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Volume 16, Número 1, Jan/Jun 2012, p.

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ENFRENTANDO MUDANÇAS NO ENVELHECIMENTO: O MODELO DE


SELEÇÃO, OTIMIZAÇÃO E COMPENSAÇÃO

Sueli Aparecida Freire


(Universidade Federal de Uberlândia – UFU – Uberlândia – MG)
Marineia Crosara de Resende
(Universidade Federal de Uberlândia – UFU – Uberlândia – MG)
Dóris Firmino Rabelo
(Universidade Federal do Recôncavo da Bahia – UFRB)

Resumo

A determinação de como o idoso é capaz de manejar os efeitos das desvantagens biológicas e


sociais e manter satisfatória sua qualidade de vida, suas autoconcepções e seu ajustamento
pessoal, é um aspecto crítico no estudo do envelhecimento. O Modelo de Otimização Seletiva
com Compensação – SOC trabalha com a visão de que em todos os estágios do
desenvolvimento humano os indivíduos são capazes de manejar suas vidas de maneira bem-
sucedida. Neste artigo são revisados os elementos que compõe esse modelo e os estudos que
analisam a relação entre eles e os processos de perdas associadas ao envelhecimento. Este
modelo proporciona uma estrutura conceitual geral que auxilia o estudo das mudanças
evolutivas e da resiliência ao longo do ciclo vital.

Palavras-chave: envelhecimento; desenvolvimento; resiliência psicológica; modelos teóricos

Abstract

Facing challenges in the aging process: selective optimization with compensation model

The determination of how the aged person is able to deal with the biological and social effects
of disadvantages to keep their quality of life, what they think about themselves and their
personal adjustment, are aspects of a critical approach to the study of aging. The selective
optimization with compensation model - SOC Model subtends a vision that in all period of
human development the individual are able to live in a successful way. In this paper the
components of this model are studied and the articles who analyzed the relation between the
elements of SOC model and the losses of aging are revised. This model provides a general
conceptual structure that assists the evolution changes and the resilience throughout the life
span.

Keywords: aging; human development; resilience, psychological; models theoretical

“É melhor um pássaro na mão do Qual a relação entre esses dois


que dois voando.” provérbios tão populares e o processo
“A prática faz a perfeição” natural de envelhecimento, com suas
perdas associadas e a maneira como as

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pessoas enfrentam-nas? De fato, cada um 2005). Para entendê-lo, muitos estudiosos


destes provérbios representa uma estratégia utilizam o modelo de Rowe e Kahn (1997),
utilizada pelas pessoas para lidar com as segundo o qual o envelhecimento bem-
mudanças físicas, mentais e sociais sucedido (EBS) é um construto
relacionadas a esse processo, que já multidimensional que engloba três
começa na idade adulta e se estende até os componentes principais: a baixa
anos finais da vida. São elas a seleção, a probabilidade de doenças e incapacidades,
otimização e a compensação. a manutenção de altos níveis de
Essas três alternativas de funcionamento cognitivo e físico e o
enfrentamento das mudanças foram engajamento em atividades sociais e
agrupadas em um único modelo teórico, o produtivas.
Modelo de Otimização Seletiva com Ao enfatizar o envelhecimento
Compensação, ou modelo SOC, proposto bem-sucedido, focaliza-se a atenção no
por Baltes e Baltes (1991), dois estudiosos fenômeno do desenvolvimento que
do envelhecimento normal bem-sucedido. continua ocorrendo durante a segunda
Este modelo será revisado neste artigo. metade da vida, embora muitos ainda
Cada elemento que o compõe será pensem que este fenômeno é característico
analisado e serão descritos estudos onde dos anos iniciais (infância e adolescência,
foi investigada a relação entre eles e principalmente). Dentro de uma
processos de perdas associadas ao perspectiva life span do desenvolvimento,
envelhecimento. que considera este processo ocorrendo
durante todo o curso de vida, pode-se falar
Envelhecer bem em desenvolvimento bem-sucedido, um
processo de adaptação 2 do organismo que
O que seria ter um envelhecimento ocorre desde a infância até a velhice. Além
bem-sucedido? Este termo foi introduzido disso, ao estudar o desenvolvimento a
como fundamento do Kansas City Study of partir da segunda metade da vida, pode-se
Adulthood and Aging, conduzido por ter pistas úteis sobre o que efetivamente
Havighurst, na década de 1950, no utilizar para enfrentar as mudanças naturais
contexto da teoria da atividade 1 . É um que ocorrem no passar dos anos (Schulz &
termo sem definição única clara e associa- Heckhausen, 1996; Lopez & Snyder, 2009).
se com diferentes conceitos como saúde A vida segue um padrão de
mental positiva e velhice produtiva (Motta, desenvolvimento biológico particular para
Bennati, Ferlito, Malaguarnera & Mota, cada espécie. No caso do ser humano, o

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potencial genético determinante da selecionando, buscando e adaptando seus


capacidade funcional, aliado às limitações objetivos e metas em resposta às mudanças
sócio-estruturais impostas pela sociedade nas oportunidades ao longo do ciclo vital
onde vive, vão dar as possibilidades e os (Heckhausen & Wrosch, 2010).
limites, ou seja, os parâmetros de Assim, para realizar o máximo de
desenvolvimento ao longo do curso de vida. seu potencial, o indivíduo deve investir
Dessa forma, a maior variabilidade de recursos de tempo e energia em domínios
oportunidades para experimentar diferentes escolhidos dentre as oportunidades que
domínios de desempenho pode favorecer encontra, consistente com as oportunidades
uma capacidade maior de enfrentamento genéticas e sócio culturais. Além disso,
das diversidades da vida. No entanto, é deve tomar decisões sobre os domínios da
preciso manter um equilíbrio na vida nos quais deve investir e sobre quais
distribuição dos esforços pessoais entre deve abandonar, compensando e
essas diferentes oportunidades de enfrentando os limites e desafios que
experiência a fim de que o indivíduo não encontra ao longo do curso da vida. Se isto
se perca na busca de suas metas e nem acontecer, pode-se dizer que o indivíduo
chegue ao final do caminho sem forças está tendo um desenvolvimento bem
para completar sua jornada, uma vez que o sucedido e poderia manter-se assim até
declínio natural nas capacidades acabará idade avançada. Mesmo aqueles indivíduos
ocorrendo (Neri, 2005). que antes da velhice apresentam limitações
De modo geral, as pessoas tem o importantes, inatas ou adquiridas, utilizam
senso de estarem moldando ativamente essas estratégias para a exploração máxima
suas vidas. Elas seguem seus caminhos do seu potencial.
desenvolvimentais que são coerentes com As dificuldades no desempenho de
suas metas pessoais de longo prazo e, atividades não são obstáculos para ativar o
quando necessário, são capazes de se processo de seleção psicológica. Depois de
desegajarem destes objetivos quando estes um trauma, que impõe mudanças
tornam-se não atingíveis, indicando que, dramáticas na vida diária e no acesso às
apesar dos fracassos e desapontamentos, os oportunidades ambientais para a ação, os
indivíduos permanecem em seu curso e indivíduos podem desenvolver estratégias
mantém um senso de agência pessoal. O onde é possível continuar executando
potencial desenvolvimental de cada um atividades que faziam anteriormente ou,
envolve ganhar e perder e isso é alcançado como acontece com freqüência,

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identificam novas e inesperadas fontes de que se mostraram ineficazes. Significa


envolvimento, às vezes em áreas muito também ter um potencial a ser atualizado
diferentes dos seus interesses prévios. A no futuro, dependendo dos recursos
flexibilidade do comportamento emerge disponíveis e das estratégias de
como uma característica crucial para a enfrentamento de perdas e fracassos e da
adaptação em ambientes onde ocorrem resiliência que o indivíduo desenvolveu ao
mudanças contínuas (Resende, 2006). longo da vida (Rabelo & Neri, 2005; Stine-
Essa capacidade de adaptação Morrow & Chui; 2012).
continua até a velhice. As pessoas A maior incidência de eventos
precisam se ajustar, enfrentar e tirar negativos na velhice – como doenças,
vantagem das mudanças nas oportunidade perdas e acidentes – levanta a questão de
e das dificuldades características de cada como os idosos podem lidar com eles de
estágio da vida. De que maneira elas fazem maneira bem-sucedida e conseguir assim
isso com vistas a manter o domínio sobre o manter uma boa qualidade de vida ou, pelo
próprio curso de vida é uma questão menos, a melhor possível. Diante das
importante para a psicologia do perdas em reservas e capacidades ocorridas
desenvolvimento humano dentro da durante o envelhecimento, existem três
perspectiva life span. De acordo com possibilidades: a) abrir mão dos domínios e
Motta et al. (2005), nas idades iniciais atividades prejudicados; b) compensá-los,
todos os recursos disponíveis são utilizados ou c) permitir-se ser dependente nos
para o desenvolvimento do organismo domínios em que ocorrem perdas, com o
como um todo e na idade avançada, o intuito de liberar energia para alcançar suas
indivíduo vai selecionar e organizar metas em outros domínios e atividades.
aqueles comportamentos que compensem
as capacidades reduzidas devido ao O Modelo SOC
envelhecimento normal.
Pode-se dizer, então, que O que se tem notado é que, ao
envelhecer bem significa ter uma história longo da vida, as pessoas criam ativamente
passada com diversas experiências, onde o e reagem aos contextos biológicos,
indivíduo aplicou seus recursos e psicológicos e sociais que melhoram ou
empenhou-se em manter aqueles restringem seu desenvolvimento em uma
comportamentos e estratégias que se interação dinâmica com seus recursos
mostraram eficazes na obtenção do sucesso disponíveis. Elas buscam maximizar os
adaptativo e em evitar e modificar aqueles ganhos (resultados ou metas desejadas) e

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minimizar as perdas (resultados Compensação ou modelo SOC (Freund &


indesejáveis), processos fundamentais para Baltes, 2002a). Segundo Baltes e Baltes
o desenvolvimento adaptado e o (1991), a velhice bem-sucedida implicaria
envelhecimento normal (Neri, 2007). na possibilidade de manter a competência
A natureza do que constitui ganhos em domínios selecionados do
e perdas, e a dinâmica entre eles, é funcionamento, por meio dos mecanismos
condicionada por fatores pessoais e psicológicos de seleção, otimização e
culturais bem como pela posição do compensação. Trata-se, portanto, da
indivíduo no ciclo de vida. O maximização dos recursos para obtenção
desenvolvimento e o comprometimento de resultados positivos ou desejáveis, e a
com uma hierarquia de objetivos pessoais minimização de resultados indesejáveis ou
(estados desejados que as pessoas negativos. Esse modelo teórico, proposto
procuram obter e manter), e o engajamento por esses autores na década de 1980,
em ações e meios direcionados à meta (os reflete a interação dinâmica entre ganhos e
objetivos pessoais guiam a atenção e o perdas, entre a plasticidade orientada para
comportamento) são essenciais para o o desenvolvimento e os limites desta
alcance de altos níveis de funcionamento plasticidade, que estão relacionados à
durante toda a vida. Durante o idade (Freund & Baltes, 1998b).
envelhecimento, na tentativa de manter um O SOC é um processo de regulação
determinado nível de funcionamento frente do desenvolvimento dinâmico e
às perdas e declínios naturais em recursos orquestrado que segue a direção do
relevantes para se atingir objetivos desenvolvimento (seleção) e está associado
pessoais, as pessoas lançam mão de a ganhos (otimização) e perdas
diferentes estratégias para o manejo dos (compensação). A otimização seletiva com
desafios impostos pela vida (Freire & Neri compensação é um modelo tanto universal
2009). quanto relativista. É universal quando se
Para entender o que as pessoas considera que qualquer processo do
fazem para melhorar seu desenvolvimento desenvolvimento humano envolve uma
pessoal e bem-estar, Paul B. Baltes e orquestração do SOC. É específico por ser
Margret Baltes propuseram um modelo um processo pessoal e contextualizado
dentro da psicologia do envelhecimento, (Neri, 2011).
numa perspectiva life span, chamado de Dentro do enfoque do
Modelo de Seleção, Otimização e envelhecimento bem sucedido, fica

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implícito, no modelo SOC, as seguintes funcionalidade, a dependência em alguns


asserções: a) o desenvolvimento é a ação domínios tem que ser ajustada. Portanto,
recíproca entre criação e reação ao próprio seleção, otimização e compensação são
ambiente; b) ao longo da vida, três processos adaptativos. A seguir, tais
especialmente na velhice, os recursos processos subjacentes ao desenvolvimento
internos e externos são limitados; c) o e envelhecimento bem-sucedidos, são
desenvolvimento é multidirecional e descritos mais detalhadamente.
multifuncional, englobando tanto
crescimento quanto declínio (Freund & Os componentes do modelo SOC
Baltes, 1998a).
O modelo SOC é um esforço No modelo SOC, a seleção refere-
teórico, dentro da perspectiva life span, de se aos mecanismos que direcionam as
entender como o desenvolvimento humano interações pessoa-ambiente e fornecem
efetivo emerge, e como as mudanças uma diversidade no foco de escolhas de
desenvolvimentais de recursos, contextos e domínios de vida onde deve haver maior
desafios ao longo da vida requerem uma investimento de tempo e esforço por parte
reorganização adaptativa nos meios, metas do indivíduo. Comportamentos que
e resultados ( Rozario, Kidahashi & maximizam a saúde e o potencial de
DeRienzis, 2011). Considerando que, ao funcionamento físico recebem alta
longo do curso de vida, o indivíduo está prioridade ao longo do curso da vida. Além
em constante mudança, e na interação com disso, são desenvolvidas habilidades
o seu ambiente físico e social, também sociais e intelectuais que vão possibilitar o
dinâmicos, tem que fazer ajustes e engajamento e a atuação do indivíduo
mudanças em si e nesse ambiente para sobre o ambiente de forma bem sucedida.
viver de forma adaptada e saudável, A limitação de recursos como tempo e
mecanismos como os descritos no modelo energia, inerente à condição humana, torna
SOC são fundamentais para a sua necessária a seleção de domínios de
sobrevivência. funcionamento uma vez que nem todas as
Segundo Baltes (1996), quando a metas podem ser alcançadas a qualquer
velhice torna-se cheia de restrições tanto tempo. As pessoas precisam ser seletivas
na capacidade quanto nas oportunidades quanto às suas metas de vida e quando
ambientais, os idosos invariavelmente buscá-las (Heckhausen & Wrosch, 2010).
utilizam a seleção e a compensação. Com o A seleção diz respeito ao processo
objetivo de manter e otimizar a de desenvolvimento, à escolha e ao

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comprometimento com objetivos pessoais. indivíduo sejam ajustadas para permitir a


Estes objetivos precisam ser organizados experiência subjetiva de satisfação bem
em uma hierarquia coerente, dando como a de controle pessoal (Freund &
propósito às ações e uma direção e sentido Baltes, 2002b).
à própria vida. A seleção é empregada em Por causa das diferentes condições
resposta às perdas na funcionalidade ou de seleção, é útil distinguir entre dois tipos
capacidade, e inclui evitar, reduzir ou ou sub-processos: a) a seleção eletiva, que
restringir o número de atividades bem se refere ao processo regulador de
como reorganizar os objetivos pessoais, a escolher, dentre uma gama de alternativas
fim de focalizar aquelas áreas que são mais evolutivas, aquela que é mais adaptativa;
importantes ou salientes na vida cotidiana b) a seleção baseada em perda, que ocorre
do indivíduo. Isso é necessário porque as em resposta ao declínio de recursos ou à
pessoas não são capazes de buscar todas as supressão de uma meta relevante e
oportunidades possíveis a cada momento significativa anteriormente disponível. Esta
devido às limitações naturais do próprio última envolve processos de reconstrução
ser humano bem como à disponibilidade da hierarquia de metas a serem alcançadas
possível de recursos disponíveis. A seleção ou a busca de novas metas, e a focalização
é, portanto, uma pré-condição necessária dos objetivos mais importantes ou a
para o alcance de níveis mais altos de adaptação a novos padrões que podem ser
funcionamento (Freund & Baltes, 1998b). alcançados com os recursos disponíveis.
Com o envelhecimento ocorrem Permite redirecionar os recursos quando os
perdas que têm um impacto maior no meios para compensação não estão
potencial adaptativo, daí a necessidade de disponíveis. Se os custos dos esforços
concentração em domínios de alta compensatórios excedem os benefícios, a
prioridade e demanda ambiental, e a resposta mais adaptativa à perda é o
convergência de motivações individuais, desengajamento do respectivo objetivo e o
habilidades e capacidades biológicas para engajamento na seleção baseada na perda
esses domínios selecionados. Embora a (Baltes & Baltes, 1991).
seleção tenha conotação de redução no As pessoas selecionam em quais
número de domínios de autoeficácia, ela domínios do funcionamento querem
também pode envolver domínios novos ou focalizar seus recursos internos e externos
transformados. O processo de seleção disponíveis, estreitando a gama de opções
implica, assim, que as expectativas do possíveis de serem escolhidas. Quanto

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mais objetivos a pessoa busca, menos reservas pessoais para que permaneçam
recursos podem ser investidos em cada um funcionando, como, por exemplo, praticar,
deles, decrescendo a probabilidade de treinar e exercitar para superar o declínio
alcançar um ótimo nível de funcionamento comportamental (Fontes, 2010; Müller,
em vários domínios. A concentração de Weigl, Heiden, Glaser & Angerer, 2012).
meios em um número selecionado de Alcançar um determinado objetivo
domínios do funcionamento aumentaria a depende do seu conteúdo, das
possibilidade de alcançar ou manter um características pessoais e do contexto
alto nível de funcionamento. Similarmente, sociocultural. O tipo de meios que
frente a perdas e declínio em recursos auxiliam no alcance dos próprios objetivos
relevantes à meta, a pessoa tem maior depende do domínio sob consideração. O
chance de usar de forma bem sucedida foco da otimização está no refinamento e
estratégias compensatórias se os recursos na manutenção de recursos que são
de tempo e energia não estiverem efetivos no alcance dos resultados que são
distribuídos entre um grande número de desejáveis em domínios selecionados e na
domínios. Assim, a seleção é importante evitação dos resultados indesejáveis. Um
não apenas na escolha inicial de objetivos, aspecto importante da otimização é o
mas também para fazer o melhor uso dos monitoramento dos efeitos das estratégias
seus limitados recursos, otimizando os aplicadas. O feedback sobre o próprio
ganhos e, se necessário, compensando as desempenho é central para o alcance da
perdas (Raposo & Günther, 2008). meta e é a base para o ajustamento dos
Uma vez identificados os domínios próprios meios e circunstâncias (Freund, Li
de vida onde vale a pena investir, os níveis & Baltes, 1998).
de competência que devem ser mantidos e Dessa forma, a otimização pode ser
os que precisam ser reforçados ou definida como a alocação e o refinamento
desenvolvidos, observa-se a ocorrência do de recursos internos e externos como meio
mecanismo chamado de otimização. As de conseguir elevados níveis de
pessoas precisam agir sobre seus objetivos, funcionamento em domínios selecionados.
adquirindo e investindo em meios Reflete a concepção de que, ao longo do
relevantes para atingir suas metas, com curso de vida, as pessoas podem engajar-se
vistas a otimizar o nível de funcionamento no enriquecimento ou no aumento de suas
e promover o desenvolvimento bem- reservas e na maximização de suas
sucedido. Otimizar as atividades envolve condições de funcionamento, tanto em
os esforços para ampliar ou enriquecer as termos quantitativos como qualitativos.

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Quando ocorrem perdas em ou declínio em meios relevantes para


recursos, em plasticidade ou em atingir uma meta, disponíveis previamente.
adaptabilidade, ou então quando ocorre O elemento compensação pode envolver
uma redução no número de metas aspectos tecnológicos, expressos, por
significativas alcançadas, torna-se exemplo, no uso de equipamentos,
necessário acionar processos substitutivos aparelhos, mobílias e adaptações
para manter um bom nível de ambientais, bem como esforços
funcionamento no domínio-alvo. Dessa compensatórios psicológicos, incluindo,
forma, a seleção e a otimização tornam-se por exemplo, o uso de novas estratégias
operativas quando capacidades mnemônicas, quando os mecanismos de
comportamentais específicas são perdidas memória interna são insuficientes (Baltes
ou reduzidas abaixo do padrão requerido & Baltes, 1991).
para o funcionamento adequado. Esta Diferentes processos motivacionais
restrição é experimentada particularmente e cognitivos estão envolvidos na tentativa
quando metas específicas requerem uma de alcançar um novo objetivo e de manter
ampla escalada nas atividades e um alto um nível prévio de funcionamento frente à
desempenho (por exemplo, escalar perda nos recursos. No caso da otimização,
montanhas, esportes competitivos, os meios são investidos no alcance de
situações de risco no trânsito, objetivos sob condições estáveis de
complicações diárias e situações que recursos. Já na compensação, os meios são
requerem pensamento rápido e investidos para evitar uma perda no
memorização) (Baltes & Baltes, 1991). alcance do objetivo. Utiliza-se planos
Por sua vez, os processos de específicos para superar as perdas em
compensação são respostas às perdas na outros planos de metas para que os níveis
capacidade do indivíduo e incluem de funcionamento do domínio alvo seja
processos psicológicos ou esforços mantido (Freund & Baltes, 1998b).
comportamentais para melhorar a As interações pessoa-ambiente
funcionalidade. A compensação denota a podem gerar dois tipos de resultados: as
aplicação de recursos para a manutenção experiências de sucesso, que ajudam a
de um determinado nível de manter os níveis de competência e a
funcionamento. É aplicável àquelas desenvolver novos, e os fracassos, que
instâncias de combinação desfavorável podem minar as competências existentes.
entre habilidade e demanda devido à perda Dessa forma, mecanismos de compensação

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são necessários para proteger o indivíduo acordo com as suas habilidades e as


das ameaças decorrentes dos fracassos. demandas atuais).
Acredita-se que existem três causas Nos estudos sobre o
principais que atuam em conjunto para envelhecimento bem-sucedido, os teóricos
fazer emergir uma situação compensatória. costumam focalizar sua atenção nos
A primeira é condicionada pela seleção e mecanismos de compensação para manter
pela otimização, pois tempo e esforço têm e recuperar as funções que declinam
limite e ambas podem implicar na perda de normalmente no final da vida (Lima, Silva
meios relevantes na busca de outros & Galhadoni, 2008). Como na velhice o
objetivos. A segunda vem de mudanças equilíbrio entre ganhos e perdas torna-se
associadas ao ambiente, isto é, mudar de mais desfavorável, mais recursos são
um ambiente para outro pode envolver a necessários para serem investidos na
perda de recursos baseados no ambiente ou manutenção dos níveis de funcionamento
tornar disfuncionais alguns recursos já (compensação) do que na otimização do
adquiridos. A terceira causa refere-se à funcionamento. Nessa fase da vida as
perda de recursos devido aos declínios perdas são prevalentes em muitos
relacionados ao envelhecimento normal e a domínios, a necessidade de compensação é
eventos tais como acidentes ou doença maior e a motivação para evitar as perdas
(Baltes, Staudinger & Lindeenberger, aumenta. Porém, os esforços
1999). compensatórios tornam-se restritos frente a
De acordo com Schulz e limitações de recursos internos e externos
Heckhausen (1996), mecanismos na velhice avançada. Existem menos
compensatórios promovem o desempenho estruturas de oportunidades e recursos
resiliente ou adaptativo na velhice. internos disponíveis na velhice, levando a
Segundo De Frias, Dixon e Bäckman um estreitamento na gama de
(2003), são exemplos desses mecanismos a possibilidades nas quais selecionar, e
remediação (como o maior investimento de conseqüentemente reduzindo a demanda
tempo e esforço para superar uma perda), a por seleção. A manutenção da competência
substituição (como o desenvolvimento de dependeria então da seleção dos domínios
novas habilidades ou a utilização das que em que o indivíduo retém melhor nível de
ainda estão latentes, no lugar das que se funcionamento, otimizando-o mediante
mostraram ineficazes) e a acomodação estratégias de treino e garantindo assim a
(como o rearranjo das metas pessoais, dos compensação das perdas (Freund & Baltes,
valores e das aspirações do indivíduo, de 1998a).

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O status de um determinado evento compensação atuando no sentido de manter


como seleção, otimização ou compensação um funcionamento psicológico positivo,
não é fixo. Ao contrário, é fundamental indicado por razoável senso de bem-estar
para o desenvolvimento que isso possa subjetivo e de ajustamento pessoal. Os
mudar. Aquilo que uma vez foi tratado processos autogerados ou de
como seleção pode posteriormente tornar- autorregulação governam a adaptação e o
se um meio; ou aquilo que uma vez foi desenvolvimento humano (Rabelo & Neri,
adquirido como um recurso compensatório 2009).
em outro momento pode funcionar como Alterações ou restrições nas
um recurso de otimização. Ainda, se a oportunidades ou nos recursos pessoais e
definição de seleção implica que os sociais disponíveis podem ter efeitos
objetivos não são apenas identificados, negativos nas várias dimensões do self
mas também refinados e mantidos ao longo uma vez que altera a estrutura social do
do tempo, então o processo de seleção indivíduo, no estilo de vida, influencia
envolve fatores de otimização e negativamente a percepção individual de
compensação (Freund, Li & Baltes, 1998). agência, reduz a concepção de uma pessoa
resiliente emocionalmente e traz abandono
A Otimização Seletiva com de algumas metas pessoais. Os idosos
Compensação como um Mecanismo nestas condições usualmente têm que
Autorregulatório redefinir o significado de competência e
A autorregulação, segundo a autoconfiança. E é nesse sentido que a
perspectiva da teoria social cognitiva de capacidade de selecionar aqueles domínios
Bandura, diz respeito aos mecanismos que em que vale a pena investir ou tentar
as pessoas lançam mão com o objetivo de compensar o que foi perdido, na medida do
exercer controle sobre a motivação, o possível, é importante para que o indivíduo
pensamento, o comportamento e os estados seja capaz de ajustar suas competências e
afetivos, em direção aos objetivos pessoais recursos atuais e seus selves possíveis em
(Polydoro & Azzi, 2008). Os recursos resposta às mudanças nas circunstâncias de
autorreguladores têm um papel crucial na vida, na tentativa de manter seu bem-estar
determinação da experiência subjetiva de (Fontes, 2010).
envelhecimento, de saúde e de doença. Com o desenvolvimento espera-se
Entre os processos de autorregulação do que os indivíduos, na medida em que se
self, está a otimização seletiva com movem em direção ao funcionamento

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adulto, adquiram e refinem seu chance de compensar as perdas associadas


conhecimento e uso de comportamentos ao envelhecimento.
relacionados ao SOC. De um lado, pode-se Freund, Li e Baltes (1998)
argumentar que com o envelhecimento, os investigaram a utilidade de autorrelatos
indivíduos irão continuar tornando-se sobre seleção, otimização e compensação
melhores no uso do SOC devido às suas para predizer a correlação com indicadores
experiências de vida acumuladas. Por outro subjetivos de envelhecimento bem
lado, as restrições biológicas e físicas na sucedido. A amostra composta por
fase velhice podem ser um desafio a ser residentes de Berlim era um subconjunto
superado e os recursos disponíveis ao dos participantes do Berlim Aging Study.
idoso podem não ser mais suficientes para Através de seis variáveis, foram avaliados
o engajamento no SOC. Como três domínios que serviram como medidas
conseqüência, os comportamentos a ele de envelhecimento bem sucedido: bem-
associados podem diminuir (Freund & estar subjetivo, emoções positivas e
Baltes, 2002a). ausência de sentimentos de solidão. Os
Dessa forma, quando se investiga o resultados confirmaram a hipótese central
envelhecimento normal ou o bem- do modelo SOC: as pessoas que
sucedido, pretende-se não só descobrir informaram o uso de comportamentos de
como ele acontece, mas também manejo de vida relacionados ao SOC (que
desenvolver meios de se divulgar, para os não tinha conexão com a medida de
adultos mais velhos e os idosos, estratégias satisfação) tiveram escores mais altos nos
que possam ser utilizadas para facilitar e três indicadores de envelhecimento bem
otimizar sua vida diária, bem como sucedido. As correlações obtidas
estimular nos mais jovens o uso de apresentaram escores fortes, mesmo sendo
mecanismos que facilitem o enfrentamento controladas variáveis como metas de vida
das perdas futuras associadas ao processo pessoal, traços de personalidade:
de envelhecimento. Tendo em mente o neuroticismo, extroversão, abertura à
modelo SOC descrito, e considerando experiência-, crenças de controle
estudos sobre a plasticidade do inteligência, saúde subjetiva ou idade.
comportamento na velhice, pode-se afirmar Nesta amostra, a otimização mostrou maior
que os idosos mantêm a capacidade de associação com o envelhecimento bem
acionar e de programar seus processos de sucedido do que a seleção ou a
seleção e otimização, o que aumenta sua compensação, sugerindo que quando os
recursos estão menos disponíveis, os

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COMPENSAÇÃO

adultos preferem investir na busca de Gignac, Cott e Badley (2002)


resultados positivos. investigaram os esforços comportamentais
Lang, Rieckmann e Baltes (2002) usados na adaptação às incapacidades.
afirmaram que o uso de otimização seletiva Trabalhando com 248 idosos com
com compensação está associado ao incapacidade física causada pela
melhor funcionamento físico e mental, mas osteoartrite e/ou osteoporose, os autores
que isto dependeria dos recursos pessoais, estudaram a relação entre SOC e o
ou seja, do uso da capacidade individual processo de envelhecer, incluindo variáveis
nos domínios do funcionamento sensório- como doença, incapacidade, percepções de
motor, cognitivo, social e da personalidade. doença, e apoio. Verificaram que os idosos
Sendo assim, quanto mais recursos o usam uma ampla variedade de formas de
indivíduo dispusesse melhor a ativação de adaptação incluindo a compensação de
estratégias, particularmente de perdas, a otimização de performances, a
compensação e de otimização. No estudo restrição ou limitação de atividades e o
realizado pelos autores, com base no Berlin auxílio de outras pessoas. Os resultados
Aging Study, foi proposto que idosos que realçam a variabilidade e plasticidade de
são ricos nestes recursos exibem menos adultos mais velhos nos esforços para
diferenças negativas associadas ao manejar a incapacidade, sendo que as
envelhecimento e funcionam melhor no estratégias mais apontadas foram a
cotidiano do que aqueles que são pobres compensação e a otimização.
em recursos. Os resultados sugeriram que o Freund e Baltes (2002b)
uso de estratégias de seleção, otimização e investigaram em duas amostras
compensação no cotidiano é maior entre os independentes (com jovens, adultos e
idosos ricos em recursos quando idosos) a utilidade de uma medida de auto-
comparados com aqueles pobres em relato do SOC como estratégia de manejo
recursos. Os idosos ricos em recursos de vida. Como esperado pelos autores, os
sensório-motor, cognitivo, social e de resultados mostraram que os adultos na
personalidade investiam mais tempo com meia idade exibiram maior engajamento no
seus familiares, reduziam a diversidade de SOC do que os jovens e os idosos. Ainda,
atividades dentro do domínio mais saliente o SOC esteve positivamente
de lazer, dormiam com mais freqüência e correlacionado com medidas de bem-estar.
aumentaram a variabilidade de Wahl, Oswald e Zimprich (1999
investimentos de tempo entre as atividades. apud Boerner, 2004) encontraram que

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adultos mais velhos com deficiência visual, domínios do trabalho e da família estão
quando comparados com um grupo de relacionados a menores quantidades de
controle composto por pessoas sem estressores relacionados ao trabalho e a
deficiência visual, utilizaram mais família e subseqüentemente reduzem a
estratégias compensatórias, como confiar quantidade de conflitos percebidos em
no senso de outras pessoas, simplificar as situações de trabalhar-em-família e
tarefas diárias, ou usar dispositivos ópticos família-no-trabalho.
e adaptações (por exemplo, lentes de Cho e Chi (2002) avaliaram se o
aumento, lupas ou materiais impressos em SOC como estratégia de manejo da vida
letras maiores). atua como moderador dos efeitos negativos
Freund e Baltes (2002a), em um das restrições financeiras sobre o bem-estar
estudo sobre provérbios e o modelo SOC, de idosos chineses de Hong Kong.
verificaram que tanto indivíduos mais Segundo os autores, as dificuldades
velhos quanto os jovens escolhiam financeiras são comuns entre estes idosos,
freqüentemente, aqueles provérbios que pois não existe um sistema de
refletiam os mecanismos de manejo de aposentadoria em Hong Kong. Os
vida do tipo seleção, otimização e resultados da pesquisa indicaram que a
compensação do que aqueles considerados seleção e a otimização moderam o impacto
neutros em relação ao modelo. Além disso, das restrições financeiras crônicas na
os participantes mais jovens tendiam a satisfação com a vida. A compensação não
escolher os provérbios relacionados ao mostrou efeito moderador possivelmente
mecanismo de seleção enquanto os mais porque é usada para evitar resultados
velhos preferentemente indicavam os negativos, mas neste caso não é um meio
ligados ao mecanismo de compensação, efetivo para aliviar as tensões financeiras.
mais comum na velhice do que nos anos Segundo os autores, as estratégias de
iniciais. manejo da vida como o SOC deveriam ser
Baltes e Heydens-Gahir (2003) promovidas para proteger os idosos com
examinaram o papel de comportamentos de problemas financeiros crônicos dos baixos
seleção, otimização e compensação em níveis de satisfação com a vida.
relação ao trabalho e aos estressores A partir de modelos de
familiares e aos conflitos de trabalho-em- envelhecimento bem-sucedido, como o de
família e conflitos de família-no-trabalho. Rowe e Kahn (1998), Motta et al. (2005)
Os resultados sugerem que o uso de estudando os aspectos clínicos, físicos e
comportamentos gerais de SOC em funcionais de um grupo de centenários,

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concluíram que não se podia afirmar que sim uma compensação, tendo em vista que
os participantes do estudo estavam tendo muitos adultos já conviviam com a
um envelhecimento bem-sucedido, embora deficiência há mais de 5 anos. De acordo
utilizassem estratégias de compensação das com Gignac, Cott e Bradley (2002), as
perdas e otimização das competências estratégias de compensação são as mais
mantidas. Verificaram que os indivíduos disponíveis. Para eles, adultos mais velhos
em boas condições de saúde podiam ser podem modificar comportamentos,
considerados autônomos, mas nenhum substituir o modo de executar uma ação e
deles conseguiu manter com eficiência utilizar outros recursos à sua disposição
suas habilidades anteriores ou desenvolveu para realizar tais atividades. Baltes e Baltes
novas competências para substituir as que (1991) afirmam que a compensação torna-
foram perdidas. Mesmo os indivíduos sem se operativa quando as tarefas exigem um
doenças crônicas incapacitantes, nível de capacidade que ultrapassa a atual
autônomos, com boa capacidade física e possibilidade do indivíduo para
cognitiva, não mantinham qualquer desempenhá-la.
atividade social ou produtiva. Na área de No âmbito do envelhecimento com
trabalho, por exemplo, embora os incapacidade funcional, há claras
indivíduos pudessem utilizar mecanismos indicações de que a saúde física e mental é
de compensação, poucas atividades de crítica para o bem-estar subjetivo do idoso.
trabalho eram possíveis para esse grupo de A incapacidade funcional representa
idade. grande desafio para a família e para a
Resende (2006) investigou, a partir sociedade, além de ser um risco para a boa
de autorrelatos sobre o grau de dificuldade qualidade de vida de adultos mais velhos.
no desempenho de atividades cotidianas e Trata-se de uma condição crítica na vida
no manejo destas dificuldades, 90 adultos das pessoas afetadas, exigindo dela um
com deficiência física, com idade a partir grande esforço adaptativo e propondo uma
de 25 anos. Encontrou que as estratégias de demanda à sua personalidade orientando-a
compensação foram citadas como mais para o enfrentamento dos desafios
utilizadas que as estratégias de otimização. provenientes de um evento não-desejado e
As estratégias de seleção não foram citadas para o ajustamento psicológico e social
por nenhum participante. A deficiência (Fortes & Neri, 2004). É, portanto, um
provavelmente não exigiu que fosse feita evento que aciona intensamente os
uma seleção naquele momento da vida e recursos emocionais, sociais e cognitivos

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do indivíduo. Os eventos negativos são sua qualidade de vida, suas


importantes na determinação do bem-estar autoconcepções e seu ajustamento pessoal,
subjetivo no envelhecimento, sendo o o que não é fácil em função das transições
sucesso na adaptação das demandas da vida, das mudanças biopsicológicas e
exigidas pelo evento um importante das barreiras sociais com as quais eles se
indicador do estado de bem-estar. deparam. De uma maneira bem geral, o
Nesse sentido reconhece-se que o SOC trabalha com a visão de que em todos
envelhecimento traz oportunidades para o os estágios do desenvolvimento humano os
acionamento de recursos do self que indivíduos são capazes de manejar suas
permitirão que a pessoa lide melhor com os vidas de maneira bem-sucedida e que todo
eventos e se mantenha bem. Conhecer o desenvolvimento está associado a perdas
esses mecanismos, destacando aqui o SOC, e ganhos.
é importante para a geração de alternativas O modelo de otimização seletiva
de intervenções voltadas ao bem-estar com compensação pode ser entendido
subjetivo de idosos com limitações como um meta-modelo para o estudo da
funcionais bem como para compreender as adaptação das pessoas ao longo do ciclo de
estratégias de adaptação utilizadas ao vida, visando ao desenvolvimento bem
longo do desenvolvimento humano com sucedido. O modelo proposto baseia-se na
vistas ao ajustamento psicológico. É suposição de que o uso conjunto e
relevante ter em mente que, quanto mais coordenado de estratégias envolvendo
integrados psicológica e socialmente os seleção (eletiva e baseada em perda),
idosos estiverem, mais ajustados irão se otimização e compensação podem ajudar a
sentir e menos ônus trarão para suas manter o funcionamento em face de
famílias e seus cuidadores, bem como para desafios e regular perdas iminentes em
os serviços de saúde. recursos.
O modelo SOC pode ser utilizado
Considerações Finais em diferentes contextos para realizar várias
análises. Sua operacionalização pode
Reforçando o que foi destacado ao envolver várias metodologias, como
longo do artigo, um aspecto crítico no experimentação, observação e autorrelatos.
estudo do envelhecimento é a Por exemplo, o foco pode ser em domínios
determinação de como o idoso é capaz de específicos do comportamento (por
manejar os efeitos das desvantagens exemplo, desempenho no trabalho), no
biológicas e sociais e manter satisfatória funcionamento pessoal geral ou específico

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como manejo de atividades diárias ou limitações em seus recursos (por exemplo,


longevidade, ou no âmbito de atividades as produzidas por doenças), que podem ser
individuais versus sociais e SOC coletivo administrados por meio de ações que se
(Baltes & Lang, 1997). traduzem em seleção dos domínios em que
Este modelo pode ser aplicado não o indivíduo mantém funcionalidade e
apenas para a compreensão do que maestria, otimização do funcionamento
acontece na velhice, pois proporciona uma desses domínios e a conseqüente
estrutura conceitual geral que auxilia o compensação de perdas em outros. O grau
estudo das mudanças evolutivas e da de maestria que cada pessoa tiver ao
resiliência ao longo do ciclo vital. Baseia- manejar estas três condições ou
se na perspectiva de que, ao longo de toda componentes produzirá maior ou menor
a vida, as pessoas encontram adaptação ou sucesso no seu
oportunidades (por exemplo, as desenvolvimento até o final da vida.
decorrentes da educação), bem como

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As autoras:

Sueli Aparecida Freire possui graduação em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas
(1977), mestrado em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (1985) e doutorado em
Psicologia Educacional pela Universidade Estadual de Campinas (2001). É Professora Associada 3,
aposentada, da Universidade Federal de Uberlândia.

Marineia Crosara de Resende possui graduação em Formação do Psicólogo (1997), Bacharel em Psicologia
(1996) e Licenciatura Em Psicologia (1996) pela Universidade Federal de Uberlândia, mestrado em
Gerontologia (2001), doutorado em Educação (2006) pela Universidade Estadual de Campinas e pós-
doutorado em Psicologia Social pela Universidade Federal da Paraíba (2008) . Atualmente é professora
adjunta da Universidade Federal de Uberlândia.

Dóris Firmino Rabelo Possui graduação em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia, mestrado em
Gerontologia doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas e. Atualmente é professora
assistente da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia-UFRB.

1
A teoria da atividade tem o pressuposto de que o idoso bem-sucedido é aquele que mantém os níveis de
atividades da vida adulta e busca substitutos para os papéis perdidos com o envelhecimento. As atividades gerais
e as atividades interpessoais são consistentemente importantes para predizer o senso de bem estar do indivíduo.
A teoria da atividade proposta foi contestada pela teoria do afastamento (Cumming & Henry, 1961), segundo a
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SUELI APARECIDA FREIRE, MARINEIA CROSARA DE RESENDE, DÓRIS FIRMINO RABELO

qual os idosos mais capazes de se afastarem dos papéis sociais adultos e da sociedade de modo geral, adaptam-se
com maior sucesso ao envelhecimento do que aqueles que não conseguem desengajar-se. A teoria propõe que o
afastamento é natural, desejável, mutuamente consentido, universal e inevitável, uma norma social transmitida
de geração em geração, por meio de aprendizagem social. Em conjunto essas duas teorias chamaram a atenção
para a possibilidade de existir ajustamento positivo na velhice, ajustamento esse definido como o esforço do
indivíduo em satisfazer suas necessidades pessoais.
2
A adaptação é entendida como o conjunto de respostas de um organismo vivo a situações que a cada momento
o modificam, permitindo a manutenção de sua organização, compatível com a vida, na solução de problemas
(Simon, 2005).

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