Você está na página 1de 74

O AUTOR

CARLOS BOHM é psicólogo e analista


judiciário com experiência na área de
infância e juventude. Mestre e doutor em
Ciências do Comportamento. Atuou
como docente em cursos de graduação e
pós-graduação de Psicologia, cursos
preparatórios para concursos, e em
diversas ações de treinamento e
aperfeiçoamento para elaboração de
documentos. Autor de livros e artigos.

2
Introdução
Este e-book apresenta um resumo
esquematizado da Resolução n.º 06/2009
do Conselho Federal de Psicologia.

RESOLUÇÃO n.º 6, DE 29 DE MARÇO DE2019


Institui regras para a elaboração de documentos
escritos produzidos pelo psicólogo no exercício
profissional e revoga a Resolução CFP n.º
15/1996, a Resolução CFP n.º 07/2003 e a
Resolução CFPn.º 04/2019.

O objetivo foi tornar o assunto mais


prático e acessível para os profissionais e
estudantes, sobretudo para aqueles que
ainda não tiveram muito contato com as
normas de elaboração dos documentos ou
que não se debruçaram em uma leitura
minuciosa da nova resolução. Este e-book
é o começo.

4
O material apresenta todo o conteúdo
que começará a ser cobrado em novos
concursos públicos a partir de 2019 sobre
esse tema. Não trago, no entanto, dicas
de estudo nem esquemas de
memorização. No youtube facilmente se
encontram videoaulas gratuitas de bons
professores, produzidas para essa
finalidade.
A nova resolução cobre um pouco do
vácuo deixado pela Res. 07/2003 e
criado pelas próprias mudanças no
mercado de trabalho, de forma que o
Psicólogo não encontrava respaldo
regimental para produzir documentos
em todos os seus campos de atuação.
Agora o leque de documentos ampliou.
Os previstos são: declaração, atestado,
relatório, relatório multiprofissional,
laudo e parecer.

5
A maioria das informações aqui
disponibilizadas são provenientes da
própria Res. 06/2009, com adição de
alguns comentários e exemplos meus.
Além disso, apresento um modelo de
declaração (com variações), um de
atestado e um de relatório. As situações
descritas são próximas àquelas vividas
pelo profissional na sua prática.
Minha experiência profissional vem do
contexto jurídico, onde o documento
psicológico se torna um produto do
trabalho do psicólogo de grande
relevância e deve estar alinhado com a
legislação pertinente à área de
especialização (ECA, família, idoso,
execução penal, entre outras). Portanto,
sempre destaco que os estudos vão além
da legislação do CFP, e incluem a
legislação relacionada ao objeto de
estudo em si. E claro, é imprescindível
expertise na literatura psicológica sobre
o objeto.
6
Espero contribuir para os seus
estudos e para você agregar valor aos
seus serviços. Boa leitura!

Carlos Bohm – Psicólogo


www.docpsi.com

7
Algumas novidades da Resolução 06/2009:

→ Amplia o leque de documentos


psicológicos.

→ Separa os documentos provenientes de


avaliação psicológica de outros relativos às
diversas formas de atuação.

→ Considera resoluções e normas de


atuação em relação a questão da
orientação sexual; preconceito e
discriminação racial; e pessoas transexuais
e travestis. Exemplo: utilização do nome
social.

8
A Psicologia valoriza a diversidade de
pessoas, de ideias, de formas de atuação
e o trabalho em equipe.

9
Normas gerais para elaboração
de documentos psicológicos

É dever do psicólogo elaborar e


fornecer documentos psicológicos
sempre que solicitado.

É vedado ao psicólogo fazer constar no


documento afirmações de qualquer
ordem sem identificação da fonte de
informação ou sem a devida
sustentação em fatos e/ou teorias.

Evitar fazer descrição literal das


sessões, salvo com justificativa técnica.

Considerar a natureza dinâmica e não


cristalizada do seu objeto de estudo.

Deve ser relatado apenas o que for


necessário para responder a demanda.

A linguagem deve ser acessível e


compreensível.
10
Normas gerais para elaboração
de documentos psicológicos

É facultado destacar, ao final do


relatório, relatório multiprofissional,
laudo, atestado e do parecer, que estes
não poderão ser utilizados para fins
diferentes do apontado no item de
identificação.

A não-observância da Res. 06/2019


constitui falta ético-disciplinar.

❖Casos omissos ou dúvidas serão


resolvidos pela orientação dos
CRPs/CFP e pela jurisprudência.

11
Itens da Resolução 06/2019:
I - Princípios fundamentais na elaboração
de documentos psicológicos;
II - Modalidades de documentos;
III.- Conceito, finalidade e estrutura;
IV.- Guarda dos documentos e condições de
guarda;
V. - Destino e envio de documentos;
VI - Prazo de validade do conteúdo dos
documentos;
VII - Entrevista devolutiva.

12
Princípios
Fundamentais na
Elaboração de
Documentos
Psicológicos
DOCUMENTO PSICOLÓGICO:

Instrumento de comunicação escrita


resultante da prestação de serviço
psicológico à pessoa, grupo ou
instituição.

É realizado mediante:

✓ Solicitação do usuário do serviço de


Psicologia, de seus responsáveis
legais,

✓ Solicitação de um profissional
específico ou das equipes
multidisciplinares

✓ Determinação das autoridades

✓ Da prestação de serviço psicológico


à pessoa, grupo ou instituição.

14
Princípios éticos:

O usuário tem o direito de receber


informações sobre os objetivos e
resultados do serviço prestado, bem como
de ter acesso ao documento.

Não apresentar descrições literais


dos atendimentos realizados, salvo
quando tais descrições se justifiquem
tecnicamente.
Por que?
-> Para preservar ao máximo a
intimidade do usuário do serviço.

15
O sigilo profissional segue conformidade
aos artigos 9.º e 10 do Código de Ética
Profissional do Psicólogo.

Artigos 9º e 10º do Código de Ética


Art. 9º – É dever do psicólogo respeitar o
sigilo profissional a fim de proteger, por
meio da confidencialidade, a intimidade
das pessoas, grupos ou organizações, a
que tenha acesso no exercício
profissional.
Art. 10 – Nas situações em que se
configure conflito entre as exigências
decorrentes do disposto no Art. 9º e as
afirmações dos princípios fundamentais
deste Código, excetuando-se os casos
previstos em lei, o psicólogo poderá
decidir pela quebra de sigilo, baseando
sua decisão na busca do menor prejuízo.

16
Princípios técnicos:

O profissional deve se expressar de


maneira precisa. Suas ideias devem ser
bem articuladas e não deixar o leitor com
dúvidas.

A linguagem escrita deve basear-


se em:

✓ Normas cultas da língua portuguesa

✓ Técnicas da Psicologia

✓ Objetividade da comunicação

✓ Garantia dos direitos humanos

Deve-se usar a terceira pessoa,


pois torna a linguagem mais impessoal.
Nos modelos de documentos será
possível conferir o seu uso.

17
18
II - Modalidades de
Documentos

III - Conceito,
finalidade e estrutura
I - Declaração;

II - Atestado Psicológico;

III - Relatório:
A) Psicológico;
B) Multiprofissional;

IV - Laudo Psicológico;

V - Parecer Psicológico.

Para fins didáticos, as informações a


seguir foram divididas nas seções de
conceito e finalidade, estrutura,
comentários e exemplos.
Há também um modelo fictício de
declaração, um de atestado e um de
relatório.
Quando você tiver que decidir qual
modalidade de documento usar, lembre-
se de que em primeiro lugar deve se
perguntar qual é afinalidade do
documento. Isto é, para que você precisa
escrevê-lo?
20
DECLARAÇÃO

Conceito e finalidade
✓ Registrar informações sobre a
prestação de serviço.

Estrutura
✓ Nome da pessoa atendida
✓ Finalidade
✓ Informações sobre local, dias, horários
e duração do acompanhamento
psicológico.

Comentários
✓ Vedado o registro de sintomas.
✓ Curiosidade: a famigerada
nomenclatura “atestado de
comparecimento” não é usada na
Psicologia. O comparecimento é
comprovado por meio da Declaração.

Exemplos
✓ Declaração para fim de comprovação
de comparecimento a sessão de
psicoterapia, a atendimento psicológico
em um órgão público, entre outros.
EXEMPLO DE DECLARAÇÃO
Declaro para fim de comprovação que
Érico Veríssimo compareceu para sessão
de psicoterapia nesta data, das 18h00 às
18h50.
Porto Alegre-RS, 22 de novembro de 2019.

Mario Quintana
CRP 99/9999

Variações:

Declaro para fim de comprovação que


Sarah Kubitscheck compareceu para
acompanhar Juscelino Kubitschek em
sessão de psicoterapia nesta data, das
18h00 às 18h50.

Declaro para fim de comprovação que


Jorge Amado compareceu a 10 sessões
de psicoterapia entre os dias 01/01/2010 e
30/06/2019.
22
ATESTADO

Conceito e finalidade
✓ Atestar diagnósticos ou condições
psicológicas.
✓ Informar CID e DSM só com
autorização do paciente.

✓ Justificar faltas e impedimentos

✓ Justificar aptidão ou inaptidão

✓ Solicitar afastamento ou dispensa

Estrutura
✓ Restringir-se à informação solicitada,
contendo expressamente o fato
constatado.
✓ Texto corrido, sem parágrafos. Riscar
espaços em branco.

✓ Título: "Atestado Psicológico";


✓ Nome da pessoa ou instituição atendida;
✓ Nome do solicitante;
✓ Finalidade;
✓ Descrição das condições psicológicas do
beneficiário do serviço.
ATESTADO

Comentários

✓ Resulta de uma avaliação psicológica.

✓ É um documento relativamente
resumido, pois devem ser
comunicadas somente as informações
necessárias.

✓ No final, destacar que o atestado não


poderá ser utilizado para fins diferentes
do apontado no item de identificação,
que possui caráter sigiloso e que se
trata de documento extrajudicial.

✓ Manter em seus arquivos uma cópia


dos atestados psicológicos emitidos,
junto a todo o material resultante do
processo avaliativo, protocolado com
data, local e assinatura de quem
recebeu.
ATESTADO

Exemplos:

✓ Em um atestado para a Justiça do


Trabalho, por exemplo, a descrição do
número do CID é imprescindível. A
pessoa atendida deverá autorizar por
escrito a divulgação do CID.

✓ O atestado será o documento usado na


avaliação psicológica compulsória.
Contudo, quando solicitado, o
psicólogo, além do atestado
psicológico pode emitir também um
laudo psicológico, pois o laudo é um
documento mais completo que melhor
subsidia decisões.

✓ Afastamento laboral -> O atestado


deverá ser utilizado. Importante
lembrar que as leis trabalhistas não
dispensam o atestado médico. Ou seja,
o atestado psicológico na maioria das
vezes será um documento
complementar para o usuário juntar ao
atesado médico.
ATESTADO

Exemplos (continuação)

✓ É diferente da declaração, que


comprova apenas o comparecimento
aos atendimentos e costuma ser mais
aceito pelos empregadores para
justificar a ausência em um
determinado horário.

✓ Um convênio de saúde poderá solicitar


um atestado para autorizar sessões de
psicoterapia, ou um documento mais
completo, o laudo, com informações
mais detalhadas sobre a avaliação
psicológica, conforme se verá adiante.
Muitas vezes, na verdade, os planos
de saúde solicitam que o psicólogo
preencha um formulário com o CID, o
qual tem uma função próxima a do
atestado, embora com uma aparência
diferente.
EXEMPLO DE ATESTADO

Nome do paciente: José Joaquim


Campos de Leão
Solicitante: Plano de saúde Qorpo Santo
Finalidade: Solicitar autorização para
sessões de psicoterapia

Informo que realizei três consultas


para avaliação psicodiagnóstica e
planejamento de intervenção
psicoterapêutica. Atesto que o paciente
apresenta diagnóstico F60.0 (CID-10).
Solicito autorização para realização de
uma sessão semanal de psicoterapia
individual e uma sessão de psicoterapia
familiar pelo período de seis meses. Ao
final deste prazo será feita nova
avaliação. Esta clínica guarda em seus
arquivos laudo detalhado com a avaliação
psicológica corresponde ao caso.

(continua...)
27
EXEMPLO DE ATESTADO

(...continuação)

Este atestado não poderá ser utilizado


para fins diferentes do apontado no item
de identificação, possui caráter sigiloso e
se trata de documento extrajudicial. O
paciente assina informando o
recebimento deste atestado e
autorizando a comunicação do seu
diagnóstico.
Porto Alegre, 07 de novembro de 2019.

Érico Veríssimo
CRP 99/9999

José Joaquim Campos de Leão


Recebi este documento e estou ciente
da comunicação do diagnóstico.

28
RELATÓRIO

Conceito e finalidade
✓ Comunica a atuação do psicólogo.

✓ Narrativa detalhada e didática.

✓ Relata e analisa os condicionantes


históricos e sociais da pessoa, grupo ou
instituição.
✓ Gera orientações, recomendações,
encaminhamentos e intervenções, não
tendo como finalidade produzir
diagnóstico.

Estrutura
✓ Forma de itens ou texto corrido.

✓ Identificação
✓ Título: "Relatório Psicológico";

✓ Nome da pessoa ou instituição


atendida;
✓ Nome do solicitante;

✓ Finalidade;

✓ Nome do autor;
RELATÓRIO

Descrição da demanda
✓ O que motivou a busca pelo processo de

trabalho prestado, indicando quem


forneceu as informações e as demandas.

✓ Apresentar o raciocínio técnico-científico


que justifica a escolha dos procedimentos
utilizados.

Procedimentos
✓ Processos de trabalho utilizados na
prestação do serviço psicológico

✓ Recursos técnico-científicos utilizados

✓ Referencial teórico metodológico.

✓ Citar as pessoas ouvidas, as informações


objetivas, o número de encontros e o
tempo de duração.

✓ Mencionar se houve entrevista devolutiva.


RELATÓRIO

Análise
✓ Devem constar, de forma descritiva,
narrativa e analítica, as principais
características e evolução do trabalho
realizado, baseando-se em um
pensamento sistêmico.

Conclusão
✓ Apresentar encaminhamento,

orientação e sugestão de continuidade.

✓ Retomar a finalidade da emissão do


documento.
✓ Obs: A Resolução 06/2019 sugere
tratar na conclusão sobre a entrevista
devolutiva.
RELATÓRIO

Comentários

✓ Pode se referir tanto a um atendimento


pontual como a um processo de
acompanhamento mais longo.

✓ O Relatório Psicológico é diferente de


outros documentos informativos de
caráter administrativo ou protocolares,
comuns no serviço público.

✓ Questão importante!
✓ Como proceder quando o Judiciário

solicitar informações sobre o


processo psicoterápico?

✓ A Resolução CFP n.º 08/2010 diz que


é vedado: “I - Produzir documentos
advindos do processo psicoterápico
com a finalidade de fornecer
informações à instância judicial acerca
das pessoas atendidas, sem o
consentimento formal destas últimas à
exceção de Declarações”.
RELATÓRIO

Comentários (continuação)

✓ O psicólogo tem autonomia para


decidir quais procedimentos,
observações e análises serão
comunicados, a depender dos
contextos de solicitação.

✓Para o seu resguardo, o profissional


deve coletar a assinatura do paciente
com autorização para a comunicação
das informações.

Exemplos

✓ Visitas domiciliares, para fins de


encaminhamento, sobre um único
atendimento.

✓ Situações de orientação ou de
acolhimento.

✓ Subsidiar atividades de outros


profissionais.
RELATÓRIO

Exemplos (continuação)

✓ Relatos de estudo de caso.

✓ Relatórios para solicitação de ampliação


de número de sessões para planos de
saúde. Neste caso a finalidade é
diferente do atestado ou laudo, pois o
relatório não focará na avaliação
diagnóstica, mas no relato da evolução
do tratamento.
EXEMPLO DE RELATÓRIO

1. Identificação

Nome da criança: Beatriz da Silva


Solicitante: Juiz Titular da Vara de
Família
Finalidade: Apresentar avaliação sobre
regime de guarda compartilhada
Autor: João de Barros - Psicólogo

2. Descrição da demanda

Beatriz, nascida em 01/09/2012


(sete anos de idade), filha de Pedro da
Silva e Maria da Silva, divorciados,
encontra-se sob guarda compartilhada
dos seus genitores há 12 meses, desde
quando foi homologado acordo. Em
petição recente o genitor alega
descumprimento dos termos do acordo
por parte da mãe e pleiteia a guarda
unilateral. Diante deste quadro, o Juízo
determinou às fls. 79/80 dos autos
123456-7/18 que este serviço
psicossocial apresente uma avaliação
35
sobre o cumprimento do regime de
guarda, e também que indique a
configuração mais vantajosa para a
criança.
O entendimento técnico-científico
foi o de analisar a documentação
presente nos autos e coletar dados
diretamente com os pais e com a criança
em diferentes contextos, com os
objetivos de responder ao Juízo e de
proporcionar às partes uma mediação
para tentarem chegar a um consenso
sobre a configuração da guarda.

3. Procedimentos
Os dados foram coletados com as
seguintes técnicas e nesta ordem:
✓ Leitura dos documentos presentes
nos autos;
✓ Entrevista de 60 minutos com o
genitor em 21/10/2019;
✓ Entrevista de 60 minutos com a
genitora em 22/10/2019;
✓ Visita de 40 minutos ao domicílio do

genitor com a presença da criança,


em 23/10/2019;
36
✓ Visita de 40 minutos ao domicílio da
genitora com a presença da criança,
em 24/10/2019;
✓ Entrevista lúdica de 30 minutos com
a criança em 31/10/2019 nas
dependências da Vara de Família,
com o uso do relato verbal, e com
tentativa de utilização de brinquedos
e materiais para escrever e
desenhar;
✓ Entrevista conjunta de 60 minutos
com os genitores para tentativa de
mediação e para apresentação da
devolutiva do estudo de caso, no dia
05/10/2019.

4. Análise

O processo traz como documento


mais relevante o próprio termo de acordo
de guarda homologado em audiência. Às
fls. 32/33 pode-se ver os detalhes do
mesmo, e destaca-se que a
programação prevista foi de distribuição

37
igualitária da convivência da criança
entre cada genitor. Beatriz fica aos
cuidados do pai a partir de domingo
pela manhã até quarta-feira de manhã,
antes de ir para a escola, e com a mãe
a partir de quarta-feira à tarde, depois
do horário da escola, até domingo pela
manhã, quando vai à casa do pai.
Na entrevista com Pedro, este
relatou que ele e Beatriz mantêm
vínculo afetivo mútuo, o qual não foi
abalado pelo divórcio. Descreveu
diversas situações em que a Maria
descumpriu regras do acordo de
guarda, tais como: entregar a filha na
escola com atraso, demorar
excessivamente para buscar a criança
na casa do pai, deixar o pai no hall do
prédio da mãe por longo período de
tempo até a criança estar pronta para
a visita, entre outras. Alega que, por
conta da desorganização da mãe, a
criança teve alterações nas suas
rotinas, ocasionando emoções e
comportamentos indesejados, tais

38
como dificuldades para estudar e se
alimentar, choro excessivo e recusas
para ir à casa da mãe.
O pai acredita que a melhor
solução é que ele detenha a guarda
unilateral e as visitas à mãe ocorram
somente quando ele autorizar.
Maria foi ouvida e também
afirmou que mantém vínculo afetivo
com sua filha. Relatou que tanto ela
quanto o pai cumprem os termos do
acordo e que desconhece quaisquer
problemas comportamentais da
criança. Afirmou que eventualmente
incorre em alguns atrasos, mas não
são excessivos a ponto de criar
transtornos para ninguém. Ao mesmo
tempo em que descreveu o ex-esposo
como exagerado no seguimento de
regras, autodescreve-se como
displicente no cumprimento de alguns
acordos por causa da sua falta de
tempo e do ritmo intenso de trabalho
como corretora de imóveis.

39
Na visita à residência Pedro,
verificou-se que a casa se encontrava
em condições adequadas de higiene e
organização, e com a disponibilidade
de rica estimulação de brinquedos e
jogos. Beatriz mostrou o seu quarto,
seus materiais escolares e sorriu ao se
referir àquele lar como sua referência,
afirmando que é a sua casa.
Pedro, Maria e Beatriz moravam
juntos na casa até a época do divórcio.
Com o rompimento da relação, Maria
alugou um apartamento para morar,
pois a casa já era de propriedade de
Pedro antes do casamento. Joana, a
empregada doméstica que trabalha
com a família desde quando Beatriz
nasceu, continua contratada por Pedro
em tempo integral.
Ao se visitar o apartamento de
Maria, observaram-se roupas,
calçados, louças, toalhas e roupas de
cama espalhados pelos cômodos. O
quarto da criança tinha brinquedos e
roupas suficientes, mas em sua
40
maioria jogados pelo chão e sobre a
cama, dificultando até mesmo o
trânsito pelo quarto. A criança
mencionou que gosta de ficar com
sua mãe, mas não acha a sua casa
agradável. Maria costuma contratar
diarista uma vez por semana para
limpar o imóvel, porém afirma que não
gosta de nenhuma, e a rotatividade é
alta.
Posteriormente, agendou-se
com a genitora um horário para que
levasse a filha à Vara de Família para
uma entrevista lúdica, na qual
somente a criança foi ouvida.
Chegaram com vinte minutos de
atraso, com a justificativa de que a
Maria demorou para alimentar e vestir
a filha, pois às vezes ela fica agitada.
Na entrevista com a criança, esta se
mostrou pouco comunicativa e
desinteressada em aderir às
atividades de utilizar os brinquedos e
desenhar. A coleta de dados ocorreu
sobretudo por meio do relato verbal.

41
Ela disse que sente falta de conviver
com os pais na configuração familiar
anterior de quando eram casados e
ela tinha mais acesso à família
extensa (tios, avós e primos), pois
todos se visitavam. Queixou-se do
estilo de vida da sua mãe, com
rotinas imprevisíveis, além da
situação em que a residência se
encontra.
Em uma entrevista final, os
principais dados coletados foram
apresentados aos pais e solicitou-se
que manifestassem suas opiniões.
Pedro manteve o objetivo pela guarda
unilateral e Maria pela continuidade
da guarda compartilhada. O
entrevistador indicou sua análise
técnica de que para a criança é
importante ter uma vida com rotinas
mais previsíveis, sem tantos atrasos,
com manutenção igualitária dos
vínculos afetivos com ambos os
genitores, e com o resgate da
convivência com os tios, primos e
avós, o que diminuiu após o divórcio.
42
A genitora então propôs
contratar uma funcionária doméstica
em tempo integral, a ser recrutada
por meio de uma empresa
especializada. Acredita que dessa
forma o apartamento ficará mais
limpo e organizado, Beatriz receberá
as refeições sempre nos mesmos
horários e mãe e filha terão mais
tempo para lazer. Pedro, em
contrapartida, dispôs-se a desistir de
litigar pela guarda unilateral. Ambas
as partes se comprometeram a
envidar esforços para aumentar a
interação da criança com os
membros da família extensa. Sendo
assim, na entrevista final os pais
chegaram a um entendimento em
comum e foram orientados a
procurarem seus advogados para
comunicar esses interesses nos
autos.
Ficou evidenciado que Beatriz,
a despeito de conviver com o pai e a
mãe de forma igualitária no sentido
de distribuição de tempo, não obtinha
43
a mesma quantidade e qualidade de
estímulos reforçadores, tais como
momentos de lazer, interações
afetivas, repouso, organização e
limpeza da casa. A proposta da mãe
em contratar uma empregada
doméstica aumentará as
probabilidades de gerar uma
equiparação na distribuição desses
reforços, o que é saudável para a
criança, a qual poderá vir a
apresentar menos queixas.

5. Conclusão

Os dados coletados neste


estudo indicaram que o acordo de
guarda compartilhada vinha sendo
cumprido integralmente pelo genitor e
parcialmente pela genitora. Esta
entregava e buscava a filha com
atrasos recorrentes em locais
previamente combinados. O local de
moradia da mãe não se encontrava
adequado para o desenvolvimento
educacional e afetivo da criança.
44
Entrevistadas em conjunto, as
partes firmaram um acordo nos
seguintes termos:
1 - A genitora contratará uma
funcionária doméstica em período
integral no intuito de proporcionar à
criança uma vida mais regular e
previsível;
2 - Em contrapartida, o genitor
desiste do pleito da guarda unilateral;
3 – Ambos se comprometem a
proporcionar a Beatriz maior
convivência com a família extensa.
Tanto este subscritor quanto as
partes concordam, portanto, que a
manutenção da guarda compartilhada
é a mais vantajosa para a filha.
Este documento não poderá
ser utilizado para fins diferentes do
apontado no item de identificação e
tem validade apenas juntado ao
processo judicial.
Porto Alegre, 11 de novembro de 2019.

João de Barros
CRP 99/9999 45
46
RELATÓRIO MULTIPROFISSIONAL

Conceito e finalidade
✓ Documento resultante da atuação do

psicólogo em contexto
multiprofissional, podendo ser
produzido em conjunto.

Estrutura

Identificação
✓ Título: "Relatório Multiprofissional";

✓ Nome da pessoa ou instituição


atendida;

✓ Nome do solicitante;

✓ Finalidade;

✓ Nome dos autores

Descrição da demanda
✓ Conforme explicado no quadro sobre

relatório psicológico.
RELATÓRIO MULTIPROFISSIONAL

Procedimentos
✓ Conforme explicado no quadro sobre

relatório psicológico, com o adicional


de que a descrição dos
procedimentos e/ou técnicas
privativas da Psicologia deve vir
separada das descritas pelos demais
profissionais.

Análise
✓ Cada profissional faz sua análise
separadamente, identificando, com
subtítulo, o nome e a categoria
profissional.

Conclusão
✓ Pode ser realizada em conjunto.

✓ A responsabilidade é compartilhada e
as referenciais são interdisciplinares.

✓ Deve ser resguardada a autonomia


das demais categorias.
RELATÓRIO MULTIPROFISSIONAL

Comentários
✓ Nas áreas da saúde, da assistência

social e do judiciário, tem se


consolidado a nomenclatura
“Relatório Psicossocial”

✓ Esta Resolução (06/2019) acolhe a


diversidade de nomenclatura desse
tipo de documento.

Exemplos
✓ Visitas domiciliares

✓ Atendimentos para orientação ou


acolhimento

✓ Estudos de caso

✓ Mediação de conflitos

✓ Participação em grupos

✓ Procedimentos de saúde realizados


em equipe.
LAUDO

Conceito e finalidade
✓ Resultado de um processo de
avaliação psicológica, com finalidade
de subsidiar decisões.
✓ Peça de natureza e valor técnico-
científico.

Estrutura

Identificação
✓ Título: "Laudo Psicológico";

✓ Nome da pessoa ou instituição


atendida;
✓ Nome do solicitante;

✓ Finalidade;

✓ Nome do autor.

Descrição da demanda,
Procedimentos e Análise
✓ Mesma lógica dos demais
documentos
LAUDO

Conclusão
✓ Apresentar os encaminhamentos e
intervenções, diagnóstico, prognóstico
e hipótese diagnóstica, evolução do
caso, orientação ou sugestão de
projeto terapêutico.

Referências
✓ Preferencialmente em notas de
rodapé.

Comentários
✓ São permitidos subtítulos. Exemplos:

"Laudo Psicológico – Avaliação


neuropsicológica”.

✓ Podem ser usados documentos


classificatórios como CID e DSM.

Exemplos
✓ Avaliação psicológica para porte de

arma.
LAUDO

Exemplos (continuação)

✓ Avaliação psicológica em banca de


concurso público (psicotécnico).

✓ Avaliação pré-cirúrgica (bariátrica,


reversão sexual, transplante).

✓ Laudo para um convênio de saúde


que precisa de informações mais
detalhadas sobre a avaliação
psicológica para autorizar um
determinado conjunto de
procedimentos.
PARECER

Conceito e finalidade

✓ Responde a uma questão-problema


do campo psicológico ou a
documento psicológico de outro
profissional que foi questionado.

✓ Visa dirimir dúvidas

✓ Resposta a uma consulta

Estrutura

✓ Identificação

✓ Descrição da demanda

✓ Análise
✓ Análise minuciosa da questão com

base nos fundamentos éticos,


técnicos e/ou conceituais da
Psicologia, bem como nas
normativas vigentes que regulam e
orientam o exercício profissional.
PARECER

✓ Conclusão
✓ O psicólogo apresenta seu
posicionamento. Pode ser indicativo
ou conclusivo.

✓ Referências

Comentários

✓ Este documento não tem item de


procedimentos.

✓ Não é resultante do processo de


avaliação psicológica ou de
intervenção.

✓ O parecer pode ser unicamente


teórico.

✓ Demanda uma expertise.


PARECER

Exemplos

✓ Parecer para avaliar se “o teste de


Rorschach é confiável e válido para o
seu uso no contexto jurídico”.

✓ Situações de perícias psicológicas


em processos judiciais. Uma das
partes contrata um psicólogo
assistente técnico para emitir parecer
acerca do Laudo Psicológico
elaborado pelo perito nomeado pelo
Juiz.
IV- Guarda dos
Documentos e
Condições de
Guarda
Os documentos devem ser
guardados pelo prazo mínimo de cinco
anos (Res. 01/2009).
-> Poderá ser ampliado nos
casos previstos em lei ou por
determinação judicial.

Responsabilidade pela guarda do


material -> do psicólogo em conjunto
com a instituição em que ocorreu a
prestação dos serviços.

Interrupção do trabalho -> artigo


15º do Código de Ética

58
Artigo 15º do Código de Ética
Art. 15 – Em caso de interrupção do
trabalho do psicólogo, por quaisquer
motivos, ele deverá zelar pelo destino
dos seus arquivos confidenciais.
§ 1° – Em caso de demissão ou
exoneração, o psicólogo deverá
repassar todo o material ao psicólogo
que vier a substituí-lo, ou lacrá-lo
para posterior utilização pelo
psicólogo substituto.
§ 2° – Em caso de extinção do serviço
de Psicologia, o psicólogo
responsável informará ao Conselho
Regional de Psicologia, que
providenciará a destinação dos
arquivos confidenciais.

59
V- Destino e Envio
de Documentos
O psicólogo deve manter protocolo de
entrega de documentos. Imprimir duas
cópias, uma para si e outra para o cliente.

Evasão do paciente: fazer o registro


no prontuário sobre o contato para a
tentativa de devolutiva.

Resultados pra CNH ou Polícia


Federal (entre outros): liberar para o
órgão aquilo que o beneficiário
necessita para o trâmite de suas ações,
ficando o psicólogo com a cópia do
documento completo que foi
repassado ao cliente, assinado por este,
comprovando a entrega.

Serviços psicológicos realizados por


meios de tecnologias da informação e
da comunicação: Resolução CFP n.º
11/2018.

61
É obrigatória a assinatura
(certificação) digital do profissional e o
protocolo de entrega pode ser a
resposta do usuário ao endereço de
correio eletrônico.

Prontuários eletrônicos: registros ou


testes psicológicos e folhas de
protocolos devem ser digitalizados e
anexados ao registro digital.

62
VI- Prazo de
Validade do
Conteúdo dos
Documentos
O prazo de validade do conteúdo do
documento deverá ser indicado no
último parágrafo do documento.

Deve-se levar em consideração os


objetivos da prestação do serviço, os
procedimentos utilizados, os aspectos
subjetivos e dinâmicos analisados e as
conclusões obtidas.

Exemplos:
⚫ Concurso público: a avaliação
realizada terá validade somente para
aquele fim.

⚫ Psicoterapia de um adolescente: a
validade pode estar relacionada aos
aspectos qualitativos da fase do
desenvolvimento do sujeito

⚫ Um prognóstico favorável: o prazo


de validade do documento deverá
considerar a efetivação do
encaminhamento sugerido. Se não
houver adesão, a validade do
encaminhamento sugerido será
pequena, pois o paciente precisará
ser avaliado novamente. 64
⚫ Laudo de avaliação para porte de
arma ou CNH: validade pelo período
previsto na legislação que prevê sua
renovação.

Não há um modelo de prazo de


validade para todos os casos.

O mais importante é que o documento


expresse a dinamicidade dos fenômenos
psicológicos assim como os
condicionantes históricos e sociais.

65
VII - Entrevista
Devolutiva
Para entrega do relatório e laudo
psicológico, o psicólogo deve realizar ao
menos uma entrevista devolutiva.

Na impossibilidade desta se realizar,


deve explicitar suas razões.

67
Considerações
finais
“A habilidade de redigir
documentos é cada vez mais
demandada do psicólogo, portanto
aquele que estiver apto terá um
diferencial no mercado de
trabalho”.

A Res. CFP 06/2009 foi dividida em


sete partes, apresentadas nesse e-
book para seguir fielmente a sequência
da normativa. Todos os itens são
suficientes para o leitor compreender a
redação dos documentos.
Nos últimos anos se observa que
os Conselhos Regionais de Psicologia
têm dado cada vez mais importância
para esse tema, promovendo ações de
orientação e divulgação de eventos
sobre elaboração de documentos.

69
Você sabia?
Problemas relacionados com a
elaboração de documentos fazem
parte da categoria de assuntos de
maior incidência na abertura de
representações e processos éticos.

Os cursos de graduação aos poucos


vem atentando para a importância de
treinar os estudantes para exercer as
habilidades de escrita específicas desses
tipos de documentos. Até pouco atrás as
iniciativas eram escassas e no momento
alguns cursos inserem esse tema na
disciplina de ética profissional. Mas isso
ainda é a exceção e não a regra. O aluno
de graduação em Psicologia precisa de
um treinamento com fundamentação
teórica, com apresentação de modelos
práticos, estudos de caso e com
realização de exercícios.

70
A habilidade de redigir documentos é
cada vez mais demandada do psicólogo,
portanto aquele que estiver apto terá um
diferencial no mercado de trabalho.
Sendo assim, os estudantes e
profissionais precisam se qualificar cada
vez mais, seja por meio de cursos, seja
de maneira autodidata.
Imagine, por exemplo, um cliente que
procura um psicoterapeuta para fazer um
ano de terapia por recomendação da
Justiça. O profissional é um excelente
clínico, mas se não souber escrever o
documento rigorosamente nos
parâmetros regulamentares do CFP e na
especificação da demanda do cliente,
provavelmente não será contratado e
perderá uma oportunidade de um ano de
trabalho!
Esse foi um exemplo de um cliente no
consultório. Imagine se for o caso da
assinatura de um grande contrato de
consultoria com uma empresa ou um
órgão governamental para realização de
vários treinamentos? De que adianta
fornecer o serviço e não saber como
escrever o relatório do qual o órgão ou a
empresa não abrem mão? Se o
profissional não tiver essa habilidade,
provavelmente não conseguirá escrever
nem o projeto antes da contratação.

“Quem tem conhecimento pode


atuar de maneira decisiva na vida
das pessoas”.

Outros tantos exemplos poderiam ser


mencionados, como peças técnicas e
redações para concursos públicos que
selecionam os melhores profissionais, e
até mesmo o caso dos psicólogos que
atuam no Poder Legislativo redigindo
documentos que subsidiarão os
parlamentares na elaboração de leis.
Quem tem conhecimento pode atuar de
maneira decisiva na vida das pessoas. E
você, psicólogo, ou futuro psicólogo, pode
fazer isso para prestar um bom
atendimento, para o bem comum, para
melhorar a sociedade, para aliviar o
sofrimento, enfim, para qualquer causa
com a qual você mais se identifica.
Faço votos de que continue sempre
se aperfeiçoando e valorizando nossa
profissão!

Um abraço,
Carlos Bohm – Psicólogo
www.docpsi.com