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INTRODUÇÃO

Segismundo Spina
1. Dudos biográficos

GIL VICENTE, como outros grandes gênios da literatura ocidental


— desde Homero a Camões e Shakespeare — não tem uma biografia se-
gura: ignora-se o lugar de seu nascimento (Guimarães, Barcelos, Lisboa -
-— ou algum ponto da Beira), como se ignoram as datas de sua exis-
tência (nascido em 1465, 1466? Morto em fins de 1536? Ou mesmo em
1540, quando surge um documento que dá como já falecido neste ano?).
Tudo leva a crer que viveu aproximadamente entre 1465 e 1537. De seu
ofício como ourives da Rainha Velha D. Leonor — sua grande protetora
—, bem como de sua formaçãointelectual, pouco sabemos. As conclusões
documentais a' que chegou o seu magno biógrafo Anselmo Braamcamp
Freire(1) identificando o poeta com o ourives autor da famosa Custó-
dia de Belém, são hoje novamente postas em dúvida por historiadores
autorizados da literatura portuguesa(2). Tendo-se em vista umarelativa
extensão de conhecimentos que a sua obra revela — especialmente teoló-
gicose filosóficos —, Gil Vicente deveter freqiientado alguma escola do
tempo, ou, na melhor hipótese de Carolina Michaelis, ter sidoorientado
por algum religioso culto quando o Poeta viveu a sua adolescência em
alguma parte da Beira(3). Gozando de grande prestígio na corte, de que
se valia para fazer do seu teatro um instrumento de ataque às mazelas de
todas as classes sociais desde o homem do campo aorei e ao papa, Gil
Vicente proferiu, em 1531, no claustro de São Francisco de Santarém,
perante grande número de religiosos, um veemente sermão em que os
censurou por explicarem o terremoto que abalou o país nesse ano como
“castigo contra a falta de fé dos cristãos-novos. Pôs em evidência a in-
qualificável superstição dos frades, apresentando-lhes e ao povo uma
Ão :
explicação racionalda catástrofe. Gil dá conta deste sermão numacarta
DÉCIO DE ALMEIDA PRADO, que. dirigida a el:Rei D. João III, onde se refere de passagem à sua idade
muito tem feito pela culturaliterária e.
avançada Encarregado da preparação dasfestas palacianas, e mestre da
teatral em nossá terra, :
0000

balança da Casa da Moeda, desfrutou uma situação bem cômodae pro-


dedica
picia a garantir a longa trajetória dramática de 34 anos, desde a sua
. SEGISMUNDO SPINA primeira peça 4 Visitação do Vaqueiro (1502) à representação de uma
comédia em Évora, intitulada Floresta de Enganos (1536). Também não
8 o Ca GIL VICENTE
“o
PME e As
INTRODUÇÃO 9

“há provas segujas de queGil Vicente houvesse sido “mestre de retórica” Temos aí um: depoimento completo: o deslumbramento com as re-
“ do futuro rei D. Manuel. O queé indiscutivelmente seguro é que a suavi-
presentações do teatro vicentino — que o Cronista deve ter acompanhado
da decorreu entre quatro reinados, de D, Afonso V a D. João III, tendo
até o ano em que Gil Vicente deixou de representar, pois é em 1536 que
assistido de corpo e alma às mais profundas transformações na história
morre Garcia de Resende; a inspiração inicial de Gil Vicente no teatro
portuguesa, desde os alvores do Renascimento à heróica empresa do
eglógico espanhol de Juan del Encina; e um julgamento altamente es-
império ultramarino.
Se nos lembrarmos ainda de que Gil Vicente participou no processo timado da arte vicentina: a presença expressiva do estilo — como quem
diz a superioridade estilística do texto literário —; a constante renovação
poético de Vasco Abul que está no Cancioneiro Geral de Garcia de
Resende (vol. V, págs. 261-263); que acompanhou a corte a Évora, à
“dos temas e das formas, a primazia dessa arte em terras portuguesas e a
Coimbra, a Tomar, a Almeirim para divertilla com seus autos, en- superioridade de suds criações, pelo talento cômico e pela estrutura
doutrinária dos seus temas.
tremeses de música e bailados compostos e encenados por ele mesmo;
que em 1512 se teria casado pela primeira vez com Branca Bezerra, e que Sem tradição dramática atrás desi, Gil Vicente volta-se, então, para
a experiência espanhola de Juan del Encina sobretudo, buscando aí as
a: segunda mulher se chamava Melícia Rodrigues; que a filha Paula
Vicente foi música e aia da infanta D. Maria,e que Luís Vicente reuniu a
sugestões iniciais para o seuteatro pastoril da primeira fase. Desde a sua
primeira peça, o Monólogo do Vuqueiro (ou Auto da Visitação) recitado
produçãoteatral do pai e em 1562 a publicou com o título de Copilaçam
aos 6 de junho de 1502 na câmara da rainha D. Maria, um dia após o
de todalas obras de Gil Vicente, pouco mais sabéemos da vida desse
nascimento do príncipe D. Jóao — futuro rei D. Joao III —, peça que
extraordinário talento dramático que no juízo de Menendez y Pelayo foi o
lembra o Auto del Repelón de Juan del Encina, até à sua primeira obra
- maior artista da Europa de seu tempo(4).
cômica, o Auto da India (1509), Gil Vicente pratica'um teatro moldado
na pastoral dramática espanhola, inclusive pela língua. O Auto du India,
2. Carreira dramática emborabilíngiie, inaugura o uso da língua nacional que passa a competir
com a castelhana ao mesmo tempo que dá início ao seu teatro de crítica
social e se desprende do modelo espanhol.
Antes do aparecimento de Gil Vicente, não podemos falar num tea- O gênio criador de Gil Vicente, apoiado numa extraordinária voca-
tro em Portugal, não obstante possamos respigar algumas notícias de ção poética e numa apreciável formação intelectual, supera ime-
dramaturgia religiosa durante a Idade Média e alguns documentos de diatamente a enformação estética espanhola e acaba por consolidar o
teatro alegórico na época de D. JoãoII, um teatro à base de pura ceno- gênero em Portugal com a sua fecunda produção dramática.
afia e em que a palavra literária esteve quase inteiramente ausente. Insistindo agora na farsa e depurando cada vez mais o teatro reli-
Anrique da Mota, poeta do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende gioso, Gil Vicente atinge a sua maturidade artística entre os anos de 1515
(1516), conquanto nosajude a compreender algumacoisa da dramaturgia e 1521, em que na dramaturgia religiosa produz as suas melhores cria-
vicentina (Léite,de Vasconcelos: fizera um paralelo entre a sua Farsa do ções: a trilogia das Barcas e o Auto da Alma. No Auto da Embarcação do
Alfaiate e o Juiz da Beira (1525) de Gil Vicente), a sua produção, mais Inferno, bem como na trilogia toda, Gil Vicente não só associa ao teatro
para ser lida, não passa de um humilde outeiro ao pé de uma mon-.--"” religioso o de crítica social iniciado em 1509, mas reabilita o próprio
tanha(5). O própriocompilador desse Cancioneiro, Garcia de Resende — mistério medieval, gênero que estava em vias de desaparecer. Entre 1521
o cronista de D. João II — deixou-nos o testemunhode que o teatro de e 1524 Gil Vicente orienta-se de preferência num teatro alegórico e
Gil Vicente era uma novidade extraordinária no seu tempo: romanesco, e neste realiza a sua obra mais perfeita com a criação da
Farsa de Inês Pereira. A partir daí a produção não assume uma
tendência estética definida, mas pratica as formas e tipos já ex-
E vimos singularmente . .
. perimentados nas fases anteriores: teatro alegórico (Nau de Amores.
fazer representações” -
“Auto da Festa, Triunfo do Inverno, Frágua do Amor etc) e teatro de
de estilo mui elogiiente,
crítica social (Farsa dos Físicos, Juiz da Beira, Farsa dos Almocreves.
de mui novas invenções,
Romagem de Agravados etc.).
e feitos por Gil Vicente;
ele foi o que invento
a
A interrupção do teatro vicentino em 1536 não se explica pela in- .
isto cá, e o usou dio tervenção da Censura Inquisitorial, pois a 1.2 edição do Index (28 de
com mais graça e mais doutrina outubro de 1547) não proíbe nenhuma peça vicentina: em 1536 estava o
posto que Juan del Encina Poeta com setenta e tantos anos (76 a crer-se na data presumível de
nascimento por Braamcamp Freire) e no Prólogo que escreveu para as
o pastoril começou(6).
suas obras, (saído na Copilaçam de 1562) fala Gil na “pena da minha
10º . “GIL VICENTE
INTRODUÇÃO A
4a

velhice”, referindo-se ao sacrifício que lhe custava então a revisão e pre-


paração de sua obra com vistas à publicação. . suas personagens, a ponto de entrar já pelo burlesco; excede-se na
a.
pintura da miséria humana. Se o faz, não é com o intuito de mostrar que
a vida terrena eraassim na realidade, mas para pôr mais em evidência o
0% x
outro lado da vída, a alegria de uma vida pura que convinha preferir, a
fim de se alcançarem as glórias prometidas por Deusna vida eterna.
Vivendo em pleno Renascimento, é curioso que Gil Vicente Gil Vicente niunca atacava instituições: atacava, sim, os homens que
não se
deixe empolgar por aquela concepção horizontal da vida —em nela prevaricavam. Na sátira ao clero, cuja soltura de costumes — desde
que o
homem é a medida de todas as coisas —, tão característica dos a simonia à vida amanicebada — vinha-se agravando a partir dosfins da
grandes
espíritos de seu tempo. Longe do paganismo da época, nasua obra Idade Média, Gil Vicente-não fazia mais do que colaborar com a própria
está
evidente uma concepção cristianíssima da vida, e da mais rigoros Igreja no trabalho de' preservação dos inocentes e de recuperação dos
a or-
todoxia(7). A sátira e as peças pias estão continuamente a serviço do religioos transviados: Nasconstituições sinodais de Braga (que atestam
inissionário, preocupado na edificação do homem e na sua subordinação inclusive a existência de um teatro religioso pré-vicentino nos moldes do
à Providência. teatro litúrgico medieval), nas constituições de Coimbra e Lisboa en-
|
Suas peças dão-nos a sensação de quem escreve num inteiro à vonta- contramos o testemunho desse:serviço da Igreja na profilaxia dos cos-
de, com a mais franca autonomia. Gozando naturalmente
de uma li-
tumes de um clero acostumado à jogralia, aos torneios, à fregiiência de
berdade de espírito na corte em que vive, explica-se que Gil Vicente fusti- casas de tavolageim,às touradas, ao concubinato(8). .
gue de forma impiedosa toda a sociedade de seu tempo, desde o papa, o Nessé particularGil Vicente parece estar ligado a um movimento
rei, o alto clero, até à mais .baixa classe social: os. feiticeiros, as al- pré-reformista de ascendência raimonista e de fundo franciscano que
coviteiras e os agiotas. A galeria de tipos é riquíssima e variada; os vícios floresceu na Península em fins do século XV; daí alguns críticos e his-
da.época são incontáveis ede toda a espécie: ridiculariza a imperícia dos toriadoresda literatura haverem pensado nas afinidadesentre a doutrina
médicos = na Farsa dos Físicos; as práticas da feitiçaria — no Auto das de Erasmoe certas idéias do dramaturgo português. Independente de
Fadas; a bazófia nobiliárquica — na Comédia sobre a Divisa da Cidade qualquer filiação direta, Gil Vicente pode até ser considerado ''um
de Coimbra, na Farsa do Escudeiro e na Farsa dos Almocreves; o crasmista da cabeça. aos pés” — como dizia Menendez y Pelayo: “su
relaxamento dos costumesclericais — no Clérigo da Beira, no Auto da obra, por la tendencia demoledora, se da mano con los Coloquios de
Burca do Inferno, na Inês Pereira; a simonia — no Auto da'Feira e no da Erasmo, cor él Elogio de la locura, con el Diálogo de Mercurio y
Barca da Glória; a corrupção no seio da família — no Auto da India; a Carion"(9) As idéias: pregadas por esse movimento pré-reformista
nobrezaa viver na sua fatuidade e à custa do trabalho alheio — na Farsa peninsular (dos“alúimbrados”) se ligam certas manifestações do teatro
dos Almocreves; os adeptos da astrologia — na figura de Mercúrio, logo vicentino, tais comoa crítica aos jubileus, às estações, às indulgências ea
no início do Auto da Feira. Esta peça, aliás, é uma condenação sumária | outras formas dé remissão dos pecados (Auto da Feira); a condenação
da degradação moral reinante no Renascimento, de uma época em que o da oração com fins-utilitários (no Auto da Cananea Gil Vicente postula
Céu e Deus perdem respeito e o temor dos homens, e em que o dinheiro..- - úm tipo de oraçao compatível com aquela pregada pelos “alumbrados”,
se torna a mola mestra da vida.: Gil Vicente não perdoou inclusive a totalmente espiritual); e a escassíssima simpatia pelo culto dos santos,
galantaria cortesa, eo próprio gosto petrarquista das antíteses foi por ele condenada por Lutero como idolatria(10).
ridicularizado, na figura de Colopêndio, que na Romagem de Agravados O que torna imortedouro o teatro vicentino é, não só esta visão total
expressa de maneira muito cômica os- seus 'desencontrados estados de uma época complexa e grande na história da cultura ocidental, mas o
sentimentais ocasionados pelo ardor passional: ..» tratamento de temas universais e a presença dominante de um lirismo
Nas suas contínuasdeslocações, a:corte portuguesa leva consigo, por . carregado dos valores mais legítimos da inspiração poética. Foi a
um lado as Colgaduras que representavam, numa espécie de teatro - ausência desse lirismo e a conseqiiente insistência nos aspectos cômicos é
mudo, toda a grandeza heróica do Portugal manuelino; por outro lado, grosseiros da representação, que levaram ao declínio o teatro post-
o teatro de Gil Vicente, fazendo pendant a esta euforia do homem - -vicentino. A poesia de Gil Vicente não reside apenas na forma com que
quinhentista, representava ao vivo as mazelas de úma sociedade minada deu corpo ao seu teatro; está sobretudo nos grandes momentos líricos em
pela própria grandeza do momento histórico em que vivia. O seu teatro . que mergulham muitas de suas personagens (nas suas reflexões, nos
divertia, mas também ensinava. Sem o querer — talvez mesmo sem'o momentos de prece, ou nas conquistas amorosas); está nesse mundo de
suspeitar —, realizava o dramaturgo a fórmula horaciana pregada em' pureza pré-adâmica em que se movimentam os seus pastores; está no
sua Arte Poética: delectando pariterque monendo, deleitar e recheio musical: de suas cantigas tradicionais (desde as primitivas
ao mesmo
tempo instruir. Mas dirão: Gil excede-se na caracterização cômica paralelísticas aos vilancetes tão em voga nos fins da Idade Média); está,
de
também, nas admiráveis descrições da natureza. As primitivas fontes do
GIL VICENTE '
INTRODUÇÃO 13

* seu teatro são, pois, poéticas, desdea égloga ao simbolismo dos mistérios,
ciência crista do homem ocidental, torturado pela idéia de que possui
desde o folclore poético nacional ao seu franciscanismo. O seu teatro
seria tânto mais teatro na medida em que se libertasse desses vínculos
uma alma para salvar. O tema romântico da ''mésalliance”, que ingressa
-um pouco tarde na novela passional camiliana, já tem o seu esboço no
. primitivos da poesia. Talvez por isso Fidelino de Figueiredo chegasse a
teatro vicentino, quando o dramaturgo censura os pais que destinam seus
pensar que a sálvação da dramaturgia vicentina residiu na in-
filhos para o casamento, à revelia dos próprios interessados; em Camilo
dividualidade poética do autor(11). - também proliferam as freiras sem vocação, impostas à vida religiosa pela
A compensar a penúria da montagem cênica, o arbitrário da es- vontade paterna. Os pais que surram os filhos, o desleixo,da donzela que
trutura interna de suas peças, a incapacidade de transportar o drama
traz constantemente os cabelos em desalinho, a costura de um tra-
para as suas criações novelescas. está o alto poder de Gil Vicente na
vesseiro, a lavagem da louça e o trabalho com o fuso e. a roca, estas ba-
descrição dos tipos, na sucessão de extraordinários quadros à maneira
gatelas da vida caseira que a literatura clássica desconheceu com-
das novelas de cavalaria, e um sopro de lirismo autêntico, num tes-
pletamente e. só os escritores do século XIX conseguiram incluir no
temunho elogiiente de senso artístico: um teatro montado segundo um
temário da literatura, são outras tantas notas que o realismo descritivo de
formalismo estético estaria fadado a não conseguir a colaboração do
Gil Vicente não se esqueceu de registrar.
público como realmente não conseguiu o teatro renascentista que Sá de
Miranda tentou em 1528, depois que regressou da Itália.
É neste sentido que Gil Vicente é muito mais realista do que
O desprezo por aquelas categorias que deram a arquitetura e o Camões. O poeta épico, na glorificação da ufania heróica e da grandeza
- equilíbrio do teatro clássico, a sucessão das cenas como num teatro de re- do homem do século XVI, deixou-se levar pela embriaguez géstica do
vista, fazendo o público desfilar com todos os seus vícios perante tempo, de que foram vítimas sobretudo os homens do reinado manuelino,
si embriaguez essa que sublimava o poder dos homens e deformava um
mesmo, constituem: todo o encanto da arte vicentina e as condições
necessárias para a sua perenidade. pouco a realidade histórica, crescida e mitificada na imaginaçãocoletiva.
O seu teatro não é apenas umavisão da sociedade de seu tempo em * Gil Vicente, ao contrário, preferiu o retrato vivo da sociedade do tempo,
através das suas misérias, mas em todos os recantos. Se Camões expressa
todos os pormenores: é a visão da vida do homem na sua totalidade,
desde os mais prosaicos problemas da vida doméstica às mais dramáticas a grandeza do homem de Quinhentos, a aventura do espaço e a superação
situações morais. Nesta peça é Gil Vicente a focalizar a corrupção da das forças adversas da Natureza, Gil Vicente procura exprimir as
família, o desprezo do trabalho e o abandono do campo, ocasionados pelo misérias da vida, o homem na sua pequenez, o homem preso às reali-
espírito de aventura do homem de seu tempo: Gil Vicente inclui-s dades terrenas, o homem que precisa purificar-se para a salvação de sua
e .no, alma. O que os aproxima é o sentimento cristão: no Épico, expresso pela
símbolo camoniano do Velho de Restelo, que encarna no poema o
sentimento de oposição contra a febre obsessiva da aventura marítima, e consciência de cruzada a que se destina o seu povo na dilatação da Fé; no
o espírito crítico legado pelo movimento humanístico; em outra peça dramaturgo, subentendido noefeito purificador de sua arte, a ensinar a
encontramo-loa daro devido corretivo para as alcoviteiras, figura que
renúncia e propor o caminho queleva à salvação.
dá Se Gil Vicente procura, pois, retratar ao vivo a sociedade coetânea,
uma nota pitoresca à baixa sociedade peninsular e adquire foros no
temário da literatura espanhola e portuguesa; mais-além é o quadro as misérias morais e políticas de então, é perfeitamente explicável que,
”— dentro deste programa previamente traçado para o seu teatro, não se
realíssimo da corja de mulatos, mourose escravos negrosque, à custa
de ajustava o elogio do homem renascentista, a exaltação dos valores épicos,
expedientes de rapina, estão a recolher os resíduos-das naus que aportam
abarrotadas das especiarias do Oriente: agora a figura quixotesca do no- do heroísmo embriagador dos homens de Quinhentos. Matéria dessa
bre decadente, a viver de fantasias, inteiramente divorciado da realidade ordem brigava com a índole de seu teatro, pois Gil Vicente trazia
social; logo mais é o clérigo preténsioso, quetudofazpara galgar melhor presente no espírito a função purgadora da dramaturgia. Isto não im-
Q pediu, entretanto, que chegasse a escrever o Auto da Fama onde exalta os
posição na hierarquia religiosa; depois, -omédico charlatao, a ostentar
uma falsa erudição para impressionar a sua clientela. E, para esse feitos portugueses; todavia, no prólogo é manifesto o espírito como Gil
desenrolar contínuo, variado, flagrante, de quadros e de tipos, a Vicente exalta a fama portuguesa: “principalmente pelo infinito dano
Renascença ofereceu a Gil Vicente a substância necessária com que que os mouros,inimigos de nossa fé, recebem dos portugueses na índica
animar o seu teatro durante 34 anos. Mas não foraim apenas caracteres e navegação”. Os clássicos pensaram na salvação do homem através de
aspectos extraídos da realidade que o rodeava: Gil Vicente intuiu si- uma fórmula puramente humana: a fama, a imortalidade terrena; Gil
tuações, motivos e temas de interesse universal, que vieram a: ser ex- Vicente, semprevinculado a uma consciência cristã fortemente medieval,
o a

Plorados mais tarde pela literatura dos séculos XVII, XVIII e XIX: imaginava a perfeição e sublimação do homem através da pureza da fé,
o da oração essencialmente contemplativa e desritualizada, da crença na
tema caracteristicamente barroco do homem nasuavida dilemática
entre vida ultraterrena e na salvação através davida virtuosa.
as forças do Bem e as solicitações sedutoras do Mal; a própria
cons-

ioE TTeira E
14 GIL VICENTE INTRODUÇÃO 5

3. Terminologia e classificação . chamaram estas representações teatrais peninsulares por conterem


apenas um ato) eram composições dramáticas de caráter religioso, moral
ou burlesco (mas preferentemente devoto e com personagens alegóricas)
Uma classificação literária da produção teatral de| Gil Vicente é desenvolvidas ao longo da Idade Média, de cujo teatro religioso se ori--
quase impraticável se pensarmos em fórmulas rígidas. Escrevendo numa ginaram, adquirindo sua forma típica na Península Ibética entre os
época em que o teatro medieval entra em decomposição; assimilando,- séculosXV e XVI;-Suas origens se prendem às representações religiosas
como temário de sua arte, os mais: diversos argumentos — desde os do teatro medieval (aos “mistérios”, aos “dramas litúrgicos” e às
assuntos eglógicos aos extraídos do teatro religioso, desde às sugestões “moralidades”), portanto ligadas ao teatro litúrgico europeu, embora
alegóricas dos ''momos” puramente cenográficos aos episódios oferecidos não tenhamos hoje senão vestígios muitos imperfeitos dessas re-
pelas novelas de cavalaria; entrelaçando a sátira com a matéria religiosa, presentações peninsulares anteriores a Gil Vicente (em Portugal) e a Juan
o estilo direto com a alegoria, a moralidade com a mera fantasia alegórica del Encina e Lucas Fernandes (na Espanha). Neste país, todavia, tem-se
do teatro clássico (tragicomédia): e utilizando-se de designações já porsi notícia deuma peça: intitulada Auto de los Reyes Magos, datada de
“elásticas na sua acepçãoliterária (comédia), Gil Vicente mesmoe os seus * princípios doséculo XIII mas escrita provavelmente em finsdo século
compiladores tiveram dificuldades numasistematização literária de suas anterior, infelizmente incompleta, pois dela só restam 147 versos. Só no
peças. Como um artista tipicamente medieval não obstante escrevendo século XV,portanto três séculos mais tarde, é que vamos encontrar outra
em plena Renascença, Gil Vicente não aténde à distinçãodas formas li- mostra do auto na'súa-forma primitiva, com a peça de GomezManrique
terárias: cria segundo as solicitações de seu gênio, das circunstâncias (1412?-1490?) intitulada ' Representación del Nacimiento de Nuestro
ambientes e da matéria a ser representada. Desatento, portanto, aos Senor. Poucos anos depois, quando na Europa a voga destes dramas
princípios dramáticos que dao arquitetura definida às peças clássicas, o entra em: declínio, é Juan del Encina (1469?-1529?) quem dá con-
dramaturgo comporta-se numinteiro à vontade, preocupado apenás na tinuidade a esse teatro religioso com as suas Eglogas de la Natividad y de
caracterização psicológica e social de seus tipos e na estrutura poética do la Pasión, tepresentadás na capela dos duques de Alba em Salamanca;
texto. o Vo Lucas Fernandes, seu discípulo, também de Salamanca, com seus três
A designação de auto já nãoera clara ao seu tempo e a Copilaçam de autos de caráter religioso, dos quais o mais importante é o Auto de la'
1562 é imprecisa, muitas vezes confusa, na nomenclatura das peças Pasión; outro discípulo de Encina. Bartolomeu Torres Naharro (m.
vicentinas. Teófilo Braga, dentro de um sistema de caráter sociológico. 1524?), autorde umauto intitulado Dialogo del Nacimiento.
mas abstraindo do processo histórico anterior ao teatro vicentino, classi- Parase ter umia idéia da formação do auto e da sua evolução na li-
ficou a produção dramática de Gil Vicente em teatro hierático, teatro teratura peninsular, é preciso pensar na existência simultânea de um tea-
uristocrático e teatro popular. Discordando dela, e atendendo sobretudo tro profanô, embora conhecido apenas através de alusões de autores me-
a razões de ordem histórica e estética, Antônio José Saraiva apontou na dievais e de proibições constantes dos corpos legislativos da época —
vasta e múltipla população vicentina, a possibilidade de distinguir nove como, por exemplo,as Partidas de AfonsoX, o Sábio (1221-1284). Nelas
gêneros: o mistério romanesco, a farsa, a égloga ou auto pastoril, o se proíbe aos clérigos fazerem os chamados “jogos de escárnios”, peças
“sermão burlesco e o monólogo(12). Posteriormente, em 1959, depoisde” de caráter burlesco e destinadas às camadas populares. Procedentes ou
haver trilhado pelo notável capítulo Sobre Gil Vicente na suaHistória da não da baixa comédia latina ou ampliações dos elementos cômicos surgi-
Cultura em Portugal(13) e pelas sucessivas edições de sua História da . dos como concessão a um auditório popular nos próprios dramas li-
literatura portuguesa (feita em colaboração comOscar Lopes),o referido 'túrgicos, é inegável a sua relação com o teatro litúrgico: algumas delas
Autor ainda mantém a sua primitiva classificação, com pequenas mo- assumiam a forma de paródias religiosas e chegavam mesmoa ser re-
dificações, atendendo naturalmente às intençõesde:sua| obra(14). To- presentadasnosclaustros das igrejas — consoante se infere das próprias
davia confundiu-se na classificação de peças profanas(15) e utilizou-se, proibições afonsinas..É este teatro profano de “jogos de escárnios” que. .
um pouce impropriamente, da designação auto narrativo para rotular vai prolongar-se nos “pasos” e “entremeses” tão em voga noséculo XVI.
peças como o Velho da Horta, o Auto da India e a Farsa de Inês Pereira. A infiltração gradual de elementos profanosno teatro litúrgico, que pro-
E, tentando uma classificação mais esquemática, reduziu os gêneros piciou a transladação destas representações da igreja para a praça
dramáticos vicentinosa três tipos: a alegoria, o quadro (ouepisódio) e a pública nos fins da Idade Média, veio ampliar a primitiva feição religiosa
narrativa. e E - do auto, contaminando-o de elementos satíricos — bem visíveis ainda em
Se atentarmos para a gênese e a evolução do auto peninsular, várias peças do teatro devoto de Gil Vicente. Daí podermosclassificar os
teremos dificuldades de rotular as três farsas acima como autos. O' autos em três categorias fundamentais: sacros (auto típico), semiprofanos
simples fato de aparecerem contaminadas.por ingredientes poéticos do e profanos, todos porém entroncados no primeiro teatro religioso. Rela-
auto não nos autoriza a classificá-las como tal. Os autos (que assim se tivamente à temática, os primitivos autos destinayam-se a celebrar as
OL GIL VICENTE INTRODUÇÃO 17

festividadesteligiosas do Advento, da Natividade, dos Reis, da Páscoa, do ferentemente o versotípico da poesia popular: o redondilho maior ou
Corpus e das comemorações hagiográficas, em suma, do Nascimento e da menor(de cinco ou sete sílabas), dispostas normalmente em estrofes de 5
Morte do Senhor, os dois ciclos fundamentais de que se tem notícia deste a 10 versos(16). Os continuadores do teatro de Gil Vicente nos séculos
as Partidas afonsinas. Nestas representações entrelaçavam-se cenas XVI e XVII — Antônio Prestes, Antônio Ribeiro Chiado, Baltasar Dias,
pastoris e alegóricas com números de canto, diálogo e baile. O mistério Luís de Camões, D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666) — não conse-
da vida de Cristo teve um grande desenvolvimento no séculc XV fora guiram manter esse brilho da dramaturgia vicentina: a ausência do
da Península: são os Mystêres e Moralités na França, us - Sucre elemento lírico e o acentuado grosseirismo da expressão a roçar muitas
Ruppresentazioni na Itália, os Miracle Pluvs, na Inglaterra e os vezes pela obscenidade e portanto tornando esta produção imprópria
Weihnachtspiele na Alemanha. Mas é com Gil Vicente que o auto se de- para táblado, teriam sido as causas fundamentais desse declínio do tea-
fine e se caracteriza como forma dramática. atingindo com ele o seu tro popular e por conseguinte do auto. É em Espanha que o drama reli-
máximo esplendor no século XVI. A primeira tase de sua carreira dramá- gioso, em fins do século XVI, se desenvolve em duas direções — diz
tica, como vimos, marcada pela imitação das peças eglógicas de Encina, Ludwig Pfandl: o Auto sacramental, que permanece ligado à solenidade
caracteriza-se por uma produção de autos natalícios (desde o Auto do Corpus; e a Comédia divina, que, ao perder a sua estreita relação com
Pastoril Castelhano, escrito em espanhol e representado em 1502 nas ma- a festividade religiosa, se eleva a uma categoria especial do teatro popular
tinas do Natal, ao Auto da Cananea, em português e representado em espanhol(17). O chamado Codice de autos viejos, integrado por 9 pro-
1534 no Mosteiro de Oudivelas). Destes autos o tema possivelmente mais duções dramáticas, é o repositório, neste fim de século, de uma produção
. antigo é o que ven. desenvolvido por Gil Vicente no belíssimo Auto da Si-. que perpetua as diferentes formas do teatro religioso medieval: alguns
hila Cussandra (1510), onde Profetas da Bíblia e as quatro Sibilas gregas . autos sao de tipo narrativo ou historial (à volta do Nascimento e da
anunciam o Adventode Cristo. O tema ocorre num .homiliário do ano Paixao, de temas do Antigo Testamento, de vida de santos etc.); outros,
930. encontrado na Catedral de'Córdova, no qual aparecem asSibilas e o de caráter alegórico, constituem já os antecedentes do auto sacramental.
profeta Isaías, anunciando a vinda de Cristo, em latim e entremeado de O teatro de Lope de Vega (1562-1635) associa as tendências dramáticas
cantos moçárabes; o tema desta homília constitui um dos antecedentes tradicionais (a religiosa e a humanística), ajuntando--lhes elementos,
mais remotos do auto calderoniano, depois de reabilitado por Gil Vicente temas e conceitos caracteristicamente populares e nacionais; as peças de
no século XVI. Outros cvtos ligados ao primitivo tesnário da Natividade fundo. religioso repartem-se em Comédias ao divino, autos de Nas-
são: o Auto dos Reis Magos (1503), em que dois pastores se juntam aos cimento, autos sacramentais e dramas teológicos. Mas o auto
Reis no caminho de Belém para adoração do Menino-Jesus; o Auto de | sacramental só adquire a sua mais alta expressão artística com Calderón:
Mofina mendes (1534), em que o Anjo Gabriel anuncia à Virgem que nelá de la Barca (1600-1681), cujo teatro religioso compreende o auto desse ti-
encarnará o Senhor. Este auto, de composição heteróciita, uneos dois po e o drama teológicoefilosófico. E o auto chega, então, à sua fase final:
grandes mistérios: o da Anunciação e o da Natividade — com que ter- depois de Calderón esse teatro litúrgico de tradição medieval entra em
mina. Os outros autos, ou anunciam o nascimento de príncipes (como o, declínio; em 1763, ao tempo de Carlos III, os autos sacramentais são
da Visitação em 1502 e o Auto da Lusitânia em 1532), ou versam temas proibidos; o teatro religioso cede lugar ao teatro “ilustrado”, laico e
hagiográficos (como o Auto de São Murtinho, 1504), ou apenas incluem.” no neoclássico do século XVIII. Menendez y Pelayo definira o “auto
cantos de louvor à Virgem (como o Auto do Pastoril Português, 1523,e 0 sacramental”: “representação dramática em um ato, o qual tem por
“Auto da Feira, 1527). Um dos maiores encantos doauto vicentino reside tema o mistério da Eucaristia. Esta, pelo menos, é a lei constante nos
nos números de canto e baile interpolados segundo a tradição primitiva autos de Calderón e seus discípulos; porém, relativamente aos autos do
dessas representações. A música e a dança entrelaçavam-se fre- século XVI, nem sempre reúnem estas condições, antes é muito fregiiente
quentemente nos autos como ingredientes de alta importância, embora a que não tenham de sacramentais mais do que haverem sido re-
declamaçãoconstituísse a parte predominarite::A música, ou era vocal a presentados no dia do Corpus''(18). Este apontamento final do Mestre re-.
solo e em conjunto, ordinariamente acompanhada por instrumentos, ou feria-se a peças como o Auto de São Martinho, de Gil Vicente, re-
era puramente instrumental. Além do vilancico, muito praticado nos presentação sacramental pelo fato de haver sido realizada no dia do
autosvicentinos, encontramos outras formas vocais também freqiientes e Corpus; portanto, a festa do Corpus deixava de ser tema para ser pretexto
de“origem medieval — como a cantiga, 6 romancée-o tono. Como danças de elaboração é representação de autos. Afora os elementoslíricos, ex-
principais tínhamos a chacota, a folia e o vilão. Gil Vicente trazia para o traídos da Escriturá ou da liturgia, com que Calderón susteve em grande
campo literário todo o caudallírico da tradição folclórica portuguesa, nos parte a beleza de seus autos, e um simbolismo potente por meio do qual
cantares das serranas, nas canções de romaria e nos saborosos vilancetes se via Deus em toda a criação, encontram-se nos seus autos fregiientes
e romances, inclusive na sua primitiva estrutura paralelística. Rela- reminiscências da poesia profana numa autêntica continuação do
tivamente à matéria destas composiges, era normal que se elegesse pre- processo dramático de Gil Vicente: romances velhos, vilancicos, can-
E
18 o . GIL VICENTE
INTRODUÇÃO Cr 9
çonetas, ensaladillas é jogos, talvez concessão. a um auditório do
qual o
autor exigia certa cultura histórica, teológica e filosófica, além de se foi libertando da sugestãoinicial do teatro de Juan del Encina (tão evi-
uma
relativa compreensão da máquinaalegórica e da expressão cultera dente nos anos de 1502-1509), Gil Vicente imprime uma tendência
nista.
Esta foi, em suas linhas gerais, a evolução do auto peninsular: ora cômica ao seu teatro, dando nascimento à farsa; em1523, após pal-
distanciando-se do teatro religioso, ora aproximando-se, o auto apenas milhar novas direções estéticas, voltou à farsa novelesca para dar a sua
transmitiu paraas peças do teatro de costumessua estrutura poética e mais acabada criação artística com a Inês Pereira; e que, ao deixar pro-
os
ingredientes musicais e coreográficos de que vem normalmente visoriamente o teatro religioso em 1520, o dramaturgo tentou duas novas
im-
pregnado. Teríamos, pois, dificuldades em classificar como autos orientações: o teatro romanesco de fundo cavaleiresco e o teatro ale-
peças górico. .
puramente profanas como a Farsa dos Físicos, a do Velho da Horta,
Inês
Pereira e tantas outras.
|
Se deixarmos de lado certas formas que são esporádicas no teatro
vicentino — como o sermão burlesco (que ocorre apenas duas vezes
em
suas peças: um, pregado pelo Frade Sandeu no início do Auto de
Mofina
endes, € outro, por um Frade no Auto das Fadas sobre o tema
“amor
omnia vincit”) e o monólogo (de Que há também dois casos: o Auto
Visitaç
da
ão Ou O Monólogo do Vaqueiro e O Pranto de Maria Parda),
"po-
deríamos distribuir as peças vicentinas em: |

a) Autos (que versam os seus temas tradicionais:


mistérios,
moralidades, milagres e episódios pastoris) — a gue
pertence a
maioria das obras vicentinas: Auto pastoril castelhano
Auto dos Reis Magos (1503), Auto da Sibila Cassandra (1502),
(1509),
Auto da Fé (1510), Auto das Burcas (1517-1519), Auto
pastoril
português (1523), Auto da Cananea (1534), Auto
de Mofina
Mend es (1534), etc. o |
b) Teatro romanesco (cujo temário é extraído muita
s vezes.
das novelas: de cavalaria): Comédia de Ruben
a (1521), D..
Duardos (1522), Comédia do Viúvo (1524), Amadi
z de Gaula
(1533).
C) Funtasias alegóricas (cujos antecedentes são os “momo
s”.
realizados no fim da Idade Média, especialmente no
reinado de
D. João II; estas fantasias, que aparecem emoldurada
s- pelos”
processos técnicos da pura cenografia alegórica, lembr
am muito
O nosso teatro de revista): Frágua do Amor (1524)
, Nau de
Amores (1527), Auto da Lusitânia (1532) e outras
;
d) Farsas 1) episódica, limitando-se à apresentação de
um
tipo ou série deles: Juiz da Beira-(1525), Farsa dos Almoc
(1527, O Clérigo da Beira (1529), a Romagem de Agrav reves *
(1533) etc.; 2) novelesca (ou narrativa), completa:
ados
Auto da India
(1509), O Velho da Horta (1512), a Farsa dos
Físicos (1512 ou
1516), Quem tem farelos? (1515), Inês.Pereira (1523).

Deste quadro sumário se observa que Gil Vicente se


mantevefiel à
tradição do auto durante toda a sua carreira dramá
tica; que o período
climático dessa produção corresponde aos anos
de 1517-1519, em que
“cria os autos
das três Embarcações e o Auto da Alma; que
à medida que
pr
v