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Conselho Editorial

Maity Siqueira - UFRGS Car l os A lberto Ve it - UNIRITTER


Clarissa Dirani - UNISINOS Regina Zllberman - UFRGS
Ney Fayet Júnior - PUCRS Claudia Perrone - UFSM
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Coordenação Editorial
Rosana Nora e Claudia Perrone
Revisão Final:
Emanuel Souza de Quadros

DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO

0919p Ounker, Christian lngo Lenz


Psicanálise e saúde mental I Christian lngo Lenz Dunker; Fuad
Kyrillos Neto. - Porto Alegro: Criação Humana, 2015. 240 p . -
(Doces Bárbaros, 1)

ISBN 978-85-88022-11·9
1. Psicanálise. 2. Saúde Mental. 3. Psicolog ia. 4. História da
Psicanálise - Brasil. 5. Doenças menlàis • Classificação - Histór ia .
1. Kyr i llos Neto, Fuad. li. Titulo . Ili. Série.

CDU: 159.964.2

Elaborado pela bibliotecária Karin Lorlen Menoncln -CRB 10/2147

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IMPRESSO NO BRAS IL/ PRINTED IN BRAZIL


não foi propriamente incorporada nem pelos psicanalistas patológico e o normal, entre o familiar e o• estrangeiro, en­
tradicionais, nem pelas novas tradições que reformaram e tre o primitivo e o civilizado.
renovaram este campo a partir dos anos 1980.
Finalmente, a terceira grande entrada da psicanálise nas
Foi pensando na arqueologia desta questão que recorre­ práticas de saúde mental a entende como uma espécie de
mos à ideia de que, para entender as relações históricas antropologia adequada para os trópicos. De Totem e Tabu,
entre psicanálise e as práticas em saúde mental, devíamos extraem-se um modelo e um antimodelo entre a criança,
apresentar também alguma gramática sobre suas varie­ o primitivo e a doença mental que encontrarão na antro­
dades e sua distribuição em termos de modos de sub­ pofagia sua cena fundamental. Aqui é o narcisismo e a
jetivação. Pensar a saúde mental é pensar o processo de identificação que fornecerão a chave para pensar a varie­
institucionalização do sofrimento, bem como as políticas dade e a diferença das modalidades de mal-estar, ligada à
que elevaram o bem-estar a um fator chave na regulação dimensão da pessoa, do compromisso pessoal e dos laços
de nossas formas de vida. Por isso, utilizamos as noções ampliados ou reduzidos de familiaridade.
desenvolvidas por Luís Cláudio Figueiredo, em alguns de
seus textos seminais, para interpretar as variedades de a r ­ Nossos modos de subjetivação baseados no indivíduo, na
ticulação da psicanálise com a saúde mental. Chegamos péssoa e no sujeito combinam-se com os complexos dis­
assim a três configurações. cursivos que lan Parker encontrou ao examinar as raízes
da psicanálise na experiência moderna. Para este autor,
No primeiro caso, a psicanálise participa de um dispositi­ a psicanálise entranha-se no projeto moderno graças a
vo disciplinar, contribuindo com uma teoria da etiologia complexos discursivos corno intelectualização, transfe­
sexual, capaz de prover uma diagnóstica de fundo para rência e trauma. Tentamos mostrar como tais complexos
uma psiquiatria indefesa diante das teorias hereditaristas. organizam, historicamente, os principais discursos nacio­
Ela é uma promessa moderna de tratar a subjetividade nais mobilizados para interpretar nossos impasses de de­
institucionalizada ao modo do indivíduo colhido em seus senvolvimento, nossas formas de sofrimento social, nossas
dispositivos weberianos de racionalização, em suas práti­ aspirações de institucionalização, nas quais se forma, ain­

cas civilizatórias, em seus empreendimentos de desenvol­ da que tardiamente, o projeto de um sistema de saúde uni­
vimento, qual etapas extraídas dos Três Ensaios para uma ficado e universal. Estes complexos discursivos correspon­
Teoria da Sexualidade. dem a uma espécie de interpretação cultural, extraclínica,
Na segunda circunstância, a psicanálise se apresenta como dos significantes, das teorias e das práticas instituídas que
uma teoria antropológica, nos fornecendo uma espécie de associamos à psicanálise. Ou seja, a interpretação prática
matriz de simbolização e de equiparação de diferenças de conflitos, obstáculos ou dificuldades no funcionamento
que serve a uma determinada antropologia modernista. de grupos ou instituições, na nomeação do mal-estar, nas
Ela contém uma aspiração de universalidade, delimitada configurações metadiagnósticas e paradiagnósticas pode
em um sujeito do desejo, por meio da qual os conflitos ser exercida por pessoas sem nenhuma formação formal
periféricos, as variedades etnográficas, os tipos de conflito em psicanálise. Isso ocorre porque, ainda que seu criador
são gradualmente tomados em um plano de convergência tenha advogado explicitamente em contrário, a psicanáli­
dialética ou estrutural. Aqui é a Interpretação dos Sonhos se tornou-se parte da visão de mundo ocidental, elemento
que funciona como chave de conversão perpétua entre o interno do modo como interpretamos o caráter repetitivo

12 13
e intrinsecamente patológico de certas relações e escolhas puritana do trabalho, de Benjamin Rush, alienista e sig­
(transferência), gramática preponderante de como cria­ natário da Constituição dos Estados Unidos da América,
mos determinantes para maus encontros de uma história com suas técnicas de cura da loucura baseadas na submis­
biográfica (trauma), ou narrativa hegemônica para produ­ são à autoridade do médico.
zir sentido a partir do sofrimento, seja pela intrusão de um Nosso único alienista, Machado de Assis, era um literato.
objeto patológico, pela violação de pactos simbólicos, pela Enquanto Pinel e Hegel inventavam a dialética entre se­
alienação da alma ou, ainda, pela dissolução da unidade nhores e escravos, como gramática moral das revoluções e
do corpo político, moral ou familiar (intelectualização). modelo para o impasse ético do novo cidadão, ltaguaí ain­
Roudinesco postula que duas condições devem ser pre­ da vivia em estado de escravidão real, com escravos reais
enchidas para que a psicanálise se estabeleça e m uma cul­ e senhores reais. Para que se consiga entender a passagem,
tura: uma organização social na qual seja possível a "livre algo positivista, das crenças mágico-religiosas para o esta­
associação" (no sentido de liberdade de empreendimento do de ciência psiquiátrica, é preciso interpolar, entre ricos
e expressão) e uma cultura na qual o saber sobre a loucura e pobres, a experiência da cidadania.
tenha se autonomizado em relação às práticas mágico-re­ Examinando os prontuários do asilo nacional de Barba­
ligiosas. Quando se considera o Brasil diante destas duas cena, da Minas Gerais dos anos 1960, não se encontrará
condições, percebe-se como elas descrevem irregular­ as formas típicas do diagnóstico psiquiátrico, tais como
mente nossa própria realidade. a paranoia, a esquizofrenia, a psicose maníaco-depressiva
A tese de que encontramos no Brasil a consolidação do ou as demências. Em vez disso, um único dado chama a
programa liberal, com o sujeito capaz de livre escolha, em atenção: o número de dentes do interno. E, pelo número
condições de livre concorrência, com justa oferta iguali­ de dentes, muito se podia deduzir da posição de classe e da
tária de meios, é historicamente defletida pelo chamado expectativa de tratamento. Há, portanto, um dado a mais
"colapso crônico do individualismo liberal brasileirô'. Ou nesta conta. Um anacronismo entre aspirações discursivas
seja, nosso desenvolvimentismo dependencial da primei­ de progresso e as práticas disciplinares, exercidas em ins­
ra metade do século passado, foi substituído pela discipli­ tituições que não eram nem laicas, nem mágico-religiosas,
na militar, dirigista e cartelizada, dos anos 1960 em diante. mas movidas pelo tradicional espírito de pessoalidade,
Como resultado, passamos de um estado de liberalismo compromisso e favorecimento. Baseadas na distribuição
mitigado para um neoliberalismo próprio do capitalismo opressiva de favores e simpatias, nossas cidadelas psiquiã­
"precarizado" à brasileira. tricas não eram apenas lugares de maus-tratos, eram tam­
bém pequenas cidades de interior, com seus caudilhos,
A tese de que o saber psiquiátrico teria encontrado um es­
suas virtudes privadas e seus vícios públicos, com sua
tado de completa laicização também merece reparo. Des­ "vida próprià' e suas próprias regras.
de sua origem, faltou ao Brasil um capítulo propriamente
alienista na constituição de nosso parque asilar. Com isso, Finalmente, além do colapso do individualismo liberal,
nos referimos a esta combinação entre aspirações de ci­ constantemente tomado como renovação ideologica­
dadania, humanização e liberdade que vemos no famoso mente necessária para manter a economia disciplinar
mito de Pinel libertando os acorrentados da Salpêtriere, de cartéis, favores e pequenas autoridades locais, de­
de Tuke trazendo os alienados para a britânica disciplina vemos examinar o tantas vezes afirmado traço sincré-

14 15
tico da cultura brasileira. As formas religiosas ou pa­ , torno obsessivo compulsivo e 78,1 % para dependência
rarreligiosas, tendencialmente humanistas, holistas ou d de álcool.
L
caritativas, formaram o espaço, muitas vezes único, O sofrimento social trazido pela loucura, no mais das ve-
de consolo, de acolhimento, de alivio do sofrimento, zes, é uma mistura entre estes sintomas e o estado de misé­
em uma cultura psiquiátrica que passava da barbárie ria, ab andono e desamparo. O mal-estar na saúde mental r e!>
errática para a incivilidade administrada. São poucas não se resolverá por um retorno à clínica, mas, sem ele,
as experiências propriamente clínicas que o Brasil viu nenhuma política em saúde mental passará de uma edu­
florescer, sempre de forma excepcional, não sem algum cação generalizada ou militante de sujeitos, indivíduos e
IS11'lGLe.1li.me4�t.1·,i;:oQ,.J[ o mais das vezes, o que encontra­ pessoas, ainda assim recusados em sua experiência e de- Y1J�
os são projetos administrativos associando técnicas
;JA r.Jio Ci.(�
manda de reconhecimento. S
de controle e contenção, de socialização e medicação,
sem que a mais elementar escuta da loucura, ou qual­ Essa tentativa de localizar superfícies transversais que a r - �
ticulam psicanálise e saúde mental no Brasil nos parece Ío A­
uer forma de clínica da palavra, tenha algum lugar.
importante para entender por que a reforma psiquiátri- rs,t if-I
e certa maneira, nosso sincretismo cultural estabele­
uma gramática instável de relações entre público e ca, a luta antimanicomial e a renovação dos costumes em i vr
ivado, entre contrato terapêutico e obediência moral, saúde mental, aÍinhava duramente psicanálise e psiquia-
t e transferência e identificação. tria. No centro de nossa hipótese de leitura, encontra-
va-se um diagnóstico preliminar: a reforma havia subs-
Este livro parte desta espécie de falência da clínica, de tituído a clínica, que, de certa forma, nunca chegou a se f', �fo.t, ..
issociação intencionada entre formas de tratamentos e /esTabelecer como um disposmvo pleno de aten ao era' rt
olíticas de cura, no espaço que reúne psicanálise e saú­ ���;�������� ea·atich§ama; r; �de� �p�ol§ i�'tt�·ca� 11� ,S\)i
de mental no Brasil. Por isso, ele discute criticamente a �de gestão do mal-estar. A reforma, ao baratear as práticas 7
!.:! efeitos sob areforma
bem-vinda
clínica
psiquiátrica dos anos 1990 e seus
das psicoses. � políticas sub_ggu­
de saúde mental, pelã'progressiva desinternação, inves- � 1,.:iJ,�
,\.,,, tiu fortemente em uma clínica reduzida à distribuição de
e( �.... ivas m saúde mental acabaram indiretame uiçá medicação e uma terapêutica reduzida a intervenções de i?
� � de sitadamente, se transformando em políticas socialização. Com isso, a escuta, o acompanhamento cir­
� J ê: co 'rias à clínica, seja ela psicológica, psi m tnca ou cunstanciado do sofrimento, biograficamente delimitado,
·ca alítica. Dai que hoje vigore este estado de anomia
1
em contexto de fala em primeira pessoa, via-se substituída
r� erapêutica sem diagnóstico, de tratamento "se neces­ por outra coisa.
J &>
"-1
ário" (S/N), definido pelo corpo clínico disponível,
que legitima, ainda que indiretamente, a desatenção e o Uma pesquisa sobre níveis de medicalização psicotrópica
escuidado continuado quanto ao curso dos sintomas. na região de Campinas (CUNHA, 2005) verificou níveis,
O levantamento feito por Athié, Fortes et alli (2013) para cada 10.000 habitantes, que chegavam a 8,88% de
mostra que a taxa média de deficit de tratamento, no consumidores de inibidores de recaptação de serotonina
Brasil, encontra patamares como 32,2% para esquizo­ (antidepressivo), 7,4 para consumo de benzodiazepínicos,
frenia, 56,3% para depressão, 56,0% para distimia, 50,2 7,59% para consumo de antidepressivos tricíclicos, 1,32
para transtorno bipolar, 55,9 para transtorno de Pânico, para consumo de butirofenonas e 1,21 % para fenotiazinas.
57,5% para ansiedade generalizada, 57,3% para trans- Quando falamos em níveis próximos a 10% da população,

\ \..G V �ri<; ��<í D lô \1�.v� 4tJ 17


16
1�
apesar da tendência ao hiperdiagnóstico de alguns qua­ -P Tomemos o exemplo dos CAPS de São Paulo em 2014.
dros, fica óbvio que o Sistema de Saúde Mental não dis­ Imaginar que um paciente, mesmo em crise ou em grave
põe de recursos para enfrentar o problema sem grandes 'S-situação de vulnerabilidade, possa ter um acompanha­
limitações. �mento razoável com apenas três consultas mensais, dis-
t ibuíd�s �e form � c�nc�rrencial p�r to�os os recursos
· Passado o momento em que a psicanálise via-se em di­ \) �
'{ dispomve1s, em ps1qmatna, fonoaudiolog1a, terapia ocu-
ficuldades para justificar seus critérios de científicidade,
pelos quais sua eficácia comparativa poderia ser avaliada � pacional, psicoterapia, e assim por diante, é um exemplo
de iniquidade cínica. E o cinismo está no fato de que não
no quadro de métricas de resultados, ficou claro que não
�� ) há proibição de que a atenção se estenda, envolvendo mais
havia nada de incerto ou inseguro em sua credibilidade
, e melhores recursos, mas o sistema de cooperativa ou
científica ou tecnológica. Não é por isso, ou melhor, talvez �
'\ � � de terceirização admite e limita o uso de recursos pagos
seja exatamente por isso que a nova onda de objeções ao
:t � c d�st� ma� eira. �esde que a Medicina Baseada em Evidên-
i�
i ��
emprego da psicanálise em saúde pública perdeu a ver­
gonha quanto aos argumentos, apelando apenas para a
.� ci�de-ettstes para definir protocolos e
1
, � \� PJOcedimentos pr.eferenciais�úde viu-�lvida em
dimensão bruta do custo e da quantidade de "pacientes­ �
u�emmaçá.Q.gmexalizada da.raciotialidade..b.aseada
fichas" contabilizadas. Argumento risível diante do direito
),.. e.msoodomínios de saúde mental e seus síndicos gesto­
universal dos usuários de escolherem suas próprias for­
� � res. -E isso se desdobra para os trãbalhadores, ch�gando
mas de tratamento e da importância comprovada da com­
\o� aos próprios "usuários': E certo que o pertencimento a um
binação de estratégias terapêuticas.
sistema simbólico, que seja ao modo mimético de uma
Em certa medida, este livro tenta desfazer certos equívo­ empresa, possui efeitos de estabilização e de identificação.
cos de interpretação acerca da psicanálise, a começar pela Contudo, esta derrota da clínica para esta nova forma de
unicidade de sua política de subjetivação. Antes disso, é biopolítica não deixa de representar o empuxo e o retorno
preciso entender como a psicanálise cria a subjetividade a novas e antigas modalidades de sofrimento.
que pretende tratar e como ela é sintoma, mas também
Segundo dados de diversos estudos, 50% dos usuários
resistência, do tipo de alienação que sobredetermina o
que buscam atendimento na Atenção Básica possuem al­
mal-estar no capitalismo. Portanto, a pergunta de fundo é:
gum sofrimento psíquico, sendo que 10% são portadores
qualpsicanálisepara qual saúde mental? Contra a transfor­
de transtorno mental leve e moderado e 3% apresentam
mação da saúde mental em um sistema integrado de ges­
transtorno mental severo. Ainda, a Organização Mundial
tão de condomínios, será preciso retomar a importância
da Saúde e o Ministério da Saúde estimam que quase 80%
da clínica em tempos de diagnósticos feitos às pressas e da
dos usuários encaminhados aos profissionais de saúde
disseminação de práticas paraclínicas de acompanhamen­
mental não têm uma demanda específica para o atendi­
to e atenção em saúde mental. Tentamos mostrar como é
mento especializado. Há uma expectativa de aumento de
possível uma escuta do delírio, e do sujeito que a partir
15% (entre 1990 e 2020) de doenças mentais no mundo, e
dele tenta reconstruir seu mundo, trazendo fragmentos
de 12% a 15% de incapacitação para o trabalho: "Não há
de um caso clínico no qual discursos institucionais, ideo­
saúde sem saúde mental" (OMS). Um quadro como este
gramas políticos e procedimentos clínicos se articulam a
sugere que qualquer forma de intervenção que alcance o
partir da demanda de ser atendida por "um psicanalistà:
atendimento de massas se justifica por si mesmo.

18 19
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o que temos a esperar depois de Basaglia e Foucault, de J
Ow-y e Laing, de Cooper e Szaz? Para repensar o discurso
a inclusão, que simultaneamente tomou conta do univer-

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No centw desta g,adual substituição de modalidades "


pressivas, baseadas na proibição ou prescrição, por hipó-
teses depressivas, que operam no espectro da potência à
impotência, situamos a relação entre Michel Foucault e

so escolar e dos processos de reinvenção da cidadania em Jacques Lacan. Relação ambígua, crítica e elogiosa, ela é o
pacientes antes chamados de "doentes mentais", e agora, ponto de partida para uma renovação tanto da psicanálise
de "usuários': é decisivo empregar aportes não demasia­ quanto dos aportes críticos em saúde mental. Mais além
damente ingênuos sobre a linguagem. Foi nesta direção da admoestação "por atacado" e do espírito de denúncia
que tentamos combinar a teoria dos quatro discursos, dos novos guardiões da ordem, é preciso circunstanciar a
amplamente empregada pela psicanálise de extração laca­ arqueologia foucaultiana em um tipo de análise das for-
niana para pensar a circulação do saber em contexto de mas de constituição de sujeitos, das arqueologias de sa-
saúde mental, com aportes da Análise do Discurso (A.D.) beres, das alianças discursivas, de tal modo a incluir os
e da análise retórica da produção de sentido. Partindo da princípios do poder na temática do inconsciente. Ao fi-
complexidade da noção de foraclusão, entendida como nal e ao cabo, teríamos que perguntar qual a contribuição
um sistema intrincado de exclusões e inclusões do signifi­ desta genealogia foucaultina para a desmontagem de um
cante, propomos uma leitura crítica da moral inclusivista. dispositivo neuróticocêntrico que faz convergir para si o
Capaz de atrair para si alto grau de consenso, a "inclusão': familíarismo, a paranoia e os regimes de territorialização,
como qualquer significante, pode servir para a manuten­ criticados por Deleuze e Guattari.
ção deste casamento regressivo entre o discurso do mestre
e o discurso universitário. Esta colusão entre educação e O tema não é apenas de interesse universitário. As imbri­
ideologia mostra-se, assim, tão ou mais apta a praticar a cações entre sintomas e as chamadas patologias do social
exclusão quanto qualquer outra montagem de discurso colocam em primeiro plano decisões políticas, ao modo
que não altera a estrutura de seus elementos nos lugares de estratégias sem estrategistas, por meio das quais reco­
de que se constitui. nhecemos certas expressões de sofrimento em detrimen­
to de outras e constrangemos o mal-estar a certas regras
Este livro é composto por wna espécie de diálogo de nomeação, evitando outras. A crítica foucaultiana da
continuado que mantiveram seus dois autores durante os loucura nos convida à retomada do problema fundamen­
últimos quinze anos acerca das relações entre psicanálise e tal da alienação, da reificação e da anomia, mais além das
saúde mental. Ele foi se formando em torno da problemá­ psicopatologias normativas. Contudo, neste mesmo mo­
tica envolvendo clínica e política, desde a dissertação de vimento, podemos sancionar uma forma de vida neuroti­
mestrado de Fuad Kyrillos Neto, sobre a generalização de cocêntrica, excluindo assim a existência da psicose como
um procedimento clínico conhecido como Medicação S/N estrutura existencial. E neste momento que delírio e ideo­
("Medicação se Necessário"). Tal conduta significava, na logia tornam-se parceiros potenciais para estabilizações,
prática do sistema de Atenção e Cuidado da Zona Noroes­ suplências ou identificações dos mais diversos tipos. O
te da cidade de Santos, uma transferência de responsabili­ fenômeno vem sendo abordado, inclusive, pela pesquisa
dade, decisão e administração medicamentosa não apenas histórica, que retoma a crítica do delírio, agora em asso­
para psicólogos, enfermeiros e terapeutas ocupacionais, ciação com o delírio da crítica.
mas depois de algum tempo, para os próprios pacientes.

20 21
Já há algum tempo, tanto a psicanálise quanto os apor­ mentQ__ � uma políticau de nomeação dQ mal-estar. Nela / 1
tes críticos em saúde mental abandonaram o terreno da a psicanáiise -exerêe um papel não menos importante,]
psicopatologia em seu acasalamento com a farmacotera­ que precisa ser reconstituído para entendermos como,
pia. Reduzidos a "meros instrumentos residuais'; toda a ainda hoje, o DSM é, ao mesmo tempo, excessivamen- 1 Ir
discussão sobre a direção da cura, sobre as modalidades te psicanalítico e demasiadamente pouco psicanalítico . ._
de intervenção "socializante'; sobre a interconexão com a Por isso, tentamos mostrar o processo de expurgo das
saúde básica, como se espera, por exemplo, das práticas de categorias psicanalíticas, a partir do DSM-III, que não ( '
matriciamento1 , aceita tacitamente instrumentos de clas­ obstante sobrevivem no que elas têm de pior, a saber, seu
sificação epidemiológica como o Manual de Diagnóstico essencialismo naturalista, ao lado do processo de des­ )'-
Estatístico (DSM), agora em sua quinta versão, produzida montagem das condições para uma hermenêutica ne-
pela Associação Psiquiátrica Americana (APA), ou a Clas­ cessária a todo e qualquer enfrentarnento do sofrimen- 1 ·
sificação Internacional de Doenças (CID), atualmente em to psíquico. Imaginar que o sofrimento envolvido nas 1,.
sua décima versão, produzida pela Organização Mundial J
"disorders" (transtornos) mentais seja independente de
de Saúde (OMS). Doravante toda liberdade prática será qualquer subjetivação, de qualquer narrativa em primei-
possível se respeitamos o funcionamento em estrutura ra pessoa, de qualquer nomeação de mal-estar, exceto a
de gestão, o diagnóstico em formato DSM e a terapêutica descrição objetivada de quem deles padece é uma mera
fundada em medicação. "operacionalização'' do sofrimento mental(�Con a a I
Foi este "operacionalismo'; ascendente na saúde mental por um procedimento em forma de códigoJa característi-
brasileira, que durante algum tempo justificou a bela ex­ ca maior de sua etiologia, a saber, seu isolamento e sepa-
pressão: "vastas confusões e atendimentos imperfeitos'; ração diante dos conflitos e contradições que lhe deram
cunhada por Ana Cristina Figueiredo. No entanto, agora causa. Para além da mera expressão patoplástica, o sinto-
ele tornou-se um sistema de autojustificação de proce­ ma contém um fragmento de verdade e um traço de real.
dimentos, que Nilton Ota chamou de "formalismo nor­ Partindo do exemplo histórico representado pelo sofri­
mativo': Daí que a crítica das categorias e da consistência mento de gênero e da patologização do homoerotismo,
clínica do DSM seja um movimento central em nossa concluímos nossa jornada com um estudo de caso sobre
o osta. A crítica do DSM permite refazer as modali­ o "uso prático" dos sistemas de diagnóstico aparelhado ao
dades de sofrimento que se encontram privadas de uma formalismo normativo. Este é apenas um capítulo da reto­
narrativa na qual se possa reconhecer sua estrutura de mada do corpo como categoria central para as novas mo­
mito individual. �atomizaç�dos sintomas, a suspensão dalidades de sofrimento, e dos discursos como poderosa
4e. ...s. ua_causa _çQmum,_ a-.red-t:tçãõae seu ordenamentb;-a-­

-------
fonte de inflexão do tratamento na saúde mental.
pmdg_ção de classes art�s.,..Gom-menor-fidedignida­
Uma clínica dos discursos, no sentido dos quatro discu r ­
de e confia.bilida-d·e-ho.je.do_q.pe se esperava-do -D$M-1.JI
sos lacanianos, mostra-se essencial para que as conside­
em 1980, contêm uma.história-de modãlidades de sofri-
rações sobre o manejo da transferência, que caracteriza a
l "Matriciamento ou apoio matricial é um novo modo de produzir saúde psicanálise como método, possam se tornar úteis para a
em que duas ou mais equipes, num processo de construção compartilhada, articulação da psicanálise em intensão com a psicanálise
criam uma proposta de intervenção pedagógico-terapêuticá' (Ministério da em extensão. Hoje, o sofrimento dos trabalhadores em
Saúde, 201 1, p. 13).

22 23
saúde mental liga-se muito mais à toxidade da vida insti­ subjetivação no Brasil, proposta por Luis Cláudio Figuei­
tucional e à redução da relação clínica com pacientes do redo, e a teoria dos complexos discursos de Ian Parker.
que ao confronto trágico com a experiência da psicose ou A colaboração entre nós, iniciada em 1999, por ocasião do
da drogadição. Postos como uma espécie de último reduto mestrado que orientei sobre "Clínica Ampliada e Reforma
antes da barbárie, que não é a loucura, mas a miséria, a Psiquiátrica: um Estudo Crítico sobre o uso da Medicação
pobreza, a indigência discursiva e real, tais trabalhadores S/N (se necessário) no NAPS da Zona Noroeste da Cida­
vivem de forma "turbinadà' o processo de precarização de de Santos", progrediu até o pós-doutorado encerrado
que caracteriza o capitalismo à brasileira. em 2014, no qual pude supervisionar Fuad Kyrillos Neto,
Este livro se encerra com uma proposta de revisão crítica hoje professor universitário e pesquisador, no escopo do
da psicopatologia hoje prevalente na saúde mental. _Esta.­ Latesfip.
proposta refQrre basicamente �oçõ€-S-de-sintoma_,...filt
frimento e mal-estar, para repensar as pat9JQgias <!�al
C.Qm.O -�enenciaãêaêfiêl��ências prod�
d� �xcesso de experiências imPio­
dutiv_as_de determinaç_ão. P artindo de autores que inter­
pretaram a modernidade a partir da maneira como esta
constrói suas formas de sofri mento, que ora se reificam
em sintomas, ora se dispersam em espectros de insatis­
fação, pretendemos mostrar como que outra maneira de
entender e lidar com o patológico é possível. Sem recorrer
a solução normativista ou convencionalista, nem a uma
naturalização do sofrimento mental, esperamos contri­
buir, desta maneira, para uma psicopatologia que traduza
os ganhos e perdas realizados no Brasil sobre esta matéria
nos últimos quinze anos.
Este último capítulo conclui nosso trajeto articulando
a pesquisa realizada no interior do Laboratório de Teo­
ria Social, Filosofia e Psicanálise da Universidade de São
Paulo (Latesfip-USP), coordenado por Christian Dunker,
Vladimir Safatle e Nelson da Silva Jr. A proposta de uma
psicopatologia não-toda, ou seja, de uma psicopatologia
que não opere pela totalização das formas de sofrer, mi­
metizando adoecimentos nos quais não se reconhecem
mais as contradições que lhes deram origem, retoma, de
certa maneira, a teoria do reconhecimento, desenvolvida
inicialmente como apoio nos estudos sobre os modos de

24 25
Psicanálise e
Saúde Mental
na Brasil 2
A trajetória da Psicanálise no
Brasil começa nos anos 20 em
meio a múltiplasformas de
modernização do país:

• n<lustrialização, urba11izaçào e cres�imento de camadas


1 mt·ttias na sociedade, bem como o torte senso de higie­
nizaçào e a formação de um sistema nacional de saúde.
Neste contexto, a psicanálise é recebida essencialmente
como uma antropologia capaz de dissolver certos pro­
blemas ideológicos que dominam a arena intelectual da
época.
De um lado, podemos situar os herdeiros ou partidários
declarados da política do "branqueamento", entre eles
o psiquiatra :-(ina Rodrigues. Estes reivindicavam que o
Brasil somente seria um pab viável se pudesse conter a
degeneração de sua população cm uma população m:­
gra. Eram seriamente inspirados pelo positivismo social
de Comte e pelas teorias da hereditariedade absorvidas, e
moldadas, pelos discípulos de Pinel, como Morei e Esqui­
rol. O consenso de que evolução e progresso caminham
juntos marcam os primórdios do republicanismo à bra­
sileira, ,::orno o exemplifica o lema inscrito em nossa ban­
deira: "ordem e progresso''.
�o outro lado, temos a posição que reivindica o Brasil
como uma terra de mistura de raças; posição que evolui
para o chamado "movimento antropofágico''. cuja rcfcrén­
c'ia cm termos de psicopatologia era de extração alemã,
como Kracpclin e Griesinger, e não francesa. A ideia cen­
tral, presente cm alguns animadores da Semana de Arte
Moderna de 1922, como Oswald de Andrade, é que a cul-

28 29
tura brasileira é uma cultura que devora outras culturas, blema do âmbito antropológico para o psicológico. Isso se
produzindo sua própria forma de humano, agora trans­ mostra convergente com o processo de individualização
mutada por uma incorporação canibalesca. que atravessa a sociedade brasileira da época.
Lembremos que, para os franceses, o peso da constituição Por outro lado, entre os precursores da psicanálise no Bra­
mórbida era decisivo, daí a preponderância do tema da sil encontramos médicos que trabalharam ativamente na
transmissão familiar da loucura e das famílias patológi­ construção de nosso sistema psiquiátrico asilar: Juliano
cas. Para estes, o desencadeamento da doença mental era Moreira, e Franco da Rocha, por exemplo. Eles erguiam
apenas o aflo ramento de uma disposição paranoica, histé­ um dos maiores parques manicomiais da América Latina.
rica ou delirante. Já para os alemães, tratava-se de mostrar Ainda hoje temos cidades inteiras construídas no senti­
que a doença mental era de fato uma doença, ou seja, com do foucaultiano da "grande internação" do século de XVII
início definido, curso regular e desenlace previsível. O de­ europeu. Uma combinação de criminalidade, miséria e
sencadeamento exprimia assim a intrusão de um processo loucura conjugadas no mesmo lugar. Neste cenário, a psi­
mórbido relativamente alheio à personalidade, que reagia canálise aparece como um substrato ideológico no contex­
de forma típica ao processo que lhe era a princípio inde­ to da autonomização da psiquiatria brasileira.
pendente. Em agosto de 1900, segundo uma compilação de docu­
Franceses e alemães definiam, assim, duas formas de an­ mentos oficiais do Estado de Minas Gerais acerca da as­
tropologia concorrentes no Brasil da aurora republicana sistência psiquiátrica, feita por Moretzsohn (1989), é san­
e no início da República Velha, momento de montagem cionada a Lei nº 290, que aborda a "creação da assistência
de nosso complexo asilar. Ao contrário da Europa, onde de alienados" e a "instalação de hospícios". Em seu artigo
os primeiros manicômios herdaram a estrutura arquitetô­ terceiro, a lei especifica como devem ser as instalações do
nica e disciplinar dos antigos leprosários, administrados hospício: "No prédio que for destinado ao hospício haverá,
por ordens religiosas, no Brasil, os parques asilares foram além das accommodações precisas, um pavilhão para ob­
majoritariamente planejados no espírito de higienização e servação dos indivíduos suspeitos, um gabinete electro-the­
autocolonização próprio de nossa modernidade. rapico e o.fficinas, quando necessárias e a juízo do governo".
A assimilação da psicanálise depende do fato de que esta A observação dos indivíduos suspeitos, presente nesse arti­
forneceria uma forma universal da subjetividade humana, go, revela uma aproximação da loucura com a periculosi­
não centrada na raça, nos aspectos visíveis e públicos do dade e a consequente necessidade de controle. Ao designar
ser, mas em processos internos, invisíveis, mas universais. a sociedade contemporânea como "sociedade disciplinar",
Isto fica parcialmente atestado se examinamos as primei­ Foucault (2005) apresenta as formas de práticas penais
ras produções em psicanálise no Brasil. A ênfase está na que a caracterizam. Nesse contexto, o indivíduo suspeito é
teoria geral do simbolismo ou em aplicações ao campo da definido, em uma perspectiva disciplinar, como dano so­
estética, virtualmente distantes do ponto de vista clinico, ciaP. Assim, o louco é aquele que perturba a sociedade e,
como no trabalho de Durval Marcondes. portanto, deve ser controlado. Tais recursos apontam para
Portanto, além de certo alinhamento progressista, a psi­ 3 Foucault enconcra tais definições de crime em Beccaria, Bentham, Brissot,
canálise contribui para o próprio deslocamento do pro- assim como em Rousseau. Conferência IV. ln: A verdade e asformas jurídica!.
Rio de Janeiro: NAU editora, 2005.

30 31
a formação de modos de subjetivação, os quais Foucault cidade de ajustar-se a todos os casos e de cobrir todos os
(1984) desenvolve no estudo das formas e das transforma­ campos de comportamento. Lembra Foucault (1979):
ções da moral. [...] nessas condições, a subj etivação se efetua no
� Para esse autor, moral é o comportamento real dos indi- essencial, de uma forma quase jurídica, em que o
"' " "'Víduos em relação às regras e aos valores propostos pelos

<::ç -v códigos morais de determinada sociedade. É importante
sujeito moral se refere a uma lei ou a um conjunto
de leis às quais ele deve se submeter sob pena de in­
�Õressaltar que códigos morais são definidos como o con­ correr em faltas que o expõem a um castigo. (FOU­
i!}. � junto de valores e regras de ação proposta por indiví- CAULT, 1979, p. 29).
·� duos ou grupos via aparelhos prescritivos (FOUCAULT, Isso porque os locais em que predomina esse aspecto da
I"..- 1984). 1) moral frequentemente são instâncias de autoridade que
r'A. possibiHdade de constituição de um sujeito moral se fazem valer os códigos para garantir o controle e a disci­
plina, assim como o Hospício de Barbacena. São, portan­
J dá quando for possível que ele se conduza a partir de um to, os dispositivos de controle institucional que garantem
, c?di�o de ação. �r_á_.o_g�:.� de co�dive�­
�· a ordem e a disciplina dos asilados, não restando a possi­
� gencia em relaçao a esse cocbgo <:J.Ue ira determmar as d1- bilidade de um saber sobre si mesmos.
� ferentes maneiras de o sujeifo .se.condqúr. Nessa perspec­
,o• tiva, os valores e as regras são explicitamente formulados Desta maneira, podemos opor uma assimilação discipli­
.' nar da psicanálise, de extração francesa, atestada pela sua
t'S (doutrinas, ensinamentos) ou transmitidos de maneira
difusa, permitindo que o indivíduo aja conforme as regras associação posterior ao "movimento higienistà', a uma
ou tente escapar delas. O comportamento real do sujeito, assimilação liberal, de extração anglo-saxónica, associada
com as vanguardas intelectuais e artísticas, como o mo­
r\ ou seja, o grau de concordância ou de discordância desse
sujeito em relação ao código é que irá determinar o sujeito dernismo de Oswald e Mario de Andrade. O caráter bífi­
� -, moral. do da entrada da psicanálise na formação do discurso da
© - saúde mental no Brasil já é notado no prólogo da primeira
Há, portanto, dois aspectos que, segundo Foucault (1984), tese universitária sobre psicanálise no Brasil, escrita por
toda moral comporta: o dos códigos de comportamento Genserico Aragão de Souza Pinto, em 1914:
e o das formas de subjetivação ou práticas de si, ou seja,
"Das grandes nações intelectuais foi a França a úl­
quando o sujeito desenvolve um trabalho sobre si mes­
tima a manifestar sua curiosidade neste sentido.
mo. Ambos os aspectos se desenvolvem com autonomia
Enquanto Viena, Londres, Leipzig, Munique, Var­
parcial, já que não podem estar inteiramente dissociados,
sóvia, etc. eram agitadas por constantes discussões
porque é a partir do grau de concordância ou de discor­ psicanalíticas, Paris permanecia, ao contrário, quase
dância dos códigos ou regras que se estabelecem as formas completamente indiferente à revolução científica de
de subjetivação. Freud�' (Aragão, 1914:Vll)
No entanto, entendemos que a criação do parque mani­ Esta dupla filiação estende-se até a década de 50. Por um
comial em Minas Gerais possui dispositivos de controle lado, a serviço do projeto desenvolvimentista, a psicaná­
associados a um campo da moral em que a importância lise era um útil instrumento ideológico para subsidiar a
é dada aos códigos. Esse campo se caracteriza pela capa- política de distribuição de saúde mental, educação e pro-

32 33
gresso, assim como servia para os que viam com distan­ e mistura da cultura brasileira, esta segunda e terceira ge­
ciamento e crítica os efeitos assistencialistas e patriarcalis­ ração de imigrantes está às voltas com a reconstrução de
tas de tal proposta. sua história e a sedimentação de sua identidade. Tarefa
para a qual a psicanálise, tanto como dispositivo terapêu­
Mas, até meados da década de cinquenta, um fato inte­ tico quanto como projeto profissional, parecia ser um dis­
ressante torna enigmática a disseminação da psicanálise. curso atrativo.
Havia uma aliança com práticas e discursos educacionais
e psiquiátricos, uma presença relativa na cultura, mas, p a ­ O corporativismo psiquiátrico e o elitismo provinciano
radoxalmente, não havia psicanalistas no país, o que re­ redundam na consolidação de um rígido sistema de for­
presenta um atraso significativo frente a outros países. mação nas mãos dos analistas didatas. Aqui a psicanálise
é claramente admitida no círculo de ideologia compatível
"� Este retrato começa lentamente a mudar nos anos ses- com nossa forma tradicional de organizar o poder. Em
\ senta. Os primeiros analistas vieram para o Brasil, espe­
outras palavras: debi lidade de dispositivos públicos de re­
cialmente para São Paulo e Rio de Janeiro, no pós-guerra.
gulamentação, hegemonia das alianças familiares, admi­
Começa o processo de implantação de instituições psica­
nistração patriarcal, direta e de fidelidade bilateral.
nalíticas com a aceitação da Sociedade Brasileira de Psi­
canálise de São Paulo, em 1951, no XVII Congresso da A forma clássica do individualismo, com uma distinção
IPA em Amsterdam. A presença na universidade cresce. É clara entre o espaço público e o espaço privado, não se
importante notar que quando a psicologia é estabelecida aplica à subjetividade brasileira sem algumas ressalvas.
como uma profissão regulamentada, em 1962, com seus Em outras palavras, nós sentimos uma desconfiança clara
próprios departamentos e faculdades, iniciados em 1958, e sistemática frente a tudo que nos apareça como um ideal
a psicanálise constitui urna das forças mais importantes coletivo, público e independente de interesses pessoais ou
neste processo. Isso representa uma diferença significativa privados. As mudanças na política, justiça, polícia ou edu­
diante de outros centros europeus e mesmo latino-ameri­ cação, são interpretadas ambiguamente: como um sinal
canos, onde, sabidamente, o sistema universitário desen­ de prosperidade e como indicativo de uma nova máscara
volveu-se antes da psicanálise e a ela reagiu. para a forma tradicional de opressão.
Neste momento, a implantação social da psicanálise muda Neste contexto, a psicanálise soa compatível em muitos
substancialmente. De sua associação inicial com um pen­ sentidos. Seu sistema de legitimidade é baseado na genea­
samento de vanguarda, crítico e subversivo, ela passa ao logia. Um analista necessariamente fez sua própria análise
caráter de uma atividade aristocrática, ligada a nomes de com outro analista, e assim por diante, até Freud, o pai e
famílias tradicionais, herdeiros da aristocracia rural ur­ fundador. Seu dispositivo técnico, baseado na transferên­
banizada. A perspectiva de ascensão social que ela parece cia, pode, infelizmente, ser usado como meio de perpetuar
prometer começa a nutrir o imaginário elitista que paira submissão e dependência. Sua teoria pode ser lida como
sobre sua prática. abordando conflitos que, nascidos no espaço familiar, ex­
Paralelamente a psicanálise passa ser incorporada por ou­ plicariam e reduziriam as contradições da arena pública.
tro grupo social importante: os filhos da imigração. Neste A psicanálise, além de tudo, traz consigo uma parte de um
período, as grandes ondas de italianos, espanhóis, alemães "estilo de vida europeu''. Este é wn sinal de modernidade e
e japoneses se interromperam. No espírito de assimilação proximidade com o poder central, em um país que se sen-
-

34 35
te na periferia do mundo. Esta associação da psicanálise choanalytic Association). Olivei ra (2005) nos apresenta
a um estilo de vida nos ajuda a compreender sua imensa um extrato do discurso de fundação da Sociedade Bra­
popularização no discurso do senso comum. Como diver­ sileira de Psicanálise, pronunciado por Franco da Rocha,
sos autores já apontaram, a psicanálise incorporou-se à que enfatiza seu objetivo de divulgação e reconhecimento
cultura brasileira de forma muito mais forte e penetrante da psicanálise pela sociedade:
do que em centros onde ela é historicamente muito mais fazer uma propaganda mais intensa dos princípios
antiga, como Inglaterra ou Alemanha. psychanalyticos nas suas múltiplas aplicações, de­
Por outro lado, isso nos faz entender por que, em que pese vendo-se procurar interessar, sobretudo a classe dos
tal disseminação, o Brasil não tenha produzido, até bem professores. (Rocha, citado por Oliveira, 2005, p. 96)
pouco tempo, sua própria tradição de debate teórico no A SBP não ficou limitada a São Paulo. Articulou-se com os
campo da psicanálise. Nós importamos ideias e as usamos profissionais do Rio de Janeiro, e o resultado foi a divisão
"fora do lugar", como apontou Schwartz (1989). da sociedade em dois núcleos, um em São Paulo e outro
O episódio nos dá um retrato de como um discurso li­ no Rio de Janeiro. Durval Marcondes visita Juliano Morei­
beral, baseado na subjetividade individualizada, como a ra, que aceita sua proposta com entusiasmo. Fica estabe­
psicanálise britânica original, podia ser incorporada como lecido que Franco da Rocha continuaria como presidente
um movimento disciplinar, quando se estabelece em uma geral e Juliano Moreira seria o presidente da seção do Rio
cultura com uma tradição liberal incipiente. Os percalços (FACCHINETTI; PONTE, 2003).
profissionais de Franco da Rocha são exemplos das difi­ A década de 30 trouxe importantes transformações sociais
culdades e resistências que encontravam os interessados no Brasil, que afetaram a psicanálise. Após o conflito ar­
em psicanálise no meio médico paulista. Ao publicar o mado que colocou fim à alternância de poder das oligar­
livro O Pan-sexualismo na obra de Freud, em 1919, gerou quias paulista e mineira (política do café com leite), temos
apreensão na Congregação da Faculdade de Medicina, ascensão de Vargas ao poder, e as classes que apareciam
que chegou a questionar sua sanidade mental (MOKRE­ logo abaixo dos barões do café, como militares, classe
JS, 1993). Marcondes, discípulo de Franco da Rocha, se vê média e operários, são alçadas à ponta da pirâmide social
diante da impossibilidade de demonstrar e difundir entre brasileira.
os médicos os resultados positivos da psicanálise. Franco
da Rocha estava aposentado e, em seu lugar, no Juqueri, Nesse ínterim, a absorção da psicanálise em sua versão
assumira Pacheco e Silva, um forte opositor da psicanáli­ mais cientificista e médica, já fora colocada em curso
se. Para granjear apoio ao seu projeto de criação de uma nas reuniões da SBP, promovendo um descontentamen­
instituição psicanalítica, Marcondes se aproxima dos mo­ to dos partidários do pensamento modernista, uma vez
dernistas, pensadores e educadores. É com eles que, em que a apologia estética do primado do inconsciente ( de­
1927, Durval Marcondes tomou a iniciativa de fundar a fendido pelos modernistas) opunha-se frontalmente ao
Sociedade Brasileira de Psicanálise, primeira instituição ideário da Liga Brasileira de Higiene Mental.4 Neste con­
psicanalítica criada na América Latina. texto, Marcondes adota uma posição que o afastará ainda

A Sociedade Brasileira de Psicanálise era frequentada pela 4 A esse respeito verificar: COSTA, J.F. História da Psiquiatria no Brasil: um
sociedade local e reconhecida pela IPA (International Psy- corte ideológico. Rio de Janeiro: Garamond, 2007.

36 37
mais do movimento psicanaUtico ligado às artes: dissolve Esse mundo imenso do ser humano ficou reduzido
a Sociedade Brasileira de Psicanálise. Apresentou como a meia dúzia de noções gerais e genéricas que não
argumento a "impossibilidade de atender os quesitos da esclarecem nada, são mesquinhas, tipos das gene­
formação de analistas" (MOKREJS, 1993, p. 54) ralizações conformistas e acomodáticas da pequena
burguesia. (ANDRADE, 1983, p. 66)
Nesse mesmo ano, houve um acontecimento decisivo para
desativar essa Sociedade. Marcondes recebe de Max Eitin­ Oliveira (2003) atribui o afastamento de Mário de Andra­
gon, presidente da IPA e um dos fundadores do Instituto de da temática freudiana a sua amizade com o psiquiatra
de Psicanálise de Berlim, uma publicação comemorativa António Carlos Pacheco e Silva, ardoroso opositor da psi­
dos dez anos de existência desse instituto contendo infor­ canálise. De nossa parte, conjecturamos que as palavras
mações do sistema de formação psicanalitica (SAGAWA, do autor reverberam uma crítica à situação da psicanáli­
1994). Marcondes se convenceu de que deveria criar con­ se frente a sua institucionalização pelas sociedades ditas
dições para implantar um sistema de formação de analis­ oficiais, com sua "pedagogia da submissão" (COIMBRA,
tas no Brasil A busca da institucionalização aproximou a 1995). Estaríamos diante de uma cisão criada pela institu­
psicanálise do projeto de higiene mental e da pedagogia, cionalização da psicanálise?
e autorizou uma leitura mais próxima da medicina e da Marcondes segue em seu objetivo de trazer um didata para
ideologia dominante. A visão de mundo contida nessa São Paulo. Após os insucessos de 1932 e 1934, em 1936,
apropriação justifica o afastamento de muitos intelectuais no congresso psicanalítico de Marienbad, Ernest Jones, na
e artistas. condição de presidente da IPA, obteve a informação de que
Utilizaremos como exemplo deste rompimento o escritor Adelheid Koch pretendia migrar da Europa. Jones contata
Mário de Andrade, cuja obra é marcada pela psicanálise. Marcondes e, em seguida, Adelheid Koch recebe autori­
A primeira menção a Freud surge na obra Paulicéia des­ zação para formar novos psicanalistas no Brasil Formada
vairada, escrita em 1920 e publicada em 1922. No que diz na Universidade de Berlim em 1924, Adelheid Lucy Koch
respeito à teoria psicanalitica, a obra faz referências ao ter­ ingressou na Sociedade Psicanalítica em Berlim no ano
mo censura e ao conceito de recalcamento. Oliveira (2003) de 1929. Analisou-se com Otto Fenicbel por quatro anos
ressalta que Mário de Andrade: e meio. Na condição de analista judia, foi perseguida pelo
nazismo alemão tendo que emigrar. Koch é descrita como
( ...) precisa que o inconsciente é próximo do pri­ uma mulher com grande senso de organização e obediên­
mitivo, do arcaico, do obscuro e que desconhece a cia, nunca tendo questionado as regras da IPA (FACCHI­
linguagem. Ele é fonte de inspiração do poeta e co­
NETTJ; PONTE, 2003). Desembarca no Brasil em outu­
manda a criação. (OLIVEIRA, 2003, p. 71)
bro de 1936 e em julho de 1937, após procurar Marcondes,
Após a publicação de Paulicéia desvairada e em diversos inicia seu trabalho pioneiro em São Paulo. Cumpre des­
trabalhos da década de 1920, Mário de Andrade se expres­ tacar que, entre os primeiros candidatos a analista aceitos
sa ou faz diversas alusões a Freud. Então, como explicar as por Koch, está Virgínia Bicudo, que formou-se professora
afirmações contidas numa carta escrita em julho de 1942? normalista em 1930, educadora sanitária pelo Instituto de
Ultimamente, dei para achar paupérrima a psica­ Higiene da Universidade de São Paulo, em 1932, e Bacharel
nálise. Não acho errada, não, acho paupérrima. em Ciências Sociais pela Escola de Sociologia em PoUtica

38 39
em 1945. Frisamos sua formação, poisVirgínia foi a primei­ são da afiliação definitiva da Sociedade. Porém, em 1956,
ra candidata não médica, e colaborou para imprimir uma Spanudis decide abandonar a psicanálise. Alguns historia­
característica peculiar ao grupo psicanalítico de São Paulo: dores afirmam que ele resolveu se dedicar exclusivamente
a de aceitar candidatos não médicos com áreas de forma­ à arte, já que havia cursado medicina por sugestão do pai
çlo relacionadas à medicina (SAGAWA, 1994). Os esforços (SAGAWA, 1994). Porém, paira um silêncio sobre a saída
de Marcondes para possibilitar a inserção de Koch entre os de Spanoudis e seus motivos, pois sua assumida homos­
médicos e higienistas brasileiros obteve êxito. O fato de pro­ sexualidade não era aceita pela direção da IPA (FACCHI­
teger uma mulher judia e alemã em solo brasileiro naquele NETTI; PONTE, 2003). Teria Spanudis ameaçado a "pro­
tempo de simpatias ao nazismo era uma missão arriscada. dução da obediênciá' na formação de novos analistas?
Porém, prevaleceu o fato de Koch ser uma psicanalista com Parece-nos qu� Spanudis não se adequa ao "perfil do psi­
reconhecimento da IPA, e não temos registro de qualquer copatológico'' exigido pela IPA para seus futuros analistas.
comentário acerca de suas origens judaicas.
Jovens médicos, bem sucedidos profissionalmente,
Em 1945, o Grupo de Psicanálise de São Paulo consegue que buscavam a análise como uma especialização a
seu reconhecimento provisório junto à IPA. Em 1951, é mais em seu currículo. Eram excessivamente "nor­
feita a afiliação definitiva com o nome de Sociedade Bra­ mais" sendo considerados normais e pouco criati ­
sileira de Psicanálise de São Paulo. P ara nosso intento de vos (KUPERMANN, 1995, p. 26)
pesquisar as cisões e a busca de reconhecimento na insti­ A difusão cultural da psicanálise passaria pela formação de
tucionalização da psicanálise no Brasil, cumpre sublinhar­ um poderoso superego articulado a uma Weltanschauung
mos dois fatos. psicanalítica, com o objetivo de fazê-la respeitável e nor­
No ano de reconhecimento do Grupo de Psicanálise de São mal (KUPERMANN, 1995). Analistas que fogem a esse
Paulo, houve um congresso em Buenos Aires do qual parti­ perfil estabelecido ameaçariam a produção da obediência,
ciparam psiquiatras paulistas. Por causa de desentendimen­ gerando uma intolerância contra eles e acirrando o olhar
tos entre argentinos e paulistas, os psicanalistas argentinos superegoico da instituição sobre si.
levaram a Fenichel informações de que sua ex-analisanda, No Rio de Janeiro, o meio psiquiátrico encontrava-se fo r ­
Koch, poderia não estar desempenhando satisfatoriamente temente estruturado, fato que gerava dificuldades para a
a função de formação de novos analistas. Tal informação foi psicanálise se apresentar como alternativa em si mesma.
constestada de forma peremptória por Koch e Marcondes Pelo contrário, o meio médico, com seu prestígio, seus
(SAGAWA citado por FACCHINETTI; PONTE, 2003). adornos, suas academias e associações, tornava pouco
Tratar-se-ia de um episódio de disputa fratricida (entre psi­ atraente o vínculo a qualquer outra instituição (RUSSO,
canalistas latinos) por um reconhecimento junto a um pai 2002). As primeiras tentativas de criar um grupo em con­
idealizado como autoridade legítima? sonância com as regras da IPA ocorreram em 1940 e en­
Em 1950, chega ao Brasil, na condição de didata, Theon volveram, a princípio, dois grupos distintos: o primeiro
Spanudis. Veio de Viena para São Paulo, tendo feito sua constituiu o Centro de Estudos Juliano Moreira, e o segun­
formação na Sociedade de Psicanálise de Viena. Em 1951, do, o Instituto Brasileiro de Psicanálise (FACCHINET TI;
começa a trabalhar com dois candidatos e a oferecer cur­ P ONTE, 2003). O Centro de Estudos Juliano Moreira ten­
sos que influenciaram positivamente o comitê na conces- tou obter junto à Associação Psicanalítica Argentina um

40 41
didata interessado em migrar para o Rio de Janeiro e dar rificação. Em seguida, foi para o Instituto Gõring em 1942,
início a formação nos moldes adotados pela IPA. Diante para substituir seu ex-diretor, preso dias antes por ser
das dificuldades encontradas para dar seguimento ao pro­ contrário ao regime nazista. Figura controversa, alguns o
jeto, vários membros desse grupo rumaram para a Argen­ consideram simpatizante das teses nacional-socialistas.5
tina para dar início a sua formação. Com o apoio de Jones, Kemper chega ao Rio de Janeiro
No cenário do pós-guerra, o Brasil torna-se um país atra­ em 1948, acompanhado de sua mulher Anna Katrin Kem­
ente para os psicanalistas. Nesse contexto, Arruda Câma­ per. Em 1949, também voltam ao Brasil os psicanalistas
ra, que liderava um grupo de interessados na psicanáli­ que tinham ido para Argentina fazer sua formação oficial,
se, faz contato com Jones solicitando um analista didata constituindo um terceiro grupo, conhecido como grupo
experiente e com envergadura para conduzir a formação dos argentinos.
de analistas no Rio de Janeiro. Jones lhe apresenta Mark Em 1951, acontece uma crise de grandes proporções den­
Burke. Diante de tal perspectiva, o grupo capitaneado por tro do IBP. Devido à importância deste fato para nossa
Arruda Câmara fundou o Instituto Brasileiro de Psicaná­ discussão, transcreveremos na íntegra o resumo do episó­
lise (IBP), concebido a partir dos padrões da IPA, com o dio relatado por Mário Pacheco de Almeida Prado, citado
objetivo de receber analistas desejosos de migrar para o por Perestrello (1987):
Brasil e validar as intenções de seus membros de serem
reconhecidos pela IPA. Em abril de 1951 houve uma grande crise no Ins­
tituto Brasileiro de Psicanálise, quando seu diretor
Arruda Câmara, que estava em Londres fazendo sua aná­ descobriu que o doutor Kemper havia transformado
lise pessoal, convence Burke a migrar para o Brasil. Mark sua mulher em analista didata, mandando para ela
Burke chegou ao Rio de Janeiro em fevereiro de 1948 e pacientes e candidatos à formação psicanaütica. Foi
logo começou a trabalhar. De fato, a chegada de um didata lhe exigido estancar o trabalho da senhora Kemper,
fez avançar o processo de institucionalização da psicaná­ e como Kemper não aceitasse essa exigência foi eli­
lise no Rio de Janeiro. Burke buscou estabelecer relações minado do Instituto. Kemper não se defendeu com
com as sociedades vizinhas, tendo ido à Argentina e sendo dados realistas e sim acusou o doutor Burker de ser
recebido por Marcondes e Koch em São Paulo. Porém a louco e estar dominando com sua loucura seus ana­
demanda pela psicanálise crescia, e o contexto pós-guerra lisandos. Episódio muito doloroso para todos. (p.
era favorável ao Brasil. O IBP decidiu pedir a Jones outro 42)
didata, e Werner Kemper foi indicado. Kemper era um mé­ A não resolução interna do conflito levou Kemper a sair
dico alemão que foi analisado por Müller-Braunschweig. do grupo e fundar o Centro de Estudos Psicanalíticos. O
Ele foi admitido como membro da sociedade psicanalítica grupo passou a fazer supervisão com Werner Kemper, Ka­
alemã em 1932 e rapidamente atingiu importantes postos trin e também com os analistas de São Paulo, Koch, Spa­
de trabalho nesta instituição (FACCHINETTI; PONTE, nudis, Darcy Uchoa e Virgínia Bicudo. Alguns membros
2003). Em 1935, com sua ajuda e a de Jones, a sociedade do grupo de Kemper procuraram Burke para assistir seus
alemã foi arianizada com o suposto fim de preservá-la e
evitar seu fechamento. Kemper permaneceu à frente dessa 5 Sobre o assunto ver FÜCHTNER, Hans. O caso Wemer Kemper:
instituição durante o processo que foi denominado de pu- psicanalista, seguidor do nazismo, nazista, homem d1 Gestapo, militante
marxista'? P11/siom1/ São Paulo, outubro de 2000.

42 43
seminários clínicos. Desta forma, em 1951, o Rio de Janei­ Werner Kemper para Alemanha, formou-se um grupo de
ro sediava três diferentes grupos, todos em busca de re­ analistas dirigido por Anua Kattrin Kemper. Apesar de ser
conhecimento da IPA. (FACCHINETTI; PONTE, 2003). membro fundador da SPRJ e ocupar a função de analista
didata, Anna Kattrin Kemper deixou a instituição devido
A aproximação do grupo de Kemper com São Paulo fa ­
à falta de apoio diante dos conflitos com a linha ortodoxa
cilitou seu reconhecimento pela IPA. Assim, em 1953 o
da sociedade. Kattrin Kemper era recriminada pela forma
grupo de Kemper é reconhecido no XVIII Congresso Psi­
que intervinha no setting. Acompanhada de seu grupo de
canalítico Internacional, realizado em Londres (PERES­
supervisão, ela fundou o Instituto Brasileiro de Psicanálise,
TRELLO, 1987). Este grupo passará a ser conhecido como
com o apoio de Igor Caruso, do Círculo de Psicanálise de
Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro, em 1955.
Viena, que estava de passagem pelo Brasil.
No final de 1953, conforme relata Perestrello (1987), o
Dtlllker (2002) lembra que, nesse momento, a psicanáli­
doutor Burke volta para Inglaterra sem completar a for­
se transforma essencialmente sua inserção social. De sua
mação de seu grupo. Porém, as divergências deste grupo
proximidade com o pensamento de vanguarda, crítico e
com Kemper se exacerbaram. E m 1955, o grupo de ana­
subversivo, ela passa a assumir características de uma ati­
lisandos de Burke e o grupo argentino unem-se com os
vidade aristocrática, ligada a nomes de familias tradicio­
integrantes do grupo do próprio Kemper insatisfeitos com
nais, herdeiros da aristocracia rural urbanizada. Conjec­
a prática de Kattrin Kemper como psicanalista, e o denun­
turamos que tais qualidades distintivas se tornaram fun­
ciam pelo trabalho ilegal como médico.
damentais para certa perspectiva de ascensão social que a
Kemper ficou preso por algumas horas. Conforme nos psicanálise parece prometer, e que começou a nutrir um
lembram Facchinetti e Ponte (2003), foi articulada, por imaginário elitista que, até hoje, paira sobre sua prática.
psicanalistas ligados a Kemper, uma reação de pressão ao
Após esse breve percurso, caracterizado por conflitos e
poder público para resolução dos entraves atinentes à le­
cisões, nos parece que a causa das rupturas e dissidên­
gislação. O êxito dessa ação se materializou num aviso mi­ cias não reside em significativas divergências teóricas en­
nisterial que facultava aos leigos o exercício da psicanálise
tre grupos. Como nos lembra Russo (2002), apesar de a
sob determinadas condições.
maioria das rupturas serem justificadas por divergências
Em 1959, quando do reconhecimento da Sociedade Bra­ teóricas ou divergências quanto à prática, seu número e
sileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (SBPRJ) no XXI magnitude sugerem outro caminho de análise.
Congresso Psicanalítico Internacional em Copenhague, o
Sabemos que a psicanálise não é uma profissão regulamen­
Brasil permitia psicanalistas não médicos, desde que tal
tada; portanto, os psicanalistas não possuem um conselho
prática fosse cercada de supervisão psiquiátrica. Essa as­
profissional, nem estão submetidos ao controle do Estado.
sociação é oriunda do grupo de Burke que ficara no IBP,
Dessa forma, para seu exercício, a psicanálise depende de
do grupo argentino e de outros analistas brasileiros che­
certa iniciação, já que sua formação não é realizada pelas
gados ao Rio de Janeiro com formação feita em Londres
vias do ensino formalizado pelo Estado. O futuro analista
(COIMBRA,1995).
deve fazer sua análise pessoal com um analista experien­
Frisamos que tais cisões continuaram a acontecer nas ins­ te. Ou seja, ele deve formalizar sua experiência de análise
tituições psicanalíticas. Em 1969, dois anos após a volta de teoricamente para ser capaz de conduzir uma análise.

44 45
Sobre esse aspecto, lembramos que Freud (1912/1996) nos para ser reconhecida, precisa do outro; daí a luta que vai
ensina que o analista deve usar todo o seu conhecimen­ caracterizar a dialética do senhor e do escravo. O reconhe­
to para garantir que seu inconsciente esteja funcionan­ cimento inclui necessariamente um ato de confrontação
do como um órgão receptor, na direção do inconsciente de duas consciências que se pretendem humanas. Elas se
transmissor do paciente. Assim, sua autoanálise deve ser reconhecem, para si mesmas e para a outra, ao converte­
utilizada para impedir que suas próprias resistências in­ rem em verdade objetiva o que era uma certeza subjetiva.
terfiram no material trazido pelo paciente, sem ser criva­ Porém, temos um paradoxo:
do por sua crítica ou seleção consciente. Todos aqueles Só háEu verdadeiramente humano na relação com
que queiram ser analistas devem se submeter à autoaná­ o outro, mas também esse Eu só se constitui na su­
lise, pois, nas palavras de Freud, "obter-se-ão, em relação pressão do outroEu. (GARCIA-ROZA, 1991, p. 143)
a si próprio, impressões e convicções que em vão seriam
buscadas no estudo de livro e na assistência a palestras': Porém, nessa luta não pode haver morte, porque o senhor
(FREUD 1912/1996, p. 131) precisa do esc�avo para reconhecê-lo. O senhor não só ga­
nha a luta, mas subjuga o escravo, tira sua autonomia. A
Isso nos remete ao fato que, em psicanálise, temos uma posição do senhor é de quem domina e exige reconheci­
diferença entre ensinar e transmitir. Podemos aprender mento. Não é possivel, para o senhor, matar o escravo. Ele
psicanálise com a leitura de livros e assistindo aulas ou deve poupar-lhe a vida e destruir sua autonomia, o dei­
cursos. Porém, a transmissão da psicanálise está associada xando subjugado. Ê a posição do gozo, já que ele exige o
à articulação da teoria psicanalítica com a experiência do reconhecimento pela dominação. No entanto, é o escravo
analisando. Isso certamente se encadeia com o manejo da que está no avesso do gozo, ou seja, na angústia. Angústia
transferência na clínica e nas instituições psicanalíticas. gerada pela ameaça da sua total eliminação pelo senhor.
Assim, nas instituições psicanalíticas, estamos expostos a Dominado, o escravo mediatiza a coisa (em nosso caso, o
um risco de uma formação baseada num personalismo, saber psicanalítico) e a alça à condição de objeto de desejo.
que pode se manifestar de diversas formas: desde a apro­ Assim, o fundamento da dominação é, antes de tudo, um
priação da instituição por um analista que pretende regu­ desejo. É este que funda o movimento de reconhecimento.
lar seu funcionamento até aquele analista que se arvora de Lembramos que a concepção psicanalítica de desejo segue
detentor e guardião da pureza da teoria. o modelo hegeliano.
O paradigma hegeliano de desejo nos ajuda a tecer algu­ Lacan vai alçar o desejo a uma posição central em psica­
mas considerações sobre a posição de alguns analistas pe­ nálise. Na vertente lacaniana, o desejo é uma falta e não
rante suas instituições. Hegel, no capítulo IV da Fenome­ alguma coisa que concederá contentamento. Em seu se­
nologia do Espírito, se interessa pelos conflitos aos quais os minário intitulado O avesso da psicanálise, designa como
homens estão expostos. Tais conflitos são impulsionados Discurso do Mestre:
pelo desejo de reconhecimento. Para Hegel (2008), o dese­
jo, para se tornar desejo humano, implica reconhecimen­ senhor escravo
to, que leva a uma ação. Garcia-Roza (1991) nos lembra sujeito barrado gozo
que é da ação com o objetivo de reconhecimento que se
originará a autoconsciência, ou seja, a autoconsciência,

46 47
Lacan, ao dialogar com Hegel, coloca S1 (o significante que o semelhante (em nosso caso, as sociedades psi­
mestre) como o "senhor" e mostra a suposta identidade canalíticas) é o outro da relação especular. Freud situa
entre o sujeito e o S1• O mestre tenta sustentar-se no mito o núcleo central da estranheza no complexo de castra­
ultrarreduzido de ser igual a seu próprio significante. S 2 (o ção, na medida em que qualquer afeto que seja de um
saber) aparece como o "escravo''. O que se produz, nessa impulso recalcado transforma-se em ansiedade. Algo
relação, é gozo. ! disso que Lacan fala: "o gozo é fácil para que indique seu retorno poderia, então, ser vivido
o escravo [...)". A verdade do mestre é que ele é castrado. como o assustador angustiante, acrescido da peculia­
O escravo tem algum saber sobre a castração do senhor, ridade do estranho.
pois o $ no lugar da verdade mostra que não existe essa Freud nos ensina, ainda, que o estranho aparece a partir
identidade ôntica, que o sujeito não é unívoco, mas, sim,
do retorno de um conteúdo recalcado, qualquer que fosse
dividido.
seu afeto original. A estranheza se deveria ao retorno em
O discurso do mestre é o avesso do discurso do analista, si e à secreta familiaridade do fenômeno, indicando, por­
que opera pela transferência e cujo pivô é o sujeito su­ tanto, não ser ele novo ou alheio à mente, mas apenas ter
posto saber. O discurso do analista se opõe à sugestão, sido afastado pelo recalque.
que opera por meio do saber e oblitera a transferência.
O conceito de estranho é associado ao fenômeno do d u ­
Segundo Coutinho Jorge (2002, p. 30), "operando pelo plo. A ideia do duplo nos remete À projeção, ou seja, expe­
saber, a sugestão impede a transferência do saber incons­ lir para fora de si aspectos que considerados intoleráveis,
ciente". Ao impedir a produção de saber, o discurso do e que poderão revestir outra pessoa, atribuindo-lhe aspec­
mestre incorpora a função alienadora do significante, à tos malfazejos.
qual o sujeito está assujeitado. O mestre não se preocupa
com o saber, contanto que tudo funcione e seu poder seja Nesse fenômeno, persistem os efeitos da agressividade.
mantido. Assim, o semelhante é segregador porque a imagem que
vejo nele perpassa a minha. ! segregador porque odeia
Podemos entender que o mal-estar na instituição é suste n ­ ou não se quer ver. Porém, o retorno do recalcado pode
tado pelo discurso do mestre, justamente o discurso que se manifestar na compulsão à repetição inconsciente e
repousa sobre a ilusão do saber completo e da explicação
involuntária, levando à reprodução de ações e circuns­
definitiva. tâncias, ao retorno da mesma coisa, a coincidências. Isso
Se pensarmos que a característica do sintoma é fazer da porque a compulsão à repetição fornece a impressão de
contingência um atributo existencial, podemos inferir que estranheza ao evidenciar, especialmente, seu caráter de
os psicanalistas, ao adotarem uma posição personalista, destino inescapável, prevalente até mesmo sobre o prin­
não querem saber da castração. Assim, é possível presu­ cípio do prazer. Assim, o estranho estaria inscrito em sua
mir que, nas manifestações egocêntricas, a psicanálise é mensagem compulsiva e repetitiva. Esse modo de operar
tomada como sintoma do analista. Ou seja, temos o ana­ desperta a impressão, mais que a própria situação repe­
lista ocupando o lugar de mestria. tida. O breve percurso histórico das associações psica­
nalíticas, anteriormente assinalado, nos aponta para este
Freud, no texto O estranho, nos fornece elementos
fato.
para desenvolvermos essa ideia. Nesta obra, ele diz

48 49
Sob esse aspecto, lembramos que a fratria entre analistas tem articular o essencialismo do passado, característico
traz consigo o ônus de estarem todos empenhados em da esfera da pessoa, e a sua resolução pela instauração
seguir a miragem do líder, do ideal. Essa via de direcio­ de uma mediação e separação adequada, entre a esfera
namento dos excessos nos apresenta wna compensação, pública e a esfera privada. O infantil, ou pré-edipiano,
característica da ambivalência dos laços sociais em ques­ surge assim em associação ao traumático, ao indiscrimi­
tão: ou se volta contra o sujeito, sob a forma terrificante do nado e à pura intensidade sem mediação. Daí a primazia,
supereu, ou se volta como ódio ao pai que é direcionado no plano da técnica, de noções como as de contrato, set­
ao outro, instituindo a segregação. ting e neutralidade analítica, todas elas suportes para a
atividade crucial de discriminação, separação e simboli­
A fratria entre psicanalistas cobra um alto custo, zação. A abordagem da interpretação e da transferência,
disseminando a intolerância contra os de posição centradas em um processo tradutivo, e o horizonte de
divergente, de um lado, ou acirrando o olhar supe­
integração entre os maus e bons objetos (posição depres­
regóico das instituições sobre o candidato em for­
siva), nos informam ainda sobre a confiança depositada
mação, de outro. (MARTINS; POLI, 2012)
na proporcionalidade e reconciliação possível entre o
Inferimos que a segregação pode se manifestar a par­ mundo interno e o mundo externo.
tir do não reconhecimento pelos pares psicanalistas.
Mas se a psicanálise inglesa mostra-se sensível aos pro­
Trata-se de um reconhecimento recusado pelo outro,
blemas derivados da crise da dimensão da pessoa, sua
suposto detentor do saber psicanalítico, que se coloca
absorção em uma sociedade com uma frágil e incipiente
em posição privilegiada devido a sua ascendência na
tradição liberal, como a do BrasiJ dos anos 60, não deixou
árvore genealógica da psicanálise. Essa forma de reco­
de representar um problema. Desde o período republica­
nhecimento recusada vem acompanhada do adjetivo
no até o desenvolvimentismo dos anos 70, passando pelo
impuro, ou, em alguns casos, com a negação de que o
populismo da era Vargas, o país acostumou-se a aliar o
outro seja psicanalista.
discurso liberal a uma prática disciplinar. Neste sentido,
Isso nos traz para um fato curioso. Apesar da herança o declínio do poder simbólico e imaginário do pai, se fez
francesa de nosso sistema universitário, da influência sentir de modo mais lento, e preservando antigos disposi­
americana em nosso contexto econômico e do perfil tivos, no Brasil. A fraca coesão de movimentos baseados
germânico de nossos pioneiros psicanalistas, a primei­ em minorias organizadas: mulheres, afrodescendentes
ra psicanálise a prosperar no Brasil foi a britânica. Klein ou homossexuais, por exemplo, e a fragilidade da coe­
e Bion, que fez conferências no Brasil nos anos setenta, são ideológica na formação e ação dos partidos políticos,
são nomes de peso na história da psicanálise no Brasil. atestam a tardia consolidação da sociedade civil brasileira
Diversos temas, enfatizados por estes autores, são con­ e o estatuto instável de suas instituições. Fonseca (1994)
gruentes com uma perspectiva liberal, melhor adaptada mostrou como, historicamente, as ideias econômicas de
às transformações sociais verificadas na segunda metade extração liberal acabaram traduzindo-se, no Brasil, na
do século XX (ROUDINESCO, 2000). A valorização do construção e sedimentação de um sistema que alimenta
papel materno, da subjetividade da criança, e o cenário vícios públicos em prol de benefícios privados. Da cor­
de confusão, angústia e ambiguidade destrutiva, que ca­ rupção endêmica ao clientelisrno e à cartelização, há uma
racterizariam a cena primitiva da subjetividade, permi- desconfiança quanto ao caráter realmente público da es-

50 51
fera pública. Um traço característico da incorporação de no cenário brasileiro. A defesa do pluralismo teórico,
projetos liberais no Brasil. a aproximação com o trabalho em instituições e a crí­
Ora, não nos parece ter sido outro o caminho tomado na tica do corporativismo marcam a disseminação de tais
entrada no pensamento psicanalítico liberal de extração ideias. Trata-se aqui da valorização de outro aspecto
inglesa. Caminho que leva à reação lacaniana ocorrida da subjetivação liberal, mais advertida dos impasses e
no final dos anos 70, mas que já se indicara na saída da fracassos que sua promessa carrega; mais próximo, por
psicanálise oficial dos dispositivos universitários, geran­ exemplo, de Tocqueville do que de Weber.
do como subproduto a "psicoterapia de base psicanalíti­ Mas a tradição britânica, de maneira geral, significa, no
ca': Como uma mercadoria preciosa, era necessário res­ Brasil, urna perspectiva muito rígida e conservadora.
tringir-lhe o acesso para manter seu valor. Restringir sua Leva, inicialmente, a face da "sociedade" no duplo sen­
transmissão, ao acentuar o valor da experiência pessoali­ tido. Sociedade significa a forma institucional, jurídica e
zada. Bloquear seus meios de contestação e transforma­ cultural que organiza uma comunidade, mas "sociedade"
ção pública, pelo enfraquecimento do papel ocupado pela significa, em um particular sentido metonímico, o peque­
teoria. Estabelecer minuciosos dispositivos burocráticos no grupo, descendente da burguesia rural ou urbana, que
para garantir a legitimidade da prática e da filiação insti­ parece fazer as regras do país.
tucional. Enfim, um processo que reproduz a servidão que
procura por outro lado, criticar.
Mas a influência inglesa veio também indiretamente
da Argentina. A psicanálise argentína traz uma consci­
ência mais clara sobre colonização, e é historicamente
associada a uma influência crítica. Aberastury, Pichon
Riviere, Eleger e seus discípulos emigrados nos mos­
tram como a tradição britânica pode ser usada também
como uma resistência a situações culturais opressivas.
Sua influência, decisiva para a reentrada da psicanálise
nas instituições de saúde mental, deve muito ao caráter
de contestação política que motivou vários psicanalis­
tas argentinos a saírem do seu país de origem, domina­
do pela Ditadura Militar. Ainda nos anos setenta, um
problema similar foi enfrentado na psicanálise argenti­
na. O acirramento de tais contradições levou vários psi­
canalistas à composição do grupo Plataforma. Este não
foi o único movimento de crítica organizada à discipli­
narização da psicanálise nos anos 70, mas certamente
nos interessa mais de perto, pela presença direta de al­
guns remanescentes, ou das ideias por eles inspiradas,

52 53
Modas de
Subjetivação e
Complexos
Discursivos
Esta situação produz uma
incorporação particular do
que Parker (1997) chamou
de complexos discursivos da
modernidade em psicanálise.

les estão largamente presentes na representação po­


E pular da psicanálise, e constituem eixos para a inter­
pretação, nomeação e apresentação do sofrimento psíqui­
co. Constituem, por assim dizer, um vocabulário e uma
gramática, coletivamente compartilhados, capazes de dar
sustentação, localização e legitimidade para os sintomas,
no sentido psicanalítico do termo. Estes complexos dis­
cursivos formam, por assim dizer, um saber que posiciona
e torna possível a procura de um psicanalista. Prescrevem
o que se pode, o que se deve falar nesta situação e quan­
do se deve recorrer a ela, bem corno o que se pode dela
esperar.
Transferência, trauma e intelectualização constituiriam,
assim, arestas do imaginário cultural no qual a psicanálise
se instala no mundo europeu e anglo-saxônico, em parti
cular. Nào estamos falando dos conceitos a que tais termos
remetem, mas de certa forma de saber que atravessa a for­
mação de subjetividades compatíveis com a psicanálise. A
questão então é saber se tais complexos discursivos cons­
tituem bons parâmetros para pensar a difusão da psicaná­
lise no Brasil, dado seu caráter particular que já indicamos
anteriormente.
Um elemento a levar em conta. na apreensão de complexos
discursivos, é sua capacidade para instalar- s e como inter­
pretantes para contradições sociais e para os modos de sub­
jetivação hegemónicos cm um determinado estado social.

56 57
Pretendemos sustentar que uma parte da discrepância e cidade e clientelismo que verificamos em diferentes estratos
deriva teórica, que se verifica no uso destes três concei­ de nossa sociedade. O malandro é a figura-tipo desse estilo
tos, dentro de tradições psicanalíticas, depende do modo de subjetivação. É nessa linha que Cândido (1970) apontou
como eles são interpretados diante de diferentes conjuntu­ Memórias de um sargento de milícias como romance funda­
ras que caracterizam os modos de subjetivação. mental na formação de nossa literatura e da relação desta
com a dialética nacional. Pessoa é um termo do teatro, mas
Tais conjunturas, que constituem o espaço psicológico também do direito. Talvez seja nessa linha que a dimen­
da modernidade, especialmente a partir do século XIX,
\ se distribuem a partir de três projetos fundamentais, re­
tomando aqui a tese de Figueiredo (1994). Brevemente,
são privilegiada aqui seja a da relação com a lei, entendida
como pacto convencional simbolicamente constituído. Lei
cujo caráter híbrido em sua implantação nacional revela
\ podemos nomear tais projetos da seguinte maneira: li- compromisso entre vícios privados e benefícios públicos.
' beralismo, romantismo e regime disciplinar. Eles podem Lei que, em todas as fases de seu processo, apresentaria
fazer alianças ou produzir antagonismos, apresentando-se contradições gritantes, quando analisada de um ponto de
normalmente em combinação. Mas, cada um deles, se fa­ vista liberal ou mesmo crítico. Lei, portanto, suspeita, pela
zemos uma separação artificial, contém sua própria tecno­ presença dos interesses que subvertem os contratos que ela
logia para configurar e gerir subjetividades. torna possível. Aqui os atores reais do contrato sustentam
rt O liberalismo produz sujeitos, o romantismo produz pes- a lei. Esta depende de uma relação não simétrica, em que
1Joas, e o regime disciplinar produz indivíduos. Faço aqui a confiança é exposta às mudanças contingenciais do inte­
uma associação entre estas três tradições, formadoras da resse dos atores. A narrativa típica associada com a pessoa
sociedade ocidental moderna, com modos específicos de é aquela que se organiZá em torno do poder da experiência.
subjetivação no Brasil, descritos por Figueiredo (1994). Biografias, relatos pessoais, documentários e outras forma­
Gostaria de introduzir estas tecnologias, dando um feitio ções discursivas que tentam tomar_concêntricos a enun­
e algumas exemplificações que se diferenciam um pouco ciação e o enunciado. Para a pessoa,� à esfera pública deve
refletir.e-se submet.eÍ'- ao. espaço_ p..t:füjêlo,-e-não-o.:copÕsto.---
das propostas por Figueiredo, uma vez que pretendo fa­
zê-las convergir especificamente para a interpretação da Aqui nós podemos ver a condição, em termos dos modos
inscrição cultural da psicanálise no Brasil de subjetivação, para a disseminação da transferência como
um complexo discursivo da psicanálise. A repetição do mo­
J (1) Na esfera da "pessoa: traduz-se a dimensão de subje-

ll
delo familiar, em autêntica confusão do espaço público com
r,� tivação própria ao mundo do compromisso familiar, das
o espaço privado, seria a cena original da subjetividade.
lrelações diretas, das fidelidades e proteções que Freyre
(2003) isolou tão bem ao falar do patriarcalísmo nacional. (2) Na esfera do "sujeito': Figueiredo (1995) identifica a ver­
Na esfera da pessoa, nós en�tramos a-ctmti:alid_a_de_ dos tente de subjetivação eventualmente ligada ao ideário libe­
1 ral e moderno de autofundação, transparência e universali­
la�os_rclativos aoyniye_r.s.o. familiar. Os temas tomânt.icos
_d_Q retorno às_o_rjgens, da natureza, da familia, da sociedade dade formal Sujeito é uma expressão originária da filosofia
orgânica e da experiênêi.ããutên�c-ª, âcãbam_ por se am�ª1'.-­ e, mais precisamente, da epistemologia, isto é, �.lo-que
nãrevãlorização da dimensão da pessoa. A pessoa impli­ e0nb_ece e qu�_ p_ara tanto, p�ecisa passar por um processo
ca, assim, um sistema de identidãctes posicionais, de lenta _de-pu:rmcaçlo (Q método), de-ordenação (a técnica) e de
modificação, mas, ao mesmo tempo, a garantia de recipro- auto-organização (a ordem). Somente após este trajeto po-

58 59
demos encontrar os atributos que, de saída, lhe são supos­ e em contrapont_o_ à noção de massa. O __termo indivíduo
tos: universalidade, identidade, transcendência e potência remonta à química e à noção de elemento irredutível e-de
linguística de comunicação total. A identidade psicológica, ocorrência_r��l�r e constante. Indivíduo é uma �onqição
em face do sujeito, é, assim, uma identidade funcional, ex­ de r�zo.ivel indiferenciação e, consequentemen;, de igual­
purgada do que se poderia chamar de subjetividade, mas dade ou. uniformização. No indivíduo vigora Uilla identid a ­
carregada de autonomia. O sujeito, na cultura nacional, se de representacional, isto é, ele é o que ele representa em suas
expressa bem através do que Holanda (f99's)cliamou-de ações e atos. Sem nenhum privilégio ou distanciamento, ele
"o homem cordial" (p. 139). :Ê aquele que segue regras por­ se entende como mais um que pode ser substituído, troca­
que se reconhece na sua confecção ê que administra com do ou valoriza40, como qualquer outro que desempenhe o
sobriedade as tensões entre sua esfera privada e sua esfera mesm�tp.el{-seã pessõà ê sempre ·autor,êo �o-%-'\
pública, ou entre a casa e a rua, o que, enigeral, a djn1e�são �ÕS�õ-diretor da peça, o �&o�el�� _re�atado pel�
da-pessoa confunde ou sobrepõe. O sujeito, neste sentido, - -----
,pos1çao de mer..,o ator. Ele representa, mas não torna idios-
sin cr
ático seu roteiro. Ele representa e faz o público saber
é sempre paratópico, isto é, sobrevoa à distância, adminis­
trando suas ações e se autocontrolando para isso. , Pãtató­ que ele está representando. O indiví�uo é �Zº e des­
pico, porque está insistentemente �m outrQ.. lugar..lQI.a-,tia �s.dasNantagens..do_ ..anonimato. Ne son o igues, espe­
. cena. Como assinala Maingueneau (1992), a paratop; é cialmente nas tragédias cariocas e nos contos suburbanos,
um recurso literário que oferece uma posição distanciada retratou com agudez o momento de sedimentação da cultu­
de enunciação que permite à narrativa olhar a realidade ra do indivíduo no Brasil da década de 60. A lei, na esfera do
com outros olhos. O errante solitário, o louco, o náufrago, Jndwíduo...aruiuire a conotação de norma. Disciplina à qual
? est�ngeiro são �Ios-típi€os-de..per.sonagens·parató- todos devem se submeter, ela é impessoal, mas não formal,
, �rcõs. Neste sentido, a melhorexpressão literátiuio.sujeito, pois se expressa em regras e regulamentos indissociáveis de
na cultura brasileira, se mostra em Memórias póstumas de dispositivos materiais e práticas de sustentação. Na forma
'
Brás Cubas, em que, literalmente, o narrador (sujeito) fala · de narrativa tipicamente associada ao regime disciplinar e
da posição de morto ao nos revelar os meandros de suas ao indivíduo, predomina a estratégia de dissolver a enun­
desventuras como pessoa. A incidência da lei para o sujeito ciação no enunciado, tornando-o paradoxal, absurdo ou
não se faz pela via do contrato pessoalizado, mas pela supo­ ilocalizável. A experiência crítica que psicanálise introduz
sição de que esta possui algum fundamento transcendente para lidar com esta face de modernidade é o trauma. Apesar
ou puramente formal. Assim, a lei tornada paratópica pos­ das transformações que este conceito tem na teoria freudia­
sui características que são coextensivas ao próprio sujeito. na, a atração social que esta noção ainda tem no senso co­
Como podemos ver, a intelectualizaç-ão é um complexo dis­ mum está ligada a sua capacidade de isolar uma experiência
cursivo estritamente ligado à dimensão do sujeito. A pers� crucial como fundando os desvios da subjetividade.
pectiva de produzir uma metanarrativa privilegiada sobre Pessoa, sujeito e indivíduo engendram formas de sofrimen­
si mesmo, sob forma de autoconhecimento, torna-se então to subjetivo muito diferentes e, por isso, demandam tipos
um projeto amparado por urna semântica segu ra e por uma de tratamento igualmente diversos. Cada qual resolve a
gramática universal. contradição engendrada por seus meios de subjetivação a
(3) Finalmente, a dimensão do "indivíduo': ou do mero in­ partir de dispositivos diferentes. A pessoa procura o con­
divíduo, como diz Figueiredo (1995),...§.Ê orgruliza_ �m torno_ selheiro, o amigo ou, na mais pura tradição da elaboração

60 61
coletiva, lida com este sofrimento através do que Benjamin te integrados na família. Isso fez com que alguns autores,
(1996) chamou de Erfahrung, isto é, integrando sua expe­ como Gilberto Freyre (2003), aludissem ao Brasil como
riência a uma narrativa coletiva, oral e mítica. O sujeito, uma "democracia raciaf' e alimentassem o imaginário do
ao contrário, demanda processos mais ou menos formais Brasil como uma cultura sexualmente exótica e permissiva.
de regulação e estabilização de si mesmo. A história à qual Esta situação sugere um caminho particular para lidar
ele integra seu sofrimento é basicamente individual; ele de­ com o passado. Este acaba sendo organizado por uma
manda autoconhecimento para legitimar sua autonomia. O conveniência aliada ao esquecimento. Por outro lado,
indivíduo, por sua vez, procura solução para seu sofrimento tudo passa a depender da confiança que temos em nossas
na vivência, a Erlebnis de Benjamin (1996), ou, ainda, na relações pessoais no presente.
técnica, que poderia ser aplicada indiferentemente. Sua de­
manda não é de autodomínio, mas de autenticidade; não é A transferência, neste contexto, será facilmente aceita
como um complexo discursivo, especialmente se a in­
� bem-�Do ponto de vista da resposta terpretamos no aqui e agora da situação analítica. Neste
, cultural a este sofiiMento, podemos supor que a farmacolo­
gia da felicidade se ajusta ao indivíduo, assim como os ma­ modo discursivo, a realidade da relação, e a verdade que
nuais de autoajuda parecem dirigidos ao sujeito. As práticas dela se depreende, pode facilmente ser suposta como
religiosas e pararreligiosas orientadas para a cura, por sua construída arbitrariamente. A dimensão da pessoa inclui
um modo peculiar de transferência do poder. Encontrar
vez, atingem mais diretamente a esfera da pessoa.
por trás desta relação de poder, e do analista que as en-
carna, as figuras do universo familiar, torna-se assim uma
Transferência e personalismo romântico experiência deveras persuasiva.
Aqui podemos dar um exemplo. Durante o Regime Mili­
Como apontamos acima, a cultura brasileira é marcada, tar, entre 1964 e 1978, podemos ver uma imensa difusão
historicamente, por um forte personalismo. A principal da psicanálise no Brasil, especialmente entre as camadas
consequência disso é a extensão do estilo de vida familiar médias. Em alguns períodos, fazer uma psicanálise era
para a esfera pública. Como nos lembra um dito popular: parte do estilo de vida da classe média alta. Como Figueira
"Para os amigos tudo, para os inimigos a lei''. (1981) afirma, em um estudo comparativo entre a Ingla­
Familia não quer dizer apenas os laços de sangue e sub­ terra e o Brasil, nos tornamos consumidores pesados de
missão natural, mas também suas extensões para o uni­ psicanálise. Para um país pobre, é um fato curioso.
verso inteiro de pessoas protegidas, aliadas e agregadas. Mas nós temos que considerar certos aspectos. Durante
As origens deste sistema foram largamente estudadas pelo este período, o Regime Militar fecha ou reduz o incentivo
pensamento sociológico brasileiro clássico. para "artefatos intelectuais" perigosos como a Filosofia,
Este sistema remonta às formas de rela ão desenvolvidas a Sociologia e a Ciência Política. Por outro lado, aparece
diretamente, na política educacional do país, apoio para
durante o perío o co ºl!.1- ,-mar.e.ado pela � �ão. Nos­
uma disciplina aparentemente mais prática e necessária:
sos chefes rurais- éstabeleceram a prática do abuso sexual
a Psicologia.
das mulheres escravas. Mas, apesar da violência opressiva,
representada por tal prática institucionalizada, os filhos Psicologia e Psicanálise fornecem a resposta ideológica
destas relações foram inicialmente tolerados e gradualmen- para a interpretação de certas "anomalias" sociais que p a -

62 63
reciam tomar conta do país. Nos anos 1970, a hegemonia O contexto é bem parecido com o que podemos notar no
do modo de subjetivação centrado na pessoa começa a caso Dora (FREUD, 1905/1989). "Ponha-a nos eixos e
ruir. As mulheres ingressam no universo do trabalho assa­ deixe-me continuar em meu estilo de vidà: diria o pai da
lariado, a opressão sexual é posta em questão, o país entra Dora. A compreensão posterior de Freud sobre o fracasso
em uma crise econômica e social. do tratamento indica a complexidade da questão; ele não
prestara a devida atenção à transferência.
A retórica mobilizada para sustentar a resposta psicológi­
ca para esta mudança social pode ser localizada na teoria
psicológica de desenvolvimento. Isto é particularmente Trauma e individualismo disciplinar r-
convergente com o discurso da economia oficial daquele I
\
tempo. O país precisa de desenvolvimento (para superar o Mas os anos setenta no Brasil são marcados por outras mo­ \

I
subdesenvolvimento). Todos os esforços e sacrifícios se au­ dificações sociais. O movimento migratório para as grandes
torizam em nome disto. Esta aproximação foi indicada por cidades aumenta. A industrialização dos anos cinquenta
Burman (1999), que, por intermédio de uma fina análise começa a se desdobrar. Uma classe média baixa está con­
comparativa entre as duas formas discursivas sobre o de­
senvolvimento, acusou a cumplicidade retórica, semântica
solidada e crescente no país. Sob os auspícios do desenvo l ­
vimento, d a modernidade e da nova urbanização, o país -
e imagística entre ambos. A estratégia da retórica desenvol­
vimentista consiste em naturalizar a história no âmbito da
entra definitivamente na esfera da cultura de massa. A an­
tiga configuração familiar sofre algumas mudanças. Como

pessoa e torná-la isomórfica à história social. Esta segunda vimos anteriormente, há um grupo crescente de indivíduos , �
natureza pode então ser comparada a um modelo de desen­ anônimos, que perdem parcialmente sua identidade cul- i
volvimento. Aquele que o analista menos avisado pode ter tural, pela migração e pela entrada em um universo fabril ,
massificante. Trata-se de "pessoas': que repentinamente são
em mente dmante a transferência. Isso produz um código .
tomadas sob uma cultura disciplinar e individualizante.
de interpretação. Os ângulosdeste código, no caso da trans­
Deste modo, pessoas serão identificadas com sua função no
ferência como complexo discursivo, são formados pelas fi­
guras familiares: o pai, a mãe e os irmãos, em especial.
sistema, não mais com suas raízes familiares.
Esta perda de referência simb6lica é assimilada no quadro
I
Um estudo paradigmático, desenvolvido pelo exército,
do complexo discursivo dominado pela noção de trauma.
durante o Regime Militar, pode nos ajudar a compreen­ A noção de trauma fornece um modelo em que se trata
der como a transferência e o desenvolvimento tomaram de encontrar algo no passado, não no presente, que torna
um lugar privilegiado. Trata-se de um estudo psicológico esta perda de referência compreensível. Por outro lado, o
(COIMBRA, 199S), para responder por que uma pessoa trauma individualiza a história. Isso constitui uma respos­
entra em um estilo de vida subversivo. O que causa este ta para aqueles que não se reconhecem na complexidade
"problema': considerado na esfera do "desajustamento psi­ de uma cultura altamente psicologizada.
cológico"? A resposta: tais indivíduos provêm de "familias
desestruturadas': Pais separados, em associação com uma Mas este poder de singularização, que aparece no comple­
infância anormal, produzem, assim, uma rebeldia... deslo­ xo discursivo representado pelo trauma, prescreve o modo
cada. A cura: psicanálise, onde eles poderiam restabelecer através do qual ele pode ser dissolvido: outra experiência
a velha boa ordem. crucial. Formam-se, assim, as condições para o controle
desta experiência crucial por meio de uma "pura técnica':

64 65
Esta aparece muito bem representada na forma rígida e sua formação no Instituto Psicanalítico de Berlim. Imigra
disciplinar que toma conta das associações psicanalíticas e para o Brasil depois da guerra. Após o incidente com Amíl­
inspira indiretamente a formação de novos analistas. Outra car Lobo, a opinião pública é informada que Kemper traba­
face deste processo se mostra na concentração de estudos lhara em um centro conhecido pela sua colaboração com o
teóricos centrados na técnica psicanalítica, que caracteri­ nazismo, durante a Segunda Guerra. Assim, podemos loca­
zam a produção psicanalítica brasileira deste período. lizar uma linha de continuidade, da obediência e submissão
sustentada pelo conhecimento do trauma à obediência cul­
Um exemplo da capacidade de combinação entre trauma
tivada em certas formações analíticas.
e individualismo tecnificante aparece no conhecido caso
Amílcar "Lobo" (KUPERMANN, 1995). Tratava-se de um Segundo Kupermann (1995), o incidente ilustra como a
aspirante a psicanalista, médico; ao mesmo tempo em que transferência e a formação psicanalítica podem ser susten­
realizava sua formação em psicanálise, trabalhava no apa­ tadas como uma reprodução de certas relações do poder,
rato militar de repressão. Sua função precisa era susten­ que configuram seu lugar social. Isto nos ajuda a enten­
tar as "pessoas torturadas acordadas, durante as sessões der por que, neste período, pacientes de psicanálise são
de torturà'. Elas, assim como no tratamento psicanalítico, predominantemente mulheres. O complexo discursivo do
deviam "continuar falando''. A situação não é vivida sem trauma tem como subproduto identificar o paciente indi­
conflito. O candidato pede ajuda para seu analista e para cado para a psicanálise com a fragilidade, a fraqueza de
alguns companheiros da instituição. Não recebe uma res­ espírito e a falta de vontade para superar as próprias limi­
posta direta, mas há uma indicação difusa de que podia se tações. O indivíduo insatisfeito com sua própria condição
tratar de um problema analítico, um problema pessoal, a de indivíduo. A identificação ideológica da mulher com
ser resolvido no contexto de transferência. este lugar parece um agente favorecedor para sua captura
Seu próprio ponto de vista, nesta situação, é muito inte­ neste complexo discursivo.
ressante. Ele argumenta, que se ele está a se comprome­
ter com tal prática no presente, isso pode ser atribuído a Intelectualização e sujeito liberal
algum trauma escondido, no passado e em seu interior.
O argumento é bastante congruente com uma formação
discursiva típica do individualismo, a saber, o raciocínio Este último exemplo, do psicanalista-torturador, expres­
burocrático. Trata-se de um modo de responder a ques· sa, ainda, um modo particular de lidar com o trauma. Sua
tões que interrogam diretamente o sujeito, remetendo-as operação depende da possibilidade de intelectualizar a pró­
a outro. "Não é minha responsabilidade, siga para o pró­ pria subjetividade, de representá-la como um objeto para
ximo balcão, que 'alguém' se ocupará disto''. O fato de este a consciência, objeto repleto de conteúdos e positividade.
"outro-alguém" ser o próprio sujeito não parece represen­ No fim dos anos setenta, podemos observar três formas
tar uma diferença significativa. O simples fato que se está de resistência crescentes dentro da cultura psicológica
relatando o ocorrido a seu "superior imediato", em trans­ brasileira. O lacanismo, as práticas corporais de extração
ferência, é bastante para eximir a implicação subjetiva. reichiana bioenergética ou psicodramática e a psicolo­
Mas o caso tem raízes mais fundas. O analista de Amílcar gia analítica junguiana tornam-se alternativas imediatas
Lobo fez sua própria análise com um dos dois analistas pio­ ao fechamento individualista e disciplinar da psicanálise
neiros no Brasil: Werner Kemper. Este está credenciado por oficial, doravante associada à ortodoxia. O corpo contra

66 67
a palavra... contra o espírito; assim se rearticula a reação ta-se de um modo caricato ou sabidamente falso de apre­
liberal e romântica contra o individualismo. sentar-se ou aludir a alguma ação pública. A expressão não
Alguns fatores podem ajudar a compreender a penetra­ quer dizer apenas enganar ou enganar o outro representan­
ção do pensamento de Lacan no Brasil. O aspecto liberal, do um papel. Ela contém ainda uma autoironia acerca do
como este tende a considerar que a questão da formação reconhecimento da artificialidade da situação. Tal expres­
de analistas se combina com as objeções críticas contra são, assim como a particular forma de cordialidade do ho­
a psicanálise do eu, de extração americana e fortemente mem brasileiro, indica o caráter complexo e dialético das
centrada no individualismo. Tais objeções soam como relações entre o público e o privado no Brasil. A posição
uma perspectiva racional para desconstruir, internamen­ de Lacan, de fato, parece mais congruente para tematizar
te, a base de sustentação teórica da psicanálise disciplinar, esta complexidade. Poderíamos, ainda, interpretar a recente
apontando indiretamente seus compromissos ideológicos. expansão do pensamento de Winnicott segundo premissa
O curioso é que as críticas de Lacan são dirigidas frontal­ semelhante. A valorização da categoria de sujeito, no pri­
mente à psicanálise do eu, uma tradição historicamente meiro caso, e de self(mais próximo da pessoa), no segundo
muito fraca na psicanálise brasileira. No entanto, tais críti­ caso, ilustram respectivamente a aparição de formas modi­
cas são realocadas de modo a incluir a psicanálise inglesa. ficadas do liberalismo e do romantismo clássico.
Outro traço da captação liberal do discurso lacaniano re­
O sujeito, considerado por Lacan, distancia-se do experien­
side em sua defesa de um programa científico para a psi­
cialismo ligado ao complexo discursivo do trauma e do de­
canálise. Programa expresso, no entanto, em uma forma
senvolvimentismo de extração romântica. A subjetividade
poética combinada a uma retórica erudita.
dividida, exilada de qualquer síntese possível, alia-se assim
Ciência em estreita vinculação como uma ética, não como a uma ética que incorpora o fracasso do projeto liberal clás­
uma tradição epistêmica objetivista; tal plataforma se coa­ sico, uma ética trágica. Por outro lado, as objeções que se
dunou muito bem com os anseios de liberdade e rigor lhe costumam levantar constituem argumentos clássicos
próprios ao espaço liberal. Neste sentido, Freud define-se, contra o liberalismo: intelectualização, perda da experiên­
a si próprio, como um liberal, na medida em que confia cia e estereotipia na forma de apresentação pública.
na "ciência" como capaz de oferecer uma visão de mundo
Weltanschauung compatível com a psicanálise. Mas, se a recepção inicial do discurso de inspiração laca­
niana possui um veio crítico, sua implantação não deixou
A linguagem, conceito central na teoria de Lacan, configu­ de reproduzir o mal que visava combater. Sua crônica di­
ra um campo para a psicanálise onde a dicotomia entre o ficuldade em integrar-se à sociedade civil, pela fragilidade
interno e o externo é superada. A oposição simples entre o de suas instituições, o caráter, por vezes sectário, de apre­
mundo interno e o mundo externo (realidade), que pare­ sentação de sua doutrina e a crescente disciplinarização,
cia traduzir claramente a oposição e incomensurabilidade no plano da formação, têm mostrado como, a par de sua
entre o espaço privado e o espaço público, no pensamento entrada nas universidades, a intelectualização liberal em
de Klein e Bion, fica assim subvertida em prol da distinção
que se apoia ainda não foi submetida a um movimento de
entre imaginário, simbólico e real.
crítica interna e sistemática. Tal movimento seria crucial
No Brasil, existe wna declaração popular para expressar o para avaliar até que ponto ela resiste à sua incorporação
aspecto ilusivo do mundo público: "Para inglês ver''. Tra- por ideologias da pós-modernidade.

68 69
Reforma
Psiquiátrica:
medicalização e
socializaçãas
O processo da reforma da
psiquiatria brasileira entrou
em vigor na década de noventa,
por uma iniciativa articulada
entre os governos municipais,
estaduais e o governofederal.

o Brasil, o movimento antimanicomial tem grande


N influência na implementação de mudança nas po
líticas públicas, como verificado nos últimos dez anos.
Recentemente foi aprovada urna lei federal que proíbe a
construção de novos hospitais psiquiátricos. Os recursos
do poder público devem adaptar "estratégias alternativas"
à saúde mental, o que foi uma grande vitória das forças
progressistas da psicologia e da psicanálise, que têm um
papel crucial nessa mudança. Mas, como se diz: "na prá­
tica a teoria é outra", ou seja, leis frequentemente surgem
para sustentar, e às vezes justificar, práticas que poderiam
ser mais efetivas.
Kos anos 1990, a cidade de Santos, situada no litoral do es­
tado de São Paulo, é pioneira no processo de substituição
dos modelos dos grandes asilos. O sistema de assistência
psiquiátrica na cidade é ancorado pelos J\:úcleos de Aten­
ção Psicossociais (NAPS). Do dia à noite, não temos mais
grandes "hospitais-prisão''. devotados a tornar a loucura
silenciosa, invisível e excluída, como bem descreveu Fou­
caull. As portas foram abertas, e o problema agora é como
lidar com as pessoas que passaram dez ou vinte anos em
uma instituição de saúde mental.
O programa de saúde mental de Santos conta com cinco
J\:APS que prestam assistência a distritos municipais de
diferentes regiões. Seguindo os princípios da Psiquiatria
Democrática Italiana, e inspirado pela experiência de Ba-

72 73
saglia, o governo de esquerda tentou uma mudança radi­ cessário). Trata-se uma estratégia adotada pelos psiquia­
caL O projeto pretende negar que a loucura seja uma con­ tras que consiste em deixar uma dose extra de medicação
dição patológica individualizada que necessite de abor­ prescrita, para que, em caso de agitação ou recaída, possa
dagens terapêuticas ou clínicas. Ao contrário, a questão ser administrado ao paciente. Mas quem toma a decisão?
fundamental da loucura é a exclusão social. A terapia deve Apesar da relevância social da proposta da Psiquiatria De­
ser substituída por vínculos familiares e comunitários. Os mocrática Italiana, os relatos da família e dos pacientes in­
hospitais devem ser substituídos por centros de encon­ dicam que o uso "se necessário" de medicação aumenta em
tro que estimulem os agora chamados usuários a circular altos níveis. Quem, em nossos tempos, pode realmente es­
como cidadãos reais. tabelecer quando uma medicação é, de fato, não necessária?
Esse serviço funciona vinte e quatro horas ininterruptas, A negação dos procedimentos terapêuticos traz à tona a
sete dias por semana. Possui seis leitos para internações negação da prática. Apesar dessa ordem, a situação induz
de curta duração. Com aproximadamente quarenta técni­ a uma questão interessante: os procedimentos clínicos
cos envolvidos, cada NAPS tenta atender mais de 5.000 poderiam ser aceitos mais democraticamente? Nós real­
usuários. Aqui começamos a ver a outra face da institu­ mente precisamos identificar procedimento clínico com
cionalização, que não justifica, em caso algum, o retorno procedimento técnico?
das práticas tradicionais. A desinstitucionalização poderia
ser facilmente colocada em prática simplesmente porque O psiquiatra trabalha com uma rotina diferente, em com­
é mais barata, e, como veremos, sustenta o poder do dis­ paração com os outros membros da unidade. Eles reali­
curso progressistas liberal. zam uma jornada reduzida de trabalho, mantendo uma
distância regular dos outros membros da equipe. Muitos
O projeto de saúde mental que guia as principais ações profissionais evitam participar de discussões de casos.
do NAPS é orientado a mudar as relações sujeito-institui­ Procedimentos médicos e técnicos não têm nada a ver
ção-comunidade. Quebrando os muros das tradicionais com engajamento político. Como eles vêm os pacientes
práticas disciplinares, o projeto tenta enriquecer a vida em regime aberto e não participam de atividades como
dos usuários. Isso significa acesso a cultura, arte, lazer, e, receber os pacientes, ouvir as condições sociais e pers­
fundamentalmente, acesso ao trabalho. O ponto principal pectivas dos usuários, eles apenas executam seu trabalho,
do projeto é o livre acesso à cidadania através de um novo dando a medicação correta, de acordo com o objetivo da
tipo de socialização.
condição descrita no DSM. No entanto, nenhum trabalha­
A equipe do NAPS é composta por enfermeiras, terapeu­ dor da instituição questiona o desempenho desse_s profis­
tas ocupacionais, psicólogos, psiquiatras, assistentes so­ sionais; ao contrário, eles normalmente reclamam sobre a
ciais, diretores administrativos, auxiliares de enfermagem, falta de médicos na equipe. Por outro lado, os psiquiatras
etc. Mas apesar de instrução formal, não há projeto tera­ defendem esse desempenho, alegando que eles estão tra­
pêutico. Aqui nós temos uma ação bem eficiente: a maio­ balhando de uma maneira otimizada. Orientando-se pu­
ria dos colaboradores está conectada a esse movimento de ramente pela técnica, eles conseguem lidar com a imensa
mudança política. demanda.
Uma das práticas que se tornou usual no cotidiano da ins­ Os usuários normalmente chegam ao NAPS de modos
tituição é a chamado "medicação S/N" (medicação se ne- diferentes. Eles podem ir espontaneamente, levados pela

74 75
família, removidos de policlínicas ou hospitais emergen­ tomar a medicação diariamente no NAPS (medicação as­
ciais, ou até mesmo serem levados por policiais ou ambu­ sistida) ou pode levá-la para casa por alguns dias (medi­
lâncias em serviço. Nas operações diárias da instituição, cação dispensada). Os auxiliares de enfermagem ficam na
�ofissionais técnicos é responsável pela farmácia ou no posto distribuindo a medicação. Muitas

l
recepção e primeira assistência dos novos pacientes, o vezes, quando um técnico não consegue localizar um pa­
antigo diagnóstico. Atualmente isso é feito por um técni- ciente, ele deixa uma observação em sua prescrição médi­
f co responsável, que solicita algumas informações: nome, ca. Muitas vezes, usuários entram no NAPS quebrando as
endereço, contato com outras instituições, internações coisas e pedindo medicação extra. No fim, o uso e controle
psiquiátricas prévias, religião, condições de moradia, cír­ da medicação se tornam um novo instrumento poderoso
culo social e educacional, pessoas com quem mora, entre de regulamentaç�o: "se necessário" significa "sempre ne­
1 outras. Praticamente não há mais espaço para uma inves- cessário"... Por que não?

r
\Í'\
tigação detalhada sobre os sintomas. Isso é muito coerente Com esse pequeno corte no cotidiano do NAPS, quere­
com a desconstrução do projeto de identidades psicopato­ mos exemplificar uma questão importante para a reforma
lógicas. Na prática, isso significa que o paciente em sofri­ psiquiátrica no Brasil, bem como apontar alguns questio­
mento não é realmente escutado. O objetivo é ser funcio­ namentos a serem compartilhados com outras situações
nal e eficiente nas habilidades sociais. Integrado à família, de mudança na saúde mental. A abordagem clínica pare-
trabalhando e politicamente engajado, essa é a imagem ce não ser inerentemente oposta ao engajamento políti­
requisitada à inscrição social. Esse é um bom exemplo do co-social: nós vemos no NAPS como eles podem ter uma
que Lacan chama de o discurso do mestre: "Trabalhe! Seja combinação ruim. Por outro lado, abordagem clinica não
funcional! O desejo vem depois': necessariamente significa um procedimento técnico, anô-
11
00.Jll base nas habilidades sociais, a pessoa responsável nimo e ético. Nos últimos anos, a intensidade do modelo
por receber o usuário decide se ele deve ser inserido em de saúde mental tem mudado, e a pressão para se criar,
algum serviço. Gerilwente o paciente é aceito quando o em serviços substitutivos não foi acompanhada por pes­
. quisa clínica. A pesquisa clínica não foi acompanhada
médico prescreve medicaç ão. T�das as...Rráticasclínicas no
NAFS-€Qme:ç:.ãinaser organizadas em torno da medica­ pelas implicações éticas e políticas ao se lidar com o so- v
ção.-Rsse-fato_ é coerente �mãpresênçã da medica5ão ''se frimento mental. No lugar dessa falha dupla, nós temos
necessário" na coordenação. do dia a dia do S!fvtço. A ava­ um crescente poder da relação em torno da medicação, o
líê!,ção psiquiátrica é splicitada para sup,rinür os. �mas que preserva muitosaspectos da psiquiatria tradicional. O )
não ouvidos: alucinações, delírios, a_gitação, ansiedade e resultado desse paradoxo é uma prática baseada em dose
ideias. suicidas. j
massivas de medicação para se obter a inserção de pacien-
tes na adaptação social. Será necessário?
O paciente inscrito que faz uso constante de medicamento í \j
é mediado pelo técnico responsável pelo caso. Essa pessoa
estabelece um contrato terapêutico com o usuário. Nesse
,. \
;r-
\
contrato é incluído o acesso ao medicamento, geralmen­
te com poder de barganha, com outras atividades que o
usuário deve fazer ao aceitar o contrato. O usuário pode
\
76 77
Reforma
Psiquiátrica:
a clínica das
psicases 1
Os serviços substitutivos de
saúde mental surgem na década
de 80, num contexto de crítica e
prevalência da internação asilar
e da privatização da assistência
na forma de hospitais e clínicas
ditos ''conveniados".
maioria dos serviços substitutivos br asileiros foi ins­
A pirada na experiência italiana de desinstitucionali­
zação em Psiquiatria.
A experiência basagliana revela a impossibilidade, histori­
camente construída, de trato com a diferença e os diferen­
tes. No campo das igualdades, o louco ganha identidades
redutoras da complexidade de suas existências. Arnarantt'
( 1995) considera que o mfrito da Psiquiatria Democrá­
tica Italiana foi possibilitar a denúncia civil das práticas
simbólicas e concretas de violt-111.:ia institucional e não
restringir tais denúncias a um problema dos técnicos de
saúde mental.
Rasaglia ( 1985) considera que o psiquiatra social, o assis­
lente social, o psicólogo da indústria e o sociólogo da em­
presa são os novos administradores da violência no poder,
pois atenuam os atritos, dobram resistências, resolvem
conl1itus. Com sua ª'.-"ão téc11ica, limitam-se a consentir
que se perpetue a violência global. Para Basaglia ( 1985, p.
102), o único ato possível para o psiquiatra será "evitar so­
luçôes fictícias atraves da tomada de consciência da situ­
ação global na qual vivemos, ao mesmo tempo excluídos
e excludentes''.
Com tal inspiração, o tnmo "reforma psiquiütrica''. no
Brasil, adota uma significativa mudança de dire1;ão: a
crítica ao asilo deixa de pleitear seu aperlei,·oanwnto ou
humani7,ação, passando a questionar os objetivo� da Psi-

80 81
quiatria, na condenação de seus efeitos de normalização Partimos do pressuposto de que para garantirmos o avan­
e controle. A Reforma Brasileira passa a ter como meta a ço da Reforma Psiquiátrica Brasileira, para além da criação
cidadania do louco. de novos serviços, precisamos de profissionais imbuídos de
um arcabouço teórico profundamente distinto do modelo
Amarante, ao coordenar uma pesquisa da Escola Nacional anterior (manicomial). Consideramos que as novas moda­
de Saúde Pública, define reforma psiquiátrica como:
lidades de atenção em saúde mental não devam ser resu­
um processo histórico deformulação crítica e prática midas a novas técnicas de tratamento, mas constituir outra
que tem como objetivos e estratégias o questionamento política, que atente para a ética da inclusão.
e a elaboração de propostas de transformação do mo­
delo clássico e do paradigma da psiquiatria. No Brasil,
Furtado e Campos (2005, p. 113) colocam wna questão
a reforma psiquiátrica é um processo que surge mais
crucial para a reforma psiquiátrica: "como instaurar uma
concreta e principalmente a partir da conjuntura da nova postura, uma nova ética de cuidados, uma nova fo r ­
redemocratização, em fins da década de 1970, funda­ ma de lidar com o doente mental entre os milhares de tra­
do não apenas numa crítica conjuntural ao subsistema balhadores de saúde mental do país?".
nacional de saúde mental, mas também e principal­ Ressaltamos que, nos serviços abertos de saúde mental,
mente, na crítica estrutural ao saber e às instituições temos um significativo número de trabalhadores que não
psiquiátricas clássicas, no bojo de toda movimentação vivenciaram o modelo manicomial. Acreditamos que tal
político-social que caracteriza esta mesma conjuntura vivência, ou a transmissão crítica de tal experiência, seria
de redemocratização (Amarante, 1995, p. 91). importante para o entendimento dos avanços represent a ­
Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) surgem como dos pelos serviços substitutivos. Além disso, cumpre frisar
resposta às aspirações da Reforma Psiquiátrica Brasileira. que as instituições de formação assimilaram muito pouco
Tal serviço possui cinco características fundamentais no das discussões trazidas pela reforma, seja em seus currí­
que diz respeito a sua "prática terapêuticà': garantia de culos, seja em atividades extensionistas. Elas vêm ofere­
direito a asilo (o que não significa isolamento ou exclu­ cendo tímidas contribuições, em termos de avaliação e
são); agilidade de respostas às situações de crise; inserção propostas, para seu desenvolvimento.
no território; inversão no investimento (significando dar Nas características descritas anteriormente, consideradas
ênfase à reprodução social dos usuários, ou seja, sem uma essenciais para o funcionamento dos serviços substitutivos
preocupação com estruturas clínicas ou quadros psicopa­ de saúde mental, percebemos uma ausência da dimensão
tológicos) e, por fim, processo de valorização, entendido clínica. A "inversão do investimento'' propõe que a Psi­
como a participação das instituições no processo de inter­ quiatria não enfatize a patologia, e contemple a existência
câmbio social (NICACIO, 1994). complexa dos pacientes e sua inserção no corpo social.
Tais características dos CAPS são aplicações institucionais Um dos maiores riscos da reforma psiquiátrica em cur­
do modelo basagliano. São princípios que regem o fun­ so no Brasil é o fato de privilegiar a adaptação do doente
cionamento cotidiano dos serviços abertos de saúde men­ ao meio - ainda que isso venha a custar o próprio apaga­
tal. Ao abordarmos esses aspectos, estamos adentrando o mento do sujeito. Nos moldes propostos pela Psiquiatria
campo das políticas públicas de saúde mental preconiza­ Democrática Italiana, a inclusão social do paciente seria
das pelo Movimento da Reforma Psiquiátrica.

82 83
.
=-1
obtida por meio da negação da lógica manicomial (trans­ (1998) nos lembra que a ciência lida com o sujeito,
formação institucional), de uma política compensatória apenas com o sujeito cartesiano, consciente, senhor de
de concessão de benefícios, da participação em movimen­ seus próprios pensamentos, que são correlativos ao ser. As
tos sociais e do retorno ao universo de trabalho. Vigano ciências certamente ignoram o sujeito dividido por afir­
(2005), em artigo intitulado Basaglia com Lacan, nos lem­ mações como "Eu sou onde não penso" e "Eu penso onde
bra que: não sou':
A quem puder extrair da experiência basagliana um Em Psicanálise, operamos sobre um sujeito que é o mesmo
ensinamento, proponho fixá-lo num aforismo que da ciência que não opera sobre ele. A subversão própria
parafraseia aquilo com o que Lacan ligou a obra de à P sicanálise, em relação ao sujeito colocado pela ciência
Freud com a de Saussure: se Basaglia tivesse lido La­ moderna, é o fato de ter criado condições para operar com
can, haveria dito que o fechamento dos manicômios esse sujeito.
é uma troca de discurso e que o discurso do analista
O sujeito do cogito é o sujeito do pensamento. É só por­
pode motivar ·� posteriori" essa passagem. (p.16).
que ele pensa que se assegura de si. Ele é um sujeito do
Vigano (2005) aponta, ainda, que a falta de uma operação pensamento e, ao mesmo tempo, um sujeito da certeza.
denominada "torção interna da linguagem': que permita o Soller (1997) nos lembra que o sujeito do pensamento, ou
ato de falar da loucura sem acercar o louco, leva Basaglia sujeito da certeza, não é o sujeito da verdade. A certeza
a confiar exclusivamente na prática. Essa é a operação que é completamente independente da verdade. O cogito sus­
Lacan faz a partir do inconsciente freudiano no discurso pende qualquer consideração da verdade. A partir dessas
do analista. Esse discurso tem como característica funda­ considerações acerca do cogito, observamos que o sujeito
mental ser o único que considera o outro como sujeito. que procura um serviço de saúde mental é muito diferente
Justificamos a afirmação anterior com o deslocamento do sujeito do cogito. O sujeito que procura um serviço de
do sujeito da experiência da loucura, realizado pela Psi­ saúde mental é alguém que sofre. Com Soller, podemos
quiatria Democrática Italiana, para a posição de usuário afirmar que o cogito desse sujeito poderia ser: "sofro, logo
dos serviços de saúde mental. Dessa forma, a demanda de sou". Portanto, quem busca acolhimento em serviço de
cura dos sujeitos é revertida para a demanda de inclusão. saúde mental não é o sujeito da verdade, mas o sujeito do
Sua patologia é definida pela exclusão social concreta. A afeto.
localização de sua demanda não emerge do sofrimento Operar com a noção de sujeito é fundamental para o tra­
psíquico individualizado, mas do sofrimento atinente à balho analítico, pois, dessa forma, abre-se espaço para as
posição de classe. Como tal, sua demanda se objetiva em manifestações do inconsciente (atos falhos, sintomas, lap­
posições no universo do consumo e do trabalho, de onde sos, chistes). Assim, nos aproximamos da dimensão fun­
a expressão "usuário" afinal deriva. damental do não sabido, da excentricidade do sujeito de
O sujeito em Psicanálise integra o corpus teórico da P sica­ si para si mesmo. Com a extração de S1 (um significante
nálise, constituindo-se em categoria essencial dessa teoria. mestre) de um saber em posição de verdade, uma verdade
O termo sujeito foi introduzido por Lacan na Psicanálise, não toda, uma proposição subjetiva em relação ao gozo, o
e permite que operemos com a hipótese do inconsciente, discurso do analista, ao tomar o outro como sujeito falan­
sem aniquilar sua dimensão essencial de não sabido. Fink te, leva o sujeito à bem-dizer o próprio sintoma e a atra-

84 85
vessar sua fantasia. Como sabemos, Lacan (1969-70/1992) Lacan aponta que todo laço social se sustenta nos quatro
elabora a teoria dos quatro discursos a partir do discurso discursos. Consideramos esse legado lacaniano funda­
do mestre, cuja matriz é a relação necessária entre S1 e S2. mental para todo aquele que deseja intervir na institui-
A essa matriz Lacan chama estrutura. Esse autor, ao ex­ ção como psicanalista. Tais discursos apresentam quatro
trair da experiência psicanalítica o discurso do analista, posições que definem quatro discursos radicais. Segundo
coloca em evidência e recupera o fracasso, que no discur­ Fink (1998), cada discurso específico facilita ou dificulta
so do mestre aparece como resto, perda de gozo. determinadas questões, ou permite, ou impede que elas

Nesse ponto, cabe uma diferenciação entre clínica e saúde


mental. A clínica diz respeito ao caso tomado em sua sin­
sejam vistas. Lacan (1969-70/1992) nos lembra que a ma-
nipulação do significante está nos dados da Psicanálise. O
inconsciente permite situar o desejo. Esse desejo pode ser/
1_

gularidade, enquanto a saúde mental preocupa-se com as


!
decifrado quando consideramos a repetição. Há busca de,
ações políticas e eticamente orientadas para as peculiarida­ gozo na repetição; logo, esta se inscreve na dialética do í%.
des de certo grupo (FURTADO; CAMPOS, 2005). Pode- gozo. A partir dessa constatação, Freud elabora o instinto \
os afirmar que a prática clínica está em conexão com o de morte. Diz Lacan (1969-70/1992, p. 46):
discurso do analista. Nos��-� i�-díntç�ú­
Quando o significante se introduz como aparelho de
dement"<ll.-sejam-ind.issoeiáv.ei�rática dos trab adores
\j ,�<!_e_ m....ental. Considerar sujeitÕdo ·reito e sujeito do gozo, não temos que ficar surpresos ao ver aparecer
uma coisa que tem relação com a entropia L, posto que
incQnsçl�nte.. é..no�o. Aliás, Lacan (1969-7Õ!i992)
se definiu precisamente a entropia quando começou­
insiste no caráter essencialmente social desse discurso que
-se a sobrepor esse aparelho de significantes à sonda
tem por objeto o analista em sua prática, quetoma na posi­ física.
ção de "dominante: de agente, o "mais-gozar'; e na posição
de produção, o significante mestre. O s.!gEificag�oç[e_ trazfr a marca da fantasia na qual o
s�ito se identifica �mo objeto d:_ g�zo. Gozo ôõ Outro .
Em sua obra, Quinet (2006) nos apresenta o discurso como
Essa é urna das vias de entrada do Outro no mundo do ser
laço social que compõe o campo do gozo. O autor defende a
falante.
ideia de que não existe tratamento efetuado fora do campo
do discurso e que, dessa forma, todo tratamento se insere Quinet (2006) nos sugere algo que não podemos negligen­
num laço social. A relação médico-paciente se estabelece a ciar ao pensarmos na postura ética de cuidados aos porta­
partir dessas modalidades de laço social. Lembramos que dores de sofrimento mental: reconsiderar a proposta, feita
Basaglia não interrogou a experiência subjetiva da estrutura por Freud, de interconexão entre a Psiquiatria e a Psicaná­
psicótica. A partir desse aspecto, a sua crítica histórica acer­ lise. Tal proposta diverge da postura atual da Psiquiatria,
ca do tecnicismo psicológico ocupará um nível puramente que a reduz a um modelo médico expresso no Diagnostic
traté ico. Criticamos o laço social produzido pelo saber and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM) e na
da Psiquiatria Democrática Italiana, demonstrando que o Classificação Internacional de Doenças (CID). Conside­
discurso do mestre é hegemônico nos serviços de saúde ramos que a proposta atual da Psiquiatria está ancorada
mental de inspiração basagliana, pois os técnicos prescre- na circulação do discurso do mestre, que tem, no lugar
da verdade, o sujeito despótico (o psiquiatra); no lugar
:em as condutas que os usuários devem seguir para akan­
t-,\ ar a almejada "inclusão social': de agente, o significante mestre (diagnóstico); na posi-

86 87
ção do outro, o saber que está adstrito, como produto, o Ao falarmos de construção de caso clínico e processo in­
mais-gozar (condição de portador do diagnóstico). Tam­ vestigatório, não podemos deixar de mencionar a fecundi­
bém existe a possibilidade de o modelo médico circular dade do discurso da histérica, essencial ao trabalho clini­
na modalidade do discurso universitário, no qual o saber co. A histeria é um fator que emperra as pesquisas clínicas,
S 2 (diagnóstico) ocupa o lugar da ordem e do comando e pois se, de um lado, aceita ser descrita pelos mestres da
reduz o outro à condição do objeto moldado à semelhança ciência, acaba desafiando seu saber ao se recusar ser clas­
do saber que o produziu. sificada. De que jeito? Inventando novas formas e não res­
Restituir a função diagnóstica em Psicanálise, no trata­ pondendo aos tratamentos. Ela, no entanto, faz, com seus
mento psiquiátrico, é função ética que a Psicanálise propõe desafios, avançar o método clínico, que, por vezes, tenta
à Psiquiatria, assim como propõe ir contra a dissolução enquadrá-la e medicá-la para subjugar as manifestações
da clínica, substituída pelo binômio norma versus trans­ do sujeito do desejo. Com suas paixões e seu desejo, o dis­
torno, para privilegiar o sintoma como manifestação do curso da histérica interroga os significantes mestres para
sujeito. Consideramos que esse fato seja uma forma de sair produzir saber, inclusive os significantes mestres da Psica­
do discurso do capitalista, que condiciona desde o diag­ nálise, em um permanente movimento de reinvenção. No
nóstico até o tratamento, para restituir à medicação seu caso da psiquiatria, a aproximação com o discurso da his­
justo valor paliativo e não resolutivo do sofrimento men­ térica significa que o avanço da ciência deve ser motivado
tal. Frisamos que a Psicanálise não se opõe à Psiquiatria, pelo sujeito patológico, sofredor, sujeito dividido, sujeito
mas sim a todo discurso que suprime a função do sujeito. da esquize, que se manifesta na clínica.

Porém, ao aceitarmos o desafio freudiano, estamos abrin­ Um aspecto que nos interessa nesta discussão é a neces­
do uma via para a construção do caso clínico a partir de sidade de um giro discursivo que possibilite aos técnicos
um saber sobre a subjetividade de cada paciente. Assim, ocupar o lugar de objeto-causa de desejo em transferência.
surge um diagnóstico como conclusão de um processo in­ Estamos falando do discurso do analista, imprescindível
vestigatório: não atacar o sintoma, mas abordá-lo como para o trabalho de construção do caso clínico. Para tanto,
manifestação subjetiva significa acolhê-lo para que possa é necessário que o técnico mantenha um relativo distan­
ser desdobrado. Daí surge um sujeito, seja na melancolia, ciamento das prescrições institucionais, por intermédio
no delírio paranoico ou no despedaçamento do esquizo­ de uma postura crítica do saber institucional. Tal crítica
frênico. permite enunciar ou, no mínimo, não obliterar os antago­
nismos institucionais. A Psicanálise Lacaniana nos ensína
Consideramos que a construção do caso clínico é relevan­ que, quando se índaga de que saber faz a lei, o saber cai
te, pois, com a reforma psiquiátrica, temos a passagem da na categoria de sintoma e, com ele, vem a verdade. Esse
consideração da loucura como doença para a da loucura questionamento tem importância política para o trabalho
como saúde mental. A construção do caso clínico é fun­ dos psicanalistas nas instituições.
damental para que tal passagem não traga a marca de uma
nova cronicidade. Vigano (1999) propõe a construção do Nesse sentido, ressaltamos que uma nova ética do cuidar,
caso clínico como forma de evitar a cronificação no inte­ a ser implementada nos serviços substitutivos, deve apre­
rior dos serviços abertos de saúde mental. ciar o funcionamento da estrutura psicótica e, principal­
mente, as formas de discurso que considerem o sujeito e

88 89
levem o profissional a questionar a condução do caso clí­ tornou o modelo para as psicoses, e junto com ela, ganha"
nico. Assim, o cuidado nos serviços deve ser pautado pela raro relevância as noções de surto, crise e estabilização.
atenção na construção do laço social do psicótico, na me­ Com essa centralização na esquizofrenia, ignorou-se a no­
dida em que ele se encontra tanto no campo da linguagem ção de estrutura e continuidade. Passamos a diagnosticar
quanto no campo do gozo. a psicose como a perda de nexos (afetivos, cognitivos, vo­
Propomos uma psicopatologia que permita a significação litivos) e a tomar como parâmetro do tratamento a supres­
psicanalítica de quadros psiquiátricos como elemento da são dos sintomas "produtivos" (alucinações e delírios).
atenção psicossocial. Tenório e Rocha consideram que tal Retomamos o funcionamento da equipe: conforme assi­
premissa permite que os serviços substitutivos avancem nalam Tenório e Rocha (2006, p.63), temos, assim, "uma
para além das soluções no campo da realidade, como. por cisão entre tratar e cuidar''. O psiqtúatra, por intermédio
exemplo, a busca de adequação do paciente na convivên­ do uso de fármacos, trata, pois reduz o surto. Os demais
cia social. Para pensarmos a lógica própria da psicose, profissionais cuidam da reabilitação psicossocial. Ou en­
que, na maioria das vezes, não está em consonância com tão temos a versão de que tratar é sinônimo de cuidar da
as soluções no campo da realidade, temos que considerar reabilitação psicossocial. Nela, fica patente o desdém pela
o sujeito fixado em sua psicose. Sobre esse aspecto, Tenó­ psicopatologia e pela psiquiatria.
rio e Rocha fazem importante ponderação: ''Não é que ele
Não se trata de ignorar a crise, mas de relativizar o lugar
não tenha um pé na realidade, mas não é aí que ele encon­
que tem ocupado. Além de se constituir em um tempo
tra seu lugar de sujeito" (TENÓRIO; ROCHA, 2006, p. 59-
de quebra, se isolarmos os elementos em antecipação ao
60). Tal ponderação deve ser considerada para evitarmos
surto, perceberemos uma concatenação entre eles e não,
que a equipe atue em um registro, enquanto o paciente
unicamente, uma ruptura. Como clínicos, podemos per­
atua em outro, com sua forma singular de se vincular ao
ceber a crise como um momento de desamarração, o que
significante.
nos possibilita investigar como era efetuada a amarração
Outra questão que deve ser analisada é o funcionamen­ até então.
to da equipe. Para abordamos essa questão, precisamos
Ao nos afastarmos do aspecto deficitário da esquizofrenia,
fazer uma breve digressão acerca da utilização da noso­
podemos resgatar a dimensão estrutural da psicose. Isso
grafia psiquiátrica nos cotidiano dos serviços. A ocupação
nos possibilita pensar numa clínica para a saúde mental
de um plano secundário da Psicopatologia faz com que,
e para a reforma psiquiátrica que possa superar tanto a
nos serviços substitutivos, não tenhamos clareza acerca
redução da clínica ao biológico-farmacológico quanto a
de qual nosografi.a operar. Alguns profissionais utilizam,
redução do sujeito ao bom funcionamento psicossocial.
de forma pouco elaborada, a nomenclatura de K.raepelin
(PMD, esquizofrenia e paranoia) e oscilam entre a psico­ Quinet (2006) afirma que o fora-do-discurso da psico­
patologia psicanalítica e a nosografia médica pulverizada se aponta para uma impossibilidade estrutural e lógica
da CID-10, utilizada pela psiquiatria contemporânea. de fazer o psicótico entrar completamente nos jogos dos
discursos, ou seja, circular pelos laços sociais e participar,
Com relação à CID-10, cumpre assinalarmos que tal clas­
alternadamente, de um ou de outro discurso. Há também,
sificação alçou a esquizofrenia à categoria paradigmática
na psicose, um avesso dos discursos como um todo, re-
da psiquíatria. Tenório e Rocha (2006) apontam que ela se

90 91
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presentado pelo avesso ao laço social estabeleci_gg,._0 psi­ �uinet (1997) explica a certeza e o sacrifício do psicótico
' �-é--e--rora....e-o--mest�oos-dis�osição nos /pelo S1 lembrando a foradusão do Nome-do-P ai e o re­
remete ao fato de que nós estamos amarrados aos discur­ torno de um gozo da Coisa no real, na estrutura psicótica. }
\ ,1 sos. Assim, ele é livre dos discursos estabelecidos e de seus O esicótico, ao contrário do n�rótico, não se encontra
,� ,f" avessos. A posição de Quinet é congruente com a nossa, .diYidido....Ele-tem-rerteza -do signifi.cãnte oferecido p�lo
pois consideramos que o psicótico possui uma rede de sig­ mestre. É importante salientar que a noção de foraclusão
i\l1 nificantes composta por uma lógica circulatória peculiar; não corresponde à abolição do simbólico, não equivale a
por não ser falocêntrico, o mundo do psicótico, muitas deficit, mas implica sempre o retorno do real daquilo que
vezes, espera por intervenções externas que decidam sua foi foraduído no simbólico. Dessa forma, o retorno do fo­
, configuração; daí o risco da oferta de discursos ideológi- racluído constitui um Outro original do psicótico, desde
cos por instituições que acolham esses sujeitos. que seja o retorno daquilo que é a outra cena, o incons­
'-..... � ciente, caso haja a possibilidade de uma escuta analítica
Consideramos pertinente conjecturarmos acerca de como
o psicótico responde diante do discurso do mestre. Calli­ no acolhimento do psicótico.
garis (1989), num capítulo com o sugestivo título de A Pensamos o trabalho com o psicótico na direção daquilo
transferência psicótica, afirma que, quando o psicótico não que não se efetuou para ele e que ele mesmo se esforça
encontra um mínimo de escuta que possibilite a constitui­ para realizar. Por isso, não enfatizamos a eliminação dos
ção de uma metáfora delirante, ou quando encontra re­ sintomas, o que não significa que recusamos o acesso à
cusa de seu trabalho de elaboração, seu trabalho psíquico medicação para apaziguar o gozo destrutivo, mortífero.
torna•se empobrecido. O tratamento será pautado no estímulo à "historiciza­
Ainda, segundo Calligaris, corremos o risco de buscar a ção" dos fenômenos ao considerarmos que são repletos de
conformidade do psicótico com os ideais fálicos elemen­ sentido, conforme preconiza uma clínica que considere o
tares. Nas palavras do autor: "Isso acontece quando o tera­ sujeito. Outro passo que, assim como o anterior, conside­
peuta explicita a sua paixão normalizante até o ponto que ramos fundamental na construção de um novo discurso,
a conformidade com ela apareça ao sujeito como o preço e consequentemente em uma nova postura de lidar com o
necessário para negociar uma filiação ao terapeuta do qual sofrimento dos usuários dos serviços de saúde mental, é
espera uma significação''. (Calligaris, 1989, p. 70). considerar todos os fenômenos do paciente como tenta­
tivas de estabelecimento de algum vínculo com o outro e,
Temos aqui o despotismo do mestre, com seu saber ex­ portanto, como tentativas de fazer laço social.
plícito acerca da conformidade. Frente a essa tirania, o
psicótico fica "coisificadó' pelo significante mestre (S1 ).
Qualquer S1 previamente ofertado pelo técnico como sa­
ber sobre o sujeito produz o efeito de "fechamento" da .t
cadeia significante, com a fixação de certos significantes
em detrimento de outros. O discurso do mestre oblitera
a transferência do saber inconsciente. Inferimos, ainda, a
possibilidade de o psicótico se colocar na posição de gozo
de um Outro, representado pelo S1 emitido pelo mestre.

92 93
Escuta da
Delírio:
fragmentos de
ª
um casa clínica
Neste capítulo examinamos
fragmentos de sessões de uma
paciente realizadas em um
NAPS (Núcleo de Atenção
Psicossocial), abordando a
especificidade da escuta no
tratamento da psicose.

96
transigente e inegociável. Sua antiga técnica de referência que tal fato aconteça, é necessá_r_io que tenhamos mudado
solicita que ele assuma o caso alegando cansaço e esgota­ de lugar, a partir do que escutamos dos nossos pacientes,
mento para lidar com a paciente. Ressalta que Sônia não tentando manter distância tomando, como referência uma
usa medicação, ou seja, leva a medicação para casa, mas conceitualização da experiência vivida e dos erros e obstá­
não a consome segundo a prescrição médica, utilizando culos surgidos na própria experiência clínica.
o medicamento da forma que julga melhor. A paciente se Freud constrói e desenvolve sua teoria no período em
recusa a participar de um grupo que cultivava uma horta que a clínica alcança seu ápice, na esfera da psiquiatria
próxima ao serviço. Também havia uma série de queixas e neurologia. O ponto central da clínica clássica é um
da administração do terminal rodoviário do município, olhar purificado, regulado e administrado sobre os sinto­
dizendo que a paciente permanecia naquele local durante mas, apontando para uma ética disciplinar. A psicanálise
dias, importunando funcionários e usuários. subverte a clínica clássica dando sentidos novos a seus
Estamos relatando um caso considerado "difícil': segundo procedimentos. A escuta torna-se o principal pilar desse
expressão utilizada por Figueiredo e Coelho Júnior (2000). novo projeto clínico. A escuta deve ser metódica, atenta
Os "casos difíceis" são aqueles que ameaçam nossas reser­ ao detalhe, à pequena incongruência, deslize ou ruptura
vas, nos chamando para um aqui e agora alarmante, em do discurso. Flutuante e aberta às interrupções, insistên­
que..nossa implicação nos faz correr o risco de recorrer cias e silêncios da fala, tal escuta trará para o centro da
às regras disciplinares':""tJm:t paciente em s1tuaçãosocial cena aquilo que o olhar médico colocava na sombra. A
precária, sem residência fixa, que por vezes se torna agres­ psicanálise é um método de escuta e não uma forma de
siva, chega ao NAPS acompanhada por uma irmã. Após olhar.
ser atendida por urna técnica e medicada pela psiquiatra, Ainda na perspectiva de descentramento radical do olhar,
é inserida no serviço. Sua técnica de referência, sensibili­ Dunker (1999) nos lembra que a subversão freudiana da
zada com a condição social adversa da paciente, propôs clínica clássica, ao abordar a semiologia, se interessará jus­
um contrato no qual Sônia passaria os dias na instituição, tamente pelo caráter singular e instável da ligação entre o
onde faria as refeições e participaria das atividades na hor­ significante e o significado e pelo aspecto multifacetado e
ta. Porém, Sônia, apesar das boas intenções da técnica de temporal da produção da significação.
referência, se recusava a participar das atividades e usar
medicação. Preferia ficar no terminal rodoviário obser­ Com relação ao diagnóstico, a psicanálise reintroduz a ho­
vando a movimentação do embarque e desembarque de mogeneidade entre o tratamento e o diagnóstico, perdida
passageiros, gerando uma sensação de desânimo e impo­ pela clínica clássica. Lacan (1915/1987), ao discutir um
tência em sua técnica. caso de paranoia de autopunição, nos lembra que: "A na­
tureza da cura demonstra, quer nos parecer, a natureza da
Ressaltamos que o caso em tela possui significativas nu - doença': A linguagem, além de ser considerada enquanto
ances de questões que surgem no cotidiano do serviço. A estrutura, também se constitui como mediação funda­
p�iente.p.ão <;_�trato, e Sl!?-Jécnica Se queixava mental na dialética com o outro. É _a lin�agem, como
que suas melhoras eram tímidas e que Sônia sempre rela­ campo simbólico, que submete o sujeito, que o constran-
tãva as mesmas �eixas. Como possibilitar o surgimento ge e onde ele não é mais senhor em sua própria morad� ,
,. de algo que escutamos e reconhecemos como novo? Para Lacan fala de �id�i�'e�g1:1a qu� u delírio

- · - 1 .:. \ .. .... '\\j \>� 1 1 � 1.,
�� V'
1f.." 1. '.> 1\ \.,-i,,. ' r.,-( ir"\
98 99
\ • 2 , ;'i ,LJ. C\�ú1\ 'vE. l\ ,Lfu,1�6 -� S 1(, 1'-J J1c.i r4 16 -
'
<; lG f,{,f.,�:'l,1
coloca': buscando um discernimento da forma singular fala como fundo para uma mera classificação psiquiátrica, Yv
como a analisanda lida com o que lhe parece alheio. o autor propõe a escuta do sujeito, enfatizando_que__a�
periência delirante "se situa ao nível do fenômeno signifi­
É importante ressaltar que o diagnóstico em psicanálise é
cante - s1gmficaâo" (p.'"236).
articulado com a terapêutica e com a concepção etiológica
que o subsidia. Discutindo as memórias de Schreber, Lacan (1955-
56/1988) nos ensina que "o delírio das psicoses alucina­
A psicanálise se apresenta como uma cura pela fala na qual
tórias crônicas manifesta uma relação muito específica do'7 tLfi
a posição e o lugar ocupados pelo analista são condições
sujeito em relação ao conjunto do sistema da linguagem S�
da eficácia de suas intervenções. Lacan (1915/1987), em
em suas diferentes ordens. Só o doente pode testemunhar)Cc,
sua tese de doutorado, acompanha e escuta Aimée durante
isso, e ele o testemunha com a maior energià' (p. 237). l-.i .1 (l
um ano e meio, recolhendo sua produção escrita, e propõe IV� A--
um diagnóstico de paranoia de autopunição. O quadro de Escutando o psicótico, percebemos uma mudança do su- G.6f-..\.
paranoia é justificado apontando para as interpretações jeito na relação com a linguagem, que o autor nomeia de
delirantes múltiplas e diversas, primitivas e predomin a n ­ erotização ou apassivação. A maneira como o sujeito sofre
tes, a imbricação dos temas de grandeza e perseguição e a em conjunto com o fenômeno do discurso nos mostra sua
extensão progressiva do delírio. dimensão constitutiva.
O caso em apresentação possui sintomas semelhantes. Sô­ Partimos do princípio de que a fala-escuta é o centro de
nia se considera uma descendente dos Kennedy, tradicio­ referência do tratamento da psicose. O analista, para per­
nal familia de políticos americanos, julga-se perseguida manecer no lugar de acolhimento e testemunha do psi­
por suas irmãs promíscuas e sente-se atraída sexualmente cótico, deve renunciar a aparecer como aquele que sabe
por uma atriz brasi leira de telenovelas. Constrói um delí­ mais sobre o outro que ele mesmo. Este lugar do analis­
rio com temas grandiosos acentuando sua origem nobre e ta mostra-se incompatível com um discurso que prevê a
famosa, como se verá a seguir. Na relação com o saber, a ontologia social da psicose, apostando na cura através do
paciente sente-se totalmente presa nas malhas do Outro, "resgate" da dignidade do usuário-cidadão, o que nos p a ­
um objeto. O Outro sabe a seu respeito, e isso para ela é rece ingênuo e insuficiente.
coisa certa. Os Kennedy tramam sua exclusão da família A palavra "resgate" nos remete às ideias de exílio e refém.
e a fazem sofrer. Isso constitui uma certeza que Sônia co­ No dicionário Sacconi (1996), encontramos uma curiosa
munica ao analista. Desta forma, seu analista propõe um definição para o verbete: "salvar pagando com sacrifício
diagnóstico de psicose paranoica com delírios erotoma- pessoal'�
níacos. '1 vM' ��
é 1o{lo<\>.Cl,�1> No caso apresentado, não há equívocos e sim certezas
Lacan (lj.55-56/J988)..QrO�õe a expressão "secretários do por parte da técnica de referência: a usuária, seguindo os
'a-Heflá<Ío" para assinalar a posição do analista frente ao psi­ cânones da Psiquiatria Democrática Italiana, deve traba­
ZóUco:-0 autor rechaça a ideia de impotência do analista, lhar, usar a medicação prescrita e permanecer na unidade
nos aconselhando a "tomar ao pé da letrà' o que o paciente até sua família ser convencida a aceitá-la novamente em
nos conta. Em uma crítica à tentativa dos psiquiatras de casa. Desta forma, o tratamento da psicose prescrito pelo
determinar os tipos de alucinação, ou seja, de utilizar a NAPS, ao propor um reencontro do usuário com sua ci-

100 101
dadania, intermediado pelo técnico de referência, coloca tos de vários integrantes da familia americana. O que um
este profissional em uma posição de salvador. Salvar um casamento de personalidades notáveis teria a ver com a
usuário do exílio de sua cidadania, muitas vezes, exige um história dessa paciente?
sacrifício pessoal do técnico de referência, que no seio da Privilegiando a escuta, o analista parte do princípio de que
luta antimanicomial é visto como dedicação à causa. o paciente tem razão sobre o que o faz sofrer, buscando as­
Sônia se recusa a aceitar os benefícios ofertados pelo sim, não mais relações causais, mas de significação e sen­
NAPS e cumprir um contrato que, segundo a visão ins­ tido na história construída do sujeito. Assim, a psicanálise
titucional, lhe restituiria a cidadania. A profissional, ao se não se interessa pelo sujeito da verdade, mas pela verdade
deparar com uma paciente que escapa da esfera subjetiva do sujeito, indagando o sujeito do desejo.
de mero indivíduo, no momento em que ingressa na insti­ Na sessão seguinte, Sônia indaga se o analista leu a revista.
tuição, sente-se cansada e desestimulada. Ao ser informada que sim, a paciente entrega-lhe um escri­
O discurso institucional que opera aliado ao sacrifício de to com uma árvore genealógica. Explica que é uma descen­
cada técnico dedicado à causa antimanicomial mostra-se dente da familia Kennedy. É filha de Jacqueline Kennedy
insuficiente. Os profissionais do serviço, frente a essa si­ com seu pai biológico (um migrante nordestino). Insere seu
tuação, situam-se em uma esfera subjetiva de pessoa, jul­ nome entre os filhos de Jacqueline e comunica que existe
gando a usuária, apontando sua ingratidão e maldade. E uma trama para mantê-la em Santos. Não explicita os mo­
importante notar que uma escuta do sujeito balizada pela tivos de sua exclusão, mas acusa as "irmãs" de serem vaga­
psicanálise não se localiza na ética disciplinar, pois não é bundas e promíscuas. Sua fala é marcada pela mágoa e vem
anônima, nem é coercitiva, pois não assujeita o paciente repleta de palavras de baixo calão. A intervenção do analista
ao gozo do analista. nesse atendimento se resumiu a indagar por que justamente
ela havia permanecido em Santos.
Mas, para começar a falar, ninguém precisa estar num
divã, no consultório de um psicanalista. Podemos prati­ Nas sessões posteriores, foram incluídos outros persona­
car a psicanálise escutando o desejo presente no discurso, gens em sua árvore genealógica, como, por exemplo, uma
onde quer que este se faça ouvir, estando atento às conse­ princesa espanhola. Também surgiu uma súbita paixão por
quências lógicas e éticas desse ato. uma atriz de televisão, que nos exigiu algumas intervenções
mais diretivas. Essa atriz é loira, branca e promíscua como
E Sônia falou. Após um primeiro encontro com seu analis­ suas irmãs da famfüa Kennedy. Sônia se diz apaixonada e
ta, foi proposto atendimento semanal, sem abordar assun­ revela o desejo de praticar sexo anal com ela. Começa a fre­
tos relacionados à sua situação social. Na semana seguin­ quentar cinemas que exibem filmes pornográficos no cen­
te, ela comparece ao atendimento, trazendo uma revista tro da cidade, escolhendo filmes que tenham essa temática.
Veja antiga com Jacqueline Kennedy estampada na capa. Gasta todo seu dinheiro comprando revistas, posters e pu­
Pede que leia a matéria com atenção, ressaltando que sua blicações relativas às novelas de que a atriz participou.
vida está ali. Pediu cuidado com o exemplar e avisou que
voltaria na semana seguinte para buscá-lo. A reportagem Existe uma intensa fantasia relacionada com a prática de
foi lida com atenção; abordava o casamento de Jacqueline sexo anal. Sônia faz comparações entre o ânus das atrizes
Kennedy com o milionário Aristóteles Onassis e trazia fa- dos filmes assistidos com o da atriz desejada, ressaltando

102 103
sua aparência após o ato sexual. Dessa forma, constrói uma Figueiredo (1994) nos diz sobre a produção de sentidos:
oposição entre loiras e morenas, associando o significante Há, portanto, dois momentos em cada aconteci­
"loira" a promiscuidade, e o significante "morená' à virtu­ mento: um de quebra de sentido - com a conve r ­
de. As promíscuas fazem sexo anal e ficam "arrombadas" e são do homem em signo vazio de sentido, como na
"arregaçadas''. Sônia é consumida, tragada pelas ideias de expressão de Hõlderlin tão trabalhada por Heide­
depravação e prostituição. Deseja intensamente mulheres gger - e a reemergência de sentido que, em segui­
loiras que considera nessa situação. Por esse viés, associa o da - com intervalos mais ou menos longos -, (re)
nome da atriz com a farru1ia Kennedy. constitui passado e descortina um novo futuro; é a
Durante as sessões, Sônia enfatiza que não se considera temporalidade do acontecimento que faz. verdadei­
"vagabunda" como as irmãs. � morena, filha de migrante ramente, história, é dela que provém a luz retros­
e rejeitada pela familia. A intervenção do analista se dá pectiva e prospectiva que realiza passado, presente
e futuro; nesta medida, cada acontecimento é em si
no sentido de limitar o gozo da paciente, a partir do mo­
mesmo um só depois de outros acontecimentos que,
vimento do delírio. A partir da fala de Sônia a respeito da
por ele, são ressignificados; pela mesma razão, cada
precariedade de sua condição social, pois é discriminada
acontecimento servirá de apoio para acontecimen­
pelos Kennedy, o analista marca a contradição da paciente
tos futuros que lhe 'descobrirão' sentidos (p. 155).
frequentar cinemas pornográficos, comprar revistas com a
atriz, gastando seu escasso dinheiro. Esta citação nos auxilia a refletir a respeito da trajetória de
Sônia. Após construir uma significação de suas origens e
Ocupamos inicialmente o lugar de testemunha que reco­
montar uma explicação de sua permanência na rodoviá­
nhece e legitima um drama que o paciente tem necessi­
ria, Sônia consegue um trabalho como doméstica em uma
dade de partilhar com alguém, que possa escutá-lo. Onde
residência na orla da praia. A construção da chegada de
seu desejo dama por encontrar uma palavra. Bob Kennedy preencheu um vazio de sentido, tranquili­
Insistimos que a verdade do sujeito não é da ordem da zando a paciente. Esse significado construído a posteriori,
objetividade, mas da intersubjetividade e da transubjeti­ esta descoberta de um novo sentido, permitiu a saída da
vidade, o que pressupõe uma relação, uma identificação paciente da rodoviária, abrindo possibilidades para a con­
com outros semelhantes e significativos para o sujeito em quista do trabalho. Neste percurso, os atendimentos servi­
questão. ram de apoio na construção de urna precária "ancoragem"
que lhe possibilitasse a construção de algumas respostas
Sônia continua comparecendo regularmente nos atendi­
sobre sua vivência.
mentos por mais de dois anos. Traz papéis com escritos
sobre suas origens, nos quais frequentemente inclui prin­ Sônia começa a trabalhar e solicita que nossos atendimen­
cesas e rainhas. Inicia uma busca por trabalho. Arranjou tos aconteçam quinzenalmente. Consegue desempenhar
um aliado para seu confronto com as irmãs. Bob Kenne­ suas tarefas com competência, e a dona da casa onde Sônia
dy, tio de Sônia, virá a Santos buscá-la. Ele conhece toda trabalha, está informada de que ela utiliza uma unidade
a história e providenciará sua inclusão na família. Sônia de saúde quinzenalmente para apanhar medicamentos.
produz um sentido para os longos períodos que permane­ No começo dos atendimentos com o analista, além de
ce no terminal rodoviário. medicação injetável, a paciente consumia medicação neu-

104 105
roléptica. No decorrer dos atendimentos, Sônia começa a oferecidas na instituição. Ao ter sua fala acolhida por um
utilizar cada vez menos medicação. Sua medicação tende analista, a paciente produz uma explicação sobre suas ori­
ao mínimo, e Sônia exerce suas atividades de trabalho s a ­ gens, descobre aliados, nomeando o enigma de seu dese­
tisfatoriamente. Sônia diz que agora só fala esses assuntos jo de permanecer na rodoyiária. Esta fala surgiu quando
com seu analista. abrimos o lugar para o imprevisto, para a possibilidade de
Nesse movimento, notamos que Sônia coloca tanto Bob uma relação intersubjetiva. Figueiredo (1994) nos ensina
Kennedy quanto o analista na posição de aliados, como que: "Esta é a fala que acontece ao falante e o coloca à es­
supostos protetores que entendem o que se passa com ela. cuta, a que nomeia o enigma e o coloca a justa distância, à
Durante o tratamento, o analista acompanhou o sujeito na distância justa, para ver algo" (p. 165).
construção de um procedimento de suplência da metáfo­ Consideramos a presença de Sônia na rodoviária um acon­
ra paterna, possibilitando que se produzisse laço social. tecimento inacabado. É interessante notar que, ao atri­
Acolhendo o delírio de Sônia, em uma posição de teste­ buir sentido para suas longas permanências na rodoviária
munha, intervindo no foco de gozo da paciente a partir (aguardar a chegada do tio Bob Kennedy que iria buscá-la),
da movimentação do delírio, exercemos uma função pa­ Sônia não fica mais horas no terminal rodoviário. Já que
terna ocupando um lugar de pai imaginário. A metáfora foi construído um saber sobre sua presença na rodoviária,
paterna, instaura uma lei simbólica que regula a economia não foi mais necessária sua permanência naquele local. A
subjetiva. Lacan (1955-56/1988) nos lembra que relação da paciente com o NAPS também muda. Sônia vem
[... ] porém curiosamente, no delírio, é função real ao NAPS com mais �equência, sempre solici� �º atendi-
_ '.111 .(\�
do pai na geração que vemos surgir sob uma forma mento, e torna-se ass1dua nas consultas ps1qmatncas. /i \ ,
imaginária, se ao menos admitimos a identificação ' V"
J
Consideramos a permanência de Sônia no terminal rodo- �e'0
.J""
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que fazem os analistas entre os homenzinhos e os viário um acontecimento inconcluso, pois não se consuma, �
espermatozóides. Há aí um movimento girando en­ não tran�ita, e sua temporalidade intrínseca está compro-� \( O lll
tre as três funções que definem a problemática da metida. E um acontecimento que se caracteriza por nã � r0 (r
função paterna (p. 243). acabar de acontecer, não constituir história, eternizando �!))� .j.J
:
Sônia continua trazendo escritos sobre a família Kennedy. e bloqueando a possibilidade de novos acontecimentos . . ' \'\
tl
Porém, a intensidade e o interesse pelo assunto vêm de­ Sônia queria ficar na rodoviária, não queria permanecer�\'.
crescendo. Às vezes, acha graça de sua curiosidade sobre no NAPS, tomar medicação ou trabalhar em uma horta.
tal assunto e diz que só fala essas coisas quando não está Estava sem um solo de ancoragem para assentar sua exis-
bem. tência. Sua fala foi proferida na tentação de seus enigmas
e na demanda de conclusão. Esta fala brotou de um an-
O analista, ao se afastar do discurso prescrito pela insti­
gustiante acontecimento inacabado. Nesse caso, a escuta
tuição nos atendimentos com Sônia e oferecer um espaço
permitiu uma conclusão provisória do acontecimento
de escuta e tratamento da subjetividade, abriu a possibi­
através da simbolização e da elaboração representativa.
lidade para o surgimento da fala acontecimental. Sônia
É interessante notar que essa fala faz história e libertou
permanece na rodoviária e incomoda a administração do
Sônia para outras possibilidades através da construção de
terminal. O NAPS é comunicado do caso e recebe a pa­
uma história.
ciente, que não se interessa pelas propostas de tratamento

106 107
r,,,..J" k �r;f� v,\ri�
. ..f?-
Í()' "-:,.."Estes atendimentos ocorreram no NAPS e foram possíveis A psicanálise nos ensina que a experiência psicótica é
quando o analista se afastou das prescrições e condutas carregada de sofrimento. Visando alcançarmos um tra­
institucionais e escutou a paciente. Sua escuta propiciou a tamento adequado para os portadores desse sofrimento,
expressão do desejo em uma produção significante orga­ devemos estimular discussões com os trabalhadores dos
nizada pela regulação do gozo da paciente. Nesses termos, serviços de saúde mental, para refletirmos sobre a eficácia
o analista ocupa o lugar de pai imaginário. reud ensinou clínica de nossas intervenções. Diversas vezes, aprende­
ue não se po e pe r ao paciente aquilo que ele não pode mos à custa de fracassos, e nunca se aprende melhor do
é:lar. É uma exigência ética da psicanálise nutrir ambições que quando se pode fracassar, porque abre-se a possibili­
terapêuticas limitadas, longe da posse do saber absoluto e dade para identificar o erro e o mal-estar. O fracasso reve­
nipotente sobre a vida, a morte e os outros. la espaços até então não reconhecidos pelo psicanalista e
seu paciente, à espera de uma palavra iluminadora.
Fascinados pela desconstrução de saberes e pelo mode­
lo de cidadania proposto pela Psiquiatria Democrática
Italiana, desfazemo-nos da demanda de escuta dirigida a
nós, reduzindo-a a uma concessão de benefícios, visando
à compensação de uma condição social precária. Lacan,
ao tratar da epistemologia da falta, diferencia necessida­
de, demanda e desejo. O autor considera como mítica a
referência a uma primeira satisfação e aponta a perda do
biológico no desejo. O desejo se define de fato epistemo­
logicamente em sua relação com a ordem biológica das
necessidades e com a ordem linguajeira da demanda de
amor. O homem deseja porque a satisfação de suas neces­
sidades vitais passa por um apelo dirigido a Outro, o que,
de imediato, altera a satisfação transformada em demanda
de amor.Em razão desse ultrapassamento da ordem bioló­
gica que não basta a si mesma, o amor como relação com
o outro em que o sujeito se aliena, permanece marcado
por uma exigência do absoluto que é, equivalente ao que
se perde com essa transposição. O amor é aqui, ao mesmo
tempo, apelo ao outro tendo em vista uma satisfação que,
seja como for, não se dará no modo como é demandada,
e o terreno estruturado pela relação do sujeito com a lin­
guagem. Temos, assim, que ao tomar as solicitações dos
pacientes em sua concretude (condição social precária),
os técnicos do serviço ignoram a inesgotável demanda de
amor.

108 109
Retórica
da Inclusãag
Como vimos, no Brasil uma
expressiva reforma psiquiátrica
tomou vigor, a partir da década
de noventa, pela iniciativa
articulada dos três níveis
gestores do Sistema Único de
Saúde - SUS.
ai processo redundou na modificação de algumas
T formas jurídicas e da ênfase de políticas púhlicas so­
bre a questão. O Projeto de Lei nº .�.6'17, de 1989, conheci­
do como Lei Paulo Delgado. proíbe a construção ou con­
tratação de novos leitos psiquiátricos pelo poder público
e prevê o redirecionamento dos recursos públicos para
a criação de "recursos não manicomiais". Tal projeto foi
aprorndo em março de 200 I após doze anos de tnunitação
no Congresso Nacional. Nesse período de tramitação da
lei federal, oito leis estaduais entram em vigência.
Concomitantemente, podemos assinalar o fechamento de
um conjunto significativo de hospitais psiquiátricos que
não atendiam minimamente critérios básicos de assistên -
cia. Foram implantados serviços substitutivos ao rnode
lo tradicional, como os leitos psiquiátricos em hospitais
gerais e os chamados serviços de atenção diária, de base
comunitária, que são cerca de 250 em todo o país.
>Ja publicação oficial do :Vlinistério da Saúde, fica marca­
do de forma dara e inequívoca o ohjetivo de: "[... ] alcan­
çar em um futuro próximo, uma atenção em saúde mental
que garanta os direitos e promova a cidadania dos porta­
dores de transtornos mentais no Brasil, favorecendo sua
inclusão social" (8RASIL, 2000, p. 5, grifo nosso).
A expressão "inclusão social''. presente na forma da lei,
pode ser considerada como um enunciado, na acepção
foucaultiana do termo. Um enunciado, neste sentido,
é unidade elementar de uma formação discursiva que,

112 113
como tal, se define por um domínio específico de objetos, nação, está em condição e em processo de exclusão. Obser­
de modalidades enunoiativas, de conceitos e de estratégias ve-se que isso contrapõe, supostamente, uma condição his­
,..-(-E.� A questão que nos interessa é saber, toricamente constnúda e bem definida (a exclusão) a outra
I a partir de uma descrição histórica desta formação discur­ condição ideal e indefinida (a inclusão).
siva, como a "inclusão social" foi apropriada, no quadro É preciso lembrar que este enunciado resume e sinteti­
de certa estratégia retórica e política, de forma a se co­ za um ensejo de mudança surgido na metade da década
locar em relação de antagonismo com o projeto de uma 70, no contexto da reformulação institucional e política
J clinica da escuta dos transtornos mentais. Ou seja, tra-
do país. Naquele momento, aparecem críticas renitentes
::; ta-se de analisar uma série de deslocamentos discursivos
}
à ineficiência da assistência pública em saúde adotada
que constituem, localizam e individualizam a loucura no pela administração federal, através do Ministério da Saú­
espaço da exclusão social e, a partir disso, sustentam um

êj
de. Também surgem denúncias de fraudes no sistema de
conjunto de práticas que visam sua reinserção, inclusão financiamento dos serviços e, o que é mais significativo
ou reentrada no campo social. Um conjunto de práticas para o movimento da reforma, denúncias de abandono e
que, discursivamente, recusam inscrever-se sobre a noção maus tratos a que eram submetidos os pacientes interna­
de clínica e, muitas vezes, colocam-se em oposição a esta. dos em diversos hospícios do país.
<J:
(", Nossas considerações apoiam-se no material discursivo Nesse contexto, surge o Movimento dos Trabalhadores
produzido no contexto da reforma psiquiátrica brasileira, de Saúde Mental (MTSM), que, em 1979, promoveu um
entre os anos 1980-2000, e mais especificamente no estu­ evento bastante significativo no qual estiveram presentes
do sagital realizado em um Núcleo de Atenção Psicosocial Franco Basaglia e Robert Castel. As denúncias da violên­
(KYRJLLOS NETO, 2001). cia nos hospitais, alguns visitados por Basaglia, e o desres­
Retórica, na acepção que empregamos, não significa m a ­ peito aos direitos humanos provocaram grande impacto.
nipulação de opinião e forçamento do interlocutor para Nesse evento, a reforma psiquiátrica italiana começa a sur­
urna posição para a qual este não confluiria pelo uso livre gir como paradigma para o movimento antimanicomial
da razão, mas um método de análise da linguagem em ter­ brasileiro. O MTSM, ao adotar um discurso voltado para
mos simultâneos de produção de subjetividade e formas de a humanização do tratamento e em defesa dos pacientes
poder. Chamamos, portanto, de "retórica da exclusão" este internados, alcançou grande repercussão. Isso fez avançar
aspecto de uma formação discursiva que apreende e locali­ a luta até seu caráter definitivamente antimanicomial. No­
za os transtornos mentais em uma superfície formada pela te-se que a repercussão pública da condição a que estavam
antinomia entre inclusão e exclusão. Como todo aspecto submetidos os "internos", ou seja, os que estão incluídos
retórico do discurso, tal estratégia constitui destinatários em um espaço interior - "dentro': portanto, de um dispo­
e auditórios específicos, bem como formas de legitimação, sitivo de tratamento, às vezes permanentemente - pode ser
autoridade e apropriação que se baseiam em um fazer per­ compreendida como uma espécie de metonímia da exclu­
suasivo (BRETON, 1997). Em que pese o fato desta retórica são praticada pelo próprio sistema que deveria habilitá-los
visar à inclusão, o ponto de onde ela parte e o consenso que como sujeitos. Metonímía, pois funciona como um caso
ela presume é o de que o sujeito dos transtornos mentais, representativo de uma estratégia de opressão maior, ope­
especialmente aquele que passa pela experiência da inter- rada pelo Estado em relação aos próprios sujeitos que nele

114 115
deveriam se incluir. Estratégia que passa a ser explicitada nocientífico da psiquiatria, no quadro de seus fundamen­
e questionada, particularmente a partir do final dos anos tos epistemológicos ou clínicos, nem apenas o discurso
70, para a própria opinião pública, no contexto da revela­ burocrático estatal, no quadr-Q..,da transformação normati­
ção das práticas de exclusão, controle e tortura realizadas va. Ambos reproduzem aquilo que o MTSM localiza como
pelo Estado durante o regime militar. problemático: o fechamento, a clausura e a circularidade
que mantém a rede de autoridade sobre a experiência, so­
O avanço da luta antimanicomial trouxe ganhos significa­
bre as trocas simbólicas e dispositivos técnicos do trata­
tivos na assistência aos portadores de transtornos mentais.
mento. Neste sentido, a retórica antimanicomial inspirada
· No plano institucional, apontamos como vantagens a des­
em Basaglia segue uma tática diferente da adotada, por
construção do modelo manicomial e a criação de uma rede
exemplo, pela antipsiquiatria, que questiona o tratamen­
de serviços com dispositivos diferenciados (urgências, lei-
to dispensado à loucura no seu próprio solo de constitui­
' tos de retaguarda, oficinas terapêuticas, visitas domiciliares,
ção histórica e adotando como destinatário privilegiado
'{ etc.) em território definido, proporcionando maior qualida­
r- o campo da psiquiatria. Contra esta retórica da exclusão,
de ao atendimento do "usuário': Aqui assinalamos dois des­
::,, se apresenta, portanto, um novo participante produzido e
locamentos significantes. O "interno" passa a ser chamado
(, reconhecido por uma nova destinação: a opinião pública.
r,. .... de "usuário': não mais de "paciente': O antigo "hospital psi­
A preocupação com a função interpretativa da opinião pú­

' ,,
quiátrico'' converte-se em "equipamento de saúde mental''.
Os centros de "tratamento" tornam-se centros de "atenção''. blica, colocada na posição de observadora, faz produzir uma
Há, pois, toda uma redescrição do discurso asilar no qual enw1eiação baseada na denúncia e no desmascararnento.
)' o enunciado da inclusão social é articulado. O usuário é Para tanto, a estratégia discursiva ampara-se no uso calcu­
,$
� aquele que se utiliza de um serviço, o paciente é aquele que lado de uma dupla cena: o desmascaramento da opressão
I \� 1
1 é objeto de um tratamento. política em paralelo ao desocultamento das práticas de sub­
' : ,t missão aplicadas ao tratamento dos transtornos mentais.
� Após o reconhecimento da força histórica que impelia a
Forma-se, assim, uma equação crítica em que controlar e
loucura para a condição de exclusão social, política e dis­
oprimir se solidariza paradoxalmente com cuidar e amparar.
cursiva, esta redescrição se realiza em torno do que a teo­
O antimodelo afirma, na verdade, que em nome do cuidado,
ria da retórica chama de antimodelo. A eficácia retórica de
se realiza a opressão. Em nome da cura e da saúde, verifica-se
um antimodelo se define pela inversão e negação irrestrita
a produção de posições objetivantes, silenciosas e dóceis, na
dos atributos que ele toma em conta. Ou seja, o antimode­ �
,::( quais se identifica a condição social do doente mental.
lo é tão mais eficaz na medida em que em nenhum ponto
do modelo sugerido encontre paridade com o antimodelo Deduz-se daí que a transformação desejável no estatuto
(PERELMAN; OLBRECHTS -TYTECA, 1996). Surge as­ da doença mental é de natureza política, antes que clíni­
sim uma estratégia retórica inversa, baseada na inclusão, f ca. Está formada uma cena enunciativa em que "clinica" e
na cidadania e no retorno da palavra ao paciente, definida �oliticà' tornam- s e significantes em oposição. Uma cena
a partir da negação de um antimodelo sobre o qual se es­ enunciativa envolve um contrato ou a assunção de certas
tabeleceu um consenso negativo. '"- regras discursivas entre interlocutores que assumem um
destinatário comum, um mesmo olhar para o qual a cena
Neste contexto, o MTSM introduz um novo destinatário
se constitui (MAINGUENEAU, 1997).
para seu discurso. Não se trata de enfrentar o discurso tec-

116 1 17
Clínica e
Política
Landowski (1992) nos adverte
que a opinião pública é
política. Sua vocação consiste
emfazer a classe política agir
segundo uma competência
persuasiva.

essa forma, fica clara sua influência decisiva no


D processo legislativo de implementação da reforma
psiquiátrica. O autor explicita a intluência da opinião na
classe política:
Desde que ela disponha efetivamente dos meios,
mesmo indiretos, de fazer prevaleci:r na cena polí­
tica uma linha determinada, ela se transforma cn-
tão numa 'potência' e, de observadora, é ela que se
torna, por sua vez, digna de ser ohservada em seus
comportamentos, auscultada quanto a seus estados
de espírito, sondada enquanto reserva de energias
canalizáveis. Colocada a princípio como sujeito
cognitivo, ela se metamorfoseia em objeto de co­
nhecimento (LA!\DO\VSKl, 1992. p. 23).
Considerando adequada a visão da Psiquiatria Democrá­
tica Italiana sobre a loucura, a opinião pública será con­
vencida da nocividade do hospital psiquiátrico, da nào pc­
riculosidade do louco e da ontologia social das patologias
psiquiátricas. Assim, a opinião pública e os "usuários" são
submetidos a uma pedagogia política: uma tecnopolítica.
Este movimenlo \: coerente com a retórica da exclusão,
pois baseia-se na ideia de que a participação da opinião
pública implica cm "abertura" e ampliação dos agrntes que
constroem o saber sobre um determinado processo. Intro
duzir a opinião pública seria assim uma forma de alterar a
regulação do processo. Ao mesmo tempo, este movimento
força uma transformação discursiva. A opinião pública

120 121
_,
é necessariamente não especializada; sua persuasão deve saúde-mental, tem_s.uª demanda revertida de demanda de r::;;
calcular, por exemplo, o uso de termos técnicos ou concei­ _ cw:a-para demanda de inclusão. Sua patologia é definida
tuais, produzindo, com isso, uma corrosão da base discur­ ]
pela exclusão social concreta, e não por uma nosologia
siva hegemônica encarregada da administração da doença neutra e transcendente. A localização de sua demanda ".:
mental no antimodelo asilar. não emerge do sofrimento psíquico individualizado, mas -'
n'7
O principal documento norteador das políticas adotadas do sofrimento atinente à sua posição de classe. Como tal, '�
nessa área pelo governo brasileiro tem sido a Declaração sua demanda se objetiva em posições no universo do con- ·-:.. ,.,.,
..., de Caracas. Este documento estabeleceu a diretriz de re­ sumo e do trabalho, de onde a expressão "usuário" afinal .
-::. tç
estruturação em saúde mental centrando-a na comuni­ deriva.
dade e dentro de sua rede social. Os recursos, cuidados e É no quadro deste deslocamento discursivo que se torna
tratamentos devem salvaguardar, invariavelmente, a dig­ compreensível a oposição entre uma estratégia política e
nidade pessoal e os direitos humanos e civis, propician­ uma retórica clinica. A clínica psiquiátrica, psicanalítica
do a permanência do doente em seu meio comunitário. ou psicológica torna-se identificada a um aspecto do an­
Diagnosticava-se como principal efeito nocivo do sistema timodelo manicomial, porque ela supõe, em tese, outra
asilar o isolamento, a desintegração social e a exclusão. forma de articulação da demanda: individual, subjetiva,
Encontramos aqui um segundo patamar discursivo. Não idiossincrática. Articulação que deve ser posta em opo­
mais a ampla opinião pública, definida como agente de sição à articulação política, cujos atributos teriam sinaís
um saber anônimo, mas um saber localizado, cujo agente contrários. Nesta operação a clínica torna-se excluída da
é a comunidade e a família. Neste patamar, o saber pú­ política. O saber neutro, tecnocrático, apolítico e científi­
blico não atua apenas como uma espécie de juiz ou ob­ co, pelo qual, hlstoricamente, a ordem médica apropriou­
servador, mas, como mostrou Laclau (1996), articulando se da loucura (FOUCAULT, 1988), é tomado, retorica­
demandas. Para este autor, a formação de demandas que mente, por seu valor de face, como se de fato ele devesse
orientam movimentos sociais apoia-se sempre em signi­ ser tratado pelo modo como se representa e não como um
ficantes flutuantes. Ou seja, significantes suficientemente projeto de política de subjetivação criticável. Mas um efei­
ambíguos e polissêmicos, capazes de atrair para si uma di­ to desta exclusão, presente nesta estratégia de constituir
versidade de significados, reduzindo a diferença e conso­ um novo discurso hegemônico em saúde mental, é tam­
lidando a identificação necessária para a ação. Ora, parece bém o de tornar homogêneo e criticável todo projeto que
ser exatamente este o caso na expressão "inclusão social". possa ser reconhecido como clínico.
Assim, a viabilização dessa diretriz liga-se à organização dos Parker (1999), em um extenso estudo sobre as formas
novos serviços substitutivos, que assumem a tarefa de res­ de resistência crítica, que se verificam nos diversos mo­
ponder e representar a demanda de pacientes e familiares. Os vimentos contemporâneos de transformação da saúde
Núcleos de Atenção Psicossocial - NAPS e Centros de Aten­ mental, mostrou que a renúncia ao campo de categorias
ção Psicossocial - CAPS, certamente, constituem a resposta da clínica tem, muitas vezes, contribuído para manter
mais avançada e criativa para alcançar esses objetivos. suas práticas mais conservadoras. Por outro lado, estraté­

-
Desta forma, o sujeito da expe�ucura, ao ser gias que procuram desconstruir a formação de identida­

- -- --------------
d�slocado par?a pÓSição de-,.usuário'' dos serviços de des patológicas, mostrando internamente a inconsistência

122 123
da representação essencialista da loucura e redescreven­ e circulação em universos simbólicos, resta ainda a ques­
do politicamente as categorias e procedimentos da clíni­ tão da alienação que redunda desta inclusão. O que está
ca, têm alcançado resultados. Destacam-se, neste último em questão aqui é o plano da política das identidades.
caso, a estratégia adotada por grupos como Lechesis, na Alienar-se ao significante "trabalhador" é politicamen­
Alemanha, e Hearing Voices e Mind, na Grã Bretanha. Esse te preferível a alienar-se ao significante "doente mental''.
estudo nos ajuda a mostrar que a estratégia de oposição Mas a alternativa retórica, assim colocada, mantém-se
retórica entre clínica e política não é uma estratégia ne­ pela preservação da diferença entre estes dois significan­
cessária no quadro dos movimentos em saúde mental de tes identitários.
inspiração crítica.
Laclau (1996) nos lembra que as identidades diferenciais
Nos moldes propostos pela Psiquiatria Democrática são formas identitárias que se fundam pela negação, pela
Italiana, a inclusão social do paciente psiquiátrico seria exclusão ou afastamento total do que está fora delas. O au­
obtida através da negação da lógica manicomial (trans­ tor nos lembra que a noção de negatividade, implícita no
formação institucional), de uma política compensatória conceito dialético de contradição, é capaz de levar-nos mais
de concessão de benefícios e da participação em movi­ além da lógica da pura diferença: "Um conteúdo negativo
mentos sociais. Tais práticas necessariamente ocupam que participa na determinação de um positivo é parte inte­
um lugar suplementar ou substitutivo às antigas práticas grante desse últimô' (LACLAU, 1996, p. 58).
clínicas.
Parece-nos que ao negar totalmente os saberes acumula­
Basaglia (1985), mentor da Psiquiatria Democrática Ita­ dos pelo campo da clínica, na tentativa de marcar uma di­
liana, nos lembra que a violência e a exclusão social estão ferença radical, a proposta basagliana acaba por produzir
na base de uma sociedade "organizada a partir da divisão uma retórica em que a inclusão social acaba por inverter
radical entre os que têm (os donos no sentido real) e os os sinais característicos da exclusão, eliminando assim a
que não têm [...]" (p. 101). contradição que deveria ultrapassar.
Este autor propõe como cura para a doença mental a rein­ Assim, para a Psiquiatria Democrática Italiana, as condu­
serção social do paciente nos meios produtivos: "Não se tas consideradas "inclusivas" encontrariam legitimidade
cura o doente com subjetividade, mas se cura na volta ao independente de qualquer consideração clínica. Aqui cabe
círculo produtivo, o que coloca em discussão uma ciência, considerar outro deslocamento significante. As antigas ca­
e no caso a psicanálise, mas também outras ciências" (BA­ tegorias profissionais, tais como "psiquiatra" ou "psicólo­
SAGLIA, 1979, p. 93).
go': são gradualmente substituídas por urna categoria mais
Em suma o retorno ao social aproxima-se substancial­ vasta e menos estratificada: o "trabalhador em saúde men­
mente do reingresso no universo do trabalho. Trabalho tal''. Mas nem sempre uma substituição significante altera
e subjetividade acabam por se opor, desdobrando a opo­ a posição dos agentes na cena enunciativa. Aliás, muitas
sição inicial entre clínica e política. Em que pesem os vezes, tal substituição é realizada justamente para manter
fatos de o universo do trabalho representar um sistema as posições de poder em um substrato discursivo que as
simbólico primaz em nossa cultura e de a inclusão impli­ torna menos perceptível. Portanto, trata-se de verificar
car, em última instância, a possibilidade de participação qual é a natureza da relação discursiva entre o "trabalha-

124 125
dor em saúde mental" e o "usuário" produzida no contexto
da reforma psiquiátrica brasileira.
Em capítulo anterior, mostramos como a noção de in­
clusão pode ser usada na posição do que Lacan chamou
de significante mestre (LACAN, 1969-70/1996). O sig­
nificante mestre (Sl) é o ponto do discurso que sustenta
sua significação, sendo ele mesmo assemântico, ou, como
observou Zizek (1997), é o ponto onde se realiza o bastea­
mento ideológico de um discurso: a palavra de ordem, o
momento de corte histórico e de constituição de uma nova
ordenação simbólica do discurso. Quando o significante
mestre ocupa a posição de agente de um discurso, ou seja,
quando ele se apresenta como razão e origem, em nome
da qual tudo se justifica, estamos no que Lacan chamou de
discurso de mestre (LACAN, 1969-70/1996).
A questão é saber então se há uma transformação na es­
trutura do discurso de mestre, que caracteriza a clássica
relação médico-paciente, quando passamos à relação tra­
balhador em saúde mental-usuário. Ora, pelo capítulo an­
tes citado, pode-se verificar que o responsável pela defini­
ção do que é ou não inclusivo para determinado usuário
continua a depender sumamente do trabalhador em saúde
mental. Além disso, a inclusão, em suas mais diversas es­
tratégias, não é considerada como uma possibilidade, nem
como uma contingência, mas como uma necessidade. Isso
se revela, no plano discursivo, pela presença da inclusão
como um imperativo.
O imperativo de recusar a exclusão transforma-se, assim,
no imperativo da inclusão, mantendo, portanto, sua estru­
tura em discurso de mestre. Isso se verifica, por exemplo,
no retorno do discurso das "prescrições médicas", mas
agora na forma de "prescrições sociais''. Em outras pala­
vras, afuma-se na enunciação aquilo que se quer negar no
enunciado.

126 127
Delírio e
Ideologia
O discurso basagliano
construiu uma prática que
valoriza a conscientização
do paciente acerca de sua
condição social precária.

ropõe, cocrcnk1m:ntc, a participação social efetiva e


P engajada capaz dt· lra11sformar a realidade na qual o
sujeito se aliena. 1Vlas como libertar o outro Sl' de é objeto
de um discurso de liherdade? Como fazê-lo reconhecer-se
cm um discurso do qual ele não é, cm primeira inslància,
o produtor, mas o reprodutor?
Nesses lermos, a questão ideológica surge agudamente na
relação técnico-usuário. O discurso baseado na "interpe­
laçào de mclusão" pode traduzir se em efetiva prescrição
de atitudes que procuram deslocar a posição do sujeito
que sofre para a posição de um sujeito que traduz seu so
frimento em demanda social. Por exemplo: o "usuário" é
estimulado a ler uma alividade remunerada, permanecer
Junto a família e ,'i comunidade, de maneira a evitar futu­
ras internações psiquiátricas. Paralelamente é preciso ins
talar uma narrativa que desloque a subjetivação baseada
no discurso psicopatológico para uma subjetivação basea
da em uma ontologia social responsável pela condição de
exclusao. Qual será, neste contexto, o impacto deslc dis­
curso sobre os usuários, uma ve;, se Iratando de usuários
psicóticos?
Diversos autores (GADET; Hi\LK, 1997; ORLANDI,
1999; GREIMAS; LANDO\NSKl, 1986) consideram que
a interação semiótico-discursiva não implica, necessaria­
mente, congruência entre a mensagem do emissor e a in­
terpretação do receptor. Parece-nos que a "incongruência"

130 131
l nos pacientes que se engajam na retórica da exclusão, as­
l
antes apontada entre enunciado e enunciação, entre forma
imperativa e modo libertário, ou, ainda, entre inclusão e . sumindo-a como parte de sua própria subjetivação.
interpelação, reforça nossa posição de considerar que as (Mas, cunosamente,
. nestes mesmos pac1en . tes, acompa-
falas emitidas por agentes da instituição estão sujeitas a nhamos o surgimento de outro fenômeno: a adesão a
interpretação não congruente dos receptores. Especial­ práticas farmacológicas. Tudo se passa como se ao acei­
mente no caso da psicose, o paradoxo pragmático, que tar a narrativa da inclusão, ao conformar seus paradoxos
verificamos nos diferentes níveis acima apontados, parece aos próprios paradoxos da formação delirante, o usuário
replicar a forma discursiva encontrada em diversas formas aceitasse também, e agora mais docilmente, o consumo de
de delírio (FREUD, 1911; LACAN, 1958/1998). substâncias "antipsicóticas''. Se antes ele resistia a tal p r á ­
Como explicar, no sistema conceitual da Psiquiatria De­ tica, agora ele a encara como um direito e uma demanda.
mocrática Italiana, que um paciente recuse os benefícios Seu saber não se articula apenas ao significante mestre,
sociais e o acolhimento oferecidos pelo serviço, preferin­ oferecido pelo dispositivo de saúde mental e desdobrado
do permanecer na loucura e na errância? Lembramos que no cenário social da comunidade e da família, mas tam­
tal fato é relativamente comum nos serviços que frequen­ bém se aprofunda como um saber sobre este objeto: a me­
tamos. dicação.
Alguns pacientes estão empenhados em uma produção A intervenção da psiq1úatria tecnopolítica se estende pelo
delirante refratária à narrativa da inclusão ou à prática do campo social através da oferta de vagas em trabalhos ofe­
trabalho. Outros, ao contrário, parecem integrar tal narra· recidos pelo poder público, alimentação gratuita, passa­
tiva muito facilmente, ajustando suas reinvindicações ao gens de ônibus, moradia, etc. Os técnicos do serviço se
significante mestre proposto. tornam confiáveis para os usuários na medida em que
cumprem sua palavra, fazendo chegar até estes os bene­
O produto do discurso do mestre é a constituição de um
fícios ofertados. Como em qualquer serviço, sua confiabi­
objeto. A segregação ou exclusão social do paciente psi­
lidade depende da relação eficaz entre oferta e demanda.
quiátrico, sua localização como objeto de uma consciência
Dessa forma, a relação intersubjetiva fica marcada pela
crítica, parece ser o exemplo mais conspícuo de tal tese.
promessa, que põe em relação os dois sujeitos mediados
Mas, no lugar do outro, o que o discurso de mestre en­
por um contrato.
gendra é o que Lacan (1969-70/1996) chamou de saber. A
produção delirante pode ser considerada, nesta medida, Porém, nem sempre a promessa formulada corresponde
a produção de um saber. Saber que parece não encontrar a um pedido prévio do usuário. Por vezes, o técnico "pro­
ponto de amarração ou detenção, ou seja, saber que não metente" antecipa o pedido explícito e se empenha em an­
se articula com um significante mestre. A tese de que, na tecipar o suposto programa de seu parceiro. A oferta gera
psicose, o laço social, pelo qual se define o discurso, en­ a demanda e cria a necessidade. Neste processo, já se en­
. contra-se irrealizado (LACAN, 1969-70/1996), e de que
este laço social se tornaria possível a partir da instalação
contra o prinópio discursivo sob o qual se inicia a inclu­
são. Ou seja, na própria operação de criação de demandas,
de uma substituição artificial desta articulação entre saber a ideologia se infiltra na forma social assumida pela troca.
e significante mestre (a metáfora delirante ou a suplência), Prado (2001) define ideologia como o "conjunto de efeitos
nos ajuda a entender os efeitos de estabilização verificados produzidos pela constituição e circulação dos discursos,
�(.:

132 133
que abrem campos de significação onde certos modos de crever como agente de uma demanda o sujeito se instala
l
compreensão e socialização são permitidos e incentivados em um determinado laço social ao mesmo tempo em que
em detrimento de outros" (p. l 00). reconhece a instância à qual esta demanda se dirige.
Por exemplo, nas pré-conferências do Dispositivo Mu­ Na estrutura psicótica, com suas peculiaridades quanto à
nicipal de Saúde Mental, realizadas na cidade de Santos, relação e uso da linguagem, nota-se um efeito secundário
um dos espaços indusivos do projeto, os profissionais do oferecimento e circulação do discurso político-ideoló­
dos serviços conversam extensamente com os usuários, gico centrado na formação de demandas. O fechamento
ressaltando a importância da participação social. Alguns discursivo provocado pela fixação de certos significantes,
usuários atendem este "chamado" com extrema veemên­ tais como "exclusão social': "pobreza", e "cidadania" e pela
cia. Estes usuários elaboram diversas propostas de cunho elisão de outros, notadamente os que se precipitam das
assistencial tais como: colocação de um carro à disposição formações delirantes singulares, leva o sujeito a uma nova
das unidades; aumento do número de vales-transporte forma de alienação; deslocamento que não pode ser des­
para custear a frequência ao hospital-dia e às atividades prezado, mas que mantém o problema básico da fixação
e compromissos dos usuários; fornecimento de carteiras de identidades. Prado (2001) nos aponta que a "ideologia
de ônibus para transporte gratuito dos usuários; criação é esse efeito de ocultamento do trabalho da linguagem, das
de uma linha telefônica 0800 para atendimento de pacien­ contradições que fendem o falante, que permanece fixado
tes dos NAPS. Outras propostas abordam a melhoria do em certos significantes e em certas imagens produzidas nas
cardápio e a garantia do uso do telefone da unidade pelos formações discursivas [...]" (p. 100, grifo nosso).
usuários.
Pode-se notar que muitos casos de psicose encontram cer­
As justificativas para tais propostas têm uma acentuada ta estabilidade clínica em certa assimilação de sistemas
tonalidade político-ideológica: acesso universal e de qua­ simbólicos. Sistemas simbólicos que funcionam ao modo
lidade aos serviços vinculados ao SUS, não discriminação de universos fechados de significação. Tais universos dis­
aos portadores de sofrimento mental e garantia de liber­ cursivos podem ser de extração religiosa, ética, étnica e até
dade de expressão. mesmo midiática. Por que não pensar que certas formas de
No entanto, apesar dessas justificativas, as reivindicações ideologia política poderiam desempenhar o mesmo papel?
Tais sistemas simbólicos têm por característica anexar todo
dos "cidadãos-usuários" se concentram especificamente
no campo dos benefícios. Sua fala concentra-se na pro­ saber a formas pré-constituídas de discurso. Isso pode ser
feito por intermédio de estratégias discursivas que parecem
dução de demandas. Demandas surgidas, compreensivel­
mente, em relação a uma alteridade que as incita. Outros possuir um funcionamento autônomo e anônimo, o que se
verifica típico na ideologia. O problema aqui é delimitar,
tópicos abordados na Conferência, tais como prevenção
em saúde mental, recursos humanos para a saúde mental, afinal, qual a diferença entre saber e ideologia.
permanecem em segundo plano. Chauí (2001) considera que a eficácia da ideologia reside
.. Ora, a formação de demandas é um passo decisivo para no movimento de recusa do não saber, que habita neces­
sariamente a experiência. A ideologia, diferentemente do
a inclusão e também para a articulação do movimento
social representado pela luta antimanicomial. Ao se ins- saber, projeta uma posição que permite neutralizar a his­
tória, abolir diferenças, ocultar contradições e desarmar

134 135
toda tentativa de interrogação. Em suma, a ideologia é um torizada, na qual Q§ interlocutores já f9r�m previamente re­
saber que oculta o trabalho de sua própria constituição. conhecidos como tendo direito de ouvir e falar em lugares
O saber pressupõe wn trabalho. Nessa condição, é uma e circunstâncias predeterminadas. Assim, ..Q discurso sobre
"negação reflexionante" que, por sua força interna, trans­ si vem impregnado de militância política. Em alguns casos,
forma algo que lhe é externo, resistente e opaco. O saber iiota.mos esse discurso militante circulando em associação
criativa com o sintoma. Um exemplo auxilia nossa compre­
é o trabalho para elevar a experiência à dimensão do con­
ceito. A situação de não saber impulsiona o trabalho de ensão: alguns usuários associam a participação em assem­
bleias e o poder de envolvimento dos colegas, através do
decifram�io. Daí a �id<l� entre o trabalh.o..d0-saher e
o processo de subj�tivação. Trabalho de subjetivação e não uso da fala, à potência sexual. Assim, a conversão de novos
subjetivação pelo trabalho. adeptos para a narrativa mestre da inclusão torna-se um su­
cedâneo da sedução, ocupando o novo militante um lugar
Portanto, só há saber quando a reflexão se depara com a passivo na transmissão sexual deste saber.
possibilidade de indeterminação, quando aceita o risco de
não contar com garantias prévias e exteriores à própria ex- É possível manter um lugar que nos permite guardar uma
periência e ao próprio pensamento que a trabalhaf Pode-se, distância em relação à ideologia, reconhecendo seu poten­
então, distinguir uma inclusão ideológica, que se traduz pela cial benefício clinico. Porém, esse lugar, no qual é possível
imersão em um sistema simbólico pré-constituído marcado captar a ideologia como sistema simbólico fechado, não
deve ser ocupado por nenhuma realidade positivamente
pela circulação instrumental de demandas, ��ma incl�ão
determinada (ZIZEK, 1999). Caso o crítico ceda à tenta­
pelo saber, que se traduz pela articulação do trabalho do

1
delírio-có�o deslocamento contínuoÀe..l.l.IIl..ll..ã():sãõer. ção, o que se produz é um sistema simbólico utilizado de
modo francamente imaginário. Quando o usuário traduz
Partindo desta distinção, a inserção social preconizada a retórica da exclusão nos termos singulares de sua pró­
l pela legislação é uma oportunidade ambígua de produção pria narrativa este é um ato de interesse simultaneamente
de instabilização subjetiva através do contato com alteri- clínico e político. Como observou Jameson (1992), o ato
dades, mas também de ocupação desta instabilidade por que inaugura uma nova narrativa possui uma relevância
formas ideológicas pré-constituídas. Se a interpelação transformadora maior do que a própria narrativa que daí_
ideológica é hegemônica, a produção significante torna­ se desenvolve. Portanto, não basta a imersão em um sis­
se comprometida e a subjetivação transforma-se em rei- tema simbólico, da qual a retórica da exclusão seria uma
ficação. A forma ideal e o modelo ideológico discursivo das estratégias, e a oferta de significante mestre, um efeito,
\de inserção
. social acabam sendo a conversão à prática da mas é preciso considerar, ainda, o ato contingente de apro- ,
- militância. priação singular realizado pelo sujeito.
tJ

!
' ) Dessa forma, podemos dizer que o discurso competente e É nesta operação que a escuta clínica parece ser insubs­
�instituído acaba por produzir sistemas simbólicos imunes à tituível. Não consideramos que o lugar do clinico é uma IL 1,
reflexão. A linguagem sofre uma restrição, pois não é qual­ espécie de mirante de onde se tem uma ampla, neutra e 1 ,1y;
quer um que p-ode dizer a q_uãlquer outro, qualquer coisa geral visão do panorama ideológico do social. A clínica é ()]
)'
e em qualquer circunstânci�. Esse-discw:so. . T iâêbtic.o, do apenas mais uma forma de apontar o antagonismo social \
ponto de vista formal, à linguagem institucionalm�11te_ au- J
e, no melhor dos casos, não tamponá-lo. /

136 137

Lacan cem
Faucault
Há duas maneiras
tradicionais de analisar as
relações de poder:

modelo baseado no direito, no qual se privilegiam as


O leis, as proihiçé\es e as instituições, e o modelo base­
ado na guerra, no qual se privilegiam os temas da força,
da estratégia e da segurança (Foucault, 1986:241 ). Se o
nascimrnto da clínica está intimamente ligado à primeira
forma, a invençào da psicokrapia partilha da segunda. O
poder psiquiátrico se exerce, portanto, nestas duas moda­
lidades.
Í'. certo que haveria ainda uma terceira forma de poder,
aquela pensada ironicamente a partir de Hobbes:
( ... ) em vez de pensarmos no poder como cons­
tituído mediante um acordo entre nós, como do­
nos da liberdade, devemos pensar na liberdade,
cm termos do processo através do qual nos cons­
tituímos como sujeitos do tipo de atividades pelas
quais podemos ser governados e governar a nós
mesmos. (Rajchman, 1994: 137)
Seria tentador situar a psicanálise como urna espécie de
cornbina�·ão entre ambas e, ainda, avaliar a psicanálise
frente a esta terceira forma-poder. Os diferentes tipos <le
individualismo que a psicanálise carrega em seu interior
encontrariam, assim, uma redistribuição e um compro­
misso jamais suficientemente esclarecido com a psiquia­
tria. Este é um primeiro ponto a ressaltar nas relações
entre a crítica foucaultiana do poder psiquiátrico e sua
extensão à psicanálise; a saber, não estamos falando de ca-

140 141
,.... '' 1

tegorias que delimitam o discurso terapêutico do ponto É nesta via' ;te 'a psicanálise pode ser perfilada como � u­
de vista da própria psicanálise, mas da inscrição da psi­ cessora das diferentes ordens discursivas que se ocuparam
canálise nas práticas de subjetivação da modernidade, em da loucura desde o século XVII. Em História da Loucura,
particular no dispositivo psiquiátrico. Esta confusão já se a série é assim apresentada: discurso moral, discurso ju­
estende por tempo demais; confusão, aliás, extremamente rídico, discurso médico, discurso psicanalítico (Foucault,,,
contrária ao próprio pensamento foucaultiano, a saber: 1962). Mas é também a história de um silenciamento, a
história de um esquecimento que se realiza neste livro.
(a) Inclusão da psicanálise nos dispositivos nor­
Ora, devemos lembrar que Foucault se insere no quadro
mativos, individualizantes e patologizantes da psi­
quiatria, e consequente exclusão e silenciamento da da epistemologia historicista francesa, que nasce com Ba­
psicanálise e de toda e qualquer forma de projeto chelard e passa por Canguilhem. Ou seja, urna historio­
clínico para as psicoses. Portanto estamos a salvo da grafia que é, antes de tudo, informada pela psicanálise, que
psicanálise por uma espécie de equívoco realista que se debate com o problema do esquecimento mais além da
encontrará nos arquivos, nas práticas, nas institui­ hipótese consciencialista.
ções o germe impuro da psicanálise. Ou seja, psicanálise participa deste problema como dispo­
(b) Resposta equívoca dos psicanalistas, cada qual sitivo de saber e tratamento (como parte da psiquiatria),
ao seu modo, argumentando que o que Foucault mas também na forma como pensamos sobre nós mes­
chama de psicanálise está muito distante do que mos, nos instrumentos discursivos de uma tecnologia de
cada um destes reconhece em si como psicanálise. si e em suas formas coextensivas de poder (como parte da
Quando não se recorre ao argumento da atopia, pela psicologia).
qual ninguém está em posição de criticar a psica­
Aqui podemos indicar as três superfícies da crítica fou­
nálise "de fora da psicanálise''. Portanto, estamos ao
caultiana:
abrigo da crítica foucaultiana por uma espécie de
equivoco nominalista. (a) O poder como uso da violência, da coerção e da
microfísica dos corpos (normas e instituições), em
Como já se pode ver na conclusão de Doença Mental e
complemento com o poder como resistência, estra­
Psicologia:
tégia que prevê seu próprio desequilíbrio (guerra).
Esta relação [do homem consigo mesmoJ vista sob Aqui está o espaço da instituição e da contrainstitui­
o ângulo mais agudo, é esta psicologia na qual ele ção. Neste caso, a psicanálise seria herdeira da lógica
colocou um pouco de seu espanto, muito de seu or­ da histeria e seu mestre.
gulho e o essencial de seus poderes de esquecimento
(b) O saber e a verdade, por meio da qual se es­
(... ) encarregado de deter a verdade interior, descar­
tabelece um "regime de verdade" ou um discurso
nada, irônica e positiva de qualquer consciência de
sobre a loucura, por meio do qual uma autoridade
si. (Foucault, 1954:98)
se constrói sobre a experiência da loucura. Saber
Ou seja, o primeiro dos poderes desta conjuração psiquiá­ e verdade são lugares na superfície de um discur­
trico-psicanalítica é o poder do esquecimento. Esqueci­ so. É neste discurso que a experiência trágica da
mento da história de sua prática, dos compromissos que loucura torna-se objeto de uma consciência críti­
lhe são constitutivos e das estratégias das quais participa. ca. Nesta linha, a psicanálise seria herdeira da ope-

142 143
ração cartesiana e, mais especificamente, de uma como uma espécie de efeito estrutural da heterogeneidade
série de metamorfoses sociais no século XIX: (1) entre o espaço que é pressuposto em cada forma-poder e os
o imperativo de uma nova relação pais-filhos, (2) lugares e, subsidiariamente, entre os lugares e as posições.
uma nova economia das relações intrafarniliares, Penso que são esses efeitos de resistência e incorporação
(3) a intensificação das relações mães-filhos, (4) a que Foucault estudou ao analisar as práticas de individu­
inversão do sistema de obrigação familiar de (fi­ alização nas formas disciplinares da modernidade. Esta
lhos para pais), para (pais para filhos) (5) um prin­ heterogeneidade aparece em categorias como: enunciado,
cípio de saúde como lei maior da família, (6) vin­ dispositivo e discurso (Foucault, 1987). Ela admite desdo­
culo corporal entre pais e filhos, ligando de forma bramentos em sua chave linguística (fala, discurso e língua)
complexa desejo e poder, e (7) controle, vigilância e em sua chave política (tática, estratégia e política).
e arbitragem externa, pelo médico, das relações fa­
miliares (Foucault, 1975). O real cuja referência política é o território se tensiona
com o real cuja referência ética é a morada O espaço per­
(c) A subjetivação, pela qual práticas como a confis­
manece, todavia, contínuo. Esta é uma das premissas mais
são, a anamnese, o interrogatório clínico e a auto­
constantes da ontoteologia e da metafísica ocidental.
-observação levam à individualização das formas da
loucura e à interiorização das normas de produção A questão fundamental que envolve esse tipo de li­
de uma certa forma de autoridade. Nesta acepção, a berdade política é ser um constructo espacial. Aque­
psicanálise seria um desenvolvimento mais apurado le que deixa a sua pólis, ou dela é banido, perde não
e taticamente mais eficaz da psicopatologia psiquiá­ apenas sua terra natal ou pátria: perde também o
trica e suas operações: diagnósticas, serniológicas, único espaço onde pode ser livre - e a companhia
terapêuticas e etiológicas. dos seus iguais. (Arendt, 2008:173)
Apresentemos, então, nosso argumento. Toda forma de Nessa replicação do espaço político no lugar se expressa
poder exercido na cura deriva da injunção entre a posição simetricamente uma tendência a considerar que o lugar
do sujeito, o lugar que este ocupa num discurso e o espaço inclui e contém, necessariamente, o conjunto exaustivo
que o condiciona e limita. das posições, assim como o gênero contém a totalidade
das espécies. Por intermédio de uma gramática da inclu­
O poder funciona pela w1ificação, simetrização e homo­
são e da exclusão, fomos levados a supor que toda posição
geneização entre espaço, lugar e posição, que levamos a
se inclui num lugar, ambos reunidos num espaço assim
cabo em uma investigação posterior (Dunker, 2012):
tornado invisível e homogêneo.
(... ) uma ordem particular se unifica num conhe­
Brevemente podemos notar que, para cada objeção críti­
cimento mais universal, em que a ética desemboca
ca e incorporativa da psicanálise ao dispositivo de poder­
numa política e, mais além, numa imitação da or­
saber-sujeição, formado pela psiquiatria, há uma espécie
dem cósmica. (Lacan, 1959:33)
de contra-afirmação. Minha hipótese é de que, longe de
Pelo fato de que esta montagem é heterogênea, pode-se "salvar" a psicanálise, Foucault está interessado justamen­
pensar que, em qualquer forma de poder, há uma zona de te em um tipo de história que não herde a territorialização
resistência que lhe é coextensiva. É a tentativa de incorpo­ de disciplinas e que, sobretudo, escape a uma topologia do
rar a exceção ao universal. Há resistências que se realizam "encaixotamento" entre saber, poder e desejar.

144 145
( 1) A primeira forma de resistência ao poder está na determinação é política e lógica, sem que ambas se con­
relação de si a si, segundo o modelo do cuidado de fundam no mesmo movimento.
si, em relativa oposição ao modelo do governo de Napoleão afirmou, primeiro, que a geografia é o destino
si. Ora, a tradição que Foucault chama de espiritu­
e, depois, que a forma moderna do destino é a política. A
alidade, na qual esta forma primeira de resistência
felicidade tornou-se um fator político por meio dessa ope­
e de reflexão sobre o poder sobre si se inscreve, é
ração. Um efeito dessa espécie de fechamento do espaço
também a tradição na qual ele localiza a psicanálise.
político propriamente dito é sua inteira distribuição pela
(2) A relação de verdade, na qual apenas Lacan e ética, pela economia (esta ciência da infelicidade), pelas
Heidegger haveriam de ter seriamente colocado formas jurídicas e pelas tecnologias de si.
no século X.X, sugere a ideia de uma truth-telling,
de uma transformação que se opera no sujeito, no Foucault percebeu esse movimento, e suas tematizações
interior de um espaço cernido pela parrhesia. É críticas em relação à psicanálise têm regularmente esse
também, do ponto de vista do saber, uma heran­ endereço. Resumidamente:
ça modificada, uma herança mutante, filtrada por ( 1) A psicanálise participa do dispositivo de sexualidade
uma operação comumlocalizada em Freud, Marx e ao fixar a verdade do sujeito na enunciação contínua e re­
Nietzsche. Ou seja, uma operação de desligamento pressiva de seu próprio desejo sexual (Foucault, 1985:73-
semiológico, de abertura para uma deriva das in­ 109). A criança masturbadora, a mulher histérica, o
terpretações, que não versam mais sobre os objetos perverso e o parricida são as figuras fundamentais desta
(anátomo-patológicos, etnográficos ou jurídicos),
soldagem. A teoria da perversão e da sexualidade são os
mas sobre outras interpretações (Foucault, 1975).
índices conceituais desse movimento de posicionamento
(3) Com relação à dimensão de assujeitamento, alie­ do sujeito.
nação e objetificação, devemos lembrar o último ca­
(2) A psicanálise participa de um discurso que fixa o dis­
pítulo de As Palavras e as Coisas, no qual Foucault
afirma: positivo de sexualidade ao dispositivo de aliança, permi­
tindo uma sólida combinação entre o poder público re­
Em relação às "ciências humanas': a psicanálise presentado pelas disciplinas sociais e a forma-poder ve­
e a etnologia são antes "contra-ciências·: o que rificada no interior da família (Foucault, 1986:229-242).
não quer dizer que sejam menos racionais, ou A teoria do complexo de Édipo é o melhor exemplo con­
objetivas, mas que elas as assumem no contra­ ceitua! desta operação de ligação entre lugar e posição. A
fluxo, reduzem-nas a seu suporte epistemológi­ incitação do desejo pelos pais é correlativa ao dispositivo
co e não cessam de "desfazer" esse homem que,
de medicalização da família - logo, longe de ser intolerá­
nas ciências humanas, faz e refaz sua positivida­
vel, a ideia do incesto está na origem mesma da pastoral da
de. (Foucault, 1966)
carne (Foucault, 1975:341).
Pretendo contribuir para a desconstrução desta ideia, a
(3) A psicanálise faz parte de uma estratégia repressiva que
partir da premissa de que nem sempre o espaço conside­
se verifica, em sua prática, na forma de uma variante do
rado para pensar o lugar precisa ser contínuo ao espaço
dispositivo jurídico-moral de confissão (Foucault, 1977).
considerado para pensar a posição (Dunker, 2003). Esta
Vemos aqui como a psicanálise, menos do que inventar

146 147
uma técnica de liberação do desejo, participa da hipótese captura num espaço_que_a_ante�e. A crítica depende da
repressiva, pela qual a repressão se efetua pelas vias da in­ experiência, e é nela que se pode tensionar as relações en­
citação a dizer, da compulsão a falar e assim produzir a se­ tre espaço, lugar e posição. A narrativa não é o discurso, o
xualidade. A transferência e a rememoração são os rastros discurso não é a língua, a linguagem não é o espaço.
nocionais dessa tática de articulação entre posição e lugar. Em termos lacarúanos, podemos dizer que a política do
-!' (4) A psicanálise faz parte de um longo processo de si- tratamento decorre basicamente de como se concebe o
.� lenciamento da loucura e expropriação de sua verdade, lugar do Outro e como se entende a posição do sujeito,,
contribuindo e inovando no processo de patoJogização na fantasia. Lugar do Outro e posição do sujeito são duas
e individualização de sua experiência (Foucault, 1962). noções que remetem ao espaço ético-discursivo no qual se
Aqui é a psicopatologia psicanalítica e a estrutura mesma desenrola uma análise, que, no melhor dos casos, produz a
do tratamento que marcariam a integração positiva dos experiência de um objeto irredutível ao espaço que o ator­ I
lugares que compõem o patológico ao espaço genérico de nou possível. Supõe-se, assim, que uma análise tem uma
uma política discursiva. tripla tarefa do pontQ .de vista de-süa polfüca:--
(5) A psicanálise é uma forma de despsiquiatrização, um ( l)permitir ao sujeito verificar a contingência de
modo de suprimir os "efeitos paradoxais do sobrepoder sua posição fantasmática;
psiqtúátrico; mas reconstituição do poder médico, produ­ (2) realizar a experiência de tornar o lugar do Outro '
tor de verdade num espaço organizado para que essa pro­ um lugar não inteiramente consistente;
dução seja sempre adequada a este poder': A transferência
(3) introduzir um objeto resistente à sua integração
é uma maneira conceituai de abordar esta adequação (o
no espaço uniforme entre o sujeito e o Outro.
pagamento sendo sua contrapartida). Ou seja, a psica­
nálise é um recuo da psiquiatria, mas não uma alteração A questão assim resumida pode ser enunciada da seguinte "
de sua política fundamental. Ela retoma os elementos do maneira. Seria possível levar a cabo este programa clínico
dispositivo asilar em outro estado de biopolítica: o libera­ quando de uma política à altura de Foucault, ou seja, à
lismo. altura de uma forma de contrapoder psiquiátrico? Se é que
este pode ser condensado na figura de uma heterogenei­
, As objeções de Foucault são todas pertinentes. Em quepe­ dade entre espaço, lugar e posição. ·
sem o fato de que nenhum psicanalista reconheceria em
sua prática tais traços e as objeções à generalização que
esse autor faz da psicanálise, é irrefutável que a implan­
tação social da psicanálise deve muito à sua composição
com estas operações de unificação entre espaço. lugar e
posição. Recusar isso é recusar que a psicanálise tem uma
história e que sua constituição não é hagiográfica, nem
orientada pela divina providência do corte. Ocorre que
nenhuma forma de discurs _ç_q_nstituído p.o.de_g4r-antir

-
u g�r de resist-ência dts_çQ_nstrutiva ou_ç_.rítica,_pois sua
constit_uiçãe já é, em-si, uma articulação ideológica, u�;

\
'
j
148 149
A Psicopatologia
entre
Psicanálise e
Psiquiatria10
Consideramos neste capítulo
que a psicopatologia define­
-se como experiência clinica e
discurso de pathos, constituída
como tal emfins do século XIX,
principalmente na França e
Alemanha,
stabelecendo-se corno disciplina híbrida, partilhando
e
sistemas semiológicos e diagnósticos entre a psicologia,
psiquiatria e psicanálise. Ela tomou descri�·ões provenientes
da medicina e da antropologia como objeto, a fenomenologia
e as práticas terapêuticas como função de método e, ainda,
como referência axiológica em dispositivos educativos e mo­
rais, políticos e sociológicos (BERCHERIE, l989; IONESCU,
1983). Em função dessa naturen híbrida entre saber, experi­
ência e disciplina, entendemos por que a psicopatologia his­
toricamente recorreu à filosofia cm torno de duas exigências
epistemológicas fundamentais: ( l) transformar palhas, como
diferença particular e transitória, em experiência de aspira­
ção universal e (2) transformar patlws, corno experiência de
sofrimento, das paixões e dos sintomas, em discurso e prática
clínica singular (BERLINK, 2000).
No primeiro caso, trata-se da "determinação antropológica"
da psicopatologia, presente, por exemplo, na importância de
Kant para a formação da psiquiatria clássica alemã (Krae­
pelin) ou do associacionismo inglês para a psiquiatria de
Griesinger. No segundo caso, reconhecemos o problema da
"determinação histórica" que se exemplifica na influência
que Pinel exerceu sobre o pensamento hegeliano, no papel
do positivismo comteano para a psiquiatria clássica fran­
cesa (Fsquirol, More]) ou na presença de Ilusserl na psi­
quiatria de Karl Jaspers (BERRIOS, 1996). Pelo número de
disciplinas, disparidade de métodos e diversidade de posi­
ções, vê-se que a psicopatologia exige e implica a tomada de

152 153
posição, visando organizar de modo coerente e homogêneo ricana de Psiquiatria (APA). Sua primeira versão, em 1952,
práticas terapêuticas e diagnósticas, bem como discursos reconheceu claramente a síntese de esforços anteriores,
semiológicos e etiológicos (DUNKER, 2010). Isso implica a em que o papel da psicanálise era proemínente. Devemos
articulação entre experiências regulares de aspecto univer­ lembrar que o esforço de conciliação com a classificação
sal, pelas quais pathos aparece como determinação excessi­ emanada da Organização Mundial de Saúde, Classificação
va ou deficitária, e experiências contingentes ou singulares, Internacional de Doenças (CID-6), revelou, pela primeira
pelas quais pathos aparece como indeterminação produtiva vez, como as ideias psicanalíticas e psicopatológicas subja­
ou improdutiva (HONNETH, 2007). Não se trata de opo­ centes poderiam conter particularidades não tão facilmente
sição simples entre quantidades e qualidades, entre singu­ aceitas no resto do mundo. Há vários trabalhos que descre­
laridade e universalidade, mas da lógica de constituição da vem, particularmente a partir do DSM-III (1980-1987), o
experiência, ou seja, do real e do regime de verdade em cur­ processo gradual de retirada de categorias e signos clínicos
so na psicopatologia. de extração psicanalítica e sua substituição por entidades
"propriamente psiquiátricas" (BAYER et al, 1985; STEIN,
Até a Segunda Guerra Mundial, o sistema de trocas entre 1991; ROBERTSON; PARIS, 2005; BURGY, 2008).
psicanálise e psiquiatria, terreno no qual a psicopatologia
prosperou, envolveu importações conceituais (a Spaltung O objetivo deste capítulo é verificar em que medida essa
para Bleuler, a dinâmica para Ey), zonas de confluência transformação no regime de correspondências psiquiá­
metodológica (as teorias sobre grupos na psiqtúatria in­ trico-psicanalíticas, expresso pelas duas exigências epis­
glesa), mutualismos diagnósticos (quadros como parafre­ temológicas apresentadas anteriormente, ainda constitui
nia, neurose de angústia, borderline), derivas semiol6gicas o sistema DSM como expressão de uma psicopatologia
(neurose, perversão, psicopatia), além de hipóteses etio­ capaz de apresentar-se como solo comum de referência
lógicas (organização pulsional, regressão, fixação, defesa) clínica, semiológica e diagnóstica tanto para psicanáli­
(QUINET, 2001). Por outro lado, o exame histórico das se quanto para psiquiatria. Basearemo-nos, para isso, no
relações entre psicanálise e psiquiatria tende a revelar uma exame de dois aspectos que nos parecem relevantes para
psicanálise muito mais comprometida com a psiquiatria do entender o sistema DSM: (1) sua aspiração a colocar-se
que ela hoje gostaria de admitir, e uma psiquiatria muito para o campo da psicopatologia como uma forma de "clas­
mais dependente da psicanálise do que ela está disposta a sificação" consensual, convencional e tendencialmente de­
reconhecer (ELLENBERGER, 1970; PARKER et al, 1999; sambiguadora (ao modo de um código de linguagem) e
FOUCAULT, 2003). Porém, se o limiar entre psicanálise e (2) sua aspiração a constituir-se em um "ordenan1ento'' de
psiquiatria é o terreno no qual a psicopatologia se desen­ natureza regular, exaustivo e universalizável (ao modo de
volveu, e se o recurso à filosofia é necessário para tratar sua um código jurídico) das modalidades do psicopatológico.
dupla exigência epistemológica, seria possível reencontrar o Recuemos para que o argumento fique mais claro. É plau­
diálogo interrompido nos instrumentos conceituais e meto­ sível que as soluções representadas através do apelo a uma
dológicos que vieram a substituir o apelo à psicopatologia? "antropologia filosófica" possam ser substituídas pela ado­
Um instrumento particularmente relevante para entender ção de uma estratégia baseada na convencionalidade do sig­
a transformação desse duplo sistema de correspondências nificado patológico dos signos, ao modo de uma nosografia,
psicanalítico-psiquiátrico e psicopatológico-filosófico é o estratégia teórica que depende do conceito de "classe'; que
sistema consubstanciado no Diagnostic and Statistic Manual inclui as antigas noções de "tipo''. "quadro'' e "grupo''. Inver­
ofMental Disorders (DSM), editado pela Associação Ame- samente, as soluções historicamente ligadas à importação

154 155
de conceitos da "filosofia da históriâ' gravitam em torno do ciente tem em comum com os demais indivíduos incluídos
conceito fundamental de "ordem': que reúne noções clássi­ no mesmo conjunto. A semiologia funcionaria mais como
cas como "evoluçãd: "transformação" e "progresso� um dicionário que especifica o que está e o que não está no
O problema da universalidade das formas do patológico de­ código da língua do que como um conjunto total de nar­
manda explicação para a existência de regularidades clini­ rativas. O diagnóstico seguiria o princípio lógico de uma
cas que permanecem semelhantes em termos morfológicos enciclopédia na qual se encontram regras de ação ou cami­
e fenomenológicos, no tempo e no espaço, apesar de alter a ­ nhos preferenciais de continuidade. O valor patológico dos
ções e modulações expressivas e funcionais. � importante signos poderia ser pesado pela sua força de determinação
insistir no caráter primitivo dos conceitos de "ordem" e de ou de indeterminação no conjunto que define um quadro.
"classé: pois, uma vez reconhecida sua anterioridade lógica Seguindo esse raciocínio, o diagnóstico psiquiátrico não
diante de outros conceitos igualmente importantes - como pode prescindir de elementos descritivos fenomenológicos
causa ou gênese, estrutura ou função -, podemos perceber e comportamentais revelados na situação clinica, na qual a
melhor como as relações entre psiquiatria e psicanálise es­ relação intersubjetiva e a interpretação conservam um pa­
tão mal focadas. Por exemplo, o argumento de que sintomas pel decisivo. Podemos inferir que, se a classificação cons­
ou transtornos (disorders) são "causados" por perturbações trange em demasia o processo diagnóstico, ela prejudica a
biológicas análogas à etiologia genética, endócrina, neuro­ prática clínica, mas, por outro lado, toda disti nção presume
química ou anatômica verificável em outras enfermidades classes, categorias, oposições ou conjuntos.
(KAPLAN et al, 1997) requer a admissão de que passagens Berrios (2007) define psiquiatria como o conjunto das nar­
entre eventos de ordens distintas, do gene ao comporta­ rativas desenvolvidas, sobretudo, nas sociedades ocidentais
mento, possam ser expressas em classes lógicas homogêne­ para explicar e tratar os fenômenos comportamentais que,
as. da química ao discurso social. Esses ordenamentos se­ com base em critérios sociais, mais do que neurobiológicos,
riam casos particulares de uma determinação universal? De foram definidos como desvios. Para Berrios (2008), as clas­
forma similar, o argumento de que as apresentações clinicas sificações psiquiátricas são produtos culturais, e não apenas
do patológico são combinações homólogas de contradições epifenômenos comportamentais envolvidos ou redutíveis
derivadas do que há de universal nas culturas, como estru­ a alterações moleculares, mas o fato de a genética sozinha
turas familiares, funções de personalidade, formas simbó­ não explicar toda a patologia mental não deve compelir os
licas (TISSOT, 1984), nos força a admitir que classes origi­ psiquiatras à pesquisa de invariantes sociais. As explicações
nadas em um sistema de oposições possam originar figuras etiológicas ou diagnósticas entre psiquiatria e psicanálise
clinicas que aspiram identidade denotativa. Essas classes
não se somam, ao modo de fatores em uma operação ma­
seriam formas particulares de tipos universais?
temática, porque as relações de classe e ordem nem sem­
Alguns autores (BANZATO, 2005; PEREIRA; DANTAS, pre são do mesmo tipo, e não porque a psiquiatria advoga
2009) procuram mitigar essa dificuldade, distinguindo homogeneamente uma ontologia materialista e monista e
"diagnóstico': como atividade de discriminação, de enti­ a psicanálise o seu correlato idealista e dualista. A crença
dades clínicas de "classificação': implicando a distribuição de que as doenças mentais dependem de construtos sociais
de tais entidades em grupos ou categorias. Com base em não é ameaçadora à psiquiatria por questionar a existência
relações compartilhadas ou diferenciais entre conjuntos, profissional de psiquiatras; ela é ameaçadora por não ofere­
o diagnóstico nosológico não exprime a complexidade da cer a estabilidade requerida para criar um sistema preditivo
condição do paciente, mas apenas designa o que esse pa- (relação de ordem) entre fenômenos, que é uma expecta-

156 157
tiva inerente a toda forma de medicina. A crença de que que se ordenam de modos distintos e móveis (história dos
estruturas clínicas dependem do funcionamento do sistema sintomas, do tratamento, narrada, lembrada, esquecida).
nervoso não é ameaçadora à psicanálise por questionar a Uma passagem representativa da presença dessa atitude
existência do inconsciente ou da pulsão; ela é ameaçadora em Freud: "Sei que há - ao menos nesta cidade - muitos
por descrever o sofrimento e os sintomas em uma semiolo­ médicos que (coisa bastante repugnante) vão querer ler um
gia (relações de classe) refratária à intervenção pela palavra, caso clínico desta índole como uma novela destinada a sua
sob transferência. diversão e não como uma contribuição a psicopatologia das
Podemos agora sintetizar o tipo de mutualismo teórico­ neuroses" (FREUD, 1905/1996, p. 8).
-clínico existente entre psicanálise e psiquiatria à altura da O termo em alemão para "novelà: neste trecho, é Schlüssel­
formulação do DSM-1 em 1952. A psicanálise preocupou­ roman, ou seja, literalmente "romance-chave" e não apenas
-se pouco com a consistência de seu sistema de classificação "novelà' (como a tradução espanhola) ou "romance" (como
dos grupos psicopatológicos. Ao longo da obra de Freud, na tradução brasileira). O recurso à psicopatologia, em psi­
encontramos regularmente uma atitude avessa ao ideal de canálise, baseia-se na apresentação de casos que funcionam
classificação exaustiva e de regularidade semiológica cons­ como modelos ou paradigmas que permitem definir as
tante, comparável ao agrupamento das espécies proposto relações de ordenamento entre os signos patológicos. Des­
por Lineu ou a tabela periódica proposta por Mendeleiev. sas relações se podem inferir, secundariamente, potenciais
Ao contrário, Freud, e isso parece ter se mantido como uma classificações. Estas devem se ajustar e se submeter à força
tônica entre quase todas as tradições psicanalíticas, acentu­ do ordenamento cujo núcleo é a noção de causalidade (an­
ava, emtermos diagnósticos, a dimensão de "ordenamento" tropologia filosófica) ou de determinação (filosofia da his­
dos signos em detrimento da sua função "classificatória'� tória). Em Lacan, por exemplo, as estruturas ontológicas,
Contudo, a psicanálise conta com um conjunto de concei­ baseadas em relações de "ordem" (real, simbólico e imagi­
tos e de hipóteses de natureza metapsicológica que fazem a nário), tensionam ao longo de toda obra com as estruturas
função dessa classificação no interior de uma psicopatolo­ antropológicas que privilegiam as relações de "classe" (me­
gia. A saber, a função antropológica de organizar diferenças táfora paterna, teoria dos discursos, teoria da sexuação),
sendo o ponto constante (o Schlüsselroman de Freud) de
sob a égide da universalidade. Trata-se das teorias comple­
mentares sobre o inconsciente, a pulsão e a defesa. Isso per­ seu ensino as articulações entre ambas.
mitiu que a força expositiva de casos clínicos adquirisse um Dessa maneira, podemos entender por que a divisão de
valor de generalização poucas vezes alcançado antes, e até tarefas entre psiquiatria e psicanálise poderia comportar
hoje questionável em termos da formulação de evidências. a formulação de um sistema diagnóstico como o DSM. O
Casos clínicos não funcionam, como na refação de classe lugar reservado para a consistência e exaustividade classi­
em psiquiatria, por acumulação e pelo recurso central às ficatória havia sido deixado vago por Freud. Ele reconhe­
operações de distinção, indução e inclusão em famílias, or­ cera a importância de outros métodos na realização dessa
dens, gêneros ou classes, distribuindo de forma homogênea tarefa e, ressaltemos, não via uma antinomia entre a psico­
em oposições verticais (Gênero 7 Espécie) e oposições ho­ patologia assim constituída e a psicanálise.
rizontais (Tipo A ou Tipo B). Um caso é principalmente a
articulação de uma história ou de um conjunto de histórias

158 159
Pequena
História do
DSM
O sistema DSM é um imenso
empreendimento coletivo, do qual
participam diferentes grupos de
trabalho, comportando milhares
de pesquisadores divididos em
seções que expressam orientações
teóricas e clínicas distintas.

162
Observamos que, na classificação de 1918, todos os qua­ Quadro 2: Alterações das categorias psicopatológicas nas
dros, excetuando-se as condições médicas correlatas (exó­ versões do DSM
genas), contêm sobreposições diretas ou parciais com ca­
Data Versão Número de Reformulação psicopat.ológica fato relevante para a
tegorias encontradas também na psicopatologja psicana­ "uadros nsicanálist
1951 DSM I 106 Racionalidade diagnósti ca Predomí nio de categorias de
lítica. Na classificação de 1952 do DSM-I, essa tendência centr.tda cm lipos de reação e no txLração psícodinâmi ca,
pressuposto sintÇti coda história NSS41tando-se a oposição
permanece com duas ressalvas, inclui-se massivamente a devida e das moções cnue neurose e pskosc
de.terminantes das doenças
ideia de "reação'; como que a enfatizar a natureza transitó­ mentais
1968 DSM-Jl 182 Abandono da nação de " reação•1• Manutenção da noção de
ria de tais estados, e introduz-se uma divisão dos quadros Oposição entre neuroses (fobia, "neurose' exprime
1

obstssivo-eompulsiva, predominância da
de típico interesse psicanalítico entre as psiconeuroses, dcprcssjva, neurastênica, psicodinâmlco psi qui átrica
bjp0t0ndtia, despcrsonalir;ação)
qualificadas como desordens (disorders). Surge um novo e desordens dtpersonalidade
conjunto de categorias agrupado em torno da noção de (paranoide, ciclotímica,
esquiiói de, explosiva. obsessiva
personalidade, com dez subtipos: inadequada, esquizoide, compulsiva, h.i stéricll, asténic-a.
an.tissocial, passivo-agressiva,
ciclotímica, paranoide, estável-emocional, agressivo-pas­ inadenuada)
1980 DSM·ID 265 Surge o sistem a de diagriôslioo O sistema claS5i6catório se
siva, sadopática, antissocial, dissocial e com desvio sexu­ , nultiax.ia1. Adm ite pel a últim a considerareórtco e.
vez otcm10 neul'(J$e como t,peracional das graodes
al. A classe da paranoia desloca-se da condição de grande catc:goria cl{nic.1. síndromes psi quiátricas.
Retit3da & categoria lntmduç.ão do transtorno
grupo dentro das psicoses (como considera a psicanálise) '"bomossexualidnde.". "Cada dépersonalidade nardsina
desordemmental é roocc:.ituadá
para um tipo de personalidade e uma forma de delírio. como compo1 1amento
cünicame.u.te significativo ou
síndrome nsicolótti:ca"
Opondo-se tanto à noção de "processo", extensamente 1987 DSM- 292 Elimina o conceito de Diagnósticos são
lll•R homossexualidade cgodlst6oica. considerados sistemas
presente na grande síntese psiquiátrica alemã (baseada Ex.cl usâo de quadros como conveocionais, conJi.âveis
desordem dis (órlca pré.. sem qualquer rçfcrênci a
nas divisões propostas por Kraepelin), quanto à noção de menstrual edistúrbio da omolõgica
«constituição': disseminada nas teorias da personalidade 1 nersonllldade
: masoouista
1994 DSM-N 297 lnc:lusâo de u, n critérlo de DSM exclui os
de extração francesa, Meyer centrou sua racionalidade significân.ciil cU.nica. J>1lra quase psi codinamismos da
u\cta.de de todos as cotegorlas etiologia conversi va eos
diagnóstica em «tipos de reação" (relações de classe) e no que possuíam sin1 omas e: substitu-i pelo enfoque nco-
causavam sofi:iroento --0rg-atücisra
pressuposto sintético da "história de vida" e das moções clinicamente si gnificati vo ou
prcjui 1.o no funcionam<:olO
determinantes das doenças mentais (relações de ordem). social e ocupscion.aJ.
A bistcria é desmembrada cm
O primeiro grupo é referido em torno do espectro que vai !'.>ind!omes: dissociação,
dismorfismo torporal,
da ansiedade à depressão, com relativa preservação da li­ ansiedade, depressão.
flbromiale:ia
gação com a realidade. O segundo (desordens psicóticas)
2000 DSM· 297+21 Al ualimçào das revisões Valorização de comorbidades
caracteriza-se pela presença de alucinações e delírios com IV-TR (presco1cs biblio,gnificas que e cruzamentos erure eixoi;
no fwtdamcotaram o DSM·IV. diilgnósticos
perda substantiva da realidade (WILSON, 1993). apêndice Supressão do critério de
B- "significativo sofrimento ou
Comparemos a presença e sobreposição das categorias Propostas compromt.ri 1neuto" para o
para di ãgnósti co de mmstoroo de
psicopatológicas nos primeiros trabalhos de classificação C$ludos tique. Porvolta de 50% dos
ad�ionaíS) quadros exigem ..clinically
das doenças mentais realizados pela APA e a sua evolução signJjlca,u distress or
impoirment in social.
nas versões subsequentes. occupatlcnal, or orher imporlanr
areas oj'J1mC1iom'ngN como
critério di aot1óstico
.
Fonte.�: APA, I 987� .1 968; 1952; Assoc1 a9:10 Ps1qu1átnca Amencana. 2009, gnfo nosso.

164 165
Em 1968, houve uma revisão da seção de transtorno men­ desmentem sua validade e a nomenclatura deles
tal da CID-8, promovida pela Organização Mundial de próprios condiciona nossa percepção. O Comitê
Saúde (APA, 1968). A rápida integração da psiquiatria aceitou o fato de que diferentes nomes para a mes­
ma coisa implicam diferentes atitudes e conceitos.
com o restante da medicina ajudou a criar a necessida­
Ele tem, entretanto, tentado evitar termos que car­
de de uma nomenclatura psiquiátrica e de classificações
reguem consigo implicações sobre a natureza de um
proximamente integradas com outras práticas médicas.
distúrbio ou suas causas e tem sido claro sobre pres­
O principal fato a se destacar na revisão promovida pelo supostos causais quando eles são partes integrantes
DSM-II é que o termo "reação" foi abandonado, mas o ter­ de um conceito de diagnóstico (APA, 1968, p.VIII,
mo ''neurose" foi mantido. Isso refletia a predominância tradução nossa)11•
da psicodinâmica psiquiátrica e o fortalecimento da psi­
copatologia comum entre psicanálise e psiquiatria, em­ O modo psicanalítico de compreender a perturbação
bora as perspectivas biológicas e os conceitos do sistema mental tornou-se ainda mais evidente. As perturbações
de Kraepelin de classificação começassem a ser incluídos mentais eram expressões visíveis de uma realidade psico­
(TOMM, 1990). Os sintomas não eram especificados com lógica a ser interpretada no curso do tratamento. Psicana­
detalhes em distúrbios específicos. Muitos eram vistos listas como Moses M. Frohlich, Jacob S. Kasanin, Edward
como reflexos de grandes conflitos subjacentes ou reações Adam Strecker compuseram o comitê redator dessa ver­
inadequadas aos problemas da vida, enraizados em três são. Nolan Lewis, um dos primeiros americanos a prati­
oposições fundamentais: neurose ou psicose; ansiedade car a psicanálise, que partilhava interesses em psicanálise,
ou depressão e alucinações ou delírios. Esses três grupos bioquímica, fisiologia e genética, fazia parte do grupo.
eram atravessados por um dualismo maior: quadros larga­ Outra figura importante no comitê foi Franz Alexander,
mente "em contato com a realidade" e quadros denotan­ um dos responsáveis pelo notável impulso da psicanálise
do "significativa perda de realidade': Podemos perceber nos Estados Unidos durante a década de 1930, fundador
tal dualismo na criação do grupo de patologias de código do Instituto de Psicanálise de Chicago e um dos precurso­
301-304 intitulado Personality disorders and certain other res da aplicação do pensamento psicanalítico a processos
non-psychotic mental disorders (APA, 1968). As três oposi­ patofisiológicos. Em meio à Guerra Fria e ao papel cres­
ções eram contrabalançadas pela assimilação de teses bio­ centemente político da psiquiatria, a aproximação entre
lógicas e sociológicas que ainda não enfatizavam um claro psiquiatria e psicanálise ganhava força, conferindo cien­
limite entre normalidade e anormalidade (TOMM, 1990). tíficidade a ambas sob a égide de um universalismo e um
No prefácio da versão ll, o comitê justifica sua escolha:
1 1 "ln selectingsuitable diagnostic terms for each rubric, the Committee has
Ao selecionar termos diagnósticos adequados a choseo terms wbich il thought would facilitate maximurn communication
cada categoria, o Comitê escolheu aqueles que fa ­ within the profession and redu.ce confusion and ambiguity to a mioimum.
cilitassem ao máximo a comunicação entre os pro­ Rationa lists may be prone to believe the old saying that "a rose by any
other name would smell as sweet"; but psychiatrists know full well that
fissionais e reduzissem a confusão e a ambiguidade irrational factors belie its validity and that Jabels ofthemselves condition our
ao mínimo. Os racionalistas talvez estivessem pro­ perceptions. Toe Committee accepted the fact that different names for the
pensos a acreditar no velho ditado: "uma rosa com sarne thing imply different attitudes and concepts. It has, however, tried to
avoid terms which carry with them implications regarding either the nature
outro nome teria o mesmo doce perfume': mas os of a disorder or its causes and has been explicit about causal assumptio ns
psiquiatras sabem muito bem que fatos irracionais when tbey are integral to a diagnostic concept:'

166 167
nominalismo dos quadros psicopatológicos. Para alguns, visão do DSM-II ganhou impulso a partir do debate sobre
isso significava um tipo novo de colonização, representa­ manter ou não a homossexualidade como categoria diag­
da pela exportação e codificação das formas de sofrimento nóstica específica (PEREIRA, 2000). Em 1970, ativistas
(WAT TERS, 2010). gays invadiram o congresso da APA e protestaram contra
a ideia do comportamento homossexual como intrinse­
Porém, entre 1952 e 1973, o DSM-II atrai a ira dos crí­
camente patológico (PEREIRA, 1996). Em 1973, a APA
ticos que nele reconhecem uma síntese do compromisso
aceita retirar a homossexualidade da condição patológica.
entre a psiquiatria mais normativa e a psicanálise mais
No DSM-III-R encontramos o seguinte comentário acerca
retrógrada. Szasz (1977) afirma que o impacto da psica­
da homossexualidade egodistônica:
nálise na psiquiatria americana produziu uma difundida
ideologia pseudomédica que ele atribuiu ao alto status Esta categoria foi eliminada por várias razões. Ela
social e econômico da profissão médica, à ambivalência sugeriu a alguns que homossexualidade era consi­
da psiquiatria com relação à psicanálise e a uma cultu­ derada uma doença. Nos Estados Unidos, quase
ra carente de padrões éticos estáveis, que procura valo­ todas as pessoas que são homossexuais primeiro
res científicos, seculares e de classe média. A associação passam por uma fase em que a homossexualidade
entre histeria e feminilidade (301.50 - Histrionic Perso­ delas é egodistônica. Além disso, o diagnóstico de
nality Dísorder) e a ligação entre homossexualidade e homossexualidade egodistônico raramente tem sido
perversão (302 - Sexual devíations and disorders/302.0 - utilizado clinicamente, e houve apenas alguns arti­
Homosexuality) são exemplos de que o manual represen­ gos na literatura científica que usam o conceito. Fi­
nalmente, os programas de tratamento que tentam
taria a realização institucional referendada pelo Estado e
ajudar homens bissexuais a se tornarem heterosse­
articulada aos seus dispositivos educacionais, jurídicos e
xuais não têm usado esse diagnóstico. No DSM-II­
de pesquisa com viés político. A individualização e a p a ­
I-R, um exemplo de afecções sexuais são casos que
tologização de contradições sociais, a segregação de mi­ no DSM-111 preencheram os critérios de homosse­
norias e o controle e neutralização de resistências encon­ xualidade egodistônica (APA, 1987, p. 426, grifo e
trariam, assim, um referendo psiquiátrico-psicanalítico. tradução nossa). 12
Roudinesco (2000) nos lembra que a sociedade moderna
buscaria banir a realidade do infortúnio, da morte e da A nova revisão do DSM manteve Spitzer como presiden­
violência, procurando integrar as diferenças e as resis­ te da força-tarefa em 1974. Três objetivos se destacam:
tências num único sistema. melhorar a uniformidade e a validade do diagnóstico,
A sequência de polêmicas e protestos de críticos e ativistas
em conferências anuais da APA e o surgimento de novos 12 "This category has been eliminated for severa! reasons. lt suggested to
some that homosexuality itself was considered a disorder. ln the United
dados de pesquisadores como Kinsey e Hooker fizeram o States almost ali people who are homosexual first go through a phase in
DSM-II finalmente questionar a homossexualidade como whicb their homosexuality is ego-dystonic. Furthermore, the diagnosis
uma categoria de "desordem'� Devido aos esforços do psi­ of Ego-dystonic Homosexuality has rarely been used clinically and there
have been only a few articles in the scientific literature that use the concept
quiatra Robert Spitzer, o diagnóstico foi substituído pela Finally, the treatment programs that attempt to help bisexual men become
classe "distúrbio de orientação sexual': atualmente dividi­ heterosexual have not used this diagnosis. ln DSM-ill-R, an example of
do entre Transtorno de Identidade de Gênero (TIG). A re- Sexual Disorder NOS are cases that in DSM-ill would have met the criteria
forEgo-dystonic Homosexuality."

168 169
padronizar as práticas de diagnóstico nos Estados Uni­ vir de apoio para a pesquisa empírico-experimental. Em
dos e outros países e facilitar o processo de regulamen - 1987, o DSM-III-R foi publicado como uma revisão do
tação farmacêutica. Os pontos de vista psicodinâmicos e DSM-III, sob a direção de Spitzer, em nome da "confiabi­
fisiológicos deram lugar a um modelo regulamentar ou lidade do diagnóstico'' (KUTCHINS; KIRK, 1997, p. 27).
legislativo (KUTCHINS; KIRK, 1997), tornando o pro­
Segundo Pereira (2000), a partir do DSM-III, os diag­
blema teórico da classe e ordenamento solúvel, por meio
nósticos seriam considerados instrumentos conven­
de um sistema articulado e autorregulado de "consensos
cionais, dispensando qualquer referência ontológica. A
operacionais".
única exigência seria a concordância no plano descritivo.
A controvérsia concentrou-se na supressão do conceito de O DSM-III admite, pela última vez, o emprego da "neu­
"neurose': uma das classes fundamentais da psicopatolo­ rose" como categoria clínica. Os contextos e variantes
gia psicanalítica e o quadro que justificaria a eficácia dessa sociais são reduzidos a "síndromes culturais específicas"
forma de psicoterapia. Para os reformadores do DSM-III, ou distribuídos por um entendimento bastante limitado
essa noção tornara-se vaga e não científica, e a nova versão do campo social na determinação, expressão e caracteri­
passou por sério perigo de não ser aprovada pelo Conse­ zação dos transtornos mentais.13 A nova versão do DSM
lho de Administração da APA. Um compromisso político podia ser apresentada aos críticos como sucedânea de
de reutilização do termo foi assumido e inserido entre pa­ uma exclusão dos termos psicanalíticos. Em contrapeso,
rênteses, em alguns casos, depois da palavra "desordem" uma série de "problemas" pode ser evacuada por meio
(disorder). O DSM-III pode ser considerado o ponto de dessa "des-associação" com a psicanálise: exigência de
virada nas relações entre psicanálise e psiquiatria. Segun­ uma teoria explicativa unificada, pretensão etiológica,
do Mayes e Horwitz, a psiquiatria passa a definir-se, pela ambiguidade descritiva, sem falar na concorrência entre
primeira vez, em oposição à psicoterapia e "os psicotera­ observações clínicas diversas.
peutas são acusados de criar demandas e serviços para
Russo e Venâncio (2006) ressaltam o contexto ideológico
aqueles que realmente não estavam doentes, mas apenas
das divergências entre a psicanálise e os idealizadores da
discontentes (discontents)" (MAYES; HORWITZ, 2005, p.
terceira versão do DSM. Os psicanalistas se posiciona­
251). Segundo esses autores, encontrava-se, assim, na psi­
ram de um lado contra os psiquiatras partidários de uma
coterapia (de extração predominantemente psicanalítica)
visão fisicalista do transtorno mental. Mas a transforma­
o fator responsável pela superpopulação de internos em
ção levada a cabo pelo DSM-III é fruto de uma aliança
instituições psiquiátricas pelo sexismo e pelo uso político
entre psiquiatras de orientação fisicalista ligados à pes­
(não científico) da psiquiatria.
quisa experimental - para quem a psicanálise era um en­
Publicado em 1980, o DSM-III representou uma profunda trave à neutralidade científica e ao rigor da observação
transformação da psiquiatria. Ao se posicionar como um empírica - e os psiquiatras progressistas - que acusavam
sistema dassificatório ateórico e operacional das grandes a psicanálise de psicologizar problemas de ordem social.
síndromes psiquiátricas, esse manual modificou a concep­
ção de pesquisa e da prática psiquiátrica, pois a psiquia­
13 Segundo Mayes e Horwitz (2005), o manual é uma referência internacional
tria teria disponível um sistema de diagnóstico preciso, do aceita na maior parte dos países do ocidente, utilizado massivamente
ponto de vista descritivo-terminológico, e passível de ser- pelos sistemas de saúde pública, convênios médicos e centros de pesquisa
psiquiátrica e farmacêutíca.

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Nos dois casos, a ortodoxia psicanalítica era o inimigo a atividade psíquica nas gêneses dos transtornos somáticos.
ser vencido. Por exemplo, na primeira edição do DSM, a terminologia
"reação de conversão" se referia ao componente reativo,
Othmer (1992), numa obra prefaciada por Spitzer, afirma ideacional ou simbólico do sintoma de conversão (con­
que a mudança nos conceitos de enfermidade psiquiátrica version reaction) (APA, 1952, p. 6). A segunda edição do
no DSM-III obriga a uma mudança nos estilos de entre­ DSM aproximou-se ainda mais da terminologia de Freud
vistar usados por profissionais da saúde mental nos dias de (psiconeurose histérica de conversão), com a finalidade de
hoje. "De um estilo orientado pelo insight (psícodinâmico) assinalar a proeminência dos sintomas psíquicos sobre os
para um orientado pelo sintoma (descritivo)" (OTHMER, somáticos.
1992, p. 3). Ainda, segundo Othmer, a entrevista orienta­
da pelo sintoma origina-se na hipótese de que os distúrbios O DSM-III retrocede na defesa da etiologia psíquica na
psiquiátricos se manifestam através de um conjunto carac­ formação dos sintomas somáticos. Essa edição do manual
terístico de sinais e sintomas, um curso previsível, uma res­ orienta os médicos para o fato de que a introdução dos
posta a um tratamento um tanto específico e, muitas vezes, psicodinamismos na etiologia dos sintomas conversivos
uma ocorrência familiar. A meta da entrevista orientada responde a uma condição subjetiva do próprio juízo do
pelo sintoma é classificar as queixas e disfunções do pacien­ profissional médico que os inclui. Ou seja, o fato de a teo­
te de acordo com as categorias definidas pela classificação ria psicanalítica versar sobre fatos de significação, sub­
DSM. Tal diagnóstico prediz o curso futuro e ajuda a se­ jetivamente variáveis, torna esta teoria ela mesma uma
lecionar empiricamente o tratamento mais eficaz, mas não manifestação de adesão subjetiva de quem a emprega.
permite conclusões sobre suas causas. Finalmente, em sua quarta versão, o DSM exclui os psico­
dinarnisrnos da etiologia conversiva e os substitui pelo en­
O método de tal entrevista consiste em observar o com­ foque neo-organicista atual, em contraposição ao organi­
portamento do paciente e motivá-lo a descrever seus pro­ cismo anterior. A histeria é desmembrada em síndromes:
blemas em detalhe. O entrevistador traduz sua percepção dissociação, dismorfismo corporal, ansiedade, depressão,
em sintomas e sinais para um diagnóstico descritivo. Tal fibrornialgia.
diagnóstico inclui avaliação do ajustamento das capacida­
des de enfrentamento do paciente, seu modo de lidar com Ramos (2008) aponta as grandes modificações tanto nas
seu distúrbio e uma avaliação das condições clínicas do representações da histeria quanto nos próprios quadros
paciente, das circunstâncias sociais e dos estressores am­ que se apresentam para os clínicos no decorrer do sécu­
bientais. lo XX. O autor ressalta duas perspectivas entre os autores
contemporâneos acerca das modificações na apresentação
O DSM-IV apresenta uma grande mudança na inclusão da histeria. Ou a histeria modificou-se e aparece hoje na
de um critério de significância clínica para quase meta­ forma de transtornos alimentares, algesias, etc., ou a his­
de de todas as categorias que possuíam sintomas e cau­ teria está desaparecendo, dando lugar para quadros mais
savam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo graves como os quadros borderlines. Na mesma linha de
no funcionamento social, ocupacional ou em outras áreas raciocínio, Henriques (2009), ao pesquisar a evolução do
importantes. Masoti (2009), ao fazer urna breve retrospec­ conceito de psicopatia de Cleckley no DSM-IV-T R, cons­
tiva da extinção do termo "neurose" na classificação DSM, tata que a classificação DSM procedeu à radical operado-
ressalta o menosprezo desse sistema classificatório com a

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nalização dos critérios diagnósticos propostos para a psi­ bal não são apenas palavras-chaves, representativas dos
copatia, enfatizando características comportamentais re­ cinco eixos desse sistema diagnóstico. Elas exprimem, em
duzidas a condutas antissociais, objetiváveis e evidenciá­ cada caso, articulações entre relações de ordem e de classe
veis. Nas palavras do autor: "o critério de psicopatia degra­ que são logicamente distintas entre si, quer se acentue a
da-se ao nível do levantamento protocolar dependendo "gênese" ou a "estrutura': a "causá' ou o "funcionamento':
dos testemunhos de terceiros para confirmar as condutas o "sintoma particular" ou a "síndrome global': Ou seja, em
antissociais do provável psicopata" (HENRIQUES, 2009, vez de progredir pela ambiguação de línguas concorren­
p. 296). Tende-se, dessa forma, a substituir a escuta clínica tes, tal como a psicopatologia clássica, recorreu-se à uni­
do sujeito pela pesquisa de anomalias comportamentais dade desambiguadora da norma operacional.14 Trata-se de
que a referência ao conformismo social transforma em si­ uma mutação da própria razão diagnóstica e não de um
nais de patologia. de seus movimentos de contradição interna. Afumar que
Há, portanto, uma tendência ao desmembramento dos a ruptura entre psiquiatria e psicanálise se dá em função
quadros clássicos, nos quais a presença da psicanálise é de critérios de científicidade mais ou menos positivistas é
mais bem percebida em grupos descritivos e operacionais jogar pelas regras de um jogo ultrapassado. Argumentar
menores. O que esta tendência revela não é o fim da no­ em torno da oposição entre técnica e ética, criticar o des­
ção de classe, mas a segmentação de categorias, sem elu­ locamento do método de ínvestigação para a tecnologia de
cidação de suas regras de formação e, portanto, perda da pesquisa (ERIKSEN; KRESS, 2004), no fundo, confirma
conexão intrínseca entre ordem e classe, que caracteriza­ humanismo datado que atravessa a psicanálise, e a confina
va o campo da psicopatologia, seja ela psicanalíticamente a defender uma posição que não é de fato posta em seus
inspirada ou não. próprios termos. O importante é entender como as regras
daquilo que estamos dispostos a contar como racional,
Nos 20 anos que separam o DSM-III do IV, rompeu-se a no dispositivo social que é o diagnóstico, foram alteradas,
tradição, em vigor desde Pinel, em que a caracterização muito recentemente, dispensando a concorrência de para­
das formas de sofrimento, alienação ou patologia mental digmas e forçando falsas oposições.
faziam-se acompanhar da fundamentação ou da crítica fi ­
losófica. Ao mesmo tempo, rompeu-se a aproximação en­ Afirmamos anteriormente (DUNKER, 2010) que existe
tre psicanálise e psiquiatria, celebrada sob os auspícios de uma desarticulação entre história e estrutura na raciona­
figuras de compromisso como a psiquiatria psicodinâmica lidade diagnóstica atual. Na psiquiatria baseada no DSM­
e a psicopatologia. A associação entre a crítica epistemoló­ -IV, permanece uma grande oposição entre transtornos
gica de extração filosófica, baseada na antropologia e seus clínicos (eixo I) e de personalidade (eixo II). O eixo I bus­
sistemas classificatórios ou na história e seus processos ca descrever os sintomas da pessoa, enquanto o eixo II al­
ordenadores, não foi derrogada, mas apenas neutralizada meja descrever sua personalidade. A psiquiatria em curso
por meio de um sistema que reúne oposições sem reco­ 14 A grande oposição não se dá entre f undamentação biológica ou
nhecê-las, e ao mesmo tempo, soma fatores heterogêneos. psicológica. Basta lembrarmos das figuras teóricas como a neuropsicanálise
ou como aetnopsiquiatria, que invertem facilmente essa oposição, ou, ainda,
O método multiaxial pode ser considerado um resíduo figuras atitudinais delinhagem biopsicossocial, para verificar que o que está
dessa articulação: desordem clínica, personalidade, con­ em questão, no fundo, é a própria inanidade das atitudes fundacionistas em
relação aos procedimentos práticos e de autonomização jurídica das regras
dição médica, fatores psicossociais e funcionamento glo- de gestão da saúde mental.

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no DSM não pretende se constituir como uma psicopato­
logia estrutural, pois as classes não são definidas por re­
gras de formação estáveis (princípio da convencionalida­
de operacional), e as ordens não se conectam com lógicas
causais (princípio da exclusão etiológica). Daí as crônicas
dificuldades classificatórias, de elevadas consequências
clinicas. Há um crescimento desmesurado do número de
categorias diagnósticas, que responde a uma demanda não
apenas de medicamento e alívio, mas de sentido. Caberia
assim à psiquiatria, ao mesmo tempo, tratar e produzir
excesso de experiências improdutivas de determinação, a
saber, a inflação nominalista da saúde mental sobre o so­
frimento de pathos. Por outro lado, caberia à psicanálise,
ao mesmo tempo, tratar e produzir uma espécie de deficit
de experiências produtivas de indeterminação, a saber, a
deflação da demanda de significação e ordem que acom­
panha o sofrimento depathos.
Avaliamos que seja na crítica da cultura ou no diálogo
com as classificações diagnósticas que a psicanálise tem
uma contribuição específica a dar, na medida em que per­
mite uma abordagem racional do subjetivo, do singular
e dos aspectos irredutíveis a grandes leis gerais sobre o
sofrimento humano. Mas, para isso, terá que atravessar
tanto a pertinência das objeções políticas quanto o rigor
, das críticas epistemológicas que se expressam na formu­
lação do DSM-III, sem recuar para a posição anterior de
·compromisso semiológico dia�� Por outro lado, a
psiquiatria, ao se afastar da psicopatologia, reconhecen­
do nela um território demasiadamente ambíguo do sofri­
mento, do mal-estar e da significação, com sua polifonia
de vozes e narrativas, aproxima-se perigosamente de uma
prática mecânica de medjcalização _de massas. Dessa for­
ma, a sua aspiração à universalidade decai em "totalidade
, operacional': bem como sua capacidade para intervir na
singularidade da clínica degrada-se em "generalidade par­
ticular':

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