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Capítulo 1 – O mundo na década de 1780


Por ser um dos objetivos do livro clarificar as mudanças ocorridas em parte do mundo,
sobretudo Europa e EUA, entre o final do século XVIII e meados do XIX, foi feliz a escolha
do autor por nos explicar como era, afinal, aquele mundo o qual veríamos multar ao longo do
texto, pois podemos entender melhor o que foi mesmo impactado pela Dupla Revolução, além
de ser uma oportunidade de empreendermos uma análise referente às permanências e rupturas.
Num primeiro momento, é-nos demonstrado que o mundo ali era, por um lado, menor
que o atual, visto que, mesmo os mais ricos, viajados e científicos europeus, conheciam
apenas uma pequena parcela do globo. Ainda que o processo de colonização da América já
tivesse sido iniciado há mais de dois séculos, a África conhecida há milênios, igual que Ásia,
a Terra era para os europeus ainda composta principalmente por Europa. A realidade não era
muito diferente às pessoas de outros continentes ou regiões. Por outro, e, embora pareça
contraditório, era maior, porque, pelas rudimentares tecnologias de transporte e
correspondência, tardava muito mais tempo em se chegar a algum lugar, e o mesmo com
cartas e pacotes. Desse modo, mesmo que «o mundo» estivesse circunscrito numa área menor,
atravessá-la era um desafio hercúleo, visto pelas lentas atuais.
Além, diferente de hoje, era um mundo majoritariamente rural, camponês, tradicional
e religioso, no qual as práticas culturais, políticas, econômicas, enfim, a vida social, estava
ligada ao meio agrícola e o distinto era impensável. É algo relativamente difícil de ser
imaginado por nós, pois a maior parte de nós vive em imensas cidades há muito tempo, e
mesmo aqueles que vivem afastados, não o vivem como antes, porque há estradas, rede
elétrica, internet etc., coisas que fazem com que, com exceção aos rincões mais longínquos,
todos estejam em alguma medida próximos. Ademais, é mister nos lembrarmos de que o
regime de trabalho mais comum ainda era a servidão, distinto a hoje, quando o assalariado é o
tipo de mais comum de trabalhador.
No que se refere à cultura, várias coisas eram dissonantes às atuais, desde a maior
relevância dada à religião na vida social, embora estejamos passando por um momento de
obscurantismo no qual esse traço da modernidade tem sido alterado, até a alimentação,
limitada a alguns grãos, alguns legumes e pouca carne; a regra era a mesmice alimentícia,
com variações estacionárias. Em alguns locais, inclusive, como na Irlanda, a regra era uma
constância que agora seria vista como absurda, uma vez que ali a alimentação era em muito
baseada no mesmo alimento – batata; em certa medida, essa dificuldade produtiva se devia ao
tipo de uso da terra, melhor explicado no capítulo oitavo. A seguir, juridicamente não havia
igualdade, porque o ordenamento jurídico ainda era resíduo do feudalismo, onde apenas o
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clero, sobretudo do alto escalão, e a nobreza havia a possibilidade de participação política.


Não podemos omitir, é claro, que demorariam ainda vários séculos desde o século XVIII para
que os trabalhadores, sejam eles de qual regime trabalhista, se tornassem sujeitos
participativos da vida pública.
Após o exposto é perceptível que a Dupla Revolução, ao contrário do que é dito e
defendido por alguns, impactou de maneira profunda não só a Europa ou os EUA, mas todo o
mundo, pois parte das mudanças que se deram ali foram irradiadas às outras regiões por
intermédio da colonização europeia. Assim, não é de todo exagero dizer que a Revolução
acontecida em alguma data imprecisa no início da década de 80 do século XIX e a Revolução
iniciada, de maneira oficial, em 14 de julho de 1789, fundaram o mundo moderno.

Capítulo 8 – A terra
Como marxista, neste capítulo, ainda que de modo implícito, e, talvez, inconsciente,
ao falar da questão agrária no mundo afetado pela Dupla Revolução, Hobsbawm faz uso da
dialética, pois evidencia, com mestria, que as mudanças fundiárias foram, ao mesmo tempo,
causa e consequência das mudanças acontecidas entre 1789-1848, instrumento lógico que
permite a percepção da grande complexidade pela qual se dão as alterações em História.
Inicia o texto nos falando sobre algumas das principais necessidades para se contornar
os empecilhos à elevação da produtividade no meio rural em Europa, tão importante ao
incremento da Revolução Industrial, e razão do acontecimento, em parte, da Revolução
Francesa: 1) a mercantilização da terra; 2) a administração das terras guiada ao lucro; 3) a
transformação da massa de trabalhadores rurais, em geral, servos e colonos, em assalariados
moradores das urbes; além, cita um quarto fator, tido como importante por alguns
historiadores: o monopólio natural da terra.
Ainda que pareçam mudanças óbvias e até naturais, uma vez que parcela significativa
dessas é a regra, antes de 1848 não o eram. Esses câmbios significaram a movimentação de
grupos opositores, sobretudo camponeses e senhores de terras tradicionais, que, diante da
possibilidade de, perderem certos direitos e propriedades, fizeram uso de todas as suas armas,
ideológicas e materiais, em contra da flutuação revolucionária.
Cada localidade, seja em Europa, seja nos EUA, segundo suas próprias condições,
tentou solucionar a situação de uma dada maneira; houve aqueles que, na possibilidade de
expansão ad infinitum, apenas mediante a eliminação dos autóctones, como foi o caso dos
estadunidenses, resolveram-na sem grandes rupturas e mudanças, até porque, aqui, no Novo
Continente, o regime jurídico feudal sequer chegou a ser instalado; outros, com mudanças
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assistencialistas transformaram a vida no campo insustentável, como os britânicos, para que


fossem expulsos de suas casas os camponeses, permitindo que a elite agrária, em Inglaterra
mais próxima à burguesa, adquirisse ainda mais terras; alguns, aboliram o feudalismo pelas
armas, como a França e os países limítrofes; uns, mais conservadores, transformaram os
senhores feudais em grandes proprietários capitalistas e os servos em assalariados, numa
espécie de canetada. Enfim, das mais variadas formas, no período analisado houve, ainda que
tímidas, alterações para pôr fim ao feudalismo, trava do espalhamento das novidades da Dupla
Revolução, mais sentidas na segunda metade do século XIX.
Para finalizar, vale citar as áreas coloniais, e é interessante observar que o Hobsbawm
não as omite, com foco em Argélia e Índia, duas áreas de grande importância e instabilidade
para duas damas brigonas em Europa - França e Inglaterra. Nos domínios franceses em
África, o eurocentrismo mais uma vez retardou a domínio, tendo em vista que, devido à
influência do referencial europeu, os franceses que tentaram administrar as terras nortenhas
não foram sensíveis ao ponto de entender a complexidade que era a propriedade fundiária ali,
sendo a terra coletiva e religiosa, gerando uma série de conflitos que estimulariam os grupos
independentistas antes mesmo do término da colonização.
Em Índia, diferente, nenhum europeu queria especular com terras. Assim, a questão lá
se voltou à tributação: como tributar da melhor maneira possível, era essa a grande pergunta
para os britânicos nas terras do Raj. Num primeiro momento, o imposto adotado foi coletivo,
respeitando o próprio regime de terras local. Entretanto, graças à sua utilitarista de Stuart Mill
pai, um imposto individual, que exigia um complexíssimo cálculo, foi posto. Ao fim,
terminou por ser abolido, por trazer mais problemas que soluções, e o outro, recuperado.
Enfim, como dito acima, este capítulo clarifica que em História as causas são também
consequências. Se, por um lado, algumas mudanças rudimentares no ordenamento jurídico
excitaram a produção alimentícia, o que permitiu o aumento da produção industrial; por outro,
o esse foi inteiramente alterado, num momento mais tardio, pela Dupla Revolução. É como se
o criador tivesse sido superado pela criatura.

Capítulo 11 – Os trabalhadores pobres

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