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DIREITO EMPRESARIAL I

autor
WAGNER DE MELLO BRITO

1ª edição
SESES
rio de janeiro  2018
Conselho editorial  roberto paes e gisele lima

Autor do original  wagner de mello brito

Projeto editorial  roberto paes

Coordenação de produção  gisele lima, paula r. de a. machado e thamyres mondim


pinho

Projeto gráfico  paulo vitor bastos

Diagramação  bfs media

Revisão linguística  bfs media

Revisão de conteúdo  thiago gomes petrucci

Imagem de capa  pressmaster | shutterstock.com

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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)

B862d Brito, Wagner de Mello


Direito empresarial I / Wagner de Mello Brito.
Rio de Janeiro: SESES, 2018.
144 p: il.

isbn: 978-85-5548-604-3.

1. Direito empresarial. 2. Legislação. 3. Administração. 4. Direito societário.


I. SESES. II. Estácio.
cdd 346.07

Diretoria de Ensino — Fábrica de Conhecimento


Rua do Bispo, 83, bloco F, Campus João Uchôa
Rio Comprido — Rio de Janeiro — rj — cep 20261-063
Sumário
Prefácio 7

1. Aspectos da empresa 9
Introdução 10

As fases históricas do atual Direito Empresarial brasileiro 10

Fase comercial 12
A teoria dos atos de comércio e a confusão conceitual 13

Teoria e função social da empresa 16


Autonomia e características atuais 18

Fontes do Direito Empresarial 19


Princípios constitucionais norteadores da ordem econômica 20

Conceito jurídico de empresa – Código Civil Brasileiro de 2002 23

Elementos da organização da atividade econômica 24

Empresário individual 24
Conceito – Código Civil Brasileiro de 2002 24
Atividades excluídas do contexto empresarial.
Atividade Intelectual – Científica – Artística – Literária 26
Pressupostos para o exercício da Empresa Individual 28

Obrigações profissionais do empresário 31

2. Empresa Individual de Responsabilidade


Limitada - (EIRELI) e Estabelecimento 37
Introdução 38

Empresa individual de responsabilidade limitada (EIRELI) 39


A limitação da responsabilidade do empresário individual 39
Conceito de empresa individual de responsabilidade limitada
no Brasil – EIRELI 40
Natureza jurídica 40
Características e distinções 40
O titular do capital da empresa individual de responsabilidade limitada 42
Responsabilidade do titular do capital 43
Modo de constituição 44
Nome empresarial 44
Objeto 45
Capital 45
Administração 45
Dissolução e liquidação 46
Aplicação subsidiária das regras previstas para a Sociedade Limitada 47

Estabelecimento empresarial 47
Conceito 47
Natureza jurídica 48
Elementos 49
Estabelecimento principal e estabelecimentos secundários.
Filiais, sucursais 55
Negociabilidade do estabelecimento 55

3. Direito Societário: Introdução. 61


Sociedade conceito 63
Espécies ou tipos de sociedades 63
Personificação da sociedade 66
Efeitos da personificação. Separação patrimonial e limite de
responsabilidade 66
Diferenciação: sócio e sociedade. Responsabilidade da sociedade
e dos sócios 67

Desconsideração da personalidade jurídica da pessoa jurídica 68

Classificação das Sociedades 77


Quanto à personificação: sociedade personificadas e
não personificadas 77
Quanto ao objeto 79

Nome empresarial 83
Espécies 84
Formação 84
Princípios e proteção 84
Alienabilidade 85
Ato constitutivo da sociedade. Contrato social 85
Contrato social. Natureza jurídica 86
Cláusulas essenciais e facultativas 86

Capital social 88
Conceito. Formação. Características 88
Princípios 88

4. Da sociedade limitada 91
Introdução 92

Legislação aplicável 92

Responsabilidade dos sócios 93

Deliberações dos sócios 96


Órgãos de deliberação 97
Convocação 98
Instalação 98
Funcionamento 98
Quórum para deliberação 99
Direito de retirada e apuração de haveres 101
Conflito de interesses e responsabilidade pela ilicitude do voto 101

Administração 102

Conselho fiscal 105

A regência supletiva das sociedades limitadas 105


Reorganização societária 107
Cisão 109

5. Direito Societário 115


Introdução 116

Noções históricas 117


Primeiros exemplos no mundo 117
Primeiros Exemplos no Brasil 117
Características 118
1. Responsabilidade dos acionistas limitada ao valor de emissão
de suas ações 118
2. Nome empresarial será sempre a denominação 120
3. Livre circulação de ações – sociedade de capital (em regra) 120
4. Regida por estatuto (e não contrato social) 121
5. Sempre sociedade empresária 122
6. Pertence ao mercado de capitais (que integra o
sistema financeiro). Subscrição pública do capital (possibilidade) 122
7. Capital social dividido em ações 122

Companhia aberta e mercado de capitais 122


Companhia fechada 123

Constituição da companhia 123


Capital social: formação e alterações 123

Ações: espécies e características 124


Direitos e deveres dos acionistas. Acionista controlador.
Acordo de acionistas 125
Acionista controlador 125
Acordo de acionista 126
Debêntures: espécies e características 127

Partes beneficiárias 129

Bônus de subscrição 130

Commercial papers 130

Assembleia geral 130

Espécies de assembleia geral 130

Administração 131

Transformação de Sociedade Anônima 132

Incorporação 132

Fusão de Sociedade Anônima 133

Cisão de Sociedade Anônima 133


Prefácio
Prezados(as) alunos(as),

Olá, tudo bem? Sejam bem-vindos à leitura do livro didático da mais bela dis-
ciplina do ramo jurídico. Embora essa seja a minha percepção sobre o tema, este
livro pretende fazê-lo chegar a essa conclusão ao término de cada capítulo. Neste
livro de Direito Empresarial I será estudada a importância do exercício da empre-
sa, da figura do empresário e das instituições correlatas aos fenômenos econômicos
disciplinados no Código Civil Brasileiro de 2002. O fenômeno empresarial está
presente no dia a dia de todas as pessoas, seja como agente empresarial (empresá-
rios, sócios ou acionistas), seja como empregado ou empregador ou ainda como
consumidores de produtos ou serviços.
Este é um livro didático que, embora reconheça a importância do estudo das
diversas relações contábeis-econômicas-jurídicas empresariais, destina-se a con-
centrar a sua análise nos principais institutos jurídicos específicos do direito de
empresa. Ainda que relevantes, os temas relacionados ao direito das obrigações,
direito dos contratos, direito tributário e direito do trabalho são citados em con-
sonância com cada tema. Entretanto, sobre tais assuntos, serão produzidos livros
específicos relacionados às respectivas disciplinas.
Você estudará nesta edição não apenas os conceitos e normas essenciais à com-
preensão do fenômeno empresarial, mas, também, exemplos reais ou concretos e
jurisprudenciais que ajudarão a entender a aplicação prática da matéria. Ao final
de cada capítulo, você será estimulado a resolver atividades e a refletir sobre o con-
teúdo aprendido, primando-se pela fixação do conteúdo por meio da aplicação de
conceitos e normas a casos concretos e a situações cotidianas.
Nunca é demais destacar que o livro é sempre um canal de acesso inicial e
preparatório do conteúdo ministrado em sala de aula. Ele é o seu primeiro contato
com a disciplina, dando-lhe informações mínimas indispensáveis à compreensão
do tema. O estudo prévio às aulas é o mais recomendável, pois ajuda a com-
preender as discussões realizadas em sala, bem como antecipa questões e dúvidas
pertinentes ao assunto. Após as aulas, o uso do livro é também pertinente para
trabalhar as questões e atividades propostas, assim como aprofundar leituras e
pesquisas jurisprudenciais para colocar em prática e testar seus conhecimentos.
Espero que você aproveite o livro com o mesmo entusiasmo e carinho com
que ele foi feito.

Bons estudos!

7
1
Aspectos da
empresa
Aspectos da empresa.
Introdução

Talvez você não se dê conta, mas a empresa e o direito empresarial estão tão
ligados a sua vida que hoje mesmo você se beneficiou dele e não percebeu.
Caso você tenha acordado, feito e bebido um café e comido um pão com
manteiga, ou algo mais, você já participou de uma variedade de fatos sociais e
econômicos sobre os quais se insere o direito de empresa. O plantio, a colheita, a
secagem e a manipulação do café e do trigo são fatos sociais e econômicos silencio-
sos que fazem parte do café da manhã de muitos brasileiros. A produção, a distri-
buição, o transporte, a estocagem, a venda e o consumo são “figurinos” jurídicos
da atividade econômica que permitem o café da manhã. Dessa maneira, a ideia
de “comércio” foi, e continua sendo, considerada um fato social e econômico que
resulta de uma atividade humana que põe em circulação a riqueza produzida, au-
mentando-lhe a utilidade e o valor. Assim, a atividade econômica é uma ação hu-
mana não só de troca, mas de aproximação dos seres humanos. (SAY, 1803, p. 61)
O vocábulo “comércio” etimologicamente significa “troca de mercadorias por
mercadorias” ou commutatio mercium.

As fases históricas do atual Direito Empresarial brasileiro

Você já deve ter estudado em Introdução ao estudo de Direito que o direi-


to brasileiro integra uma “família” ou “escola” de tradição jurídica relacionada à
conhecida “civil law”. Isso significa dizer, em síntese, que a tradição brasileira foi
bastante influenciada pelas tradições jurídicas europeias continentais (Portugal,
Espanha, Itália, Alemanha etc), ou seja, pouco influenciada pelas tradições anglo-
saxônicas do Reino Unido (Inglaterra, Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales).
O direito empresarial brasileiro, portanto, reflete aquela tradição.
Ocorre que isso não aconteceu do dia para noite e não é academicamente
recomendável falar em “evolução histórica” do conteúdo da disciplina. A ideia de
“evolução” pode sugerir que a disciplina sofreu uma série de mudanças estruturais
em suas características principais. Entretanto, isso nem sempre ocorreu.
Apenas com intuito de dar um panorama sobre o que virá a seguir, é pertinen-
te apenas destacar que o atual direito empresarial brasileiro é visto pela maioria
da doutrina jurídica como reflexo de três grandes fases históricas. Numa primeira

capítulo 1 • 10
fase identifica-se como o direito dos mercadores, pois eles que originaram o direito
mercantil com suas leis e costumes, ao longo da história, a doutrina é dividida em
três períodos:
•  Primeiro: do séc. XII ao séc. XVIII período subjetivo dos mercadores;
•  Segundo: do séc. XVIII (Código de Comércio Napoleônico de 1807) ao
séc. XX, como núcleo o comerciante e seus atos (objetivos) do Comércio – perío-
do objetivo;
•  Terceiro: do séc. XX até os dias de hoje (séc. XXI), cujo destaque legis-
lativo é o Código Civil Italiano de 1942, tendo como o núcleo a empresa. Fase
Mercantil. A organização jurídica do comércio ressurge como decorrência do re-
nascimento da atividade mercantil durante a Idade Média. Iniciou-se neste pe-
ríodo a fase identificada como fase do direito mercantil, por isso, foi chamada de
ius mercatorum, ou seja, direito dos mercadores. O direito dos mercadores cen-
trado nas corporações de ofício. Estas desenvolveram-se a partir de um protecio-
nismo pouco propício à mudança, inibitória da iniciativa individual, à inovação.
Tratava-se de uma estrutura social de predileção, preocupada em oferecer aos seus
membros a entreajuda e o apoio de cada membro precisasse, em contrapartida
de uma submissão ao grupo identificada sob os mais diversos nomes: “mesteres”,
“confrarias”, “comunidades”, “hansas”, “guildas”, “artes”, “companhias”, “escolas”.

Entretanto, a ajuda mútua e a submissão ao grupo constituíam, principal-


mente, uma defesa contra outros poderes políticos e outros agentes econômicos.
Por meio de suas rígidas intervenções, regulamentos e hierarquias, as corporações
têm como finalidade proteger uma profissão e isso inclui o mercado e seus pro-
fissionais contra todas as ameaças externas a fim de neutralizar a concorrência.
(PEYREFITTE, p. 40)
Nesse primeiro momento, contudo, as normas jurídicas eram aplicadas apenas
àqueles que fossem matriculados na corporação. Por essa razão denominou-se esta
fase do direito de fase mercantil ou subjetiva, pois as normas eram aplicadas tão
somente aos comerciantes, considerados aqueles regularmente matriculados numa
corporação. Assim, o âmbito de aplicação do direito era bem restrito à existência
de normas especiais, surgidas dos usos e costumes (em contraposição às normas
de direito comum (civil), presa à tradição romano-canônica). A aplicação de tais
normas era também condicionada à existência de uma jurisdição especial para
resolver conflitos entre determinados sujeitos, os mercadores (fase subjetiva do
atual direito empresarial).

capítulo 1 • 11
Em razão do aumento da importância econômica da atividade mercantil – os
mercadores cada vez mais contratavam com não profissionais. Assim, ampliou-se a
abrangência da jurisdição especial, que passou a conhecer de causas que envolviam
relações entre mercadores profissionais e não mercadores. Essas relações foram
chamadas de negócios mistos. Diante desta realidade, surgiu a necessidade de se
determinar o que constituía a matéria comercial, da competência exclusiva dos
tribunais especiais (consulares), a fim de se ditarem quais normas seriam aplicáveis
somente aos mercadores e quais seriam de aplicação comum.

Fase comercial

Etimologicamente, o vocábulo “comércio” advém do termo latino –


commercium. A expressão resulta da aglutinação da preposição cum: continuidade;
ação de circulação, e o substantivo merx, ou seja, mercadoria ou produto. A ideia
de circulação de mercadorias estava relacionada a bens móveis, aptos a circulação
física dos bens.
O surgimento desta fase ocorre pelo esgotamento de um tipo de mentalidade
corporativa e restritiva das corporações de ofício. O esgotamento desta menta-
lidade também se reflete nas estruturas sociais e políticas que se submeteram às
mudanças liberais e suas principais revoluções liberais norte-americana e france-
sa. Assim, os comerciantes, partindo de práticas costumeiras (usos e costumes),
reorganizam um ramo do direito a fim de disciplinar a atuação daqueles que se
dedicavam à atividade comercial, independentemente de pertencer à determinada
corporação, isto é, os comerciantes: aqueles praticassem atos de comércio.
Formou-se, então, o direito comercial como um conjunto de regras especiais,
direito dos comerciantes, que reclamavam normas jurídicas aptas a regulá-los, não
encontradas no direito comum, o direito civil. Esse era composto de normas vol-
tadas a regular a atividade agrícola, vinculada à propriedade imobiliária, ligada à
terra. Formava-se, assim, a dicotomia direito civil-direito comercial.
Sob a Revolução Francesa de 1789, os costumes das corporações foram conde-
nados pela lei de 14-17/6/1791 e todas as regras corporativas desapareceram. Foi a
chamada lei Le Chapelier. Poucos anos após, em 1807, foi promulgado o Código
Comercial francês, o qual, encerrando a fase subjetiva do atual direito empresarial,
inaugura-se a denominada fase objetiva.

capítulo 1 • 12
A atividade jurisdicional especial aos comerciantes foi mantida, mas as nor-
mas de direito comercial passaram a ser aplicadas não mais àqueles regularmente
matriculados numa corporação, mas àqueles que praticassem habitualmente atos
de comércio, expressamente enumerados no art. 632 do Código Napoleônico. Ao
longo do século XIX, diversos países seguiram o exemplo da codificação francesa,
promulgando seus Códigos de Comércio, nos quais se adotou a teoria dos atos
de comércio de inspiração francesa, dentre eles o Brasil com o Código Comercial
Brasileiro de 1850 – Cco. – e seu respectivo Regulamento 737/1850.

A teoria dos atos de comércio e a confusão conceitual

A ideia de ato de comércio como fator central do direito comercial nunca


foi suficiente para explicar e abranger a estrutura fundamental do capitalismo: as
inovações tecnológicas advindas da iniciativa privada ou empreendedorismo indi-
vidual voltada à satisfação das infinitas necessidades humanas.
Novas formas negociais foram e estarão sempre sendo criadas pelos comer-
ciantes. Essas inovações decorreram das transições do capitalismo comercial ao
capitalismo industrial.
Nesta fase, os comerciantes passaram a exercer atividade de produção de bens
e se tornaram, assim, os chefes da indústria. Nesta nova organização socioeconô-
mica, a enumeração dos atos de comércio seria meramente exemplificativa, pois
jamais poderia dar conta de toda criatividade dos comerciantes para racionalização
dos custos, maximização dos lucros e satisfação do público consumidor. A mu-
dança de concepção permitiria a aplicação do direito comercial a atos surgidos da
prática negocial e não previstos pelo legislador.
O Código de Comércio italiano, de 1882, por exemplo, em seu art. 3o, no 3,
incluiu no conceito de comércio “a especulação imobiliária”.
Outra atividade que etimologicamente não cabia no conceito de “comércio”
era a prestação de serviços sem a submissão pessoal e hierárquica caracterizadora
do contrato de trabalho. Atividade cada vez mais lucrativa e eficiente não cabia no
conceito de “atos de comércio”.
Outro aspecto limitador da teoria dos atos de comércio consistia na ausência
de explicação de por que determinados atos praticados por não comerciantes eram
reputados comerciais (emissão de alguns títulos de créditos) – e, portanto, sujeitos

capítulo 1 • 13
às normas do direito comercial –, sem que aqueles que os praticassem fossem
reputados comerciantes. Entretanto, alguns atos eram tipicamente comerciais: so-
mente poderiam ser praticados por quem exercesse atividade comercial, i.e., fosse
comerciante (incluído, aqui, o comerciante “industrial”).
A atividade agrária, a atividade imobiliária ou a atividade de prestação de ser-
viços, todas com origem em normas herdadas do direito romano, não eram repu-
tadas comerciais. Esse fenômeno se convencionou chamar de “sociedade pós-in-
dustrial”, na qual o percentual de riqueza gerado pelo setor de serviços é superior
àquele gerado pela indústria. Esta guinada para a sociedade pós-industrial ocorreu
na transição da década de 1980 para a de 1990. (BELL, D. 1974)
Com tais características o adjetivo “comercial” foi, gradativamente, perdendo
relevo para o substantivo “atividade”.
Assim, diversas normas surgiram no Brasil, no âmbito do direito comercial
que eram estendidas a pessoas que, embora não fossem comerciantes em sentido
estrito, eram reputadas comerciantes por lei. A lei 4.068/1962, que em seu art. 1o
considerou como comerciantes as construtoras de imóveis, para que estas pudes-
sem sacar duplicatas. A lei 6.404/1976 – Lei das Sociedades Anônimas –, por sua
vez, dispõe em seu art. 2o, § 1o , que, qualquer que seja o objeto da companhia,
ela é tida como mercantil.
De outro modo, havia pessoas que não eram reconhecidas como comerciantes
pelo ordenamento, pois exerciam atividade tida como civil, mas mesmo assim
gozavam da proteção que as leis comerciais liberalizavam em favor dos comercian-
tes –, em manifesta contrariedade, portanto, com a letra do art. 4o do CCo. A lei
4.591/1964 em seu art. 43, III, sujeitou as incorporadoras ao processo falimentar.
Outro exemplo: a lei 8.245/1991, que, em seu art. 51, § 4o, estendeu o direito à
renovação compulsória do contrato de locação, até então instituto tipicamente co-
mercial, às sociedades civis com fins lucrativos e a lei 5.474/1968 que, em seu art.
20, estendeu a faculdade de sacar duplicatas às “empresas, individuais ou coletivas,
fundações ou sociedades civis, que se dediquem à prestação de serviços”.

Fase empresarial – origem e desenvolvimento

A atual noção de empresa surgiu no Código Comercial francês que tinha por
premissa a teoria dos atos de comércio. Este código, em seu art. 632, elencava os
atos considerados de comércio, mas também fazia alusão aos empreendimentos. A
doutrina jurídica, ao tentar explicar a empresa enquanto ato, percebeu que ela não

capítulo 1 • 14
era simplesmente um conjunto de atos, mas um conjunto de atos coordenados, ou
seja, uma atividade organizada.
No Brasil, o art. 19 do Regulamento 737 de 1850, tradução quase literal do
art. 632 do Código Comercial francês, também fazia alusão à empresa reputada de
mercancia (sic), com o que se aludia, pela vez primeira, a certas atividades como
sendo comerciais.
Com a mesma conotação o art. 3o do CCo italiano de 1882, que reputava atos
de comércio diversas espécies de empresas.
Assim, empresa seria um ato de comércio. Qualquer pessoa que realizasse pro-
fissionalmente tais atos de intermediação na troca seria reputada comerciante, tal
qual aquele que exercesse habitualmente empresa seria reputado empresário.
Aqui você deve perceber que a base de construção do conceito de empresa
estava diretamente ligada ao aspecto fático (econômico) da figura do comerciante:
a interposição na troca de coisas móveis e a organização dos fatores de produção,
ou seja, o exercício de empresa. Este é o motivo pelo qual alguns países, inclusive
o Brasil, que tinham códigos de inspiração francesa identificaram o conteúdo ju-
rídico com o conteúdo econômico da empresa.
O autor italiano Cesare Vivante, por exemplo, chegou a afirmar que “empresa
é um organismo econômico que, por seu próprio risco, recolhe e põe em atuação
sistematicamente os elementos necessários para obter um produto destinado à tro-
ca. A combinação de vários fatores, natureza, capital, trabalho, que se associando
produzem resultados impossíveis de conseguir se atuassem separados, e o risco que
o empresário assume ao produzir uma nova riqueza, são os dois requisitos indis-
pensáveis a toda empresa.” (VIVANTE, p. 131)
Dessa forma, a doutrina e o direito italiano adotaram como jurídico, o concei-
to econômico de empresa. Porém, para esta mesma doutrina, nem toda atividade
econômica deveria ser considerado “empresa”, mas sim e tão somente as atividades
previstas não Código Comercial italiano. (VIVANTE, p. 131)
Ainda que tal concepção tenha tido críticas contundentes (ROCCO, p. 178),
a noção de empresa ingressa no mundo jurídico como categoria de atividade de
troca, intermediação ou especulação sobre o trabalho. Entretanto, a partir do mo-
mento em que o comerciante passa a se apropriar dos meios de produção, dá-se o
ingresso na fase do capitalismo industrial e, então, a figura do comerciante entra
em declínio e se obscurece, passando ao primeiro plano a figura do empresário,
reconhecida pelo Código Civil Italiano de 1942, em seu art. 2.082.

capítulo 1 • 15
Com essas informações podemos concluir que:
•  Sob a teoria dos atos de comércio, percebia-se a sua insuficiência para deli-
mitar o campo de aplicação do direito comercial. Era visível a enorme dificuldade
em definir o que poderia ser considerado comércio para o direito e como identifi-
car a figura do comerciante;
•  No entanto, com a adoção da teoria da empresa, a ênfase passou a ser a
noção de exercício de atividade econômica organizada tendente à produção ou
circulação de bens ou serviços;
•  A noção econômica de empresa excede, em muito, a noção jurídica de em-
presa, tendo em vista que certas atividades econômicas organizadas não são consi-
deradas empresas pelo direito;
•  Há entre os juristas e legisladores, enorme dificuldade em afirmar, o que não
é empresa e, portanto, quem não é empresário. Diante desta dificuldade é se faz
opção juridicamente arbitrária para afastar determinadas atividades econômicas
do conceito de atividade empresária, o que cria desigualdades jurídicas injustificá-
veis do ponto de vista tributário e do modo de recuperação de empresas.

Teoria e função social da empresa

A teoria da empresa pode ser sucintamente explicada como a concepção que


identifica o empresário e a forma como ele organiza os fatores de produção (capi-
tal, trabalho, insumos e tecnologia) para o exercício da atividade econômica, com
a finalidade de produção ou circulação de bens ou serviços. Na teoria da empresa,
o eixo central está na natureza da atividade, ou seja, na existência ou não de estru-
tura empresarial em que o empreendedor exerce a atividade econômica.
Alguns conceitos são definidos de forma diferentes por mais de um ramo do
conhecimento humano, e a ideia de empresa é exemplo típico dessa situação.
O vocábulo “empresa” advém da palavra latina prehensus, derivada de
prehendere, que significa empreender, praticar.
Sob perspectiva econômica a ideia de empresa foi formulada por Ronald Coase
em 1937, em seu célebre livro intitulado A natureza da empresa (COASE, p. 386-
405). Nesse livro, o autor identifica a empresa como a organização dos fatores de
produção de uma empresa que pode ser feita internamente, quando ela recolhe as
matérias-primas, processa-as, constrói os produtos, distribui-os e vende-os direta-
mente aos consumidores, ou, por outro lado, essa mesma organização dos fatores

capítulo 1 • 16
pode ser feita externamente, ao adquirir as matérias-primas processadas e delegar
a distribuição e venda dos produtos a terceiros.
Esta concepção se popularizou no meio acadêmico a ponto de influenciar
legisladores do mundo inteiro.
No Brasil, esta concepção é percebida no Código Civil Brasileiro de 2002 –
art. 966, caput. Entretanto, do ponto de vista jurídico, a ideia de empresa é reflexo
da ideia da intervenção do Estado na economia, ao fazer a atividade empresarial
atender não apenas ao interesse individual, mas também a interesses metaindi-
viduais, atuando também em prol da coletividade. Implica dizer que o conceito
jurídico de empresa já surgiu atrelado ao atingimento de uma finalidade (função)
social.
Não se pode deixar de destacar que a sistematização inicial desta concepção
teve origem regimes políticos totalitários. William Conrad Kessler, em sua obra
The German Corporation Law of 1937, publicado na American Economic Review,
em dezembro de 1938, destacava que a lei alemã de 1937 era instrumento do
partido nacional-socialista para instituir sua filosofia de governo no campo da
atividade econômica. Foram introduzidos dois princípios totalitários no direito
societário alemão: o “bem-estar geral acima do interesse individual” e o “princípio
do líder” ou “Führersprinzip”. (KESSLER, p. 653-662)
A teoria da empresa adotada no Brasil foi muito influenciada pela Constituição
italiana, forjada originalmente sob o regime corporativista e delineada na Carta
del Lavoro de 1927 e também pelo código civil italiano de 1942 que, a partir do
art. 2.082 dispõe que “é empresário (imprenditore) quem exerce profissionalmente
uma atividade econômica organizada com fim de produção ou comércio de bens
ou serviços”.
Esta concepção identifica tanto o trabalho quanto a livre iniciativa como exi-
gências sociais, pois todos se beneficiariam dessas atividades econômicas, caben-
do ao Estado a tutela e controle quanto ao atendimento desses interesses. Dessa
forma, o conceito jurídico de empresa adotado pelo Código Civil Brasileiro de
2002 está imerso no cadinho da função social, verdadeira mescla dos conceitos
de funcionalismo e de solidarismo, no sentido de realização de atividade não em
benefício próprio, mas no benefício social.

capítulo 1 • 17
Autonomia e características atuais

Muito se discute hoje sobre se a inserção do Direito Comercial no Código


Civil Brasileiro de 2002 e as alterações feitas afeta ou não a sua autonomia.
As responsabilidades sejam no Direito Civil ou no Direito Comercial, apa-
rentemente são as mesmas, devido à semelhança entre ambas foram incluídas pelo
legislador em uma mesma lei, que são do direito privado.
Entretanto, o direito comercial não morreu. A nova nomenclatura “Direito
Empresarial” que consta na nova lei 10.406, de 10 de janeiro de 2002, pertence ao
ramo privado do direito, disciplinando as relações jurídicas dos comerciantes ou
empresários a qualquer relação comercial. Assim, o código civil brasileiro aparece
como referência do início de uma nova fase do Direito Comercial brasileiro.
Porém, não se deve falar em unificação das disciplinas de Direito Civil e
Direito Empresarial. Com o advento do Código Civil, houve apenas a unificação
de certas obrigações de direito privado e a inclusão, na lei civil, de relações jurí-
dicas relativos à empresa que, em grande parte, eram disciplinadas especialmen-
te no Código Comercial Brasileiro de 1850 e em leis especiais. O Código Civil
Brasileiro de 2002 apenas tentou organizar o “Direito de Empresa”, dividindo em
quatro títulos previstos dos artigos 966 a 1.195. Disciplina quase tudo que diga
respeito ao “empresário”, à “empresa”, ao “estabelecimento”, e aos “institutos com-
plementares” que regulamentam e disciplinam a atividade empresarial.
A autonomia do Direito Comercial no Brasil é especialmente identificada na
Constituição da República que em seu art. 22, inciso I, distingue o “Direito Civil”
em separado de “Comercial”. A Constituição é de 1988. Nessa data, a referência à
disciplina era de direito comercial. Com o advento do Código Civil Brasileiro de
2002, a doutrina passou a identificá-la como “direito empresarial” pelos motivos
já expostos.
Atualmente quase toda a doutrina destaca a sua autonomia (integral) cujo
destaque vem a ser o Enunciado no 75 da I Jornada de Direito Civil do Conselho
da Justiça Federal em que dispõe que “A disciplina de matéria mercantil no novo
Código Civil não afeta a autonomia do Direito Comercial”.
Tramitam no Congresso Nacional dois projetos de lei que visam reorganizar as
normas jurídicas que, atualmente, refletem momentos históricos diferentes.
•  Projeto da Câmara dos Deputados – PLC 1572. Disponível em: <http://
www.camara.gov.br/proposicoes>. Acesso em: jul. 2018;

capítulo 1 • 18
•  Projeto do Senado Federal – PLS 487/2013. Disponível em: <https://
www25.senado.leg.br/web/atividade/materias>. Acesso em: jul. 2018.
São dados fundamentais para destacar a autonomia normativa do Direito
Empresarial e que a inserção de normas empresariais no Código Civil Brasileiro
de 2002. Reflete apenas mais uma tentativa de organização no direito privado
brasileiro.

Fontes do Direito Empresarial

Considerando que o direito empresarial é o ramo do direito que regula a ati-


vidade econômica organizada para produção e circulação de bens e serviços, bem
como todos os atos praticados para a consecução dessa atividade é possível identi-
ficar as seguintes fontes do direito empresarial:
•  Fontes materiais: fatos históricos, fenômenos socioeconômicos e políticos.
•  Fontes formais: conteúdos ou normas jurídicas, são elas que dão funda-
mento para o ramo do direito a ser estudado e são validadoras das normas jurídi-
cas estabelecidas.
As fontes materiais do Direito Empresarial já foram objeto de estudo quando
se analisaram as fases históricas deste ramo do Direito, listando os principais fatos
históricos e movimentos sociais e políticos relacionados com ele.
No que concerne às fontes formais, elas podem ser ainda fontes primárias
ou secundárias:
a) Fontes Formais Primárias:
•  Constituição da República Federativa do Brasil de 1988;
•  Leis Empresárias Especiais, tratados internacionais; decretos, instruções
normativas, regulamentos;
•  Código Civil de 2002 (Livro II – Direito de Empresa);
•  Código Comercial de 1850.

b) Fontes Formais Secundárias:


•  Código Civil de 2002;
•  Usos e Costumes do Comércio;
•  Analogia, costumes e princípios gerais do direito.

capítulo 1 • 19
Princípios constitucionais norteadores da ordem econômica

A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 em seu art. 170 de-


termina que a atividade econômica no Brasil se submeta aos seguintes princípios:

Princípio da dignidade da pessoa humana (CRFB/1988 – art.170, caput)

Em obediência a esse princípio, a atividade empresarial deve conferir a cada


pessoa uma respeitabilidade, um direito a um respeito inerente à qualidade de ser
humano. Assim, o exercício de qualquer parcela da atividade econômica de modo
não adequado àquela promoção expressará violação do princípio duplamente con-
templado na Constituição. (GRAU, p. 198)

Princípio da propriedade privada e da função social da propriedade

Princípio que identifica a função social uma limitação, no sentido de que


legítimo será o interesse individual quando estiver voltado à satisfação social, e,
não apenas quando não o exercer em prejuízo da coletividade. O princípio da
função social, dessa forma, impõe ao proprietário (ou a quem for exercer o direito
de usar, gozar e dispor da propriedade) a prática de comportamentos em benefício
da sociedade.
Portanto, o proprietário (ou o titular do poder de controle de uma empresa)
deve ter, ao mesmo tempo, um direito (livre iniciativa de empresa) e uma fun-
ção (finalidade), à satisfação das necessidades sociais de maneira lucrativa, como,
por exemplo, entrega de produtos e serviços ao público consumidor por meio da
realização do pleno emprego (que proporciona a dignidade do trabalhador), da
preservação do meio ambiente.

Princípio da livre-iniciativa (CRFB/1988 - art. 1o, IV c/c. art. 170, caput)

A previsão constitucional da livre-iniciativa estabelece que escolha de qual


atividade será empreendida assim como o quantum a ser produzido ou comercia-
lizado resultam de uma decisão livre dos agentes econômicos. Isso significa dizer
que a Constituição consagra uma economia de mercado, de natureza capitalista,
pois a iniciativa privada é um princípio básico da ordem capitalista.

capítulo 1 • 20
Princípio da valorização do trabalho humano (CRFB/1988 – art. 1o, IV c/c.
art. 170, caput)

Além de ser um princípio constitucional, é um fundamento da ordem eco-


nômica e está intimamente ligado à dignidade da pessoa humana. Este princípio
determina que a ordem econômica deva dar prioridade aos valores do trabalho
humano sobre todos os demais valores da economia de mercado.

Princípio da soberania nacional econômica (CRFB/1988 – art. 1, Inc. I c/c.


art. 170, Inc. I).

Este princípio visa garantir que o exercício de qualquer atividade econômica


realizada no Brasil não entre em choque com os interesses nacionais. A noção de
interesse nacional tem sido usada como ferramenta analítica e instrumento de
ação política. No primeiro caso, o conceito seria utilizado para descrever o me-
lhor curso da política externa de uma nação. No segundo caso, seria utilizado por
atores políticos como meio de justificar decisões tomadas, denunciar ou propor
políticas. (CONTRERA, 2015)
Assim, os interesses nacionais estão em um plano superior aos interesses do
livre exercício da iniciativa privada. Esta concepção não supõe o isolamento do
Brasil no cenário internacional, mas o desenvolvimento dos fundamentos da eco-
nomia e a superação da situação de dependência em relação às economias desen-
volvidas. (GRAU, p. 226)

Princípio da livre concorrência

Princípio que decorre da livre-iniciativa e atua como limite do seu exercício.


Visa prevenir abusos da livre-iniciativa, pois assegura o direito de todo agente
econômico de conquistar clientela, em igualdade de condições.
Desta maneira, proíbe-se a utilização incorreta da livre-iniciativa e do poder
econômico. É fundamento para a repressão do abuso do poder econômico previs-
to no artigo 173, §4o , da Constituição de 1988. Trata-se de princípio fundamen-
tal para a defesa da economia de mercado, especialmente, porque visa proteger
o mercado e os consumidores contra a tendência prejudicial da concentração de
poder nas mãos de poucos empresários.

capítulo 1 • 21
Princípio de defesa do consumidor (CRFB/1988 – art. 5o, XXXII c/c art. 170, V)

Princípio que busca incentivar o desenvolvimento das relações comerciais,


bem como viabilizar o desenvolvimento econômico e o bem-estar da coletividade,
tendo o consumidor como sujeito fundamental para a circulação de bens numa
economia de mercado, que não pode ser visto apenas como instrumento para
obtenção de lucro.

Princípio de defesa do meio ambiente

Princípio diretamente atrelado ao conceito de desenvolvimento sustentável


no sentido de preservar aquelas coisas nas quais se sustenta o desenvolvimento.
Assim, a defesa do meio ambiente está intimamente ligada ao direito – funda-
mental – à vida e, por isso, deve preponderar sobre quaisquer considerações de
desenvolvimento econômico desenfreado. Dessa forma, a tutela do meio ambiente
serve como mandamento aos agentes econômicos no exercício de qualquer inicia-
tiva privada, especialmente das atividades empresariais bem como ferramenta de
proteção da cidadania.

Princípio da redução das desigualdades regionais e sociais (CRFB/1988 –


art. 3o, III c/c art. 170, VII)

Trata-se de princípio que busca equilibrar, simultaneamente o crescimento


econômico com a redução das desigualdades econômicas a fim de erradicação a
pobreza e a marginalização social. Parte-se da premissa de que o processo de de-
senvolvimento econômico no Brasil não pode ser desenfreado. Busca-se contribuir
para o estável funcionamento dos mercados com evidente função social.

Princípio da busca do pleno emprego

Princípio que deve ser entendido como uma busca pela “expansão das oportu-
nidades de emprego produtivo” (GRAU, p. 253). Neste sentido, busca-se propi-
ciar trabalho a todos quantos estejam em condições de exercer atividade produtiva
com pleno emprego da força de trabalho capaz. Este princípio se harmoniza com
o princípio da valorização do trabalho humano, pois se impede que o princípio
seja considerado apenas como mera busca quantitativa. O homem que vive sem

capítulo 1 • 22
possibilidades de emprego, em estado de escassez econômica, está impossibilitado
para desenvolver suas capacidades básicas, situação que ofende a dignidade da
pessoa humana, inclusive.

Princípio do tratamento diferenciado para as microempresas e empresas de


pequeno porte

Princípio que visa facilitar as atividades das microempresas e empresas de pe-


queno porte e, dessa forma, promove a efetivação da livre-iniciativa, bem como
da livre concorrência. Diante disso, ocorre ampla abertura para o livre exercício
de atividade econômica, tornando mais simples a disputa saudável pelo merca-
do consumidor.
A diferença entre esses dois pequenos empresários é estabelecida na lei com-
plementar no 123/2006 (alterada pela lei complementar no 128/2008).
São esses os fundamentos que servem de base para todo o sistema jurídico, ou
seja, os alicerces das demais normas jurídicas.

Conceito jurídico de empresa – Código Civil Brasileiro de 2002

O Código Civil Brasileiro de 2002, em seu Livro II, cuidou “Do Direito de
Empresa”, que abrange os arts. 966 a 1.195. Entretanto, há outros dispositivos no
Código que se referem à matéria: arts. 45, 48, 49, 50, 51, 82, III, 89, 90, 91, 927,
parágrafo único, 931, 932, III, 933, 2.031, 2.033, 2.035, 2.037 e 2.045. Desse
modo, percebe-se o quanto é vasto este assunto. O art. 2.045 do Código Civil
Brasileiro de 2002 revogou expressamente a Primeira Parte do Código Comercial
(lei 556, de 25/6/1850), que abrangia os arts. 1o a 456, dedicados a regular a figura
do comerciante e seus auxiliares (arts. 1o a 120), os contratos e obrigações mercan-
tis (arts. 121 a 286); e as sociedades comerciais (arts. 287 a 353).
Do ponto de vista econômico, a empresa “é um organismo econômico que,
por seu próprio risco, recolhe e põe em atuação sistematicamente os elementos
necessários para obter um produto destinado à troca” (VIVANTE, p. 131). Para
Alberto Asquini, a empresa, em economia, seria “toda organização de trabalho e
de capital tendo como fim a produção de bens ou serviços para troca.” (ASQUINI,
p. 110)
Diante da dificuldade de adaptação do conceito econômico de empresa às suas
implicações jurídicas, sobreveio a obra de Alberto Asquini, demonstrando que

capítulo 1 • 23
ideia de empresa deveria ser encarada pelo direito como um “fenômeno poliédri-
co, o qual tem, sob o aspecto jurídico, não um, mas diversos perfis em relação aos
diversos elementos que o integram” (ASQUINI, p. 109). Assim, o conceito eco-
nômico de empresa recebe, do ponto vista jurídico, várias perspectivas: a figura do
empresário (sujeito), atividade (fato-empresa), e estabelecimento (coisa). Assim, o
Código Civil Brasileiro de 2002 encampou em parte a referida perspectiva jurí-
dica de Asquini: 1. Perfil Subjetivo (Pessoas): Empresário, sociedades e Empresa
Individual de Responsabilidade Limitada (EIRELI); 2. Perfil Objetivo (Coisas);
estabelecimento; 3. Perfil funcional (fato): empresa.

Elementos da organização da atividade econômica

Os elementos de empresa são os fatores de produção empregados pelo


Empresário (Individual), que são: o capital, o trabalho ou mão de obra (alheio), os
bens (a matéria-prima equipamentos, o estabelecimento – CCB/02 - Art. 1142)
e a tecnologia. Tudo o que for necessário para produção ou circulação de bens
ou prestação de serviços é visto como elementos de empresa, ou seja, a massa de
energia produtora. A organização dos elementos de empresa de forma combinada
ou inteligente varia conforme o tipo de atividade, de tal modo que compõem um
conjunto, um aparelho. Cada aspecto representa uma peça da atividade econômi-
ca toda. Separados, são apenas coisas e pessoas. Reunidos inteligentemente, for-
mam uma organização, um aparelho apto a entrar em funcionamento. Entrando
em funcionamento, surge a empresa.

Empresário individual

Conceito – Código Civil Brasileiro de 2002

Empresário é quem exerce profissionalmente atividade econômica organizada


para a produção ou a circulação de bens ou de serviços – CCB/02 – art. 966,
caput.
Assim, a caracterização do empresário individual se dá pelo efetivo exercício
profissional de atividade econômica organizada para a produção ou circulação de
bens ou serviços. Há atividade empresarial sempre que houver uma série de atos
orientados a um determinado fim. Por isso se diz atividade organizada.

capítulo 1 • 24
No Brasil, o conceito econômico de empresa (atividade econômica organiza-
da) subjaz ao conceito jurídico de empresário. O que qualifica o empresário é o
exercício de atividade econômica. Dessa maneira, a noção de empresário advém
do conceito de atividade empresarial.

Não confunda! (Confusões conceituais)

1. Empresário é pessoa física (natural);


•  Portanto não se confunde com sociedade empresária (Pessoa Jurídica).
2. Empresário (pessoa natural) é quem exerce em seu nome (individual) a ativi-
dade econômica (Empresário (Individual)).
•  Portanto não se confunde com sócio (ou acionista) de sociedade empresária;
•  O sócio (ou acionista) faz parte de um contrato (contrato social), mas quem
exerce a atividade econômica é a sociedade (pessoa jurídica) resultante do contra-
to social.
3. Empresário é pessoa física (natural), ou seja, é sujeito de direito.
•  Empresário (Individual) não se confunde com estabelecimento;
•  Estabelecimento é conjunto de bens (mesa, cadeira, imóvel, veículos etc.),
portanto objeto de direito – CCB/02 – art. 1.142.
4. Empresário (Individual) não se confunde com “firma”.
•  Esta é uma técnica de identificação do nome do empresário;
•  O nome da pessoa não se confunde com a própria pessoa.

O intuito lucrativo

No art. 966 CCB/02 “empresário é quem exerce profissionalmente atividade


econômica organizada”. A justificativa da necessidade da presença de intuito lu-
crativo como requisito da figura do empresário varia conforme seu enquadramen-
to na ideia de profissionalismo ou na ideia de economicidade:
O profissionalismo é entendido por parte da doutrina como:
•  Habitualidade (propósito de permanência) no exercício da atividade;
•  O exercício da atividade com intuito de lucro.
A economicidade, por sua vez, é entendida por parte da doutrina significando
•  O intuito lucrativo;
•  A assunção dos riscos econômicos da atividade;

capítulo 1 • 25
•  O respeito ao regime de ingressos e saídas, de modo a possibilitar a conse-
cução de um fim.
Entretanto, para alguns autores, o intuito de lucro não é elemento caracteriza-
dor do empresário (ASQUINI, p. 116), pois a norma do art. 966 não menciona
expressamente o “intuito de lucro”. Ademais, a análise do intuito do lucro só
faz sentido com relação às empresas capitalistas que pertençam ao setor privado.
Entretanto, há sociedades empresárias que, por força de lei, não têm a característi-
ca do intuito de lucro. São as sociedades empresárias do setor público (Sociedade
de Economia Mista – lei 6.404/76 – art. 238). Por outro lado, alguns autores
afirmam que o intuito lucrativo não seria elemento distintivo do empresário em
razão de os profissionais liberais, que não são considerados empresários pelo orde-
namento, também atuarem com o intuito lucrativo. (ALMEIDA, 1999)

Atividades excluídas do contexto empresarial. Atividade Intelectual – Científica –


Artística – Literária

A simples leitura do conceito de empresário contida no CCB/02 – art. 966,


caput, poderia englobar praticamente todo gênero de atividade econômica voltada
para a produção ou circulação de bens ou serviços. Entretanto, o ordenamento
jurídico brasileiro adotou o critério da empresarialidade por determinação legal.
Isso significa que será a lei que determinará quem pode ou não ser considera-
do empresário.
Dessa maneira, nem todos os agentes econômicos que exerçam atividade eco-
nômica organizada com intuito lucrativo, serão considerados empresários. Assim,
aqueles que exercem profissão intelectual (gênero), qualificada pelo aspecto pre-
dominante científico, literária ou artística (espécie), regulamentada por estatuto
próprio, também não serão tidos como empresários. Isso se dá porque esses pro-
fissionais já possuem estatuto próprio a regular sua atividade. Há também deter-
minação legal de se inscreverem em livros ou listas particulares, em detrimento da
inscrição no Registro Público de Empresas Mercantis.
Fique atento, pois não são empresários os advogados e as sociedades de ad-
vogados, por exercerem atividade privativa de advogado e regrada, portanto,
pelo Estatuto do Advogado (lei 8.906/1994 – art. 16). Assim, devem registro
no Conselho Seccional da Ordem dos Advogados (lei 8.906/1994 – arts. 10
e 15, §1o).

capítulo 1 • 26
Elemento de empresa

Agentes econômicos rurais (produtor rural) e profissionais liberais, em prin-


cípio não são empresários. Assim, as sociedades envolvendo produtores rurais,
médicos, engenheiros, advogados, não são consideradas sociedades empresárias,
porque entram no art. 966, parágrafo único, primeira parte do NCC. Contudo
no art. 966, caput, (2a parte) já dá a exceção ao dizer: “salvo se o exercício da pro-
fissão constituir elemento de empresa.” Predomina o entendimento do Professor
José Edwaldo Tavares Borba no sentido de que o aspecto intelectual constitui um
dos fatores (elementos) ou instrumentos de atuação da atividade econômica. Não
mais o principal aspecto, apenas mais um. A atividade passe a ser considerada em-
presária se o aspecto intelectual (científico, artístico ou literário) seja apenas mais
um elemento dentro de uma cadeia de atos e negócios empresariais. Neste caso, a
atividade econômica passa a ser considerada empresarial. (BORBA, 2003)

Outras hipóteses de empresarialidade por determinação


ou opção legal

1. As sociedades anônimas serão sempre sociedades empresárias independente-


mente de seu objeto (art. 982, parágrafo único).
2. As cooperativas, as quais serão sempre sociedades simples (art. 982, parágrafo
único).
3. As pessoas físicas ou jurídicas que exercerem atividade rural. Desse modo,
quem exercer atividade orientada ao cultivo do solo, à silvicultura, à pecuária e a
atividades conexas dirigidas à transformação ou alienação dos produtos agrícolas
inseridas no exercício normal da agricultura, ou seja, aquele que exercer atividade
rural, não será, de ordinário, empresário e, portanto, não estará subordinado ao
estatuto do empresário.
•  Entretanto, é possível que à pessoa natural que exercer atividade agrícola e à
pessoa jurídica que tiver por finalidade o exercício de atividade agrícola a possibili-
dade de se sujeitarem ao estatuto do empresário, mediante a inscrição no Registro
Público de Empresas Mercantis – CCB/02 – art. 971 e 984.
•  Neste caso, há hipótese legal de sujeição voluntária ao estatuto do empresá-
rio mediante a inscrição no Registro Público de Empresas Mercantis.

capítulo 1 • 27
Pressupostos para o exercício da Empresa Individual

Para ser considerado empresário, basta a pessoa física (natural) ter capacidade,
exercício efetivo da empresa (profissionalismo – finalidade de lucro) e ausência de
proibição legal. CCB/02 – art. 972.
O Registro na Junta Comercial não é, em regra, requisito para identificação
do Empresário (Individual). Ainda que pessoa exerça a empresa sem o registro,
será considerada empresária. A pessoa com capacidade que exercer a empresa com
profissionalismo e com finalidade de lucro, ainda que legalmente proibida de exer-
cer a empresa também será considerada empresária.
Assim, os requisitos para caracterização do empresário são: a) plena capacida-
de, b) exercício efetivo da empresa (profissionalismo) e c) ausência de proibição
legal.

•  Capacidade
A capacidade civil está disciplinada nos arts. 3o ao 5o do Código Civil. Terá
plena capacidade a pessoa com liberdade para administrar a si própria e aos seus
bens. A plena capacidade se adquire com a maioridade ou pela emancipação.

Exercício da empresa pelo incapaz

O incapaz também pode exercer a empresa. Entretanto, o incapaz somente


poderá dar continuidade a uma empresa já iniciada, não poderá iniciar, em nome
próprio, empresa própria – CCB/02 – art. 974. A permissão legislativa para o
exercício da empresa pelo incapaz se dá em atenção à função social de empresa
que visa permitir a preservação da empresa, da manutenção da fonte produtora,
do emprego dos trabalhadores e dos interesses dos credores.
Tais situações ocorrem quando essa pessoa já era um empresário e se torna in-
capaz de forma superveniente; ou quando já era incapaz e herda bens de empresa
estabelecida e organizada. Em ambos os casos, obviamente, a celebração de atos
jurídicos dependerá da representação ou assistência.
Entretanto, quem exerce a empresa é o incapaz. A sua responsabilidade se
dará nos termos do CCB/02 – art. 928 c/c art. 974, §2o. Os representantes ou
assistentes se apresentam sob a categoria de administradores da atividade econô-
mica e por isso respondem como tais – CCB/02 – art. 1.747 c/c. art. 1.748 c/c.
art. 1.752.

capítulo 1 • 28
Entretanto, para que um incapaz possa validamente continuar uma empresa
iniciada por alguém plenamente capaz deverá obter autorização judicial CCB/02
– art. art. 974, §1o. Uma vez concedida, essa autorização deverá ser a mesma ar-
quivada na respectiva Junta Comercial – CCB/02 – art. 976.
Pode acontecer de o próprio representante ou o assistente desse empresário
incapaz não ter plena capacidade jurídica, ou ser impedido de exercer atividade
empresarial. Neste caso, deverá, com autorização judicial, nomear administrador
– CCB/02 – art. 975. Essa nomeação não isenta o representante ou assistente do
empresário incapaz da responsabilidade pelos atos do gerente nomeado CCB/02
– art. 975, §2o.
Ademais, o Código Civil criou regra excepcional para proteção do patrimô-
nio não empresarial do incapaz autorizado à empresa – CCB/02 - Art. 974, §2º.
Trata-se de especial hipótese de patrimônio de afetação ou única hipótese de res-
ponsabilidade limitada para este específico empresário individual (GALIZZI e
CHAVES. 2004, pg. 87/88).

•  Exercício efetivo da empresa


A caracterização do empresário individual se dá pelo efetivo exercício profis-
sional de atividade econômica organizada para a produção ou circulação de bens
ou serviços.
Ao contrário senso, se a atividade econômica não for efetivamente exercida
por determinado período de tempo, o sujeito não poderá ser considerado empre-
sário e por consequência não poderá ser decretada sua falência – lei 11.101/2005
– art. 1o c/c. art. 96, VIII.
No mesmo sentido, não se considera empresário aquele que exerce certa ativi-
dade temporariamente, esporadicamente, mesmo que seus fins estejam pautados
no lucro. Portanto, aquele que episodicamente organiza ou compra certas merca-
dorias para revenda, não pode ser considerado empresário.
•  Ausência de impedimento legal. Os proibidos para atividade empresária
A atividade econômica no Brasil se submete ao princípio da livre-iniciativa
– CRFB/1988 – art. 170. Porém, a própria Constituição da República de 1988
estabelece que o exercício de profissão estará sujeito ao atendimento dos requisi-
tos previstos em lei ordinária – CRFB/1988 – art. 5o, XIII), que fundamenta a
validade das proibições ao exercício da empresa. O proibido de exercer a empresa
deve ser capaz, ou seja, possuir ampla disponibilidade para realização de negócios

capítulo 1 • 29
jurídicos, mas por força de uma vedação expressa na lei ele não pode exercer a
empresa.
Os principais impedidos de exercer a atividade empresarial são:
•  Membros da Magistratura – art. 95, PU, I da CF c/c com a LOMAN;
•  Membros do Ministério Público – art. 128, §5o, II, (c) da CR/88 c/c lei
8.625/93 (membros do MP) c/c LC 106/03 (LC estadual do MP/RJ);
•  Servidores públicos ativos – art. 117, X, c/c. art. 132, XIII da lei 8.112/90.
•  Militares da ativa – art. 29 da lei 6.880/80 c/c art. 204 do CPM
(Dl. 1001/69);
•  Médicos não podem exercer a atividade farmacêutica – lei 5.991/93 – art.
21 c/c art. 55 c/c. Dec. 20.377/31;
•  Devedores do INSS – lei 8.212/91 – art. 95, §2o, (d);
•  Prepostos/Empregados – CCB/02 – art. 1170 c/c. Art. 482 CLT;
•  Leiloeiro art. 36, alínea a, 1o do Decreto 21.981/32; 10;
•  O falido não reabilitado – lei 11.101/2005 – art. 102 c/c. art. 158, III c/c.
art. 159.
Entretanto, a despeito da proibição, se tais pessoas exercerem efetivamente a
empresa, responderão como empresários – CCB/02 – art. 973.

ATENÇÃO
Em relação aos Deputados, não há proibição expressa – art. 54, II, (a) c/c.
art. 29, IX da CRFB/1988.

A situação do estrangeiro

O estrangeiro com visto definitivo pode ser empresário no Brasil, porém tem
que ser domiciliado. Isso porque o estrangeiro com visto provisório não pode ser
empresário individual no Brasil. Lei 6.815/1980 – art. 99.

A questão do registro

Não é necessário o registro para a pessoa ser considerada empresária. O


Registro é um gênero que tem três modalidades previstas no art. 32 da lei 8.934/94:
Matrícula (inciso I), Arquivamento (inciso II) e Autenticação (inciso III). Registro
é importante para dar regularidade, publicidade e proteção jurídica ao empresário.

capítulo 1 • 30
O Registro, em regra, tem natureza declaratória – lei 8.934/1994 – art. 36. A
realização da inscrição (Registro) do Empresário (Individual) enseja uma presun-
ção relativa de que o sujeito é empresário. A presunção é relativa porque admite
prova em contrário. Nada impede que se prove que apesar do registro, aquele
sujeito nunca exerceu efetivamente a empresa.
Porém exceções, ou seja, existem dois casos em que o Registro será indispen-
sável para que a pessoa adquira a condição de empresário:
•  Art. 32, I da lei 8.934/94 = MATRÍCULA. As pessoas nas quais a lei exige
a matrícula são pessoas que só adquirem a condição de empresário após o Registro,
denominado matrícula;
•  Art. 971 e art. 984 NCC = ATIVIDADE RURAL. Quem exerce atividade
preponderantemente rural não é considerado empresário. Porém se esta pessoa
optar por se registrar na Junta Comercial, ele terá tratamento de empresário. A
ratio dos arts. 971 e 984 NCC é possibilitar a eventual recuperação da empresa
daquele que explora atividade preponderantemente rural. Se não há o Registro, a
atividade é irregular.
Ainda que irregular, o Empresário (Individual) responde por todas as suas
obrigações, civis, consumeristas, empresárias, trabalhistas, tributárias. Entretanto,
o empresário irregular não poderá:
•  Requerer a falência de outro devedor empresário por falta de legitimidade
ativa – lei 11.101/2005 – art. 97, §1o. Somente o empresário regular (devidamen-
te registrado) pode requerer a falência do seu devedor empresário.
•  Requerer recuperação judicial – lei 11.101/2005 – art. 48.
•  O empresário irregular não pode participar do procedimento licitatório –
art. 28 da lei 8.666/93.
•  Não terá direito à proteção ao nome empresarial. Art. 33 da lei 8.934/94
c/c CCB/02 – art. 1.166.
Mesmo sem registro, se o sujeito for plenamente capaz, exercer efetivamen-
te a empresa e não for proibido, ele será considerado empresário, irregular, mas
empresário com todas consequências negativas que isso pode implicar tais como:

Obrigações profissionais do empresário

Os empresários individuais possuem basicamente três obrigações fundamen-


tais, para que suas atividades sejam legalmente amparadas: 1) dever de arquiva-
mento de seus atos constitutivos na Junta Comercial; 2) dever de escrituração dos

capítulo 1 • 31
livros empresariais obrigatórios e; 3) dever de levantar, periodicamente, o balanço
patrimonial e de resultado econômico da empresa.

•  Dever de arquivamento de seus atos constitutivos na Junta Comercial


A inscrição do empresário individual deve obrigatoriamente ser feita no
Registro Público das Empresas Mercantis – CCB/02 – art. 967 c/c. art. 1.150. O
requerimento deve ser dirigido à Junta Comercial contendo os requisitos do artigo
968, do Código Civil de 2002 c/c. lei 8.934/1994 c/c Dec 1.800/1996. Caso, o
Empresário (Individual) tenha intenção de abrir uma sucursal, filial ou agência em
lugar diverso, sujeito a jurisdição de outra Junta, será tomado o mesmo caminho
anteriormente referido.
Os documentos necessários para a realização do registro de uma empresa de-
verão ser apresentados à Junta Comercial no prazo de 30 dias, contados da data
da lavratura dos atos respectivos. Feito o registro dentro do prazo legal, os efeitos
se operam ex tunc, retroagindo à data da lavratura – lei 8.934/1194 – art. 36.
Não feito em prazo legal, os efeitos serão apenas ex nunc, correndo a partir do
arquivamento feito pela Junta Comercial. Requerido o registro além desse prazo,
ele somente produzirá efeito a partir da data de concessão e não da lavratura do
ato constitutivo.

•  Dever de escrituração dos livros empresariais obrigatórios


O Empresário (Individual) deverá também utilizar sistema de escrituração de
livros, manual, mecanizado ou eletrônico – CCB/02 – art. 1.179.
Os livros empresariais têm funções gerenciais (registro de dados para análise
e avaliação); funções documentais (necessidade de demonstração ou prova dos
resultados da empresa) e função fiscal (controle de incidência de tributos).

ATENÇÃO
A falta de escrituração pode produzir consequências motivadoras e consequências
sancionatórias.
•  Consequência motivadora: a) impede acesso à recuperação judicial da empresa – lei
11.101/2005 – art. 51, §1o; b) ineficácia probatória dos livros CCB/02 – art. 226;
•  Consequência sancionatórias: a) presunção de veracidade de fatos alegados contra o em-
presário – CPC/15 – art. 417; b) tipicidade de crime falimentar – lei 11.101/2005 – art. 178.

capítulo 1 • 32
Exibição dos livros empresariais

Em regra, o Empresário (Individual) tem direito ao sigilo dos livros –


CRFB/1988 – art. 5o, XII c/c. CCB/02 – art. 1.190.
Entretanto, há situações excepcionais em que a exibição pode ser exigida de
forma parcial ou até mesmo exibição total:

•  A exibição parcial pode ser requerida:


a) Por Juiz de direito (ex officio) – CPC/15 – art. 421.
I. STF/SÚMULA no 260. O exame de livros comerciais, em ação
judicial, fica limitado às transações entre os litigantes.
II. STF/SÚMULA no 390. A exibição judicial de livros comerciais
pode ser requerida como medida preventiva.
b) Por agentes da Fazenda Pública – CCB/02 – art. 1.193 c/c. Código
Tributário Nacional – art.113 c/c. art. 195 c/c. art. 196.
c) Pelo fiscal do INSS – lei 8.212/1991 – art. 33, §1o
I. SÚMULA no 439. Estão sujeitos à fiscalização tributária ou pre-
videnciária quaisquer livros comerciais, limitado o exame aos pontos
objeto da investigação.

•  A exibição total pode ser requerida:


a) Por parte em processo judicial de liquidação, sucessão, comunhão ou
sociedade, administração de bens alheios ou falência – CCB/02 – art. 1191
c/c. CPC/15 – art. 420.
b) Por sócios ou administradores de sociedade empresária – CCB/02 –
art. 1021.

Eficácia probatória dos livros empresariais

A produção dos dados nos livros empresariais decorre de atos unilaterais.


Portanto é um documento unilateral. Assim, em nenhuma hipótese faz pro-
va plena.
A prova pode ser a favor do Empresário (Individual) se houver:
•  Regularidade na escrituração – CCB/02 – art. 226 c/c. art. 1.179 c/c. art.
1.180 c/c. 11.183;
•  Isonomia das partes litigantes.

capítulo 1 • 33
A prova pode ser contra o Empresário (Individual) se não houver regularidade
ou se a outra parte for hipossuficiente e teve direito à inversão do ônus da prova –
CCB/02 – art. 226 c/c CPC/15 – art. 417.
•  Dever de levantar, periodicamente, o balanço patrimonial e de resultado
econômico da empresa.
O Empresário (Individual) também dispõe do dever de levantamento do ba-
lanço patrimonial e de resultado econômico. Estes deverão ser feitos anualmente –
CCB/02 – art. 1.179 c/c 1.180. No caso das sociedades anônimas, que distribuem
dividendos a cada seis meses, o balanço deverá ser semestral – lei 4.595/1964
– art. 31.
O balanço patrimonial serve para demonstrar a situação real da empresa, indi-
cando seu ativo e passivo, ou seja, todos os bens. Já o de resultado acompanhará o
de balanço patrimonial e constarão crédito e débito.
Estas informações são de extrema importância, para que seja avaliada, anual-
mente ou semestralmente, como a empresa está em relação a lucros, dividendos,
bens etc.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Legislativa, 143/212, ano 36, jul.-set. 1999.
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VIVANTE, Cesare. Tratado de derecho mercantil. Versão espanhola da quinta edição italiana. Trad.
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capítulo 1 • 35
capítulo 1 • 36
2
Empresa
Individual de
Responsabilidade
Limitada - (EIRELI)
e Estabelecimento
Empresa Individual de Responsabilidade
Limitada - (EIRELI) e Estabelecimento

Introdução

O ambiente jurídico e econômico no Brasil sempre conviveu com a necessi-


dade de implementar mecanismos que, ao mesmo tempo, proporcionam segu-
rança e simplicidade aos agentes econômicos. Em momento propício, a matéria
relativa à limitação patrimonial do empresário individual deu margem a criação
da Empresa Individual de Responsabilidade Limitada (EIRELI) instituído pela
Lei nº 12.441/2011.
Entretanto, a necessidade de limitação da responsabilidade patrimonial para
o empresário individual ainda é um fato, pois, apesar de sua presença em vários
países, observa-se que tanto os doutrinadores quanto legisladores brasileiros, não
conseguiram distinguir a limitação da responsabilidade do empresário individual
do conceito de sociedade e seus sócios.
Desse modo, embora haja certa acomodação, ainda se faz necessária a criação
de um meio técnico que permita ao empresário individual a prática de suas ati-
vidades afastado da responsabilidade patrimonial ilimitada, que até o momento
norteia esse exercício.
A atividade econômica empresarial é o principal fator impulsionador do de-
senvolvimento sócio-econômico, mas, a exploração de uma atividade econômica
organizada sempre envolve risco de insucesso, seja para os sócios de uma sociedade
empresária, seja para o empresário individual. No que concerne ao empresário
individual, entretanto, que está mais exposto, uma vez que responde com todos os
seus bens disponíveis perante os credores vinculados ao exercício da sua atividade
econômica, o risco é sempre mais elevado.
Por outro lado, é sabido que os empresários e as sociedades empresárias, ao
exercerem a atividade empresarial, organizam um conjunto de bens instrumen-
tais voltados à obtenção de bens destinados à satisfação de necessidades alheias, e
este conjunto de bens instrumentais, por sua orientação teleológica, assume um
significado técnico e econômico distinto dos bens individuais que o compõem.
A reunião destes bens constitui o conceito de estabelecimento empresarial como
sendo "todo complexo de bens organizados, para o exercício da empresa, por em-
presário ou sociedade empresária" (ccb/02 - art. 1142 ). Assim, o estabelecimento
empresarial assume uma significação econômica superior ao da soma dos bens

capítulo 2 • 38
individuais que o compõem, de modo que há a necessidade de que a lei assegure
normas aptas a disciplinar esta realidade e as consequências em caso de alienação,
pois neste caso deve-se identificar qual é o bem que se pretende transferir.

OBJETIVOS
Neste capítulo, você vai ter oportunidade de estudar A empresa individual de responsabi-
lidade limitada - EIRELI, seu conceito, natureza jurídica, características, titularidade, patrimô-
nio e suas responsabilidades, bem como terá oportunidade de estudar também o conceito,
natureza e efeitos da negociação do estabelecimento empresarial.

Empresa individual de responsabilidade limitada (EIRELI)

A limitação da responsabilidade do empresário individual

O Empresário (Individual), como você já estudou, é um agente econômico


que, no exercício da atividade econômica se coloca em inúmeras relações jurí-
dicas: no contrato de trabalho com seus funcionários, nos contratos com seus
fornecedores, nas relações de consumo e nas relações tributárias. Como já visto,
a Responsabilidade do Empresário (Individual) é ilimitada – CCB/02 – art. 391
c/c CPC/15 – art. 789. Em caso de inadimplemento inescusável de suas obriga-
ções responde o Empresário (Individual) com todos os seus bens disponíveis, res-
salvadas as exceções legais – CCB/02 – art. 1.711 a art. 1.722 c/c. lei 8.009/1990
c/c. CPC/15 – art. 833.
Dentre os vários riscos que a atividade econômica já enseja no Brasil, o risco
de perder todos os bens angariados por toda uma vida acaba sendo mais um dado
desencorajador da livre iniciativa empresarial, o que inibe o desenvolvimento na-
cional – CRFB/1988 – art. 1o, IV c/c art. 3o, II c/c art. 170.
Diante desse cenário é que a limitação da responsabilidade do empresário
passou a ser assunto recorrente na história recente do direito empresarial. A pos-
sibilidade de evitar que o patrimônio pessoal ou familiar do empreendedor fique
sujeito aos riscos dos negócios influenciou as diversas hipóteses de limitação de
responsabilidade dos sócios nas estruturas societárias. Faltava apenas um meca-
nismo de limitação da Responsabilidade do Empresário (Individual). Esta lacuna
veio a ser preenchida com a lei 12.441/2011 que inseriu o art. 980-A no Código
Civil Brasileiro de 2002.

capítulo 2 • 39
Conceito de empresa individual de responsabilidade limitada no Brasil – EIRELI1

A empresa individual de responsabilidade limitada (EIRELI) é conceitua-


da pelo próprio Código Civil Brasileiro de 2002 afirmando que a mesa deve ser
constituída por uma única pessoa, titular da totalidade do capital, devidamente
integralizado, não inferior a 100 vezes o maior salário mínimo vigente no País. –
CCB/02 – art. 980-A.

Natureza jurídica

A EIRELI identifica-se como pessoa jurídica de direito privado voltada ao


exercício de atividade econômica com titular e patrimônio próprio (CCB/02 –
art. 44, VI, c/c art. 980-A).

Características e distinções

A partir do conceito e de sua natureza jurídica torna-se possível traçar algumas


características do instituto. (GONÇALVES NETO, p. 153-180)
•  A primeira característica é que a EIRELI não se confunde com
Empresário (Individual), pois o empresário identifica-se como pessoa físi-
ca (natural) com Responsabilidade ilimitada (CCB/02 – art. 391) e a EIRELI
é uma pessoa jurídica (CCB/02 – art. 44,VI) cuja pessoa que a constitui tem
Responsabilidade limitada (CCB/02 – art. 980-A).
Ainda que não seja Empresário (Individual), devem ser exigidos os requisitos
(CCB/02 – art. 972) da figura do empresário para a pessoa física (natural) que
queira constituir a EIRELI tendo em vista que ela (pessoa jurídica) age pelos atos
dele (criador).
•  A segunda característica da EIRELI é que esta não se confunde com so-
ciedade empresária. Isso pode ser afirmado pelo fato de que o CCB/02 – em seu
art. 44 faz expressa distinção entre as sociedades (CCB/02 – art. 44, II) e a Empresa
Individual de Responsabilidade Limitada (EIRELI – CCB/02 – art. 44, VI). Esta
distinção pode ser percebida pelo fato de que as sociedades, em regra, exigem a
presença de pelo menos dois sócios (CCB/02 – art. 981) e a EIRELI é constituída
por apenas uma pessoa (CCB/02 – art. 980-A) e assim pode permanecer por prazo
1  Pronúncia correta: Apesar de a sigla Eireli ser comumente pronunciada com ênfase na letra "e" ("Ei-ré-li"), a
forma correta foneticamente deve destacar a letra "i" (Ei-re-lí), já que palavras terminadas em "i" ou "u" compondo
sílaba com outra letra são oxítonas.

capítulo 2 • 40
indeterminado. Desta distinção é possível afastar qualquer concepção de que a
EIRELI seja sociedade unipessoal.
•  O ato constitutivo da EIRELI identifica-se como uma declaração uni-
lateral de vontade. Assim, é espécie do gênero dos negócios jurídicos unilaterais.
Afasta-se, portanto, da ideia de contrato (unilateral, bilateral ou plurilateral).
•  A limitação da responsabilidade patrimonial do titular do capital atri-
buído aos negócios realizados pela empresa exercida pela pessoa jurídica. Trata-se
de inovação no direito brasileiro, pois a limitação da responsabilidade pelas obri-
gações decorrentes de uma atividade econômica só era atribuída apenas aos sócios
de determinadas pessoas jurídicas.
•  Quem realiza a atividade econômica é a pessoa jurídica, pois a pessoa que
cria a EIRELI não pratica pessoalmente nenhum ato concernente aos fins da em-
presa, mas o faz como se fora ela, na qualidade de ser humano que exterioriza a
vontade da pessoa jurídica.
•  Outra característica destacável encontra-se na EXIGÊNCIA DE UM
CAPITAL MÍNIMO. Neste ponto, pouco importa a atividade econômica exer-
cida pela pessoa jurídica e a forma do ato de sua constituição. Como não há “só-
cios”, o capital deixa de ser fracionado em cotas ou ações, para consolidar-se como
um todo indiviso.
•  A EIRELI não se confunde com um patrimônio de afetação. Este carac-
teriza-se como um conjunto de bens (patrimônio separado), porém inserido no
patrimônio de um mesmo sujeito de direito, submetido a um regime jurídico pró-
prio, diferente do regime jurídico que incide sobre o restante do patrimônio dessa
mesma pessoa. Ocorre que o legislador atribuiu personalidade jurídica (CCB/02
– art. 44, VI c/c art. 45) a esse novo sujeito (EIRELI), não há como enquadrá-la
assim.
•  A EIRELI não se confunde com fundação. Embora ambas as hipóteses
sejam pessoa jurídica de direito privado (CCB/02 – art. 44, III e VI) passível de
atribuição de direitos e obrigações (personalização – CCB/02 – art. 45), há várias
diferenças entre elas:
a) Fundação deve ter finalidade não econômica (CCB/02 – art. 62)
enquanto a EIRELI pode ser constituída com fim lucrativo empresarial
(CCB/02 – art. 980-A, caput c/c §5o).
b) Além disso, uma vez criada a fundação, esta destaca-se da pessoa do
fundador, ao passo que a EIRELI permanece sempre vinculada ao criador.

capítulo 2 • 41
c) Do mesmo modo, o patrimônio da fundação desprende-se totalmente
da pessoa do instituidor, sem qualquer contrapartida, ao passo que o da-
quela, conquanto autônomo, mantém-se vinculado à pessoa que for titular
do seu capital.
d) A dissolução da EIRELI pode ser determinada a qualquer tempo pelo
titular do seu capital, retornando os bens remanescentes ao patrimônio
do criador ou, por seu falecimento, incorporando-se ao de seus herdeiros.
Diversamente ocorre na fundação, em que a dissolução se dá sem partici-
pação do instituidor, mesmo em caso de morte deste em que também não
afeta a pessoa jurídica (fundação), e os bens dela, em regra, migram para
entidade de fins iguais ou semelhantes (salvo cláusula em contrário).
•  A EIRELI não se confunde com estabelecimento empresarial.
Como já afirmado a EIRELI é pessoa jurídica de direito privado (CCB/02
– art. 44, VI). Portanto é passível de ser sujeito titular de direito e obrigações
(CCB/02 – art. 45). O estabelecimento por sua vez caracteriza-se como um con-
junto (complexo) de bens materiais ou imateriais utilizados pelo Empresário
(Individual), sociedade empresária ou pela própria EIRELI para o exercício da
empresa (CCB/02 – art. 1.142). Dessa forma, não se pode falar em transferência
onerosa da EIRELI como se esta fosse objeto de trespasse (CCB/02 – art. 1.145
c/c art. 1.146). O que pode ocorrer e a pessoa jurídica da EIRELI negociar o seu
próprio estabelecimento, dispondo livremente de seus bens, inclusive da totali-
dade deles, dá-los em usufruto ou onerá-los. Neste caso a EIRELI, figura como
parte na relação jurídica que o tenha o estabelecimento como objeto, ressalvada
a hipótese de a EIRELI alienar o próprio estabelecimento para o titular e criador
do seu capital, sendo a EIRELI sujeito ativo ou passivo de uma relação jurídica da
qual participe em polo oposto o seu criador. Esta vedação se dá porque quem ma-
nifesta a vontade da EIRELI é seu próprio do criador da empresa – o que elimina
a caráter intersubjetivo da relação.

O titular do capital da empresa individual de responsabilidade limitada

O capital da EIRELI pode, desde março de 2017, ser constituído por qual-
quer pessoa: pessoa física (natural) ou pessoa jurídica.
A norma (CCB/02 – art. 980-A) não identifica se a constituição de EIRELI
possa ser feita pessoa física (natural) ou pessoa jurídica que se dedique ao exercício
de atividade própria de empresário ou por sociedade empresária.

capítulo 2 • 42
Ainda que se deva considerar que o instituto tenha sido pensado e concebi-
do com o fim de proteger a atividade econômica e o patrimônio do Empresário
(Individual) para reduzir os riscos do seu negócio (a deve-se ponderar que no
projeto de lei original, que deu origem à lei 12.441/2011 (PL 4.605/2009), a
redação original, propunha a criação da empresa individual constituída “por um
único sócio, pessoa natural”. Entretanto, tal redação foi modificada (sem motiva-
ção), para “por uma única pessoa”, ou seja, a expressão “natural” foi intencional-
mente retirada.
A IN 117/2011 – DNRC (Departamento Nacional de Registro do
Comércio), à época, baixou o Manual de Atos de Registro de Empresa Individual
de Responsabilidade Limitada, no qual admitia a possibilidade da EIRELI ser
constituída por pessoa jurídica, mas, posteriormente, republicou a referida nor-
mativa para vedar essa alternativa.
Ocorre que o DNRC foi substituído pelo DREI (Departamento de Registro
Empresarial e Integração) ligado à Secretaria Especial da Micro e Pequena Empresa
que, a partir de março de 2017, em sua Instrução Normativa no 38/2017, passou
a admitir, que pessoa jurídica constitua EIRELI (DREI – IN no 38/2017 – Anexo
V – item 1.2.5. alínea C).
Muito provavelmente esta mudança de orientação tenha se dado pela força da
norma constitucional que determina que ninguém pode deixar de fazer alguma
coisa senão em virtude de lei (CRFB/1988 – art. 5o, II). Se a lei (CCB/02 – art.
980-A) não proíbe a constituição de EIRELI por pessoa jurídica, não seria cabível
um ato administrativo (instrução normativa) extrapolar seus limites normativos e
impor tal proibição.

Responsabilidade do titular do capital

O criador da EIRELI somente terá direito à Responsabilidade limitada se


atendidas as regras estabelecidas para sua regular constituição e que seu capital
esteja totalmente integralizado no momento em que o ato constitutivo for levado
a registro perante a Junta Comercial. Caso haja irregularidade na sua constituição
não se pode falar em produção dos efeitos de limitação da responsabilidade de seu
criador. Dessa forma, cabe à Junta Comercial local aferir a presença dos requisitos
da constituição da EIRELI (CCB/02 – art. 1153).

capítulo 2 • 43
Assim, os efeitos desejados pelo criador não serão produzidos se, por exemplo:
•  Houver realização parcial do capital.;
•  Se houver promessa de integralização futura representada por título
de crédito;
•  No caso de integralização com um bem de valor real inferior ao do que for
estimado pelo titular;
•  Se o titular do capital, na condução dos negócios da empresa, desviar-se dos
fins a que ela se propõe ou praticar alguma ilegalidade;
•  Se não mantiver perfeita separação entre o seu patrimônio e o da empresa
por ele criada - hipótese que conduz à desconsideração da personalidade jurídica
(CCB/02 – art. 50);
•  Se o titular do capital atua fora dos padrões de conduta que a lei exige do
administrador, o que acarreta sua obrigação pessoal (CCB/02 – art. 980-A, §6o
c/c. art. 1.053 c/c art. 1.011 c/c. art. 1.016);
•  O não recolhimento das contribuições previdenciárias retidas
dos empregados.

Modo de constituição

A constituição da EIRELI deve se dar por meio de uma declaração unilateral


de vontade, firmada pelo seu criador, em instrumento público ou particular, no
qual devem estar presentes as exigências regulamentares constantes do Manual dos
Atos de Registro, aprovado pela já noticiada DREI – IN no 38/2017 – Anexo V.
Após a inscrição do ato constitutivo na Junta Comercial, a EIRELI adquire perso-
nalidade jurídica – CCB/02 – arts. 44 e 45.

Nome empresarial

A EIRELI deve ser identificada por seu nome empresarial. Este nome pode
ser uma firma como uma denominação, à semelhança das sociedades limitadas
(CCB/02 – art. 980-A, §1o c/c §6o). Para distingui-la do empresário e da socie-
dade empresária, a lei determina que seja acrescida a expressão “Eireli” no final
do nome que for a ela atribuído. A eventual omissão da sigla “Eireli” na firma ou
denominação implica perda da limitação da responsabilidade da pessoa física que
a gerou. (CCB/02 – art. 1.158, §3o)

capítulo 2 • 44
Objeto

A atividade econômica da EIRELI tem de figurar de forma precisa e completa


no ato constitutivo. Deve-se destacar que é recomendável que se adote um ramo
da atividade econômica próprio de empresário, tendo em vista que desde a sua
origem o sujeito que se pretendia atender e a atividade econômica visada era a ati-
vidade econômica empresarial evidencia-se que a EIRELI foi criada especialmente
com o propósito de limitar a responsabilidade do empresário (individual), sendo
sujeita à inscrição no Registro Público de Empresas Mercantis. (CCB/02 – art.
1.033, parágrafo único).
Entretanto, o legislador expressamente permite que a EIRELI seja constituída
para a prestação de serviço de qualquer natureza (CCB/02 – art. 980-A, §5o).
Deste modo, a meu ver, a EIRELI não necessariamente deva envolver atividade
econômica de natureza empresarial, mas sim e também atividade econômica in-
telectual ou rural.

Capital

A EIRELI deve ter um capital para determinar sua situação econômico-finan-


ceira assim como ocorre com o empresário e a sociedade empresária. Em que pese
o argumento de evitar entidades fictícias, a obrigatoriedade de sua constituição
com um piso não inferior ao valor de 100 salários mínimos pode impossibilitar
ou pelo menos dificultar a adoção do instituto da EIRELI pelo microempreendor
individual – MEI, pois este profissional já possui vantagens tributárias se obtiver
no ano receita bruta inferior a R$ 60.000,00. (art. 18-A, §1o, da LC 123/2006)

Administração

A administração da EIRELI pode ser feita pela própria pessoa (natural ou


jurídica) que a criou, de forma direta, ou por pessoa estranha à vontade constitu-
tiva originária. A possibilidade de administrador diferente da pessoa criadora da
EIRELI decorre de não haver vedação legal e por estar em consonância com a pos-
sibilidade de administrador estranho ao quadro constitutivo da sociedade limitada
(CCB/02 – art. 1.061). Neste caso, o administrador diverso da pessoa criadora da
EIRELI, age pela pessoa jurídica, fazendo-a presente, obrigando (CCB/02 – art.
47) e responsabilizando (CCB/02 – art. 391) a EIRELI pelos atos praticados em

capítulo 2 • 45
seu nome. Agindo de boa-fé, com o cuidado e a diligência que todo homem ativo
e probo costuma empregar na administração de seus próprios negócios (CCB/02
– art. 1.011) não se vincula aos atos que pratica em nome dela; age como se fosse a
própria pessoa jurídica. Porém, responsabiliza-se pelos atos de administrador que
culposamente causar dano a terceiros. (CCB/02 – art. 980-A, §6o c/c. Art. 1.053
c/c. Art. 1016 c/c)

Dissolução e liquidação

O Código Civil Brasileiro de 2002 não definiu normas específicas para disso-
lução da Empresa Individual de Responsabilidade Limitada (EIRELI). Entretanto,
há previsão expressa para aplicação das normas de dissolução das sociedades às
demais pessoas jurídicas (CCB/02 – art. 51, §2o) bem como previsão de aproxi-
mação normativa às sociedades limitadas (CCB/02 – art. 980-A, §6o).
Assim, devem-se aplicar as disposições que regulam a dissolução das sociedades,
naquilo que forem compatíveis com a Empresa Individual de Responsabilidade
Limitada (EIRELI).
Dessa forma, da análise dos artigos 1.033, 1.034 e 1.044 do CCB/02 pode-se
afirmar que a EIRELI será dissolvida:
•  Pelo advento do termo do seu prazo de duração (CCB/02 – art. 1.033, I);
•  Pela vontade de seu titular;
•  Pela extinção da autorização para funcionar no ramo de negócio que cons-
titui seu objeto (CCB/02 – art., 1.033, V);
•  Pela anulação de sua constituição (CCB/02 – art. 1.034, I);
•  Pela falência (CCB/02 – art. 1044, fine).
As hipóteses do CCB/02 – art. 1.033, II, III e IV, bem como CCB/02 – art.
1034, II são incompatíveis com a EIRELI tendo em vista a ausência de “sócios” e
“sociedade” associada à EIRELI.
Quanto à liquidação, (procedimento voltado à realização do ativo e o paga-
mento do passivo pendente) esta poderá ser conduzida pelo próprio titular da
EIRELI ou terceiro estranho à atividade econômica (CCB/02 – art. 1038). A rea-
lização do ativo significa a venda dos bens para viabilizar o pagamento das dívidas.
Entretanto, esta operação pode ser dispensada, caso a EIRELI tenha bens suficien-
tes para honrar seu passivo. Uma vez encerrada a liquidação com o pagamento das
dívidas, o titular do capital remanescente não precisará prestar contas a si mesmo.
Entretanto, deverá averbar junto ao Registro Público de Empresas Mercantis um

capítulo 2 • 46
balanço de encerramento da empresa, no qual fiquem demonstrados o ativo rea-
lizado, o passivo satisfeito e o resultado final apurado para fins de obtenção de
cancelamento da inscrição. (CCB/02 – art. 1.109 c/c Art. 51, §3o)

Aplicação subsidiária das regras previstas para a Sociedade Limitada

O Código Civil Brasileiro de 2002 determina que à EIRELI devem ser aplica-
das, no que couber, as regras previstas para a sociedade limitada. Nada impede que
sejam aplicadas à EIRELI as normas da sociedade simples, em caráter supletivo
das omissões do regime jurídico da sociedade limitada. (CCB/02 – art. 1.053)
Destas assertivas, fica patente que muitas normas da sociedade limitada são
incompatíveis com a EIRELI. Assim, não se aplicam as normas relativas a cotas so-
ciais, tendo em vista que o capital da EIRELI não é fracionado em cotas (CCB/02
– art. 1.055 a 1.058). Assim como não são aproveitáveis, as disposições referentes
à realização de reuniões, assembleias, quóruns, maiorias para deliberações entre só-
cios (CCB/02 – art. 1.071 a 1.080, 1.085 e 1.086). Também são incompatíveis as
normas relativas à instalação de conselho fiscal quando a EIRELI for administrada
pelo próprio titular. Poderá haver instalação de conselho fiscal quando a EIRELI
for administrada por mais de um administrador e seja conveniente a existência de
órgão fiscalizador.
Entretanto, há normas que podem (ou devem) ser aplicadas à EIRELI:
•  No que se refere ao capital a que se refere à fixação de critério de
Responsabilidade patrimonial quanto à integralização. (CCB/02 – art. 1055, §1o);
•  A norma que se refere à reposição de lucros e quantias retiradas a qualquer
título, quando distribuídos com prejuízo do capital. (CCB/02 – art. 1.059);
•  Normas que dizem respeito à administração. (CCB/02 – art. 1.060 a 1.065);
•  Normas referentes a modificação do capital social (CCB/02 – art. 1.081 e
1.082), respeitado seu valor mínimo. (CCB/02 – art. 980-A);
•  Normas referentes à dissolução e liquidação. (CCB/02 – art. 1.087).

Estabelecimento empresarial

Conceito

De todas as normas que integram o universo do direito empresarial contido no


Código Civil Brasileiro de 2002, as que disciplinam o estabelecimento empresarial

capítulo 2 • 47
se destacam como uma das inovações mais importantes. Em que pese o Código
Civil Brasileiro de 2002 tenha se referido também a expressão “estabelecimento
civil” (CCB/02 – art. 5o, V), você irá estudar os aspectos mais relevantes do es-
tabelecimento empresarial, aqui designado simplesmente como estabelecimento.
O conjunto de bens utilizado pelos agentes econômicos, voltado à satisfação
de necessidades alheias é identificado como instrumento da atividade econômica
(REQUIÃO, 2003) e assume significado técnico e econômico distinto dos bens
individuais que o compõem. Dessa concepção é que se extrai o conceito de estabe-
lecimento como complexo de bens organizados, para o exercício da empresa, por
empresário ou sociedade empresária. (CCB/02 – art. 1.142)

Natureza jurídica

A natureza jurídica do estabelecimento é historicamente controvertida


na doutrina.
Houve autores que sustentavam que o estabelecimento não constituía um
novo bem, distinto dos bens individuais que o formavam, foi denominada de
teoria atomista. Dessa forma, a disciplina jurídica do estabelecimento deveria ser a
mesma dos diversos bens que integram o seu conteúdo. Assim, cada bem conser-
varia a sua disciplina jurídica própria. (MORAES FILHO, p. 125)
Entretanto, predomina a tese de que a ideia de empresa, como realidade eco-
nômica de coordenação dos fatores de produção, levou ao reconhecimento do es-
tabelecimento como bem jurídico distinto dos bens individuais que o compõem.
O estabelecimento como algo formado por coisas, ou seja, uma universalidade
que reclamaria regras próprias (CCB/02 – art. 90 c/c. art. 91). São as denomi-
nadas teorias universalistas, que reconheciam o estabelecimento como um novo
bem. Para estas teorias universalistas, o estabelecimento é reconhecido como algo
complexo que pode ser objeto de negócios jurídicos distintos dos negócios re-
ferentes às coisas que a compõem. É desta concepção inicial que se atribui ao
estabelecimento a natureza jurídica inicial de ser um objeto de direito. (CCB/02
– art. 1.143)
No entanto, ainda persistia divergência quanto ao conteúdo do estabeleci-
mento como universalidade. Para alguns autores, o estabelecimento seria uma
universalidade de direito, formado por relações jurídicas patrimoniais reunidas
por disposição de lei.

capítulo 2 • 48
No ordenamento positivo brasileiro, o estabelecimento é reconhecido em sua
unidade estrutural e funcional, como um conjunto de bens. Consiste em uma
universalidade, que pode ser objeto unitário de negócios translativos ou consti-
tutivos. (CCB/02 – art. 1142 c/c art. 90)
Ocorre que o estabelecimento tem um regime de circulação próprio, distinto
do regime de circulação das coisas singulares que o compõem (CCB/02 – art.
1.144). Tal fato estabelece a necessidade de averbação à margem do registro do
empresário e de publicação na imprensa oficial para que a alienação do estabe-
lecimento seja eficaz em relação a terceiros. Logo, a análise do estabelecimento
pode ser feita também. Acerca das consequências previstas pelo Código para o
negócio de alienação do estabelecimento (denominado de negócio de trespasse).
Desse modo, o estabelecimento é formado por relações jurídicas patrimoniais,
pois o adquirente do estabelecimento sucede o alienante nas obrigações referentes
ao estabelecimento anteriores à alienação. (CCB/02 – art. 1.146).
Portanto, pode-se chegar a uma concepção intermediária sobre sua natureza
jurídica pois, por um lado, o estabelecimento é um objeto de direito qualificado
como uma universalidade de fato (CCB/02 – art. 1.143 c/c art. 90), pois os bens
que compõem o estabelecimento são reunidos por vontade do agente econômico
(empresário, sociedade empresária, sociedade simples, EIRELI). Trata-se de uma
coisa complexa formada por bens. (CCB/02 – Art. 1.142)
Por outro lado, o Código Civil Brasileiro de 2002 afirmou a noção de esta-
belecimento como um complexo patrimonial (conjunto de relações jurídicas,
chamado pelos italianos de “patrimônio aziendal” (ASQUINI, p. 13) no sentido
de que na sua transferência, o adquirente do estabelecimento sucede o alienante
nas obrigações referentes ao estabelecimento anteriores à alienação. (CCB/02 –
art. 1.146)

Elementos

O estabelecimento, enquanto universalidade, é formado por bens materiais ou


imateriais (corpóreos e incorpóreos) organizados pelo empresário para o exercício
da atividade empresarial. Pode ser entendido também como o conjunto de meios
destinados ao exercício da atividade comercial.
Assim, são elementos do estabelecimento uma mesa, uma cadeira, um
computador, um bem imóvel na qualidade de bens materiais. Porém, podem

capítulo 2 • 49
compor também o estabelecimento bens imateriais como o nome do Empresário
(Individual) ou da sociedade empresária, uma marca o título de estabelecimento.
a) Classificação dos elementos:
Não há como definir os elementos do estabelecimento empresarial, pois estes
dependerão da atividade exercida, sendo possível apenas classificá-los:
•  Bens corpóreos (ou materiais): são aqueles que podem ser tocados. Ex: ma-
quinário, estoque, veículos. Bens incorpóreos (ou imateriais): nome, marca, pa-
tente, invenção.

Os contratos integram o estabelecimento?

Ainda que pairem dúvidas se os contratos possam ou não ser parte integrante
do estabelecimento, pode-se sustentar que eles, os contratos, enquanto fonte de
relações jurídicas que atribuem direitos aos sujeitos, integram o estabelecimento.
Isso se dá porque se deve atentar para a realidade econômica sobre como mui-
tos agentes econômicos exercem a atividade econômica. Em muitos casos, a ativi-
dade econômica é exercida sem que sejam titulares de posição jurídica de direito
real algum, ou seja, não são proprietários de alguns dos instrumentos da atividade.
Muitos empresários celebram contrato de locação comercial (não residencial) de
bem imóvel (sala alugada) para o exercício da atividade. Muitos contratam leasing
de maquinário ou contrato de franquia. Outros ainda adquirem o direito de uso
de marca de titularidade alheia. Nesses e em outros casos, o que os empresários or-
ganizam não são coisas alheias, mas relações jurídicas, isto é, coisas e ações huma-
nas, no sentido de comportamento que as pessoas podem exigir umas das outras.
(GOMES, p. 199)
Há autores que retiram os contratos da estrutura interna do estabelecimento
(REQUIÃO, p. 209). Entretanto, predomina a ideia de que o estabelecimento,
além de ter elementos relativos aos direitos reais (bens ou coisas corpóreas), é
composto também por posições contratuais, relativos ao direito ao arrendamento,
direito ao contrato de trabalho etc. O estabelecimento é composto ainda por bens
imateriais (bens ou coisas incorpóreas) relacionadas a posições jurídicas também
imateriais (incorpóreas), como o direito à firma, a marca ou o pedido do seu regis-
tro e suas respectivas proteções. (CORDEIRO, p. 243)

capítulo 2 • 50
A clientela integra o estabelecimento?

Alguns autores incluem a clientela também como elemento do


Estabelecimento Comercial.
No entanto, a clientela constitui o conjunto de pessoas que habitualmente
consomem os produtos ou serviços fornecidos por um empresário. A proteção
jurídica conferida ao empresário, no sentido de não se ver tolhido da clientela
conquistada, em razão de condutas deploráveis de seus concorrentes, não significa
que a clientela integre o seu patrimônio. A clientela, pelo fato de constituir um
conjunto de pessoas, torna-se insuscetível de apropriação por qualquer outra pes-
soa. Portanto não há que se falar em direito adquirido em relação à clientela.
Dessa maneira, a clientela é apenas um dos atributos que podem se agregar ao
estabelecimento empresarial.

O aviamento integra o estabelecimento?

O aviamento representa a aptidão do estabelecimento para produzir lucros,


proporcionando acréscimo no valor, somando-se à mera soma dos bens que o
compõem. É o potencial de lucratividade da empresa. Nesse contexto, o avia-
mento deve ser tido como verdadeiro atributo do estabelecimento empresarial.
Assim, o aviamento não pode ser caracterizado como sujeito ou como objeto de
direito. Não pode ser ele objeto autônomo de negociações jurídicas, não podendo
ser alienado, arrendado ou disposto por qualquer ato inter vivos ou causa mortis.
O aviamento pode representar a forma como ficam organizados os bens para
o exercício da atividade, sua disposição na loja, a espécie ou qualidade das mer-
cadorias, ou produtos que são comercializados (aviamento objetivo) ou também
pode se referir às qualidades pessoais do próprio empresário, seus empregados e o
trato com a clientela.
Entretanto, o aviamento é um importante aspecto econômico que acompanha
o conjunto de bens que integram o estabelecimento. O aviamento tem grande
relevância em qualquer negociação que envolva o estabelecimento, inclusive em
caso de apuração de haveres (CCB/02 – art. 1.187, parágrafo único, Inc. III).
Nesse sentido, determina o legislador que a quantia efetivamente paga a título de
aviamento de estabelecimento adquirido pelo empresário ou sociedade empresá-
ria poderá figurar entre os valores do ativo, desde que se proceda, anualmente, a
sua amortização.

capítulo 2 • 51
O ponto empresarial integra o estabelecimento?

Ponto Comercial é o local específico em que se encontra o estabelecimento e


para onde converge toda a sua freguesia ou clientela. Dentre os bens incorpóreos
do estabelecimento, um deles constitui o ponto comercial e dele faz parte. A loca-
lização do Estabelecimento Comercial constitui fator fundamental para o aumen-
to ou a diminuição do valor do próprio Estabelecimento Comercial. Portanto, o
ponto empresarial ou comercial faz parte do estabelecimento.
Independentemente de como surge o ponto comercial, ele sempre acresce (au-
menta) o valor de mercado do imóvel no qual ele se insere, aumentando o valor do
patrimônio de seu proprietário.
Cumpre destacar que o ponto comercial não se confunde com o imóvel no
qual ela se insere, ou seja, com a propriedade imobiliária. O empresário pode
exercer a sua atividade em determinado local (ponto comercial), utilizando-se de
um imóvel próprio ou alheio.
Quando o comerciante utiliza-se de imóvel alheio, realiza-se, normalmente,
um contrato de locação não residencial (ou locação comercial).
•  PROTEÇÃO AO PONTO COMERCIAL -> LOCAÇÃO COMERCIAL
O Direito brasileiro protege o ponto comercial ou empresarial, principalmen-
te, por meio do instituto da RENOVAÇÃO COMPULSÓRIA DO CONTRATO
DE LOCAÇÃO COMERCIAL. (Lei 8.245/91 – art. 51)
a) Fundamento: a proteção funda-se no princípio de que o valor incor-
póreo do estabelecimento se integra em parte no valor do imóvel, trazendo,
pelo trabalho do empresário, benefícios para o proprietário do imóvel, não
sendo justo atribuir apenas ao proprietário tal cota de enriquecimento com
o empobrecimento do empresário que criou o referido valor.
Para uma locação comercial dar ao locatário o Direito à renovação compulsó-
ria do contrato, deve preencher os seguintes requisitos estabelecidos no art. 51 e
art. 71 Inc. I a VII da lei 8.524/91:
b) Locatário Empresário ou sociedade Civil;
c) Contrato celebrado por escrito e com prazo determinado;
d) Prazo contratual mínimo e determinado de 5 (cinco) anos;
e) Locatário explorar atividade por no mínimo 3(três) anos;
f ) Os requisitos da petição inicial estabelecidos no art. 71 da lei 8.245/91.

capítulo 2 • 52
Prazo para a propositura da ação

A ação de renovação compulsória do contrato de locação comercial deve ser


proposta no período de cumprimento do contrato, sendo no máximo com 1(um)
ano de antecedência e no mínimo com 6 (seis) meses anteriores à data da finaliza-
ção do prazo do contrato em vigor (da lei 8.245/91 – art. 51, §5o).
No entanto, a tal Direito de Renovação em relação ao locatário contrapõe-
se o Direito de propriedade do locador (art. 5o, Inc. XXII da Constituição da
República de 1988).
Quando a renovação compulsória for incompatível com a proteção jurídica da
propriedade, prevalecerá a tutela do proprietário.
Diante desta realidade é que a própria lei 8.245/91 estabelece EXCEÇÕES À
RENOVAÇÃO COMPULSÓRIA. Neste caso, o contrato de locação comercial
não será renovado nas seguintes hipóteses:
a) Necessidade de reforma substancial no prédio (imóvel) locado (art.
52, Inc. I da lei 8.245/91);
b) Necessidade de uso do imóvel pelo próprio proprietário (art. 52,
Inc. II da lei 8.245/91);
c) Insuficiência da proposta de renovação apresentado pelo locatário
(art. 72, inc. II da lei 8.245/91);
•  Na ação renovatória, deve o locatário – empresário apresentar ao locador
(proprietário) uma proposta de novo aluguel;
•  Se o valor apresentado não corresponder ao efetivo valor de mercado, have-
rá desconsideração do Direito de propriedade do locador;
•  Já existem decisões em que se utilizou a perícia para se aferir o efetivo valor
de mercado de determinado aluguel.
d) Melhor proposta de terceiro para efetivar nova locação comercial
(art. 72, Inc III, da lei 8.245/91).
•  Em havendo melhor proposta de terceiro para se estabelecer novo contrato
de locação, o (“antigo”) locatário deverá, em princípio, cobrir a referida proposta.
Caso contrário, ele perde o Direito à renovação Compulsória do contrato;
•  No entanto, neste caso, o locatário (“antigo”) terá Direito a uma indeniza-
ção, conforme dispõe o art. 52, §3o da lei 8.245/91;
•  O art. 52, §3o da lei 8.245/91, tem uma redação truncada, mas prevalece o
entendimento de que o locatário terá Direito a tal indenização, tendo em vista o
que dispõe o art. 75 da lei 8.245/91;

capítulo 2 • 53
•  A indenização é devida pelo locador (proprietário) e pelo terceiro propo-
nente da referida melhor proposta, conforme dispõe o art. 75 parte final, da lei
8.245/91;
•  Se o locatário (“antigo”) demonstrar que na localidade em que exerce sua
atividade, o valor de mercado está de acordo com a proposta que ele fez para
cobrir a “melhor” proposta de terceiro, já há decisões conferindo a Renovação do
contrato de locação comercial, a fim de se evitar o Abuso do Poder Econômico
e a Concorrência Desleal (art. 173, §4o da Constituição da República de 1988).

Título de estabelecimento integra o estabelecimento?

Título do Estabelecimento é a designação adotada para facilitar a identifica-


ção do próprio estabelecimento no mercado, em especial, em face da clientela. É
representado pela designação na fachada onde se exerce a atividade econômica.
Normalmente é associado aos letreiros de uso corrente, mas pode ser percebido
também nos papéis de correspondência, cartões, catálogos de produtos etc. Trata-
se, portanto, de um típico elemento incorpóreo do estabelecimento, que se vincu-
la ao objeto e não à pessoa do empresário.

Propriedade industrial integra o estabelecimento?

A propriedade industrial pode ser de quatro espécies:


•  As marcas – sinais distintivos visualmente perceptíveis;
•  Os desenhos industriais – a forma plástica ornamental de um objeto ou
o conjunto ornamental de linhas e cores que possam ser aplicados a um produto,
proporcionando resultado visual novo e original na sua configuração;
•  Os modelos de utilidades – que são os objetos de uso prático, ou parte
destes, suscetíveis de aplicação industrial, que apresentem nova fórmula ou dispo-
sição envolvendo ato inventivo, resultando em melhoria funcional no seu uso ou
em sua fabricação;
•  Invenções – a criação de algo novo, dotado de aplicação industrial, mas que
não se inclua nas modalidades anteriores.
Todas essas modalidades podem ser protegidas após registradas (marcas e de-
senhos industriais) ou patenteadas (modelos de utilidade e invenções) junto ao
Instituto Nacional de Propriedade Industrial – INPI (lei 9.279/96 – art. 19). Nos

capítulo 2 • 54
termos da referida legislação, os direitos de propriedade industrial são considera-
dos bens móveis (lei 9.279/96 – art. 5o) e portanto integram o estabelecimento
como bens imateriais.

Estabelecimento principal e estabelecimentos secundários. Filiais, sucursais

Embora seja uma reunião de bens móveis ou imóveis, ele pode ser descentra-
lizado, ou seja, pode existir uma central com várias filiais ou agências. (CCB/02
– art. 969, parágrafo único)

Negociabilidade do estabelecimento

Tendo em vista que o estabelecimento é um objeto de direito (CCB/02 – art.


1.143) e integra o patrimônio do agente econômico, pode ele ser devidamente
cedido, vendido, empenhado ou desapropriado. Entretanto, o estabelecimento in-
tegra o patrimônio do agente econômico e, por isso, é garantia patrimonial impor-
tante de cumprimento das obrigações do devedor que exerce a empresa (CCB/02
– art. 391) em relação aos seus credores (fornecedores, bancos etc.). Assim, a even-
tual negociação do estabelecimento pode colocar em risco o direito dos credores.
Portanto, a negociação do estabelecimento deve obedecer a cautelas específicas
sob pena de não produzir efeitos aos credores do agente econômico (ineficácia
relativa) em atenção à tutela dos interesses do referidos credores, bem como do
adquirente do estabelecimento empresarial.

Transferência do estabelecimento empresarial (trespasse)

A transferência do estabelecimento pode ser de forma involuntária ou vo-


luntária. A transferência involuntária pode se dar pela morte do Empresário
(Individual) ou alienação judicial após a penhora dos bens.
Entretanto, a transferência que aqui interessa é a voluntária, que pode ser gra-
tuita (doação – CCB/02 – art. 538) ou onerosa (compra e venda – CCB/02 – art.
481) também conhecida como trespasse.
•  Conceito de trespasse:
É a transferência integral, voluntária e onerosa da propriedade do estabeleci-
mento (conjunto de bens) é denominada de trespasse.

capítulo 2 • 55
•  Requisitos para o trespasse:
Para a realização do trespasse, o empresário deverá pagar ou garantir o pa-
gamento dos credores, caso contrário, será necessária autorização dos credores
(CCB/02 – art.1.145). A anuência dos credores pode ser obtida por meio de no-
tificação judicial ou extrajudicial.
Uma vez notificado expressamente, o silêncio do credor pelo prazo de 30 dias
é considerado anuência tácita.
Dentre as consequências da não observância dos requisitos para o trespasse,
pode haver:
•  O pedido de falência (lei 11.101/2005 – art. 94, III, alínea C). Há atos pra-
ticados por quem exerce a empresa que consistem em determinadas atitudes que
levam os credores a desconfiarem da capacidade efetiva do pagamento;
•  Em caso de decretação de falência, esta alienação poderá ser considerada
ineficaz em relação à massa falida que é o conjunto de bens do falido que vem a
ser arrecadado, para pagamento dos credores. Neste caso, poderá ser proposta uma
ação no juízo da falência denominada Ação Revocatória (lei 11.101/2005 – art.
129, Inc. VI);
•  Esta ação é proposta em face do adquirente do estabelecimento e tem por
fim trazer o bem de volta (revocar) para reintegrar o patrimônio do alienante a fim
de proporcionar o pagamento dos credores.
•  Pouco importa a boa-fé do adquirente do estabelecimento, que poderá se
habilitar como credor quirografário no processo falimentar. (lei 11.101/2005 –
art. 136 c/c Art. 86, III)
•  Se o alienante tiver bens suficientes para cobrir o seu passivo, a falência po-
derá ser requerida (lei 11.101/2005 – art. 94, III, alínea C). Mas, neste caso, cabe
ao empresário, em defesa, demonstrar que dispõe de bens para solver o seu passivo.

ATENÇÃO
•  A venda de um bem isoladamente não é trespasse, mas sim compra e venda comum sub-
metendo-se às regras de direito civil. (CCB/02 – art. 164).
•  O empresário (Individual) ainda que casado, qualquer que seja o regime de bens no casa-
mento, poderá alienar o imóvel sem necessidade de consentimento do outro cônjuge (ou-
torga conjugal) (CCB/02 – art. 978). Entretanto, o imóvel deve integrar o estabelecimento.

capítulo 2 • 56
a) Os contratos do alienante e o trespasse
Como já visto anteriormente, muito se discute se os contratos do Empresário
(Individual) ou da sociedade empresária integram ou não o estabelecimento.
Divergências à parte, o fato é que, em caso de trespasse o Código Civil Brasileiro
de 2002 estabelece que haverá sub-rogação (substituição) do alienante pelo adqui-
rente do estabelecimento nos contratos estipulados para a exploração da atividade
econômica (CCB/02 – art. 1.148) se não tiverem caráter pessoal.
b) Os contratos pessoais
O trespasse não envolve os contratos pessoais ou personalíssimos. Contratos
pessoais são aqueles em que a pessoa do contratante tem influência determinante
na manifestação de vontade da outra parte, que considera sua habilidade, idonei-
dade, aptidão ou competência para determinada tarefa. Geralmente geram obriga-
ção de fazer. A título de exemplo, são comuns as hipóteses do chef de cozinha para
administrar um restaurante; de determinado artista para fazer uma apresentação
ou obra de arte.
c) Contratos instrumentais
São aqueles essenciais à atividade econômica – são indispensáveis. Nestes ca-
sos, haverá sub-rogação cujo fim vem a ser viabilizar a continuidade da atividade
econômica.

ATENÇÃO
•  a expressão “salvo disposição em contrário” (CCB/02 – art. 1.148).
•  A despeito de interpretações respeitáveis (TOKARS, p. 102), a interpretação sistemática
possível da expressão “salvo disposição em contrário” consiste em que a alienação do es-
tabelecimento somente acarretará a sub-rogação do adquirente nos contratos de estabele-
cimento e de empresa caso não haja estipulação legal ou contratual em contrário. Assim
haverá sub-rogação nos contratos, salvo estipulação legal ou contratual em contrário.
•  Neste sentido, por exemplo, não haverá sub-rogação automática no contrato de lo-
cação não residencial do imóvel utilizado como sede da empresa (lei 8.245/1991 – art.
13). No mesmo sentido, o Enunciado 234 da III Jornada de Direito Civil do Conselho de
Justiça Federal.

capítulo 2 • 57
•  Responsabilidade do passivo do alienante
Tendo em vista que o estabelecimento também é composto por um plexo de
relações jurídicas, a alienação do estabelecimento também acarreta a transferência
das dívidas do alienante (passivo) para o adquirente (CCB/02 – art. 1.146).
Trata-se de mais uma hipótese de Obrigação propter rem, ou seja, aquela que
aquela que deve ser realizada por uma pessoa, por consequência de seu domínio
ou sua posse sobre alguma coisa móvel ou imóvel. (TARTUCE, p. 88)
Adquirente (comprador): responderá pelas dívidas anteriores, ou seja, have-
rá sucessão nas obrigações em razão da aquisição do estabelecimento, desde que
contabilizadas, além das dívidas posteriores. Alienante (vendedor) é responsável
solidário a:
•  Dívidas vencidas = responsabilidade solidária até 1 ano da publicação
(CCB/02 – art. 1.144) do trespasse (CCB/02 – art. 1.146);
•  Dívidas vincendas = responsabilidade solidária até 1 ano do vencimento
(CCB/02 – art. 1.146, fine).

Sucessão das obrigações trabalhistas (CLT– art. 10 c/c art. 448):

A sucessão trabalhista também é denominada de sucessão empregatícia. Em


casos de dívidas trabalhistas, o juiz trabalhista buscará a solidariedade, priori-
zando a natureza alimentícia do salário, sendo possível cobrar do alienante e do
adquirente.
Entretanto, há exceção na hipótese de transferência do estabelecimento
em decorrência de ato judicial em sede de processo de recuperação judicial (lei
11.101/2005 – art. 50, Inc. VII) ou falência (lei 11.101/2005 – art. 108). Nestes
casos não haverá sucessão nem na hipótese de trespasse na recuperação judicial (lei
11.101/2005 – art. 60, caput e parágrafo único) nem na hipótese de alienação de
bens no processo falimentar (lei 11.101/2005 – art. 141, Inc. II c/c. §1o c/c. §2o).
Trata-se da incidência do princípio da maximização do valor dos ativos do
empresário em recuperação ou falido, que, no âmbito específico da recuperação
judicial, apresenta-se como meio para preservar-se a empresa, à medida que se
busca melhor preço de venda dos bens do empresário para que possa solver suas
obrigações com o produto da venda.

capítulo 2 • 58
Sucessão das obrigações tributárias (CTN – 133):

O direito tributário adota a mesma postura, pois estabelece que a alienação


do estabelecimento empresarial acarretará ao adquirente a responsabilidade pelos
tributos, de forma integral, se o alienante cessar a exploração da atividade, ou
subsidiariamente, se este prosseguir na exploração da atividade. Novamente, aqui,
existe a determinação de que as obrigações – no caso, tributárias – poderão acom-
panhar o estabelecimento empresarial.
Deve-se destacar também que não haverá sucessão no caso de alienação de
bens no processo falimentar (lei 11.101/2005 – art. 141, Inc. II c/c. §1o c/c. §2o).
•  Restrição de atuação no mesmo ramo
Trata-se de proibição de restabelecimento (CCB/02 – art. 1.147) que reforça
a noção de que o estabelecimento consiste no complexo de bens organizados pelo
empresário para o exercício da empresa em atenção à proteção contra a concorrên-
cia desleal (lei 9.279/96 – art. 195, III).
•  A cessão dos créditos inerentes ao estabelecimento (art. 1.149 do CC/2002)
A regra geral pertinente à cessão de crédito envolve a livre transferência de
créditos independentemente do consentimento do devedor, desde que a isso não
se oponha a lei, a natureza da obrigação ou a convenção com o devedor (CCB/02
- Art. 286). Isto significa que a cessão é ineficaz em relação ao devedor enquanto
este não for notificado para que pague ao cessionário (CCB/02 - Art. 290). Assim,
se o devedor pagar ao cedente antes de notificado, pagará com eficácia liberatória
(CCB/02 - Art. 292).
Entretanto, no que concerne ao trespasse, a doutrina diverge se, em razão
da alienação do estabelecimento, haverá a transferência automática dos créditos
ou se há a necessidade de expressa pactuação da cessão dos créditos inerentes
ao estabelecimento.
Parte da doutrina sustenta que o trespasse implica na cessão dos créditos do es-
tabelecimento ao adquirente, independentemente de pactuação expressa (Tokars,
2006).
Entretanto, para o professor Arnoldo Wald, o art. 1.149 do CC/2002 não
implica na automática cessão dos créditos inerentes ao estabelecimento, pois esta
opera-se de forma convencional (WALD, 2005).Devem as partes que negociam
o trespasse do estabelecimento acautelar-se e dispor acerca da cessão dos créditos
inerentes ao estabelecimento.

capítulo 2 • 59
No que diz respeito à cessão de créditos realizada em operação de trespasse,
esta produzirá efeitos ao devedor desde a data da publicação, com a ressalva da
desoneração do devedor que pagar de boa-fé ao cedente (CCB/02 - Art. 1149, in
fine). Desta forma, a lei reconhece que a cessão não é eficaz em relação ao devedor
pela simples publicação da alienação do estabelecimento, mas da notificação do
devedor, que deverá ser feita por qualquer meio pelo qual se possa comprovar
inequivocamente a ciência da cessão. Desse modo, deve-se combinar a regra do
CCB/02 - Art. 290, pela qual a cessão será eficaz em relação ao devedor quando
a este notificada.

ATENÇÃO
A cessão dos créditos inerentes ao estabelecimento pode configurar hipótese de suces-
são particular em direito controverso (CPC/15 – art. 778, §1o, III).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ASQUINI, Alberto. Perfis da empresa. Trad. Fábio Konder Comparato. Revista de Direito Mercantil, no
104.
CORDEIRO, António Menezes. Manual de direito comercial. v. 1, Coimbra: Almedina, 2001.
GOMES, Orlando. Introdução ao direito civil. 15. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2000.
GONÇALVES NETO, Alfredo de Assis. A empresa individual de responsabilidade limitada. São
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MORAES FILHO, Evaristo de. Do contrato de trabalho como elemento da empresa. São Paulo:
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REQUIÃO, Rubens. Curso de direito comercial. 24. ed. São Paulo: Saraiva, v. 1, 2003.
TARTUCE, Flávio. Direito Civil, v. 2: Direito das obrigações e responsabilidade civil. 9. ed. São
Paulo: MÉTODO, 2014.
TOKARS, Fábio. Estabelecimento empresarial. São Paulo: LTr, 2006.

capítulo 2 • 60
3
Direito Societário:
Introdução.
Direito Societário: Introdução.
O estudo e o conhecimento do direito societário são de extrema importância
para a economia capitalista. Nas últimas décadas, é possível perceber um resgate da
percepção da relevância do direito societário para o desenvolvimento econômico.
Esta percepção, embora não configure ineditismo, foi por muito tempo esque-
cida. A teoria econômica da empresa concebe a empresa como “feixe de contratos”
(nexus of contracts) entre indivíduos (JENSEN e MECKLING, 1976, p. 310)
assim como identifica a sociedade (contrato) e a sua hierarquia (empresa) – e os
fatores determinantes de uma ou outra. (WILLIAMSON, 1985)
Entretanto, a teoria econômica da empresa muito pouco tem a dizer sobre o
direito societário. Isso porque deve ser destacado que as relações internas ao exer-
cício da atividade econômica são estruturadas por meio de ordens hierárquicas
cujo conteúdo e observância, em regra, não são suscetíveis de revisão judicial. Por
outro lado, ao restringir o direito societário a apenas um “feixe de contratos”, a
teoria econômica tende a confinar o direito societário ao direito contratual trivial
(BLACK, 1990), despindo aquele de sua especialidade.
A partir de tais concepções é que se passou a conciliar a natureza eminente-
mente contratual da sociedade com a visão de que o direito (societário) desem-
penha papel fundamental tanto com relação ao invólucro que engloba o feixe
de contratos (a personalidade jurídica) como com relação ao conteúdo (contrato
social) das relações entre os sócios e administradores. No que concerne à análise
puramente contratual, deve ser destacado que as relações contratuais vinculam
tão somente as partes, não alcançando, como regra geral, a esfera jurídica alheia
(res inter alios acta, aliis nec nocet nec prodest). Daí o fundamental papel do regime
legal na atribuição de personalidade jurídica às sociedades. (CCB/02 – art. 45).
Contudo, caberia ainda algumas questões: o que explica a existência de dife-
rentes tipos societários, em vez de uma ou duas estruturas jurídicas? Por que o di-
reito brasileiro contempla tanto a sociedade limitada como a sociedade por ações
(dentre outros tipos previstos por lei, porém quase que esquecidos pela prática ne-
gocial)? Qual a função econômica desempenhada por um e outro tipo societário?
Neste capítulo você vai poder obter estas e outras repostas acerca da estrutura,
das espécies, dos efeitos do exercício da atividade econômica empresarial por meio
de uma sociedade.

capítulo 3 • 62
OBJETIVOS
Neste capítulo, você terá a oportunidade de conhecer o conceito de sociedade, sua na-
tureza jurídica, reconhecer os elementos da personificação das sociedades; conhecer os
elementos essenciais para a desconsideração da personalidade jurídica das sociedades;
identificar as espécies de sociedade de acordo com o Código Civil Brasileiro; Conhecer os
aspectos introdutórios da Sociedade Limitada e da Sociedade Anônima, através de suas ca-
racterísticas e o grau de responsabilidade dos sócios, bem como conhecer os esses agentes
societários: os sócios.

Sociedade conceito

A sociedade deve ser identificada como um contrato celebrado entre pessoas


(físicas ou jurídicas) por meio do qual se obrigam a contribuir, com bens ou ser-
viços para o exercício de atividade econômica e partilha entre si dos resultados.
(CCB/02 – art. 981)
Como já visto em capítulos anteriores, o exercício da atividade econômica
pode ser realizado pelo Empresário (individual), pessoa física, pela EIRELI ou
pelas sociedades (pessoas jurídicas).
As sociedades são, por sua vez, pessoas jurídicas de direito privado. (CCB/02
– art. 44, II)

Espécies ou tipos de sociedades

O Código Civil Brasileiro de 2002 regula sete tipos societários, são eles: a)
sociedade simples (estrito senso ou pura) CCB/02 – art. 997; b) sociedade em
conta de participação – CCB/02 – art. 991; c) sociedade em nome coletivo –
CCB/02 – art. 1039; d) sociedade em comandita simples – CCB/02 – art. 1.045;
e) sociedade empresária limitada – CCB/02 – art. 1.052 e f ) sociedade cooperati-
va – CCB/02 – art. 1.093.
•  Sociedade simples (estrito senso ou pura) CCB/02 – art. 997
Esta sociedade se contrapõe à sociedade empresária. A sociedade simples é a
sociedade não empresária, ou seja, aquela cuja atividade econômica é predominan-
temente intelectual ou rural (CCB/02 – art. 982 c/c. 966, parágrafo único). Dispõe
o Código Civil Brasileiro de 2002 que a sociedade empresária deve revestir–se de um

capítulo 3 • 63
dos seguintes tipos societários: 1) em nome coletivo; 2) em comandita simples; 3)
em comandita por ações; 4) limitada; e, 5) sociedade anônima. A sociedade simples
pode adotar um desses tipos, com exceção das sociedades por ações (comandita por
ações e sociedade anônima). Caso não o faça, entende-se que se constituirá sob o
tipo de sociedade simples pura. (artigos 997 a 1.038 do NCC)
Dentre as vantagens deste tipo societário em relação a outros, especialmente
sobre a sociedade empresária limitada, destaca-se, dente outras:
1) É o único tipo societário que aceita sócio de serviço;
2) não está sujeita, para efeito de tomada de decisões sociais, à realização de
reuniões e, muito menos, ao formalismo das assembleias, como ocorre, por exem-
plo, na sociedade limitada, particularmente quando esta for composta por mais
de 10 (dez) sócios, com todas as suas regras de convocação e quóruns de insta-
lação e deliberação; 3) por via de consequência, a sociedade simples pura não
está obrigada a manter livros de atas de reuniões ou assembleias, indispensáveis
para a sociedade limitada (CCB/02 – arts. 1.062, 1.067 e 1.075); 4) no tocante
à tomada de contas dos administradores, segue um rito menos formal do que
aquele previsto para a sociedade limitada; 5) a responsabilidade dos sócios pode
ser limitada ou subsidiária-ilimitada, dependendo do que declararem no contrato
social (CCB/02 – art. 997, VIII), não sendo obrigatória a adoção da responsabili-
dade subsidiária e, muito menos, em nenhuma situação, a menos que desejem, da
responsabilidade solidária, diferentemente do que ocorre em relação à sociedade
limitada (CCB/02 – art. 1.052 c/c. art. 1.055, §1o); 6) não está sujeita à falência
conforme (lei 11.101/05 – art. 1o)
Diante de tantos benefícios, é de se concluir que a sociedade simples pura é
um novo tipo societário que merece ser descoberto e utilizado, pois, sobretudo,
proporcionará vantagens aos sócios e seus prepostos (administradores não sócios e
contabilistas), quer sob o aspecto de economia (de tempo e financeira), quer sob
o aspecto de responsabilidades.
•  Sociedade em conta de participação – será estudada adiante.
•  Sociedade em nome coletivo – CCB/02 – art. 1.039.
É um tipo societário em que todos os sócios dispõem de responsabilidade
solidária com a sociedade, ou seja, a dívida da sociedade pode atingir os bens dos
sócios (CCB/02 – art. 1.039). Esta sociedade é constituída, necessariamente, por
pessoas físicas e sua administração cabe exclusivamente aos sócios, não podendo
um terceiro exercer este papel administrativo (CCB/02 – art. 1.042). Seu nome
deve ser composto por firma social (CCB/02 – art. 1.157).

capítulo 3 • 64
•  Sociedade em comandita simples – CCB/02 – art. 1.045
É um tipo societário cuja composição social se dá por dois tipos de sócios:
os comanditários e os comanditados. Os sócios comanditários são aqueles que
respondem de forma limitada (apenas até o valor de suas cotas) pelas obrigações
da sociedade, e podem ser pessoas físicas ou jurídicas que contribuem apenas com
capital subscrito. Por outro lado, tem-se os sócios comanditados, que são pessoas
físicas que respondem solidariamente e de forma ilimitada pelas obrigações so-
ciais (CCB/02 – art. 1.045), podendo contribuir com capital e trabalho. A admi-
nistração desta sociedade pode ser exercida somente pelos sócios comanditados
(CCB/02 – art. 1.047).
•  Sociedade empresária limitada – CCB/02 – art. 1.052 – será estudada no
próximo capítulo.
•  Sociedade cooperativa – CCB/02 – art. 1.093.
A sociedade cooperativa é uma modalidade especial de sociedade simples, mas
que deve se inscrever na Junta Comercial (lei 8.934/94 – art. 32, Inc. II, alínea A.
Suas características principais estão disciplinadas no CCB/02 – art. 1.094. Elas são
regidas pelo princípio da adesão livre, pois qualquer pessoa que quiser usar seus
serviços e assumir responsabilidade como sócios podem, ou seja, é uma sociedade
aberta a todos. O princípio da mutualidade rege, pois quando há decisões a serem
tomados, considera-se um valor subjetivo da pessoa natural ou jurídica que com-
põem a sociedade, pouco importando a quantidade de sua contribuição material
(bens fungíveis e infungíveis) nos negócios comuns. A responsabilidade pode ser
tanto limitada ao valor das cotas de cada social no capital social como também
pode ser ilimitada (CCB/02 – art. 1.095). A responsabilidade limitada indica que
o sócio só irá responder pelo valor de suas cotas no capital social. É limitada a res-
ponsabilidade na cooperativa em que o sócio responde somente pelo valor de suas
cotas e pelo prejuízo verificado nas operações sociais, guardada a proporção de sua
participação nas mesmas operações. É ilimitada a responsabilidade na cooperati-
va em que o sócio responde solidária e ilimitadamente pelas obrigações sociais.
Apesar de registrados no Registro Público de Empresas Mercantis, a cooperativa
não se submete ao regime jurídico-empresarial (CCB/02 – art. 1.096). Assim, esta
sociedade não se submete à falência e não pode requerer recuperação judicial ou
extrajudicial (lei 11.101/05 – art. 1o).
Embora o Código Civil Brasileiro de 2002 mencione a Sociedade por ações
(CCB/02 – art. 1.089) e sociedade em comandita por ações (CCB/02 – art. 1.090),
estas espécies societárias são disciplinadas pela lei 6.404/76, que será estudada no

capítulo 3 • 65
capítulo 5, aplicando-se as normas do Código Civil Brasileiro de 2002 somente
quando a lei especial for omissa. O mesmo vale para as cooperativas (CCB/02 –
art.1093-1096) que também é disciplinada por lei especial (lei 5.764/71).

Personificação da sociedade

A caracterização e a compreensão da personalidade jurídica são temas rele-


vantes ao estudo da teoria geral do Direito Civil. A organização jurídica da socie-
dade é realizada fundamentalmente em atenção às pessoas: pessoa física (natural)
ou pessoa jurídica. Entretanto, do ponto de vista jurídico, a personalidade refle-
te a projeção psíquica individual na figura de outra pessoa, mas sempre depen-
dente do ordenamento jurídico que lhe confere os traços e efeitos específicos.
(PERLINGIERI, 1997)
Em que pese relevante ponderação quanto ao momento contratual de aquisi-
ção da personalidade jurídica da pessoa jurídica (COELHO, p. 16), predomina o
entendimento de que a pessoa jurídica adquire personalidade jurídica no momen-
to do arquivamento dos seus atos constitutivos no órgão próprio – CCB/02 – art.
985.
Uma vez que o contrato social venha a ser arquivado, a pessoa jurídica passa a
ter realidade técnica composta internamente por diversos órgãos que apresentam
a pessoa jurídica na esfera externa. Assim a sociedade passa ter personalidade jurí-
dica, ou seja, adquire aptidão genérica para ser titular de direitos e obrigações na
esfera jurídica.

Efeitos da personificação. Separação patrimonial e limite de responsabilidade

Da aquisição da personalidade jurídica decorrem alguns efeitos concernen-


tes à:
•  A Sociedade tem autonomia pessoal – a pessoa da sociedade é distinta da
pessoa de seus sócios;
•  Por ser pessoa jurídica (CCB/02 – art. 44, II) a sua existência é meramente
técnica, ou seja, ela existe por força de uma técnica legislativa (realidade técnica)
cuja apresentação se dá na figura de seu administrador (CCB/02 – art. 47);
•  Por ter autonomia pessoal, será a sociedade quem vai exercer ativida-
de econômica;
•  No exercício da atividade econômica, será a sociedade quem vai assumir
obrigações na esfera jurídica;

capítulo 3 • 66
•  A Sociedade tem autonomia patrimonial – o patrimônio da sociedade é
separado do patrimônio dos sócios (CCB/02 – art. 44, II c/c art. 1.024);
•  Neste aspecto é que se deve destacar que será a sociedade, na qualidade de
devedora, que terá responsabilidade direta ou principal pelos danos causados a
terceiros – CCB/02 – art. 391;
•  A Sociedade tem nome próprio – CCB/02 – art. 1.155, parágrafo único. O
nome da sociedade não se confunde com o nome do sócio;
•  A Sociedade tem domicilio próprio – CCB/02 – art. 997, II e, por conse-
quência, para propor uma ação em face da sociedade é preciso saber o domicílio
da sede da sociedade – CPC/15 – art. 53, III, A. Ninguém pode demandar uma
sociedade com base no domicílio do sócio;
•  A Sociedade tem nacionalidade própria – CCB/02 – art. 1.126. Nada im-
pede que uma sociedade brasileira seja formada por sócios estrangeiros. Uma so-
ciedade brasileira é aquela constituída de acordo com as leis brasileiras e que tenha
no Brasil o seu domicílio (sede social) e o seu principal estabelecimento;
•  A Sociedade tem capacidade contratual – a Sociedade pode contratar com
terceiros e a parte contratante será a pessoa jurídica (e não os sócios).
•  Neste aspecto, você deve perceber que a sociedade vai se manifestar concre-
tamente por meio de seu(s) administrador(s) – CCB/02 – art. 47;
•  A Sociedade tem capacidade processual – CPC/15 – art. 70 e art. 75, VIII.
As sociedades podem demandar e ser demandadas em juízo;
•  O sócio poderá ser separadamente inserido também na relação processual
na hipótese de incidente processual de intervenção de terceiro, conhecido como
desconsideração da personalidade jurídica da pessoa jurídica – CPC/15 – art.
133-137;
•  A Sociedade tem capacidade cambiária – art. 42 do Dec. 2.044/08. É a
pessoa jurídica que será credora, devedora ou avalista em um título de crédito.

Diferenciação: sócio e sociedade. Responsabilidade da sociedade e dos sócios

Uma vez registrado o contrato social (CCB/02 – art. 981 c/c art. 985), a
sociedade surge como nova pessoa (CCB/02 – art. 44, II), distinta das pessoas
que a constituíram (os sócios) e com patrimônio (material e imaterial) distinto do
patrimônio de cada um de seus sócios. Quem vai exercer a atividade econômica
será a sociedade e não seus sócios.

capítulo 3 • 67
Assim, para compreender facilmente o direito societário, é de fundamental
importância distinguir a sociedade, como pessoa jurídica (CCB/02 – art. 44, II),
das seguintes figuras:
•  Dos sócios – pessoas naturais (CCB/02 – art. 1o e 2o) ou jurídicas (CCB/02
– art. 44).
•  Os sócios, em regra, respondem subsidiariamente pelas dívidas contraídas
pela sociedade (CCB/02 – art. 1.024 c/c. CPC/15 – art. 795), salvo nas hipóteses
em que os sócios optem pela responsabilidade limitada (sociedade limitada, socie-
dade anônima e, ainda que pouco usada, os sócios comanditários da sociedade em
comandita simples).
•  Do patrimônio dos sócios – efeito jurídico imediato da personalidade jurí-
dica da pessoa natural (física) ou jurídica.
•  Do contrato social – relação jurídica de direito privado (CCB/02 – art.
981) com efeitos e função social (CCB/02 – art. 421).
•  Do patrimônio da sociedade – efeito jurídico imediato da personalidade
jurídica da pessoa jurídica.
•  Atividade econômica realizada pela sociedade – conjunto de relações (con-
tratos) e situações (status) jurídicas realizadas pela sociedade em atenção à sua
finalidade (objeto e função social).

Estas distinções podem ser sentidas, ainda que sutilmente, na redação do arti-
go 1.024 do Código Civil Brasileiro de 2002. Neste dispositivo, podem ser identi-
ficados a figura do sócio, seu patrimônio, a sociedade e seu patrimônio e as dívidas
contraídas pela sociedade em razão da sua atividade econômica.

Desconsideração da personalidade jurídica da pessoa jurídica

A personalidade jurídica pode ser identificada como instituto criado por lei
para separar a pessoa dos sócios da pessoa da sociedade de que fazem parte. A so-
ciedade adquire autonomia em relação aos seus sócios, passando ela própria a ser
sujeito de direitos e obrigações. Partindo dessa concepção, é que se deve começar
o estudo acerca da desconsideração da personalidade jurídica da pessoa jurídica.
Nos Estados Unidos e na Inglaterra esta teoria é denominada Disregard of
Legal Entity (desconsideração da entidade legal); Piercing the Corporate Veil (sus-
pensão do véu corporativo), Lifting the Coporate Veil (levantamento do véu corpo-
rativo) ou simplesmente Disregard Doctrine. Na Itália Superamento della Personalità

capítulo 3 • 68
Giuridica, Abus de la Noction de Personnalité Sociale (abuso da noção de persona-
lidade social) para os franceses; Durchgriff der Juristischen Personen (execução das
pessoas jurídicas) na Alemanha e Teoria de la Penetración de la personalidade ou
Desestimación de la Personalidad Societaria para os argentinos.
A bem da verdade, não se trata bem da desconsideração da “personalidade ju-
rídica”, mas tão somente da desconsideração da separação (pessoal e patrimonial)
existente entre os sócios e a sociedade quando esta separação estiver sendo usada
de forma abusiva e simulada para fraudar terceiros (credores) em proveito dos
sócios (desconsideração direta) ou a própria sociedade (desconsideração inversa).
Embora seja tema recorrente de direito empresarial, o instituto lida com cate-
gorias básicas do direito praticadas pela sociedade, a saber:
•  Fraude contra credores (CCB/02 – art. 158);
•  Simulação (CCB/02 – art. 167, §1o, §2o);
•  Abuso do direito (CCB/02 – art. 187);
•  Enriquecimento sem causa lícita (CCB/02 – art. 884).

A aplicação da teoria leva em consideração o fato de que a sociedade, no exer-


cício da atividade econômica, tenha contraído dívidas com terceiros (trabalhado-
res, bancos, fornecedores, entes governamentais-tributos). Em caso de inadimple-
mento e, diante do risco que a execução forçada da dívida diminua ou acabe com
a liquidez patrimonial da sociedade, opera-se, de forma simulada, a transferência
bens do patrimônio da sociedade para o patrimônio dos sócios. Desta maneira,
o(s) destinatário(s) dos bens indevidamente desviados se enriquece(m) de forma
ilícita em detrimento de credores prejudicados pela fraude cometida.
Dessa maneira, destaca-se a função da desconsideração da personalidade ju-
rídica da pessoa jurídica que “é satisfazer determinadas necessidades compatíveis
com o ordenamento jurídico, utilizando-se para tanto de uma forma também
compatível com o mesmo.” (KOURY, 2002, p. 66). Assim, a finalidade da des-
consideração é compatibilizar a validade da pessoa jurídica e dos efeitos da perso-
nalidade jurídica da pessoa jurídica e, ao mesmo tempo, tornar ineficaz (ineficácia
relativa) determinados atos praticados pela sociedade em detrimento de terceiros.
Os atos são praticados com o intuito de “esconder”, dos credores, bens do devedor
(a sociedade) em outro patrimônio (de outra pessoa) a fim de causar confusão
sobre qual patrimônio deve recair a cobrança.
O que “aparentemente” garantiria a impunidade é o princípio da autonomia
patrimonial, consagrado em nosso ordenamento jurídico (CCB/02 – art. 44, II

capítulo 3 • 69
c/c. 1.024). Então, quando a atividade ilícita realizada pelo sócio é feita sob o “véu”
que recobre a pessoa jurídica e a distingue de seu sócio, tornando-o praticamente
inatingível, cabe ao Poder Judiciário, em casos excepcionais, aplicar a teoria des-
consideração, levantando o “véu” da pessoa jurídica, com o objetivo de atingir e
responsabilizar este último, se presentes os requisitos que a autorizem. Desta manei-
ra, a desconsideração da personalidade jurídica da pessoa jurídica, não visa anular a
sociedade, mas sim, em determinados casos, ordenar que seja afastada a separação
patrimonial e proteção dos sócios para fraudar credores e praticar o abuso de direito.
Mas a questão que fica é: abuso de qual direito? Direito dos sócios à proteção
pessoal de seu patrimônio?

Evolução, conceito e pressuposto de licitude

A teoria da desconsideração da personalidade jurídica foi utilizada para coibir


fraudes ou abuso de direito, inicialmente por meio da jurisprudência nos Estados
Unidos da América, no começo do século XIX. No caso Bank of United States v.
Deveaux, a Corte judicial federal reconheceu sua competência para julgar questões
envolvendo cidadãos ainda que entre eles houvesse uma sociedade (Corporations)
a ser desconsiderada tendo em vista que a Constituição Federal Americana, no seu
artigo 3o, seção 2a, limita tal jurisdição às controvérsias entre cidadãos de diferen-
tes estados. A decisão, em si, não foi relevante, visto que foi repudiada pela doutri-
na da época, mas, já em 1809, as Cortes levantaram o véu personal e consideraram
as características dos sócios individuais. (KOURY, p. 26)
Talvez o precedente jurisprudencial que permitiu o desenvolvimento da teo-
ria, seja o caso Salomon v. Salomon & Co., ocorrido no ano de 1897 na Inglaterra,
onde o sistema jurídico é o Common Law, em que o precedente é importantíssima
fonte do direito. Nesse caso, um comerciante do ramo de calçados chamado Aaron
Salomon, constituiu no ano de 1892, uma sociedade por ações (Company), distri-
buindo uma ação para cada um dos seis membros de sua família, estes incluíam
sua mulher e filhos, para si reservou o montante de 20.000 ações. Com tal poder
decisório, colocou-se como credor privilegiado da própria sociedade em detrimen-
to dos demais credores sociais. Estes credores perceberam que a sociedade criada
por Aaron era apenas um anteparo para esconder o fato de que o agente econômi-
co era, de fato e de direito, Aaron Salomon.
No mundo acadêmico, o principal idealizador desta teoria foi o alemão
Rolf Serick que defendeu sua tese de doutorado, com o título Rechtsform und

capítulo 3 • 70
Realität juristischer Personem (Forma jurídica e realidade das pessoas jurídicas) no
ano de 1953 na Universidade de Tübigen, onde firmou os pilares da atual teoria
da desconsideração da personalidade jurídica, a qual denominou Durchgriff der
Juristichen Personen (Penetração de pessoas colectivas). Rolf Serick formula princí-
pios básicos da teoria da desconsideração, condensados na obra de Fábio Coelho
que a identifica como teoria maior. Tais princípios podem ser resumidos da se-
guinte forma: 1) abuso da forma da pessoa jurídica; 2) consideração da autonomia
subjetiva da pessoa jurídica; 3) desconsideração da separação entre sócio e a pessoa
jurídica. Em caso de fraude, abuso de direito ou desvio do fim social, levam-se em
conta as pessoas físicas (natural) que agem em nome da pessoa jurídica; 4) aplica-
ção da norma a quem praticou o ato sobre quem deve recair a responsabilidade.
(COELHO, 2002, p. 36)
Assim, quando a forma da pessoa jurídica se emprega para fraudar credores,
subtrair-se a uma dívida existente, para desviar a aplicação da lei, para constituir
ou conservar um monopólio ou cartel, os tribunais poderão prescindir da forma
com a sociedade foi constituída e considerar que o conjunto de pessoas que par-
ticipam ativamente de tais atos. Assim viabiliza a realização da justiça às pessoas
reais. O que se pretende com a desconsideração não é anular a personalidade jurí-
dica de uma sociedade, mas sim identificar que esta personalidade não tem efeito
em determinadas situações. (REQUIÃO, 2003, p. 378)
Rolf Serick exige maior cautela (teoria maior) e cuidado na utilização do ins-
tituto. Na teoria maior, a desconsideração da personalidade jurídica exige a prova
inequívoca de abuso e/ou fraude.
A aparição da desconsideração na legislação brasileira aconteceu quase dois
séculos após as primeiras decisões norte-americanas. O legislador brasileiro já a
adotou expressamente em quatro Leis e consagrou-a no Código Civil de 2002 –
CCB/02 – art. 50. No mesmo sentido, o artigo 176, §4o da Constituição Federal
de 1988 traz a regra de que a lei deverá tutelar o livre mercado, ou seja, reprimir o
abuso do poder econômico que vise à dominação dos mercados, à eliminação da
concorrência e o aumento arbitrário dos lucros. Dentre os instrumentos de pro-
teção, também se encontra a desconsideração da personalidade jurídica da pessoa
jurídica – lei 12.529/2011 – art. 34.
•  Enunciado 51 CJF: art. 50: a teoria da desconsideração da personalidade
jurídica – disregard doctrine – fica positivada no novo Código Civil, mantidos
os parâmetros existentes nos microssistemas legais e na construção jurídica sobre
o tema.

capítulo 3 • 71
•  Enunciado 146 CJF: art. 50: nas relações civis, interpretam-se restritiva-
mente os parâmetros de desconsideração da personalidade jurídica previstos no
art. 50 (desvio de finalidade social ou confusão patrimonial).
Entretanto, a desconsideração da personalidade jurídica encontra respaldo
desde 1990 na lei 8.078/90 – art. 28 (Código de defesa do consumidor – CDC).
Este dispositivo consagra, para muitos autores, a teoria menor. A teoria menor
exige menos cautela para aplicação do instituto, não sendo necessária prova ine-
quívoca do abuso ou fraude, bastando um mero obstáculo ao ressarcimento. A
teoria menor está prevista no art. 28, §5o do CDC. Como o CDC influenciou
diversas outras disciplinas na década de 1990, a teoria menor também está presen-
te no direito ambiental e administrativo.
No plano da legislação ambiental, a busca da responsabilização civil está con-
sagrada na Lei de Crimes Ambientais, lei 9.605/1998 – art. 4o, que também con-
templa a aplicação da chamada teoria menor da desconsideração da personalida-
de jurídica.
No âmbito administrativo, a doutrina e a jurisprudência vêm firmando enten-
dimento de ser viável a aplicação da teoria da desconsideração da personalidade
jurídica e a extensão de seus efeitos para afastar a possibilidade de uma empresa
que tenha sido suspensa ou impedida de participar de licitação ou contratar com
a Administração Pública, ou ainda, declarada inidônea, possa ter seus sócios inte-
grando, direta ou indiretamente, outra pessoa jurídica que participe de licitação
com o Poder Público.

A teoria da desconsideração inversa da personalidade jurídica

A desconsideração inversa da personalidade jurídica identifica-se mais como


forma de impedir a utilização da sociedade como ferramenta para a prática de atos
ilícitos e fraudulentos, em detrimento a direitos de terceiros, especialmente quan-
do o sócio transfere todos os seus bens para o patrimônio de sociedade empresária
da qual é sócio (geralmente majoritário ou controlador), escondendo seus bens
e frustrando eventual cobrança pessoais por dívidas e obrigações assumidas, sem
qualquer relação com a sociedade.
Tratasse de uma possibilidade de aplicação do instituto de direito empresarial
no direito das famílias. (MADALENO, Rolf, p. 743)

capítulo 3 • 72
O sócio, para fugir de dívidas pessoais, transfere seu patrimônio pessoal para
a pessoa jurídica, buscando a autonomia patrimonial. Nesse caso, desconsidera-se
a transferência, trazendo os bens de volta à execução.
Com a entrada em vigor do Novo Código de Processo Civil, algumas discus-
sões que permeavam a aplicação do instituto por nossos tribunais ficaram comple-
tamente superadas.
O Código de Processo Civil de 2015 (CPC/15) admitiu expressamente in-
cidente de desconsideração à personalidade. O instituto será instaurado a pedi-
do da parte, sendo certo que o Ministério Público também terá legitimidade de
agir, como parte ou como custos legais. A nova legislação determina o incidente
da desconsideração é cabível em todas as fases do processo de conhecimento, no
cumprimento de sentença e na execução fundada em título executivo extrajudicial
– CPC/15 – art. 134. Ademais, consta no § 2o que “dispensa-se a instauração do
incidente se a desconsideração da personalidade jurídica for requerida na petição
inicial, hipótese em que será citado o sócio ou a pessoa jurídica.” (BRASIL, 2015)
Registra-se ainda que o Código de Processo Civil de 2015 reconhece e esta-
belece a possibilidade de se realizar a desconsideração inversa da personalidade
jurídica – CPC/15 – art. 133, §2o.

Teoria indireta

É aplicada em relação aos grupos econômicos – há uma divisão apenas de ín-


dole formal, sendo possível visualizar uma unidade gerencial, laboral, administra-
tiva e financeira (comando único), ou seja, várias pessoas jurídicas sob o comando
de uma holding.
A Lei 8.078/90 – art. 28 e seus parágrafos §2o, §3o e §4o do artigo referem-se
à responsabilidade pelos danos causados ao consumidor no caso de grupos so-
cietários, consórcios e sociedades coligadas e estabelecem a responsabilidade no
caso de sociedades que mantêm entre si alguma relação. A bem da verdade de-
ve-se identificar que nos grupos, há responsabilidade subsidiária, vale dizer, se a
sociedade causadora do dano ao consumidor não tiver condições de ressarci-lo,
o consumidor poderá se socorrer do patrimônio das demais integrantes do gru-
po. Na hipótese dos consórcios (reuniões de sociedades para realizar determinado
empreendimento – art. 278 da lei 6.404/1976), a responsabilidade é solidária, ou
seja, o consumidor escolhe entre as integrantes do consórcio aquela da qual ele irá
cobrar o seu prejuízo.

capítulo 3 • 73
Há ainda referência às sociedades coligadas (que é aquela em que uma é sócia
da outra com mais de 10% do seu capital, sem controlá-la – art. 245, § 1o, da
lei 6.404/1976). Neste caso, exige-se a prévia prova da culpa para responsabi-
lização da sociedade que não agiu perante o consumidor. Nesses casos, não há
propriamente desconsideração propriamente dita, mas tão somente extensão da
responsabilidade das sociedades que mantêm relações entre si. Não há efetiva des-
consideração, mas, sim, consideração de cada uma, em que se aumenta sua esfera
de responsabilidade.
Na desconsideração indireta, consideram-se as demais pessoas jurídicas do
grupo econômico até atingir o que se busca, ou seja, há uma irradiação dos efeitos
para as demais pessoas jurídicas do mesmo controle. Com isso, não adiantaria
criar pessoas jurídicas “laranjas”.

A desconsideração da personalidade jurídica da pessoa jurídica no


Direito do Trabalho

A aplicação da desconsideração da personalidade jurídica da pessoa jurídica no


direito do trabalho se dá em atenção a leitura da Dec. 5452/1943 – Consolidação
da Leis do Trabalho (CLT/43) – art. 2o, §2o, utilizando-se ainda a aplicação analó-
gica do CDC/1990 – art. 28 nas hipóteses de abuso de direito, excesso de poder,
violação da lei ou do contrato, bem como nos casos de insuficiência de bens. Para
muitos autores, não há critérios rígidos na aplicação de tal teoria, sendo, em ver-
dade, uma medida ordinária e não excepcional (NUNES, 2007, p. 65; 77; 79).
A Justiça do Trabalho, ao desconsiderar a personalidade jurídica, pretende, por
mais das vezes, fazer princípios constitucionais serem observados, sobretudo, o
princípio da dignidade humana e é feita de forma diferenciada de outros ramos do
direito, como o direito civil, o econômico e o financeiro, pois o bem tutelado é a
dignidade, além de outros valores constitucionais ligados à subsistência do traba-
lhador, como o crédito alimentar (ZIPPERER, 2009). A Justiça do Trabalho vem,
ordinariamente, observando o valor social do trabalho e o princípio da dignidade
humana (CRFB/1988 – art. 1o, Inc. III e IV) em detrimento dos princípios ine-
rentes à atividade econômica (CRFB/1988 – art. 170), haja vista que, na lógica
trabalhista, segundo a própria Consolidação das Leis Trabalhistas, o caráter prote-
cionista há de prevalecer diante da violação de um direito inerente à sobrevivência
do trabalhador.

capítulo 3 • 74
A desconsideração da personalidade jurídica da pessoa jurídica no
Direito Tributário

A doutrina controverte sobre a aplicação da desconsideração da personalidade


jurídica da pessoa jurídica nos campos do direito tributário e do processo tributá-
rio, especialmente na execução fiscal, apresentando argumentos contrários, ligados
principalmente à natureza peculiar do crédito tributário, e argumentos favoráveis,
relacionados à observância das garantias constitucionais do contraditório e da am-
pla defesa.
Alguns autores sustentam que a teoria desconsideração da personalidade jurí-
dica da pessoa jurídica no direito tributário não poderia ser aplicada, por ausên-
cia expressa de norma (JUSTEN FILHO 1987, p. 110). Entretanto, a aplicação
da teoria da desconsideração da personalidade jurídica no direito tributário já
era plenamente admitida mesmo anteriormente ao novo Código Civil, à luz do
CTN/1966 – arts. 134, 135 e 149, VII. Em 2001, o art. 116, do Código Tributário
Nacional de 1966 foi acrescentado com um parágrafo único – CTN/1966 – art.
116, parágrafo único – que, apesar de muita polêmica (ADI 2.446, de autoria da
Confederação Nacional do Comércio) face ao seu manifesto exagero de prescin-
dir de ordem judicial em frontal colisão ao CPC/15 – art. 795, §4o. Entretanto,
atualmente a legislação faculta a autoridade administrativa providenciar os atos de
desconsideração da personalidade jurídica, para os fins de alcançar os bens parti-
culares dos administradores ou sócio da pessoa jurídica, desde que atendidos os
requisitos do CCB/02 – art. 50.

A desconsideração da personalidade jurídica da pessoa jurídica e o


bem de família

Trata-se da hipótese em que a integralização do capital social da sociedade é


feita com o imóvel que também é utilizado como moradia da entidade familiar
de um dos sócios. Diante de execução em face da pessoa jurídica, os credores
solicitam a desconsideração da personalidade jurídica. Nesse caso, o juiz pode
observar internamente e perceber que o bem executado é o bem de família dos
sócios. Entretanto, sobre a possibilidade de desconsideração e o benefício dos só-
cios a matéria é controvertida, pois pode-se argumentar que o bem de família deve
ser preservado, desde que seja possível visualizar o conceito de entidade familiar.
Porém, com base no Princípio da Intangibilidade do Capital Social, argumenta-se

capítulo 3 • 75
que o sócio ao transferir o bem de família para a pessoa jurídica, ele perde a pro-
priedade do bem. Assim, as faculdades inerentes à propriedade e, dentre elas, a
defesa quanto à sua posse e propriedade e a livre disponibilidade sobre o bem e a
possibilidade de, não sendo cabível a alegação de bem de família.

A desconsideração da personalidade jurídica da pessoa jurídica e o


empresário individual

Não cabe desconsideração da personalidade jurídica do empresário indi-


vidual, tendo em vista que a desconsideração é aplicada em razão da utilização
equivocada da pessoa jurídica e o empresário individual é uma pessoa física. O
empresário individual já responde ilimitadamente com o seu patrimônio, não res-
tando razão para a desconsideração. Deve-se atentar que é equivocado justificar a
impossibilidade de desconsideração da personalidade jurídica do empresário indi-
vidual em razão da ausência de personalidade jurídica. O empresário individual,
sendo pessoa natural, também possui personalidade jurídica.

A desconsideração da personalidade jurídica da pessoa jurídica e a


EIRELI

É cabível a desconsideração da personalidade jurídica da EIRELI (pessoa jurí-


dica de direito privado), buscando-se o patrimônio pessoal do instituidor.
•  Enunciado 470 CJF: Art. 980-A: o patrimônio da empresa individual de
responsabilidade limitada responderá pelas dívidas da pessoa jurídica, não se con-
fundindo com o patrimônio da pessoa natural que a constitui, sem prejuízo da
aplicação do instituto da desconsideração da personalidade jurídica.

Aspectos processuais da desconsideração

O novo Código de Processo Civil de 2015, atendendo às reivindicações dou-


trinárias, positivou a teoria da desconsideração da personalidade jurídica, identi-
ficando suas hipóteses de incidência e classificou-se como incidente processual,
qualificada como mais uma hipótese de intervenção de terceiros CPC/15 – arts.
133 a 137.

capítulo 3 • 76
Para atingir os bens dos sócios: uso obrigatório do incidente
processual da desconsideração da personalidade jurídica da pessoa
jurídica

Embora haja algumas críticas oriundas da doutrina processual (XAVIER,


2016) a iniciativa do legislador é extremamente louvável e representa momento
histórico na consolidação de nova fase para o uso obrigatório do incidente da
desconsideração da personalidade jurídica da pessoa jurídica para atingir bens dos
sócios, desde que os mesmos tenha oportunidade de se defenderem (CPC/15 –
art. 795, §4o ).
A desconsideração da personalidade jurídica da pessoa jurídica é aplicável
também nos Juizados especiais CPC/15 – art. 1.062.
Será considerada fraude à execução se o sócio se desfizer de seus bens após a ci-
tação da parte cuja personalidade se pretende desconsiderar CPC/15 – art. 792, §3o.
Em caso de atuação judicial colocar em risco bens de terceiros, a pessoa preju-
dicada poderá utilizar-se embargos de terceiros – CPC/15 – art. 674, §2o, Inc. III.
Nas hipóteses de decisões interlocutórias envolvendo incidente de desconsi-
deração da personalidade jurídica da pessoa jurídica, caberá o recurso de agravo
de instrumento CPC/15 – art. 1.015, IV. Uma vez no tribunal, caberá ao relator
decidir sobre a matéria CPC/15 – art. 932, VI.

Classificação das Sociedades

Quanto à personificação: sociedade personificadas e não personificadas

O Código Civil de 2002 trouxe grande novidade ao disciplinar as sociedades


personificadas, ou seja, aquelas que dispõem de registro de seu contrato social
(CCB/02 – art. 985), bem como tratou das sociedades não personificadas. Estas,
subdividindo-as em dois tipos: em comum e em conta de participação, com disci-
plina específica para cada qual em capítulos próprios. Desde 2002, portanto, tais
formações societárias foram alçadas à condição de sociedades típicas, mantida,
entretanto, sua característica primordial: a despersonificação.

capítulo 3 • 77
Sociedades não personificadas: sociedade em comum e sociedade em conta
de participação

A ausência de registro antes do Código Civil Brasileiro de 2002, colocava tais


sociedades à margem do direito, sendo as sociedades em comum denominadas de
“irregulares ou de fato”, enquanto às sociedades em conta de participação era ne-
gada, por boa parte da doutrina, a própria condição de sociedade, o que as reduzia
a mero contrato de investimento ou contrato de conta corrente em participação.

Sociedade em comum

A ausência de registro do contrato social no registro próprio (CCB/02 – art.


985 c/c. art. 1.150) submete a sociedade à incidência das normas da sociedade em
comum – CCB/02 – art. 986 a art. 990.
Atualmente a denominação “sociedade irregular” só pode ser atribuída às pes-
soas jurídicas que estejam em desacordo com a lei ou com seus atos constitutivos
(FRAN MARTINS, 2005, p. 218). Assim, a irregularidade será sempre superve-
niente à personificação obtida com o registro, fazendo com que sejam os sócios ou
as sociedades sancionadas de acordo com a infração cometida.
O regime das sociedades em comum, embora outorgue alguma proteção aos
sócios, é o mais grave existente na legislação societária brasileira porque permite a
responsabilidade ilimitada e solidária do sócio que contratou em nome da socieda-
de (CCB/02 – art. 990), excluído o benefício de ordem. (CCB/02 – art. 990 c/c.
art. 1.024 c/c. CPC/15 – art. 795)

Sociedade em conta de participação

Há sociedade em conta de participação quando duas ou mais pessoas se reú-


nem, sem firma social, para lucro comum, em uma ou mais operações determi-
nadas, trabalhando um, alguns ou todos, em seu nome individual para a finali-
dade proposta, a associação toma o nome de sociedade em conta de participação.
(CCB/02 – art. 991 ao art. 996)
A sociedade em conta de participação, como tipo jurídico empresarial, já exis-
tia no ordenamento jurídico revogado e era conceituada e regulada nos artigos 325
a 328 do Código Comercial de 1850. Desde então, não era considerada sociedade
personificada, e sua natureza jurídica gerou acirrada controvérsia no direito pátrio.

capítulo 3 • 78
Em que pese ilustríssima opinião em contrário (LOPES, 1990) a maioria da
doutrina pátria sustenta que a “sociedade” em conta de participação não se iden-
tifica como sociedade.
É um contrato, mas não de sociedade. A negativa de atribuição de caráter de
sociedade se dá pelas alegações de inúmeras diferenças com as características com
as demais sociedades. Ela se distingue das demais no sentido de que quem exerce
atividade econômica é o sócio (ostensivo) e não a sociedade e, por tal motivo,
quem responde pelos danos causados é também o sócio ostensivo (CCB/02 – art.
991, caput e parágrafo único). Seu contrato social não precisa ser formalizado
(CCB/02 – art. 992) nem ser registrado, mas tais fatos não são proibidos. Se o
contrato social for formalizado ou registrado, o registro do contrato social produz
efeitos somente entre os sócios (CCB/02 – art. 992) e, portanto, não se atribui
personalidade jurídica (CCB/02 – art. 993). A estrutura de conta em participa-
ção, ainda que exerça atividade econômica empresarial, não pode falir, pois quem
pode ter sua falência decretada é apenas o sócio ostensivo ou o sócio participante
(CCB/02 – art. 994, §2o, §3o). E por fim, a estrutura de conta em participação
não pode ter nome, nem firma nem denominação (CCB/02 – art. 1162).

Quanto ao objeto

Sociedade simples e empresária

De acordo com o Código Civil Brasileiro de 2002, as sociedades também


podem ser classificadas em empresárias ou simples segundo tenham ou não por
“objeto o exercício de uma atividade própria de empresário sujeito a registro”
(CCB/02 – art. 982). Essa classificação decorre da definição da figura do empre-
sário (CCB/02 – art. 966, caput) que é “quem exerce profissionalmente atividade
econômica organizada para a produção ou circulação de bens ou de serviços”.
O cerne da conceituação do empresário e da sociedade empresária encontra-se,
portanto no exercício de uma atividade econômica organizada. (BORBA, 2003)
Como já descrito no capítulo 1, o empresário e a sociedade empresária exer-
cem a empresa. Uma vez que a empresa não possa ser identificada, tem-se, para
a pessoa física (natural), a figura do profissional autônomo (CCB/02 – art. 966,
parágrafo único) ou da sociedade simples (CCB/02 – art. 982, in fine), para as
pessoas jurídicas.

capítulo 3 • 79
Quanto à responsabilidade dos sócios

Antes de analisar este critério de classificação, é pertinente lembrar que na


estrutura societária, quem exerce atividade econômica é a sociedade (simples ou
empresária) que sempre terá responsabilidade ilimitada por todos os danos causa-
dos pelos seus atos. Assim, não se deve confundir a responsabilidade das socieda-
des, com a responsabilidade dos sócios. A responsabilidade dos sócios poderá ser
limitada, ilimitada ou mista, em relação às sociedades, dependendo do caso, mas
quase sempre subsidiária em relação à responsabilidade das sociedades. A autono-
mia patrimonial da sociedade impede, em regra, que o sócio seja responsabilizado
diretamente por eventuais dívidas da sociedade. Em casos excepcionais, previstos
em lei, após ser totalmente exaurido o patrimônio da sociedade, é possível cogitar
a constrição judicial do patrimônio do sócio para satisfazer as obrigações contraí-
das pela sociedade. (CCB/02 – art. 1024 c/c CPC/15 – art. 795)
Há sociedades em que, após esgotado seu patrimônio, os credores poderão
buscar, para satisfazer o restante de seu crédito, os bens particulares dos sócios de
forma ilimitada. Esta é classificada como sociedade ilimitada, ou seja, os patrimô-
nios de todos os sócios respondem de forma ilimitada pelas obrigações contraídas
pela sociedade. Os exemplos deste tipo de sociedade no direito brasileiro são a
sociedade em comum (CCB/02 – art. 986 c/c. art. 990) e a sociedade em nome
coletivo CCB/02 – art. 1.039).
Há sociedades em que a responsabilidade dos sócios é limitada. São as socie-
dades limitadas (CCB/02 – art. 1.052 a 1.087) e a Sociedade Anônima (CCB/02
– art. 1.088 a 1.089 c/c. lei 6.404/76). Na sociedade limitada (Ltda.), os sócios
respondem pelas obrigações contraídas pela mesma de uma forma limitada ao
montante que faltar à integralização do capital social. Observa-se que se total-
mente integralizado pela parte dos sócios o capital da sociedade, a responsabilida-
de dos sócios será nenhuma. Eventualmente, poderá ele responder pela parte não
integralizada pelo outro sócio (CCB/02 – Art. 1052). Entretanto, o mecanismo
será um pouco diferente nas sociedades anônimas ou S/A, em que os acionistas
somente respondem pelo que pessoalmente subscreveram e ainda não integra-
lizaram, não tendo estes acionistas nenhuma responsabilidade pelo que o outro
acionista tenha subscrito, mas não integralizado (CCB/02 – art. 1.088 c/c. lei
6.404/76 – art.1o). As sociedades identificadas como mistas são duas: a sociedade
em comandita simples (CCB/02 – art. 1.045) e a sociedade em comandita por

capítulo 3 • 80
ações (CCB/02 – art. 1.091 c/c. lei 6.404/76 – art. 281), nelas a responsabilidade
é limitada para uns sócios, e ilimitada para outros.

Sociedades de pessoa e de capital

As sociedades no atual ordenamento jurídico brasileiro são classificadas como


sociedades de pessoas ou sociedades de capitais. O critério utilizado nessa classi-
ficação doutrinária está na identificação do elo que fundamenta o nascimento e
a manutenção do vínculo societário e da atividade econômica. As sociedades de
cunho pessoal seriam aquelas nas quais a constituição e o exercício da atividade
econômica se dão em atenção aos atributos pessoais dos seus sócios. Os atributos
(qualidades) pessoais de cada sócio e a respectiva confiança dos demais sócios nes-
tes atributos (affectio societtatis) representariam a razão da sua formação e a base
para o bom desenvolvimento da atividade econômica. Já nas sociedades de capi-
tais, a constituição e o exercício da atividade econômica da sociedade se dão em
atenção à capacidade contributiva de seus sócios, ou seja, a razão de existência
da sociedade seria o aporte de recursos para que o escopo comum seja alcançado.
Esse critério de classificação está diretamente relacionado à natureza do víncu-
lo que faz nascer ou mantém a sociedade. Essa natureza repercute nas condições
para a alienação da participação societária, penhorabilidade das cotas e consequên-
cias em caso de morte de sócio.
Mas como saber se uma sociedade é de pessoas ou de capitais? Esta resposta só
pode ser dada após análise do contrato social, pois se este permitir expressamente
que as cotas sociais sejam livremente transferidas a terceiros, estranhos ao quadro
social, ou ainda, se o contrato social permitir que herdeiros do sócio falecido in-
gresse ao quadro social imediatamente à morte do sócio, como herdeiros da con-
dição de sócio, trata-se de sociedade de capitais, pois nestes casos a confiança ou
os atributos dos sócios não são preponderantes para a constituição ou manutenção
da sociedade.
Ao contrário, se o contrato social proibir o que as cotas sociais sejam livremen-
te transferidas a terceiros, estranhos ao quadro social ou exigir quórum qualificado
para a transferência, ou ainda, se o contrato social proibir ou estipular exigên-
cia para que herdeiros do sócio falecido ingresse ao quadro social imediatamente
à morte do sócio, trata-se de sociedade de pessoas, pois nestes casos estranhos
ao quadro social não podem ingressar à sociedade sem o consentimento dos de-
mais sócios.

capítulo 3 • 81
Assim, em determinadas sociedades é relevante a confiança acerca das caracte-
rísticas individuais dos sócios, suas qualidades subjetivas influem de forma deter-
minante no modo de atuação da sociedade, enquanto em outras, as características
individuais do sócio não são relevantes, por exemplo, em uma sociedade anônima
de capital aberto.
Portanto, todas as sociedades podem ser de pessoas ou de capitais, depen-
dendo do que dispuser o contrato ou o estatuto social. Entretanto, predomina na
doutrina o entendimento de que pode ser de acordo com o que dispuser o contra-
to social, sociedades de pessoas ou de capital, as seguintes: a sociedade limitada,
sociedade em nome coletivo e a sociedade em comandita simples. Da mesma
forma, serão sempre constituídas na forma de sociedades de capital, as sociedades
em comandita por ações e as sociedades anônimas. (COELHO, 2016)
Em caso de omissão ou contradição do contrato social, deve-se atentar ao que
dispuser a lei para cada tipo social.

Quanto à cessão da participação societária

Nas sociedades de pessoas, a cessão da participação societária depende da


anuência dos demais sócios (CCB/02 – art. 1.003; art. 1.057). Como os atributos
individuais do adquirente dessa participação podem interferir na realização do
objeto social, é justo e racional que o seu ingresso na sociedade fique condicionado
à aceitação dos outros sócios, cujos interesses podem ser afetados. Já em relação às
sociedades de capital, o critério é outro, ou seja, o sócio pode alienar sua participa-
ção societária a quem quer que seja, ainda que sem anuência dos demais, porque
as características pessoais do adquirente não atrapalham, não têm como atrapalhar
o desenvolvimento do negócio social. (COELHO, 2016)

A questão da penhorabilidade das cotas de participação

Com o advento do Código Civil Brasileiro de 2002 (CCB/02 – art. 1.026) e


mais recentemente com o Código de Processo Civil de 2015 (CPC/15 – art. 835,
IX) as cotas sociais passaram a ser suscetíveis de penhora judicial, desde que se
respeitando o fato de que a penhora sobre as cotas deve ser encarada como ultima
ratio legis. Isto é, deve ser a última medida a ser executada, sendo possível apenas
depois de comprovada a insuficiência de outros bens para o pagamento da dívida e

capítulo 3 • 82
deve prevalecer o princípio da função social da empresa e o da menor onerosidade
ao devedor, podendo a penhora das cotas ser levada a efeito mediante a excussão
unicamente dos lucros ou dos juros sobre o capital próprio da sociedade na pro-
porção das cotas do executado. (BRANCO, 2015)
Neste sentido enunciado no 387 da IV Jornada de Direito Civil – “A opção
entre fazer a execução recair sobre o que ao sócio couber no lucro da sociedade, ou
na parte que lhe tocar em dissolução, orienta-se pelos princípios da menor onero-
sidade e da função social da empresa.”

A morte do sócio

Nas sociedades de pessoas, quando morre um sócio, os remanescentes, se não


concordarem, podem impedir o ingresso na sociedade, do sucessor ou sucessores
do de cujus, por meio da dissolução parcial da sociedade (CCB/02 – art. 1.029).
Isso não acontece nas sociedades de capital, pois os sócios remanescentes não po-
dem se opor ao ingresso do sucessor ou sucessores proprietários das cotas sociais.

Nome empresarial

CONCEITO
O Código Civil Brasileiro de 2002 determina que toda pessoa tem o direito ao nome nele
compreendidos o prenome e o sobrenome (CCB/02 – art. 16). A pessoa pode ser classi-
ficada em pessoas naturais ou pessoa jurídica. Logo, se aplicam ao dispositivo as pessoas
jurídicas (CCB/02 – art. 52). A indicação do nome é obrigatória no ato do registro da pessoa
jurídica e, no caso das sociedades empresárias e da cooperativa no ato de arquivamento
perante a Junta Comercial (lei 8.934/94 – art. 32, III).
Assim, pode-se conceituar o nome empresarial como o elemento de identificação da
sociedade empresária e do empresário individual ou, nos termos do Código Civil Brasileiro
de 2002 “a firma ou a denominação adotada, de conformidade com este capítulo, para o
exercício da empresa” (CCB/02 – art. 1.155).

capítulo 3 • 83
Espécies

No Brasil, a constituição jurídica do nome empresarial pode ser feita da se-


guinte forma: a) firma individual; b) firma social e c) denominação.

Formação

a) Firma individual – é espécie de nome empresarial, formada por um


nome civil – do próprio empresário. (CCB/02 – art.1.155)
b) Firma social – formada por um nome civil de um ou mais sócios, no
caso de firma de sociedade (CCB/02 – art. 1.158, §1o) ou do titular do
investimento, no caso de EIRELI (CCB/02 – art. 985-A, §1o). O núcleo
da firma é, pois, sempre um nome civil.
c) Denominação – denominação deve ser formada por uma palavra que
caracterize o objeto (atividade econômica) da sociedade (CCB/02 – art.
1.158, §2o). É facultado também o uso do nome de uma pessoa física como
homenagem (CCB/02 – art. 1.158, §2o, in fine), mas este ato mantém a
responsabilidade dos contratantes, ou ainda utilizar do nome do local de
atuação da empresa.

Princípios e proteção

O Brasil adota o sistema da veracidade. Esse sistema leva em conta a adoção


dos princípios da exclusividade e a novidade (lei no 8.934/94 – art. 34), evitando
a confusão. Pelo princípio da exclusividade, apenas o empresário poderá adotá-lo
(CCB/02 – art. 1.166) e pelo princípio da novidade não poderá haver nome idên-
tico ou que se assemelhe anteriormente registrado. (CCB/02 – art. 1.163)

Consequências

Em razão do princípio da veracidade, a retirada, expulsão ou morte de sócio


de sociedade limitada impõe a alteração da firma, quando o dissidente, expulso ou
falecido havia emprestado o seu nome civil à composição do nome empresarial.
(CC 2002, art. 1.165) ou denominação (CCB/02 – art. 1.158, § 2o, in fine).
Quando se trata de sociedade anônima, o princípio da veracidade é menos
restritivo, já que impede apenas a adoção de nome civil de quem não é “fundador,

capítulo 3 • 84
acionista, ou pessoa que, por qualquer outro modo, tenha concorrido para o êxito
da empresa” (CCB/02 – art. 1.160, parágrafo único; lei no 6.404/76, art. 32, § 2o).
O princípio da novidade, ao seu turno, representa a garantia de exclusividade
do uso do nome empresarial (CCB/02 – art. 1.166). O primeiro empresário que
arquivar firma ou denominação, na Junta Comercial, tem o direito de impedir
que outro adote nome igual ou semelhante, já que isso importaria desrespeito
à novidade.
O primeiro empresário pode exercer a prerrogativa na esfera administrativa,
opondo-se ao arquivamento do ato constitutivo do concorrente, ou por via ju-
dicial. A última via é mais comum, em vista da brevíssima duração dos prazos
fixados na lei no 8.934/94, para o arquivamento de ato constitutivo de socieda-
de empresária.
Ouso indevido de nome empresarial caracteriza crime de concorrência desleal
(lei no 9.279/96 – art. 195, Inc. V), cabendo a responsabilização civil do usurpa-
dor, pelos danos derivados do desvio de clientela. (lei no 9.279/96 – art. 209)

Alienabilidade

O nome empresarial é um bem imaterial insuscetível de alienação, sendo as-


sim um bem inalienável. A possibilidade ou não de sua alienação está diretamente
relacionada a sua natureza jurídica, que é vista de três maneiras distintas: a) é um
direito de propriedade industrial; b) é um direito de personalidade e c) é um direi-
to pessoal do empresário, derivado da repressão à concorrência desleal. O direito
brasileiro parece ter admitido a tese de direito pessoal, o nome empresarial, tanto
em seu elemento firma como na denominação, não poderá ser objeto de alienação
ou transferência, o que faz dele um direito pessoal. (CCB/02 – art. 1.164)

Ato constitutivo da sociedade. Contrato social

O documento que pactua as normas de constituição e funcionamento de uma


sociedade com fins lucrativos, não anônima, denomina-se contrato social. Assim,
nos termos do Código Civil Brasileiro de 2002, celebram contrato de sociedade
as pessoas que reciprocamente se obrigam a contribuir, com bens ou serviços, para
o exercício de atividade econômica e a partilha, entre si, dos resultados. (CCB/02
– art. 982)

capítulo 3 • 85
Contrato social. Natureza jurídica

Os autores costumam apontar o contrato de sociedade como espécie do gêne-


ro contrato plurilateral, em que converge para um mesmo objetivo a vontade dos
contratantes. (COELHO, 2016)

Cláusulas essenciais e facultativas

Como qualquer contrato, o contrato social deve possuir elementos gerais


(comuns), ou seja, aquelas que compõem qualquer negócio jurídico. (CCB/02 –
art. 104)

Elementos de validade comuns

Adaptando o comando legal aos pressupostos do Direito Societário, pode-se


indicar como elementos gerais: a) o consenso; b) o objeto lícito; e c) a forma. O
art. 104, I, do CC prevê como requisito para a validade de um negócio jurídico
a capacidade do agente. Sabe-se, ademais, que mesmo os incapazes podem parti-
cipar de negócios jurídicos, desde que devidamente assistidos ou representados, a
depender do nível da incapacidade. O mesmo raciocínio aplica-se às sociedades
empresárias. (CCB/02 – art. 974, §3o).
Entretanto, o contrato social deve conter cláusulas essenciais ou obrigatórias,
considerados elementos específicos previstas no Código Civil Brasileiro de 2002,
que envolvem a pluralidade de partes, a contribuição para o capital social, a parti-
cipação nos lucros e nas perdas, e para alguns autores, a affectio societtatis. Deve-se
destacar nestes dados os seguintes itens (CCB/02 – art. 997 c/c. art. 1.054):
•  Nome empresarial, que obedecerá ao princípio da veracidade e da novidade,
incorporando os elementos específicos ou complementares exigidos ou não proi-
bidos em lei (CCB/02 – art. 997, I, c/c. art. 1.155 a art. 1.168). O nome empre-
sarial pode ser de dois tipos dependendo da espécie societária: a) Denominação
Social ou Firma Social; b) capital da sociedade, expresso em moeda corrente, a cota
de cada sócio, a forma e o prazo de sua integralização (CCB/02 – art. 997, III); c)
deverá ser indicado o endereço completo da sede (tipo e nome do logradouro, nú-
mero, complemento, bairro/distrito, município, UF e CEP). No caso da empresa
ter filiais, para cada uma delas também deverá ser indicado o respectivo endereço
completo (CCB/02 – art. 969); d) descrição do objeto social (CCB/02 – art. 997,

capítulo 3 • 86
II); e) em se tratando de sociedade limitada, há necessidade de declaração de que a
responsabilidade de cada sócio é restrita ao valor de suas cotas, mas que todos res-
pondem solidariamente pela integralização do capital social; f ) o prazo de duração
da sociedade deverá ser indicado a data de término do prazo da sociedade, quando
o mesmo for determinado, ou declarado que o prazo da sociedade é indetermina-
do (CCB/02 – art. 997, II); g) as pessoas naturais incumbidas da administração
da sociedade, e seus poderes e atribuições (CCB/02 – art. 997, VI); h) quando for
o caso, qualificação do administrador não sócio, designado no contrato; i) partici-
pação de cada sócio nos lucros e nas perdas (CCB/02 – art. 997, VII). Em regra,
a participação nos lucros e perdas se dá pela participação na sociedade. Não é
permitida a exclusão de sócio na repartição de lucros ou prejuízos (CCB/02 – art.
1.006, 1.007 e 1.008) ; j) foro.
Há cláusulas que são facultativas por disciplinarem matérias relativas a:
•  Reuniões de sócios (CCB/02 – art. 1.072 CC/2002); a) previsão suple-
tiva das sociedades limitadas pelas normas de sociedades anônimas (CCB/02 –
art. 1.053, parágrafo único); b) exclusão de sócios por justa causa (CCB/02 –
art. 1.085); c) expressamente autorização da pessoa não sócia ser administrador
(CCB/02 – art. 1.061); d) instituição de conselho fiscal (CCB/02 – art. 1.066); e)
outras, de interesse dos sócios.

O vínculo societário contratual

O vínculo societário está ligado a qualidade da base jurídica sobre a qual a


sociedade será constituída. Dependendo do tipo societário escolhido, a sociedade
será constituída mediante um contrato social ou mediante um estatuto social. Daí
se falar, ora em sociedade contratual, ora em sociedade estatutária. Regra geral,
inclusive por conta do conceito legal de sociedade, as sociedades disciplinadas
no Código Civil Brasileiro de 2002 são contratuais. São consideradas socieda-
des estatutárias: as sociedades por ações (lei 6.404/76) e a sociedade cooperativa.
(CCB/02 – art. 1093 a art. 1.096)
Em uma sociedade contratual existem dois níveis de relações jurídicas, ou
seja, dois vínculos jurídicos distintos: a relação jurídica sócio-sócio e a relação ju-
rídica sócio-sociedade. Ou seja, numa sociedade contratual, estabelecem-se tanto
vínculos jurídicos dos sócios entre si, quanto destes com a sociedade. Entretanto,
em uma sociedade estatutária, prepondera o vínculo jurídico sócio-sociedade e,
desse modo, são poucos os vínculos jurídicos dos sócios entre si em face do esta-
tuto social.

capítulo 3 • 87
Capital social

Conceito. Formação. Características

O capital social pode ser definido como a cifra correspondente ao valor dos
bens que os sócios transferiram ou se obrigaram a transferir à sociedade (BORBA,
2003). A existência de sociedade está diretamente relacionada à necessidade de
um patrimônio inicial próprio e este patrimônio será composto pelas contribui-
ções apresentadas pelos sócios frente à sociedade (CCB/02 – art. 981). O pano de
fundo que se cria para a formação econômica da sociedade é que todos os sócios
devem contribuir (CCB/02 – art. 1.004). Essa contribuição pode ser igual ou
desigual.
Portanto, esses valores transferidos pelos sócios servem para formar o patrimô-
nio inicial da sociedade, também servem como garantia mínima para os credores
sociais e poderá servir de parâmetro para a atribuição dos lucros ou prejuízos aos
sócios. Essa contribuição pode ser em dinheiro ou em qualquer espécie de bens.
(CCB/02 – art. 997, III)
O capital social pode ser formado por qualquer espécie de bens suscetíveis de
avaliação econômica. CC art. 997, III.
Na sociedade limitada é vetada a contribuição que consista em prestação de
serviços (CCB/02 – art. 1.055, §2o). O sócio que, a título de quota social, trans-
mitir domínio, posse ou uso, responde pela evicção; e pela solvência do devedor,
aquele que transferir crédito. (CCB/02 – art. 1.005)

Princípios

Princípio da intangibilidade

De acordo com este princípio, destaca-se a separação existente entre o patri-


mônio dos sócios e da sociedade. Isso porque os recursos incluídos na conta do
capital social não podem ser empregados pela sociedade para o pagamento de divi-
dendos ou juros sobre o capital dos sócios. Os bens e valores ingressados a título de
capital social apenas poderão ser devolvidos aos sócios na hipótese de dissolução
da sociedade e, mesmo assim, por meio do procedimento adequado (redução de
capital ou reembolso feito à conta do capital social).

capítulo 3 • 88
Salvo as limitações apresentadas, a sociedade pode usar livremente
os demais recursos disponíveis na exploração da empresa

Princípio da realidade

Por este princípio procura-se garantir que o capital tenha efetiva relevância
prática e não venha a se transformar em mera cifra contábil. Assim, os bens e
créditos que compõem o capital social devem refletir exatamente o valor das cotas
ou ações no ato da subscrição e nos seus momentos posteriores. Demonstra-se
por esse princípio a necessidade de realmente existir no patrimônio da sociedade
os bens prometidos a título de capital social e a necessidade de que tais aportes
tenham o exato valor indicado no ato da subscrição. (CCB/02 – art. 1055, §1o)

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capítulo 3 • 90
4
Da sociedade
limitada
Da Sociedade Limitada
Introdução

A sociedade limitada é a espécie de sociedade de maior incidência no mercado


brasileiro. O seu sucesso decorre de suas características: a limitação da respon-
sabilidade dos sócios e a simplicidade da elaboração de seu contrato social. Em
razão da primeira, os sócios e investidores podem antever e limitar eventuais per-
das, em caso de insucesso da atividade econômica. Nesse tipo societário, os sócios
respondem, em regra, pelo montante total atribuído ao capital social. Uma vez
integralizado todo o capital da sociedade, os credores sociais não poderão ter su-
cesso na execução de seus créditos no patrimônio particular dos sócios, ressalvada
a hipótese de desconsideração da personalidade jurídica da pessoa jurídica. Desse
modo, são preservados os bens particulares dos sócios, mesmo em caso de falência
da sociedade limitada empresária.
A segunda característica que incentiva a utilização desse tipo societário é a sua
contratualidade, ou seja, os sócios podem organizar suas relações diretamente no
contrato social mediante disposições de vontade, sem os rigores ou balizamentos
próprios do regime legal da sociedade anônima.

OBJETIVOS
Neste Capítulo você terá a oportunidade de estudar os elementos da personificação das
sociedades; reconhecer os elementos essenciais para a desconsideração da personalidade
jurídica das sociedades; - Identificar uma das espécies de sociedade do Código Civil Brasi-
leiro - a Sociedade Limitada, conhecer suas características, o grau de responsabilidade dos
sócios, sua organização interna e a forma de sua extinção.

Legislação aplicável

Antes do Código Civil Brasileiro de 2002, a sociedade por cotas de res-


ponsabilidade limitada era disciplinada pelo Dec. 3.708/19. Atualmente, a so-
ciedade limitada é especialmente disciplinada pelo Código Civil Brasileiro de
2002 (CCB/02 – art. 1.052 a 1087) e, se for opção contratual dos sócios, pela
lei 6.404/76 (CCB/02 – art. 1.053, parágrafo único). Entretanto, se as normas

capítulo 4 • 92
especiais do capítulo da sociedade limitada e o contrato social forem omissos, apli-
cam-se, subsidiariamente as normas da sociedade simples (CCB/02 – art. 1.053
c/c art. 997 a 1.032). Se, porém, os sócios estipularem expressamente no contrato
social que o regime de regência supletiva de sua sociedade limitada será o das so-
ciedades anônimas, aplicam-se as normas da lei 6.404/76 (LSA).
A regência supletiva pelas normas das sociedades simples ou das anônimas im-
porta, na verdade, a criação na lei de dois subtipos de limitadas, que serão tratadas
mais à frente (item 6).

Responsabilidade dos sócios

Dentre as responsabilidades fundamentais dos sócios na sociedade limitada,


podem ser identificadas as seguintes responsabilidades: o dever de cooperação eco-
nômica; a formação do capital social; a administração da sociedade e a responsa-
bilidade para com terceiros.
A rigor, as sociedades limitadas respondem, com a plenitude de seu patrimô-
nio, por todos os compromissos sociais assumidos.
O dever de cooperação econômica – a responsabilidade fundamental de um
sócio, numa sociedade limitada, é a de integralizar suas cotas (CCB/02 – art. 981).
Em caso de inadimplência do sócio, este responderá pelo dano que a sua omissão
causar à empresa (CCB/02 – art. 1.004).
Se a sociedade sofrer algum tipo de prejuízo, ocasionado pela mora de um
sócio, este responderá pela sua mora (CCB/02 – art. 395) e os juros devem ser cal-
culados à mesma taxa cobrada pela mora dos tributos devidos à Fazenda Nacional
(CCB/02 – art. 406), isto é, aqueles fixados pela SELIC – Sistema Especial de
Liquidação e Custódia.
Na formação do capital social, os sócios têm responsabilidade solidária, de tal
sorte que serão chamados para solver os débitos sociais, até o limite da integrali-
zação do capital social, desde que caracterizada a ausência de bens da sociedade.
(CCB/02 – art. 1.052)
A teor do Decreto no 3.708/19, a responsabilidade solidária dos sócios seria
exigida tão somente em caso de falência da empresa, ao passo que o atual Código
Civil abre perspectiva de exigi-la a qualquer momento (CCB/02 –art. 1.001), se
não existir disposição contratual diversa, mesmo que a sociedade reúna plena saú-
de financeira. Dessa maneira, no Código Civil Brasileiro de 2002 a responsabili-
dade individual de cada sócio passou a ser mais rigorosa, se comparada com o que

capítulo 4 • 93
estabelecia o regulamento anterior, inclusive no que concerne à responsabilidade
pelo valor exato atribuído aos bens. (CCB/02 – art. 1.055, §1o)
Em caso de ausência de integralização (total) do capital social, todo cotista
responde solidariamente pela mora dos demais, como se fosse “fiador” dos mes-
mos. Desse modo, poderá qualquer cotista ser obrigado a dispor de seus bens par-
ticulares para solver eventual inadimplência de outro cotista, ainda que ele tenha
cumprido rigorosamente a sua própria obrigação, na época devida.
Entretanto, a responsabilidade dos sócios pelas obrigações da sociedade limi-
tada está sujeita a limites como sugere a nomenclatura. Se os bens da sociedade
não são suficientes para responderem pelo valor total das dívidas sociais, os credo-
res só poderão satisfazer suas pretensões com os bens dos sócios, até o valor total
do capital social não integralizado.

É de suma importância fazer a distinção entre os conceitos de


“subscrição”, “realização” e “integralização” do capital social

•  Subscrição: significa a assunção de obrigação do sócio em contribuir para


a formação do capital social. Exemplo: o sócio se compromete a entregar à socie-
dade a quantia de R$ 10.000,00 (dez mil reais). Subscrição é a mera promessa
(compromisso), sem a efetiva transferência. O compromisso assumido pode ser de
pagar toda a quantia de uma única vez (integralização total) ou de pagar parcela-
damente (realização parcial).
•  Realização: é o pagamento ou cumprimento parcelado da quantia assumida
no ato de subscrição. Exemplo: o sócio assumiu o compromisso de contribuir com
R$ 10.000,00, mas vai pagar parceladamente em 10 (dez) prestações. O sócio, ao
pagar uma prestação, irá realizar suas cotas.
•  Integralização: é o pagamento ou cumprimento total (integral) da quantia
assumida no ato de subscrição. Exemplo: o sócio assumiu o compromisso de con-
tribuir de uma única vez com R$ 10.000,00. O sócio, ao pagar a única prestação
devida, irá integralizar suas cotas.
Se o contrato social estabelecer que o capital está totalmente integralizado, os
sócios não têm responsabilidade alguma pelas obrigações sociais. Em caso de fa-
lência da sociedade ou insuficiente o patrimônio social para liquidação do passivo,
a perda será suportada pelos credores.
A limitação da responsabilidade dos sócios pelas obrigações sociais é mais
um mecanismo de estímulo ao empreendedorismo, aos investidores da atividade

capítulo 4 • 94
econômica e a exploração empresarial dos negócios, conhecido como função so-
cial da empresa (CRFB/1988 – art. 170). Se o insucesso de certa empresa pudesse
pôr em risco todo o patrimônio dos agentes econômicos e investidores, pondo
mais risco que o negócio já proporciona, é natural que pouca gente teria coragem
de investir e participar de uma atividade econômica organizada, em detrimento
do desenvolvimento nacional (CRFB/1988 – art. 3o, II). Assim, o prejuízo seria
de todos nós, já que os bens necessários ou úteis à vida de todos e podem propor-
cionar redução das desigualdades sociais produzem-se em empresas (CRFB/1988
– art. 1o IV, fine c/c. art. 170, VII).

A regra da limitação da responsabilidade dos sócios da sociedade


limitada comporta exceções. São as seguintes:

•  CCB/02 – art. 1.080: os sócios que adotarem deliberação contrária à lei ou


ao contrato social responderão ilimitadamente pelas obrigações sociais relaciona-
das à deliberação ilícita. Os sócios que dela dissentirem deverão deixar consignado
a dissidência, para afastar qualquer hipótese de responsabilização, bem como não
devem se beneficiar com dividendos ou proveito econômico da deliberação ilícita
(CCB/02 – art. 1.009).
•  CCB/02 – art. 50: desconsideração da personalidade jurídica da pessoa ju-
rídica – se os sócios fraudarem credores valendo-se do expediente da separação
patrimonial, poderão ser responsabilizados ilimitadamente por obrigação da socie-
dade, em decorrência da teoria da desconsideração da pessoa jurídica.
•  CCB/02 – art. 1.003: o sócio que se retira da sociedade também continua
responsável pelos encargos financeiros contraídos durante o período em que dela
participou como cotista, pelo prazo de dois anos, caso venha a ocorrer a desconsi-
deração da personalidade jurídica da pessoa jurídica. Na verdade, cessa a respon-
sabilidade do sócio que se retira da sociedade somente após dois anos a contar da
data do arquivamento no Registro Público de Empresas Mercantis, da alteração
contratual que resultou em sua saída (CCB/02 – art. 1.003, parágrafo único).
•  CCB/02 – art. 1.032: no mesmo sentido, a saída, morte ou exclusão do
sócio não o isenta, ou a seus herdeiros, de responder pelas obrigações sociais an-
teriores, até dois anos após a averbada a resolução, em caso de desconsideração da
personalidade jurídica da pessoa jurídica.
•  CCB/02 – art. 1.016: o administrador responde pessoalmente pelas obriga-
ções assumidas em nome da sociedade, sempre que agir de forma culposa.

capítulo 4 • 95
•  Da mesma forma, é vetada ao sócio administrador a intervenção em decisão
social da qual tenha interesse direto e conflitante com os interesses da organização
(CCB/02 – art. 1.017, parágrafo único c/c art. 1074, 2o).
•  CCB/02 – art. 1.010, §3o: sócio administrador responde, também, pela
prática de atos que sabe, ou deveria saber, que contrariam a decisão da maioria dos
demais sócios.
•  CCB/02 – art. 1.064: responsabilidade pelo uso indevido da razão social da
empresa – é de se admitir que no pleno exercício de suas funções, o sócio admi-
nistrador faça uso regular do nome da sociedade. Contudo, o mesmo não se pode
dizer do uso da razão social da empresa para atender interesses eminentemente
pessoais do sócio administrador, o que seria indevido. Em ocorrendo tal irregula-
ridade – abuso ou uso indevido da razão social da empresa – o sócio administrador
responde civilmente pelos prejuízos que causar à sociedade.
•  CCB/02 – art. 1.036: a liquidação de uma sociedade implica interrupção
da continuidade de novas operações empresariais (CCB/02 – art. 51), as quais
ficam limitadas tão somente aos atos absolutamente indispensáveis ao encerra-
mento das contas. Se, contudo, os sócios não se abstiverem da realização de novos
negócios, durante a fase de liquidação da empresa, responderão, pessoalmente, de
forma ilimitada e solidariamente, pelos seus atos.

Deliberações dos sócios

A estrutura legislativa impressa no Dec. 3.708/19 conferia à sociedade limita-


da a feição de sociedade formada intuitu personae, regida essencialmente pelas nor-
mas contratuais escolhidas pelas partes, para dispor sobre a forma de organização
e funcionamento da sociedade, ressalvadas poucas disposições de ordem pública,
que afastavam a liberdade contratual das partes. A lei das sociedades por ações era
aplicada supletivamente, em tudo que não estivesse regulado no contrato social.
(Dec. 3.708/1919 – art. 18)
O Código Civil Brasileiro de 2002 criou para a sociedade limitada uma série
de formalidades, restrições e exigências (em alguns casos, até mais severas que as
aplicáveis à sociedade anônima) para instrumentalizar uma sociedade de pessoas,
com aptidão para incorporar as necessidades próprias da sociedade tipicamente
familiar.
Os sócios da sociedade limitada, normalmente, participam do dia a dia da
empresa discutindo vários assuntos (deliberações) referentes ao desenvolvimento

capítulo 4 • 96
da sociedade. Nesses casos, são dispensáveis qualquer formalidade. Entretanto,
o CCB/02 – art.1071 enuncia, exemplificativamente, matérias que constituem
objeto de deliberação dos sócios: a) aprovação das contas da administração; b)
designação dos administradores, quando feita em ato separado do contrato social;
a destituição dos administradores; o modo de remuneração, quando não estabe-
lecido no contrato; c) modificação do contrato social; d) a incorporação, a fusão
e a dissolução da sociedade, ou a cessação do estado de liquidação; e) nomeação
e destituição dos liquidantes e o julgamento das suas contas e o pedido de con-
cordata. Trata-se de rol meramente exemplificativo, pois o contrato social poderá
indicar outras matérias, sujeitas à reunião ou assembleia de sócios, por exemplo a
expulsão de minoritário por justa causa. (CCB/02 – art. 1.085)

Órgãos de deliberação

Os sócios de sociedade limitada poderão deliberar por meio de simples reu-


niões de sócios ou assembleia (CCB/02 – art. 1.072). Caso seja constituída por
número inferior a 10 (dez) sócios ou, se o quadro social contar com mais de dez
sócios, as deliberações terão que ser tomadas em assembleia (CCB/02 – art. 1072,
§1o). Se a sociedade tiver menos de 10 sócios, poderá haver estipulação de deli-
beração em assembleia, desde que o contrato social assim estipule. Entretanto,
se o quadro social tiver mais de dez sócios, as deliberações terão que ser tomadas
em assembleia (CCB/02 – art. 1.072, §1o). Nesse último caso, existindo norma
legal cogente, a disposição contratual em sentido diverso não terá validade e será
destituída de eficácia.
É possível que os sócios resolvam previamente adotar que a tomada de deci-
sões sobre determinadas matérias será por escrito, dispensando, nessa hipótese, a
reunião ou assembleia de cotistas (CCB/02 – art. 1.072, §3o), podendo, igual-
mente, por meio de tal ato, ser ratificada decisão que não tenha sido tomada em
assembleia, quando for este o órgão de deliberação legalmente previsto. É possível
ainda que a deliberação seja sanada, em assembleia posteriormente realizada para
o fim de convalidar o ato jurídico. (CCB/02 – art. 172 c/c. art. 173)
Nas sociedades limitadas enquadradas como microempresa (ME) ou em-
presa de pequeno porte (EPP) – (LC. 123/2006 – art. 3o, inc. I e II) as deli-
beração em reunião ou assembleia são dispensáveis (LC. 123/2006 – art. 70),
cxceto no caso de expulsão de sócio minoritário, hipótese em que a assembleia
ou reunião continuam indispensáveis

capítulo 4 • 97
Convocação

A assembleia de cotistas poderá ser convocada: a) pelos administradores


(CCB/02 – art. 1.072); b) pelos sócios (CCB/02 – art. 1.073, I) ou c) pelo con-
selho fiscal (CCB/02 – art. 1.073, II), observados os casos previstos na lei e no
contrato social.
A assembleia deve ser convocada mediante avisos publicados por três vezes na
imprensa oficial e em jornal de grande circulação, com antecedência mínima de
oito dias. (CCB/02 – art. 1.152, §3o)

Instalação

A assembleia só pode ser instalada com a presença, em primeira convocação,


de pelo menos três quartos do capital social. Em segunda convocação, poderá ser
instalada com qualquer número de sócios. (CCB/02 – art. 1.074)

ATENÇÃO
É obrigatória a realização de uma assembleia a cada ano, para tomar as contas dos ad-
ministradores, votar o balanço patrimonial e de resultados e eleger administradores (CCB/02
– art. 1.078). Se a sociedade tiver conselho fiscal, os seus membros serão eleitos também
nessa oportunidade (CCB/02 – art. 1.066, in fine)
Os sócios podem ser representados na assembleia por outro sócio, ou por advogado,
mediante outorga de mandato com especificação dos atos autorizados, devendo o instru-
mento ser levado a registro, juntamente com a respectiva ata da assembleia (CCB/02 – art.
1074, §1o). A assembleia ou reunião de cotistas é normalmente ambiente restrito aos sócios,
não devendo ser permitida, em tese, a presença de terceiros estranhos ao quadro social,
salvo expressa aprovação dos sócios.

Funcionamento

A presidência da assembleia é escolhida entre os sócios presentes, que também


designam o secretário (CCB/02 – art. 1.075). Deverá ser lavrada ata da assembleia
ou da reunião de sócios, que será assinada pelo presidente da mesa e pelo secretário
e pelos sócios que bastem à validade das deliberações. Cópia da ata da assembleia

capítulo 4 • 98
ou da reunião, após autenticada pelos administradores, ou pela mesa, deverá ser
apresentada ao Registro Público de Empresas Mercantis para arquivamento e aver-
bação, nos vinte dias subsequentes à reunião (CCB/02 – art. 1.075, §1o e §2o).
Todo sócio tem direito de receber, sempre que solicitado, cópia autenticada da ata
de assembleia ou reunião. (CCB/02 – art. 1.075, §3o)

Quórum para deliberação

Os quóruns para deliberação em sociedade limitada podem ser: a) maioria


de votos da vontade social (primeiro número inteiro depois da metade); b) três
quartos da vontade social (75% da vontade social) ou c) maioria de votos presente
à assembleia.
O Código Civil Brasileiro de 2002 determina que em regra as decisões serão
tomadas por maioria de votos (CCB/02 – art. 1.010). Em se tratando de socieda-
de limitada as matérias designadas a seguir também exigem a aprovação de sócios
representativos de mais da metade do capital social (CCB/02 – art. 1.076, II):
a) A designação dos administradores, quando feita em ato separado.
b) A destituição dos administradores.
c) O modo de sua remuneração, quando não estabelecido no contrato.
d) O pedido de concordata (recuperação de empresas).

Cabe observar que estão excepcionadas, expressamente, nos casos de escolha


de administrador não integrante da sociedade ou da destituição de administrador
designado no contrato social. Aplicam-se a estas situações o CCB/02 – art. 1.061
e 1.063, §1o que estipulam sejam as decisões tomadas: a) por unanimidade para a
escolha de administrador não integrante da sociedade, enquanto não integralizado
totalmente o capital social; b) por dois terços dos sócios, a escolha de adminis-
trador não integrante da sociedade, quando o capital social estiver devidamente
integralizado; c) dois terços do capital social, salvo disposição contratual diversa,
para a destituição de sócio nomeado administrador no contrato social.
Entretanto, em se tratando de sociedade limitada, determinadas decisões da
sociedade serão tomadas por quórum mínimo qualificado (CCB/02 – art. 1.076
c/c o art. 1.071, V e VI). Nesses casos, as matérias somente serão aprovadas ape-
nas mediante voto de sócios representando o equivalente a 75% (três quartos) da
vontade social nas seguintes matérias:
a) A modificação do contrato social (CCB/02 – art. 1.071, V).

capítulo 4 • 99
b) A incorporação, a fusão e a dissolução da sociedade (CCB/02 – art.
1.071, VI).
c) A cessação do estado de liquidação (CCB/02 – art. 1.071, VI fine).

Quanto à modificação do contrato social, há flexibilização em relação às de-


mais sociedades, conforme a regra contida no CCB/02 – art. 999 que exige una-
nimidade para alteração. No caso de sociedade limitada, a lei exige apenas 75%
(três quartos) da vontade social.
Quanto à incorporação, estabelece o Código Civil Brasileiro de 2002 que a
aprovação da operação terá de ser feita pelas várias sociedades, seguindo o regime
deliberativo legal e contratual próprios a cada qual. (CCB/02 – art. 1.116)
Quanto às fusões, dispõe o Código Civil Brasileiro de 2002 sobre a necessi-
dade de deliberação das sociedades envolvidas (CCB/02 – art. 1120, §1o) sendo
vetado aos sócios votar o laudo de avaliação do patrimônio da sociedade de que
façam parte. (CCB/02 – art. 1120, §3o)
No que se refere à transformação, o Código Civil Brasileiro de 2002 traz a exi-
gência de aprovação da unanimidade dos sócios, exceto se houver previsão diversa
no contrato social. (CCB/02 – art. 1.114)
Entretanto, deve-se ressaltar que o Código Civil Brasileiro de 2002 não espe-
cificou o quórum para a deliberação sobre a cisão da sociedade. Assim, pode-se
ter o entendimento de que a deliberação deve observar o quórum genérico de
maioria dos presentes (CCB/02 – art. 1.076, III). Porém, deve-se ponderar que a
cisão certamente vai implicar alteração contratual. Nesse caso, o quórum delibe-
rativo seria o de titulares de cotas representando 3/4 do capital social. (CCB/02 –
art. 1.076, I)

ATENÇÃO
Em caso de empate – quando ocorrer empate nas deliberações sociais, considerado
cada voto de acordo com a participação do sócio no capital social, o desempate poderá ser
obtido por meio da apuração de voto por cabeça, ou pelo número de sócios, e, persistindo o
empate, por decisão do juiz (CCB/02 – art. 1010, §2o c/c. Art. 1.072)

capítulo 4 • 100
Direito de retirada e apuração de haveres

O Código Civil Brasileiro de 2002 estabelece o direito de retirada para o sócio


da sociedade limitada que manifestar discordância quanto à aprovação da altera-
ção do contrato social, ou da incorporação de outra sociedade ou da limitada em
outra, ou da sua fusão (CCB/02 – art. 1.077). Em havendo o exercício do direito
de retirada, o valor das cotas do sócio dissidente deverá ser apurado e pago pela
sociedade, com base no balanço levantado especialmente para este fim. (CCB/02
– art. 1.031)
No caso do balanço não refletir o real valor patrimonial da sociedade, os tribu-
nais vêm determinando que a apuração de haveres se faça por meio de perito nomea-
do pelo juiz (CPC/15 – art. 604). A apreciação patrimonial dos haveres do sócio que
se retira ou que é excluído da sociedade deve ser de modo a refletir o esforço comum
dos sócios que é feito com o emprego de critério contábil relacionado ao fluxo de
caixa descontado. Esse critério faz um levantamento que revela a situação econô-
mica e a capacidade de geração da riqueza de uma empresa. Trata-se de um cálculo
que deve ser realizado da forma mais ampla possível, levando em conta o fundo de
comércio e os bens corpóreos e incorpóreos. (CPC/15 – art. 606)

Conflito de interesses e responsabilidade pela ilicitude do voto

O conflito de interesses do sócio em detrimento dos interesses do objeto social


está presente quando o sócio vota movido por interesse particular em detrimento
ao interesse da sociedade. Afigura-se como aspecto fundamental deste conflito, a
completa dissociação entre os interesses particulares do sócio e os da sociedade.
O Código Civil Brasileiro de 2002 procura inibir o sócio de proferir seu voto em
deliberação de determinadas matérias ou sob certas circunstâncias.
Assim, o sócio será responsável por perdas e danos que causar quando votar
em situação de conflito pessoal com a sociedade, se a deliberação aprovar, com
seu voto, operação em que tenha manifesto interesse contrário ao da sociedade
(CCB/02 – art. 1.010, §3o). Haverá também conflito quando a matéria que o afe-
te diretamente interesse do sócio, por exemplo, a celebração de contrato ou a rea-
lização de operação em que seja o beneficiário ou interessado, mesmo que não se
configure situação típica de conflito de interesses. Nessa hipótese, o impedimento

capítulo 4 • 101
o alcança também na condição de mandatário de outro sócio (CCB/02 – art.
1.074, §2o). Outra hipótese de proibição do sócio de votar refere-se ao laudo de
avaliação do patrimônio da sociedade de que faça parte, na operação de fusão de
sociedades. (CCB/02 – art. 1.120, § 3o)
Com o mesmo fundamento identifica-se como impedimento legal a hipó-
tese que se refere aos administradores e membros do conselho fiscal, discussão e
aprovação das contas dos administradores (CCB/02 – Art. 1078, §2o). A mesma
consequência haverá quando houver aprovação, sem reserva, do balanço patrimo-
nial e do balanço de resultado econômico, quando tal deliberação for tomada con-
trariamente à lei e ao contrato social. (CCB/02 – art. 1.078, §3o c/c. art. 1.080)
Nessas hipóteses, as deliberações estarão eivadas de vício se foi obtida com o
concurso de voto conflitante com o interesse social, sendo, portanto, passível de
anulação (CCB/02 – art. 171), ressaltando-se ainda que a responsabilidade ilimi-
tada aos sócios quando as deliberações forem tomadas em violação às disposições
da lei e do contrato social. (CCB/02 – art. 1.080)

Administração

Inicialmente deve-se registrar que o revogado Dec. 3.708/19, praticamente


não normatizava a administração da sociedade por cotas, deixando aos sócios a es-
tipulação contratual sobre a matéria. O Código Civil Brasileiro de 2002 apresenta
disciplina muito mais detalhada, estabelecendo várias regras a respeito de admi-
nistração das sociedades limitadas (CCB/02 – art. 1.060 a 1.065) a despeito de
prever aplicação subsidiária (CCB/02 – art. 1.053) das normas de administração
da sociedade simples stricto sensu. (CCB/02 – art. 1.010 a 1.021)
A sociedade limitada pode ser administrada por uma ou mais pessoas designa-
das no contrato social ou em ato separado (CCB/02 – art. 1.060). Se o contrato
social não especificar que é o administrador, todos serão considerados separada-
mente como tal (CCB/02 – art. 1.013). A administração atribuída no contrato a
todos os sócios não se estende de pleno direito aos que posteriormente adquiram
essa qualidade (CCB/02 – art. 1.060, parágrafo único), podendo, contudo, o con-
trato social dispor diferentemente.
A administração pode ser feita por não sócio (CCB/02 – art. 1.061) desde
que sua nomeação tenha a aprovação unânime dos sócios, enquanto o capital não
estiver integralizado. Se já estiver integralizado o capital social, a aprovação está
condicionada à aprovação por sócios cujos votos sejam representativos de 3/4 (três

capítulo 4 • 102
quartos) do capital social. A exigência do quórum qualificado se justifica em face
dos riscos maiores derivados da escolha de administrador que não os próprios
sócios, assumindo o legislador que tal tipo societário tem o caráter de sociedade
de pessoas.
O exercício da função de administrador pode terminar pela destituição, a
qualquer tempo, do seu titular, ou pelo término do prazo que tenha sido fixado
no contrato social ou em ato separado e não tendo havido a recondução (CCB/02
– art. 1.063). Entretanto, se o administrador for sócio, a sua destituição somente
ocorrerá se for aprovada por sócios detentores de cotas representativas de, no mí-
nimo, de 3/4 (três quartos) do capital social. (CCB/02 – art. 1.063, § 1o)
Todas essas regras relacionadas à cessação do exercício do cargo de administra-
dor são extremamente relevantes, porquanto voltadas às pessoas que se relacionam
com a companhia, prevenindo situações de vinculação de pessoa que se desligou
da administração social.
O uso da firma ou denominação social é privativo dos administradores,
aos quais o contrato social tenha reservado os respectivos poderes. (CCB/02 –
art. 1.064)
Deve-se destacar ainda que o administrador tem a obrigação de prestar contas
de sua administração (CCB/02 – art. 1.020). O administrador responde pelos
danos causados à sociedade (CCB/02 – art. 1.016). Em consequência, ao término
de cada exercício social, proceder-se-á ao levantamento do inventário, do balanço
patrimonial e do balanço de resultado econômico (CCB/02 – art. 1.065). A apro-
vação sem reservas das contas dos administradores exonera a sua responsabilidade,
salvo erro, dolo ou simulação. (CCB/02 – art. 1.078, §3o).

A teoria dos atos ultra vires

A teoria ultra viressocietatis (além do conteúdo da sociedade) estabelece que, se


o administrador, ao praticar atos de gestão, violar as suas atribuições ou o objeto
social delimitado no ato constitutivo, tal ato e suas responsabilidades não poderão
ser imputados à sociedade (CCB/02 – art. 47 c/c. art. 1.015, parágrafo único).
Dessa maneira, a sociedade fica isenta de responsabilidade perante terceiros, salvo
se tiver se beneficiada com a prática do ato, quando então, passará a ter responsa-
bilidade na proporção do benefício auferido.
Assim, é a primeira manifestação, no direito positivo brasileiro, da teoria ultra
vires em que a pessoa jurídica só responde pelos atos praticados em seu nome,

capítulo 4 • 103
quando compatíveis com o seu objeto. Se o ato ou contrato são estranhos às fina-
lidades da pessoa jurídica, devem ser imputados à pessoa física de quem agiu em
nome dela, normalmente ao administrador.
É admissível a contratação de pessoa não sócia para administrar a sociedade
(CCB/02 – art. 1.061), outorgando-lhe mandato com poderes específicos sufi-
cientes para o exercício desse mister. Há entre a sociedade e o mandatário um
negócio jurídico de mandato, instrumentalizado pela procuração (CCB/02 –
art. 653) que outorga poderes específicos de atuação de uma ou mais pessoas
naturais como administrador da pessoa jurídica. Quando o mandato é aceito,
o mandatário é obrigado a realizar todos os atos de acordo com as instruções
dos sócios (CCB/02 –art. 668), empregando na sua execução a diligência que
um administrador ativo e probo costuma desempenhar na gerência de seus pró-
prios negócios e sendo devedor da prestação de contas embutida nessa obrigação.
(CCB/02 – art. 667)
Entretanto, se o terceiro que, depois de conhecer os poderes do mandatário,
com ele celebrar negócio jurídico exorbitante do mandato, não tem ação contra
o mandatário, salvo se este lhe prometeu ratificação do mandante ou se respon-
sabilizou pessoalmente (CCB/02 – art. 673). Nesse caso, há causa de exclusão da
responsabilidade do mandatário.
Deve-se ressaltar que a sociedade limitada pode estar sujeita à regência suple-
tiva do regime das anônimas (CCB/02 – art. 1.053, parágrafo único). Logo, será
a sociedade, e não o administrador, quem responderá por todos os atos praticados
em seu nome, podendo, por certo, ressarcir-se dos prejuízos em regresso contra o
administrador que excedeu seus poderes.

Teoria dos atos ultra vires e a boa–fé objetiva

Deve-se destacar que as consequências da aplicação da teoria dos atos ultra


vires têm validade perante fornecedores e instituições financeiras e de crédito,
mas não vêm gozando de aplicação rotineira perante os consumidores, quando
deverá ser observada a teoria da aparência e da proteção ao terceiro, de boa-fé.
Assim, a sociedade não responde perante fornecedores e instituições financeiras e
de crédito quando se: a) a limitação de poderes dos administradores estiver inscrita
no registro próprio; b) o terceiro conhecia do excesso de mandato e c) a operação
realizada for evidentemente estranha ao objeto social da pessoa jurídica. Todavia,
responderá perante consumidores se estes estiverem de boa-fé e o ato gozar de
aparência suficiente para vincular a sociedade. (CAMPINHO, 2004)

capítulo 4 • 104
Conselho fiscal

Ainda que mais frequente nas sociedades de médio e grande porte é possível
que o contrato social preveja a instauração e funcionamento de um conselho fiscal
na sociedade limitada tendo em vista que somente se justifica tal conselho quando
houver número considerável de sócios. Em regra, não é conveniente ou economi-
camente justificável sua instalação e funcionamento.
O conselho deve ser constituído por, no mínimo, três membros efetivos e
respectivos suplentes, sócios ou não sócios. Há impedimento para os membros da
administração da própria sociedade ou de outra, por ela controlada, empregados
de ambas ou dos respectivos administradores, bem assim os cônjuges ou parentes
até terceiro grau destes. Os membros do conselho fiscal serão escolhidos na assem-
bleia anual (ou em reunião, se prevista em contrato social) pelo voto da maioria
dos sócios presentes. A lei assegura aos que discordarem dos conselheiros fiscais
escolhidos pela maioria, o direito de eleger, em separado, um membro e respectivo
suplente, desde que sejam titulares pelo menos um quinto do capital social.
O membro do conselho fiscal exerce as suas atribuições de forma individual
e, por tal motivo pode ser responsabilizado por eventual dano gerado pelo abuso
dos seus poderes.

A regência supletiva das sociedades limitadas

A partir do novo Código Civil de 2002, os sócios que optarem pela constitui-
ção de sociedade limitada podem escolher entre duas formas de regência supletiva
(CCB/02 – art. 1.053 e parágrafo único). Isso significa que, em regra, a regência
direta e principal da sociedade limitada é o contrato social. Entretanto, se os sócios
optarem, ou em caso de omissão do contrato, a sociedade poderá ser regida ou
pelas normas da sociedade simples ou pelas normas das sociedades por ações (lei
6.404/76).
As sociedades limitadas sujeitas à regência supletiva das sociedades simples
(CCB/02 – art. 1.053) estabelecem entre os sócios um vínculo que pode ser rom-
pido com maior facilidade, isso em função das hipóteses em que é cabível a disso-
lução parcial (resolução da sociedade em relação a um sócio). Assim, a dissolução
parcial cabe em cinco casos:
a) Liquidação de cotas a pedido de credor de sócio (CCB/02 – art. 1.026).
b) Morte de sócio (CCB/02 – art. 1.028, caput).
c) Retirada imotivada (CCB/02 – art. 1.029, primeira parte).

capítulo 4 • 105
d) Retirada motivada (CCB/02 – art. 1.029, parte final c/c art. 1.077).
e) Expulsão de sócio (CCB/02 – art. 1.085).
Nas sociedades limitadas sujeitas à regência supletiva das sociedades por ações,
o vínculo existente entre os sócios não pode ser rompido com tanta facilidade.
Nela, o vínculo entre os integrantes da sociedade é mais estável. (COELHO,
2016)

Ademais, é conveniente destacar alguns outros aspectos:

•  Desempate em deliberações: as sociedades limitadas regidas pelo Código


Civil Brasileiro de 2002, em caso de empate nas deliberações, o desempate é feito,
inicialmente, segundo o critério da quantidade de sócios (CCB/02 – art. 1.010,
§2o). Se o empate permanecer, cabe intervenção judicial. Já nas sociedades limita-
das regidas pela lei 6.404/76, não há o critério de desempate pela quantidade de
sócios. Prevalecerá, nestas, sempre a quantidade de cotas de cada acionista. Assim,
empatada a deliberação, tenta-se o desempate em nova assembleia geral a se reali-
zar com pelo menos 60 dias de intervalo; continuando o impasse, e não prevendo
o estatuto a arbitragem nem os sócios elegendo terceiro a quem encomendar a
decisão, caberá ao juiz desempatar no interesse da sociedade. (lei 6.404/76 – art.
129, §2o)
•  Destinação dos dividendos: nas sociedades limitadas regidas pelo Código
Civil Brasileiro de 2002, a deliberação é feita pela maioria dos sócios. Isso ocorre
porque, nas normas de regência da sociedade simples, não se estabelece obrigato-
riedade de distribuição mínima de parte dos lucros entre os sócios ou de apropria-
ção de reservas. Já as sociedades limitadas regidas pela lei 6.404/76, deve haver,
no contrato social, o percentual mínimo dos lucros sociais a ser distribuído anual-
mente entre os sócios. Se o contrato social for omisso, pelo menos metade do lucro
líquido deve ser obrigatoriamente distribuída entre os sócios, como participação
nos lucros. (lei 6.404/76 – art. 202)

Sociedades limitadas de grande porte (lei no 11.638/2007, art. 3o,


parágrafo único)

A sociedade é classificada como “de grande porte” quando a sociedade ou


conjunto de sociedades sob controle comum que tiver, no exercício social anterior,
ativo total superior a R$ 240.000.000,00 (duzentos e quarenta milhões de reais)

capítulo 4 • 106
ou receita bruta anual superior a R$ 300.000.000,00 (trezentos milhões de reais).
Nesse caso, a sociedade limitada submete-se às mesmas regras que a lei fixa para a
sociedade anônima relativamente à escrituração e elaboração das demonstrações
financeiras e, ao término do exercício, a sociedade limitada de grande porte deve
levantar as mesmas demonstrações financeiras a que se obrigam as companhias
fechadas em geral. (lei 6.404/76 –art. 176, I a III)

Reorganização societária

Transformação

A transformação é a operação em que determinada sociedade (CCB/02 – art.


1.113) ou EIRELI (CCB/02 – art. 1.033, parágrafo único) passa de um tipo
de estrutura jurídica para outro, independentemente de dissolução e liquidação.
Nesse caso, o ato constitutivo (contrato social) deve ser alterado, e a pessoa jurídi-
ca fica submetida às regras do novo regime, mas não há alteração da personalidade
jurídica. Como exemplo, é possível destacar que uma sociedade “A” tem forma
de sociedade anônima. Entretanto, não havendo mais o interesse na manutenção
desse formato de sociedade, ela (sociedade “A”) pode se transformar em uma so-
ciedade empresária limitada.
A transformação só poderá ocorrer se houver consentimento unânime dos
sócios, com exceção de casos especiais previstos em lei (CCB/02 – art. 1.114). Os
direitos dos credores nunca são modificados ou prejudicados pela transformação
(CCB/02 – art. 1.115). A principal função da transformação é possibilitar a adap-
tação e a flexibilidade das sociedades aos momentos históricos. Há certa aproxi-
mação entre o instituto da transformação em relação à fusão, cisão e incorporação,
considerando que todas essas operações envolvem alteração de estrutura societária.
No entanto, na transformação, ocorre alteração em relação a uma única sociedade,
sem reflexos na sua personalidade jurídica, ao passo que nas demais operações
societárias, há mudanças mais acentuadas no que se refere ao patrimônio, capital,
extinção, sucessão, extinção ou criação de pessoa jurídica, envolvendo, duas ou
mais sociedades.
Após a transformação, fica facultado aos sócios da sociedade que sofreu trans-
formação, o direito de retirada (CCB/02 – art. 1.114). Se a sociedade, indepen-
dentemente do tipo societário, for celebrada por prazo determinado, a retirada
deve se dar obrigatoriamente por via judicial e desde que se prove a justa causa.
(CCB/02 – art. 1.029)

capítulo 4 • 107
Incorporação

A incorporação é o negócio jurídico plurilateral que tem por finalidade inte-


grar patrimônios societários, por meio da absorção do patrimônio de uma pela
outra sociedade (CARVALHOSA, p. 266). Incorporar é pôr noutro corpo aquilo
de que se trata: um corpo insere-se em outro, mas a inserção não resulta corpo
novo, apenas aumenta o corpo que já existe. (PONTES DE MIRANDA, p. 118)
A sociedade incorporada deverá ser extinta. Nesse caso, haverá sucessão universal
de todos os direitos e todas as obrigações dessa para a sociedade incorporadora, res-
guardando-se aos sócios dissidentes o direito de retirada. (CCB/02 – art. 1.116)
Há na incorporação um contrato plurilateral semelhante ao da constituição
da sociedade, mas com origens e pessoas distintas, pois não há criação de pessoa
jurídica e seus sócios não prestam contribuição para a formação da sociedade re-
sultante, mas permitindo que o patrimônio das sociedades participantes sejam
reunidos. Por se tratar de reunião de sociedades, a consequência lógica disso, no
âmbito societário, é que se exige a manifestação de vontade dos titulares das duas
sociedades envolvidas (CCB/02 – art. 1.117). Para que se proceda a uma incor-
poração, é necessária a convergência da vontade dos titulares da incorporada e
da incorporadora. Tal vontade, conforme estabelecido na lei societária, deve ser
manifestada pelos acionistas nas assembleias gerais.
Dito de outra forma, trata-se de um contrato plurilateral que se diferencia do
ato de constituição da sociedade por ser celebrado pelas sociedades envolvidas, pe-
los detentores de cotas ou ações com a participação mediata dos respectivos sócios
ou acionistas detentores de direitos de voto, que expressa ou tacitamente, votando
ou deixando de votar, manifestam sua vontade de participar das sociedades resul-
tantes. (CCB/02 – art. 1.117)
Na incorporação, as sociedades incorporadas deixam de existir (CCB/02
– art. 1.118), sem que haja qualquer perda nas relações com credores e/ou de-
vedores, uma vez que os ativos e passivos são transferidos para a incorporadora.
Sendo assim, o aumento do capital social é verificado na sociedade incorporado-
ra, cujo valor vem da sociedade incorporada.

Fusão

A fusão é a operação pela qual se unem duas ou mais sociedades para formar
sociedade nova, que lhes sucederá em todos os direitos e obrigações (lei 6.404/76
– art. 228). Nela, haverá a extinção das sociedades que se unem, para formar

capítulo 4 • 108
sociedade nova, que a elas sucederá nos direitos e obrigações. (CCB/02 –art.
1.119)
O instituto da fusão apresenta complexidade maior, pois se apresenta com três
elementos fundamentais e básicos: a transmissão patrimonial integral e englobada,
com sucessão universal; a extinção (dissolução sem liquidação) de, pelo menos,
uma das empresas fusionadas e o ingresso dos sócios da sociedade ou das socieda-
des extintas na nova sociedade criada.
Para que a operação de fusão tenha sucesso, é essencial que: a) cada pessoa ju-
rídica resolva a fusão em reunião dos sócios (CCB/02 – art. 1.120) ou em assem-
bleia geral dos acionistas (lei 6.404/76 – art. 228, §1o) e aprove o projeto de ato
constitutivo (CCB/02 – art. 1.120, §1o) ou de estatuto (lei 6.404/76 – art. 228,
§2o) e o plano de distribuição de ações, nomeando os peritos para avaliação do pa-
trimônio das sociedades que serão alvo da fusão; b) constituída a nova sociedade e
eleitos os seus primeiros diretores, estes promovam o arquivamento e a publicação
de todos os atos relativos à fusão, incluindo a relação com a identificação de todos
os sócios ou acionistas. (CCB/02 – art. 1.121)

Direitos dos credores nas operações de fusões e incorporações

Nas operações de fusão e incorporação, os credores não dispõem do direito


de impedir a realização da operação de incorporação e fusão, e em regra, só po-
dem reclamar posteriormente (CCB/02 – art. 1.122 c/c. lei 6.404/76 – art. 232)
desde que haja demonstração do prejuízo efetivo consistente, principalmente, na
alteração do próprio crédito ou potencial alteração das garantias. Nesse caso, a
sociedade incorporadora ou resultante de fusão terá a faculdade de realizar o paga-
mento da quantia devida, o que prejudicaria a ação de anulação. Se o pagamento
não for realizado e demonstrado o prejuízo dos credores, a decisão judicial poderá
ser no sentido de anular, definitivamente, a operação (CCB/02 – art. 1.122). E se
ocorrer, no prazo de 90 dias, a falência da sociedade incorporadora, da sociedade
nova ou da cindida, qualquer credor anterior terá direito a pedir a separação dos
patrimônios, para o fim de serem os créditos pagos pelos bens das respectivas mas-
sas. (CCB/02 – art. 1.122, § 3o)

Cisão

Pode-se definir a cisão como a operação pela qual a companhia transfere parcelas
do seu patrimônio para uma ou mais sociedades, constituídas para esse fim ou já

capítulo 4 • 109
existentes, extinguindo-se a companhia cindida, se houver versão de todo o seu pa-
trimônio, ou dividindo-se o seu capital, se parcial a versão. (lei 6.404/76 – art. 229)
A cisão constitui negócio plurilateral, que tem como finalidade a separação
do patrimônio social em parcelas para a constituição ou integração destas em
sociedades novas ou existentes. Do negócio, resulta ou não a extinção da socie-
dade cindida. O objetivo será a obtenção de economias de escala pela junção ou
disjunção de específicas divisões de empresas diversas, que se somam para tal fim.
(CARVALHOSA, p. 290)
No instituto da cisão, há fragmentação da sociedade, dividindo-se em duas ou
mais parcelas. Das parcelas patrimoniais fragmentadas (ativos e passivos) poderá
resultar nova(s) sociedade(s) como se juntar em sociedade(s) existente(s). No pri-
meiro caso, não haverá protocolo, pois todo o processo se desenvolverá no âmbito
interno da sociedade cindida. No segundo, como as parcelas patrimoniais serão
incorporadas por outras sociedades, entre estas e a cindida deverá haver protocolo.

Direitos dos credores nas cisões

Perante credores, a responsabilidade da sociedade primitiva e das que absor-


verem parcelas de seu patrimônio será solidária, salvo se o ato de cisão determinar
o contrário, hipótese em que se assegura ao credor, que notificar a sociedade no
prazo de 90 dias contados da publicação dos atos de cisão, o direito de continuar a
contar com a solidariedade. Essa regra de exclusão da solidariedade funciona como
instrumento de lesão aos credores que não estiverem atentos à divulgação da cisão.
Em muitas situações, a garantia dos credores de uma sociedade, é constituída
na existência e liquidez do patrimônio da sociedade cindida. Ocorre que com a
cisão, haverá transferência do patrimônio (total ou parcial) da sociedade cindida
para outra sociedade, com o que pode se verificar uma redução da garantia dos
credores da sociedade original.
No caso de cisão total, permanece íntegra a garantia dos credores da sociedade
extinta e as sociedades que absorverem parcelas do seu patrimônio responderão
solidariamente pelas obrigações da companhia extinta (lei 6.404/76 –art. 233). A
nova sociedade ou a incorporadora sucedem a cindida em todos os seus direitos e
obrigações, na proporção dos patrimônios líquidos transferidos. (lei 6.404/76 –
art. 229, §1o)

capítulo 4 • 110
Na hipótese de cisão parcial, haverá sucessão apenas quanto aos direitos e às
obrigações relacionados no ato da cisão. Assim, a sociedade cindida que subsistir
e as sociedades que receberem parte de seu patrimônio serão solidariamente res-
ponsáveis pela satisfação das obrigações da sociedade cindida anteriores à cisão (lei
6.404/76 – art. 233) e, em caso de cisão parcial, o protocolo pode estipular que
não haverá solidariedade, respondendo cada sociedade apenas pelas obrigações
transferidas na cisão (lei 6.404/76 – art. 233, parágrafo único). Neste último caso,
atribui-se ao credor o direito de opor-se à estipulação de ausência de solidariedade
a fim de protegê-lo da diminuição da garantia que seu crédito teria caso houvesse
a solidariedade. Logo, a oposição do credor importa somente na existência de soli-
dariedade entre as companhias exclusivamente com relação ao crédito do opositor,
de forma a garantir a solidariedade entre as companhias, não tendo o condão de
anular o ato de cisão como um todo, suspender sua eficácia ou de impedir sua
consecução. (LOPES, p. 256)
Portanto, o credor não tem legitimidade processual para pleitear a suspensão
ou anulação da cisão, que é matéria interna das sociedades envolvidas a ser delibe-
rada em assembleia geral.
As obrigações da sociedade cindida, anteriores à cisão, serão suportadas de for-
ma solidária pelas sociedades resultantes do processo de cisão. Assim, quando hou-
ver versão total do patrimônio da cindida, as sucessoras responderão em condições
iguais. Já, quando houver cisão parcial, as sucessoras responderão com a cindida
de forma solidária. Entretanto, na cisão parcial pode-se amenizar essa obrigação
dos sucessores, estabelecendo que estas respondam somente pelas obrigações que
lhes forem transferidas, afastando a solidariedade com as demais sociedades envol-
vidas no processo.

Outras configurações

Além dos conceitos de transformação, fusão, incorporação e cisão, cumpre


lembrar outros termos que de certa forma estão diretamente relacionados às defi-
nições apresentadas, dentre estes, a holding, a joint venture, as controladoras,
controladas, as coligadas e vinculadas que devem ser estudados junto com as
características da S/A.

capítulo 4 • 111
Extinção da sociedade

Uma vez constituída a sociedade a mesma passa a ter existência legal a partir
do seu registro (CCB/02 – art. 45). Uma vez constituído o CS, os sócios possuem
obrigações até a efetiva liquidação da sociedade. (CCB/02 – art. 1.001)
A extinção da sociedade, também conhecida como dissolução social, por sua
vez, pode ser estudada conforme dois grandes critérios:
•  Quanto à forma: sob este aspecto a dissolução pode ser: a) dissolução extra-
judicial (de pleno direito) ou b) judicial;
•  Quanto à extensão dos efeitos: sob este aspecto a dissolução pode ser: a)
dissolução parcial (resolução do vínculo de um ou mais sócios); b) dissolução total
(extinção da sociedade).

A sociedade empresária é um conjunto de pessoas (físicas ou jurídicas) que se


unem para exercerem a atividade econômica organizada para a produção e circu-
lação de bens e serviços (CCB/02 – art. 981 c/c. art. 966, caput). A disciplina da
extinção social está atualmente prevista tanto no Código Civil brasileiro de 2002
quanto no Código de Processo Civil de 2015.

Dissolução

Como já mencionado, a dissolução quanto à forma pode ser extrajudicial


ou judicial.
A dissolução extrajudicial, que pode ser total ou parcial, se dá de pleno direito
nas seguintes hipóteses: a) (CCB/02 – art. 1.033): I – o vencimento do prazo de
duração, salvo se, vencido este e sem oposição de sócio, não entrar a sociedade
em liquidação, caso em que se prorrogará por tempo indeterminado; II – o con-
senso unânime dos sócios; III – a deliberação dos sócios, por maioria absoluta,
na sociedade de prazo indeterminado; IV – a falta de pluralidade de sócios, não
reconstituída no prazo de cento e oitenta dias; V – a extinção, na forma da lei, de
autorização para funcionar. b) a dissolução também pode ocorrer quando o con-
trato social previr outras causas de dissolução (CCB/02 – art. 1.035); c) quando
por mais de cento e oitenta dias perdurar a falta de uma das categorias de sócio
(CCB/02 –art. 1.051, Inc. II); d) quando os sócios de uma sociedade limitada
põem em risco a continuidade da empresa, em virtude de atos de inegável gravi-
dade (CCB/02 – art. 1.085); e) em caso de morte de sócio. (CCB/02 – art. 1028)

capítulo 4 • 112
A dissolução judicial, que pode ser total ou parcial, poderá ocorrer quando:
a) falta grave no cumprimento de suas obrigações (CCB/02 – art. 1030, 1ª parte)
; b) por incapacidade superveniente (CCB/02 – art. 1030, 2ª parte); c) o sócio
for identificado como falido (CCB/02 – art. 1.030, parágrafo único); d) quando
a cota do sócio for objeto de execução e liquidação nos termos do art. 1.026;
e) quando anulada a sua constituição (CCB/02 – art. 1.034, Inc. I); f ) quando
exaurido o fim social, ou verificada a sua inexequibilidade. (CCB/02 – art. 1034,
Inc. II)
O código de processo civil de 2015 prevê também o procedimento para a
dissolução das sociedades empresárias contratuais ou simples (CPC/15 – art. 599
a 609) assim como disciplina de modo expresso o cabimento da dissolução parcial
em relação às sociedades anônimas de capital fechado. (CPC/15 – art. 599, §2o)

A apuração de haveres e liquidação

Identifica-se como apuração de haveres o procedimento destinado a avaliar


o montante devido a sócio nas hipóteses de dissolução (total ou parcial) de uma
sociedade limitada.
Não se deve confundir a dissolução total com a parcial. Isso é fundamental
porque, na dissolução parcial, o procedimento de apuração é simplificado e não
necessita da nomeação de um liquidante, mas de um perito contábil. Na dis-
solução parcial, portanto, o juiz pode nomear um perito para aferir o valor da
cota, com base em balanço intermediário para apurar o montante devido pela
sociedade.
Em relação ao sócio que se retira da sociedade permite a nomeação de perito
(experto) para a realização de balanço (CPC/15 – art. 604, Inc. III). No mesmo
sentido, é fundamental que o contrato social disponha a forma de apuração dos
valores relativos à cota social do sócio falecido, retirante, ou excluído, e o juiz
deverá fixar a data da resolução parcial do contrato (CPC/15 – art. 604, I). Uma
vez liquidada, a cota, deverá ser paga em até 90 (noventa) dias quando o contrato
social não dispuser em sentido contrário. (CCB/02 – art. 1.031, parágrafo único
c/c. CPC/15 – art. 609)
Na dissolução total, é necessária a nomeação de um liquidante, um admi-
nistrador (CCB/02 – art. 1.102) cujas obrigações e a responsabilidade serão re-
gidas pelos preceitos peculiares às dos administradores da sociedade liquidanda

capítulo 4 • 113
(CCB/02 – art. 1.104) e sua atribuição envolve representar a sociedade e praticar
todos os atos necessários à sua liquidação. (CCB/02 – art. 1.105)
A principal atribuição do liquidante é o pagamento das dívidas sociais propor-
cionalmente, sem distinção entre vencidas e vincendas, mas, em relação a estas,
com desconto (CCB/02 – art. 1.106). Após o pagamento, cabe ao liquidante con-
vocar assembleia dos sócios para a prestação final de contas (CCB/02 – art. 1.108)
e, se forem aprovadas, encerra-se a liquidação e se extingue a sociedade, devendo
ser averbada a ata da assembleia no registro próprio. (CCB/02 – art. 1.109)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CAMPINHO, S. O direito de empresa à luz do novo Código Civil. Renovar ed. Rio de Janeiro: [s.n.].
PONTES DE MIRANDA, Francisco Cavalcanti. Tratado de direito privado. Campinas: Bookseller,
1998.
CARVALHOSA, Modesto. Comentários à Lei de Sociedades Anônimas. São Paulo: Saraiva, 2002.
LOPES, Mauro Brandão. A cisão no direito societário. Revista dos Tribunais, 1980.

capítulo 4 • 114
5
Direito Societário
Direito Societário
Introdução

O exercício da atividade econômica envolve a organização de vários fatores


econômicos e a realização de diversos contratos. O estudo do direito empresarial
requer, como você pôde perceber ao longo deste livro, o conhecimento dos ins-
titutos jurídicos pertinentes ao exercício da atividade empresarial por intermédio
das sociedades empresariais. Entretanto, há determinadas atividades econômicas
que, por sua complexidade e pelo impacto social que causam, recomenda-se a
adoção de determinada espécie de sociedade empresária que, por características
próprias, possibilita a reunião de vultosos investimentos.
Neste capítulo você vai estudar as sociedades por ações, ou seja, a sociedade
anônima e a sociedade em comandita por ações – lei 6.404/76.
Estas estruturas são organizações que permitem a organização empresarial ca-
paz de reunir grande fluxo de capitais. A crescente complexidade dos processos
tecnológicos e dos mecanismos econômicos peculiares à economia de massa pra-
ticamente obriga os investidores à adoção de formas cada vez mais complexas de
organização societária.
Pode-se afirmar que a sociedade anônima está hoje no centro de um vasto
debate, que envolve o próprio futuro do nosso sistema econômico, pois a socie-
dade anônima não é produto de dogmas ou doutrinas, ao contrário, constitui o
resultado de um crescimento jurídico e institucional.
Assim, pode-se dizer que o papel da sociedade anônima hoje em dia não é
puramente econômico e interfere na própria organização política, em virtude de
originar uma fonte real de poder, o poder econômico que se confronta com as
fontes formais de poder previstas na Constituição.
Sob outro ponto de vista, deve-se destacar que a sociedade anônima pode ser
organizada de maneira em que não importa a qualidade pessoal do sócio, mas
sim a capacidade contributiva econômica (capital) do investidor representada por
cada ação incorporada por qualquer pessoa. Dessa maneira, além de permitir a
democratização o empreendimento empresarial, permite-se a formação de um
verdadeiro mercado relativo às ações (mercado de capitais), tendo em vista seus
rendimentos e suas vantagens que os proprietários podem adquirir.

capítulo 5 • 116
Noções históricas

Há certo consenso na doutrina nacional acerca da trajetória histórica das so-


ciedades anônimas, que seria em três períodos:
Outorga: a personalização e a limitação da responsabilidade dos acionistas
eram privilégios concedidos pelo monarca e, em geral, ligavam-se a monopólios
colonialistas.
•  Autorização: a criação dependia de autorização governamental.
•  Regulamentação: bastava o registro, no órgão próprio, e a observância do
regime legal específico.

Primeiros exemplos no mundo

•  Banco de São Jorge, em Gênova (1407/1816): formado por credores do


Estado em dinheiro emprestado para fazer frente a obras públicas e guerras.
•  Companhia Holandesa das Índias Orientais (1604) e ocidentais (1621):
o Estado não tinha dinheiro para financiar a atividade, altamente lucrativa, de
explorar o novo mundo.
•  Solução: reunião de capital público e privado, mediante emissão de com-
provantes de participação de partes de pequeno valor, para que grande número
de pessoas pudesse investir. Os comprovantes garantiam o direito de ação contra
a Companhia.
Devido ao sucesso das Companhias, Inglaterra, Portugal e França seguiram o
modelo holandês.
Primeira lei que deu status de instituição jurídica às sociedades anônimas:
Código Comercial francês (1807).

Primeiros Exemplos no Brasil

•  Decreto no 575/1849-S/A – dependiam de autorização do governo


para constituição.
•  Código Comercial (1850), artigos 295/299 – regulamentação sucinta das
S/A, que ainda dependiam de autorização do governo.
•  Decreto-lei no 2.627/40 – regulamentou a matéria de forma mais completa.
•  Lei no 6.404/76 (lei 6.404/76), ainda em vigor, regula as Sociedades por Ações:
sociedades anônimas e comanditas por ações. Esta lei tem como principais objetivos
a proteção aos acionistas minoritários e o fortalecimento do mercado de capitais.

capítulo 5 • 117
ATENÇÃO
•  Alterações da lei 6.404/76 (lei no 9.457/97) – diminuição dos direitos dos acionistas
minoritários, com o objetivo de facilitar o processo de privatização de S/A que estavam em
poder do Estado.
•  Alterações da lei 6.404/76 (lei no 10.303/2001) – restauração dos direitos dos acionistas
minoritários, para o mercado de capitais ficar mais atraente aos investidores.

Características

1. Responsabilidade dos acionistas limitada ao valor de emissão de suas ações

A responsabilidade dos acionistas é limitada ao preço de emissão das ações


que o acionista subscrever. Integralizado o valor das ações subscritas, o sócio
estará liberado de qualquer responsabilidade patrimonial, no caso de insucesso
do empreendimento.
Não se aplica, portanto, o previsto no Decreto no 3.048/99 (Regulamento da
Previdência Social):
Art. 268. O titular da firma individual e os sócios das empresas por cotas de
responsabilidade limitada respondem solidariamente, com seus bens pessoais, pe-
los débitos junto à seguridade social.

ATENÇÃO
Responsabilidade do acionista controlador
As normas de conduta do acionista controlador estão contidas no art. 116, parágrafo
único e no art. 117, §1o da lei 6.404/76.
Modesto Carvalhosa destacou a estrutura excessivamente rígida do texto legal. Na sua
concepção, “na constituição da prova do dano material efetivo, ainda que a intenção dolosa
não transpareça naturalmente, deverá o juiz e as autoridades administrativas simplesmente
se fixarem no elemento objetivo (...). Consequentemente, o elemento intencional do ato ou
do fato atribuído ao controlador, ainda que figure na letra da lei, não pode sobrepor-se ao
elemento material consistente no prejuízo efetivo sofrido pelas pessoas e instituições rela-
cionadas com a companhia.” (CARVALHOSA, 2011)

capítulo 5 • 118
Fabio Konder Comparato, outro crítico do dispositivo, observa que eram dolosas as mo-
dalidades abusivas descritas no primeiro parágrafo do art. 117, sendo que algumas delas
(alíneas b e c) exigiam do agente dolo específico. Acrescenta ainda que em certas hipóteses
“a prova (...) revela-se diabólica, a não ser recorrendo a presunções hominis, fundadas em
indícios e circunstâncias; ou então admitindo, para efeitos civis, que a culpa grave ao dolo se
equipara.” (COMPARATO; SALOMÃO 2014)
Mauro Brandão Lopes destacou a imprecisão legislativa (lei 6.404/76) dada ao tema abu-
so de poder pelo acionista controlador, assinala a impossibilidade de oposição de diretor à
vontade do controlador, conclui que, com a imprecisão conceitual da responsabilidade do con-
trolador, “a lei tornou muito mais precário para o lesado voltar-se contra ele.”. (LOPES, 1978)

Responsabilidade dos administradores


O art. 158 da lei 6.404/76 trata das hipóteses de responsabilização dos administradores,
de tal modo que sua transcrição se faz necessária: “O administrador não é pessoalmente
responsável pelas obrigações que contrair em nome da sociedade e em virtude de ato re-
gular de gestão; responde, porém, civilmente, pelos prejuízos que causar, quando proceder:
I – dentro de suas atribuições ou seus poderes, com culpa ou dolo; II – com violação da lei
ou do estatuto”.

A “Business Judgment Rule” como padrão de comportamento esperado


dos administradores
O §6o, do art. 159, da lei 6.404/76 dispõe que na ação de responsabilidade: “O juiz pode-
rá reconhecer a exclusão da responsabilidade do administrador, se convencido de que este
agiu de boa-fé e visando ao interesse da companhia”.
Trata-se da normatização da regra da business judgment rule – também conhecida como
regra da decisão negocial ou regra do julgamento do negócio – criada pelo Poder Judiciário
norte-americano, segundo a qual se exige dos administradores um padrão de comportamen-
to mínimo para evitar a revisão judicial de suas decisões ou a sua responsabilização.
Se alguns cuidados forem observados, o Poder Judiciário não poderá rever o mérito
da decisão negocial em razão do dever de diligência. A proteção especial tem por intenção
estimular os administradores a servir à companhia, garantindo-lhes tratamento justo, que
limita a possibilidade de revisão judicial de decisões negociais privadas (e que possa impor
responsabilidade aos administradores).
A possibilidade de revisão ex post pelo Poder Judiciário aumenta a exposição do ad-
ministrador. Esta exposição desestimula a tomada de decisões inovadoras e criativas. Tais
decisões podem ser mais arriscadas, mas podem trazer muitos benefícios para a companhia.

capítulo 5 • 119
Responsabilidade dos administradores das instituições financeiras
A regra do art. 39 da lei no 6.024/74 regula uma hipótese de responsabilidade contra-
tual; a do art. 40 da mesma lei, uma hipótese de responsabilidade extracontratual.
Ambas as normas, porém, estabelecem a responsabilidade subjetiva do administrador de
instituições financeiras ou consórcio. Para que se possa imputar responsabilidade objetiva,
é necessária a previsão expressa, que a lei no 6.024/74 não contém. O art. 40 meramente
complementa o art. 39, estabelecendo solidariedade que ele não contempla.
A lei no 6.024/74, todavia, autoriza a inversão do ônus da prova, de modo que compete
aos administradores da instituição demonstrar que atuaram com o devido zelo, impedindo sua
responsabilização pelos prejuízos causados.
Não tendo sido conferida aos réus a oportunidade de comprovar sua ausência de culpa,
é necessária a anulação do processo para que o processo ingresse na fase de instrução,
devolvendo-se os autos ao juízo de primeiro grau. Recurso especial provido. (STJ – Resp. 44
7939SP – DJ 25/10/2007. Rel. Min. Nancy Andrighi, grifo nosso). (????)

2. Nome empresarial será sempre a denominação

A Sociedade Anônima opera sob denominação designativa do objeto social,


integrada pelas expressões “sociedade anônima” ou “companhia”, por extenso
ou abreviadamente.
Pode constar da denominação o nome do fundador, acionista, ou pessoa que
concorreu para o bom êxito da formação da empresa.
No âmbito administrativo, está protegida com base no princípio da novidade
(lei 8.934/94 – art. 34), não sendo possível o registro de duas sociedades com o
mesmo nome empresarial na Junta Comercial.
No âmbito judicial, cabe ação de indenização e concorrência desleal àquela
sociedade que se sentir prejudicada pela utilização do seu nome empresarial. (Art.
3o, §2o da LSA)

3. Livre circulação de ações – sociedade de capital (em regra)

As sociedades anônimas são tipicamente sociedades de capital; suas ações são


livremente transmissíveis a qualquer pessoa porque o importante é a entrada do
capital, pouco importando a qualidade do sócio. Nesse sentido, está a precisa lição
de Gladston Mamede no sentido de que a pedra de toque desse novo modelo

capítulo 5 • 120
societário, a companhia, era a valorização do fim negocial a ser realizado (o ob-
jetivo social), bem como da instituição constituída para realizá-lo, colocando em
segundo plano a pessoa daqueles que, investindo na sociedade, contribuem para a
viabilidade de sua existência e, via de consequência, para a concretização dos fins
sociais. Mais do que sócios (o que não deixam de ser), são compreendidos como
acionistas, isto é, como titulares de partes ideais do patrimônio da companhia.
(MAMEDE, 2004, p. 384)
O estatuto da S/A pode limitar a transferência, estabelecendo, por exemplo,
direito de preferência a outros sócios, mas não pode impedir a livre negociação.
Como consequências de a S/A ser uma sociedade de capital, temos que as
ações de determinado acionista podem ser penhoradas por suas dívidas. Além
disso, no caso de falecimento de um acionista, seus sucessores não poderão ser
impedidos de ingressar no quadro social, nem tampouco poderão requerer a apu-
ração de haveres do sócio falecido.

4. Regida por estatuto (e não contrato social)

A S/A é regida pelo estatuto social, que é aprovado pela assembleia de fun-
dação da sociedade e levado à registro na Junta Comercial, dando início à pessoa
jurídica.
Pode-se afirmar que tal sociedade tem natureza institucional porque, o que
importa é o objeto social a ser atingido, pouco importando a qualidade dos sócios.
O estatuto da S/A não tem natureza contratual. Diferentemente das socie-
dades contratuais, em que os sócios pactuam as cláusulas do contrato social, nas
S/A os novos acionistas aderem a um estatuto já existente – ou a um projeto de
estatuto, no caso de constituição por subscrição pública.
As normas do estatuto social formam um sistema jurídico particular da com-
panhia. A lei 6.404/76 dispõe no art. 83 que o estatuto social: “deverá satisfazer a
todos os requisitos exigidos para os contratos das sociedades mercantis em geral e
aos peculiares à companhia, e conterá as normas pelas quais se regerá a companhia”.
Nesse sentido, o estatuto social compreende as normas particulares ou indi-
viduais criadas pelas partes do contrato de companhia, como ocorre em qualquer
outro contrato. Entretanto, devem-se destacar duas peculiaridades:
•  A lei 6.404/76, além de regular o contrato de companhia, é a legislação de
organização das companhias.

capítulo 5 • 121
•  As suas normas são genéricas, pois não são dirigidas a pessoas identificadas.
Essa peculiaridade resulta da característica de que os direitos e as obrigações dos
acionistas são definidos no estatuto como elementos das ações, com abstração de
seus titulares.

5. Sempre sociedade empresária

A S/A será sempre empresária, qualquer que seja seu objeto, de acordo com
Código Civil Brasileiro – art. 982, parágrafo único c/c lei 6.404/76 – art. 2o, §1o.
Pode ser objeto da companhia qualquer empresa de fim lucrativo, não contrá-
rio à lei, à ordem pública e aos bons costumes.
§1o. Qualquer que seja o objeto, a companhia é mercantil e se rege pelas leis
e usos do comércio.

6. Pertence ao mercado de capitais (que integra o sistema financeiro). Subscrição


pública do capital (possibilidade)

A concepção original das S/A é voltada para viabilizar grandes empreendimen-


tos e a poupança popular é o meio mais eficaz de buscar recursos para consecução
de seus objetivos sociais. Portanto, a possibilidade de buscar esses recursos, me-
diante a subscrição de capital, diferencia as S/A das demais sociedades.

7. Capital social dividido em ações

O capital social é dividido em partes ou frações, denominadas ações, ao con-


trário das sociedades contratuais, cujo capital é dividido em cotas.
Originariamente a ideia é holandesa (1602) de dividir o capital social em partes
ou ações (do holandês – aktie), subscritas pelos companheiros (daí a expressão "com-
panhia") tornando-os responsáveis tão somente pelos valores das partes subscritas, e
admitida ainda a livre transferência dos títulos. O vocábulo “ação” foi associado em
razão do acionista-participante praticar a ação de entregar o cabedal à companhia

Companhia aberta e mercado de capitais

As sociedades anônimas classificam-se em abertas e fechadas, de acordo com a


negociação de seus valores mobiliários no mercado de capitais. (lei 6.404/76 – art.
4o c/c. lei 6.385/776 – art. 22)

capítulo 5 • 122
Valores mobiliários são títulos emitidos pela S/A para captar, junto ao mer-
cado, os recursos necessários à consecução de seu objeto social. São eles: ações,
debêntures, partes beneficiárias, bônus de subscrição, certificados de depósitos de
ações e commercial papers.

Companhia fechada

A companhia fechada é aquela que não tem autorização para que seus valores
mobiliários sejam ofertados ao público na lei 6.404/76 de valores. Seu capital
advém da contribuição de seus acionistas, que podem ou não ser em pequeno
número. Consequentemente, nas palavras de Marcelo Bertoldi, “os interesses da
companhia e de seus sócios são regulados no âmbito do ‘contrato de sociedade’,
sendo dispensada a tutela do interesse público.” (BERTOLDI, 2003)

Constituição da companhia

Capital social: formação e alterações

Capital social é a cifra, fixada no estatuto social, do montante das contribui-


ções prometidas pelos sócios para formação da companhia que a lei submete a
regime cogente, cujo fim é proteger os credores sociais. Os fundadores (na consti-
tuição da companhia) e os órgãos sociais (durante a vida da sociedade) estipulam
no estatuto o valor do capital social, que somente pode ser modificado com obser-
vância das normas legais. (PEDREIRA e LAMY FILHO, 2009)
A Subscrição de Ações (lei 6.404/76 – art. 7o) deve ser aplicada na forma-
ção do capital social, por ocasião da constituição da companhia, assim como no
seu aumento posterior. Pode ser em dinheiro ou em bens. Se for em dinheiro, a
subscrição deve ser igual ao valor nominal da ação ou, caso não haja, ao preço de
emissão ou a parte dele destinada à formação do capital social. Se o preço de emis-
são for maior do que a contribuição para o capital, a diferença constitui reserva
de capital.
Do mesmo modo, deve ser prestada no ato da subscrição ao menos 10% do
preço de emissão da ação (lei 6.404/76 – art. 80, II e art. 170, §6o), salvo se estipu-
lada integralização a prazo (lei 6.404/76 – art. 106). Estando o acionista obrigado
a realizar o saldo nas condições previstas no estatuto ou no boletim de subscrição.
(lei 6.404/76 – art. 106)

capítulo 5 • 123
Se a subscrição for em bens (tudo que não seja dinheiro), deve-se ter em men-
te a dificuldade de mensuração do valor do bem subscrito – o que pode colocar
em risco a realidade do capital social, afetando acionistas e terceiros que contratem
com a companhia.
Nesse caso, a lei prescreve diversas formalidades, destinadas a inibir frau-
des a fim de assegurar, da melhor maneira possível, que o bem corresponda à
sua avaliação.
Exemplos de normas criadas com esse fim são:
•  Avaliação do bem por três peritos (art. 8o e 170, §3o, lei 6.404/76) escolhi-
dos pelos subscritores ou acionistas.
•  Laudo fundamentado, com indicação de critérios e elementos de compara-
ção adotados. (art. 8o, §1o, lei 6.404/76)
•  Subscritor que confere bens não pode votar o laudo de avaliação. (art. 115,
§1 , lei 6.404/76)
o

•  Responsabilidade civil e penal dos avaliadores e subscritores perante a com-


panhia, acionistas e terceiros, pelos danos causados por culpa ou dolo na avaliação
dos bens. (art. 8o, §6o, lei 6.404/76)
•  Bens não poderão ser incorporados ao patrimônio da companhia por valor
superior ao de avaliação.
•  Para integralização do capital social, admitem-se quaisquer bens suscetíveis
de avaliação em dinheiro. (art. 7o, lei 6.404/76)

Ações: espécies e características

Ação é a menor fração em se divide o capital social das companhias ou so-


ciedades anônimas. É, portanto, um título patrimonial e, como tal, concede aos
seus titulares, os acionistas, todos os direitos e deveres de um sócio, no limite das
ações adquiridas.
Uma ação é um valor mobiliário, expressamente previsto no inciso I, do arti-
go 2o, da lei 6.385/76. No entanto, apesar de todas as companhias ou sociedades
anônimas terem o seu capital dividido em ações, somente as ações emitidas por
companhias registradas na CVM, chamadas companhias abertas, podem ser nego-
ciadas publicamente no mercado de valores mobiliários.
As ações da companhia são divididas em espécies, conforme a natureza dos
direitos e/ou vantagens que trazem a seus titulares (art. 15, Lei 6.404/76). São as
seguintes.

capítulo 5 • 124
são aquelas que conferem todos os direitos à qualidade de
partícipe em sociedades empresárias. Seu surgimento advém
das origens companhias, quando não havia outras espécies de
ações. São de classe única nas companhias abertas e podem
ser de classes diversas na companhia fechada, em função, uni-
AÇÕES camente, da
ORDINÁRIAS • Conversibilidade em ações preferenciais.
• Exigência de nacionalidade brasileira de acionistas.
• Direito de voto em separado para a eleição de determina-
dos cargos de órgãos administrativos. (art. 15, §1o; art. 16, lei
6.404/76)

têm como pressuposto a outorga de preferências e/ou vanta-


AÇÕES gens em relação às ações ordinárias. Tanto na companhia aber-
PREFERENCIAIS ta quanto na fechada, as ações preferenciais poderão ser de
uma ou mais classes.

são criadas a partir da amortização das ações (operação na qual


a companhia paga ao acionista o valor que teria de receber em
AÇÕES DE caso de liquidação da companhia). As ações amortizadas pas-
FRUIÇÃO sarão a denominar-se de gozo ou fruição e continuarão com as
mesmas características originais.

Direitos e deveres dos acionistas. Acionista controlador. Acordo de acionistas

Acionista controlador

a) O art. 116 da lei 6.404/76 enuncia acionista controlador como sendo


“a pessoa, natural ou jurídica, ou grupo de pessoas vinculadas por acordo
de voto, ou sob controle comum.
b) É titular de direitos de sócio que lhe assegurem, de modo permanente,
a maioria dos votos nas deliberações da assembleia geral e o poder de eleger
a maioria dos administradores da companhia.
c) Cumulativamente, use efetivamente seu poder para dirigir as atividades
sociais e orientar o funcionamento dos órgãos da companhia".
No que concerne à identidade do controlador, quis o legislador que neste
conceito se subsumisse não somente o acionista individual, pessoa natural ou ju-
rídica, mas também o grupo de pessoas vinculadas por acordo de votos, ou sob
controle comum. A finalidade foi a de caracterizar a unicidade no exercício do
poder de controle, que se manifesta quando um bloco de acionistas adota posições

capítulo 5 • 125
previamente concertadas, quer por força de um acordo de acionistas, quer em
decorrência de um controle em comum.
A lei das sociedades anônimas não confundiu o acionista majoritário com o
acionista controlador. Modesto Carvalhosa destacou a inovação em relação à lei
antecedente, pois “fundava-se o antigo diploma em critério diverso, qual seja o
de acionista majoritário. E para o mesmo não criava responsabilidade específica.”
(CARVALHOSA, 2011). Desde 1976, adota-se conceito diverso, pois o poder
político do acionista avalia-se não mais segundo a mera quantidade de ações que
detenha, mas sim segundo o efetivo exercício desse poder. Eis aí a razão para a
exigência do legislador, de que o controlador da companhia possua maioria per-
manente na assembleia, eleja a maioria dos administradores e use efetivamente seu
poder para dirigir as atividades sociais e orientar o funcionamento da companhia
– que seja, em última análise, o responsável pela organização da atividade econô-
mica da sociedade.

Acordo de acionista

Com relação ao conceito do acordo de acionistas, é possível verificar que em-


bora a lei das S/A não traga a conceituação do referido contrato de forma expressa,
pode-se apontar que se trata de um contrato subordinado às normas comuns de
validade e eficácia previstas no Código Civil, embora possam discordar a respeito
da tipicidade do acordo de acionistas.
O rol apresentado no art. 118 da lei 6.404/76 é taxativo, enquanto outra par-
te entende que existem duas classes de acordo de acionistas, sendo uma formada
por contratos típicos e outra formada por contratos atípicos (quando tiverem por
objeto matérias não elencadas no art. 118 da lei 6.404/76).
Modesto Carvalhosa, ao conceituar o acordo de acionistas, explica que é um
exemplo de negócio jurídico privado, sem se ater à tipicidade do mencionado
contrato: “trata-se, o acordo de acionistas, de um contrato submetido às normas
comuns de validade e eficácia de todo o negócio jurídico privado, concluído entre
acionistas de uma mesma companhia, tendo por objeto a regulação do exercício
dos direitos referentes às ações, tanto no que concerne ao controle como ao voto
dos minoritários ou, ainda, à negociabilidade das ações.”. (CARVALHOSA, 2011)
Arnoldo Wald defende que o acordo de acionistas é contrato nominado, regi-
do pela lei 6.404/76, sendo-lhe aplicado, subsidiariamente, as normas que regem
os contratos de direito privado, além das regras de Direito Comercial. Afirma o

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autor que se trata de acordo parassocial, impondo a lei a sua observância e res-
peito, pela companhia, somente se arquivado em sua sede e averbado no livro de
registro de ações da companhia. (WALD, 2000)

Debêntures: espécies e características

Debêntures são títulos emitidos pelas sociedades anônimas, representativas


de um empréstimo contraído pelas mesmas em que cada título dá ao portador,
da mesma série, idênticos direitos de crédito contra as sociedades. O titular de
uma debênture (debenturista) é credor da sociedade anônima. Diante do inadim-
plemento da companhia, o debenturista poderá exercer seu crédito por meio de
ação executiva, pois a debênture é um título executivo extrajudicial. (Código de
Processo Civil de 2015 – art. 784, Inc. I)
As debêntures são títulos emitidos por uma companhia ou entidade pública
com garantia de empréstimo em dinheiro, contendo a promessa de pagamento do
valor nelas mencionado e onerando ou não a totalidade ou parte do patrimônio
da sociedade emissora.
Afora cláusula de correção monetária, pode a debênture assegurar juros fi-
xos e variáveis, participação nos lucros da companhia e prêmio de reembolso.
Este último direito consiste no reembolso ao debenturista pelo valor nominal da
obrigação, quando esta é emitida por valor aquém do nominal, havendo, assim,
diferença em favor do credor correspondente precisamente sob o valor da emissão
e o valor nominal.
A assembleia geral fixará, observado o que dispuser a respeito o estatuto, os
elementos arrolados no art. 59 da lei 6.404/76, a saber: o valor da emissão, seus li-
mites e suas séries (arts. 53 a 60); o número e o valor nominal das debêntures (arts.
53 e 54); as garantias (art. 58); a correção monetária (art. 54, §1o); sua conversibi-
lidade (art. 57); vencimento, amortização ou resgate (art. 55); juros, participação
nos lucros e prêmio de reembolso (art. 56); tipo e colocação.
Outro passo será a lavratura da escritura de emissão, em que constarão as
especificações determinadas pela assembleia e que servirão de base à emissão
dos certificados.
Nessa escritura, lavrada por instrumento público ou particular, intervirá obri-
gatoriamente o agente fiduciário dos debenturistas, que é o representante da res-
pectiva comunhão.

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Espécies de debêntures

As debêntures podem ser com garantia real; debêntures com garantia flutuan-
te; debênture não preferencial; debênture subordinada aos demais credores da
companhia; debênture com garantia cumulativa.
Debênture com garantia real resulta da obrigação assumida pela sociedade, na
escritura de emissão, de não alienar ou onerar tais bens.
Debêntures com garantia flutuante são aquelas em que em face de eventual
concurso de credores, é assegurado privilégio geral sobre o ativo da companhia,
não impedindo, porém, a negociação de bens que compõem esse ativo, em se
tratando de privilégio. Assim, os debenturistas com garantia flutuante se colocam
acima dos credores quirografários, ficando, entretanto, abaixo dos créditos garan-
tidos com direito real e dos créditos com privilégios especiais, nos termos da lei
de falências.

ATENÇÃO
Observe-se que as garantias reais ou flutuantes podem ser constituídas cumulativamen-
te. Assim, além do privilégio especial sobre determinados bens da sociedade, que constituem
a garantia real, as debêntures ficam garantidas também com o ativo da sociedade, portanto,
uma segurança bem maior para o debenturista.
Debêntures não preferenciais (quirografárias) são aquelas que não gozam de nenhuma
garantia específica, seja real ou flutuante. Na realidade, tais debêntures são também garanti-
das, mas sua garantia é a do patrimônio comum da sociedade, excluídos os direitos preferen-
ciais sobre obrigações assumidas por essa (menos credores quirografários).
Debêntures subordinadas aos demais credores da companhia são aquelas a que se re-
conhecem apenas a preferência em relação aos acionistas, em caso de liquidação da so-
ciedade, ficando tais debenturistas no último escalão dos que devem receber seus créditos.
Debêntures com garantia cumulativa são aquelas que, com duas ou mais garantias aqui
arroladas, podem servir de base à sua emissão.
Os juros conferidos às debêntures podem ser fixos ou variáveis. Cabe à assembleia geral,
no momento em que delibera a emissão de tais títulos, determinar qual a modalidade que
terão esses referidos juros.

capítulo 5 • 128
Fixos são os juros que se expressam por determinada porcentagem, à qual os debentu-
ristas terão direitos sempre, em época determinada para seu pagamento.
Variáveis serão os que, apesar de determinados quando da emissão dos títulos, ficam a
depender de eventos futuros. Ao estabelecer juros variáveis, a companhia em regra os subor-
dina a acontecimentos que podem ocorrer, alterando a sua situação financeira.
A lei permite que as debêntures sejam conversíveis em ações, desde que essa circuns-
tância venha estabelecida na escritura de emissão. Nesta (escritura), segundo for deliberado
na assembleia geral, deverá ser especificada a base dessa conversão, seja em número de
ações em que poderá ser convertida cada debênture, seja como relação entre o valor nominal
da debênture e o preço da emissão das ações.
Deve a escritura de emissão, ainda, dispor sobre a espécie e classe de ações em que a
debênture poderá ser convertida. Igualmente a escritura de emissão especificará prazo ou
época para o exercício do direito de conversão.
A emissão de debêntures conversíveis em ações significa um ato que redundará, ob-
viamente, no aumento do capital. E, como os acionistas têm preferência para subscrição de
ações quando o capital é aumentado, a lei lhes dá, igualmente, preferência para aquisição
dessas debêntures na proporção das ações possuídas.
A lei atual, inspirando-se principalmente no direito anglo-americano, criou o agente fi-
duciário dos debenturistas, que será o representante legal destes perante a sociedade, com
direitos e deveres fixados na lei e participação obrigatória em certos e determinados atos.
Tem, registre-se, o agente fiduciário poderes para convocar a assembleia especial dos
debenturistas, mediante as mesmas solenidades previstas para convocação da assem-
bleia geral dos acionistas, estendendo-se lhes os requisitos relacionados com o quórum
de deliberação.

Partes beneficiárias

As partes beneficiárias são títulos negociáveis, sem valor nominal e representa-


tivo do capital social, que conferem direitos de crédito contra a sociedade, consis-
tente na participação dos lucros, em no máximo, 10% do lucro líquido anual. E
um valor mobiliário cuja finalidade vem a ser o incentivo a participação de qual-
quer pessoa a participar nos lucros da sociedade, como por exemplo, os emprega-
dos ou administradores. Entretanto, a emissão das partes beneficiárias se submete
a determinadas vedações, pois só é possível a emissão de partes beneficiárias na
sociedade anônima de capital fechado, que não seja instituição financeira; não

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pode atribuir outros direitos, tais como o voto e também não podem ser eternos:
máximo de 10 anos no caso de serviços prestado.

Bônus de subscrição

São títulos emitidos pela sociedade anônima que confere aos seus titulares o
direito de conversão em ações. Apresenta como característica o direito de prefe-
rência de compra de uma ação.

Commercial papers

E um valor mobiliário em que se permite a sociedade anônima emitir nota


promissória passíveis de negociação no mercado mobiliário. Geralmente de curto
prazo (Resolução 1.723/90 do Conselho Monetário Nacional do Brasil).

Assembleia geral

A assembleia geral é o órgão máximo da sociedade. Este órgão é formado pela


reunião dos acionistas, inclusive daqueles sem direito a voto. A assembleia é con-
vocada e instalada para deliberar sobre qualquer assunto de interesse da compa-
nhia (art. 121), conforme dispuser a lei ou o estatuto. Nesse sentido, importante
ressaltar que a atuação da assembleia geral se encontra limitada pelo objeto social,
pela lei e pelo Estatuto Social da Companhia.

Espécies de assembleia geral

As assembleias gerais, por sua vez, subdividem-se em ordinárias e extraor-


dinárias, de acordo com as matérias que serão objeto de deliberação. Conforme
nitidamente se apreende do caput do artigo 131 da lei 6.404/76, será ordinária a
assembleia que tenha em sua ordem do dia as matérias indicadas no artigo 132 da
lei 6.404/76.
A assembleia geral ordinária (AGO) obrigatoriamente deve se reunir uma vez
por ano, sendo nula qualquer disposição estatutária, ou deliberação de acionistas,
em contrário. Segundo o art. 132 da lei 6.404/76, a reunião anual deve ocorrer

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nos quatros primeiros meses seguintes ao fim do exercício social. Caso este pra-
zo transcorra sem que esta seja realizada, a apreciação dos temas continua sendo
necessária e consoante o entendimento da doutrina majoritária, sua realização
intempestiva não a torna extraordinária. De qualquer forma, vale observar que,
independentemente da espécie adotada, o atraso na realização do conclave pode
acarretar responsabilização dos administradores por eventuais prejuízos (art. 155),
bem como sanções à companhia impostas pela comissão de valores mobiliários.
Segundo o caput do art. 133 da lei 6.404/76, além da obrigação de convocar
a AGO, os administradores deverão disponibilizar aos acionistas os documentos
que serão objetos de deliberação, com antecedência mínima de 1 mês à realização
da assembleia, bem como publicá-los em órgãos da imprensa. A necessidade da
publicação é dispensada nas companhias fechadas de que cuida o art. 294 – lei
6.404/76 (patrimônio líquido inferior a R$ 1.000.000,00), desde que os docu-
mentos sejam arquivados no registro de comércio, juntamente com a ata da AGO
cinco dias antes da reunião.

Administração

A lei 6.404/76 normatiza que a administração da sociedade anônima deve


compreender o conjunto dos órgãos instituídos para a consecução do objeto so-
cial. Assim, em sentido material, a administração vem a ser o conjunto das fun-
ções necessárias ao desempenho, pela sociedade anônima, de sua peculiar ativida-
de empresarial.
De modo amplo, integram-se na estrutura administrativa da companhia,
preordenada à satisfação dos fins sociais, os órgãos cuja existência é prevista na
lei (assembleia geral, conselho de administração, diretoria e conselho fiscal) ou no
estatuto conselho técnico-consultivo). Em sentido restrito, abrange a administra-
ção da companhia apenas os órgãos diretamente incumbidos de gerir os bens e
interesses sociais, nos limites dos preceitos legais e estatutários, ou seja, o conselho
de administração e a diretoria.
A referida lei prevê um aparato complexo e dispendioso para o funcionamento
da sociedade anônima, tornando aconselhável a sua plena utilização apenas pelas
grandes empresas. No entanto, muitos das fórmulas alvitradas não são de adoção
obrigatória, e sim opcional (o conselho de administração e o conselho fiscal), de
sorte que a forma anônima também pode ser escolhida para empresas de médio
porte, com as indispensáveis adaptações.

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Transformação de Sociedade Anônima

A transformação identifica-se como um processo mediante o qual uma socie-


dade empresária passa de uma espécie societária a outra, como bem esclarece o art.
220 da lei 6.404/76: “a transformação é a operação pela qual a sociedade passa
independentemente de dissolução e liquidação, de um tipo para outro”.
Deste modo, a personalidade jurídica da sociedade subsiste sob nova espécie
societária, com a consequente alteração de toda a sua estrutura, com sensíveis
reflexos na responsabilidade dos respectivos sócios. A transformação muda as ca-
racterísticas da sociedade, mas não a sua individualidade que permanece a mesma,
mantendo-se íntegros, portanto, a pessoa jurídica, o quadro de sócios, o patrimô-
nio, os créditos e os débitos.
O RIR/1999, art. 234, esclarece que nos casos de transformação e de conti-
nuação da atividade explorada pela sociedade, sob a mesma ou nova razão social,
ou firma individual, o imposto continuará a ser devido e pago como se não hou-
vesse alteração das firmas ou sociedades.

Incorporação

A incorporação societária é um processo segundo o qual uma sociedade já


existente absorve outra, visando ao aumento de seu patrimônio, à tecnologia, ao
pessoal especializado.
O artigo 227 da lei das sociedades anônimas conceitua a incorporação como
sendo “a operação pela qual uma ou mais sociedades são absorvidas por outra, que
lhes sucede em todos os direitos e obrigações”, extinguindo-se, desta feita, a socie-
dade incorporada e ficando a incorporadora responsável pela sucessão de todos os
direitos e obrigações.
No Código Civil se encontra a figura da incorporação no artigo 1.116, com a
seguinte redação: “Na incorporação, uma ou várias sociedades são absorvidas por
outra, que lhes sucede em todos os direitos e obrigações, devendo todas aprová-la,
na forma estabelecida para os respectivos tipos. Trata-se de um processo, pois envol-
ve ato constitutivo e o ato desconstitutivo em que o negócio da incorporação de
sociedade consubstancia ato constitutivo e ao mesmo tempo desconstitutivo. Será
constitutivo pela agregação de patrimônios de duas sociedades em uma só. Será des-
constitutivo pelo desaparecimento da pessoa jurídica da incorporada, tendo como
efeito a absorção universal de seu patrimônio pela outra”. (CARVALHOSA, 2003)

capítulo 5 • 132
Fusão de Sociedade Anônima

A fusão de sociedades está disposta em nossa legislação no Código Civil nos


artigos 1.119 a 1.121, além de outras disposições contidas no art. 228 da lei das
sociedades anônimas (lei no 6.404/76). Nosso legislador definiu a fusão de so-
ciedades como operação pela qual se unem duas ou mais sociedades para formar
sociedade nova, que lhes sucederá em todos os direitos e todas as obrigações.
Trata-se, portanto, de uma operação pela qual se unem duas ou mais socieda-
des para formar uma nova, que lhes sucederá em todos os direitos e obrigações.
Desaparecem, no caso, as sociedades que se fundem, para, em seu lugar, surgir
outra sociedade. Essa operação, contudo, não dissolve as sociedades, apenas as ex-
tinguindo. Não se fará liquidação do patrimônio social, pois a sociedade que surge
assumirá todas as obrigações ativas e passivas das sociedades fundidas.
Pode ser vista também como forma de reorganização de capitais visando à
concentração das participações das empresas no mercado, pela união de duas ou
mais empresas, formando nova sociedade que sucederá as fundidas em direitos e
obrigações, extinguindo as empresas fundidas, mas não as dissolvendo em razão da
sucessão dos direitos e das obrigações pela nova sociedade. A fusão inicia-se com o
protocolo de intenções, que terá de ser aprovado posteriormente pelos acionistas,
mas o procedimento estabelecido em nossa legislação para o início, assim como
para a conclusão da fusão das sociedades será abordado posteriormente, uma vez
que o procedimento é comum para a fusão, incorporação e para a cisão.

Cisão de Sociedade Anônima

A cisão das sociedades pode ser vista como reorganização societária que ob-
jetiva maior organização administrativa. Esta reorganização visa otimizar funções
da empresa, tornando-a mais competitiva no mercado por meio da transferência
de capital de uma sociedade para outra(s); sendo que, a sociedade que absorve tal
capital sucede a cindida nos direitos e nas obrigações correspondentes à parcela
absorvida, em que se pode falar então em cisão total ou cisão parcial. Cisão total
ocorre quando todo o capital de uma empresa é dividido entre duas ou mais socie-
dades, que absorvem o capital e a sucedem em direitos e obrigações, extinguindo-
se a sociedade cindida.
Na cisão parcial, ocorre apenas transferência de parcela do patrimônio que
é distribuída para outras sociedades, sendo que cada uma será responsável em

capítulo 5 • 133
relação à parte absorvida do patrimônio. Destacamos que para a absorção da par-
cela de capital que receberá, a sociedade empresária pode ser preexistente ou ainda
pode ser criada exclusivamente para receber tal capital.
O legislador mostrou-se preocupado em coibir a tentativa da cisão se trans-
formar em instrumento de fraude contra os credores. A lei 6.404/76 em seu art.
234 estabelece que na cisão total, os direitos e as obrigações se transferem para a
nova sociedade, legítima sucessora daquela que se extinguiu. Caso o capital tenha
sido dividido em diversas empresas, cada qual responderá na proporção do capital
absorvido. Na cisão parcial, isto é, quando subsiste a empresa cindida, as empresas
que absorveram o capital passam a sucedê-la apenas nos direitos e nas obrigações
que serão relacionados quando da efetivação da cisão. Destaca-se que pode haver
sócios dissidentes na sociedade, que poderão se retirar se assim o solicitarem. Se
este fizer uso da sua faculdade, irá receber o valor correspondente às suas ações e
poderá exercer seu direito de retirar-se da sociedade somente quando da efetivação
da operação.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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comercial, direito societário. 2. ed., São Paulo: Revista dos Tribunais.
CARVALHOSA, Modesto. (2011). Comentários à Lei de Sociedades Anônimas. 4. ed. São Paulo.
CARVALHOSA, Modesto. Comentários ao Código Civil: direito de empresa. São Paulo: Saraiva:
2003.
COMPARATO, Fabio Konder, SALOMÃO FILHO, Calixto. (2014). O Poder de Controle na
Sociedade Anônima. Rio de Janeiro. 6. ed.
LOPES, Mauro Brandão. (1978). Responsabilidade Civil de Administradores de Instituições
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Universitária.
LUCENA, Waldecy. 2009 apud CARVALHOSA, Modesto de Souza Barros. Acordo de acionistas:
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MAMEDE, Gladston. Direito empresarial brasileiro, v. 2: direito societário: sociedades simples e
empresárias. V. 2. São Paulo: Atlas, 2004. p. 384.
PEDREIRA, José Luiz Bulhões e LAMY FILHO, Alfredo (Coordenado- res). (2009). Direito das
Companhias. Rio de Janeiro: Editora Forense. Vols. I, pp.193/209.
WALD, Arnoldo. 2000. O Acordo de Acionistas e o Poder de Controle do Acionista Majoritário.
Revista de Direito Bancário e do Mercado de Capitais. vol. 8. São Paulo: Ed. RT.

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