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CENTRO DE REFERÊNCIA PARA EDIFICAÇÕES SUSTENTÁVEIS

EM MEIO URBANO: PROJETO PARA A SEDE DO NÚCLEO AMIGOS


DA TERRA (NAT) - PORTO ALEGRE/ RS

Carolina Herrmann Coelho de Souza (1); Cristian Mauricio Riveros Illanes (2);
Ingrid Pontes Barata Bohadana (1); Letícia Castilhos Coelho (1); Letícia Teixeira
Rodrigues; Letícia Thurmann Prudente (1); Nauíra Zanardo Zanin (1); Sílvio Santi;
Fernando Campos Costa (2); Vivian Dall’Igna Ecker (1)
(1) Universidade Federal do Rio Grande do Sul , Brasil – email: ingrid.bohadana@gmail.com
(2) Universidade Luterana do Brasil, Brasil – email: ferccosta@yahoo.com.br

RESUMO

As cidades têm contribuído, em grande parte, para as mudanças climáticas globais e é necessário que
os projetos de arquitetura busquem reduzir seus impactos ambientais. O Núcleo Amigos da Terra/
Brasil, entidade reconhecida por sua atuação nas lutas ambientais em Porto Alegre, obteve a cedência
de um imóvel pelo Patrimônio da União para sua sede própria. Uma equipe de arquitetos, qualificados
em sustentabilidade e com experiência em movimentos sócio-ambientais, foi contratada para
desenvolver o projeto “Centro de Referência para Edificações Sustentáveis em Meio Urbano”. A nova
sede será um espaço pedagógico com o desafio de incorporar o novo paradigma urbano-ambiental, em
que se busca conciliar as diversas dimensões da sustentabilidade. Objetivo: o artigo visa apresentar
este projeto que aplica tecnologias de baixo impacto viáveis na cidade e que integra aspectos de
desenho bioclimático com a preservação do patrimônio histórico. Metodologia: processo participativo
e interdisciplinar na definição de conceitos e de diretrizes norteadores para o projeto. Resultados:
estratégias referentes à eficiência energética e ao conforto ambiental; tecnologias apropriadas e uso de
materiais de baixo impacto; coleta da água da chuva e tratamento de efluentes; paisagismo produtivo.

Palavras-chave: sustentabilidade urbana, edificações sustentáveis.

ABSTRACT

The cities contribute, significantly, to the global climate change. It is necessary that the architecture
projects present solutions which reduce the environmental impacts from buildings. Friends of the
Earth Brazil, known by its action to preserve the environment in Porto Alegre, received a house
donated by the Brazilian Union Patrimony for its headquarter. A team of architects specialized in
sustainability and with experiences in social and environmental movements, were hired to develop the
project “Reference Centre of Sustainable Building in Urban Area”. It will be a pedagogical place with
the challenge to incorporate the new urban - environmental paradigm, which searches to conciliate the
diverse dimensions of sustainability. Objective: This paper aims to present the project, which applies
low impact technologies, viable in the city, and integrates aspects of bioclimate drawing with
preservation of the historical patrimony, qualifying environmentally the spaces. Methodology:
participative and interdisciplinary process to define principles and concepts to the project. Results:
strategies referring to energy efficiency and environmental comfort; appropriate technologies and the
use of low impact materials; use of rainwater and effluent treatment; productive landscape.

Keywords: urban sustainability, sustainable buildings.


1. INTRODUÇÃO

O ambiente das cidades, devido à forma como as construções, atividades, serviços e transportes se
desenvolvem, contribui, em grande parte, para as mudanças climáticas globais, pois utiliza amplas
fontes de energia e consome quantidades exacerbadas de matéria-prima existente no planeta. Faz-se
necessária uma mudança de paradigma sobre os padrões de desenvolvimento urbano para que sejam
possíveis transformações em aspectos sociais, econômicos, ambientais e culturais, assim como uma
revisão das diferentes formas de atuação profissional que contemplem o contexto urbano atual. A área
da construção civil pode colaborar neste sentido com projetos que incorporem o conceito de
sustentabilidade. Assim, o projeto “Centro de Referência para Edificações Sustentáveis em Meio
Urbano”, cujo um dos objetivos é ser um espaço aberto à comunidade, tem o desafio de ser elaborado
a partir deste novo paradigma urbano-ambiental.

O projeto consiste na nova sede do Núcleo Amigos da Terra/Brasil (NAT), organização não-
governamental ambientalista com mais de 40 anos de atividade. Com a intenção de elaborar uma
proposta de baixo impacto ambiental, a entidade contratou uma equipe de arquitetos qualificados em
sustentabilidade e com experiência em movimentos sócio-ambientais, que se denominou “Criação em
Arquitetura Sócio-Ambiental para o Núcleo Amigos da Terra” (CaSaNaT). O NAT obteve a cedência
de um imóvel pelo Patrimônio da União, um pequeno lote com uma edificação de caráter histórico,
localizado na Rua Olavo Bilac, conforme ilustrado na figura 1, em um bairro tradicional de Porto
Alegre, Estado do Rio Grande do Sul. Além da sede, o espaço abrigará o Centro de Documentação
Magda Renner, com mais de 2.000 títulos sobre questões sócio-ambientais e sobre o movimento
ambientalista gaúcho e brasileiro.

Figura 1: localização e contextualização da edificação pré-existente.

O artigo visa apresentar este projeto, a partir das estratégias definidas de acordo com uma metodologia
participativa e interdisciplinar. O desenvolvimento de conceitos e diretrizes indica a implementação de
tecnologias e materiais de baixo impacto, bem como a integração de um desenho bioclimático com a
preservação do patrimônio histórico. Busca-se contribuir para suprir a lacuna de exemplos práticos da
inserção de conceitos de sustentabilidade em projetos no meio urbano e apontar estratégias que
possam ser reaplicadas, levando em conta o uso mais eficiente dos recursos materiais e energéticos.

2. METODOLOGIA

A metodologia utilizada pela equipe “CaSaNaT” na elaboração do projeto foi fundamentada em


métodos participativos e interdisciplinares. A equipe técnica de arquitetos elaborou um planejamento
que previa momentos para discussões e debates, caracterizando um constante diálogo entre a equipe de
profissionais e o grupo do NAT, juntamente com o envolvimento de instituições, consultores e
colaboradores durante todo o processo. Criou-se um espaço de debates sobre temas relevantes ao
projeto, chamado Debates CaSaNaT1, aberto à participação do público. O projeto desenvolveu-se,
basicamente, em três momentos, como mostra a figura 2. Foram seguidos princípios de participação,
interdisciplinaridade, qualificação técnica, fundamentação teórica, diversidade e legitimidade.

Figura 2: metodologia aplicada no processo projetual.

No primeiro momento, foram estabelecidos os princípios de sustentabilidade na construção, que


serviram como base. No segundo, elaboram-se o conceito norteador e as diretrizes de projeto e, por
último, definiram-se as estratégias adequadas e aplicáveis no contexto do projeto. Foram realizadas
quatro etapas convencionais de projeto arquitetônico, porém com os seguintes objetivos específicos:

1. Levantamento: participação dos usuários e apropriação da equipe técnica sobre o contexto interno
do NAT, através de entrevistas individuais e reuniões para a definição do programa de necessidades;

2. Estudo Preliminar: legitimidade, diversidade de soluções; fundamentação teórica e qualificação


técnica, por meio de imersão projetual2 com equipe técnica, usuários, professores e profissionais
sensibilizados com o tema da sustentabilidade para definições de princípios e de conceitos de projeto;

3. Anteprojeto: aplicação das estratégias e discussão sobre geração de energia, através do primeiro
debate, cujo tema foi energia solar, ministrado pelos técnicos do Centro Brasileiro para
Desenvolvimento de Energia Solar Fotovoltaica e Programa de Pós-Graduação em Engenharia e
Tecnologia de Materiais da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul;

4. Projeto Executivo: divulgação e discussão do projeto, através do segundo debate, quando foi
abordada a questão da aplicação da madeira em construções sustentáveis, apresentada pelo Prof. Arq.
Hilton Albano Fagundes da Universidade Luterana do Brasil.

Este processo foi discutido e re-definido ao final de cada etapa de trabalho, quando se realizavam
reuniões internas e reuniões com os futuros usuários para esclarecimentos e diálogos sobre o projeto.

3. PRINCÍPIOS, CONCEITOS E DIRETRIZES PROJETUAIS

Os princípios do projeto buscam atingir o equilíbrio entre as diversas dimensões da sustentabilidade:


social, ambiental, econômica e cultural. Consiste em uma abordagem mais abrangente do projeto
arquitetônico e do contexto em que se insere, onde se pretende ter uma visão integral do processo.

3.1 Princípios de sustentabilidade na construção

Os princípios de sustentabilidade têm o objetivo de incorporar ao projeto determinadas qualidades.


Segundo a interpretação da equipe, em cada aspecto, tais características correspondem às decisões do
projeto descritas a seguir:

- Social – buscar a participação e a interdisciplinaridade, através da colaboração de pessoas de


várias áreas com diferentes pontos de vistas; considerar a sede como um espaço de educação

1 Debates CaSaNaT – Foram encontros sobre temas relevantes para o projeto, em um espaço aberto para a discussão e para
a divulgação. Ocorreram na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e no IAB/RS (Instituto dos Arquitetos do
Brasil do Rio Grande do Sul).

2 Mutirão Projetual - Principal atividade coletiva de projeto, foi realizada durante dois dias no Rincão Gaia.
ambiental para a comunidade; criar espaços integradores para a inter-relação entre usuários e
visitantes e prever acessibilidade universal.

- Cultural – preservar o patrimônio cultural; valorizar a memória local, integrar-se de forma


harmoniosa ao contexto em que se está inserido; manter os valores de autenticidade, conservando as
características originais da edificação histórica existente.

- Econômica – elaborar o planejamento eficiente da edificação, selecionar materiais de baixo custo,


considerando seu ciclo de vida.

- Ambiental – procurar otimizar o uso dos recursos, utiliza materiais de baixo impacto ambiental e
tecnologias apropriadas e promover ciclos fechados de água e de energia.

3.2 Conceito gerador e diretrizes de projeto

As diretrizes de projeto foram elaboradas a partir dos princípios de sustentabilidade, do programa de


necessidades e das idéias sugeridas nas atividades coletivas. Sintetizando os pontos de convergência,
surge o conceito gerador que orienta o projeto, segundo mostra a figura 3.

Figura 3: pontos de convergência para o projeto.

As diretrizes fundamentais da proposta, a partir do conceito gerador, são as seguintes:

- Volume a preservar: edificação pré-existente a ser preservada e recuperada, com uso de caráter
público, abrigando recepção, biblioteca e centro de documentação;

- Volume articulador: volume central de circulação com a escada, espaços de apoio (sanitários e
copa), reservatórios e acesso ao pátio central, conexão e distribuição de fluxos e captação de energia;

- Volume novo: inserção de nova edificação com dois pavimentos e cobertura verde, os espaços serão
destinados para sala multiuso no segundo pavimento (realização de reuniões internas e palestras
externas) e para sala de trabalho integrada, ligada diretamente às áreas abertas no pavimento térreo;

- Áreas abertas (calçada e pátios): integração do passeio público à edificação, destaque e valorização
do acesso, através de comunicação visual, e criação de muro sensorial ao longo do percurso; pátio
interno articulador, com espaços de convívio e reuniões ao ar livre, paisagismo produtivo e tratamento
de efluentes, permeabilidade do solo e eficiência de ventilação e uso de iluminação natural.
4. ESTRATÉGIAS APLICADAS

O projeto tem o objetivo de ser um espaço educacional para a demonstração das técnicas em
funcionamento, que serão expostas de maneira didática. Entre as quais estão as seguintes:

4.1 Preservação do volume pré-existente

A casa existente no terreno é um exemplo simplificado do estilo eclético, composto por dois volumes.
Manteve-se o volume principal e optou-se por demolir o volume dos fundos, por estar em situação
precária de conservação e não contribuir significativamente para a preservação do exemplar histórico,
além da necessidade de área para atender o programa de necessidades estabelecido.

Buscando valorizar a autenticidade do edifício e considerando seu estado de conservação, adotou-se a


estratégia de preservação da volumetria básica, resgatando e recuperando as soluções construtivas,
como as alvenarias portantes de tijolo maciço, o entrepiso elevado com estrutura e piso de madeira, o
traço original do reboco, a pintura que permita a transpiração das paredes e as esquadrias de madeira,
como se nota na figura 4.

Os elementos incorporados foram concebidos com linguagem arquitetônica contemporânea e uso de


materiais distintos, evidenciando a diferença entre o novo e o antigo. Assim, as intervenções dialogam
com a edificação antiga sem confundir a leitura dos diferentes momentos históricos do projeto.

Figura 4: fachada longitudinal e plantas baixas do segundo e primeiro pavimento

4.2 Seleção de materiais de baixo impacto ambiental

A construção civil é responsável pelo consumo de grande parte dos recursos naturais, portanto devem
ser tomadas providências para a minimização do impacto produzido na natureza em projetos de
edificações. A seleção de materiais menos prejudiciais ao meio ambiente deve observar uma série de
requisitos. Entre eles, estão avaliar as propriedades dos materiais e analisar as características da sua
cadeia de produção desde a fase de extração até o momento do seu descarte, principalmente no que se
refere ao consumo de recursos naturais (ANINK, BOONSTRA, MAK, 1996).
Segundo Caballero (2001), os materiais para construções mais sustentáveis devem: ter composição
menos elaborada possível, facilitar a troca de umidade entre a edificação e a atmosfera, ser
encontrados o mais próximo possível da obra, ser de uso tradicional na região e de tecnologia
conhecida e não possuir elementos tóxicos na sua composição.
Tendo em vista as características acima, os materiais escolhidos foram: tijolos maciços, para as
paredes estruturais, madeira e vidro para demais vedações. Como se observa na figura 5, em
comparação com outros materiais, possuem, entre outras vantagens, baixo consumo de energia na sua
produção. Da mesma forma, é reduzido o uso de materiais como cimento e metais e evitado o emprego
de peças de PVC ou de alumínio. Também está previsto o reaproveitamento de peças retiradas do
volume a ser demolido, como tijolos maciços, esquadrias de madeira, telhas cerâmicas e pisos de
ladrilho hidráulico

Figura 5: tabela comparativa de índices energéticos dos materiais em MJ/kg fonte:KUHN, 2006

4.3 Geração de energia

A energia solar é a fonte de toda a energia existente no planeta. É natural, gratuita e inesgotável. Para
proporcionar maior eficiência energética na edificação, está prevista a instalação de 40 painéis
fotovoltaicos de 50W de potência cada e de quatro coletores solares térmicos, como está indicado na
figura 6. O sistema de painéis fotovoltaicos possibilita a geração de energia elétrica a partir da
incidência solar. Para verificar os horários de maior incidência solar, foram feitas simulações. Ficou
demonstrado que o período de maior insolação é entre 12 e 16 horas, somando quatro horas diárias de
geração de energia, tanto no solstício de inverno - 22 de junho - quanto no de verão – 22 de dezembro.

Figura 6: volumetria do projeto


4.4 Conforto Ambiental

Conforto ambiental ocorre quando a edificação é projetada, considerando as condições climáticas da


região onde se localiza. O uso de determinadas soluções arquitetônicas consegue minimizar o
consumo de energia (MASCARÓ, 1991).

A cidade de Porto Alegre é submetida a grande variação climática durante o ano, além de apresentar
umidade relativa do ar alta tanto no inverno como no verão. Durante um período do ano, o desconforto
é devido a baixas temperaturas de inverno. E, nos meses de verão, há excesso de calor. Dessa forma,
as principais estratégias bioclimáticas devem proporcionar aquecimento para o inverno e ventilação
para o verão. Além disso, a edificação deve possuir inércia térmica, evitando a perda de calor de
dentro para fora no inverno e a entrada de calor de fora para dentro no verão (LAMBERT et al., 1997).

Para facilitar a retirada de ar dos ambientes, a forma mais eficaz consiste no posicionamento de
aberturas em fachadas opostas (com diferença de pressão) – ventilação cruzada (MASCARÓ, 1991).
Nesse sentido, foram criados pátios internos, para um melhor aproveitamento da luz natural e para
melhores condições de ventilação. Da mesma forma, a localização de vãos na parte superior das
paredes possibilita a remoção do ar quente, quando necessário – efeito chaminé, conforme se observa
na figura 7. Telhas e fechamentos translúcidos voltados para o sol retêm o calor em dias frios. O uso
de materiais isolantes como madeira e a cerâmica contribuem para manter a temperatura interna
estabilizada. A existência de aberturas baixas permite a circulação interna do ar durante o verão. Está
prevista uma circulação de ar abaixo do piso da biblioteca, reduzindo a umidade no local.

Outra estratégia utilizada são as coberturas verdes, que possuem inércia térmica, filtram o ar e
contribuem para a permeabilidade do terreno. As coberturas verdes são caracterizadas pela utilização
de vegetação sobre o telhado, com o uso de grama ou de outras espécies. Minke (2004) aponta como
principal vantagem o isolamento térmico proporcionado, porém cita outras, tais como: retenção de
águas pluviais; redução das superfícies pavimentadas; produção de oxigênio e absorção de gás
carbônico; filtragem de pó e absorção das partículas nocivas; isolamento acústico; proteção contra
incêndio; produção de aromas agradáveis; beleza estética; integração com a paisagem.

As disposições das funções do programa de necessidades consideraram o conforto acústico. Dessa


forma, a biblioteca e o centro de documentação, espaços que necessitam de silêncio, dividem o mesmo
volume. Já a sala multiuso que inevitavelmente causará barulho, localiza-se afastada do volume frontal
no piso superior. Materiais de maior absorção acústica, como madeira e cerâmica, além da existência
de camadas de ar nas divisórias, contribuem no isolamento dos ruídos.

Figura 7 – Corte longitudinal com as estratégias bioclimáticas


4.5 Tratamento de efluentes

O sistema proposto trata e reutiliza as águas residuais, visando contribuir para minimizar a
contaminação ambiental e utilizando os efluentes tratados para manutenção dos jardins produtivos,
separando-as conforme as suas origens: claras, cinzas e negras. As primeiras são provenientes de
águas das chuvas. Águas cinzas são as águas residuais dos usos do chuveiro, banheira, lavatório, pia
de cozinha e tanque. O terceiro grupo são as águas resultantes dos vasos sanitários. A separação dos
efluentes contribui para maior eficácia e economia do tratamento sanitário (ERCOLE, 2003).

- Águas cinzas: a caixa de gordura e de decantação primária, decantador, é constituída por duas
partes: uma câmara maior, para onde são conduzidos os efluentes do tanque, lavatório e chuveiro; e
outra câmara menor, para onde é conduzida a água proveniente da pia da cozinha para separação dos
sólidos e da gordura – retenção hídrica de duas horas.

- Águas negras: o tratamento constitui-se de um reator anaeróbio bi-compartimentado, onde as duas


primeiras câmaras são um decanto-digestor e a terceira é um filtro anaeróbio de fluxo descendente. O
efluente é encaminhado ao um leito de evapotranspiração, onde as bactérias processam os nutrientes,
gerando um efluente de melhor qualidade. É prevista a retenção hídrica de 24 horas e, praticamente,
não é necessário limpeza. O excesso de efluentes no leito de evapotranspiração deve ser encaminhado
por dreno ou por extravasor para rede pública esgoto sanitário.

- Águas da chuva: recolhimento da água da chuva reduz o uso da água potável, especialmente nos
vasos sanitários. A captação ocorre em todas as coberturas da edificação, é encaminhada para um
reservatório específico que abastece as caixas de descargas dos vasos sanitários e para uma cisterna
localizada no pátio interno, que contribui para irrigação do jardim. No reservatório, o posicionamento
de torneira bomba a um terço da altura da capacidade possibilita a entrada da água da rede para
abastecimento em caso de estiagem.

4.6 Paisagismo produtivo

O paisagismo produtivo localiza-se no pátio central, servindo como interface entre os volumes
edificados, integrando a arquitetura, os usuários e a natureza. Possibilita atividades de lazer e reuniões,
sendo um espaço voltado, principalmente, para o público externo. A proposta de educação ambiental
ocorre através da demonstração do paisagismo produtivo, do plantio de espécies nativas, da
preservação de espécies de relevância ambiental, cultural e paisagística.

Conservou-se a vegetação nativa existente, como o jerivá (Syagrus romanzoffiana), e foram inseridos
elementos arquitetônicos, como pavimentações permeáveis, materiais renováveis e de baixo impacto.
Elementos paisagísticos propostos, como espiral de ervas, flowform3 e composteira, simbolizam
conceitos de otimização de matéria e fluxos e respondem às demandas da vida urbana, já que requerem
pequenos espaços e pouca manutenção (PEARSON, 1994), como se nota na figura 8.

3
Flowform são canais que induzem oscilações rítmicas a um curso d’água (PEARSON, 1994).
Figura 8 – Planta baixa do paisagismo e vista do pátio central

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Durante o processo, trabalhou-se com a superação de desafios, como aqueles que se referem à inserção
de princípios e conceitos de sustentabilidade na reforma e ampliação de uma edificação existente em
um terreno estreito em área urbana consolidada. O projeto apresenta alternativas viáveis dentro do
contexto atual , buscando a utilização de tecnologias que possam ser facilmente reaplicadas em outros
projetos, levando-se em consideração o seu custo e acesso. A expectativa é de que, cada vez mais, os
projetos de edificações incorporem e apliquem tecnologias apropriadas ao meio em que se inserem, e
que nas ações de planejamento urbano, possa se prever a implementação de práticas mais sustentáveis
nas cidades.
Por fim, espera-se que o “Centro de Referência em Arquitetura Sustentável no Meio Urbano” seja um
símbolo nacional e internacional de arquitetura sustentável possível para a cidade. Pretende-se difundir
a idéia que existem outras formas de construir que causam menos impacto no meio ambiente, consome
menos energia, emitem menos gases que provocam o efeito estufa e melhoram a saúde e qualidade de
vida da população.

6. REFERÊNCIAS
ANINK, David; BOONSTRA, Chiel; MAK, John. Handbook of Sustainable Building. London,
James&James, 1996.
CABALLERO, Ismael. Criterios de Bioconstrucción. Asociación de Estudos Geobiológicos,
Espanha, 2001. Disponível em: <http:www.gea-es.org/bioconstruccion/criterios_biocons.html>.
Acessado em: 11ago. 2001.
ERCOLE, Luiz Augusto dos Santos. Sistema Modular de Gestão de Águas Residuárias
Domiciliares. Dissertação (mestrado em Engenharia)-Programa de Pós-graduação em Engenharia
Civil, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2003.
LAMBERT, Roberto; DUTRA, Luciano; PEREIRA, Fernando O. R. Eficiência Energética na
Arquitetura. São Paulo: PW, 1997.
KUHN, Eugenia Aumond. Avaliação Ambiental do Protótipo de Habitação de Interesse Social
Alvorada. 2006. 187p. Dissertação (Mestrado em Engenharia) – Universidade Federal do Rio Grande
do Sul, Porto Alegre.
MASCARÓ, Lúcia R. Energia da Edificação – Estratégias para minimizar seu consumo. São
Paulo: Projeto, 1991.
MINKE, Gernot. Techos verdes: planificación, ejecución, consejos prácticos. Montevideo: Fin de
Siglo, 2004.
PEARSON, David. The Natural House Book: creating healthy, harmonious and ecologically
sound home. Londres: Coran Octopus, 1994.

7. AGRADECIMENTOS
Agradece-se ao NAT pela oportunidade de desenvolver o projeto, ao Prof. Miguel Aloysio Sattler do
NORIE/UFRGS pelo apoio, ao IAB/RS, ao Eng. Luiz Ercole e à Arq. Viviane Martins pela assessoria,
ao Prof. Arq. Hilton Albano Fagundes da ULBRA e à Prof. Dra. Izete Zanesco e ao Prof. Dr. Adriano
Moehlecke da PUC/RS pelas palestras, bem como às pessoas que participaram e contribuíram no
processo do projeto, principalmente as que foram no Mutirão Projetual realizado no Rincão Gaia. À
Federação dos Amigos da Terra Internacional que acreditou na idéia.

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