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Capitalismo Gore

Valencia Sayak
O limite não se livra de nenhum dos
lados da serpente metálica. O
primeiro e o terceiro mundo. A
fronteira. O inferno. A outra parte do
outro lado. O outro lado do outro lado.
O este lado do outro lado. O mundo
feliz do desengano. Isso é Tijuana.
Apresentação

Contexto espacial: na fronteira entre os Estados Unidos e o México, Tijuana é a última esquina da
América Latina, o laboratório da pós-modernidade (Canclini), a cidade da passagem e do vício.

Interessa a Sayak produzir um discurso com poder explicativo e desnaturalizador, se afastando


dos discursos salvadores a partir de uma perspectiva transfeminista e interseccional de
feminismos chicanos, negros e disaspóricos.

Parte de uma crítica decolonial que situa os conhecimentos e saberes geopoliticamente: “Não
sabemos enfrentar outras dinâmicas porque as desconhecemos e porque nos agarramos aos
nossos esforços em legitimar o ocidente como única realidade e como única possibilidade”.

O termo gore provém do gênero cinematográfico splatter e do uso gráfico e extremo da violência.
Refere-se ao derramamento de sangue explícito e injustificado no uso predatório do corpo. Essa
violência explícita atua como ferramenta de necroempoderamento.
Definindo o conceito

É a dimensão sistematicamente descontrolada e contraditória do projeto neoliberal. Ou seja, é o


monstro que o neoliberalismo criou.

É a união entre a episteme da violência e o capitalismo, entre o narcotráfico e a necropolítica.

É uma distopia e “bug" da máquina do capitalismo globalista. A globalização é, nesse sentido,


uma distração e uma máscara.

O capitalismo gore põe em crise os pactos éticos ocidentais, assim como a aplicabilidade do
discurso filosófico ocidental e de conceitos como humanismo, justiça e lealdade.

O capitalismo gore cria os sujeitos endriagos.

Trata-se de uma reinterpretação da economia global hegemônica em áreas periféricas.


O gore não se reduz a um gênero cinematográfico, nem a
periódicos sensacionalistas. O gore é a nossa realidade agora.

O c a p i t a l i s m o g o r e p o d e s e r e nt e nd i d o c o m o u m a l u t a
intercontinental do pós-colonialismo extremo e recolonizado
através dos desejos de consumo, autoafirmação individual e
empoderamento.

Tem mais força e presença nos países terceiromundistas com


economias deprimidas.

O capitalismo gore é resultado da interpretação e da participação


ativa, violenta e irreversível dos endriagos no mundo globalizado,
do hiperconsumismo e das fronteiras (laboratórios colonialistas).
Práticas Gore

São fenômenos ultraviolentos, exercício sistemáticos e repetidos da violência mais explícita para
produzir capital.

As práticas gore são executadas como algo lógico e legítimo (naturalizadas) já que são
enraizadas na educação consumista do desenvolvimento da sociedade de hiperconsumo.

Não somente a violência gore, essa do sangue explícito, mas também a da inviabilidade da
pobreza e de naturalizar sua condição, a violência da indústria farmacêutica e das
transnacionais.

Mercadorias gore: drogas, pessoas, matadores de aluguel, seguranças privados.

No capitalismo gore a violência é utilizada, ao mesmo tempo, como uma tecnologia de controle
e como um gag que também é um instrumento político.
Sujeitos endriagos

O nome endriago vem da literatura medieval, mais especificamente


do livro Amadís de Gaula (Garci Rodríguez de Montalvo).

No livro ele é descrito como o cruzamento entre homem, hidra e


dragão, e provoca o temor em qualquer adversário.

No capitalismo gore, os sujeitos endriagos são estes seres


ultraviolentos, demolidores e distópicos que surgem no contexto do
pós-fordismo e lembram os territórios fronteiriços contemporâneos.

A figura do endriago é a figura colonialista do outro: não aceitável,


abjeto e inimigo.
Subjetividade endriaga

Os sujeitos endriagos utilizam as práticas gore para obter a possibilidade de cumprir as


demandas consumistas.

Desviar da tentação de redução simplista "outrorizante" de criar discursos interpretativos para


estas subjetividades, que apelem a uma “sociologia da miséria ou a uma metafísica do gueto”.

Diante da proliferação de mercadorias e a exclusão do consumo, esse sujeitos decidem usar a


violência como ferramenta de empoderamento e de aquisição de capital.

A violência como mercadoria de valor simbólico e como ferramenta de empoderamento


distópico (status individual, respeitabilidade com o intuito de exorcizar a condição e a imagem
de vítima).
Genealogia do capitalismo gore

Contextualização histórica: liberação dos mercados a partir de 1971 e contexto pós-fordista.

Aperfeiçoamento com a caída da união soviética em 1989 onde o capitalismo se instaura como
único sistema possível: ”não há espaço para outras ideologias econômicas alternativas; tudo se
reduz a benefício, negócio e capital, nada mais”.

A lógica:
1) Quando parece que tudo cochila, a força do capital acelera os desejos;
2) Os meios de comunicação e sua propagação do desejo de consumo servem como catalizador;
3) A aceleração aumenta;
4) Práticas que se tornam mercadoria e se incrustam na gente;
5) Assim, pouco a pouco se dinamitam os acordos éticos;
6) Os corpos e sujeitos se transformam em mercadoria de troca;
7) Impregnasse o necroempoderamento.
Regime farmacopornográfico (Beatriz Preciado)

Obtenção de prazer com imagens pornográficas, proliferação de novas drogas e esteroides.

É a união entre hedonismo consumista e microviligância das sociedades de controle.

Pensar nas subjetividades capitalistas farmacopornográficas no contexto de uma economia


gore e a conexão fundamental entre capitalismo farmacopornográfico e capitalismo gore:
produção, tráfico e distribuição de drogas.

O corpo-mercadoria como dispositivo: desejante, estimulado, interconectado e medicado. A


subjetividade é definida pela substância: a depressão vira prozac, a masculinidade
testosterona, a ereção viagra, a fertilidade pílula.

A droga é uma forma de controle sobre o corpo, que se transforma numa espécie de panóptipo
comestível que se integra à maneira do controle microprostético.
Neoliberalismo e sociedade de hiperconsumo

Ampliar a racionalidade econômica para outras esferas da vida, como a família e a natalidade.

O capitalismo neoliberal como sistema de produção e construção cultural. Ou seja, não somente
como economia mas como construção cultural biointegrada.

O hiperconsumo como recolonização constrói a identidade e as subjetividades = biomercado.

A incapacidade de consumo como frustração constante gera agressividade e violência explícita.

A globalização tem suas raízes no neoliberalismo.

A vida como competição e a sensação de ter fracassado na vida.

O dinheiro branqueia e a pobreza escurece.


Christian León (2005)

A crise dos anos 1980:


O fim do modelo desenvolvimentista na América Latina esgota e desmantela, por consequência, a
função intervencionista do estado.

1990:
Consenso de Washington - conjunto de medidas e políticas econômicas liberais para os países em
desenvolvimento (disciplina fiscal, privatização e desregulamentação).

Fim do horizonte utópico com o fim do projeto socialista, perda do sentido e do vínculo social e a
impossibilidade de futuro.

Crise dos ideais de progresso e modernidade.


A lógica do empreendedorismo

É um conceito estruturante para a construção e o triunfo das lógicas capitalistas.

Os sujeitos endriagos são os empreendedores do capitalismo gore.

Características do empreendedor: inovação, flexibilidade, dinamismo.

As máfias empresariais como delinquências globais organizadas, funcionando como empresas


transnacionais com alianças e colaborações político-criminais.

O crime organizado não se organiza pela lei tampouco pelo estado, mas acumula capital.

DIY (Do It Yourself) e Self Made Man.


Estado, nação e governamentalidade

O estado democrático de direito, tido como “neutro" perante ideologias ou ideias, é claramente o
reflexo de um sistema econômico regido por determinadas ideias e não outras. Isso quer dizer
que “a lei está regida pela lógica liberal que brinda a liberdade de ação para os economicamente
poderosos”.

Essa nova governamentalidade dá vida aos sistemas de controle e vigilância sem que estes
tenham que se ocultar, pondo sua existência como lógica, aceitável e demandada pela própria
sociedade, condicionando e transgredindo, desta maneira, as noções de privacidade e liberdade.

Não há separação nítida entres as instâncias legais e ilegais. As estruturas da ilegalidade


funcionam por demanda da legalidade e se retroalimentam.
Estado-nação e mercado-nação

Um novo conceito de nacionalismo: a união e identificação através do consumo, tanto de bens


simbólicos como de bens materiais. A socialização pelo consumo como única via de manter
vínculos sociais.

Tudo pode ser comercializado: inclusive os próprios conceitos de nação e nacionalismo.

Com a masculinidade violenta e a construção do nacional, “as construções de gênero no contexto


mexicano estão intimamente relacionadas com a construção do estado”.

O crime introduz mudanças desde os setores ilegais (lavagem de dinheiro, prostituição, venda
ilegal de armas) como os setores legais (empresas de segurança privada, setor do ócio,
privatização de exércitos).
Narco-nação, tráfico e narcocultura

As drogas geram empregos e riquezas em zonas muito degradadas do primeiro e terceiro


mundo.

Estado alternativo dos narcotraficantes com técnicas próprias de recrutamento de


trabalhadores. Oferecem uma oportunidade de trabalho frente a precarização do trabalho legal
e formal.

Quando os sujeitos endriagos e os cartéis cumprem a função do estado e bem estar social para o
povo:
1) Ajudar o campo a produzir (epicentro de produção de drogas);
2) Construção de infra-estruturas: estradas, hospitais, escolas, igrejas.
Dentro da lógica de mercado do consumo gore, o lado do provedor fica inviabilizado e o
consumidor, regularmente ocupado por sujeitos primeiromundistas, ganha a autorização
discursiva.

A pequena burguesia se converteu na luva perfeita para a distribuição informal e hiperliberal da


mercadoria droga. Uma venda completamente ausente da estrutura criminal.

O narcotráfico surge como possibilidade tentadora e rentável, já que possui técnicas próprias,
postos de trabalho para sanar o desemprego e um sistema que pode lutar em peso de igualdade
com a figura do estado.

O que o estado oficial não consegue mais dar conta (o estado de bem estar social), as máfias e
organizações criminais, lidas em suas relações familiares e de lealdade, reivindicam e tomam
posse das carências de um estado falido e em colapso. O que o estado não dá, o narcotráfico provê,
criando um contra-estado ou estado alternativo (e de excessão).
La Familia Michoacana - carta aberta à sociedade acerca da dissolução do cartel (2011)

"A toda a sociedade em geral os comunicamos que desde o dia de hoje se dão por concluídos todos os
serviços que estávamos fornecendo à sociedade Michoacana desde o dia 1 de dezembro de 2010. Em
resposta a todas as atrocidades, abusos e violações que a polícia federal tem feito contra a sociedade civil de
Michoacán.

Em virtude de não querer continuar nos confrontando com o que a figura do presidente representa, A
Família Michoavana se dissolve por completo e se abrem as portas do estado, do governo e de projetos de
grupos que desejem continuar com a luta que nós iniciamos e existe a possibilidade de oferecer o apoio de
nossa parte.

Graças a nosso líder máximo Nazario Moreno El Más Loco, que Deus o tenha em sua santa glória”.
Diagnóstico da sociedade mexicana

Espetacularização da violência (e da cultura do espetáculo).

Celebração do hiperconsumo (consumo logo sou cidadão).

Supremacia masculina branca heterossexual do patriarcado.

Paranóia, sentimento de desproteção, estresse crônico e terror constante.

Resultado: sujeito soberano e extrajurídico.


A classe criminal

Não se pode mais falar em classe pobre como organização social de um grupo. Não há
consciência de classe, solidariedade de grupo nem destino comum. São sujeitos desafiliados
(sem filiação social).

Necessidade de identificação e enquadramento social, ou de reconhecimento e pertencimento


a um coletivo, grupo, comunidade ou família.

Narcocultura e nova classe social: classe criminal global. “Orgia de consumo e


comportamento decadentes”

Outro tipo de sociabilidade, fora dos modelos éticos, e outro status: respeitabilidade.

A falta de ser herói pela educação, pela lei ou pela luta social. Herói do crime como
proximidade.
Receita para fazer de seu filho um narco
(Heriberto Yépez, escritor de Tijuana):

1) Corte seus sentimentos, corpo e desejos;


2) Fale que tudo o que ele faz está mal;
3) Agregue machismo, classismo, racismo e misoginia em seu gosto, até acreditar que um ser se completa
rebaixando os outros;
4) Quando chegar à puberdade, aumente seu autoritarismo familiar, com chantagem emocional ou
violência aberta;
5) Mantenha um clima bélico;
6) Ferva a mistura de narcocorridos e filmes hollywoodianos;
7) Acrescente 2 gramas de cocaína, ou ase-o com maconha e cristal;
8) A fogo lento, deixe-o sair às ruas. Ali encontrará as gangues, a polícia e os cartéis. Então terá respeito e
se vingará de você e de toda esta sociedade;
9) Como sobremesa, faça-se de vítima e pergunte-se como há pessoas tão sem coração sendo você tão doce.
= subjetividade narco baseada na falta e na frustração contínua (eixos do sistema capitalista).
Necropolítica

É a engrenagem econômica e simbólica que produz outros códigos, gramáticas, narrativas e


interações sociais através da gestão da morte. O corpo é a mensagem e todo poder sempre
opera e recai sobre os corpos.

Trata-se do poder de decidir quem deve ou não morrer (o que gera um valor econômico). O
assassinato é uma transação, a violência extrema uma ferramenta de legitimidade.

A necropolítica como elementos diretriz da gestão e aplicação de políticas econômicas e sociais


nas relações norte-sul.

A tortura, extermínio e destruição dos corpos como um exercício e uma implantação de poder
ultra rentável. O biopoder vira necropoder dentro de um estado de excessão.

A morte não é mais tabu e o governo é tanto efetivo quanto mais mata e massacra.
Necropoder: apropriação e aplicação das tecnologias governamentais da biopolítica para
subjugar os corpos e as populações que integram que integram como elemento fundamental a
sobreespecialização da violência e tem como fim comerciar com o processo de dar morte.

Necropráticas: ações radicais, encaminhadas a vulnerar corporalmente.

Necroempoderamento: processos que transformam contextos e/ou situações de vulnerabilidade


e/ou subalternidade em possibilidades de ação e autopoder distópicas, revertendo assim as
hierarquias de opressão. Produzindo, assim, enriquecimento ilícita e autoafirmação perversa.

Tanatofilia: é o gosto pela espetacularização da morte nas sociedades hiperconsumistas


contemporâneas, assim como o gosto pela violência e destruição, o desejo de matar e a atração
pelo suicídio e pelo sadismo. É um termo que substitui a necrofilia, por não ser pensado em
termos sexuais.
"Dada a frustração, a corrupção, o menosprezo, a fome e a pobreza
com as quais se veem submergidos a maioria dos sujeitos que vivem
em países economicamente deprimidos, as lógicas de sangue e fogo
como ferramentas para subir ao trem do consumismo, ainda que
repulsivas, resultam cada vez mais compreensíveis e óbvias como
exigências radicais do sistema de hiperconsumo”.
Modulações éticas e humanistas no capitalismo gore

A ética é um discurso ocidental, discursos estes tomados como inquestionáveis e que não fazem sentido
em certas realidades.

"A paz e a prosperidade do ocidente “civilizado" foi conseguido através da sistemática exportação da
violência e destruição ao de fora “bárbaro" - desde a grande história da conquista do oeste até as
matanças do Congo”.

“Na carreira feroz do capitalismo que se torna gore, se subverter os acordo éticos que até o momento
haviam região o humanismo do ocidente”. A ética é um acessório dentro do mundo de hiperconsumo,
já que é entendida como “o limite do perdedor, a proteção do derrotado, a proteção moral para aquele
que não conseguiu jugar tudo e ganhar tudo”.
A morte está em moda: capitalismo gore nos cenários comunicacionais
Tersesa Margoles (México, 1963)
Dr. Lakra (México, 1972)
Pizza, Birra, Faso (Adrián Caetano e Bruno Stagnaro, 1998, Argentina)
Rodrigo D. No Futuro (Víctor Gaviria, 1990, Colômbia)