Você está na página 1de 368

Isabel Gomes

ACREDITAR NO FUTURO
Isabel Gomes

ACREDITAR NO FUTURO
TÍTULO Acreditar no Futuro
AUTORA Isabel Gomes
© 2010, Isabel Gomes e Texto Editores
REVISÃO Eda Lyra

CAPA Croquidesign, Design Rui Rosa


PAGINAÇÃO Leya, S.A.

ISBN 9789724743554
Reservados todos os direitos

TEXTO EDITORES, LDA


Uma Editora do Grupo Leya
R. Cidade de Córdova, n.º 2
2610-038 Alfragide – Portugal
www.textoeditores.com
www.leya.com
Agradecimentos

Ao António, à Rita e ao João pelo incentivo que me deram para


levar este desafio até ao fim…
À Dr.ª Maria José Nogueira Pinto e ao Prof. Jorge del Valle pela
disponibilidade que sempre demonstraram para que este livro se
concretizasse.
Aos meus colegas e amigos que, directa ou indirectamente, cola-
boraram na elaboração deste livro, quer através das aprendizagens
que fizemos em conjunto, quer das muitas horas de reflexão sobre
esta problemática complexa, mas arrebatadora, o que nos levou
a acreditar que diariamente podemos melhorar a nossa intervenção.
Às crianças e aos jovens com os quais me cruzei, e que me
demonstraram que vale a pena investir neles, porque os sonhos
sempre se cumprem, desde que se acredite neles… e porque vale
a pena «acreditar no futuro».
Índice

Prefácio de Maria José Nogueira Pinto ............................................... 11

Prólogo de Jorge Fernández del Valle .................................................. 19

Introdução ....................................................................................... 29

1. A importância da legislação .......................................................... 33

2. Quando a família ainda constitui uma aposta ............................... 53

3. Qualificar o acolhimento em instituição ....................................... 83

4. Projectos de vida........................................................................... 151

5. A mudança ................................................................................... 213

6. Repensar o sistema de protecção ................................................... 231

7. Avaliação estratégica ..................................................................... 327

Conclusão ........................................................................................ 351

Bibliografia ....................................................................................... 363


PREFÁCIO

Maria José Nogueira Pinto

O tema deste livro que agora se apresenta ao leitor é de uma


triste actualidade. E embora muito se tenha falado sobre o assunto,
parece ser difícil descer ao âmago das questões, aos aspectos mais
relevantes e complexos, que é urgente sistematizar e analisar.
Uma má consciência generalizada, o facto de ter sido o próprio
Estado quem verdadeiramente se sentou no banco dos réus no escan-
daloso processo da Casa Pia, o desconhecimento dos múltiplos facto-
res que rodeiam estas matérias – que não aconselham simplificações
excessivas ou generalizações precipitadas – a erupção mediática de
alguns casos suscitando indignações e compaixões efémeras, tudo,
em suma, ergueu uma cortina de fumo sobre o verdadeiro fundo
deste drama: por que razão existem crianças que têm de ser separadas
da sua família, porque aumenta o abandono, o que significa crescer
numa instituição, o que é um projecto de vida, com que critérios se
decide sobre o futuro alheio, quem fiscaliza o modo como é exercida
a tutela sobre estes menores, quem os representa, quem os defende?
Estas perguntas reconduzem-nos inevitavelmente a uma outra,
mais complexa, se possível: O que é ser feliz? Pode-se ser feliz sem
auto-estima? A ausência de família ou uma família ausente consti-
tui um estigma intransponível? Qual é, afinal, o investimento feito
na família biológica? É possível crescer institucionalizado com dig-
nidade e amor e refazer, aí, os ingredientes da felicidade humana?
Porque não são adoptadas mais crianças?
Durante os anos em que os tribunais entregaram à minha
tutela centenas de crianças, estas perguntas estiveram sempre em

11
ACREDITAR NO FUTURO

permanente vaivém entre o meu coração e a minha cabeça. O que


se esperava de mim? Providenciar a satisfação de necessidades bási-
cas como a alimentação, o vestuário, uma cama com roupa lavada e
o acesso a uma escola próxima dos lares onde residiam? Ou cuidar
deles estabelecendo um compromisso de defesa intransigente dos
seus direitos, auscultar-lhes os sonhos, quebrar os silêncios, afugen-
tar os medos, renovar a cada passo a confiança, torná-los fortes sem
a agressividade da mágoa? Como estabelecer um equilíbrio entre
uma proximidade tutelar e uma presença afectiva? Como criar laços
numa contingência de precariedade?
Nesta exigentíssima tarefa a que nos dedicámos de alma
e coração, Isabel Gomes foi um pilar fundamental, associando
os conhecimentos e a experiência acumulados com o entusiasmo
e a determinação que só os desafios de risco são capazes de gerar.
Olhando para aquelas crianças e jovens de futuro tão incerto,
adoptáveis uns e não adoptáveis outros, alguns passíveis de adop-
ção mas nunca aceites, vendo passar o tempo sem serem requeri-
dos como um objecto esquecido na prateleira de uma loja, mal
amados, sofridos, com famílias ausentes, raízes incertas, pertenças
perdidas, decidimos oferecer-lhes toda a excelência de que éramos
capazes e que os recursos – que felizmente se tornaram abundantes
– permitiram e fazer dessa excelência um tributo a todos e a cada
um deles.
Desafiámo-nos a tornar cada um dos lares um espaço tão pró-
ximo de uma pequena comunidade de afectos como deve ser uma
família, o que requereu uma extrema atenção aos pormenores que
são decisivos na vida de cada um, desde o modelo organizativo até
à qualidade e estabilidade de permanência dos profissionais que são,
eles, os adultos de referência diária e vinculação afectiva; desde a
composição equilibrada do conjunto das crianças e dos jovens que
residem em cada lar, reflectindo a normalidade do quotidiano em
qualquer pequena comunidade humana, gerindo as idades, os tem-
peramentos, os casos mais difíceis, até à convicção de que este é um
tempo único de crescimento e formação, da sua preparação como

12
PREFÁCIO

seres humanos para o futuro a que têm direito, munindo-os para


uma autonomia desejada.

Entretanto, a jusante e a montante trabalhavam inúmeros téc-


nicos, uns no terreno junto das famílias «recuperáveis», outros na
Equipa de Adopções enquanto se afinava a articulação com as enti-
dades exteriores e se procurava criar uma «linha Verde» com os
magistrados.
Um dia, fui ao Jardim Zoológico com um numeroso grupos dos
«meus meninos» para apadrinhar uns animais. Depois da cerimó-
nia, e antes do lanche, eles espalharam-se na relva e eu sentei-me no
meio deles. Estava um dia lindo, cheirava a erva fresca, fez-se um
raro momento de silêncio, subitamente quebrado por uma vozinha
que me perguntava: «Quando tu morreres, quem é que vai ficar
connosco?» Todos os olhares convergiram para mim, a curiosidade
quanto à resposta era enorme. «Meu querido, só Deus sabe quando
vamos morrer. Mas quando esse dia chegar, já não farei falta por-
que muitas pessoas continuarão a tomar conta de vocês e eu ficarei
vossa amiga para sempre.» Senti-me um adulto estúpido. E percebi
como tudo aquilo era de altíssimo risco. Um risco que só a presença
da Isabel e de muitos outros podia minimizar.
Conto estes pequenos episódios porque são reveladores. Pois se
o pano de fundo é sistémico, é jurídico, é técnico, a realidade mos-
tra-nos a especificidade de cada caso, quando cada caso tem uma
cara e um nome, uma história e uma circunstância é isso, e apenas
isso, que conseguimos ver.
Como responde o Sistema de Protecção de Crianças e Jovens à
situação concreta de cada criança, qual o seu grau de eficiência, mas
também de sabedoria e justeza é hoje mais uma dúvida do que uma
certeza. Talvez porque sendo determinante o domínio do jurídico e
relevante o hábil manejo do técnico, afinal é da condição humana
que se trata, no seu maior despojamento.
O Sistema de Protecção infantil é como que uma linha de mon-
tagem cujo resultado é um projecto de vida individual, que recria

13
ACREDITAR NO FUTURO

para cada criança em concreto uma nova existência. Este sistema


comporta um número significativo de intervenientes, requerendo
uma articulação eficiente e uma intercomunicação célere, o que
nem sempre acontece. As competências próprias dos intervenientes
não estão devidamente definidas (ou entendidas…) o que leva a um
défice de confiança que prejudica a aplicação das medidas por parte
dos magistrados. Entre a Lei e a Praxis, os desencontros são quase
inevitáveis. A isto acresce um percurso no qual se repercute o peso
das percepções e uma inevitável subjectividade, a gestão das expec-
tativas e, mais recentemente, a mediatização das emoções.
É, pois, urgente meditar sobre o que não se faz ou se faz mal,
movidos pela consciência que tais omissões e erros caem sobre a
cabeça dessas crianças. Diria que os três maiores riscos são a mal
estabelecida e assimilada interdependência de poderes, a aparente
incapacidade do Estado que não tem cara nem colo e algum dog-
matismo na intervenção.
O trabalho com a família biológica é determinante, embora tan-
tas vezes inglório. Mas é uma demonstração que tem de ser feita,
para que nenhuma criança fique privada da sua família por uma
mera circunstância ultrapassável. Mas, por outro lado, é preciso não
queimar esse tempo útil da criança, já de si tão escasso, em tenta-
tivas cuja razoabilidade é contrariada por indícios fortes de impro-
váveis recuperações. Sabemos que é um trabalho realizado numa
verdadeira linha da frente, que está hoje sob o escrutínio da opi-
nião pública que tende a projectar neste microcosmos as suas pró-
prias percepções sobre a «normalidade», aquilo que segundo os seus
cânones é uma família apropriada.
A este propósito, recordo o que me disse o mais velho de três
irmãos que estavam num dos lares. A mãe era débil mental, mas
eles pensavam que a sua institucionalização se devia ao facto de ela
não ter uma habitação condigna. Quando souberam que a Câmara
lhe tinha entregue uma casa vieram pedir-me para voltar para junto
da mãe. Tentei explicar que talvez não fosse boa ideia uma vez que
a mãe, como eles sabiam, não tinha muita saúde. A resposta foi

14
PREFÁCIO

imediata: «Temos tudo organizado e tomamos conta dela. E você


manda lá a senhora assistente social de vez em quando. Até sai mais
barato e tudo.» Fiquei a olhar para os três cheia de dúvidas. E se
tivessem razão? É que, ao contrário do que muitos pensam, pode
amar-se muito uma mãe débil mental e preferir cuidar dela e ser
uma família a estar num lar, por melhor que ele seja.
É por tudo isto que estou em crer que um número razoável
de famílias, se acompanhadas numa fase precoce e se fosse possí-
vel uma efectiva articulação entre os sistemas sociais – Segurança
Social, Saúde e Educação – poderiam ultrapassar as circunstâncias
que as impossibilitam de manter os seus filhos. Este investimento
na organização e articulação das práticas não tem sido feito e pro-
blemas por natureza transversais – doença, desemprego, falta de
habitação, baixas competências, comportamentos aditivos – são
tratados fragmentada ou isoladamente, sem eficiência e consu-
mindo um tempo precioso que compromete o superior interesse
da criança. Há um momento em que é preciso dizer basta e cor-
tar de vez um cordão umbilical sem sentido. Um momento angus-
tiante, pois todos sabemos que é então que se inicia uma saga nem
sempre feliz. A institucionalização da criança é na pura lógica do
sistema e by the book transitória, mas a realidade é bem diferente
pois mil e uma vicissitudes concorrem para que muitas, dema-
siadas crianças, ali fiquem até à maioridade. Confrontamo-nos,
então, com um dilema, o de criar as melhores condições para um
definitivo de qualidade. O investimento feito nos lares não é dese-
jável, porque não é desejável que nenhuma criança aí permaneça
durante a sua infância e adolescência, mas se isso acontece a tantas
delas, então, tornar o lar uma verdadeira casa, criar e manter vin-
culações afectivas e acreditar, primeiro por eles e depois com eles,
que vão ser felizes, torna-se um objectivo prioritário. A gestão deste
transitório que, num número alarmante de casos, se torna defini-
tivo, é uma das mais arriscadas tarefas que têm de ser desenvolvi-
das sem perder de vista um contínuo investimento numa futura
adopção.

15
ACREDITAR NO FUTURO

A opinião pública foi levada a desvalorizar os lares pela mediati-


zação, positiva em si mesma, de casos terríveis que após o escândalo
da Casa Pia vieram a lume. Esse discurso foi extensivo aos profis-
sionais e a pressão para desinstitucionalizar a qualquer preço fez-se
sentir de forma dramática.
A adopção reforça-se, assim, enquanto resposta ideal a todas as
situações. Os casais candidatos à adopção, causticados com demo-
ras processuais que não entendem nem aceitam, exercem pressões,
a opinião pública insurge-se contra o número crescente de crianças
em lares, o Estado titubeia. Gera-se uma lógica precipitada de mer-
cado, oferta e procura, ambas sem resposta. A situação parece inex-
plicável, exigem-se responsáveis: a família biológica acusada de não
prestar, os técnicos acusados de inércia e de incapacidade de arti-
culação, os magistrados insensíveis e lentos. Do outro lado as víti-
mas: as crianças e os que se inscrevem para adoptar, sobre os quais
recai uma morosidade que desgasta as suas legítimas expectativas e
queima as oportunidades dos respectivos projectos de vida.
Ninguém refere, nesta sofrida Via Sacra, que existem muitas
crianças que não estão em situação de adoptabilidade. E das adop-
táveis, muitas nunca serão adoptadas porque já cresceram de mais,
porque a cor da sua pele é outra, porque são doentes, porque o seu
ADN é suspeito. É que, também este é um mercado imperfeito…
Como aquele menino que me dizia: «A minha mãe telefona todas as
quintas-feiras, mas depois nunca me vem buscar.» Ou o outro que
deixou um bilhetinho no meu bolso, onde escrevera: «Obrigada por
ter acreditado em mim.»
A ausência de uma pedagogia por parte dos responsáveis per-
mite a terrível mistura da ignorância e da hipocrisia. Subitamente, o
superior interesse da criança perde-se, deixa de ser a bússola, o prin-
cípio fundamental em que se deve escorar toda a decisão.
A adopção tem de ser um projecto de vida para toda a vida. Não
se destina a dar uma criança a uns pais, mas sim uns pais a uma
criança. E esta não quer apenas uns pais, quer e tem direito a uns
bons pais.

16
PREFÁCIO

Guardo como das mais emocionantes recordações, o momento


em que as crianças saíam para iniciar essa primeira etapa – delica-
díssima, porque nela tudo se joga – de uma nova filiação. Lembro
com muita ternura os sentimentos de alegria e receio dos casais, a
sua vontade de acertar, a primeira mímica de aproximação, os pri-
meiros olhares e gestos. Todos nós, ali, desejávamos tanto um final
feliz como temíamos o fracasso, e num processo em que não há cer-
tezas só podíamos acreditar na força do coração. O saldo foi muito
positivo e ficou-se a dever a um trabalho muito rigoroso e apurado
da Equipa de Adopções.
Por fim, nem sempre alguns juízes se revelaram à altura das si-
tuações, como aliás tem vindo a ser noticiado em casos como o da
Esmeralda. Talvez por falta de formação, pouca sensibilidade ou,
mais provavelmente, porque estas decisões não se tomam só com
papelada.
De tudo isto vos vai falar a Isabel Gomes neste livro. Nele colo-
cou não só um profundo conhecimento dos assuntos como uma
larga e frutífera experiência, tendo sistematizado e clarificado ques-
tões e procedimentos, problemas e soluções num reportório de
boas práticas. Mas também a sua inteligência emocional que nunca
recusou ou escamoteou. Talvez porque melhor do que ninguém
ela conheça estas crianças, a sua resiliência de sobreviventes, a sua
bravura de pequenos soldados face às suas próprias circunstâncias.
E porque, apesar de tantas condições adversas, da contabilidade das
vitórias e das derrotas, tudo fez sentido e tudo valeu a pena.

Lisboa, Outubro de 2009

17
PRÓLOGO

Jorge Fernández del Valle

Um dos indicadores de identidade dos países avançados – os que


têm um compromisso com o bem-estar social dos seus cidadãos –
é a prioridade dada nas agendas políticas aos programas sociais de
protecção à infância e à família. A educação e a protecção à infância
são a garantia de um futuro melhor para qualquer sociedade.
Infelizmente, esta protecção é necessária porque são muitas as
situações que afectam o bem-estar infantil e inúmeros os riscos que
o espreitam. Os menores de idade constituem um grupo social de
grande vulnerabilidade que, em muitos casos, são alvo de maus-tra-
tos por parte dos pais, as pessoas que deviam, presumivelmente, pro-
tegê-los e conceder-lhes todo o seu afecto. Ao contrário de outras
vítimas sociais de abusos e maus-tratos, as crianças, em particular
as mais pequenas, não têm qualquer possibilidade de se mobilizar,
de denunciar, de erguer a voz contra a injustiça da sua situação.
É dever dos poderes públicos estabelecerem medidas de protecção
que vão da prevenção até à detecção, à intervenção e à reabilitação
quando existem danos. Sem a consciência social de que a infância é
um bem comum que nos cabe a todos defender, não poderão exis-
tir políticas eficazes de protecção.
Nas últimas décadas, a protecção à infância surgiu à cabeça das
políticas sociais e nas prioridades de muitos governos na União
Europeia. Favoreceram-se e implementaram-se reformas muito sig-
nificativas que permitem uma tutela eficaz dos menores em caso de
desprotecção e estabeleceram-se diversas medidas de intervenção,
desde as mais ligeiras, como o apoio às famílias em risco através de

19
ACREDITAR NO FUTURO

programas de intervenção familiar, até às medidas de acolhimento


familiar ou institucional e à adopção. Este espírito pode ser perfei-
tamente apreciado na nova lei portuguesa de protecção à infância.
A grande diversidade das intervenções protectoras permite adaptar
a actuação a cada caso concreto e às condições específicas de cada
criança e de cada família.
Contudo, nem sempre as coisas foram assim. Durante muito
tempo, a actuação para a protecção de menores consistiu na insti-
tucionalização, no afastamento da criança do seu contexto familiar
e no seu ingresso num estabelecimento institucional onde, em mui-
tos casos, teria de passar toda a sua infância. Esta forma de prote-
ger a criança que vive situações adversas no seio da sua família, da
simples pobreza aos maus-tratos, corresponde ao que denominá-
mos como modelo de «resgate». Nesta abordagem, o problema da
infância desprotegida é atacado mediante a separação das crianças
das suas famílias, dando às primeiras cobertura, mas sem que exista
qualquer actuação sobre as famílias, que são a verdadeira causa do
problema. Daí que a institucionalização tenha não só o efeito de
fazer a criança viver num contexto tão pouco normalizador como
são estes estabelecimentos, nos quais, em muitos casos, um número
reduzido de adultos tem a cargo mais de uma centena de menores,
como também perpetua as situações disfuncionais das famílias. Ao
actuar através da protecção à criança sem intervir na família, esta
mantém toda a sua problemática por tratar, o que dificulta uma
possível reunificação.
Ao contrário dos grandes estabelecimentos institucionalizado-
res, o sistema actual de protecção mantém a ideia de lugares de aco-
lhimento residencial, mas com funções muito distintas. Esses lares
deverão ter características familiares, em ambientes normalizados e
com pessoal qualificado. O seu objectivo não é proporcionar uma
forma de vida alternativa para as crianças que não podem viver com
as suas famílias, mas antes ser um lugar de passagem, provisório,
no qual as crianças possam viver enquanto se procura uma solução
definitiva. Esta solução não pode ser outra que não a da vida em

20
PRÓLOGO

família, seja pelo regresso à sua própria família, ou recorrendo ao


acolhimento ou adopção por outra família. O direito de todas as
crianças a viver em família é uma exigência incontornável que deve
orientar toda a política de protecção à infância.
Daí que as grandes instituições tenham vindo a reconverter-se
em programas de acolhimento residencial normalizadores, qualifi-
cados e com uma atenção para com a infância baseada no melhor
atendimento das suas necessidades. Ao longo das décadas dos anos
oitenta e noventa em Espanha, esta transição foi difícil e feita a
custo. A resistência à mudança e a inércia dos muitos anos do
modelo anterior retardaram a conclusão da transição do modelo
institucionalizador para o de lares normalizados e qualificados.
Podemos actualmente dizer que esta transição está praticamente
realizada.
Desde há vários anos que Portugal se vem a confrontar com
este mesmo desafio e esta mesma transição. Algumas iniciativas,
como o Plano DOM, tiveram um valor inestimável e ilumina-
ram as grandes linhas desta mudança na forma de considerar a
atenção à infância desprotegida. Como em todos os períodos de
mudança, as dúvidas são muitas e numerosas as interrogações rela-
tivas as novo modelo de trabalho com a infância. É neste ponto que
o livro que tenho a honra de prefaciar presta um valiosíssimo con-
tributo, tendo a Doutora Isabel Gomes produzido um brilhante
compêndio de ideias que confere uma sólida base teórica à tran-
sição de que falamos. O seu excelente conhecimento profissional,
resultante de muitos anos de experiência no trabalho directo com
a infância, vê-se, com este livro, complementado por uma enorme
habilidade para expor e explicitar conceitos e propostas. Trata-se
de um livro comprometido, aprazível, fácil de ler, mas não isento
de rigor nas teorias e nas propostas.
O livro passa sistematicamente em revista muitos assuntos de
interesse, que vão do enquadramento legislativo a questões meto-
dológicas essenciais, como a dos projectos de vida, mas consegue,
sobretudo, fazer uma abordagem da mudança organizacional do

21
ACREDITAR NO FUTURO

sistema e das suas instituições. Existe um posicionamento estra-


tégico nesta obra que lhe confere uma capacidade de impacto que
ultrapassa as propostas de mudança no acolhimento institucional
relativamente a uma ou outra metodologia concreta. O livro deli-
neia, como afirma um dos seus capítulos, uma mudança de con-
ceitos, de abordagens e de intervenções no que toca ao Sistema de
Protecção da infância.
É, no entanto, verdade que a autora está profundamente com-
prometida com a mudança no acolhimento institucional, e é a este
género de programas que se destina a maior parte dos conteúdos.
Consciente das dificuldades atravessadas pela alteração de modelo
em Portugal, a autora não sonega esforços para procurar persuadir
e implicar os leitores nessa mudança. Recorre, para isso, à teoria e
ao método, mas mais ainda à sua paixão por esta tarefa.
São múltiplos os desafios que pendem sobre o acolhimento ins-
titucional. Um dos mais importantes diz respeito ao facto de a
população de menores de idade, que nos últimos anos vem sendo
assistida no acolhimento institucional, estar a mudar de modo
acentuado. Passou-se, na última década, do acolhimento a crianças
que apresentavam fundamentalmente problemas de maus-tratos
familiares sob qualquer das suas formas (sendo provavelmente a de
maior frequência a negligência parental e as condições precárias da
sua envolvência sociofamiliar) para o acolhimento de adolescentes
com perfis e necessidades muito diversos. Recrudesceu o número
de casos de adolescentes, até mesmo muito jovens, com graves alte-
rações de comportamento, a exigirem uma atenção muito indi-
vidualizada, uma boa avaliação diagnóstica e um contexto muito
terapêutico. Estes jovens sofrem um processo de deterioração
muito pronunciado quando são enviados para grandes instituições
de carácter impessoal, provocam graves conflitos de convivência
e acabam muitas vezes por fugir. Afinal, o facto é que o nosso sis-
tema de grandes instituições não possui resposta para eles. Daí que
noutros países se tenha chegado à conclusão de que é necessário
não só dispor de lares mais pequenos e de ambiência familiar, mas

22
PRÓLOGO

também de centros de acolhimento de tipo terapêutico e socializa-


dor, nos quais pessoal especialmente treinado e formado possa dar
uma resposta adequada ao que constituem as necessidades destes
adolescentes. A Doutora Isabel Gomes indica propostas pormeno-
rizadas para este modelo de especialização, cujo segredo fundamen-
tal reside em dar a cada criança e adolescente aquilo de que carece,
de forma individual e específica.
Outro dos grandes reptos do sistema de protecção consiste em
oferecer respostas adequadas para os adolescentes que vão crescendo
no acolhimento institucional e que, ao completarem os 18 anos, se
vêem expostos a um processo de independência adulta para o qual
foram escassamente preparados. Os processos de preparação para a
autonomia e transição para a vida adulta são um dos tópicos mais
relevantes da investigação internacional nos dias de hoje e consti-
tuem uma preocupação que nenhuma administração pode igno-
rar. Entendeu-se durante muitos anos que a protecção dos menores
de idade se prolongava apenas até atingirem os 18 anos, passando
a partir dessa idade, a serem considerados adultos. Esta forma de
conceber a protecção originou que os jovens que estavam em aco-
lhimento institucional e chegavam aos 18 anos tivessem de aban-
donar as suas instituições e enfrentar a vida por si mesmos, com
preparação reduzida e nenhuns apoios. Uma vez tornados adultos,
o sistema desinteressava-se deles.
Numerosas investigações, sobretudo anglo-saxónicas, foram
mostrando que, após este momento da maioridade, muitos são os
riscos e perigos que surgem. A vida institucionalizada tinha como
efeito formar jovens mais dependentes e com menos competências
sociais para enfrentar a vida. Uma vez confrontados com o mundo,
munidos dos seus recursos pessoais e sociais, muitos deles acaba-
vam por engrossar a população socialmente excluída, muitas vezes
com problemas de falta de habitação, de toxicodependência ou de
delinquência. A partir destas investigações, foi criada a necessidade
de alargar a protecção infantil para lá da maioridade, de modo a
poder-se completar uma intervenção que permitisse acompanhar

23
ACREDITAR NO FUTURO

os jovens nessa difícil transição para a vida adulta. Os programas de


apoio para lá da maioridade, quer de tipo económico, facultando
residência ou com programas de inserção laboral, foram crescendo
para concretizar este processo de acompanhamento. Considerou-se,
por fim, a necessidade de preparar estes jovens nas aptidões sociais e
para a vida independente, antes mesmo de atingirem a maioridade.
Deste modo, as instituições têm a obrigação de desenvolver progra-
mas de competências para a vida independente destinados a todos
os adolescentes, de modo a chegarem à idade adulta com prepara-
ção adequada. Acerca de tudo isto é-nos dada uma excelente síntese
pela Doutora Isabel Gomes, apontando conceitos e metodologia
para facilitar a prossecução deste tipo de programas.
A situação do acolhimento institucional em Portugal exige
mudanças importantes e tudo indica que os poderes públicos apos-
taram em introduzir este importante tema na sua agenda política.
Estão a ser destinados recursos para esta área e são deveras enco-
rajadoras as mudanças que se têm observado nos últimos anos.
A mudança mais importante, porém, é sem dúvida a que deverá ser
empreendida pelas entidades que gerem as instituições, tomando
consciência de que estes são outros tempos e que as crianças têm
necessidades que são incompatíveis com as da criança nas grandes
instituições. A mudança para formas de acolhimento residencial,
baseadas em pequenos domicílios de tipo familiar e numa rede de
lares capaz de atender de forma especializada diferentes crianças,
com necessidades diversificadas, não pode esperar mais. Por outro
lado, as instituições que se dedicam ao acolhimento residencial
fariam bem em adiantar o passo e recuperar o tempo perdido. As
entidades que forem capazes de renovar-se, de apostar num modelo
moderno de lar, mostrarão o caminho às restantes e farão histó-
ria. As que resistirem à mudança, as que pareçam querer permane-
cer ancoradas num modelo que está já obsoleto e é prejudicial de
qualquer perspectiva, as que só mudarão quando a situação as for-
çar, acabarão no futuro por adoptar esse novo modelo, mas a sua
trajectória nunca será considerada exemplar, muito pelo contrário.

24
PRÓLOGO

A mudança nunca é fácil, e as resistências face ao que é novo são


compreensíveis, mas só até certo ponto.
Por outro lado, a mudança exige a assunção de novos modelos
teóricos e novas metodologias. Este livro leva a cabo uma síntese
muito ampla, combinando perspectivas muito diferenciadas e for-
necendo contributos muito práticos para orientar essa mudança.
É de esperar que este enorme esforço da Doutora Isabel Gomes
obtenha a sua recompensa com a chegada de mudanças, de novas
formas de trabalho que beneficiem a vida de tantas crianças des-
favorecidas. Será um progresso para a infância, mas também para
toda a sociedade.

Oviedo, 23 de Julho de 2009

25
«Reconhecendo que a criança, para o desenvolvimento
harmonioso, deve crescer num ambiente familiar, em
clima de felicidade, amor e compreensão...»
Convenção dos Direitos da Criança
INTRODUÇÃO

Nota Introdutória
Partilhar uma reflexão sobre a realidade do acolhimento

Este livro surge da necessidade de partilhar com os leitores uma


reflexão sobre a realidade do acolhimento de crianças e jovens em
Portugal.
A forma como todos nós protegemos as crianças e jovens que,
por circunstâncias várias, acabam por integrar o sistema de promo-
ção e protecção, os modelos de referência que lhes damos, os valo-
res que lhes incutimos, o afecto e a atenção que lhes prestamos, no
dia-a-dia, são fundamentais para que estas crianças e jovens se tor-
nem indivíduos que participem activamente na construção de uma
sociedade mais justa e solidária.
Analisando o sistema de promoção e protecção de crianças e
jovens em perigo, em todas as suas vertentes, deparamo-nos com
uma realidade social complexa, onde é necessário e urgente pensar
na criança como interventor, peça fundamental à qual o sistema
tem de dar uma resposta, tendo sempre em consideração a sua indi-
vidualidade, as suas características e especificidades.
Não é a criança que tem de se ajustar ao sistema, mas sim o sis-
tema que, pela sua versatilidade e plasticidade, tem de ajudar a
criança ou o jovem que, por se encontrar numa situação de parti-
cular vulnerabilidade, têm necessidade de ser protegidos.
É importante relembrar que temos de dar a estas crianças a
oportunidade de pensar e, sobretudo, de acreditar no futuro, pelo
que, no presente, há que suprir necessidades, tais como a protec-
ção, os cuidados básicos, o apoio diário, o afecto, promover a sua

29
ACREDITAR NO FUTURO

autonomia e responsabilidade, e fazê-los acreditar que nós, adultos,


também acreditamos que, reparando o seu passado e reconstruindo
o presente, poderão alcançar com êxito o FUTURO…
Muito se tem falado das desvantagens da institucionalização,
pois sabemos que as crianças e os jovens em situação de acolhi-
mento em contexto institucional, por mais familiar que este seja, se
encontram em situação de grande fragilidade emocional e, embora
retirados de uma situação de negligência e maus-tratos, não é pos-
sível, muitas vezes, debelar o sentimento de perda e abandono que
estas crianças e jovens sentem.
Neste sentido, existem factores associados ao processo de institu-
cionalização de crianças e jovens que poderão ter implicações muito
negativas, tais como: sentimentos de punição, estigmatização e dis-
criminação social, demissão e diminuição da responsabilidade paren-
tal e familiar, promoção da patologia do vínculo, entre outros.
Apesar do acolhimento ter como função primordial a protecção
da criança e do jovem, se se prolongar no tempo, poderá ser pro-
motor de futuras sequelas, irreparáveis, com repercussões graves no
seu desenvolvimento psíquico e emocional.
Tendo em vista a prevenção dos riscos associados ao acolhimento
em instituição, dever-se-ão ter em conta alguns princípios orienta-
dores que são fundamentais para melhorar a forma como acolhe-
mos as crianças e os jovens no nosso país. São eles:
– Duração temporal do acolhimento. O acolhimento deverá
ser sempre de carácter transitório e decorrer durante um cur-
to espaço de tempo.
– Definição do projecto de vida com celeridade, de forma a
verem garantidas as suas necessidades de segurança e afecto,
essenciais ao seu desenvolvimento integral.
– Participação activa da criança e do jovem na definição do
seu projecto de vida sempre que a sua idade e capacidade o per-
mitam. As crianças têm o direito de viver numa família, a sua,
caso esta situação seja viável, ou numa família alternativa.

30
INTRODUÇÃO

– Promoção de continuidade e previsibilidade de cuidados à


criança ou ao jovem, evitando mudanças desnecessárias, bem
como assegurar a continuidade da relação de qualidade esta-
belecida com os adultos cuidadores e com os pares. A criança
e o jovem têm o direito a manter-se também na sua comuni-
dade, manter os seus amigos e vizinhos, os seus colegas de es-
cola. A sua deslocalização para longe da sua comunidade só
se justifica se corresponder ao seu superior interesse.

Mas a evidência diz-nos que continua a ser necessário, em mui-


tas circunstâncias, retirar as crianças de situações de completa negli-
gência e maus-tratos físicos e psíquicos a que são sujeitas, muitas
vezes pelos pais e familiares, pelo que esta situação de perigo tem
de ser corrigida.
Atendendo aos factos, é importante e urgente dotar as institui-
ções de acolhimento de pessoal qualificado, para dar a estas crian-
ças a resposta adequada que cada uma necessita, tendo em conta as
suas vivências anteriores, a forma como está a vivenciar esta expe-
riência, as suas capacidades e competências. Ao lado destas crian-
ças e jovens devem estar profissionais empenhados e motivados,
com uma sólida formação pessoal e profissional, com criatividade
e capacidade para lidarem com situações de frustração e de elevada
complexidade emocional.
É fundamental que mantenham em relação a estas crianças e a
estes jovens uma atitude positiva, promotora de esperança, capaz de
despertar entusiasmo e, com eles criar laços afectivos consistentes,
securizantes e duradouros. Estes profissionais constituem-se, assim,
como agentes de mudança que irão contribuir, com o seu desempe-
nho e motivação, para uma sociedade mais humanizada, que pense
no outro e o respeite.

Para todas as crianças e jovens, bem como para os profissionais


que no dia-a-dia lhes incutem esperança no FUTURO, vai o meu
apreço.

31
CAPÍTULO 1
A IMPORTÂNCIA DA LEGISLAÇÃO

Enquadramento
Princípios Fundamentais Consagrados na Lei
Identificação de Situações de Perigo
Níveis do Sistema de Intervenção
Medidas de Promoção e Protecção
Acolhimento Institucional
Acompanhamento da Execução das Medidas
Acolhimento em Situação de Urgência
Síntese
«Todas as decisões relativas a crianças, adoptadas por
instituições públicas ou privadas de protecção social,
por tribunais, autoridades administrativas ou órgãos
legislativos, terão primacialmente em conta o interesse
superior da Criança.»
Convenção dos Direitos da Criança
Enquadramento
Reconhecimento da criança como sujeito autónomo de direitos

A criança começa a ser considerada como objecto de direito no


século XIX, mas ainda sem a dignidade de pessoa humana. Contudo
o reconhecimento e proclamação dos seus direitos só se vai tor-
nando uma realidade concreta a partir de meados do século XX.
As crianças têm sido um dos grupos sociais mais afectados pela
pobreza e exclusão a nível mundial e, no que diz respeito ao nosso
país, apesar da adesão à Convenção de Haia, da Declaração Uni-
versal dos Direitos do Homem de 1948, aprovada pela Assembleia
Geral das Nações Unidas (onde se consagram, de forma genérica,
os direitos da criança) e de o tema da promoção dos direitos da
criança ter penetrado nas instituições sociais e políticas, ainda esta-
mos longe de esses mesmos direitos serem respeitados na íntegra.

O diploma fundamental que consagrou os direitos da criança


foi a Convenção das Nações Unidas de 1989 sobre os Direi-
tos da Criança, aprovada pela resolução 44/25 de 20 de Novem-
bro de 1989 da Assembleia-Geral das Nações Unidas, em Nova
Iorque, que foi assinada e ratificada por 191 países. Portugal rati-
ficou-a sem reservas em 12 de Setembro de 1990, através da reso-
lução da Assembleia da República 20/90. Está em vigor no nosso
país desde 21 de Outubro de 1990. Através desta Convenção e
dos seus antecedentes, assistimos a uma progressiva viragem na
concepção dos direitos da criança, consagrando-se expressamente
o reconhecimento da criança como sujeito autónomo de direitos
e encarando-se a família como suporte afectivo, educacional e socia-
lizador essencial.
Esta Convenção trouxe um conjunto de alterações muito impor-
tantes para a infância, nomeadamente a substituição do conceito
tradicional de protecção pelo conceito de participação, reconhe-
cendo à criança direitos semelhantes aos dos adultos, passando
assim, a criança, de objecto de direito a sujeito de direito.

35
ACREDITAR NO FUTURO

A Convenção dos Direitos da Criança comprometeu todos os


governos que a ratificaram a permitir, às crianças, o desenvolvi-
mento das suas capacidades em contextos que satisfaçam as suas
necessidades básicas, respeitando simultaneamente os seus direitos
civis, económicos, sociais, culturais e políticos.
Os direitos básicos à protecção, à provisão e à participação são,
assim, universalmente reconhecidos às crianças.

Em Portugal, é hoje abundante a legislação sobre a matéria.


Desde logo, a Constituição da República Portuguesa, o Código
Civil, a Organização Tutelar de Menores, a Lei de Protecção de
Crianças e Jovens em Perigo (Lei 147/99, de 1 de Setembro) e a
Lei Tutelar Educativa (Lei 166/99, de 14 de Setembro) regulam
importantes matérias para a concretização da defesa dos direitos
da criança. Temos ainda o Decreto-Lei 185/93, de 22 de Maio,
o Decreto-Lei 120/98, de 8 de Maio, e a Lei 31/2003, de 22 de
Agosto, versando especificamente matéria de adopção.

É numa abordagem integrada dos direitos da criança, de forma


a garantir o seu bem-estar e desenvolvimento, que surge a Lei
147/99, de 1 de Setembro. A Lei de Protecção de Crianças e
Jovens em Perigo (LPCJP) concretiza as formas de exercício do
dever do Estado de protecção das crianças e dos jovens em perigo
e de promoção dos respectivos direitos. Pretende salvaguardar os
direitos das crianças e dos jovens, cujos pais ou responsáveis com-
prometem a sua saúde, o seu desenvolvimento e educação, ou não
são capazes de os proteger face aos perigos colocados por tercei-
ros, ou pelas próprias crianças ou jovens, afastando esse mesmo
perigo.
Nos termos da LPCJP, a promoção dos direitos e a protecção
das crianças e jovens compete, em primeira instância, às entida-
des públicas e privadas com atribuições em matéria de infância e
juventude, às comissões de protecção de crianças e jovens, e em
última instância aos tribunais, quando a intervenção das comissões

36
1. A IMPORTÂNCIA DA LEGISLAÇÃO

de protecção não possa ter lugar por falta de consentimento dos


pais, do representante legal ou de quem tenha a guarda de facto da
criança ou do jovem, ou por não dispor dos meios para aplicar ou
executar a medida adequada.
Não se pretende fazer aqui uma transcrição exaustiva da
LPCJP. Serão focados apenas alguns aspectos mais relevantes
para melhor explanação ou melhor enquadramento do presente
trabalho.

Princípios Fundamentais Consagrados na Lei


Promoção e protecção de crianças e jovens em perigo

Nos termos do nosso sistema jurídico, tendo sempre como cená-


rio as normas constitucionais, a Convenção sobre os Direitos da
Criança e a legislação ordinária, a intervenção para a promoção dos
direitos e protecção da criança e do jovem em perigo obedece aos
seguintes princípios, nos termos do artigo 4.º da LPCJP:
– Interesse superior da criança e do jovem – a intervenção
deve atender prioritariamente aos interesses e direitos da
criança e do jovem, sem prejuízo da consideração que for
devida a outros interesses legítimos, no âmbito da pluralida-
de dos interesses presentes no caso concreto;
– Privacidade – a promoção dos direitos e protecção da crian-
ça e do jovem deve ser efectuada no respeito pela intimida-
de, direito à imagem e reserva da sua vida privada;
– Intervenção precoce – a intervenção deve ser efectuada logo
que a situação de perigo seja conhecida;
– Intervenção mínima – a intervenção deve ser exercida ex-
clusivamente pelas entidades e instituições cuja acção seja
indispensável à efectiva promoção dos direitos e à protecção
da criança e do jovem em perigo;

37
ACREDITAR NO FUTURO

– Proporcionalidade e actualidade – a intervenção deve ter


objectivos bem definidos, justificando-se na estrita medida
da sua adequação à consecução dos mesmos;
– Responsabilidade parental – a intervenção deve ser efec-
tuada de modo a que os pais assumam os seus deveres para
com a criança ou o jovem;
– Prevalência da família – na promoção de direitos e na pro-
tecção da criança e do jovem deve ser dada prevalência às
medidas que os integrem na sua família ou, se tal não for
possível, que promovam a sua adopção;
– Obrigatoriedade da informação – a criança e o jovem, os
pais, o representante legal ou a pessoa que tenha a sua guar-
da de facto têm o direito a ser informados dos seus direitos,
dos motivos que determinam a intervenção e a forma como
esta se processa;
– Audição obrigatória e participação – a criança e o jovem,
em separado ou na companhia dos pais ou da pessoa por si
escolhida, bem como os pais, representante legal ou pessoa
que tenha a guarda de facto têm o direito a ser ouvidos e a
participar nos actos e na definição da medida de promoção
dos direitos e de protecção.
– Subsidiariedade – a intervenção deve ser efectuada sucessi-
vamente pelas entidades com competência em matéria de in-
fância e juventude, pelas Comissões de Protecção de Crian-
ças e Jovens e, em última instância, pelos tribunais.

38
1. A IMPORTÂNCIA DA LEGISLAÇÃO

Lei de Protecção de Crianças e Jovens em Perigo


(Artigo 4.º)

Interesse superior da criança e do jovem Responsabilidade parental

Privacidade Prevalência da família

Intervenção precoce Obrigatoriedade da informação

Intervenção mínima Audição obrigatória e participação

Proporcionalidade de actualidade Subsidiariedade

Identificação de Situações de Perigo


Enquadramento legal como suporte básico de actuação

Na definição legal, a criança encontra-se em situação de perigo


(art.º 3.º, n.º 2 da LPCJP):
– quando está abandonada, ou vive entregue a si própria;
– quando sofre maus-tratos físicos ou psíquicos, ou é vítima
de abusos sexuais;
– quando não recebe os cuidados ou o afecto adequados à sua
idade e situação pessoal;
– quando é obrigada a actividades ou trabalhos excessivos,
ou inadequados à sua idade, dignidade e situação pessoal, ou
prejudiciais à sua formação ou personalidade;
– quando está sujeita a comportamentos que afectem grave-
mente a sua segurança ou equilíbrio emocional;
– quando assume comportamentos, ou se entrega a activida-
des e consumos que afectem gravemente a sua saúde, segu-
rança, formação e educação, sem que os pais, o representan-
te legal ou quem tenha a sua guarda de facto se lhe oponham
de modo adequado a remover essa situação.

39
ACREDITAR NO FUTURO

Exemplo
Maria1 tinha 7 anos. Naquela manhã chegou à escola com os
olhos vermelhos e chorosa.
A professora, que já várias vezes tinha percebido que a Maria não
estava bem, aproximou-se e viu que tinha marcas na cara e nos
braços.
Maria meio a medo, meio a chorar, disse que a mãe e o Zé, com-
panheiro da mãe, na noite anterior tinham ficado muito zanga-
dos porque ela demorara a vir de casa da avó, onde ficava depois
da escola, e bateram-lhe muito… doía-lhe o corpo todo, especial-
mente o braço… não conseguia escrever.
Lembra-se de que a professora lhe pegou na mão e lhe disse que
tinham de ir ao hospital.
Entrou por uma porta muito grande e viu-se rodeada por pessoas
de bata branca, que não conhecia, e que não pararam de lhe fazer
perguntas. Chegaram outras pessoas que ela também não conhe-
cia e voltaram a contar a história do que acontecera. Mais per-
guntas e mais respostas…
A professora continuava a falar com outras pessoas que a Maria
não conhecia; começou a sentir algum medo. Ao fundo do cor-
redor viu surgir a mãe aos gritos… não percebia porque tinham
levado a filha ao hospital, queria levá-la para casa. A mãe amea-
çava; estava muito zangada e dizia que ela é que era a mãe, era
ela que mandava na filha, a filha era sua e sabia muito bem como
educar uma menina teimosa como ela.
Ouviu falar em Comissão de Protecção… em tribunal… e ela,
Maria, continuava sem perceber o que se estava a passar.

1
Maria é um nome fictício, e a sua história representa, aqui, a história de
muitas crianças que chegam até nós. O seu percurso, os seus medos, inquietações,
sentires e esperanças irão ser plasmados nos próximos três capítulos, ainda que de
forma solta e sem o aprofundamento que a situação poderia exigir, pretendendo-se
ilustrar as experiências vivenciadas por esta criança e a importância da adequação
de respostas, em termos de intervenção aos diversos níveis, a fim de que a salva-
guarda dos superiores interesses, neste caso da Maria, pudessem ser garantidos e o
seu projecto de vida concretizado de forma sustentada.

40
1. A IMPORTÂNCIA DA LEGISLAÇÃO

Não se lembra de mais nada… nem sequer quer falar disso… sabe
apenas que não voltou para casa. Disseram-lhe que tinha de ir para
uma casa grande, onde estavam muitos meninos como ela…

Níveis do Sistema de Intervenção


Entidades, comissões de protecção e tribunais

No sistema de protecção existem vários níveis de intervenção.

Entidades com competência em matéria de infância e juven-


tude, de acordo com o artigo 5.º, alínea d) da LPCJP: pessoas sin-
gulares ou colectivas públicas, cooperativas, sociais ou privadas que,
por desenvolverem actividades nas áreas da infância e juventude,
têm legitimidade para intervir, como, por exemplo, escolas, cen-
tros de saúde…
Muitas das situações de risco não requerem medidas formais,
sendo preferível conseguir resolver as situações na comunidade,
estabelecendo um plano de intervenção com a família, de modo a
que a criança seja protegida e cesse a situação de perigo.
Estas entidades deverão ter técnicos qualificados para trabalhar
com a família, utilizando os recursos existentes na comunidade,
de forma a criar uma rede de apoio à família que a possa ajudar na
situação de crise.

Comissões de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ): o DL


189/91, de 17 de Maio veio regular a criação, a competência e o
funcionamento das comissões de protecção de menores. São insti-
tuições oficiais não judiciárias, com autonomia funcional, que visam
promover, com imparcialidade, os direitos da criança e do jovem e
prevenir, ou pôr termo, a situações susceptíveis de afectar a sua segu-
rança, saúde, formação, educação ou desenvolvimento integral.
As entidades com competência em matéria de infância e juven-
tude comunicam às CPCJ as situações de perigo que conheçam no

41
ACREDITAR NO FUTURO

exercício das suas funções, sempre que não possam, por si só, asse-
gurar atempadamente a protecção que a circunstância possa exigir.
As CPCJ desenvolvem a sua intervenção junto das famílias,
mobilizando, junto da comunidade, os recursos necessários, de
modo a fazer cessar a situação de perigo a que a criança está exposta.
Estas entidades exercem a sua competência na área do município
onde têm sede, são fiscalizadas pelo Ministério Público, podendo
ter um papel importante na prevenção da situação de perigo.

Tribunais: são órgãos jurisdicionais que actuam sempre que


a intervenção das Comissões de Protecção não possa ter lugar
por falta de consentimento dos pais, do representante legal ou de
quem tenha a guarda de facto da criança ou do jovem, bem como
quando as outras instâncias sejam incapazes de fazer cessar a situa-
ção de perigo em que a criança ou o jovem se encontre (por exem-
plo, quando as comissões não dispõem dos meios necessários para
aplicar ou executar a medida adequada), nomeadamente, quando,
como neste caso concreto, for de aplicar a Medida de Confiança
com vista a futura adopção, cuja aplicação é da exclusiva compe-
tência dos tribunais.

A intervenção judicial tem lugar quando:


– Não esteja instalada Comissão de Protecção de Crianças e
Jovens, com competência no Município, ou na Freguesia da
respectiva área de residência, ou a Comissão não tenha com-
petência, nos termos da lei, para aplicar a medida de promo-
ção e protecção adequada;
– Não seja prestado, ou seja retirado, o consentimento neces-
sário à intervenção da Comissão de Protecção, ou quando o
acordo de promoção de direitos e de protecção não seja rei-
teradamente cumprido;
– A criança ou o jovem se oponham à intervenção da Comis-
são, nos termos do artigo 10.º;

42
1. A IMPORTÂNCIA DA LEGISLAÇÃO

– A Comissão de Protecção não obtenha a disponibilidade dos


meios necessários para aplicar ou executar a medida que con-
sidere adequada, nomeadamente por oposição de um servi-
ço ou entidade;
– Decorridos seis meses, após o conhecimento da situação
pela Comissão de Protecção, não tenha sido proferida qual-
quer decisão;
– O Ministério Público considere que a decisão da Comissão
de Protecção é ilegal ou inadequada à promoção dos direitos
ou à protecção da criança e do jovem;
– O Tribunal decida a apensação do processo da Comissão
de Protecção ao processo judicial, nos termos do n.º 2 do
artigo 81.º

Medidas de Promoção e Protecção


Execução em meio natural ou regime de colocação

A aplicação das medidas de promoção dos direitos e de protec-


ção das crianças e dos jovens em perigo é da competência exclusiva
das Comissões de Protecção de Crianças e Jovens e dos Tribunais –
artigo 38.º da LPCJP.
A intervenção das Comissões de Protecção de Crianças e Jovens
requer o consentimento dos pais e a não oposição das crianças
maiores de doze anos. Acontece ainda quando as outras instâncias
são incapazes de fazer cessar a situação de perigo em que a criança
ou o jovem se encontra.
As medidas a aplicar pelas Comissões, ou em processo judicial
por decisão negociada, integram um acordo de promoção e pro-
tecção (artigo 36.º da LPCJP), o qual tem de conter, obrigatoria-
mente, os seguintes elementos (artigo 55.º da LPCJP):
– a identificação do responsável pelo acompanhamento do
caso;

43
ACREDITAR NO FUTURO

– o seu prazo de vigência e de revisão do acordo;


– as declarações de consentimento ou de não oposição neces-
sárias;
– outras especificações, de acordo com as medidas adoptadas.

As medidas de promoção dos direitos e de protecção das crianças


e dos jovens em perigo têm por objectivos (artigo 34.º da LPCJP):
– afastar o perigo em que as crianças se encontram;
– proporcionar as condições de protecção e promoção da sua
segurança, saúde, formação, educação, bem-estar e desen-
volvimento;
– garantir a recuperação física e psicológica das crianças que
sofreram qualquer forma de exploração e abuso.

Com estes objectivos estão previstas diversas medidas, aplicáveis


no âmbito de um Processo de Promoção e Protecção.

Medidas de promoção e protecção executadas em meio natu-


ral de vida:
– Apoio junto dos pais – esta medida de apoio junto dos pais
consiste em proporcionar à criança ou ao jovem apoio psi-
copedagógico, social e económico, sempre que o mesmo se
torne necessário (art.º 39);
– Apoio junto de outro familiar – esta medida consiste na co-
locação da criança e do jovem sob a guarda de um familiar
com quem resida ou a quem seja entregue, acompanhada de
apoio de natureza psicopedagógica e social e, quando neces-
sário, ajuda económica (art.º 40);
– Confiança a pessoa idónea – consiste na colocação da criança
ou do jovem sob a guarda de uma pessoa que, não perten-
cendo à sua família, com ele tenha estabelecido relação de
afectividade recíproca (art.º 43);

44
1. A IMPORTÂNCIA DA LEGISLAÇÃO

– Apoio para autonomia de vida – esta medida consiste em pro-


porcionar directamente ao jovem com idade superior a 15
anos, apoio económico e acompanhamento psicopedagógi-
co e social, nomeadamente através do acesso a programas de
formação, visando proporcionar-lhe condições que o habi-
litem e lhe permitam viver por si só e adquirir progressiva-
mente autonomia de vida (art.º 45).

Medidas de promoção e protecção executadas em regime de


colocação:
– Acolhimento familiar – consiste na atribuição da confiança
da criança ou do jovem a uma pessoa singular ou a uma fa-
mília, habilitadas para o efeito, visando a sua integração em
meio familiar, a prestação de cuidados adequados às suas ne-
cessidades e bem-estar e a educação necessária ao seu desen-
volvimento integral (art.º 46);
– Acolhimento em instituição – consiste na colocação da crian-
ça ou jovem aos cuidados de uma entidade que disponha de
instalações e equipamento permanente e de uma equipa téc-
nica que lhes garantam os cuidados adequados às suas neces-
sidades e lhes proporcionem condições que permitam a sua
educação, bem-estar e desenvolvimento integral (art.º 50);
– Confiança a instituição com vista a futura adopção – a Lei
31/2003, de 22 de Agosto veio introduzir esta nova medi-
da que é da competência exclusiva dos tribunais (art.º 38).

Acolhimento Institucional
Prioridade ao superior interesse da criança ou do jovem

Dado que o acolhimento residencial é o foco deste trabalho,


interessa detalhá-lo, para que os leitores fiquem com uma noção
mais clara sobre a sua especificidade.

45
ACREDITAR NO FUTURO

As instituições de acolhimento podem ser públicas ou coopera-


tivas, sociais ou privadas (estas com acordo de cooperação com o
Estado – artigo 52.º da LPCJP), funcionando em regime aberto –
os pais podem visitar a criança, de acordo com horários e regras de
funcionamento da instituição, salvo decisão judicial em contrário
(art.º 53 da LPCJP).

Nos termos do artigo 50.º da LPCJP, o acolhimento em institui-


ção pode ser de curta duração ou prolongado.
O acolhimento de curta duração tem lugar em centro de aco-
lhimento temporário por um período não superior a seis meses,
podendo este prazo ser excedido quando, por razões justifica-
das, seja previsível o retorno à família, ou enquanto se procede
ao diagnóstico da respectiva situação e à definição do encaminha-
mento subsequente.
O acolhimento prolongado tem lugar em lar de infância e juven-
tude quando as circunstâncias do caso aconselhem um acolhimento
de duração superior a seis meses.

As decisões, tendo sempre presente o superior interesse da criança


ou do jovem, devem ser tomadas em consonância com os procedi-
mentos judiciais ou administrativos. Devem basear-se na avaliação
feita por técnicos especializados nesta área, bem como no planea-
mento da intervenção.
A análise de cada situação será feita com base na especifici-
dade e particularidades próprias da criança, as suas características
pessoais, grau de desenvolvimento, antecedentes religiosos, étni-
cos, culturais, meio familiar e social, historial médico e eventuais
necessidades especiais. Deve ser objecto de estudo por uma equipa
técnica multidisciplinar (composta por psicólogos, assistentes
sociais, educadores e outros profissionais), a qual traçará o plano
de intervenção envolvendo a criança, em consonância com o grau
de desenvolvimento das suas capacidades, bem como a família, ou
adultos que tenham desenvolvido com a criança relacionamento

46
1. A IMPORTÂNCIA DA LEGISLAÇÃO

de qualidade e que sejam, para a mesma, adultos de referência e


securizantes.
A esta equipa cabe a avaliação do plano de intervenção que deve
ser realizada com celeridade, ser cuidada e meticulosa. Deve ter em
conta o bem-estar e a segurança imediata da criança, bem como o
seu cuidado e desenvolvimento a longo prazo.

A análise da situação, nos moldes anteriormente descritos, dará


origem a um relatório que deve constituir uma ferramenta essencial
para uma tomada consciente de decisões sobre a situação da criança
em causa, evitando contratempos e decisões contraditórias.
As mudanças contínuas de ambiente de prestação de cuidados
prejudicam o desenvolvimento da criança, bem como a sua capa-
cidade de formar novos vínculos, devendo por isso ser evitadas.
O objectivo das colocações por curto prazo é que se estude o pro-
jecto de vida para a criança ou para o jovem, em prazo razoável, e
se encontre uma solução adequada.
Deve-se, sempre que possível, assegurar a permanência da
criança na família nuclear ou alargada, ou, na sua impossibilidade,
noutro ambiente familiar estável, nomeadamente promover a sua
adopção.
O planeamento da permanência em lar, quando possível, deve
ser feito, preferencialmente, antes da entrada da criança no sistema
de acolhimento institucional, levando sempre em consideração as
vantagens e desvantagens a curto e a longo prazo e as suas necessi-
dades específicas.
O planeamento da intervenção deve levar em conta, principal-
mente, os seguintes factores: o nível de vinculação da criança à
família de origem; a capacidade da família de origem para pro-
teger a criança; a necessidade ou o desejo de a criança fazer parte
de uma família; a conveniência da permanência da criança na sua
comunidade e no seu país; os seus antecedentes culturais, linguís-
ticos e religiosos; a sua relação com os irmãos, com vista a evitar a
separação.

47
ACREDITAR NO FUTURO

O plano deve conter claramente, entre outros aspectos, os objec-


tivos da colocação em acolhimento institucional e as estratégias
para que estes sejam atingidos.
Os pais, bem como as crianças e os jovens, devem ser informa-
dos e, sempre que possível, participar activamente nas opções que
os técnicos tomarem na condução da situação, estando bem cientes
das suas implicações, dos seus direitos e deveres.
A preparação, aplicação e avaliação do plano de intervenção devem
ser feitas, até onde for possível, com a participação dos pais ou adul-
tos cuidadores que tenham a guarda da criança, a fim de conhecerem
as necessidades, convicções e desejos da mesma. A participação activa
da própria criança em todo o processo, sempre que a idade e maturi-
dade o permitam, constitui um factor de importância lapidar.
A colocação de uma criança num centro de acolhimento, ou lar
de infância e juventude, deve ser efectuada, com o máximo de sen-
sibilidade, por pessoas preparadas e tendo sempre em consideração
as necessidades específicas de cada criança.
Não é a criança que tem de se adaptar ao sistema, mas sim o sis-
tema de acolhimento que deve ser suficientemente maleável para
conseguir dar uma resposta eficaz a cada criança que necessita de o
integrar, para que esta se sinta protegida e possa ver os seus direitos
e necessidades plenamente respeitados.

Não podemos ter instituições formatadas num acolhimento des-


personalizado, uniforme e desumanizado, mas sim instituições de
pequena dimensão que respeitem princípios fundamentais como
(Del Valle, 2000):
– individualidade, ou seja, as necessidades de cada criança
constituem o foco de actuação;
– respeito pelos direitos da criança, os direitos da criança e
da família como foco de actuação;
– cobertura das necessidades básicas, atenção privilegiada às
necessidades básicas que cada criança apresenta;

48
1. A IMPORTÂNCIA DA LEGISLAÇÃO

– educação, proporcionando a cada criança o melhor recurso


escolar e formador, respeitando as suas capacidades;
– saúde, prestando-lhe uma boa assistência na saúde e dan-
do-lhe educação específica nesta área para a promoção da
mesma;
– normalização e integração social, isto é, proporcionan-
do-lhes um ambiente integrador, com padrões semelhantes
às crianças e jovens da sua faixa etária;
– autonomia e independência, potenciando a sua autonomia
consoante a sua capacidade, preparando-a progressivamente
para a sua independência;
– segurança e protecção, ou seja, criar um ambiente seguro
e protector;
– considerando a criança como o cerne da intervenção, todos
os profissionais exercem uma actuação coordenada que tem,
como objectivo comum, a concretização de um projecto de
vida sustentado que defenda os interesses da criança ou jo-
vem acolhidos;
– apoio às famílias, incorporando as famílias na intervenção.

Acompanhamento da Execução das Medidas


O controlo da execução como promotor de resultados

O acompanhamento ou controlo da execução das medidas


(art.º 59), assim como as condições da sua execução, nomeada-
mente a duração (art.º 61), revisão (art.º 62) e cessação (art.º 63),
estão a cargo das CPCJ ou dos tribunais.

As medidas de promoção e protecção são executadas nos termos


do acordo de promoção e protecção. A execução da medida apli-
cada em processo judicial é dirigida e controlada pelo tribunal que

49
ACREDITAR NO FUTURO

a aplicou. O tribunal designa a entidade que considera mais ade-


quada para o acompanhamento da execução da medida.
As medidas têm a duração estabelecida no acordo de promoção
e protecção, ou na decisão judicial, e, em qualquer caso, decorridos
períodos nunca superiores a seis meses.
A revisão pode ocorrer antes do prazo fixado, se assim se justifi-
car. A revisão pode determinar a cessação da medida, a substituição
por outra medida mais adequada, a continuação ou prorrogação
da execução da medida e a verificação das condições de execução
da mesma.
A medida cessa, entre outras causas, quando o jovem atinge 18
anos ou completa 21 anos (nos casos em que tenha solicitado a con-
tinuação da medida na pós-maioridade).
A partir dos 12 anos, a criança ou o jovem devem ser ouvidos,
em caso de aplicação, revisão ou cessação da medida.

Acolhimento em Situação de Urgência


Resposta rápida às situações de urgência

As situações de urgência (situações que constituam perigo actual


ou iminente para a vida ou integridade física da criança) devem
ser sinalizadas de imediato às comissões ou tribunais, sem prejuízo
de actuação imediata dos organismos com competência em maté-
ria de infância e juventude, mesmo sem consentimento, ou com
a oposição activa dos pais ou responsáveis pela guarda da criança.
Os técnicos devem solicitar a intervenção dos tribunais ou das for-
ças policiais, para que se proceda à retirada imediata da criança
da situação de perigo iminente em que se encontra e da qual tem
de ser imediatamente protegida (art.º 91) da LPCJP.
Nestes casos, o tribunal deverá pronunciar-se num prazo máximo
de 48 horas, confirmando as providências já tomadas ou determi-
nando outras que considere mais convenientes para a situação em
causa.

50
1. A IMPORTÂNCIA DA LEGISLAÇÃO

Síntese
Necessidade de trabalho em parceria com todas as entidades

É de salientar a importância de trabalhar a situação da criança


o mais precocemente possível, para que a mesma não tenha de ser
retirada do seio da sua família, pois essa medida constituirá sempre
um factor desestabilizador e de sofrimento para a própria criança
que, por vezes e apesar dos perigos a que diariamente está exposta,
não percebe o porquê do afastamento da família ou dos adultos
cuidadores.

A aposta na prevenção primária, através da promoção do desen-


volvimento de competências parentais, bem como da criação
de uma rede social de apoio, que permita minimizar as situações
de perigo a que a criança está exposta, será sempre uma mais-valia.
Quando esse sistema falha e uma criança tem de ser protegida
através de uma medida de colocação em acolhimento institucional,
ao proceder-se à retirada dessa criança em situação de perigo à sua
família, é necessário utilizar todos os recursos para capacitar a famí-
lia em causa, aproveitando a situação de crise, também vivenciada
por ela, de forma a poder melhorar as suas competências parentais
e a corrigir as situações que constituíram os factores de perigo a que
a criança foi sujeita, e que conduziram à sua retirada, para que a
criança possa regressar novamente a casa em segurança.
No entanto, apesar de todo o trabalho realizado, se não estive-
rem reunidas as condições essenciais para que a reunificação fami-
liar se faça a curto ou médio prazo, é fundamental, no interesse da
criança, encontrar um projecto de vida alternativo que lhe propor-
cione um enquadramento familiar de substituição no mais curto
espaço de tempo.

Há que fazer um trabalho em parceria com todas as entida-


des intervenientes na situação, para que se efectue um diagnós-
tico, no qual é necessário reunir os factos que irão contribuir para

51
ACREDITAR NO FUTURO

a definição do projecto de vida da criança ou do jovem, de forma


a chegar a uma conclusão segura sobre qual o melhor encaminha-
mento para eles, em tempo útil.

Cabe aos órgãos decisores, designadamente às Comissões de


Protecção de Crianças e Jovens, e aos tribunais, nas competências
que lhes estão atribuídas, decidir sobre o projecto de vida da criança
em causa, tendo em consideração a análise dos relatórios enviados
pelos técnicos que no dia-a-dia estão com a criança, avaliam a famí-
lia, nomeadamente através da observação rigorosa e atenta da rela-
ção afectiva existente entre a família e a criança.
É importante que se crie um clima de confiança entre todas
as entidades com competência em matéria de infância e juven-
tude, sejam as instituições que acolhem crianças, os tribunais ou
as CPCJ, pois, desenvolvendo um relacionamento mais próximo e
articulado, sustentado pelo cumprimento das comunicações previs-
tas na lei, nos pareceres técnicos devidamente fundamentados, nas
respostas e informações oportunas, a situação da criança caminha
para uma resolução mais célere.
É essencial que o estabelecimento de uma vinculação segura,
no seio de uma família, se realize o mais precocemente possível,
para que uma criança se desenvolva de uma maneira saudável e
harmoniosa.
É ainda fundamental realçar que as crianças devem participar
activamente na definição do seu projecto de vida, pois é necessário
ter em conta a sua personalidade, desejos e motivações.

52
CAPÍTULO 2
QUANDO A FAMÍLIA AINDA CONSTITUI
UMA APOSTA

Viver em Família
Famílias com Crianças em Risco
Exercício da Parentalidade Positiva
Factores Conducentes à Situação de Perigo
Diagnóstico
Intervir com as Famílias
Avaliação
Equipas Multidisciplinares para a Intervenção
E se não for Possível Manter a Criança na Família?
Síntese
«Acredito na competência das famílias para atravessar
as inúmeras eventualidades com as quais são confronta-
das, maravilho-me incansavelmente com a riqueza das
criações caóticas da vida.»
Guy Ausloos
Viver em Família
A família, entidade dinâmica em constante evolução

A família desempenha uma função fundamental que é impor-


tante valorizar, nomeadamente a função educativa e de socialização
nas diferentes fases de desenvolvimento da criança, promotora de
autonomia e de integração social adequada.
Podemos definir família como «a união de pessoas que parti-
lham um projecto vital de existência comum, que se pretende dura-
douro, no âmbito do qual se geram fortes sentimentos de pertença
ao grupo, existe um compromisso pessoal entre os membros e se
estabelecem relações profundas de intimidade, de reciprocidade e
de dependência» (Palacios e Rodrigo, 1998).
Desempenhar o papel de pai e mãe implica ter e desenvolver um
projecto educativo, desde o nascimento dos filhos, até estes atingirem
a maioridade. Tal pressupõe uma relação de qualidade entre os pais e
a criança. Implica um envolvimento pessoal, o dar conteúdo ao pro-
jecto educativo, desempenhando diferentes tarefas que propiciam um
ambiente familiar estimulante e seguro, promotor de um desenvolvi-
mento harmonioso. No seu seio, a família gera uma rede de afectos
entre os seus elementos, proporcionando-lhes segurança, protecção,
capacidade de confiar em si e no outro, estabilidade e aceitação de cada
um dos seus elementos, com as suas características próprias. Podemos
ainda dizer que a família garante a continuidade das relações, trans-
mite regras, valores e princípios, que vão influenciar o indivíduo na
construção da sua identidade pessoal e sentimento de pertença.
Ao nível externo, a família garante estabilidade e socialização,
bem como autoridade e sentimento do que é correcto, fomentando
a integração social, quer com adultos, quer com os pares.
Assim, o sistema familiar assegura duas funções fundamentais:
a continuidade da espécie humana, uma vez que o indivíduo nasce,
cresce e se desenvolve, dando origem a novas famílias; e o equilíbrio
entre a individuação (ser e estar bem consigo próprio) e a socializa-
ção (ser e estar bem com os outros). (Fontaine, 1984.)

55
ACREDITAR NO FUTURO

A convicção da prevalência da família como ambiente estrutu-


rante e securizante, como instância primária de acolhimento e de
socialização, implica intervenção junto das famílias que sozinhas
não conseguem garantir a função de protecção e segurança para
com as suas crianças.
A sociedade espera das famílias as competências necessárias à
protecção dos seus elementos, à promoção da sua integração social,
à preservação do seu equilíbrio, e que assegure a sua continuidade
através da preservação da identidade, mas as famílias são entidades
dinâmicas que estão sujeitas a mudanças e factores imprevisíveis,
pressões e exigências, que podem levar a que o sistema familiar se
desagregue, ou que se modifique no sentido de ganhar uma nova
homeostase.
Todas as famílias estão sujeitas a crises e ao stress provocado
por elas. Numa família, estes momentos críticos podem ser mais
ou menos prolongados no tempo e podem ter origem em facto-
res internos ou externos. Mas enquanto umas famílias conseguem
ultrapassar as crises recorrendo aos recursos internos, o mesmo não
se passa com outras famílias que necessitam de apoio exterior para
as ajudar a superar as dificuldades, de forma a restaurarem o equi-
líbrio do sistema familiar.
Na sociedade actual, as crises familiares têm servido para originar
a sua transformação; não podemos falar de família como um con-
ceito único assente no modelo clássico, onde as relações familiares
eram duradouras e terminavam com a morte dos seus elementos.
Hoje assistimos e temos de lidar com novas formas de família,
aprender que a diversidade, a importância e a responsabilidade das
competências familiares têm também novas potencialidades, com
as quais podemos contar para a inserção dos seus membros.

Na dinâmica familiar existem períodos de stress, dificulda-


des, conflitos, a par de tranquilidade, compreensão, satisfação.
Assim, as famílias vão construindo os seus princípios e valores, vão
transmitindo os mesmos aos seus elementos, que vão crescendo e

56
2. QUANDO A FAMÍLIA AINDA CONSTITUI UMA APOSTA

desenvolvendo a sua personalidade no seio desta. Contudo, como


entidades dinâmicas que são, as famílias desenvolvem-se, e ou
reconstroem-se porque também acompanham as mudanças.
Para a existência de relações familiares positivas e gratificantes
entre os seus membros, é necessário que a família viva com «quali-
dade de vida».
Qualidade de vida numa família é quando ela consegue crescer,
com afecto e segurança, perspectivando um futuro onde os seus ele-
mentos possam ser felizes e autónomos, transmitindo também esse
sentimento aos que os rodeiam (Rodrigo, 2008).

Famílias com Crianças em Risco


A intervenção baseada nos princípios do pensamento sistémico

A filosofia que enquadra a política de promoção dos direitos das


crianças e dos jovens assenta na convicção de que cada criança é
única, considerando-a sujeito de direito.
Como todos sabemos, os contextos de vida são determinantes
no desenvolvimento psicossocial das crianças, pelo que é necessário
apostar em políticas de prevenção, de intervenção social e de pro-
tecção, em sectores fundamentais para a promoção do mesmo, tais
como saúde, educação, segurança social, justiça…

É na teoria dos sistemas ecológicos e no modelo bioecológico de


Brofenbrenner que se baseia essencialmente a intervenção realizada
nas famílias com crianças em risco, sendo possível analisar aspec-
tos do desenvolvimento individual, do contexto em que vive e dos
processos interactivos que influenciam o próprio desenvolvimento
humano, em determinados períodos de tempo.
Assim, nas interacções entre os indivíduos, é possível verificar
que o comportamento de um é determinante para o comporta-
mento de outro, numa relação de influência e reforços recíprocos.
A comunicação entre os diversos elementos assume uma função

57
ACREDITAR NO FUTURO

determinante nas interacções, dado que é através da comunicação


que se estabelecem e partilham normas de funcionamento, afec-
tos, sentimentos e expectativas, que vão determinar a conduta de
cada um.
As crianças influenciam os próprios ambientes onde se encon-
tram e são simultaneamente influenciadas pelas pessoas que estão
à sua volta. Este modelo introduz uma maior ênfase, não só no
desenvolvimento da interacção da pessoa com outras pessoas, mas
também com objectos e símbolos, e tende a reforçar a ênfase nas
características biopsicológicas do desenvolvimento individual.
Quando pensamos em intervenção familiar, temos de pensar,
sobretudo, na prevenção e promoção das competências das famí-
lias, das crianças e dos jovens.
A realidade que se vai construindo e se desenvolve no sistema
familiar (história pessoal, relações familiares, traços psicológicos)
decorre não só das características de cada um dos elementos que
compõem o sistema familiar, como também da totalidade por ele
formada. É também influenciada pelas características do contexto
social, económico e cultural ao qual se associam recursos, expecta-
tivas, crenças e representações de papéis, dos conceitos de famílias
e dos sistemas que deles emergem.

As crianças em risco apresentam, pelas suas características, maior


vulnerabilidade, e as suas potencialidades, para atingirem um bom
e adequado desenvolvimento, podem estar comprometidas por fac-
tores intrínsecos ao sistema familiar e também extrínsecos, isto é,
depende se o ambiente social e económico onde a família está inse-
rida se apresenta como factor potenciador, ou como factor que pro-
voca constrangimentos ao próprio desenvolvimento da família.
Ajudar as famílias a melhorar as suas competências parentais é
ajudar as crianças que vivem no seio das mesmas, proporcionan-
do-lhes condições potenciadoras de um bom desenvolvimento.
A intervenção com as famílias baseia-se nos princípios do pen-
samento sistémico, nomeadamente: os membros da família estão

58
2. QUANDO A FAMÍLIA AINDA CONSTITUI UMA APOSTA

relacionados uns com os outros, ou seja as acções e comporta-


mentos de um dos membros influenciam e simultaneamente são
influenciados pelos comportamentos de todos os outros.
Uma parte da família não pode ser compreendida sem o resto
do sistema, pois todos os elementos se organizam através de uma
estrutura de relações, onde se definem papéis e funções conformes
às expectativas sociais.
A estrutura e organização da família são importantes na deter-
minação do comportamento dos seus membros. Cada elemento da
família participa em diversos sistemas e subsistemas, ocupando em
simultâneo diversos papéis em diferentes contextos, funções e tipos
de interacção com variados e, por vezes, antagónicos graus de auto-
nomia, proeminência, etc.

A comunicação e o feedback entre os membros são importantes


no sistema familiar, pois este funciona com códigos de condutas, de
comunicação e de expressão da afectividade com padrões intergera-
cionais, ou seja, estabelecidos e transmitidos de geração em geração,
padrões que se configuram ao longo do tempo, sendo raramente
verbalizados, ou até mesmo, conscientemente percepcionados na
convivência familiar.
O objectivo da intervenção será então, na perspectiva sistémica,
o de promover medidas de protecção para a família, procurando
manter a criança no seu meio familiar, reforçando as competên-
cias parentais através da identificação de factores de risco e de fac-
tores protectores. É necessário, assim, minimizar as situações de
risco, trabalhando com as famílias, as competências e recursos pró-
prios, potenciando os factores protectores e valorizando as redes de
suporte formais e informais. Ao longo do processo vai-se efectuando
um trabalho que é simultaneamente de prevenção e de reparação.
Quando trabalhamos com as famílias que integram crianças que
foram sinalizadas como crianças em risco, deparamo-nos com a
necessidade de célere e atempadamente conhecer e diagnosticar
as suas problemáticas, bem como de avaliar as suas capacidades

59
ACREDITAR NO FUTURO

parentais. Temos necessidade de encontrar estratégias de interven-


ção que, em conjunto com a família, possam vir a promover o
desenvolvimento de competências parentais, pois só através de um
trabalho conjunto, conseguimos minimizar a situação de risco em
que a criança se encontra.
A maioria das famílias das crianças sinalizadas como crianças em
risco apresenta falta de recursos pessoais para lidar com aconteci-
mentos stressantes, que vão ocorrendo dentro ou fora do seio fami-
liar e, no âmbito desse contexto, torna-se difícil proporcionar um
desenvolvimento saudável às crianças.
A importância da relação cuidador/criança tem de fazer parte da
prática avaliativa das entidades com competência na área da infân-
cia e juventude.

A inadequação da expressão de afectividade, por parte dos adul-


tos, vai levar a que as crianças apresentem dificuldades ao nível do
autoconhecimento, da auto-estima e das competências socioafecti-
vas, nomeadamente no que se refere ao autocontrolo, tolerância à
frustração, resolução de problemas e assertividade.
Estas baixas competências socioafectivas têm normalmente
grande impacto na integração social das crianças como, por exem-
plo, ao nível das aprendizagens escolares e relações com os pares e
com os outros adultos, bem como nos diferentes contextos em que
se insere.

Exercício da Parentalidade Positiva


A sua importância no desenvolvimento da criança e do jovem

As relações afectivas que o indivíduo desenvolve, em especial


com as figuras de vinculação, permitem responder às necessidades
de segurança, influenciam o funcionamento do indivíduo e a cons-
trução de modelos de funcionamento interno (representações e
expectativas sobre o próprio, sobre os outros e sobre o mundo)…

60
2. QUANDO A FAMÍLIA AINDA CONSTITUI UMA APOSTA

Segundo a teoria da vinculação, desenvolvida em conjunto por


John Bowlby e Mary Salter Ainsworth, qualquer comportamento
que permita à pessoa ficar perto, ou manter a proximidade, das
figuras preferenciais e privilegiadas pode ser considerado um com-
portamento de vinculação.
Ainda no âmbito dessa teoria, como características de uma rela-
ção de vinculação, salienta-se: procura de proximidade; efeito-base
de segurança (isto é a confiança que uma criança tem na figura de
referência, protectora e de apoio, que está disponível e acessível,
a partir da qual pode fazer uma exploração do meio envolvente).
Como figura de vinculação podemos considerar a figura em rela-
ção à qual a criança irá dirigir o seu comportamento de vinculação.
Segundo Guedeney (2004), «é susceptível de se tornar figura de
vinculação qualquer pessoa que se envolva numa interacção social
viva e durável com o bebé e que responda facilmente aos seus sinais
e às aproximações. Assim, a figura de vinculação não é exclusiva-
mente a mãe, podendo as crianças efectuarem múltiplas vincu-
lações, as quais serão hierarquizadas não apenas em função dos
cuidados prestados ao bebé, mas também da qualidade das caracte-
rísticas precedentes».
A criança tem, assim, uma tendência inata para se vincular, em
especial a uma figura, o que significa que, num grupo estável de
adultos, uma das figuras irá tornar-se a figura de vinculação privi-
legiada. (Holmes, 1995.)
Segundo a teoria da vinculação existem quatro tipos de vin-
culação: vinculação segura; vinculação insegura-ambivalente;
vinculação insegura-evitante e vinculação desorganizada.
Quando a criança desenvolve uma vinculação segura pro-
cura a proximidade do adulto, mantém o contacto, acalma-se
e organiza-se na presença deste, protesta na separação e felicita
o adulto no reencontro. Neste tipo de vinculação a criança sente
que pode confiar no outro, que é amada e portanto importante
para alguém, e que o seu mundo é seguro permitindo-lhe movi-
mentos exploratórios.

61
ACREDITAR NO FUTURO

Na vinculação insegura-ambivalente a criança revela angústia


e perturbação no momento da separação, mas mesmo em presença
da mãe revela alguma ansiedade e não se consola facilmente no
momento da união, podendo alternar tentativas de contacto com
sinais de rejeição, zanga, fúrias, ou pode demonstrar passividade ou
demasiada perturbação para sinalizar ou procurar o contacto com a
figura de referência. Não retomam a brincadeira quando estão em
presença do adulto de referência, mantendo-se pelo contrário vigi-
lantes. Demonstram hesitação na exploração. Neste tipo de vin-
culação, a criança sente que os outros são imprevisíveis, às vezes
carinhosos e protectores, outras vezes hostis e rejeitantes.
Sente-se constantemente ansioso e zangado, e sente também que
não se pode afastar, pois pode deixar de ter a oportunidade de ser
amado ou de receber afecto.
Na vinculação de tipo insegura-evitante, as crianças permane-
cem mais ou menos indiferentes face à localização da mãe ou adulto
de referência, iniciando de imediato a exploração do meio. Podem,
por vezes, revelar angústia quando se separam do adulto de referên-
cia. Não felicitam o adulto, quando do seu regresso, ignorando-o ou
evitando o reencontro. Não procuram proximidade ou não mantêm
contacto com o adulto. Neste tipo de vinculação a criança sente que
os adultos não estão disponíveis e são evitantes, e que necessita de se
proteger. Se não tiver desejos, não é rejeitada, e se tomar conta dos
outros e negar as suas vontades ou desejos, será talvez amada.
Na vinculação desorganizada, a criança afasta-se em vez de
se aproximar do adulto e, em momentos de angústia, esconde-se.
Depois da separação, a criança sente-se confusa e tem medo do
reencontro, sente grande ambivalência, evitamento ou resistência
perante o adulto. Neste tipo de vinculação, a criança sente que o
seu cuidador tanto é carinhoso com ela como a rejeita. O adulto
é incapaz de satisfazer as necessidades da criança e não a protege,
e a criança não sabe como se proteger a si própria. As crianças com
este tipo de vinculação apresentam comportamentos inconsisten-
tes e contraditórios.

62
2. QUANDO A FAMÍLIA AINDA CONSTITUI UMA APOSTA

Stevenson-Hinde, no seu trabalho, faz a conexão entre as várias


dimensões do funcionamento familiar e os diferentes tipos de vin-
culação: assim, famílias com níveis elevados de responsividade
afectiva e envolvimento afectivo potenciam vinculação segura nas
crianças. Em contrapartida, famílias com envolvimento fusional e
baixo nível de controlo de comportamento e de resolução de pro-
blemas potenciam vinculação ambivalente nas crianças. (Ribeiro,
T. & Narciso, I., 2006.)
A redefinição e negociação dos papéis como pai e mãe podem
condicionar a capacidade de acompanhar as múltiplas alterações a
que está sujeito o sistema familiar. Toma-se como exemplo a rele-
vância que hoje é dada ao papel do pai na partilha de responsabi-
lidades parentais e o conflito de interesse entre o sistema familiar e
outros sistemas externos, nomeadamente a dificuldade que, muitas
vezes, as mulheres têm em conciliar o seu papel de mãe com o de
profissional. Desta dinâmica podem surgir conflitos no seio fami-
liar, que se vão repercutir no desenvolvimento das crianças.
Também uma relação conjugal pautada pela violência está direc-
tamente relacionada com problemas desenvolvidos na criança e no
jovem, encontrando-se, por exemplo, associada a comportamentos
anti-sociais dos adolescentes, os quais, por sua vez, mantêm rela-
ções, entre si e com os pais, caracterizadas por falta de intimidade,
onde se assiste muitas vezes à inversão de papéis, e a comportamen-
tos de fúria e de culpabilização.
Relacionando as práticas educativas dos pais com o comporta-
mento, valores, princípios e atitudes das crianças e jovens, podemos
concluir que, na educação, o estilo autoritativo/democrático aparece
associado à auto-estima elevada nos filhos; o autoritário/rígido à
baixa auto-estima e, em situações extremas, à agressividade; o per-
missivo/caótico ao deficiente autocontrolo, dificuldade nas relações
com os pares e dificuldades de concentração; o ausente/negligente à
baixa auto-estima, deficiente empatia e autocontrolo.
Os pais que educam as suas crianças e jovens dentro do estilo
democrático dão-lhes autonomia, responsabilizando-os pelos seus

63
ACREDITAR NO FUTURO

actos; transmitem-lhes confiança e apoio afectivo, valorizando-os


nas suas atitudes e comportamentos. Impõem regras e limites, com
firmeza e flexibilidade, utilizando muitas vezes a negociação para
atingirem um objectivo comum. Nestas famílias existe uma boa
capacidade de negociação e qualidade de comunicação. As crian-
ças e os jovens sentem que os pais são pessoas capazes de os orien-
tar, estimulando-os a tomar decisões conscientes, que se constituem
como uma sólida retaguarda, sendo também promotores de elevada
auto-estima, pois as crianças e os jovens são incentivados a concre-
tizar objectivos com sucesso.
Os pais que educam os seus filhos no estilo autoritário ou rígido
exercem sobre os mesmos um controlo exagerado, são castrado-
res. As regras que impõem são imutáveis, não admitem discussão,
registando-se nestas famílias fraca comunicação, fraca expressi-
vidade, falta de apoio e de empatia. As crianças e os jovens que
são educados segundo este modelo apresentam muitas vezes baixa
auto-estima, acomodam-se facilmente às situações, não são incenti-
vados a encontrar soluções para os seus problemas, nem são apoia-
dos na resolução dos mesmos. Os pais demonstram para com eles
sentimentos de coerção e de hostilidade, que muitas vezes condu-
zem a situações de agressividade e violência que, por serem viven-
ciadas, são aprendidas pelas crianças e jovens, que por sua vez os
vão reproduzir, quer na relação com os pares, quer na relação com
os adultos.
As crianças e jovens que são educados num modelo permissivo
e caótico apresentam, na maioria das vezes, dificuldades, quer nas
relações que estabelecem com os pares, quer no seu autocontrolo e
concentração. Neste modelo, as regras são escassas e as que existem
são difusas e sem limites, o que leva a que a criança ou o jovem se
sintam desorientados, não conseguindo resolução para os seus pro-
blemas. Daí resulta um fraco sentido de responsabilidade, o que
rapidamente leva esta criança ou jovem a desorganizar-se e a apre-
sentar comportamentos desadequados, o que vai dificultar a sua
integração sociofamiliar.

64
2. QUANDO A FAMÍLIA AINDA CONSTITUI UMA APOSTA

No modelo ausente, negligente, existe uma incoerência no esta-


belecimento de regras, bem como na regulação do comportamento.
Os pais revelam para com as crianças ou jovens uma clara ausên-
cia de apoio, falta de interesse e despreocupação face ao seu pro-
cesso de crescimento. Não existe empatia, a comunicação é fraca,
existe uma incoerência na actuação e assiste-se, muitas vezes, à
desvalorização dos comportamentos apresentados pelas crianças e
jovens. Estes manifestam uma baixa auto-estima e um deficiente
autocontrolo e empatia. Sentem que os pais não são contentores,
que não lhes dão o apoio de que necessitam, sendo muitas vezes
ignorados.
É através da educação que os pais promovem nos seus filhos
a emergência de valores, princípios, atitudes e comportamentos
considerados positivos, tentando reduzir os que se consideram
negativos.
Neste pressuposto, há que induzir nas crianças e nos jovens a
mudança de comportamentos menos positivos ou desadequados,
para outros positivos e que sejam conducentes a uma boa inserção
sociofamiliar.
Para que a criança ou o jovem se desenvolvam harmoniosa-
mente, é fundamental a transmissão eficaz dos valores. Estes irão
constituir-se como elementos facilitadores no desenvolvimento
pessoal, nas relações interpessoais, no aproveitamento escolar e no
desempenho profissional. Esta eficácia depende do estilo educativo,
da forma como cada um passa a mensagem que quer transmitir e
da consequente interpretação, da intencionalidade atribuída, do
acompanhamento dos pais, adequado a todas as fases do desenvol-
vimento da criança ou do jovem, da coesão parental, do clima de
afecto, bem como da qualidade de comunicação na família.
A criança tem direito a viver numa família que lhe permita desen-
volver sentimentos de pertença estruturantes, que a apoie nas várias
fases do seu desenvolvimento, através de um sentido contínuo de
responsabilidade parental. A permanência das crianças junto das
suas famílias implica que os técnicos intervenham atempadamente

65
ACREDITAR NO FUTURO

e de uma forma preventiva, a fim de evitar a institucionalização das


mesmas.
Esta intervenção inicia-se, muitas vezes, quando a criança nasce,
através da sinalização da situação de risco à Comissão de Protecção
de Crianças e Jovens em Perigo, ou ao próprio tribunal, para que
sejam tomadas as medidas necessárias, de forma a garantir a segu-
rança e o bem-estar da criança em questão.
A decisão da intervenção tem de ser rápida. Tem de assentar na
capacidade de leitura dos sinais de risco, perigo, maus-tratos, negli-
gência, abuso… que a criança apresenta e que por vezes não são
evidentes. É fundamental promover uma comunicação eficaz entre
as diferentes entidades envolvidas neste processo, para que se efec-
tue um diagnóstico célere da situação, que seja conducente a um
plano de intervenção, evitando desfasamentos temporais e de inter-
venção, ou mesmo a sobreposição desta última, levando à ineficácia
nos resultados esperados.
A intervenção planificada atempadamente, para cada situação,
aponta para a definição do desenvolvimento de um programa cen-
trado nas famílias e, estas, para o concretizarem, têm de aceitar as
suas fragilidades, mostrando-se disponíveis e permeáveis à inter-
venção, de forma a que sejam suprimidas as razões que levaram à
sinalização.
A intervenção nas famílias em risco envolve um acompanha-
mento muito próximo e sistemático, onde é fundamental clarificar
os papéis de cada um dos intervenientes, com a identificação das
metas a atingir, e dos tempos definidos, o que pressupõe uma ava-
liação também sistemática de todo o processo.
A prevalência da família é inquestionável e a responsabilidade
parental é determinante, desde que respeitada e assumida pelos pais,
pelo que o trabalho com as famílias é, assim, fundamental e prioritá-
rio. A monitorização e o acompanhamento das famílias sinalizadas,
no exercício das responsabilidades parentais, na recuperação das fra-
gilidades, na aquisição das competências, no exercício de uma cul-
tura de cidadania são requisitos para o afastamento do risco/perigo.

66
2. QUANDO A FAMÍLIA AINDA CONSTITUI UMA APOSTA

Na intervenção junto da família, o apoio que lhe prestamos


deve ser sempre precedido pelo consentimento, que constitui clara
demonstração da sua vontade de modificar comportamentos e ati-
tudes que, de alguma forma, foram promotores da situação de
perigo em que a criança se encontra, e constitui também um fac-
tor de responsabilização parental, pois a intervenção só faz sentido
enquanto medida de ajuda e não de imposição.

Factores Conducentes à Situação de Perigo


Identificação de factores de risco

Como factores de risco nas crianças, identificamos como mais


comuns:
– idade inferior a 3 anos, pela vulnerabilidade da própria
criança;
– mães muito jovens e sem apoios;
– instabilidade relacional;
– gravidez não desejada;
– separação dos pais no período pós-parto;
– crianças que não correspondem às expectativas dos pais;
– crianças portadoras de doença crónica;
– crianças com necessidades educativas especiais ou deficien-
tes;
– crianças ou jovens com alterações de comportamento…

Como factores de risco nos pais, identificamos como mais


comuns:
– pobreza geracional e baixo nível socioeconómico;
– pais com antecedentes de maus-tratos nas suas próprias fa-
mílias;

67
ACREDITAR NO FUTURO

– pais expostos a modelos educativos desadequados;


– mães adolescentes sem suporte familiar;
– atraso mental de um ou ambos os progenitores;
– perturbações da personalidade;
– ausência de hábitos de trabalho e dependência económica
de outrem;
– mudanças frequentes de parceiro e residência;
– antecedentes de criminalidade;
– hábitos alcoólicos ou consumo de drogas;
– comportamentos ou práticas desviantes;
– baixa escolaridade.

Como factores de risco na família, identificamos como mais


comuns:
– sobrelotação habitacional, promiscuidade;
– agravamento das dificuldades económicas;
– emprego precário ou perda de emprego;
– separação ou divórcio dos pais;
– doença mental da mãe ou do pai;
– morte de familiar ou adulto cuidador;
– acontecimento perturbador da dinâmica familiar;
– violência doméstica;
– integração em agregados multiproblemáticos;
– múltiplas e descontínuas figuras parentais.

As medidas de apoio à família têm de ser equacionadas a par-


tir de um conjunto de factores determinantes e explicativos das
suas vulnerabilidades. É a identificação destes factores e destas

68
2. QUANDO A FAMÍLIA AINDA CONSTITUI UMA APOSTA

vulnerabilidades que irá permitir o adequado ajuste entre o diag-


nóstico e as medidas a propor.

Diagnóstico
Modelo de Avaliação das Necessidades das Crianças e suas Famílias

Para efectuarmos uma avaliação sobre a situação da criança


podemos basear-nos no «Modelo de Avaliação das Necessida-
des das Crianças e suas Famílias», desenvolvido pelo Department
of Health, Department for Education and Employment, Home
Office, do Reino Unido (2000).

Assim, há que ter em conta:


– as necessidades de desenvolvimento da criança (saúde, edu-
cação, desenvolvimento pessoal, emocional e social, relações
familiares e sociais, capacidades de autonomia…);
– as competências dos cuidadores para satisfazerem adequa-
damente essas necessidades (prestação de cuidados básicos,
segurança, conforto emocional, estimulação, orientação, re-
gras e limites…);
– a influência dos factores ambientais, quer na capacidade
parental, quer no desenvolvimento das crianças (história
e funcionamento familiar, relações com a família alargada,
habitação, emprego, rendimento económico, integração so-
cial da família, recursos da comunidade, relações de vizi-
nhança…).

A avaliação da correlação destes três domínios, obriga a um diag-


nóstico aprofundado do sistema familiar e a identificação dos fac-
tores internos e externos à família que influenciam a ocorrência da
situação de risco/perigo para a criança.

69
ACREDITAR NO FUTURO

Modelo de Avaliação das Necessidades das


Crianças e suas Famílias
Saúde Cuidados Básicos
Educação
Garantir
Desenvolvimento Segurança
Emocional e Físico
Envolvimento
Identidade Emocional

Relações Estimulação
Familiares e Sociais Protecção e
Promoção
Apresentação Estabelecimento de
Social do Bem-Estar Regras e Limites
da Criança
Capacidade de Estabilidade
Autonomia

Factores Familiares e Ambientais

Fonte: Department of Health, cit por


Brynna Kroll & Andy Taylor, 2005.

Quando efectuamos o estudo diagnóstico da situação, deve pro-


curar-se estabelecer uma relação de confiança com a família, para
que se possa avaliar a sua dinâmica, identificar e avaliar as neces-
sidades da criança ou do jovem, bem como factores de risco ou
perigo a que possam estar sujeitos.

Nesta fase também é importante perceber como é que a rede


social (creche, serviços sociais, serviços de saúde e educação…) está
a intervir na situação familiar em causa, sendo necessário clarificar o
papel no âmbito de intervenção de cada um, para que a família não
seja alvo de várias intervenções que se sobrepõem, por não estarem
devidamente concertadas, nem focalizadas no mesmo objectivo.
Tal constitui um factor desestabilizador para a família, e não um
factor potenciador das suas competências. Pretende-se que a inter-
venção seja uma fonte de apoio segura, permitindo que a família
ganhe sustentabilidade.

70
2. QUANDO A FAMÍLIA AINDA CONSTITUI UMA APOSTA

Exemplo
Na primeira noite, Maria teve dificuldade em adormecer… era
tudo novo, a casa, os adultos da casa, os outros meninos…
Joana, a educadora que a recebeu quando chegou, não estava sem-
pre presente porque, como ela dizia, trabalhava por turnos. Maria
sentiu medo porque precisava muito dela. Ainda não conhecia
ninguém e precisava que ela estivesse por perto. Viria alguém ter
com ela se estivesse triste? E se chorasse, alguém se iria zangar?
Antes de adormecer, começou a pensar que aquela não fora a pri-
meira vez que a mãe lhe batera. Fora mais uma vez, e até já tinham ido
umas senhoras lá a casa depois de ela ter ido ao Centro de Saúde.
Lembra-se de que a médica tinha perguntado à mãe porque é que
ela, Maria, tinha nódoas negras no corpo… e a mãe respondera que
ela era uma «maria-rapaz» e tinha-se magoado na brincadeira. Sim,
lembra-se de que a mãe estava irritada com tudo e com todos.
Lembra-se também de, passados uns dias, quando vinha da
escola, estarem umas pessoas lá em casa que ela não conhecia.
A mãe não estava, e o Zé (o companheiro da mãe) dizia apenas
que não tinha nada que ver com isso, ela não era filha dele… a
mãe é que sabia.
Sabia que elas tinham voltado lá a casa quando ela estava na
escola, pois ouvira a mãe dizer à avó que estava farta de que se
metessem na sua vida…

Intervir com as Famílias


Intervir com as famílias de crianças/jovens sinalizados

A constatação de situação de perigo para a criança determina a


intervenção através de medidas de acordo com o seu superior inte-
resse, a singularidade de cada caso e a urgência imposta pelo perigo e
pelo tempo útil da criança. Estas medidas são marcadas pela especifi-
cidade de cada situação, exigindo equipas e estratégias que envolvam
de forma responsável crianças e jovens, famílias e comunidades.
O objectivo da intervenção deverá ser o de desencadear medi-
das de protecção da família, procurando, sempre que possível, não

71
ACREDITAR NO FUTURO

retirar a criança do seu meio. Para tal, torna-se necessário trabalhar


as competências, através de um trabalho multidisciplinar, desen-
volvendo parcerias sempre com a inclusão da própria família e da
criança, para que se possa intervir não só na prevenção, mas tam-
bém na reparação.
Para trabalhar com estas famílias e crianças é necessário com-
preender o sistema familiar no seu todo, identificar os factores de
risco, para que estes se possam trabalhar, ou seja, intervir para que
os mesmos sejam anulados ou minimizados e deixem de constituir
perigo para a criança. É necessário determinar quais as alterações
que têm de ser efectuadas para garantir a segurança e o bem-es-
tar da criança, nomeadamente identificar os recursos existentes na
comunidade que poderão constituir-se como parceiros fundamen-
tais para garantir essa segurança, incluindo a rede de equipamentos
escolares, de saúde, etc.
É também fundamental trabalhar e potenciar os factores pro-
tectores da família, identificando quais os recursos ou serviços de
apoio, ou outro tipo de intervenção, que possam ajudar a alcançar
as alterações necessárias e que permitam manter a criança no seu
meio familiar, combinando estratégias formais e não formais.

É importante adequar as respostas às diversas situações de risco,


envolvendo muitas vezes recursos existentes na própria comuni-
dade, por exemplo através de programas de formação educativa
para jovens, práticas educativas, programas de treino de competên-
cias sociais, educação/formação parental, ou programas de preven-
ção para a saúde e comportamentos aditivos…
Tal intervenção pressupõe:
– Sempre que necessário, garantir apoio psicológico à família e
às crianças, assim como apoios específicos para famílias que
integrem crianças portadoras de deficiência física ou mental.
– Assegurar um relacionamento de afecto tão constante e inin-
terrupto, quanto possível.

72
2. QUANDO A FAMÍLIA AINDA CONSTITUI UMA APOSTA

– Planear em conjunto com todos os parceiros, família e crian-


ça ou jovem as estratégias para a intervenção, definindo
metas e objectivos que deverão ser avaliados.
– Activar as competências da família e ajudá-la a transformar a
crise em oportunidade, assim como estabelecer o prognósti-
co do caso no que respeita às possibilidades de conseguir que
os pais sejam capazes de responder adequadamente às neces-
sidades e bem-estar da criança.

Este trabalho de promoção e desenvolvimento das competên-


cias parentais deverá estar assente num princípio de confiança e
contratualização responsável, e sempre definido com os elementos
que integram a família. É necessário garantir o princípio da subsi-
diaridade, procurando o equilíbrio entre eficácia e proximidade, de
forma a garantir com rigor a definição do projecto de vida de cada
criança em perigo, dentro dos limites temporais definidos, para
que, em tempo útil, se encontrem projectos alternativos para as
crianças, trabalhando em parceria e promovendo um trabalho em
rede capaz de garantir uma intervenção com sustentabilidade.
Esta intervenção tem de se basear num modelo integrado, onde
estejam reflectidas e garantidas estratégias definidas consoante as
necessidades específicas de cada situação, tendo sempre o cuidado
de não promover a ocorrência de sobreposição e respeitando e exi-
gindo responsabilidades a cada interveniente. É também necessário
a existência de indicadores para se efectuar a monitorização e ava-
liação da intervenção que está a ser realizada.

Avaliação
Análise do funcionamento da família

A avaliação tem por objectivo fazer uma análise, com o neces-


sário pormenor, do funcionamento da família após a intervenção,
para se poder constatar se a família ganhou e conseguiu manter

73
ACREDITAR NO FUTURO

as suas competências afectivas, parentais, sociais, económicas, de


forma a poder autonomizar-se, conseguindo proporcionar à criança
ou ao jovem um contexto que seja protector e promotor de um
desenvolvimento adequado.
Neste processo de avaliação, devem participar, além da família e
da criança, todos os parceiros da rede social que continuaram a ser
uma rede de suporte para a criança e também para a família.

Equipas Multidisciplinares para a Intervenção


Equipas ajustadas à complexidade do seu trabalho

Dada a complexidade do trabalho que efectuam, as equipas


que intervêm nas famílias com crianças em risco devem ser cons-
tituídas por técnicos de várias valências da área social, da educa-
ção e da saúde, nomeadamente assistentes sociais, educadores e
psicólogos.
No acompanhamento às famílias, cada técnico assume compe-
tências específicas. De seguida, são identificadas as competências
que nos parecem essenciais para uma eficaz e eficiente intervenção
técnica nesta problemática.

Ao assistente social compete:


– gerir a intervenção sistemática da família na qual pode ser o
gestor de caso;
– realizar o estudo socioeconómico da situação familiar, iden-
tificando necessidades e recursos;
– efectuar a avaliação da situação de risco/perigo e elaborar o
pré-diagnóstico em conjunto com os outros elementos da
equipa;
– participar na elaboração e actualização do diagnóstico,
bem como na concepção e monitorização do plano de in-
tervenção;

74
2. QUANDO A FAMÍLIA AINDA CONSTITUI UMA APOSTA

– articular com a rede formal e informal de parceiros sociais de


uma forma integrada, para que seja garantido o princípio da
intervenção mínima;
– realizar intervenções de aconselhamento/encaminhamento
sociopedagógico e psicossocial.

Ao educador compete:
– gerir a intervenção sistemática da família, na qual pode ser
o gestor de caso;
– efectuar a identificação dos factores protectores e dos facto-
res de risco, quer da criança, quer da família;
– realizar intervenções de aconselhamento parental e pedagó-
gico-educativo;
– participar na elaboração e actualização do diagnóstico, bem
como na concepção e monitorização do plano de intervenção;
– articular com a rede formal e informal de parceiros sociais de
uma forma integrada, nomeadamente, escolas e outros equi-
pamentos, equipas ou instituições, que estejam também en-
volvidas no trabalho a realizar com a família e com a criança.

Ao psicólogo compete:
– gerir a intervenção sistemática da família, na qual pode ser
o gestor de caso;
– identificar e encaminhar situações de perturbação do desen-
volvimento e/ou problemas psicopatológicos das crianças e
dos adultos;
– acompanhar processos clínicos terapêuticos dos diferentes
elementos da família;
– realizar intervenções de aconselhamento psicopedagógico e
parental;
– participar na elaboração e actualização do diagnóstico, bem
como na concepção e monitorização do plano de intervenção;

75
ACREDITAR NO FUTURO

– articular com a rede formal e informal de parceiros sociais de


forma integrada, nomeadamente, com outras equipas ao ní-
vel da saúde mental, que estejam a efectuar intervenção com
a família e a criança.

Pode ser importante, de acordo com a especificidade da inter-


venção que se tem de fazer com determinadas famílias, a existência
na equipa de um ajudante familiar ao qual compete:
– ajudar a família a desenvolver competências de gestão da
vida doméstica, de forma a manter o espaço habitacional
acolhedor, um espaço que seja estruturado em função das
necessidades das crianças ou dos jovens que o integram;
– acompanhar a família na organização das rotinas e pres-
tar-lhe apoio para a realização de actividades que se demons-
trem necessárias no dia-a-dia.

É necessário que exista uma intervenção coordenada entre todos


os elementos que constituem a equipa, devendo um dos técnicos
ser o interlocutor privilegiado com a família. Será fundamental,
para o êxito da intervenção, a relação de confiança que este técnico
consiga manter com a família e com a criança.
Cada um destes técnicos pode ser designado como gestor de
caso, isto é, o técnico que tem a responsabilidade acrescida de gerir a
relação de confiança com a família e com a criança, sendo um facili-
tador na articulação com os outros técnicos que constituem a equipa
e também com os parceiros que intervêm na situação desta família.
Tem, igualmente, um papel facilitador e de mediador entre os
serviços e as necessidades apresentadas pela criança e a sua família,
através da identificação de circuitos de comunicação e dos recur-
sos disponíveis.

Ao gestor de caso compete:


– coordenar a concepção da avaliação diagnóstica da criança
ou do jovem e da família;

76
2. QUANDO A FAMÍLIA AINDA CONSTITUI UMA APOSTA

– garantir a implementação do plano de intervenção e efec-


tuar a sua monitorização;
– fomentar uma relação de confiança com a criança ou o jo-
vem e a família, de forma a que, em conjunto, identifiquem
as necessidades, apoiando-os na procura de soluções adequa-
das à satisfação das mesmas;
– coordenar a intervenção realizada pelos vários parceiros en-
volvidos e identificar os serviços que seja necessário alocar de
forma concertada;
– acautelar o processo de transição para outros programas de
apoio ou intervenção, sempre que necessário.

O gestor de caso tem como responsabilidade adequar o pro-


cesso de avaliação à situação que está a analisar, para que seja possí-
vel traçar um plano de intervenção adaptado à mesma, bem como
planear, coordenar e supervisionar toda a actuação dos vários ser-
viços, no sentido do plano de intervenção cumprir os objectivos
identificados.

A elaboração e execução do plano de intervenção pressupõem


que as mesmas sejam fundamentadas em princípios orientadores,
tais como:
– teorias de desenvolvimento da criança;
– análise dos contextos relevantes para o desenvolvimento da
criança;
– intervenção com as crianças e as famílias de forma a promo-
ver a participação activa destas na avaliação e identificação
de estratégias para a resolução de problemas;
– identificação dos pontos fortes e fragilidades apresentados
pela criança e sua família, assim como do contexto onde es-
tão inseridas;
– respeito pelo princípio da intervenção mínima.

77
ACREDITAR NO FUTURO

A composição interdisciplinar destas equipas e a inerente diver-


sidade de perspectivas e opiniões são fundamentais para uma visão
mais ampla dos sistemas familiares, com toda a complexidade ine-
rente a cada situação.

A prática destes profissionais tem como principais objectivos:


– promover as competências das famílias, de forma que estas
se constituam como redes de suporte efectivo às necessida-
des das crianças e dos jovens;
– promover os factores de resiliência das crianças e dos jovens
que acompanham;
– contribuir para uma melhor eficácia no trabalho desenvolvi-
do em parceria, potenciando os recursos existentes e mobili-
zando novos recursos;
– promover a diminuição ou eliminação dos factores de risco.

Como pressupostos da sua intervenção, salienta-se a avaliação


do risco/perigo e a intervenção. Ambas devem estar centradas nas
necessidades individuais de cada criança, isto é, nas suas necessida-
des físico-biológicas, cognitivas, emocionais e sociais.
A intervenção centrada na família numa perspectiva desenvolvi-
mentista e sistémica constituiu-se como essencial, sendo a família
considerada como interventor activo em todo o processo. A família
e essencialmente os pais ou adultos cuidadores devem ser conside-
rados como peça fundamental no processo educativo e socializador
da criança.
A avaliação e diagnóstico transdisciplinar são considerados
como garantia de uma intervenção holística, direccionada e mais
assertiva.

78
2. QUANDO A FAMÍLIA AINDA CONSTITUI UMA APOSTA

E se não for Possível Manter a Criança na Família?


O direito da criança a ser protegida da situação de perigo

Quando se parte para a decisão de retirada da criança da sua


família, há que explicar à criança, e também à família, o porquê
dessa decisão.
A criança tem direito a ser protegida da situação de perigo que
está a vivenciar e a ser acolhida numa instituição de acolhimento,
onde possa obter resposta às suas necessidades específicas, ter pro-
tecção e um ambiente estável e securizante.

O Acolhimento Institucional só deve substituir a família num


tempo curto e transitório, actuando de uma forma reparadora.
Quando for necessário proceder à separação, é imprescindível
elaborar um plano de intervenção, onde estejam identificados os
recursos necessários para continuar o trabalho com a família, apro-
veitando a situação de crise que a mesma atravessa, para que, em
tempo útil, seja possível uma reunificação familiar.

Devem ser facilitados os contactos da criança com a sua família,


ou adultos de referência, sempre que se considere que os mesmos
não põem em causa a sua segurança, ou não sejam nefastos para o
seu desenvolvimento. Quanto maior e melhor for a relação exis-
tente entre a criança e a sua família, maiores serão as possibilidades
de regresso num curto espaço de tempo.
Assim, ao determinar o acolhimento de uma criança ou de um
jovem num centro de acolhimento temporário ou lar de infância
e juventude, devemos sempre valorizar a necessidade e pertinência
da separação, para que a sua segurança e protecção se mantenham
salvaguardadas. Mas devemos ter sempre em conta que se irá ini-
ciar uma nova etapa na vida dessa criança ou jovem e que o plano
de intervenção e o seu projecto de vida deverão ser elaborados de
forma célere, tendo em vista a defesa dos seus direitos e superiores
interesses, que serão, sem dúvida, viver no seio de uma família –,

79
ACREDITAR NO FUTURO

a sua família biológica, ou, se tal não for possível, uma família alter-
nativa, pois todas as crianças têm direito a ter uma família que lhes
proporcione uma situação de estabilidade, afecto e compreensão,
promotora de um bom e adequado desenvolvimento.

Síntese
A família como instituição social insubstituível

A família desempenha uma função fundamental que é impor-


tante valorizar, isto é, a função educativa e de socialização nas
diferentes fases de desenvolvimento da criança, promotora de auto-
nomia e integração social adequada.
É necessário apoiar a família no desempenho do seu papel paren-
tal, para que a mesma se sinta capaz de assegurar a satisfação das
principais necessidades da criança, o seu desenvolvimento e capa-
citação sem recorrer à violência, proporcionando-lhe o reconheci-
mento e a orientação necessária, que leva a estabelecer limites no seu
comportamento, para possibilitar o seu pleno desenvolvimento.
Assim, há que passar dos maus-tratos para os bons-tratos, reco-
nhecer a grande diversidade de formas familiares e evitar a aceitação
do modelo tradicional de família como único e ideal.
Factores imprescindíveis são o afecto, a segurança, a cons-
trução de uma relação estruturante, a imposição de limites sem
recurso à violência, ou humilhação. Todos estes factores contri-
buem para que a criança se desenvolva de uma forma harmoniosa,
com o sentimento de que é amada, promovendo a sua auto-estima
e dignidade.
Há que potencializar a parentalidade positiva, proporcionando
às famílias uma rede de apoios sociais que lhe permitam a sua capa-
citação, promovendo a sua competência e resiliência parental. Mais
ainda, dar relevância ao papel da família, identificando e valori-
zando os seus pontos fortes, que funcionam como factores protecto-
res, em detrimento dos pontos fracos que deverão ser identificados

80
2. QUANDO A FAMÍLIA AINDA CONSTITUI UMA APOSTA

para, em conjunto, serem trabalhados de modo a serem minimiza-


dos para que não constituam um entrave à interacção familiar.
Quando pensamos em intervenção familiar, temos de pensar
sobretudo na prevenção e na promoção das competências das famí-
lias e também das crianças e jovens.
Ajudar as famílias a melhorar as suas competências, enquanto pais,
é ajudar as crianças que vivem no seio das mesmas, proporcionan-
do-lhes condições potenciadoras de um bom desenvolvimento.
É fundamental implicar toda a comunidade envolvente neste
processo, pois, à medida que se incrementa o risco psicossocial,
apesar dos apoios aumentarem, constata-se que as famílias ficam
ancoradas em formas assistencialistas que acabam, muitas vezes,
por não serem promotoras de competências, mas de dependência,
e por desvalorizar o seu papel parental, fragilizando-as.

Podemos considerar a família como instituição social impres-


cindível e insubstituível, pela sua função socializadora e educativa,
dirigida ao desenvolvimento de competências e valores pessoais
e sociais, de todos os membros que a integram, cuidando-os e
protegendo-os.
As constantes mudanças sociais acabam também por provo-
car mudanças nas famílias, pelo que, quer os pais, quer os filhos
vão tendo também de modificar os seus padrões tradicionais de
interacção, para se adaptarem aos novos desafios e às novas formas
de família, bem como às especificidades que estas apresentam.

81
CAPÍTULO 3
QUALIFICAR O ACOLHIMENTO EM INSTITUIÇÃO

Caracterização do Acolhimento em Portugal


Promoção da Qualidade no Acolhimento
Gestão do Equipamento
Qualificação dos Colaboradores
Trabalho em Equipa
Perfis Profissionais no Acolhimento Residencial
Síntese
«Quase tudo o que fizermos é insignificante, mas é
importante que o façamos.»
Gandhi
Caracterização do Acolhimento em Portugal
Uma breve síntese

O acolhimento institucional em Portugal ainda é caracterizado por


instituições de grandes dimensões, com uma média de 40 crianças aco-
lhidas, fruto de uma cultura de institucionalização indiscriminada.
Até ser promulgada a Lei n.º 147/99, muitas das crianças aco-
lhidas em lares provinham de famílias numerosas sem recursos, que
as colocavam em instituição «colégio» para que recebessem educa-
ção, à qual não teriam acesso de outra forma, bem como de situa-
ções provenientes de abandono, orfandade, etc.
Estas instituições tinham como objectivo proporcionar às crian-
ças o suprimento das suas necessidades básicas, formação escolar
ou laboral.
A Lei de Protecção de Crianças e Jovens em Perigo (LPCJP) veio
introduzir mudanças ao sistema de acolhimento existente, como já
foi focado no capítulo 1, concretizando as formas de exercício do
dever do Estado de protecção das crianças e dos jovens em perigo
e de promoção dos respectivos direitos. Pretende salvaguardar os
direitos das crianças cujos pais ou responsáveis pelas suas atitudes
e/ou comportamentos, comprometem a sua saúde, o seu desen-
volvimento e educação, ou não são capazes de as proteger, face aos
perigos colocados por terceiros, pelas próprias crianças ou pelos
jovens, afastando-os desse mesmo perigo.
Paralelamente, assiste-se hoje a um movimento de mudança, em
que as instituições e os técnicos que nelas trabalham sentem cla-
ramente a necessidade de se qualificarem para responder de uma
forma mais eficaz às necessidades apresentadas pelas crianças e
jovens que as integram e que transportam uma realidade cada vez
mais complexa. São, na sua maioria, crianças ou jovens que foram
vítimas de abusos, maus-tratos, negligência; apresentam problemas
de relação com os pares e/ou com os adultos cuidadores; têm pro-
blemas de aprendizagem, comportamentos violentos, problemas ao
nível da saúde mental.

85
ACREDITAR NO FUTURO

Focalizando-nos no Sistema Nacional de Acolhimento para


crianças e jovens em perigo, verificamos que dele fazem parte as
seguintes respostas sociais, que se encontram definidas e caracte-
rizadas no documento Respostas sociais, nomenclaturas e concei-
tos (Ministério do Trabalho e Solidariedade Social, Lisboa 2006):
– Acolhimento familiar para crianças e jovens – com res-
posta social desenvolvida através de um serviço que consis-
te na atribuição da confiança da criança ou do jovem a uma
família ou a uma pessoa habilitadas para o efeito, tecnica-
mente enquadradas, decorrente da aplicação da medida de
promoção e protecção, visando a sua integração em meio fa-
miliar.
– Centro de Acolhimento Temporário (CAT) – com res-
posta social, desenvolvida em equipamento, destinada ao
acolhimento urgente e temporário de crianças e jovens em
perigo, de duração inferior a seis meses, com base na aplica-
ção de medida de promoção e protecção.
– Lar de Infância e Juventude (LIJ) – com resposta social,
desenvolvida em equipamento, destinado a crianças e jovens
em situação de perigo, de duração superior a seis meses, com
base na aplicação de medida de promoção e protecção.
– Apartamento de autonomização – com resposta social, de-
senvolvida em equipamento (apartamento inserido na co-
munidade local), destinada a apoiar a transição para a vida
adulta de jovens que possuem competências pessoais especí-
ficas, através da dinamização de serviços que articulem e po-
tenciem recursos existentes nos espaços territoriais.
– Lar residencial – com resposta social, desenvolvida em
equipamento, destinada a alojar jovens e adultos com defi-
ciência, que se encontrem impedidos temporária ou defini-
tivamente de residir no seu meio familiar.
– Centro de apoio à vida – com resposta social, desevolvida em
equipamento, vocacionada para o apoio e acompanhamento

86
3. QUALIFICAR O ACOLHIMENTO EM INSTITUIÇÃO

de mulheres grávidas ou puérperas com filhos recém-nasci-


dos, que se encontram em risco emocional ou social.
– Lar de apoio – com resposta social, desenvolvida em equi-
pamento, destinada a acolher crianças e jovens com necessi-
dades educativas especiais que necessitem de frequentar es-
truturas de apoio específico situadas longe do local da sua
residência habitual ou que, por comprovadas necessidades
familiares, precisem temporariamente de resposta substitu-
tiva da família.

Este sistema, nomeadamente o acolhimento em instituição, nas


suas várias vertentes, tem de se reestruturar de forma a responder às
necessidades de desenvolvimento apresentadas pelas crianças, não
apenas no seu todo, mas sim, tendo em consideração as necessida-
des de cada uma delas, com as suas especificidades, proporcionan-
do-lhes um desenvolvimento integral e integrado.
Apesar de a Lei 147/99, falar sempre em acolhimento institu-
cional ou em instituição, considera-se que a denominação acolhi-
mento residencial seria mais adequada à actual perspectiva que se
configura para o acolhimento, quando, cada vez mais, se defen-
dem as pequenas unidades de cariz familiar, uma vez que o termo
«institucional» tem um cariz histórico demasiado assistencialista e
caritativo.
Os lares de infância e juventude deveriam acolher um número
reduzido de crianças. Parece-nos que 12 crianças, capacidade
máxima, seria um bom número, de forma a que pudessem expe-
rienciar um modelo o mais semelhante possível a um modelo fami-
liar, onde cada criança pudesse usufruir de uma relação de afecto e
segurança que potenciasse o seu desenvolvimento integral.
Paralelamente seria muito importante que estes equipamentos
se pudessem especializar em problemáticas específicas, pois pode-
riam dar uma resposta mais eficaz à problemática apresentada pela
criança no momento da sua admissão, sendo terapêuticos, repara-
dores e potenciadores de desenvolvimento.

87
ACREDITAR NO FUTURO

Contudo, este modelo de acolhimento especializado pressupõe


um trabalho a montante, com as crianças e respectivas famílias, que
estão sinalizadas e a ser intervencionadas pelas equipas que actuam
no terreno, ou pelas Comissões de Protecção de Crianças e Jovens
em Perigo, para que, quando houvesse necessidade de acolher uma
criança, a sua situação estivesse suficientemente estudada, com um
plano de intervenção equacionado, e que, em posse desses dados,
fosse possível identificar a forma de acolhimento familiar ou resi-
dencial e, dentro do residencial, identificar ainda a instituição que
melhor resposta garantisse para o seu caso em concreto.
Este desafio da especialização do acolhimento passa também por
qualificar as equipas técnicas e educativas que, no dia-a-dia, acom-
panham estas crianças e jovens. Estes cuidadores, para além da sua
formação académica inicial, têm de ser pessoas com boas qualidades
relacionais e humanas, pois são, muitas vezes, os modelos de refe-
rência para a população que se encontra acolhida.
É fundamental que as crianças e os jovens, que se encontram
acolhidos nas diferentes respostas do sistema de promoção e pro-
tecção, estejam integrados nas estruturas da comunidade, nomea-
damente escolas, centros de saúde, escuteiros…, tal como outra
qualquer criança ou jovem da sua idade.
Em Portugal, assistimos hoje à coexistência de dois tipos de ins-
tituições, lares de infância e juventude com elevado número de
crianças e equipas técnicas e educativas com um reduzido número
de elementos, cuja função é colmatar as necessidades básicas de
alimentação e higiene, sem satisfazer outras necessidades bioló-
gicas, afectivas e sociais, tendo em consideração a população que
acolhem; e LIJ e CAT de pequena dimensão, com equipas devi-
damente dimensionadas, que têm, como prioridade, proporcio-
nar um modelo familiar contentor e securizante, onde os processos
de trabalho a desenvolver se situam em torno das necessidades
biopsicossociais, afectivas e emocionais, da criança ou do jovem
e onde o projecto de vida de cada um é definido tendo em consi-
deração os seus superiores interesses, em tempo útil, sempre com

88
3. QUALIFICAR O ACOLHIMENTO EM INSTITUIÇÃO

a participação da criança e do jovem na medida das suas capacida-


des e, sempre que possível, com a participação da própria família.
Por exemplo, a análise do relatório do Plano de Intervenção
Imediata de 2008 dá-nos a visão actualizada do funcionamento do
Sistema Nacional de Acolhimento de crianças e jovens em perigo, e
nele constatamos que cada vez é maior o esforço que está a ser efec-
tuado, para que seja garantido à criança acolhida o direito a benefi-
ciar de um plano de intervenção que, com a celeridade adequada às
suas necessidades, viabilize a concretização do seu projecto de vida,
nomeadamente a sua saída de uma forma sustentada, sempre que
possível, para meio natural de vida.
Constatamos no relatório já mencionado que se encontram aco-
lhidas, nas várias valências que constituem o sistema nacional de
acolhimento, 9956 crianças e jovens, e que a população acolhida
é maioritariamente adolescente, tendo mais de metade mais de 12
anos (61%). Regista-se a existência de mais rapazes até aos três
anos, tendência que se inverte à medida que a idade avança, sobre-
tudo a partir dos 12 anos e até à maioridade, idades a partir das
quais se contabilizam mais raparigas do que rapazes.
Das crianças acolhidas, 68% encontram-se integradas em lares
de infância e juventude, predominando assim a resposta que privi-
legia o acolhimento prolongado. A esta constatação não será alheio
o facto de existirem mais equipamentos com esta resposta, que tem
sido, por tradição, aquela que tem vindo a assegurar o acolhimento
de crianças e jovens em Portugal, e que culturalmente é aceite.
O tempo médio de permanência em lares de infância e juventude
está estimado em quatro anos, o que é manifestamente muito alar-
gado, se tivermos em conta que o acolhimento residencial deve ser
tendencialmente temporário e não deve constituir-se como pro-
jecto de vida para uma criança.
Nos centros de acolhimento temporário, encontram-se acolhi-
das 19% das crianças que integram o Sistema Nacional de Acolhi-
mento, cujo tempo de permanência, que deveria ser inferior a seis
meses, é, em média, de doze meses.

89
ACREDITAR NO FUTURO

No que concerne ao acolhimento familiar, em 2008 estavam


acolhidas nesta resposta 9% do total de crianças acolhidas, encon-
trando-se 80% destas crianças em famílias sem laços de parentesco,
situação resultante da entrada em vigor do Decreto-lei n.º 11/2008,
que regulamenta o acolhimento familiar.
Em lar residencial estavam acolhidas, reportando-nos ainda ao
ano de 2008, cento e noventa e três crianças e jovens, e 83 crianças
estavam acolhidas em centros de apoio à vida (resposta social diri-
gida ao acolhimento de mães adultas ou menores e seus filhos).
Em apartamentos de autonomização estavam acolhidos 40
jovens e em unidades de emergência 44 crianças e jovens.
Ao analisarmos os motivos que estão na génese do acolhimento,
constatamos a prevalência da ausência de supervisão e acompanha-
mento familiar, a ausência de acompanhamento ao nível da educa-
ção e saúde, assim como a exposição de crianças e jovens a modelos
parentais desadequados.
Os maus-tratos e o abandono – entendido como a situação em que a
criança fica entregue a si própria de forma definitiva – surgem também
como situações relevantes de perigo conducentes ao acolhimento.

Exemplo
A Maria chegou à casa dos meninos… em breve seria noite… ela
passou o dia no hospital com muitos adultos à volta; a mãe a gri-
tar, depois veio a avó…
Só conseguia ouvir dizer que não podia voltar nesse dia para casa,
ia «temporariamente» para uma casa onde iriam tratar bem dela.
Mas o que era isso do temporariamente? Nunca tinha ouvido essa
palavra, pelo menos que se lembrasse…
Quem é que ia tratar dela? A avó e a mãe também poderiam ir?
Acompanhada pela professora, pela mãe e por uma senhora que
ela não conhecia, que lhe sorriu e lhe disse chamar-se Ana, Maria
foi conhecer a casa dos meninos… onde ia ficar.
Quando entrou, sentiu um grande aperto no estômago, não se
ouvia muito barulho… não ouvia vozes de criança. Não tinha

90
3. QUALIFICAR O ACOLHIMENTO EM INSTITUIÇÃO

imaginado a casa assim… mas também só conseguia imaginar um


jardim-de-infância muito grande, cheio de meninos a correr e a
saltar. Aquilo parecia apenas uma casa. Iria ficar sozinha no quarto?
A mãe ia ficar com ela? Não queria acreditar que a professora tam-
bém se fosse embora: ela tinha-lhe dito que ia ajudá-la, não podia
deixá-la ali sozinha… sem conhecer ninguém. A mãe já lhe tinha
batido muitas vezes… mas, agora, por causa do braço… as coi-
sas tinham-se modificado. Talvez a culpa de estar ali fosse dela,
pois a mãe estava constantemente a dizer que ela era uma menina
muito teimosa… se calhar a mãe tinha razão e ela provavelmente
iria ser castigada, se bem que as pessoas pareciam ser simpáticas
e diziam-lhe constantemente que estavam ali para a ajudar.
O braço continuava a doer, o médico tinha dito que não o podia
mexer, mas o que lhe doía mais naquela hora era a barriga e o
coração… tinha sido tudo muito rápido e, no entanto, o dia
parecia nunca mais acabar. Entretanto a Joana chegou. Era alta,
simpática, trazia um sorriso nos lábios e cheirava bem. Pergun-
tou-lhe se queria conhecer o seu novo quarto, onde estava outra
menina um pouco mais velha, a Inês.
Disse-lhe que colocasse a mochila no armário, pois queria mos-
trar-lhe o resto da casa e apresentar-lhe a Inês… e, assim, naquele
fim de tarde à medida que os meninos iam regressando da escola
e os adultos foram chegando, a Maria ficou a conhecê-los, a saber
como se chamavam, onde dormiam, em que escola andavam…
Despedir-se da mãe foi mais fácil do que pensava, pois a Joana estava
ali de mão dada com muita força e Maria sentiu que até era capaz
de começar a gostar da Joana. Além disso, a Inês tinha-lhe segre-
dado ao ouvido que a Joana era a educadora mais fixe da casa…

Promoção da Qualidade no Acolhimento


Da individualidade ao projecto de vida

Os lares de infância e juventude devem constituir-se como um


meio facilitador para o desenvolvimento psíquico, mas há que
ter em conta que uma prestação suficientemente boa implica a

91
ACREDITAR NO FUTURO

existência de meios adequados e estruturantes capazes de produzir


e manter relações afectivas estáveis e de boa qualidade.
Quando se trata de recorrer ao acolhimento em instituição de
uma criança ou um jovem, a resposta que o sistema de acolhimento
dá tem de ser diferenciada e de qualidade, assegurada pela capaci-
dade de efectuar um diagnóstico e de promover um acolhimento
adequado às necessidades de cada pessoa que o integra.

As instituições, na sua maioria, têm de ver a sua dimensão subs-


tancialmente reduzida, dispor de equipas multidisciplinares, capa-
citadas para trabalharem em rede, profissionalizadas, com modelos
educativos e terapêuticos adequados à população que acolhem, com
supervisão a realizar por entidade externa e especializadas na inter-
venção que efectuam.
As instituições de acolhimento de pequena dimensão poderão
proporcionar às crianças e jovens que acolhem um ambiente seme-
lhante ao familiar, embora nunca se possam considerar como uma
família para as crianças que integram, mas podem proporcionar-lhes
um ambiente securizante e acolhedor, onde seja possível promover
e potenciar um bom e adequado desenvolvimento integral.
O Estado tem aqui um papel importante de entidade regula-
dora, pois é necessário estabelecer critérios rigorosos quanto aos
requisitos de funcionamento, bem como ao financiamento a con-
ceder às instituições, para que estas possam promover um acolhi-
mento de qualidade.

O acolhimento em instituição é necessário e será uma mais-va-


lia para uma criança ou jovem que dele necessite em determinado
período da sua vida se:
– for transitório, reparador e terapêutico;
– tiver a qualidade necessária e estiver aberto à avaliação,
à supervisão e ao acompanhamento efectivo, quer da criança
acolhida, quer da sua família.

92
3. QUALIFICAR O ACOLHIMENTO EM INSTITUIÇÃO

Com base na teoria desenvolvida por Del Valle & Fuertes


(2000), podemos identificar como princípios fundamentais para
promover um acolhimento em instituição de qualidade: a indivi-
dualidade; o respeito pelos direitos da criança e das suas famílias;
a adequada cobertura das necessidades básicas da criança; a escola-
rização e alternativas educativas; os cuidados de saúde; a integração
social; a preparação para a autonomia; o apoio às famílias; a segu-
rança e protecção; o projecto de vida e o respeito pelo direito da
criança à participação.

Individualidade – As necessidades de cada criança e jovem têm


de ser respeitadas. Assim, para cada criança há que desenvolver um
programa individualizado de intervenção, tendo em conta as suas
necessidades, dificuldades e consequente definição de estratégias
para a ajudar a ultrapassá-las.
Este primeiro princípio deve estar plasmado nas orientações de
cada LIJ, nomeadamente na forma como recebe as crianças e os
jovens. A criança deve ser recebida pelo educador que vai ser res-
ponsável por ela, numa sala destinada para o efeito, em ambiente
calmo e tranquilo, pois é um momento muito marcante para a
criança; uma vez que vai integrar um ambiente que não conhece,
sente-se na maioria das vezes muito insegura e perdida.
Os elementos presentes deverão ser apenas os estritamente neces-
sários para a acolher.
Um dos elementos da equipa técnica deverá receber a documen-
tação da criança, bem como recolher informações (junto da família,
ou adultos que dela cuidaram na fase anterior ao seu acolhimento)
sobre hábitos, gostos, vivências e outros aspectos, com vista a faci-
litar a sua integração.
Com a família deve ficar nesse dia agendado o plano de visitas
e contactos, bem como os aspectos relativos ao funcionamento e o
regulamento da residência. A equipa deverá demonstrar disponibi-
lidade para qualquer esclarecimento à família, nas dúvidas que vão
surgindo ao longo do acolhimento.

93
ACREDITAR NO FUTURO

Sempre que seja possível seria muito interessante que a criança


pudesse visitar a residência onde vai passar a viver, antes de a inte-
grar, e de preferência acompanhada dos adultos de referência, (famí-
lia, ou as pessoas com quem coabita, etc).
O educador deve dedicar-lhe uma atenção especial, acompanhar
a criança na integração no novo espaço físico e humano, adequando
a sua postura à faixa etária da mesma, estando simultaneamente
atento aos sinais que a criança vai demonstrando, com o objectivo
de lhe proporcionar segurança, bem como um conhecimento das
regras e normas, de forma a facilitar a sua integração.
Apesar de ser muito relevante que cada criança ou jovem tenha
com a equipa técnica e educativa uma relação de confiança, afecto
e respeito, é fundamental que possa ter na residência um adulto de
referência, com quem possa desenvolver relações próximas e conti-
nuadas, que lhe dê uma atenção preferencial e com ela desenvolva
uma relação de qualidade. Estas relações providas de afecto, permi-
tem que a criança ou o jovem estabeleçam uma relação de empa-
tia com determinado adulto, que espontânea e progressivamente,
se torna o seu elemento de referência. Este elemento apresenta-se
como modelo relacional de qualidade, ajudando a criança ou o
jovem a reparar as relações disfuncionais a que esteve sujeito e a
integrar uma forma de estar, saudável e equilibrada.
O educador de referência constitui-se para a criança ou para o
jovem como o adulto de referência; conhece bem a criança nos seus
diferentes aspectos: pessoal, familiar, escolar e de saúde. É o prin-
cipal responsável pela compra de roupas, calçado, material esco-
lar, tarefas que deve fazer, sempre que possível, acompanhado pela
criança. Promove com alguma regularidade, actividades ao gosto da
criança como passeios, idas ao cinema etc.
Só assim se consegue construir um espaço reparador das situa-
ções traumáticas que a criança vivenciou, e que acabaram mui-
tas vezes por ser conducentes ao seu afastamento da família. Este
adulto pode ter um papel fundamental no processo reparador, aju-
dando a criança a ultrapassar essas situações traumáticas.

94
3. QUALIFICAR O ACOLHIMENTO EM INSTITUIÇÃO

As necessidades de organização da residência implicam a cria-


ção de rotinas comuns a todas as crianças e jovens. Essa necessidade
não pode anular o direito de individualidade e de privacidade de
cada um. As residências devem ter horários flexíveis para permitir a
adaptação ao ritmo das crianças; o facto de existir flexibilidade não
quer dizer que não existam limites bem definidos e conhecidos das
crianças e dos jovens.
É também muito importante que cada criança ou jovem pos-
sua o seu espaço pessoal (considera-se que as crianças deveriam
ter quartos individuais, ou partilhados com mais uma pessoa
preferencialmente dentro da sua faixa etária), onde possa ter as
suas coisas pessoais e possa decorar este espaço a seu gosto. O seu
quarto deverá permitir-lhe preservar a sua intimidade, respeitando
os momentos de privacidade sempre que a criança ou o jovem o
desejar.
Cada criança ou jovem deverá ser visto como único. As suas
capacidades, competências, necessidades e dificuldades deverão ser
trabalhadas individualmente, assim como as respectivas estratégias
de intervenção.
A noção de privacidade e respeito pelo espaço individual é um
conceito desconhecido para a maior parte das crianças e jovens,
tendo em consideração a promiscuidade que muitas vezes envolveu
o seu contexto familiar. O trabalho em torno deste conceito pas-
sará pela equipa da residência e por questões tão simples do quo-
tidiano como criar um ambiente reservado para as confidências da
criança ou do jovem, ou assegurar o banho como um momento de
privacidade.
Outro aspecto muito importante a considerar na individualidade
é o respeito pela procedência cultural e étnica. Este aspecto tem de
ser trabalhado não só com a equipa técnica e educativa, mas tam-
bém com as crianças e os jovens que residem no lar e têm de apren-
der a respeitar e a ser tolerantes com crianças ou jovens diferentes.
Cada criança ou jovem acolhido deve ter um processo indivi-
dual, onde esteja reunida toda a sua documentação de identificação,

95
ACREDITAR NO FUTURO

bem como outros documentos que se relacionem com os aspectos


sociofamiliares, jurídicos, médicos, pedagógicos e psicológicos, o
qual deve ser de acesso restrito.
Deve ter um plano de intervenção individualizado que vai ser
o fio condutor de toda a intervenção a realizar com a criança ou
o jovem durante a sua estadia em acolhimento residencial, onde
devem constar os objectivos da intervenção, as estratégias de actua-
ção, a partilha de responsabilidade pelo cumprimento e execução
do mesmo, e, como não poderia deixar de ser, a sua avaliação. Estes
são elaborados de acordo com as suas características e necessida-
des, e deles constam acções que promovam o desenvolvimento das
capacidades e competências das crianças e dos jovens. Estes planos
são elaborados pelo psicólogo ou pelo educador de referência da
criança ou jovem.
Com a entrada da criança na residência, deverá ser iniciada a
construção do seu livro de vida, que integre os momentos-chave da
sua vida e desenvolvimento.
A criança dificilmente ultrapassará as suas dificuldades de vincu-
lação e de estabelecimento de novas e saudáveis relações afectivas se
não conseguir ou se não a ajudarem a entender o que se passou com
ela própria, na sua história pessoal e na relação com a sua família.
Com base neste pressuposto, e tendo em conta que muitas das
crianças e dos jovens têm um passado que inclui múltiplas perma-
nências em diferentes lugares e instituições, marcadas igualmente
pela presença de vários adultos cuidadores, o que por si só acaba
por gerar confusões entre as memórias da sua vida real e as suas pró-
prias fantasias, é importante a construção de um livro de vida como
forma metodológica de assegurar a existência da história de vida da
criança ou do jovem, através de um registo fiel que contenha aspec-
tos e sentimentos considerados relevantes para cada um deles.
O livro de vida constituiu-se como um meio fundamental para o
desenvolvimento da identidade própria, permitindo à criança e ao
jovem entender e aceitar a sua história, bem como proceder à con-
sequente organização mental da mesma.

96
3. QUALIFICAR O ACOLHIMENTO EM INSTITUIÇÃO

Neste sentido, todas as crianças e jovens acolhidos elaboram


com o educador de referência o seu livro de vida, activamente e
em função das suas capacidades e limitações, num contexto des-
contraído, lúdico e apelativo, conseguindo por um lado reforçar as
memórias e garantir igualmente, pelo poder da escrita, a perpetua-
ção dessas mesmas recordações e sentimentos.
Este livro tem uma dinâmica própria e individualizada, e vai-se
construindo à medida que os factos vão acontecendo na vida da
criança ou do jovem, e também da relevância que este ou o seu
educador de referência dão aos mesmos. Na sua saída da residên-
cia, o livro de vida é um dos pertences da criança ou do jovem que
o deve acompanhar.
A criança deve ser informada da sua situação, considerando sem-
pre a sua idade, maturidade e capacidade de compreensão dos fac-
tos. É importante dar-lhe a conhecer as causas do acolhimento e
também as perspectivas futuras.

O grande papel da equipa do CAT ou LIJ é ser promotora de


esperança para cada criança e jovem.

Respeito pelos direitos da criança e das suas famílias – Todas


as crianças que se mantêm em acolhimento residencial têm basi-
camente os mesmos direitos das crianças que estão integradas nas
suas famílias.
As crianças e os jovens têm direito a manter contactos com a sua
família (apenas pode ser restringido pelo tribunal se este considerar
que o relacionamento com a mesma poderá provocar danos à criança,
ou colocar em perigo a sua integridade física), com amigos, etc.
As visitas dos familiares são efectuadas de acordo com o plano
acordado na primeira entrevista, e que foi previamente assinado pela
família e pela equipa técnica da residência. Estas visitas são inicial-
mente acompanhadas por um dos elementos da equipa técnica ou
da equipa educativa, de forma a salvaguardar o bem-estar da criança,
possibilitar a observação da relação entre a criança e os seus familiares

97
ACREDITAR NO FUTURO

e ajudar os pais a melhorarem as suas competências parentais, de


modo a agirem de uma forma adequada com as suas crianças e jovens,
compreendendo as suas necessidades e dando-lhes uma boa resposta.
As visitas são ajustadas consoante a evolução da situação e respei-
tando sempre o projecto de vida delineado para aquela criança.
As crianças e os jovens têm direito a estar integrados nas estru-
turas da comunidade, de forma a potenciar a sua adequada inte-
gração social.
Em função da idade e da sua capacidade, as crianças e os jovens
devem participar activamente nas decisões que irão ser fundamen-
tais para a concretização do seu projecto de vida, deve ser-lhes dada
a possibilidade de participação na construção do plano socioeduca-
tivo individual, bem como na sua concretização.
As crianças e os jovens têm direito à confidencialidade, a serem
tratados de uma forma digna e com respeito, quer pelas equipas téc-
nica e educativa, quer pelos seus pares.
A criança deve conhecer os seus direitos e os seus deveres, e a
equipa deverá ser muito coesa e consistente na forma como efectua
a sua operacionalização.
No caso de uma criança se sentir maltratada ou pressionada quer
por um adulto, quer por um dos pares, deve ter um adulto de refe-
rência em quem deposite confiança suficiente para falar sobre essa
situação. Essa pessoa pode ser interna ou externa à instituição onde a
criança se encontra acolhida (ex.: voluntário, professor, monitor…).
As famílias têm direito a estar com as crianças desde que o mesmo
não tenha sido restringido por entidade judicial, e de acordo a não
prejudicar a criança, tendo em consideração a sua participação em
actividades escolares e extra-escolares, promotoras do seu desen-
volvimento integral, em horários a que as visitas não colidam, ou
ponham em causa, o bom funcionamento da instituição.
As famílias devem participar activamente na concretização do
projecto de vida das suas crianças, bem como em actividades da
vida diária daquelas, de forma a promover e melhorar as suas com-
petências parentais.

98
3. QUALIFICAR O ACOLHIMENTO EM INSTITUIÇÃO

O grande papel da equipa do CAT ou LIJ é conquistar a con-


fiança das crianças e dos jovens.

Adequada cobertura das necessidades básicas da criança –


Os equipamentos que promovam o acolhimento residencial devem
possuir um conjunto de requisitos que permitam às crianças e aos
jovens sentirem-se confortáveis. Pode ser um andar ou uma vivenda,
que esteja integrada no tecido urbano de forma a estar acessível,
quer para as crianças, quer para quem as vai visitar. Devem ter esco-
las, centros de saúde e outras estruturas que sejam facilitadoras de
uma boa integração social.
Uma residência deve ser pensada em função daqueles que lá
vivem e também dos que lá trabalham, e cada criança ou jovem tem
de sentir que o espaço foi pensado para si. Este tipo de estrutura,
pelas características que lhe são inerentes, deve conseguir conciliar
as exigentes normas de segurança, com o conforto e o bem-estar
indispensáveis a uma casa que se pretende que seja de ambiente
familiar.
O mobiliário do equipamento deve ser confortável, resistente e
adequado à idade das crianças que acolhe, ser uma casa acolhedora,
bem climatizada, agradável, cuidada, limpa, com espaços indivi-
dualizados e que possibilitem a preservação da intimidade, sem ser
padronizado e preservando o gosto pessoal.
Os espaços devem ser claramente delimitados, o que se torna
organizador para a criança, aprendendo a respeitá-los como tal,
e não invadindo o espaço privado de cada um.
As crianças e os jovens são ensinados e incentivados a respeitar
e conservar as instalações, bem como o mobiliário e os equipamen-
tos, com sentido de pertença.
No que diz respeito à alimentação, esta deve ser variada e de
acordo com as idades e necessidades da população que acolhe.
A comida deve ser confeccionada nas instalações do LIJ ou do
CAT para que as crianças e os jovens tenham acesso a experiên-
cias e aprendizagens semelhantes às que têm as crianças e jovens

99
ACREDITAR NO FUTURO

integrados numa família. Devem ter noções da forma como se deve


fazer uma alimentação saudável e, sempre que possível, devem rea-
lizar algumas compras de produtos alimentares.
No que diz respeito ao vestuário, e sempre que a idade e capa-
cidade o permitam, as crianças e os jovens devem participar acti-
vamente na escolha da sua roupa, constituindo o momento da sua
aquisição uma forma de aprendizagem, de promoção de auto-estima
e de saber decidir adequadamente. A roupa deve ser personalizada
e guardada em armários individuais acessíveis para as crianças e
jovens, sempre que possível nos seus quartos.
É também importante que as crianças tenham acesso a dinheiro
de bolso, em montante a definir de acordo com a sua idade e crité-
rios em vigor na própria residência, os quais deverão ser do conhe-
cimento de todos. Também a gestão do dinheiro de bolso tem um
carácter educativo, pois é importante que as crianças aprendam a
dar-lhe o verdadeiro valor, assim como é importante que comecem
a perceber a importância de efectuar poupanças, formas de efectuar
compras sem gastar tanto, etc…
As crianças devem ter acesso a transporte de forma a poderem
visitar as famílias, frequentar escolas e actividades extra-escolares,
bem como de ócio ou outras… Esta é uma necessidade básica,
que devidamente trabalhada, vai permitir um grau de autonomia
à criança ou ao jovem que é fundamental para a sua integração
sociofamiliar.
O facto de as crianças ingressarem em instituições que sejam
acessíveis e onde possam manter um contacto regular com a sua
família de origem, permite ver com maior clareza se a família
demonstra interesse por manter uma relação com a criança, ou se
acaba por não a visitar com a frequência com que poderia fazê-lo,
por manifesto desinteresse. Este pode ser um dado precioso para a
definição célere do projecto de vida da criança.
A comunidade onde o LIJ ou CAT está integrado deve ter recur-
sos variados e suficientes para assimilar sem problemas a integração
social das crianças e dos jovens.

100
3. QUALIFICAR O ACOLHIMENTO EM INSTITUIÇÃO

As crianças não devem ser deslocalizadas do seu meio de ori-


gem, salvo se essa for uma condição essencial para defender os
seus interesses (jovem que estava integrada em rede de prostitui-
ção ou tráfico de droga, por exemplo), pois para além da sua famí-
lia, tem direito à sua comunidade, aos seus amigos, ao seu meio
cultural, etc.

O grande papel da equipa do CAT ou LIJ é acreditar nas


capacidades das crianças e dos jovens.

Escolarização e alternativas educativas – As crianças devem


ter acesso a educação formal, informal e vocacional, de acordo com
os seus direitos, sempre que possível nas instituições de ensino da
comunidade local.
A escolaridade é uma das áreas em que as crianças acolhidas
demonstram maiores dificuldades, o que se pode dever à falta de
estimulação, ou a défices cognitivos, assim como à baixa motivação.
É fundamental estabelecer para cada uma das crianças um plano
individualizado com estratégias e recursos pensados para que as
crianças superem as suas dificuldades, com especial ênfase em estra-
tégias de reforço positivo. É muitas vezes necessário descobrir os
pontos fortes da criança e do jovem para os motivar para o estudo.
O êxito escolar está directamente relacionado com o desenvolvi-
mento pessoal e com a auto-estima.
É fundamental promover hábitos de trabalho e um espaço, pre-
ferencialmente o seu quarto, onde a criança ou jovem possa dedi-
car algum tempo, diariamente, ao estudo.
Sabemos também que a escolarização é um factor fundamen-
tal para que a criança consiga romper com o ciclo de exclusão e
pobreza de onde provém.
Sempre que necessário, estas crianças têm de ser devidamente
ajudadas, o que exige um trabalho personalizado e uma grande
dedicação por parte da equipa que as acompanha diariamente. Se
a criança demonstrar um grande atraso escolar e não conseguir

101
ACREDITAR NO FUTURO

acompanhar os seus colegas, provavelmente vai ser preciso recorrer


a um apoio externo adequado para cada um dos casos.
Para muitos jovens torna-se necessário que, após a conclusão da
escolaridade obrigatória, sejam integrados em cursos de formação
profissional, pois estes podem potenciar os seus pontos fortes, valo-
rizando as suas competências e promovendo a sua autonomia.

O grande papel da equipa do CAT ou LIJ é dar espaço às


crianças e aos jovens para poderem pensar.

Cuidados de saúde – Os cuidadores devem promover a saúde


das crianças e dos jovens que se encontram sob a sua responsabili-
dade e tomar as providências para que eles recebam cuidados médi-
cos e outros cuidados de saúde que estão garantidos e protocolados
no serviço nacional de saúde, e, sempre que necessário, conside-
rando as especificidades de cada criança e jovem.
Todas as crianças e jovens devem usufruir de um acom-
panhamento médico individualizado e adequado ao seu caso
particular.
Há que ter em conta que muitas vezes os maus-tratos e negli-
gência que estas crianças sofreram lhes provocaram sequelas e lesões
que terão de ser tratadas ou minimizadas através de um tratamento
adequado.
Para além dos cuidados de saúde que se prestam no dia-a-dia é
importante também promover, neste espaço de acolhimento, a edu-
cação para uma vida saudável, abordar temas de educação sexual,
alimentação, higiene… Estes temas podem ser tratados individual-
mente e também em grupo, sempre de acordo com a idade da
população-alvo.
O tratamento destes temas nas várias vertentes é fundamental,
pois é necessário que as crianças e os adolescentes estejam desper-
tos para os mesmos, possam colocar as suas dúvidas de uma forma
aberta, ou sejam encaminhados para outros espaços onde pos-
sam ter resposta mais eficaz para as suas questões, nomeadamente

102
3. QUALIFICAR O ACOLHIMENTO EM INSTITUIÇÃO

consultas para adolescentes, planeamento familiar, distúrbios ali-


mentares, comportamentos aditivos, etc.

O grande papel da equipa do CAT ou LIJ é promover um


ambiente reparador e terapêutico para as crianças ou para
os jovens.

Integração social – As crianças e os jovens que se encontram


acolhidos devem levar uma vida tão similar quanto possível à das
crianças e dos jovens que vivem em ambiente familiar. Assim,
devem participar em actividades lúdicas e de lazer que sejam pro-
movidas, quer pela instituição, quer pela comunidade onde estão
inseridas. O contacto com crianças e outras pessoas da comunidade
deve ser incentivado e facilitado.
As crianças e os jovens devem frequentar actividades extra-esco-
lares, sendo respeitada a sua escolha, salvo se a mesma não for ade-
quada ao seu desenvolvimento. Esta participação em actividades
da comunidade vai-lhes permitir a possibilidade de estabelecerem
outras relações de amizade e também vivenciarem novas experiên-
cias que poderão ser muito importantes no seu crescimento, no-
meadamente frequentar a casa dos amigos, e também permitir que
os amigos o possam visitar no lar.
As crianças e os jovens devem ter acesso aos meios de comu-
nicação usuais, tais como televisão, jornais, revistas, computador,
cinema, etc. A selecção dos programas, filmes e livros deve ser uma
das tarefas do educador, bem como gerir a disponibilidade quoti-
diana e o seu acesso, como sucede em qualquer família.
É fundamental que a criança, desde pequena, possa acompanhar os
elementos da equipa quando estes se deslocam para efectuar compras,
para que aprenda como agir nestas situações vulgares do dia-a-dia,
à medida que a idade e o seu desenvolvimento lhes permita poder ser
a própria criança ou o jovem a fazer estas pequenas tarefas.
Esta metodologia de aprendizagem pode ser também decalcada
para que aprenda a utilizar a rede de transportes da sua cidade.

103
ACREDITAR NO FUTURO

As situações anteriormente descritas constituem um factor muito


importante para a sua progressiva autonomia.
Ainda na vertente da integração e interacção, é de salientar a
importância da coexistência, no mesmo espaço, de crianças e jovens
de ambos os sexos, desde que existam recursos adequados no que
diz respeito à estrutura da residência e pessoal suficiente para estar
atento às dinâmicas que se estabelecem.
Outro aspecto importante prende-se com o facto de o pessoal
que integra as equipas técnica e educativa que trabalham nas resi-
dências ser constituído também por figuras masculinas e femininas,
pois é importante a existência de ambos para favorecerem o pro-
cesso de identificação e de aprendizagem dos respectivos papéis.
Como acontece na família, também numa residência tem de
haver regras e limites. É necessário que as crianças conheçam bem
as mesmas e as cumpram, mas há determinadas actividades que
podem ser flexibilizadas sem colidir com o funcionamento do lar,
permitindo assim respeitar o ritmo de cada criança ou jovem, tal
como acontece nas famílias e, ao mesmo tempo, dando-lhe alguma
responsabilidade e autonomia.
Proporcionar actividades diferentes nos dias festivos, fins-de-
-semana e férias é também fundamental, pois permite às crianças e
aos jovens saírem com a família e amigos e terem novas experiências.
Os dias festivos, com as tradições da região e do país, bem como
dias especiais do próprio lar, promovem sentido de pertença e iden-
tidade e podem constituir-se como actividades reparadoras que as
ajudem a organizarem-se.
As férias e fins-de-semana quebram a rotina e permitem que a
criança ou o jovem, tendo em consideração a sua idade e capaci-
dade, consiga escolher e propor aos seus educadores actividades,
que possam passar por sair com amigos para passear, ir ao cinema,
etc. Assim aprendem a escolher, a defender os seus pontos de vista
e a negociar, conquistando autonomia.
É importante que as equipas estejam devidamente dimensio-
nadas para que, aos fins-de-semana, as crianças mais pequenas

104
3. QUALIFICAR O ACOLHIMENTO EM INSTITUIÇÃO

também possam usufruir de actividades diferentes, que lhes permi-


tam ter novas e gratificantes experiências.

O grande papel da equipa do CAT ou LIJ é incentivar um


espírito de pertença nas crianças e nos jovens.

Preparação para a autonomia – É fundamental efectuar um


trabalho com estas crianças e jovens capaz de potenciar e optimi-
zar todo o seu processo de crescimento e individuação/autonomia,
a sua capacidade de tomada de decisões, bem como de resolução de
problemas, auto-orientação e responsabilidade social.
Temos de ter em mente que os lares são sempre transitórios,
até se encontrar uma situação mais estável e que dê uma melhor
resposta à criança ou ao jovem, pelo que temos de dirigir a nossa
intervenção identificando claramente quais as competências que a
criança ou o jovem necessitam de desenvolver de forma a que con-
sigam atingir os seus objectivos. Assim, temos de utilizar técnicas
de trabalho em grupo ou individual, dando-lhes a conhecer novas
experiências e actividades diversas, aplicação de novos programas
de intervenção e também a avaliação dos resultados obtidos após a
aplicação dos mesmos.
As crianças e jovens devem participar activamente na construção
e concretização do seu projecto de vida, tendo sempre em conside-
ração a sua idade e grau de desenvolvimento, pelo que o educador
de referência deve manter a disponibilidade necessária para expli-
car à criança tudo o que ocorreu desde o seu ingresso na residência,
o porquê da sua situação actual e ajudá-la a perspectivar o futuro,
assim como a lidar com as suas expectativas e ansiedade.
Ganhar autonomia pressupõe claramente que o jovem tem capa-
cidade para assumir maior responsabilidade nas diferentes áreas da
sua vida, e é muito importante conseguir que a criança ou o jovem
vá assumindo responsabilidades de acordo com a sua idade e capa-
cidades, pois é através deste processo que a sua autonomia ganha
uma forma sustentada.

105
ACREDITAR NO FUTURO

Temos de ter consciência que muitos destes jovens quando saí-


rem do lar contam apenas consigo, pois não têm famílias que lhes
possam dar apoio e, portanto, as competências que conseguirem
adquirir durante a sua estada no lar são fundamentais para concre-
tizarem uma autonomização com sucesso.

O grande papel da equipa do CAT ou LIJ é incutir segurança


nas crianças ou nos jovens.

Apoio às famílias – Quando uma criança é acolhida, a estra-


tégia inicial deve ser a de trabalhar com a família tendo em vista a
reintegração familiar da criança.
Há que aproveitar a crise provocada pela retirada da criança do
seio familiar e trabalhar a criança e a família para que, em curto
espaço de tempo, se possa concretizar a reunificação familiar.
O momento da admissão da criança no centro de acolhimento
temporário ou no lar de infância e juventude pode ser um momento
de grande tensão para os familiares que acompanham a criança,
pelo que a equipa técnica deverá ter em conta a necessidade de pro-
mover um ambiente de tranquilidade e serenidade.
O diálogo que possa ser estabelecido com os familiares neste
momento pode ser determinante.
Aqui é muito importante o apoio que a equipa técnica pode
prestar, pois é necessário ganhar a confiança da família. Através
das visitas, telefonemas e com a estimulação de contactos é possí-
vel realizar um trabalho de motivação e aproximação, bem como
de uma forma mais específica, melhorar as competências parentais
para que, tão rápido quanto possível, possam receber os seus filhos
em casa, prestando-lhes o apoio de que necessitam para se desen-
volverem saudável e harmoniosamente.
É fundamental trabalhar a vinculação entre as crianças e os seus
pais, para que a mesma possibilite uma relação de qualidade, que
seja protectora para a criança.

106
3. QUALIFICAR O ACOLHIMENTO EM INSTITUIÇÃO

Devem ser identificados objectivos focalizados no desenvolvi-


mento das competências parentais, para que os pais possam educar
os seus filhos e cuidar deles. Estes objectivos podem ser trabalhados,
quer individualmente, quer em grupo, mediante actividades reali-
zadas pela equipa técnica e educativa do lar.
É importante promover a responsabilização progressiva das
famílias nomeadamente na educação e saúde levando-as a parti-
cipar em actividades organizadas pela escola, tais como reuniões
com os professores, idas ao médico, efectuar o programa de vaci-
nação, etc.
O trabalho com as famílias das crianças acolhidas será sempre
realizado tendo em consideração o projecto de vida que foi traçado
para a criança em questão.
É fundamental que, no plano de acompanhamento que se
traça para cada uma das famílias, se identifique os técnicos res-
ponsáveis pela sua concretização, para que uma mesma família
não seja intervencionada por um sem-número de técnicos que,
muitas vezes desconhecendo o trabalho que se está a realizar, aca-
bam por dar orientações contraditórias o que só geram entropia
nas famílias.
Há que respeitar o princípio da intervenção mínima, e que a
mesma seja devidamente planificada e orientada para um determi-
nado objectivo.
É ainda de salientar a importância de manter a família ao cor-
rente da evolução do processo, esclarecendo-a sobre os seus direitos
e deveres e implicando-a no projecto de vida da criança; ajudar a
família a identificar as situações que necessitam de mudança; orien-
tar a família, encaminhando-a para os serviços que podem apoiá-la
na resolução dos seus problemas; abordar questões que surjam no
decorrer das visitas à criança ou situações de tensão em relação ao
seu acolhimento; trabalhar a adequação da interacção entre a famí-
lia e a criança, nomeadamente no que diz respeito à criação de
expectativas falsas ou precoces.

107
ACREDITAR NO FUTURO

O grande papel da equipa do CAT ou LIJ é respeitar as famí-


lias das crianças e dos jovens.

Segurança e protecção – Um dos principais objectivos do aco-


lhimento residencial é proteger a criança, garantindo-lhe segurança,
confiança e um ambiente confortável que a retire do perigo ou do
risco em que se encontrava antes do seu acolhimento.
Nas residências devem respeitar-se as normas de segurança, para
evitar acidentes domésticos, ou situações que coloquem a criança
em risco.
As residências deverão garantir que as crianças e os jovens não
sejam colocados em risco ou perigo por outras crianças e jovens
que revelem agressividade, ou problemas de comportamento grave.
Há que ter atenção ao comportamento abusivo de algumas crian-
ças, pelo que as equipas técnicas e educativas devem estar devida-
mente preparadas para lidar com estas situações e, sempre que se
considere necessário, serem reforçadas, pois sabemos que, quando
o pessoal é insuficiente, as possibilidades de existirem abusos desta
natureza aumentam.
Também há que estar atento para que as crianças e jovens não
sejam sujeitos aos vários tipos de abuso por parte dos adultos que
os rodeiam.
É fundamental estabelecer com a criança uma relação de con-
fiança e segurança, no lar, em particular por parte do seu educador
de referência para que este a possa ajudar sempre que necessário.
O mesmo se passa com as suas saídas e estadias em casa, junto
de familiares. É importante que o educador de um modo discreto,
e respeitando os limites impostos pela própria criança, se assegure
de que não existem situações de abuso ou maus-tratos.
Tendo em consideração a história de vida destas crianças, é natural
que possam vir a ter novamente contacto com ambientes onde foram
vítimas de abusos e maus-tratos, pelo que se lhes deve dar conheci-
mentos e estratégias, de modo a que os possam utilizar no sentido
de reduzirem o seu grau de vulnerabilidade perante os mesmos.

108
3. QUALIFICAR O ACOLHIMENTO EM INSTITUIÇÃO

Estas crianças e estes jovens necessitam de sentir, da parte dos


adultos que trabalham na residência, afectividade, disponibilidade
e compreensão perante os seus problemas, pois só assim podemos
considerar estar a desenvolver um trabalho individualizado e com
bases sólidas que possa permitir a estas crianças e jovens acredita-
rem num futuro diferente do passado que viveram. Os profissio-
nais que trabalham nestes centros têm de ter sempre em conta que
a sua principal missão é defender os direitos das crianças e jovens
que estão sob a sua protecção, criando-lhes condições promotoras
de um bom desenvolvimento integral, ajudando-os a ganhar com-
petências que lhes permitam tornarem-se cidadãos de pleno direito,
integrados socialmente.

O grande papel da equipa do CAT ou LIJ é garantir protecção


e estabilidade às crianças e aos jovens.

Projecto de vida – Em função do tempo útil da criança, do


direito a viver no seio de uma família (biológica, ou outra alterna-
tiva) e do respeito pela individualidade da criança, é definido um
projecto de vida que melhor defenda os seus superiores interesses.
Entende-se por projecto de vida aquilo que se perspectiva que,
num futuro próximo, venha a ser concretizado na vida de cada
criança ou jovem, na sequência do plano de intervenção concertado
que com eles está a ser desenvolvido.
O estudo, a análise, a avaliação e o diagnóstico de cada situação
são da responsabilidade da equipa técnica da residência que traba-
lha transdisciplinarmente e, para isso, conta com a participação de
diferentes entidades e serviços da comunidade.
No sentido de evitar situações complexas, em que vários técni-
cos e serviços intervêm simultaneamente no acompanhamento da
situação da criança e da sua família, nem sempre planeando e arti-
culando entre si as acções que estão a desenvolver, é de primor-
dial importância precaver uma acção interdisciplinar coordenada.
A não verificação deste pressuposto pode levar muitas vezes, a que

109
ACREDITAR NO FUTURO

a família se sinta envolvida por inúmeros técnicos que, por não


terem uma acção concertada, e terem-na, por vezes, mesmo anta-
gónica, podem causar claros prejuízos, quer para a família, quer
para a criança. Deste modo, a existência de uma acção interdisci-
plinar coordenada assente numa boa colaboração entre os técnicos
que estão a intervir na situação para que a intervenção se foca-
lize na criança e na sua família, levando a uma evolução positiva
e que possa contribuir para a desinstitucionalização da criança de
uma forma sustentada, – objectivo último da intervenção – cons-
tituem factores indispensáveis na condução do processo e sucesso
da intervenção.
As diferentes fases de acompanhamento de cada situação devem
ser comunicadas, atempadamente aos órgãos decisores, para que
estes disponham da matéria necessária conducente à tomada de
decisões.
Os familiares e a própria criança participam de acordo com as
suas capacidades e desejo, e deverão ser informados de uma forma
transparente da avaliação que a equipa vai efectuando, relativa-
mente à situação global da criança ou do jovem.
De acordo com o projecto de vida definido, prepara-se a criança,
de modo a facilitar a sua adesão ao mesmo.
A definição do projecto de vida constitui-se como uma estraté-
gia de intervenção, na qual estão presentes as seguintes premissas:
– o encaminhamento da criança em tempo útil é uma das
principais preocupações em todo o processo de acolhimento;
– a definição do projecto de vida pressupõe um diagnóstico
prévio e interdisciplinar, para um conhecimento profundo
da situação pessoal, educacional, familiar e social;
– a elaboração do projecto de vida pela equipa interdisciplinar,
com a participação activa da criança, tendo em consideração
a sua idade e capacidade, assim como da família;
– pressupõe um trabalho em rede com todos os organismos
que intervêm junto da família e da criança;

110
3. QUALIFICAR O ACOLHIMENTO EM INSTITUIÇÃO

– a definição do projecto de vida prioriza a integração da


criança ou do jovem numa família, a sua, preferencialmente,
ou em família alternativa;
– na impossibilidade de se encontrar uma resposta do tipo fa-
miliar, deve ser mantido o acolhimento em LIJ e continuar a
proporcionar a esta criança ou jovem um acompanhamento
afectivo e educacional adequado e adaptado, preparando-os
para a autonomização plena;
– deve ser efectuado um acompanhamento sistemático de cada
situação, de modo a ser encontrada a resposta mais adequa-
da para cada criança ou jovem.

O grande papel da equipa do CAT ou LIJ é conseguir que as


crianças e os jovens acreditem no futuro.

Respeito pelo direito da criança à participação – A partici-


pação das crianças e dos jovens na vida do LIJ constituiu a base de
sustentação do trabalho educativo. Para além de um direito, con-
tribui para o desenvolvimento e bem-estar da criança e do jovem.
Para que os jovens se autonomizem é fundamental que possam
treinar as suas competências e que, aprendendo a fazê-lo, possam
dar sugestões e ideias sobre o lar onde vivem.
Constitui-se como fundamental que o jovem seja consultado
sobre as decisões que têm de ser tomadas, referentes ao seu projecto
de vida, tendo sempre em consideração a sua idade e maturidade.
A criança e o jovem devem ser incentivados a exprimir os seus
sentimentos e experiências. Devem participar activamente na cons-
trução do regulamento interno do LIJ, assim como em reuniões de
grupo onde se discutam assuntos importantes ao funcionamento do
próprio lar, e onde possam dar sugestões, ou simplesmente reflectir
sobre os assuntos que lhes dizem respeito.
O lar torna-se, assim, um espaço vivencial fundamental para a
realização de aprendizagens a vários níveis, nomeadamente ao nível
da convivência com adultos e com os pares, implicando muitas

111
ACREDITAR NO FUTURO

vezes a utilização de estratégias de negociação, bem como ao nível


de aprendizagem da defesa do seu ponto de vista, pois aprendem
a apresentar opiniões que dão corpo a uma vontade colectiva,
enquanto grupo.
Há que incentivar a participação do jovem não só no momento
de definição do seu projecto de vida, mas também nos momen-
tos de avaliação e reajuste do mesmo, caso este venha a ocorrer,
bem como em todas as decisões que afectem directamente a sua
vida.
Também é fundamental que se faça anualmente um questioná-
rio de satisfação às crianças e aos jovens que estão acolhidos no LIJ,
pois através da análise destes documentos, é possível que a equipa
possa melhorar o seu desempenho, ou manter a intervenção, caso
se venha a verificar que esta corresponde a um elevado grau de
satisfação.

O grande papel da equipa do CAT ou LIJ é conseguir que


as crianças e os jovens saibam tomar decisões de uma forma
reflectida e participem activamente na definição e concreti-
zação do seu projecto de vida.

112
3. QUALIFICAR O ACOLHIMENTO EM INSTITUIÇÃO

Princípios para um acolhimento de qualidade em instituição

Promover a integração social


A equipa do CAT ou LIJ deve incentivar um
espírito de pertença nas crianças e nos jovens.
Preparar para a autonomia
A equipa do CAT ou LIJ deve incutir segurança
nas crianças e nos jovens.
Dar apoio às famílias
A equipa do CAT ou LIJ deve respeitar as
famílias das crianças e dos jovens.
Garantir segurança e protecção
A equipa do CAT ou LIJ deve garantir protecção e
estabilidade às crianças e aos jovens.
Proporcionar um projecto de vida
A equipa do CAT ou LIJ deve conseguir que as
crianças e os jovens acreditem no futuro.
Individualidade
A equipa do CAT ou LIJ deve ser promotora de
esperança para cada criança e jovem.
Respeitar os direitos da criança e da família
A equipa do CAT ou LIJ deve conquistar a
confiança das crianças e dos jovens.
Satisfazer as necessidades básicas da criança
A equipa do CAT ou LIJ deve acreditar nas
capacidades das crianças e dos jovens.
Garantir escolaridade ou alternativa educativa
A equipa do CAT ou LIJ deve dar espaço às crianças
e aos jovens para poderem pensar.
Assegurar cuidados de saúde
A equipa do CAT ou LIJ deve promover um ambiente
reparador e terapêutico para as crianças e jovens.

Respeito pelo direito da criança à participação


A equipa do CAT ou LIJ deve conseguir que as crianças e os jovens
saibam tomar decisões de uma forma reflectida e participem
activamente na definição e concretização do seu projecto de vida.

113
ACREDITAR NO FUTURO

Gestão do Equipamento
A planificação orientada para os resultados

As actividades desenvolvidas nos CAT ou nos LIJ devem ser


sempre objecto de planificação, assim como a intervenção efec-
tuada. Esta planificação deve ser feita tendo em consideração as
características da população-alvo, isto é, das crianças e dos jovens
que à data estão acolhidos naquela unidade de acolhimento, bem
como do tipo de intervenção que se efectua no mesmo.
Quando efectuamos a planificação há quatro premissas funda-
mentais a ter em conta:

– O Projecto Educativo do CAT ou LIJ – o qual define e


caracteriza o tipo de intervenção que se faz com as crianças
ou jovens que aí se encontram acolhidos, tendo em consi-
deração as suas necessidades, características, interesses e ex-
pectativas. Nele têm de estar contidos os objectivos gerais e
específicos que se pretendem alcançar, assim como o mode-
lo educativo em que se baseia a sua actuação. Fundamental
é também o sistema de avaliação, pois é necessário efectuar
uma avaliação contínua de processos e resultados, pois só
assim a equipa pode melhorar a sua actuação.
– Regulamento Interno – conjunto de regras e procedimen-
tos pelos quais se pauta a actividade do CAT ou LIJ, con-
tendo os direitos e deveres das crianças e dos jovens, da fa-
mília e dos colaboradores. Define normas de convivência e
de actuação necessárias ao bom funcionamento do estabe-
lecimento, em função da população que acolhe. É funda-
mental que todos participem na construção do regulamen-
to interno.
– O Plano Anual de Actividades – deve conter e identifi-
car os objectivos estratégicos do CAT ou LIJ, bem como o
conjunto de acções prioritárias para que estes se concreti-
zem com sucesso. Deve incluir as linhas orientadoras que

114
3. QUALIFICAR O ACOLHIMENTO EM INSTITUIÇÃO

definem o posicionamento do equipamento, bem como a


sua missão.

Nele devem estar identificados os factores internos e externos


que possam condicionar a sua actividade, assim como os recursos
necessários à realização do programa de actividades identificado.
– Relatório Anual de Actividades – é um instrumento que
nos permite avaliar a actividade desenvolvida durante o
ano, identificar áreas de melhoria, e avaliar os resultados
obtidos. Através desta avaliação é possível reorientar a ac-
tuação para obter melhores resultados.

Qualificação dos Colaboradores


Os recursos humanos como elemento fundamental

Os recursos humanos constituem um elemento fundamental no


trabalho desenvolvido por qualquer organização. Tendo em conta
a realidade em causa, podemos considerar os recursos humanos,
como um pilar fundamental para garantir a operacionalização de
boas práticas, em todo o processo educativo e no processo de desen-
volvimento das crianças e dos jovens, uma vez que os adultos cuida-
dores se apresentam como modelos relacionais de qualidade.
É fundamental que os adultos que trabalham em instituições de
acolhimento tenham formação na área das ciências sociais e huma-
nas, complementada com formação específica nesta problemática,
dada a complexidade e especificidade apresentada pelas crianças e
jovens que se encontram acolhidos e aos quais tem de ser prestada
uma intervenção de qualidade que possibilite a reparação de vivên-
cias traumatizantes que os conduziram a esta situação de separação
da família, ou dos adultos cuidadores.
Para além da formação, destacamos como essencial a motiva-
ção, a maturidade, integridade, capacidade de empatia e afecto,
assertividade e capacidade para lidar com conflitos e situações de

115
ACREDITAR NO FUTURO

crise. Mais adiante será desenvolvido com mais pormenor o perfil


do educador, no sentido lato do termo, ou seja, aquele a quem está
atribuída a função de educar, de se constituir como adulto de refe-
rência para as crianças e os jovens acolhidos.
Todo o adulto que trabalha em acolhimento residencial é, na sua
essência, um educador, seja quais forem as funções que desempe-
nha. Tal como dizia João dos Santos: «Educador é todo o adulto que
tem a coragem e assume a responsabilidade de educar uma criança.»

A legislação portuguesa exige que as instituições que tenham a


valência de acolhimento institucional sejam portadoras de autori-
zação de funcionamento passada pelo organismo competente para
o efeito, sendo este, no nosso país, o Instituto de Segurança Social
(ISS, I.P.).
A autorização deve ser concedida e periodicamente revista pelo
organismo competente, e deve basear-se, no mínimo, nos seguin-
tes critérios: objectivos da instituição, o seu funcionamento, recru-
tamento e qualificação dos funcionários, condições de prestação
de serviços, recursos e gestão financeira, avaliação dos resultados
alcançados.
As instituições devem ter identificada a sua missão, visão e posi-
cionamento, que se deverá reflectir na sua prática, descrevendo cla-
ramente quais são os seus objectivos, políticas, métodos e normas
de recrutamento, acompanhamento e supervisão de pessoal qualifi-
cado e apto para a prestação de cuidados, a fim de assegurar a con-
cretização dos seus objectivos.
Devem também elaborar um código de conduta para os seus cola-
boradores, consistente com as directrizes, definindo o papel funcional
de cada profissional, incluindo procedimentos claros para denúncia
de suposta conduta indevida de qualquer elemento da equipa.
As entidades que promovem acolhimento residencial de crian-
ças e jovens devem ter uma política clara de confidencialidade dos
dados referentes a cada criança, que seja conhecida e observada por
todos os cuidadores.

116
3. QUALIFICAR O ACOLHIMENTO EM INSTITUIÇÃO

Os colaboradores antes de serem contratados deverão ser sujei-


tos a um minucioso processo de selecção, baseado em entrevistas,
testes psicológicos e onde conste também a avaliação de anteceden-
tes, nomeadamente criminais.
As condições de trabalho, inclusive a remuneração dos colabo-
radores, deve reforçar a motivação e promover satisfação e conti-
nuidade neste trabalho, pois sabemos que um constrangimento
comum a muitas instituições é a grande rotatividade de pessoal,
o que é deveras nefasto para as crianças que acolhe, pois dificulta
a manutenção de uma relação de qualidade e de confiança com
os adultos cuidadores. Motivar os colaboradores, e dar a devida
importância ao trabalho que prestam, leva a que estes apresentem
maior disponibilidade para desempenhar o seu papel da maneira
mais apropriada e eficaz possível.
Devem compreender a importância do seu papel no desenvolvi-
mento de relações positivas, seguras e de confiança com as crianças
e serem capazes de desempenhar esse papel.
Os cuidadores devem receber formação no que respeita aos
direitos e necessidades específicas das crianças privadas de cuida-
dos parentais, e que, pelo facto de terem sido sujeitas a situações
muito complexas e particularmente adversas, se encontram mais
susceptíveis e vulneráveis. Devem também ser sensibilizados no que
diz respeito aos aspectos culturais, sociais, religiosos e de género.
O Estado deve fornecer recursos e instrumentos adequados para a
valorização desses profissionais, de modo a favorecer a implemen-
tação destas disposições.
É importante que lhes seja dada formação para saberem lidar
adequadamente com comportamentos desafiantes, inclusive técni-
cas de resolução de conflitos e para a prevenção de actos autodes-
trutivos ou que prejudiquem terceiros. Sabemos que muitos dos
jovens que integram os LIJ ou CAT têm este tipo de comportamen-
tos, não têm limites internos e apresentam frequentemente crises de
agressividade, colocando-se com frequência em perigo, bem como
às outras crianças residentes.

117
ACREDITAR NO FUTURO

Devem levar e incentivar as crianças e os jovens a tomar e colo-


car em prática decisões conscientes, tendo em conta os riscos e a
idade da criança, de acordo com as suas capacidades.

Trabalho em Equipa
Formas de actuação promotoras de sustentabilidade

Um adequado trabalho de equipa em contexto institucional


depende, directa ou indirectamente, da correcta execução da fun-
ção de cada um dos vários colaboradores.
Todo o trabalho pressupõe a execução de tarefas (individuais e
de grupo) definidas de forma independente e co-responsável, sendo
o trabalho em equipa indispensável para uma correcta actuação face
às crianças e aos jovens acolhidos.
A estabilidade, coesão e funcionamento da equipa que traba-
lha numa estrutura residencial é determinante e afecta extraordina-
riamente todo o ambiente e o quotidiano dos residentes, quer seja
positiva ou negativamente.
O trabalho em equipa multidisciplinar tem como base a parti-
lha de diferentes saberes e conteúdos técnicos e pressupõe: parti-
lhar informações e dúvidas; partilhar responsabilidades (evitando
sempre a diluição das responsabilidades individuais); promover e
desenvolver um sentido de pertença; contribuir para a coesão da
equipa; promover a coerência nas atitudes e comportamentos dos
adultos face às crianças e jovens; contribuir para uma comunicação
fluida e sem ruídos.
O desempenho da actividade em contexto institucional assenta
em características de âmbito individual como o bom senso, expe-
riência e conhecimento técnico, nunca perdendo de vista um
conjunto de princípios orientadores, tais como competências indi-
viduais, que surgem sempre ao serviço de um trabalho interdiscipli-
nar, orientado em função das necessidades das crianças e dos jovens
acolhidos. São valorizadas competências, tais como: capacidade de

118
3. QUALIFICAR O ACOLHIMENTO EM INSTITUIÇÃO

interagir e estabelecer relações contentoras e securizantes; capa-


cidade para identificar e interpretar os sinais manifestados pelas
crianças e pelos jovens; capacidade para assumir um modelo de
identidade e integridade; empatia; disponibilidade para ouvir; uti-
lização de uma linguagem centrada nos afectos e sensibilidade.

TRABALHO em EQUIPA

Importa que cada profissional revele uma capacidade crítica face


à sua prática diária, sendo relevante e representativo de uma boa
prática a criação de espaços de discussão e reflexão sobre o desempe-
nho profissional de cada técnico. Desta forma é trabalhada e desen-
volvida nos técnicos uma atitude de responsabilização face ao seu
trabalho e desempenho.
A privacidade e confidencialidade são direitos de todas as crian-
ças e jovens, pelo que se torna indispensável utilizar de forma res-
ponsável toda a informação conhecida, ainda mais num contexto

119
ACREDITAR NO FUTURO

em que é indispensável que a informação circule de forma fluida


entre os vários elementos da equipa.

Importa por isso:


– não expor informações pessoais e familiares de uma crian-
ça ou jovem perante adultos e pares não intervenientes no
processo;
– garantir que existam espaços próprios onde os técnicos pos-
sam abordar de forma segura assuntos relacionados com a
vida das crianças e jovens acolhidos;
– garantir um acesso restrito e acompanhado aos processos
individuais das crianças e jovens, se por eles for solicitado;
– permitir o acesso apenas à informação essencial ao desenvol-
vimento do trabalho de cada técnico.

Ainda assim, e considerando o trabalho diário e directo com


crianças e jovens, coloca-se, por vezes, como necessária, a que-
bra de confidencialidade na relação com eles. Considera-se indis-
pensável a quebra de confidencialidade nas situações em que, da
avaliação técnica, se perspective um risco à integridade física e emo-
cional da criança ou do jovem. Nestes casos, é importante ser dado
a conhecer à criança ou ao jovem que a informação será transmi-
tida a terceiros, e quais as razões para tal, salvaguardando-se assim
a confiança na relação estabelecida.

A rotatividade do pessoal tem de ser efectuado de forma crite-


riosa e adequada, pois, se for elevada, leva a que as crianças e os
jovens desinvistam ou desistam de ter uma relação de qualidade
com os adultos do lar. Protegem-se, querem assim evitar mais per-
das e, portanto, a intervenção personalizada e assente no relaciona-
mento acaba por não poder realizar-se. Todas as alterações ao nível
do pessoal são especialmente sensíveis e dizem respeito aos residen-
tes, que devem ser informados e envolvidos quer no acolhimento

120
3. QUALIFICAR O ACOLHIMENTO EM INSTITUIÇÃO

de um novo colaborador, quer na saída ou despedida de um


elemento da equipa.

O trabalho em equipa pressupõe formas de actuação que lhe


dêem sustentabilidade, tais como:

a) Reuniões da equipa interdisciplinar:


Neste espaço são abordados assuntos relacionados com os vários
aspectos de funcionamento dos lares de infância e juventude.
Podem ser trabalhados eventuais conflitos e dificuldades encontra-
das na actuação diária do trabalho desenvolvido com as crianças e
os jovens. Efectua-se também o estudo de caso, onde se apresenta o
percurso familiar e institucional da criança ou jovem, analisando-se
a situação actual nas várias vertentes, com o objectivo de uma ade-
quação da prática educativa e de uma resposta ajustada e eficaz face
às necessidades individuais de cada criança, no sentido da sua boa
adaptação ao contexto institucional, bem como à promoção de um
desenvolvimento harmonioso.
Discute-se o projecto de vida e o plano socioeducativo indi-
vidual correspondente a cada criança ou jovem, com a definição
das principais metas e objectivos a atingir, definição de estratégias
a utilizar, avaliação dos processos, identificação das competências
e capacidades a desenvolver para cada um, etc.
Abordam-se vários temas que integrem esta problemática num
contexto de formação em exercício.
As reuniões são internas ao lar, e nelas participam quer os ele-
mentos da equipa técnica, quer os elementos da equipa educativa,
com periodicidade pré-estabelecida.

b) Reunião de estudo de casos com serviços exteriores, em articula-


ção com parceiros:
Sempre que se considerar necessário, devem realizar-se reuniões
de estudo de caso com os diferentes serviços e equipas envolvi-
das no acompanhamento à situação da criança, do jovem e/ou

121
ACREDITAR NO FUTURO

família, no sentido de promover uma intervenção articulada e efi-


caz, com vista à definição, reavaliação e concretização do seu pro-
jecto de vida.
A articulação com parceiros implica o estabelecimento de con-
tactos com diversas entidades, que podem assumir um carácter mais
pontual ou mais frequente e sistemático, dependente do objectivo a
alcançar com a parceria. Após a admissão da criança ou do jovem,
é necessário reunir todas as informações pertinentes acerca de cada
um deles, com vista a realizar o estudo da situação que conduza à
definição célere do seu projecto de vida. Com esse intuito, promo-
vem-se reuniões com os parceiros envolvidos no caso.
Durante a permanência da criança ou do jovem em acolhimento
residencial deverão efectuar-se diligências com várias entidades, no
sentido de contribuir para o ajuste de estratégias que favoreçam a
adaptação e integração ao seu novo ambiente, e que lhe propor-
cionem um desenvolvimento integral harmonioso. Estes contactos
devem assumir um carácter regular e continuado.
As parcerias que assumem maior relevância são as que se encon-
tram no âmbito do serviço social, da educação e da saúde.

c) Reuniões pedagógicas:
Nestas reuniões participam as valências de educação e psico-
logia, e têm por objecto a definição e avaliação de objectivos e de
estratégias para os atingir, no sentido do desenvolvimento de com-
petências pessoais e sociais na criança e no jovem, de forma a pro-
mover-se o seu crescimento normal e harmonioso, bem como a
sua autonomização. Com estas reuniões pretende-se uma interven-
ção individualizada face a cada criança ou jovem, numa tentativa
de minimização dos efeitos nefastos inerentes à situação de acolhi-
mento residencial em que se encontra.

d) Reunião de supervisão:
Nestas reuniões pretende-se que haja um olhar externo de
alguém habilitado, que ajude a equipa a efectuar uma intervenção

122
3. QUALIFICAR O ACOLHIMENTO EM INSTITUIÇÃO

sustentada e adequada, face às necessidades específicas apresen-


tadas por cada criança ou jovem, assim como das suas famílias.
Podem ainda ter por objectivo incentivar, na equipa, a criati-
vidade, potenciando os conhecimentos dos seus elementos,
fomentando uma reflexão sobre o papel de cada um dentro da
organização, promover contributos, bem como efectuar uma
oportuna gestão de conflitos, ajudando os profissionais a geri-
rem os sentimentos e o stress vivenciado no decorrer da sua acti-
vidade laboral.
Pretende-se promover uma mudança organizacional e melhorar
a qualidade do acolhimento que prestamos, envolvendo todos os
intervenientes e as diversas formas de actuação, promovendo uma
reflexão conjunta sobre as mesmas.
O objectivo final será a maior satisfação das necessidades e
expectativas das crianças e dos jovens, tendo em consideração que
o mesmo só será alcançado com a adesão, a preparação, o empenho
e o sentido de responsabilidade de todos os colaboradores.
A supervisão deverá promover um melhor e mais eficaz desem-
penho da equipa, pois ajuda a clarificar o processo de trabalho,
permite planear processos de formação, identifica os princípios e
objectivos a alcançar, tendo em vista o bom funcionamento. Pode
ainda proporcionar a optimização da integração dos colaborado-
res, com claras vantagens para a organização e operacionalização.
Deverá estimular uma melhor fluência na comunicação, bem como
uma atitude pró-activa entre os elementos da equipa.
Cabe ainda ao supervisor apoiar a equipa, de forma a se encon-
trar estratégias e soluções para cada caso, fazendo com que o LIJ
ou o CAT cumpra a sua missão, em relação às crianças e aos jovens
que acolhe.
É também muito importante que contribua para que a equipa
inicie ou mantenha uma atitude de avaliação e reflexão face ao seu
próprio desempenho, tendo em conta os objectivos definidos e os
planos de intervenção delineados.

123
ACREDITAR NO FUTURO

Perfis Profissionais no Acolhimento Residencial


Educador, psicólogo, assistente social, director técnico, apoio

As crianças e os jovens que integram o sistema de acolhimento


residencial são seres únicos, com uma história de vida própria, que
necessitam de um espaço tranquilo e securizante, onde recebam
uma atenção individualizada e que garanta uma resposta eficaz às
suas necessidades específicas, para que cresçam e se desenvolvam
integralmente, tendo como modelos toda a equipa que exerce fun-
ções no estabelecimento, cujo objectivo final é contribuir para a
concretização de um projecto de vida sustentado para as crianças e
os jovens acolhidos.
A missão dos educadores pode ser definida como um esforço
para promover o desenvolvimento integral das crianças e jovens,
fomentando um ambiente securizante, familiar e saudável, onde se
estabeleça uma relação de confiança, respeitando a sua individuali-
dade, alicerçando a sua autonomia e integração social.
A actividade do educador desenvolve-se em interdisciplinari-
dade com o assistente social, psicólogo, e restante equipa educativa
e equipa de apoio geral do lar.
A principal função do educador é educar. Para tal, organiza,
orienta e planifica a vida quotidiana das crianças e dos jovens inte-
grados no lar.
Cada educador deve ter um grupo de crianças que lhe está refe-
renciado e cujo desenvolvimento acompanha em todas as suas eta-
pas, sendo o interlocutor privilegiado, quem de facto lhes dá um
acompanhamento mais individualizado e com uma presença mais
constante.
O CAT ou LIJ deverá ter educadores e educadoras de modo a
que as crianças e os jovens possam ter figuras de referência mascu-
linas e femininas.
Reflectir, analisar e avaliar as práticas educativas e a relação com
as crianças e jovens é um desafio constante na prática do educador.

124
3. QUALIFICAR O ACOLHIMENTO EM INSTITUIÇÃO

Do perfil do educador que trabalhe nesta área devem constar as


seguintes características (Shealy, 1995):
– Tolerância – aceitar e respeitar as crianças e os jovens com as
características e especificidades próprias de cada um.
– Sensibilidade – ser sensível à problemática que estas crianças
e jovens apresentam, compreendendo-os e ajudando-os a ul-
trapassar as dificuldades de uma forma positiva.
– Disponibilidade – estar disponível para ouvir as crianças e
os jovens quando estes necessitam de conversar com alguém
sobre o seu dia-a-dia, as suas angústias e as coisas boas que
também lhes vão acontecendo.
– Modelo coerente – através do seu exemplo, transmite va-
lores, comportamentos e atitudes adequadas e úteis para as
crianças. Dá muitas vezes o exemplo na forma como se de-
vem fazer as coisas. Na hora de tomar decisões, é coerente,
clarificando as situações e permitindo que as crianças e os
jovens saibam quais vão ser as consequências dos seus com-
portamentos, sejam eles positivos ou negativos. Transmite va-
lores como a tolerância, o respeito, a aceitação do outro, etc.
– Responsabilidade – executa as suas funções e cumpre as suas
obrigações. Demonstra iniciativa, é dinâmico, assumindo a
educação das crianças na íntegra.
– Profissionalismo e autoconfiança – comportamento correcto
seguindo as normas deontológicas da sua profissão, respei-
tando sempre o sigilo profissional. Sente-se seguro dos seus
conhecimentos e sabe lidar com a problemática em questão,
percebendo que as crianças e os jovens muitas vezes reagem
influenciados por situações que vivenciaram no seu passado
e não por reacção ao educador. Sabe que o seu trabalho para
ter êxito tem de passar pelo estabelecimento de uma relação
de confiança com as crianças e os jovens.
– Firmeza e afectividade – sabe conjugar a transmissão de afec-
to e empatia com a firmeza no estabelecimento de limites.

125
ACREDITAR NO FUTURO

– Competências sociais – tem capacidade para comunicar cla-


ramente, sabe mediar conflitos, sabe trabalhar em equipa e
com os parceiros.
– Promover competências pessoais – incentiva a autonomia
das crianças, transmitindo valores de responsabilidade e
autonomia.
– Saber trabalhar em equipa – apresenta capacidade para tra-
balhar em grupo com outros educadores e outros profissio-
nais, assumindo compromissos, respeitando consensos, coo-
perando para a construção de um projecto comum.
– Flexibilidade – apresenta capacidades para responder de for-
ma distinta, consoante as situações, o momento e os inter-
ventores.
– Maturidade e bom senso – tem capacidade para se autocon-
trolar, sabe compreender as necessidades das pessoas que o
rodeiam, consegue refrear a impulsividade. Sabe fazer o que
está correcto em cada momento e tomar as decisões adequa-
das para o bem-estar das crianças e jovens.
– Estabilidade emocional – tem equilíbrio emocional, boa re-
sistência à frustração e estratégias positivas perante os pro-
blemas, sabe ser aberto e sincero para com as crianças. De-
verá ter uma boa auto-imagem, estar consciente dos seus
pontos fortes e das suas necessidades de melhoria.

Funções do educador

As funções dos educadores que desempenham a sua actividade


em equipamentos que promovam acolhimento residencial são vas-
tas e muito variadas. Assim sistematizam-se as que parecem ser
mais importantes, divididas por grupos e inspiradas na classifica-
ção de funções proposta por Whitaker, Archer e Hicks (1998), ajus-
tando-as à nossa realidade e modelo de protecção.

126
3. QUALIFICAR O ACOLHIMENTO EM INSTITUIÇÃO

Dá-se ênfase à importância de cada criança ou jovem ter um


adulto de referência, com quem mantém uma relação preferen-
cial. Sempre que possível, será este adulto a efectuar o trabalho de
acompanhamento mais individualizado a cada criança ou jovem
acolhido.

Trabalho individual com crianças e jovens – Educador de


Referência:
– Acolhe as crianças e os jovens no LIJ ou CAT.
– Acompanha directamente a criança durante o seu percur-
so no sistema de acolhimento residencial e, também, nas si-
tuações de saída quando volta a integrar a sua própria famí-
lia, quando integra família alternativa, seja adoptiva, seja de
acolhimento. Deve também fazer o acompanhamento pró-
ximo quando o jovem se autonomiza.
– O educador tem de apresentar disponibilidade para ser o
modelo de referência da criança ou do jovem, sendo aquele
que melhor os conhece na íntegra.
– Consegue criar uma relação privilegiada em que se crie uma
cumplicidade capaz de fazer a criança sentir-se tranquila e
segura.
– É da sua responsabilidade colmatar todas as necessidades bá-
sicas e materiais (roupa, calçado, material escolar, etc.) apre-
sentadas pela criança, ajudando-a, consoante a sua idade
e capacidade, a escolher e a cultivar o gosto, promovendo
também a sua auto-estima.
– Reconhece as necessidades das crianças e dos jovens, quer a
nível emocional e educativo, bem como as sequelas provo-
cadas pelos maus-tratos e abusos de que foram vítimas, ten-
tando delinear estratégias para que as mesmas possam ser
superadas, muitas vezes com a colaboração de outros profis-
sionais (psicólogo, terapeuta, etc.).

127
ACREDITAR NO FUTURO

– Promove condições que facilitem a integração das crianças e


dos jovens no LIJ ou no CAT, ajudando-os a desenvolver um
relacionamento positivo com outras crianças e jovens, com
os adultos, baseado no respeito mútuo, na confiança, segu-
rança e comunicação.
– Ajuda a criança ou o jovem a compreender quais as razões
pelas quais se encontram acolhidos, bem como a lidar com
situações passadas e efectuar planos para o futuro, favorecen-
do a sua tomada de decisão e participação activa no seu pro-
jecto de vida.
– Promove o desenvolvimento da própria identidade, ajudan-
do a criança a reconstruir a sua história de vida, dando-lhe
um sentido de continuidade, bem como a integrar todas as
experiências vividas desde a sua infância.
– Reconhece sinais que podem desencadear situações de vio-
lência e mudanças de humor, sabendo como resolver estas si-
tuações de forma assertiva, e sempre tendo presente o supe-
rior interesse da criança.
– Protege a criança ou o jovem de danos, seja qual for a sua
procedência.
– Promove actividades construtivas e reparadoras.
– Proporciona respostas adequadas às crianças e jovens, acei-
tando as suas qualidades e limitações.
– Dá a conhecer às crianças e jovens as regras e o regulamento
da instituição, ajudando-os a aceitá-los e a percebê-los.
– Mantém actualizados os registos formais e informais sobre
as crianças, respeitando, sempre que necessário, a confiden-
cialidade destes.
– Promove a aquisição de hábitos de higiene pessoal adequa-
dos à idade e sexo da criança e do jovem.

128
3. QUALIFICAR O ACOLHIMENTO EM INSTITUIÇÃO

– Incentiva o cuidado com a apresentação pessoal e o senti-


mento de auto-estima.
– Cabe ao educador criar um plano de estudo com a criança
ou o jovem e supervisionar semanalmente os registos de es-
tudo efectuados pelos colegas.
– Privilegia momentos individuais de diálogo com os jovens
sobre os assuntos relacionados com a saúde e desenvolvi-
mento. Sempre que o educador responsável não se sentir à
vontade para falar, por ser de sexo oposto, deverá pedir a ou-
tro colega que também tenha uma relação próxima com o
jovem para conversar com ele.
– Acompanha a criança a consultas médicas, e também os jo-
vens, sempre que estes se sintam inseguros ou o solicitem.
– É da responsabilidade do educador a organização da infor-
mação médica da criança ou do jovem.
– A preparação para os testes deverá ser efectuada, sempre que
possível, com o educador. Os resultados serão mais fáceis de
controlar se não houver muitos intervenientes no processo.
– Conforme a maturidade de cada criança e jovem ser-lhe-á
exigida cada vez mais autonomia e responsabilidade quanto
ao seu estudo, sendo apenas supervisionado pelo educador.
– No início do ano lectivo, o educador fará as compras do ma-
terial escolar, ao gosto da criança ou do jovem, responsabili-
zando-os pela manutenção e preservação do mesmo.
– Periodicamente, o educador fará a avaliação do mesmo ma-
terial com a criança ou com o jovem, assegurando-se de
que este se mantém em boas condições e não é um factor
de constrangimento para que a criança ou o jovem tenham
sucesso escolar.

129
ACREDITAR NO FUTURO

Trabalho com o grupo de crianças e jovens:


– Promover no grupo relações baseadas no apoio e na entre-
ajuda, evitando as relações de tipo destrutivo.
– Evitar acções e comportamentos que causem danos, man-
tendo as crianças e o grupo a salvo.
– Manter as crianças mais pequenas salvaguardadas, quan-
do convivem num mesmo espaço com crianças mais velhas
que, por vezes, apresentam determinados comportamentos
que colocam as crianças mais novas em risco.
– Promover reuniões construtivas com as crianças e os jovens.
– Propor, organizar e avaliar actividades extra-escolares, cultu-
rais e lúdicas que melhor possam corresponder às necessida-
des das crianças e dos jovens.
– Preparar as férias, saídas e celebração de dias festivos.
– Responder aos estados de ânimo, mudanças de humor e
crises.
– Estar consciente das diferentes dinâmicas do grupo, das
alianças, das possíveis situações ameaçadoras e de abusos que
podem ocorrer no interior e no exterior da residência.
– Responder de uma forma assertiva perante as situações com-
plexas e difíceis, de forma a minimizar a conflitualidade e a
violência.
– Acompanhar as refeições, assumindo-se como modelo de
postura e regras.
– Verificar se todos têm uma alimentação sã e equilibrada.
– Organizar, supervisionar e ajudar as crianças e os jovens a
realizar as suas tarefas no estabelecimento.
– Promover rotinas securizantes que se constituem fundamen-
tais para o desenvolvimento equilibrado das crianças e dos
jovens.

130
3. QUALIFICAR O ACOLHIMENTO EM INSTITUIÇÃO

– Promover actividades do agrado das crianças e dos jovens e


que ajudem a fomentar o espírito de grupo, de partilha e co-
operação.
– Criar momentos e condições para uma relação individual,
ou em pequenos grupos, numa actividade específica. É fun-
damental os adultos estarem disponíveis e sensíveis para os
interesses do grupo e de cada criança ou jovem, respeitando
a sua individualidade.
– Dar oportunidade às crianças e aos jovens para desenvolve-
rem qualquer uma das expressões (musical, corporal ou plás-
tica) através da componente lúdica.

Trabalho de equipa na residência:


– Participar activamente na construção de uma equipa de tra-
balho que tem uma missão comum e os mesmos objectivos,
participando em reuniões de equipa, reuniões de supervisão
e de trabalho coordenado.
– Manter os registos actualizados nos processos das crianças e
dos jovens.
– Participar, de acordo com a área específica, na elaboração,
implementação e avaliação de procedimentos do equipa-
mento.
– Orientar e apoiar os elementos da equipa educativa (moni-
tores, auxiliares de educação) e da equipa de apoio (auxilia-
res de serviços gerais) para garantir o bom funcionamento
da residência.
– Participar no acompanhamento, avaliação e registo das visi-
tas e saídas com as crianças e os jovens, realizadas quer por
familiares, amigos ou voluntários.
– Proceder aos registos diários no livro de registos/ocorrências
e transmitir a informação à equipa sobre o funcionamento
do estabelecimento.

131
ACREDITAR NO FUTURO

– Proceder à avaliação qualitativa das suas práticas educativas


e das relações com as crianças e os jovens e equipa do esta-
belecimento.
– Participar nas reuniões interdisciplinares de discussão de no-
vos casos de crianças e jovens a admitir na residência.
– Participar na definição, implementação e avaliação dos
projectos de vida, de acordo com a sua visão, intervenção e
avaliação.
– Elaborar, em conjunto com a equipa interdisciplinar, planos
específicos de intervenção para cada uma das suas crianças e
jovens, de acordo com a sua maturidade, com vista à aquisi-
ção de competências sociais, pessoais e consequente integra-
ção social, em tempo útil.
– Implementar e avaliar os planos específicos traçados.
– Manter a viabilidade do trabalho na residência, mediante
ajuste de horários e turnos adequados às necessidades apre-
sentadas pela população-alvo.
– Apoiar os colegas, especialmente os que integram de novo a
equipa.
– Manter um ambiente acolhedor e confortável, estimulando
as crianças e os jovens a preservá-lo.
– Estar atento a comportamentos das crianças e dos jovens
que sejam indício de maus-tratos, zelando pela segurança,
quer dos residentes, quer de todos os elementos da equipa.

Trabalho com a rede familiar e social de apoio e em parceria:


– Colaborar com as pessoas que constituem a rede social da
criança, nomeadamente a família, os amigos, voluntários,
etc.
– Colaborar com os profissionais de saúde, nomeadamen-
te o médico que efectua o seguimento clínico da criança, e

132
3. QUALIFICAR O ACOLHIMENTO EM INSTITUIÇÃO

profissionais de saúde mental (psicólogos, psiquiatras), ten-


do sempre em consideração os verdadeiros interesses das
crianças e jovens.
– Estabelecer e manter relações de proximidade com a escola
frequentada pela criança ou jovem.
– Conhecer o projecto pedagógico da escola e dos jardins-de-
-infância, de modo a enquadrar algumas temáticas e aler-
tar os professores ou educadores, sobre algumas situações
que possam surgir e que possam ser confrangedoras para as
crianças.
– Participar nas reuniões escolares.
– Intervir junto de instituições de ensino ou profissionais, fre-
quentadas pelas crianças ou jovens, no sentido de promover
a partilha de informações pertinentes sobre a situação em
causa e do apoio e esclarecimento sobre as melhores estraté-
gias a seguir.
– Elaborar relatórios pedagógicos para os tribunais ou entida-
des que os solicitem.
– Participar em sessões de tribunal e acordos com as Comis-
sões de Protecção de Crianças e Jovens em Perigo, sempre
que forem solicitados.
– Promover actividades em comunidade e para a comunidade,
permitindo a integração e estimulando competências sociais
e de autonomia.
– Incentivar as crianças e os jovens a terem um grupo de ami-
gos, com quem se promovam saídas e a quem se estendam
algumas vivências do lar, convidando-os para participar em
actividades promovidas pelo próprio lar.
– Incentivar os jovens a realizar actividades de voluntariado.
– Incentivar os jovens a realizar experiências laborais em
part-time a partir dos 16 anos.

133
ACREDITAR NO FUTURO

– Colaborar com as equipas responsáveis pelo acompanha-


mento da medida de promoção e protecção, nomeadamen-
te com as equipas multidisciplinares de apoio aos tribunais
(EMAT).
– Colaborar com as equipas responsáveis pelo acompanha-
mento às famílias das crianças e dos jovens que estão acolhi-
das no LIJ ou CAT.
– Participar nas reuniões a realizar com os parceiros que têm
por objectivo a análise da situação e planificação da inter-
venção junto da criança e também da sua família.
– Participar na reunião de apresentação da situação da crian-
ça ou do jovem pela equipa que efectuava o seu acompanha-
mento em meio natural de vida, para recolher dados que lhe
permitam obter um maior conhecimento sobre eles.

É importante salientar que muitas das funções aqui apresen-


tadas, devido à sua variedade e abrangência (o educador acaba
por ter um papel fundamental na educação integral das crianças
e dos jovens), são feitas em simultâneo e muitas vezes contando
com a imprevisibilidade das situações que aparecem no dia-a-dia.
A capacidade para enfrentar situações complexas é uma das carac-
terísticas do educador que exerce funções nos lares de infância e
juventude, nos centros de acolhimento temporário, tais como nas
outras respostas sociais que integram o sistema de acolhimento em
instituição.
A abrangência de funções e a responsabilidade que lhes é exi-
gida, leva-nos a salientar a necessidade de estes profissionais serem
submetidos a um rigoroso processo de selecção, formação e super-
visão. Há também que ter em conta as condições de trabalho, bem
como a forma como são integrados nestas funções.
Esta profissão deveria ser considerada um trabalho especializado
e remunerado em compatibilidade com a responsabilidade que se
pede a estes profissionais, com o objectivo de os fixar à actividade
que desenvolvem.

134
3. QUALIFICAR O ACOLHIMENTO EM INSTITUIÇÃO

Funções do psicólogo

O objectivo geral da intervenção do psicólogo é promover o


desenvolvimento psicossocial das crianças e dos jovens, bem como
contribuir para a humanização das relações interpessoais, propor-
cionando um ambiente construtivo e estruturante.
Na sua intervenção deverá ter em conta:
– o tempo útil da criança;
– o direito da criança ou do jovem a viver no seio de uma fa-
mília, seja a sua família biológica ou, caso se torne inviável,
uma família alternativa;
– o respeito pela individualidade da criança ou do jovem, pelo
seu passado, pelo presente, pelo futuro e pela sua família.

A actividade do psicólogo assenta numa actuação interdiscipli-


nar com diferentes valências e parceiros.

Trabalho individual com crianças e jovens:


– Recolher dados anamnésicos para a reconstituição, com o
maior pormenor possível, da história de vida de cada crian-
ça ou jovem.
– Ajudar a criança a integrar-se nesta nova vivência.
– Acompanhar o percurso da criança ou do jovem desde a ad-
missão até à sua saída.
– Ajudar a preparar a criança ou o jovem para a concretiza-
ção do seu projecto de vida que poderá passar por reinte-
gração familiar, adopção, acolhimento familiar, autonomiza-
ção, acompanhamento em período de saída para autonomia
de vida, ou transferência para outro estabelecimento que dê
uma resposta mais adequada às suas necessidades específicas.
– Realizar a observação e avaliação psicológica, diagnóstico
e propostas de sinalização e encaminhamento para exames

135
ACREDITAR NO FUTURO

complementares de diagnóstico e/ou recursos especializa-


dos, de todas as crianças e jovens acolhidos.
– Colaborar na definição do projecto de vida da criança ou do
jovem acolhido.
– Intervir em situações de crise, quer em relação à própria
criança ou ao jovem, quer dando estratégias à equipa técni-
ca e educativa para que a situação se ultrapasse, minimizan-
do os danos para a criança ou o jovem em causa, assim como
para os outros residentes.
– Elaborar a história de vida tendo como objectivo sintetizar
e sistematizar a informação de forma sequencial, de modo a
permitir a compreensão do percurso de vida da criança ou
do jovem.
– Elaborar as narrativas de vida que têm como objectivo apoiar
a criança ou o jovem na construção da identidade pessoal e
constituir um suporte para contextualizar a sua história de
vida.
– O trabalho das narrativas permitirá à criança ou ao jovem en-
contrar uma forma estruturada e compreensível de falar de si.

Trabalho com o grupo de crianças e jovens:


– Colaborar na promoção de relações saudáveis por parte das
crianças e jovens, dentro do LIJ e também no exterior.
– Dinamizar grupos de crianças e jovens para a discussão de
diversas temáticas, com o objectivo de promover competên-
cias pessoais, sociais e de coesão do grupo.
– Manter os registos actualizados no processo das crianças e
dos jovens.

Trabalho de equipa na residência:


– Elaborar, em conjunto com a equipa interdisciplinar, os pla-
nos de intervenção individualizada para cada criança e jovem.

136
3. QUALIFICAR O ACOLHIMENTO EM INSTITUIÇÃO

– Colaborar com os diversos elementos educativos na elabora-


ção, acompanhamento e avaliação dos referidos planos.
– Participar nas reuniões da equipa interdisciplinar do estabe-
lecimento.
– Colaborar na elaboração e avaliação do plano de actividades
de cada estabelecimento a que dá apoio.
– Participar na elaboração, implementação e avaliação de pro-
cedimentos de cada estabelecimento a que dá apoio.
– Dinamizar formações temáticas, junto da equipa interdisci-
plinar do estabelecimento.
– Proceder à avaliação qualitativa e quantitativa do seu
trabalho.

Trabalho com a rede familiar e social de apoio e em parceria:


– Colaborar na intervenção junto das famílias das crianças
acolhidas.
– Articular com as instituições educativas e profissionais com
o objectivo de reflectir e adequar estratégias educacionais.
– Colaborar com profissionais de saúde mental que estejam a
acompanhar a criança e o jovem, no sentido de construir es-
tratégias de trabalho conjuntas.
– Elaborar relatórios psicológicos para os tribunais, ou CPCJ
ou outras entidades que os solicitem.
– Informar ou colaborar com os tribunais, ou as CPCJ, com
vista à definição e concretização do projecto de vida de cada
criança ou jovem acolhido.

O psicólogo deverá assegurar o apoio técnico ao trabalho indivi-


dualizado desenvolvido pela equipa educativa com as crianças e os
jovens (planos de intervenção individualizados) e as famílias (ava-
liação das dinâmicas relacional e afectiva da família).

137
ACREDITAR NO FUTURO

Através da sua formação e especificidade técnica poderá desem-


penhar um papel importante ao nível do suporte emocional dos
diferentes elementos da equipa, bem como na prevenção e dimi-
nuição do «stress» entre eles, tendo um papel relevante na media-
ção de conflitos.

Funções do assistente social

A prática de serviço social assenta nos ideais humanitários e está


centrada na satisfação das necessidades humanas e no desenvolvi-
mento das suas potencialidades.
Está relacionada com a mudança individual, na família e na vida
do grupo, nas políticas e nos serviços, nas leis e nos comportamen-
tos sociais.
O serviço social não se limita a trabalhar directamente com
o indivíduo, envolve também serviços e actividades para grupos
e comunidades com o objectivo de elevar a qualidade de vida de
todos os cidadãos, incluindo crianças e jovens.
São objectivos da intervenção dos assistentes sociais conhe-
cer as causas e o processo dos problemas sociais e a sua incidência
sobre as pessoas, grupos e comunidades, capacitá-los para a tomada
de consciência dos seus problemas, de modo a assumirem uma ati-
tude crítica da realidade onde estão inseridos, e promover o desen-
volvimento de recursos/respostas que satisfaçam as necessidades e
aspirações individuais e colectivas, na prossecução da justiça social.

Trabalho individual com crianças e jovens:


– Apoiar o jovem em processo de autonomização, sempre que
possível articuladamente com os outros interventores na
rede de que farão parte, ajudando-o a desvincular-se do lar
que o acolheu e a assumir responsabilidades, de acordo com
as suas capacidades e grau de maturidade.

138
3. QUALIFICAR O ACOLHIMENTO EM INSTITUIÇÃO

– Fomentar e incentivar o relacionamento entre a criança ou o


jovem e a sua família, sempre que isso corresponda aos seus
interesses.

Trabalho com o grupo de crianças e jovens:


– Manter os registos actualizados no processo das crianças e
dos jovens.
– Colaborar activamente na definição, redefinição e concreti-
zação atempada dos projectos de vida que melhor defendam
os seus superiores interesses.
– Contribuir para o desenvolvimento das potencialidades de
cada criança ou jovem e das suas famílias, visando uma pro-
gressiva capacitação para uma adequada e responsável in-
ter-relação familiar e social.

Trabalho de equipa na residência:


– Colaborar na análise dos casos, contribuindo para o apro-
fundamento do estudo da situação-problema desencadeante
da admissão da criança ou do jovem.
– Efectuar o acolhimento à família quando as crianças são
admitidas no CAT ou no LIJ, ou em qualquer outro tipo
de resposta social que implique o acolhimento institucional
da criança ou do jovem.
– Colaborar com elementos do diagnóstico e do prognósti-
co da evolução sociofamiliar para a identificação na equipa
interdisciplinar, do projecto de vida mais adequado ao de-
senvolvimento equilibrado da criança e à protecção dos seus
direitos.
– Colaborar com toda a equipa no acompanhamento e apoio
ao desenvolvimento integral das crianças e dos jovens,
durante a sua permanência no estabelecimento, visando a
aquisição de competências gerais para o exercício de uma
cidadania activa.

139
ACREDITAR NO FUTURO

– Colaborar com a equipa interdisciplinar na programação e


avaliação do trabalho anual e nos ajustamentos que periodi-
camente se mostrem adequados.
– Contribuir para a avaliação dos resultados da intervenção
interdisciplinar, visando os objectivos definidos, no sentido
de proporcionar as condições adequadas ao desenvolvimen-
to equilibrado das crianças e dos jovens e à protecção dos
seus direitos.

Trabalho com a rede familiar e social de apoio e em parceria:


– Identificação das dificuldades e potencialidades sociofamiliares.
– Definir, em articulação com outros interventores na rede
sociofamiliar, as acções a desenvolver tendo em conta o pro-
jecto de vida da criança decidido em equipa interdisciplinar,
actuando em consonância e de acordo com a sua competên-
cia e princípios profissionais.
– Apoiar as famílias na identificação das suas dificuldades, po-
tencialidades e direitos, na tentativa de resolução de pro-
blemas e disfunções que mais directamente afectam as suas
crianças, ou no reconhecimento e aceitação das alternativas
mais adequadas ao desenvolvimento equilibrado destas.
– Contribuir, sempre que seja considerado o mais adequado,
para que se mantenha e fortaleça, desde o início, o espa-
ço afectivo da criança no grupo familiar e se desenvolva a
co-responsabilização desta, no esforço desenvolvido durante
o período de separação.
– Envolver as famílias e dar-lhes conhecimento sobre a evo-
lução dos projectos de vida previsíveis para as suas crian-
ças, contribuindo para que sejam ouvidas e participem acti-
vamente neles, através do desenvolvimento da cooperação e
responsabilização nas decisões tomadas.
– Colaborar na preparação da saída das crianças e dos jovens,
actuando em articulação com os outros interventores na

140
3. QUALIFICAR O ACOLHIMENTO EM INSTITUIÇÃO

rede sociofamiliar e acompanhando durante o tempo consi-


derado necessário a integração ou reintegração familiar.
– Colaborar na caracterização da realidade social, geradora
de situações de risco para as crianças, de forma a contribuir
para a criação de respostas mais eficazes no campo da pre-
venção e do tratamento.
– Elaborar relatórios sociais para os tribunais, as CPCJ, ou ou-
tras entidades que os solicitem.
– Informar ou colaborar com os tribunais, ou as CPCJ, com
vista à definição e concretização do projecto de vida de cada
criança ou jovem acolhido.

Constitui-se como fundamental, numa política de prevenção


da institucionalização, que os assistentes sociais cooperem na iden-
tificação e interpretação da realidade social que intervém nas pro-
blemáticas desencadeantes da institucionalização, pois é necessário
intervir e preveni-la, participando no desenvolvimento de políti-
cas, processos e práticas que contribuam para a solução dos proble-
mas identificados.

Funções do director técnico

O director técnico tem por missão dirigir, coordenar e planear


as actividades do estabelecimento, promovendo acções que visam
um trabalho transdisciplinar de qualidade, a fim de tornar possível
a concretização do projecto de vida das crianças e dos jovens aco-
lhidos, formando e educando para a cidadania.
É essencial que promova condições para que as crianças e os
jovens acolhidos possam ter possibilidades de atingir um bom
desenvolvimento integral e que a equipa se sinta motivada e com
boas condições de trabalho, para proporcionar um acolhimento de
qualidade às crianças e aos jovens que dele necessitam.

141
ACREDITAR NO FUTURO

Trabalho individual com crianças e jovens:


– Preparar o melhor acolhimento da criança, através da passa-
gem de informação à equipa, de forma a organizar e estrutu-
rar as condições necessárias à sua integração.
– Garantir a humanização dos espaços e das relações e a indivi-
dualização do atendimento das crianças e dos jovens.
– Garantir que as crianças e os jovens tenham assegurados os
seus direitos de privacidade, contacto com a família, dinhei-
ro de bolso, inviolabilidade da correspondência e a confi-
dencialidade da sua situação.
– Garantir que as crianças sejam acolhidas pelo educador que
vai ser o seu responsável, durante o período de integração, e
que todas tenham um adulto cuidador de referência.
– Supervisionar a qualidade do acolhimento e do acompanha-
mento das crianças e dos jovens, criando condições de con-
forto, respeito e bem-estar, e proporcionando-lhes experiên-
cias e vivências similares às das famílias.
– Garantir que para cada criança e jovem se encontrem as es-
tratégias e se accionem os meios necessários que lhe permi-
tam desenvolver a sua valorização pessoal e social, orientan-
do a sua vida nos aspectos escolar, de saúde, profissional e
de lazer.
– Assegurar que o projecto de vida da criança é definido e exe-
cutado em tempo útil, identificando factores promotores ou
de constrangimento para a concretização do mesmo, respei-
tando a sua planificação, o que obriga a uma avaliação pelo
menos trimestral.

Trabalho com o grupo de crianças e jovens:


– Alertar a equipa para a necessidade de implicar activamen-
te as crianças e os jovens a participarem na concretização do
seu projecto de vida, tendo sempre em consideração a sua
idade e capacidade para tal.

142
3. QUALIFICAR O ACOLHIMENTO EM INSTITUIÇÃO

– Assegurar que os colaboradores do lar garantam respostas in-


dividualizadas às necessidades específicas das crianças e dos
jovens que acolhem, assim como promover condições para
que as rotinas sejam estruturadas em função delas, de forma
a que o funcionamento do lar esteja em consonância com as
características da população-alvo.
– Fornecer informação relativa aos direitos e deveres das crian-
ças e dos jovens e suas famílias, facultando o acesso ao regu-
lamento do lar.
– Planear, em conjunto com a equipa, as integrações e rein-
tegrações familiares, as autonomizações e saídas para outras
respostas sociais que garantam uma melhor resposta para
aquela criança ou aquele jovem, a saída para adopção, aco-
lhimento familiar, etc.
– Promover actividades de integração social que deverão ser
planeadas e sustentadas nos planos educativos individuais e
nos planos de autonomia.

Trabalho de equipa na residência:


– Elaborar um plano anual de actividades e fazer a sua avaliação.
– Programar, definir, coordenar, supervisionar e avaliar todas
as actividades a desenvolver no equipamento, garantindo a
qualidade e zelando pela criação e manutenção de um am-
biente relacional saudável entre todos os intervenientes.
– Dar a conhecer a todos os colaboradores os instrumentos
de trabalho existentes, inerentes ao funcionamento do lar,
nomeadamente o regulamento interno, o plano de activida-
des, o manual de procedimentos, bem como os seus direi-
tos e deveres.
– Detectar as necessidades de formação dos colaboradores e
fomentar o seu aperfeiçoamento técnico e profissional, pro-
pondo e promovendo acções de formação.

143
ACREDITAR NO FUTURO

– Promover a integração dos novos elementos da equipa, de


modo faseado e gradual.
– Supervisionar o desempenho de todo o pessoal, tendo em
vista melhorar as competências profissionais e pessoais de
cada um.
– Motivar a equipa de modo a que o desempenho profissional
seja sempre da melhor qualidade.
– Promover e dinamizar reuniões de equipa para discutir, re-
flectir e definir estratégias de actuação consistentes e homo-
géneas.
– Distribuir tarefas a todos os elementos da equipa, com vista
a uma actuação concertada e responsabilizadora.
– Assegurar que os processos individuais das crianças e dos
jovens estejam sempre actualizados e organizados.
– Implementar uma cultura de zelo e responsabilização indivi-
dual pelos espaços colectivos e materiais.

Trabalho com a rede familiar e social de apoio e em parceria:


– Assegurar a exequibilidade e concretização dos projectos de
vida, promovendo a planificação e programação interdisci-
plinar e interinstitucional.
– Accionar os recursos necessários ao diagnóstico das situações
psicossociais problemáticas, zelando para que se adoptem os
procedimentos necessários à sua resolução.
– Articular com outros serviços e entidades, tais como escolas,
centros de saúde, autarquias, tribunais, comissões de protec-
ção, sempre que necessário.
– Promover, alargar e sustentar as relações sociais das crianças
e jovens residentes no lar, de acordo com as suas necessida-
des e os seus interesses.

144
3. QUALIFICAR O ACOLHIMENTO EM INSTITUIÇÃO

O alargamento das relações sociais de crianças e jovens, em con-


texto de acolhimento residencial, é uma condição fundamental
e potenciadora de uma boa integração social e do bom exercício
da cidadania. Assim, o director deve fomentar os contactos des-
tas crianças e jovens com o exterior, quer sejam relações que esta-
belecem em contexto escolar ou profissional, quer fora do mesmo,
deixando-os participar em actividades lúdicas e de lazer, pois estas
actividades são de grande enriquecimento pessoal.
O director tem um papel fundamental na motivação dos colabo-
radores, pois sabemos que a qualidade do acolhimento residencial
depende, em grande parte, da qualidade da relação que se estabe-
lece entre estes e as crianças e jovens que integram o acolhimento
residencial. A qualidade dos cuidados prestados está intimamente
ligada à qualidade humana das pessoas que os prestam. Também
o relacionamento dos elementos que constituem a equipa se vai
reflectir na qualidade do trabalho. Uma equipa coesa, com objec-
tivos de intervenção bem definidos, onde as suas tarefas e funções
estejam perfeitamente clarificadas e a responsabilidade bem defi-
nida, vai permitir uma intervenção mais consistente e com maior
possibilidade de obter sucesso.

Funções do pessoal de apoio


O pessoal de apoio tem por missão manter o estabelecimento
em boas condições de higiene e com um ambiente acolhedor, que
conduza ao bem-estar de todos, contribuindo para um relaciona-
mento saudável.
Pelas características de funcionamento dos lares de infância e
juventude, estes colaboradores acabam por manter um contacto
muito próximo com as crianças e os jovens neles acolhidos, exis-
tindo mesmo situações em que as crianças e jovens a eles recorrem
para fazerem confidências e pedirem conselhos.

145
ACREDITAR NO FUTURO

A disponibilidade interior, uma atitude calorosa, acolhedora


e afectuosa para com as crianças e os jovens, constituem factores
fundamentais para se exercerem funções nestes equipamentos, isto
sem esquecer o profissionalismo e a confidencialidade.

Trabalho individual com crianças e jovens:


– Apoiar a equipa educativa, sempre que necessário, na presta-
ção dos cuidados de higiene às crianças.
– Ensinar as crianças e os jovens a cuidar dos seus pertences.

Trabalho com o grupo de crianças e jovens:


– Apoiar as crianças e os jovens no desempenho das tarefas que
lhe estão atribuídas.
– Ensinar as crianças, e sobretudo, os jovens a realizar algumas
tarefas importantes do dia-a-dia, tais como arrumar o seu quar-
to, passar a ferro, etc., que lhes irão permitir desenvolver com-
petências fundamentais para o seu processo de autonomia.
– Lavar e tratar da roupa das crianças e dos jovens, bem como
do próprio equipamento.
– A cozinheira pode, e deve, ensinar os jovens a confeccionar
refeições, pois é um factor importante para garantir a sua
autonomia.

Trabalho de equipa na residência:


– Assegurar a higiene e limpeza do lar, mantendo o ambiente
limpo e acolhedor.
– Participar na decoração do lar.
– Zelar pela boa conservação dos bens e equipamento.
– Participar nas reuniões de equipa sempre que solicitado.
– Manter a cozinha e os equipamentos em boas condições de
higiene.

146
3. QUALIFICAR O ACOLHIMENTO EM INSTITUIÇÃO

Síntese
É necessário partilhar da missão da organização

Qualquer modelo de gestão de um equipamento desta natureza,


para manter uma boa qualidade dos serviços que presta às crianças
e aos jovens que acolhe, tem de ter sempre em consideração que
há que responder de uma forma positiva e eficaz às necessidades
específicas que cada um apresenta, no momento da sua admissão
e durante todo o processo de integração e estada em CAT ou LIJ.
É importante que a instituição consiga criar uma cultura orga-
nizacional, que todos os colaboradores tenham um conhecimento
claro da missão da organização e partilhem da mesma, que saibam
claramente quais são as suas funções e o que se espera deles, bem
como o papel que devem ter quando trabalham em equipamentos
que integram crianças e jovens em perigo, que, por força de cir-
cunstâncias várias, tiveram de ser retirados do seu contexto familiar.
As pessoas que trabalham num equipamento para acolhimento
de crianças e jovens em perigo devem ter formação, conhecimen-
tos, experiência e qualidades humanas e pessoais para desempe-
nhar as suas funções da forma mais correcta, tendo em conta que
são peças determinantes para o futuro das crianças que integram o
CAT ou LIJ.
Devemos recorrer ao acolhimento em instituição, quando a
intervenção em meio natural de vida falhou, e, analisada a situação,
se considere que a mesma reúne características determinantes que
mostrem ser uma mais-valia para aquela criança ou jovem integrar
uma instituição em detrimento de uma família de acolhimento.

O acolhimento em instituição parece ser mais adequado para


crianças com mais de seis anos e para jovens, pois a integração e
adaptação de um adolescente a um meio familiar pode apresentar
maiores dificuldades de adaptação do que a sua integração numa
instituição.

147
ACREDITAR NO FUTURO

Também as crianças ou os jovens que apresentem problemas


emocionais graves, condutas pré-delinquentes ou distúrbios com-
portamentais que possam colocar-se ou colocar os outros em perigo,
necessitam de unidades especializadas, contentoras e estruturantes.
Estas condições podem ser satisfeitas com maior eficácia em estru-
turas residenciais.
O mesmo se passa com crianças e jovens que tenham já vivido
experiências de abandonos sucessivos, maus-tratos graves na famí-
lia, ou experiências de acolhimento familiar fracassado. Estas vivên-
cias dificultam o estabelecimento de novos vínculos afectivos, pelo
que pode ser mais fácil a adaptação e integração em acolhimento
em instituição do que a um novo acolhimento familiar.
Estando atentos ao perfil das crianças e dos jovens que beneficia-
riam se fossem protegidos através da sua integração em acolhimento
institucional, pela complexidade das suas vivências anteriores,
coloca-se desde logo a necessidade de se criarem novos programas
residenciais, de forma a que, estando em presença de uma situação
concreta se possa escolher, para aquela criança ou jovem, a solução
que tecnicamente se considere mais adequada, pois todas as crian-
ças e adolescentes têm o direito de ser acolhidos na resposta social
mais apropriada às suas necessidades.
Assim, um acolhimento institucional generalista revela-se obso-
leto, pois dá uma resposta semelhante para todas as crianças que
acolhe. Se queremos qualificar-nos, temos de pensar em novas for-
mas de acolher, dando prioridade a respostas que satisfaçam em
tempo útil e, com eficácia, as necessidades apresentadas por cada
criança ou jovem.
Esta resposta tem de ser transitória, pois só deve ter a duração
temporal estritamente necessária até ser possível voltar a colocar
a criança em contexto familiar, ou em meio natural de vida com
segurança e sustentabilidade. Seja qual for o projecto de vida para
a criança, ele tem de obedecer sempre a estas duas premissas ante-
riores: segurança e sustentabilidade.

148
3. QUALIFICAR O ACOLHIMENTO EM INSTITUIÇÃO

No acolhimento residencial (denominação preferível, conside-


rando que institucional tem um cariz demasiado assistencialista e
caritativo), o espaço físico, as relações entre os adultos que aí traba-
lham e as crianças e os jovens que o integram, assim como todas as
actividades que se desenvolvem no dia-a-dia, fazem parte integrante
de toda a intervenção que se quer reparadora, securizante e estável.
A intervenção deve ser planeada, tendo em conta os objectivos
que queremos ver concretizados, não só para a organização em si,
mas sobretudo para cada uma das crianças e dos jovens, assim como
para as suas famílias, através de um plano socioeducativo indivi-
dualizado, devendo estimular-se a participação activa da criança e
do jovem.
A intervenção deve ter sempre em conta a evolução de cada
criança ou jovem e deve adaptar-se, tendo por objectivo poten-
ciar o seu desenvolvimento biopsicossocial, respeitando sempre a
sua história pessoal e familiar, os seus valores culturais, religiosos
e étnicos.

149
CAPÍTULO 4
PROJECTOS DE VIDA

Acolhimento
Avaliação Diagnóstica
Planeamento e Acção
(Re)Integração Familiar
Adopção
Autonomia de vida
Síntese
«O segredo da humanidade está no vínculo entre as
pessoas e os acontecimentos. As pessoas ocasionam
os acontecimentos e os acontecimentos formam as
pessoas.»
Ralph W. Emerson
Acolhimento
Uma fase transitória para preparar o futuro

O acolhimento institucional constitui uma medida de protecção


dirigida às crianças e aos jovens que se encontram em situação de
perigo, que se pretende que seja temporária. Tem por objectivo pro-
teger as crianças e os jovens da negligência, dos maus-tratos e da inca-
pacidade revelada pelos pais ou adultos que os tinham à sua guarda.
Esta medida deve ser aplicada nos casos em que, quer a avaliação
da situação, quer o plano de intervenção efectuado, conduziram à
mesma conclusão, ou seja, que o recurso que se afigura como mais
apropriado para responder às necessidades imediatas da criança e da
família é o acolhimento temporário em meio institucional.
A avaliação da situação, como já foi dito anteriormente, deve ser
levada a cabo antes da entrada da criança em instituição, excepto
quando se trate de um acolhimento em situação de emergência
(isto é, quando a criança se encontra numa situação de perigo imi-
nente). Nesta última situação, a avaliação deve realizar-se logo que
a criança seja acolhida, para que, no mais curto espaço de tempo,
lhe seja proporcionada a resposta que se considere mais adequada
para a sua situação.
Sempre que uma criança ou um jovem necessitem de ser acolhi-
dos deve ser encontrada a instituição que melhor resposta dê às suas
necessidades específicas, nomeadamente educativas e de socializa-
ção, e o acolhimento numa instituição deverá organizar-se de forma
a poder proporcionar-lhes protecção, confiança, segurança e estabi-
lidade, num contexto onde exista respeito pela sua individualidade
e projectos desafiadores para as suas capacidades e características.
Estas crianças sofreram, na sua generalidade, privações que afec-
taram o seu normal desenvolvimento em áreas fundamentais, o
que na maioria das vezes deixa sequelas que dificilmente serão
ultrapassadas.
Quando chega ao Centro de Acolhimento Temporário (CAT)
ou ao Lar de Infância e Juventude (LIJ), ou mesmo a uma família

153
ACREDITAR NO FUTURO

de acolhimento, a criança ou o jovem transportam consigo um per-


curso de vida marcado por situações de sofrimento, por relações
afectivas pouco gratificantes e por perdas sucessivas, que os coloca-
ram numa situação de desprotecção, vulnerabilidade e de exposição
a situações a que todas as crianças têm o direito a ser poupadas.
Muitas das crianças e jovens, quando retirados da família, têm
um sentimento de punição, um sentimento de impotência perante
a adversidade. A criança sente, muitas vezes, que a família mani-
festa um claro desinteresse pela sua pessoa, reforçando o sentimento
de rejeição, de não ser amada. Paralelamente, tem de conviver com
a discriminação social, pois o acolhimento, ainda hoje, constitui
um estigma social. Sabemos como estas crianças têm dificuldade,
perante os seus pares e amigos de escola, em dizer que vivem numa
instituição porque os pais não foram capazes de cuidar delas e,
também, porque a institucionalização é considerada como estando
directamente relacionada com meios sociais desfavorecidos, ainda
que, hoje em dia, cheguem às instituições crianças oriundas de
outros estratos sociais, pois os maus-tratos são transversais a todos
os grupos, sendo, contudo, mais difíceis de detectar em classes eco-
nómicas mais favorecidas.
O acolhimento em instituição, seja um LIJ ou um CAT, deve
proporcionar à criança ou ao jovem um ambiente adequado, com
segurança e onde lhe seja facultada ajuda para gerir os seus senti-
mentos e as emoções que o acompanham em todo o processo de
separação familiar, bem como um contexto promotor de boa con-
vivência, quer com adultos, quer com pares.
O momento de acolhimento é particularmente difícil, pois
constitui um momento de ruptura, em que as crianças e os jovens
perdem as pessoas a quem estavam vinculados, perdem a sua comu-
nidade, o seu contexto familiar, o que os leva com frequência a
apresentarem grande revolta. Muitas vezes não compreendem o
porquê da sua retirada, já que sempre viveram naquele contexto,
sendo este maioritariamente o seu padrão de referência. Têm ten-
dência para negar a situação. Muitas vezes culpabilizam-se por ela,

154
4. PROJECTOS DE VIDA

ou culpabilizam os técnicos e os educadores, do estabelecimento


onde foram integrados, de toda a situação que estão a vivenciar.
Assim, é necessário responder às necessidades que advêm desse
estado emocional: é importante preparar todas as pessoas, quer
adultos, quer crianças que integram a comunidade residencial, para
o receber. As crianças e os jovens residentes no CAT ou LIJ podem
dar uma grande ajuda em todo o processo de integração; é impor-
tante que a criança ou o jovem venha acompanhado por um adulto
que para si seja uma referência, a família se possível, ou um téc-
nico que tenha acompanhado o desenvolvimento da sua situação;
o pessoal do CAT ou LIJ deve ser informado sobre qual a relação
que esta criança ou este jovem mantinham com os familiares ou
com as pessoas com quem residiam, para que seja mais fácil prever
as suas reacções perante a situação de acolhimento que a criança
ou o jovem vão vivenciar. É muito importante proporcionar-lhes
um bem-estar físico, pois esta é a maneira inicial de lhes dar segu-
rança; designar um educador que esteja mais disponível para os
acompanhar e lhes proporcionar uma atenção mais individuali-
zada, garantindo-lhes estabilidade e segurança; acolher a criança ou
o jovem, respeitando o sofrimento que lhes provoca a separação,
e estar disponível para os ouvir, para lhes dar afecto e ajudá-los a
perceber a sua situação, explicando-lhes os motivos da sua admis-
são no CAT ou LIJ, tranquilizando-os no que diz respeito aos seus
receios perante a nova situação. Constituiu-se como fundamental
que o adulto esteja disponível, para que a criança ou o jovem pos-
sam falar abertamente sobre o seu passado, evitando que percam a
sua própria história e identidade; não fazer juízos de valor em rela-
ção aos familiares da criança ou do jovem, nem fazer comentários
fora de contexto próprio, sobre sua a situação para outros adultos
ou jovens acolhidos; explicar à criança que o acolhimento é uma
situação transitória, durante a qual estará ali para a ajudar; é tam-
bém fundamental dar-lhe tempo para se adaptar, perceber os limi-
tes que o CAT ou LIJ lhe impõem: criar na criança ou no jovem
acolhidos esperança no futuro.

155
ACREDITAR NO FUTURO

No processo de admissão é importante que as crianças e os jovens


sejam integrados num estabelecimento onde seja possível manter
contactos com familiares e amigos, pois para além do direito a estes
contactos, a criança ou o jovem têm também direito à sua comu-
nidade. Esta proximidade pode reforçar os laços afectivos e a vin-
culação, para que a reintegração familiar possa concretizar-se num
curto espaço de tempo.
Pode, no entanto, haver situações em que é aconselhável que as
crianças e os jovens sejam afastados fisicamente do seu contexto fami-
liar, nomeadamente nos casos de crianças que são utilizadas como
«correio» de droga, ou quando o agressor da criança se mantenha
no agregado familiar e continue a constituir uma situação propícia
a tornar-se como um perigo real para a criança ou o jovem. Assim,
na escolha da instituição para a criança, mais uma vez temos de fazer
uma análise cuidada da situação, e a decisão deve ter sempre em conta
a salvaguarda dos verdadeiros interesses da criança e do jovem.
Quando estamos em presença de fratrias é importante ter em
conta que, se existe uma forte relação entre as crianças antes do
seu acolhimento, estas não devem ser separadas, deve ser promo-
vida uma admissão conjunta ou, em caso de total impossibilidade,
devem promover-se encontros entre essas crianças com frequência.
Há que respeitar o direito à audição e à participação nas decisões
que concernem ao acolhimento institucional, quer das crianças ou
dos jovens a quem se aplica esta medida, quer dos pais ou dos seus
representantes legais.
A decisão da admissão é da competência da direcção técnica do
equipamento, em articulação com a equipa do organismo de segu-
rança social que efectua a gestão de vagas no distrito.
Antes da entrada da criança ou do jovem é necessário preparar a
equipa técnica e educativa que a vai receber, assim como as crian-
ças e os jovens aí residentes, para que a criança se sinta bem aco-
lhida e bem-vinda.
Como já foi referido no capítulo anterior, a criança ou o jovem
devem ser recebidos pelo educador responsável pelo grupo que vão

156
4. PROJECTOS DE VIDA

integrar, e serem apresentados com naturalidade ao grupo e res-


tante equipa.
O acolhimento é um momento decisivo, já que a experiência
vivenciada nesse momento vai influenciar o processo de adaptação
da criança ao CAT ou LIJ. A equipa técnica e a equipa educativa
devem estar particularmente atentas a estes primeiros dias de inte-
gração para reconhecer e interpretar os sinais de sofrimento que a
criança vai dando, no sentido de encontrar as estratégias adequadas
para o minimizar e, assim, facilitar a adaptação da criança ao novo
contexto residencial.
É importante que a criança ou o jovem, desde o primeiro dia,
conheçam o regulamento da casa, que lhe sejam dadas a conhecer
as rotinas, pois o conhecimento destas permite-lhes organizarem-se
e lidarem com a sua angústia e ansiedade, elaborarem o sentimento
de perda, diminuírem o sofrimento e aumentarem a probabilidade
de se sentirem tranquilos e confiantes.

Exemplo
Passados dois dias, que afinal passaram a correr…, foi preciso ir às
compras, comprar sapatos, roupa e outras coisas. A Joana, entre-
tanto, tinha pedido à Maria que a acompanhasse a uma sala onde
estava muita roupa, alguma já não era completamente nova, mas
encontraram algumas peças bem giras e as duas foram arrumá-las
no roupeiro que estava no quarto e onde a Maria passou a guar-
dar as suas coisas.
Nesse mesmo dia recebeu a visita da mãe, que lhe perguntou,
vezes sem conta, se a tratavam bem… continuava muito zangada;
dizia que ia ao tribunal e que ia tirá-la dali rapidamente.
Disse-lhe, novamente muito irritada, que ela não se devia ter
queixado na escola… e que a culpa de estar ali não era só da mãe
mas era dela, Maria.
A avó viria no próximo dia, e essa foi uma boa notícia para a
Maria que já sentia saudades da avó, enquanto da mãe sentia um
misto de saudade e medo… não estava a perceber muito bem o
que sentia…

157
ACREDITAR NO FUTURO

A visita acabou, a Maria deu um beijo à mãe, um até amanhã


muito rápido e foi procurar a sua amiga Inês.
No dia seguinte iria com a Joana conhecer a nova escola, tinha sau-
dades da professora e dos antigos amigos, mas a Joana tinha dito
que a escola era muito longe, e que ela tinha de mudar...
Quando se foi deitar, a Maria sentiu-se muito triste e, quando
deu conta, estava a chorar: tinha saudades de casa, dos amigos e
da professora. Apesar de ser bem tratada ali, ainda não percebia
muito bem porque é que de um dia para o outro toda a sua vida
se tinha modificado…
E, por entre as lágrimas que lhe turvavam o olhar, lá estava a
Joana a fazer-lhe uma festa no cabelo e a perguntar-lhe se que-
ria conversar com ela e se estava com medo de ir conhecer a nova
escola. Disse-lhe que outras crianças, que também estavam na
casa dos meninos, até gostavam de lá andar…
E foi então que Maria teve a coragem de pedir à Joana que lhe
contasse porque é que estava ali… se achava que ia ficar muito
tempo… se era para sempre… o que lhe ia acontecer…
A Inês já lhe tinha dito que alguns meninos ficavam pouco tempo
e voltavam para a sua casa, outros tinham uns pais novos, e que
ela, Inês, desejava muito vir a ter uma nova família…

Avaliação Diagnóstica
A importância da conjugação de esforços

Após o acolhimento, procede-se à realização de um estudo diag-


nóstico da situação; nele participam e dão o seu contributo as equi-
pas que conhecem a situação, pois trabalharam a montante com
a família, ainda quando a criança se encontrava inserida no seio
familiar.
Um dos objectivos desta avaliação diagnóstica é recolher infor-
mações que permitam à equipa técnica do CAT ou LIJ conhe-
cer a criança, identificar os pontos fortes e as áreas que necessitam
de desenvolvimento, as suas capacidades de resolução de situações

158
4. PROJECTOS DE VIDA

problemáticas, as suas características de personalidade e os seus


comportamentos sociais. Conhecer também as características da
família, compreender as suas dificuldades, a relação que desenvolvia
com a criança ou com o jovem antes do seu acolhimento, a inter-
venção que foi feita com a família, que estratégias foram utilizadas
e o porquê da retirada da criança são factores de primordial impor-
tância para o processo.
A avaliação diagnóstica constitui um instrumento fundamental
para a definição do projecto de vida.
Após a entrada da criança ou do jovem no CAT ou LIJ há que
iniciar um processo de recolha de informação, e um dos meios mais
eficazes para o fazer é reunir todos os técnicos que intervieram nessa
situação, bem como efectuar entrevistas à família, para se conhecer
a história da criança e também da família antes da entrada no lar.
O levantamento da informação deve ser feito multidisciplinar-
mente, para que se beneficie da reunião de vários olhares diferentes
sobre a mesma situação.
Para a avaliação diagnóstica é muito importante estar atento ao
período de adaptação da criança ou do jovem ao CAT ou ao LIJ,
perceber as suas atitudes e os seus comportamentos, a forma como
interage com os adultos e também com os pares, bem como a adap-
tação ao meio escolar.
Durante o período de adaptação é importante que a criança seja
observada ao nível da saúde física e mental. Devem ser despistadas
doenças físicas que possam trazer-lhe problemas ao nível do seu
desenvolvimento e deve ser observado pelo psicólogo, pois é impor-
tante que este estime quais as consequências que a criança ou o jovem
podem vir a ter no seu desenvolvimento, ou já as que apresentam,
pelo facto de terem vivido num contexto carente a vários níveis e
com uma relação sujeita a práticas educativas inadequadas.
O processo de avaliação é fundamental pois permite identifi-
car quer os problemas, quer os aspectos positivos da criança e tam-
bém da família, assim como incluir a sua perspectiva, tal como a
de todos os profissionais que já intervieram na situação. Depois

159
ACREDITAR NO FUTURO

de efectuada a avaliação diagnóstica, há que traçar um plano de


intervenção, onde esteja delineada uma actuação concertada sobre
a situação concreta, com a identificação das alterações que vai ser
necessário efectuar para que a situação de perigo que conduziu ao
acolhimento daquela criança deixe de existir.
Igualmente fundamental é a vertente relativa à monitorização do
Plano, o qual tem de ser acompanhado e avaliado numa lógica sisté-
mica, dado que, muitas vezes, as crianças ou os jovens acolhidos em
instituições tiveram um processo de socialização que foi realizado
com muitos incidentes e em que o padrão de interacção com os adul-
tos foi desenvolvido num registo de rejeição, agressividade e intole-
rância, expostos a situações de maus-tratos, negligência e padrões de
comportamento desviantes. Muitas vezes têm níveis insuficientes de
desenvolvimento cognitivo, por não terem usufruído da necessária
estimulação cognitiva e social e pelo desequilíbrio da relação afectiva
a que estiveram sujeitos durante o seu crescimento.
Algumas destas crianças e jovens apresentam dificuldades ao
nível do equilíbrio psicológico, das aprendizagens escolares e da
integração social.

Na avaliação diagnóstica a realizar com a família é necessário


recolher todas as informações para posteriormente se delinear um
plano de intervenção, que seja capaz de melhorar a relação famí-
lia/criança ou jovem. É necessário potenciar as capacidades dos
pais para avaliarem as necessidades apresentadas pelos filhos, reco-
nhecendo-as e efectuando modificações no seu comportamento
que permitam dar uma resposta adequada às mesmas, nomeada-
mente aos níveis afectivo e emocional.
Todos estes aspectos estão na base de uma intervenção que
potencie a possibilidade de as famílias adquirirem e desenvolverem
melhores condições para uma possível reintegração da criança ou
do jovem junto delas.
Na fase de diagnóstico, é necessário identificar e compreen-
der os vários factores e características familiares, designadamente

160
4. PROJECTOS DE VIDA

a sua história, dinâmicas e padrões de comunicação, bem como


as necessidades e recursos materiais, físicos e culturais que a famí-
lia possui.
É fundamental que os contactos que os vários elementos da
equipa vão estabelecendo com a família, em vários contextos, com-
preendam o padrão de comunicação e de interacção social, uma vez
que estes reflectem as características funcionais de cada indivíduo,
assim como a dinâmica familiar.
Também a família e os serviços da comunidade que fazem parte
da rede de parceiros estão envolvidos na avaliação diagnóstica e con-
tribuem, assim, para um processo de construção conjunta, podendo
contudo, não se situar na mesma escala de entendimento.
Quando o diagnóstico apontar para a impossibilidade de regresso
da criança à família, cabe à equipa técnica e educativa do LIJ ou CAT,
através de uma relação de ajuda, proporcionar o espaço adequado
para que as famílias possam reconhecer e aceitar as alternativas ade-
quadas ao acolhimento institucional. Este processo é facilitado se a
relação de confiança e empatia já estiver estabelecida.

Planeamento e Acção
Preparar um projecto de vida sustentado

A intervenção dirigida às crianças ou aos jovens, para que seja


consequente, deve ser cuidadosamente planeada.

Plano de intervenção individualizado

A elaboração de um plano de intervenção individualizado vai


garantir que o acolhimento em instituição, para uma determinada
criança ou jovem, tem objectivos concretos, que estão perfeitamente
identificados e cuja concretização fica sujeita a acompanhamento e
avaliação. Garante também a individualidade no acolhimento, pois

161
ACREDITAR NO FUTURO

o mesmo é traçado tendo em consideração cada criança ou jovem


e visa dar resposta efectiva às suas necessidades específicas, assim
como às da sua família.
O plano de intervenção individualizado integrará de uma forma
estruturada os elementos necessários para clarificar, orientar, orga-
nizar e avaliar a intervenção com a criança ou com o jovem e a
sua família de forma a que, apoiando-se nos pontos fortes, se res-
ponda às necessidades detectadas, possibilitando o cumprimento
dos objectivos traçados no plano. Deverá facilitar igualmente a ade-
quação da intervenção e as mudanças experimentadas pela criança
ou pelo jovem e sua família.

O plano de intervenção individualizado deve incluir:


– Objectivos a alcançar durante o período em que a criança
ou o jovem se encontram acolhidos. Quer para estes, quer
para as suas famílias, os objectivos devem ser específicos,
tendo sempre em consideração os resultados que se preten-
dem alcançar, as mudanças que interessa obter e o tempo
espectável para a sua concretização. Cabe aos técnicos aju-
dar as crianças e os jovens, bem como as suas famílias, a
entender a necessidade de se estabelecerem objectivos cla-
ros e realistas, que devem ser ordenados por níveis, face às
necessidades e especificidades de cada situação. Os objec-
tivos devem ser negociados com a criança e a família, mas
é muito importante que todos os intervenientes estejam
bem cientes do que lhes está a ser pedido, da responsabili-
dade que cada um tem no processo, do acompanhamento
e avaliação a que os objectivos vão ser sujeitos, e das con-
sequências que vão resultar da sua avaliação, pois, quando
se traça um plano de intervenção, a sua avaliação integral
tem de estar equacionada com as pessoas que dele vão ser
parte activa.
– Actividades e tarefas específicas para conseguir alcançar os
objectivos – para cada objectivo é necessário especificar as

162
4. PROJECTOS DE VIDA

actividades a realizar, quem as vai efectuar, como as vai fa-


zer, qual o tempo previsto para sua concretização, as con-
dições necessárias para a execução das mesmas e o nível
mínimo que se considera como aceitável para atingir a con-
cretização do objectivo previamente definido.
– Recursos humanos, materiais e técnicos que se considerem
necessários para a concretização dos objectivos.
– Tempo previsto para a concretização de cada um dos ob-
jectivos e também para a concretização global do plano de
intervenção.
– Monitorização do plano, sendo fundamental ir efectuan-
do o acompanhamento e a monitorização do plano para que
seja possível fazer os ajustes necessários ao mesmo em tem-
po útil.

O plano de intervenção individualizado deve ser um documento


de trabalho com carácter descritivo, constituindo-se como uma
referência para a intervenção dos profissionais e no qual está bem
delimitada a responsabilidade de todos os que nele intervêm.

É um instrumento fundamental para se poderem tomar deci-


sões. Nele deverão estar contempladas as seguintes áreas:
– Dados pessoais da criança ou do jovem e da sua família:
identificação da criança ou do jovem, composição do agre-
gado familiar e identificação de cada um dos seus membros,
caracterização da residência familiar, dados de outros fami-
liares ou pessoas que são relevantes para a criança ou para o
jovem.
– Dados considerados relevantes para a situação da criança
ou do jovem: situação jurídica, data e motivo de admissão,
regime de contactos familiares, data em que se elaborou o
projecto de vida, data em que deve ser revisto, observações
importantes que devem ser tidas em conta.

163
ACREDITAR NO FUTURO

– Conclusões da avaliação inicial da criança ou do adolescente:


aspectos físicos, cognitivos, comportamentais, emocionais,
sociais, de educação, análise da resposta que o acolhimento
residencial lhe está a proporcionar, identificação das neces-
sidades que têm de ser colmatadas, identificação dos pontos
fortes.
– Conclusões da avaliação familiar: interacção da família com
a criança ou o jovem, interesse demonstrado pela família
na situação da criança ou do jovem, identificação das com-
petências que deverão ser trabalhadas com a família, assim
como a identificação dos pontos fortes.
– Identificação dos objectivos a atingir com a criança ou com
o jovem e com a sua família, identificação de indicadores
para a avaliação dos mesmos, identificação das estratégias e
das tarefas que conduzam à prossecução dos objectivos, re-
cursos e distribuição de responsabilidades, temporização.
– Estimativa do tempo de permanência da criança ou do
jovem, no CAT ou LIJ, tendo em vista a concretização
do projecto de vida que está a ser perspectivado.
– Elaboração de um contrato com a família da criança ou
do jovem no qual se expressem as expectativas da equipa
do CAT ou LIJ que fazem o acompanhamento (se se tratar
da situação de um jovem, este poderá também entrar como
parte no contrato). Cada uma das partes compromete-se
a realizar esforços que, no seu conjunto e durante um de-
terminado período de tempo, contribuam para alcançar os
objectivos estabelecidos. Este contrato será objecto de acom-
panhamento e deverá ser revisto quando se justifique e sem-
pre que houver necessidade de o renegociar; é voluntário e
tem um valor educativo. É importante que se estabeleçam
também as consequências, para o caso de haver incumpri-
mento. Deve ser feito por escrito e cada uma das partes deve
ficar com uma cópia do documento.

164
4. PROJECTOS DE VIDA

– Durante a intervenção há que potenciar os meios sociais,


culturais e educativos, para proporcionar uma educação o
mais completa possível e ajustada às necessidades e capacida-
des da criança ou do jovem que se encontra acolhido, assim
como capacitar as famílias para que possam voltar a assumir
os seus filhos, accionando a rede social de apoio.
– A planificação e a avaliação do plano de intervenção indi-
vidualizado deve ser sempre feita por uma equipa multi-
disciplinar da qual faça parte o educador responsável pela
criança, o assistente social, o psicólogo e outros elementos
da equipa que se considerem relevantes, de forma a que se
possam cumprir todas as tarefas que cada uma das fases im-
plica. Deve promover-se a participação da criança ou do jo-
vem e da sua família. Deve ajudar-se a criança ou o jovem
e a família a entenderem as possíveis opções que se podem
equacionar quando da planificação do projecto de vida, as-
sim como as possíveis consequências que possam advir da
sua não concretização.

Na definição do plano de intervenção individualizado, são con-


sideradas as características e dinâmicas da família biológica, as
características de cada criança ou jovem e a sua história de vida.
Em função do tempo útil da criança, é explorada primeiramente a
hipótese de reintegração familiar ou integração na família bio-
lógica e/ou alargada. Sempre que tal não seja viável, por continuar
a existir desorganização na dinâmica familiar ou persistir a manu-
tenção do risco, surge a possibilidade de encaminhamento para a
adopção, pois sabemos que uma resposta familiar de qualidade tem
maiores possibilidades de sustentar um crescimento harmonioso
para a criança ou jovem.
Quando nenhum dos projectos de vida em contexto familiar é
concretizável, a intervenção centra-se no trabalho da autonomia,
realizado a partir do contexto institucional.
Tendo em conta todos os constrangimentos inerentes à vivên-
cia institucional, são implementadas diversas acções e estratégias,

165
ACREDITAR NO FUTURO

de forma a colmatar o impacto negativo daqueles na vida emocio-


nal da criança ou do jovem. Exemplos claros deste trabalho são: a
existência de um adulto de referência para cada criança ou jovem;
o trabalho desenvolvido na recolha de elementos do passado, histó-
rias de vida e da vivência institucional, livro de vida, instrumentos
que servirão de suporte à intervenção com a criança ou o jovem na
construção do seu percurso de vida, conferindo-lhe continuidade,
ordem e entendimento. O envolvimento progressivo da criança ou
do jovem na sua situação actual e futura, com vista a uma crescente
capacitação, indispensável ao seu processo de autonomia plena, é
promovido através do desenvolvimento dos planos individuais de
autonomia e constitui condição de primordial importância para o
sucesso da intervenção delineada.
O plano de intervenção individualizado é definido em equipa
multidisciplinar, com a participação de todas as entidades que
estiveram ou ainda se encontram envolvidas no acompanha-
mento da situação. Nele deve também estar presente a participa-
ção da família e da criança, tendo em conta a sua idade e grau de
maturidade.
A elaboração do plano de intervenção individualizado implica
um estudo aprofundado da situação, envolvendo, como já ante-
riormente foi dito, as parcerias. Esta análise incide sobretudo nas
seguintes vertentes: intervenção com a família biológica, nuclear ou
alargada e intervenção centrada na criança ou no jovem.

A intervenção com a família biológica, nuclear ou alargada:


– análise das competências para o desempenho das funções
parentais, com a avaliação dos aspectos fortes e das áreas
com necessidade de melhoria;
– avaliação da dinâmica relacional do agregado;
– avaliação da compreensão da família para a necessidade de
mudança e da motivação para a concretizar, tendo por ob-
jectivo o regresso da criança à sua família de origem;

166
4. PROJECTOS DE VIDA

– estudo da permeabilidade e motivação da família à inter-


venção técnica e consequente alteração dos padrões de com-
portamento desajustados e desadequados para a educação de
uma criança;
– estudo da inserção social, rede social de apoio e da integra-
ção laboral.

Sempre que se considere benéfica para a criança ou jovem deve


ser estimulada e apoiada a sua relação com a família de origem,
incluindo a participação activa desta na planificação e avaliação da
intervenção do que se está a efectuar. A sua participação deve ser
concretizada em função das necessidades da criança, assim como
das necessidades e competências da família.
A família pode participar no plano de intervenção individuali-
zado: proporcionando informação acerca da criança ou do jovem, e
facilitando, assim, a avaliação correcta dos seus pontos fortes, bem
como das necessidades que esta apresenta; contribuindo também
para um correcto diagnóstico das suas próprias necessidades e pon-
tos fortes; assumindo o cumprimento dos objectivos que estão tra-
çados no plano e lhe dizem respeito; ajudando a clarificar a própria
criança ou o jovem não só sobre a situação em que estes se encon-
tram, mas especialmente explicitando os objectivos que se pretende
atingir, para que a criança ou o jovem possam regressar à sua família.

A intervenção centrada na criança ou jovem deve incluir:


– avaliação das suas características cognitivas e relacionais e
análise da sua dinâmica emocional;
– estudo sobre a existência de uma relação de qualidade, ou
vinculação com os elementos da sua família, ou do agregado
familiar de onde proveio;
– conhecimento sobre as vivências anteriores à institucionali-
zação e o impacto destas no desenvolvimento emocional da
criança ou do jovem.

167
ACREDITAR NO FUTURO

É importante apoiar e estimular a criança e o jovem para que


estes participem no processo de avaliação e planificação do seu
plano de intervenção individualizado, em função das suas necessi-
dades e capacidades. A participação das crianças e dos jovens pode
fazer-se através da avaliação das suas necessidades e pontos fortes,
através do desenvolvimento de metas pessoais, a curto ou médio
prazo que integrem os objectivos que constam do plano; dar a sua
opinião sobre o plano de intervenção individualizado, participar
quando necessário nos contratos, participar na avaliação do seu
projecto de vida.
O plano de intervenção individualizado é dinâmico e deve ser
objecto de uma avaliação sistemática até ser concretizado o pro-
jecto de vida. Devem ser identificadas as estratégias específicas que
se constituem como necessárias para a sua realização.
A avaliação contínua é necessária de forma a garantir a qualidade
no sistema de acolhimento institucional, pois possibilita a adequa-
ção da intervenção às necessidades da criança e do jovem que tam-
bém vão mudando durante o período de acolhimento.
Por comparação com avaliações anteriores, é possível identifi-
car novas necessidades emergentes da criança e da família, face às
que apresentava inicialmente, como também é possível comparar
novos pontos fortes que vão surgindo das competências que, quer
a criança ou o jovem, quer a família, vão adquirindo ao longo da
intervenção.
Pode-se assim perceber se os objectivos alcançados pela criança
ou pelo jovem e pela sua família se estão a aproximar dos que cons-
tam no plano de intervenção individualizado traçado e que lhes diz
respeito.
A avaliação permite fazer uma revisão periódica do plano de
intervenção individual e efectuar os necessários ajustes para a sua
concretização. Para assegurar a revisão convém estabelecer um pe-
ríodo de referência. O resultado da avaliação deve ser comunicado
à criança ou ao jovem, bem como à sua família.

168
4. PROJECTOS DE VIDA

Como concretizar os projectos de vida?

O acolhimento de uma criança ou de um jovem numa instituição


deverá ser sempre encarado como temporário. Torna-se necessário
intervir de forma individualizada e há que olhar para uma criança
ou jovem como únicos e com a certeza de que cada um tem direito
a viver num contexto familiar. Podemos concretizar esse objectivo
através do regresso à sua família de origem, depois de devidamente
acauteladas as situações de risco que os colocaram em perigo e que
determinaram o seu acolhimento, quer numa família adoptiva que
os deseje e os ame incondicionalmente, quer ganhando compe-
tências socioafectivas que lhes permitam vir a reparar as situações
adversas, concretizando um projecto de realização pessoal que res-
peite a sua identidade e personalidade, e lhes promovam as condi-
ções necessárias e suficientes para atingirem uma autonomia plena.

Exemplo
Os dias foram passando, a mãe vinha visitar a Maria; foi trazendo
alguma roupa e algumas bonecas que a Maria tinha quando estava
em casa.
A mãe, durante a visita, dizia que agora já percebia que não tinha
feito bem, mas que ela, Maria, tinha sido teimosa. Dizia tam-
bém que ela, mãe, começava a estar farta do companheiro…
não trabalhava, só pensava em beber… e, como a Maria sabia, o
dinheiro nunca chegava lá em casa…
A Maria não queria ouvir mais histórias, o companheiro da mãe
nunca a tinha vindo visitar, mas ela também não tinha sauda-
des… de quem sentia saudades e gostava muito que a visitasse,
era da avó. A avó sabia que as bolas-de-berlim eram o seu bolo
favorito...
Nos meses que se seguiram, a Maria sentia que a mãe estava mais
triste… a situação lá em casa não estava bem, e a mãe tinha-lhe
dito que ia procurar outra casa e que, entretanto, enquanto não
tivesse outra casa iria passar a viver com a avó.

169
ACREDITAR NO FUTURO

As pessoas da casa dos meninos, especialmente a Joana, falavam


muito com a mãe da Maria, diziam-lhe como é que a Maria gos-
tava e precisava de ser cuidada, que a escola estava a correr bem,
ensinavam-na a ajudar a Maria a fazer os trabalhos de casa, a per-
ceber quando a Maria estava triste e o que fazer para a consolar.
A Maria ficou muito contente quando, na festa do final do ano,
percebeu que a mãe estava com a Joana a vê-la representar na
peça de teatro.
A mãe parecia muito contente e orgulhosa, estava mais animada e
continuava à procura de casa, ia ficando cada vez mais tempo nas
visitas e, por vezes, ela e a Maria quase se esqueciam do tempo,
conversavam sem parar e a mãe gostava de saber o que ela tinha
feito naquele dia e contava-lhe também como tinha corrido o
seu dia… preocupava-se em saber se ela estava contente, se estava
bem, se já tinha ido ao dentista, e uma vez a Joana acabou por
sugerir que a mãe as acompanhasse ao médico.
Como dizia a Joana, era importante que a mãe soubesse tudo o
que se passava com ela; sobre a sua saúde, a escola e os amigos,
para que um dia, quando ela regressasse a casa, a mãe soubesse
o que fazer…

(Re)Integração Familiar
Promover o regresso à família biológica

Na visão sistémica, todos os elementos de um determinado


sistema estão relacionados entre si. Se olharmos para a família
enquanto sistema, podemos verificar que as mudanças que se ope-
rarem num dos seus elementos acabam por se reflectir em todos os
elementos que integram este sistema familiar. Esta perspectiva sobre
a família substituiu o pensamento linear, que estabelece uma rela-
ção de causa e efeito, pela circularidade que, ao contrário, percebe
as situações como resultado de uma mútua influência das partes
envolvidas no todo. Este olhar inclui não só a criança, o adoles-
cente e a família como também os profissionais que trabalham em

170
4. PROJECTOS DE VIDA

CAT ou LIJ, bem como os que acompanham a família, levando em


consideração todos os interventores que interagem no processo de
desinstitucionalização.
Romper com a cultura de institucionalização passa por uma
mudança de cultura e de actuação face ao sistema de protecção à
criança e ao jovem em situação de risco, investindo para isso na
competência das famílias, redefinindo a institucionalização como
alternativa excepcional, que só deve ser aplicada quando estão esgo-
tadas as possibilidades de a criança ou o jovem se manterem no seu
contexto familiar.
Sabemos que nas nossas instituições existe ainda um elevado
número de crianças e jovens sem projecto de vida, impossibilita-
dos de integrar o meio familiar a que têm direito, pois todas as
crianças têm direito a viver em família, seja a sua ou uma família
alternativa.
Quando falamos da hipótese de uma criança regressar ao seu
meio familiar, estamos a acreditar na possibilidade de se poder ope-
rar uma transformação na vida das famílias cujos filhos estão ins-
titucionalizados (alguns durante um longo período de tempo), no
desejo de uma mudança, na capacitação, na responsabilização e no
direito que os pais têm de poder vir a operar as mudanças neces-
sárias, para conseguirem atingir as condições básicas para educar
o seu filho, além do dever de ser capaz de lhe dar a protecção e o
afecto que todas as crianças e jovens necessitam para se desenvolve-
rem de uma forma harmoniosa.
Trabalhar para que a reintegração familiar de uma criança ou
jovem se concretize em tempo útil, leva-nos a traçar um plano de
intervenção individualizado, com a família, as crianças ou os jovens
e parceiros, onde estejam identificados os objectivos que quere-
mos atingir, as estratégias que vamos utilizar para os alcançarmos,
os cronogramas, a responsabilidade de cada um dos intervenientes,
o seu acompanhamento próximo e sistemático, a avaliação contí-
nua, com a definição dos ajustes que se considerem necessários para
que a concretização do mesmo se verifique no prazo estipulado.

171
ACREDITAR NO FUTURO

Constitui-se como fundamental a intervenção e o papel das


equipas dos CAT e dos LIJ, que trabalham com as crianças, jovens
e suas famílias no sentido de as ajudarem a concretizar as mudan-
ças necessárias, para que possam regressar ao seu contexto fami-
liar e comunitário. Assim, estas equipas devem trabalhar de uma
forma construtiva as diversas etapas que se constituem como neces-
sárias para a reintegração familiar ocorrer dentro do planeado. Este
processo envolve sempre a recuperação da auto-estima, do valor e
da dignidade da família. É também necessário que a equipa acre-
dite no êxito da reintegração, pois só assim poderão ser supera-
dos os preconceitos e estigmas frequentemente associados a estas
famílias.
É importante, também, analisar o papel das instituições de aco-
lhimento que, de recurso temporário, passam a lugares onde as
crianças permanecem muitas vezes durante longos períodos de
tempo, sem projecto de vida definido. Este está simplesmente equa-
cionado como uma mera intenção, sem que haja planeamento do
mesmo, nem trabalho interdisciplinar com a criança, a família e os
parceiros. Assim, as crianças são condicionadas a permanecer nas
instituições, durante anos, vendo reduzida a esperança de poderem
crescer e viver numa família.
Acreditar na possibilidade de reconstrução das relações familia-
res é colocar esse processo na sua verdadeira dimensão política e
social, entendida e trabalhada com a perspectiva de transformação
das instituições.
É fundamental que se trace uma política para a infância e para a
família, na qual se privilegie a prevenção, onde as famílias, as crian-
ças ou jovens possam ser devidamente apoiados na saúde, educação,
lazer, habitação, formação profissional, emprego, não numa cul-
tura de criar mais situações de dependência de subsídios, mas sim
de conseguir que as famílias, as crianças e os jovens desenvolvam as
suas competências com vista à autonomia, de forma a melhorar a
sua auto-estima, e a tornarem-se cidadãos participativos no seu pró-
prio projecto de vida.

172
4. PROJECTOS DE VIDA

O acolhimento na perspectiva da criança ou do jovem

A institucionalização prolongada cria, para a criança ou para o


jovem, um quadro de referências que intervém na sua vida em várias
dimensões: cognitiva, afectiva e emocional, que orienta as suas rela-
ções e que dita as suas respostas comportamentais. O sentimento
de ser amado por alguém, assim como o sentimento de pertença
a uma família, de quem se espera afecto, segurança, protecção, são
suportes fundamentais na construção da personalidade, permitindo
à criança construir a sua identidade. Com a entrada na instituição,
na maioria das vezes, este referencial perde-se e a criança sente que
já não desperta afecto incondicional nas pessoas que com ela con-
vivem. Sente que está rodeada inicialmente de pessoas desconheci-
das, para as quais não se sente verdadeiramente importante. É mais
um entre muitos. Todos podem opinar acerca da sua vida, mas sente
que não é especial para ninguém, consolidando progressivamente o
sentimento de rejeição, vazio e abandono. É, assim, imprescindível
trabalhar com a criança acolhida, de maneira a que ela perceba o
seu valor e importância para aqueles que se ocupam dela, e também
para a família, mantendo com ela uma relação afectiva de qualidade.
A percepção entre o mundo institucional e a sociedade pode
levar a dificuldades de inclusão, por parte destes jovens, o que leva
a que se auto-excluam, dificultando, assim, o seu processo de inte-
gração social.
Ao longo de um processo de intervenção tendo em vista a concre-
tização de um projecto de vida de (re)integração familiar, é funda-
mental o progressivo envolvimento da família na vida da criança ou
do jovem acolhido em CAT ou LIJ, com vista a fortalecer a relação
afectiva e promover as competências e a responsabilidade parental.
Neste processo é muito importante a participação do educador
de referência, pois é ele que muitas vezes transmite à criança a segu-
rança necessária para que também ela volte a acreditar na família
que anteriormente não lhe deu o afecto e a segurança essenciais ao
seu adequado desenvolvimento integral e que acabou por conduzir

173
ACREDITAR NO FUTURO

à situação agora vivenciada e sentida pela criança, na maioria das


vezes, como muito penosa.
Num processo de reintegração familiar, demonstra-se, como
fundamental, identificar quais os motivos que levaram à institucio-
nalização da criança ou do jovem e que podemos dividir em qua-
tro grandes cenários:
– As crianças e jovens cujos pais os abandonaram após o nas-
cimento ou acolhimento, desconhecendo-se o seu paradei-
ro, e que foram completamente negligenciados, encontran-
do-se desprotegidos.
– As crianças e jovens que entraram no sistema de acolhimen-
to, com oposição por parte dos pais ou familiares que ti-
nham a criança a cargo antes do seu acolhimento.
– As crianças e jovens que se encontram em acolhimento ins-
titucional e cujos pais fazem alguns movimentos para recu-
perarem a sua guarda, não porque a desejem, mas porque os
técnicos lhe induzem esse comportamento; muitas vezes os
pais não têm uma clara percepção das suas dificuldades em
lidar com a situação.
– As crianças e jovens que se encontram em acolhimento ins-
titucional, cujos pais têm a clara percepção das suas dificul-
dades, adoptando uma postura colaborante com os serviços,
no sentido de fazerem as mudanças que lhes permitam vir a
assumir o seu filho.

O posicionamento da família no acolhimento da criança

É fundamental perceber como é que a família se posiciona face


ao acolhimento da criança, para que os objectivos e estratégias deli-
neados no plano de intervenção individual possam ir ao encontro
das necessidades apresentadas pela própria família. Que competên-
cias têm de adquirir, quais as estratégias que vamos utilizar, quais as

174
4. PROJECTOS DE VIDA

mudanças que se constituem como imprescindíveis para que aquela


criança ou jovem possam regressar a casa.
Analisando o primeiro cenário, estamos em presença de uma
situação de reintegração familiar de difícil concretização, pois se a
criança foi abandonada após ter sido acolhida, ou os pais estão com
paradeiro desconhecido, resta aos técnicos identificar dentro da famí-
lia alargada um elemento que, de facto, tenha capacidade e desejo de
assumir esta criança ou jovem e, claro, que a criança aceite ir viver
com esse familiar, ou delinear um projecto de vida que leve a criança a
ser encaminhada para adopção, pois tem direito a viver em família.

No segundo cenário deparamo-nos com uma situação na qual


os técnicos podem ter o seu trabalho muito dificultado, pois têm
de se confrontar com a oposição da família que, com certeza, tam-
bém irá revelar, pelo menos num primeiro momento, resistência à
intervenção técnica e pouca colaboração. Quando as crianças e os
jovens são retirados da família em situações de clara oposição por
parte deles, a sua auto-estima fica muito fragilizada. Muitas vezes
são postas em questão na comunidade onde vivem; não percebem
porque é que as crianças lhes foram retiradas; culpam os técnicos
ou pessoas externas ao agregado familiar pelo sucedido e sentem os
técnicos como uma ameaça.
Muitas vezes, nesta situação, são os educadores que diariamente
cuidam da criança que acabam por ser os primeiros a conquistar
os pais, pois estes percebem que os filhos estão a ser bem cuidados
após o acolhimento.
Os pais podem também começar por prometer que irão fazer
todas as mudanças que se considerem necessárias para ficar com a
guarda dos filhos, mas sem que as interiorizem e imprimam movi-
mentos efectivos de mudanças nos seus comportamentos que sejam
conducentes a uma reintegração familiar. Começam muitas vezes a
afastar-se dos filhos, a sentirem que cada vez estão menos implica-
dos nas suas vidas e a falhar com os compromissos assumidos para
que a reintegração efectiva da criança ou do jovem se concretize.

175
ACREDITAR NO FUTURO

Através de um acompanhamento muito próximo da situação, da


análise e avaliação interdisciplinar, podemos, em tempo útil, defi-
nir o projecto de vida que defenda realmente o superior interesse
da criança ou do jovem.

No terceiro cenário é fundamental que os técnicos saibam


aproveitar a situação vivenciada pela família, pois a retirada de
uma criança do seu meio familiar acaba sempre por provocar um
momento de crise, quer para a criança, quer para a família. Há que
trabalhar com a família para que esta possa assumir novamente a
sua criança. Há que identificar claramente as razões que levaram à
retirada da criança ou do jovem e ajudar a família a tomar cons-
ciência deles (todos sabemos que os comportamentos são difíceis de
mudar e, para que se proceda à mudança, tem de se perceber por-
que é que temos de mudar, quais são as mais-valias que daí podem
advir), bem como definir conjuntamente quais as mudanças que
são imprescindíveis ver concretizadas naquela família, para que a
criança regresse ao contexto familiar.
Por vezes as famílias vêem os CAT ou LIJ como sendo institui-
ções poderosas, frente às quais sentem um sentimento de inferiori-
dade. Esse sentimento pode determinar o progressivo afastamento
das famílias, começando estas por espaçar as visitas, gradualmente.

No quarto cenário é fundamental aproveitar a consciencialização


que a família tem dos seus problemas, para lhes prestar todo o apoio
necessário, nomeadamente accionando a rede social para a apoiar
desde o primeiro momento em que a criança é acolhida, para que se
evitem períodos de institucionalização mais prolongada. Em algu-
mas situações, deparamo-nos com crianças que, pelas suas caracterís-
ticas, exigem cuidados, atenção, investimento de tempo, bem como
necessidades materiais e de afecto que as famílias em determinados
momentos, e por condicionalismos vários, podem não conseguir
dar. Quanto maior for a implicação dos pais, maior será a possibili-
dade de um regresso rápido da criança ou do jovem à sua família e,

176
4. PROJECTOS DE VIDA

menores serão os efeitos negativos para a criança ou jovem. É assim


importante trabalhar a valorização dos vínculos afectivos que unem
os membros da família e, paralelamente, a criação de condições
materiais para que os pais adquiram condições mínimas para ofere-
cer aos seus filhos os cuidados e a atenção de que estes necessitam.

A implicação dos pais revela-se muito importante na fase prévia


ao acolhimento, pois é fundamental que se consiga trabalhar com a
família, levando-a a dar o seu consentimento, para que se proceda
ao acolhimento da criança, no sentido de a proteger. Pelos técnicos,
que acompanham a situação, tem de ser ponderada qual a solução
que melhor se adequa e responde de forma eficaz às necessidades
apresentadas pela criança ou pelo jovem, naquele momento.
A entrada de uma criança ou jovem numa instituição será sem-
pre vivida por estes como uma ruptura com o seu ambiente familiar
e comunitário. A criança ou o jovem viverão essa experiência com a
insegurança de quem entra num universo desconhecido. Para algu-
mas crianças ou jovens, a instituição pode ser um ambiente que
lhes vai proporcionar experiências gratificantes e afectivas, prote-
gendo-os de um ambiente familiar hostil, enquanto, para outros, o
acolhimento pode representar uma experiência muito violenta, com
a destruição dos vínculos afectivos que tinham com a sua família.
Muitas vezes a criança e o jovem revelam sentimentos de depres-
são e de profunda incompreensão, sendo predominante o senti-
mento de abandono.
As diferentes idades e também as circunstâncias em que foi
determinado o acolhimento contribuem para que a criança ou o
jovem formem uma imagem negativa da sua família e de si pró-
prios. Quando a criança ou o jovem foram vítimas de abuso e vio-
lência física, verão a sua família com medo e desconfiança. Reparar
a imagem da família para a criança será das tarefas mais difíceis
num processo de reintegração.
Se os motivos que levaram ao acolhimento foram essencialmente
pobreza e falta de recursos, a criança ou o jovem poderão guardar

177
ACREDITAR NO FUTURO

sentimentos positivos da sua família, favorecendo o restabeleci-


mento das vinculações familiares.
É importante, desde o primeiro momento, delinear todo o plano
de intervenção com a participação da família, onde conste a iden-
tificação dos objectivos, as mudanças que terão de se processar no
ambiente familiar no seu todo, ou em cada um dos elementos, os
prazos para que o plano se concretize, os recursos que vai ser neces-
sário mobilizar para ajudar a família a ultrapassar as dificuldades
identificadas.
Quando a criança ou o jovem são acolhidos no centro de acolhi-
mento ou LIJ, devem ficar bem definidas quais as responsabilida-
des da família, nomeadamente dos pais, qual a periodicidade com
que devem efectuar visitas à criança ou jovem, como se vão reali-
zar os contactos.
O progressivo envolvimento dos pais na vida dos seus filhos, que
se encontram em instituição, passa pelo aumento de tempo e fre-
quência das visitas dos pais e familiares à criança, pela participação
activa e gradual dos familiares nas suas rotinas, tais como partici-
pando nos momentos de alimentação e nas deslocações ao médico
e à escola, acompanhada pelo educador.
A observação das visitas de uma forma informal é fundamental
pois, através destes contactos, o técnico pode perceber se existe uma
relação de qualidade, marcadamente afectiva entre os pais e os seus
filhos, como é que os pais estão a vivenciar esta situação, quais as
atitudes que demonstram ter perante os diversos comportamentos
da criança ou jovem. Também o técnico acaba por transmitir infor-
mações sobre a criança ou jovem, que são importantes para que os
pais conheçam os seus filhos, saibam interpretar as suas atitudes e
comportamentos, bem como conselhos sobre os cuidados paren-
tais e modos de actuação nas diferentes situações que se vão colo-
cando diariamente.
Como seria de esperar, nem todos os pais demonstram vontade
de colaborar com as pessoas que trabalham no CAT ou no LIJ;
especialmente no início têm comportamentos bastante defensivos.

178
4. PROJECTOS DE VIDA

É necessário ganhar a sua confiança e, através de uma atitude


pró-activa, dar-lhes a entender que o objectivo é comum, ou seja,
trabalhar para o bem-estar da criança ou do jovem que se encontra
acolhido, ajudá-lo a crescer bem.
A observação das visitas, quer formal, quer informalmente, vai
dar aos técnicos elementos que lhes permitem perceber a evolução
da relação pais/filhos, e, assim, aumentar ou diminuir os contactos,
tendo em vista a continuidade do projecto de reintegração familiar:
se a criança manifesta, contudo, insatisfação crescente com a visita
dos pais, e os pais continuam a não fazer mudanças efectivas no
seu comportamento para poderem assumir a criança ou o jovem,
há que repensar o projecto de vida; se a evolução da relação regis-
tar um movimento positivo, com fortalecimento da mesma e se for
gratificante para ambos, há que intensificar os contactos, envol-
vendo cada vez mais os pais na vida do filho, embora este ainda se
mantenha acolhido.
Os CAT e LIJ devem ter uma sala confortável onde os pais pos-
sam interagir com os filhos, mantendo a privacidade necessária.
Temos de ter presente que as visitas são momentos privilegiados
para ensinar os pais a interagirem com os filhos e trabalhar com
eles, também, as competências que lhes permitam exercer o seu
papel parental adequadamente, como, por exemplo, saber brincar
com a criança, saber como controlar o seu comportamento sem
recurso ao castigo físico, etc.
Depois do prévio estudo da situação e se a conclusão for de que
a saída da criança para casa dos pais ou familiares não a coloca em
perigo, dependendo das características de cada criança e da sua
capacidade para lidar com esta situação, o envolvimento progres-
sivo poderá passar também pelo aumento dos tempos de perma-
nência da criança em casa dos familiares durante os fins-de-semana
e períodos de férias. Como será expectável, esta situação de perma-
nência de períodos de tempo em casa da família tem de ser acompa-
nhada de forma sistemática e rigorosa, pois, para além da segurança
da criança ter de ser sempre salvaguardada, este é um indicador

179
ACREDITAR NO FUTURO

que nos dá uma avaliação preciosa da forma como esta família está
a operacionalizar as mudanças necessárias, para voltar a assumir a
criança ou o jovem.
Ao longo deste processo é importante reconhecer e valorizar as
atitudes parentais positivas, bem como ajudar os familiares a iden-
tificar eventuais dificuldades, reflectindo sobre os recursos existen-
tes e estratégias para a sua resolução.
É importante que os pais percebam qual é de facto o seu papel
na educação e crescimento dos seus filhos, pois o papel do CAT
ou LIJ é ajudá-los a desenvolverem capacidades que lhes permitam
assumir a sua responsabilidade parental, assim como gerir as suas
dificuldades de forma cada vez mais autónoma. A instituição nunca
constituirá uma família para a criança ou jovem acolhido.
Num processo de (re)integração familiar, o trabalho visa o rein-
vestimento da família na criança. Procura-se reconstruir vínculos
afectivos entre a criança e a sua família, numa acção de reaproxi-
mação e acompanhamento, bem como aumentar o seu potencial
educativo.
Assim, este processo é sempre feito com base num compromisso,
pressupondo o aumento progressivo do envolvimento dos pais na
vida da criança ou do jovem.
O compromisso não é mais do que um instrumento de avalia-
ção, em que a família da criança ou do jovem e a equipa técnica
do CAT ou LIJ, celebram um acordo, com vista à concretização
da reintegração familiar, que se preconiza que seja feita de forma
faseada e sustentada, e onde ambas se comprometem a cumprir as
acções que estiverem na base do mesmo.
O compromisso envolve e implica a família na responsabilidade
de acções relacionadas com a satisfação das necessidades básicas
da criança ou do jovem, aumentando as suas responsabilidades de
forma progressiva.
Trabalham-se dentro do compromisso os seguintes aspectos:
alimentação; cuidados de higiene; cuidados de saúde; educação;
afectos e emoções.

180
4. PROJECTOS DE VIDA

Neste documento são contempladas acções que estão identifi-


cadas minuciosamente no mesmo, tais como: definição de quem
vai buscar a criança ao CAT ou LIJ, qual o horário; como é que vai
ser gerido o período de férias e fins-de-semana em que a criança
se encontra junto da família; adequação do espaço habitacional à
criança ou jovem; participação activa da família nas questões rela-
cionadas com a educação (reuniões na escola), assim como nas
questões relacionadas com a saúde (levar a criança a consultas médi-
cas); garantir a continuidade do acompanhamento necessário após
a saída da criança.
O compromisso dispõe de uma calendarização, estando assim
estabelecidos os momentos de avaliação e de redefinição do com-
promisso seguinte, se for considerado oportuno.

O papel do CAT ou LIJ na promoção da (re)integração

A instituição tem, assim, um papel de capacitação parental e não


de desvalorização do papel da família.
Conforme foi referido anteriormente, é muito importante que
o compromisso feito entre a instituição e os pais fique registado em
documento escrito, onde estejam identificados objectivos, estraté-
gias, responsabilidades de cada um dos intervenientes e o tempo
estimado para que o plano de reintegração se concretize. O mesmo
será ajustado nos momentos de avaliação que serão inicialmente
agendados por ambas as partes.
Também para a criança ou jovem é fundamental perceber que,
entre o local de acolhimento e os pais, existe entendimento, que o
seu futuro está a ser pensado e também ele pode, e deve, ser parti-
cipante activo em todo o processo. Sempre que seja possível, deve-
riam ser os pais a explicar as razões pelas quais a criança teve de ser
acolhida e as mesmas deviam ser corroboradas pelas pessoas que
integram a equipa do CAT ou LIJ. É importante que a criança per-
ceba os motivos pelos quais se encontra acolhida.

181
ACREDITAR NO FUTURO

Quando se trabalha um projecto de vida que visa a reintegração


familiar, é imprescindível que os pais conheçam a instituição, o seu
funcionamento, o regulamento interno, os seus direitos e deveres
bem como os dos seus filhos. Os pais devem ser tratados com res-
peito, para que também eles próprios respeitem as pessoas que tra-
balham na instituição.
Demonstra-se, como essencial, que a dinâmica da instituição
seja promotora da vinculação da criança ou do jovem aos seus fami-
liares e que não seja mais um factor de constrangimento na manu-
tenção dos vínculos familiares, através da pouca flexibilidade nos
horários das visitas; é assim importante compatibilizar as rotinas da
casa com os horários das visitas dos pais, para que estes possam par-
ticipar nelas, de uma forma activa.
O CAT ou LIJ têm como tarefa proporcionar um ambiente de
bem-estar e protecção, ajudando a criança a elaborar as suas per-
das, para que a mesma possa simbolizá-las, preservando assim a sua
saúde mental.

A partilha de informação, entre o CAT ou o LIJ e os familia-


res, reveste-se da maior importância, pois permite que informações
valiosas acerca da criança ou do jovem sejam do conhecimento dos
interessados e transmite um clima de confiança e interajuda, possi-
bilitando, assim, a identificação de estratégias de actuação mais ade-
quadas às necessidades da criança ou do jovem.
É fundamental estabelecer uma articulação eficaz entre os ser-
viços que acompanham a família, ou estão a intervir na situação,
de forma a evitar a duplicação da intervenção ou, por outro lado, a
incongruência da mesma. Há que definir os papéis de cada um dos
técnicos intervenientes e efectuar uma avaliação conjunta da situa-
ção, sempre que se considere necessário.

Num processo de reintegração familiar, o papel do profissional é


analisar e avaliar os meios mais adequados para alcançar os objecti-
vos desejados. Neste processo é muito importante analisar o desejo

182
4. PROJECTOS DE VIDA

da criança e da família, avaliando em que medida o sofrimento para


ambos pode ser amenizado. A atitude do técnico deve ser de escuta,
estar atento, ser compreensivo, ser analítico e efectuar uma avalia-
ção sustentada do processo.
O papel do técnico expressa-se na co-construção de um traba-
lho junto das famílias, das crianças e dos jovens. É necessário que
veja a família de maneira diferente e que acredite na sua competên-
cia para mudar a realidade contextual. O maior desafio é deixar de
ver a família como parte do problema e ajudá-la a responsabilizar-se
para ser também parte da solução.

Nunca a instituição deverá utilizar a supressão de visitas da famí-


lia à criança, ou da criança à família, como punição pelo facto de a
criança ou o jovem ter comportamentos desadequados, pois as visi-
tas são um direito, quer da criança, quer da família, e só podem ser
suprimidas mediante decisão judicial, ou se as mesmas colocarem a
criança em perigo, o que levará os técnicos a apresentarem de ime-
diato a situação ao tribunal.

Exemplo
E um dia a Joana perguntou à Maria se ela queria ir passar um
domingo com a mãe… Foi um dia divertido, ela já nem sabia
bem como era estar sozinha com a mãe, pois já tinham passado
uns meses desde que ela estava na casa dos meninos.
Algumas semanas depois, passou a ficar todo o fim-de-semana na
companhia da mãe. Às vezes a Joana fazia-lhe uma visita, o que
deixava a Maria muito contente. Foi com enorme alegria que lhe
mostrou o seu quarto, na nova casa.
Era uma casa pequena, parecia uma casinha de bonecas, mas
ela sentia-se bem no seu quarto… ao domingo à noite, quando
regressava à casa dos meninos, ficava cheia de saudades de não
poder ficar em casa… mas tinha mesmo de regressar.
A mãe dizia que o tribunal estava quase a decidir, a Joana dizia
que achava que ia dar tudo certo… a Maria ainda estava com
medo… e o juiz nunca mais dizia nada.

183
ACREDITAR NO FUTURO

Esse dia chegou finalmente… a Maria ficou contente quando a


mãe lhe disse. Percebeu que queria voltar para casa. Sabia que,
quando tivesse saudades da Joana, dos amigos e também dos
outros adultos, podia sempre pedir à mãe para a trazer à casa dos
meninos… além disso a Inês, a sua melhor amiga, também estava
de partida, pois ia ter uns pais novos e estava muito feliz. Era algo
que ela já desejava há algum tempo, mas, como tinha 9 anos, foi
um bocadinho difícil aparecer uma família que gostasse de ter
uma filha com aquela idade…

A concretização deste projecto de vida

A preparação e o grau de envolvimento de uma criança ou de um


jovem ao longo de um processo de (re)integração familiar depende
da idade cronológica e do nível de desenvolvimento cognitivo e
emocional da própria criança.
Quanto mais velha e competente, maior será o grau de envolvi-
mento da criança ao longo deste processo. Este envolvimento passa
por ouvir a opinião da criança ou do jovem sobre a possibilidade de
voltarem para o agregado de onde foram retirados, ou de viverem com
outros familiares, assegurando-lhes sempre que a sua opinião é impor-
tante, mas que a responsabilidade da decisão não recai sobre eles.

A intervenção com a família será sempre efectuada em função


das necessidades e interesses da criança e do jovem.
Quando se trabalha a reintegração familiar de uma criança ou de
um jovem, é fundamental conhecer a história da família, bem como
a rede social intra e extrafamiliar, a sua dinâmica e interacção, assim
como as razões que levaram ao acolhimento da criança ou do jovem
na perspectiva familiar. É essencial estar aberto a compreender o
tipo de organização e dinâmicas familiares. É essencial identificar,
na história familiar os factores significativos: violência doméstica,
rejeição, comportamentos aditivos, doença mental, desemprego ou

184
4. PROJECTOS DE VIDA

outros que possam sinalizar a pertinência ou a contra-indicação da


reintegração naquele momento específico. Quando conseguimos
confirmar junto das famílias algumas destas hipóteses, é necessário
ajudar a família a mudar os seus padrões de comportamento.
Se os pais não demonstrarem predisposição para receberem
novamente a criança ou o jovem, há que explorar a possibilidade
de os mesmos serem acolhidos no seio da sua família alargada. Mui-
tas vezes a família verbaliza o desejo de poder receber no futuro a
criança ou o jovem, mas não se mobiliza para se organizar de forma
a criar as condições mínimas necessárias para os receber.
Nestes casos demonstra-se como fundamental avaliar a pertinên-
cia de manter os contactos da criança com a sua família alargada,
evitando que ela permaneça definitivamente institucionalizada.
Verifica-se por vezes, que a resistência em voltar para casa parte
da criança ou do jovem, o que nos levanta a necessidade de fazer
uma análise aos seus comportamentos e ao que neles está camu-
flado, sendo assim importante averiguar os sentimentos que eles
têm a respeito da sua família.
É igualmente fundamental perceber se a criança está vinculada
especificamente a alguém da sua família, bem como conhecer as
suas idealizações e referências familiares.
A desvinculação do CAT ou LIJ deve ser feita progressivamente,
pois esta mudança vai exigir da criança ou do jovem um novo
esforço para se adaptarem a uma nova realidade, pelo que deve ser
preparado com tempo suficiente para que possam aceitar e desejar
a mesma, de forma a encarar este desafio como uma etapa impor-
tante na sua vida.
A saída definitiva do CAT ou LIJ deve resultar da avaliação posi-
tiva de todo o processo de reintegração familiar, mas é necessário
assegurar o acompanhamento desta nova situação, através de um
acompanhamento sistemático à família e à criança ou ao jovem,
pois todo o processo é formado por reajustes, quer da família à
criança ou ao jovem, quer destes, de novo ao contexto familiar,
social, ambiental, comunitário etc.

185
ACREDITAR NO FUTURO

Esta transição pode constituir um momento particularmente crí-


tico. Se não for devidamente acompanhada, a criança ou o jovem, e
por vezes também a família, podem fantasiar a ida para casa como
uma situação idílica, onde os problemas não existem, tendo ambas
as partes grandes expectativas face ao acontecimento. Muito fre-
quentemente, a família mantém condições de fragilidade e vulne-
rabilidade, por isso é necessário manter um seguimento atento e
sistemático, pois pode ser necessário accionar os apoios da rede social
para fazer face a eventuais constrangimentos que apareçam durante
este período e que possam potenciar o insucesso da mesma.
É fundamental que o técnico que apoia a família lhe dê as orien-
tações e o apoio necessários, que lhe permitam resolver dificuldades
e problemas. Deve sempre promover a responsabilidade parental
e pessoal, dando-lhes confiança e acreditando na possibilidade de
desenvolverem competências que lhes permitam ultrapassar as cri-
ses que vão aparecendo no dia-a-dia. É também fundamental que a
família tenha conhecimento dos recursos comunitários que a possam
apoiar e, se for necessário, o técnico constituir-se como um veículo
para que a família consiga usufruir desse apoio. Constitui-se como
imprescindível passar a mensagem, quer à família, quer à criança
ou ao jovem, que o técnico estará disponível para accionar todos os
mecanismos que se considerem necessários para que a concretização
deste projecto de vida culmine em sucesso, isto é, para que a criança
ou o jovem voltem a fazer parte integrante das suas famílias.

Adopção
O direito a viver em família

A adopção é o vínculo jurídico e afectivo que promove o direito de


pertença de uma criança a uma família. (Artigo 1586.o do Código
Civil.)
Para que uma criança possa estar em situação de poder vir a
ser adoptada, é necessário que o organismo de segurança social

186
4. PROJECTOS DE VIDA

competente a considere como tal, mediante uma decisão de con-


fiança administrativa, ou que seja declarada adoptável pelo tribunal
competente, por decisão de confiança judicial ou medida de pro-
moção e protecção de confiança a pessoa seleccionada, ou institui-
ção, com vista à adopção.
Como requisitos legais, exige-se ainda que a criança tenha menos
de 15 anos à data da petição judicial de adopção, ou idade inferior
a 18 anos, desde que não se encontre emancipada, quando desde a
idade não superior a 15 anos tenha sido confiada aos adoptantes,
ou a um deles. (Artigo 1980.o do Código Civil.)

Porquê adopção?

Desde que nasce, a criança necessita de viver num ambiente


protector onde lhe seja garantida a satisfação das suas necessidades,
onde possa estabelecer uma vinculação segura com o adulto cuida-
dor, de preferência com as figuras parentais.
As crianças que são acolhidas nos CAT ou LIJ foram colocadas
pelos adultos que dela cuidavam em situações de perigo, pelas mais
variadas razões que já foram alvo de abordagem em capítulos ante-
riores, pelo que tiveram de ser retiradas do contexto familiar e colo-
cadas transitoriamente sob protecção do Estado.
Quando os pais não assumem a sua função, ou não têm capa-
cidade para tal, ou quando não existem familiares próximos que
mostrem disponibilidade para assumir essa função, cabe à socie-
dade tomar as medidas adequadas para proporcionar à criança em
perigo uma relação substitutiva.
A equipa da instituição que acolhe a criança em parceria com
as equipas que já trabalharam a situação, sejam as que estiveram
na origem da sinalização da situação de perigo em que a criança se
encontrava, ou outras que possam ter tido uma intervenção na refe-
rida situação, definem o projecto de vida para a criança, que poderá
passar pela sua adopção, isto quando o trabalho com a família de

187
ACREDITAR NO FUTURO

origem foi já efectuado encontrando-se esgotadas as hipóteses de a


criança poder regressar à mesma.
Se os pais demonstram claro desejo em entregar a criança para
adopção, ou porque consideram que não têm condições para dela
cuidar, ou porque a criança também não faz parte do seu próprio
projecto de vida, há que ajudar estes pais a prestarem o seu consen-
timento prévio para que a criança possa ser adoptada, agilizando os
procedimentos que estão inerentes à prestação do consentimento
prévio para adopção e, assim, diminuir o tempo de institucionali-
zação a que esta criança está a ser sujeita.
A confiança administrativa é da competência dos organismos
de segurança social, mas não pode ser decidida se houver oposição
de quem exerça o poder paternal ou a tutela ou de quem detenha,
de direito e de facto, a guarda da criança, estando obrigado o orga-
nismo de segurança social a comunicar ao magistrado do Minis-
tério Público junto do tribunal competente, em cinco dias, quer
a decisão e os seus fundamentos, quer a oposição que tenha impe-
dido essa confiança.
Quando os pais consideram que não necessitam de mudar os
seus comportamentos e atitudes de modo a criar condições míni-
mas que lhes permitam voltar a ter o seu filho consigo, e a inter-
venção com eles desenvolvida nesse sentido fracassou, então há
que encetar outro tipo de procedimentos junto do tribunal para
que a criança possa vir a ser considerada em situação de poder ser
adoptada e, assim, ter o seu direito de viver e crescer numa famí-
lia garantido.
Há, assim, que dar início a um processo de confiança judicial
que tem como primeira finalidade a defesa da criança, evitando que
se prolonguem situações em que esta sofre as carências provenien-
tes da ausência de uma relação familiar de qualidade, em que os
seus pais não cumprem a sua função parental, não demonstram
vontade em prestar o consentimento prévio para que a criança seja
entregue para adopção, mantendo um desinteresse manifesto ou
uma inflexibilidade na mudança de comportamentos e atitudes,

188
4. PROJECTOS DE VIDA

considerando muitas vezes que as suas atitudes anteriores foram cor-


rectas e não deveriam ter conduzido à retirada do seu filho, pois não
estão cientes das necessidades que a criança apresenta no decurso do
seu desenvolvimento. Têm muitas vezes uma atitude de posse face à
criança, tratando-a como criança-objecto, não sendo previsível que,
em tempo útil, esta criança possa regressar ao seu contexto familiar.
A criança, após a decisão judicial de poder vir a ser adoptada,
pode ser confiada a uma família que tenha sido objecto de selecção
pelo organismo competente para o efeito, e que tenha sido, pelo
mesmo, considerada apta para poder adoptar uma criança.

Quando a adopção plena é decretada, o adoptando adquire a


situação de filho do adoptante e integra-se na sua família, extin-
guindo-se as relações familiares com os seus ascendentes ou colate-
rais naturais, perdendo os apelidos de origem e sendo o seu novo
nome constituído com as necessárias adaptações. (Artigos 1986.º e
1988.º do Código Civil).
A adopção aparece, assim, como um direito da criança a ter uma
nova família, depois de esgotadas todas as possibilidades de ela per-
manecer ou de regressar à sua família de origem.

Requisitos para confiança com vista a futura adopção

Segundo o número 1 do Artigo 1978.º do Decreto-Lei


n.º 31/2003, de 22 de Agosto, o tribunal pode confiar uma criança
a um casal, a pessoa singular ou a instituição, quando não existam
ou se encontrem seriamente comprometidos os vínculos afecti-
vos próprios da filiação, pela verificação objectiva de qualquer das
seguintes situações:
– Se a criança for filha de pais incógnitos ou falecidos.
– Se tiver havido consentimento prévio para adopção.
– Se os pais tiverem abandonado a criança.

189
ACREDITAR NO FUTURO

– Se os pais, por acção ou omissão, mesmo que por manifesta


incapacidade devida a razões de doença mental, puserem em
perigo grave a segurança, a saúde, a formação, a educação ou
o desenvolvimento da criança.
– Se os pais da criança acolhida por um particular ou por uma
instituição tiverem revelado manifesto desinteresse pelo fi-
lho, em termos de comprometer seriamente a qualidade e a
continuidade daqueles vínculos durante, pelo menos, os três
meses que precederam o pedido de confiança.

A importância da adopção em idade precoce

Quando uma criança é integrada numa instituição numa idade


muito precoce, as memórias externas são constituídas em ambientes
hostis. Muitas das instituições acolhem crianças muito pequenas,
em grande número, sem pessoal devidamente qualificado para delas
cuidar. Têm um carácter impessoal no atendimento que prestam,
sem sequer atenderem às necessidades específicas de cada criança,
o que leva a criança a adaptar-se organicamente a essa realidade,
atribuindo outros sentidos ao choro, resistindo ao toque, às carí-
cias feitas por tantas pessoas diferentes, ao mesmo tempo que vai
interiorizando a lógica que orienta a vida quotidiana da instituição.
Quanto mais tempo a criança passar na instituição, mais for-
temente estão estabelecidas essas memórias externas e mais forte-
mente estará interiorizada a lógica e o funcionamento institucional,
ao ponto de constituir o seu único referencial.
A dinâmica anteriormente descrita irá trazer graves consequên-
cias para a criança, pois muitas vezes, quando é colocada em adop-
ção, acaba por ter muitas dificuldades em adaptar-se à dinâmica
familiar.
Assim, torna-se necessária uma definição célere do seu projecto
de vida e, quando o mesmo é a adopção, há que dar início a todos
os trâmites legais necessários à sua rápida concretização.

190
4. PROJECTOS DE VIDA

A criança, mediante a sua idade, capacidade e grau de matu-


ridade, será sempre envolvida neste projecto de vida. Há crianças
que pelo seu percurso de vida e experiência pessoal não desejam ser
adoptadas, devendo a sua opinião ser respeitada.

Preparação da criança para conhecer a nova família

A equipa tem de estar atenta aos sinais e comportamentos mani-


festados pela criança, tem de ajudá-la a elaborar o luto da família
biológica, para que posteriormente se possa trabalhar o seu desejo
de poder ter uma nova família.
A criança tem de perceber e participar activamente na constru-
ção desse desejo, saber gerir as expectativas, bem como os sentimen-
tos de culpabilidade e ansiedade que frequentemente se registam
nestas situações.
É importante promover uma estreita articulação entre o CAT ou
LIJ que tem a criança a seu cargo, pois esta equipa conhece bem o
comportamento, atitudes e maneira de ser da criança, com o ser-
viço de adopções do organismo de segurança social que irá escolher
a família que poderá vir a adoptar a criança, para que, conjugadas
as diferentes premissas, se consiga obter o melhor resultado final,
ou seja, que aquela criança encontre a família que a ame incondi-
cionalmente, a proteja e lhe dê as necessárias condições para que
se desenvolva de uma forma integral e harmoniosa e que a família
sinta naquela criança o filho que desejou ter.
É fundamental que o adulto de referência fale com a criança,
dependendo da sua idade e capacidade de compreensão, sobre a
importância de ter uma família. Não nos podemos esquecer de que
muitas crianças nunca viveram numa família e outras tiveram uma
experiência muito negativa. É por vezes difícil para uma criança
trocar uma situação conhecida – viver num lugar com muitos cole-
gas da sua idade – por um lugar desconhecido. Aqui é fundamental
a confiança que o adulto de referência lhe pode incutir, pois para

191
ACREDITAR NO FUTURO

ser convincente para a criança, também ele tem de acreditar que ser
adoptado por aquela família vai ser o melhor para ela.
Um dos factores que se constitui como fundamental, nesta fase,
é a disponibilidade interior e capacidade de escuta activa.
Neste processo é essencial respeitar os timings da criança, apoian-
do-a na interiorização e elaboração desta nova fase da sua vida.
Na preparação podem utilizar-se diversas estratégias e recorrer a
determinados materiais, nomeadamente filmes sobre o tema, foto-
grafias, artigos, livros.
Assim, quando já se conhece a família que a vai adoptar, há que
explicar à criança as características da futura família, o local onde
vai morar, mostrar o álbum com fotografias da família e com os
novos espaços, para que vá interiorizando e aderindo progressi-
vamente às novas mudanças que se irão realizar em breve na sua
vida.
A criança também deverá participar, de acordo com a sua matu-
ridade, na elaboração de um pequeno álbum seu para apresenta-
ção à família.

A criança conhece a sua nova família

Neste momento tão decisivo é importante que a criança conheça


a família, acompanhada pelo seu adulto de referência, pois neces-
sita de alguém que lhe transmita tranquilidade e confiança. É fun-
damental criar um ambiente acolhedor, onde possa ser preservada
a intimidade da família e da criança, para que este momento possa
ser vivenciado em família, que queremos que se constitua em breve.
Nesta fase promove-se o conhecimento entre a criança e a família
que se candidata à sua adopção, através de encontros devidamente
preparados e observados por elementos da equipa de adopções,
bem como da equipa do CAT ou LIJ onde a criança se encontra.
Vai-se assim concretizando o plano de aproximação anterior-
mente delineado.

192
4. PROJECTOS DE VIDA

À medida que a relação se for estabelecendo, o adulto de referên-


cia deve deixar espaço para que a família vá ocupando o seu lugar.
A criança deve aumentar progressivamente os tempos de per-
manência junto da nova família, e, dependendo da forma como se
desenrolar o processo, será planeada a saída definitiva do CAT ou
LIJ.
Este período de integração tem de ter uma avaliação sistemá-
tica e muito próxima, feita pelo adulto que acompanha a criança
neste processo e também pelo serviço de adopções que conhece a
família, e que é o responsável pelo acompanhamento no período
de pré-adopção.
Num processo de adopção o momento em que a família conhece
a criança e vice-versa constitui-se como determinante, pelo que
é necessário que os técnicos que acompanham o processo este-
jam muito atentos a todos os sinais transmitidos quer por parte da
criança, quer por parte da família.
Este processo tem de se revestir de grande flexibilidade, é indi-
vidualizado consoante os ritmos, a idade e as características especí-
ficas de cada criança.
À família deve ser dado conhecimento das rotinas, costumes,
canções, jogos que mais gostem de fazer e objectos de especial inte-
resse para que a criança sinta que existe uma continuidade na forma
como está a ser cuidada.
Durante as visitas que se vão promovendo, a família começa a
conhecer melhor a criança a partir das informações que o adulto
de referência lhe vai dando, nomeadamente características pessoais,
como gosta de ser embalada, outros gostos, habilidades e capacida-
des, como lidar em situações de birra ou choro, etc.
É fundamental que durante todo este processo também a
criança tenha um espaço para expressar os seus sentimentos, emo-
ções e estados de ansiedade. Reveste-se de grande importância que
a criança saiba que a nova família a aceita tal como ela é, com o seu
percurso de vida, as suas características pessoais, capacidades inte-
lectuais, problemas de saúde, se estes existirem, desvanecendo-se

193
ACREDITAR NO FUTURO

assim a possibilidade de não ser aceite plenamente e, como conse-


quência, a eventualidade do seu regresso à instituição.
A criança deve desenvolver progressivamente um sentimento de
segurança e de confiança, que a levam a querer sair de vez do equi-
pamento onde se encontra acolhida.

Saída da criança do CAT ou LIJ

Quando se considera que estão reunidas as condições necessá-


rias para que a criança já possa sair do seu local de acolhimento é
importante que ela leve consigo todos os seus pertences, nomeada-
mente o seu álbum de fotografias, vestuário, livro de vida, para que
possa guardar recordações que a ajudem a reconstruir a sua histó-
ria de vida, recordando também os momentos mais positivos que
viveu no CAT ou LIJ.
Após a sua saída, deve ser-lhe dada a possibilidade de se despe-
dir dos amigos e dos adultos e, se tiver de mudar de escola, também
dos seus colegas e professores.
Deve ser sempre possibilitado o contacto da criança com o CAT
ou LIJ, se partir da sua iniciativa com acordo da família.
É importante que a equipa do CAT ou LIJ prepare com o
grupo de crianças residentes a saída da criança, conversando sobre
a importância da família para aquela criança e tranquilizando-os
sobre o seu projecto de vida. É necessário que a equipa esteja muito
atenta a todas as reacções que surjam por parte das várias crianças
ou jovens, pois é um momento de instabilidade para todos.
A equipa deve manter a sua disponibilidade para poder inter-
ferir no processo, caso seja pedida a sua colaboração pelo serviço
que efectua o acompanhamento, pois muitas vezes o período de
pré-adopção não corre de forma linear, especialmente se a criança
já for crescida e apresentar dificuldades de adaptação a esta nova
realidade.

194
4. PROJECTOS DE VIDA

Não nos podemos esquecer de que a verdadeira essência da


adopção é dar a crianças privadas da sua família de origem uma
nova família onde possam crescer e desenvolver as suas competên-
cias e capacidades, de forma a tornarem-se adultos integrados na
sociedade e capacitados para o exercício de uma cidadania plena.
Não podemos deixar de referir que muitas das crianças, pela sua
cor, idade e saúde, apesar de terem o seu projecto de vida definido
para adopção, e estarem em condições de poder vir a ser confiadas
a famílias para que possam ser adoptadas, esse projecto não se con-
cretiza por falta de famílias candidatas para adopção destas crian-
ças, pelo que vai ser necessário equacionar modelos mais flexíveis
que promovam vivências familiares e dos quais iremos falar num
dos próximos capítulos.
Quanto mais tarde definirmos um projecto de vida para adop-
ção, menores serão as probabilidades de a criança poder vir a ser
adoptada, pelo que as equipas têm aqui um papel fundamental na
promoção célere e atempada de um projecto de vida que defenda
verdadeiramente os superiores interesses da criança ou do jovem
que estão acolhidos num CAT ou LIJ.

Autonomia de Vida
Aprender a crescer, aprender a pensar, aprender a decidir

A Lei n.º 147/99 de 1 de Setembro, inclui nas Medidas em Meio


Natural de Vida, o apoio para a Autonomia de Vida que, segundo
a mesma, consiste «em proporcionar directamente ao jovem com
idade superior a 15 anos apoio económico e acompanhamento
psicopedagógico e social, nomeadamente através do acesso a pro-
gramas de formação, visando proporcionar-lhes condições que o
habilitem e lhe permitam viver por si só e adquirir progressiva-
mente autonomia de vida».
Parece-nos fundamental começar por definir conceitos que vamos
utilizar frequentemente, tais como autonomia e autonomização.

195
ACREDITAR NO FUTURO

Podemos definir como autonomia a capacidade para assumir


a responsabilidade individual pelos assuntos e opções próprias.
Não se refere apenas ao nível económico e físico, mas também
à afectividade e capacidade de assumir valores, juízos e decisões
próprias.
Autonomização é o período final da intervenção sobre autono-
mia, que visa a reflexão e o desenvolvimento de estratégias, tendo
em vista a saída do jovem do LIJ e a sua consequente plena auto-
nomia de vida.
O processo de autonomia é construído ao longo de todas as
fases de desenvolvimento do ser humano, desde a infância até à
idade adulta. A autonomia engloba uma dimensão cognitiva, que
se caracteriza pela capacidade para tomar decisões independentes,
estabelecendo objectivos pessoais, uma dimensão afectiva relacio-
nada com a confiança nas escolhas pessoais e uma dimensão fun-
cional, ou seja, a capacidade para planear e concretizar as próprias
decisões.

Actuação para o desenvolvimento de autonomia

Nesta abordagem, são considerados dois níveis de intervenção:


o nível socioafectivo e o nível comportamental.
O nível socioafectivo engloba toda a dimensão afectiva que está
relacionada com a capacidade para exprimir sentimentos, melhorar
o autoconhecimento, saber lidar com as frustrações, adaptar-se a
novas situações – é o nível relacionado com o sentir e toda a dimen-
são cognitiva que está relacionada com a capacidade para tomar
decisões de forma independente e estabelecer objectivos pessoais.
Podemos considerar nesta última dimensão aspectos como pensar
sobre o futuro, planear e tomar decisões, estabelecer metas, resolver
conflitos: é o nível relacionado com o pensar.
O nível comportamental está relacionado com uma dimensão
comportamental, integrando o desenvolvimento de competências

196
4. PROJECTOS DE VIDA

práticas: arrumar a casa, lavar, cozinhar. Envolve a capacidade para


colocar em prática as suas próprias decisões.
Há que referir que estes dois níveis de intervenção, ainda que
distintos, estão relacionados entre si, pelo que, quando trabalhamos
um nível, estamos necessariamente a intervir no outro. Assim, a
intervenção deve incidir mais numa ou noutra área, de acordo com
as fases de desenvolvimento em que a criança ou o jovem se encon-
tram, as suas necessidades e capacidades.
Todo o processo de intervenção vai contribuir para a consolida-
ção da autonomia de valores, que, na perspectiva de vários autores,
é considerada a mais difícil de atingir. Esta diz respeito à forma-
ção individual de cada indivíduo e engloba o respeito pelo outro;
direito e deveres de cidadania, reconhecimento da importância do
cumprimento das regras sociais. Está directamente relacionada com
os valores, quer individuais, quer sociais.

Autonomia em contexto institucional

A autonomia em contexto institucional leva a que seja desenvol-


vido com a criança e o jovem, tendo em conta as suas capacidades
e nível etário, um treino de competências que lhe permitam fazer
aquisições potenciadoras para atingirem, nos vários patamares de
desenvolvimento, competências e comportamentos que o condu-
zam a uma autonomia plena, e que tenham como objectivo último
a sua saída do LIJ, de forma sustentada.
Uma intervenção que tenha como objectivo trabalhar as com-
petências da criança e do jovem que conduzam à promoção de
autonomia, tem de estar baseada numa relação de confiança.
É fundamental o papel que assume o adulto de referência, enquanto
modelo. Sem a existência de normas e limites bem definidos, os
jovens não podem construir o seu processo de autonomia de uma
forma estruturada e segura, já que é a definição de limites coeren-
tes impostos pelos educadores que lhes permite uma avaliação de

197
ACREDITAR NO FUTURO

justiça e correcção das suas próprias actuações, quando estas se reve-


lam como desadequadas perante situações concretas.
Num processo de autonomia de vida estão sempre presentes
noções como: saber fazer, saber decidir, assumir responsabilidades,
ser capaz de realizar algo, capacidade para aceitar desafios, acreditar
em si e nos outros, saber aceitar os insucessos, saber brindar às con-
quistas, saber lidar com as tristezas e as alegrias…
Todo este processo parece ser natural e comum ao crescimento
e desenvolvimento da criança, mas o seu ritmo e eficácia irão tam-
bém estar condicionados pela forma como os adultos estimulam e
preparam a criança, para que mais tarde se torne um adulto inde-
pendente e autónomo.
Em toda a criança está presente a predisposição para a autono-
mia, que se vai desenvolvendo tendo em consideração o seu cres-
cimento e processo evolutivo, e que se revela na curiosidade de
saber, no esforço de conseguir fazer sozinho todas as explorações
e descobertas, e estas podem ser incentivadas ou, pelo contrário,
desencorajadas pelos adultos que com ela convivem no dia-a-dia.
A construção de um espaço afectivo e securizante, que a apoie
e potencie os seus níveis de auto-estima, constitui-se como fun-
damental para o desenvolvimento do processo de autonomia.
A criança tem de sentir este espaço como um meio protector
que lhe permita, a cada dia que passa, desenvolver capacida-
des, ganhar autonomia em relação ao adulto, com o benefí-
cio de conseguir atingir os seus objectivos, melhorando assim a
auto-estima; ser capaz de realizar pequenas tarefas, receber um
reforço positivo do adulto, e mesmo quando não consegue atin-
gir os propósitos à primeira, ter a oportunidade de continuar a
tentar até que o mesmo se concretize, aprendendo assim a lidar
com a frustração.
Para além da afectividade e da segurança, é fundamental que
as crianças e os jovens aprendam a respeitar os limites, pois estes
são importantes para a construção do bem-estar individual e
comum.

198
4. PROJECTOS DE VIDA

Quando estamos a apoiar um jovem no desenvolvimento do


seu processo de autonomia, a intervenção efectuada deve ser feita
na perspectiva do empowerment, ou seja, da capacitação da criança
e do jovem para que estes desenvolvam uma percepção de controlo
sobre as circunstâncias da sua vida.
É necessário apoiar a criança e o jovem na identificação das suas
necessidades de forma proactiva, na mobilização de recursos e no
alcance dos objectivos, através da amplificação das suas capacida-
des e recursos pessoais.
O processo de autonomização em contexto institucional ocorre
necessariamente numa idade mais precoce comparativamente aos
seus pares, sendo os jovens confrontados com a ideia de não pode-
rem regressar a casa, o que provoca muitas vezes grande ansiedade,
acompanhada de uma resistência para sair do LIJ onde se encon-
tram acolhidos.
Outros factores de constrangimento que podemos identificar,
para que se efectue um processo de autonomização sustentada por
parte destes jovens, são: a manifestação de sentimentos de baixa
auto-estima e autoconfiança. Estas crianças, fruto de várias vivên-
cias anteriores pouco gratificantes, desenvolvem sentimentos de
insegurança interna que vão influenciar o seu processo de desenvol-
vimento global, no qual está incluída a autonomia; muitos destes
jovens apresentam défices cognitivos e baixas competências socio-
afectivas; inexistência de relações significativas; rede social inexis-
tente ou pouco consistente; a existência de modelos de referência
com actuações divergentes e imprevisibilidade do meio envolvente,
onde tudo acontece de forma imprevisível e imposto muitas vezes
pelo meio.
Atentos aos constrangimentos anteriormente identificados e no
sentido de os minimizar, há que definir um plano de intervenção
onde seja conferido à criança e ao jovem capacitação, de forma a
que estes desenvolvam uma percepção de controlo sobre as circuns-
tâncias da sua vida, potenciando e desenvolvendo a sua resiliência
individual.

199
ACREDITAR NO FUTURO

Neste plano, devem também ser identificadas as necessidades


que a criança ou o jovem apresentam, bem como as estratégias que
conduzam a que as mesmas sejam ultrapassadas, através da mobi-
lização dos recursos necessários, quer estes sejam internos, quer
sejam externos. Há que potenciar competências pessoais, sociais e
ambientais para que o plano de intervenção traçado se realize, aju-
dando assim a criança ou o jovem na construção diária do seu pro-
cesso de autonomia.

Estratégias promotoras de autonomia em contexto


institucional

Podemos identificar as seguintes estratégias que podem ser uti-


lizadas para trabalhar com as crianças e os jovens que se encontrem
integrados em contexto institucional, que preparem o jovem para
fazer face às exigências que a vida lhe coloca, ajudando-o a adqui-
rir as habilidades e competências necessárias para efectuar um pro-
cesso de autonomização com sucesso:
– Elaboração de planos de intervenção estruturados e indivi-
dualizados, que visem a promoção de competências pessoais
e sociais.
– Estabelecimento de uma relação de qualidade com os adul-
tos de referência.
– Elaboração de planos de intervenção que promovam a au-
to-estima e autoconfiança.
– Envolvimento das crianças e jovens, mediante a sua idade e
capacidade, no seu projecto de vida e actividades que lhe di-
gam respeito.
– Desenvolvimento de sentido de pertença e de identidade.
– Promover a sua relação com a família, caso esta não se consi-
dere nefasta ao processo de autonomia (sabemos que muitas

200
4. PROJECTOS DE VIDA

vezes estes jovens, quando começam a ter algum rendimen-


to, acabam por ser procurados pela família, não com o ob-
jectivo de o ajudar no seu processo de autonomização, mas
vendo o jovem como fonte de rendimento). Assim, há que
perceber qual a verdadeira motivação da relação familiar e
ajudar o jovem a compreendê-la, assim como consciencia-
lizá-lo das implicações no restabelecimento desta, a impor-
tância de preservar o relacionamento, ou ajudá-lo a assumir
que o mesmo é prejudicial para que o seu processo de auto-
nomização se concretize com o sucesso desejado.
– Promover a vinculação à rede social de suporte, de forma a
facilitar a integração do jovem, bem como a constituição de
novas fontes de apoio.
– Orientação e apoio para dar continuidade às actividades ao
nível da escolarização, bem como da formação profissional
de forma a adquirirem uma boa preparação para a inserção
no mundo do trabalho.
– Apoiar a sua integração na área laboral e ajudar a encontrar
novas formas de apoio.

Toda a intervenção que realizamos com a criança ou jovem tem


de ser consistente, e da parte dos adultos cuidadores (que num lar
de infância e juventude será a equipa técnica e educativa) espera-se
coerência de actuação, o que nem sempre se demonstra linear, dado
o grande número de pessoas que diariamente trabalha com estas
crianças e jovens. Assim, há que ter em conta os princípios orien-
tadores de base, bem como a definição de um plano de autonomi-
zação participado pelo jovem, que seja do conhecimento de toda a
equipa, para que o mesmo se trabalhe sem discrepâncias ou men-
sagens paradoxais.
O Programa Umbrella, desenvolvido sob a coordenação de Eeva
Timonen-Kallio é um instrumento que se revela muito importante
para trabalhar o processo de autonomia em instituição. Tem por
objectivo:

201
ACREDITAR NO FUTURO

– Promover nos jovens o desenvolvimento de capacidades


para enfrentar a vida diária.
– Apoiar os jovens no processo de formação profissional, bem
como no mercado de trabalho; apoiar o jovem na transição
da vida em instituição para a vida independente.
– Aumentar a probabilidade de satisfação das necessidades
básicas; reforçar o acolhimento individualizado terapêutico
e inclusivo; ajudar a adquirir auto-estima.
– Aumentar a confiança nos recursos sociais e pessoais.

Este programa foi concebido para crianças a partir dos 12 anos,


mas pode ser aplicado, se devidamente adaptado, a crianças com
idade inferior.
Uma maior autonomia por parte da criança ou do jovem implica
um esforço acrescido de acompanhamento por parte dos adultos
cuidadores. Quando referimos acompanhamento, não queremos
dizer controlo excessivo, pois terá tendência a ser um forte cons-
trangimento para que o jovem possa alcançar a autonomia plena.
Por outro lado, as exigências deste processo que, na maioria das
vezes, se demonstram maiores do que as que se pedem ao jovem que
vive na sua família, não se devem sobrepor às dificuldades que estes
naturalmente poderão manifestar.

Baseado no programa Umbrella, o plano individual de autono-


mia, elaborado com cada criança ou jovem, trabalha as seguintes
áreas específicas:

Conhecimento de si próprio:
– Sentir-se bem consigo.
– Conhecer as suas emoções.
– Conhecer as suas necessidades e dificuldades.
– Cuidar da aparência e higiene pessoal.
– Ter cuidado com a saúde e levar uma vida saudável.

202
4. PROJECTOS DE VIDA

Gestão Doméstica:
– Organização, arrumação dos espaços.
– Lavar, passar a roupa a ferro.
– Cozinhar.

Gestão Financeira:
– Aprender a gerir a mesada e a definir prioridades.
– Abrir e gerir a conta bancária.
– Impostos.
– Noção do valor das rendas.
– Contratos de arrendamento, água, electricidade, etc.
– Custos com a alimentação.

Escola/Formação e Emprego:
– Motivar para as aprendizagens e importância do percurso
formativo.
– Experiências pré-profissionais e de voluntariado.
– Saber procurar e manter empregos (como fazer um curri-
culum, entrevistas).

Rede Social de Apoio:


– Promoção de valores sociais.
– Estimular relações de amizade positivas; o respeito pelo ou-
tro e pelas diferenças.
– Manter contactos com a família (sempre que se justifique).
– Consciência do contexto e realidade actuais.
– Ocupação de tempos livres.
– Conhecer e recorrer aos recursos da comunidade.

203
ACREDITAR NO FUTURO

A promoção de autonomia em idade pré-escolar

É certo que a criança, até à idade escolar, obriga a uma atenção


permanente por parte dos adultos cuidadores, pois não consegue
identificar os perigos nem avaliar as suas capacidades que condu-
zam à superação dos mesmos. A tarefa de protecção que é da res-
ponsabilidade dos adultos é um direito alienável da criança, e deve
conduzir ao seu crescimento e desenvolvimento harmonioso.
Contudo, os adultos que são muito protectores acabam por
incutir um medo excessivo nas crianças que não as deixa crescer,
condicionando-lhes os movimentos de autonomia e também as
oportunidades de crescimento.
Verifica-se esta situação muitas vezes no que toca às crianças em
idade pré-escolar que se encontram acolhidas; dando, como exem-
plo, uma situação comum do quotidiano – é muitas vezes mais fácil
vestir uma criança de quatro anos do que ensiná-la a vestir-se, pois
para o adulto que tem um grupo pelo qual é responsável, é mais fácil
concretizar a tarefa do que ensinar a criança a conseguir realizá-la, o
que leva a que esta criança se sinta incapaz de realizar a tarefa, mesmo
que seja simples, e não sinta o prazer das conquistas pessoais. É assim
necessário que o adulto tenha tempo e paciência para estar com a
criança, num relacionamento saudável e promotor de autonomia.
Em idade pré-escolar, é fundamental incentivar as crianças a
efectuarem pequenas tarefas, onde seja elevada a possibilidade de
obterem sucesso, para que sintam segurança e confiança na sua
capacidade de realização. Esta atitude, acompanhada de um reforço
positivo por parte dos adultos, leva a que a criança desenvolva uma
atitude de persistência para conseguir alcançar os objectivos sem
medo de errar.
No processo de autonomia há que respeitar o ritmo de cada
criança. O seu processo de desenvolvimento é construído no
dia-a-dia e, mediante cada situação, sem imposições e com estra-
tégias ajustadas a cada caso. É com base nestes pressupostos que o
adulto deve orientar a sua actuação.

204
4. PROJECTOS DE VIDA

O adulto deve ter uma atitude de tolerância e de compreensão


face ao erro, ser promotor de novos desafios, incentivando a criança
a atingir os objectivos que pretende alcançar, aumentando progres-
sivamente o grau de complexidade e de responsabilidade na concre-
tização da tarefa. Esta deve ser concreta e dirigida, devendo sempre
estar adaptada às competências da criança e à sua capacidade em
alcançar os objectivos previamente definidos.
Como exemplos: arrumar os seus brinquedos, lavar a cara e as
mãos, tomar banho com a supervisão do adulto, envolvê-las na
escolha da roupa, etc.
Nesta faixa etária, trabalha-se essencialmente a área de interven-
ção socioafectiva e comportamental através de um nível preferen-
cialmente de intervenção individual.

A promoção de autonomia em idade escolar

Entre os 6 e os 12 anos, para além de se trabalhar a autono-


mia através de um nível de intervenção individual, deve iniciar-se
a intervenção em grupo, onde, em contexto de dinâmica de grupo,
se trabalha a área socioafectiva, que constitui o alicerce das com-
petências sociais a desenvolver, indispensáveis a um processo de
autonomia sustentado e consequente inserção social. As reu-
niões de crianças e de jovens são importantes nesta fase, podendo
ser desenvolvidas pelos educadores em conjunto com o psicólogo.
É fundamental dinamizar espaços onde as crianças, em grupo, pos-
sam pensar sobre si, bem como sobre o mundo que as rodeia. Deve
ser um espaço de partilha e de desenvolvimento de competências
socioafectivas, que são indispensáveis na prossecução de um harmo-
nioso processo de autonomia.
Contudo, torna-se essencial encontrar um espaço onde a criança
possa ser alvo de atenção individualizada, onde esteja presente o
adulto de referência, no qual sejam definidas e avaliadas, em con-
junto com a criança, algumas tarefas e responsabilidades, que esteja

205
ACREDITAR NO FUTURO

preparada para realizar, procedendo-se a uma planificação e ava-


liação o mais objectiva possível e com uma regularidade definida.
Será, por exemplo, conveniente trabalhar com a criança a impor-
tância do cumprimento das tarefas que lhe estão destinadas, pois
também os outros as assumem. Significa isto que as crianças não
devem ser consciencializadas de que todas as tarefas que fazem
visam só o desenvolvimento da sua autonomia pessoal, pois este
processo deve ser natural e global.
Como exemplos: arrumar o quarto; responsabilizar a criança
pelos seus pertences; saber dados pessoais, tais como nome com-
pleto, morada, idade, data de nascimento etc.; conhecer o dinheiro
e o seu valor; saber manter uma postura adequada durante as refei-
ções, ter a noção do eu e do outro, etc.

A promoção de autonomia na adolescência

Embora a autonomia venha a ser construída deste a infância, é


na adolescência que ela se torna particularmente pertinente.
Neste processo, assume especial relevo o papel que os adultos
cuidadores desempenham enquanto modelos de referência e a qua-
lidade das relações estabelecidas.
Falamos de jovens a partir dos 13 anos, fase em que se encon-
tram menos disponíveis e permeáveis a uma intervenção socioafec-
tiva, especialmente em contexto de grupo, passando a intervenção
por uma abordagem mais comportamental, que também ela poderá
suportar o forte desejo de autonomia e independência.
Este desejo vivido pelos jovens encontra por vezes obstáculos na
vivência institucional, pois o funcionamento diário de um equi-
pamento com as características de um lar de infância e juventude
não potencia nem facilita o desenvolvimento integral destas com-
petências de autonomia, indispensáveis num jovem com perspec-
tiva de futuro.

206
4. PROJECTOS DE VIDA

Nesta fase, demonstra-se como fundamental o envolvimento


dos jovens na discussão e elaboração do seu projecto de vida.
É necessário que o jovem vá assumindo progressivamente mais res-
ponsabilidades, que participe activamente no presente e consiga
perspectivar o seu futuro.
É uma fase da intervenção em que toma parte activa na definição
de metas pessoais perante as quais é responsabilizado pela sua con-
cretização, devolvendo-lhe assim a importância das suas tomadas de
decisão e eventuais consequências. A partir deste momento, deverá
ser criado um espaço de reflexão e de avaliação para definição de
tarefas e responsabilidades a serem assumidas por cada jovem indi-
vidualmente. A planificação e avaliação destes encontros deve ser o
mais objectiva possível e com uma regularidade definida.
Poderá, igualmente, haver lugar a reuniões de jovens, que cons-
tituam um espaço de reflexão, partilha e desenvolvimento de com-
petências que favoreçam o processo de autonomia, com definição
de metas, objectivos pessoais e implementação de acções concretas
que contribuam para o sucesso do processo.

Nesta fase de intervenção, é importante trabalhar várias áreas


específicas com o jovem, nomeadamente:
Competências necessárias à vida em geral, tais como: saber
procurar informações e recursos, como, por exemplo, procura de
emprego ou de espaços de lazer; responsabilidade pela sua situa-
ção de saúde, através da marcação e frequência de consultas; estra-
tégias para a gestão económica, em que o jovem aprende a fazer
opções, a realizar poupança, aquisição de vestuário, calçado e pro-
dutos de higiene e conforto; responsabilidade pela resolução de
assuntos pessoais, como por exemplo, o cartão de cidadão; treino
de competências necessárias à sobrevivência, como a escolha, pre-
paração e confecção de alimentos e tratamento de roupas; tratar dos
seus assuntos escolares, dando-lhe a responsabilidade de efectuar a
matrícula e, por último, treinar a gestão de tempo.

207
ACREDITAR NO FUTURO

Competências necessárias ao relacionamento interpessoal,


promovendo e estimulando o relacionamento com pessoas que para
o jovem sejam significativas e que possam constituir-se como rede
social de suporte; promover a sua participação em experiências na
comunidade; ajudá-lo na resolução de problemas e dar-lhe a conhe-
cer estratégias para a gestão de conflitos; responsabilizá-lo face à sua
sexualidade através de conversas individualizadas, encaminhamen-
tos para consultas ou espaços onde, em grupo de jovens, possa ser
apoiado.
Competências necessárias para situações específicas,
dando-lhes a oportunidade de usufruírem de experiências pré-pro-
fissionais durante os períodos de férias; promover o seu ingresso em
formação profissional e no mercado de trabalho; promover uma
ocupação de tempos livres equilibrada.

A intervenção na autonomização

Autonomização, tal como já anteriormente definido, é o período


final da intervenção sobre autonomia, que visa a reflexão e desen-
volvimento de estratégias, tendo em vista a saída do jovem do lar e
a sua consequente autonomia de vida plena.
Este processo depende de vários factores, nomeadamente das
competências socioafectivas e comportamentais dos jovens.
Assim, a intervenção depende das características do jovem, se
está inserido no mundo laboral, se é auto-suficiente, como é que
perspectiva a sua própria autonomização, quais os recursos que tem
no que diz respeito à habitação, recursos económicos, etc.
Vai ser necessário definir conjuntamente com o jovem quais as
condições que considera serem fundamentais para concretizar a
sua saída, bem como definir as estratégias para alcançar essas con-
dições e para consolidar as que já estão asseguradas. Aqui, ganha
relevo o incentivo ao fortalecimento de uma rede social de apoio
e a continuidade da construção da sua história, através do livro

208
4. PROJECTOS DE VIDA

de vida, narrativas e conversas individualizadas que permitam ao


jovem conhecer todos os aspectos importantes da sua vida.

Acompanhamento

Este processo inicia-se após a saída do LIJ. Nesse momento é


realizado, com a participação do jovem, um compromisso de acom-
panhamento em autonomia de vida, assinado por ele e pelo adulto
de referência que deverá ser responsável por este período de acom-
panhamento. Toda esta intervenção passa por um princípio orien-
tador que visa conceder apoio psicossocial ao jovem, evitando,
sempre que possível, o recurso a apoio económico, procurando
desta forma cortar com um comportamento de dependência por
parte do jovem para com o serviço que é, na maioria das vezes, con-
dicionante do processo natural de autonomia.
Este acompanhamento tem de ser próximo e sistematizado, de
modo a proporcionar ao jovem uma retaguarda afectiva que lhe
permita confiança para encarar a nova vida que se avizinha.
O objectivo último da concretização deste projecto de vida visa
possibilitar a chegada dos jovens à vida adulta, com capacidade para
tomarem decisões e assumirem total responsabilidade pelas mes-
mas, com sentimento de autoconfiança nos objectivos pessoais,
bem como nos seus padrões de comportamento.

Síntese
Conjugando sinergias

Como fundamental afigura-se a necessidade de promover a pro-


tecção da criança ou do jovem sempre que se encontrem em risco
ou em perigo, elaborando um plano de intervenção com a famí-
lia no sentido de que este seja ainda executado em meio natural
de vida, de forma a assegurar à criança ou ao jovem o necessário

209
ACREDITAR NO FUTURO

bem-estar, tendo sempre em conta os direitos e deveres dos pais ou


adultos que detenham a sua guarda.
Caso o plano se manifeste ineficaz, há que promover o acolhi-
mento da criança ou do jovem no CAT ou LIJ que apresente uma
intervenção mais consentânea com as suas necessidades, tendo em
conta as suas características e especificidades.
Nestas circunstâncias chama-se a atenção para a necessidade de
se efectuar uma análise diagnóstica com celeridade, pedindo a cola-
boração de todos os parceiros com intervenção directa na situação
em análise, de modo a agilizar a definição de um projecto de vida
em tempo útil para a criança ou o jovem, bem como a minimizar
erros de avaliação.
O Plano de Intervenção Individual, instrumento de importân-
cia crucial, implica a participação activa da criança e do jovem,
da família, se existir ou estiver presente, da equipa interdiscipli-
nar do CAT ou LIJ, dos parceiros da rede social, e da entidade que
acompanha a medida. Este deve ser elaborado pela equipa interdis-
ciplinar. Neste plano devem estar identificados os objectivos que
queremos alcançar, quais as estratégias a desenvolver e que sejam
conducentes à sua concretização, os recursos a cativar, bem como a
forma como se avaliam os resultados. Este deve ser suficientemente
flexível, para poder adaptar-se às mudanças que se vierem a verifi-
car na situação da criança ou do jovem.
É muito importante que a criança ou o jovem conheça e aceite o
seu passado, pois é sabido que o seu bem-estar no futuro depende
da forma como souber lidar com o seu passado, tornando-se a
construção da história de vida um instrumento fundamental neste
processo.
No trabalho que se desenvolve com estas crianças e jovens há
que garantir a sua participação activa e efectiva como cidadãos de
pleno direito, favorecendo a sua integração familiar e social, e a par-
ticipação nos processos de decisão sobre todas as matérias que lhes
digam respeito, nomeadamente a participação activa na construção
do seu projecto de vida consoante as suas capacidades e maturidade.

210
4. PROJECTOS DE VIDA

Por tudo o que foi exposto, o acolhimento de uma criança ou


jovem só encontra justificação, quando, e se, a sua situação for
trabalhada desde o momento em que dá entrada no CAT ou LIJ
e para o mesmo deve ser traçado um plano de intervenção que,
uma vez implementado e concretizado, lhe vai transmitir uma nova
esperança.

Avaliação Planeamento e Projecto de


Diagnóstica Acção Vida
• Plano Socioeducativo
Integração Familiar
Individual (PSEI)
• Plano Cooperado de
Adopção
Intervenção (PCI)
• Plano de Intervenção Autonomia de Vida
Individualizado

211
CAPÍTULO 5
A MUDANÇA

Necessidade de mudança
Como mudar?
Principais Factores de Resistência à Mudança
Como Diminuir o Factor de Entropia?
Agentes Potenciadores da Mudança
Processo de Mudança
Papéis e Responsabilidade
Síntese
«Seja você a mudança que deseja ver no mundo à sua
volta.»
Ghandi
Necessidade de Mudança
A mudança como imperativo de sobrevivência

Nenhuma organização consegue desenvolver-se se não se pre-


parar para a mudança, tendo em conta que, no mundo actual, os
factores internos e externos também se encontram em constante
mudança.
A forma como ontem satisfazíamos as necessidades dos nossos
«clientes» não é, com certeza, a mesma de que hoje nos estamos a
servir.
Os nossos «clientes» (crianças e jovens) apresentam novas exi-
gências para as quais temos de nos preparar, a fim de lhes podermos
dar uma resposta adequada e de qualidade.
Assim, é necessário efectuar uma análise rigorosa e cuidada à
nossa organização nas seguintes vertentes: estrutura, processos, pes-
soas e cultura. Só depois de efectuada esta análise, podemos devolver
a informação para que as pessoas, que vamos envolver na mudança
da organização, percebam a razão pela qual é preciso mudar.

A criança, há alguns anos, não era vista como um ser humano de


pleno direito e durante séculos e séculos quase até aos nossos dias,
as instituições acolhiam crianças pobres, muitas vezes órfãs, ou sem
adultos cuidadores que por elas demonstrassem interesse. Ingressa-
vam nestas instituições, que eram geralmente de grande dimensão,
muitas crianças a quem se proporcionava a satisfação das necessida-
des básicas e alguma formação profissional pouco qualificada, que
lhes permitisse entrar no mercado de trabalho e subsistir.
Hoje em dia, os clientes destas instituições são crianças e jovens
que foram vítimas de maus-tratos e negligência, abusos que deixa-
ram, em muitos deles, marcas irreversíveis para o resto da vida.
Passámos de instituições de cariz meramente assistencialista
para instituições que se vêem confrontadas com uma população
muito diferente, constituída por crianças com necessidade de uma
intervenção de cariz terapêutico, que possibilite efectuar alguma

215
ACREDITAR NO FUTURO

reparação das muitas situações adversas pelas quais foram obri-


gados a passar e que lhes foram impostas pelos pais, ou adultos
cuidadores.
Assim, para se ajustarem às necessidades do presente e do futuro,
as organizações têm de se dispor a mudar a sua intervenção para que
esta possa ir ao encontro das necessidades que estes novos «clien-
tes» apresentam.
Claro que as organizações que consigam fazer com que a sua
mudança de actuação ocorra mais rapidamente, e com mais consis-
tência, são as que estão mais bem preparadas para sobreviver num
futuro próximo.
Transformar grandes equipamentos em pequenas unidades de
cariz familiar, e com técnicos altamente qualificados para trabalharem
com esta nova população, é o grande desafio que se nos coloca hoje.
A individualização, seguindo um tratamento personalizado e espe-
cializado, é o nosso rumo ao futuro, porque às crianças e aos jovens
que hoje chegam às instituições tem de lhes ser passada a mensagem
de confiança e credibilidade na organização que as acolhe e que tem
obrigação de as proteger, de as ajudar a crescer, a ganhar competên-
cias pessoais e sociais, para que amanhã façam parte do grupo de
adultos responsáveis e plenamente integrados na sociedade.
Também as respostas de acolhimento têm de ser diversificadas
para novos modelos, mais adaptados à realidade de cada criança ou
jovem.

Todos sabemos que as organizações são constituídas por pessoas


e nem todas elas vão aderir à mudança que lhes propomos com a
mesma vontade e convicção. Vamos ter um grupo de pessoas que
são os impulsionadores da mudança, um grupo que lhe opõe resis-
tência e ainda um terceiro grupo, que, não apresentando grande
propensão para a fomentar, não oferece propriamente resistência à
mudança, pois sente a sua necessidade. Este é o grupo que temos
de ganhar e que muitas vezes aguarda para ver resultados, e poste-
riormente fazer a sua opção.

216
5. A MUDANÇA

Posicionamento face à Mudança

10% 80% 10%

Reactivos Seguidores Agentes

Quanto maior for a mudança que queremos levar a cabo, mais


estruturada e planificada ela tem de estar, pois, uma vez iniciada,
é necessário o seu acompanhamento e monitorização, para que os
resultados sejam visíveis e sustentados, pois sem eles a mudança não
se vai enraizar.

Como Mudar?
Acompanhamento e monitorização no processo de mudança

Quando percebemos quais as necessidades de mudança existem


na nossa organização, há que identificar onde queremos chegar,
tendo em conta as quatro vertentes já anteriormente delineadas:
estrutura, processos, pessoas e cultura. É traçando todo um con-
junto de estratégias, que deverão ser implementadas e acompanha-
das, que conseguimos chegar ao nosso objectivo final – mudar o
que identificamos como área de melhoria.
Temos de ter em conta que estes processos estão interligados e
que, ao alternarmos um, vamos com certeza provocar reflexos nos
outros.
Há, no entanto, que efectuar a mudança de uma forma susten-
tada e seguindo o plano anteriormente delineado. É muito impor-
tante que os colaboradores se sintam envolvidos neste processo
desde o início.

217
ACREDITAR NO FUTURO

O mais importante nesta fase é identificar os factores internos e


externos que mudaram e que nos levaram também a reflectir sobre
a forma como estamos a intervir e a repensar esta mudança.
É necessário potenciar os conhecimentos de toda a equipa,
motivar e envolver todos os colaboradores, dar-lhes a formação e
os recursos necessários para poderem actuar em conformidade com
as novas linhas de orientação.
Sabemos que as mudanças nas organizações, para serem consis-
tentes, têm de ser efectuadas através de uma intervenção diária e
sempre focalizadas no objectivo que se procura atingir.
Quando pretendemos operacionalizar a mudança, o maior
obstáculo à sua efectivação que vamos encontrar é a resistência
humana.
Assim, há que identificar quem são as pessoas que estão a
demonstrar maior resistência e perceber o porquê da sua atitude.
Será porque passaram anteriormente por processos de mudança
que fracassaram? Ou porque estão demasiado acomodadas ao seu
trabalho diário que, pela sua previsibilidade, lhes dá a tranquilidade
de que necessitam? Ou será porque têm medo de não conseguir
acompanhar a mudança?... Poderíamos elencar um sem-número de
motivos… a nossa atitude em relação a estas pessoas deve ser pró-
-activa, atenta, mas precisamos de encontrar as estratégias necessá-
rias, para que os colaboradores mais resistentes vão percebendo qual
o objectivo da mudança, o que vai ser positivo, os ganhos que vão
obter, para que o seu número diminua e se reduza a entropia que
geram no processo de mudança que queremos introduzir.
É também importante, para motivar os colaboradores, mostrar
os resultados positivos que se vão obtendo ao longo da nossa inter-
venção, para que sejam disseminados por toda a organização.
Um dos factores fundamentais para implementar a mudança
na nossa organização é efectuar a sua planificação, onde estejam
bem definidas quais as acções de mudança prioritárias, bem como
as estratégias de intervenção para o conseguir e também para que
a implementação ocorra de uma forma consistente e sustentada.

218
5. A MUDANÇA

Assim, ao implementar um processo de mudança, há que fazer o


seu acompanhamento e monitorização, para que seja possível fazer
os ajustes necessários conducentes a que a mudança tenha sucesso.

Um dos factores importantes a ter em conta num processo


de mudança é o tempo que vamos demorar até conseguir imple-
mentá-la. Daí a importância de cumprir o plano e o processo de
implementação.

Principais Factores de Resistência à Mudança


Uma grande preocupação com os colaboradores

– Muitas pessoas não sentem necessidade de mudar. Há mui-


tos anos que trabalham assim, e apesar de, por vezes, não se
sentirem realizadas, sentem-se confortáveis, já sabem com o
que contam no dia-a-dia.
– Podem também não se identificar com o novo paradigma
de intervenção da organização, bem como com as mudan-
ças que será necessário fazer, para que esta responda de uma
forma adequada às necessidades apresentadas pelas crianças
e jovens.
– Podem não querer passar por um processo de aprendizagem,
porque estão cristalizados na forma de agir e de pensar.
– Muitos colaboradores, quer pela sua baixa qualificação, quer
pela sua resistência interna, ainda não perceberam que existe
um plano de mudança e que ele vai ser implementado.
– Podem ter passado anteriormente por um processo de
mudança falhada, o que levou a que não acreditassem que
as mudanças se possam efectivamente concretizar com
êxito.

219
ACREDITAR NO FUTURO

– Quando vamos implementar um processo de mudança,


é necessário estarmos muito atentos a todas as reacções dos
colaboradores, para que os que não aderem à mudança não
potenciem a sua resistência junto dos colaboradores que
não apresentam grande resistência, nem grande entusiasmo.
Geralmente, dentro de uma organização, estes últimos cor-
respondem a uma percentagem significativa.
– Outro factor a ter em conta num processo desta natureza é o
stress que os processos de mudança podem causar.

Como Diminuir o Factor de Entropia?


Muita atenção, muita comunicação, muita motivação

Quando a direcção está atenta, estes processos de stress e de


resistência são identificados e, através de uma comunicação eficaz,
podem ser minimizados.

É necessário que todos os colaboradores percebam o porquê da


mudança e os benefícios que dela podem tirar.
Outro factor muito importante para minimizar os factores de resis-
tência é ter um bom plano de formação e aprendizagem para todos os
colaboradores. As pessoas vão aprender novas formas de trabalhar, o
que se pode reflectir de uma forma muito positiva no seu desempe-
nho e motivação. Vão sentir que a organização também se preocupa
com a qualificação dos seus colaboradores, o que se vai reflectir de
uma forma positiva na sua motivação, sentindo-se também eles impli-
cados no processo de mudança, e fazendo parte integrante dele.

Elogiar os colaboradores pelos resultados obtidos através da sua


mudança de actuação, e atribuir-lhe prémios de motivação pelos
bons resultados alcançados, ou através da divulgação da sua boa
prática por toda a organização, é também uma excelente estratégia
para os motivar.

220
5. A MUDANÇA

Quando temos colaboradores motivados, vamos conseguir que


estes se fixem na organização e que potenciem os seus conhecimen-
tos muitas vezes alicerçados em anos de experiência, que podem
ser uma mais-valia para colaboradores mais novos, permitindo
segurança, confiança e estabilidade imprescindíveis a qualquer
organização.

Agentes Potenciadores da Mudança


Planear e acompanhar, pensar para agir

Nas páginas anteriores falámos da resistência à mudança, bem


como de factores de constrangimento à sua implementação.
Passamos agora a reflectir sobre os elementos da organização
que serão os agentes da mudança. Estes colaboradores são as peças
fundamentais para que o processo de mudança seja implementado
com sucesso.
Quanto maior for a mudança que quisermos implementar,
maior será a necessidade de planificação e de acompanhamento.
Serão estes colaboradores os responsáveis pelo processo de gestão
da mudança.
Os agentes da mudança devem ter um conhecimento rigoroso
de todo o processo que vai ser necessário implementar, e devem
transmitir a todos os restantes colaboradores informação precisa
e transparente sobre ele, para que estes saibam como se ajustar às
modificações operadas no seio da organização, e possam perceber o
que lhes está a ser pedido.
Como a mudança é contínua, é provável que se verifique a neces-
sidade de efectuar medidas correctivas ao plano inicial.

Exemplo
Imaginemos um lar de infância e juventude que possa acolher,
num dado momento, 60 crianças e jovens. Está situado num

221
ACREDITAR NO FUTURO

edifício conventual, com uma estrutura institucional, como não


raramente nos deparamos.
Todos sabemos que a estrutura do edificado não é a que idealiza-
mos, nem sequer aquela que vai permitir às crianças e aos jovens
acolhidos ter uma dimensão de casa; o número de crianças aco-
lhidas em conjunto é demasiado elevado. Como poderemos acre-
ditar que estas crianças vão viver nesta estrutura como se de uma
família se tratasse? Será possível num meio edificado com estas
características criar um ambiente familiar?
Então, se queremos mudar, e esse é o nosso objectivo final,
vamos começar por identificar todos os factores que necessitam
de intervenção para que, agindo sobre eles, se possa construir a
mudança.
Temos de criar núcleos ou grupos de crianças, ou seja, pode-
mos deixar de ter 60 crianças juntas e passarmos a ter cinco
grupos, cada um com uma média de 12 crianças. Esta divisão
deve ter em conta a relação que existe entre elas, a sua idade,
problemática e diagnóstico pois o tipo de intervenção que se
irá fazer com cada unidade deverá responder às especificida-
des das crianças, para que possam ser atendidas as suas reais
necessidades.
A cada grupo deve estar afecta uma equipa educativa, que será
dimensionada tendo em consideração o número de crianças que
o constituem, bem como a idade e características específicas.
Para cada um dos grupos de 12 crianças, a equipa educativa deverá
ter, no mínimo, oito elementos, de modo a cobrir as 24 horas diá-
rias, devendo um deles, pelo menos, ter formação em educação
social ou de infância. O turno do final da tarde deverá ser mais
reforçado, pois é nesse período que se encontram mais crianças e
jovens no lar, e constitui um momento privilegiado para se esta-
belecer contacto e construir uma relação de proximidade.
O grande refeitório deverá dar lugar a uma sala de jantar, onde as
crianças possam fazer a sua refeição, em moldes mais próximos da
realidade familiar, ou seja, para grupos de 12 e não 60 crianças.
Nos grupos constituídos por crianças em idade escolar deverá
existir, em todos os quartos, uma pequena secretária, onde cada
criança ou jovem poderá fazer os seus trabalhos, e não um espaço

222
5. A MUDANÇA

semelhante à sala de aula, onde várias crianças trabalham ao


mesmo tempo, como vemos muitas vezes nos lares de crianças
e jovens.
A equipa técnica deve ser dimensionada tendo em atenção todos
os grupos e não tem de estar afecta a cada um em exclusividade,
como acontece com as equipas educativas.
Para 60 crianças e jovens considera-se que dois psicólogos e dois
assistentes sociais serão suficientes. Caberá ainda ao director téc-
nico dinamizar e coordenar esta resposta social.
Neste processo de mudança, deixamos de ter um lar de cariz
institucional para passarmos a ter um lar de cariz familiar, que
permita às crianças ter uma intervenção mais adequada às suas
necessidades específicas, mais normalizada, e onde possam esta-
belecer uma relação sustentada com os adultos cuidadores.
Neste ambiente, embora nunca sendo uma família, podem,
contudo, ter vivências semelhantes às usufruídas numa família,
sendo possível dar-lhe a oportunidade de se desenvolverem de
uma forma mais adequada.
A mudança é um processo que se vai construindo a pouco e
pouco, com a própria modificação das nossas atitudes, tendo
sempre um objectivo final em vista.

Processo de Mudança
A mudança sempre alinhada com a visão da organização

Num processo de mudança organizacional há que melhorar os


processos, aumentar a nossa eficácia e eficiência, adequar a resposta
às necessidades apresentadas pelas crianças e pelos jovens, que são,
neste caso, os nossos «clientes». Mais ainda, aumentar e potenciar
os conhecimentos dos nossos colaboradores, bem como a sua qua-
lificação profissional e pessoal.
Há que identificar o papel que cada um dos colaboradores tem
neste processo, as suas funções na organização e a responsabilidade
que vai assumir.

223
ACREDITAR NO FUTURO

Nas mudanças com repercussões em grande escala, há que cons-


tituir uma equipa de direcção e uma equipa de implementação do
processo.
Cabe à equipa de direcção assegurar que a mudança se integra na
visão global da organização, bem como supervisionar todo o pro-
cesso. Fornece aos agentes de mudança a orientação, assim como
os recursos necessários para que a mudança se produza da maneira
que foi delineada.
À equipa de implementação cabe a definição, planeamento e
implementação das acções que levem a que a mudança se concre-
tize. É esta equipa que determina quais os recursos necessários para
a concretização da mudança e que acompanha, de uma forma sis-
temática, a sua implementação, através da monitorização e outras
formas de acompanhamento que considere adequadas ao processo
em causa.

Os critérios de avaliação do sucesso da mudança podem ser agru-


pados em dois grandes tipos: desempenho organizacional, isto é,
com melhorias na produtividade, eficácia e qualidade, e desenvol-
vimento humano, melhorando a qualidade de vida no trabalho,
com colaboradores mais qualificados e empenhados.
É fundamental percebermos que a mudança está em consonân-
cia com a visão organizacional, para que todos percebam para onde
querem confluir com a sua actuação e não se gerarem entropias
e factores de resistência promotores de posições antagónicas, que
irão lançar confusão e insegurança. Só assim conseguimos cumprir
a nossa missão e oferecer melhores serviços às crianças e aos jovens
que se encontram acolhidos.

Dois factores muito importantes para que a mudança orga-


nizacional se transforme numa realidade são a comunicação e a
motivação.
Comunicação, porque é importante que as pessoas possam
perceber o que lhes é pedido, possam colocar questões que as

224
5. A MUDANÇA

preocupem, sem dificuldades, utilizando a transparência e a aber-


tura para saber escutar os outros, e não se sentirem inibidos de dar
a sua própria opinião. As pessoas não se podem esquecer que são
parte integrante do processo, portanto têm responsabilidade no
mesmo.

A motivação é um factor muito importante, pois uma equipa


motivada para a mudança vai ser uma alavanca no sistema. Pode
constituir-se como a força motriz no processo de mudança:
– O facto de vermos resultados positivos, consonantes com
a nossa actuação, vai ser um factor gerador de maior moti-
vação, convertendo-se numa espiral positiva de mudança e
conduzindo ao sucesso da organização.
– Ao promovermos a mudança, é importante que se tenha em
conta que esta vai também apresentar constrangimentos que
vão ter de ser ultrapassados. Cabe aos agentes da mudança
motivar a organização e definir estratégias que ajudem a que
estes constrangimentos sejam minimizados, para que a mu-
dança não seja vista como algo penoso, provocando desmo-
tivação, stress e resistência acrescida.

Será também importante as pessoas perceberem que é ultra-


passando as dificuldades, reflectindo sobre elas e descobrindo
novas estratégias que se dá um crescimento, quer no plano laboral,
quer pessoal, com a aprendizagem de novas competências e novos
papéis.

Papéis e Responsabilidade
Patrocinadores, agentes e alvos da mudança

Para que a mudança se processe há três papéis imprescindíveis.


Os patrocinadores são membros da Direcção que têm pode-
res de decisão e de cativar recursos que possam ser utilizados para a
implementação da mudança.

225
ACREDITAR NO FUTURO

Estes devem entender a necessidade da mudança, geri-la e super-


visioná-la, e saber lidar com as pessoas que são afectadas por ela.
É necessário antever o impacto que a mudança vai operar na orga-
nização e saber o ponto onde se quer chegar.

Os agentes de mudança são as pessoas dentro da organização


que têm como responsabilidade planear e implementar a mudança.
Precisam de ter uma ideia clara sobre quais as responsabilidades
que têm na organização e deverão analisar com a Direcção o plano
de implementação da mudança, para que haja coerência de actua-
ção e todos estejam cientes da linha condutora que terão de seguir.
Só assim será possível implementar a mudança de forma sustentada
e atingir os objectivos definidos.
A principal responsabilidade dos agentes de mudança é pla-
near e implementar o plano e as estratégias necessárias para que a
mudança se opere.
Neste papel, é fundamental ser pró-activo e valorizar a escuta
activa. É importante saber escutar e, sobretudo, motivar e envol-
ver os colaboradores neste processo, o que nem sempre é fácil, pois
sabemos que, por vezes, em organizações de grande tradição, a
mudança é vista frequentemente com particular resistência.
Cabe assim aos agentes da mudança dar a conhecer com transpa-
rência como é que esta se vai processar, bem como qual o impacto
que é previsível que se venha a reflectir na organização, afectando
todos os que a ela se encontram ligados. Este conhecimento vai per-
mitir dar credibilidade e sustentabilidade ao processo e levará a que
um número significativo de colaboradores adopte condutas facili-
tadoras, comprometendo-se eles próprios com as alterações, perce-
bendo rapidamente que toda a organização fica a ganhar a curto ou
médio prazo.
Quando entendemos o quanto a mudança é fundamental para a
nossa organização, temos de assegurar que a mesma está claramente
definida em todas as vertentes.

226
5. A MUDANÇA

Os alvos da mudança são as pessoas, que mais têm de mudar


para que na organização se dê a mudança.
Muitas vezes observamos que, numa organização, os patrocina-
dores e os agentes de mudança são também eles próprios alvos de
mudança.
Todos os elementos estão interligados e as suas acções são como
uma rede que afecta toda a organização. É preciso definir qual o
papel de cada um e consequentemente a sua responsabilidade neste
processo.
É fundamental que as pessoas que mais têm de mudar sejam
envolvidas desde a primeira fase nessa mudança, para que se sintam
parte do processo e, assim, reduzam a sua resistência.
Numa organização de solidariedade social, muitos agentes
de mudança podem ser os técnicos que aí trabalham. Para que a
mudança seja implementada é necessário que a própria direcção
perceba da sua necessidade, acredite que é importante promovê-la
para que a organização se adapte à nova realidade e crie os meios
necessários ao contínuo desenvolvimento e consequente cresci-
mento da organização.
O papel dos técnicos nesta organização será implementar a
mudança, de acordo com as linhas orientadoras traçadas em con-
junto com a Direcção, e levarem os outros colaboradores a aderi-
rem, demonstrando-lhes as suas mais-valias.
É importante que a Direcção se coloque no papel de patrocina-
dor da mudança, pois, com o seu apoio formal, é mais fácil para os
técnicos tornarem-se agentes desta transformação, efectuando com
sucesso a sua implementação.

Exemplo
Temos assistido a uma modificação muito rápida nas instituições
e serviços, quer no que diz respeito às suas estruturas, quer aos
modelos de organização do trabalho. As estruturas fortemente
hierarquizadas, em que as decisões são tomadas de forma centra-
lizada pelos gestores de topo, têm dado lugar a estruturas mais

227
ACREDITAR NO FUTURO

ágeis, com menos níveis hierárquicos, em que o poder decisório


se encontra nas equipas operacionais. Há que investir cada vez
mais no trabalho em equipa, sendo-lhe atribuídos objectivos bem
definidos – o paradigma de sucesso deixou de ser pessoal para
passar a ser partilhado pela equipa.
Estas mudanças levaram a que os Recursos Humanos se tornas-
sem o foco de preocupação dos gestores da instituição, pois a
adaptação das instituições à mudança e, em alguns casos, até a
sua sobrevivência, depende da qualidade, competência e motiva-
ção da força de trabalho que a mesma possui.
A motivação passou, deste modo, a ser um elemento-chave fun-
damental, tão relevante como a tecnologia utilizada e a solidez
financeira.

O sucesso das instituições passou a ser sustentado na força de


trabalho motivada e qualificada, com um perfil permeável à
mudança, associada a elevados índices de produtividade.
As instituições e serviços necessitam do seu contributo na imple-
mentação de novas formas de organização de trabalho que levem
a um aumento de produtividade, a que se associam factores como:
trabalho em equipas pluridisciplinares; polivalência para assegurar
a máxima flexibilidade na repartição do trabalho dentro da equipa
e transferência do poder de decisão para as equipas (empowerment)
que irão dispor da necessária autonomia para organizar, determinar,
e optimizar o seu trabalho. A autonomia aqui preconizada remete
para um nível elevado de responsabilização das equipas, que não
dispensa, contudo, a orientação e supervisão dos gestores de topo.
Na senda do que antecede, cabe à Direcção promover um clima
organizacional motivador que prepare e crie apetência para a
mudança, proporcionando condições para que os profissionais
procurem uma formação contínua, no intuito de melhorar cada
vez mais a sua actuação e tornando-os, deste modo, mais eficazes
na resolução das situações complexas subjacentes à problemática
ligada ao sistema de acolhimento.
Se tivermos profissionais motivados e valorizados, temos, com
certeza, adultos capazes de serem boas referências para as crianças
e para os jovens com quem se relacionam no quotidiano.

228
5. A MUDANÇA

Síntese
Mudar significa espírito de abertura

Sabemos que mudar significa espírito de abertura e não ter medo


de enfrentar desafios.
Aqui, mais uma vez, chamamos a atenção para a importância
da transparência na comunicação, para que toda a estrutura esteja
a par do ponto de partida, do porquê da necessidade da mudança
na sua organização, das dificuldades que é preciso superar para que
a mesma se operacionalize, para onde queremos caminhar, quais os
objectivos que cada um de nós tem de atingir, como vamos articu-
lar os nossos objectivos com os dos nossos colegas, quais as estraté-
gias que temos de utilizar para que toda a organização chegue com
êxito à meta que definiu.
Temos de estar igualmente atentos à necessidade de efectuar
novas aprendizagens; muitas vezes somos levados a descobrir novas
competências que desconhecíamos ou que, simplesmente, não
eram valorizadas.
Quando sentimos resistência à mudança é importante saber como
lidar com essa resistência e ajudar os outros a ultrapassá-la, perceber
qual a sua perspectiva, o seu ponto de vista, e transmitir também o
nosso, bem fundamentado, para que, em conjunto, se desenvolva
uma atitude de reflexão pró-activa e construtiva, mantendo a nossa
firmeza na promoção de novas formas de comportamento.
É fundamental que as pequenas mudanças sejam feitas de forma
sustentada e conduzam ao sucesso, já que estas vão em cadeia gerar
outras e todos nós sentimos maior motivação na realização da nossa
actividade quando observamos resultados positivos.
É importante sabermos transformar os problemas em oportuni-
dades, potenciando as capacidades de todos, rumo a uma mudança
sustentada e duradoura.
Os processos de mudança estão sempre em actividade e evolu-
ção contínua, com a definição de objectivos e planificação cuidada
de estratégias para conseguir alcançar e cumprir a meta a que nos

229
ACREDITAR NO FUTURO

propusemos, melhorando a qualidade da nossa resposta, aumen-


tando assim, a satisfação dos nossos «clientes» (crianças e jovens) e
também dos colaboradores.
É fundamental elogiar o esforço de todos, para conseguir ope-
rar as mudanças pretendidas, pois só com a interiorização das suas
vantagens conquistaremos a adesão dos colaboradores e a mudança
poderá assim tornar-se uma realidade.
Sabemos que pessoas motivadas, com maiores competências e
capacitação têm possibilidade de operar mudanças numa organiza-
ção e de conseguir qualificá-la, por isso é importante incentivar os
colaboradores a prosseguir o seu desenvolvimento, apostando na
formação académica, profissional e pessoal. Não podemos nunca
esquecer-nos da importância que tem um elogio público pelo
mérito alcançado, ou até uma promoção merecida.
Há que premiar pelos resultados alcançados não só um grupo,
pelo esforço colectivo, mas também cada indivíduo pelo seu esforço
e resultados individuais.
É fundamental que a mudança esteja enraizada na organização
para que os resultados sejam potenciados e duradouros, sem esque-
cer de fazer um brinde com toda a equipa, pois brindar ao êxito é
fundamental. Igualmente fundamental é agradecer o empenho e o
esforço de todos, bem como a forma como contribuíram para uma
cultura de confiança na organização, o trabalho de equipa desenvol-
vido entre todos, a forma como cada um saiu mais rico deste pro-
cesso e, sobretudo, os ganhos obtidos para as crianças e os jovens
que acolhemos.
Desta forma, faremos com que a nossa organização caminhe para
o sucesso, com a qualificação dos serviços que presta, ganhando cre-
dibilidade, prestígio e confiança.

230
CAPÍTULO 6
REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

Reflexão
Projecção no Futuro
Satisfação das Necessidades
O Modelo Especializado
Intervenção em Contexto Familiar
Intervenção em Contexto Residencial
Acolhimento Terapêutico-Educativo
Síntese
«Se todos nós fizéssemos as coisas que temos capaci-
dade para fazer, ficaríamos verdadeiramente impressio-
nados connosco.»
Thomas Edison
Reflexão
As razões para repensar o sistema

Ao longo dos vinte e três anos de trabalho nesta área, foi sur-
gindo em mim a necessidade de sistematizar e partilhar os conheci-
mentos adquiridos e as «lições de vida» que, no dia-a-dia, as crianças
e os jovens, com quem tenho tido o privilégio de trabalhar, assim
como os profissionais que os acompanham, me foram proporcio-
nando. Fruto dessa vivência surgiu, assim, a ideia de reflectir sobre
esta questão tão pertinente, ou seja, sobre como estamos a proteger
as crianças e os jovens que integram o sistema de promoção e pro-
tecção no nosso país.
Será que o nosso sistema de protecção tem funcionado como
uma rede de apoio que sustenta as crianças e os jovens mais vulnerá-
veis e por quem, directa ou indirectamente, somos todos responsá-
veis? Ou, pelo contrário, o modelo de intervenção que prosseguimos
e, de algum modo, preconizamos constitui uma teia que os prende
à pobreza e exclusão?
Que instrumentos e metodologias devemos utilizar para maxi-
mizar o sucesso e, deste modo, cortar o ciclo transgeracional?
O que é que cada um de nós, que trabalha nesta área, pode fazer
no seu dia-a-dia, para que as crianças e os jovens, que integram o
sistema de promoção e protecção, consigam as oportunidades a que
têm direito, para poderem pensar no seu futuro com um laivo de
esperança?
É a pensar nas crianças e jovens, a quem, no âmbito do nosso
trabalho diário, tentamos dar novas oportunidades e que muitas
vezes têm dificuldade em agarrá-las, seja porque não lhes conse-
guimos transmitir a importância que estas podem ter para si, seja
porque não conseguimos chegar bem ao seu íntimo, face à forma
como se tentam proteger utilizando as suas defesas para formar
uma «carapaça» intransponível, que nós precisamos de, com afecto
e carinho, saber amolecer, tornando-se o repensar do sistema cada
vez mais pertinente.

233
ACREDITAR NO FUTURO

Quando alguém já foi muitas vezes magoado e se sente impo-


tente perante um sistema que considera não o ver enquanto pessoa,
mas sim como mais um igual a tantos outros, dificilmente acredi-
tará em felicidade; muitas destas crianças e jovens chegam até nós
sem esperança, sem ter tido alguém que lhes secasse as lágrimas e
que os fizesse acreditar que a felicidade não é um estado imutável,
mas que também ela se conquista. Recorrendo às palavras sábias
de Roberto Shinyashiki: «Felicidade não é o que acontece na nossa
vida, mas como nós elaboramos esses acontecimentos.» As dificul-
dades, que fazem parte da nossa vida, devem ser aproveitadas para
nos fazer evoluir e não para nos vitimizar perante os problemas, e é
essa mensagem de esperança e pró-actividade que tem de estar sem-
pre presente no quotidiano da nossa intervenção junto das crianças
e dos jovens que cuidamos e protegemos.
É essa a parte mais importante da nossa tarefa diária: ensinar a
ser, a crescer, a estar bem consigo próprio e com os outros.
Cada projecto de vida que se concretiza com êxito, cada criança
que parte para viver em família, onde sabemos que pode crescer e
ser amada, conquistando, a pouco e pouco, o seu espaço com o sim-
ples gesto de um beijo, aprendendo a construir a sua própria família
e, através dela, encontrando modelos, referências e valores, repre-
senta o renascer constante da confiança no futuro.
É aqui que se joga a nossa resiliência, a nossa vontade de apren-
der com estas amostras de coragem, com os desafios que diaria-
mente temos de enfrentar.

É brindando aos pequenos êxitos que se constroem grandes pro-


jectos; é acreditando na nossa criatividade e vontade de fazer felizes
as crianças e os jovens que, pelas razões mais diversificadas, preci-
sam do nosso apoio, da nossa mão, quando têm dificuldade em
caminhar sozinhos, porque o afecto não foi de facto o seu presente
de nascimento, permitindo a nossa presença servir-lhes de «porto
de abrigo».

234
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

É pois, neste pressuposto, que é importante ajudá-los a construir


uma rede sustentada de afectos, onde cada um de nós tem um papel
importante a desempenhar no sistema.
Quando chegam até nós, muitas vezes, estas crianças já não
têm esperança, já não acreditam, pois só conhecem a negligência,
o desinteresse e o abandono afectivo a que estiveram votadas…
e, por vezes, quem sabe, também nós passámos por elas e não as
olhámos com as lentes do futuro, estávamos com o olhar turvo pela
inércia… mas há que agir; temos de acreditar e, sobretudo, fazer
com que acreditem no nosso investimento em cada uma delas, esti-
mulando as suas competências e capacidades, dando-lhes ânimo e
vontade de vencer. Temos de acreditar e fazer acreditar que o nosso
sucesso é sobretudo o sucesso delas, fazendo todos parte integrante
do processo de mudança das suas vidas, isto é, do seu processo de
desenvolvimento, crescimento e autonomia, de forma sustentada,
integral e integrante.
Esta missão é, de facto, para todos os que intervêm nesta área,
muito ambiciosa, mas é sobretudo um grande desafio pessoal e pro-
fissional… e de cujo sucesso, depende muito o futuro das crianças
e dos jovens que queremos que em nós acreditem.
As acções a empreender, para que se venham a traduzir em resul-
tados efectivos, têm de se desenvolver num enquadramento que
as sustente e facilite. Tal não é o caso quando as instituições estão
sujeitas a uma deriva permanente da gestão, resultante da alteração
política da governação. A gestão destas instituições carece de esta-
bilidade e continuidade, sem esquecer que os princípios visados são
as próprias crianças.

As mudanças e evoluções a fazer devem ser cautelosamente pen-


sadas e preparadas, sempre com a preocupação de não provocar
roturas que possam interferir com a intervenção regular junto das
crianças e jovens, bem como das famílias. Deve, ainda, ser feita a
monitorização permanente, para que se minimizem riscos e con-
sequências secundárias nefastas. Também não se deve iniciar um

235
ACREDITAR NO FUTURO

processo de mudança sem fechar o anterior, nem colocar em xeque


os princípios basilares da actuação o que, de alguma forma, com-
promete a missão institucional estabelecida.

Projecção no Futuro
Para onde nos dirigimos

A importância que damos no presente à forma como cuidamos


das crianças e jovens dita, claramente, o que pretendemos para a
nossa sociedade num futuro próximo.
As oportunidades que lhes damos hoje, a motivação e os valores
que lhe transmitimos vão ser factores fundamentais e determinan-
tes para a forma como queremos ver o mundo amanhã.
No nossa sociedade, a grande maioria das crianças vive prote-
gida num contexto familiar que lhe proporciona a satisfação das
suas necessidades, sejam elas físicas, afectivas, emocionais, cogni-
tivas e sociais, proporcionando-lhes bem-estar, promovendo segu-
rança, confiança e relações de qualidade, e permitindo-lhes, neste
contexto, ter a possibilidade de se desenvolver adequadamente.
A família constitui-se, assim, como ambiente estruturante, como
instância primária de acolhimento e de socialização.
Mas nem todas as crianças nascem em famílias com estas carac-
terísticas e potencialidades. O Estado e a sociedade civil têm, em
tais situações, uma missão fundamental: ajudar estas crianças, bem
como as suas famílias, que, pelos mais diversos motivos e situações,
necessitam de uma intervenção terapêutica e reparadora (sendo
levadas a desenvolver estratégias e a receber apoios que as ajudem
a minimizar, ou mesmo colmatar, as suas dificuldades). A inter-
venção junto destas famílias é fundamental, para que as crianças aí
possam crescer e se possam desenvolver de forma adequada e con-
ducente a um processo de autonomia sustentada, promovendo a
sua integração social e contribuindo também elas para uma socie-
dade mais justa e integradora.

236
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

«As famílias devem ser ajudadas a reconhecer que constituem a


fonte primeira de amor e apoio e que são também responsáveis pela
criação das forças interiores de que a criança necessita para se tor-
nar resiliente face às circunstâncias de risco.» (Declaração de Lis-
boa, 1995.)

Um sistema de promoção e protecção para crianças e jovens em


risco, para ser eficaz, deve assentar numa premissa fundamental:
deve ser concebido e estruturado tendo em consideração a satisfa-
ção das necessidades apresentadas por cada criança ou jovem.
É a satisfação de uma forma adequada das necessidades físicas,
cognitivas, sociais e emocionais de uma criança ou jovem que vai
determinar a fronteira entre o bom trato (quando as necessida-
des estão plenamente satisfeitas) e o mau trato (quando as mes-
mas não estão satisfeitas), o que vai desde logo contribuir para que
a criança ou jovem tornem efectivo, ou não, o seu potencial de
desenvolvimento.
Um crescimento harmonioso e equilibrado irá contribuir para
que a criança ou o jovem construam progressivamente e de forma
consistente um processo de autonomização que dará origem a uma
autonomia sustentada e potenciadora de boa integração social
assente num desenvolvimento equilibrado da sua personalidade.
Assim, cabe à sociedade, e portanto a todos nós, garantir que as
crianças e os jovens possam viver integrados num ambiente fami-
liar adequado e ter, deste modo, a possibilidade de usufruir de uma
educação onde esteja presente o afecto, a tolerância, a solidariedade,
o respeito…
Através de um sistema de promoção e protecção eficiente, a
sociedade pode criar condições que possibilitem a reparação de
situações de negligência e maus-tratos, quando estas se verificam,
para que a criança ou o jovem deixem de estar numa situação de
perigo e passem a ficar numa situação de protecção. Há que inves-
tir na promoção de condições que possam dar novas oportunida-
des a estas crianças ou jovens, isto é, devem ser-lhes proporcionadas

237
ACREDITAR NO FUTURO

as condições necessárias e apropriadas tendo em consideração as


suas reais necessidades, assim como a sua especificidade, quando se
apresentam numa situação de risco/perigo.

 Desenvol-
Um grande vimento
Admissão desafio
Encaminha-
mento ☺
Criança/Jovem Criança/Jovem
em Situação de em Situação
PERIGO SUSTENTADA

Quando pensamos numa forma diferente de proteger estas crian-


ças ou jovens, temos de perceber qual é o nosso papel na operacio-
nalização da mudança. Queremos ser agentes passivos, ou queremos
nós próprios ser agentes promotores da mudança e reinventar novas
práticas que ajudem cada um de nós a fazer um trabalho mais con-
sistente e de maior qualidade, que se vá reflectir na construção de
uma sociedade melhor, não só para as crianças de hoje, mas também
para os adultos do futuro? O caminho a partilhar só pode ser um:
o da participação activa como agentes promotores de mudança.
A mudança a implementar passa por apostar na individuali-
zação da intervenção, na inovação, na qualificação dos técnicos,
assim como em procurar oferecer uma resposta de qualidade, para
que todas as crianças acolhidas se sintam únicas, acarinhadas, res-
ponsáveis e integradas socialmente; respeitando as diferenças, pro-
curando potenciar as suas competências, e também compensar
as necessidades individuais apresentadas por cada uma, bem como
as suas especificidades.
Há que melhorar os padrões de qualidade nos serviços pres-
tados, desenvolvendo novos projectos, desenhando novas respos-
tas que, através da sua implementação e concretização, possam ser
tidos como modelos de boas práticas, e que irão constituir, sem
dúvida, uma mais-valia na formação das crianças e dos jovens que,

238
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

por vivenciarem situações adversas, acabaram por integrar o sistema


de promoção e protecção.
Investindo nelas e na sua família, promovendo uma rede de apoio
consistente aos mais variados níveis, iremos conseguir que estas
crianças mais tarde se tornem adultos responsáveis, com valores
de referência sólidos, facilitadores da sua integração na sociedade,
deixando assim o universo de exclusão e pobreza onde nasceram,
para que possam contribuir eles próprios, enquanto cidadãos, para
a inclusão e aceitação do outro, através, do respeito, da tolerância,
do conhecimento, da educação…

Satisfação das Necessidades


Desenvolvimento e necessidades em estreita correlação

Quando uma criança ou um jovem são sinalizados como estando


em risco ou em perigo, o primeiro procedimento a efectuar é, clara-
mente, analisar a situação, para que seja possível fazer um diagnós-
tico minucioso, assim como um prognóstico da sua evolução, pois
só estando na posse de todos os elementos podemos fazer uma aná-
lise consistente e credível.
A intervenção técnica, no sentido de proteger a criança ou o
jovem que nos foi sinalizado, tem de ser norteada por critérios
que sirvam como referência para todos os profissionais que tra-
balham nesta área, independente da forma como conduzam a sua
intervenção.
Dissemos anteriormente que, para actuar com eficiência e
podermos dar a resposta adequada à criança, é necessário, em pri-
meiro lugar, identificar as necessidades específicas desta, para que
o seu desenvolvimento possa decorrer nos parâmetros esperados e
expectáveis, tendo em consideração os padrões normalizados de
desenvolvimento.
Porque nos focalizamos sempre nas necessidades e na sua satisfa-
ção, podemos dizer que necessidades são condições ou características

239
ACREDITAR NO FUTURO

comuns a todos os seres humanos que, ao serem satisfeitas, poten-


ciam e estimulam o seu desenvolvimento.

Assim, desenvolvimento e satisfação das necessidades humanas


estão em estreita correlação. É uma nova forma de conceptualizar
o desenvolvimento. Estamos a falar em desenvolvimento à escala
humana, orientado para a satisfação de necessidades que nos traz
uma nova forma de interpretar a realidade. Para este efeito, necessi-
tamos de um indicador sobre o crescimento qualitativo das pessoas,
o qual está ligado à melhoria da sua qualidade de vida.
A qualidade de vida depende das possibilidades que as pessoas
têm de satisfazer adequadamente as suas necessidades humanas
fundamentais. Contrariamente ao que poderíamos supor, segundo
este paradigma, as necessidades humanas são finitas e classificá-
veis e são as mesmas em todas as culturas e em todos os períodos
históricos. O que muda com o tempo, e de cultura para cultura,
é o modo ou os meios através dos quais se promove a satisfação
das necessidades, ou seja, os factores responsáveis pela satisfação
dessas necessidades.
De acordo com Manfred Max Neef (1994), estas necessidades
são: subsistência, protecção, afecto, compreensão, participação,
lazer, criação, identidade e liberdade. Cada sistema adopta diferentes
métodos para a satisfação das mesmas necessidades humanas funda-
mentais. Em cada sistema estas necessidades humanas são satisfeitas,
ou não, através da criação de diferentes agentes de satisfação. Assim,
podemos dizer que um dos aspectos que define a cultura é a escolha
dos factores responsáveis pela satisfação das necessidades.
Aquilo que é determinado culturalmente não são as necessida-
des humanas fundamentais, mas os factores responsáveis pela satis-
fação daquelas. Uma mudança cultural é o resultado do abandono
de agentes de satisfação tradicionais com o objectivo de adoptar
outros, novos ou diferentes, factores de satisfação.
A relação entre as necessidades e os factores de satisfação não é
biunívoca, pois um determinado agente de satisfação pode cobrir

240
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

uma série de necessidades, assim como uma determinada necessi-


dade pode requerer diversos factores responsáveis pela satisfação
para ser suprida. Também pode acontecer que um agente de satisfa-
ção de uma necessidade possa actuar de forma a anular ou a impedir
a satisfação de outra. Como exemplo: acolhimento de uma criança
ou de um jovem pode satisfazer necessidades de natureza física e bio-
lógica, tais como alimentação, sono, saúde, higiene, vestuário, mas
pode afectar negativamente a satisfação de outro tipo de necessida-
des, tais como: desenvolvimento de identidade própria, de afecto
e atenção individualizada, sentimentos de pertença, vinculação…
Outro aspecto a ter em conta no que diz respeito às neces-
sidades, é que estas não podem ser vistas apenas na perspectiva
da carência, mas sim como promotoras de desenvolvimento que
motiva e mobiliza as pessoas, o que implica encararmos a satisfa-
ção das necessidades sob um prisma mais vasto, como um recurso
e uma capacidade.
O enfoque dado à satisfação das necessidades em estreita relação
com o desenvolvimento humano, permite-nos, desde logo, perce-
ber a importância que estas adquirem na infância.
Ao longo do seu processo de desenvolvimento, as crianças vão
adquirindo capacidades e habilidades cada vez mais complexas, e
esta aquisição está directamente relacionada com a forma como são
satisfeitas as suas necessidades.
Se pensarmos nas necessidades de protecção de uma criança na
sua primeira fase de vida, ou seja, entre os 0 e os 3 anos, vemos que
a satisfação das suas necessidades implica claramente um contacto
muito próximo e permanente com o adulto que dela cuida, para
que com este se estabeleça uma vinculação segura e uma relação de
qualidade.
A adequada satisfação das necessidades biopsicossociais de uma
criança ou de um jovem constitui o sustentáculo do seu bem-es-
tar e tem que ver com as suas características específicas, nas quais
podemos incluir a idade, capacidade cognitiva, maturidade, perso-
nalidade, etc.

241
ACREDITAR NO FUTURO

Existem várias classificações de escalonamento de necessidades


humanas. Utilizando a classificação de López (1995), distinguimos
três grandes categorias: necessidades físico-biológicas, necessidades
cognitivas e necessidades socioemocionais.

Necessidades físico-biológicas – Nelas estão incluídas alimen-


tação, temperatura, higiene, sono, actividade física, segurança e
saúde.
Os pais e os adultos cuidadores são os responsáveis por garantir à
criança, ou ao jovem, a satisfação destas necessidades. Se não forem
satisfeitas de forma adequada, estamos em presença de situações de
negligência e consequentes maus-tratos.

Necessidades cognitivas – São as condições que se devem pro-


porcionar para que as crianças ou jovens possam conhecer e estru-
turar as experiências que o meio ambiental lhes oferece.
Nestas necessidades estão incluídas a estimulação sensorial, a
exploração física e social, e a compreensão da realidade envolvente.
A adequada satisfação destas necessidades através dos proces-
sos cognitivos básicos como a atenção, a concentração, a memória,
o desenvolvimento linguístico e motor, constitui-se como funda-
mental para o desenvolvimento adequado das crianças e dos jovens,
e para a possibilidade de se tornarem adultos autónomos.
Assim, os pais ou adultos cuidadores, para que as crianças se
desenvolvam de uma forma equilibrada, devem proporcionar-lhes
a estimulação apropriada, tendo em consideração as suas caracte-
rísticas específicas.

Necessidades socioemocionais – Fazem referência às condições


que se devem cumprir para que as crianças e os jovens apresentem
um desenvolvimento afectivo adequado e adaptado às circunstân-
cias do meio. Também dizem respeito aos elementos necessários
para a aquisição de estratégias de expressão de sentimentos e com-
portamentos de interacção com os pares.

242
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

As necessidades socioemocionais incluem segurança emocional,


expressão de sentimentos e emoções, redes de relações sociais, par-
ticipação e autonomia progressiva, sexualidade, protecção de riscos
e interacção lúdica.
Neste tipo de necessidades está incluído o ser amado, ser que-
rido, ser aceite, ser motivado e ser valorizado.
A criança e o jovem têm necessidade de estabelecer relações de
confiança com os adultos cuidadores, de amizade com os pares,
bem como desenvolver comportamentos conducentes a uma
progressiva autonomia. Todos estes elementos se constituem
como fundamentais para o desenvolvimento da auto-estima e
do autocontrolo e ajudam ainda a moderar comportamentos
egocêntricos característicos da infância, ajudando a criança a
integrar valores mais adequados e promotores do processo de
socialização.

O Modelo Especializado
Pensar no presente para construir o futuro

O modelo, sobre o qual assenta o actual sistema de promoção e


protecção para crianças e jovens em risco, não evoluiu na propor-
ção directa da evolução ocorrida na problemática que acompanha
estas crianças e jovens.
Um sistema de promoção e protecção tem de ser suficiente-
mente moldável para poder dar uma resposta individualizada a cada
criança que dele necessita para ser protegida.
Assim, e no sentido de dar uma maior consistência ao sistema de
promoção e protecção, e de proteger com mais eficácia as crianças
e os jovens que dele necessitam, preconizamos:

Na perspectiva da intervenção, duas áreas: intervenção em


contexto familiar e intervenção em contexto residencial.

243
ACREDITAR NO FUTURO

Intervenção em contexto familiar:


– Intervenção em famílias com crianças e jovens em risco.
– Acompanhamento de crianças e jovens em meio natural
de vida.
– Acolhimento familiar.

Intervenção em contexto residencial:


– Casas de acolhimento de emergência.
– Casas de acolhimento para promoção da família.
– Casas de acolhimento para promoção da autonomia.
– Apartamentos de autonomização.
– Casas de acolhimento para promoção da socialização.
– Casas de acolhimento para jovens em situação de perigo e
com problemas de saúde mental.
– Casas de acolhimento para jovens em situação de perigo e
com deficiência mental.

Na perspectiva da medida de acolhimento, e tendo em consi-


deração que este deve ser terapêutico e educativo, podemos dividir
o modelo em duas vertentes: o modelo de acolhimento regular e o
modelo de acolhimento terapêutico educativo.

No modelo de acolhimento regular inclui-se:


– Acolhimento familiar.
– Casas de acolhimento de emergência.
– Casas de acolhimento para promoção da família.
– Casas de acolhimento para promoção da autonomia.
– Apartamentos de autonomização.

244
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

No modelo de acolhimento terapêutico educativo inclui-se:


– Casas de acolhimento para promoção da socialização.
– Casas de acolhimento para jovens em perigo e com graves
problemas ao nível da saúde mental.
– Casas de acolhimento para jovens em perigo e com defi-
ciência mental.

Contexto Familiar Contexto Residencial Intervenção

Intervenção em
famílias com crianças
Prevenção

e jovens em risco

Acompanhamento de
crianças e jovens em
meio natural de vida

Casas de acolhimento
Casas de acolhimento
Acolhimento familiar para promoção
Acolhimento

de emergência
Regular

de autonomia

Casas de acolhimento
Apartamentos de
para promoção
autonomização
da família
Acolhimento
Terapêutico

Casas de acolhimento Casas de acolhimento


Casas de acolhimento
para jovens em perigo para jovens em perigo
para promoção
com graves problemas com deficiência
da socialização
de saúde mental mental
Modelo

A especialização do sistema pressupõe que sejam tidas em con-


sideração as necessidades apresentadas pela criança ou jovem e
a especialização da intervenção a realizar nas instituições que
devem ter uma intervenção focalizada nas necessidades que cada
um apresenta. Esta intervenção só pode ter consistência se for pres-
tada no dia-a-dia por uma equipa técnico-educativa especiali-
zada e habilitada a trabalhar com esta população-alvo, que, para
além dos procedimentos técnicos, se regule por princípios éticos e
condutas que propiciem a construção de uma relação de qualidade

245
ACREDITAR NO FUTURO

com as crianças e os jovens, dando-lhes a oportunidade de cres-


cerem e se autonomizarem progressivamente, respeitando o seu
ritmo, capacidades e competências.

A especialização do sistema pressupõe ainda que a montante


do sistema de acolhimento residencial ou familiar, seja efectuada
uma intervenção com a família da criança ou do jovem em risco,
tendo por objectivo conhecer as necessidades de mudança a operar
na família para que a criança ou jovem aí possam permanecer.
Assim, podemos concluir que num sistema de promoção e pro-
tecção existem vários níveis de intervenção, que devem estar coor-
denados e integrados de forma coerente.
O primeiro nível de prevenção e protecção cabe aos serviços
sociais locais, que trabalham com as crianças e os jovens e as suas
famílias, e cuja responsabilidade passa por intervir nas situações em
que a criança está em risco, mas ainda é possível mantê-la na famí-
lia, e onde é efectuada uma intervenção com esta.
Os programas de intervenção familiar devem trabalhar a preser-
vação familiar, isto é, uma intervenção no sentido de não se pro-
ceder à retirada da criança do seu contexto familiar, como também
os programas de reunificação familiar, ou seja preparar a família
para voltar a receber a criança que lhe foi retirada temporariamente.
A intervenção na reunificação familiar tem de ser feita em conjunto
e de uma forma concertada com a equipa da casa de acolhimento
onde se encontra acolhida a criança.
Outra medida possível de aplicar num sistema de promoção e
protecção é a medida de acolhimento familiar. Esta medida, por
ser aplicada em contexto familiar, permite o enquadramento da
criança ou do jovem num meio mais normalizador e individualizado.
Algumas das crianças e dos jovens que são acolhidos nas casas de
acolhimento, na sequência da aplicação de uma medida de acolhi-
mento em instituição, se trouxerem um plano de intervenção ela-
borado e um bom diagnóstico, podem ser inseridos no recurso que,
à partida, melhor corresponda às suas reais necessidades, sem que

246
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

ocorram as nefastas transferências entre equipamentos, que repre-


sentam sucessivos abandonos e que vão ainda agravar com mais
acuidade a patologia do vínculo que estas crianças ou jovens já
transportam, fruto das situações adversas por eles vivenciados.
É exemplo do que antecede o facto de muitas crianças e muitos
jovens que hoje chegam às casas de acolhimento, com medida de
acolhimento em instituição, necessitarem sobretudo de uma inter-
venção de carácter terapêutico e educativo, pois muitos são ado-
lescentes, sem regras e sem limites, que, pelo seu comportamento,
se colocam em risco. Para eles é necessário um acolhimento que lhes
proporcione uma intervenção terapêutica contentora, para que se
voltem a inserir na comunidade, ou seja, venham a ser adultos inte-
grados socialmente.

Intervenção em Contexto Familiar


As famílias constituem o alvo preferencial de intervenção

A realidade leva-nos a distinguir vários tipos de situações em que


a criança se encontra em risco e que, pela sua especificidade, exigem
um tratamento diferenciado e uma gama de respostas que se pos-
sam adaptar às necessidades de cada caso.
Hoje em dia continuam a ser acolhidas em centros de acolhi-
mento temporário, e nos lares de infância e juventude, crianças
e jovens indiscriminadamente, tendo em conta apenas o critério
da idade, sem que tenha sido efectuado um diagnóstico antes da
entrada, que nos permita, pelo menos, tentar encontrar o local de
acolhimento que possa dar uma resposta mais adequada à sua pro-
blemática. Grande parte das crianças ou jovens integrados em ins-
tituições de acolhimento, após vários anos de intervenção, acaba
por ser acolhida sem ter sido sujeita a um diagnóstico, que seria
fundamental para perceber, dentro do sistema de acolhimento,
qual a resposta que melhor corresponderia à satisfação das suas
necessidades.

247
ACREDITAR NO FUTURO

Esta realidade leva a que, por vezes, uma situação seja alvo de
várias intervenções, sem qualquer alinhamento ou concertação
entre os vários técnicos intervenientes, o que provoca uma acção
intrusiva nas famílias sem eficiência, no sentido de proteger a
criança em tempo útil.
Assim, mediante cada situação, e após estudo e diagnóstico con-
certados acerca dela, tem de se passar para a etapa da tomada de
decisão, que deverá ter sempre em conta a salvaguarda dos interes-
ses da criança ou do jovem, pois eles e as respectivas famílias cons-
tituem o nosso alvo preferencial de intervenção.
Quando se trabalha com famílias que não sabem ou não apre-
sentam capacidades para proteger as crianças, colocando-as em
risco, é necessário desenvolver programas específicos que possam
contribuir para o desenvolvimento das competências parentais
e pessoais, de modo a incrementar factores de protecção, dimi-
nuindo assim o número de crianças com necessidade de serem
institucionalizadas.

Os factores protectores são as características, quer da criança ou


do jovem, quer da sua família, capazes de minimizar os riscos de
desprotecção, assim como as suas consequências.
Os pontos fortes da família são as capacidades ou competências
desta, assim como as características do meio, que garantem uma
protecção adequada à criança ou ao jovem. Apesar de, por vezes,
estes factores protectores não serem suficientes, constituem-se como
uma poderosa alavanca para facilitar o trabalho a desenvolver com
a família e que tem por objectivo a restauração da relação entre a
criança e a família.
Como factores protectores da criança podemos entender as
características ou os recursos que permitem fazer frente aos fac-
tores de risco, que estão presentes no meio sociofamiliar e que
minimizam as consequências negativas de uma situação em que
a criança está desprotegida. Quando estas características intrín-
secas ao indivíduo desenvolvem nele capacidades para lidar com

248
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

os problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações


adversas, estamos em presença de um indivíduo que desenvolve
factores de resiliência.
Ter em conta as capacidades, bem como os recursos familiares,
constitui-se como fundamental, pois, quando estamos em presença
de uma família com esta problemática e características, temos mui-
tas vezes propensão para ver só o lado negativo – a família, com
todos os problemas que lhe estão associados – e não os factores
positivos que, valorizados, são o ponto de apoio da intervenção,
levando à implicação e participação da própria família que, com a
ajuda dos técnicos, reconhece e identifica os seus problemas, pro-
curando-se, assim, soluções comuns e partilhadas.
Esta atitude de colaboração e abertura pode levar a que se resta-
beleça a relação de vinculação estável, que permitirá às crianças dei-
xarem de estar numa situação de risco e à família manter-se junta.
Quando se planeiam programas de intervenção com estas famí-
lias, o objectivo geral é contribuir para o desenvolvimento de com-
petências pessoais e parentais, com vista ao aumento dos factores
de protecção e diminuição da institucionalização.
Através dos programas de preservação familiar pretende-se que
as famílias tomem consciência das necessidades que as suas crianças
e os seus jovens apresentam, para que, em conjunto com os técni-
cos, identifiquem estratégias que permitam colmatar estas necessi-
dades, conseguindo assim que estas crianças e jovens se mantenham
no seu agregado familiar.
Este trabalho vai promover uma maior autonomização nas
famílias, ensinando-as a manter rotinas no lar, gerir prioridades
e recursos e procurar os apoios necessários junto dos serviços da
comunidade.
Ao trabalhar a preservação familiar diminuem-se os factores de
risco, nomeadamente a negligência e os maus-tratos, fortalecendo
e potenciando em simultâneo os factores protectores.
No trabalho a realizar com as famílias das crianças em risco, é
importante intervir através de programas de formação parental,

249
ACREDITAR NO FUTURO

em conjunto com programas de preservação familiar, pois estes


programas, para além de se complementarem, tornam a interven-
ção mais consistente e sustentada, acabando assim por se tornarem
mais eficazes.

Num programa de formação parental há que trabalhar o papel


dos pais e as suas práticas educativas e parentais:
– Ensinar-lhes como intervir com os filhos nas diferentes
situações.
– Dar a conhecer a estas famílias como se processa o desen-
volvimento da criança e do adolescente.
– Dar a conhecer e trabalhar as diferentes problemáticas e
atitudes que caracterizam as diferentes idades, como lidar
com situações de desobediência e desafio.
– Identificar as verdadeiras necessidades dos filhos.
– Promover a integração social e familiar.
– Promover a parentalidade positiva e responsável.

Nos programas de preservação familiar, as famílias consti-


tuem-se como participantes activos em todas as fases do processo:
– Há que efectuar uma avaliação conjunta (técnico/família)
para identificar os pontos fortes, assim como as necessida-
des.
– Efectuar uma intervenção individualizada no sentido de
apoiar a família, para que esta consiga atingir os objectivos
conjuntamente estabelecidos: pela família, pela criança ou
jovem e pelo técnico da equipa que o apoia.
– Delinear e executar uma intervenção sempre concertada
com outras que possam estar em curso, tentando sempre
ajustá-las para que se consiga chegar ao resultado final pers-
pectivado.

250
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

– Ajudar a família a desenvolver uma rede de apoios naturais


e recursos na comunidade que se mantenham como suporte,
após a intervenção.

Às equipas que intervêm e trabalham com estas famílias, cabe-lhes


efectuar um programa de intervenção, em conjunto com a família,
que deverá ser delineado, tendo sempre em consideração uma ava-
liação das suas necessidades, com identificação dos pontos fortes e
das áreas de melhoria, dos objectivos a atingir e estratégias a utilizar.
Este plano individualizado para ser eficaz e consistente, tem de ser
calendarizado e sujeito a uma avaliação sistemática.
A equipa técnica, além do trabalho que desenvolve no domicí-
lio da família, tem de fazer um trabalho em parceria com a escola,
o centro de saúde e o respectivo acompanhamento próximo à famí-
lia e à criança.
Embora a criança seja considerada o alvo da intervenção, a
equipa trabalha com a família no seu todo, de modo a manter a
criança ou o jovem em casa.
A capacidade de reconhecimento por parte dos pais acerca
da responsabilidade deles na situação de risco em que se encon-
tra a criança é um dos factores mais importantes para estabele-
cer qualquer programa de intervenção que tenha por objectivo a
reabilitação da família.
Passamos a descrever as linhas orientadoras de um programa
de preservação familiar, levado a cabo pela Pressley Ridge em
Portugal.
Este programa inclui:
– avaliação das necessidades;
– gestão de caso;
– intervenção terapêutica;
– intervenção na crise;
– serviços de apoio à família;
– avaliação de resultados.

251
ACREDITAR NO FUTURO

Avaliação das necessidades


Numa perspectiva ecológica, leva à identificação das expectati-
vas e desejos da família, dos seus pontos fortes, áreas de competên-
cia dinâmica e estrutura familiar, bem como a saber qual o papel de
cada um dos elementos da família que coabita no agregado familiar,
as dificuldades e estratégias usadas anteriormente para a sua resolu-
ção, os recursos disponíveis, os recursos que se tornam necessários
para que a família e o meio envolvente se tornem protectores, bem
como a identificação das áreas de risco.

Gestão de caso
Deve proceder-se à elaboração de planos de intervenção indi-
vidualizados para cada família, centrados na identificação dos
pontos fortes, quer da família, quer da criança ou do jovem. Atra-
vés da identificação dos pontos fortes, podemos canalizá-los para
situações onde se irá promover o sucesso, desenvolvendo compe-
tências, aumentando a auto-estima e estimulando o relacionamento
positivo entre os elementos da família. Constituiu-se como funda-
mental a identificação dos papéis de cada um, naquele agregado
familiar. Procede-se à elaboração de contratos, com a identificação
das acções que vai ser necessário realizar, bem como a definição do
método a usar para a sua concretização, com a elaboração do res-
pectivo cronograma. Devem ser identificadas as formas de avalia-
ção do processo e a formulação de objectivos.

Intervenção terapêutica
Traduz-se na terapia focalizada na solução e inclui terapia cogni-
tiva comportamental e sistémica, coaching1, treino de adaptabilidade

1
Coaching é um processo com início, meio e fim, definido em comum acordo
entre o técnico e a família, e que tem por objectivo atingir a meta que está pre-
viamente definida. O papel do técnico é apoiar a família na concretização com
êxito das metas de curto, médio e longo prazos, através da identificação e uso das
próprias competências desenvolvidas, como também do reconhecimento e supe-
ração de suas fragilidades.

252
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

sociocultural, treino de competências recreativas e de parentalidade


positiva, assertividade, autocontrolo, competências de comunicação
e promoção de dinâmica familiar, ajustada às necessidades da criança.

Intervenção na crise
A equipa mantém-se contactável para poder intervir 24 horas
por dia.

Serviços de apoio à família


Este acompanhamento é feito de uma forma próxima e sistemá-
tica, assim como o contacto regular com todos os outros parceiros
intervenientes na situação e que tenham um papel determinante
nas decisões relativas ao futuro das crianças e dos jovens que inte-
gram o agregado.

Avaliação de resultados
É feita frequentemente com a família, para se conhecerem os
resultados da intervenção, isto é, se se nota evolução positiva na
situação, ou se é necessário efectuar ajustes ao plano de intervenção
para que seja possível alcançar o sucesso.

Quando se efectua uma intervenção nos moldes anteriormente


preconizados, e se a equipa técnica chegou à conclusão de que a
intervenção junto da família não alcançou os resultados esperados
e que se constituíam como necessários para manter a criança ou o
jovem inseridos no seu contexto familiar, então há que tomar deci-
sões, tendo por base o conhecimento adquirido no acompanha-
mento efectuado a esta situação.
Assim, é possível efectuar um diagnóstico consistente, para que
se possa procurar a melhor solução para colmatar as necessidades
da criança ou do jovem em questão, isto é, procurar dentro do sis-
tema de promoção e protecção que tipo de resposta será a mais ade-
quada, tendo em consideração as características individuais, bem
como as especificidades da situação sociofamiliar da criança e do

253
ACREDITAR NO FUTURO

jovem. Esta solução pode ser encontrada cruzando os indicadores,


já referenciados com o tipo de intervenção efectuada nas diferentes
casas de acolhimento, ou mesmo nas famílias de acolhimento, se a
opção for a colocação da criança em acolhimento familiar.
A especialização das várias respostas sociais poderá conduzir a
uma intervenção mais eficaz, e também mais célere, permitindo
assim diminuir o tempo de institucionalização da criança e contri-
buir para que o seu projecto de vida se concretize com sucesso e de
uma forma sustentada.

Acompanhamento em meio natural de vida

As medidas em meio natural de vida têm como objectivo man-


ter a criança ou o jovem no seu meio natural de vida, proporcio-
nando as condições adequadas ao seu desenvolvimento integral,
através de apoio psicopedagógico, social e, sempre que necessário,
também apoio económico. Entraram em vigor com o Decreto-Lei
n.º 12/2008, de 17 de Janeiro, o qual estabelece o regime de execu-
ção das medidas de promoção e protecção das crianças e dos jovens
em perigo em meio natural de vida, e que são: o apoio junto dos
pais, o apoio junto de outro familiar, a confiança a pessoa idónea e
o apoio para autonomia de vida.
A execução das medidas decididas em processo judicial é diri-
gida e controlada pelo tribunal, cabendo os actos materiais da sua
execução e respectivo acompanhamento às entidades que forem
legalmente competentes e designadas na decisão proferida. Tais
medidas podem ser asseguradas pelos serviços da segurança social,
enquadrando-se no âmbito das competências específicas das equi-
pas de assessoria técnica aos tribunais em matéria de promoção e
protecção que estas entidades detêm.
As Comissões de Protecção de Crianças e Jovens executam, diri-
gindo e controlando as medidas que aplicam, nos termos do acordo
de promoção e protecção estabelecido, cabendo os actos materiais

254
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

da sua execução aos membros e aos técnicos enquanto representan-


tes das respectivas entidades.

Face à situação de perigo em que a criança ou o jovem se encon-


tram, o técnico, juntamente com todos os intervenientes (pais,
criança ou jovem e entidades), cuja participação seja relevante para
o processo, procede à elaboração do diagnóstico e respectivo plano
de intervenção, que deverá incidir sobre as três áreas principais que
integram o modelo ecológico de avaliação/intervenção:
– as necessidades de desenvolvimento da criança/jovem;
– as competências parentais das famílias;
– os factores ecológicos e respectivas dimensões.

O modelo ecológico de avaliação/intervenção foi já explanado no


capítulo 2 e toma como base a criança, situando-a no seu ambiente
familiar e social.
Para cada uma das áreas há que traçar objectivos que deverão ser
claros, elencar as acções a desenvolver, bem como proceder à defi-
nição prévia da metodologia, calendarização das acções e identifica-
ção do técnico responsável pela implementação e acompanhamento
de todo o plano de intervenção.
A aplicação do modelo ecológico à prática profissional permite
lidar com a complexidade de factores que, sendo transversais, pos-
sibilitam uma avaliação holística das situações de risco e de perigo,
em que a criança ou jovem se encontram.
Quando se efectua uma avaliação, tendo por base a perspectiva
ecológica, há que identificar quais os problemas, forças e dificul-
dades e qual o impacto que estes factores têm na vida da criança
ou do jovem. Para a realização de um trabalho desta natureza, que
implica uma relação privilegiada com a criança ou o jovem, assim
como com a família, é fundamental que a responsabilidade pela
acção/intervenção seja cometida a um técnico apenas, que deno-
minamos por gestor de caso, como já foi referido no capítulo 2.

255
ACREDITAR NO FUTURO

A intervenção deve ser planeada e desenvolvida de acordo com as


finalidades e fases de execução das medidas de apoio junto dos pais,
apoio junto de outro familiar e confiança a pessoa idónea, previstas
nos artigos 16.° a 21.° e, no que respeita à medida de apoio para auto-
nomia de vida, o previsto nos artigos 30.° a 34.°, do diploma legal
que regulamenta as medidas de apoio em meio natural de vida.
Tal como já foi referido anteriormente, para além do apoio psi-
copedagógico e social, as famílias e os jovens também podem ser
apoiados economicamente, se tal corresponder a uma necessidade
para que se consiga dar cumprimento ao plano de intervenção
delineado.
Assim, o apoio económico consiste na atribuição de uma pres-
tação pecuniária, a pagar pelos serviços da segurança social, para a
manutenção da criança e do jovem no agregado familiar com quem
reside, ou directamente ao jovem no caso da medida de apoio para
autonomia de vida. A prestação deste apoio tem como fundamento
a necessidade de garantir os cuidados adequados ao desenvolvi-
mento integral da criança ou do jovem.
No que se refere às medidas de apoio junto dos pais, apoio junto
de outro familiar e confiança a pessoa idónea, o montante máximo
da prestação pecuniária é o equivalente ao valor do subsídio men-
sal de manutenção fixado para a medida de acolhimento familiar e é
pago directamente ao agregado familiar com quem a criança reside.
Nas medidas de apoio para autonomia de vida, a prestação pecu-
niária mensal é paga directamente ao jovem.
O gestor de caso deve elaborar, com a participação activa do
jovem, um plano de intervenção para apoio e acompanhamento da
medida de promoção de autonomia em meio natural de vida. Neste
plano de intervenção deve estar claramente identificado como irá
ser feita a gestão deste apoio económico, assim como outras acções
que se considerem fundamentais para que o jovem se autonomize
de uma forma progressiva e sustentada.
Muitos destes jovens que beneficiam deste tipo de medidas não
têm retaguarda familiar, podendo nestes casos vir a ser necessário

256
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

um apoio económico maior, pelo que os jovens podem beneficiar


de um subsídio mensal no montante máximo, em princípio, não
superior ao do salário mínimo nacional.
O pagamento de despesas relacionadas com a aquisição de equipa-
mento indispensável ao alojamento da criança ou do jovem e para o
processo de autonomização deve ser apreciado caso a caso, e quando
devidamente fundamentado, é possível a sua concretização.
Os apoios económicos no âmbito das medidas em meio natural
de vida derivam da própria medida, pelo que a sua duração e revi-
são terão de seguir o que estiver definido no acordo de promoção e
protecção outorgado, ou na decisão judicial proferida.

Acolhimento familiar

O acolhimento familiar segundo o Decreto-Lei n.º11/2008,


de 17 de Janeiro é «uma medida de carácter temporário, cujo
pressuposto de aplicação assenta na previsibilidade de retorno da
criança ou do jovem à família natural».
Segundo estudos realizados em vários países, podemos constatar
que as crianças, sobretudo em idade muito precoce, quando têm de
ser retiradas do seu contexto familiar, pelos mais variados motivos,
mas essencialmente porque os pais não apresentam capacidade para
delas cuidarem, à data da retirada, beneficiam com o facto de ser
integradas em contextos familiares alternativos, pois, se estes forem
qualificados, vão proporcionar uma melhor satisfação das necessi-
dades que uma criança desta idade apresenta, tais como: atenção
individualizada estável e contínua, uma relação de afecto próxima
e a satisfação das necessidades básicas. Estes factores constituem-se
como fundamentais para promoverem e potenciarem um desenvol-
vimento equilibrado e saudável.
As condições anteriormente descritas dificilmente se conse-
guem obter quando a criança é integrada em casas de acolhimento,
onde convive com mais vinte ou trinta crianças, e com vários

257
ACREDITAR NO FUTURO

adultos cuidadores em simultâneo, pelo que o acolhimento familiar,


enquanto resposta que obedeça às premissas de selecção rigorosa, for-
mação contínua e acompanhamento muito próximo, pode de facto
constituir-se como uma resposta mais adequada para crianças com
idades mais precoces, nomeadamente na primeira e segunda infância.
Na selecção das crianças que irão integrar este recurso há que ter
em consideração que é importante a concordância prestada pelos
seus familiares, nomeadamente pelos pais, e conhecer muito bem
as características da família, pois se os mesmos não estiverem de
acordo vão, com certeza, perturbar as vivências da criança na famí-
lia de acolhimento, podendo mesmo chegar a ser inviabilizada a
sua permanência.
Uma família onde o afecto e a comunicação estejam presentes
na sua dinâmica familiar tem maiores possibilidades de suprir as
necessidades apresentadas pelas crianças do que as instituições, por
melhor que seja o seu funcionamento.
Muitas vezes assistimos à frágil argumentação de que, por se tra-
tar de uma medida provisória, e, portanto, trata-se de uma família
transitória para a criança, uma vez que se prevê o regresso da criança
à sua família natural, ou, em caso de impossibilidade desta, a pos-
sibilidade de adopção por família candidata, a criança irá sofrer um
novo abandono, pois desenvolve com esta família vínculos que se
irão romper quando regressar à sua família biológica, ou quando for
viver com a família adoptiva.
Na realidade, uma criança que estabeleça uma vinculação de
qualidade com a família de acolhimento, mesmo que por um deter-
minado período de tempo, beneficia sempre de um espaço repara-
dor, pois o que é importante é que sejam supridas as necessidades
de afecto e de segurança que a criança transportava consigo quando
chegou à família de acolhimento; é necessário que a criança se sinta
protegida e querida, para que possa ter a capacidade de se vincular.
A preocupação a ter em conta é a forma como se vai fazer a tran-
sição da família de acolhimento para a família biológica ou a famí-
lia adoptiva (situação esta que não está prevista no Decreto-Lei

258
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

n.º 11/2008), pois a saída da família de acolhimento não implica


obrigatoriamente que haja um corte com esta família. A passagem
tem de ser muito trabalhada e feita de forma gradual e progressiva,
sempre com a participação activa da criança, e tendo sempre em
conta a sua idade e capacidade de entendimento da situação, a qual
lhe deve ser explicada da forma mais adequada. Nesta fase é parti-
cularmente importante o apoio que os técnicos que acompanham a
situação e a família de acolhimento lhe possam prestar, ajudando-a
a gerir da melhor forma este momento.
Também é imprescindível que a família de acolhimento saiba
desde o início do processo que não pode adoptar esta criança, pois
tem de ficar bem claro qual é o seu papel enquanto família de aco-
lhimento, conhecendo os seus direitos e os seus deveres.
Contudo, um princípio fundamental a considerar é o tempo
que a criança permanece nesta família, pois há que tomar decisões
de uma forma reflectida, mas célere, já que a criança, e mesmo o
jovem, deve manter-se sempre por pouco tempo em situações pro-
visórias e instáveis.
Para as crianças e os jovens com um passado caracterizado pelo
tipo de problemáticas identificadas, a permanência num futuro
incerto é sem dúvida prejudicial.
A família de acolhimento tem de estar implicada na promoção
do bem-estar da criança, sabendo que não vai ser uma situação per-
manente, uma vez que esta medida assenta, segundo a legislação
portuguesa, na previsibilidade do regresso da criança ou do jovem
à família natural.
Assim, o diagnóstico que se faz à partida, deverá ser baseado no
prognóstico de que aquela família biológica vai conseguir superar
as suas dificuldades, de forma a poder voltar a integrar a criança ou
o jovem no seu seio familiar.
A relação afectiva existente entre a criança e os seus pais, e vice-
-versa, é a ideia-chave para que o retorno à família se concretize.
O desejo de manter o vínculo afectivo leva a que seja cumprido
o plano de intervenção delineado pela equipa técnica da instituição

259
ACREDITAR NO FUTURO

de enquadramento, com a participação das crianças e dos jovens,


pais e família de acolhimento. A colaboração de todos vai ser
importante para que se promova a reunificação familiar, em curto
espaço de tempo, com os pais, as crianças e os jovens, levando a
cabo as mudanças necessárias nas suas atitudes e comportamentos,
de forma a que a situação de perigo em que a criança se encontrava,
e que conduziu ao seu acolhimento, deixe de existir e, portanto,
os pais possam assegurar uma situação de estabilidade, segurança,
afecto e educação. É muito importante que os pais aceitem o facto
de o seu filho estar sujeito a uma medida de acolhimento familiar,
pois têm de ser parte activa neste processo, criando uma relação de
confiança com a família de acolhimento e com a equipa técnica que
acompanha a situação.
A recuperação da criança por parte da família implica aceitar esta
relação de ajuda, permitindo um melhor conhecimento das circuns-
tâncias que levaram à sua retirada e, assim, identificar com maior
clarividência quais as mudanças que vai ser necessário operar para
haver condições para equacionar o regresso da criança à família.
À equipa técnica que acompanha a situação cabe avaliar se a
família está de facto apostada em cumprir o plano de intervenção
delineado, proporcionando os recursos necessários para que a evo-
lução seja positiva, ajudando os pais na sua capacitação e cativando
recursos na comunidade que possam ser uma boa rede de suporte,
quando a criança regressar a casa.
A família de acolhimento tem de ser adequada e tem de perce-
ber quais as reais necessidades que a criança que acolhe apresenta,
assim como dar cumprimento ao estipulado no plano de interven-
ção, sempre com o objectivo de promover o regresso da criança à sua
família de origem. Deve promover acções de forma a melhorar ou
reforçar a vinculação existente entre a criança e os pais e vice-versa,
incentivando contactos frequentes entre a criança e os pais.
Espera-se também que a família de acolhimento desempenhe
um papel relevante na capacitação da família natural para o exercí-
cio da sua função parental, assumindo a boa relação entre as duas

260
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

famílias um papel fulcral para que a criança ou o jovem fortaleça e


melhore a relação com a sua família de origem.
Ponderando os objectivos que estão inerentes a esta medida
de acolhimento, facilmente é perceptível a importância de que se
reveste a selecção e formação das famílias de acolhimento.

Baseando-nos em Amorós, Pere e Palácios, Jesus (2004), o


papel da família de acolhimento é complexo e de âmbito muito
alargado:
– A família vai responsabilizar-se por cuidar da criança ou do
jovem no quotidiano, proporcionando-lhe um adequado
modelo educativo, modelo este que tem de ser adaptado
em função das características da criança e também do seu
passado.
– Compreender as reacções que a criança ou o jovem ma-
nifestam face à separação da sua família. Tem de perce-
ber como é que a criança está a sentir a separação, saber
ajudá-la a gerir os conflitos de lealdade em relação à sua
própria família e também em relação à família de acolhi-
mento.
– Facilitar à criança ou ao jovem acolhido a comunicação
com o meio envolvente, pois, para além da equipa técni-
ca que acompanha toda a situação de acolhimento familiar,
há outras entidades como a escola ou o centro de saúde,
por exemplo, que servem também como grupos de apoios.
Há que incentivar as próprias crianças e os jovens a consti-
tuírem grupos de amigos, permitindo-lhes a possibilidade
de manterem um relacionamento próximo e estreito com a
sua própria família.
– Assumir o carácter temporário do acolhimento. A famí-
lia de acolhimento tem de saber lidar com a despedida da
criança, pois não pode deixar de estabelecer laços de vin-
culação, com esse receio. Claro que, em tal situação, é fun-
damental o suporte que a equipa técnica responsável pelo

261
ACREDITAR NO FUTURO

acompanhamento pode dar, quer à criança, quer à família


de acolhimento.
– Saber gerir os contactos com a família biológica da crian-
ça ou do jovem, pois apesar de a criança, quando encami-
nhada para este recurso, ter uma forte probabilidade de re-
gressar à sua família e, portanto, dever manter contactos
estreitos com esta, tais contactos nem sempre são fáceis de
operacionalizar, pois podem constituir uma fonte de pro-
blemas e de ansiedade, não só para a família de acolhimen-
to como também para a criança. A situação das visitas deve
ser abordada com realismo, sensibilidade e cuidado.
– Trabalhar com a equipa técnica incumbida do acompanha-
mento da situação, assim como com outros técnicos. As de-
cisões a tomar no âmbito desta medida envolvem a partici-
pação e implicação de todos os intervenientes.
– Partilhar a informação mantendo a confidencialidade.
A informação vai facilitar a compreensão de algumas si-
tuações manifestadas pela criança ou pelo jovem, permitin-
do ajustar a prática educativa da família a situações actuais,
mas tendo por base as vivências anteriores transportadas
pela criança ou pelo jovem.
– Respeitar os antecedentes pessoais da criança, a sua histó-
ria e os valores da sua família biológica, pois a família de
acolhimento tem de manifestar uma atitude educativa, de
compreensão e respeito. O respeito pela história da crian-
ça é fundamental para que esta se sinta compreendida face
às situações pelas quais passou e para entender, também, as
dificuldades que se colocaram à sua família biológica.

A actual legislação portuguesa prevê duas modalidades para a


medida de acolhimento familiar:
– Acolhimento em lar familiar, onde se prevê a possibilida-
de de colocar até duas crianças, desde que o número total de
crianças e jovens em coabitação não seja superior a quatro.

262
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

– acolhimento em lar profissional, destinando-se esta mo-


dalidade ao acolhimento de crianças e jovens com pro-
blemáticas e necessidades especiais relacionadas, nomea-
damente crianças com deficiência ou problemas do foro
emocional e comportamental, que exijam uma espe-
cial preparação e capacidade técnica. Nesta modalidade é
dada especial referência às habilitações académicas e à for-
mação e experiência profissional, preferencialmente obti-
da na área de crianças e jovens. A actividade como família
de acolhimento em lar profissional é exercida em regime de
exclusividade.

Outras formas de acolhimento familiar

Como podemos observar, a actual legislação tornou-se redutora,


pois retirou a possibilidade de as crianças e jovens se manterem na
sua própria família, isto é, na família alargada, e de a mesma ser
considerada como família de acolhimento, por se considerar que a
família biológica poderá ser acompanhada de outra forma, nomea-
damente através do acompanhamento a famílias em meio natural
de vida. Esta situação pode até acabar por colocar as crianças e os
jovens numa situação mais vulnerável, uma vez que está previsto
que o acompanhamento a medidas em meio natural de vida seja
efectuado no máximo durante 18 meses.
O acolhimento familiar em família alargada pode revelar-se,
para algumas crianças e jovens, como o acolhimento mais indi-
cado, pois favorece na criança sentimentos de pertença, segurança,
identidade e continuidade, e implica, claramente, um seguimento
próximo e com o mesmo rigor do acompanhamento que se faz na
situação de acolhimento familiar sem laços de parentesco.
Pode ser também uma situação que os pais aceitem mais facil-
mente, diminuindo o grau de conflitualidade.
Este tipo de acolhimento permite que as crianças e jovens vivam
com pessoas que conhecem e em quem confiam, facilitando a sua

263
ACREDITAR NO FUTURO

identidade cultural e étnica, reforçando relações com outros fami-


liares e, muitas vezes, relações de fratrias. Existem, no entanto, con-
dições essenciais e imprescindíveis que estas famílias têm de reunir
para serem famílias de acolhimento. Têm de proporcionar, às crian-
ças e aos jovens que acolhem, segurança e bem-estar, suprindo as
necessidades específicas que elas apresentam e fomentando a vincu-
lação entre as crianças e os seus pais.
Deste modo, à semelhança daquilo que se faz noutros países
da Europa, nomeadamente em Espanha, Holanda, Suécia e Ingla-
terra, a família alargada enquanto reduto familiar, deveria poder
ser equiparada a família de acolhimento, sempre que esta resposta
se mostrasse a mais adequada para determinada criança ou jovem.
A questão passa pelo rigoroso processo de selecção a que todas as
famílias de acolhimento têm de ser submetidas, sejam elas famílias
biológicas das crianças e dos jovens que acolhem, sejam famílias
sem laços de parentesco.
Se a família alargada for tratada com o mesmo rigor com que
estamos a tratar da família sem laços de parentesco, se não tiver
competência para exercer cabalmente a sua função, não poderá ficar
com a guarda da criança, porque o que desejamos é que a criança
consiga reparar, nesta família, sequelas que situações mais adversas
foram deixando na sua personalidade.
O processo de selecção e de formação tem de ser muito rigo-
roso, assim como o acompanhamento deve ser realizado de uma
forma estreita e sistemática, com indicadores precisos e com pro-
tocolos de acompanhamento definidos e cumpridos pela equipa
técnica que acompanha a situação, tendo o gestor de caso a res-
ponsabilidade deste acompanhamento mais estreito. É importante
que tanto a família como a criança tenham uma relação privile-
giada com este técnico, pois sabemos que o desenvolvimento de
uma relação de confiança se constitui como fundamental neste
processo.
A selecção, formação e acompanhamento das famílias de
acolhimento devem ser efectuados por uma equipa afecta a uma

264
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

instituição de enquadramento, que deve ser constituída por técni-


cos da área das ciências sociais, nomeadamente assistentes sociais,
psicólogos e educadores sociais. Cada equipa não deve acompanhar
mais de 30 situações, com um rácio de 10 situações por técnico,
ficando a cargo da mesma o processo de selecção e de formação de
novos candidatos.
A equipa técnica deverá ter supervisão e avaliação anual do pro-
grama, a efectuar por entidade externa credenciada para o efeito.
Esta medida só é eficaz e poderá constituir uma mais-valia para
crianças e jovens que precisem de ser separados temporariamente dos
seus agregados familiares, se houver um acompanhamento muito
próximo da situação, pois há que proceder ao acompanhamento
da família de acolhimento, da criança que aí se encontra integrada,
e ao acompanhamento da família biológica com o objectivo de
a capacitar para que no mais curto espaço de tempo possa voltar
a receber novamente o seu filho.
Durante a sua estadia, a criança e a família deverão ser sujeitas a
programas que visem a reunificação familiar, isto para que a criança
permaneça o menos tempo possível afastada do seu contexto fami-
liar sendo, para tal, necessário capacitar os pais para que exerçam
adequadamente o seu papel parental.
Pensando na reintegração, a família biológica deverá ser progres-
sivamente envolvida na vida da criança, nomeadamente acompa-
nhar a sua situação de saúde e escolar, as rotinas, conhecer as reais
necessidades da criança e as formas de promover o seu bem-estar,
para que esta não seja uma «pessoa estranha» quando regressar à sua
própria família.
O acolhimento familiar, tal como está regulamentado no artigo
3.º do Decreto-Lei n.º 11/2008 de 17 de Janeiro diz que «a medida
de acolhimento familiar é executada tendo por base a previsibili-
dade de regresso da criança ou do jovem à família natural, quando
esta se encontre em condições de garantir a promoção dos direi-
tos e da protecção da criança ou do jovem». Diz ainda o número 2
do mesmo artigo que «não sendo possível a solução prevista no

265
ACREDITAR NO FUTURO

número anterior, constitui igualmente pressuposto da execução a


preparação da criança ou do jovem para a autonomia de vida».
Claramente, a lei não prevê a possibilidade de que uma criança
que está em acolhimento familiar possa ser adoptada, situação
que, consideramos, deveria ser contemplada, uma vez que os projec-
tos de vida são dinâmicos e pode acontecer que, embora inicialmente
se preveja o regresso à família, o mesmo não se possa concretizar, e
o projecto de vida da criança possa então passar por uma adopção,
pelo que nos parece que a lei não deveria fechar esta possibilidade.
Assim, quando não for possível o regresso à família natural, e se
a adopção não se mostrar como uma situação viável, o acolhimento
familiar poderá durar até à maioridade, constituindo-se como per-
manente. Poderão verificar-se situações de crianças e jovens que,
apesar de terem consciência da impossibilidade de voltar a viver
junto da sua família natural, recusem a adopção, pois não querem
romper a vinculação com a sua família biológica, ou porque se sen-
tem com forte vinculação à família de acolhimento e não querem
trocar esta situação de estabilidade por outra desconhecida, com
receio que corra mal, e voltem a sentir uma situação de desprotec-
ção como a que vivenciaram anteriormente.
Estas famílias de acolhimento, que vão acolher crianças e jovens
com carácter de permanência prolongada, têm de estar preparadas
para esta situação, pois vão ter de lhes dar a necessária estabilidade,
tendo em vista a promoção de um crescimento adequado e de uma
autonomia sustentada.
A equipa técnica desempenha um papel importante no acom-
panhamento que faz de toda a situação. Ela vai ser um pilar impor-
tante no acompanhamento da situação de autonomização do jovem,
quando chegar o momento da sua plena inserção social.
Constituiu-se também como fundamental criar uma resposta
para as crianças e jovens que se encontram em situação de adop-
tabilidade, mas que pelas suas características, nomeadamente,
idade, situação de saúde, défice cognitivo ou etnia, não têm famí-
lias disponíveis que as desejem adoptar. Estas crianças e jovens têm

266
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

todo o direito a viver numa família e deixar de viver numa institui-


ção. Em Portugal sabemos que existe um conjunto significativo de
crianças nesta situação. Não têm qualquer vínculo com a família
biológica, estão em situação de poderem ser adoptadas, desejam ser
adoptadas e viver em família, mas, como não existem famílias que
as pretendam adoptar, acabam por viver em instituição, com todas
as consequências menos positivas que a vivência institucional pode
trazer ao seu desenvolvimento.
Para estas crianças é desejável a criação de um programa de aco-
lhimento familiar adequado às suas circunstâncias. Esta modalidade
de acolhimento implica sempre um rigoroso processo de selecção,
formação e de acompanhamento sistemático da família e da criança
ou do jovem, até à maioridade. Devido às características apresen-
tadas pela população-alvo, também o processo de selecção destas
famílias, bem como a sua formação, tem de ser adaptada às neces-
sidades que estas crianças apresentam, pois as famílias de acolhi-
mento que as vão integrar têm de saber como lidar com a situação.
Trata-se de crianças que não têm relação com a família biológica,
muitas delas com longos períodos de institucionalização e que vivem
na expectativa de poderem ter uma família, situação que, por demora
a ser concretizada, lhes provoca muitas vezes grande sentimento de
rejeição, abandono, baixa auto-estima e desconfiança. Têm, com fre-
quência, receio de se vincularem para não sofrerem com a separação,
pelo que as famílias que se candidatam a prestar este tipo de acolhi-
mento, durante todo o processo de selecção devem ser confrontadas
com esta realidade, pois, só tendo conhecimento das circunstâncias,
poderão em conjunto com a equipa técnica delinear estratégias que
lhes permitam garantir o acolhimento familiar com sucesso e, final-
mente, a criança pode encontrar nesta família uma situação de esta-
bilidade, afecto e segurança, promotora do seu bem-estar.
O modelo aqui preconizado funcionaria como uma variante às
famílias de acolhimento, destinado a crianças ou jovens em situa-
ção de adoptabilidade, mas para os quais não se vislumbra a pos-
sibilidade de adopção pelos constrangimentos já identificados,

267
ACREDITAR NO FUTURO

distinguindo-se do modelo de «apadrinhamento civil» pela natu-


reza do apoio e do acompanhamento a que estaria sujeito.
Famílias de acolhimento para situações de emergência – são
famílias seleccionadas para acolherem, por um período muito curto
de tempo, uma criança que está em perigo e que tem de ser afas-
tada dos pais. Estas crianças, quando vão para estas famílias, ainda
não têm um diagnóstico feito, pelo que, no máximo, só aí pode-
rão ficar 90 dias aproximadamente. Findo este prazo, o diagnós-
tico tem de estar concluído para que a criança possa passar para
uma situação mais estável, ou possa regressar à sua família. Pode ser
um programa muito interessante para algumas crianças que aguar-
dam prazos legais para serem adoptadas, enquanto as mães ou os
pais aguardam o prazo instituído legalmente para prestarem o con-
sentimento para adopção, evitando, assim, que a criança seja ins-
titucionalizada, ou para situações em que as crianças têm de ser
separadas da família, por hospitalização, ou outra situação transi-
tória de impossibilidade dos pais ou da família alargada.
Este programa destina-se a crianças mais pequenas, evitando que
as mesmas ingressem no acolhimento residencial, proporcionan-
do-lhes assim vivências mais normalizadas, recebendo os cuidados,
a atenção e a estimulação que a vivência familiar com qualidade
pode proporcionar a uma criança.
Também aqui o processo de selecção, formação e acompa-
nhamento tem de ter especificidades, tendo em consideração as
características desta resposta. Este tipo de acolhimento, porque
é particularmente adequado a crianças muito pequenas, nomea-
damente bebés, pode levar a que as famílias se afeiçoem rapida-
mente a elas, pelo que têm de ser devidamente preparadas, devendo
mesmo assumir um compromisso, isto é, garantirem que não cons-
tituirão nenhum entrave à concretização do projecto de vida deli-
neado para aquela criança, constituindo-se até como um elemento
facilitador, e que nunca poderão ficar com a criança mais tempo
do que o acordado com a equipa técnica, o que não deve ultrapas-
sar os 90 dias.

268
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

Esta modalidade de acolhimento deverá ter uma remune-


ração acrescida, pois a família deverá estar totalmente disponí-
vel para a criança, o mesmo será dizer a exercer esta função em
exclusividade.

Para se desenvolver um projecto de acolhimento familiar, há que


começar por lançar uma campanha para obter candidaturas para
famílias de acolhimento. Ainda seguindo a perspectiva apontada
por Amorós e Palácios, as campanhas têm de ser devidamente pla-
nificadas e adequadas ao objectivo que pretendemos atingir:
– identificando a modalidade de acolhimento que se preten-
de desenvolver;
– tendo em consideração as características da população-alvo
à qual é dirigida a campanha;
– tendo em conta quer os motivos pelos quais as famílias se
candidatam a ser famílias de acolhimento, quer os factores
que podem dificultar essa tomada de decisão;
– tendo em consideração a mensagem que queremos trans-
mitir;
– planeando os meios e recursos que se vão utilizar;
– tendo de estar preparados para corresponder com celerida-
de aos resultados da campanha.

Como objectivo da campanha de captação dirigida a poten-


ciais famílias de acolhimento, salientamos a necessidade de sen-
sibilizar a sociedade, dando-lhe a conhecer as necessidades que
as crianças têm quando se encontram numa situação de des-
protecção. Pretende-se assim, levar a sociedade a compreender
como é importante as crianças serem inseridas em famílias que
lhes proporcionem o apoio e a ajuda necessários para que pos-
sam suprir as dificuldades que apresentam fruto de vivências
traumáticas, valorizando essa atitude de solidariedade e sentido

269
ACREDITAR NO FUTURO

cívico. Outro objectivo a ter em conta e que é importante numa


campanha desta natureza, é captar famílias que estejam motivadas
e que mostrem as atitudes e competências adequadas para assumir
um conjunto de direitos e deveres que implicam o acolhimento.
Segundo alguns estudos realizados em países anglo-saxónicos
que têm tradição neste tipo de resposta, um dos elementos-chave na
campanha de captação é a participação activa de famílias de acolhi-
mento na mesma, pois dá credibilidade ao processo (Amorós, Pere
e Palácios, Jesus, 2004).
Como Portugal não tem uma imagem valorizada deste tipo de
resposta, nem uma rede qualificada de famílias de acolhimento, a
sociedade em geral conhece pouco este recurso, ou tem uma opi-
nião pouco favorável sobre ele, as campanhas têm de ser feitas de
modo a informar bem a população sobre este tipo de resposta e,
simultaneamente, dar uma imagem de inovação e de investimento
na qualificação do acolhimento familiar, de forma a promover e a
estimular as pessoas a aderirem ao mesmo.

As campanhas de captação implicam que a entidade que as pro-


move tenha recursos financeiros e humanos, pois vai ser necessário
dar seguimento, com celeridade, às candidaturas das famílias que
se propõem a famílias de acolhimento, o que obriga a que se realize
todo um processo de avaliação rigoroso e de formação das famílias
candidatas, pois é importante proporcionar-lhes:
– Uma formação com qualidade e muito focalizada nas suas
reais necessidades.
– Incrementar um plano de acompanhamento sistemático e
com grande proximidade e disponibilidade por parte da
equipa que vai fazer o acompanhamento da situação.
– Dar respostas rápidas e adequadas aos problemas com que
estas famílias se debatem no quotidiano.
– Promover uma retribuição económica adequada e um reco-
nhecimento social do seu trabalho.

270
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

Para se promover um acolhimento familiar de qualidade é tam-


bém fundamental que os próprios técnicos intervenientes no pro-
cesso de avaliação, formação e acompanhamento das situações de
crianças inseridas nesta resposta, sejam eles próprios objecto de for-
mação adequada e de supervisão técnica.

Intervenção em Contexto Residencial


Dar uma resposta adequada às necessidades de cada criança

Também a intervenção em contexto residencial tem de ser estru-


turada de forma a dar resposta adequada em função das necessida-
des de cada criança ou jovem que necessita deste tipo de resposta.
O acolhimento em contexto residencial é uma medida de pro-
tecção destinada a todas as crianças e jovens que necessitam de
ser retirados do seu contexto familiar e, através da qual, se lhes
proporciona um local de residência onde vejam satisfeitas as suas
necessidades, nomeadamente de educação integral, protecção e
desenvolvimento. Assenta em duas características fundamentais:
a protecção que disponibiliza à criança ou jovem que necessita de
integrar este recurso, como um contexto substitutivo ao seu con-
texto familiar, e a temporalidade, uma vez que esta medida de pro-
tecção tem de ser sempre enquadrada no tempo de intervenção, daí
o seu carácter temporário.
Há que ter em conta toda a evolução que este tipo de resposta
teve ao longo do tempo, assim como a modificação das caracterís-
ticas da população-alvo a que se destina.

Acreditamos que o caminho passa por poder proporcionar a


essas crianças e jovens estruturas residenciais assentes num modelo
familiar de dimensões mais reduzidas, com equipas técnico-educa-
tivas bem dimensionadas face ao número de crianças acolhidas, e
aberto à comunidade onde está inserido.

271
ACREDITAR NO FUTURO

Contudo, face às mudanças verificadas na população-alvo que se


encontra acolhida, sente-se a necessidade de conceber um modelo
especializado, que dê uma resposta eficaz às diferentes necessidades
que as crianças e os jovens apresentam, que pelas suas característi-
cas e especificidades precisam de estruturas onde lhes seja possível
reparar as sequelas deixadas pelas situações traumáticas que viven-
ciaram, e que muitas vezes se traduzem em movimentos de grande
revolta e agressividade, muitas das quais apresentam graves proble-
mas ao nível da saúde mental.
Assim, há que construir um percurso onde o acolhimento em
contexto residencial tenha várias funções, estando estas devida-
mente enquadradas no sistema de protecção, com modelos de
intervenção distintos que dêem a necessária resposta às diferentes
necessidades apresentadas pelas crianças e jovens que integram o
sistema, assim como pessoal qualificado e especializado para reali-
zar a intervenção.

Dentro da medida de acolhimento residencial consideramos


o acolhimento regular e nele preconizamos:
– casas de acolhimento de emergência;
– casas de acolhimento para promoção da família;
– casas de acolhimento para promoção da autonomia;
– apartamentos de autonomização.

No Modelo de acolhimento terapêutico-educativo que se des-


tina a jovens que manifestem perturbações ao nível do comporta-
mento, nomeadamente comportamentos de desajustamento social,
com perturbações graves ao nível da saúde mental e com deficiên-
cia mental profunda:
– casas de acolhimento para promoção da socialização;
– casas de acolhimento para jovens em perigo e com proble-
mas graves de saúde mental;

272
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

– casas de acolhimento para jovens em perigo e com defi-


ciência mental.

Casas de acolhimento de emergência

São casas de acolhimento, que se destinam a acolher jovens a


partir dos 12 anos que se encontram em situação de perigo imi-
nente, numa situação de total desprotecção, em que se requer uma
intervenção imediata. Pode acontecer que esta situação seja com-
pletamente desconhecida dos serviços e, portanto, não traz à par-
tida qualquer diagnóstico. São, por vezes, jovens encontrados em
situação de completa negligência, entregues a si próprios.
Assim, há que acolher o jovem, retirando-o da situação de perigo
onde se encontra, promovendo de imediato uma avaliação diagnós-
tica com celeridade e rigor para que ele possa, no mais curto espaço
de tempo (não deverá exceder os 60 dias), ser encaminhado para a
resposta social que melhor se adeqúe às suas necessidades reais, sejam
elas o regresso à sua família, a integração em casa de acolhimento
para promoção da socialização, ou admissão numa casa de acolhi-
mento vocacionada para trabalhar o processo de autonomização.
Estas casas de acolhimento têm como principal objectivo efec-
tuar uma avaliação rigorosa da situação do jovem na sua globali-
dade, encontrar-lhe uma solução estável de forma a que ele se sinta
protegido e seguro e vá adquirindo regras e interiorizando rotinas
que serão, com certeza, estruturantes e contentoras. Não devem
acolher mais do que doze jovens, sempre com idade superior a
12 anos, e nunca com idades muito distintas. Devem ter equipas
dimensionadas, tendo em consideração não só o número de crian-
ças ou jovens que acolhem, mas também as características da popu-
lação para as quais estão vocacionadas.
Com o aperfeiçoar do sistema de protecção é expectável que os
casos de jovens em situação de emergência diminua, pois, à medida
que a intervenção precoce e que a intervenção junto das famílias se

273
ACREDITAR NO FUTURO

for realizando com mais consistência e de uma forma mais sistemá-


tica, com a maior participação e envolvimento de todos os parceiros
da rede social e comunitária no sistema de promoção e protecção,
possivelmente estas situações serão detectadas e intervencionadas,
podendo muitas delas ser resolvidas sem se ter de recorrer a esta res-
posta social.

Casas de acolhimento para promoção da família

Estas casas de acolhimento destinam-se a proteger as crianças


que se encontram em perigo, preferencialmente entre os 3 e os 11
anos, pois as crianças com menos de 3 anos deveriam ser acolhidas
em famílias de acolhimento devidamente seleccionadas e acompa-
nhadas nos moldes que propusemos anteriormente.
Contudo, sabemos que Portugal está longe de conseguir, num
curto espaço de tempo, lançar e operacionalizar um programa de
famílias de acolhimento que possa dar uma resposta adequada às
necessidades de acolhimento para as crianças que precisam de ser
acolhidas nesta faixa etária (dos 0 aos 3 anos). Sabemos também
que as famílias biológicas têm de ser trabalhadas para aceitarem
este recurso e que todo esse trabalho vai levar algum tempo a ser
concretizado. Uma mudança devidamente sustentada demorará a
consolidar.
Assim, preconizamos que estas casas de acolhimento deveriam
acolher, em simultâneo, no máximo 12 crianças, de ambos os sexos,
com uma equipa técnico-educativa devidamente dimensionada,
tendo em consideração as características das faixas etárias das crian-
ças acolhidas. Os elementos da equipa deverão ser devidamente
seleccionados e especializados para trabalhar nesta área.

Se optarmos pela classificação por escalões etários em conjuga-


ção com tipologia de problemáticas/necessidades, teremos casas
de acolhimento para promoção da família para crianças entre os

274
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

0 e os 3 anos, entre os 4 e os 7 anos, e finalmente entre os 8 e os


11 anos.
Consideramos que será benéfico para a criança estar acolhida
com outras da sua idade, podendo, assim, cada casa desenvol-
ver dinâmicas próprias, ajustadas às características e adequadas às
necessidades apresentadas pela população-alvo.
É necessário garantir que o ambiente dentro da casa de acolhi-
mento se aproxima do clima familiar, sendo, por isso, indispensável
um rácio adulto/criança adequado, no pressuposto de uma rotati-
vidade de pessoal tão baixa quanto possível. A criança necessita de
um «constante e ininterrupto relacionamento de afecto e estímulo»
por parte de um adulto (Goldstein, 1987), o que logicamente vai
para além das condições de segurança e de protecção inerentes ao
seu bem-estar físico.
Também o espaço físico, em si, é um factor fundamental para
as boas práticas. O conforto, o espaço e a sua personalização são
factores fundamentais para que uma criança sinta a casa de acolhi-
mento como sua.
A promoção de um ambiente afectivo e humanizado, implicará
um trabalho prévio com as outras crianças que aí se encontram aco-
lhidas, pois é necessário prepará-las para a chegada da criança, no
sentido de facilitar o seu papel como pares na sua recepção.

Quando se procede ao acolhimento de uma criança, há que dar


tempo para que esta se integre no novo espaço, e é fundamental que
encontre um ambiente acolhedor, para que a criança se sinta per-
tença daquela casa e não mais um elemento entre outros.
A chegada da criança implica também um reajuste para a equipa
técnico-educativa, que deverá ter uma atitude de total disponibili-
dade para com ela.
Os adultos que trabalham nestas casas de acolhimento devem
estabelecer relações próximas e continuadas, acompanhando a
vida da criança. Devem promover rotinas securizantes e centrar

275
ACREDITAR NO FUTURO

a sua actuação ao nível dos afectos, para que cada criança venha a
estabelecer relações individualizadas e privilegiadas.
Estas relações, providas de afecto, permitem que a criança esta-
beleça uma relação de empatia com determinado adulto que,
espontânea e progressivamente, se torna um elemento de referência
para a criança. Este elemento deve apresentar-se como um modelo
relacional de qualidade, ajudando a criança a reparar as relações
disfuncionais a que esteve sujeita e a integrar uma forma de estar
saudável e equilibrada.
A criança desenvolve, através das interacções com as pessoas que
lhe prestam cuidados, modelos internos de vinculação, ou seja, «um
conjunto de conhecimentos e expectativas sobre o modo como essas
figuras respondem aos seus pedidos de ajuda e de protecção [...] e
sobre o “self ”, em termos do seu valor próprio» (Soares 2001).
A criança aprende por modelagem, imitando e interiorizando
atitudes, valores e formas culturais de afecto e de pensamento que
observa nos adultos que lhe estão próximos e dela cuidam. As figu-
ras de vinculação são essenciais na mediatização que a criança faz
dos estímulos, das condutas e dos seus contextos de vida. As crian-
ças vão interiorizando progressivamente a cultura, as normas, os
valores e os afectos, quando um adulto está disponível para as aju-
dar a pensar e a perceber as situações que as rodeiam.
A relação que se desenvolve entre a criança e o adulto deve ser
reparadora e construtiva. A eficácia deste processo implica que se
consiga fazer o luto das vivências negativas que sofreu, anteriores
ao acolhimento, ou mesmo derivadas da situação traumática provo-
cada pelo afastamento dos adultos que dela cuidavam.
Paralelamente temos ainda a considerar a dificuldade que mui-
tas crianças apresentam, quer em se reportarem às suas origens, quer
em perspectivarem o futuro. As origens são muitas vezes sentidas de
forma idealizada ou, em alternativa, de forma muito real com muita
angústia, recordando as situações de maus-tratos e negligência. No
que diz respeito ao futuro, devido aos comprometimentos afectivos
e emocionais, existe uma incerteza sobre o que irá acontecer.

276
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

A vinculação que se estabelece na relação com os adultos da casa


de acolhimento deve permitir também o movimento de separação,
ou seja, quando chega a hora de o adulto ou a criança sairem da
casa, a criança deverá saber que permanece na memória afectiva do
adulto e vice-versa.
Os adultos da casa de acolhimento devem ser capazes de obser-
var e identificar as características e os sinais que as crianças apresen-
tam, respondendo assim às suas necessidades específicas.
Estas casas de acolhimento deverão ser locais que proporcionem
a protecção de que a criança necessita, onde possa ter uma educa-
ção adequada e condições que lhe proporcionem um desenvolvi-
mento integral.
As crianças que aí se encontram acolhidas devem beneficiar dos
recursos existentes na comunidade envolvente (jardins-de-infân-
cia, escola, centros de saúde), bem como participar em actividades
lúdico-pedagógicas (clubes recreativos, parques infantis, piscinas)
adequadas à sua faixa etária, numa perspectiva de normalização da
sua vida.
Nas casas de acolhimento deverão ser trabalhados programas
de retorno à família, pois esta é sempre a primeira hipótese que se
deve colocar.
É importante ter em consideração o diagnóstico efectuado pela
equipa que acompanhou a situação antes da retirada da criança,
pois pode contribuir para uma definição mais célere do seu pro-
jecto de vida.
Durante a sua estada, a criança e a família deverão ser sujeitas a
programas que visem a reunificação familiar, isto para que a criança
permaneça o menos tempo possível afastada do seu contexto fami-
liar sendo, para tal, necessário capacitar os pais para que exerçam
adequadamente o seu papel parental.
Constituiu-se como fundamental que a equipa técnico-educa-
tiva da casa de acolhimento continue a acompanhar esta situação
(consideramos como indicador o período de 18 meses), quando a
criança regressar novamente à sua família, para que possa continuar

277
ACREDITAR NO FUTURO

a ajudar os pais e a criança a reparar situações e vivências caracte-


rísticas da situação de perigo experienciada pela criança, bem como
para serem minimizadas situações de perigo que podem ser recor-
rentes, ou detectadas atempadamente, provocando assim situações
menos constrangedoras para a criança.

Para situações de crianças cujo projecto de vida passe pela rein-


tegração familiar, ou pela sua integração no contexto da sua famí-
lia alargada, o trabalho a promover com a família é fundamental,
devendo ser desenvolvido pela equipa do lar em parceria com outros
elementos de outra equipa que também seja necessário manter-se na
intervenção, mas tendo em consideração o princípio da intervenção
mínima, pois não podemos continuar a trabalhar com as famílias de
uma forma intrusiva e pouco planificada. Assim, a intervenção deve
ser planificada, operacionalizada e avaliada periodicamente.
A criança deve então ser acolhida e manter-se nessa casa de aco-
lhimento, sendo assim possível que se consiga referenciar a um
adulto cuidador, que lhe presta uma atenção individualizada, sem
ter de mudar para outra casa, fazendo novas rupturas e acentuando
a patologia do vínculo.
O seu projecto de vida deve ser delineado de acordo com a ava-
liação diagnóstica feita antes da sua admissão na casa de acolhi-
mento, em conjugação com os novos dados que vão surgindo. O
plano de intervenção, traçado para a criança e família, deve ser ope-
racionalizado e concretizado ainda durante a sua estada, uma vez
que a equipa da casa é responsável pela sua concepção assim como
pela sua operacionalização e acompanhamento, quer enquanto a
criança se mantém acolhida, quer quando é reintegrada na família.

Também as crianças que tiverem prognóstico de encaminha-


mento para família alternativa, nomeadamente de adopção, pode-
rão ser acolhidas nesta modalidade de casa de acolhimento, pois
afastadas que estão todas as hipóteses de uma reintegração familiar
a intervenção deverá ser direccionada no sentido de conseguir que

278
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

estas crianças possam vir a ter uma família, nomeadamente uma


família adoptiva.
O objectivo desta casa de acolhimento será sempre conseguir que
as crianças que acolhe permaneçam apenas o tempo suficiente para
concretizarem o seu projecto de vida, que deverá passar pela integra-
ção em contexto familiar, o seu de origem, se possível, ou em alter-
nativa, numa família adoptiva que a proteja, ame e lhe proporcione a
estabilidade necessária a um desenvolvimento integral e harmonioso.
Como indicadores para ingressar numa casa de acolhimento
com estas características, salientamos:

Prognóstico de reunificação familiar


– A criança ter pelo menos, na sua família nuclear ou alarga-
da, um familiar que demonstre capacidade e vontade para
exercer, de uma forma adequada, a função parental.
– Seja previsível corrigir a situação de maus-tratos ou ne-
gligência de que foi vítima, podendo esta situação ser
resolvida se os pais ou familiares aderirem, de acordo com a
problemática apresentada, a um tratamento médico (alcoo-
lismo ou toxicodependência) ou a um programa de desen-
volvimento de competências parentais que lhe permitam
vir a exercer a função parental de forma adequada.
– A criança ter uma relação de vinculação e afecto com os
pais ou adultos cuidadores que possa vir a ser restabelecida.

Prognóstico de adopção
– Criança sem qualquer vinculação aos pais ou adulto cui-
dador.
– Criança abandonada, ou sem família que demonstre um
verdadeiro interesse em assumi-la.
– Criança cujos pais prestaram consentimento prévio para
adopção.

279
ACREDITAR NO FUTURO

– Criança que foi sujeita a negligência e maus-tratos tão gra-


ves que esteja inviabilizada de forma irreversível a sua rela-
ção com a família.
– As famílias já usufruíram de um programa de intervenção
antes da entrada da criança e recusaram a ajuda que lhes
foi prestada, considerando que não necessitam de efectuar
qualquer mudança nas suas atitudes ou comportamentos.

A intervenção neste tipo de casa de acolhimento não deverá


estender-se por períodos superiores a dois anos, tempo que consi-
deramos suficiente, quer para trabalhar um processo sustentado de
retorno à sua família, quer para trabalhar uma situação em que a
criança possa ser integrada numa nova família. A criança só sairá
da casa de acolhimento onde está integrada quando tiver concreti-
zado o seu projecto de vida.
Este aspecto remete-nos para a saída, e para a preparação da
criança para transitar da casa de acolhimento para a família de ori-
gem, ou para uma família alternativa.
Importa cuidar da desvinculação e de novas vinculações, sendo
este processo dinâmico por vezes altamente complexo. A disponibi-
lidade da casa de acolhimento para acolher e para apoiar a criança
na concretização do seu projecto de vida deverá estar garantida.

Casas de acolhimento para promoção da autonomia

Estas casas de acolhimento destinam-se a jovens com mais de


12 anos, que necessitam de um local de acolhimento alternativo à
família, onde se possa reproduzir um ambiente similar à vivência
familiar.
As casas de acolhimento para este tipo de população-alvo devem ser
entendidas enquanto comunidades de crescimento. Os jovens que são
acolhidos transportam histórias de vida e um conjunto de experiên-
cias, muitas vezes pouco organizadas, que precisam de ser elaboradas.

280
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

O trabalho terapêutico a desenvolver com estes jovens é feito


nos espaços de convívio, bem como em todas as interacções adulto/
/jovem, uma vez que, independentemente do papel técnico de cada
adulto, está subjacente a função educativa e a prestação de uma
atenção individualizada.
Os jovens mantêm consigo todas as memórias e experiências
vividas, bem como os seus sonhos. Tendo por base estas vivências, e
durante o seu período de acolhimento, existe um processo de trans-
ferência. Isto significa que todas as suas vivências transitam para o
novo espaço físico e também para as novas relações.
O que se espera dos adultos que integram a equipa da casa de
acolhimento é que criem um sistema familiar que pense o jovem
e as suas emoções, ensinando-o, em seguida, a pensar por ele pró-
prio. É importante que o jovem aprenda a pensar, a tomar decisões,
a tomar o rumo da sua vida, pois muitas vezes está habituado a que
outros o façam por si. Este sistema passa por gerar amor, promover
esperança e disponibilizar contenção (Meltzer, 1980).
O jovem desenvolve, assim, através de interacções com os
adultos cuidadores, modelos internos de vinculação, pois todos
os adultos que trabalham na casa de acolhimento, independen-
temente da sua função e formação, devem constituir-se como
modelos a seguir. Daí a importância de uma selecção criteriosa e
exigente do pessoal que aí exerce funções.
Nesta idade o grupo de pares tem muita relevância, pois os ami-
gos são fundamentais ao equilíbrio emocional e constituem um
elemento essencial no processo crescente de socialização. O movi-
mento identitário alicerça-se na interacção com os pares. Existe
entre o grupo de jovens a partilha de experiências, a superação de
dúvidas e os segredos.
É importante que o jovem se sinta confortável para convidar os
amigos para estarem consigo em sua casa, que possa planear saí-
das, participar em festas e disponibilizar o espaço da casa de aco-
lhimento como sendo a sua casa, podendo o grupo aí reunir-se,
nomeadamente para realizar trabalhos escolares. Estas experiências

281
ACREDITAR NO FUTURO

constituem-se como essenciais para o ajuste ou aproximação ao


padrão normalizante. É fundamental que o adulto de referência,
assim como a restante equipa, demonstre disponibilidade para aco-
lher e conhecer os amigos do jovem.
A existência de outros jovens do mesmo grupo etário e do mesmo
sexo são factores importantes para uma boa integração na casa de
acolhimento e para um desenvolvimento integral harmonioso.
A existência de casas de acolhimento mistas favorece a integra-
ção afectiva e sexual dos jovens, devendo sempre preservar-se as
noções de intimidade e de privacidade, bem como o respeito pelos
laços familiares (no caso de existirem irmãos acolhidos).
A promoção de um processo de autonomização constitui-se
como fundamental para estes jovens.
São diversos os obstáculos que se interpõem no caminho da
plena autonomia, como, por exemplo, as experiências de separação
e perda e as suas consequências, maus-tratos, baixa auto-estima, os
frequentes défices ao nível das competências de relação interpessoal
e do rendimento escolar.
Tendo em consideração que falamos de jovens integrados em
contexto residencial, estes terão de conseguir a sua autonomia com
uma idade muito inferior ao que é geralmente habitual na socie-
dade, factor que é acrescido de necessidades muito complexas,
quer ao nível de défices em áreas importantes, quer ao nível do
seu sistema de apoio social e familiar. Assim, o trabalho de treino
de autonomia deverá ser iniciado o mais precocemente possível,
assumindo uma importância vital, pois por muitos recursos que
possam existir posteriormente, o seu sucesso depende de todo o
trabalho feito, e que foi sendo integrado progressivamente pelo
jovem, permitindo-lhe ao longo do seu período de acolhimento
ir adquirindo novas competências potenciadoras de uma autono-
mia plena.
O trabalho a desenvolver com o jovem para aquisição de autono-
mia, assim como alguns programas desenhados para a sua promoção,
estão já descritos no capítulo 4 – projectos de vida.

282
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

É necessário um trabalho contínuo, a desenvolver nas casas de


acolhimento, para promoção de autonomia, que dinamize as com-
petências essenciais para a mesma, nomeadamente, estimular rela-
ções com amigos e pessoas gratificantes e significativas. Tudo isto
passa por preparar o jovem para a criação e manutenção de relações
positivas com os outros, promover experiências na comunidade e a
sua participação nelas, transmitir ao jovem responsabilidade sobre
as várias áreas do seu quotidiano, habilitá-lo para dar resposta às
suas necessidades, ensinar conhecimentos e estratégias para a ges-
tão de questões funcionais, etc.
As possibilidades de ensinar competências estão presentes no
dia-a-dia do trabalho desenvolvido na casa de acolhimento e vão
desde a aprendizagem feita pelo cumprimento das rotinas ao tra-
balho feito especificamente para treino de competências pessoais e
sociais e às reuniões de grupo de jovens.
As áreas a trabalhar referem-se a dois campos distintos, que
se complementam: autonomia pessoal e relacional e autonomia
funcional.

Ao nível da autonomia pessoal e relacional enquadram-se as


competências necessárias ao relacionamento interpessoal: comuni-
car eficazmente, saber como iniciar, manter e terminar uma relação,
dar e pedir ajuda, resolver conflitos, ter autoconfiança, ser assertivo,
saber estar em grupo, expressar sentimentos de forma construtiva,
saber influir nas pessoas e no meio, saber pensar e resolver problemas
de maneira construtiva, estabelecer e alcançar metas e gerir emoções.

Ao nível da autonomia funcional, enquadram-se as competên-


cias necessárias para a vida em geral, na gestão do quotidiano: saber
ler correctamente, saber procurar informação e recursos, saber uti-
lizar o tempo de uma forma eficaz, descobrir interesses e activida-
des de lazer, valores e crenças, saber criar e manter o bem-estar físico
e responsabilizar-se pela sua sexualidade. Sublinha-se ainda neste
âmbito face à sua importância, as competências relacionadas com

283
ACREDITAR NO FUTURO

saber gerir o dinheiro, aprender a cozinhar, lavar, limpar e organi-


zar os espaços e pertences.
É fundamental que neste trabalho de promoção de autonomia
se implique progressivamente o jovem em processos de tomada de
decisão, de assunção de responsabilidade e capacidade de decisão
sobre a sua própria vida.

É importante envolver a família nos planos de autonomia sem-


pre que haja um relacionamento minimamente saudável, assim
como as pessoas que, para o jovem, são significativas. O jovem deve
tomar consciência das limitações dos seus familiares e não criar
expectativas irreais e, consequentemente, sentir a necessidade de
programar a sua autonomização sustentada, não contando, para tal,
com um apoio efectivo por parte da família de origem quando este,
na prática, não tem condições de efectivação. Mais do que o apoio
efectivo, a manutenção destes laços configuram um sentimento de
pertença, que funciona mais como ligação emocional do que como
suporte familiar.
É também muito importante promover o fortalecimento das
redes de apoio social e comunitário, pois são essenciais quando se
verifica a saída definitiva do acolhimento.
Ao longo do tempo de acolhimento é importante que o jovem,
em estreita colaboração com o adulto de referência, construa a sua
história de vida, para que fique na posse de todos os aspectos impor-
tantes da sua existência.
É também fundamental que o jovem se integre num equipa-
mento escolar ou de formação profissional, consoante a sua idade,
capacidade e desejo. O jovem necessita de um acompanhamento
muito próximo e sistemático que lhe possibilite a organização
e a interiorização de estratégias face à escolaridade. Independen-
temente da escolaridade em questão, colocam-se neste processo,
com recorrência assinalável, dois obstáculos: o défice cognitivo
e a instabilidade afectiva. Ambos têm de ser trabalhados com estes
jovens, recorrendo a recursos internos, nomeadamente atenção

284
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

e acompanhamento individualizados a realizar pela equipa da casa


de acolhimento, e também a recursos externos, pois muitos destes
jovens necessitam de acompanhamento ao nível da saúde mental.

O modelo a consolidar deverá ser um modelo «terapêutico de


intervenção» compreensivo/reconstrutivo. Por terapêutico enten-
de-se a própria organização do espaço físico, que deve ser acolhe-
dor e respeitador de quem lá vive, implicando também a ideia da
casa de acolhimento como próxima de um modelo de unidade
familiar, com um número adequado de jovens por adulto, suscep-
tível de favorecer a vinculação afectiva e a emergência de relações de
confiança recíprocas.
Assim, o acolhimento em contexto residencial deverá represen-
tar um espaço seguro, onde o jovem possa partilhar experiências
gratificantes, de forma a adquirir referências para a vida, que o aju-
dem a desenvolver competências, respeitando a sua identidade com
vista a uma progressiva autonomização.

Apartamentos de autonomização

O apartamento de autonomização é uma resposta de acolhi-


mento criada para fazer face às necessidades apresentadas pelos
jovens com medida de promoção e protecção de acolhimento insti-
tucional, cuja reintegração no meio familiar de origem não foi pos-
sível, e que indiciem a indispensável capacidade de autonomização.
Assim, há que preparar os jovens que viveram anos em contexto
residencial para um processo de autonomização progressivo e susten-
tado, proporcionando-lhes experiências e instrumentos que permi-
tam o desenvolvimento das competências necessárias para a inserção
na vida activa, combatendo o risco de exclusão social futura.
O apartamento, sendo uma estrutura física autónoma, poderá
também estar ligado funcionalmente a uma casa de acolhimento
para a promoção da autonomia.

285
ACREDITAR NO FUTURO

A capacidade do apartamento deverá ser, em regra, para três a


cinco jovens. Nele poderão ser admitidos jovens com mais de 16
anos, embora consideremos que é difícil um jovem de 16 anos
possuir a maturidade necessária e indispensável para integrar uma
estrutura com estas características, pois vai ser uma casa a ser gerida
pelos residentes, sem a presença permanente de um adulto.
É necessário que o jovem possua motivação e capacidades cogni-
tivas e emocionais que lhe permitam, de maneira mais concertada,
poder vir a rentabilizar estas estruturas com vista à sua futura auto-
nomização plena. Devem estar integrados em estruturas de ensino,
de formação profissional ou, então, a desenvolver uma actividade
profissional, mas sem rendimentos suficientes para a assunção de
todas as despesas necessárias para uma vida independente.

Como objectivos específicos desta resposta, salientamos:


– Proporcionar aos jovens, tendo em conta a sua evolução
e necessidades específicas, uma transição adequada para a
vida social autónoma, através de um processo de formação
e acompanhamento pessoal continuado.
– Promover a definição de um Plano de Autonomização, para
cada jovem, sujeito a uma avaliação periódica pelo próprio
e pelo técnico responsável.
– Privilegiar a interacção com a família e com a comunidade,
no sentido da respectiva integração social.
– Prestar apoio na progressão escolar, na formação profissio-
nal, no acesso ao mercado normal de trabalho e à habitação.

O apartamento de autonomização deve estar implementado


numa área residencial, com fácil acesso à rede de transportes e ser-
viços. Deve ser mobilado à semelhança de uma casa de habitação,
onde, de preferência, cada jovem deverá ter o seu quarto indi-
vidual e ser responsável por adequar o espaço individual do seu
quarto às suas necessidades e gostos pessoais, tendo sempre em

286
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

consideração o respeito pelos companheiros com quem vai parti-


lhar o apartamento.
As tarefas necessárias à manutenção e funcionamento, nomeada-
mente tarefas de limpeza, arrumação, alimentação e gestão domés-
tica são da responsabilidade dos jovens que vivem no apartamento,
com acompanhamento e supervisão do técnico responsável pelo
acompanhamento dos jovens aí integrados.
O apartamento de autonomização é apoiado no seu funciona-
mento por uma equipa multidisciplinar constituída por técnicos
das valências de educação social, serviço social e psicologia. Um dos
técnicos será o responsável pelo acompanhamento desta resposta
social. Os outros dois técnicos, que efectuam também o acompa-
nhamento desta resposta social, necessitam apenas da afectação de
algumas horas semanais para trabalho específico com os jovens e
reunião mensal de toda a equipa para planeamento e avaliação, rea-
lizada conjuntamente com os jovens.
Cabe ao técnico responsável pela resposta acompanhar os
jovens, devendo constituir-se como um modelo educativo de refe-
rência para eles. Deve apresentar especial motivação para a inter-
venção com adolescentes e jovens adultos e para a execução de
práticas educativas de promoção da autonomia, bem como perfil
adequado, com especial relevância para um forte sentido de respon-
sabilidade e disponibilidade, capacidade de liderança e mediação
de conflitos.
O acompanhamento processa-se em duas vertentes: em grupo e
individualmente com cada jovem.
O acompanhamento em grupo passa pela realização de reuniões
semanais, com a participação do grupo e com o técnico responsá-
vel, e mensais, com toda a equipa alargada e com os jovens. Este
espaço é fundamental para trabalhar a gestão e a mediação de con-
flitos, assim como efectuar a análise e planeamento das activida-
des a desenvolver no quotidiano e que dizem respeito a todo o
grupo, tais como gestão doméstica, higiene da casa, confecção de
refeições, etc. Trabalha-se ainda a importância da convivência em

287
ACREDITAR NO FUTURO

grupo, valores como a amizade, solidariedade e debatem-se temas


da actualidade pelos quais os jovens revelem interesse.
O acompanhamento individualizado é realizado pelo técnico
responsável e, em alguns momentos, pela equipa que apoia esta
resposta social. Trabalha-se com o jovem, o seu Plano de Autono-
mização, nas diferentes áreas: pessoal, social, relacional e área pro-
fissional ou educativa.
Nestes encontros vai-se fazendo o acompanhamento e avalia-
ção do plano de autonomização, identificando as competências e
os objectivos que o jovem conseguiu cumprir, assim como as áreas
de melhoria que necessita de atingir, para que este plano esteja
a ser cumprido na íntegra e o jovem se sinta apoiado e ajudado
a construir um processo de autonomização sustentado, que seja
um impulso para a concretização de uma autonomia com sucesso,
a curto prazo.

Ao nível da organização da vida residencial, cabe ao técnico


responsável:
– Orientar a integração dos jovens no apartamento, dan-
do-lhes a conhecer o seu funcionamento, assim como a
apresentação aos pares.
– Promover competências práticas de autonomia dos jovens
ao nível da alimentação, gestão doméstica, gestão monetá-
ria e gestão de tempo.
– Organizar, executar e avaliar, em parceria com os restantes
técnicos, acções de ocupação de tempos livres e de apren-
dizagem.
– Supervisionar o cumprimento das tarefas de confecção de
refeições, limpeza, arrumação e organização dos espaços
próprios e comuns.
– Realizar reuniões conjuntas semanais com os jovens e, men-
salmente, uma reunião alargada com todos os elementos da
equipa e os jovens. Estas reuniões servem para se fazer uma

288
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

avaliação contínua da forma como vai decorrendo o quoti-


diano no apartamento, identificar constrangimentos e es-
tratégias, para que, em conjunto, se alcance uma solução
para os ultrapassar.

Ao nível do desenvolvimento individual dos jovens:


– Construir, conjuntamente com o jovem, o seu plano de
autonomização, que deve conter as metas e os objectivos a
atingir, assim como a identificação das estratégias que per-
mitam a sua concretização no tempo definido, bem como
realizar o acompanhamento sistemático do processo de au-
tonomização e a respectiva avaliação.
– Promover no jovem a vontade de participar activamente no
processo de autonomização, assim como fomentar a toma-
da de decisões nesse sentido.
– Proporcionar aos jovens a satisfação das necessidades bá-
sicas e específicas em condições de vida tão próximas
quanto possível às da estrutura de suporte social informal
(família).
– Incentivar o treino de competências pessoais e sociais, pre-
parando os jovens para um futuro autónomo e responsável.
– Apoiar individualmente o jovem, com o intuito de viabi-
lizar a sua autonomização de forma gradual, ponderada e
consistente, respeitando as suas capacidades e competên-
cias, criando condições que favoreçam o desenvolvimento
da sua participação activa na sociedade, no pleno exercício
da cidadania.
– Promover a educação para a saúde.
– Promover e acompanhar a inserção profissional dos jovens.
– Fomentar a manutenção de uma rede social de suporte,
que se constitui como fundamental num processo de au-
tonomização.

289
ACREDITAR NO FUTURO

A permanência dos jovens em apartamento de autonomização


pressupõe trabalhar progressivamente todo o processo de autono-
mia, o que implica a capacitação para as novas responsabilidades
que vão assumir.
Assim, numa primeira fase, há que trabalhar a integração do
jovem no apartamento, a sua adaptação às novas rotinas, respon-
sabilidades, o relacionamento com os colegas com quem vai parti-
lhar o espaço e as tarefas do dia-a-dia. Este processo de integração
é muito exigente para os jovens, pois vêm de um espaço colectivo,
com vivências e experiência de vida bem diferentes das que irão usu-
fruir no apartamento de autonomização, onde vão gerir e ser res-
ponsáveis pelas suas atitudes e acções no dia-a-dia, o que lhes vai
permitir um espaço de crescimento e desenvolvimento de sentido
de responsabilidade e cumprimento de tarefas e acções, assim como
a convivência em grupo, sem a mediação permanente do adulto.

Num segundo tempo, passa-se à fase de consolidação que cons-


titui uma oportunidade para vivenciar novas experiências, testar
competências e tomar decisões para o futuro. Há que trabalhar e
consolidar as competências pessoais, sociais, educativas e profissio-
nais que foram aprendidas ao longo do crescimento e que irão per-
mitir que o jovem construa o seu processo de autonomia de uma
forma sustentada.

Finalmente, há que preparar a saída: o jovem, com acompanha-


mento técnico próximo, vai planear a sua saída, projectando a sua
inserção plena na sociedade. Esta fase requer a construção de um
plano de saída e acompanhamento, onde estarão identificadas as
condições que se considera fundamental ambas as partes respeita-
rem, para que o plano de autonomia se cumpra com sucesso. Nesta
fase é importante garantir ao jovem um suporte afectivo e emocio-
nal, pois a sua autonomização constitui um marco determinante na
sua vida presente e futura, nomeadamente para o percurso que vai
encetar enquanto adulto.

290
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

Acolhimento Terapêutico-Educativo
Crianças e jovens com necessidades de intervenção especializada

O perfil das crianças e jovens acolhidos em contexto residencial


tem variado consideravelmente nos últimos anos e, neste momento,
chegam aos lares crianças ou jovens com distúrbios graves da perso-
nalidade, exibindo comportamentos disruptivos, que causam situa-
ções de grande conflitualidade, quer com os adultos, quer com os
pares.
Temos, assim, jovens que apresentam:
– Problemas de comportamento graves que os colocam em
perigo, assim como colocam em perigo outras crianças ou
jovens que com eles convivem, pelo que os lares mais ade-
quados para os acolher são unidades preparadas para tra-
balharem com jovens com essas características particulares.
As equipas que integram essas unidades terão de estar quali-
ficadas e especializarem-se para trabalhar esta problemática.
Estas unidades terão sempre um carácter transitório e os jo-
vens devem permanecer aí o tempo estritamente necessário
à realização da intervenção adequada, para que possam in-
tegrar novamente a sua família, se esse for o seu projecto de
vida, ou regressar à casa de acolhimento, para trabalhar o seu
projecto de autonomia. Estas unidades não deverão ter mais
do que 12 jovens em simultâneo, para que estes possam, as-
sim, beneficiar de uma intervenção adequada à problemática
que apresentam. Considera-se que, nestas unidades, a idade
mínima de ingresso deverá ser de 12 anos.
– Problemas de saúde mental graves que acabam por impedir
que o jovem tenha um desenvolvimento integral saudável.
Assim, estes jovens devem ter a possibilidade de usufruir de
um tratamento específico e adequado aos seus problemas de
saúde, para que possam vir a integrar um equipamento regu-
lar, ou regressar às suas famílias. Estas unidades terão sempre
um carácter transitório e os jovens devem permanecer nelas

291
ACREDITAR NO FUTURO

o tempo estritamente necessário à realização do tratamento


adequado. Não deverão ter mais do que oito jovens em si-
multâneo, para que a intervenção possa ser eficaz. Conside-
ra-se que nestas unidades a idade mínima de ingresso deverá
ser de 12 anos. Deverão integrar a equipa técnica desta uni-
dade técnicos com formação específica em psicopatologia.
Nestas unidades, em que o acolhimento deve ter uma com-
ponente educativa e terapêutica de forma a promover a repa-
ração das sequelas provocadas pelas situações de negligência
e maus-tratos vivenciadas pelas crianças e pelos jovens, a in-
tervenção deve ser mais intensiva e limitada a um período de
tempo, que será delineado mediante as necessidades que cada
criança ou jovem apresente e a evolução que for registando.
– Deficiência mental grave que não permita a integração do
jovem numa casa de acolhimento regular. Nestas casas de
acolhimento as crianças ou jovens deverão encontrar um
acolhimento especializado e que lhes dê uma resposta con-
sentânea com as múltiplas necessidades que possuem, per-
mitindo-lhes um relacionamento estável com os adultos cui-
dadores. Estas unidades não deverão ter mais do que oito
jovens em simultâneo, para que estes possam, assim, bene-
ficiar de uma intervenção terapêutica adequada numa dinâ-
mica familiar. Considera-se que nestas unidades a idade mí-
nima de ingresso deverá ser os 10 anos.

As crianças ou os jovens com necessidades diferentes precisam


de ser acolhidos em lugares que lhes proporcionem a intervenção
ajustada à satisfação das mesmas, tendo em consideração as carac-
terísticas específicas apresentadas, sejam elas do âmbito da saúde
mental, comportamental ou no âmbito da deficiência.
O acolhimento em contexto residencial cumpre funções varia-
das, integradas no sistema de protecção, requerendo intervenções
especializadas, em espaços diferentes e adaptados a cada uma das
funções, tendo pessoal qualificado para promover a intervenção
adequada e necessária a cada uma das situações.

292
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

Casas de acolhimento para promoção da socialização

Esta resposta social tem por objectivo dar uma protecção efec-
tiva a jovens com mais de 12 anos, que se encontrem em situação de
perigo e que apresentem problemas ao nível da socialização, nomea-
damente inadaptação e desajuste social, que possam colocá-los em
risco, ou possam provocar danos graves, quer a si, quer a terceiros.
Estes jovens devem, assim, ser sujeitos a programas de interven-
ção que tenham como objectivo:
– Proporcionar um local seguro e protector para os adoles-
centes que sejam integrados na unidade de acolhimento.
– Realizar um trabalho intensivo e de tratamento psicológi-
co para que sejam trabalhados com os jovens os comporta-
mentos que estão na base das condutas de violência e des-
controlo.
– Oferecer actividades que se tornem estimulantes e atrac-
tivas para os adolescentes, tais como actividades manuais,
nomeadamente o trabalho em oficinas diversas, que lhes
permitam desenvolver a criatividade e a auto-estima.
– Desenvolver competências sociais e de autocontrolo que
permitam uma intervenção educativa, terapêutica e repara-
dora, realizada de forma intensiva, imediata e de curta du-
ração em que a estada do jovem nesta unidade não exceda
o período indicativo de dois anos, embora, o mesmo, deva
ser definido tendo em consideração as necessidades de cada
jovem, assim como a sua evolução.
– Potenciar ao máximo o desenvolvimento e crescimen-
to pessoal nas suas principais vertentes (desenvolvimento
emocional, identidade, comportamento, relações familia-
res e sociais, desenvolvimento cognitivo, educação, em-
prego e saúde), de forma a que a permanência na unidade
contribua para superar as alterações e o atraso no desenvol-
vimento que o jovem possa apresentar, incidindo de uma

293
ACREDITAR NO FUTURO

forma prioritária na elaboração de um projecto de vida


que dê particular atenção à sua história de vida e às difi-
culdades que apresenta para se integrar no contexto fami-
liar e social.

Estas unidades pretendem, através da sua organização e recursos


alocados, gerar um contexto protector e terapêutico, onde os jovens
possam desenvolver-se como pessoas livres e conscientes, capazes de
se relacionarem respeitando o outro. Pretendem ainda desenvolver
uma intervenção educativa, que vise o desenvolvimento de auto-
nomia pessoal e de integração social e familiar para os jovens com
comportamentos disruptivos, que colocam em risco o seu desen-
volvimento integral e a sua saúde.

Perfil da população-alvo

Os jovens que necessitam de ser acolhidos nestas unidades, apre-


sentam como característica prevalecente um crescimento sem adul-
tos que lhes servissem de modelo de referência, com os quais não
desenvolveram uma relação de afecto contínua, crescendo sem limi-
tes, normas e valores. Possuem hábitos de vida pouco saudáveis e
não tiveram a oportunidade de crescer de uma forma autónoma e
responsável.
A característica comum é a impossibilidade de manter o convívio
com os outros, dentro dos limites do socialmente aceite, seja numa
casa de acolhimento, seja na família. São jovens que, devido ao seu
comportamento reiterado e gravemente disruptivo e anti-social,
contrário às normas básicas de convivência, põem em sério risco o
seu desenvolvimento integral e a sua saúde.
Estes jovens foram sofrendo ao longo da sua vida graves pertur-
bações emocionais, muitas vezes de abandono, maus-tratos reitera-
dos e abuso, o que lhes provoca um grande sofrimento psíquico,
um sentimento de desconfiança em relação ao outro e uma incapa-
cidade de se projectarem no futuro.

294
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

São jovens que utilizam sistematicamente a agressividade, para


com as pessoas e os animais, recorrendo por vezes a armas, ou objec-
tos utilizados como tal, para praticar distúrbios, ameaças, fomentar
o medo e fazer com que outros se submetam «à sua vontade» (bully-
ing, actividade sexual forçada, etc.) sem respeito pelo outro nem
arrependimento pelo sofrimento que lhe provoca. Podemos mesmo
afirmar que não conseguem experimentar sentimentos empáticos
pelo outro.
Possuem, muitas vezes, baixa tolerância à frustração, isto é, apre-
sentam uma incapacidade para tolerar as dificuldades comuns às
pessoas que vivem em sociedade, não conseguem lidar com os pro-
blemas do dia-a-dia ou com situações onde as coisas não se reali-
zam tal como desejavam. Apresentam graves crises de irritabilidade,
agressividade e passam irreflectidamente a actos de agressão.
A unidade de acolhimento para jovens que apresentam os com-
portamentos aqui identificados constitui-se como um contexto
residencial onde se podem desenvolver programas socioeducativos
adaptados às necessidades destes jovens, que garantam a contenção
de determinadas condutas lesivas, que lhes imponham limites cla-
ros e exequíveis. Os jovens têm de aprender a controlar o seu com-
portamento agressivo e a respeitar os pares e os adultos, bem como
a compreender que todo o comportamento tem consequências.

O que se espera da equipa técnico-educativa

A equipa técnico-educativa tem de estabelecer com estes jovens


uma relação que se caracteriza pela negociação, discutindo as deci-
sões e evitando o autoritarismo, analisando minuciosamente e em
conjunto com o jovem o seu projecto de vida, criando um clima de
confiança e de respeito mútuo, de disponibilidade, de ajuda na ges-
tão das expectativas do jovem face à concretização do seu projecto de
vida, de firmeza tomando decisões de forma assertiva e transparente.
Ajudando-os a criar objectivos para a sua vida, a relação edu-
cativa implica a existência de vinculação e a capacidade de impor

295
ACREDITAR NO FUTURO

os limites. O educador deve constituir-se como referência para o


jovem, o que requer um processo de conhecimento e confiança
mútuos.
O educador deve promover com o jovem momentos de refle-
xão em conjunto, permitindo assim, através dela, que os jovens
pensem sobre os seus comportamentos, analisando-os e permi-
tindo que sejam eles a tomar uma decisão reflectida sobre a sua
própria vida. É fundamental capacitá-los para a tomada de deci-
são com vista à concretização do seu processo de autonomização
e de crescimento.
Constituiu-se também como fundamental criar um espaço de
diálogo, através do qual o educador consiga chegar ao jovem, incen-
tivando-o a utilizar a conversação de forma a organizar o seu pensa-
mento, proporcionando-lhe um espaço de expressão e estimulando
a sua capacidade de expor as suas ideias perante os outros, defen-
dendo os seus pontos de vista.

Intervenção a realizar nestas unidades

A intervenção a realizar é entendida como um trabalho conjunto


de relação entre os adultos cuidadores e os jovens que integram a
unidade de acolhimento.
A intervenção orienta-se de forma a desenvolver nos jovens
uma cultura de participação, de colaboração, de convivência em
grupo que seja conducente a uma interiorização da necessidade de
mudança dos seus comportamentos, com a consequente concreti-
zação da mesma.
Procura-se que os jovens reparem as suas referências internas,
reconstruindo-as através do processo relacional que vão estabele-
cendo com as pessoas que os rodeiam, especialmente com o adulto
que lhes serve de referência.
Tem como principal objectivo proporcionar uma interven-
ção terapêutica e educativa, promotora de autonomia pessoal,
bem como de integração social e familiar dos jovens que integra.

296
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

A equipa deve trabalhar com o jovem e com a sua família, quando


é possível efectuar um trabalho de reintegração familiar e quando
se perspectiva que a sua família venha a constituir um suporte afec-
tivo que o possa apoiar num futuro próximo. Também, neste caso,
é fundamental que, quer o jovem, quer a família, tomem cons-
ciência das dificuldades que a reintegração familiar vai acarretar
para as duas partes e que estejam disponíveis para que a situação
seja trabalhada conjuntamente com a equipa técnica e educativa
da unidade.
A intervenção nesta unidade traduz-se num programa resi-
dencial, onde o jovem é ajudado a reflectir sobre o seu compor-
tamento, perceber as suas causas, assim como aprender estratégias
e adquirir competências para que as mudanças sejam possíveis e
concretizadas.
As actividades que se desenvolvem diariamente podem consti-
tuir-se como actividades terapêuticas, onde se trabalham conceitos
como o respeito pelo próprio e pelo outro, para que o jovem com-
preenda e identifique os sentimentos e a importância do outro na
sua própria vida, o que poderá constituir um factor de mudança
no seu comportamento. É fundamental levar o jovem a compre-
ender a importância que tem a interiorização das normas e limites
para a sua formação pessoal, o desenvolvimento integral e o cres-
cimento. As rotinas diárias têm também para o jovem um elevado
valor estruturante, pois pressupõe previsibilidade e estabilidade,
transmitindo-lhes segurança.
O facto de os jovens se colocarem frequentemente em situações
de perigo e de risco merece uma intervenção centrada na demons-
tração de preocupação dos cuidadores em relação às consequências
dos comportamentos tidos pelos jovens, constituindo um momento
privilegiado para que estes sintam que os adultos têm uma preocu-
pação real e efectiva com o seu bem-estar, podendo também equa-
cionar as consequências do seu comportamento não destituído de
sentimentos. É muito importante que se trabalhem sentimentos e
emoções.

297
ACREDITAR NO FUTURO

O ambiente de segurança e estabilidade que a unidade pro-


porciona permite que os jovens interiorizem a necessidade de
desenvolverem barreiras físicas e emocionais que organizem a sua
integridade e vida em grupo, constituindo, assim, uma oportuni-
dade para aprenderem a interagir com os outros, de uma forma
construtiva, sejam adultos, ou pares. Consideramos que o contacto
com modelos relacionais saudáveis pode promover nos jovens a
adopção de comportamentos funcionais adaptativos.
A unidade deve também constituir um espaço privilegiado para
trabalhar a auto-estima, potenciando competências e desenvol-
vendo capacidades que vão ser fonte de reconhecimento social e
pessoal, potenciando no jovem vontade para continuar o seu per-
curso escolar, ou iniciando um percurso profissional, que será a
força motriz necessária à construção de um processo de autonomi-
zação sustentado.
Neste contexto, deve também ser trabalhada a resiliência do
jovem, no sentido de este desenvolver competências específicas
(pessoais, sociais, emocionais…) que lhe permitam estar capaci-
tado para enfrentar positivamente as adversidades, potenciando os
factores de protecção.
Cada jovem deve construir, em conjunto com a equipa que o
acompanha, o seu plano de intervenção individualizado que será
sujeito a avaliação mensal conjunta. Neste plano devem estar iden-
tificados os objectivos a alcançar durante a sua permanência no
Centro, as actividades a realizar e os prazos para a concretização
dos objectivos.
A intervenção, por ser de carácter contínuo e dinâmico, depende
da evolução feita pelo jovem, pelo que o plano de intervenção indi-
vidualizado deverá ser objecto de uma revisão periódica em função
das mudanças produzidas, tendo sempre em conta os objectivos
propostos e, como prazo indicativo, consideramos que a sua revi-
são deveria ser trimestral.
Mensalmente, deve proceder-se à avaliação de cada jovem, para
termos conhecimento da sua evolução e sabermos se está a cumprir,

298
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

ou não, o programa que foi estabelecido. Sempre que se considere


conveniente, ou trimestralmente, a entidade que decretou a medida
de acolhimento, CPCJ ou tribunal, deve ser informada sobre a evo-
lução dos jovens.
É importante proporcionar-lhes, mesmo quando estes têm com-
portamentos desajustados e agressivos, a possibilidade de fazerem
melhor. Deve ser dada a possibilidade de reparação face aos danos
provocados, quebra de regras ou de procedimentos que se encon-
travam previamente definidos. Esta atitude permite, muitas vezes,
uma mudança na percepção do mundo que os jovens possuem, no
qual a punição esteve presente. Ao dar-lhes a possibilidade de repa-
ração, trabalham-se aspectos como o de contribuir para o «bem
comum», assim como o treino de competências práticas, quando os
jovens têm de fazer a reparação física de objectos que danificaram.
Para além do trabalho individual a desenvolver com cada um,
também se constitui, como importante, o trabalho a desenvolver
com o grupo.
Assim, privilegia-se um modelo de relação que promove o reco-
nhecimento do jovem enquanto pessoa e que é determinante para
o desenvolvimento de uma confiança básica em si e nos outros.

Nestas unidades uma das preocupações que se coloca é a segu-


rança, quer dos jovens quer dos que aí exercem a sua actividade
profissional. Os conflitos mais preocupantes são aqueles em que o
educador é incapaz de exercer o controlo sobre as agressões que se
registam especialmente entre pares, que podem passar despercebi-
das, podendo constituir situações de maus-tratos, que questionam
claramente a segurança e protecção que a unidade tem de garantir
a todos os jovens que a integram.
O acompanhamento em proximidade de tudo o que se passa na
unidade, e fora dela, passa pela presença constante de um educa-
dor em todos os momentos possíveis, pois é necessário criar condi-
ções que assegurem o respeito e mantenham a segurança. As regras
e normas devem estar vertidas no regulamento interno da unidade,

299
ACREDITAR NO FUTURO

e todos os que a integram devem ter conhecimento, sejam jovens e


as suas famílias ou adultos que aí trabalhem.
Tem também de haver uma resposta adequada, imediata e efi-
caz para as condutas agressivas que eventualmente se registem na
unidade, sendo as estratégias para a sua resolução da competência
da equipa.
Estas unidades funcionam em regime aberto e a intervenção
nelas realizada tem por objectivo garantir os cuidados ajustados às
necessidades apresentadas por cada jovem. Estas unidades devem
proporcionar aos jovens que acolhem um ambiente estruturante,
com vivências tão próximas quanto possível das vivências familia-
res, onde lhes seja proporcionado um clima de afecto, protecção
e segurança, capaz de potenciar o seu desenvolvimento integral e
bem-estar.
O contexto residencial constituiu-se como um recurso adequado
para efectuar um trabalho na vertente socioeducativa com os ado-
lescentes, nomeadamente pela importância que constitui o grupo
de pares como um factor de socialização, sempre em estreita arti-
culação com a comunidade envolvente, onde os jovens podem fre-
quentar formação profissional, estabelecimentos de ensino, clubes
recreativos, equipamentos de saúde, etc.
Cada unidade deve acolher, no máximo e em simultâneo, 12
jovens, com idades compreendidas entre os 12 e os 18 anos, ou
21 anos, caso peçam a prorrogação da medida de acolhimento.
Todos os jovens têm de estar abrangidos por uma medida de aco-
lhimento institucional, pelo que a sua admissão deverá ser sempre
do conhecimento do tribunal ou da CPCJ.
A intervenção a realizar com um jovem numa unidade para
jovens com problemas de comportamento graves tem de cumprir o
que está estabelecido no seu plano de intervenção individualizado,
onde deverá também estar indicado o seu tempo de duração.
Aquando da admissão, o jovem, deverá conhecer o seu educador
de referência, que lhe facultará toda a informação necessária, nomea-
damente o regulamento interno, dando-lhe a conhecer os seus

300
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

direitos e deveres, as normas de funcionamento da unidade, e dis-


ponibilizando-se para dar resposta às suas questões e para o orien-
tar e apresentá-lo aos outros jovens que integram a unidade, bem
como a todos os adultos. É fundamental que o jovem saiba quais
foram os motivos que levaram ao seu ingresso neste contexto resi-
dencial específico.
A adaptação do jovem à vida quotidiana na unidade deve ser
feita de forma progressiva e programada, com o apoio e orientação
do educador de referência.
No momento da sua saída da unidade, o jovem deverá regressar
ao acolhimento regular onde estava inserido, uma vez que se redu-
ziram os seus problemas de comportamento, ou à família, se for o
caso de se promover uma reintegração familiar. Pode ainda auto-
nomizar-se a partir desta unidade, beneficiando de todo o acom-
panhamento a que tem direito um jovem que integre um processo
de autonomização.

Analisando o trabalho que tem sido feito nos últimos anos na


área do acolhimento residencial, constata-se que cada vez se torna
mais premente a existência de unidades para trabalhar jovens que
apresentam este tipo de problemática, pois grande parte da popu-
lação jovem que necessita de acolhimento transporta este tipo de
comportamentos conflituosos e de inadaptação social, pondo em
risco a sua vida e a de terceiros, o que leva à necessidade da criação
destas unidades, como recurso capaz de dar uma resposta eficiente
às necessidades específicas apresentadas por estas crianças e jovens
com problemas graves de comportamento.
Urge reformular a legislação aplicável, pois é necessário que
estas estruturas tenham suporte legal, para serem mais contento-
ras, nomeadamente com algumas restrições de liberdade, para que
possam dar uma resposta mais eficaz a situações em que os jovens
manifestem compulsão para a fuga, por exemplo.
Tal como nas outras respostas sociais, já anteriormente identi-
ficadas, a supervisão externa é fundamental e deve abranger todas

301
ACREDITAR NO FUTURO

as pessoas que aí desenvolvam a sua actividade profissional. Com a


supervisão pretende-se criar um espaço de reflexão sobre a prática
profissional, na procura de estratégias de intervenção que consti-
tuam uma mais-valia para serem trabalhadas com o grupo e, tam-
bém, que correspondam às reais necessidades apresentadas por cada
jovem.

Casas de acolhimento para jovens em perigo


com problemas de saúde mental
Sabemos que em Portugal existem poucos especialistas que tra-
balhem na área da saúde mental infanto-juvenil, nomeadamente
pedopsiquiatras, tendo em consideração as necessidades apresenta-
das pela população.
Para além do reduzido número de especialistas, é preciso ainda
ter em conta que os mesmos se distribuem muito assimetrica-
mente pelo país, estando essencialmente localizados em três regiões:
Lisboa, Porto e Coimbra, ficando os outros distritos perfeitamente
a descoberto.
Segundo refere a Comissão de Reabilitação Psicossocial no seu
Relatório: «Tem havido um aumento considerável de pedidos de
consultas, sobretudo à custa dos fracassos escolares, problemas de
comportamento, crianças negligenciadas, maltratadas e abusadas
sexualmente, filhos de toxicodependentes. Além disso, as situações
das famílias disfuncionais são cada vez mais graves.
Os pedidos de ajuda são feitos directamente pela própria famí-
lia ou através de instituições na comunidade. Nos últimos anos, as
educadoras e as professoras têm melhor conhecimento dos proble-
mas emocionais e da necessidade de uma resposta atempada para
prevenir danos psicológicos mais incapacitantes e com mais pesa-
das consequências no futuro.»
Se por um lado, a sensibilização para a problemática e a con-
sequente sinalização das situações está cada vez mais presente,

302
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

por outro lado, constatamos que as estruturas de saúde men-


tal infanto-juvenil persistem em não acompanhar este processo,
em termos de capacidade de resposta, mantendo-se insuficientes e
desadaptadas às necessidades apresentadas pela população.
Muitas vezes, as crianças e os jovens que estão acolhidos em lares
de infância e juventude (juntamente com mais 40 ou 50 crianças e
jovens de várias idades, com características e problemáticas diferen-
tes, como acontece ainda hoje em Portugal) apresentam distúrbios
ao nível da saúde mental, que necessitam de um tratamento con-
certado, não só sob o ponto de vista clínico, mas também ao nível
da educação e formação, entre outras áreas, intervenção nem sem-
pre realizada em tempo útil, face à escassez de recursos que respon-
dam de forma eficaz às necessidades identificadas.
A realidade mostra-nos que é cada vez mais premente trabalhar
com estas crianças e jovens que não podem contar com a ajuda da
família para se inserirem socialmente e para desenvolverem a sua
própria autonomia, para que se tornem cidadãos de pleno direito.
A muitas destas crianças e jovens não é proporcionado o segui-
mento terapêutico, porque estão acolhidas em unidades de acolhi-
mento longe de qualquer unidade de saúde mental e, portanto, não
se está a responder cabalmente às necessidades por eles apresentadas.
Tendo em consideração a situação descrita e dada a indispensa-
bilidade, cada vez maior, de dar uma resposta que vá ao encontro
das verdadeiras necessidades apresentadas pela população de crian-
ças e jovens que se encontra acolhida, torna-se fundamental a cria-
ção de algumas unidades (estruturas) a nível nacional que, à parte
o acolhimento em estruturas de pequena dimensão e de modelo
familiar, possam simultaneamente garantir a estes jovens um acom-
panhamento mais intensivo ao nível da saúde mental. É indispen-
sável que, nestas estruturas, a intervenção seja efectuada por uma
equipa multidisciplinar envolvendo várias valências, entre as quais:
psicologia, educação, pedopsiquiatria, serviço social, enfermagem e
terapia ocupacional, todas elas com formação para prestar este tipo
de cuidados especializados.

303
ACREDITAR NO FUTURO

Estas unidades de acolhimento devem ter como único objec-


tivo, a reabilitação e integração social, tendo-se o cuidado de não
virem a constituir guetos para uma população que, pelas suas carac-
terísticas psicopatológicas, pode facilmente correr o risco de ser
marginalizada.

Perfil da população-alvo

Considera-se que as unidades residenciais devem ser especiali-


zadas, tendo em consideração as características e especificidades da
população-alvo a que se destinam.
Assim, as unidades que se destinam a promover o acolhimento
de jovens com graves problemas ao nível da saúde mental estão des-
tinadas a jovens que se encontrem acolhidos em contexto residen-
cial, com medida de promoção e protecção aplicada pelas entidades
competentes, e cujas casas de acolhimento, onde se encontram,
não conseguem dar uma resposta eficaz à sua problemática, isto é,
não respondem às verdadeiras e reais necessidades que estes jovens
apresentam.
Estes necessitam de ser acolhidos numa unidade residencial
que, paralelamente a um modelo familiar de acolhimento, lhes
proporcione uma intervenção clínica e terapêutica adequada à sua
situação.
São geralmente jovens que apresentam problemas emocionais e
de comportamento, tais como fraca resistência à frustração, dificul-
dade no controlo dos impulsos, ansiedade, instabilidade, auto-ima-
gem pouco valorizada e falta de motivação.
Apresentam ainda perturbações ao nível do desenvolvimento
afectivo e relacional, nomeadamente revelam padrões de vincula-
ção insegura, dificuldades de relacionamento com os pares e com os
adultos e não têm figuras de referência securizantes.
Dentro destas casas de acolhimento não deverão coabitar em
simultâneo mais de oito crianças/jovens, com idades compreendi-
das entre os 12 e os 18 anos.

304
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

O que se espera da equipa técnico-educativa

Nesta unidade é fundamental que os jovens sejam acompanha-


dos por uma equipa multidisciplinar, capaz de lhes proporcionar
um acompanhamento terapêutico, mas onde o próprio tenha tam-
bém um papel de agente activo no seu próprio tratamento.
O adulto cuidador apoia e fomenta o desenvolvimento integral
do jovem, de acordo com o seu potencial, e assegura a sua inclusão
e participação no plano de intervenção terapêutico e educativo.
A equipa deve ser especializada e ter conhecimentos técnicos
dentro da área da saúde mental, perfil e motivação, para aliar uma
forma de promover um acolhimento em contexto residencial, mas
de carácter familiar, com um modelo clínico e terapêutico que, pela
sua intervenção, seja promotor de uma real e eficaz alteração no
sofrimento psíquico a que estes jovens estão sujeitos.

Nestas casas de acolhimento deve ser garantido ao jovem:


– Segurança e protecção, podendo o jovem usufruir de ex-
periências enriquecedoras, que lhe permitam ir trabalhan-
do o seu processo terapêutico de reparação de vivências
traumáticas, no quotidiano; o espaço físico ganha nestas
situações uma importância acrescida. Para além de ajudar
à tão importante contenção, geradora de segurança, pode,
se adequadamente dimensionado, proporcionar privacida-
de, isolamento, se necessário, ou a oportunidade de de-
senvolver actividades diversificadas de carácter lúdico/te-
rapêutico.
– Potenciar o seu desenvolvimento e crescimento pessoal
em todas as dimensões, nomeadamente intelectual, afecti-
va, social, familiar e de saúde, contribuindo para um rela-
cionamento positivo e de qualidade, para que o jovem su-
pere e recupere, dentro do possível, o atraso que, na maioria
das vezes, se regista no seu desenvolvimento.

305
ACREDITAR NO FUTURO

– O seu processo de socialização, promovendo a sua inte-


gração na escola, na comunidade, no mercado de trabalho,
procurando actividades de diversão e de lazer também na
comunidade. A própria unidade deverá proporcionar acti-
vidades diversificadas que promovam formas de expressão,
criatividade e bem-estar.
– Um tratamento psicológico intensivo, com vista à reso-
lução dos problemas e conflitos psicológicos que estão na
base das suas condutas.

Intervenção a realizar nestas unidades

Este espaço tem de permitir criar um ambiente terapêutico


onde todos os elementos tenham uma influência positiva na vida
do jovem, ou seja, um ambiente onde se valorize especialmente a
estabilidade, as rotinas da vida diária, a protecção e segurança, e as
relações positivas que conseguem estabelecer, quer com os pares,
quer com os adultos cuidadores, onde possam expressar a percep-
ção e elaboração dos conflitos emocionais.
As actividades a desenvolver constituirão instrumentos para a
análise e discussão de emoções e comportamentos, frente a situa-
ções vividas, que, por sua vez, representem as situações da vida,
onde a possibilidade de experiência e de reflexão torne o ambiente
terapêutico.
A equipa deverá ter como objectivo viabilizar a socialização, a co-
operação, a solidariedade e a cidadania, proporcionando o desenvol-
vimento emocional e cognitivo por meio do estímulo à construção
da individualidade, do autocontrolo, da auto-estima e da autonomia.
Estas unidades terão sempre um carácter transitório e os jovens
devem permanecer nelas o tempo estritamente necessário à realiza-
ção do tratamento adequado.
Na intervenção que se poderá desenvolver neste tipo de resposta
de acolhimento em contexto residencial há que trabalhar os jovens,
quer individualmente quer em grupo.

306
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

Parece-nos fundamental o desenvolvimento e implementação


de programas que serão devidamente especificados, tendo em con-
sideração a população-alvo que acolhem, mas que deverão ter por
base:
– Psicoterapia individual, proporcionando ao jovem mo-
mentos de autoconhecimento, reflexão sobre a sua história
de vida, vivências e comportamentos, ajudando-o a pro-
mover as mudanças necessárias à diminuição do seu sofri-
mento psíquico, contribuindo, assim, para que melhore a
sua qualidade de vida.
– Psicoterapia de grupo, onde o jovem aprende a interagir
com os pares e a estabelecer um relacionamento saudável.
O grupo constitui um apoio identificativo poderoso para
os seus membros.
– Treino de competências pessoais e sociais, isto é, com-
petências necessárias ao relacionamento interpessoal tais
como, comunicar eficazmente, dar e pedir ajuda, saber re-
solver conflitos, ganhar autoconfiança, ser assertivo, saber
estar em grupo, expressar sentimentos de forma construti-
va, saber influir nas pessoas e no meio, saber pensar e resol-
ver problemas de maneira construtiva, estabelecer e alcan-
çar metas e gerir emoções. Ainda ao nível das competências
funcionais, o jovem deve ser motivado para: aprender a ler
correctamente, saber utilizar o tempo de uma forma eficaz,
descobrir interesses e actividades de lazer, apreender valo-
res e regras de convivência, saber criar e manter o bem-es-
tar físico, responsabilizar-se pela sua sexualidade. Acresce
ao que antecede outras competências, como saber gerir o
dinheiro, aprender a cozinhar, lavar, limpar e organizar os
espaços e pertences.
– Terapia ocupacional, tendo em conta a avaliação e tra-
tamento das condições psíquicas do jovem, por recurso a
actividades específicas consoante o objectivo que se quer
atingir, e sempre enquadrada na relação terapeuta/jovem.

307
ACREDITAR NO FUTURO

Pretende-se, assim, proporcionar uma resposta adequada


às necessidades pessoais, sociais, profissionais e educativas
que ele apresenta, de forma a contribuir para a melhoria da
sua qualidade de vida.

Nestes programas pode e deve ser considerado, sempre que pos-


sível, o envolvimento de familiares significativos para o jovem, que
possam apoiar a sua evolução e reabilitação.
É fundamental garantir supervisão à equipa, no sentido de sus-
tentar a prática, dada a multiplicidade e complexidade de funções
ao nível do diagnóstico e implementação de planos de interven-
ção individualizados, bem como da orientação terapêutica. Assim,
a supervisão constitui um espaço privilegiado para trabalhar as
emoções dos profissionais, ajudando a equipa a ter confiança no
trabalho que se encontra a desenvolver, através da sua validação,
e ajudando-a a reflectir sobre a prática, suportando-a através do
reforço positivo.
Face à especialização da intervenção a operar dentro destas uni-
dades, a sua implementação deve ser cuidadosamente desenhada
e caracterizada, envolvendo especialistas na área da saúde mental
infanto-juvenil.

Casas de acolhimento para jovens em perigo


com deficiência mental

Uma criança ou um jovem portador de deficiência tem o direito


de ter uma vida plena, o mais normalizada possível, em que lhe
sejam proporcionadas condições de máxima dignidade, autonomia
e participação activa na sociedade em que está inserida.
Estas respostas sociais devem integrar, no máximo, oito residen-
tes, para que estes possam usufruir de uma vivência semelhante
à vivência familiar, e sejam cuidados por uma equipa multidisci-
plinar constituída por profissionais que apresentem competência,

308
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

perfil, motivação e empenho para assegurar que a vida de cada um


dos residentes, em todas as suas dimensões (física, psíquica, emo-
cional, intelectual, cultural, social e espiritual), pode ser vivida sem
limitações dos seus direitos, de identidade e de autonomia, tendo
em conta a individualidade e especificidade da situação de cada um.
Com esse propósito, no momento de planificar qualquer inter-
venção educativa, devemos pensar nas dificuldades e, consoante as
possibilidades e limitações de cada indivíduo, estabelecer o pro-
grama mais adequado, tal como avaliar individualmente quais as
capacidades de aprendizagem, para assim evitar projectos educati-
vos desadequados (nem demasiado exigentes, onde sejam coloca-
dos objectivos e metas inalcançáveis, com evidentes repercussões ao
nível da auto-estima, nem demasiado simplistas, que acabem por
não desenvolver as suas capacidades).

As crianças e os jovens com deficiência, acolhidos em contexto


residencial, estão integrados no sistema de promoção e protecção e,
até aos 21 anos, podem manter-se integrados neste sistema.
É necessário efectuar junto do Ministério Público as diligências
para acautelar que estas pessoas, que necessitam de cuidados perma-
nentes e em situação de particular vulnerabilidade, se possam man-
ter acolhidas e cuidadas, de forma digna, para que os seus superiores
interesses se mantenham salvaguardados e garantidos.

A importância do bom trato

«O Acolhimento na estrutura residencial deve ter em atenção os


riscos que importa minimizar como os de perda de vínculo afectivo,
perda de identidade, desenraizamento, receio da mudança, tendên-
cia a rejeitar a integração, autoculpabilização ou sensação de estar a
sofrer uma punição. Para tal, os responsáveis da estrutura residen-
cial devem ter em conta o carácter e a personalidade, a sua histó-
ria, as recordações, a relação com a família, com as pessoas do seu

309
ACREDITAR NO FUTURO

círculo afectivo e com a comunidade.» (Manual de Boas Práticas:


um guia para o acolhimento residencial das pessoas com deficiência,
Grupo de Coordenação do Plano de Auditoria Social ISS e CID.)

As crianças e jovens portadores de deficiência, que vivem em


contexto residencial, encontram-se em situação de particular vul-
nerabilidade em relação aos maus-tratos, especialmente se se encon-
trarem em situação de abandono, de especial fragilidade, ou de
grande dependência.
A prevenção dos maus-tratos começa pela sensibilização, for-
mação, educação da equipa de trabalho e também dos familiares,
voluntários, ou outras pessoas que interajam com estas crianças e
jovens.
Conhecer as características e necessidades de cada uma dessas
pessoas é indispensável e fundamental. Todos os que trabalham nas
casas de acolhimento têm de estar preparados para os prevenir, atra-
vés da identificação de sinais e de sintomas, de forma a detectá-los
em tempo útil.
Os nossos deveres para com as crianças com deficiência são
comuns e transversais aos das restantes crianças que integram o sis-
tema de protecção.

Assim, quando as mesmas se encontram inseridas em contexto


residencial, há que ter:

Respeito pela individualidade da criança, pelas suas caracte-


rísticas e necessidades pessoais, e pelos seus direitos
É importante que se respeite a criança ou o jovem, demons-
trando apreço pelo que é enquanto pessoa, bem como pelo que
consegue atingir. O respeito deve ser presença constante no quoti-
diano da casa de acolhimento, quer para com os adultos, quer para
com os residentes. Respeitar é perceber o comportamento, a ati-
tude, a crise, e intervir adequadamente de acordo com a problemá-
tica e deficiência mental da criança e do jovem.

310
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

Respeito pela sua intimidade e privacidade


Impõe-se o respeito pela individualidade e privacidade, pois
cada pessoa tem características específicas e particulares. O acolhi-
mento em contexto residencial tem o perigo de massificar o tra-
tamento a prestar ao indivíduo que o integra, pois torna-se difícil
prestar um acompanhamento individualizado e personalizado a
cada criança ou jovem que estão integrados na casa de acolhimento,
e, em caso de deficiência, com mais acuidade se coloca este proce-
dimento, dada a necessidade de apoio, atenção e cuidados a serem
prestados em permanência por terceiros, pois muitas vezes, e em
consonância com o seu grau de deficiência, a criança ou o jovem
podem ter um maior ou menor grau de dependência.
Assim, é necessário que sejam também respeitados na sua priva-
cidade e intimidade, bem como no seu espaço, incluindo os bens e
pertences, e sejam ensinados a respeitar a privacidade e intimidade
dos pares. É importante trabalhar com estes jovens o sentimento
de pertença e focalizar o trabalho educativo de forma a promover
a sua participação na compra dos seus pertences, sabendo ouvi-los
e orientá-los nas suas escolhas, envolvendo-os no processo de iden-
tificação e atribuição de significado aos mesmos.

Respeito pela igualdade de oportunidades, promovendo os


apoios específicos para compensar as suas dificuldades
A equipa da casa de acolhimento deve recorrer a técnicas de
reeducação, integrando apoios específicos na própria rotina.
É importante que a equipa tenha uma abordagem positiva com
os residentes, que os incentive a exercerem os seus direitos, a toma-
rem as suas próprias decisões e a serem independentes e responsá-
veis por si mesmos, dentro das suas possibilidades.
Constituiu-se, como fundamental, que os técnicos que integram
as equipas das casas de acolhimento que acolhem crianças e jovens
com deficiência conheçam bem todos os direitos e benefícios que a
sociedade e o Estado português lhes proporciona, para que tenham

311
ACREDITAR NO FUTURO

meios que lhes possibilitem dar a melhor qualidade de vida possí-


vel aos mesmos.
Para que isto se concretize, é imprescindível que os técnicos pos-
suam formação adequada e permanente, sejam técnicos especiali-
zados para trabalhar com esta problemática e se promovam espaços
para partilha das necessidades sentidas.

Respeito pelos direitos da criança, que inclui:


– ser amada e desejada;
– estabelecer uma relação com o meio envolvente: mobilida-
de, comunicação, aprendizagem, afectividade;
– ter direito a brincar (experiência sensório-motora que fa-
vorece o seu desenvolvimento afectivo e social): a crian-
ça necessita de amigos, de outras crianças que brinquem
com ela;
– ter direito a participar, a crescer, a ser ela própria e a ser in-
dependente na medida das suas capacidades;
– ter direito ao desporto, ao lazer, a participar em activida-
des lúdicas e culturais, ir às compras, ao cinema, conviver
com amigos;
– ter direito a ser tratada conforme as suas capacidades, a dar
a sua opinião, ser respeitada, ouvida e informada sobre to-
das as decisões que lhe dizem respeito, tendo em considera-
ção a sua idade e capacidade de compreensão;
– ter direito à habitação e educação no meio, o menos res-
tritivo possível, em igualdade de oportunidades com as
outras crianças;
– ter direito a um ambiente ajustado às suas necessidades fí-
sicas, afectivas, emocionais, sociais, educativas, quer no que
diz respeito a equipamentos e tecnologias de apoio, quer
quanto a instalações, em termos de acessibilidade e segu-
rança;

312
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

– ter direito à sua intimidade e privacidade, bem como a ser


tratada com sensibilidade e compreensão.

Respeito pela sua segurança e protecção


É fundamental que cada criança ou jovem possam ter, na casa
que os acolhe, um adulto de referência, que assume um papel
de extrema importância. Este deverá representar para a criança a
figura securizante, de apoio e com disponibilidade para atender os
seus pedidos, ajudando-a a ultrapassar as suas dificuldades e os seus
receios. Esta pessoa representa, ainda, a figura primordial, na qual
toda a informação está centralizada e que tem o dever de estar ao
corrente de todos os aspectos que dizem respeito à vida da criança
ou do jovem, e de ser, em simultâneo, o elemento de articulação
entre as diferentes áreas.
Tem assim a função de zelar pelo bem-estar da criança ou jovem
e promover o desenvolvimento das suas competências pessoais e
sociais, tendo sempre como objectivo principal a qualidade de vida
da criança portadora de deficiência.
As estruturas residenciais de acolhimento para crianças porta-
doras de deficiência física ou mental deverão ser construídas e pro-
jectadas em função dos residentes que acolhem. Assim, importa
considerar que estas sejam confortáveis e acolhedoras, permitam
mobilidade a todas as crianças e jovens que integram, cumpram
as normas de segurança e requisitos legais, nomeadamente no que
diz respeito à segurança e protecção da vida quotidiana, de forma
a poderem proporcionar um ambiente de conforto e segurança,
assim como uma igualdade de oportunidades na sua utilização.

Respeito pelos direitos das crianças e jovens e suas famílias


Todo o ser humano, para crescer e se desenvolver de uma forma
harmoniosa, necessita de amar e ser amado. Para quem vive inte-
grado em contexto residencial este princípio ainda é mais premente.
É fundamental que estas crianças e jovens mantenham ligação e
contacto com as pessoas de quem gostam, sejam estas familiares ou

313
ACREDITAR NO FUTURO

amigos, pois é importante que preservem as suas referências, pelo


que as visitas podem ser momentos de fortalecimento de laços afec-
tivos e, verificando-se esta premissa, devem ser estimuladas, pro-
movidas e criadas condições adequadas, para que possam ocorrer
de forma a respeitar a privacidade e o bem-estar das crianças que
estão acolhidas.
Temos, contudo, de distinguir duas situações bem diferentes
que se colocam relativamente à situação de crianças ou jovens que
residem em contexto residencial e que possuem deficiência.
Muitas vezes é a família que solicita o acolhimento residencial,
pois não tem condições que lhe permitam cuidar de forma ade-
quada da criança ou do jovem, atendendo à especificidade que este
apresenta. Mas muitas vezes a admissão em contexto residencial é
determinada por decisão judicial, como medida de protecção para
uma criança ou um jovem com deficiência por motivo de aban-
dono, de negligência ou maus-tratos vivenciados no seio da pró-
pria família.
Nesta última situação muitas vezes os contactos com a família
revestem-se de particular complexidade, pois muitas famílias apre-
sentam problemas graves ao nível da saúde mental e também são
pessoas que revelam grande disfuncionalidade e desadequação, pelo
que, durante o momento da visita, provocam muita instabilidade
e perturbam não só a criança ou o jovem que visitam, mas tam-
bém as outras crianças e jovens e, por vezes, até o normal funcio-
namento da casa.
Assim, é muito importante que exista um espaço próprio e ade-
quado para promover a realização de visitas, que deve garantir pri-
vacidade, ser acolhedor e facilitador de um encontro positivo.
Cabe à equipa mediar os contactos e visitas, de modo a que o
interesse, segurança e estabilidade dos residentes possam manter-se
salvaguardados, pelo que tem de desenvolver uma actuação coe-
rente e uniforme, lidando com as famílias com respeito e exigindo
também respeito por parte delas. Importa definir regras e estabe-
lecer limites, claros e explícitos, sobre os quais os familiares devem

314
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

ter um perfeito conhecimento, pois só assim a comunicação pode


ser fluida e o relacionamento profícuo.
Existem também casos em que é necessário providenciar um
acompanhamento mais específico junto da família, de modo a que
esta seja sensibilizada e conheça as necessidades que a criança ou
o jovem apresentam, para que lhes possa prestar um apoio efectivo
e adequado.
A questão de ser possível assegurar a previsibilidade, o ritmo e
as rotinas, e, claro, também as visitas, é fundamental para qualquer
criança, mas para uma criança com deficiência e limitações torna-se
indispensável, pelo que é preciso que a família compreenda a neces-
sidade de cumprir o que está determinado.
Também é fundamental que se trabalhem as competências dos
pais ou familiares, para que estes saibam perceber as necessidades
das crianças, saibam como as colmatar e como lidar com compor-
tamentos específicos que estas crianças apresentam.

Respeito pela escolaridade e alternativas formativas


No âmbito da deficiência mental é necessário fazer um diag-
nóstico que nos possa dar a conhecer o tipo de problemática, bem
como as reais capacidades e limitações associadas, para que se possa
fazer um adequado encaminhamento escolar e profissional, per-
mitindo assim promover e potenciar o desenvolvimento de cada
criança ou jovem.
No caso de a criança ser portadora de deficiência mental, é
necessário, quando falha o modelo inclusivo, proceder ao seu enca-
minhamento para o ensino especial adequado à sua problemática
específica.
Após a avaliação que é feita pela escola, em articulação com o
técnico que integra a equipa da casa de acolhimento que se con-
siderar com maior competência para trabalhar esta área, e ainda
com a participação de um terapeuta ou de um médico, se for caso
de a criança já estar a ser apoiada, deve ser estabelecido um plano
de estimulação para que sejam identificadas as áreas em que vai

315
ACREDITAR NO FUTURO

ser necessário intervir para colmatar os défices apresentados pela


criança ou jovem e desenvolver as suas competências, promovendo
assim a sua capacitação. Esta intervenção tem de ser concertada e
articulada entre todos os agentes da intervenção.
É muito importante que a equipa da casa de acolhimento que
acompanha a criança a envolva em todas as actividades relacionadas
com a escola, tendo em consideração as suas reais capacidades.
É também importante que a equipa e, sobretudo, o adulto de
referência da criança a incentivem a participar activamente em acti-
vidades promovidas pela escola e, sempre que possível, assista a
eventos festivos, pois essa atitude assume um papel determinante
no trabalho de promoção de auto-estima e autoconfiança que a
equipa deve realizar com a criança.
No caso de um jovem portador de deficiência mental, a decisão
do seu encaminhamento para uma formação profissional adequada
representa um momento determinante. Há que encontrar uma for-
mação profissional adequada às suas limitações e capacidades, capaz
de promover a sua autonomia, muitas vezes alcançada através da
inserção em trabalho protegido. A boa integração profissional vai
potenciar a auto-estima e autoconfiança, assim como as competên-
cias pessoais e sociais para a sua vida futura.

Respeito pelos cuidados de saúde e sexualidade


Os cuidados a prestar a uma criança portadora de deficiência,
quer seja esta física ou mental, exige da parte da equipa uma atitude
no sentido de aprofundar conhecimentos sobre as perturbações de
saúde e consequentes necessidades de acompanhamento especí-
fico para a criança. Na casa de acolhimento deverá existir um pro-
cesso de saúde pessoal, onde está descrito o historial clínico, com
informação minuciosa e específica sobre a problemática em causa,
nomeadamente os acompanhamentos terapêuticos de que já bene-
ficiou, ou ainda se encontra a usufruir, diagnóstico, medicação,
sempre que dela necessite, etc.

316
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

O papel do adulto de referência demonstra-se aqui como muito


importante. Deve existir o cuidado de acautelar, sempre que haja
possibilidade, o acompanhamento da criança por parte do adulto,
quando esta se desloca ao médico, ou aos acompanhamentos tera-
pêuticos de que necessite. Seria também este adulto o responsável
por manter actualizado o processo de saúde da criança, bem como
por manter informada toda a equipa dos cuidados de saúde que é
necessário ter com ela. Centralizando toda a informação clínica,
cabe-lhe fazer a articulação com os diferentes agentes que traba-
lham permanentemente com a criança, como, por exemplo, os pro-
fessores, educadores, técnicos e clínicos. Esta articulação assume-se
como uma componente facilitadora para uma intervenção mais
homogénea e adequada.
A entrada da criança na adolescência releva um foco de extrema
importância na abordagem da problemática da deficiência:
a sexualidade.
A questão da imaturidade psicológica que, muitas vezes, não
acompanha a evolução da maturidade física, e o facto de mui-
tos jovens terem dificuldade em interiorizar a noção de privaci-
dade, intimidade, espaço público e privado, pode levantar questões
específicas relativamente ao jovem portador de deficiência mental.
É necessária a existência de regras claras na estrutura residencial que
suportem a acção da equipa, assim como, paralelamente, tem de se
promover um trabalho de competências sociais, atitudes e compor-
tamentos, proporcionando ao adolescente o acesso a informação
adequada. Este trabalho assume um papel decisivo na forma como
o jovem portador de deficiência é visto pelo outro e como se rela-
ciona com ele, o que determina a qualidade das suas relações com
aqueles com quem convive.

Respeito pela integração social


A equipa da casa de acolhimento deve promover a utilização de
recursos na comunidade que possam responder às necessidades
específicas desta população e que estimulem as suas competências

317
ACREDITAR NO FUTURO

e capacidades, promovendo oportunidades para que os residentes


frequentem, na comunidade, actividades de lazer que incentivem a
sua integração na mesma, estimulando as suas competências sociais
e, consequentemente, a sua independência e autonomia.
Devem privilegiar-se actividades ligadas à natureza, desporti-
vas, artísticas, culturais e recreativas, devendo ter em conta os gos-
tos e interesses das crianças e dos jovens. É importante promover
a sua participação e envolvimento nas mesmas, de forma a pode-
rem conviver com crianças sem deficiência, o que lhes permite o
desenvolvimento de competências sociais, colocando a criança em
contacto com modelos relacionais adequados que podem represen-
tar benefícios em termos da sua auto-estima e do seu sentimento
de pertença.
A participação e envolvimento das crianças ou jovens em acti-
vidades de lazer comunitário vai permitir a construção de redes
sociais de apoio, nomeadamente o conhecimento de pessoas dife-
rentes, e o estabelecimento de amizades.
Deve promover-se uma inserção no espaço comunitário, trei-
nando as deslocações destas crianças no seu bairro, promovendo
um conhecimento dos serviços disponíveis e realizando pequenos
recados ou tarefas adequados às suas capacidades.
Temos de ter em consideração que nenhuma criança se insere
na sua rede social sem a ajuda e o impulso das suas figuras de
referência.

Respeito pelo seu desejo de autonomia


A participação do jovem nas actividades da vida diária assume
um papel preponderante no desenvolvimento da criança com defi-
ciência, uma vez que contribui decisivamente para a sua progres-
siva autonomia.
Deve ser permitida e incentivada a realização de tarefas no quo-
tidiano, dentro e fora da casa de acolhimento, que possibilitem
a organização e desenvolvimento das suas competências, inserção
e capacidade de autonomia.

318
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

As rotinas diárias contribuem para o seu equilíbrio e são pro-


motoras de competências. Estas actividades podem dividir-se em
pessoais e colectivas.

Actividades pessoais:
– Higiene pessoal, saber tomar banho, manter a sua roupa
limpa e o seu aspecto cuidado.
– Alimentação, saber utilizar correctamente os diferentes
utensílios, saber ter uma postura corporal adequada, etc.
– Arrumação diária da roupa nos locais adequados, manten-
do-os igualmente arrumados.
– Arrumação dos seus bens e pertences, isto é, os seus ob-
jectos de higiene pessoal, material escolar, brinquedos, etc.
– Utilizar recursos na comunidade, saber comparar bens pes-
soais, fazer recados, frequentar espaços de cultura e lazer,
etc.

Actividades colectivas:
– Participar no arranjo e limpeza de espaços comuns, em
conjunto com outras crianças e jovens.
– Participar em actividades de lazer conjuntas com as restan-
tes crianças e jovens que com ela coabitam na estrutura re-
sidencial, tais como a preparação de eventos festivos.

Outra componente inerente à realização das actividades, e que


importa referir, prende-se com a segurança interna que as rotinas
conferem à criança ou ao jovem, bem como recurso ocupacional na
prevenção do aparecimento de crises.
No caso das crianças portadoras de deficiência, a sua partici-
pação nas actividades estará sempre enquadrada de acordo com
as suas capacidades e poderá constituir um incentivo para que
a criança ou o jovem melhorem os seus níveis de auto-estima e,

319
ACREDITAR NO FUTURO

consequentemente, os seus níveis de satisfação pessoal e, também,


a sua própria qualidade de vida.
Todas as conquistas deverão ser valorizadas e verbalizadas com os
próprios, assim como partilhadas com o grupo. Esta atitude poderá
conduzir a um reforço da auto-estima, fundamental para que as
suas competências de autonomia se desenvolvam e se potenciem.
Importa igualmente estimular os deveres e responsabilidades. No
processo de desenvolvimento de competências há que respeitar os
ritmos individuais, integrando positivamente a lentidão das evolu-
ções que o jovem vai registando; trabalhar juntamente com a criança
ou com o jovem metas de aprendizagem adequadas aos níveis de
autonomia com objectivos graduais; proporcionar actividades extra-
curriculares adaptadas e que potenciem o seu grau de autonomia,
assim como fazer a identificação das dificuldades e progressos que
vão surgindo nos diferentes patamares de desenvolvimento.
É também importante que este espaço residencial esteja implemen-
tado na comunidade onde se insere, em ambiente calmo e tranquilo,
com facilidade de acessos, nomeadamente nos transportes públicos.

Respeito pelo projecto de vida


«Todos os residentes têm direito a um projecto de vida que poten-
cie as suas capacidades e os valorize como indivíduos. Um projecto
de vida, com objectivos bem definidos e exequíveis.» (Manual de
Boas Práticas: um guia para o acolhimento residencial das pessoas com
deficiência, Grupo de Coordenação do Plano de auditoria Social
ISS e CID.)

A equipa interdisciplinar tem como função a elaboração dos


projectos de vida, a concretização dos encaminhamentos e das ava-
liações, assim como dos planos socioeducativos individuais de cada
criança ou jovem, que devem estar articulados com os planos que
estão a ser implementados nas escolas ou centros frequentados pelas
crianças. Deverão ser identificadas as áreas de melhoria a poten-
ciar e a desenvolver, bem como proceder ao despiste precoce de

320
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

eventuais problemas ou dificuldades. Dever-se-ão estabelecer as


metas de aprendizagem adequadas a cada criança e os níveis de
autonomia possíveis. Deverão ainda ser implementadas actividades
extracurriculares, recorrendo, se possível, aos recursos da comuni-
dade envolvente.
O projecto de vida quer-se dinâmico, criativo e em permanente
reavaliação.

Recursos Humanos

A prestação de cuidados às pessoas com deficiência é um tra-


balho particularmente exigente. É indispensável que os elemen-
tos que compõem a equipa multidisciplinar tenham uma formação
específica, técnica e humana, bem como de acompanhamento e
supervisão, e ainda uma avaliação cuidada da sua intervenção e que
desenvolvam trabalho em equipa.
A intervenção obriga a uma articulação próxima com outros par-
ceiros, pelo que é necessário que a equipa seja uma equipa aberta,
criativa e capacitada para efectuar uma intervenção integrada.
A selecção dos colaboradores deve revestir-se de enorme cui-
dado e exigência, bem como a existência de formação (seja forma-
ção inicial, seja formação em exercício) bem planeada e adequada às
situações reais.
Dada a vulnerabilidade em que estas crianças e jovens se encon-
tram, é fundamental que a equipa se mantenha atenta e vigilante
para que seja detectado, prevenido e excluído qualquer comporta-
mento discriminatório em relação aos residentes, e também para
que possa ser detectada, prevenida e excluída qualquer situação de
maus-tratos.
A equipa interdisciplinar deve ter um espaço de reflexão para
analisar em pormenor a situação de cada residente, no sentido de
definir planos específicos de trabalho em que todos saibam como
actuar em determinadas situações. É importante uniformizar pro-
cedimentos que possam ser postos em acção quer nas situações de

321
ACREDITAR NO FUTURO

rotina do dia-a-dia, quer em situações de crise, inerentes às carac-


terísticas de cada residente, que visem acautelar a protecção e segu-
rança não só da criança ou jovem que se encontra em crise, mas
também das outras crianças e jovens residentes, assim como do
pessoal.
Cuidar de pessoas com deficiência é uma tarefa muito exigente e
desgastante, pelo que deve ser promovida a rotatividade de pessoal,
de modo a evitar situações de saturação que podem mesmo desen-
volver vícios na intervenção.
Todavia, a rotatividade tem de ser gerida de forma adequada e
criteriosa, para que os residentes não estejam a ser sujeitos cons-
tantemente a cortes de relação, pois mudanças frequentes de pes-
soal levam a que as crianças e os jovens desistam de estabelecer
relações, como forma de se defenderem para que não sofram mais
uma perda. Assim, uma rotatividade exagerada vai conduzir a uma
desumanização, não permitindo efectuar uma intervenção persona-
lizada, nem uma rotina em que são tidas em conta as características
pessoais, os gostos, hábitos de cada criança ou jovem e que são fun-
damentais para uma vida de qualidade.
É importante que estejam previstas e se realizem formas de apoio
aos funcionários, de modo a prevenir e ajudar a superar situações
de cansaço extremo, desânimo e de burning out, pelo que a super-
visão se constitui para este tipo de intervenção como fundamental
e imprescindível.

Síntese
Medidas que interagem formando um todo unitário e complexo

Como podemos verificar, as várias medidas tecem um sistema


de promoção e protecção que tem como principal objectivo apoiar
as crianças e os jovens que se encontram numa situação de des-
protecção. Assim, as medidas entrecruzam-se e complementam-se
numa perspectiva ordenada, tendo sempre um denominador

322
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

comum – a satisfação das necessidades que cada criança ou jovem


apresenta, tendo em consideração as características e especificida-
des de cada um.
Num primeiro nível, temos uma intervenção baseada na pre-
venção e detecção de casos que possam ser conducentes a situações
de risco ou de perigo para a criança ou jovem.
Neste nível de intervenção, as equipas que acompanham a situa-
ção das crianças ou dos jovens e das suas famílias, desenvolvem pro-
gramas de preservação familiar e de educação parental, para que seja
possível manter as crianças no seu contexto familiar, evitando assim
a sua separação, bem como as consequências que ela acarreta. Pode-
mos considerar este tipo de intervenção como um dos pilares no
qual assenta o sistema de promoção e protecção.
Quando há necessidade de recorrer à retirada de uma criança ou
jovem, temos de dirigir a nossa intervenção no sentido de esta per-
manecer o mínimo tempo possível afastada do seu contexto fami-
liar. Nesse sentido há que elaborar, com celeridade, um plano de
intervenção para trabalhar com a criança ou o jovem acolhidos e,
paralelamente, com as suas famílias, no sentido de se obterem as
mudanças necessárias, consideradas como essenciais para superar a
situação de crise, para que a criança ou o jovem voltem às suas famí-
lias. Este trabalho de reunificação familiar tem de assentar numa
intervenção conjunta dos vários parceiros que intervêm na situação,
incluindo a família e a criança ou jovem. Os programas de inter-
venção familiar têm como principal objectivo ajudar as famílias a
conseguir concretizar as acções que conduzam a modificações no
seu comportamento e atitudes, possibilitando, assim, um retorno
rápido da criança ao seu contexto familiar, de forma a evitar gran-
des períodos de tempo em que as crianças se encontram integradas
em contexto residencial e, portanto, separadas da família.
O acolhimento residencial tem uma relação muito directa tam-
bém com a adopção, pois a maior parte das crianças antes de ser
adoptada está integrada em contexto residencial. A equipa da casa
de acolhimento, onde se encontra integrada a criança, sempre que a

323
ACREDITAR NO FUTURO

idade e maturidade o permitam, tem de trabalhar com ela para que


entenda em que consiste um processo de adopção, bem como pre-
parar a sua integração na nova família. Existem vários materiais e
estratégias que se podem utilizar para trabalhar a transição do con-
texto residencial para uma família adoptiva, adaptando-se os con-
teúdos ao seu nível etário e capacidade de entendimento, de forma
a que a criança consiga processar a informação.
O acolhimento residencial tem também uma relação estreita
com o acolhimento familiar, pois algumas crianças aguardam em
contexto residencial a sua integração numa família de acolhimento,
uma vez que, devido às suas características, e tendo em conta as
suas necessidades, pode não ser possível ter, desde logo, uma famí-
lia de acolhimento apropriada e que responda convenientemente
às suas necessidades. À equipa da casa de acolhimento cabe pre-
parar esta criança para a transição para a família de acolhimento.
À semelhança do que acontece com a preparação para a integração
em família que a pretenda adoptar, existem vários materiais e estra-
tégias que se podem utilizar para trabalhar a transição do contexto
residencial para uma família de acolhimento, adaptando-se os con-
teúdos ao seu nível etário e capacidade de entendimento.
O acolhimento residencial tem também em relação aos jovens
uma função protectora e securizante, constituindo uma interven-
ção de carácter educativo e terapêutico, que permite, a muitos deles,
melhorarem as suas competências pessoais e sociais, o seu compor-
tamento e a sua integração social.
O acolhimento residencial deve ter sempre uma finalidade
terapêutica e reparadora, para que as crianças e os jovens possam
ultrapassar as experiências traumáticas pelas quais passaram e que
conduziram à separação da sua família.
Nos casos de adolescentes com problemas graves de comporta-
mento, ou com sérios problemas ao nível da saúde mental, ou ainda
jovens com deficiência mental grave, o encaminhamento deve ser
feito para unidades especializadas em tratamento mais intensivo e
desenhado para dar resposta a cada uma das situações específicas,

324
6. REPENSAR O SISTEMA DE PROTECÇÃO

tendo em consideração que apenas devem manter-se nessas unida-


des o tempo necessário à sua estabilização, podendo depois regres-
sar a uma unidade de acolhimento onde se promova a autonomia,
ou voltar à sua família, se for esse o seu projecto de vida.
Em residências partilhadas com outras crianças e outros jovens
sem deficiência física ou mental, importa sensibilizar para o con-
ceito de alteridade, assente na premissa «todos iguais, todos diferen-
tes» e prepará-los para evitar confrontos e situações de risco.
Num sistema de protecção, cada uma das medidas pode ser uma
mais-valia, tendo em consideração diferentes crianças e jovens e as
diferentes situações em que cada um se encontra. Podemos pois
considerar que o acolhimento familiar é uma medida mais apro-
priada para crianças pequenas, que vão em breve ter como projecto
de vida o retorno à família ou a adopção, pois promove um desen-
volvimento em contexto familiar com condições para ser mais nor-
malizador, mais acolhedor, permitindo um relacionamento mais
individualizado e uma vinculação mais estável do que o acolhi-
mento em contexto residencial. Para os jovens, o acolhimento em
contexto residencial pode transmitir-lhes uma maior protecção e
contenção, proporcionando-lhes condições que potenciem a sua
autonomia e desenvolvimento de uma forma positiva.
Assim, um sistema de protecção e promoção deve ser um garante
para todas as crianças e jovens que dele necessitem, desde que a
medida que lhes for aplicada seja eficaz, para que se sintam protegi-
dos e com possibilidades de adquirirem um desenvolvimento inte-
gral, promotor da sua plena autonomia.

325
CAPÍTULO 7
AVALIAÇÃO ESTRATÉGICA

Os Pilares da Estratégia
A Importância da Avaliação
Análise do Ambiente Externo
Análise de Cenários
Análise SWOT
Balanced Scorecard
Síntese
«Se não sabemos para onde vamos, não sabemos
quando vamos chegar.»
Anónimo
Os Pilares da Estratégia
A importância da missão, da visão e dos valores

As organizações, enquanto comunidades de pessoas, necessi-


tam de referências que balizem a sua actuação e dêem consistên-
cia à sua evolução. Do ponto de vista estratégico, tal é conseguido
com o estabelecimento de três pilares básicos: a missão, a visão e
os valores.

A missão traduz, de uma forma muito sintética, a razão de ser da


organização – qual o seu propósito. Trata-se de uma característica
da organização, seja instituição ou empresa, que se mantém inalte-
rada ao longo do tempo.
No caso particular das instituições, a missão, muitas vezes, está
inscrita nos seus próprios estatutos.

Exemplo prático
«Acolhimento de crianças em perigo, visando a promoção e
protecção dos seus direitos.»

A visão estabelece a forma como a organização se vê. Seja numa


instituição ou numa empresa, a visão deve ser motivadora e, sem se
desalinhar da missão, deve reflectir o que a organização acredita ser
possível. A modificação da visão, quando efectiva, induz uma alte-
ração estratégica profunda em toda a organização, devendo ser tra-
balhada cuidadosamente.
A visão, quando correctamente estabelecida, inspira todos os
colaboradores da organização a tirarem o máximo partido das
suas competências profissionais, de forma a torná-la viável a longo
prazo.
Quando a visão não é explicitada, partilhada e interiorizada por
todos os intervenientes na organização, as actuações acabam por se
pautar por visões individuais ou sectoriais, perdendo-se o alinha-
mento global e os ganhos resultantes de um trabalho colaborativo.

329
ACREDITAR NO FUTURO

Exemplo prático
«Fazemos renascer a confiança no futuro de crianças e jovens em
risco/perigo.»

Os valores reflectem os princípios básicos pelos quais se pauta


a organização. Estabelecem os limites para a actuação diária, cons-
tituindo-se como um código de conduta colectiva, estejam ou não
explicitados.
Seja em instituições ou empresas, os reais valores interiorizados
em toda a organização são visíveis nos actos e decisões, constituin-
do-se como características típicas que podem não corresponder aos
que são publicitados. Tal como as leis, os valores devem ser respei-
tados para que possam ser efectivos.

Exemplo prático
• Foco na criança – todas as decisões relativas às crianças terão
primacialmente em conta o seu superior interesse. Compro-
metemo-nos a garantir à criança a protecção e os cuidados
necessários ao seu bem-estar, assegurando-lhe condições que
possibilitem um desenvolvimento integral harmonioso.
• Valorização das pessoas – assumimos o desafio de manter pes-
soas motivadas nas nossas equipas, de forma a melhorar con-
tinuamente o nosso desempenho, através de um ambiente que
estimule o trabalho transdisciplinar, em rede. Desejamos que as
pessoas se sintam incentivadas a reflectir e que obtenham con-
fiança e reconhecimento pelo seu trabalho.
• Compromisso com a instituição – partilhamos os valores esta-
belecidos nos estatutos da instituição, contribuindo para credi-
bilizar a sua imagem.

330
7. AVALIAÇÃO ESTRATÉGICA

A Importância da Avaliação
A avaliação da situação é fundamental para o planeamento

As organizações, quer sejam instituições ou empresas, devem ser


vistas como entidades dinâmicas, em constante evolução. Mesmo
quando a organização está na liderança não pode parar, pois a estag-
nação tem como consequência, a prazo, o declínio e a extinção.
Para um melhor entendimento deste aspecto basta pensar num
belo solar abandonado: com o passar dos anos, não havendo inter-
venções de manutenção, vai começando a desmoronar-se, podendo
desaparecer por baixo de uma cobertura de vegetação.

O futuro de uma organização depende das opções que são fei-


tas ao longo do tempo e da capacidade de resposta às alterações do
meio em que se insere. Assim, não chega fazer as «coisas» bem todos
os dias, é também necessário fazer as «coisas» certas – as que acabam
por condicionar a sobrevivência a prazo.
Apesar de todas as potenciais incertezas e dos imprevistos que
possam ocorrer, a organização necessita de um plano consistente
de acção, caso contrário comporta-se como um barco à deriva –
sabe-se de onde parte, mas não se sabe aonde vai chegar.

A avaliação estratégica é o passo prévio à definição do plano


de acção, devendo permitir obter uma fotografia fidedigna do
momento em que é feita e dar uma perspectiva das possíveis evolu-
ções, bem como das condicionantes.
Sem pretender ser uma compilação exaustiva, neste capítulo são
apresentadas as análises essenciais para uma instituição, as quais
poderão ser usadas na preparação do plano estratégico.

331
ACREDITAR NO FUTURO

Análise do Ambiente Externo


A instituição é influenciada pela sua envolvente

A definição estratégica de uma organização deve ter em conta a


envolvente onde se insere. Quando falamos em envolvente há que
considerar: a envolvente contextual, que não conseguimos influen-
ciar, e a envolvente transaccional, o meio onde a organização age e
que os agentes podem influenciar.

Envolvente Contextual

Contexto Económico

Contexto Sociocultural
Envolvente Transaccional

Clientes
Concorrentes
Contexto Político-Legal

Fornecedores

Organização

Comunidade

Contexto Tecnológico

Meio envolvente contextual


O meio envolvente contextual é o conjunto de todos os aspectos
que condicionam a acção da organização. Tratando-se de aspectos
abrangentes, a sua influência não se restringe apenas à organização,
podendo ultrapassar o próprio sector onde se insere – um exemplo
disso é uma situação de crise económica grave.
A abrangência a considerar na análise do meio envolvente con-
textual depende, em grande medida, da dimensão da própria orga-
nização e das áreas onde intervém. A análise de uma organização
com actuação nacional terá de incluir factores mais abrangen-
tes do que outra com actuação apenas concelhia. Também uma

332
7. AVALIAÇÃO ESTRATÉGICA

organização que abarque, por exemplo, infância e terceira idade,


terá de considerar mais factores do que uma com actuação restrita
a um desses sectores.

Na análise do meio envolvente contextual devem ser conside-


rados os seguintes aspectos: contexto económico, contexto social,
contexto político e contexto tecnológico.
Para cada um desses contextos devem ser consideradas as variá-
veis que melhor caracterizam as tendências de evolução do meio
envolvente, ajustadas à realidade em que se insere a organização.

Contexto Possíveis variáveis


Taxa de desemprego; custos energéticos; taxa de infla-
Económico
ção; taxa de poupança.
Distribuição geográfica; composição étnica; estrutura
Social
etária; taxa de analfabetismo; aspectos culturais.
Enquadramento legal; legislação laboral; estabilidade
Político
política; exigências contabilísticas.
Inovação tecnológica; inovação de processos; incenti-
Tecnológico
vos à inovação; normas de qualidade.

Escolhidas as variáveis, devem ser analisadas as respectivas ten-


dências e o impacto sobre a organização: favorável/positivo; neu-
tro; adverso/negativo.

Exemplo prático
Numa instituição de acolhimento de crianças com actuação res-
trita a uma cidade, caso não se preveja uma alteração significativa
de contexto, será de considerar que o número de crianças aco-
lhidas se mantém estável e está numa fase de maturidade. Nesse
caso, não havendo alteração de aspectos legais, será de aceitar a
configuração do sector em causa e apostar na uniformização de
processos e procedimentos, reforçando a experiência acumulada
e a melhoria do serviço prestado.

333
ACREDITAR NO FUTURO

Pelo contrário, prevendo-se um aumento na taxa de desemprego


nessa cidade (por exemplo, devida a uma crise num sector rele-
vante para essa região), tal deve ser reflectido na taxa de cresci-
mento das crianças acolhidas.

Contexto Variáveis Impacto Acções


Desemprego ‰ Negativo Ver capacidade
Económico Taxa inflação = 2,6% Negativo Ver orçamento
Custos energéticos ‰ Negativo Ver alternativa
Composição étnica ‡ Neutro
Social
Estrutura etária ‡ Neutro
Novo quadro legal Positivo
Político Oportunidade
Estabilidade política Neutro
Incentivo informático Positivo Novo projecto
Tecnológico
Normas de qualidade Neutro

Meio envolvente transaccional


O meio envolvente transaccional é o conjunto de acções que
interagem directamente com a organização, sendo considerados os
seguintes agentes actuantes: clientes, fornecedores, concorrentes e
comunidade.
Para as instituições sem fins lucrativos, por facilidade de análise,
mas sem alterar o sentido, os agentes podem ser, em alternativa,
agrupados em: clientes ou utentes, entidades legais e fornecedores,
concorrentes, comunidade.

O meio envolvente transaccional pode ser analisado pela apli-


cação do modelo das cinco forças (concebido por Michael Por-
ter em 1979, inicialmente destinado à análise da competição entre
empresas).
Assim, para o desenvolvimento de uma estratégia eficiente, serão
analisadas cinco «forças»:
• Potencial de novas entradas – que reflecte a possibilidade de
surgirem ou desaparecerem organizações concorrentes.

334
7. AVALIAÇÃO ESTRATÉGICA

• Pressão de serviços substitutos – que reflecte a possibilidade


de surgirem serviços alternativos, que possam substituir os
prestados pela organização em causa.
• Poder negocial dos clientes – que reflecte a capacidade de os
clientes influenciarem e pressionarem a organização.
• Poder negocial das entidades legais/fornecedores – que tra-
duz as pressões exercidas por fornecedores da organização
e o poder exercido pelas entidades legais.
• Rivalidade entre concorrentes – que traduz as forças e pres-
sões entre concorrentes presentes no sector em causa, res-
pondendo e equilibrando as acções exercidas pelas restantes
forças.

Potencial de
Novas Entradas

Dimensão Competitiva
Poder Negocial
Poder Negocial
das Entidades Rivalidade entre
dos «Clientes»
Legais e dos os Concorrentes
(ou Utentes)
Fornecedores

Pressão de
Serviços
Substitutos

Dimensão Cooperativa

O potencial de novas entradas e a pressão de serviços substitu-


tos vão actuar sobre a dimensão competitiva da rivalidade dos con-
correntes. Assim, a entrada ou saída de uma organização vai levar,
como consequência, à redistribuição dos serviços da área onde
actuava.

335
ACREDITAR NO FUTURO

O poder negocial dos clientes e o poder negocial dos fornecedo-


res, incluindo as entidades legais, vão actuar na dimensão coopera-
tiva da rivalidade dos concorrentes. Assim, uma forma de reagir a
uma alteração da legislação que regulamenta o sector em questão é
apostar na cooperação com os concorrentes da organização, tendo
em vista a obtenção de sinergias.
No essencial, a alteração de uma das forças vai provocar acções
de ajuste no sector em questão, que irá evoluir no sentido de obter
um novo equilíbrio. A sobrevivência, a prazo, de uma organização
é condicionada pela capacidade de resposta às alterações a que está
sujeita. Neste aspecto, uma organização funciona como se de um
ser orgânico se tratasse.

Decorrente da análise das cinco forças, existem três estraté-


gias, com resultados sustentados, que podem ser adoptadas pela
organização:
• A dominação ou expansão, tirando partido de sinergias
internas.
• A diferenciação, com um serviço que seja referenciado como
único.
• A especialização, actuando sobre um nicho ou área específica.

Exemplo prático
Potencial de novas entradas – baixo
A possibilidade de aparecimento de uma Instituição de Solida-
riedade Social que disponibilize novas Unidades de Acolhimento
é reduzida, devido aos elevados custos de criação e manutenção.
Por outro lado, em áreas muito regulamentadas, os pelouros de
actuação podem estar legalmente definidos, condicionando o
aparecimento de novas respostas.
Pressão de serviços substitutos – baixo
Considerando, como exemplo, a promoção e protecção das crian-
ças em risco, face à legislação própria que condiciona e estabelece

336
7. AVALIAÇÃO ESTRATÉGICA

as medidas a aplicar, bem como a forma de aplicação, não é de


esperar o aparecimento de serviços substitutos que eliminem os
existentes.
Poder negocial das entidades legais promotoras de acolhi-
mento – médio
A entrada das crianças numa instituição é sempre feita por deter-
minação ou dos tribunais, ou das Comissões de Protecção de
Crianças e Jovens. A actuação dessas entidades está regulada por
leis próprias que circunscrevem o seu âmbito de actuação.
Poder negocial dos clientes (crianças acolhidas) – alto
A capacidade de resposta do serviço não é directamente imposta
pela criança acolhida per si, mas fortemente condicionada às
necessidades específicas que têm de ser satisfeitas. Os pais das
crianças acolhidas, ainda que não sendo clientes directos, acabam
por influenciar esta actividade.
Rivalidades entre concorrentes actuais – baixa
Dado que as Instituições de Solidariedade não têm fins lucrati-
vos, verifica-se uma baixa concorrência entre elas, o que é refor-
çado por fronteiras de actuação estáveis, muito delas legalmente
reguladas.

Potencial de
Novas Entradas

Baixo

Poder Negocial Poder Negocial


Rivalidade entre
das Entidades dos «Clientes»
os Concorrentes
Legais (ou Utentes)
Médio Baixo Alto

Pressão de
Serviços
Substitutos
Baixo

337
ACREDITAR NO FUTURO

Conclusão
Do diagrama das cinco forças, conclui-se que:
• há uma baixa competitividade;
• há uma dimensão cooperativa forte.
Dado que a configuração desta área de actuação está fortemente
condicionada à legislação específica que a regula, não são de pers-
pectivar grandes alterações, pelo que será de adoptar um enqua-
dramento de adequação, ou seja, aceitar a configuração da área e
adequar o serviço às suas características.

Análise de Cenários
Os cenários constituem-se como alternativas possíveis

Construção de cenários
Nas análises, sempre que se recorre a variáveis que não são exac-
tas, é recomendável fazer o desdobramento por cenários.
Cada um dos cenários pode ser construído de duas formas:
• considerando valores diferentes de evolução do mesmo con-
junto de variáveis (que se ajusta às situações em que existe
muita incerteza);
• acrescentando variáveis a cada um dos cenários (devendo ser
mantido um conjunto comum aos vários cenários).

O número de cenários a considerar depende da incerteza de


cada situação, devendo, no entanto, procurar restringir-se a análise
a três: mais favorável; intermédio; menos favorável.
Estabelecidos os pressupostos de cada cenário (isto é, as variá-
veis e respectivas previsões), devem ser avaliadas as consequências,
que possam afectar a organização, e o respectivo impacto nos ser-
viços prestados.

338
7. AVALIAÇÃO ESTRATÉGICA

Exemplo prático
Cenário 1
Pressupostos: Diminuição da taxa de natalidade, aumento do
movimento imigratório, estabilidade da taxa de desemprego.
Consequências: A diminuição da taxa de natalidade poderá ficar com-
pensada pelo movimento imigratório, levando a que não seja expec-
tável que o número de crianças acolhidas sofra grandes alterações,
desde que a taxa de desemprego se mantenha em valores controlados.
Impacto no serviço: Manutenção da dimensão actual do serviço,
com foco na qualidade.

Cenário 2
Pressupostos: Aumento do desemprego, aumento dos movimen-
tos imigratórios, enfraquecimento da rede familiar de apoio, difi-
culdades de acesso à educação.
Consequências: O aumento do desemprego será sempre impul-
sionador do número de crianças em risco, situação que se agravará
com o aumento de movimento de imigrantes, que não possuam
rede familiar sustentada. A dificuldade de acesso à educação poderá
ser um factor que contribui para que as crianças fiquem sujeitas a
maior negligência, não permitindo cortar o ciclo de pobreza.
Impacto no serviço: Necessidade de reforço da capacidade de res-
posta e procura de novas soluções dirigidas à família.

Cenário 3
Pressupostos: Diminuição de desemprego, reforço das políticas
sociais para menores e famílias, melhoria das condições ambien-
tais (com impacto na saúde pública), melhoria das condições
socioeconómicas.
Consequências: A melhoria das condições socioeconómicas con-
jugada com uma diminuição de desemprego e uma melhoria
ambiental levariam a uma diminuição do número de crianças em
risco, quando acompanhadas com o reforço das políticas sociais
para menores e famílias.
Impacto no serviço: Diminuição de dimensão dos serviços, com
o reforço da qualidade nos serviços que são prestados, e expansão
para outras áreas de intervenção.

339
ACREDITAR NO FUTURO

Comentários aos cenários


Os cenários, quando preparados de forma criteriosa, permitem
uma percepção mais abrangente, resultante do maior espectro de
pressupostos incluídos na sua caracterização.
O comentário aos cenários deve procurar estabelecer uma visão
agregadora de todas as conclusões.

Exemplo prático
Considerando os cenários anteriormente apresentados, podia-se
chegar às conclusões seguintes:
• Não sendo de prever uma alteração significativa do contexto,
não justificando a alteração da capacidade de resposta do ser-
viço, o foco de actuação deverá dirigir-se para a melhoria de
qualidade do serviço prestado.
• Se houver um desenvolvimento de políticas sociais, que apos-
tem quer na prevenção, quer na educação e formação, será
previsível que o número de crianças em risco diminua conside-
ravelmente. Essa abordagem, a verificar-se, induziria a necessi-
dades de alteração das áreas de actuação do serviço.

Análise SWOT
Forças, fraquezas, oportunidades, ameaças

A análise SWOT é uma ferramenta simples de apoio ao planeamento


estratégico que permite posicionar a organização (ambiente interno)
face ao meio envolvente em que se insere (ambiente externo).

O termo SWOT é um acrónimo, em inglês, de Strengths


(Forças), Weaknesses (Fraquezas), Opportunities (Oportunidades) e
Threats (Ameaças).
As forças e fraquezas a considerar resultam da análise ao ambiente
interno da organização, constituindo-se como uma caracterização
referente ao momento em que é feita. O ambiente interno evolui

340
7. AVALIAÇÃO ESTRATÉGICA

como resultado das acções empreendidas pela organização, consti-


tuindo o âmbito sobre o qual consegue actuar.
As forças correspondem aos meios que a organização tem para se
alavancar, enquanto as fraquezas se referem às debilidades a acau-
telar e a melhorar.

As oportunidades e ameaças dizem respeito ao ambiente externo


no qual se insere a organização, não sendo directamente contro-
lado por esta. A avaliação de oportunidades e ameaças sai facilitada
pelas metodologias de análise anteriormente definidas, incluindo,
quando necessário, a aplicação de cenários.
As oportunidades constituem o âmbito mais favorável para a
organização; enquanto as ameaças correspondem aos perigos a que
está exposta.

Exemplo prático
Ambiente Interno
Pontos Fortes:
• prestígio e credibilidade da instituição;
• o trabalho em rede;
• recursos humanos diversificados e de qualidade;
• constituição de parcerias;
• motivação de equipas;
• sentido de unidade e pertença.
Pontos Fracos:
• desadequação dos meios informáticos;
• trabalhar as famílias;
• formação e intervenção com adolescentes e jovens;
• aperfeiçoamento e rentabilização de instrumentos de trabalho;
• dificuldade na integração social de jovens com défice ou
deficientes;
• falta de recursos para jovens com problemas de comporta-
mento.

341
ACREDITAR NO FUTURO

Ambiente Externo
Oportunidades:
• parcerias com outros serviços da área da Saúde e Educação;
• parceria com instituições de Ensino Superior e associações de
apoio, quer a nível de formação, quer de intervenção.
Ameaças:
• contexto socioeconómico (desemprego);
• movimentos imigratórios clandestinos;
• enfraquecimento da rede familiar;
• agravamento da situação de saúde das famílias (alcoolismo,
toxicodependência, doenças crónicas e doenças mentais).

A Matriz SWOT resulta do cruzamento das forças e fraque-


zas, do ambiente interno, com as oportunidades e ameaças, do
ambiente externo – constituindo-se como um quadro com quatro
quadrantes.
• O quadrante das ameaças externas, onde a organização tem
fraquezas, corresponde às áreas onde deve acautelar a sobre-
vivência (é uma área de ameaças, onde a organização não
possui recursos ajustados);
• O quadrante das ameaças externas, onde a organização tem
forças, corresponde às áreas onde deve apostar na manuten-
ção (ainda que sendo uma área de ameaças, a organização
tem recursos disponíveis);
• O quadrante das oportunidades externas, onde a organiza-
ção revela fraquezas, corresponde às áreas onde deve apostar
no crescimento e melhoria (é uma área onde as oportunida-
des permitem melhorar as fraquezas);
• O quadrante das ameaças externas, onde a organização tem
forças, corresponde às áreas onde deve apostar no desenvol-
vimento (é uma área onde as forças permitem o aproveita-
mento potenciado de oportunidades).

342
7. AVALIAÇÃO ESTRATÉGICA

Ambiente Interno
Fraquezas Forças

Ambiente Externo
Ameaças
Sobreviver Manter

Oportuni-
dades
Melhorar Desenvolver

Exemplo prático

Pontos Fortes Pontos Fracos


• Criação de um novo • Parceria com uma Uni-
projecto de unidade versidade para imple-
residencial. mentação de sistema
• Melhorar a articulação informático de suporte
com os Serviços de Saúde adequado.
para a prevenção da • Promover parcerias com
Oportunidades doença e a promoção associações para traba-
da saúde. lhar competências com
• Reforçar competências famílias das crianças
de recursos humanos, acolhidas.
através de formação • Realização de bench-
dirigida (com Universi- marketing com congé-
dades). neres.
• Promover junto da • Diversificar o tipo de
Acção Social Local o lar, para resposta a jo-
trabalho com as crian- vens com problemas
ças e famílias, logo que comportamentais.
identificadas as situa- • Estabelecer parcerias
ções de risco. com instituições de
Ameaças • Promover a articulação apoio a deficientes.
com o SEF (Serviço de • Diversificar a formação
Estrangeiros e Frontei- profissional.
ras). • Promover supervisão
• Envolver os serviços de externa.
saúde no acompanha-
mento de famílias.

343
ACREDITAR NO FUTURO

«Benchmarking é o método sistemático de procurar os melhores proces-


sos, as ideias inovadoras e os procedimentos de operação mais eficazes
que conduzam a um desempenho superior.» (Christopher E. Bogan),
através da comparação com instituições congéneres.

Balanced Scorecard
Alinhar as actividades com a visão e a estratégia

O Balanced Scorecard é um sistema de planeamento e gestão,


aplicável tanto em empresas como em instituições sem fins lucrati-
vos, que permite: alinhar as actividades com a visão e a estratégia da
organização, melhorar a comunicação interna e externa, e monito-
rizar a performance da organização face às metas estabelecidas.

O Balanced Scorecard assenta na análise da organização segundo


quatro perspectivas:
• Perspectiva dos recursos humanos – incluindo formação,
retenção de conhecimento e desenvolvimento da cultura
corporativa.
• Perspectiva dos processos internos – incluindo a avaliação
do desempenho e da conformidade com os requisitos dos
clientes.
• Perspectiva dos clientes – incluindo a avaliação da sua satis-
fação, segmentados em grupos com interesses ou necessida-
des similares.
• Perspectiva financeira – incluindo o acompanhamento
da correcta utilização dos recursos disponíveis e da criação
de valor.

Nas empresas, o ponto de partida do Balanced Scorecard é a pers-


pectiva financeira, entendida como a razão de ser das empresas.

344
7. AVALIAÇÃO ESTRATÉGICA

Desenho Base do
Sistema Balanced Scorecard

Financeiro

Visão e
Clientes Processos Internos
Estratégia

Recursos Humanos

Nos serviços de interesse público, o ponto de partida são os


utentes visados, que constituem os clientes.
Balanced Scorecard
Ajustado a Serviços Públicos

Missão

Clientes

Financeiros Estratégia Recursos Humanos

Processos Internos

Tendo em vista o acompanhamento das actividades correntes,


para cada uma das perspectivas são estabelecidos: os objectivos mais
relevantes, os indicadores que permitam medir a sua concretização
e as metas a atingir.
Os indicadores a adoptar devem ser claros, de fácil medição e,
sempre que possível ou aplicável, obtidos de forma automática,
tirando partido dos sistemas de informação da organização.

345
ACREDITAR NO FUTURO

Exemplo prático
Perspectiva Objectivos Indicadores Metas
• Acolher todas as • Número de pedi- • Dar resposta ade-
crianças sinaliza- dos satisfeitos. quada aos pedi-
das dentro do âm- dos.
Clientes bito de actuação.
(crianças
e jovens • Definir e estudar • Número de meses • Promover o en-
acolhidos) atempadamen- que demora a de- caminhamento
te o projecto de finir o projecto de adequado a todas
vida das crianças vida após admis- as crianças e jo-
acolhidas. são. vens acolhidos.
• Controlar os cus- • Desvio em rela- • Não ultrapassar
tos totais. ção ao orçamento os custos orça-
e variação em rela- mentados.
ção a custos ante-
Financeira
riores.
• Garantir recur- • Desvio em relação • Conseguir uma
sos financeiros ao valor global or- folga orçamental
ajustados. çamentado. de 10%.
• Criar novos ser- • Percentagem das • Contribuir para
viços. crianças afectas aos a especialização
novos serviços. das respostas.
Processos • Rentabilizar os • Rotatividade de • Assegurar a res-
Internos recursos. crianças nos lares. posta adequada.
• Optimizar os • Percentagem de • Ter um sistema
processos. informatização. informático de
suporte.
• Formar os colabo- • Percentagem de • Fazer com que a
radores para pres- colaboradores que formação dada se
tarem um serviço usufruiu de for- reflicta positiva-
de qualidade. mação. mente na quali-
• Estimular a cria- • Percentagem de dade de serviço.
Recursos tividade. soluções imple- • I m p l e m e n t a r
Humanos mentadas vindas novos projectos
dos colaboradores. para melhorar de
forma contínua.
• Reduzir a rota- • Percentagem de • Garantir a esta-
tividade do pes- rotatividade. bilidade do ser-
soal. viço.

346
7. AVALIAÇÃO ESTRATÉGICA

Os objectivos mais relevantes, estabelecidos para as quatro pers-


pectivas, quando colocados numa disposição gráfica que contenha
as inter-relações, constituem o mapa estratégico que deve permi-
tir contar uma «história» coerente sobre a forma como a organiza-
ção se predispõe a cumprir a sua missão.

Exemplo prático

Missão: Acolhimento de crianças


em perigo, visando a promoção e
protecção dos seus direitos

Acolher todas as crianças Estudar e definir o projecto


sinalizadas, dentro do de vida das crianças
âmbito de actuação acolhidas em 6 meses

Garantir recursos
Controlar os custos totais
financeiros ajustados

Criar novos serviços Optimizar os processos Rentabilizar os recursos

Formar colaboradores
Reduzir a rotatividade de
Estimular a criatividade para garantir um serviço
pessoal
de qualidade

No essencial, a história que se retira do mapa estratégico corres-


ponde ao sumário executivo do plano de acção que a organização
se predispõe a seguir num período de tempo estabelecido.

Exemplo prático
A formação de colaboradores para garantir um serviço de qua-
lidade e o estímulo à criatividade deverá permitir optimizar os
processos e criar novos serviços, os quais, conjugados com a

347
ACREDITAR NO FUTURO

redução da rotatividade de pessoal, assegurarão a rentabilização


dos recursos, dentro do orçamento disponível (custos e recur-
sos financeiros), tendo em vista o acolhimento de todas as crian-
ças sinalizadas dentro do âmbito de actuação, com uma resposta
adequada (estudar e definir atempadamente o projecto de vida
das crianças acolhidas), dando cumprimento à missão: «Acolhi-
mento de crianças em perigo, visando a promoção e protecção
dos seus direitos.»

Síntese
Medidas que interagem formando um todo unitário e complexo

As organizações, enquanto comunidades de pessoas, necessitam


de referências que balizem a sua actuação e dêem consistência à sua
evolução. Do ponto de vista estratégico, constituiu-se como fun-
damental a identificação de três pilares básicos: a missão, a visão
e os valores.

Sem pretender ser uma compilação exaustiva, neste capítulo


foram apresentadas as análises essenciais para uma instituição, as
quais poderão ser usadas na preparação do seu plano estratégico.

A definição estratégica de uma organização deve ter em conta


a análise do ambiente externo onde ela se insere, incluindo: a
envolvente contextual, que não conseguimos influenciar; a envol-
vente transaccional, o meio onde a organização age e que os agen-
tes podem influenciar.

A análise de cenários, quando são preparados de forma crite-


riosa, permite uma percepção mais abrangente, resultante do maior
espectro de pressupostos incluídos na sua caracterização.

A análise SWOT é uma ferramenta simples de apoio ao planea-


mento estratégico que permite posicionar a organização (ambiente

348
7. AVALIAÇÃO ESTRATÉGICA

interno) face ao meio envolvente em que se insere (ambiente


externo), através de uma matriz que resulta do cruzamento das
forças e fraquezas do ambiente interno com as oportunidades e
ameaças do ambiente externo.

O Balanced Scorecard é um sistema de planeamento e gestão,


aplicável tanto em empresas como em instituições sem fins lucra-
tivos, que permite: alinhar as actividades com a visão e a estratégia
da organização, melhorar a comunicação interna e externa e moni-
torizar a performance da organização face às metas estabelecidas.

...Se não soubermos para onde vamos (plano estratégico), não


sabemos aonde vamos chegar (cumprimento da missão).

349
CONCLUSÃO

Acreditar no Futuro
Depoimento de Uma Jovem
Depoimento de Uma Técnica
«A verdadeira generosidade para com o futuro consiste
em dar tudo ao presente.»
Albert Camus
Acreditar no futuro
Ir mais longe no sistema de protecção para crianças em risco

Como é do conhecimento comum, as experiências de maus-


-tratos, negligência e abandono vivenciados pelas crianças e jovens,
durante a sua infância, constituem uma ameaça ao seu bem-estar,
podendo fomentar dificuldades de integração social, bem como
problemas de desenvolvimento que lhes deixem sequelas, que
podem ser muitas vezes inexcedíveis.
Um sistema legislativo que tenha por objectivo a defesa do
bem-estar das crianças e jovens, promovendo a sua protecção, tem
de articular medidas preventivas que evitem que as crianças e jovens
possam ser maltratados, tendo, assim, de investir no desenvolvi-
mento de iniciativas conducentes à constituição de um sistema efi-
caz de intervenção precoce.
Caso não seja possível evitar a situação de desprotecção a que a
criança ou o jovem podem ficar sujeitos, há que desenvolver todo
um conjunto de medidas específicas que sejam adequadas e efica-
zes para os protegerem.
A medida de protecção a adoptar em cada caso irá depender das
características e especificidades da situação da criança ou jovem em
causa, bem como do diagnóstico e do prognóstico que se faz de
cada uma delas.
Como princípio, na intervenção deve ser tido em conta que a
criança/o jovem deve manter-se na sua família e esta deve ser traba-
lhada, tendo por objectivo a sua capacitação. Esta situação só evo-
luirá no sentido de uma retirada da criança, quando a condição de
risco não for debelada e a sua manutenção for claramente nociva
para a criança ou jovem.
Assim, quando a criança se encontra em situação de risco, há
que intervir através de programas de preservação familiar, com o
objectivo de diminuir o risco e aumentar as respostas adequadas às
necessidades por ela evidenciadas, bem como pela sua família.

353
ACREDITAR NO FUTURO

Pode haver casos em que o programa de preservação familiar,


delineado para aquela criança e respectiva família, não obtenha o
sucesso que se considere necessário e suficiente para permitir man-
ter a criança no seu contexto familiar e pode acontecer também que
a situação de risco persista, ou se agrave, pelo que se torna necessá-
rio encontrar uma solução que dê à criança a segurança e a estabili-
dade necessárias ao seu adequado desenvolvimento.
Torna-se, assim, necessário proceder à separação da criança do
seu contexto familiar e levar a efeito a sua colocação em contexto
de acolhimento familiar alternativo, ou em contexto de acolhi-
mento institucional. Esta situação tem de ser viabilizada e susten-
tada através de uma medida de protecção decretada pelo tribunal,
ou Comissão de Protecção.
Após análise detalhada da situação, há que tomar a decisão que
melhor resposta possa dar às necessidades e especificidades apresen-
tadas pela criança ou jovem.
A tomada de decisões num sistema de protecção constitui-se
como fundamental e é muitas vezes complexa. É importante ter
presente que, para que uma criança se possa desenvolver de forma
harmoniosa, integral e integrada, precisa de afecto, segurança e
limites.
Se a criança não tem afecto, pode sofrer perturbações somáticas
e psicológicas graves, traduzindo-se também numa baixa auto-es-
tima, pois a criança precisa de se sentir amada e querida. É funda-
mental a constituição de sentido de pertença e o desenvolvimento
de uma relação de qualidade, ou uma vinculação segura com o
adulto de referência.
A segurança é fundamental, pois a criança tem de aprender a
confiar em si e nos outros, para saber enfrentar as situações com as
quais se vai deparar ao longo da vida, para desenvolver a sua auto-
nomia de uma forma progressiva e sustentada.
Uma criança ou jovem sem limites revelam claras perturbações
na sua personalidade. Muitos adolescentes que entram no sistema
de acolhimento têm de facto esta problemática muito acentuada,

354
CONCLUSÃO

com sérias dificuldades em se inserirem na sociedade, apresentando


um carácter muito conflituoso, quer com os pares, quer com os
adultos.
Para além destes pilares fundamentais, para que uma criança
ou jovem cresçam de forma harmoniosa, temos de levar em consi-
deração que, para crianças ou jovens que se encontram integrados
no sistema de protecção e, especialmente se já foram alvo de uma
medida de acolhimento, seja ela acolhimento familiar ou institucio-
nal, a variável tempo é crucial. O projecto de vida tem de ser efec-
tuado obedecendo aos protocolos previstos, mas sempre tendo em
consideração a necessidade de celeridade não só na sua definição,
mas também na sua concretização. A articulação com todos os par-
ceiros, de forma a aumentar a eficácia na definição do mesmo e na
sua consequente concretização, constituiu-se como essencial. Um
dos indicadores de qualidade de um sistema de protecção reflecte
os esforços feitos para evitar, a todo o custo, que as crianças e os
jovens se mantenham sem definição atempada do seu projecto de
vida, assim como a sua concretização.
É particularmente importante que todos os profissionais que tra-
balham no sistema de protecção se articulem entre si, sejam técnicos
que acompanham as crianças e famílias, magistrados judiciais, ele-
mentos das Comissões de Protecção, ou profissionais de saúde e de
educação. É através da conjugação dos esforços de todos que se con-
segue cumprir o objectivo comum, isto é, que a criança ou jovem
tenham assegurada a concretização do seu projecto de vida, em
tempo útil e sempre na defesa dos seus superiores interesses, promo-
vendo assim o seu bem-estar, pelo que se torna fundamental optimi-
zar o trabalho desenvolvido por todos os intervenientes, melhorando
a comunicação e a coordenação entre os vários serviços.
O trabalho a desenvolver com as crianças e os jovens que foram
vítimas de abusos, negligência e maus-tratos tem de ser efectuado
tendo em vista uma intervenção terapêutica, para que consigam
reparar e restabelecer os modelos relacionais, a confiança e a auto-
-estima.

355
ACREDITAR NO FUTURO

As crianças que forem educadas por adultos alegres e atentos


evidenciam claros sinais de esperança face às contrariedades. Estas
crianças tendem a adoptar pensamentos de esperança, como, por
exemplo, saber o que fazer para alcançar os objectivos a que se
propõem.
A esperança e o optimismo permitem que a criança cresça esti-
mulada pelas experiências infantis que lhe alimentam sentimentos
de segurança, certeza e, sobretudo, a sensação de que controlam
razoavelmente as circunstâncias com as quais se debatem, mesmo
as mais adversas.
Assim, dar esperança é uma peça fundamental para o equilí-
brio mental das crianças e dos jovens que vivem em acolhimento
institucional.
O local de acolhimento deve ser um lugar familiar, de transmis-
são, produção e reprodução cultural dos saberes e das culturas, de
afectos, de partilha e essencialmente de comunicação.

Há que privilegiar as relações humanas e o bem-estar físico e psi-


cológico do indivíduo.
O desafio que diariamente se coloca é educar para que «todas»
as crianças e jovens que foram objecto de uma medida de aco-
lhimento, seja familiar ou residencial, possam adquirir as atitu-
des necessárias para participarem na produção social (os saberes),
interiorizarem os valores que cimentam e pautam a sua actuação
futura (moral); e para que possam adquirir normas e ritos que
promovam as relações interpessoais positivas e mantenham a sua
identidade, quer como indivíduos, quer como participantes na
sociedade.
Assim, em qualquer projecto educativo é importante transmitir
e fazer reter princípios como: o respeito, os valores, a responsabi-
lidade, o ser capaz, a individualidade, o saber partilhar, a amizade,
a autonomia.
Um sistema de protecção integrador dá margem para a liberdade
e realização pessoal, com espaço para os processos de personalização

356
CONCLUSÃO

inerentes aos processos de socialização, respeitando as necessidades


e especificidades de cada um.
Os adultos devem estabelecer, de forma clara, firme e carinhosa,
limites razoáveis que ajudem a criança a construir uma imagem do
mundo e de si própria. Desta forma, as crianças e jovens aprendem
a autonomia, o autocontrolo e a responsabilização.
É importante encorajá-las a tomar decisões e a reflectir sobre
elas, fazendo-as sentir responsáveis.
Respeitar o seu ritmo e tratá-las com respeito, são factores fun-
damentais na educação.
A criança deve reconhecer-se como agente de mudança, respon-
sável pelo seu caminho, de modo a desenvolver nela a cultura do
esforço para a obtenção do sucesso.
A criança/o jovem, ao entrar no sistema de protecção, tem de
sentir, claramente, que vai ter ajuda por parte dos adultos que aí
encontra, pois estes deverão constituir-se como pilares de suporte ao
seu desenvolvimento, dando-lhes segurança, afecto e limites, para
que, passo a passo, concretize o seu projecto de vida com sucesso,
seja este reintegração familiar, adopção, ou autonomia.
Para aumentar a eficácia do sistema de protecção há que desen-
volver os programas de acolhimento familiar e diversificar os mes-
mos, pois é uma resposta fundamental para crianças de tenra idade
que tenham de ser separadas das suas famílias. Este tipo de resposta
apresenta claros benefícios no que concerne ao acolhimento destas
crianças de tenra idade, que beneficiam claramente com o facto de
estarem integradas num contexto familiar e não residencial, desde
que tenha havido uma boa e cuidada selecção da família de aco-
lhimento, assim como um processo formativo e um acompanha-
mento sistemático de toda a situação.
Importa também criar uma rede de respostas de acolhimento
residencial, que se redefinam num sistema especializado onde a
par de um acolhimento regular surjam respostas de cariz terapêu-
tico, capazes de dar uma resposta eficaz e de qualidade às variadas

357
ACREDITAR NO FUTURO

necessidades que as crianças e jovens necessitados de acolhimento


residencial apresentam.
Como fundamental, afigura-se a criação de uma cultura de ava-
liação dos programas de intervenção, bem como das diferentes
respostas sociais, pois só através de um processo de avaliação con-
seguimos identificar áreas de melhoria e também potenciar os pon-
tos fortes que já existem na prática realizada, o que permite ir mais
longe no sistema de protecção para crianças e jovens em risco, e
criar soluções inovadoras que poderão dar uma resposta mais efi-
ciente a esta problemática, por si tão complexa, bem como prepa-
rar-nos para novas problemáticas emergentes.

É de tudo isto que a criança e o jovem necessitam para acreditar


que o Renascer da Esperança no Futuro é sempre possível, desde
que todos em geral, e cada um em particular, assumam como verda-
deira esta premissa no âmbito da intervenção que a cada um cabe,
no processo e protecção das crianças e dos jovens em risco/perigo.

Depoimento de uma Jovem


Partilhar uma reflexão sobre a realidade do acolhimento

A institucionalização foi para mim uma oportunidade única de


conseguir vencer na vida. Aos nove anos de idade fui acolhida numa
instituição onde tive a possibilidade de continuar com os estudos
e aprender a crescer de forma saudável. As pessoas significativas, as
educadoras e os familiares que sempre me apoiaram, tiveram um
papel fundamental no meu crescimento. Não poderei afirmar que
sem o apoio e os laços de amizade que mantive com alguns familia-
res, bem como de pessoas que se interessavam pelo meu bem-estar, o
meu crescimento e adaptação à institucionalização seria igual. Estas
pessoas significativas transmitiram-me valores, carinho e afectos;
ajudaram-me a ultrapassar os momentos menos bons e as dificulda-
des tanto ao nível emocional como ao nível físico. Encontrei nesta

358
CONCLUSÃO

instituição mais uma família, um pouco maior do que as famílias


convencionais, mas forrada de valores e afectos.
Sinto que o acompanhamento ao longo de todos estes anos foi
um acompanhamento dedicado, interessado, sinto que o acompa-
nhamento deixou crescer uma criança frágil. Cresci e agora já sou
uma jovem adulta, que se encontra ainda institucionalizada, mas
num processo de autonomização, a terminar um curso superior.
Conto ainda agora com o apoio de pessoas significativas pertencen-
tes à instituição e outras pessoas com as quais fui criando um rela-
cionamento muito próximo e que fazem parte de mim e do meu
dia-a-dia.

Depoimento de uma Técnica


A mudança de paradigma na qualificação dos recursos sociais

Promover um acolhimento de excelência, proporcionando a


todas as crianças e jovens que nos são confiados condições para
um desenvolvimento harmonioso, integral e integrado, com par-
ticular atenção sobre todas as dimensões do ser humano – fisio-
lógicas, psicológicas, emocionais, afectivas e intelectuais –, é uma
tarefa que nos envolve a todos quantos directa, ou indirectamente,
com eles construímos e partilhamos o seu quotidiano, cumprido a
nobre missão que nos está confiada de promoção e protecção dos
seus direitos. Não substituindo a família, como célula de excelên-
cia, onde o ser humano deve crescer e desenvolver-se harmoniosa-
mente, o nosso papel, enquanto modelos e figuras de referência,
tem de representar para estas crianças e jovens o «colo», securizante
e disponível, que os ajudará a ser confiantes e a ter esperança na
construção do futuro.
Enquanto alternativa ao sistema familiar, o sistema de acolhi-
mento tem de ser um garante de melhoria de situação e oportuni-
dades de desenvolvimento das crianças e dos jovens que acolhe e
protege.

359
ACREDITAR NO FUTURO

No âmbito do sistema de acolhimento, as residências de autono-


mização vieram preencher, de algum modo, um «vazio», enquanto
espaço de treino e consolidação de competências, constituindo um
instrumento gerador de respostas mais directas e consequentes às
necessidades dos jovens na sua preparação e passagem da fase da
juventude à fase adulta.
A minha experiência de trabalho com jovens, em processo de
autonomização, veio consolidar a ideia pré-existente da importân-
cia da emergência deste tipo de resposta social, com a criação de
espaços adequados que, pela sua dinâmica, se constituem como
espaços de reforço, no seu processo de preparação contínua para a
plena autonomização. Para melhor responder ao processo de tran-
sição do jovem para a vida adulta, este tipo de recurso social deve
estar estruturado para um número reduzido de jovens, que não
deve ser superior a quatro.
Este espaço de preparação para a plena autonomização surge,
assim, como um espaço vivencial de excelência no sentido da pro-
moção e incentivo a uma postura o mais autónoma possível, que
passa, entre outras vertentes, pela assunção de responsabilidades e
capacitação para a tomada de decisões de forma independente, bem
como pelo estabelecimento de objectivos pessoais e definição de
estratégias para a sua concretização.
Os jovens precisam de espaços diferentes que potenciem o seu
pleno desenvolvimento e capacitação, quer ao nível das infra-es-
truturas comuns, quer ao nível do treino e reforço de competên-
cias pessoais e sociais. No seu processo de preparação para a vida
adulta, o jovem precisa de um espaço adequado onde possa apren-
der como se faz, fazendo, e as residências de autonomização dão-lhes
a possibilidade de, num processo continuado e evolutivo, treinar e
sedimentar as suas competências, assumindo com sentido de res-
ponsabilidade as diferentes etapas e dimensões do seu processo de
autonomização. Nestes espaços vivenciais são eles que gerem, por
si, ainda que com algum enquadramento e acompanhamento téc-
nico, as diferentes dimensões do seu quotidiano.

360
CONCLUSÃO

A passagem por este tipo de recurso deve funcionar como uma


«ponte» que permita ao jovem beneficiar de condições para ensaiar
o futuro, para que quando este se transforme em presente o saiba
gerir de forma assertiva e competente.
Substituto que acaba por ser da família, o sistema de acolhi-
mento, do qual todos, e cada um de nós que o integra, corporizam,
tem de estar preparado e responder às necessidades específicas de
cada etapa do processo de desenvolvimento e autonomia da popu-
lação a quem serve e para quem se destina, de uma forma cada vez
mais incisiva.
É extremamente gratificante constatar que crescer e chegar à
fase de preparação para a vida adulta em ambiente institucional
é cada vez menos estigmatizante para um número significativo de
jovens, que se sentem mais seguros e confiantes na construção do
seu futuro, face à mudança de paradigma que se tem vindo a imple-
mentar, no âmbito da qualificação dos recursos sociais onde eles se
integram.

361
BIBLIOGRAFIA

AMORÓS, Pere e PALACIOS, Jesus (2004), Acogimento Familiar. Alianza Ensayo.

ALBERTO, I. M. (2004), Maltrato e Trauma na Infância. Almedina.

BLEANDONU, Gerard (2003), Apoio Terapêutico aos Pais. Climepsi Editores.

BRACONNIER, A. (2000), As Mil Faces da Adolescência. Climepsi Editores.

BRILMAN, Jean (2000) – As Melhores Práticas de Gestão. Edições Sílabo.

DANZIGER, C. (2002), Violência das Famílias. Climepsi Editores.

DEL VALLE, J. F. e GARCIA QUINTANAL, J. L. (2006), Umbrella, Habilidades para


la Vida. Oviedo. ASACI. Edição em CD.

Direcção de Acolhimento e Desenvolvimento da Infância e Juventude – Manual


de Boas Práticas no Acolhimento Institucional (2007) SCML.

FERNANDÉZ DEL VALLE, J. & ZURRITA, J. (2000), El Acogimiento Residencial en


la Protección a la Infancia. Ediciones Pirámide S.A.

FLEMING, M. (2004), Adolescência e Autonomia. Edições Afrontamento.

FREIRE, Adriano (2003 ) – Estratégia de Sucesso em Portugal. Verbo Editores.

GAMMER; C. & CABIÉ, M.C. (1999), Adolescência e Crise Familiar. Climepsi


Editores.

Grupo de coordenação do Plano de Auditoria Social Instituto de Segurança


Social e CID, Crianças, Idosos e Deficientes – Cidadania, Instituições

363
ACREDITAR NO FUTURO

e Direitos (2001), Manual de boas Práticas: um guia para o acolhimento


residencial das pessoas com deficiência, ISS.

LOPEZ, F. (1995), Necessidades de la infância y protección infantil. Fundamen-


tácion teórica, classificacion y critérios educativos. Ministério do Trabajo y
Assuntos Sociales.

Manual de Gestão da Qualidade – Lar de infância e juventude. (2009) Instituto


da Segurança Social.

MCNELL, Art e Clemmer, Jim (1988), Como Liderar – estratégias de sucesso em


gestão de empresas e serviços. Edições 70.

Modelo de intervenção em Acolhimento Residencial – Gobierno de Cantábria


e GIFI (2008).

Plano de Intervenção Imediato – Relatório de caracterização das crianças e


jovens em situação de acolhimento. (2009) ISS

RAMIÃO, T. A. (2003), Lei de Protecção de Crianças e Jovens em Perigo. Lisboa,


Quid Juris Sociedade Editora.

RODRIGO, M. J. y PALACIOS, J. (1998). Familia e desarrollo humano. Madrid:


Alianza Editorial.

Respostas sociais, momenclaturas / conceitos. Lisboa, 2006. Ministério do


Trabalho e da Solidariedade Social.

SILVA, A. (2004), Desenvolvimento de Competências Sociais nos Adolescentes.


Climepsi Editores.

WHITAKER, D.; Archer, L. e Hicks, L. (1998) Working in Children’s Homes.


Challenges and Complexities. Chichester. Wiley.

364