os abusos de drogas


atualmente observados: Se viesse a ser produzida uma medicina promíscua,
se fosse desenvolvida uma terrível aberração dos instintos sexuais -- uma
filosofia ( ou cosmovisão ) não espiritual não seria capaz de percebê-lo, nem de
notar seu desvio do caminho da verdade... tão pouco quanto uma pessoa
adormecida poderia ver , durante o sono, a aproximação de um ladrão.

Ela só perceberia o que aconteceu ao despertar pela manhã – e quão terrível


não seria tal despertar para a humanidade! No entanto, não ocorrendo um tal
despertar, o homem continuaria a se ufanar da ampliação de seus
conhecimentos médicos e encontraria tão grande satisfação em certas
aberrações sexuais que as louvaria como super-humanas, como libertação dos
preconceitos, como sinais de mentalidade livre! O feio seria belo e a beleza
seria feia em certo sentido, e ninguém notaria esta inversão de valores porque
tudo isto seria considerado como desenvolvimento natural.

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E, perguntava Steiner, que dirão os homens da Ciência se aparecerem estes
instintos degenerados e antissociais? “Eles dirão que se trata de uma evolução
normal, de uma fase inevitável da evolução humana. Não é através das
Ciências Naturais que o homem pode ser advertido contra esses perigos;
porque do ponto de vista científico tudo pode ser explicado: que os homens se
transformem em anjos ou demônios”

Não é fácil reconhecer este fato de maneira imediata, mas “aquilo que a
juventude faz com suas capacidades sexuais influi diretamente sobre o futuro
social – o futuro que todos nós, mas especialmente os jovens, gostariam de
aguardar com esperanças positivas”.

“Se quisermos poder nutrir alguma esperança quanto à beleza, renovação e


satisfação vital no homem e na natureza precisaremos de uma visão
totalmente nova e do poder de comunicar e sustentar esta visão. Acredito que
as forças necessárias se encontrarão naqueles jovens que souberem usar
melhor do que os seus predecessores, a função primordial da vida. O desafio
social que a juventude enfrenta é nossa civilização em vias de deterioração.
Mas não tem sido identificado o único poder capaz de executar a renovação.
Não sendo reconhecido, este poder está sendo desperdiçado e, com ele, a
melhor esperança da humanidade em relação ao futuro.”

“O declínio da cultura é uma questão de olhos fechados, de corações


empedernidos, de força de vontade paralisada. Este declínio se inicia com o
materialismo que deriva, por um lado do intelectualismo e, por outro lado, do
abuso do sexo. O materialismo será superado quando o cerebralismo de nossa
época for transformado em compreensão intuitiva. Esta transformação e as
habilidades criativas que a acompanham, requerem um rigoroso preparo que,
por sua vez, exige uma atitude em relação ao sexo totalmente diferente da
atitude estreita do puritanismo antigo e da atitude permissiva que prevalece
na cultura ocidental moderna.

Grande parte daquilo que designamos como sexo ou desejo sexual na


humanidade não é de origem biológica, mas consiste em energia espiritual
transviada, energia que deveria ser dirigida diretamente para a vitalização dos
pensamentos, sentimentos e ações humanos. Nos seres humanos o
pensamento é básico. Morto o pensamento, morrem também o sentimento e a
volição; mas quando o pensamento é vívido, intuitivo e criativo, prosperam
igualmente os aspectos emocional e volitivo da vida. Pode-se dizer, portanto,
que o principal dever de nossa época é dar vida ao pensamento – pensando-se
com mais amor.

A conversão da estéril intelectualidade em pensamento produtivo, intuitivo, da


qual depende atualmente todo o bem estar da humanidade, é realizada pelo
amor; e a capacidade de amor se relaciona em muitos pontos com o sexo.

Fortalecer e proteger as novas faculdades criativo-intuitivas que procuram


urgentemente expressar-se na juventude atual deveria constituir o objetivo da
educação. Mas o que ocorre na maioria das escolas é uma conversão das

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forças de ideias em sexualidade, e não o contrário. Este desastre é típico, tanto
do materialismo moderno quanto da ainda inadequada luta contra ele.

Por um lado, existem grandes esperanças quanto aos benefícios humanos que
poderiam surgir de uma melhor compreensão do mistério do sexo. Estas
esperanças bem intencionadas estão à base do intenso movimento em prol da
educação sexual. Por outro lado, o pensamento materialista visa objetivos
menos nobres para a educação sexual. Aplicando os conceitos da moderna
biologia, psicologia e sociologia ao campo do sexo, o espírito do materialismo
espera ganhar a batalha decisiva contra o único adversário capaz de dominá-
lo.

Tratando o sexo como força perfeitamente natural e ensinando como usá-lo


razoavelmente no contexto social a fim de obter a máxima satisfação, a maior
parte da educação sexual age no sentido de sabotar justamente a nova
esperança à qual finge estar servindo.

É verdade, obviamente, que o sexo se apresenta como parte do processo


biológico da natureza, que é um fato físico. Mas a maior parte do mesmo é
invisível. A maior parte não se encontra de modo algum na natureza. Por mais
que alguns sintam esta afirmação como provocante, é sobrenatural a realidade
que existe por trás daquilo que na vida humana é chamado de sexo.

Embora possamos dizer que existe um aspecto supranatural em todos os


fenômenos naturais, é fato que no sexo a realidade metafísica prepondera ao
máximo sobre a física. Em nenhum outro campo serão tão desastrosas quanto
no do sexo as consequências decorrentes de uma interpretação que não seja
baseada nos segredos espirituais existentes por trás dos fatos físicos.

Materializar o sexo através da educação sexual, do mesmo modo que estamos


sistematicamente materializando outros fenômenos naturais nas diversas
matérias dos estudos, é um grande erro e sem dúvida será seguido de
consequências catastróficas, individuais e sociais. Muitos sentem que é
melhor manter-se em silêncio quando, embora adivinhando o sagrado mistério
do sexo, não são capazes de apresentarem, pessoalmente, um exemplo de
domínio do mesmo, nem encontraram conceitos adequados na linguagem
científica.

A experiência nos ensina que, para poder iluminar as mentes sobre o sexo, é
preciso ser sábio, de fato. Ora, quem se atreverá a considerar-se sábio neste
mais profundo dos temas que se oculta eternamente sob ambiguidades e
ilusões? Não obstante, sentimos que é necessário tentar, da melhor forma
possível falar energicamente a favor das pistas que achamos seguras; pois a
juventude precisa muito de orientação e, tantos estão dando conselhos
indubitavelmente errados.” John F. Gardner (1)

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O Mistério da Origem e Natureza dos Sexos

A palavra sexo tem sua origem no latim; vem do verbo seccare, que quer dizer
separar, cortar, dividir. Portanto, sexo é pedaço, fração. Ora, se algo foi
fracionado, dividido, deve ter existido antes numa totalidade íntegra. Como
será que isto se deu?

Segundo a pesquisa espiritual de Rudolf Steiner, tal como nos é comunicado


em sua obra “A Crônica do Akasha”, em tempos remotos a forma do homem
era bem diferente da atual. Para se fazer uma ideia destes tempos de um
passado longínquo é preciso libertar-se das ideias habituais oriundas do que
hoje vemos ao nosso redor.

Na Antiga Lemúria, a Terra ainda existia num estado de fluidez e o corpo


humano também era formado de componentes ainda plásticos, maleáveis. A
alma podia imprimir à forma suas leis, e sendo ela masculino-feminina,
contendo em si ambas as naturezas, fazia do corpo uma cópia de seu próprio
ser. Seu elemento masculino tem afinidade com a Vontade e o feminino com a
Representação Mental.

Enquanto tinha domínio da matéria a alma dava ao corpo uma forma que não
era nem masculina nem feminina, mas dotada de ambas as propriedades.
Com o decorrer do tempo, a matéria foi-se solidificando e a formação exterior
da Terra provocou uma configuração unilateral do corpo, que então assumiu
uma forma semelhante à da futura mulher e outra semelhante a do futuro
homem.

Antes de sobrevir esta diferenciação, cada indivíduo podia dar nascimento a


outra criatura por um processo de autofecundação. Ele se passava num
estado de sono profundo, era conduzido ou mediado por seres espirituais e
ocorria através do sacrifício de uma parte da corporalidade.

Quando o corpo se tornou unilateralmente masculino ou feminino perdeu essa


possibilidade de autofecundação. Precisou então atuar juntamente com outro
corpo para dar origem a uma nova criatura.

A separação dos sexos surge quando a Terra alcança um ponto crítico de


solidificação, de sorte que a densidade da matéria imobiliza uma parte da
força reprodutiva. E a parte ainda ativa dessa força precisa ser
complementada exteriormente pela força contrária de outro indivíduo.

A parte das forças anímicas que não pode manifestar-se exteriormente fica
agora livre, e se dirige internamente para a formação de um órgão que pudesse
servir de base à atividade do espírito: a faculdade do pensar, até então

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inexistente. É preciso lembrar que nos tempos que precederam a separação
em sexos, o ser humano era ainda constituído apenas de corpo físico, corpo
vital e corpo astral ( emocional). Porém gradualmente foi-se preparando para
acolher a substância espiritual do Eu, e era chegado este momento – o de
receber em si o germe do espírito e tornar-se propriamente humano.

Assim, agora, a energia anímica que não encontra emprego no exterior, pode
entrar em relação com a força espiritual e por meio dessa união desenvolvem-
se órgãos que mais tarde farão do ser humano, um ser pensante. A força que
outrora servira para reproduzir seu semelhante, dali em diante é utilizada no
aperfeiçoamento do seu próprio ser.

Em outras palavras, podemos dizer que a possibilidade do pensamento surgiu


em detrimento da unidade andrógina, ou ainda, pelo sacrifício desta unidade e
produção da cisão em sexos.

Não precisando fecundar-se a si mesmos e passando a copular para


fertilização mútua, podiam dirigir ao íntimo uma parte da própria energia
reprodutora tornando-se criaturas pensantes.

O corpo masculino e o corpo feminino representam uma forma exterior


incompleta, imperfeita da alma, mas em consequência disso, o ser pode
tornar-se mais perfeito em seu íntimo.

Essa transformação deu-se lenta e paulatinamente. Pouco a pouco, ao lado


das formas antigas bissexuais, foram surgindo formas humanas unissexuais
mais jovens. Para a exterioridade, desde então, o homem é reproduzido a
partir da união com o sexo oposto. Para o íntimo, a partir do interior, pelo
espírito.

Pode-se dizer que o corpo masculino tem uma alma feminina e o corpo
feminino, uma alma masculina. Essa unilateralidade íntima do homem é
compensada, desde então, pela fecundação com o espírito.

Assim sendo, o homem e a mulher são diferentes em sua forma exterior, no


íntimo a unilateralidade anímica se reúne em ambos numa totalidade
harmoniosa. A bissexualidade humana transferiu-se do mundo exterior para o
interior do homem. A união com o espírito é que traz finalmente a igualdade e
nisso reside um mistério da natureza humana.

Criação e Imagem do Homem segundo o Gênesis

A bíblia descreve em seu primeiro livro – o Gênesis – aspectos fundamentais


com respeito ao ser humano e a questão do homem e da mulher. Expressa-se,
entretanto, em imagens – ou seja, em forma mitológica, simbólica, e os mitos
requerem cuidadosa e reverente contemplação para que revelem seu sentido.

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A maneira de compreender as imagens da criação da Terra e do Ser Humano
determina em última instância nossa atitude perante a vida em todos os
âmbitos. No versículo 27, lê-se:

“E criou Deus (Elohim) o ser humano à sua imagem; à imagem de Deus o


criou. Masculino e feminino os criou.”

Neste primeiro capítulo não há ainda nada de terreno material. O que surge
são os arquétipos, as ideias puramente espirituais da criação. A ideia tem
depois de soltar-se do interior do Criador para tomar existência própria fora
d’Ele.

“E disse Deus: Façamos o Homem à nossa imagem e semelhança. (...) Então


Deus fez o homem da terra e lhe inspirou o sopro de vida em suas narinas”
(Gen 2, 7)

E agora temos Adão. O nome Adão vem do Hebraico – Adamá – que quer dizer
terra; da mesma forma que Hummus, em latim, de onde deriva a palavra
Humano. Assim, em Adão, temos não o homem, sexo masculino, mas o Ser
Humano Terrestre primordial em sua totalidade ambivalente: masculino-
feminino. Este é o arquétipo do ser humano criado por Deus; o arquétipo do
gênero humano inteiro. A separação em dois seres distintos, homem e mulher,
é o conteúdo central da criação da Terra propriamente dita. Esta se relata no
segundo capítulo, quando já existe um processo de materialização gradual e
progressiva.

“E fez descer sobre Adão um sono para que adormecesse e de suas costelas
tomou uma, e fechou a carne em seu lugar. Deus configurou a costela que
havia tomado do homem como uma mulher e levou até o homem.”

Enquanto os seres humanos eram de natureza andrógina e habitavam um


corpo fluido, a procriação, como já dissemos, acontecia por meio de um
sacrifício de uma parte da corporalidade a uma outra alma humana, sob a
direção de seres superiores. Um profundo sono induzido pelos seres divinos
era o elemento protetor para o mistério do nascimento.

A criação de Eva, nos primórdios da diferenciação dos sexos é contada da


seguinte maneira: os seres criadores fizeram com que o ser humano caísse
num sono profundo e do ser humano tomaram uma parte de sua substância a
fim de formar um corpo para aquela alma que pela primeira vez, seria a
portadora de uma forma humana feminina.

A imagem da costela fala por si mesma. Como parte do tórax que dá morada e
proteção aos órgãos rítmicos – pulmões e coração, pertence à parte média do
ser humano. Orientando-nos pelo conceito da Trimembração do homem e
percebendo a relação dos três sistemas (Polo Neurossensorial; Sistema Rítmico
e Polo Metabólico e Motor) com as três faculdades anímicas – Pensar, Sentir e
Querer – vemos que, se dividimos o ser humano original, inteiro, tirando-lhe a
parte do meio e tornando-a independente, fica uma parte orientada para a

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cabeça e as extremidades (pensar e agir) e outra parte orientada para o peito (
o sentir).

Mesmo hoje se evidencia na constituição física que a mulher é um ser


caracterizado particularmente pelo coração e o âmbito dos sentimentos. Já o
homem é mais voltado para o intelecto e a ação. Vivendo na polaridade entre
pensar e querer, não há nele tanto espaço para o coração e o sentir, como há
no sexo feminino.

Na imagem bíblica, esta região do meio chega a personificar-se e se apresenta


como Eva. Assim o Adão, ser humano original, não é idêntico àquele que sobra
quando Eva é criada. O ser humano original é andrógino e mais tarde passa a
viver num corpo sexuado feminino ou masculino.

Se avançarmos um pouco mais na leitura do gênesis, vamos encontrar as


figuras de Caim e Abel. Caim é o lavrador – aquele que tem de transformar a
terra, cuja força se volta para a exterioridade de forma produtiva. Abel é o
pastor, aquele que zela; que cuida do que é dado, criado por Deus. Caim, quer
dizer masculino. Abel representa o elemento feminino. Um expressa a
polaridade da vontade, força de iniciativa, impulso empreendedor da
manifestação. O outro é o que cuida do ambiente e das condições nas quais
outros seres podiam se desenvolver – qualidade do feminino – como os gestos
do acolher, nutrir, proteger. Portanto, em Caim e Abel reconhecemos uma
terceira fase em que a diferenciação sexual avança e se consolida.

A Relação entre o Desenvolvimento Psicossexual do Indivíduo e a


Evolução de toda a Humanidade

Diante desta descrição podemos discernir três fases claras deste processo
evolutivo.

A primeira que corresponde a Adão como ser humano primordial – masculino-


feminino; a segunda que é o começo da separação dos sexos, em que surgem
inicialmente formas unissexuadas femininas, as quais, entretanto, ainda
coexistem com formas primordiais andróginas; e uma terceira em que os seres
humanos se encontram claramente diferenciados em corpos femininos e
masculinos.

Ora, se observamos os primeiros três setênios de vida verificaremos que neles


recapitulamos todo este processo. Assim, em cada criança que nasce na Terra,
descendo desde o mundo espiritual pré-natal, encontramos um eco da
inocência paradisíaca. Ela traz consigo algo da condição humana original,
primordial de Adão, na qual se nota uma relação com o mundo de unidade
indiferenciada.

As crianças na primeira infância ainda dormem quanto à sexualidade. Nesta


fase elas brincam indistintamente com meninos e meninas, não se

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interessando particularmente pelos companheiros do mesmo sexo ou do sexo
oposto.

E se hoje, muitas vezes o comportamento das crianças parece denunciar o


contrário, isto, quando acontece, não se deve de modo algum à sua natureza
intrínseca. Mas a estímulos impróprios do ambiente ou de comportamentos
visíveis para suas forças imitativas, uma vez que ela não se distingue ainda do
entorno e aprende por imitação. Disso se depreende a nossa enorme
responsabilidade pela preservação dos pequeninos de tantas imagens e
estímulos que atualmente atuam no sentido da erotização precoce com graves
consequências para o seu desenvolvimento.

A segunda fase, que se caracteriza pelo surgimento das formas femininas,


corresponde ao segundo setênio, em que observamos mesmo antes do limiar
para o terceiro setênio, as meninas revelando em suas formas e
amadurecimento anímico, a transformação que para os meninos virá um
pouco mais tarde.

A terceira fase tem seu correspondente no terceiro setênio quando nasce o


corpo astral e tornam-se claros os caracteres sexuais secundários que
convertem a menina em uma moça e o menino em rapaz. Esta terceira fase
também traz consigo a recapitulação da queda na matéria, a expulsão do
paraíso, com o despertar da consciência intelectual (“E seus olhos se
abriram”), sentimentos de vergonha ou pudor (“E eles viram que estavam
nus”), uma ânsia de liberdade misturada a uma certa solidão e sensação de
desamparo.

E Como Chegamos à Situação Atual?

Vimos que nos primórdios o ser humano possuía uma forma tal que não pode
ser imaginada como a configuração física atual. A humanidade ainda existia
numa esfera acima da esfera terrena material. Mas com a separação em sexos,
em lugar da reprodução assexuada, que era idêntica ao ato de dar
nascimento, iniciou-se a procriação sexual por meio da união dos dois sexos,
que são distintos um do outro. Este ato passou a ser a preparação para a
gestação que era prerrogativa do gênero feminino.

“O papel do sono protetor permaneceu na passagem da primeira para esta


segunda condição. Contudo, a união dos sexos não partia de uma vontade
humana; ela era gerada pelos seres superiores que guiavam a humanidade. O
que a Bíblia narra acerca da criação de Eva foi sempre repetido, embora de
maneira um tanto diferente, quando o ato reprodutivo estava prestes a
acontecer. Os divinos poderes induziam a um sono profundo os dois seres
humanos. Em tempos antigos quando homens e mulheres assumiram uma
forma corpórea bem similar à que portamos hoje, o papel desempenhado pelo

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sono ainda cumpria sua parte. A inocência da condição paradisíaca primordial
era ainda preservada na concepção e no nascimento. Por um longo tempo
ainda, a reprodução humana se deu mais por intermédio dos anjos que pelos
próprios homens.

E significou um estágio completamente novo da evolução quando os seres


humanos despertaram para uma consciência da diferença dos sexos e do
processo de reprodução. O grande protetor, o sono, cedeu lugar no início da
vida às forças provocativas do desejo sensual. O legado de inocência dos
tempos primordiais se esgotara. “O mistério do nascimento lentamente passou
das mãos dos deuses para o poder e livre arbítrio dos homens” (Emil Bock)

Por algum tempo a procriação que fora assunto dos deuses, foi ainda tratada
como algo sagrado e era realizada sob a condução de sacerdotes iniciados
nestes mistérios e em ligação com os ritmos cósmicos na natureza. Em muitas
comunidades ou tribos era comum que todas as mulheres férteis concebessem
na mesma época -- na primavera, no hemisfério norte -- e dessem à luz seus
filhos no mesmo período do ano _ no solstício de inverno. Mas pouco a pouco
esta condução sagrada foi-se perdendo e a humanidade foi-se emancipando
dos ritmos da natureza, e restaram apenas preceitos ligados à religião que
pretendia organizar a vida interior de maneira moralmente sábia. Enquanto os
seres humanos podiam devotar-se em confiança a uma autoridade externa
que se lhes afigurasse digna desta dedicação, ainda havia certa obediência a
estes preceitos.

Porém quando a humanidade chegou a um estágio em que ansiava pela


liberdade e só podia se relacionar com a autoridade não imposta, mas desde o
íntimo reconhecida pela verdade que encerrava, única razão de sua
sustentação, ela abandonou os preceitos que lhe eram preconizados sem que
seus motivos fossem dados ao seu conhecimento. Paralelamente, e em
oposição ao que recomendavam as tradições religiosas, a ciência foi ganhando
espaço como nova autoridade, na medida em que parecia explicar as coisas
com exatidão e objetividade, deixando livres as pessoas para decidirem o que
melhor lhes aprouvesse. Assim, entre a Igreja --que tinha boas razões para
recomendar a continência sexual e o recato, mas sonegava seu conhecimento -
- e a Ciência --que oferecia o conhecimento, mas se ocupava apenas de uma
dimensão ( a físico-sensorial) do ser humano, não podendo portanto,
apresentar a verdade em sua plenitude -- a sociedade se viu, no que tange ao
sexo e à força vital reprodutora, num campo tensional polarizado entre o
puritanismo forçado e a atitude permissiva que passou a prevalecer sobretudo
na cultura ocidental moderna.

“Muitos jovens indagam por que razão não deveria iniciar-se a atividade sexual
tão logo os órgãos sexuais atingem sua maturidade. No caso dos animais, a
maturidade sexual desencadeia, pouco tempo depois, o funcionamento sexual.
No caso do homem moderno, entretanto, a maturidade biológica ocorre dez,
quinze ou mais anos antes do casamento. Terá sentido este lapso? De que
modo deve ser usado?”

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“Pessoalmente, acredito que a verdadeira maturidade, digna de seres
humanos, é atingida vários anos mais tarde do que sugere o desenvolvimento
físico. Atividade sexual antes dessa fase se revelará como exploração, tendo
por consequência uma redução da vitalidade e da longevidade da função.
Observando a vida convenci-me, ademais, de que os jovens que praticam
continência e sublimação sexuais são muito mais felizes, mais ativos, mais
sadios e criativos do que os que trilham o caminho supostamente natural e
cedem aos desejos sexuais.”( John F. Gardner)

Na civilização ocidental a continência sexual antes do casamento foi por muito


tempo um ideal preconizado. Mas a mentalidade mais recente tende a
depreciar este ideal considerando-o impraticável e até prejudicial. Estando
pronta a natureza, diz o raciocínio moderno, ela deveria ter um escape.
Masturbação ou relações sexuais pré-nupciais deveriam ser considerados
como salutares.

São bem conhecidos os argumentos a favor da atividade sexual livre após a


puberdade. Pretendem ter base científica e ostentam uma lógica que persuade
pela simplicidade. Mas contradizem tradições muito mais antigas, baseadas
na religião. Onde se situa a realidade?

A Oportunidade da Adolescência

As razões pelas quais as tradições mais antigas recomendavam a continência


sexual eram profundamente sábias e tinham a ver com a força espiritual
criadora e a intuição que podem resultar deste sacrifício. Vejamos de que
maneira podemos expressar melhor isto.

Por volta dos 12 anos, duas forças diametralmente opostas, mas também
intensamente relacionadas entre si, surgem como disposições novas no ser
humano: a força do intelecto e a da sexualidade, respectivamente nos polos
superior e inferior do organismo. A tensão entre estes dois polos pode e deve
ser criativa no mais alto grau, mas para que isto se dê é necessário que se
estabeleça o domínio da parte central do homem, da qual emana o poder de
harmonizar a ambos.

Examinemos primeiro cada uma destas faculdades. O intelecto pode ser visto
como um anseio de discernir, de conhecer. E para realizar-se necessita de
distanciamento, a fim de obter clareza e distinguir tudo com objetividade,
analisando os fatos, ocupando-se de cada aspecto do fenômeno observado. Já
o sexo é experimentado como uma ânsia de unir. Nele vigoram o calor, a força
de atração, a vitalidade.

O sexo é quente e atrai; o intelecto é frio e afasta. O intelecto estabelece


distância entre as pessoas. Esta força de antipatia (no sentido cunhado por
Steiner) proveniente da mente intelectual é justamente o fator que deveria

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contrabalançar a atração sexual quando esta eventualmente contribuir para o
amor. E, sendo o sexo incomensuravelmente profundo e potente no sentido de
atrair e fundir, a mente ideativa que discrimina, individualiza e separa deve
exercer uma força capaz de opor-se à do sexo. Existem algumas
possibilidades: Pode ocorrer que por um lado o intenso calor da vida seja
resfriado e apagado pelo intelectualismo, por outro, pode ser que a mente
intelectual seja invadida pelo erotismo. Ambas as perspectivas são
indesejáveis. O ideal seria que os dois polos não se enfrentassem de forma
agressiva nem submissa, mas com amor. Neste caso, cada polo faria um
sacrifício de si, a fim de experimentar o outro. Cada um renunciaria em favor
do outro e, consequentemente, redescobriria sua própria vida numa forma
mais elevada.

Esta auto restrição, auto abnegação, é o começo do amor que faz do homem
um ser humano. Neste ato amoroso, o pensamento espera pacientemente até
que seu caráter abstrato se tenha transformado em imagens vivas, seu frio em
calor, sua distância em intimidade, seu desejo de analisar as partes do todo
em vontade de compreender os conjuntos em sua unidade indivisível. O
correspondente ato de amor no polo inferior leva a sexualidade a restringir sua
ânsia de união física a fim de alcançar uma percepção espiritual; a curvar seu
imperioso ardor físico, a conter seu apetite imediato, em prol de um amor
duradouro e de uma visão interior.

Quando o sexo se deixa fecundar pelo seu oposto, ele renasce sob forma de
amor criativo. Quando o intelecto integra as qualidades do seu contrário, ele
se redescobre como amor intuitivo.

Para promover este encontro ideal entre os dois polos, o melhor momento é
justamente o período que vai do início da adolescência até meados da terceira
década de vida. Isto, porque são requisitos para a transformação: de um lado
a continência sexual e de outro uma atitude mental religiosa. Ora, é na
adolescência que encontramos o melhor período para impulsionar a vitalidade
sexual no sentido ascendente, para enriquecer o coração com sentimentos
puros de toda sorte; pois, embora o desejo sensual seja mais intenso nesta
fase, o idealismo também costuma ser mais forte aí do que em qualquer outra
época da vida.

Assim o melhor meio de preparar um jovem para sua adolescência e início da


vida adulta consiste em uma vida familiar e escolar na qual, sobretudo nos
primeiros anos do ensino fundamental, todo ensino se dirija ao coração. Todo
conteúdo deve ser apresentado imaginativamente, artisticamente. Uma vida
afetiva bem articulada, livre de sensualismo, estimula também a pensar e agir
com amor. Se a criança puder tomar contato com a vida de modo cordial,
artístico, e ativamente interessada no mundo e nos seres à sua volta, as forças
nascentes do sexo e do intelecto se manterão unidas por um tempo
suficientemente longo para que se fecundem e se transformem mutuamente.
Aqueles que experimentarem um poderoso fluxo de interesse e participação
com o desenvolvimento de suas capacidades afetivas, das disposições

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anímicas para o amor e a beleza, próprias do segundo setênio, experimentarão
ao invés de um ataque atormentador da sexualidade, um amadurecer mais
harmonioso. O aspecto somático do sexo se desenvolverá tranquilamente, aos
poucos, modestamente. A força intelectual, por sua vez, crescerá dotada de
interesse, imaginação, e intuição.

Pudera o menino manter firme diante de si imagens do que significa ser


homem: o rochedo da coragem decisiva, o fogo do empreendimento, o ar
perfeitamente transparente da compreensão objetiva! Pudera a menina
imaginar vivamente o que significa ser mulher: o Eterno feminino que sempre
atraía a humanidade em direção ao belo e ao amor, em direção à iluminação
do coração, à perfeição da alma e à realização.

Algo disto transpira nos versos poéticos de Victor Hugo sobre o Homem e a
Mulher:

O Homem e a Mulher
Victor Hugo

O homem é a mais elevada das criaturas; a mulher, o mais sublime dos ideais.

Deus fez para o homem um trono; para a mulher, um altar. O trono exalta, o
altar santifica.

O homem é a cabeça; a mulher, o coração. A cabeça produz a luz; o coração, o


amor. A luz fecunda; o amor ressuscita.

O homem é um gênio; a mulher, um anjo. O gênio é imensurável; o anjo,


indefinível.

A aspiração do homem é a suprema glória; a aspiração da mulher, a virtude


extrema. A glória traduz grandeza, a virtude traduz divindade. O homem tem a
supremacia; a mulher a preferência. A supremacia representa a força; a
preferência representa o direito.

O homem é forte pela razão; a mulher, invencível pela lágrima. A razão


convence, a lágrima comove.

O homem é capaz de todos os heroísmos; a mulher, de todos os martírios. O


heroísmo enobrece, o martírio sublima.

O homem é o código; a mulher, o evangelho. O código corrige, o evangelho


aperfeiçoa.

O homem é um templo; a mulher, um sacrário. Ante o templo nos descobrimos,


ante o sacrário nos ajoelhamos.

O homem é um oceano; a mulher, um lago. O oceano tem a pérola que o


embeleza, o lago tem a poesia que o deslumbra.

O homem é a águia que voa; a mulher, o rouxinol que canta.

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Voar é dominar o espaço, cantar é conquistar a alma.

O homem tem um farol, a consciência; a mulher tem uma estrela: a esperança. O


farol guia, a esperança salva.

Enfim, o homem está colocado onde termina a terra; a mulher, onde começa o
céu...

A principal questão para os jovens desta época é que eles carecem de imagens
e conceitos sobre o que é possível no caminho do desenvolvimento humano.
Eles imaginam que a meta da vida é o uso de suas capacidades herdadas ou
adquiridas para realizar desde logo alguma coisa no mundo exterior, ao invés
de primeiro se encontrarem a si mesmos. Não lhes ocorre pensar que a maior
e primeira tarefa é conceber-se a si mesmo, a pessoa que ele será, e de
promover o nascimento de si mesmo sob a forma de ser humano livre e
criativo, capaz de conduzir-se a si próprio.

Aos que afirmam que salutar é seguir os impulsos da natureza, e que praticar
sexo é algo inteiramente natural, é bom lembrar que o homem não é
exclusivamente um ser natural. Ele possui sem dúvida uma dimensão que
pertence à natureza, mas viver entregue a ela é ignorar, desmerecer ou
desprezar as demais instâncias de seu Ser. O que caracteriza o ser humano é
justamente o fato de que não foi criado perfeitamente pronto e acabado, mas
afirma sua dignidade precisamente quando se eleva acima desta natureza e a
transforma a serviço de algo maior e mais nobre, a dimensão ideal, espiritual
do ser. Em sua filosofia da Liberdade, diz Steiner: “Existe no homem a
possibilidade de se transformar, assim como a semente da planta contém em
si a possibilidade de evoluir para uma planta completa. A planta se
desenvolverá em função da lei que lhe é inerente; o homem permanece em seu
estado imperfeito, a menos que assuma a si mesmo como uma matéria a ser
transformada por força própria. A natureza faz do homem um mero ser
natural; a sociedade, um ser que age conforme leis; um ser livre somente ele
pode fazer de si mesmo. A natureza abandona o homem em determinado
estado de sua evolução; a sociedade o conduz alguns passos adiante; o último
aperfeiçoamento somente ele pode dar a si próprio”.

O homem não recebe sua qualidade humana como dádiva, mas tem que forjá-
la, tem que lutar por ela. Sua luta é contra a própria natureza: tem de
apoderar-se da natureza dada e reestruturá-la de acordo com a própria ideia.

Por outro lado, encontrar o tom adequado para abordar a questão, não é tão
simples e encontra-se entre os grandes desafios que confrontam aqueles que
queiram dedicar-se à tarefa de orientação dos jovens para uma sexualidade
sadia. Se não se trata de entregar-se aos instintos naturais, tampouco se trata
de obedecer a preceitos morais, mas agir a partir do reconhecimento do
verdadeiramente bom por si mesmo. Trata-se de um progresso ético quando
alguém não executa mais cegamente um mandamento externo ou interno,
mas deseja entender a razão pela qual deve fazer isto ou aquilo. Este
progresso é o passo da moral autoritária para a moral baseada em

14
entendimento ético. E assim prossegue Steiner dizendo: “Em função dos meus
instintos e impulsos somente pertenço à espécie homem; o fato de expressar
na minha organização uma força ideativa é o que possibilita a minha
individualidade. Por meus instintos e impulsos sou um homem igual aos
outros; pela força ideativa, que me capacita a ser um eu no meio de outros,
sou uma individualidade. A sensação de liberdade, nós a temos quando uma
ação provém da parte ideativa de nosso ser.”

E ainda: “Quem apenas age porque reconhece certos princípios morais, age
em virtude de um código moral, é apenas um executor ou um autômato. (...)
Apenas seguindo o meu amor à ação sou eu quem age. Nesse nível da
moralidade, não ajo por obediência a uma autoridade e tampouco em
decorrência de uma voz interna. Não reconheço nenhum princípio externo
para meu agir, porque achei em mim mesmo a razão para minhas ações, o
amor à ação. Não analiso racionalmente se minha ação é boa ou má; eu a
realizo porque a amo. (...) Não me sinto coagido por meus instintos naturais, e
tampouco por mandamentos morais, quero fazer o que está em mim”.

Assim, se lembrarmos que uma das premissas para o educador do terceiro


setênio é a autenticidade, além da congruência moral, uma vez que na alma
do jovem surge a disposição para o verdadeiro, encontraremos a diretriz
fundamental para nossa conduta quando se tratar de orientá-lo nesta e em
tantas outras questões significativas para sua vida: cuidar de não soar
moralista, a partir de uma pretensa autoridade, que se supõe dona da
verdade, do que é certo e errado, mas dar-lhe as condições de reconhecer por
si mesmo o verdadeiramente bom segundo seu próprio destino interior,
levando-o à observação dos fatos, indagando ao invés de afirmar postulados e
compartilhando com sinceridade o que aprendemos em nosso caminho de vida
com nossos erros e acertos.

O Ato Sexual Como Imagem da Fecundação Pelo Espírito e a Reconquista


da Unidade Superior. Sua Relação com o Mistério do Golgotha.

(aqui compilo trechos inteiros de uma conferência de Rudolf Steiner proferida em


Hamburgo, no dia 18 de maio de 1908 e os entreteço a comentários meus)

O conceito de conhecimento tinha um sentido muito mais profundo e real em


tempos antigos. Quando lemos na Bíblia que “Abraão conheceu sua esposa”,
nós logo compreendemos que se trata de uma menção à fertilização e
reprodução.

Se considerarmos as palavras “Oh, Homem, Conhece-te a ti mesmo” sob a


mesma luz, veremos que são qual um apelo para que nos deixemos ser
fecundados por aquilo que desde o mundo espiritual pode fluir ao nosso
encontro.

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Entretanto, duas coisas são necessárias para que isto se dê: primeiro, uma
preparação através da purificação e iluminação, e , em segundo lugar, um
abrir-se livremente para o mundo espiritual. Aqui podemos perceber a
semelhança de nossa natureza anímica com o aspecto feminino e o conteúdo
do mundo espiritual com o masculino em sua atuação impulsionadora,
fecundante. O ser interior deve se tornar sensível e receptivo ao Eu Superior.
Quando isto acontece, o ser humano superior flui para dentro de nós desde as
alturas espirituais.

Isto significa que nossa natureza íntima – o corpo astral – deve ser purificada e
enobrecida, submetendo-se a uma “catharsis”. Então o espírito pode
derramar-se nela iluminando-a. Isto acontece quando o corpo astral se depura
até o ponto de desenvolver órgãos de percepção suprassensível.

Este corpo astral purificado que no momento da iluminação já não contém em


si quaisquer impressões impuras do mundo sensorial mas somente órgãos de
percepção superior é chamado no esoterismo cristão de “Virgem Sophia” –
Virgem, porque puro, casto; e Sophia, porque é purgado pela assimilação
progressiva de uma matriz de sabedoria universal, na convivência com
conteúdos espirituais. Por meio de tudo quanto se recebe na qualidade de
pupilo, ou aspirante espiritual durante a catarse, nós limpamos e purificamos
o corpo astral em tal medida que este se transforma na Virgem Sophia. E
quando a Virgem Sophia encontra o Eu Cósmico, o Eu Universal que leva à
iluminação, o discípulo é envolto pela luz espiritual. No esoterismo cristão,
este segundo poder que se aproxima e penetra a Virgem Sophia é chamado
Espírito Santo.

Pode-se, portanto, dizer que, por meio de seus processos de iniciação o


esoterismo cristão purifica e enobrece o corpo astral, tornando-o na Virgem
Sophia que é iluminada de cima – ou em outras palavras – é coberta pelo
Espírito Santo, o Eu Cósmico Universal.

Há um belo poema de Fernando Pessoa que alude a esta realidade da


fecundação da alma pelo espírito e a concepção do verdadeiro ser em nosso
próprio íntimo. Basta tomarmos a princesa como a natureza anímica receptiva
à dimensão espiritual do ser que a fecunda, representada pelo príncipe.

16
Eros e Psique

Fernando Pessoa

Conta a lenda que dormia


Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,


Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,


Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino


Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro


Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,


À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

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Se, no entanto prosseguirmos em nossas reflexões, veremos que alguém assim
iluminado, ou ainda, alguém que tenha concebido o Espírito Santo em si, fala
de maneira diferente dali em diante. E como fala então? Quando alguém assim
fala, por exemplo, de Saturno, Sol, Lua, quando fala dos estágios
evolucionários ou de diferentes aspectos do ser humano, ou ainda de
processos da evolução cósmica, não está expressando sua opinião. Sua
própria visão não entra em consideração de modo algum. Quando tal pessoa
fala do Antigo Saturno, é o próprio Saturno que fala através dela. Quando ela
fala do Sol, é o ser espiritual do Sol quem fala por meio dela. Ela é o
instrumento, seu ego pessoal é eclipsado – o que significa que em momentos
assim, é o Eu Universal Cósmico e Supra pessoal que se utiliza de seu ego
como instrumento para falar por meio dele.

Desse modo adquirimos dois conceitos e encontramos seu significado


espiritual. Aprendemos a conhecer a natureza da Virgem Sophia, que é o
corpo astral purificado e transformado e a natureza do Espírito Santo, o Eu
Cósmico Universal que a Virgem Sophia recebe e que pode então falar a partir
deste corpo astral modificado.

Há ainda algo mais a ser conquistado, um estágio ainda mais elevado: a


habilidade de auxiliar outros dando-lhes o ímpeto para realizar ambos os
estágios. Em nosso atual estágio de evolução as pessoas podem receber a
Virgem Sophia ( o corpo astral depurado) e o Espírito Santo ( a iluminação) da
maneira descrita, mas somente o Cristo Jesus poderia dar à Terra o que era
necessário para realizar isto. Ele implantou na parte espiritual da Terra as
forças que possibilitam que isto aconteça.

Os eventos na Palestina não têm a ver apenas com a excelsa individualidade


de Jesus de Nazareth, que passou por muitas encarnações e desenvolveu-se
tanto que precisou de uma mãe extraordinária como a Virgem Sophia, mas
também têm relação com outro mistério. Quando Jesus alcançou os 30 anos
de idade, o que ele experimentara até então lhe possibilitou a realização de um
ato excepcional.

Nós sabemos que o ser humano consiste de corpo físico, corpo etérico, astral e
um Eu. Este ser humano tetramembrado é o ser humano terrestre que
conhecemos. Mas a certo estágio da evolução, num momento em particular,
uma pessoa pôde retirar seu Eu destes três corpos e abandoná-los, deixando-
os intactos, inteiramente incólumes. Este Eu penetrou os mundos do espírito
e os três corpos ficaram para trás. E porque estes corpos eram tão refinados e
altamente desenvolvidos pelo Eu que neles vivera, eles eram instrumentos
adequados a um ser ainda mais elevado que então se apropriou deles. No 30º
ano de Jesus de Nazareth o ser a quem chamamos Cristo tomou os corpos
físico, etérico e astral de Jesus.

A corporalidade de Jesus de Nazareth da qual ele se retirou, era tão madura e


perfeita que o Logos Solar, o próprio Ser do Sol, foi capaz de penetrá-lo. Ele
pôde encarnar-se por três anos nesta corporalidade, pôde tornar-se carne. O

18
Logos Solar que pode brilhar nos seres humanos através da Iluminação, o
próprio Logos, o Espírito Santo, penetrou. O Eu Universal, o Eu Cósmico
entrou em Jesus e dali em diante, por três anos, falou através do corpo de
Jesus. Cristo fala através de Jesus durante aqueles três anos. Este evento é
indicado no evangelho de João e também nos outros evangelhos, como a
descida da pomba do Espírito Santo em Jesus. Neste momento, o Cristianismo
Esotérico nos conta que o Eu de Jesus deixou seu corpo e a partir de então o
Cristo está nele falando, ensinando, e agindo por meio dele. Este é o primeiro
evento de acordo com o evangelho de João. Agora temos o Cristo nos
invólucros astral, etérico e físico do homem de Nazareth. Ali Ele atuou como
descrito até o mistério do Golgotha. O que ocorreu no Golgotha? Consideremos
aquele importante momento em que o sangue fluiu das chagas do Salvador
crucificado. Para facilitar a compreensão, utilizemos uma comparação.

Suponhamos que temos aqui um recipiente cheio de água. Nesta água


dissolvemos sal e ela se torna de novo transparente. Aquecendo a água temos
uma solução salina. Agora resfriemos a água. O sal se precipita e vemos como
ele se condensa abaixo formando um depósito no fundo do recipiente. Este é o
processo para quem o observa apenas com olhos físicos. Para uma pessoa que
vê com olhar espiritual, algo mais acontece. Enquanto o sal se condensa no
fundo, o espírito do sal flui para cima através da água, permeando-a. O sal só
se pode condensar quando sua contraparte espiritual se desprende dele e se
difunde na água. Aqueles que compreendem estas coisas sabem que onde
quer que o fenômeno da condensação ocorra uma espiritualização também
acontece. Sempre! O que assim se condensa abaixo tem sua contraparte acima
no espiritual tal como no caso do sal o espírito deste flui acima e se dissemina
quando ele precipita e se deposita embaixo.

Desse modo não apenas um processo físico ocorreu quando o sangue jorrou
das chagas do Salvador, mas foi realmente acompanhado de um processo
espiritual. Ou seja, o Espírito Santo que fora recebido por ocasião do Batismo
no Jordão uniu-se com a Terra. O próprio Cristo fluiu para o Ser da Terra. E
desde então a Terra se transformou e é por isso que se uma pessoa pudesse
ver a Terra desde as estrelas com olhar clarividente observaria que sua
aparência foi totalmente transformada pelo mistério do Golgotha. O Logos
Solar tornou-se parte da Terra, formou com ela uma aliança e se converteu no
Espírito da Terra. Ele alcançou isto entrando no corpo de Jesus de Nazareth
em seu 30º ano de vida e permanecendo ativo nele por três anos, após o que,
prosseguiu incorporando-se à Terra.

Agora o fato importante aqui é que este evento deve agora exercer um efeito
sobre todo cristão verdadeiro, isto é, todo aquele que busca uma relação com o
Cristo, cuja essência é Amor. Isto deve dar-lhe algo por meio do que ele possa
gradualmente desenvolver os primórdios de um corpo astral purificado no
sentido crístico. Tinha de haver um poder disponível para os que o buscassem,
pelo qual se pudesse fazer do próprio corpo astral uma Virgem Sophia e
através dele receber o Espírito Santo que pôde impregnar a Terra toda, mas
que não poderia ser acolhido por qualquer um cujo corpo astral não se

19
assemelhasse à Virgem Sophia. Que poder é este? Ele consiste no fato de o
Cristo Jesus ter confiado ao “discípulo que Ele amava”, o escritor do evangelho
de João – a missão de descrever verdadeira e fielmente por meio de sua
iluminação, os acontecimentos na Palestina de forma que eles pudessem atuar
sobre os seres humanos.

Se as pessoas permitissem que o que está escrito no evangelho de João


atuasse suficientemente neles, seu corpo astral passaria por um processo que
conduziria à sua conversão em Virgem Sophia, tornando-o receptivo ao
Espírito Santo.

Gradualmente através da força deste impulso emanando do evangelho,


primeiro se sentiria e se perceberia o verdadeiro espírito. Jesus Cristo confiou
esta missão ao escritor deste evangelho.

Basta ler corretamente: A mãe de Jesus, a Virgem Sophia no esoterismo


cristão, está aos pés da cruz e desde a cruz diz o Cristo à João: “De hoje em
diante esta é sua mãe” E a partir daquele instante o discípulo a tomou em si.
Isto quer dizer: “a força que estava em meu corpo astral e o fez capaz de
receber o Espírito Santo, Eu agora dou a você. Escreva o que este corpo astral
foi capaz de adquirir através deste desenvolvimento”.

“E o discípulo tomou-a consigo”. Isto quer dizer que ele escreveu o evangelho
de João. E neste evangelho o escritor encerrou forças que levam ao
desenvolvimento da Virgem Sophia. Junto à cruz ele recebeu a missão de
acolher estas forças como sua mãe e de ser o fiel e autêntico intérprete/
tradutor do Messias.

Isto realmente significa que se vivermos inteiramente segundo o Evangelho de


João e o compreendermos espiritualmente, ele tem o poder de conduzir-nos à
“Catharsis” Cristã e dar-nos a possibilidade de convertermo-nos em Virgem
Sophia. Então o Espírito Santo unido à Terra nos agraciará com a iluminação
– aquilo que os primeiros cristãos chamavam de “Photismo”.

E o que os discípulos mais íntimos experimentaram na Palestina foi tão


poderoso que a partir de então se lhes despertou a capacidade de perceber no
mundo do espírito. Eles receberam esta capacidade, este dom. Perceber em
espírito, num sentido cristão, significa que nós transformamos nosso corpo
astral a um grau tão elevado por meio da força dos acontecimentos da
Palestina, que o que vemos não necessita estar diante de nós de modo físico-
sensorial, exterior.

Se nós tentarmos transformar em sentimento, em experiência aquilo que


podemos aprender da ciência espiritual sobre o evangelho de João, nós
veremos que este evangelho não é um livro texto, mas uma força que pode ser
ativada em nossas almas.

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Referencias Bibliograficas

Youth Longs to Know - John Fentress Gardner – Anthroposophic Press

A Crônica do Akasha – RudolfSteiner – Editora Antroposófica

The Mysteries of The Holy Grail ( from the work of Rudolf Steiner) – extrato da
palestra dada em Hamburgo, 18/05/1908 --- Rudolf Steiner Press

Origen y Naturaleza de los Sexos – Johannes Lenz – Comunidad de Cristianos

Filosofia da Liberdade – Rudolf Steiner - Editora Antroposofica

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Sobre Sexualidade e Primeira Infância

Se o sentido das palavras se reflete no significado das mesmas, poucas


palavras são tão significativas quanto sexo, pois este termo deriva do verbo
latino “secare” que significa cortar, separar. Já sexualidade, termo mais recente
e mais amplo surgiu para designar um fenômeno que inclui, além do biológico
todos os impulsos e manifestações psíquicas e sociais ligadas ao sexo.

Corroborando essa afirmação tem-se que: segundo a etimologia da palavra,


sexo vem do latim secare, significando seccionar, partir. Ela busca em Platão,
mais especificamente no Banquete, a explicação para a origem mítica do termo.
De início, Deus criara o ser humano masculino-feminino. Este, porém, ficou
muito arrogante, pois sentia-se completo, total, esférico. Deus, por isso, cortou-o
em dois, para que, contemplando a própria mutilação, moderasse a sua
arrogância. Desde então, cada um procura o seu complemento. E a este desejo
dá-se o nome de amor, que tanto se caracteriza pela busca do prazer sexual,
como do preenchimento de necessidades emocionais as mais diversas -
admiração, companheirismo, amizade e outras identificações com o par. Busca
esta que configura a sexualidade, em seu sentido lato (NEGREIROS, 2004:77).

Em seu livro, A Infância de Jesus, ao abordar o mistério do Nascimento


Virgem, Emil Bock escreve:

“No curso da evolução da Terra, tal como nos declara a Bíblia (Gen, 1:27), o
ser humano surgiu inicialmente como um ser masculino-feminino, não
sexuado. Em nossos estudos anteriores, falamos das primeiras fases do
desenvolvimento humano na Terra em conexão com as imagens da pesquisa
espiritual antroposófica. Nós tentamos explicar que o ser humano primordial
não pode ser imaginado em um corpo físico material denso. Por mais tempo
que os outros reinos da natureza, o homem permaneceu no estágio bem inicial
da integração de substâncias mais densas na corporalidade. Até então,
nenhum traço do elemento sólido terrestre estava presente em toda a
existência planetária. Ao emergir da criação pré-física, a evolução primeiro
passou através dos elementos do calórico, aéreo, e líquido. Enquanto os seres
humanos eram de natureza assexuada e habitavam um corpo volátil ou fluido,
a procriação acontecia por meio de um sacrifício de uma parte da
corporalidade a uma outra alma humana sob a direção de seres superiores.
Um profundo sono, induzido pela divindade, era o elemento protetor para o
mistério do nascimento. E quando uma alma humana deixava seu corpo,
então isto também era como mergulhar em sono profundo, como se o ser fosse
inalado pelo cosmos. Nenhum resto mortal era deixado para trás.; a
corporalidade abandonada podia imediatamente continuar a servir à
configuração da vida. O sono, que ocupava o lugar da morte, era bem próximo
do que se ocultava no mistério do nascimento, o mesmo sono sob cuja
proteção ocorria a oferta da base corpórea para uma outra alma que desejasse
nascer.

22
Assim como a assexualidade, esta forma de nascimento continuou existindo
por longo tempo, mesmo quando o ser humano começava a viver numa
corporalidade que gradualmente foi se solidificando. Tendo falado da origem
do ser humano terreno (Gen 2:7), o relato bíblico descreve-nos como esta
forma de procriação foi mantida até os tempos em que a separação dos sexos
ocorreu. A criação de Eva, na origem da diferenciação dos sexos, é contada da
seguinte forma: Os seres criadores fizeram com que o ser humano caísse num
sono profundo, e do ser adormecido, tomaram uma parte de sua corporalidade
a fim de formar um corpo para aquela alma que, pela primeira vez, seria a
portadora de uma forma humana feminina (Gen 2:21).

Até então, o ser humano não pode ser imaginado em uma forma física
semelhante à que possui hoje. A humanidade ainda existia numa esfera acima
da esfera terrena material. Mas agora, em lugar da reprodução assexuada, que
era idêntica ao ato de dar nascimento, inicia-se a procriação sexual por meio
da união dos dois sexos, que são distintos um do outro. Este ato era agora a
preparação para a gestação, que era prerrogativa do gênero feminino. O papel
do sono protetor permaneceu na passagem da primeira para esta segunda
condição. Contudo, a união dos sexos não partia de uma vontade humana; ela
era gerada pelos seres superiores que guiavam a humanidade. O que a Bíblia
narra acerca da criação de Eva foi sempre repetido, embora de maneira
diferente, quando o ato reprodutivo estava prestes a acontecer. Os divinos
poderes induziam a um sono profundo os dois seres humanos. Em tempos
históricos quando homens e mulheres assumiram uma forma corpórea bem
similar à que portamos hoje, o papel desempenhado pelo sono ainda cumpria
sua parte. A inocência da condição paradisíaca primordial era ainda
preservada na concepção e no nascimento. A reprodução humana acontecia
mais por intermédio dos anjos que pelos próprios homens.

E significou um estágio completamente novo da evolução quando os seres


humanos despertaram para uma consciência da diferença dos sexos e do
processo de reprodução. O grande protetor, o sono, que fora há muito
substituído ao final da existência pela morte, sua irmã mais sombria, cedeu
lugar no início da vida às forças provocativas do desejo sensual. O legado de
inocência dos tempos primordiais se esgotara. O “mistério do nascimento
lentamente passou das mãos dos deuses para o poder e livre arbítrio dos
homens.”

É interessante perceber que esta transição do ser humano primordial,


masculino-feminino para o ser que habita uma forma unissexuada, masculina
ou feminina é repetida em nossa própria formação embrionária. Durante a
gestação, nas primeiras sete semanas a aparência dos fetos masculinos e
femininos é totalmente idêntica. Ambos ainda possuem uma disposição
hermafrodita para os órgãos reprodutivos, isto é, esses órgãos primordiais
ainda não se diferenciaram e mantêm características femininas e masculinas.
Aproximadamente a partir da sétima semana, o sexo oposto àquele que está
determinado geneticamente regride, começa a involuir.

23
O mais interessante é que, simultaneamente, começam a se desenvolver as
vesículas cerebrais, a partir das quais se forma o cérebro – base da atividade
pensante, da consciência. Isto nos mostra que potencialmente, tanto o homem
quanto a mulher possuem a predisposição para os dois sexos no que se refere
às forças de crescimento. Este processo se relaciona também com outra
transição que ocorre entre duas fases da vida: assim, a primeira infância é
como um eco do paraíso, do ser humano ainda não diferenciado em homem e
mulher. A criança conserva a pureza, a inocência e a inconsciência em relação
a estas coisas. Vive em unidade com o mundo, especialmente com a Natureza,
e aprende por meio de vivências que faz mediante sua corporalidade e a
imitação. Daí a importância de se cuidar do seu entorno, daquilo a que ela
estará exposta como influência do seu ambiente físico e anímico, pois ela o
absorverá sem qualquer censura ou discernimento. Em contrapartida, é na
adolescência que recapitulamos a experiência da queda do Paraíso com o
despertar simultâneo da consciência, do pudor (a vergonha) e a consumação
da diferenciação sexual. Este período e’ chamado por Steiner de “maturidade
terrena”. Será então apropriado falar de sexualidade da criança pequena?

Vejamos o que diz o Dr. Wolfgang Gadeke em entrevista que concedeu a


respeito do tema

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SEXUALIDADE DA CRIANÇA PEQUENA?

Extraído de Sexuality, Partnership and Marriage from a Spiritual Perspective

De Wolfgang Gadeke

WW.: Vamos considerar o ser humano em seus primeiros sete anos de


vida. Qual é a configuração de nossos membros constituintes neste
período?

W Gadeke: No nascimento a criança só nasceu realmente no sentido físico. Em


relação aos seus outros membros formadores de sua constituição ela ainda
não nasceu, isto é, ainda não é independente, como descreve Rudolf Steiner
em seu “A Educação da Criança à Luz da Ciência Espiritual”. Inicialmente a
criança é obviamente dependente da nutrição proveniente do corpo da mãe,
embora não mais a partir do sangue – agora, através do leite materno, e assim
está ainda em conexão imediata com a mãe. Isto se expressa no fato de que as
forças vitais da criança, numa grande extensão, ainda não se emanciparam
das forças vitais da mãe. Com respeito à alma também se pode notar nas
crianças pequenas que a gama de expressões é ainda muito limitada. Os
pequeninos já exibem movimentos básicos, as primeiras habilidades de
percepção e sentimento, mas a maior parte das funções anímicas só se
desenvolverá mais tarde.

A alegria, o sorriso intencional ou uma simpatia profundamente sentida, estas


coisas não estão imediatamente presentes desde o início. Mesmo funções
ligadas ao Eu, não se desenvolvem senão aos poucos, por exemplo, a
coordenação dos olhos, dos movimentos das mãos para preensão, o domínio
das pernas para o andar ereto, etc. Basicamente todas estas funções se
relacionam com o Eu. A alma, bem como a natureza interior de uma criança
pequena está ainda fortemente ligada aos pais e ao ambiente que a envolve.

É somente durante o desafiador estágio do Não – por volta dos três anos que a
criança começa lentamente a distinguir-se de seu ambiente e principia a
experiência de si mesma como algo separado, com sentimentos próprios.

WW: Sigmund Freud refere-se a uma sexualidade infantil abrangendo uma


fase oral e uma fase anal. Por que não é apropriado nos termos da
imagem antroposófica do homem falar de sexualidade em relação a esta
fase da vida?

W. Gadeke: Isto depende de como se define sexualidade, do conceito de


sexualidade que se tem. Naturalmente a criança pequena passará por uma
fase de levar à boca tudo o que toma com as mãos, isto é perfeitamente óbvio,
mas a questão é se tal comportamento deveria ser descrito como sexual.
Ademais, é desnecessário dizer que uma criança explorará todas as partes de
seu corpo – e também os órgãos sexuais – e fará isto de uma maneira lúdica,
como numa brincadeira. Entretanto, ninguém se refere a uma fase calcânea,
só porque a criança se concentra por certo tempo em sua descoberta de seus

25
calcanhares. Eu diria que não há absolutamente nenhuma diferença na
atenção da criança pelas várias partes de seu corpo, inicialmente todas elas
são de igual interesse. Donde se conclui que é prematuro falar em sexualidade
neste contexto.

WW.: Se as crianças em seus primeiros sete anos fossem ativamente


estimuladas a brincar com seus genitais, ou a viver a partir da assim
chamada sexualidade infantil, ou se as crianças forem realmente
abusadas por adultos – como isto as afetaria mais tarde, digamos entre os
vinte e um e vinte e oito anos?

O simples fato de as crianças serem realmente estimuladas a se relacionar


com seus órgãos genitais de maneira sexual – e isso não é algo que elas fariam
por si mesmas, entregues unicamente à sua natureza – só isto já indica que
provavelmente resultariam situações problemáticas. Pois a criança é
forçosamente levada a perceber seu próprio corpo e isto resultará em uma
perda do interesse pelo mundo. A criança sadia quer crescer em direção ao
mundo, explorar o mundo, e qualquer tipo de intensificação da auto-percepção
impedirá isso em maior ou menor grau. Portanto o principal foco da educação
da criança deveria ser encorajá-la a explorar o mundo com suas mãos – no
sentido literal – e não a si mesma.

Quando atos sexuais reais, num sentido adulto, são realizados com uma
criança – como o abuso por um parente próximo – e não é necessário que seja
um estupro – então esta é uma das situações mais atrozes, das coisas mais
cruéis que podem ser feitas a uma criança. Em meu grupo de aconselhamento
de casais encontrei certa vez uma jovem senhora que lidou bastante com este
tipo de problema, e também conheço vários relatos de pessoas que sofreram
abuso sexual na infância. Tais abusos tiveram efeitos terríveis no quarto
setênio de vida destas pessoas. Isto também afeta a relação conjugal de
diversas formas sendo verdadeiramente um infortúnio, pois é muito difícil
curar as feridas sofridas dessa maneira.

(...)

WW.: Como uma criança se relaciona com seu corpo nestes primeiros
anos? Ela se relaciona com seus órgãos sexuais diferentemente dos
outros órgãos do corpo?

W. Gadeke: Penso que não. E certamente nunca observei qualquer coisa assim
com meus próprios filhos.

WW.: Será que acontece um certo sentimento de vergonha?

W. Gadeke: Isto varia de criança para criança. Mas em geral, quanto mais
inocente, ou em outras palavras, quanto menos acordada e consciente for uma
criança, tanto mais espontânea ela será. A vergonha indica o despertar da
consciência de si mesmo associada a um sentimento de autocensura.

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Segundo a Dra Michaela Gloeckler em seu consultório Pediátrico diante da
pergunta: “Existe uma sexualidade Infantil?” as opiniões divergem. De
acordo com sua experiência a imitação tem um papel importante neste
aspecto. Num sentido puramente biológico, o amadurecimento das glândulas
germinativas inicia-se entre os nove e os dez anos de vida, e junto com ele o
desenvolvimento sexual. Antes disso, a criança está totalmente aberta ao
mundo e tem necessidade de uma vivência corporal em sentido amplo, e não
especificamente vinculada às zonas erógenas, que mais tarde serão
vivenciadas com maior nitidez. Ela quer ser amada por inteiro e não ser
estimulada sexualmente. Se isto, todavia for provocado pelo adulto ou por
crianças mais velhas, despertando sua atenção ou até dando o exemplo, o fato
se resolverá por si desde que não se dê atenção especial à conduta resultante
e o contato com os coleguinhas em questão seja reduzido ou acompanhado
mais atentamente. A situação, porém, é diferente quando a criança fica
sozinha, ou sente tédio, ou tem medo. Então a necessidade de intensificar a
propriocepção é satisfeita, via de regra, com o chupar o dedo, ou com a
ingestão de alimentos. Essa também pode ser a causa de masturbação
excessiva.

Sobre o Onanismo (Masturbação)

O Onanismo ou masturbação na infância é um sintoma, não representando,


em si, um distúrbio ou perversidade.

Na criança pequena, o fator desencadeante é às vezes uma assadura em vias


de cicatrização; outras vezes a masturbação surge como uma descoberta,
desaparecendo após algum tempo. Deita-se a criança de lado, colocando-se em
suas mãos um objeto querido.

Algumas vezes nota-se que ao adormecer, um bebê um pouco maior ou uma


criança pequena realiza uma fricção ou um balanço rítmico na região pélvica e
das coxas, tendo ou não um travesseiro ou uma boneca entre as pernas.
Essas crianças parecem estar distantes, ou quase adormecidas, ás vezes
banhadas em suor. Antes de tomar alguma medida impensada contra isso,
apesar da preocupação, é melhor consultar o pediatra. Em todo caso, deve-se
cuidar para que a criança canse seu corpo com brincadeiras espontâneas
durante o dia, seja levada ao colo várias vezes e, durante o passeio, talvez seja
carregada nos ombros por algum tempo. Quando a masturbação aparece na
criança maior como hábito e é praticada com excessiva frequência, deve-se
pesquisar tal como no caso do hábito persistente de chupar o dedo, quais
influências ambientais poderiam desencadear ou acentuar o quadro: rejeição;
falta de amizades; tédio; medidas pedagógicas muito rígidas ou limitantes ou
pressão anímica. O objetivo aqui é restabelecer o equilíbrio anímico. O
despertar de novos interesses desvia a atenção para longe do próprio corpo. O
que também ajuda é levar a esforços físicos em jogos ou longas caminhadas,
evitar a sobrecarga intelectual e contar histórias para a criança à noite, o que
a conduz à beira do sono. É bom lembrar, entretanto, que como regra geral, a
manipulação dos órgãos genitais pela criança é absolutamente natural entre

27
os quatro e os sete anos. Após este período esta dinâmica submerge, entra
num estado de latência, voltando a emergir por volta dos doze anos, desta vez
com outro caráter.

Sobre Conversas e Perguntas Delicadas

Aqui tocamos um ponto crucial para todas as conversas de educação sexual:


só devem ser respondidas as perguntas realmente levantadas pela criança e
cujas respostas lhe interessem; pois tudo o que for explicado sem ter sido
perguntado se revelará como um peso anímico para ela, interferindo muitas
vezes em seus sentimentos e pensamentos ligados à questão da sua origem.

Em geral as crianças pequenas não estão interessadas em detalhes orgânicos


quando perguntam sobre o nascimento ou como vieram ao mundo. Suas
indagações têm por vezes um caráter metafísico. Querem ver confirmada sua
origem espiritual e sua adoção na Terra pelos pais por elas escolhidos. A
existência anímica-espiritual livre do corpo não pode ser vista, mas por meio
de pensamentos e sentimentos é possível dirigir-se a ela. Se a educação sexual
se limitar ao plano puramente biológico, terá um caráter opressivo para a
criança, pois ela sente que esta não pode ser toda a verdade, ou então toma
conhecimento de detalhes sem saber o que fazer em seu intimo. A curiosidade
fica temporariamente satisfeita, mas a pergunta sobre a origem da criança não
terá sido respondida satisfatoriamente.

- Mamãe, por que eu nasci?

- Ora, você queria nascer e nós queríamos uma criança.

Esta seria uma resposta verdadeira. Conforme o caso, também se poderia


contar a história de como, desde o céu, o ser da criança se preparou para
descer ao mundo através de seus pais, tal como é costume fazer na celebração
dos aniversários nos jardins Waldorf.

Segundo disse Rudolf Steiner, em fevereiro de 1920, em Dornach:

“Nós devemos aprender a dizer-nos não somente: nós estamos felizes porque
nasceu-nos uma criança; mas também poder dizer que somos meramente o
instrumento para isso; para que uma individualidade espiritual que quer
continuar sua existência sobre a Terra possa encontrar a oportunidade para
isso por nosso intermédio.”

E em Agosto de 1906, Stuttgart:

“(...) O fato não é que a criança se assemelha aos pais, mas ao contrário, ela
buscará nascer naquela família cujos pais mais se assemelhem a ela”. Poder-
se-ia pensar: ‘mas isso não desmerece o amor materno? ’ De forma alguma.
Justamente por já existir uma profunda simpatia antes do nascimento, é que

28
a criança vai ao encontro daquela mãe em particular. O amor entre eles tem
sua origem num tempo muito anterior a este acontecimento; e continua a fluir
depois que a criança vem ao mundo.

A criança amou sua mãe muito antes de nascer. Não é de admirar que a mãe
corresponda a esse amor. Assim “o significado do amor materno não fica
falsamente explicado; antes, tem sua verdadeira fonte esclarecida”.

Outra situação bastante frequente diz respeito a como os adultos reagem em


certas ocasiões, imprimindo ao fato uma importância e projetando nele um
significado maior ou desproporcional ao que ele realmente tem. Isto porque o
fato suscita neles uma emoção, uma situação para a qual não têm uma
resposta adequada e pronta. Por exemplo:

Certo dia, um menino de dez anos mostrou furtivamente à mãe um bilhete que
trouxera da escola. Este continha um desenho obsceno e uma frase
correspondente. A mãe tranquilamente comentou: “Eu não gosto desse tipo de
coisa. Foi bom você me mostrar, mas agora eu gostaria de jogar fora este
bilhete.” E assim o caso ficou resolvido. O menino percebeu que a mãe não fez
nenhum escândalo, ao contrário da professora, que ficara vermelha e deixara
a classe toda de castigo na sala de outro professor. Isto lhe trouxe um grande
alívio. Assim ele ficou sabendo que aquilo é algo que se evita, como evitamos
outras coisas das quais não gostamos, e que o escândalo na escola não teria
sido necessário. Na hora do jantar, o pai conta como ele e a mãe se
conheceram, e fala da alegria de poder ter muitos filhos.

Brincadeiras de Médico no Jardim de Infância

Um menino de cinco anos descobriu provocar grande sensação quando mostra


seu pênis a outras crianças. Ou então uma mãe horrorizada conta: “Imagine
que um dia desses, ao entrar no quarto do meu filho, encontrei-o deitado
sobre a amiguinha que mora aqui ao lado, e ele me declarou, muito orgulhoso:
-‘Estamos brincando de marido e mulher na cama’. Em sua grande maioria,
trata-se de crianças entre três e oito anos de idade, ou seja, que se encontram
na idade da imitação. Diante de relatos como estes, em primeiro lugar sempre
perguntamos aos pais assustados ou indignados se haveria possíveis exemplos
para tal comportamento em vídeos, programas de TV ou no ambiente
cotidiano. Em geral fica comprovado que as crianças não são sexualmente
precoces nem pervertidas, mas estão pura e simplesmente, absorvendo,
brincando e imitando o que percebem a sua volta. Por este motivo, o ponto
mais importante da chamada educação sexual e’ o exemplo dos adultos e o
cuidado com os estímulos que recebem em seu ambiente. – isto ‘e, a maneira
como os próprios pais e educadores falam a respeito dos respectivos temas e
como se comportam no tocante a relacionamentos humanos. Quando ocorrem
casos como o acima citado, pode-se tratar do assunto como fez a mãe do

29
garoto de dez anos. Também se pode ignorar o ocorrido, ou procurar tratá-lo
com humor. Uma coisa e certa: quanto maior for a atenção dada pelos adultos
a esses acontecimentos, tanto mais frequente será sua repetição; pois as
crianças tem enorme prazer em provocar a atenção dos adultos. Se elas não
atingirem esta meta por meio de um comportamento positivo ou simplesmente
por serem como são, atrairão a atenção dos adultos por meio destas e de
outras provocações.

Sobre Fantasias Sexuais das Crianças e Realidades dos Adultos

Em 1976, Françoise Dolto, uma importante psicanalista recebeu um convite


do diretor da France-Inter para participar de um programa de radio sobre os
problemas dos pais em relação a seus filhos. Sabedora da impossibilidade de
evitar sofrimentos pelos quais passam pais e filhos no curso de suas vidas ela
se dispôs, no entanto, a ajudar orientando e aconselhando no que estivesse ao
seu alcance.

Varias edições do programa radiofônico foram posteriormente reunidas numa


coleção intitulada “Como orientar seu filho”. Desta coletânea transcrevo um
fragmento do segundo volume, onde se examina uma situação especifica de
fantasia infantil.

“Bem, e’ uma mãe que escreve. Ela tem duas filhas, de cinco e sete anos, que
ficam frequentemente em casa de uma senhora casada. As crianças, em geral,
jantam com o pai a noitinha quando voltam da casa da baba; a mãe continua
seus estudos e tem aulas a noite. Ela escreve: ‘ Recentemente, ao final de um
jantar, as meninas preveniram o pai de que tinham algo muito importante a
dizer-lhe. Mas na verdade não queriam falar: - Se agente disser, você vai
zombar de nos. Seu pai garantiu que não zombaria delas, e elas se decidiram. A
mais velha começou: - Bem, e isso. O marido da baba botou o pinto dele na
minha boca. E ficou praticamente muda, não quis dar outros detalhes. Nesse
momento, a menor disse: - Mas, sabe, eu dei um tapa na cara dele. E a mais
velha recomeçou: - Sim, mas, sabe, ela não fez isso de propósito , isso de bater
nele. Temos ai realmente uma situação sobre a qual muitas perguntas podem
ser feitas na família. A mãe escreve: “ No dia seguinte pela manha, quando quis
falar com elas a respeito – pois meu marido me contara – curiosamente elas
foram muito reticentes e não quiseram falar novamente. Elas me disseram: -
Não, não, nós esquecemos o que aconteceu. Principalmente não deve falar com a
babá.”

FD: Sim. E este homem ‘e também o pai de uma amiguinha delas?

‘E, porque tudo isso se passa numa pequena aldeia. São pessoas que se
conhecem...”

FD: Isto me faz pensar no filme de Jacques Brel

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Os riscos da profissão?

FD: Este mesmo. As crianças imaginam cenas sexuais que contam a seu
modo. Aqui era destinado somente ao pai; com, o que ‘e bastante curioso como
expressão: “Você vai zombar de nos” ; depois `a mãe : “Não, não, esqueci...” e
mais, “ Bater de propósito” ... Tenho a impressão de que estamos diante de
uma fantasia. Tudo se passa `a noite, `a hora do jantar. Há coisas lascivas que
as crianças se contam, assim, entre si, para fantasiar coisas para se tornarem
interessantes, no caso, principalmente para o pai. Creio que esta mulher esta’
absolutamente certa em não insistir sobre essa historia para que, se algo sério
acontecer um dia, as crianças possam dizer-lhe. Isto e’ o importante: não
zombar nem ralhar; mas dizer: - “Tudo bem. Se ela bateu na cara dele, espero
que tenha sido de propósito, porque um senhor não deve fazer isso com
meninas”.

Interrompo-a porque a mãe faz perguntas especificas: “Devemos ou não voltar


ao assunto?” Se entendi sua resposta é não, não insistir.

FD: Sim, exatamente.

Ela pergunta também: “Como se defender, em geral, contra esse tipo de coisas?”
Porque existem as fantasias e existe a realidade.

FD: Ela poderia dizer, por exemplo, diante do pai: “Um dia, vocês contaram
isso ao seu pai (verdade ou não, não se deve forçá-las a dizer que não ‘e
verdade). Mas quando se e’ pequeno inventa-se uma série de coisas. Se, de
uma outra vez, algo assim como o que vocês contaram acontecer, se for
verdade, não deve acontecer novamente. O senhor sabe muito bem disso.
Então vocês dirão a ele: Não deve fazer isso. Um senhor não brinca dessas
coisas com crianças. Assim e’ que se previne as crianças.

Mas a “não verdade” não pode ser impedida. Não se pode impedir as crianças
de contarem fantasias, ou historias inventadas.

Recordo para aqueles que não viram o filme de Brel que uma menininha
acusava um professor de coisas muito semelhantes, e que isto levou este ‘ultimo
`a prisão.

FD: ‘E’ tristemente banal. Acho que o pai reagiu muito bem não zombando
delas e fazendo algumas perguntas -- `as quais elas não responderam, pois
quando perguntou: “A baba estava presente”? Elas nem sequer sabiam dizê-lo.
Por tudo isso, creio que foi uma fantasia.

Tenho justamente uma pergunta sobre essas famosas fantasias. A palavra esta
na moda. O que são elas? Invenções infantis?

FD: São fabulações que correspondem `as imaginações que as crianças têm
com muita frequência em certo estagio de seu desenvolvimento, estagio em
que desejam a sedução por um adulto. Esses desejos trazem consigo imagens
do tipo contado por essas meninas.

31
Este e’ um estágio absolutamente obrigatório do desenvolvimento infantil?
Porque freqüentemente os pais, ao surpreenderem uma criança em plena
fantasia, dizem: “São mentiras, e’ preciso dizer a verdade”. Eles freqüentemente
veem isso como mentira.

FD: Não e’ uma mentira, e’ uma brincadeira, pelo prazer de sonhar acordado
sem riscos... e’ romance, ora! A maioria das fantasias infantis não e’ feita para
os pais. Neste caso, as menininhas talvez tenham sido pilhadas justamente
por falarem com seu pai. Elas eram naquela note, as mulheres do papai, pois
a mãe não estava lá. (...) Para estas crianças, parece que isto não foi sequer
erótico, a julgar pela maneira como contaram ao pai. Então, creio que está
certo não fazer um drama. E’ uma historia sem importância, esquecida tão
logo contada.

O Que Nos Cabe Fazer Então, Como Pais e Educadores?

Se entendemos que o ser da criança não e’ ainda diferenciado sexualmente, se


pudermos concordar que comportamentos realmente sexuais não podem
provir de sua natureza, e se lembrarmos, por outro lado, que ela vive e
aprende em sua primeira infância a partir das forças da imitação, então temos
de refletir sobre o exemplo que temos sido e sobre a qualidade do ambiente e
das influencias `as quais permitimos que elas se exponham.

Hoje há uma clara percepção de que a linha divisória entre a infância e a idade
adulta está se apagando rapidamente entre os que estão atentos. Neil
Postman, um dos mais brilhantes críticos sociais de nossos tempos, apresenta
algumas hipóteses para explicar este fato, todas relacionadas com a maneira
como os meios de comunicação afetam o processo de socialização; em
particular, como a prensa tipográfica criou a infância e como a mídia
eletrônica a faz desaparecer.

Em seus estudos ele nos mostra que a concepção atual de infância inexistia
até o fim da idade media. Surge na renascença, após a revolução promovida
pela palavra impressa, que socializa a necessidade de alfabetização, multiplica
e torna rotineiras as escolas, hierarquiza o conhecimento por faixa etária,
dissemina noções de pudor, estabelecendo, por tudo isso e pela dificuldade de
acesso aos segredos culturais que armazena, limites bem demarcados ente
crianças e adultos.

Mas hoje, com a informação eletrônica – sobretudo a TV que só requer


aptidões naturais e o entendimento da fala, as fronteiras começam a
desmoronar.

A erotização precoce e a crescente participação infanto-juvenil nos índices de


criminalidade são apenas os aspectos mais alarmantes de um conjunto de
sinais de que a infância esta em extinção. Habitamos um tempo de crianças

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adultas e adultos infantis. Os prenúncios dessa massa de criaturas
indiferenciadas invadem o dia-a-dia dentro e fora da tela mágica da TV: nas
roupas, nos hábitos alimentares, no padrão linguístico, no fim das velhas
brincadeiras infantis, em atitudes mentais e emocionais e é claro, no campo
da sexualidade e da violência.

Nessa sociedade cada vez mais carente de contato físico, passamos grande
parte do tempo em atividades despersonificadas e desumanizadas. Como uma
cultura, temos cada vez menos convivência com as pessoas, seja conversando,
tocando música, cantando, fazendo jogos, cozinhando ou comendo juntos.
Corremos o risco de desaprender como é bom ficar abraçados, de mãos dadas,
unidos em silêncio, olhando para o fogo ou para as estrelas, ouvindo e sendo
ouvidos, contemplando aqueles que amamos. Ao mesmo tempo, o hábito da
solidão autêntica está se perdendo. Vivemos bombardeados por barulho, gente
correndo, coisas, atividades, prazos, resultados, telefonemas, e-mails, e uma
avalanche de imagens eletrônicas. Quase não temos mais aquela convivência
familiar ou social enriquecedora, nem aquele tempo revigorador para ficarmos
sós, em silêncio, contemplando.

Hoje em dia nadamos em um mar de imagens sexuais. Elas estão em toda


parte: nas revistas, nos jornais, cartazes, cinema, TV, internet.

Com as prioridades de nossa sociedade tão distorcidas, é ainda mais


importante que cuidemos para que as crianças sejam saudáveis e equilibradas
interiormente, que prezem seu corpo e tenham um forte sentimento de
identidade. Elas precisam de doses maciças de amor e formas não sexuais de
contato físico no seio da família. Se estivermos mais preparados para
identificar as reais necessidades das crianças e pudermos encontrar formas
saudáveis de satisfazê-las, elas não ficarão, no futuro, tão vulneráveis ao
fascínio das atividades prejudiciais como álcool, drogas, promiscuidade, etc.
Pois esse fascínio nada mais é do que a falsa promessa de que seus desejos
naturais de intimidade e união, a experiência de se sentirem completos e
integrados serão satisfeitos.

“A pergunta e’, portanto, O que podemos fazer diante do desaparecimento da


infância? Ter que ficar parado à espera enquanto o charme, a maleabilidade, a
inocência e a curiosidade das crianças se degradam e depois se transfiguram
em traços medíocres de pseudo-adultos é doloroso, desconcertante, e
sobretudo, triste.” (Neil Postman)

Já existem muitas pessoas despertas para a questão e buscando conscientizar


os que ainda não se deram conta de como contribuem para ou simplesmente
permitem o progresso em direção a esta catástrofe. Pessoas como as que estão
engajadas no movimento “Diga não a erotização precoce das crianças” ou
como as do Instituto Alana que denuncia como e porque a publicidade faz mal
`as crianças, como o movimento mundial da “Aliança pela infância” que luta
para preservar e promover as condições básicas para um desenvolvimento
sadio da infância. Mas isto não e’ o bastante. Cada um de nós precisa se

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posicionar nesta batalha, precisa assumir com responsabilidade as
consequências de suas ações e/ou omissões na educação daqueles que se
confiaram a nós.

Isto nos remete ao nosso cotidiano. Como vestimos nossas crianças? Que
brinquedos oferecemos a elas? Que alimento anímico, que imagens
preparamos para nutrir-lhes e fortalecer-lhes? Que exemplos de
relacionamento estamos dando? Nossos gestos são conscientes, escolhidos
porque pensados? Ou apenas reagimos, ou vamos levando sem jamais parar
para refletir sobre o possível impacto de nossos atos em suas vidas?

Que mensagens não verbais, o nosso semblante ou tom de voz emite para a
criança? Nossas ações podem muitas vezes como que enviar mensagens
negativas sobre uma coisa tão fundamental como o corpo e ferir
profundamente a autoestima da criança, minando sua exuberância natural e
os sentimentos de prazer que seu corpo lhe dá.

Certa vez, no banheiro de uma grande loja de departamentos, enquanto


trocava a fralda do filho de dois anos, uma mulher ficava dizendo com
expressão de nojo e desaprovação: “Eca! Que cheiro ruim! Seu fedorento!” O
menino protestou dizendo: “Não! Eu não sou fedorento!” A mãe ignorando sua
reação, continuou com os comentários depreciativos. A certa altura, o menino
já estava tão envergonhado que ficava repetindo para a mãe: “Foi o gato que
fez isso!” Ou seja, esse menino precisou dissociar-se de seu corpo a fim de,
com muita dificuldade, manter sentimentos positivos em relação a si mesmo.
Uma simples troca de fralda tornou-se um ato de tortura e degradação
emocional. Se ele continuar a ser envergonhado assim, que imagem terá de si
mesmo e de seu corpo quando crescer?

E quanto aos brinquedos mais típicos? Na boneca que a acompanha em todos


os anos da infância a criança poderá vivenciar inconscientemente os valores
da humanidade. A boneca deveria como qualidade, espelhar o ser humano
como tal em sua origem, ou seja, “o ser criança”. Antes de alcançar os 11, 12
anos a criança experimenta um estado pleno de ser humano, e somente com o
início da puberdade, ou maturidade terrena ( e sexual), o ser humano entra
numa especialização. Daí em diante, o ser humano assume uma parcialidade
que somente mais tarde, com a união com o sexo oposto, pode ser
temporariamente complementada, se realmente houver uma interação
anímico-espiritual. Para a criança antes dos 10 anos é totalmente indiferente
se o companheiro de brincadeiras é um menino ou uma menina, ou se um
adulto é homem ou mulher. A criança procura vivenciar um contato humano
independente do sexo apresentado pelo adulto. Obviamente ela conhece as
diferenças na aparência corpórea, mas esta diferença não tem sentido para o
seu ser a não ser que o adulto o impinja a ela. E é importante que ela possa
sentir pelo gesto do adulto: “Sou um ser espiritual humano, muito mais que
apenas um homem ou uma mulher”. A criança poderá experimentar na
boneca, enquanto imagem, o seu ser pleno, para mais tarde não confundir o
seu corpo (seu invólucro e morada) com o seu Eu eterno. Por isso a boneca

34
deveria ter um corpo de criança que ainda não entrou em diferenciação do
masculino/feminino. Entretanto, quando verificamos a oferta de bonecas no
mercado de brinquedos, as mais vendidas são bonecas que representam
adultos, com tudo o que está ligado a isso. São homem ou mulher e tem-se a
impressão de que a criança deve absorver estas diferenças o mais rápido
possível: tudo é sexual. E o pior é que as imagens de sexo veiculadas
dificilmente estão associadas ao amor. Antes parecem formas de exercer o
poder, ou meio de obter vantagens pessoais.

Ao lado disso, também está o consumo. Vocês já viram uma criança ter uma
única Barbie? Quantos modelos e quantos acessórios em combinações e
situações ligadas a modismos – isto é, aos valores efêmeros, rapidamente
descartáveis, pois outros novos precisam vir ocupar seu lugar. Deve meu filho
ter desde cedo a impressão de que o importante é ter para cada ocasião uma
vestimenta elegante e adequada? E quem como adulto não possuir o poder
aquisitivo que lhe permita constantemente participar de todas as tendências
da moda, não poderá ser humano nesse sentido? Ser humano é ser
consumidor?

Há também bonecos para os meninos que suscitam mensagens subliminares


contraditórias com aquilo que ele intui em sua essência sobre a dignidade do
Humano. Bonecos que poderiam ser descritos como seres mutantes, ou
intermediários, parte homem, parte animal – será o homem um animal
evoluído, um macaco nu e mais inteligente? Outros são robóticos,
intergaláticos, ou superpoderosos. Será que o ser humano é uma máquina,
um mecanismo?

Existem também aspectos sociais a serem considerados. Na vivência com sua


boneca o ser humano aprende a conviver com as outras pessoas. Porém ela
aprende isso por imitação. Vai depender da essência dos adultos à sua volta e
do comportamento destes para determinar o que a criança assumirá por
imitação.

Por exemplo, a pequena criança pega sua boneca e atira longe. Se a mãe não
der nenhuma importância ao fato a criança aprende que pode tratar as
pessoas de qualquer maneira. Se a mãe vai, pega a boneca maltratada no
braço e diz: “Coitadinha, você se machucou? Venha, vamos para a caminha
que vou te cobrir”. A criança não será castigada por sua atitude, mas a mãe
age de maneira visível para as forças imitativas da criança, com a atitude
humana correta. Ela ensina à criança através do próprio agir, a ter devoção e
compaixão pelo próximo. Se um adulto tratar uma boneca visivelmente com
dignidade e respeito, a criança mais tarde terá uma base de vivências para
tratar seus semelhantes com sentimentos.

Poderíamos ainda explorar muitas situações deste e de outros pontos de vista.


Contudo, não tenho a pretensão nem a possibilidade de dar respostas
definitivas ou inteiramente satisfatórias. Espero antes, poder estimulá-los a
um movimento interior que busca com atenção e interesse realizar com mais

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consciência a tarefa de educar estes que trazem em si o futuro de nossa
civilização.

Para ajudar nesta tarefa, sugiro enfaticamente, as seguintes leituras


complementares:

1) O Desaparecimento da Infância – de Neil Postman

2) Crianças do Consumo – A infância roubada – de Susan Linn

3) Porque a publicidade faz mal para as crianças –conteúdo disponível também


na internet pelo site: WWW.criancaeconsumo.org.br/publicacoes

4) Consultório Pediátrico – Dra Michaela Gloeckler

5) Minha Querida Boneca – Karin Evelyn Scheven

6) Homem-Mulher a integração como caminho de desenvolvimento – de


Gudrun Burkhard – Editora Antroposofica

7) Nossos Filhos, Nossos Mestres – Myla e Jon Kabat-Zinn

8) Sexuality, Partnership and Marriage from a Spiritual Perspective

De Wolfgang Gadeke

36
Sexualidade e segundo Setênio

Introdução

A educação sexual, num sentido mais estrito, refere-se a como lidar com a
sexualidade. Num sentido mais amplo, porém, veremos que abrange todos os
âmbitos da vida social, devendo contemplar especialmente a prevenção de
desvios de rota e ameaças ao desenvolvimento harmonioso do ser humano,
como, por exemplo, a antecipação de certas vivências e conteúdos para os
quais falta ainda a necessária maturidade, fato tão comum hoje em dia.

O que, em última análise, tem um efeito elucidativo é o modo como o próprio


adulto lida com os problemas, como os aborda, como procura explicar às
crianças que como pessoas, temos de aprender a lidar com essas coisas – que
existem diferentes perspectivas e formas de elaborá-las – além de mostrar-lhes
a própria postura frente às mesmas, e como eles estão aprendendo a
contribuir para mudar as circunstâncias de modo positivo. Justamente hoje,
quando um número crescente de crianças tem acesso relativamente livre à
informação , navegando por sites, observando descrições de revistas
ilustradas, consumindo as amplas ofertas que existem na forma de vídeos,
programas de TV e outros, enfim, também em conversas com os colegas,
cresce a pergunta interior e até mesmo a grande necessidade interna de
elaborar o que foi ouvido e lido, de conhecer medidas para uma avaliação
correta do que é salutar ou não, e de ouvir e constatar como os adultos que
eles valorizam e respeitam, lidam com estas questões.

Entretanto, quantas vezes, crianças e mesmo adolescentes não se atrevem a


tocar neste tema por iniciativa própria? Por um lado, pode ser que lhes falte a
capacidade de formular ou verbalizar o que sentem e querem expressar; por
outro talvez tenham medo de tocar em temas tão complexos e delicados sem
ter a certeza de como vão reagir os adultos, que eles às vezes presumem,
podem considerar tudo isso um tabu. Afinal, onde, no cotidiano familiar ou
durante as aulas na escola, está realmente o espaço onde questões
existenciais desse tipo podem ser discutidas com o devido cuidado e
profundidade? Para tanto é necessário mais que conhecimento, é preciso
principalmente uma elaboração pessoal deste conhecimento.

Por mais louvável que possa parecer o fato de se abordar de maneira cada vez
mais aberta enigmas da existência humana tais como o da sexualidade,
devemos considerar que isso também traz o grande risco de principalmente as
crianças e os adolescentes não estarem maduros para elaborar essa avalanche
de informações às quais têm acesso ou a que são expostos. Eles são
confrontados com coisas que abalam sua confiança na vida e que contribuem
para pôr em dúvida o sentido dela.

Assim, tendo recebido perguntas formuladas por pais e professores, tornei-as


minhas próprias questões, senti-me movida numa busca por respostas, e

37
desse exercício de pesquisa, auto-observação, reflexão e elaboração algo
resultou que gostaria de compartilhar com todos, não como uma verdade
absoluta, nem uma cartilha a ser seguida, mas esperando servir como um
estímulo e encorajamento a um movimento individual de cada um para
conquistar por si mesmo certa consciência e autoridade moral quanto ao
tema.

Muitas das perguntas eram semelhantes, revelando as mesmas inquietações.


Assim agrupei-as conforme sua afinidade e tomei-as como ponto de partida
para minha busca. Perguntas como: O que é que se deve esperar como
desenvolvimento “normal” nesta fase? Namoro e beijos são adequados nesta
idade? Quando, como e até onde responder a perguntas feitas pelas crianças
sobre sexo? Como falar a uma menina e prepará-la acerca da menstruação?
Como lidar com as questões que emergem do grupo?

Como abordar questões como a homossexualidade? Como tratar questões


como a pedofilia? Como falar dessas coisas de maneira bonita, sem perder o
encanto? Como lidar com o grotesco? E outras mais...

Para tentar responder a todas elas meu primeiro impulso foi o de rever e
verificar as disposições anímicas da criança do segundo setênio e em
particular a de 9/10 anos. Pois é preciso reconhecer em que ponto do trajeto
se encontra a criança a quem vamos nos dirigir, quais são suas necessidades
reais e como podemos supri-las.

A Criança entre os Nove e os Dez anos de Idade

Sabemos que aos nove anos completos, ou por volta deles, acontece com a
criança algo muito especial. Ela quer, a partir desse momento, que de certa
maneira a autoridade justifique sua razão. Não é que ela pondere
racionalmente se a autoridade tem ou não razão. Mas dentro dela algo a faz
sentir que a autoridade se afirma por sua própria qualidade, por sua atuação
na vida, por sua própria segurança. A partir daí ela desenvolve uma
sensibilidade especial nesse sentido que se evidencia pela mudança objetiva
que ocorre em sua vida nesse momento. Anteriormente, a criança pouco se
distinguia do ambiente ao redor. Para sua sensibilidade, ela e o mundo eram
uma coisa só. Mas agora, na criança surgem perguntas – todas elas
relacionadas com a diferenciação emocional que ela passa a fazer entre ela
mesma e o mundo exterior, e também entre ela mesma e o educador que a
conduz, seja ele pai ou professor. Até então ela tinha pouca sensibilidade para
perceber se o professor ou o pai é uma pessoa desajeitada, que
ocasionalmente se choca com objetos diversos e os deixa cair no chão, por
exemplo. Naturalmente ela via acontecer, mas antes estas coisas não lhe
causavam uma impressão mais profunda. Contudo, com os nove anos
completos, a criança começa a prestar atenção especial justamente em tais

38
coisas, torna-se um tanto crítica. E surgem para ela questões que podem não
se manifestar explicitamente, mas que estão, todavia, presentes. Em seu
sentir, em suas emoções, ela pergunta se o professor é habilidoso nos
afazeres de sua vida, se antes de tudo o professor está integrado
seguramente na vida, se ele sabe o que quer; e sobretudo, ela tem uma
sutil sensibilidade para a situação geral da vida anímica dele. Assim,
por exemplo, uma pessoa cética provocará na criança um efeito
totalmente diferente daquele suscitado por uma pessoa de conduta ético-
religiosa. Na voz de uma pessoa cética ressoa algo totalmente diferente
do que na voz de uma pessoa de orientação espiritual. E é com estas
coisas que a criança entre os nove e os dez anos de idade, se importa.
Nesta fase a criança vem forçosamente procurar as pessoas de referência -- os
pais, a professora -- com toda sorte de perguntas. Muitas delas são perguntas
metafísicas sobre a origem. O que importa, entretanto, não é tanto o conteúdo
das perguntas, nem tampouco o teor das respostas que lhe damos, mas sim
que por meio do elemento indefinível e imponderável que precisa estabelecer-se
entre nós e a criança, esta sinta inserida em sua alma a seguinte noção: “até
agora eu me portava diante do meu pai ( minha mãe/ minha professora)
elevando os olhos a ele(a); agora não consigo mais fazê-lo sem saber que ele(a)
eleva os olhos para algo que, de alguma maneira, está fundamentado na
própria vida”. Importa mais o quê ressoa na voz daquele que fala: decisivo é o
que se manifesta no tom da fala, seja como firmeza interior, cuidado amoroso
ou hesitação e indiferença, do que o quê se fala. Agora se estabelece entre a
criança e o educador, um relacionamento que exige confiança, uma confiança
cada vez mais consciente. O fato de a criança se tornar uma pessoa
inconsistente ou segura na vida está muitas vezes relacionado com a questão
de encontrar-se ou não, nesse momento, uma maneira suficientemente segura
de posicionar-se perante a criança.

Freqüentemente, quando uma criança nos aborda com perguntas que


julgamos como curiosidade ou interesse sobre a questão da sexualidade
ela pode estar em verdade procurando outra coisa; e acima de tudo quer
saber como nós nos postamos em relação a isso, muito mais do que o
assunto em si. Quer sentir que é guiada por um adulto que extrai de sua
relação com os fundamentos da existência, força e segurança para estar
no mundo e lidar com as perguntas mais profundas.

Mas esta segurança, a verdadeira autoridade, não se adquire da noite para o


dia. Tem de ser buscada, através de um contínuo trabalho interior de
elaboração e lapidação pessoal, além de um cultivo do relacionamento com a
realidade do mundo espiritual.

No que tange às perguntas específicas, só devem ser respondidas as perguntas


realmente levantadas pela criança e cujas respostas lhe interessem; pois tudo
o que for explicado sem ter sido perguntado se revelará como um peso anímico
para ela, interferindo muitas vezes em seus pensamentos e sentimentos
ligados à questão da sua origem. Se a educação sexual se limitar ao plano
puramente biológico, terá um caráter opressivo para a criança, pois ela sente

39
que esta não pode ser toda a verdade, ou então toma conhecimento de
detalhes sem saber o que fazer deles em seu íntimo. Quando percebemos que
de alguma forma ela tomou contato, seja através de conversas com outras
crianças mais velhas, seja por meio de imagens perturbadoras às quais tenha
assistido, podemos reafirmar a ela com toda segurança que certas coisas,
quando vividas fora de seu tempo não trazem nada de bom. Tudo tem seu
tempo certo de ser e quando chegar a hora certa nós lhe esclareceremos tudo
da melhor maneira. “Você não precisa saber disso agora. Seria como comer
algo que o seu corpo não sabe e nem pode digerir”. Podemos então reforçar
isto -- que tem de ser dito a partir de uma convicção plena, de modo a
transmitir-lhe a segurança e o alívio de que ela necessita – através de
metáforas, imagens da natureza e vivências. Por exemplo: podemos junto com
a criança, assar dois pães, sendo que o primeiro sovamos bem a massa e
depois, deliberadamente, não esperamos o tempo de descanso para que a
massa possa crescer sob ação do fermento e o depositamos no forno. Quando
estiver pronto, comemos o pão, que naturalmente terá a massa pesada e um
gosto amargo, nada agradável. Num outro momento, preparamos o pão
segundo a mesma receita e então esperamos que ele cresça, sem pular etapa
alguma, e depois assamo-lo. Ao provar do segundo pão, ficará clara a
diferença entre pular etapas, apressar as coisas e o vivê-las em seu devido
tempo. Também se pode oferecer à criança uma fruta nitidamente verde, que
não amadureceu o suficiente. Seria bom até se ela lhe provocasse um pequeno
episódio de mal-estar abdominal sem maiores consequências.

Outro aspecto de extrema importância tem a ver com o que a criança pode
compreender e abarcar com sua alma. De acordo com Steiner, pode-se dizer
que a criança ao terminar a troca de dentição teria a sensação de espetos
estarem invadindo seu organismo se quiséssemos introduzi-la no pensar
conceitual, principalmente a respeito do que surgiu da natureza morta, do
âmbito inorgânico. A criança já sente estranheza ao lidar com o que provém do
âmbito inanimado. Portanto, ao falar ou ensinar a crianças desta idade
precisamos ter dentro de nós o senso artístico para vivificar tudo. É como se
transformássemos tudo o que tenhamos a dizer em conto de fadas, fábula,
lenda, mito ou poesia. Em outras palavras, precisamos falar em imagens. A
cabeça pensa em conceitos, mas o coração aprecia e apreende em imagens. E
é preciso falar ao coração, pois é aí que a criança agora se encontra em seu
desenvolvimento: formando os órgãos rítmicos, o coração e os pulmões, e,
quanto à sua consciência, ela ainda não está plenamente acordada, mas
sonha. E nos sonhos qual é a linguagem que nos fala? A das imagens. Os
símbolos. Quando falamos às crianças a partir do conhecimento conceitual,
falamos como uma pessoa ressecada. Por outro lado, o que nós criamos como
imagem ainda tem a força do crescimento, a vida nova; isto atua sobre a
criança. Vocês poderiam dizer, “mas como podemos aprender a fazer isso?”
Isto começa com uma certa educação dos sentidos para uma percepção
artístico-simbólica das coisas. Como dizia Goethe tudo quanto existe de
efêmero no mundo sensorial não passa de um semblante, é como uma

40
parábola, uma manifestação de algo espiritual e superior. Trata-se, como
costuma dizer Rubem Alves, da “Complicada Arte de Ver”

A COMPLICADA ARTE DE VER


Rubem Alves

Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando louca". Eu fiquei
em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. "Um
dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os
tomates, os pimentões - é uma alegria!

Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera
centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a
cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma
cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a
impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica.

De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte


para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os
pimentões... “Agora, tudo o que vejo me causa espanto.”
Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de
livros e de lá retirei as "Odes Elementales", de Pablo Neruda. Procurei a "Ode à
Cebola" e lhe disse: "Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre
os poetas.

Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro:

'Rosa de água com escamas de cristal'. Não, você não está louca.

Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver".

Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos


dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é
idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora
aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence
à física.
William Blake sabia disso e afirmou: "A árvore que o sábio vê não é a mesma
árvore que o tolo vê". Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês
floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania
do sagrado.

Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê
que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito
trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.
Adélia Prado disse: "Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma

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pedra e vejo uma pedra". Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A
pedra que ele viu virou poema. Há muitas pessoas de visão perfeita que nada
veem.

"Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a
janela para ver os campos e os rios", escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de
Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido.

Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a


ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da
experiência chamada "satori", a abertura do "terceiro olho". Não sei se
Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu:

"Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus
olhos se abriram".

Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos


na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam.
Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, "seus olhos se abriram".

Vinicius de Moraes adota o mesmo mote em "Operário em Construção": "De


forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma
súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa - garrafa,
prato, facão - era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em
construção".

A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos


estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por
sua função prática.

Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas - e ajustamos a


nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre.

Os olhos não gozam... Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos,
eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que veem, olham
pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo. Os olhos que moram
na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na
caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter
as crianças por nossas mestras.

Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus
Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: "A mim,
ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as
coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a
gente as têm na mão e olha devagar para elas".

Por isso - porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver -
eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor
que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que

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crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do
poema de Caeiro. Sua missão seria partejar "olhos vagabundos”

Portanto, precisamos nutrir nossas almas de imagens, visitar os poetas, vez


em quando, ou tentar enxergar as coisas como letras ou sinais de Deus na
escrita do mundo. Compor um vasto repertório de imagens pode ser um bom
começo. Contemplar a natureza, vivenciar um pouco de arte. Saborear belos
contos. Com o tempo estaremos também nos aventurando na formação de
metáforas, histórias pedagógicas e terapêuticas, ou por vezes nosso esforço
será recompensado, e seremos agraciados com insights sobre os temas de que
nos ocuparmos. Por exemplo, há uma pequena história que serve como
imagem para a mesma situação que já abordamos, da criança que se sente
confusa por causa de conteúdos que lhe tenham sido antecipados e para os
quais ela ainda não tem maturidade, ou simplesmente não está no tempo de
saber.

“Certa vez, estava um menino brincando no quintal com seus irmãos e


amiguinhos quando sentiu fome e foi até a cozinha buscar uma fruta para
comer. Na volta, ao passar pela varanda, notou que sua mãe estava fazendo
algo estranho, e sentou-se próximo a ela. De seu ponto de vista, o que
enxergava eram fios de diferentes cores meio misturados no avesso do tecido e
nada daquilo parecia fazer sentido, então ele perguntou: ‘Mamãe o que é que
você está fazendo ?’ ‘- Estou bordando, meu querido.’ ‘ Mas está tão feio e
confuso!’ “Ora, vá brincar, que daqui a pouco, quando estiver pronto, eu lhe
chamo para ver e então você entenderá tudo’ E assim ele foi. Brincou tanto
que se esqueceu daquilo que não havia entendido. Então sua mãe o chamou e
o fez sentar-se em seu colo. E então ele pôde ver de outro ângulo o que havia
visto antes do avesso. Agora o que via era um lindo desenho. E sua satisfação
foi tão grande que ele teve que sorrir!”

Em outras palavras, para tudo há um tempo de ser... No tempo certo, do


ponto de vista adequado, vemos algo belo e bom — porém, a mesma coisa que
ora se afigura tão bela, pareceria confusa, difícil de entender, talvez aflitiva.

No que diz respeito ao desenvolvimento num sentido puramente biológico, o


amadurecimento das glândulas germinativas (ovários e testículos) inicia-se
justamente nesta idade, e junto com ele, mediante a presença dos hormônios,
o desenvolvimento sexual. Entretanto, a atenção da criança, por sua própria
natureza, ainda não está voltada para estes processos que ocorrem
inconscientemente em seu corpo. E assim deveria permanecer até o momento
de seu real despertar com as mudanças que a corporalidade há de
experimentar como diferenciação sexual secundária na puberdade. Sua
atenção deveria estar voltada para o mundo, que nesta fase lhe deveria ser
apresentado através dos olhos da professora e das pessoas queridas como
belo. Concreta e verdadeiramente belo -- não virtual e ilusoriamente

43
fantástico. É fundamental cultivar o sentido do belo e despertar a
sensibilidade artística.

Se, no entanto, uma menina já evidencia sinais de que sua menarca se


aproxima, com o aparecimento de seios e pelos axilares e pubianos, podemos
usar da mesma linguagem imaginativa para contar-lhe sobre o que está para
acontecer.

Poderíamos inicialmente evocar a lembrança de conteúdos já assimilados por


ela no 3º ano, quando ouviu a história da criação do mundo e do homem.
Justamente aí, de maneira muito especial, leva-se em conta o fato de a criança
nesta fase encontrar-se num momento de diferenciação do seu ambiente.
Aquilo que sentia como um estado de unidade com o seu entorno agora se
transforma, pois ela está mais presente em seu próprio corpo, mais
interiorizada e isso se reflete em uma separação em relação ao mundo que lhe
provoca angústia. Por esta razão, e outras mais, esta história lhe foi contada
de tal sorte que pudesse estabelecer uma nova conexão com o mundo,
sentindo que aquilo que existe fora na natureza emanou da mesma fonte
divina da qual ela também provém e corresponde, portanto, a tudo quanto
pode ser encontrado em seu corpo. Tal como existem as rochas firmes lá fora,
assim tenho meus ossos no corpo. À terra, corresponde a carne; as águas – os
lagos, rios e mares – são como o sangue em minhas veias; e cada órgão que eu
trago em mim é como um astro, um planeta interiorizado. Assim como no céu
temos a Lua, que cumpre um ciclo de 28 dias, que ora não se pode ver (lua
nova), ora está cheia, assim também há no corpo da mulher um órgão que a
cada 28 dias também se incha e depois como que se desmancha, míngua
como a Lua. E, como todos sabem, a Lua tem a ver com as marés, ela mobiliza
os líquidos e as forças de crescimento. Todo homem da terra, todo agricultor,
sabe quando é tempo de plantar ou podar guiando-se pelo movimento da Lua.
Até nós mesmos, quando queremos cortar os cabelos, que são como a
cobertura vegetal da Terra, prestamos atenção à fase da Lua. Então, dentro da
mulher, esta pequena lua também cresce com o acúmulo do elemento líquido
do corpo -- o sangue -- que se concentra nele. Por isso, quando o útero está
cheio ao máximo, como no plenilúnio, em seguida se desfaz e o sangue que se
concentrara nele vai embora. Este é o sinal da natureza de que o corpo agora
está maduro para algum dia, neste órgão que se chama útero, poder receber o
germe de uma nova vida. Então celebramos o fato de que você se tornou uma
moça e já não é mais uma menina. É verdade que ás vezes isto pode ser
acompanhado de algum incômodo, certa dor. Curioso é que a dor e a beleza
parecem muito amigas, estão sempre de mãos dadas, embora uma quase
sempre preceda a outra. Vejam, por exemplo, como é que a ostra produz a
pérola, tão bonita e preciosa? Quando um grãozinho de areia consegue
penetrar através da carapaça da ostra, ela fere a sua carne. E numa tentativa
de expeli-lo, a ostra secreta a madrepérola e envolve aquele pequenino grão. E
é assim que surge a beleza: pelo exercício de superação da dor. Talvez por
isso, a mulher seja ao mesmo tempo mais familiarizada com a dor e portadora

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do dom da beleza, enquanto o homem tem na força e na coragem, seu
principal atributo.

Nesta fase meninos e meninas começam a se separar, juntando-se em


pequenos grupos do mesmo sexo segundo suas afinidades e seus interesses
comuns. Mas ainda não existe nenhum caráter sexual propriamente dito, nem
na sua relação com seu próprio corpo, nem em relação ao outro. A não ser que
isto seja provocado por circunstâncias exteriores, como a convivência com
irmãos mais velhos que através de relatos lhes despertem a consciência para
isso, ou a exposição à mídia eletrônica (TV, vídeos, internet) que lhes antecipe
estes conteúdos, e principalmente se a criança fica sozinha, sente tédio, e se
não está devidamente preenchida e satisfeita em suas reais necessidades
anímicas. Neste caso, porém, trata-se de um processo de caráter
neurossensorial (não glandular) desencadeando uma manifestação prematura,
algo que tem sua origem impingida de fora, que não vem de dentro. Portanto,
se a criança está entregue ao curso natural de seu desenvolvimento, o
esperado é que surja, não um interesse sexual pelo outro, mas o primeiro
amor platônico. Surge um primeiro amor que é vivido mais na fantasia do que
em sua realidade física, carnal.

Se hoje observamos um deslocamento da vivência que deveria se dar no


íntimo, no imaginário, para o âmbito físico-sensorial, é porque há muitos
apelos em nossa sociedade de consumo exercendo sua influência livremente
através dos meios de comunicação, enquanto nós não estamos
suficientemente atentos ou conscientes de seus efeitos e impacto sobre a
formação das crianças. Ou talvez, nos sintamos sós e em nossa fraqueza ou
insuficiência, sucumbimos igualmente às pressões sociais ferindo nosso
próprio senso de coerência, violentando nossos próprios princípios, caindo em
culpa e aflição.

Que mensagens estão, via de regra, associadas ao sexo na forma como ele é
apresentado na TV, em vídeos, revistas, anúncios, etc.? Na esmagadora
maioria das vezes, como um meio de obter vantagens, exercer domínio ou
poder. A educadora Jean Kilbourne diz a esse respeito: “O sexo na publicidade
tem a ver com a banalização e não com sua promoção, tem a ver com
narcisismo e não com promiscuidade, com consumo e não com conexão. O
problema não é ser pecado, e sim, artificial e cínico”.

“A maneira como pensamos e nos sentimos em relação ao sexo, como fomos


criados e as nossas próprias experiências sexuais têm um impacto sobre
nossos anseios e temores quanto à sexualidade de nossos filhos e sobre como
nos sentimos em relação às imagens sexuais com que eles se deparam na
mídia. No meu caso, espero que os jovens ao meu redor experimentem o sexo
sem repressões nem liberalidade, num contexto amoroso – ou ao menos com
ternura, reciprocidade e respeito”. (Susan Linn )

As revistas, os filmes, os programas de TV e a música da sua adolescência


tiveram algum impacto nos seus ideais de beleza, virilidade, sexo ou romance?

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Parem para folhear as revistas dos adolescentes de hoje. Sintonizem em
estações de rádio que tocam os 40 maiores sucessos do momento e/ou rap.
Assistam à MTV e aos comerciais que passam durante as novelas, reality
shows, filmes e eventos esportivos. Aluguem (e assistam) filmes recomendados
para a idade deles. Explorem os canais onde são veiculados comerciais
voltados para as crianças tais como, Nickelodeon, Disney, Fox Family.
Naveguem na internet. Esqueçam os sites pornográficos – em vez disso,
procurem os sites corporativos voltados para crianças e adolescentes. Ao fazer
tudo isso pensem em quanto tempo estas crianças ficam envolvidas com a
mídia. E depois pensem sobre o que temos feito para preservá-las disso e/ou
para constituir-lhes uma referência diversa dessa. A concorrência é desleal!

De acordo com pesquisas norte-americanas, o mundo do marketing está em


polvorosa com a ideia de que as crianças estão “crescendo mais cedo”. Os
Tweens, como tem sido chamadas as crianças entre 9 e 12 anos, são
atualmente a demografia de mercado mais visada. Os especialistas em
propaganda e marketing os descrevem como alvos mais fáceis do que os
adolescentes porque são mais afáveis, e não tão cínicos e, além disso, muito
acessíveis e abertos a novas ideias. Essas características aliadas ao fato de
que evidentemente dobram os pais com mais facilidade que as crianças
menores, significam que eles são -- como disse entusiasmado um executivo de
uma TV a cabo -- “um público pronto para ser explorado”. Contudo, o que
temos visto é que ao desvalorizar o brincar, persuadindo a criança a se
interessar por temas adultos, produtos e/ou serviços inapropriados, os
comerciais podem causar, entre outros problemas, obesidade infantil, stress
familiar, erotização precoce e até delinquência.

Por razões que os médicos de orientação alopática convencional desconhecem,


as meninas estão começando a desenvolver as mudanças físicas associadas à
puberdade mais cedo. Entretanto, na medicina de orientação antroposófica,
bem sabemos quão profunda e formativamente o elemento sensorial e anímico
do ambiente atua sobre a constituição física, especialmente na infância.

Nos Estados Unidos, para as meninas brancas, a idade média para o início do
desenvolvimento dos seios e de pelos pubianos é de dez anos e, para meninas
afro-americanas, nove. No Brasil está entre 10 e 11 anos, atualmente. Mas
seios não fazem da menina uma mulher. Não há provas de que o seu
desenvolvimento emocional esteja acompanhando as mudanças orgânicas.
Imaginando como deve ser confuso, embaraçoso e até assustador para as
meninas experimentar alterações hormonais antes de chegarem aos dez anos,
faria sentido que nós adultos nos concentrássemos em ajudá-las a lidar com
isso. Qual é a melhor maneira de ajudar as garotas a seguir em frente quando
mudanças hormonais ocorrem antes que elas estejam emotiva e
cognitivamente preparadas para tomar decisões responsáveis sobre
sexualidade, sem falar de sexo? Qual é a melhor maneira de ajudar os
meninos que ficam atrás das garotas (no tempo) em relação ao
desenvolvimento sexual, a lidar com isso quando suas amigas e colegas de
sala se transformam diante de seus olhos?

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Mesmo que os jovens estejam se iniciando sexualmente mais cedo, muitos
relatam não ter informação adequada sobre sexo por parte dos pais e da
escola. Então aonde vão as crianças quando querem saber sobre sexo? Hoje,
elas recorrem à mídia, principalmente, TV e internet. (Vide reportagem –
Folhateen de maio de 2009)

Quando pensamos a respeito de sexo e de sexualidade na mídia, precisamos


expandir nosso pensamento para além de beijos, abraços, carícias e outros
atos sexuais. As mensagens que as crianças recebem sobre o que é preciso
para ser atraente, como os homens e mulheres se tratam e qual o valor de ser
homem ou mulher têm o mesmo poder. E as imagens são quase sempre
perturbadoras. A título de ilustração, gostaria de citar aqui o trabalho do Dr.
Marcio Oliveira Puggina, professor, advogado e desembargador aposentado,
que diante da repercussão de um caso de pedofilia no Rio Grande do Sul, fez
toda uma pesquisa e reflexão sobre o problema da erotização precoce em
nossa sociedade, procurando desvendar de que maneira as coisas se
encadeiam para formar todo o quadro que estamos vivenciando como
testemunhas, tantas vezes perplexas e paralisadas.

A EROTIZAÇAO INFANTIL NA MÍDIA – (texto compilado)

NA TELEVISÃO
Sem dúvida, a televisão, por ser o maior meio de comunicação de massa, é
também o principal veículo de estímulo ao processo de erotização da infância.
Os lares brasileiros, de algumas décadas para cá, passaram a ser invadidos e
bombardeados, diariamente, por diversos programas — especialmente os de
auditório - em que apresentações de grupos musicais de axé music; pagode e
similares são, invariavelmente, acompanhadas pela exibição de dançarinas
(vestidas de modo a ressaltar e expor os seus atributos físicos) que, através de
requebros e gestos sensuais, produzem um erotismo quase sempre grotesco,
embora bem ao gosto masculino.
Por vezes, sequer há a justificativa da música e da dança; em diversos
programas, atrações constantes apelam sempre para um erotismo explícito
(Tiazinha, Feiticeira, mulher melancia, mulher pera, etc.).
A fórmula teve sucesso instantâneo face ao seu forte apelo sexual. Como
decorrência, as musas do rebolado atingiram a fama e ascensão econômica; o
Brasil passou a conviver, diariamente com as novas estrelas tipo Carla Peres,
conhecendo-lhes a intimidade, modo de vida etc.
A popularização de tal tipo de espetáculo e de artista não respeitou mais
hora nem faixa etária de público. Estas apresentações grotescas e de
baixa qualidade, mas cheias de erotismo, chegaram às crianças, inclusive
nos próprios programas destinados ao público infantil. As musas “da
boquinha da garrafa” apresentam-se, diariamente em programas de
auditório repleto de pequeninos.

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Como não poderia deixar de ser esta sensualidade grotesca e totalmente
despropositada em programas infantis se constitui em importante fator no
processo de erotização da infância. Se este produto é apresentado às
crianças e exaltado o sucesso e fama atingidos pelas artistas, não há
como elas deixarem de captar uma mensagem subliminar de que este é
um caminho bom e desejável. Como decorrência lógica, surge a
necessidade de imitar: a roupa, os gestos e os meneios sensuais. Em
outras palavras, a sensualidade passou a invadir o mundo e a imaginação
infantil.
A partir do desejo de imitar, surge um subproduto de consumo na mídia
televisiva: as meninas e meninos que passam a se apresentar imitando os
ídolos.
As meninas - especialmente elas - são as principais vítimas deste processo. As
mais hábeis na imitação, incentivadas pelos pais, apresentam-se em
programas de auditório (tanto infantis como de adultos), com o mesmo gestual
supostamente erótico e com vestimentas que, tal como as adultas, expõem ou
ressaltam pernas, nádegas ou seios. Tudo sob os olhares orgulhosos de pais e
para o aplauso da plateia e telespectadores.
A falta de limites é tamanha que há algum tempo surgiu um trio “profissional”
de imitação do grupo È o Tchan” . O trio era composto por duas meninas (uma
loira e uma morena) e um menino, todos com idades em torno dos oito, nove
ou dez.
Dançavam e cantavam. Reproduziam os mesmo gestos e cantavam as mesmas
letras. Nada mais grotesco e agressivo do que a imagem e som daquelas
crianças, cantando e dançando com frases como esta: “...rebolando a
bundinha até o chão...”
Em um dos programas a apresentadora, a conhecidíssima Hebe Camargo,
quando o trio terminou a sua triste apresentação, não se conteve a exclamou:
“Gracinhas, é tão...tão natural!” (Não se atina o que, naquela apresentação,
poderia ser tido como natural, salvo que já se tenha como natural crianças
erotizadas!)
Este grupo mirim apresenta-se em programas de auditórios (infantis e adulto)
e faz apresentações em festas inclusive viajando em turnées. Entrevistada
uma das meninas, mencionou ela que, quando em viagem, tinham que faltar à
aula, “mas aproveitavam para estudar no caminho.”
É óbvio que, no caso sob enfoque, ao processo de erotização e imitação,
somou-se a ganância dos pais que passaram a ver nos dotes artísticos
naturais dos filhos uma forma de ganhar dinheiro.

Exposta a questão relativamente aos programas de auditório, a perguntas que


precisam ser respondidas são as seguintes:

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Considerando que a apresentação de menores em qualquer tipo de espetáculo,
exige a prévia autorização do Juizado de Proteção a Infância e Juventude,
como tais licenças são concedidas? Sob qual justificativa legal, ética ou sob
qual juízo de conveniência se permite a exposição de crianças em tais tipos de
espetáculos? Sob qual fundamento se admite que grupos adultos, com este
nível de apelo erótico, se apresentem em programas infantis?
Não se trata de censura, mas do exercício regular de competência legal que, a
toda evidencia, não se está exercendo.

AS TELENOVELAS

Desnecessário tecer maiores considerações a respeito do papel desempenhado


pelas telenovelas no processo de erotização da infância, seja pela temática
abordada, seja pelo comportamento de diversos personagens no que diz
respeito à sexualidade, seja, pela própria precocidade sexual de alguns
personagens, seja, enfim, pela cenas de nudez e/ou eróticas apresentadas em
horários de plena audiência infantil.
A sociedade, de um modo geral, e a própria mídia reconhecem a
existência de uma frequente degradação de valores morais e culturais nas
telenovelas. A busca do sensacionalismo de mercado, tem conduzido
autores e diretores a explorar a sexualidade como atrativos de audiência.
A erotização da infância, por incrível que pareça, é mais sentida nas
novelas destinadas ao público jovem, onde se estabelece como padrão
normal de conduta a antecipação dos processos de sexualidade.

Sob a justificativa das liberdades de expressão cultural, de imprensa e


informação, que conduziram, em boa hora, ao fim da censura prévia, o Estado
praticamente se ausentou do controle, não apenas da qualidade dos
programas televisivos, como principalmente, dos conteúdos ético-valorativos,
sobretudo das telenovelas.
Porém, ainda aqui se revela o equívoco. O Estado brasileiro, acostumou-
se a iniciativas que são extremadas: ou se estabelece a censura prévia —
com toda a sua nocividade — ou se convive com a quase total ausência de
limites, gerando a permissividade.
A lei permite ao Estado coibir os abusos decorrentes do mau uso das
liberdades públicas. Contudo, por mais abusos que se cometam diariamente,
raras são as notícias de ação estatal impondo penalizações administrativas.
Não é incomum, nos países de primeiro mundo, a suspensão de emissoras de
televisão pela apresentação de imagens ou textos considerados impróprios ou
nocivos para a infância. Há não muito tempo, foi noticiada a suspensão, por
uma semana, de importante emissora de televisão americana, por ter levado

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ao ar, antes da meia-noite, cena em que um casal, na penumbra, em baixo
dos lençóis, sugeria a manutenção de relação sexual.
No Brasil, nas novelas, especialmente as da tarde e a das 21h00, tanto a
nudez, quanto o relacionamento sexual são sugeridos de forma muito
mais aberta do que aquela que motivou a penalidade e, rigorosamente,
nada acontece. Homossexualismo; lesbianismo; sexo oral; masturbação;
bestialismo; orgasmos explícitos; estupros, enfim, tudo quanto se possa
imaginar a respeito de sexualidade normal ou anormal, já foi objeto de
exibição ou sugestão nos nobilíssimos horários televisivos.
Não raro estas situações geram constrangimentos familiares: eis que tais
cenas, presenciadas por crianças sem qualquer condição de intelecção,
resultam em perguntas cujas respostas ou implicam em uma mentira
prejudicial, ou acabam antecipando o conhecimento a respeito de um
tema que, normalmente, não estaria no imaginário de uma criança. Pior
do que a constrangedora pergunta é o silencio, ou seja, a mera
assimilação de algo que não sabe o que é, mas começa a intuir. Isto
significa erotização precoce.
A tudo isto, o Estado jamais deu uma resposta que implicasse na punição da
emissora que abusou das liberdades públicas. Esta omissão estatal em
fiscalizar e punir os excessos gera a certeza da impunidade. Há, portanto,
também aqui, falta de exercício de competência legalmente atribuída ao
Estado.

O MUNDO E O MERCADO DA MODA

O mercado da moda, com seus produtos e subprodutos, movimenta


milhões de dólares no mundo inteiro. Um dos subprodutos mais rentáveis
é o mercado de agenciamento de modelos, em que o Brasil, não por
acaso, assume posição de destaque no fornecimento de top models para o
mundo. Esta liderança - que a mídia, orgulhosamente, tributa à beleza da
mulher brasileira — antes de ser motivo para orgulho, revela o grau de
descuido da sociedade para com a nossa infância e juventude.

Recentemente, prestigiosa agência internacional de modelos, por sua sucursal


brasileira, realizou concurso nacional de modelos. O certame, desde as suas
fases regionais, movimentou milhares de adolescentes no país inteiro. Entre as
dez finalistas não havia nenhuma com mais de dezesseis anos.
Isto significa que, para as agencias internacionais aqui radicadas, o modelo de
mulher bonita brasileira deve ter entre 13 e 16 anos; mais do que isto já é tia!
O que é estranhável neste processo é que, na Europa -- o grande mercado da
alta costura, a idade mínima legalmente exigida (se não em todos, na maioria

50
dos países) para a profissão de modelo varia entre os dezessete e os dezoito
anos.
O fato pode ser constatado pelo grande público, porquanto, em todos os
desfiles internacionais de alta costura, a aparência das modelos é sempre de
jovens de idade superior a 17 ou 18 anos.

Este é o principal motivo do sucesso das modelos brasileiras. As agencias


internacionais, proibidas nos seus países de origem de selecionar modelos
com menos de dezessete ou dezoito anos, voltam-se para o terceiro
mundo e encontram no Brasil, uma verdadeira terra de ninguém onde
nada é vedado, tudo é permitido e, pasme-se, com estímulo ou omissão
dos pais.
A menina adolescente, uma vez selecionada entra no mercado brasileiro
de modelos, onde não há restrição de idade. Ao chegar aos dezessete
anos, já com experiência impar, passa a competir no mercado
internacional.

De resto, a decantada beleza da mulher brasileira — leia-se beleza das


meninas brasileiras entre 13 e 16 anos — resulta, em boa parte, do seu
precoce amadurecimento sexual. Portanto, tampouco aqui, parece haver
motivo para orgulho -- eis que o sucesso, mais uma vez, resulta do descuido
de nossa sociedade para com a sua infância e juventude.
Ao lado das agencias de modelos, merecem análise as escolas de modelos que
são, em verdade, um antecedente lógico, das agencias.
Com efeito, a carreira de modelo, com seu glamour, sucesso, fama e dinheiro,
representa para a infância e juventude brasileira — e com frequência para os
pais- uma verdadeira coqueluche. Ser uma top model internacional, a exemplo
de tantas jovens que frequentam a mídia, povoa o imaginário de nossas
meninas.

Em um país em que o sucesso fácil, tendo como objeto os atributos


físicos (beleza, habilidade nos esportes) é muito mais valorizado pela
mídia do que o sucesso decorrente dos dotes intelectuais e do esforço no
estudo e na pesquisa, não é de estranhar que, aos concursos das agencias
de modelos, acorram anualmente milhares de adolescentes, todas
sonhando com o estrelato.
Este sonho, compartilhado aos milhares, torna a disputa por um lugar ao
sol, uma verdadeira batalha.

Onde vale tudo, até prostituir-se. Por isso, as escolas de modelo são cada vez
mais valorizadas. Existem cursos para modelos infantis, iniciando-se, já aí, o

51
treinamento da futura modelo. Não se pense que esta modelo mirim irá vestir-
se e comportar-se como uma criança. Não, a moda infantil, no Brasil, é uma
imitação da moda adulta (especialmente a moda infantil feminina) e é um dos
fatores do processo de erotização infantil.

No Brasil a moda infantil não objetiva vestir crianças como crianças;


vestem - nas como adultos, inclusive no que concerne ao apelo à
sensualidade.

Um desfile de moda infantil é uma grotesca imitação de um desfile de moda


para adulto, inclusive no que tange ao caminhar e gestual erotizado.
Uma criança assim treinada chega à adolescência já pronta para enfrentar a
carreira de modelo. Mais um, dois, ou três anos de treinamento no Brasil, ao
atingir a idade para os desfiles internacionais, já leva na bagagem uma
experiência bem maior do que aquelas jovens de primeiro mundo que só
começaram a desfilar aos 17 dezoito anos.

O grave, nesta situação, é que não é por atraso, ou preconceito vão,


evidentemente, que os países de primeiro mundo proíbem adolescentes de
exercerem a profissão de modelo. É que se sabe que esta carreira exige
preparo psicológico e estrutura emocional. É um mundo em que a exposição
sexual é enorme e, em seu subterrâneo, é sabido, existe todo um comércio
sexual como porta de acesso ao tão almejado estrelato.
Das milhares de adolescentes que anualmente buscam o ingresso na carreira,
quantas atingirão o estrelato? O que faz uma menina de 13,14 e 15 anos,
diante das ofertas inescrupulosas? Qual a sua reação? Qual a sua capacidade
de resistência?
A dura seleção rejeitará, inexoravelmente, a imensa maioria das concorrentes.
Como assimilarão o fracasso as demais?
Não raro o caminho que sobra é o da alta prostituição, ou o do baixo estrelato
ou, ainda, o caminho das drogas como forma de anestesiar a dor da
frustração. Como adiante se verá, na Internet existe um mercado de sites
supostamente destinados à oferta de modelos, por trás dos quais se revela
uma rede de prostituição, ou de exposição da nudez de adolescentes e até de
crianças. Com certeza, o material humano destes sites é composto por muitas
das excluídas do estrelato da moda.

Milhares de jovens abandonam os seus estudos em busca desta ilusão, de um


sonho que, para a grande maioria, se transforma em pesadelo.
Feita a demonstração do problema, cumpre indagar a respeito do controle e
fiscalização das escolas e agencias de modelos pelas entidades estatais de

52
proteção a infância e juventude. Por qual ignorado motivo, a profissão de
modelo, tão incompatível com a adolescência, parece entre nós liberada?
Também aqui, parece estar havendo a omissão estatal e falta de exercício de
competência legal já estabelecida no ECA.

A INTERNET

Todo este processo de erotização da infância, que conta com vários


instrumentos ou alavancas, como não poderia deixar de ser, chegou, com
força total, à Internet, que hoje se constitui no grande tambor de repercussão
de tudo quanto se passa no mundo globalizado.
Por esta razão, não é de estranhar a verdadeira avalanche de sites dedicados a
pedofilia e a pornografia infantil.
Como se procurou por em destaque já na introdução deste trabalho, o
fenômeno da erotização da infância atua sobre dois segmentos sociais. O
primeiro é a própria infância que, vitimada pela ganância da mídia, passa a
antecipar, não apenas os seus processos hormonais, como o inicio da
puberdade mas por fim, também o inicio de sua vida sexual. O segundo é o
mercado consumidor, ou seja, o público adulto que, mercê da precoce
erotização e da vivência antecipada da sexualidade, passa também a ter, na
infância púbere e até na pré-púbere, verdadeiros objetos de sua sexualidade.
A evidência mais significativa deste fato é o julgamento de um caso
mencionado na abertura deste trabalho. Ali se reconhece que uma menina de
doze anos pode ter uma sexualidade já completamente desenvolvida e que um
homem adulto, identificando os sinais e códigos desta sexualidade, perde a
capacidade de distinguir os limites entre a sexualidade lícita e a não lícita.
O avanço da pedofilia na Internet, portanto, antes de ser uma causa é um
efeito do avanço da pedofilia no comportamento e imaginário social, pela
incapacidade crescente do mundo adulto de distinguir os códigos e sinais
referentes à sexualidade. Isto é, se uma criança se comporta e age como
criança, os sinais códigos que ela emite, sendo de criança, são assim
entendidos e perfeitamente distinguidos. Porém, se esta criança, já em
processo púbere precoce, emite sinais códigos típicos de sexualidade
adulta, estes sinais são captados e podem interferir e confundir o padrão
de reconhecimento.
Como adiante se verá a maior quantidade de sites de conteúdo pedófilo
limita-se à exposição da nudez púbere e pré-púbere. Mesmo em crianças ainda
impúberes, é perfeitamente possível vislumbrar-se na pose, no gestual, no
olhar etc., um erotismo postural, ou seja, não explicito.
Ora, este erotismo postural é uma decorrência direta dos diversos processos

53
de erotização da infância. Nos cursos de modelo destinados a crianças, o que
se lhes ensina é a postura do desfile adulto; é o gestual adulto e até o olhar
adulto. Portanto, o erotismo postural das crianças fotografadas nestes sites
encontra plena correspondência na postura erótica que, de forma aberta, se
ensina e se mostra como algo bom e louvável na televisão.
A erotização da infância, embaralhando os sinais emitidos, pode gerar a
confusão da sexualidade normal no adulto.

Convém abrir um parêntese para o enfrentamento, ainda que de forma


superficial de tema atinente a psicologia.
Em psicologia, é complexa a questão de saber o que é o normal em
sexualidade. A normalidade, via de regra, está associada a comportamentos
admitidos ou socialmente aprovados. Assim, é normal a sexualidade admitida
e anormal a socialmente reprovada.

A criança como objeto de sexualidade foi admitida em diversas


civilizações e, ainda hoje, existe, em determinadas comunidades de
origem árabe, a possibilidade de casamento de meninas de até 10 anos.
A reprovabilidade da pedofilia, portanto, está intimamente ligada ao
padrão cultural no atual estágio civilizatório, onde ela é reprovada a nível
moral e penal. Reveste-se de típica característica de tabu (em seu
conceito sociológico).

Pois bem, esta questão, aos efeitos do presente trabalho, assume relevo, na
exata medida em que o avanço do processo de erotização da infância, com a
concreta exploração da sexualidade púbere e pré-púbere, parece representar
um afrouxamento do padrão cultural de reprovabilidade. Mais uma vez
relembre-se o acórdão do STF, em que, dadas as circunstâncias do caso
concreto, retirou-se a reprovabilidade penal de conduta essencialmente típica.
O tema está a merecer maior aprofundamento por parte dos especialistas da
área.

Feito este parêntese, é imperioso concluir que o avanço de manifestações


de pedofilia é consequência direta do processo de erotização da infância,
tanto pelo fato de se produzir crianças que emitem sinais e códigos
típicos de sexualidade adulta, quanto pelo afrouxamento consequente da
reprovabilidade ética e até penal que este embaralhamento de sinais e
códigos acaba gerando.

Não se está concluindo que o tabu tenha deixado de existir ou que não haja
a reprovação social e penal da pedofilia. O que se estabelece como fato a ser

54
estudado é que o avanço da pedofilia encontrou na Internet canal de maior
concretização de fantasia e vai ao encontro de um mercado estimulado pela
mídia.

Com efeito, é sabido que a Internet tem gerado novos padrões de


manifestações de sexualidade, como o denominado sexo virtual.
A virtualidade sexual que a Internet permite — e nisso reside o seu
grande sucesso na área da sexualidade — consiste em dar maior
concretização às fantasias sexuais. Assim, a honestíssima senhora casada
- sob um nome falso, aparência física e idade que gostaria de ter —
transforma-se em verdadeira messalina em chats de conversação, ou
mesmo através de masturbação praticada simultaneamente frente a web
câmeras. Tudo isto sem sair do recinto do lar, sem trair (fisicamente, ao
menos) o seu amado esposo. Tudo, rigorosamente, fantasioso.

Este comportamento que, antes da Internet, permanecia em um nível de


fantasia que dificilmente seria expresso; com o seu advento passou a ser
manifestado. Ou seja, a fantasia ganhou intensidade e até maior concretude,
embora continue, rigorosamente, apenas uma fantasia. Em outras palavras, a
mulher que assim se comporta mantém-se fiel — ao menos em seu entender,
foge à reprovabilidade social e, ao mesmo tempo, consegue dar maior
concretude, em outro nível, às suas fantasias.

A pesquisa em sites de conteúdo pedófilo na Internet parece apontar que


neles ocorre o mesmo fenômeno do sexo virtual, ou seja, eles viabilizam a
pedofilia virtual aonde o internauta, com este tipo de fantasia, a ela
confere uma maior concretude sem que seu comportamento tenha
infringido a reprovabilidade penal.
Esta conclusão é confirmada pelo acompanhamento do conteúdo dos
diálogos de internautas em sites destinados ao encontro de pedófilos, nos
quais, de maneira quase generalizada, constata-se o alto de nível de
fantasia, a par de um elevado grau de voyerismo. Raramente são
relatados episódios concretos de molestação infantil.

Os sites que exploram a erotização infantil, pré-púbere e púbere, podem ser


classificados em dois grandes grupos, a saber: 1- os pornográficos (hardcore) e
2-os não pornográficos (softcore).
Os hardcore exploram a pornografia infantil, ou seja, apresentam fotos e
filmes de crianças, desde a mais a tenra idade até a adolescência, em contato
sexual com adultos ou mesmo entre crianças. E o que de mais baixo e ignóbil
pode apresentar a Internet. Geralmente têm vida curta, certamente em função

55
da prevenção e repressão estatal. Os sites softcore tem conteúdo variado,
explorando a nudez (ou seminudez); a sensualidade em poses, gestos e
olhares.
Estranhamente, boa parte destes sites - por sua longa duração e por serem
comerciais, inclusive com oferta de assinatura periódica através de cartão de
crédito, contam com a tolerância das autoridades.
A tentativa de encontrar um critério lógico para que alguns destes sites sejam
considerados legais e outros não, aponta para uma estratégia comercial. Se o
endereço eletrônico consegue travestir o conteúdo de nudez ou erotização
infantil, sob a roupagem de alguma atividade lícita (divulgação do naturismo;
oferta de modelos infantis e de adolescentes para fotografia ou desfiles;
ateliers supostamente artísticos dedicados ao nu infantil) a sua exploração
comercial parece ser entendida pelas autoridades como lícita.
Os que procuram explorar a nudez sem qualquer suposta justificativa são em
sua maior parte fechados.
O que importa considerar - e até causa espanto - desta aleatoriedade na
permissão de exploração comercial da nudez infantil, é que haja um critério
admitido pelo Estado segundo o qual seja licito, ou tolerado este tipo de
exploração.

Aqui, novamente, parece que a Internet limita-se a reproduzir a


tendência da mídia comercial e das atividades comerciais ligadas a moda:
abre-se um espaço, em que é tolerada a exploração comercial da
erotização da infância.
Convém ainda salientar que as modelos ofertadas em sites ligados ao mundo
da moda, ou como modelos fotográficas, não raro aparecem também em sites
de conteúdo erótico mais explícito e até em sites pornográficos, o que sugere
certo grau de intercomunicação entre estes sites na exploração de modelos
infantis, púberes e pré-púberes.

CONCLUSÕES

O objetivo do presente trabalho não é oferecer conclusões que se pretendam


definitivas, até mesmo pela evidente necessidade de se recorrer a
interdisciplinaridade, para se buscar conclusões mais sólidas e universais.
As conclusões que aqui se apresentam tendem mais a servir como sugestão de
um temário maior.
Ao longo deste trabalho procurou-se efetuar um levantamento do problema:
a precoce erotização da infância e a suas raízes nos principais segmentos
da mídia. Daí se pode extrair desde logo uma primeira conclusão:

56
a) Existe em curso um processo de erotização da infância que, aumentando,
inclusive, os níveis hormonais, determina a antecipação da puberdade e da
vivência sexual.
Procurou-se também demonstrar que a mídia, especialmente a televisão pela
sua importância social, se constitui no principal instrumento do processo de
erotização da infância, com o que e lícito igualmente concluir:

b) A televisão se constitui no principal instrumento no processo de erotização


da infância, seja pelos estímulos eróticos que produz, seja pela permissividade
com que tais estímulos chegam à infância seja, ainda, pelo incentivo a
imitação a algumas expressões de conteúdo erótico do comportamento. A
outra face da erotização da infância se constitui no surgimento de um
mercado de consumo para as manifestações decorrentes deste processo, sendo
possível afirmar-se que:

c) A erotização da infância, reproduzida pela mídia, gera um mercado de


consumo entre o público adulto para tais manifestações de conteúdo erótico.
O sinais e códigos emitidos por uma nova infância precocemente erotizada
podem gerar confusão e estímulo a exploração de sua sexualidade. A internet,
por ser o resumo informatizado da mídia globalizada, da mesma forma que os
demais meios de comunicação, reproduz, de forma mais aguda, o processo de
erotização da infância, possibilitando concluir-se que:

d) Na Internet, a exploração da sexualidade infantil púbere e impúbere,


direciona-se a satisfazer o mercado já estimulado pela mídia tradicional,
possibilitando maior concretude às fantasias sexuais através da pedofilia
virtual.
Ao longo do presente trabalho, mostrou-se haver um descuido do Estado na
fiscalização e controle de atividades de mídia e outras cujo conteúdo mostra-se
nocivo a infância, do que se conclui:

e)Existe grande omissão no exercício de competência legal fiscalizadora e


controladora de atividades relacionadas com a proteção da infância e
juventude.
As cinco conclusões supracitadas podem ser resumidas em uma única, qual
seja, a erotização da infância é uma realidade que avança através da mídia, de
forma cada vez mais rápida e abrangente, utilizando-se de todos os meios de
comunicação de massa.
Corre-se o risco de, em uma sociedade cada vez mais permissiva,
abrandarmos a reprovabilidade social e penal ao uso (e abuso) da infância

57
como objeto sexual.
Os sintomas deste abrandamento já se fazem sentir, não apenas no interior
das famílias, mas, especialmente, em todas as instâncias de poder estatal.
A troca de um padrão cultural sem que se criem estruturas familiares, sociais
e psicológicas capazes de assimilar ou de por limites aos novos padrões
prestes a serem estabelecidos é, sempre, perniciosa.

As consequências já se fazem sentir. O inicio precoce da vida sexual entre os


adolescentes, sem que, nem as famílias, nem a sociedade, muito menos os
jovens, estejam habilitados a enfrentar o problema, tem gerado um sem
número de mães solteiras, grande parte delas, sem qualquer estrutura
psicológica para o exercício sequer de sua sexualidade, quanto mais para a
maternidade.
Por outro lado, contraditoriamente, na medida em que se antecipa a vivência
sexual, se posterga o inicio da maturidade, porquanto a vida moderna exige,
do jovem, cada vez mais preparo profissional e intelectual.
O diagnóstico, com certeza, não possui a profundidade e abrangência exigidas,
mas é definitivo em sua percepção da realidade.
O que fazer com esta realidade? E possível interferir nela? Como reverter este
processo que avança na mesma velocidade em que se transforma a sociedade?
Estas e, com certeza outras questões são respostas que a sociedade deve
começar a exigir.

A interferência em um processo que não. é local, mas revela uma tendência do


atual estágio cultural da sociedade globalizada, obviamente não é fácil, dir-se-
ia, impossível mesmo, se pensar apenas na solução macro ou seja,
globalizada.
Contudo, como acima se procurou demonstrar, o fenômeno, embora
globalizado, no Brasil, assume projeção mais intensa. Vê-se que, no primeiro
mundo existem mecanismos de controle estatal e até familiares mais
rigorosos.
Portanto, existe um caminho a ser percorrido. É possível interferir nos meios
de comunicação; é possível estabelecer limites e mecanismos de controle; o
Estado deve se fazer presente. Existe competência legal não exercida; assim
como existem caminhos legais a serem construídos.
Parece de todo evidente que as instituições estatais e privadas direcionadas à
proteção da infância e juventude devem criar grupos de trabalho que possam
identificar os problemas aonde eles se
Esta é a proposta que é feita, como derradeira conclusão: a criação de grupo
de trabalho especifico que busque as diretivas de ação para o Estado com

58
finalidade de controlar e fiscalizar a ação da mídia no processo de erotização
da infância.

Diante de tudo isso é preciso que, de um lado, estejamos bastante despertos e


atentos, como quem empunha a lança da consciência Michaélica e que
percebe que estas são manifestações do dragão arimânico no mundo de hoje.
Ele atua no sentido do materialismo, da redução e aprisionamento do humano
à sua dimensão corpórea numa visão animalesca ou mecanicista, mas
certamente, não espiritual. Ao dragão interessa enormemente que nos
mantenhamos adormecidos e assim, facilmente omissos, tolerantes,
permissivos.

Aos que começam a despertar, ele tenta impedir que se fortaleçam em suas
convicções deixando-os solitários, e com isso, sobrecarregados e frágeis sob o
peso de uma maioria totalmente indiferente às suas necessidades comuns,
pois somos em nossa convivência, interdependentes. Ariman bem sabe que as
comunidades humanas que se baseiem em um impulso puramente espiritual,
oriundo de um reino que não pertença ao “Príncipe deste mundo” são as
únicas que podem resistir à sua sedução, além de promover um incremento e
uma potenciação às forças do Bem. E conhecendo este segredo ele faz de tudo
para corromper e submeter à sua influência, com todos os meios que
estiverem à sua disposição, justamente comunidades humanas como a de
uma Escola Waldorf que em seus fundamentos é profundamente Crística, cuja
pedagogia se baseia em uma visão do homem como ser portador de corpo,
alma e espírito. [Cristo já dissera: “Meu reino não é deste mundo” e “Eu venci
o príncipe deste mundo”]

Assim, só poderemos resistir, se nos unirmos em liberdade a partir de um


reconhecimento verdadeiro daquilo que nos toca a todos: a real educação de
nossos filhos queridos. E porque toda educação é autoeducação, e nós, na
qualidade de educadores, em realidade formamos apenas o ambiente em que a
criança se educa a si mesma; devemos propiciar-lhe o ambiente mais favorável
possível, para que junto a nós ela se desenvolva da maneira como deve ser
segundo seu destino interior.

Em se tratando da criança entre os 9 e os 10 anos, isto significa envolver-lhe


com o que é verdadeiramente Belo. Preservá-la das influências nocivas e
oferecer-lhe a possibilidade de conviver com adultos que estejam
permanentemente em um esforço próprio de autodesenvolvimento consciente -
- razão pela qual, seremos também auxiliados pelos seres espirituais que
guiam nosso próprio destino e o de nossas crianças: os anjos.

59
Educação na Adolescência (PDF)

Extraído do GA 302 a – palestra de 21 de junho de 1922

(...) Vejam bem, é realmente essencial que neste contexto imperem conceitos
educacionais excepcionalmente claros. Não se pode dizer que seja este o caso,
hoje em dia. Precisamente quando se considera esta faixa etária, pode-se
observar como as pessoas supervalorizam questões puramente secundárias. A
coisa alcançou o ponto em que certos processos anímicos instintivos que
ocorrem na puberdade têm sido examinados, mesmo nos círculos pedagógicos,
à luz de uma análise completamente equivocada da psicologia envolvida.

Em geral, o verdadeiro é o seguinte: Uma vez que as crianças atinjam a


puberdade, é necessário despertar nelas um profundo e incomum interesse
por seu entorno. Através da forma como são instruídos e educados eles devem
ver o mundo à sua volta com seus processos, com suas leis tais como causa e
efeito, o propósito e objetivo que atuam nele.

Isto se aplica, naturalmente, não só ao que concerne à vida das pessoas, mas
de forma geral, a tudo – até a coisas como uma peça musical. Todas estas
coisas deveriam ser apresentadas aos jovens de tal sorte que se produzisse um
constante eco em seu íntimo, de modo que lhes surgissem questões sobre a
natureza, sobre o mundo e o cosmos, sobre o ser humano, sobre temas
históricos, e assim sucessivamente. Perguntas deveriam surgir de dentro dos
jovens sobre os enigmas do mundo e seus fenômenos. Pois dentro da alma
estão presentes nesta época forças que se disponibilizaram pela liberação do
corpo astral, cuja tarefa é confrontar-se com tais enigmas. Se questões deste
tipo acerca do mundo e seus fenômenos não emergirem do jovem coração
humano, estas forças se transformam em algo mais. Se não conseguimos
suscitar o mais intenso interesse pelos enigmas do mundo quando estas
forças se tornam disponíveis, elas então se metamorfoseiam naquilo que
hoje observamos nos jovens. Elas se transformam em algo instintivo que
segue em duas direções: primeiramente, no sentido de uma sede de
poder; e segundo, em erotismo. E a tragédia a esse respeito é que mesmo
o pensamento educacional moderno assume que esta sede de poder e este
erotismo são traços naturais do desenvolvimento do ser humano da
puberdade em diante, ao invés de percebê-los como fenômenos
subordinados produzidos pela metamorfose de forças que, até os 20, 21
anos, deveriam seguir um curso totalmente diferente.

Essencialmente, se no processo educacional as linhas corretas forem


seguidas, será desnecessário falar aos jovens entre 14 ou 15 e 20 anos sobre o
desejo ardente de poder e o erotismo. Estas serão coisas que seguirão seu
curso abaixo da superfície da vida consciente. Se elas têm de ser abordadas
nesta idade, tal fato em si mesmo já indica um desenvolvimento não salutar.
Toda a nossa teoria e prática pedagógica sofrem de uma concentração
constante e excessiva sobre este tema como algo proeminente. A única razão

60
para a proeminência dada a esta questão é que, numa era em que o
materialismo se tornou uma concepção tão abrangente da vida, as pessoas
perderam tanto mais a habilidade de despertar um genuíno interesse no
mundo – e o mundo no sentido amplo da palavra. Nossas disciplinas
acadêmicas, nas quais, naturalmente, os próprios professores tem sido
educados, em essência, realmente não contêm nada sobre o mundo. Elas
oferecem leis físicas, relacionamentos matemáticos, descrições do que
acontece na intimidade da célula e toda sorte de visões sobre processos
históricos abertos ao debate. Estas coisas reunidas são incapazes de inspirar
interesse nos jovens, precisamente entre 15 e 20 anos de idade. Qualquer
pessoa de mente suficientemente aberta e sem preconceitos para fazer as
observações apropriadas nesta área poderá perceber que tais matérias são
simplesmente incapazes de mobilizar e satisfazer os interesses mais profundos
dos jovens desta idade. Mediante a falta de interesse no mundo à sua volta,
eles serão remetidos de volta a si mesmos e desse modo começam a
ruminar toda sorte de coisas.

Somos obrigados a reconhecer que a maioria dos aspectos mórbidos,


insalubres, adoecedores da civilização moderna ocorrem essencialmente
porque as pessoas estão demasiado preocupadas consigo mesmas; elas
passam boa parte do tempo livre ocupadas com seu próprio bem-estar e o
que lhes traga conforto pessoal, ao invés de se dedicarem ao mundo ao
redor. É claro que quando há uma necessidade, tais cuidados consigo próprio
são perfeitamente legítimos. De fato, se alguém adoece, deve se cuidar.
Entretanto, não é apenas quando adoecem que as pessoas se voltam para si
mesmas; isto também ocorre quando elas estão sãs. Além disso, o período
menos favorável para se preocupar consigo mesmo é justo o da adolescência.
A capacidade de julgamento independente que desabrocha nesta idade precisa
ser direcionada para a consideração dos múltiplos e diversos aspectos do
mundo e como eles se interrelacionam. O mundo deveria se tornar tão
interessante para o jovem que jamais lhe ocorresse disperar dele sua atenção
a ponto de se preocupar constantemente consigo. Pois, como todos sabem, no
que concerne à sensação subjetiva, a dor tende a aumentar quanto mais se
pensa nela. A ferida, considerada objetivamente, não o faz; mas quando se
está sempre ocupado com a dor, ela se acentua. Em certo sentido, a melhor
maneira de sobrepujar a dor é tirar dela a atenção. Ora, o que se desenvolve
nos jovens, precisamente nesta idade, não é de todo diferente da
experiência da dor. O processo de aprendizado para acomodar-se aos
efeitos do corpo astral à medida em que ele estabelece sua atividade
independente dentro do corpo físico realmente produz uma experiência
contínua de uma dor mansa, cuja consciência imediatamente leva o
indivíduo a preocupar-se consigo próprio, a menos que sua atenção esteja
suficientemente absorvida por algo fora dele.

Nunca é demais nos lembrarmos que a educação dos jovens entre os 14 e 21


anos deve estar fundada da forma mais cuidadosa possível, no relacionamento
moral entre o professor e seu pupilo. Moral neste contexto deve ser tomado no

61
sentido mais amplo possível. Isto significa, por exemplo, que o professor deve
suscitar em sua alma os mais profundos sentimentos de responsabilidade
por sua tarefa.

Nisto que coloco diante de vocês inclui-se a possibilidade, mesmo em escolas


de meninas, de reduzir sensivelmente a preocupação com sexo sobre a qual se
faz hoje tanto estardalhaço. Onde prevalece um erotismo alarmantemente
extravagante entre adolescentes são os educadores os responsáveis por
seu fracasso em encorajar e despertar um interesse pelo mundo. Se os
jovens não se interessam pelo mundo, do que você espera que eles se ocupem?
No que vão pensar? Se estão entediados pela forma com que a matemática,
história, etc são ensinadas, naturalmente seus pensamentos vão se voltar
para o que está em curso em seus corpos, no coração, nos pulmões, no
estômago... Somente atraindo o interesse , a atenção para o mundo exterior é
que se poderá impedir tal ocorrência, e muito depende de que consigamos
justamente isso!

Realmente, a prevalência do erotismo e especialmente a preocupação excessiva


com assuntos de natureza sexual nos jovens desta idade, se ainda estão na
escola, pode sempre ser atribuída à escola em alguma medida. Pois, vejam
vocês, esta preocupação mórbida com o sexo, que hoje está tão disseminada e
visível à observação externa, é basicamente presente nas cidades e, sobretudo,
entre os cidadãos que se tornaram médicos ou professores. Foi somente
quando a vida urbana começou a dominar completamente a nossa civilização
que tais coisas chegaram a tão terrível estado de degeneração.

Em relação ao que temos dito, o psicólogo criminalista e excelente médico, Dr


Moritz Benedikt, estava certo quando há dez anos afirmou isto com respeito a
esta discussão sobre perversão entre jovens, homossexualismo e toda sorte de
desvios que cada vez mais se observam: “Uma garota comum, frequentando a
escola hoje, sabe mais sobre estas coisas do que os médicos jovens sabiam 30
anos atrás”.

62
ÉPOCA DE REPRODUÇÃO HUMANA E SEXUALIDADE

Para o 8º ano A da E. W. Rudolf Steiner (Agosto de 2008)

PRIMEIRA SEMANA: Reprodução Humana

1º dia

A Complicada Arte de Ver – sobre a ressurreição do sagrado nos


desvãos da banalidade
Amor de Índio
O Homem e a Mulher – diferenças biológicas e anímicas características
de cada sexo
Observação de pinturas – imagens do feminino e do masculino
Na Mitologia – Vênus/Marte; Afrodite/Ares
Poema de Victor Hugo: O Homem e a Mulher

2º dia

Aparelho Reprodutor Feminino


Ciclo ovariano
Como as características arquetípicas do feminino se revelam na forma e
na função

3ºdia

Aparelho Reprodutor Masculino


Forma anatômica revelando os arquétipos do masculino

4º dia

A Fecundação: os fatos fisiológicos através de uma imaginação

5º dia

O Círculo se fecha: recapitulação dos temas da semana por meio de


ilustrações.
Relação entre a fisiologia humana da reprodução e forças cósmicas
celestes. – A mesma dinâmica arquetípica encontrada no masculino e
feminino pode ser vista na polaridade Sol-Terra, intensificada como
cometas-lua – Assim na Terra como no Céu
Fechamento com o reencontro do sagrado: Tudo o que move é sagrado

SEGUNDA SEMANA : Sexualidade

63
1º dia

Preparo: Ver e Ouvir com o coração


Relato da própria história de vida, ressaltando passagens arquetípicas
da adolescência que os possam levar a uma identificação dos próprios
sentimentos e vivências e seu significado.
Poema- Amar : A Oração do Adolescente de Michel Quoist
Pergunta de Rainer Maria Rilke
Canções – Não sei ficar tranqüilo e Caçador de Mim
Questão surgida: quando é a hora certa de experimentar a sexualidade?

2º dia

Respondendo à Pergunta
A imagem do corpo na concepção da Ciência atual e da Religião e suas
implicações e conseqüências
A relação entre os pólos da cabeça e dos órgãos sexuais na adolescência
(o amor e a ilusão do amor)
O Templo de Salomão como símbolo para o Corpo Humano
O Sopro Divino – O Eu Sou – O nome de Deus

3º dia

Retomando a história de vida para responder e ilustrar as perguntas


feitas
Sobre amar e as várias formas de amor
Colhendo perguntas com respeito

4º dia

Respondendo às perguntas já previamente classificadas por seu


conteúdo
Dinâmica de Grupo: grupos de 4 meninas e grupos de 4 meninos.
Perguntas para serem debatidas e apresentadas ao final:
O que vocês admiram e apreciam nas (os) meninas (nos)?
O que vocês não gostam que elas (eles) façam?
O que vocês gostariam que elas(eles) soubessem sobre vocês para que
pudessem se relacionar melhor?

5ºdia

Plenária e discussão das respostas do grupo

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Amor de Índio
Beto Guedes
Composição: Beto Guedes/Ronaldo Bastos

Tudo que move é sagrado Pra na chuva dançar e andar junto


E remove as montanhas O destino que se cumpriu...
Com todo o cuidado, meu amor.
Enquanto a chama arder
Todo dia te ver passar
Tudo viver a teu lado
Com o arco da promessa
Do azul pintado, pra durar.
Abelha fazendo o mel
Vale o tempo que não voou
A estrela caiu do céu
O pedido que se pensou
O destino que se cumpriu
De sentir seu calor
E ser todo
Todo dia hei de viver
Para ser o que for
E ser tudo
Sim, todo amor é sagrado
E o fruto do trabalho
É mais que sagrado, meu amor.
A massa que faz o pão
Vale a luz do teu suor
Lembra que o sono é sagrado
E alimenta de horizontes
O tempo acordado, de viver.
No inverno te proteger, no verão
sair pra pescar
No outono te conheçer, primavera
poder gostar
No estio me derreter

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Homem Mulher

Esqueleto mais pesado, contendo mais Ca Esqueleto mais leve

Estatura mais elevada, formas angulosas Formas curvilíneas

Musculatura mais desenvolvida, mais forte Mais tecido adiposo

Tórax e membros mais desenvolvidos Bacia e cintura pélvica mais desenvolvidas

Triângulo com a base para cima Triângulo c/ base para baixo

Voz mais grave Voz mais aguda

Órgãos genitais externos mais próximos da Orgãos genitais no interior e sem movimento
terra (membro) ; movimento

Gameta masculino: pouquíssima substância Gameta feminino: contém muito mais


mas grande mobilidade substância, sem movimento

Um ponto e uma longa cauda Esférico e muito grande

Produzidos aos milhões Um só óvulo amadurece a cada mês

(300 a 500 mi/ejaculação)

Extremamente ágeis, vão ao encontro do Não é dotado de movimento. É levado ao útero


óvulo p/ fecundá-lo por movimento da trompa

Atividade enérgica Receptividade seletiva

Pensamento mais lógico-racional pensamento mais prático - intuitivo

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O Homem e a Mulher
Victor Hugo

O homem é a mais elevada das criaturas; a mulher, o mais sublime dos ideais.

Deus fez para o homem um trono; para a mulher, um altar. O trono exalta, o
altar santifica.

O homem é a cabeça; a mulher, o coração. A cabeça produz a luz; o coração, o


amor. A luz fecunda; o amor ressuscita.

O homem é um gênio; a mulher, um anjo. O gênio é imensurável; o anjo,


indefinível.

A aspiração do homem é a suprema glória; a aspiração da mulher, a virtude


extrema. A glória traduz grandeza, a virtude traduz divindade. O homem tem a
supremacia; a mulher a preferência. A supremacia representa a força; a
preferência representa o direito.

O homem é forte pela razão; a mulher, invencível pela lágrima. A razão


convence, a lágrima comove.

O homem é capaz de todos os heroísmos; a mulher, de todos os martírios. O


heroísmo enobrece, o martírio sublima.

O homem é o código; a mulher, o evangelho. O código corrige, o evangelho


aperfeiçoa.

O homem é um templo; a mulher, um sacrário. Ante o templo nos


descobrimos, ante o sacrário nos ajoelhamos.

O homem é um oceano; a mulher, um lago. O oceano tem a pérola que o


embeleza, o lago tem a poesia que o deslumbra.

O homem é a águia que voa; a mulher, o rouxinol que canta.

Voar é dominar o espaço, cantar é conquistar a alma.

O homem tem um farol, a consciência; a mulher tem uma estrela: a


esperança. O farol guia, a esperança salva.

Enfim, o homem está colocado onde termina a terra; a mulher, onde começa o
céu...

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ASSIM NA TERRA COMO CÉU

Se observarmos o Universo com atenção, chegaremos a perceber que a tudo o


que se passa em nosso sistema planetário subjaz uma polaridade arquetípica,
um contraste fundamental; aquele entre o Sol e a Terra.

A Terra é um corpo material bem firmemente compactado, uma esfera de


massa sobre a qual nos encontramos. Tudo o que lhe pertence ela possui
efetivamente encerrado em si mesma. E o Sol é um ser de natureza totalmente
oposta, um ser que possui todo o seu conteúdo, toda a sua plenitude no meio
ambiente, naquele corpo imenso e radiante; no centro ele tem um vazio – em
certo sentido, uma espécie de cavidade, em cuja borda aparece uma
luminosidade intensa. Portanto: a Terra é uma compactação total de matéria,
e o Sol, derramando-se para todos os lados. Esse ser coronal é tão
enormemente grande que todo o sistema planetário se acha imerso nele, como
que num grande lago de luz, no qual os planetas boiam. Porém, um lago cujas
águas se movimentam em um pulsar sutil e intenso a um só tempo.

Do Sol emanam luz e calor. Ele fecunda a Terra. Ela gesta a vida, abriga os
seres. Nutre, cuida e protege tal qual uma grande mãe. Como cantou Caetano
Veloso: “Luz do sol, que a Folha traga e traduz, em verde novo, em folha, em
graça, em vida, em força, em luz”... Eia a grande polaridade arquetípica.

E agora se pode observar o seguinte: existe uma forma de intensificação de


cada um desses opostos. Se eu ainda acentuar, como que elevando ao
quadrado, o que a Terra é como compactação material, firme, quase
impenetrável, resulta um tipo de corpo universal que é uma massa ainda mais
inerte, mais fria e exclusiva: A Lua. Ela é um pedaço da Terra, expelido do
corpo terrestre vivo por ser demasiado morta, tal como uma pedra que tem de
ser expulsa do organismo vivo.

Correspondentemente a isso, também existe, por outro lado, uma


intensificação do elemento solar. Ela acontece quando ainda se potencializa
essa irradiação, a auto expansão, esse espalhar-se no infinito do ente solar.
Então surge algo como um feixe de raios solares, simplesmente soprado,
dissipado, cortando o céu em liberdade. Esta é a forma de intensificação: de
um lado concentração; de outro, um expansão, um pulverizar. E essa figura
constituída de feixes de raios solares pulverizados é o cometa. Pensa-se que os
cometas são detritos remanescentes da condensação da nébula solar.

A Lua tem algo a ver com tudo o que cresce. Isto é sabido pelo agricultor, que
se orienta pelo que a Lua lhe dá como ajuda no manejo agrícola, na
semeadura, etc. A lua tem influência sobre as forças de crescimento. Todo
crescer e medrar está relacionado com esta natureza lunar. Mas se o crescer e
medrar deve ter resultados para o futuro, tanto para as próprias plantas como
para a humanidade que se alimenta delas, a planta deve formar frutos, não

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deverá crescer para sempre. – o crescimento deve ficar interrompido por um
tempo, entrando um outro processo em cena: o da maturação. Durante a
maturação, o crescimento, por assim dizer, estanca sutilmente. A maturação é
um morrer sutil. E na vida humana, o morrer deveria ser uma maturação.
Assim como no outono a árvore perde suas folhas, mas forja seus frutos,
assim também é quando nossas forças vitais começam a declinar que
podemos nos tornar sábios e maduros.

E agora o interessante é que do mesmo modo como a lua se relaciona com os


processos de crescimento, o cometa se relaciona com os de maturação. Hegel o
grande filósofo, já sabia disto ao indicar que a cada aparecimento de cometas
segue-se um bom ano vinícola. E é justamente a maturação que importa no
vinho, pois de que valem os cachos de uvas quando não são doces? E para o
desenvolvimento da doçura, importa, não o elemento aquoso, mas o solar,
calórico. Portanto, crescer e amadurecer são dois opostos que dominam o
mundo vivo, estando relacionados com a atividade da Lua.

No âmbito humano, como vimos, também temos este grande contraste.


Existem os seres humanos encarnados sob forma feminina e os encarnados
sob forma masculina. Sabemos que há uma grande diferença entre ser homem
ou mulher. Desde o físico até o anímico (psíquico) tudo é compenetrado por
este contraste. Tal disposição é um reflexo terreno da polaridade cósmica entre
Sol e cometas por um lado, e Terra e lua, por outro. O Sol está para o Homem,
como a Terra está para a Mulher. A lua está para o gameta feminino, como o
cometa está para o gameta masculino.

Ainda sobre os cometas, sabe-se que os homens da idade média


acompanhavam as aparições de cometas com grande temor, com sentimentos
de angústia. Diziam que os cometas eram açoites de Deus, isto é, um sinal da
indignação divina – eram como conclamações “Mudem seu modo de pensar!”
Assim, esperavam dos aparecimentos de cometas os piores efeitos: guerras,
pestilências e outras epidemias, tempestades, etc. Em última análise, era
como quando na escola o professor esbraveja com a classe – algo que pode
causar um susto ou receio. Porém, passado seu efeito, a ponto de todos terem
se assustado um pouco e ficado mais disciplinados, sente-se depois a
maravilhosa repercussão benéfica dessa bronca – trovoada. Para os homens
do passado era como se o mundo ficasse mais limpo, mais puro depois de o
cometa, qual uma vassoura do céu, ter restabelecido a ordem e a limpeza num
mundo cuja imundície se havia acumulado.

Isto também é semelhante a quando uma febre passa pelo corpo como um
calor inflamatório. Enquanto permanece é desagradável, contudo, depois da
febre geralmente nos sentimos renovados. É como se a febre dissolvesse
resíduos de depósitos no organismo, depurando-o. Cabe então imaginar que o
aparecimento de um cometa penetre no organismo de nosso sistema
planetário como uma espécie de calor passageiro, uma inflamação móvel, uma
trovoada cósmica, deixando atrás de si um organismo vital mais limpo dos
resíduos.

69
TUDO O QUE MOVE É SAGRADO...

É notável a concepção a que, justamente pelas pesquisas mais recentes, a


moderna astronomia chegou. Sempre se reencontra uma mesma expressão ao
ler os livros de astronomia: nuvem de cometas (Nuvem de Oort). Acredita-se
que os bilhões de cometas existentes, cercam como uma nuvem todo o nosso
sistema planetário, numa espécie de estado de repouso. Movimenta-se lá fora
bem devagar, como que descansando. É o reino das possibilidades ilimitadas
da natureza cometária. E só de vez em quando um ou outro é delegado a
executar certas tarefas, ou seja, como que realizar uma missão: ele então é
enviado para uma viagem missionária. E então é como se o cometa nascesse
para nós, para a visão dos seres terrestres – dá-se a perceber e segue seu
curso, realiza sua tarefa e desaparece novamente voltando á nuvem cometária
e aguardando pacientemente um novo encargo. É mais ou menos assim que
podemos imaginar a vida do cometa.

No entanto, esta expressão “nuvem de cometas” sugere ou faz lembrar outra


formação nebulosa que se encontra numa famosa obra de arte. Refiro-me à
Madona Sistina de Rafael, hoje no acervo da Galeria de Arte de Dresden, na
Alemanha. Neste quadro, a Madona está com a criança no centro, sobre um
fundo de nuvens. A uma observação mais atenta, tal fundo de nuvens se
revela composto de muitas pequenas cabeças, muitos semblantes sutis de,
crianças e de anjos. É da nuvem dos ainda não nascidos, dos que aguardam a
encarnação, que Maria traz uma criança – aliás, uma criança toda especial,
que terá a maior de todas as missões a serem cumpridas na Terra; e as outras
ficam no pano de fundo, como que à disposição ou na expectativa de que
também para elas chegue a hora do destino em que serão enviadas, cada qual
com sua missão individual a realizar.

Neste sentido, podemos dizer que não é um lance impróprio quando pintores
insistem em reproduzir nos quadros natalinos que descrevem o nascimento de
Jesus, um cometa como a estrela guia dos Reis Magos. Não porque um cometa
tivesse surgido no céu na ocasião, mas muito mais como um sinal metafórico,
uma indicação simbólica sugerindo que “aqui entra no mundo terrestre uma
alma com uma missão toda especial”.

E se avançamos em nossas considerações sobre este homem em quem viveu o


Verbo Divino, chegamos ao ponto em que o próprio Cristo celebrou uma
cerimônia com seus discípulos como um meio para que estes sempre
estabelecessem novamente ligação com ele: “A cada vez que fizerdes isto,
estarei em vosso meio e atuarei convosco”

Mas porque é necessário que tal comunhão seja concedida por meio de pão e
vinho? Não seria suficiente ter apenas uma substância em que se soubesse
estar presente o ser do Cristo? Não, não seria suficiente, porque todo o mundo
veio à existência a partir da tensão entre as polaridades. Céu e Terra, Luz e
Trevas, Acima e Abaixo, O dia e a noite, O homem e a mulher. E assim, não

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poderia ocorrer outra coisa senão o fato de a majestosa entidade criadora solar
que no Cristo se uniu à Terra -- o Logos Solar feito homem -- viesse a se
comunicar com os homens que quisessem segui-lo e procuram por sua
presença, indo ao encontro deles sob dupla forma: no pão e no vinho, ou seja,
de um lado numa substância que é formada, assada num pão e depois cortada
como hóstia em forma circular, e de outro, na substância que como líquido,
não tem forma própria, ajustando-se ao recipiente que ocupa, tendo, em
contrapartida, em sua mobilidade, em sua fluidez líquida, o dom de
compenetrar e vivificar. Então forma e conteúdo, como encontramos no pão e
no vinho, se relacionam por sua vez com aquela mesma polaridade
arquetípica.

71
AMAR __ ORAÇÃO DO ADOLESCENTE

A adolescência não é a idade horrível, é a idade esplêndida em que Deus pelas


leis da natureza, põe no corpo e no coração do jovem um apelo profundo para
um outro corpo, um outro coração.

Quem dera, neste tempo, o jovem tenha alguém para dizer-lhe isto. Pais que o
amem bastante para não retê-lo egoisticamente, mas dirigir-lhe o olhar para a
estrada nova e clara onde, um belo dia, a outra vai despontar.

Quem dera que ele tenha um amigo, um irmão que o ajude a sair de si próprio
e dar-se aos outros; sem isto ele se tornará escravo de si mesmo, incapaz de
amar.

“Quisera amar, Senhor,

Preciso amar.

Todo meu ser é um imenso desejo:

Meu coração, meu corpo dentro da noite

Se tesam como quem busca um desconhecido para amar.

Meus braços batem no ar e não consigo apanhar um objeto para o meu amor.

Estou sozinho e queria ser dois.

Vivo, e ninguém para acolher-me a vida.

Por que ser rico assim e não ter ninguém a enriquecer?

Donde vem este amor?

E para onde vai?

Quisera amar, Senhor,

Preciso amar. Aqui está, Senhor, esta noite, todo o meu amor inativo.”

“Escuta, filho (a),

Para um pouco, e faze, silenciosamente uma longa romaria até o fundo de teu
próprio coração.

Caminha ao longo de teu amor novinho, como quem remontasse a corrente de


um regato para achar a nascente. E bem no fim, já no fundo, no infinito mistério
de tua alma conturbada Me encontrarás, a mim, pois meu nome é Amor, minha
criança, e desde sempre outra coisa não fui senão amor, e o Amor está em ti.

Fui eu quem te fez para amar, para amar eternamente,

E teu amor passará para uma outra tu mesmo:

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É aquela que procuras,

Fica tranquilo, ela está em teu caminho,

A caminho desde sempre, na Estrada de meu Amor.

Há que esperar que ela passe,

Ela se aproxima,

Tu te aproximas,

Vos reconhecereis,

Pois para ti fiz seu corpo, e fiz o teu para ela,

Para ela fiz teu coração, e para ti o seu

Procurai-vos os dois, dentro da noite,

Em minha noite que se fará em Luz se me mostrais confiança.

Guarda-te para ela meu filho (minha filha),

Como ela se guarda para ti.

Eu vos guardarei um para o outro

E já que tens fome de amor, botei no teu caminho todos os teus irmãos para
amar.

Crê, é um aprendizado longo o do teu amor,

E não há muitas espécies de amor:

Amar é sempre um deixar-se para ir aos outros...”

Senhor, ajuda-me a esquecer-me por meus irmãos os homens,

Para que um dia, dando-me, eu aprenda a amar.

73
O CORPO: ENCONTRO DO SAGRADO E DO PROFANO
Transcrito de uma palestra proferida por Jean Yves Leloup

“Não existe senão um só templo no Universo,

E é o corpo do homem (...) Curvar-se

Diante do homem é um ato de reverência diante desta revelação da Carne.


Tocamos o céu quando colocamos nossas mãos em um corpo humano”

Novalis

O corpo é aquilo que a vida nos dá a conhecer sobre si mesma, permanecendo


ao mesmo tempo escondida.

Não é somente a nossa aparência, mas a aparição do Ser. A aparição do


Vivente na forma e no espaço. Tomar consciência desta vida que se dá a
conhecer através do corpo que somos – talvez esta seja a experiência do
sagrado.

Que relação temos com o nosso próprio corpo? Para alguns o corpo é tudo.
Para outros é nada.

Será que nosso corpo é um caminho de vida espiritual? Uma ocasião de tomar
consciência do espírito que nos habita? Ou seria ao contrário, um obstáculo?

Alguns se sentem encerrados nos limites, nas patologias. Será que nosso
corpo é nosso amigo ou nosso inimigo? Estas são questões importantes de
nos colocarmos, pois de acordo com a relação que temos com o nosso próprio
corpo também será a relação que teremos com o corpo do outro. Nossa
maneira de acompanhá-lo, de cuidar dele até o fim da vida corpórea.

Nossa relação com o corpo é condicionada por uma série de pressupostos


antropológicos, isto é, pela imagem de ser humano que se tem, e estes
pressupostos nos são transmitidos pela nossa educação, seja ela familiar,
religiosa ou escolar

Há, por exemplo, a visão materialista. Neste pressuposto, não há nada além
da matéria. Não há nada além do corpo. E com o fim do corpo é o fim de tudo.
Para este modo de pensar, o que chamamos de alma e de inconsciente são
apenas processos mais complexos dos nossos próprios neurônios. E quando
queremos cuidar de alguém é a partir de sua química que se trata de intervir
ou agir para o bem dele. É bom vermos as consequências desses pressupostos
ou paradigmas. Se houver somente o corpo e a matéria, então se trata de fazer
isto durar pelo tempo mais longo possível e depois não há mais nada.

Para outros o ser humano é não somente matéria, mas esta matéria é
animada. Não há um corpo sem alma. Um corpo sem alma não é mais um
corpo, é um cadáver. Certa vez, estava um filósofo passando diante de um

74
cemitério, e, vendo o túmulo de alguém que fora há pouco enterrado,
perguntou-se: “Mas onde está a alma?” E eu respondo, a alma é o que
diferencia este monte de pó de você que está de pé. A alma é o que dá forma a
uma matéria, ao corpo. E sem esta animação, sem esta informação, o corpo se
dissolve. Assim, nesta visão, cuidar do corpo é cuidar da alma que o anima.
Nestes pressupostos antropológicos, alguns dirão que o importante no ser
humano é a alma e isso pode ter consequências num enfoque que vamos
chamar de dualismo: pode-se correr o risco de haver um certo desprezo pela
dimensão material do corpo. Mas os dois são indissociáveis e, entretanto,
alguns dirão que a alma pode subsistir mesmo quando já não anima mais o
corpo.

Recordo-me de um exemplo dado pela Dra Elisabeth Kubler-Ross de uma


pessoa que era cega de nascença e que foi então submetida a uma cirurgia
para correção do problema. No entanto ela entrou em estado de morte clínica.
Quando após as manobras de ressuscitação cardiopulmonar conseguiu voltar
a si, ela pôde descrever tudo o que aconteceu na sala de operação, incluindo a
cor das meias do cirurgião e a presença de teias de aranha que ninguém havia
notado. Só que esta pessoa, quando foi reanimada, continuava cega! É como
se a informação que anima o corpo tivesse uma vida independente com relação
a ele.

Então, para alguns o corpo é matéria, mas esta matéria é informada. E desse
modo, cuidar do próprio corpo e do corpo do outro é tomar em conta esta
informação, esta alma, em si mesmo e no outro.

E há aqueles para quem o homem é não somente um corpo, uma alma ou


uma psique, mas também um espírito. Na concepção de Plotino encontramos
os seguintes nomes:

Soma – Corpo

Psique – Alma

Noos – Espírito

E os três são considerados inseparáveis. Qual é esta experiência do noos? É a


experiência que temos no corpo; o que sabemos do absoluto é dentro de um
corpo relativo que o sabemos. O que sabemos de Deus ou sobre o espírito, é
no corpo que podemos experimentá-lo. E aí não se trata de experimentar o
corpo apenas como animado, informado, habitado por um psiquismo, mas o
nosso corpo também é habitado por um silêncio, por uma luz. E a experiência
do noos, da qual fala o evangelho de Miriam de Magdala, é a que podemos ter
quando nosso psiquismo está apaziguado, quando nossa mente está
silenciosa. Há aí uma qualidade de presença que se pode revelar ao nosso
corpo. E cuidar de alguém doente passa a ser, não somente dar-lhe os
medicamentos que seu corpo físico e seu psiquismo necessitam, cuidar da
atenção que seu corpo psíquico precisa, mas se trata de cuidar também desse
silêncio e dessa luz que habita o corpo. E isso não é só da ordem e da

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competência médica, ou da competência psicológica, mas isso depende da
nossa qualidade de ser e de escuta. E quando estamos nessa qualidade de ser
e de escuta pode haver uma transfusão de serenidade do meu ser ao seu ser,
do meu silêncio ao teu silêncio. E por vezes, é a partir desse silêncio, dessa
profundidade do Ser que a paz e a cura podem vir.

Nessa antropologia, nosso corpo não é somente físico e psíquico, mas ele
também tem uma dimensão noética (espiritual) e essa dimensão é a abertura
do corpo para a transcendência, a possibilidade que o corpo humano tem de
se abrir àquilo que vai além dele. A abertura do nosso ser finito ao infinito. E
por vezes, esta dimensão do composto humano é esquecida ou é fechada. A
observação, a atenção, a prática da meditação podem nos levar a essa
dimensão do ser. E é uma pena que nos privemos disso. Quando falamos de
castração, não se trata apenas de repressão de sua dimensão carnal, sensual,
ou de sua criatividade. O homem contemporâneo é por vezes castrado da sua
dimensão espiritual. E isso pode ser para ele uma fonte de mal-estar e de
doenças. Ele se priva da dimensão sagrada que habita seu corpo E esta é a
dimensão mais secreta, a mais discreta e silenciosa do corpo. É o corpo do
silêncio.

Há ainda uma quarta antropologia em que o homem não é somente um corpo,


uma alma, um espírito, mas esse composto humano é habitado pelo Santo
Espírito, pelo pneuma, o Sopro. E é este Sopro que dá a vida ao corpo: ao
corpo material, ao corpo psíquico, e espiritual, porque este corpo permanece
mortal. A presença do Pneuma é a presença daquilo que não é mortal no
corpo. E nessa antropologia não se trata de desprezar o corpo, nem o
psiquismo. Trata-se de introduzir o espírito em todas as dimensões do Ser
Humano. Nessa visão o corpo não é simplesmente a aparência, não é o túmulo
da alma, é o Templo do Espírito. E um templo precisa de um pouco mais de
respeito e de cuidado que um túmulo.

Nessa antropologia, podemos dizer que em cada um de nós o verbo se faz


carne – a informação toma corpo, a vida toma forma em cada uma de nossas
dimensões. E tomar consciência desta vida que se encarna, que toma forma
em cada um de nós, esta é uma experiência sagrada. E o que chamamos de
profano é o esquecimento do Ser que se encarna neste corpo. É o
esquecimento da vida que se manifesta na forma frágil deste corpo. E aí o
corpo não é mais uma presença, ele passa a ser um objeto, algo mecânico. O
corpo não é mais uma aparição do Ser, mas a soma de certo número de
aparências que se quer salvaguardar a qualquer preço. Por vezes somos como
casas que não são habitadas: há uma bela aparência exterior, mas não há
nada dentro. E por vezes buscamos a qualquer custo renovar a fachada, mas o
sujeito está ausente. E nosso corpo então deixa de ser o local daquilo que
Gurdjef chamou de Transparência – a transparência do nosso ser físico à
transcendência que o habita.

Há pessoas que têm uma saúde boa, mas não têm transparência. Outras,
segundo os cânones da moda e da beleza, têm aparência muito bela, mas não

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há transparência. Enquanto que por vezes, próximo a uma pessoa doente ou
no final da vida, há uma transparência, há essa transparência à grande vida
que atravessa esse corpo. E talvez se trate de reencontrar esse enfoque do
vivente, do Vivente que se encarna. Não se trata de se identificar com o seu
corpo, mas com a vida que se manifesta através dele. Não se trata de se fechar
em um corpo mortal, mas descobrir este corpo mortal como ocasião de
manifestação da grande vida que nos atravessa.

Não mais dizer eu tenho um corpo, mas Eu sou a vida que habita neste corpo.
Esta vida que continua quando o corpo não está mais aí para manifestá-la –
pois esta é uma experiência que nós todos faremos algum dia. Nosso corpo
não estará mais aí para manifestar a vida, mas a vida continua.

Quem somos nós? Será que somos a vida? O vivente que nos habita? O Eu
Sou que se manifesta neste corpo?Ou somente este corpo que deve
desaparecer? O Verbo se faz carne. A vida se encarna em cada um de nós. E o
tempo que temos para viver, é o tempo do qual precisamos para tomarmos
consciência do vivente que nos habita. A consciência toma corpo para que o
corpo tome consciência. A vida se faz carne para que a carne se faça vida. O
verbo, a palavra criadora se faz carne, para que a carne se torne verbo, para
que o nosso corpo descubra a informação que o anima.

Trata-se, pois, de não esquecer a presença que habita silenciosa este corpo. E
há algo de muito especial que acontece quando posso encontrar este corpo de
silêncio no outro. Não o silêncio ruim, o silêncio das coisas não ditas, mas o
silêncio que vem após a fala, após a emoção em simples comunhão. E nesse
momento pode acontecer uma revelação.

Vocês se lembram do nome divino em hebraico?

O inominável, o impronunciável, simbolizado pelas quatro consoantes

Yod Eh Vav Eh : Eu Sou o Eu Sou

O grande Sopro que nos habita! E ainda que nós não creiamos em Deus, isso
não nos impede de respirar... E o Sopro não é propriedade de nenhuma
religião; mas se nós entramos na profundidade desse sopro, nele há a
presença deste Eu Sou que nos habita. Esse nome impronunciável que habita
a profundeza do sopro, esse nome se nos o tomarmos em comparação com o
corpo, veremos que ele tem a sua figura, a própria forma do corpo humano.

77
O corpo do ser humano é o templo do nome. ‘É o templo do Sopro.

78
SOBRE O TEMPLO DE SALOMÃO E SUA SIMBOLOGIA

Nós devemos considerar o templo de Salomão como o maior dos símbolos.


Agora, o ponto é compreender este símbolo.

Vocês sabem o curso dos acontecimentos tal como narrado na Bíblia, como
tudo começou. Neste caso não estamos lidando apenas com meros símbolos,
mas de fato com realidades objetivas em que, no entanto, um profundo
simbolismo histórico-mundial encontra sua expressão naquele tempo. E
aqueles que construíram o templo estavam conscientes daquilo que o templo
queria expressar, representar.

Consideremos porque o templo foi construído. E vocês verão que cada palavra
no relato bíblico tem um profundo significado simbólico. Basta considerar em
que período o templo foi erguido. Recordemos particularmente a explicação
bíblica para o que o templo devia ser. Jahveh disse a Davi: “Uma casa para o
meu nome”—isto é, uma casa para o nome Jahveh. E agora vejamos o que o
nome Jahveh significa.

Uma criança aprende num certo momento da vida a usar a palavra “Eu”.
Antes disso ela se considera como um objeto, na terceira pessoa. Assim como
dá nomes às coisas, também chama a si mesma por um nome objetivo – “nenê
quer, Bruninho quer”. Mais tarde vem a dizer Eu pela primeira vez.

Um poeta, Jean Paul descreveu este momento de sua vida assim: “Eu então
vislumbrei o mais íntimo recesso da alma, o sacrário do ser.”

A humanidade desenvolveu-se através de muitas épocas e houve tempo em


que todos os seres humanos consideravam-se dessa mesma forma que a
criança antes dos três anos. Só durante a época Atlante é que o homem
evoluiu ao estágio no qual podia dizer Eu a si mesmo.

E os antigos hebreus incluíram isto em sua doutrina. O homem passou por


diferentes estágios de consciência, e a aquisição da consciência do Eu é o
coroamento deste processo. Havia a doutrina de Pitágoras que considerava o
quadrado como símbolo do homem.

E o judaísmo adicionou a isto o Ego divino que desce de cima em contraste


com o eu inferior ou personalidade.

79
Assim um pentágono surgiu do quadrado.

Era assim que o judaísmo experimentava o Senhor Deus de seu povo, e era,
portanto uma coisa sagrada pronunciar o nome. Somente o Sumo Sacerdote
tinha permissão para falar o nome de Deus. E foi no tempo de Salomão que
chegou à santidade do nome Jahveh, a esse Eu que habita no homem.

Nós devemos tomar o desafio de Jahveh ao homem como aquilo que buscava
fazer dele um templo para o divino, o mais sagrado.

Agora, adquirimos uma nova concepção do Divino, ou seja: O Deus que se


esconde no peito do homem, no mais profundo do seu Ser deve encontrar no
corpo do homem um santuário interno. Assim, o templo tinha de ser o símbolo
que ilustrasse o próprio corpo do homem.

Mais tarde na idade média a idéia do templo de Salomão foi revivida pelos
cavaleiros templários. Desde então, não se ouviu mais falar de tais coisas.

Hoje , talvez, caiba a cada um de nós a grandiosa tarefa da reconstrução do


templo perdido. E ela começa no reconhecimento reverente do significado de
nosso corpo.

Traduzido e adaptado de “A Lenda do Templo”, de Rudolf Steiner.

80
*ESTAÇÃO DESEMBARQUE – Referências Existenciais para o Jovem
Contemporâneo – José Ernesto Bologna

*O Amor e a Ilusão do Amor – John F. Gardner

Sobre a experiência sexual:

Seria bom que ela surgisse de uma decisão consciente e livre dos dois
parceiros;

Que se desse num contexto amoroso de reciprocidade e respeito;

Que fosse um ato sustentado por uma maturidade revelada na capacidade de


se responsabilizar pelas consequências emocionais, familiares e sociais de sua
decisão comum (incluindo a responsabilidade por um ente não- nascido);

Que houvesse uma clareza prévia quanto ao tipo de compromisso entre os dois
que essa decisão implica (apenas um breve encontro, pacto de namoro,
promessa de prosseguimento, etc);

Que fosse seguro do ponto de vista da saúde sexual.

“O apetite sexual é o dragão que enfrenta os que saem em busca do tesouro da


plena realização humana. Este dragão intervém entre o menino e seu estado
de homem, entre a menina e seu estado de mulher. O dragão da sexualidade
pode se apresentar disfarçado, embelezado, sob uma máscara romântica, e
aparentemente domado. Mas nunca deixa de ser um dragão, inimigo de todo
desenvolvimento humano superior. O que tem de ser abatido não é
naturalmente o sexo em si, não é o masculino nem o feminino, nem o poder de
procriação, nem o sexo como expressão pura do amor – mas sim o erotismo
precoce e desenfreado, o desejo imoral, a satisfação impessoal, a paixão
egoísta. O fênix que nasce após o dragão ter sido vencido é uma força
transcendental, diferente de qualquer outra; uma força que alivia pesos,
ilumina as trevas, aquece a solidão e a velhice, transforma a fealdade em
beleza. Sob qualquer disfarce, o dragão é devorador de homens; mas uma vez
dominado, sacrificado, ele é a força que traz saúde, paz alegria para a vida
humana e para todos os reinos da existência pelos quais o homem é
responsável.”

“O principal problema para os jovens da época atual é que eles carecem de


conceito sobre o que é possível no caminho do desenvolvimento humano. Eles
imaginam que a meta da vida é o uso de suas forças herdadas ou adquiridas
para realizar desde logo alguma coisa no mundo exterior, ao invés de primeiro
se encontrarem a si mesmos. Jamais ocorre ao indivíduo a ideia de que sua
maior e primeira tarefa é de conceber-se a si mesmo, a pessoa que ele será, e
de promover o nascimento de si sob a forma de ser humano autodirigido e

81
criativo. Dificilmente ele imagina – tanto tempo após ter iniciado sua
existência no corpo concebido e parido – que seus esforços contínuos devem
tender a evocar livremente e construir pacientemente, todo um ser, o seu ser,
que simplesmente não existirá, caso ele proceda apenas de acordo com a
maturação natural de suas forças congênitas no meio em que vive.

O homem não recebe como dádiva a sua qualidade humana. Tem que lutar
por ela. Sua luta é para superar a própria natureza: tem que impor sua
vontade sobre sua natureza, tem que apoderar-se dela, e reestruturá-la de
acordo com sua própria ideia. Quando sente preguiça, se disciplina a
trabalhar. Quando sente inclinação a fugir, decide defender sua posição.
Quando sente rancor, procura perdoar. E quando seu corpo é tomado de
desejo egoísta, ele transforma esse desejo em interesse objetivo, em afeto pelo
outro, e em atividade criadora.

Pudera o menino manter firme diante de si imagens do que significa ser


homem: o rochedo da coragem decisiva, o fogo do empreendimento, a água
doce dos serviços de cura, proteção e auxílio; o ar perfeitamente transparente
da compreensão objetiva! Pudera a menina imaginar vivamente o que significa
ser mulher: o Eterno Feminino que eternamente atraía a humanidade em
direção ao amor e ao belo, em direção à iluminação do coração, à perfeição da
alma e à realização.

Todos nós somos atraídos pelo sexo, sem dúvida. Mas existe algo mais
profundo. O que almejamos em realidade não é o sexo, mas a felicidade. O
sexo em nós procura poderosamente realizar-se. Mas nós mesmos procuramos
a alegria e o prazer. O sexo não é nossa alegria, embora possa, em
determinadas circunstâncias, contribuir muito para ela. O sexo contribui para
nossa felicidade quando ele é totalmente absorvido e integrado em algo de
mais elevado. E, neste caso, o sexo torna-se invisível. É eclipsado e apagado
na experiência de alegria do coração. Quando o coração desperta no amor; o
corpo é erguido castamente em um sagrado mistério; pois o verdadeiro amor
sexual é casto e puro. O fato de serem poucos os que alcançam uma relação
de amor romântico ideal, não impede que este ideal seja desejável, evidente e
eficiente como meta para todos os que almejarem desenvolver suas faculdades
superiores.

82
APÊNDICE I –

Sobre a Homossexualidade

Nas palavras da Dra Michaela Gloeckler, “quem equipara a homossexualidade


a desvio, perversão, morbidez, anormalidade, pode ter a certeza de estar sendo
vítima de um preconceito que despreza o ser humano, preconceito para o qual,
em realidade, não existem provas; pois não é possível constatar
estatisticamente que entre pessoas heterossexuais haja menos exploração
sexual, menos criminalidade, menos perversões na relação entre os sexos e
menos tendências patológicas do que em homens e mulheres homossexuais,
nem confirmar esse julgamento negativo pela experiência cotidiana de vida –
que pode alcançar até mesmo o encontro com artistas dotados como o ator e
diretor Gustav Grundgens, o poeta Oscar Wilde ou o compositor Reter
Tschaikowsky e outras figuras significativas da vida cultural e espiritual.

Naturalmente corresponde à realidade da natureza o fato de os organismos


masculino e feminino se complementarem totalmente no ato sexual, e que o
amor entre pessoas de mesmo sexo, visto desse ângulo, é infértil, e por isso
antinatural –se partirmos da premissa de que a atividade sexual serve
exclusivamente à procriação. No ser humano, no entanto, não é este o caso, o
que já se evidencia no fato de a atração sexual não estar vinculada ao cio,
determinado pela natureza, como na maioria dos animais, mas ser
independente dos dias em que a mulher pode conceber. A carícia e o amor
vinculados ao corpo, com intensidade e caráter variados, são muito mais
os elementos que dão suporte ao estabelecimento das relações humanas.
O que é vivenciado aqui de modo físico, anímico e espiritual tem um
caráter muito individual e subtrai-se à norma.

(...) Sendo assim, recomendamos que também nesse campo o procedimento na


educação sexual seja objetivo. Isto se aplica em especial á escola, onde os
professores podem gerar, nos dois ou três alunos e alunas afetados de sua
classe, um sentimento de aceitação e compreensão por parte alheia fazendo
pequenas ressalvas, por exemplo, ao descrever um poeta ou uma
personalidade histórica sem ocultar que ele/ela tenha sido homossexual. A
maneira como se aborda isso, mesmo que sucintamente, pode representar um
elemento positivo, decisivo para a vida inteira dos alunos em questão. Por uma
ressalva deste tipo, de alguma maneira eles podem sentir-se justificados em
sua condição de diferentes”.

De um ponto de vista espiritual, sabemos que a escolha do instrumento


corpóreo físico, seja ele masculino ou feminino, é uma questão cármica. O
critério para tal escolha é o de buscar a condição que mais se aproxime ou
favoreça a realização plena de nossa missão, nosso caminho terreno.

83
Também ocorre que todo homem carrega dentro de si uma mulher e toda
mulher traz em si um homem. Este fato corresponde na psicologia ao conceito
do animus e da anima de Jung, e na Antroposofia isto se relaciona com o fato
de que num corpo físico do sexo masculino vive e tece um corpo vital (corpo
etérico ou corpo das forças plasmadoras) de polaridade oposta, portanto
feminino – e vice-versa. Assim, a questão da heterossexualidade ou
homossexualidade pode ás vezes ser determinada ou condicionada por um
desvio do processo encarnatório em que a individualidade não penetre tanto
quanto seria de se esperar em seu corpo físico, vivendo mais em seu corpo
vital, que traz uma identificação contrária à do sexo aparente.

Hoje em dia, por questões culturais ou por força de circunstâncias do próprio


momento evolutivo da humanidade, a individualidade já não se encarna tão
profundamente. Mas há situações que podem acentuar esta dinâmica:
condições adversas no primeiro setênio que impeçam uma alma sensível de
ser cativada para dentro do corpo e da Terra, quando ela sente à sua volta um
ambiente hostil, animicamente frio e não acolhedor. A falta de uma orientação
correta em relação à própria sexualidade em desenvolvimento, a falta de
modelos de autoridade amorosa no segundo setênio e de pessoas moralmente
congruentes e autênticas no terceiro, com quem se possa tratar livremente de
suas questões existenciais e fazer as suas confidências, e assim por diante.
Quando se alcança o terceiro setênio já com estes antecedentes, então as
mudanças experimentadas no âmbito corpóreo e anímico tornam-se ainda
mais difíceis de serem aceitas, e outros desvios ainda podem acontecer, como
a anorexia nervosa – que expressa através da não ingestão de alimento um
desejo inconsciente de recuar, de não ter corpo para estar na Terra.

Ora, se a individualidade não se encarna o suficiente em seu corpo, não tendo,


portanto seu corpo físico totalmente penetrado pelo eu, vive mais no âmbito de
suas forças vitais. O corpo vital, sendo o mantenedor da vida e da forma física
e a base para o desenvolvimento da alma, está a meio caminho entre o
corpóreo e o anímico. Se a força que nele opera como anima/animus estiver
especialmente desenvolvida, poderá sobrepujar a identidade sexual ligada ao
corpo físico, e com isso, fazer surgir a homossexualidade em maior ou menor
grau. Podemos ter um corpo etérico mais débil ou mais forte em função das
características herdadas e do carma. Assim, a interação entre o corpo físico e
o etérico pode ser uma condição inata ou formada ao longo dos primeiros três
setênios gerando uma situação com a qual se terá de confrontar o ser humano
em sua determinação cármica. Nesse contexto, há que se mencionar a
importância que tem a relação com as figuras paterna e materna. A
identificação da menina com a mãe e do menino com o pai e toda sorte de
perturbação que possa aí se imiscuir.

Outra aspecto, que a meu ver, tem um papel de destaque em nossos dias,
relaciona-se com o fato de que na adolescência, ao despertarem sexualmente,
muitos jovens passam inicialmente, por uma fase de descoberta do próprio
corpo e do igual para depois se voltar para o sexo oposto. Isto se revela
muitas vezes por um lado, na masturbação, e por outro, na necessidade de

84
troca afetiva, como amizade, com alguém do mesmo sexo e, não raro, uma
figura mais velha que é alvo da admiração do jovem. Quando preexiste uma
forte carência dessa troca no lar, se esse amor (afeto) se desloca para uma
vivência no âmbito corpóreo momentânea, pode surgir um estado de confusão
sobre a própria identidade sexual. Alguns jovens ficam fixados nisto, não
transcendem esta que seria uma fase normal de seu desenvolvimento
psicossexual e podem assumir-se como homossexuais ou bissexuais.

Também são conhecidas histórias em que casais que mergulham em conflitos


e crises às vezes experimentam buscas homossexuais e se mantêm em
relacionamentos com o mesmo sexo até uma idade avançada. Isto muitas
vezes tem a ver com o processo de desenvolvimento e integração insuficientes
do animus e da anima, respectivamente na mulher e no homem.

O mais importante, contudo, é que a expressão da vida afetiva e sexual seja


genuína, respeitando o que em essência, cada individualidade traz em si. O
problema do preconceito para aquele que é julgado diferente num mundo de
semelhantes, é que este ser, não se sentindo acolhido e reconhecido em sua
individualidade, vai aprendendo a ter relações superficiais como estratégia de
defesa e sobrevivência emocional, temendo estabelecer contatos mais francos e
abertos, potencialmente ameaçadores, mas necessários para a conquista de
um vínculo verdadeiro. Consequentemente, esta forma de relacionamento
socialmente não aceita será levada para fora do lar, será vivida às escondidas
ou somente entre outros homossexuais. Daí, sua luta de vida passa a ser
assumir-se como homossexual, para si mesmo e para o mundo- Sair do
Armário, como se diz -- e a verdadeira luta, que independe do seu sexo, pela
realização da individualidade pode passar desapercebida.

Frente a uma relação homossexual dificilmente se pode afirmar se sua origem


é cármica ou adquirida, aprendida. Isto, entretanto não é relevante: o que
importa é que todas as situações vivenciadas pelo ser humano são desafios de
aprendizado e oportunidades para o autodesenvolvimento e integração plena
da personalidade. Assim, qualquer que seja a situação, trata-se de um destino
difícil, mas capaz de forjar novos e belos sentimentos no cadinho do coração,
para quem é capaz de ver sempre o humano universal em cada pessoa.

85
APÊNDICE II

Sobre Pedofilia

O QUE É A PEDOFILIA

“O Silêncio é a alma das Agressões Sexuais”


Anna Salter

Não se pode falar em pedofilia sem se fazer uma breve referência aos desvios
da sexualidade, ou seja, às parafilias, perturbações da sexualidade que podem
ser constantes ou episódicas, que se manifestam através de fantasias ou de
comportamentos recorrentes e que são sentidas pelo próprio como
sexualmente excitantes.

As parafilias específicas mais conhecidas são o exibicionismo (exposição dos


genitais); o fetichismo (uso de objetos inanimados); o frotteurismo (tocar ou
roçar-se numa pessoa que não consente); a pedofilia (foco em crianças pré-
pubertárias); masoquismo sexual (ser objeto de humilhação ou sofrimento); o
sadismo sexual (infligir dor); o fetichismo travestido (travestir-se); e o
voyeurismo (observar atividade sexual).

Temos de estar alerta para o fato de que os indivíduos com desvios da


sexualidade estão muito atentos ao mundo que os rodeia e, sempre que
possível, procuram trabalho em locais ou junto de pessoas que, sem o
saberem, lhes proporcionam gratificação sexual.

As perturbações da sexualidade são normalmente crônicas, embora se saiba


que podem diminuir com a idade avançada. Supõe-se que algumas fantasias
associadas às parafilias, podem iniciar-se na infância ou no princípio da
adolescência, mas têm uma expressão mais acentuada durante a adolescência
e na vida adulta.

O tratamento das parafilias tem apresentado limitações e muitas resistências.


É de salientar que a tão falada “castração química” não é um tratamento
propriamente dito, mas sim uma contenção social.

86
Como já ficou dito, a pedofilia é uma parafilia específica, mas não se sabe ao
certo o porquê desta perturbada orientação sexual, conforme não se sabe
porque é que há quem prefira pessoas mais velhas.

Sabe-se, sim, que nem todas as crianças que foram vítimas de abuso sexual se
tornam adultos abusadores, mas que muitos adultos abusadores foram
vítimas de abuso sexual durante a infância.

O termo pedofilia, que há muitos anos é descrito nos manuais de


psicopatologia e que só agora entra no vocabulário de todos nós, é, por
definição, o ato ou a fantasia de ter contatos sexuais com crianças em idade
ainda, que com crianças não contraem tão facilmente doenças. Os pedófilos,
pré-pubertária (13 anos ou menos) e que o pedófilo tem de ter mais de 16 anos
e ser cinco anos mais velho que a vítima. Quem recorre a material
pornográfico com crianças deve também ser inserido neste conceito.

Os pedófilos repetem com frequência os seus comportamentos, e tentam


justificar os seus atos dizendo que os mesmos têm valor educativo para a
criança; que a criança tem prazer sexual, e que são elas quem os provoca ou,
por regra, não sentem remorsos ou mal-estar pela prática dos seus atos.

Os pedófilos podem ser homossexuais, heterossexuais ou bissexuais; casados


ou solteiros; homens ou mulheres, e pertencer a todas as profissões e classes
sociais.

Os indivíduos que só mantêm práticas sexuais com crianças em idade pré-


pubertária são chamados pedófilos exclusivos. Os que, para além dos seus
contatos sexuais ditos normais, recorrem ainda a práticas sexuais com
crianças em idade pré-pubertária, são denominados pedófilos não exclusivos.

Os pedófilos que sentem uma predileção por crianças do sexo feminino


preferem habitualmente meninas com idades compreendidas entre os 8 e os
10 anos, enquanto os que têm preferências por meninos procuram crianças
ligeiramente mais velhas.

É comum ouvir-se alguns pedófilos justificarem as suas práticas fazendo


referência ao momento em que, eles próprios, foram vítimas. Dizem que, nessa
altura, o adulto representava o medo, a angústia, o terror e que nunca mais se
conseguiriam libertar dessa imagem ameaçadora. Por isso hoje, nos seus
contatos sexuais, preferem as crianças, para não se sentirem postos em
causa; é uma questão de poder. Estes indivíduos são por regra imputáveis
(responsáveis pelos seus atos) e sabem disso, por isso praticam os seus atos
às escondidas.

Tal como acontece em outros desvios de sexualidade, também a pedofilia tem


uma evolução crônica, com comportamentos que vão do despir as crianças, a
observá-las, ao toque, ao sexo oral, à masturbação, até à penetração.

O traumatismo causado à criança depende não só do tipo de ato a que foi


sujeita, mas também da idade que tinha no momento em que foi vítima, e do
apoio que na altura lhe foi prestado.

87
Lembro que, normalmente, o pedófilo procura uma vítima indefesa que, por
coação, é por ele silenciada, vítima essa que lhe está normalmente muito
próxima, embora possa também pertencer a um espaço exterior à família ou
ao seu meio natural (padres, professores, médicos).

Não existe uma definição única do conceito de abuso sexual infantil, no


entanto todas subscrevem que se trata de uma das piores formas de violência
sobre as crianças.

A maioria das definições de abuso sexual infantil fazem referência a uma


multiplicidade de atividades sexuais, incluindo situações em que não existem
contatos físicos, propriamente ditos. Deve considerar-se abuso sexual quando
se utilizam crianças e/ou adolescentes para a satisfação do desejo sexual de
pessoas mais velhas.

São ainda consideradas situações de abuso sexual todas as que vão do


telefonema obsceno, até a penetração.

Neste contexto devemos relembrar ainda a questão da Exploração Sexual de


Crianças, que está presente quando há uma das seguintes situações: assédio
sexual, intra ou extra familiar; prostituição infantil; pornografia infantil;
turismo sexual e tráfico de crianças.

Não nos podemos esquecer que um pedófilo é sempre um abusador sexual;


mas um abusador sexual pode não ser um pedófilo.

No meu entender, sempre que um adulto utiliza um menor para satisfazer os


seus desejos sexuais deve, preferencialmente, ser considerado abusador
sexual, e não pedófilo, porque o abusador sexual infantil vitima crianças de
qualquer idade, enquanto o pedófilo abusa de crianças em idade pré-
pubertária.

MANUEL COUTINHO
Psicólogo clínico

O PORQUÊ DO SILÊNCIO

São inúmeros os fatores que levam a criança a ocultar o abuso a que foi
sujeito, mas destacamos: medo de represálias por parte do agressor;
sentimentos de vergonha, culpa, vergonha, e insegurança ou proteção (irmão
mais novos); medo dos interrogatórios e da devassa da sua intimidade ou
família; exposição pública; estigma social.

Contudo, este silêncio permite que o abuso se perpetue, convertendo-se no


pior inimigo do menor e no maior aliado do agressor.

Leva a criança a experimentar um sentimento de culpabilidade que o impede


de confiar, de amar e de estabelecer uma relação saudável como futuro adulto.

Assim, é indispensável que os adultos tenham consciência dos sinais e


sintomas que podem indicar que o menor está a ser vítima de abuso sexual.

88
SINAIS E SINTOMAS

A presença de sinais e sintomas, se muito intensos e combinados, devem nos


alertar para a possibilidade de abuso sexual:

– Mudança súbita de comportamento na escola, incapacidade de


concentração, diminuição do rendimento escolar.

– Mudança na personalidade, insegurança e necessidade constante de ser


estimulada.

– Falta de confiança num familiar adulto, ou não querer ficar sozinha ou com
determinado adulto.

– Isolamento de amigos, familiares ou das atividades usais.

– Medo a algumas pessoas e lugares.

– Excesso de limpeza ou total despreocupação com a higiene.

– Incontinência para a urina ou fezes ou alterações dos hábitos intestinais.

– Pesadelos ou perturbações do sono.

– Interesse especial pelo sexo, inapropriado à idade da criança.

– Retorno à infância, inclusive a comportamentos típicos dos bebés.

– Depressão, ansiedade, afastamento, tristeza, indiferença.

– Automutilação

– Tentativa de suicídio.

– Fuga.

– Problemas de álcool e/ou drogas.

– Problemas de disciplina ou atos delinquentes.

– Atividade sexual precoce (simulações, vocabulário, masturbação, desenho).

– Problemas médicos como infecções urinárias, leucorreias, retorragias, dor


pélvica ou hemorragia vaginal inexplicáveis e recorrentes.

– Dores, inchaços, fissuras ou irritações na boca, vagina e ânus.

. Assim devemos acautelar as seguintes condições:

– Criar um clima de confiança e abertura para com as crianças e seus


problemas.

89
– Mostrar que acreditamos. Devemos dizer e mostrar à criança que
acreditamos no que está a contar, mesmo que nos pareça estar a fantasiar ou
a ocultar informação, sobretudo porque, em muitos casos, a criança procura
proteger o seu agressor.

– Apelar à livre narrativa da criança. Procurar observar sinais e sintomas;


fazer perguntas abertas, se a narrativa da criança não forneceu suficiente
informação (“podes contar-me mais sobre o que aconteceu?”); aceitar a
ignorância e o esquecimento da criança sobre o sucedido, é normal acontecer;
apelar à importância da verdade; assegurar apoio e discrição.

– Providenciar avaliação médica (centro de saúde/hospital).

UMA PALAVRA DE ATENÇÃO AOS CASOS INTRA-FAMILIARES

Freqüentemente, na relação entre abusado e abusador, além de ser poderosa,


a figura provedora de cuidados da criança pode estar mais presente e ser mais
carinhosa e amorosa do que qualquer outra pessoa na vida da criança. A
criança pode assim convencer-se de que se contar o segredo, o seu
relacionamento com o abusador e a única pessoa que ama pode ser ameaçado.

Muitas vezes, a criança não consegue tolerar a “maldade” no membro parental


e defende -se psiquicamente procurando assimilar a “maldade” e incorpora-a
como arte de si mesma. Isto permite à criança ver o familiar abusador como
“bom”, e a revelação do segredo pode ferir uma parte de si própria.

ALEXANDRA SIMÕES
Psicóloga clínica e de aconselhamento

90
APÊNDICE III

TV e a erotização precoce
Sonia Thorstensen – psicóloga clínica

Para começar, vamos definir o enfoque pelo qual abordaremos este tema: não
será aquele que implique qualquer desejo de volta da censura aos meios de
comunicação; nem um enfoque moralista ou religioso que diga o que é certo
ou errado; mas também não será um, muito em moda atualmente, no qual
sexo virou tabu ao contrário, isto é, qualquer questionamento da atual postura
do “é proibido proibir” é ridicularizado como retrógado, repressor,
ultrapassado. Nós vamos falar sob a ótica da psicologia e da psicanálise.
Primeiro vamos lembrar alguns dados sobre nossa realidade. Depois veremos
o que a psicologia e a psicanálise têm para nos ensinar sobre a estruturação
da sexualidade na criança e como nossa televisão se comporta face a esse
processo. Em seguida, discutiremos que posição e tipo de ação nós,
educadores, psicólogos, pais podemos ter face a esse estado de coisas. Alguns
dados e reflexões: números do Ministério da Saúde mostram que a maior
causa de internação de meninas de 10 a 14 anos nos hospitais do SUS são os
partos ou as consequências de abortos mal feitos. Em 98, no Brasil, foram
feitos cerca de 32000 atendimentos desse tipo. números do Serviço de
Atendimento ao Adolescente da PMSP mostram que 50% das adolescentes
engravidam nos primeiros 6 meses de atividade sexual; 20% no primeiro mês.
pesquisa recente em São Paulo revela que mais de 90% dos adolescentes
conheciam os recursos contraceptivos, no entanto, apenas 29, 6% usaram
esses recursos na primeira relação. não temos estatísticas sobre isso, mas
sabe-se que o Brasil é considerado uma das mecas do turismo sexual e da
prostituição infantil ? sobre as DST e a AIDS. Sabemos que 75% das
contaminações pelo vírus HIV se dão por meio das relações sexuais e que as
DST aumentam a vulnerabilidade ao vírus. E que o Brasil também é um dos
“campeões” nessa área há ainda um outro fator que precisa ser considerado
junto com esses dados: é o fato de que vivemos um momento histórico de
intensas mudanças culturais: a mudança da posição da mulher na família; a
diluição da função paterna e a instauração da “democracia familiar”; o
aumento da responsabilidade do Estado e da Escola face às crianças e a
consequente diminuição da responsabilidade dos pais, etc. Isso sem falarmos
nas mudanças tecnológicas e econômicas (globalização, por exemplo ). O fato é
que estamos todos um pouco perdidos, tateando pela vida na busca de novas
formas de ser. Esse vazio de referências dá espaço a um “vale tudo” no esforço
de preenchê-lo. Se por um lado vivemos uma fase fascinante em termos de
estímulo à criatividade, por outro temos que nos apoiar intensamente em
nossa capacidade de discernimento, para não deixarmos que o caos se instale
em nós. e, finalmente é importante remarcar que a televisão é um veículo
educativo e de promoção humana inigualável e que a televisão brasileira está
entre as melhores do mundo em qualidade técnica. E que, em parte, devemos

91
à ela a unificação de nossa identidade de brasileiros, num país tão vasto e
diversificado.
Aqui estaremos falando da falta de responsabilidade social das emissoras
comerciais no que se refere a dois aspectos, que de fato são interligados: 1º) a
competição selvagem por índices de audiência e retorno financeiro, sem que o
governo faça cumprir leis existentes em vários níveis, até mesmo na
Constituição. 2º) a falta de compromisso com o bem estar psicológico de
nossas crianças e adolescentes (o que significa toda a programação diurna e
até às 22 horas, horário em que, na nossa cultura, os mais jovens estão
expostos, desacompanhados, à influência da televisão.) Falaremos aqui sobre
alguns aspectos da problemática da sexualização precoce, mas é bom lembrar
que a questão do estímulo à violência é igualmente grave. Como a Psicologia e
a Psicanálise podem nos ajudar? Como elas vêem o processo de estruturação
da sexualidade da criança? A sexualidade surge na adolescência devido à ação
dos hormônios? Ela é um instinto inalterável, como nos animais? Sabemos
que o impulso sexual humano caracteriza-se por ser moldado culturalmente, o
que explica as várias formas que ele apresenta. Como isso se dá? São os
cuidados maternos que despertarão o bebê para a vida erótica: dizemos que a
mãe fará uma inscrição erótica no corpo do bebê. Para isso, naturalmente
espera-se que a mãe seja psiquicamente saudável. A criança vai elaborando
aos poucos os estímulos que constituirão seu mundo erótico. A mãe é o seu
primeiro amor. Aos poucos, entra o pai requisitando a mãe e pondo limites
nessa relação. O pai torna-se também um objeto de amor e organizador do
erotismo da criança. A criança aprende a renunciar à mãe para o pai e se
resigna a adiar para mais tarde a expressão plena de seu erotismo. Esse é um
processo extremamente complicado onde entram a mãe, o pai e os familiares
próximos. Da forma como ele é resolvido, dizemos que dependerá a saúde
mental desse indivíduo, para o resto da vida. Portanto a estruturação
psicossexual da criança se dá na troca afetiva entre ela, seus pais e familiares,
na qual cada um tem sua função determinada, o que permite que a criança vá,
aos poucos, e de acordo com suas possibilidades crescentes, organizando seus
impulsos eróticos em consonância com as regras de seu sistema familiar. O
que está fazendo a nossa televisão? Ela inunda massivamente a criança com
uma sexualidade adulta e muitas vezes pervertida. A criança possui uma
sexualidade com características diferentes da sexualidade adulta, porque ela
ainda não organizou todos aqueles impulsos e impressões eróticas dispersas,
num todo coerente. Só aos poucos ela vai organizar seu erotismo na direção da
genitalidade, isto é, da relação sexual propriamente dita. É um processo no
qual ela terá que elaborar as ansiedades referentes às repressões sexuais da
primeira infância, para então poder atingir a plenitude da maturidade genital.
E temos a questão da perversão. O que são atitudes perversas? São ideias de
que posso usar o outro como eu quiser, transformando-o num objeto usável e
descartável do meu gozo momentâneo, fora do contexto de uma relação
humana com ele. A sexualidade infantil tem muitas dessas características
perversas, pois a criança ainda não consegue ver o outro como um ser
separado dela. Aos poucos, ela terá que aprender que o outro não existe para
ser usado, mas é alguém com quem ela deve se relacionar como um ser

92
humano, diferente dela. Chamamos essa aprendizagem de socialização da
criança, ou, se quiserem, de educação moral. Trata-se de ensinar à criança a
controlar, reprimir, seus impulsos perversos (egoístas, se quiserem) para que
ela possa viver em sociedade. Esses impulsos são, por natureza, sem limites.
Daí a necessidade de se aprender a pôr limites neles. Esses limites são as
normas culturais que a criança introjeta, através de um processo que
chamamos de educação. É a educação que auxilia a criança a manejar seus
impulsos primitivos, tanto eróticos como agressivos, e esse processo é
necessário tanto para a saúde mental do indivíduo, como para possibilitar a
vida em sociedade. Uma má interpretação da psicologia e da psicanálise
parece ter levado as pessoas a acreditarem que não se deve pôr limites nas
crianças, para não traumatizá-las, e então elas perderem sua criatividade.
Essa idéia é uma falsa interpretação da psicanálise e que é muito difundida,
infelizmente. Ela está na raiz de muitos dissabores que vivemos na nossa
cultura atualmente: na aflição dos professores que não sabem mais o que
fazer para conter a falta de limites das crianças nas escolas, na sociedade
como um todo que não está conseguindo pôr limites na escalada de violência,
etc. Portanto a educação dos impulsos primitivos perversos (ou egoístas) é não
só socializadora como, de fato, humanizadora. Como, apesar das repressões,
esses impulsos tendem a ressurgir indefinidamente, a sociedade para
proteger-se deles, faz suas regras de conduta, sob forma de leis e sanções. (O
que nos remete à questão da impunidade em nossa cultura) Voltando à
sexualidade: Não faz portanto o menor sentido que nossa televisão tenha o
direito de invadir massivamente a criança com estímulos sexuais face aos
quais ela ainda não tem condições próprias de se defender. O que está
acontecendo em nosso meio equivale a alimentar bebês com feijoada e vatapá:
pratos genuinamente brasileiros, muito apreciados, mas impróprios para o
consumo infantil. A preocupação em preservar estilos próprios, brasileiros, de
viver a sensualidade, não deve nos confundir, levando-nos a compactuar com
essa ausência de regras sobre a veiculação da sexualidade pela mídia.
Sabemos que a sexualidade se constrói em cima de regras, as regras
familiares, e que sem regra e, portanto, interdições, não é possível estruturar
uma sexualidade propriamente humana. Nossas crianças e adolescentes não
estão tendo o direito de construir sua sexualidade aos poucos, partindo das
experiências vividas no seu núcleo familiar protegido, e, daí sim, adquirir seus
próprios valores sexuais com os quais irá fazer suas escolhas amorosas
futuras. Em vez disso, ela é bombardeada com cenas sexuais alheias à sua
realidade imediata, as quais ela não tem condições de integrar num conjunto
coerente. Esse bombardeio se dá por 3 a 4 horas, diariamente, e sabemos que
a maioria de nossas crianças passa menos tempo que isso na escola. Muitas
vezes ouvimos falar que nossa televisão não é diferente da televisão de outros
países, que também apresentam programas muito violentos e de baixo nível,
nos canais abertos. Isso entretanto não é verdadeiro no que se refere ao item
sexualidade. Nossa televisão caracteriza-se por ser hipersexualizada, como
nenhuma outra. Que efeitos isso pode ter? De fato não sabemos com precisão
todas as consequências desse estado de coisas. Vou citar algumas das
consequências mais conhecidas:

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1º) A banalização da sexualidade O acúmulo de cenas sexuais de todos os
tipos sendo despejadas continuamente sobre a criança faz com que ela
aprenda a ver o sexo como algo banal, que se faz porque todos fazem, porque o
grupo pressiona e não pelo significado pessoal que possa ter. Pesquisas
recentes atestam esse "fazer por fazer."

2º) O efeito identificação Cenas sexuais apresentadas por jovens atraentes,


com quem os adolescentes se identificam e para os quais as consequências do
ato nunca aparecem como de fato são, têm todas as condições para serem
imitadas. Isso aplica-se não só à sexualidade, naturalmente, e é a base de
toda estratégia de marketing. Muitos dirão que isso não é assim tão grave, já
que afinal, a maior influência sobre a criança é a família, e que nas famílias
bem estruturadas a influência da televisão na sexualidade delas será mínimo.
Se esse raciocínio fosse verdadeiro, então não haveria razão para se proibir o
marketing de fumo e bebida alcoólica, pois crianças bem orientadas, não
fumariam nem se alcoolizariam. No entanto, nossa sociedade houve por bem
proibir esse tipo de propaganda. A família é muito importante para a criança,
mas não podemos esquecer que, na adolescência, surgem identificações
secundárias, isto é, novos modelos, além dos pais, começam a ter importância
para os jovens. Além disso, em nosso meio, o que ocorre, é que a televisão
estimula massivamente tipos de saída duvidosos, para dizer o mínimo, para o
erotismo e para a agressividade, para crianças já submersas em
promiscuidade e violência. Essa combinação torna-se, de fato, explosiva.

3º) Os mecanismos de defesa que atuam na adolescência hoje, acreditam


alguns, com tanta informação, os jovens saberão defender-se usando a
camisinha. Pois bem, muitos não o fazem. As pesquisas mostram que mesmo
com todas as informações possíveis, muitos jovens não se previnem. O fato é
que cada jovem terá seu próprio ritmo na organização de seu mundo mental.
Enquanto isso não se processa, o jovem não tem condições de pensar a
sexualidade e suas consequências, com a clareza com que uma pessoa adulta
o faria. Sabemos que o adolescente usa mecanismos de defesa muito
primitivos para fazer face ao acréscimo de ansiedade, gerado pelas
modificações orgânicas, psíquicas e sociais próprias dessa fase. Portanto,
atualmente, assistimos a uma situação paradoxal: livres dos preconceitos e
repressões das gerações anteriores, os orientadores se dispõem a ensinar aos
jovens como se proteger; só que nem sempre eles querem, ou conseguem,
aprender. A angústia face à sexualidade adulta emergente faz com que defesas
do tipo negação da realidade, controle onipotente da situação, idealização do
outro, etc, sejam ativadas. Daí nosso desespero quando perguntamos à
adolescente grávida: - "Você não sabia que podia engravidar?" - "Sabia." - "E
por que não usou camisinha?" - "Porque achei que não ia acontecer". Ou: -
"Porque confiei no meu namorado". Essa negação da realidade, em um
adolescente, não é sinal de patologia grave, como seria no adulto. É apenas
um sinal de que ele é adolescente. Só que alguém com esse tipo de realidade
interna ainda não está apto para fazer escolhas conscientes. E não há idade

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cronológica que defina quem está pronto. Simplesmente cada um tem seu
ritmo. Pelo mesmo motivo nossa sociedade definiu que a idade mínima para
dirigir carro é 18 anos. E sabe-se que a maioria dos acidentes são provocados
pelos jovens motoristas. As consequências do sexo irresponsável não são
menos graves. (Por isso, quando aquele Ministro do Supremo disse que uma
menina de 12 anos, atualmente, já é uma adulta, ele mostrou que não entende
nada de adolescência.) Portanto, esse incentivo generalizado à atividade sexual
dos jovens é uma inconsequência de quem o faz. Em nosso Projeto, temos um
lema que repetimos à exaustão:

" Transar não é coisa para criança; é coisa para quem tem cabeça de
gente grande".

Além disso, ouvimos tanto falar que os jovens estão iniciando a atividade
sexual cada vez mais cedo, que fica no ar a impressão de que alguma
modificação biológica está ocorrendo na espécie humana. Isso não é verdade.
Embora a menstruação esteja ocorrendo ligeiramente mais cedo em diversas
populações, devemos pensar que, no ser humano, a atividade sexual é
predominantemente determinada pela cultura, não pelo instinto, como nos
animais e que essa precocidade deve ser compreendida culturalmente, em
suas múltiplas facetas.

4º) O uso da mulher como objeto do desejo masculino pervertido (pervertido no


sentido de que a mulher é vista somente como um corpo, ou parte de um
corpo, a ser usado e descartado e não como um ser humano com quem se
relacionar em sua totalidade.) Penso que a nossa televisão está ocasionando
um grande dano na estruturação da identidade feminina de nossas meninas.
De fato, não faz o menor sentido bombardear meninas e jovens com cenas em
que a mulher é reduzida ao estatuto de objeto sexual descartável. Nossa
televisão não oferece, às nossas meninas e adolescentes, modelos suficientes
de identificação feminina, nos quais a mulher apareça íntegra em sua
dignidade humana, como o fazem intensamente os países avançados, onde os
movimentos feministas zelam para que isso aconteça. O que estamos
ensinando às nossas meninas é que sua função na vida é ser objeto e não
Sujeito. Com isso causamos graves danos à sua feminilidade, à sua
autoestima e à sua futura capacidade de amar como mulher e mãe. Fala de
uma menina de 10 anos da favela Paraisópolis em São Paulo: "Tia, por que na
televisão os homens aparecem vestidos e as mulheres meio peladas?" O
mesmo tipo de perversidade, só que ao contrário, é o caso da Xuxa e da Sasha,
onde o homem é usado como reprodutor e depois descartado. Para concluir:
Em termos da nossa televisão, o que me parece mais urgente é a questão de
haver regras, mesmo que as tenhamos que rediscutir, questionar, refazer. O
dano psíquico maior que a TV tem causado, a meu ver, é menos o efeito de um
programa específico, do que a postura de "estar acima de qualquer regra" que
a cerca. A importância da influência dela em nossa sociedade é grande
demais, para que ela possa assumir uma atitude pervertida ("imponho ao

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outro a minha vontade") como essa. A falta de regras leva as emissoras à uma
busca compulsiva de "cada vez mais transgressão" na procura do seu próprio
limite. Quem deve fazer aí a função de pai e colocar os limites? A sociedade
como um todo. O que estamos assistindo a televisão fazer é uma busca do
como chocar cada vez mais, como produzir cada vez emoções mais fortes. Sem
que aparentemente ninguém a detenha. Essa é uma atitude extremamente
deseducadora para a criança e o jovem, que estão aprendendo a conciliar seus
impulsos agressivos e eróticos com as regras sociais. Por sermos e para
sermos humanos, temos que estar todos sujeitos a regras, claro,
democraticamente feitas, mas que elas existam e sejam cumpridas. O "tudo
pode" sem limites leva:

1º) ou à busca desenfreada de emoções cada vez mais fortes numa atitude de
tipo psicótica (queimar o índio pataxó é um exemplo disso)

2º) ou a uma angústia avassaladora face a essa falta de freios aos impulsos
destrutivos inerentes ao ser humano, e à procura deles em rígidas regras
externas já estabelecidas (religiões fundamentalistas, o exército, colégio
interno, a polícia, uma ditadura etc.)

3º) ou, nas pessoas mais bem estruturadas, à busca de regras estabelecidas e
compartilhadas pela sociedade, que é o que estamos fazendo aqui. Antes de
finalizar, quero lembrar-lhes que as emissoras de televisão são uma concessão
do governo, feita em nosso nome
Se não estivermos satisfeitos com o uso que elas tem feito dessa
concessão, (e eu não estou nada satisfeita) devemos nos mobilizar e
reclamar, pressionar, boicotar os produtos dos patrocinadores de maus
programas, lutar pelos nossos direitos de telespectadores.
Nós já temos leis sobre os meios de comunicação bastante adequadas, que
não são cumpridas por falta de regulamentação e vontade política para fazê-la.
Em nenhum país avançado a televisão funciona sem regras, como no nosso.
Temos que mudar esse estado de coisas. Penso que o estabelecimento de
regras é urgente, assim como o seu cumprimento; nas sociedade modernas,
não só na nossa, muitos jovens vivem um esgarçamento severo dos valores de
convivência social. Isso tem várias causas (não só a pobreza) mas, no nosso
meio, a televisão, devido a seu alcance, certamente tem contribuído para essa
situação.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS COMPLEMENTARES

1. A Educação dos Sentidos – Rubem Alves

2. Uma Arte de Amar para os Nossos Tempos - Jean-Yves- Leloup

3. O Essencial no Amor – Jean Yves Leloup

FILMES:

Curta Infância

A Invenção da Infância – de Liliana Sulzbach

Criança e Consumo – filmes de campanhas publicitárias do Instituto Alana

Rob Bell – nooma – Flame e Breathe

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