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INSTITUTO SUPERIOR MUTASA

DEPARTAMENTO DE DIREITO
SOCIOLOGIA DO DIREITO – 1º ANO – DIURNO e NOTURNO - 1º
SEMESTRE - 2020

SOCIOLOGIA E DIREITO
O sistema jurídico visa disciplinar a vida em sociedade, segundo uma certa
ordem de valores, importa que as suas normas se adequem ao sentimento de
justiça dos respectivos destinatários, sob pena de serem por estes rejeitadas –
o que em última análise levaria á sua ineficácia

O direito penal substantivo é a axiologia elevada a letra da lei, é o seguimento


axiológico e normativo. O direito penal representa aquilo que uma sociedade
desvaloriza. Representa aquilo que são os desvalores duma sociedade,
representa os comportamentos reprováveis pela sociedade.

Ora, estes desvalores são codificados e elevados a tipos legais de crime para
que sejam do conhecimento geral da mesma sociedade. Ora, aquilo que é
desvalor numa determinada sociedade pode não o ser em outra, pois, cada
sociedade tem as suas normas e valores como também tem os seus
desvalores.

Segundo o professor Dário Moura Vicente, a eficácia das normas do Direito


legislado, não obstante as reformas que este possa favorecer, é muito reduzida
“em virtude do seu escasso enraizamento no contexto político, económico e
social em que as regras legais devem operar.”

Por isso, urge compreender o fenómeno cultural dos povos. Existem muitas
culturas; cada grupo de indivíduos humanos estabelece os significados do

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mundo natural e humano que o rodeia e, a partir daqui, elabora valores e exige
regras de conduta social. Apesar de se reconhecer a imutabilidade da cultura,
na verdade, ela está sempre em transformação, seja alterando mais ou menos
em profundidade os seus valores e práticas de forma autónoma, seja por
influência de outras culturas, acrescentando ou incorporando valores e práticas
de outros povos e lugares.

De qualquer forma, não devemos nos referir a determinada cultura como algo
que se conserva ao longo do tempo, mas tão-somente que o conjunto dos
valores, regras e comportamentos de um determinado grupo humano os
identifica como sendo diferentes e únicos. Como advoga Sacadura Rocha
(2008), uma cultura tem história; uma cultura está em permanente mutação.

E, uma lei que seja estrangeira, vigente em Moçambique não representa a


nossa realidade concreta e actual tão pouco espelha aquilo que são os valores
e desvalores moçambicanos. O legislador não teria sensibilidade jurídica sendo
nós obrigados a aplicar uma legislação cujo destinatário não corresponde
àquele concebido pelo legislador mas que se tornou por extensão.

O Legado da Escola Científica na aplicação do Direito

A Escola Científica surge como uma reacção á concepção legalista e


dogmática do direito. Esta nova doutrina de pensamento recusa-se a
considerar a lei como única fonte de direito; admite a sua preeminência embora
entenda que o costume, a jurisprudência, a doutrina e a equidade devam
também ser reconhecidos como fonte de direito.

Segundo o legado desta Escola, “o juiz deve procurar as soluções mais justas
e mais adequadas como complemento às normas impostas pelo legislador”,
tendo em consideração “todas as modificações que se verificaram nas ideias,
nos costumes, nas instituições, no estado da economia e das sociedades.”

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Nos termos desta corrente, o juiz não deve obstinar-se em procurar determinar
qual foi o pensamento do legislador ao redigir este ou aquele artigo, há cem
anos. Segundo aquele jurista, o que se deve perguntar é qual seria o seu
pensamento se o mesmo artigo fosse redigido hoje.

É pela livre investigação científica que o jurista deve esforçar-se por revelar o
direito do seu tempo: deve tomar em linha de conta todos os elementos
constitutivos do estado actual do direito; a sua pesquisa deve ser orientada
pela história e evolução das instituições, no espaço e no tempo.

Os progressos feitos pela sociologia jurídica e pela filosofia do direito devem


ser utilizados para uma melhor compreensão das normas jurídicas da vida
actual. O jurista deve considerar as experiencias feitas, os sucessos e
fracassos que resultam dos movimentos constantes do direito. “Deve procurar
a expressão do justo e não exclusivamente a vontade do legislador.”

O positivismo legalista ainda continua vivaz na jurisprudência moçambicana,


onde o juiz, constrangido moralmente ou pelos superiores tribunais (lei,
consciência, CRM1) procuram ainda basear sempre as suas decisões num
texto legal, como condição essencial para a segurança jurídica.

Tal é o legalismo que professa que a ciência do direito deve permanecer


puramente jurídica de influências sociológicas, políticas, antropológicas,
culturais ou éticas, pois, o direito é um conjunto de normas estabelecidas pelo
Estado, deduzido de uma norma fundamental que implica a submissão á
Constituição.
1
Sobre este postulado, A CRM dispõe a independência dos juízes e o seu dever de obediência apenas á
lei, no âmbito do exercício das suas funções (Cfr; n.º1, do artigo 217); por sua vez, na senda do mesmo
postulado, a lei 24/2007, de 20 de Agosto estipula que, no exercício das suas funções, não obstante a sua
independência e sua imparcialidade, o juiz deve estrita obediência á Constituição e á lei (Cfr; n.º1, artigo
10) e á sua consciência, livre de qualquer coação ou de ordens superiores, salvo nos casos de acatamento,
pelos tribunais inferiores, das decisões proferidas, em via de recurso, pelos tribunais superiores (vide
artigo 4, da Lei n.º 7/2009, de 11 de Março).

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Afirma o professor Dário Moura Vicente que na base do princípio da conciliação
– método próprio dos sistemas jurídicos africanos – “resulta a necessidade de
proceder a uma aplicação flexível das regras vigentes”, pois, o que se tem em
vista não é tanto a justiça nas relações inter-individuais, mas sim, a
preservação da harmonia no corpo social.

Do que ficou dito, pressupõe-se que as normas do direito sejam adaptadas às


circunstâncias do caso concreto por aquele a quem foi confiada a sua
aplicação.

O juiz não deve aplicar os princípios do direito natural em toda a sua pureza
mas conforme as circunstâncias do caso concreto, ele tem de atender a todas
as condições (sociológicas, antropológicas, culturais, políticas, económicas,
etc) que um dado caso reveste de modo a, realmente, fazer justiça.

Nesta linha de pensamento, alguns doutrinários defendem a aplicação do juiz


natural mais do que do legalismo (em obediência a critérios técnico-jurídicos na
elaboração das sentenças) mas, sim, obedecendo aos critérios morais
absolutos de equidade, de justiça (justiça do caso concreto), da consciência e
procurando respeitar e satisfazer os interesses e sensibilidade da própria
vítima.

TIPO DE ESTUDO: AUTÓNOMO.


TAREFA: TRABALHO INDIVIDUAL.
a) SOBRE ASPETOS RELEVANTES PARA A SOCIOLOGIA DO
DIREITO CONSTANTES DO TEXTO

b) RESUMO, NUMA PÁGINA, O CONTEÚDO CENTRAL DO TEXTO.

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O presente trabalho decorrerá no período de suspensão das aulas
presenciais conforme decretado pelo governo moçambicano.

Qualquer dúvida sobre procedimentos, contacte-se a coordenação do


curso de Direito do MUTASA.

Elaborado aos 27 de Março de 2020.

O docente

Ilídio Maluleque