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Falso Juramento

His Brother’s Keeper


Gay Cameron
4° Livro da Série Woman of Mystery

QUEM ERA ESSA MULHER SENSUAL E MISTERIOSA?

Trevor Steele jurou não tocar, não beijar, nem amar Brenda Michaels, viúva de seu
irmão. Fascinante e enigmática, ela freqüentava seus mais íntimos pensamentos,
torturando-o em suas noites insones. Brenda era o mistério, a sensualidade, a paixão,
mas era também o perigo! Trevor precisava descobrir todos os segredos de Brenda, seu
passado, seu presente... para almejar um futuro com ela!

Digitalização: Simone Ribeiro


Revisão: Andréa
Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
Copyright © by Gay Cameron Snell
Publicado originalmente em 1994 pela
Harlequin Books, Toronto, Canadá.

Todos os direitos reservados, inclusive o direito de


reprodução total ou parcial, sob qualquer forma.

Esta edição é publicada por acordo com


a Harlequin Enterprises B.V.

Todos os personagens desta obra são fictícios.


Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas
terá sido mera coincidência.

Titulo original: HIS BROTHER'S KEEPER

Tradução: Maria Albertina CG. Jeronymo

EDITORA NOVA CULTURAL


uma divisão do Círculo do Livro Ltda.
Alameda Ministro Rocha Azevedo, 346 - 2S andar
CEP 01410-901 - São Paulo - SP – Brasil

Copyright para a língua portuguesa: 1996


CÍRCULO DO LIVRO LTDA.

Fotocomposição: Círculo do livro


Impressão e acabamento: Gráfica Círculo

Capítulo 1

Trevor Steele seguia o carro a distância, os nervos despertos, mas controlados, a


antecipação crescendo. O Volkswagen verde virou à esquerda, entrando pelo caminho
estreito de cascalho, e ele o acompanhou de longe. Desligou os faróis de seu carro e
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entrou devagar pelo mesmo desvio. Freou, enquanto observava as luzes do outro veículo
desaparecendo após os arvoredos numa curva do caminho sinuoso. Tamborilou com os
dedos no volante. Por duas vezes já entrara por ali sem ser notado. Agora sua espera
terminaria.
Enfim, desligou o motor e inalou o ar noturno de abril. O cheiro de terra e vegetação
molhadas pela chuva recente e do rio próximo aguçava-lhe os sentidos. Sim, era uma boa
noite para obter algumas respostas.
Pegando o telefone do carro, ligou para o chefe.
— Puxa, ela dirige como uma doida — disse-lhe.
— Você está perto, então — deduziu Barney.
— A mulher conhece esta área cheia de bosques como a palma da mão. — Trevor
não acrescentou que a estivera seguindo pelas ultimas duas semanas.
— Esse é um esquema maluco, Steele. Se você não fosse meu melhor agente, eu
pensaria que enlouqueceu. — O chefe soltou um profundo suspiro. — Bem, vamos ao
que interessa e esqueça que eu disse isso. Ouça, qualquer um pode vender esses títulos
ao portador em qualquer lugar do mundo. Não sei por que ela os está escondendo; já
poderia tê-los convertido em dinheiro se quisesse. Sabe, se não tivéssemos provas de
que Tapp esteve na área de Washington D.C., Nova York ainda estaria com o caso e nós
estaríamos livres. Mas não, o assunto agora é nosso. Eu poderia arranjar um mandado de
busca amanhã. Jamison e Crowley podem revistar a casa inteira em um dia.
Trevor imaginava o velho Barney recostado em sua poltrona de couro, os pés na
mesa, a mão afagando a barba rente e grisalha.
— Não. E se os títulos roubados não estiveram na casa? — perguntou-lhe. — E se
ela souber mesmo de alguma coisa? A mulher desapareceria tão depressa que jamais
poríamos as mãos neles.
— É um tiro no escuro, Steele, e você sabe disso. Sem mencionar que não estará
seguindo o procedimento padrão.
— Confie em mim. Vou encontrá-los. Sem criar confusão. — Nem queria cogitar a
hipótese daqueles dois idiotas arrogantes farejando os títulos desaparecidos antes que
ele próprio pudesse chegar até a tal mulher, pensou Trevor, exasperado.
— Como quiser. Mas apenas se lembre do nosso trato. Você entra naquela casa de
algum jeito e revista cada canto. Discretamente.
— Esse é o plano.
— Ótimo. Bem, odeio soar como alguma tia-avó coruja qualquer, mas... você está
bem?
— Estou. Pare de se preocupar.
A vida de Trevor mudara seis semanas atrás, e também a de alguém mais. Abordara
uma situação depressa demais e, por causa de sua precipitação, um agente fora morto
num tiroteio com bandidos. Barney lhe assegurara que a culpa não fora sua, dissera-lhe
que ele próprio já fizera a mesma escolha em situações semelhantes, mas suas palavras
tinham sido inúteis. Trevor fora aquele que tomara a decisão errada... Fora ele quem
entrara de cabeça numa situação sem considerar todas as possibilidades. E um outro
alguém pagara o preço.
Sim, estava bem... Mais ou menos, na verdade, mas Barney acreditava que o
incidente o fizera tomar a decisão de demitir-se. Enganava-se. Aquela fora apenas mais
uma das muitas "últimas gotas". Havia outras razões, mais pessoais, para sua decisão.
— Que tal se eu rasgar seu pedido de desligamento?
— Não, Barney, já resolvi.
— Não pode me culpar por tentar. Não sei o que diabos fez você mudar de idéia,
mas fico contente que tenha resolvido continuar conosco mais um pouco, para trabalhar
pelo menos neste caso. É um dos quentes. E mais uma coisa. Eu mencionei os agentes
Carl Jamison e Fred Crowley... Bem, os dois foram um tanto exagerados quanto a ficarem
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no encalço de Brenda Michaels. Considerando o cerco fechado que eles a polícia
mantiveram, você não terá a menor chance de se aproximar dela quando descobrir que é
um agente federal.
— Não vai descobrir — disse Trevor e desligou o telefone.
Não tinha intenção de contar à tal Brenda que trabalhava para o governo. E
tampouco pretendia contar a Barney por que mudara de idéia. O chefe o tiraria do caso
num piscar de olhos se soubesse.
Consultou o relógio de pulso. Eram nove e cinqüenta. Daria mais alguns minutos a
ela para entrar na casa e se acomodar, depois começaria a agir. Brenda não poderia se
recusar a recebê-lo; não quando lhe contasse quem ele era.
Ligou a luz interna do carro e pegou do porta-luvas a ficha que copiara dos seus
arquivos do caso; continha os dados de Brenda Lynn Michaels. "Idade: vinte e oito. Altura:
um metro e setenta. Estudante de administração. Trabalho de seis horas numa firma de
entregas expressas. Histórico: ficou órfã aos doze anos; criada por tia que morreu quando
ela estava com vinte e quatro. Casada com Richard Tapp aos vinte e quatro; separada
aos vinte e seis. Pouco cooperativa. Possível suspeita." Bem, ele fizera sua lição de casa.
Duas semanas atrás sequer soubera da existência de uma Brenda Lynn Michaels.
Mentalmente, acrescentou por sua conta: bonita, interessante e sexy à beça. Esses
eram detalhes que os computadores não reuniriam.
Apanhou um lápis e sublinhou o dado: "casada com Richard Tapp aos vinte e quatro
anos". Aquela mulher saberia as respostas para suas perguntas. Estava apostando nisso.
Tornou a verificar o relógio. Depois deu a partida no carro e continuou seguindo pelo
caminho de cascalho.
Árvores altas ladeavam todo o caminho, seus galhos se entrelaçando acima,
formando um coberto natural que bloqueava a visão do céu. A pouca luminosidade era
provida pelo pálido luar que se projetava na estrada de duas mãos que ficara atrás dele.
Segurou o volante com força por causa da escuridão do caminho e da própria tensão.
Pensou nas cartas que recebera de Richard Tapp duas semanas atrás e sentiu seu es-
tômago se contraindo.
Mas algo além de sua tensão pairava no ar naquela noite; era um silêncio absoluto,
pesado, como alguma ameaça intangível, um aviso de perigo.
Reduziu a velocidade do carro ao mínimo. Nunca encontrara uma explicação lógica
para seu sexto sentido. Às vezes dava certo; às vezes, não. A inconsistência daquilo
tornava uma explicação impossível. Não havia nenhum sinal físico, como algum calafrio
percorrendo-lhe a espinha, as mãos gelando ou algo assim. Ele simplesmente pressentia.
Os vários anos em sua profissão o haviam ensinado a seguir seu instinto. Era algo
que fazia de forma automática agora. Assim, com os faróis apagados, foi seguindo
lentamente. O cascalho estalava sob as rodas do carro, rompendo o silêncio que se
tornava opressivo, que ia latejando em seus ouvidos. O perigo espreitava de cada galho
de árvore, vinha das sombras atrás. Trevor permanecia rígido no assento, atento, pronto
para reagir.
Ao iniciar a próxima curva acentuada, um grito cortou a noite... um grito aterrorizado
que lhe gelou o sangue nas veias.
Acelerando, venceu a curva depressa e parou na clareira em frente à casa. O fluxo
de adrenalina percorria seu corpo, deixando-o totalmente alerta. Pegou a arma do
compartimento oculto abaixo do assento.
Em poucos segundos, saía do carro, se esgueirando, a arma em punho. Verificou a
clareira e identificou os contornos familiares de árvores e arbustos com a precisão de um
computador. Um furgão escuro, com a parte da frente mal aparecendo, estava oculto nas
sombras das árvores na extremidade da clareira. Vozes exaltadas atraíram seu olhar de
imediato para a casa. As silhuetas de três pessoas se avistavam numa das janelas.
Silenciosamente, Trevor se aproximou e subiu os degraus da varanda. Estando mais
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próximo, podia identificar as três figuras pelas cortinas transparentes. Viu dois homens,
um alto e corpulento; o outro também era robusto, mas um pouco mais baixo e tinha um
braço em torno do pescoço de Brenda Michaels. Como se não fosse o bastante, havia lhe
torcido o braço de encontro às costas.
Ele continuou se esgueirando pela varanda até a porta da frente, ouvindo as vozes
ameaçadoras lá dentro. Num movimento ágil, rápido, chutou a porta, cruzou o pequeno
vestíbulo e apontou a arma.
— Não se movam!
O homem mais baixo jogou a mulher de encontro à parede. O mais alto e corpulento
avançou para Trevor, um ar furioso distorcendo-lhe o rosto. Ele atirou. O sangue brotou
no braço do homem, que o segurou com um grito de dor. Sem hesitar, Trevor virou-se
para encontrar o outro sujeito. Nesse instante, uma cadeira atingiu-lhe o peito, jogando-o
de encontro à parede e soltou-lhe a arma da mão. Dobrou-se sobre o corpo, com dor,
zonzo, com raiva, recobrando o fôlego.
Esforçou-se para readquirir o equilíbrio. Ninguém levava a melhor com ele, ao
menos não sem uma boa luta. Abaixou-se para apanhar a arma, mas o homem
corpulento chutou-o até o chão. Antes que pudesse detê-los, os intrusos fugiram correndo
pela porta da frente.
Trevor desvencilhou-se da cadeira e avançou para a varanda. Pneus cantaram de
encontro ao cascalho, enquanto o furgão desaparecia pelo caminho, o brilho das
lanternas traseiras se dissipando na escuridão. Ele atravessou a clareira e atirou duas
vezes. Correu pelo caminho e venceu a primeira curva, procurando por algum vestígio de
luz. Mas o veículo estava bem longe do alcance agora. Continuou correndo até o final do
caminho, alerta, os olhos rastreando tudo ao redor, a arma em punho. Finalmente, com a
certeza de que os bandidos haviam escapado e sabendo que precisava ajudar Brenda,
deu meia volta depressa rumo à casa.

Brenda Michaels encolhia-se a um canto da sala de estar onde fora jogada. Estava
chocada, imóvel, com medo até de respirar. Aquele homem que havia avançado pela
porta... quem seria? De onde teria surgido? Ele a havia assustado tanto quanto os dois
brutamontes.
Mais um tiro rompeu o silêncio da noite. Tremendo, ela se encolheu mais de
encontro à parede, ansiando com desespero que o pesadelo terminasse. Suas mãos
cobriam o joelho contundido, como se pudessem impedir o inchaço e o latejo. Descansou
a cabeça na outra perna. Seu pescoço doía. A garganta queimava. Na verdade, era como
se cada músculo de seu corpo doesse. Bateu com o punho no chão várias vezes, em
raiva e frustração. Por que não a deixavam em paz?
Aquilo era culpa de Richard. Cada ameaça, cada momento de terror, cada invasão...
era tudo culpa dele. Ela respirou fundo, tentando se acalmar e clarear os pensamentos.
Jurou a si mesma que, apesar de seu ex-marido, iria sobreviver. Sairia daquele tormento
e, quando terminasse, prosseguiria normalmente com sua vida.
A porta foi batida com força. Brenda levantou a cabeça, uma das mãos ainda
protegendo o joelho. O homem que perseguira os bandidos estava vindo na sua direção.
— Você está bem? — perguntou ele. Ela assentiu.
— Estou bem — sussurrou, sem reconhecer a própria voz.
O estranho era alto, tinha cabelos castanhos, corpo atlético e ombros largos. Brenda
o observou com um olhar cauteloso enquanto se aproximava, a respiração em suspenso.
Num reflexo, encolheu-se mais no canto da sala. Ele franziu o cenho, um ar surpreso
surgindo em seus olhos azuis. Olhos tão parecidos com os de seu falecido ex-marido que
tal detalhe chegava a ser assustador...
— Q-Quem é você?
Ele, enfim, parou, mantendo alguma distância.
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— Ei, não vou machucar você. — Seu cenho se desanuviou e o rosto másculo ficou
sorridente, gentil. — Meu nome é Trevor Steele. Ouvi o seu grito.
Steele? Não Tapp? Parte do temor dela dissipou-se e forçou-se a retribuir o sorriso
que não sentia.
— Me desculpe. Por um momento você me fez lembrar de alguém que prefiro
esquecer de uma vez por todas.
Relaxou um pouco os músculos tensos e se esticou, colocando-se de pé, apoiada
na perna que estava boa. Ainda tremia. A mudança de posição produziu uma fisgada no
joelho inchado e a fez perder o equilíbrio.
Trevor adiantou-se de imediato e segurou-a. Apoiando-a com um braço, puxou a
cadeira mais próxima com a outra mão, endireitou-a e ajudou Brenda a sentar-se.
— É meu joelho. Eu caí sobre o joelho já machucado. — Forçou outro sorriso,
sentindo-se desconfortável em aceitar a ajuda do estranho outra vez. Detestava sentir-se
indefesa.
— Deixe-me dar uma olhada. — Ele se inclinou, tocando-lhe a barra da saia.
Brenda segurou-lhe o pulso.
— Não, está tudo certo. Estou bem, não se preocupe.
— Soltou-lhe a mão abruptamente, perturbada pela indefinível sensação na boca de
seu estômago. — Ouça, obrigada por ter vindo em meu socorro, mas eu gostaria de ficar
sozinha agora. Você já teve transtornos o bastante.
Ela estava fazendo o possível para ser cordial. O homem merecia mais
agradecimentos do que os que tinha condições de lhe transmitir no momento. Cada
palavra queimava em sua garganta. O pescoço doía ao mais leve movimento. E a
sensação em seu estômago recusava-se a passar.
O estranho ignorou sua rejeição. Em vez de se retirar, pegou o telefone que
permanecia milagrosamente intacto numa mesinha de canto ao seu lado.
— O que está fazendo? — Uma nova onda de pânico invadiu-a.
— Vou chamar a polícia.
— Desligue o telefone. — Ela fitou-lhe os intrigantes olhos azuis com uma expressão
suplicante nos seus. A simples idéia de mais um policial sequer vasculhando a sua casa
outra vez era insuportável. — Por favor, nada de polícia. — Levantou-se devagar e
estendeu a mão para o fone, depois cerrou os dentes enquanto uma seqüência de
fisgadas subia por sua perna. Recobrou-se da dor antes de perder o equilíbrio e deslizou
de volta para a cadeira. — Eu mesma ligo para chamá-los. Depois. Não agora.
— Vou levá-la ao hospital, então. — Trevor recolocou o fone no gancho e virou-se
para ajudá-la, mas Brenda ergueu ambas as mãos para detê-lo.
— Não vou ao hospital. Já sei o que está errado. Mas obrigada assim mesmo.
Ele a fitou com uma intensidade que a obrigou a desviar o olhar.
— Vou buscar um pouco de gelo. — Antes que pudesse impedi-lo, ele se afastou.
Brenda se recostou na cadeira e, com cuidado, apoiou a perna na lateral do sofá.
Incapaz de evitar a destruição por mais tempo, olhou ao redor. Haviam feito uma busca
impiedosa. As fotos de família nos porta-retratos, que distribuíra cuidadosamente numa
mesa de canto e num aparador, e as emolduradas, que pendurara na parede, estavam
espatifadas no chão. Estilhaços de vidros achavam-se espalhados pelo tapete. Os
abajures tinham sido derrubados, as cúpulas retalhadas. Os livros haviam sido tirados das
prateleiras da estante e atirados para longe. Uma das cortinas fora arrancada do trilho.
Assim como sentia a dor em seu corpo, havia uma opressão semelhante em seu coração.
Precisava sair daquela sala.
Usando o encosto do sofá como apoio, levantou-se e foi se equilibrando numa
perna. Fechou os olhos, procurando ajustar-se à dor. Sabia que se não flexionasse os
músculos, não dobrasse a perna machucada, podia colocar-lhe peso por tempo o
bastante para dar passos curtos e rápidos.
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Pretendia chegar à cozinha. A idéia de um estranho zanzando por lá, em especial
um que a fazia lembrar de Richard, mexia com seus nervos. Com um impulso final,
segurou-se no batente da porta, depois foi se apoiando na parede do corredor até chegar
à entrada da cozinha.
Um olhar ao redor fez seu rosto empalidecer.
— O que eles fizeram! — A destruição ali parecia ainda maior do que na sala de
estar. Ela afastou uma lágrima que lhe rolou pelo rosto e desejou poder fazer seu lábio
inferior parar de tremer.
— Você não me parece tão bem quanto diz. — Trevor endireitou duas cadeiras de
imediato. — Sente-se aqui. — Havia um evidente tom de comando em sua voz.
Então, afastou-se e continuou colocando cubos de gelo num pano de prato. Brenda,
ao menos, ficava aliviada que ele não a estivesse observando. Não precisava da
compaixão desse homem. Sua casa inteira... sua vida... estava num caos. Se ouvisse
uma palavra de simpatia agora, tinha certeza que desmoronaria.
Segurando-se na parede, aproximou-se da cadeira e sentou-se com cuidado,
apoiando a perna machucada na outra.
Sem uma palavra, Trevor colocou o pano embrulhado com gelo sobre seu joelho. O
frio a fez sobressaltar-se. Ainda assim, o inchaço em seu joelho parecia tê-lo feito dobrar
do tamanho normal. Mentalmente, praguejou, amaldiçoando o ex-marido.
— Sou Brenda Michaels. E-Eu fico realmente agradecida por s-sua ajuda. — O gelo
a estava fazendo tremer. Gostaria de ficar sozinha. O sofrimento não lhe era novidade,
mas não estava acostumada a partilhá-lo. Podia resolver esse problema por conta
própria. Sem a ajuda de nenhum homem. Fechou os olhos mais uma vez, esforçando-se
para conter sua tremedeira.
Longos momentos se passaram e, então, algo pesado acabara de ser colocado em
torno de seus ombros. Abriu os olhos e deparou com Trevor ao lado de sua cadeira.
Ajeitava ao seu redor a manta que ela costumava deixar sob uma almofada na sala. A
diferença foi imediata. O calor espalhou-se por seu corpo, com exceção do joelho.
— Assim está bem melhor. Obrigada.
Ela sorriu, segurando a manta em torno de si. Lutou para manter os olhos abertos.
Mas de repente não era possível. Suas pálpebras tinham ficado tão pesadas... Perdia a
noção do tempo.
— Você passou por um grande choque. — A voz dele soou tão gentil quanto a mão
que lhe sacudiu o braço para despertar-lhe a atenção e forçá-la a abrir os olhos. Agora ele
se achava ao lado da mesa, uma caneca fumegante em sua mão. — Beba isto, está
quente. É café solúvel e talvez ajude a reanimá-la. — Colocou a caneca na mesa.
Aqueles penetrantes olhos azuis quase a fizeram encolher-se novamente, mas
conteve-se. Brenda achara que havia imaginado a impressionante semelhança antes.
Mas com a proximidade de agora não havia como negar que estivera certa desde o início.
Os olhos de Trevor Steele eram idênticos aos de seu ex-marido... o mesmo tom intenso
de azul, o formato, os cílios escuros e espessos. Era um fato tão estranho... Exceto pelos
olhos, ele não se parecia em mais nada com Richard. Aliás, se parecesse, já o teria
expulsado de sua casa, com ou sem joelho machucado.
Apanhou a caneca e sorveu o café, sentindo-se reconfortada pelo calor que desceu
por sua garganta e se expandiu por seu corpo.
Olhou ao redor da cozinha. Trevor estava varrendo o chão. As panelas, pratos e
utensílios haviam sido empilhados no balcão e na mesa.
— Não precisa fazer isso. — Estar sentada ali enquanto um estranho arrumava sua
cozinha a fazia sentir-se constrangida. — Eu cuido disso.
O olhar determinado que ele lhe lançou disse mais do que as palavras.
— Ambos sabemos que você não está em condições de fazer a limpeza hoje.
Brenda não tinha como argumentar.
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— O que aqueles dois queriam? — perguntou Trevor, continuando a varrer os cacos
de vidro do chão enquanto conversavam.
Ela não fazia idéia de como responder. Sabia o que os sujeitos queriam, mas não
podia contar a ele, nem a ninguém mais. Seria melhor que não soubesse. Só de ter
enfrentado e, depois, perseguido aqueles dois do lado de fora da casa Trevor já podia
ficar encrencado.
— Têm acontecido muitos assaltos por estes lados ultimamente.
Não podia fitá-lo nos olhos. Ocupou-se com o gelo em seu joelho até que o silêncio
se prolongou e tornou-se embaraçoso. Quando, enfim, levantou os olhos, arrependeu-se
no ato. A expressão intensa e inquiridora no rosto de Trevor Steele dizia-lhe que sabia
que estava mentindo.
Mas o pior era o ar penetrante de seus olhos azuis, o olhar perscrutador que a
amedrontou e a fez lembrar-se que aquele homem era um completo estranho.

Capítulo 2

Brenda sentiu o coração disparando no peito até que, finalmente, Trevor interrompeu
o contato do olhar, desviando o seu. Ela esperou por algum revide, alguma cáustica
acusação. Ou pior.
Mas ele não disse nada. Simplesmente, acabou de varrer o chão e recolheu os
cacos de vidro para o cesto de lixo a um canto. Então, apontou para as panelas sobre a
mesa.
— Me diga onde vão essas coisas e eu guardo tudo para você.
Brenda fez menção de protestar, mas descobriu que não podia falar. Ele acabava de
erguer a mão feito algum guarda detendo o trânsito.
— Já sei. Não preciso fazer isso. — Havia um ar maroto nos seus olhos azuis agora
e, enquanto a tensão se dissipava entre ambos, ela sentiu o ritmo do coração voltando ao
normal. As palavras até trouxeram um ligeiro sorriso a seus lábios, o que a surpreendeu.
Censurou a si mesma mentalmente por ser tão paranóica.
Apontou para o paneleiro ao lado do fogão.
— Todas as panelas e assadeiras vão para esse armário. Trevor parecia precisar se
manter ocupado, como se seu corpo não pudesse reter energia extra. Os músculos de
seus ombros largos ondulavam sob o suéter azul-marinho, enquanto guardava a louça. O
jeans desbotado que lhe moldava as pernas fortes deixava-o... sexy. Pareceu-lhe a
palavra exata para descrever aquele estranho no momento. Ela desviou o olhar quando
tal pensamento passou por sua cabeça, e sentiu as faces queimando com o rubor.
Ele abriu uma porta ao fundo da cozinha, apontando para o pequeno recinto cujas
paredes eram revestidas do chão ao teto por prateleiras.
— Imagino que ali dentro seja a despensa, certo? Foi onde encontrei o vidro de café
solúvel.
— Sim. Na verdade aí era a copa, mas minha falecida tia mandou fechá-la há vários
anos e transformou-a nessa área de estocagem.
Brenda voltou a observá-lo, enquanto ele entrava e saía da antiga copa. Movia-se
com agilidade, tornando a preencher as várias prateleiras com as latas e os mantimentos
que antes também tinha reunido do chão. Era quase como se... pertencesse àquela casa.
Ela afastou o pensamento de imediato. Desviou o olhar outra vez, correndo-o pela
cozinha. Felizmente, apesar de terem deixado tudo revirado, os estragos feitos ali pelos
brutamontes pareciam limitar-se a pratos e copos quebrados. Enfim, baixou os olhos para
o joelho e percebeu que o latejo diminuíra, tornando-se ao menos tolerável, além de
começar a desinchar.
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Levantou o olhar para Trevor, continuando a acompanhar-lhe os rápidos
movimentos. Ficava admirada em notar o quanto era alto. Sabia, mesmo estando
sentada, que ele devia ter quase uns vinte centímetros a mais que o metro e setenta dela.
Ao observá-lo, não dissipava a estranha impressão de que havia uma familiaridade
em seus movimentos, em seus gestos. O olhar que lhe lançou, com a sobrancelha direita
arqueada, era exatamente do mesmo jeito que Richard costumara fazer. Suas passadas
longas pela cozinha pareciam imitar o andar de seu ex-marido... Claro, ele jamais teria se
dado ao trabalho de recolher panelas e latas. Teria lhe dito que não haveria necessidade
de limpar nada, pois providenciaria para que uma firma de limpeza viesse no dia seguinte.
E jamais teria percepção o bastante para saber o quanto ela se sentia abalada em ter a
casa revirada.
— Não sobraram muitos pratos de porcelana — comentou Trevor. — Contei cinco.
Brenda contraiu o semblante. Haviam restado apenas cinco dos pratos do aparelho
de jantar Limoge da sua mãe...
— Onde devo colocá-los?
Os olhos azuis dele se suavizaram numa expressão compreensiva. A gentileza em
sua voz a ajudou a esconder a dor por ter perdido uma das relíquias de sua família.
Apontando para o armário acima da geladeira, ela tentou falar, mas um nó obstruiu-lhe a
garganta.
Respirando fundo, observou-o guardando os pratos e reunindo o pouco que restara
das demais peças do aparelho.
— Como está o joelho? — perguntou ele, quando, enfim, terminou a arrumação na
cozinha. Levantando o pano com gelo, examinou-lhe a área machucada com um toque
suave como uma pluma. Ainda assim, ela contraiu os músculos num reflexo e, então,
soltou um gemido de dor.
— Relaxe, está bem?
Brenda obrigou-se a relaxar. A gentileza dos dedos que se moviam por sua pele
confortava e, ao mesmo tempo, estimulava. Levantando os olhos, deparou com aqueles
tão parecidos com os de Richard e, de algum modo, tão diferentes... Enquanto os olhos
dele tinham sido frios e insensíveis, nunca enxergando mais para além da superfície, os
de Trevor eram calorosos, gentis e penetrantes, como se pudessem ver até o fundo de
sua alma. De qualquer forma, não gostava muito dessa idéia.
— Não está mais tão inchado.
Ela tentou se levantar, mas a mão firme em seu ombro manteve-a no lugar.
— Não deve colocar nenhum peso nessa perna ainda. Sente-se e procure não forçá-
la.
Brenda flagrou-se de olhar fixo nos lábios dele. Tinha uma boca máscula e bem-
desenhada... sensual.
— Bem, agora que se reanimou com a cafeína — disse-lhe, afastando-se em
direção ao fogão. — Vou por mais água para fazer e lhe preparar um chá. Vi algumas
caixas de chá de ervas em saquinhos entre os mantimentos. Farei um dos especiais,
garantido para curar todos os seus males. — A tentativa de amenizar a gravidade da
situação o fez sorrir, e ela não pôde deixar de notar que parecia ainda mais bonito assim.
Acompanhou-o com o olhar, enquanto se movia pela cozinha. Havia muito mais
naquele homem do que diziam as aparências. Já o vira em ação com os dois
brutamontes... durão, frio, implacável, eficiente. Ainda assim, com ela era gentil, afável,
perceptivo. Agia com uma certeza e uma confiança que punham ordem no caos. Era
quase fácil esquecer que o restante da casa estava de pernas para o ar.
A cozinha parecia bem melhor graças aos seus esforços, a lembrança visual do
pesadelo de há pouco eliminada. Se fosse sincera consigo mesma, tinha que admitir que
a presença inesperada daquele homem a ajudava a superar o choque. Mas, na verdade,
o que a ajudaria de uma vez por todas, o que queria, o que ansiava com todas as suas
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forças, era uma nova vida sem um ex-marido chamado Richard Tapp.
Trevor estendeu-lhe uma segunda caneca fumegante. Desta vez, contendo chá com
algumas gotas de conhaque.
— De fato é especial — sorriu ela, depois de sorver um pouco da mistura e sentindo
os primeiros efeitos relaxantes.
— Minha intenção é sempre a de agradar. — As palavras de gracejo dele soaram
num tom suave, sedutor que contrastava com o ar maroto que surgiu em seu rosto.
Sem poder evitar, Brenda riu. Aquele homem tinha algo inexplicável que a fazia
relaxar e ficar tensa ao mesmo tempo.
— Há cerveja na geladeira, se quiser. Ao menos havia quando saí pela manhã.
Trevor abriu a geladeira e pegou uma lata. Ela soltou um quieto suspiro ao ver que
os bandidos haviam se esquecido de revirar o refrigerador. Por alguma razão, vê-lo
intacto causou-lhe uma sensação de alívio.
— Se importaria em pegar uma coisa para mim antes de se sentar? Eu poderia me
levantar e andar se estivesse com o meu aparelho no joelho. — Ela não usara o aparelho
durante meses. Era pequeno, não impedia os movimentos, mas mesmo assim, detesta va-
o. De qualquer modo, dava-lhe a sustentação necessária e, embora deixando-a mais
vagarosa, ajudaria a mover-se. Pior do que usá-lo era sentir-se inútil.
Ao identificar o ar de curiosidade passando pelos olhos azuis de Trevor, explicou:
— Eu rompi os ligamentos cerca de um ano e meio atrás. — Ajeitou melhor o gelo
sobre o joelho, o pano começando a se encharcar com os cubos que iam derretendo.
Falar sobre o joelho deixava-a nervosa, desconfortável. Não podia contar toda a verdade.
Ele parecia um homem compreensivo, mas era um estranho. — Caí de alguns degraus da
escadaria. — Era o mais próximo da verdade que conseguia chegar. — O médico em
Nova York disse que os ligamentos ficaram sensíveis, mas sob circunstâncias normais
agüentam bem.
— Cirurgia no joelho não é mais tão complicada hoje em dia.
— Eu sei. Planejo me submeter a uma em breve. Tão logo tenha economizado o
suficiente para isso.
Ele deixou a lata de cerveja sobre a mesa e estreitou o olhar. Podia ver que ela
estava pouco à vontade sob seu olhar perscrutador.
— O aparelho está no andar de cima, no armário de roupas de cama, ao final do
corredor. Você se incomoda?
Quando o viu saindo da cozinha, Brenda removeu o gelo da perna e tentou se
levantar. O joelho latejava ligeiramente agora, mas podia caminhar. Deu alguns passos e
foi se apoiando no balcão.
A quem estava enganando sobre a cirurgia? Durante as últimas duas semanas sua
vida andava no mesmo estado em que a casa... revirada, caindo aos pedaços, quase
destruída. E não era para menos. Céus, milhões de dólares em títulos ao portador que
haviam sido roubados!
Apenas quando fossem encontrados, sua vida voltaria ao normal. Somente, então,
bandidos parariam de invadir sua casa, e os intrusos "oficiais" deixariam de rondá-la feito
perdigueiros. Por que todos haviam enfiado na cabeça que ela sabia onde os tais títulos
estavam escondidos era-lhe um mistério. Fora Richard quem os roubara... e não o vira
durante os últimos dezoito meses.
Aproximando-se da pia, torceu o pano encharcado. Onde estaria Trevor? Por que
estava demorando tanto? Devia estar fora de si para deixar um completo estranho
zanzando por sua casa. Talvez tivesse machucado mais do que o joelho.
Um súbito pensamento a fez agarrar-se à pia em busca de apoio. E se Trevor Steele
soubesse sobre os títulos? E se agora estivesse revirando o andar de cima, ou tramando
algo para tentar pressioná-la?
Com um súbito pânico, foi mancando até o início da escadaria.
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
— Encontrou o aparelho? — perguntou em voz alta. Trevor apareceu nesse instante
no alto da escada, e voltaram para a cozinha, sentando-se à mesa. Brenda colocou o
aparelho em torno do joelho com mãos trêmulas, mas acabando de ajustá-lo, sentiu-se
mais controlada.
Um olhar de relance para o corpo forte dele relaxando na cadeira disse-lhe que, não,
aquele homem não era nenhum agente secreto, nem criminoso atrás dos títulos
roubados. Saberia identificar qualquer um dos tipos se fosse o caso, assegurou a si
mesma.
— Como posso lhe agradecer por sua ajuda? Nem sequer sei quem você é.
Ele tomou um gole de cerveja.
— Não há muito a saber. Eu viajo muito. A negócios, por diversão, enfim.
— Sua esposa deve adorar isso. — As palavras escaparam-lhe dos lábios antes que
Brenda pudesse pensar.
— Não tenho esposa.
Havia um brilho divertido no olhar dele? Ela baixou o próprio olhar, embaraçada.
Não era de seu feitio ficar especulando a vida de um estranho.
— Está aqui a negócios?
— De certa forma, sim. Pude ouvir seus gritos desesperados lá da estrada. E achei
que alguém podia estar precisando de ajuda.
— E coincidiu de estar carregando uma arma. — Ele sentiu o volume do revólver
nas costas, sob a cintura do jeans.
— A arma a incomoda? Posso colocá-la no meu carro.
— Não. Armas não me incomodam. Só acho estranho que justamente a pessoa que
aparece do nada para me ajudar esteja portando uma.
— Entendo o que quer dizer. Mas, eu ganhava o dinheiro para minhas despesas da
faculdade trabalhando como um guarda de segurança armado. Nunca me livrei do hábito
de carregar uma arma comigo. Mantenho o porte em dia.
— Sorte minha. — Brenda esboçou um sorriso, desejando terem se conhecido sob
melhores circunstâncias.
— Fico surpreso em ter conseguido ouvir você de uma distância tão grande,
contudo.
— Eu não. Quando eu era criança, costumava me sentar na varanda da frente para
brincar com meu cãozinho e conseguia ouvir vizinhos brigando do outro lado da estrada.
Exceto pelo rio, este lugar é muito quieto. E minha casa não fica tão longe da estrada
quanto parece. Só não há quase ninguém por aqui para ouvir.
Ele esvaziou a lata de cerveja e fitou-a com um olhar casual que contrastava com o
tom de aviso em sua voz.
— Seus visitantes voltarão, você sabe.
Aqueles eram seus piores temores em forma de palavras, pensou ela. Recusando-
se a sustentar-lhe o olhar, apanhou sua caneca e sorveu mais um pouco de chá.
— O que o faz dizer isso?
Como não o ouvisse respondendo de imediato, ergueu os olhos. A expressão de
Trevor ficara muito séria. Apoiou os cotovelos na mesa e inclinou-se para frente.
— Saíram daqui de mãos vazias.
Por alguns instantes, Brenda não se moveu. Era como se estivesse hipnotizada por
aquela expressão intensa. O olhar penetrante, o músculo se retesando no maxilar, a linha
determinada dos lábios que apertava agora revelavam um homem obstinado, seguro de
si. O momento passou, e ele se levantou para jogar a lata de cerveja no cesto de lixo.
— Se estavam procurando por algo em específico, não encontraram. Parece que
falharam em olhar em tudo. Como na geladeira e em dois dos quartos lá em cima. Não é
seguro para você ficar aqui sozinha.
Brenda não tinha certeza do que ele estaria sugerindo, mas não pretendia lhe dar a
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
chance de ser mais específico. Com renovada determinação, levantou-se e endireitou os
ombros para colocar o máximo de dignidade possível em sua postura.
— Esta é a minha casa, sr. Steele. Não vou permitir que dois bandidos me forcem a
sair. — Seguiu mancando em direção ao corredor da frente. — Gostaria de ficar sozinha
agora, se não se importa.
Quando chegaram à porta da frente, conteve a irritação e agradeceu-lhe:
— Foi de enorme ajuda. Poucas pessoas teriam parado para socorrer alguém numa
situação dessas. Espero que o restante de sua estada nesta área seja melhor do que a
experiência de hoje. — Estendeu a mão delicada.
Dedos longos e firmes envolveram os dela num aperto de mão. Ondas de calor
pareceram lhe subir pelo braço. Interrompeu o contato depressa.
— Tem certeza que não consigo convencê-la a passar a noite na casa de uma
amiga?
— Não. Mas obrigada por sua ajuda. Ficarei bem.
— Vou verificar ao redor da casa antes de ir embora. — Brenda fechou a porta atrás
de si e recostou-se nela, dando-se conta de que estivera contendo a respiração. Não
podia acreditar que se sentira tão afetada por um homem que sequer conhecia. E devia
estar perdendo o bom senso que ainda lhe restara para deixá-lo ficar por tanto tempo na
sua casa. Será que não aprendera ainda que, com muita freqüência, as pessoas não
eram o que aparentavam?
Respirou fundo e trancou a porta, lembrando a si mesma que não tivera bem uma
escolha quanto a isso. Ao menos ele tentara perseguir aqueles dois intrusos. E se não
tivesse ouvido seus gritos? E o que o teria motivado a parar e ajudar alguém que não
conhecia?
Afastou a enxurrada de perguntas em sua mente e concentrou-se em trancar toda a
casa. Verificou todas as janelas e portas, fechou cada trinco. Lentamente, subiu a
escadaria até o andar superior. Amanhã, providenciaria para que um sistema de alarme
fosse instalado na casa, mas naquela noite havia mais uma coisa que podia fazer para
ajudar a si mesma.
Imaginando a bagunça em seu próprio quarto, ela passou direto pelo corredor até o
quarto que Richard alugara de sua tia antes de ambos terem se casado. Lembrava-se
claramente da pequena pistola calibre 22 que ele costumara manter na primeira gaveta da
cômoda. Já que presenteara a si mesmo com uma semi-automática mais sofisticada
depois que tia Maude morrera, havia uma chance de que a antiga arma ainda estivesse
lá.
Abriu a porta devagar. Tudo estava em ordem. Trevor estivera com a razão. Os
bandidos haviam se esquecido de revirar esse cômodo. Sentiu uma estranha es pécie de
paz ao se encaminhar até a cômoda, desviando-se das várias caixas de papelão
empilhadas ali dentro por ninguém mais senão ela mesma.
Estendeu a mão até o fundo da gaveta e, entre diversos objetos, encontrou a arma.
Pegando-a, passou os dedos pelas iniciais do ex-marido gravadas no cabo. Empunhou-a
com uma mão um tanto trêmula e deteve-se a observá-la. Anos haviam se passado desde
a última vez que segurara uma arma. Sorriu consigo mesma, lembrando-se da expressão
chocada de tia Maude quando lhe contara que havia ingressado na equipe de tiro ao alvo
do colegial. Fora uma decisão impulsiva, um ato de pura rebeldia. O clube fora divertido,
inofensivo, não como sua situação atual... Agora a arma causava-lhe uma certa
apreensão.
Começou a vasculhar a gaveta a procura de munição, perguntando-se a que ponto
estava chegando sua vida se precisava de uma arma para se proteger dentro de sua
própria casa.

Trevor usou os faróis de seu carro para investigar em torno da casa e nos bosques
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
mais próximos. Quando se deu por satisfeito de que tudo estava em ordem, seguiu bem
devagar pelo caminho de cascalho.
Pôde ver que não havia nenhum lugar oculto entre as árvores para estacionar e
manter vigilância durante a noite. Assim, quando chegou ao fim do caminho que levava à
estrada, deu a ré por cerca de um metro, sua decisão tomada. Ninguém podia passar por
ele se bloqueasse o acesso. Cuidadosamente, manobrou seu carro, deixando-o um tanto
atravessado no caminho estreito, desligou os faróis e abriu a janela.
O ar fresco inundou-lhe os pulmões. Na distância, ouvia o rio Potomac, sua
correnteza suave e relaxante em contraste com a violência da noite e a confusão em seu
íntimo.
Sua missão pessoal ali fora um total fracasso em termos de obter as respostas que
queria, mas ao menos uma pergunta fora respondida antes de ter sido feita... Brenda
estava em perigo. Agradecia à sorte por não ter esperado mais um dia para ter vindo vê-
la. Seus colegas agentes não eram os únicos que a estavam rondando.
Ligando para Barney, ouviu-o atendendo no segundo toque.
— Fico contente que tenha ligado — disse-lhe o chefe. — Claro que podia ter dado
um jeito de ligar um pouco-mais cedo.
— Não foi possível. — Trevor massageou as costelas doloridas onde a cadeira o
atingira.
— A confirmação veio logo depois que falei com você. Há mais uma corretora de
valores que encontrou uma série de títulos falsificados quando fizeram sua auditoria. O
problema é que descobriram a troca tarde demais. Dois milhões e meio de dólares que
foram pelo ralo. Essa fica em Chicago.
— Como diabos um sujeito consegue fazer uma coisa dessas sem que ninguém
desconfie?
— Ei, esses títulos frios são as falsificações mais perfeitas que já vi. Quando o autor
do golpe é um corretor, como Tapp era, tudo o que tem que fazer é substituir os títulos
verdadeiros por falsos quando ninguém está olhando. Ou, se não há nenhum corretor
envolvido, pode-se subornar os mensageiros e fazer a troca em trânsito.
— Quantas são as corretoras lesadas até agora, então? Das que já ficamos
sabendo?
— Cinco. Nova York teve mais sorte que Chicago. A única razão por que
descobriram a fraude tão depressa foi por causa de uma auditoria não programada.
— O mesmo aconteceu com as outras?
— Aposto que sim. Temos o laboratório trabalhando nisso agora. Se quer minha
opinião, o mesmo falsificador fez a armação em todas as cinco.
— Sim, está me parecendo um esquema grande, com muitos envolvidos.
— Concordo. E se as pessoas erradas encontrarem os títulos que Tapp roubou, os
converterão em dinheiro depressa. Há sempre algum palerma por aí que não verifica a
lista de títulos roubados. O que você descobriu?
— Dois sujeitos invadiram a casa de Brenda Michaels nesta noite.
— Isso significa que sabem da ligação dela com Tapp. O que não é bom. Alguém
que você tenha reconhecido?
As palavras de Barney o deixaram bastante inquieto.
— Não, mas eles não estavam ali para brincadeira. — Trevor passou-lhe uma
descrição exata de cada homem.
— Vou colocar essas informações no computador e ver o que podemos descobrir.
Brenda Michaels está bem?
Estava?, perguntou-se ele. A reação dela à invasão fora normal o bastante... medo,
raiva, choque, desconfiança. Mas a maneira como se grudara à parede quando ele
tentara ajudar parecera-lhe um tanto exagerada.
— Está abalada e tem um joelho machucado, mas ficará bem. É uma mulher
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
teimosa.
Trevor sorriu ligeiramente. Brenda o teria chutado para fora junto com os bandidos
se não fosse pelo joelho machucado. Aquela tendência à teimosia podia lhe custar mais
do que ela se dava conta. Se contrariasse aqueles sujeitos demais, estaria se
encrencando. O chefe dos dois os mandaria de volta para procurarem pelos títulos. Não
teria outro jeito.
— Mas?
— Eu não sei, Barney. Estão faltando algumas peças nesse quebra-cabeça. Ela
mostrou-se muito relutante em falar sobre o machucado no joelho. Verifique os registros
dos hospitais em Nova York de cerca de um ano e meio atrás, está bem? Disse que
machucou o joelho caindo de alguns degraus.
— O que isso tem a ver com o caso?
Trevor não tinha certeza. Resolver os problemas de Brenda não fazia parte de seu
trabalho, lembrou a si mesmo. Estava ali em termos profissionais para encontrar os títulos
e, pessoais, para descobrir o que pudesse sobre Richard. Tinha que manter esses
objetivos em mente.
Certo. Então, por que o ataque a ela o incomodava tanto? Ainda podia ver-lhe o
rosto assustado, pálido quando ela entrara na cozinha. Mesmo assim, o orgulho, a
teimosia e o senso arraigado de independência haviam se estampado na expressão dela
ao tentar ajudá-la. Parecera desafiá-lo a ver se não era capaz de caminhar até aquela
cadeira sozinha.
— Não sei ao certo. Chame de curiosidade. E mais uma coisa. Têm ocorrido
assaltos aqui nesta área ultimamente?
— Isso é um problema local.
— Mas você pode descobrir.
— Posso dar um telefonema. Você acha que ela estava agindo com Tapp?
— Não vi nenhuma prova disso. Ao contrário. Brenda precisa de uma cirurgia no
joelho e diz que não pode pagá-la. Há um vazamento no teto do banheiro. O papel de
parede está descascando. A casa inteira precisa de uma boa reforma.
— Bem, talvez ela não esteja interessada em reformar casas antigas. Talvez tenha
outros planos para o dinheiro.
A lógica dizia a Trevor para dar ouvidos a Barney. Ele já sabia que Richard estivera
no golpe dos títulos, mas não podia acreditar que Brenda estivesse envolvida. Seu instinto
tornava-se bem claro quanto a esse respeito. E era difícil ignorá-lo.
— Não se preocupe. Vou ficar alerta.
Desligou o telefone e refletiu sobre o que Barney acabara de lhe informar. Quem
quer que estivesse chefiando a quadrilha envolvida naquele audacioso golpe vinha se
sentindo muito confiante para continuar pressionando dessa forma. Mas acabaria
cometendo algum erro logo. Ele reclinou um pouco o banco, acomodando-se melhor. A
arma achava-se ao rápido alcance.
Como, afinal, Brenda fora se envolver numa história daquelas?, perguntou-se. Nesta
noite não houvera oportunidade para perguntar-lhe sobre Richard. Mas logo tornariam a
se ver, e ele teria que estabelecer algum elemento de confiança entre ambos. Depressa.
Sem isso, Brenda jamais revelaria o que quer que soubesse. Ela era, no mínimo, uma
pista quente. O governo já estivera preparado para agir justamente quando o corpo de
Richard Tapp fora encontrado. Se tivesse vivido mais algumas poucas semanas, teria
sido levado a um interrogatório. Barney teria negociado com ele para revelar sobre seus
comparsas e o esconderijo dos títulos roubados.
Não acreditava que Brenda pudesse ajudar quanto à primeira parte, mas Barney
tinha razão. Havia uma boa razão para acreditarem que talvez ela soubesse onde os
títulos se encontravam. Trataria de se certificar que os tais bandidos não a pegariam. Só
queria a chance de lhe fazer algumas perguntas decisivas.
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
Sim, precisava de Brenda Michaels. Ela era a chave para sua missão.
Ajeitou a gola da jaqueta para se proteger do frio da noite e perguntou-se por que
estava sentado ali, desconfortável num carro, sua mochila repleta de roupas no banco
traseiro, quando poderia estar em casa numa cama macia e quente. Aliás, por que estava
praticamente vivendo no seu carro durante os últimos três dias?
Sentia-se responsável por aquela mulher; essa era a razão. E isso o surpreendia.
Não se sentira tão protetor em relação a uma mulher desde que fora casado. E fora um
casamento tão curto e acontecera há tanto tempo, que parecia parte de uma outra vida.
Disse a si mesmo que essa urgência irresistível de mantê-la a salvo era uma mera
resposta à vulnerabilidade de Brenda. Se estivesse fazendo algum jogo com os
comparsas de Richard, podia estar pondo sua vida em risco. Estava tão isolada naquele
lugar; qualquer coisa podia acontecer. Ou talvez essa vontade de protegê-la se originasse
no parentesco que ela desconhecia. Fazia sentido se pensasse por esse ângulo.
Sacudiu a cabeça, irritado consigo mesmo. A quem estava tentando enganar?
Poderia ficar ali racionalizando o próprio comportamento para sempre e encontrar toda e
qualquer desculpa conhecida pela humanidade, mas a conclusão acabaria levando a um
fato: a idéia daqueles brutamontes agredindo Brenda o roía por dentro. Garantiria para
que os bandidos jamais tocassem num fio sequer de cabelo dela outra vez. Barney tinha
que estar errado desta vez. Não tinha?

Capítulo 3

A manhã de segunda-feira trouxe alívio Brenda de um fim-de-semana cuidando do


joelho e arrumando a casa. O aparelho deixava-lhe o andar desajeitado, enquanto subia
os degraus de pedra até a firma de serviços de entregas expressas, mas seu joelho
precisava do suporte por mais uns dois dias.
Washington D.C., numa manhã de segunda-feira ensolarada, com suas buzinas
soando e aglomerações de pessoas, revigorava-lhe a energia. A costumeira quietude de
sua casa de subúrbio, com seu cenário natural, contrastava imensamente com a agitação
da cidade. Ela adorava a diferença. Pensava em comprar um apartamento ali algum dia,
mas sempre com a opção de escapar para sua casa rodeada de bosques e perto do rio.
Veículos continuavam congestionando as ruas. Deteve-se nos degraus e consultou
seu relógio. Mais uma meia hora e o tráfego diminuiria até um fluxo mais tranqüilo,
embora constante. E, com isso, seu serviço como mensageira ficaria mais fácil.
Continuou a subir os degraus com cuidado e, de repente, a porta da frente se abriu.
Victor Pernell, seu patrão, inspecionou a rua de cenho franzido e começou a descer pelo
lado oposto da ampla escadaria.
— Bom dia — cumprimentou-o Brenda.
Ele assentiu ligeiramente e continuou descendo.
Ela deu de ombros e entrou no escritório. Aretha Ames, a única outra mensageira do
sexo feminino, achava-se à sua mesa, verificando a programação do dia. A sala era
grande e funcional. O sol se filtrava pelas três amplas janelas, inundando o ambiente com
sua luminosidade natural e reluzindo na pele morena de Aretha.
— O que há com Victor?
— Acho que está de péssimo humor — respondeu a amiga, enrolando no dedo uma
mecha de seu cabelo crespo e negro. — Recebeu uma ligação de Nova York. Do primo,
eu acho. Parece que foi uma conversa um tanto exaltada.
Ela lançou um olhar para o aparelho no joelho de Brenda e afastou sua cadeira
giratória para trás, levantando-se.
— Ei, garota, o que aconteceu com você?
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
Brenda baixou o olhar para o joelho machucado. Ninguém ali no seu trabalho sabia
sobre sua ligação involuntária com o escândalo dos títulos roubados, e não tinha a menor
intenção de lhes contar, nem mesmo a sua boa amiga Aretha. Aliás, jamais mencionara o
ex-marido a ninguém ali. E fora uma atitude sensata, já que ele se tornara notório.
Ainda se lembrava nitidamente de como ouvira a notícia da morte de Richard, pouco
mais de duas semanas atrás, anunciada pelo rádio: "Richard Tapp, o ex-corretor sob
investigação por suspeita de envolvimento no escândalo dos títulos de milhões de
dólares, foi encontrado morto nesta manhã numa oficina abandonada na parte sudeste da
cidade", anunciara o locutor. "A polícia está dizendo que foi suicídio."
"Richard morto? Suicídio?", pensara ela no momento entre incrédula e chocada. O
fato fora que, desde aquele dia, nada mais em sua vida dera certo.
Portanto, não havia por que complicar mais as coisas trazendo esse problema para
seu local de trabalho, ponderou.
E quanto a Trevor Steele... bem, ela ainda não conseguia lidar com todas as
emoções conflitantes fervilhando em seu íntimo quando pensava no homem bonito, sexy
e enigmático que a salvara na outra noite.
Procurou usar de um tom aborrecido, mas calmo, ao responder à amiga.
— Oh, uns bandidos tentaram me assaltar.
— Você foi assaltada! — Aretha colocou-se a seu lado de imediato, sua expressão
horrorizada.
— Está tudo bem. Acho que não levaram nada.
— Oh, mas é uma situação terrível. Tem certeza que está bem?
Brenda respirou fundo. Não havia por que preocupar a amiga, e realmente não
queria atrair atenção para si mesma.
— Estou bem, sim. Fique tranqüila — disse-lhe numa voz casual. Até sorriu, ao
prosseguir: — Na verdade, apareceu um príncipe encantado que veio em meu socorro, e
os bandidos me jogaram de encontro a uma parede para poderem escapar. Foi quando
bati o joelho.
— Está brincando. Um príncipe encantado?
— Estou falando sério.
— Então, está mesmo bem?
— Apenas tornei a machucar este joelho problemático. Mas já está bem melhor hoje.
Aretha sorriu amplamente.
— Nesse caso, você acha que esse seu príncipe encantado tem algum amigo
desimpedido? Não estou levando a menor chance com Jon, sabe.
O novo supervisor, Jon Britt, tinha cerca de trinta anos e fora admitido no escritório
havia um mês. Brenda ainda não tinha uma opinião formada sobre ele, mas quando
Aretha lhe perguntara o que achava, na semana anterior, tivera que admitir que, por
enquanto, o julgava reservado e circunspecto demais.
— Bem, se eu tornar a vê-lo, lhe pergunto — prometeu ela, piscando um olho.
Agora que haviam deixado o assunto do assalto para trás, Brenda baixou a guarda
com a amiga. Começando a trabalhar, pegou os recibos de seus serviços fora da cidade
na sexta-feira e colocou-os nas caixas apropriadas.
Aretha entregou-lhe uma nova pilha de papeletas.
— Tem certeza que quer fazer estes? Não deveria estar em casa repousando para
se recuperar desse joelho?
— Não é necessário. O machucado está sarando depressa, e você sabe o quanto
preciso deste emprego.
— Entendo. Bem, você teve um pedido especial para uma retirada nesta manhã —
informou-lhe a amiga. — De um homem misterioso que tem a voz mais sexy que já ouvi.
Queria que fosse Brenda Michaels a retirar sua encomenda, ninguém mais serviria. Mas
não me lembro de qual dessas chamadas aí ele era.
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
Brenda verificou as papeletas.
— Nenhuma destas menciona preferência pelo mensageiro — comentou. Tornou a
ler a de Daren T. Smith.
— É provável que seja o velho Smitty fazendo alguma brincadeira. Vou deixá-lo por
último. Ele sempre gosta de conversar um pouco quando passo lá para retirar seus
pedidos. — Separou essa papeleta das outras.
Ela fora promovida a fazer também serviços de fora da cidade, na semana anterior,
e estava desapontada em ver que Jon lhe deixara apenas retiradas e entregas locais para
hoje. Suspirou, enquanto mapeava seu itinerário. Tendo, dali em diante a oportunidade de
atender clientes de outras cidades, trabalharia mais horas e ganharia mais. Sua
necessidade de juntar economias depressa era ainda maior agora com o problema no
joelho voltando.
Na sexta-feira, ela voara para Filadélfia num dos primeiros serviços fora da cidade.
Na sexta também, os bandidos haviam invadido sua casa. Pensara nesse fato durante o
fim-de-semana inteiro. Por ter retornado para casa tão tarde, os dois haviam tido tempo
de entrar lá calmamente. A casa já havia sido revirada antes de ela chegar. Se tivesse
voltado do serviço no horário normal, poderia tê-los impedido de entrar, ou ao menos lhes
ter dificultado as coisas, pensou, com um sorriso triste, enquanto se preparava para sair.
Duas horas depois, já rodando pelas ruas de Washington, descobriu que estava
atrasada em sua programação. Uma obra na estrada, em Foggy Bottom, a fizera
demorar-se para buscar a primeira encomenda. Agora, o tráfego numa das avenidas
principais parará subitamente por causa de uma comitiva de limusines do governo. Ela
tamborilou com os dedos no volante, ao som da música em seu rádio, e aguardou.
Sabia que não devia ficar impaciente, nem desapontada por estar de volta às ruas
da cidade logo em seguida à sua promoção. Jon prometera coordenar os serviços
externos na programação dela assim que pudesse. Mas, por enquanto, esse
desapontamento parecia se encaixar com suas outras frustrações.
Como Trevor Steele... Em duas das três manhãs desde a invasão em sua casa,
Brenda acordara com a imagem desse homem a desconcertá-la. Lembrava-se de sua
força e coragem ao enfrentar os bandidos, sua gentileza ao verificar-lhe o joelho inchado,
a preocupação ao alertá-la sobre a possível volta dos bandidos e o incrível magnetismo
de seus olhos azuis. Em seus sonhos, Trevor não a fizera lembrar-se de Richard em
absoluto. A impressão que lhe deixou foi a de um homem generoso, enigmático e muito
atraente. Os fragmentos desses sonhos e das imagens reais que tivera dele surgiam em
sua mente nos momentos mais inesperados, como agora, no meio do trânsito,
aumentando sua inquietação.
Quarenta minutos depois, encontrou a Collins & Companhia exatamente onde
receara que fosse: numa das piores partes da cidade. Na esquina à frente, havia um
grupo de rapazes mal-encarados que começaram a observá-la, enquanto ela reduzia a
velocidade do carro para procurar o endereço. Uma das últimas das velhas casas daquele
quarteirão exibia o número que constava em sua papeleta.
Felizmente, havia uma vaga de estacionamento diante do sobrado e, assim que
trancou o carro, pode entrar diretamente na recepção, ignorando os garotos. Como não
encontrasse ninguém detrás do balcão, tocou a pequena campainha abaixo do aviso que
dizia "Toque para Chamar" e esperou.
A sala estava repleta de pilhas de papéis e pastas de arquivo de papelão em duas
mesas e ao longo da parede lateral. Embora a casa fosse antiga, a recepção estava limpa
e tinha o cheiro de tinta fresca.
Passaram-se alguns minutos sem que ninguém atendesse a campainha. Brenda
consultou o relógio e estava prestes a se virar para sair, quando ouviu um ruído vindo do
corredor. Parecia o som de alguma coisa sendo arrastada. Sentiu um súbito, calafrio.
— Há alguém aqui? — perguntou em voz alta. Dizendo a si mesma que não havia
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
razão para nervosismo, aproximou-se devagar do início do corredor. — É do serviço de
entregas expressas — anunciou. — Há alguém aí?
O corredor estreito causou-lhe novos arrepios. Aquele trecho da casa não fora
reformado. O antigo papel de parede que o revestia estava descascado em vários trechos
e não havia iluminação.
Foi caminhando hesitante, até que, finalmente, chegou a uma porta com uma luz
difusa projetando-se pelo vidro esbranquiçado. Tinha o coração disparado, sua paciência
se esgotando. Não seria feita de tola por ninguém, mas, por outro lado, tinha um trabalho
a fazer ali. Empregos com horários flexíveis de meio período eram difíceis de encontrar.
Não podia se arriscar a ficar desempregada.
Determinada a afastar aquela apreensão, girou a maçaneta. Mal abriu um vão na
porta de vidro e deparou com um rosto de cenho franzido. Sem poder evitar, soltou um
grito de pavor.
— Mas que diabos? — A porta foi parcialmente aberta, e um rapaz corpulento, de
vinte e poucos anos, apareceu. — O que está tentando fazer, moça, me matar de susto?
Ela forçou um sorriso e deu um passo atrás, ponderando se conseguiria correr pelo
corredor a tempo. O homem a assustava. Tinha um metro e noventa e devia pesar uns
cento e vinte quilos. Uma intimidante montanha de músculos.
— E-Eu sinto muito. Devo ter vindo ao endereço errado.
— Brenda? É você? — A voz de Trevor soou de detrás do grande objeto que parecia
estar bloqueando a porta.
— Trevor?
Ele apareceu no seu raio de visão, e ela sentiu sua tensão se dissipando.
— Fico contente em vê-la — disse-lhe Trevor, com um sorriso amplo. — Pensei que
fosse aparecer duas horas atrás.
— Você fez uma solicitação de retirada de encomenda?
— Espere só um segundo, está bem? — Ele virou-se para o outro homem. —
Venha, Moose, vamos encostar a copiadora de volta na parede. Deve estar funcionando
agora. — Enquanto os dois puxavam a máquina até a parede, ele acrescentou: — Não vá
embora, Brenda.
O jeans desbotado moldava-lhe as pernas musculosas, enquanto se movia ao redor
da copiadora e a colocava no ângulo certo com a ajuda do outro. Usava uma camisa
branca com as mangas dobradas. As manchas de graxa na frente revelavam que estivera
trabalhando na máquina por algum tempo.
Ela tornou a consultar o relógio e confirmou que estava mais atrasada do que nunca.
Jon ficaria contrariado.
— Vou esperar você junto ao balcão da recepção. — Evitando o olhar que Trevor lhe
lançou, Brenda seguiu depressa pelo corredor sombrio.
O dia estava sendo desastroso. Seria difícil fazer todas as retiradas e entregas
programadas. Sentia-se confusa em rever Trevor. Ficava com raiva que ele tivesse olhos
que a lembravam tanto de Richard. E quando a raiva passou, foi dominada por outras
emoções com as quais não queria lidar... Não precisava de um homem em sua vida
agora. Não mesmo. Um minuto depois, Trevor apareceu.
— Deve estar aqui em algum lugar. — Moveu-se atrás do balcão e inclinou-se de
uma forma que destacou os músculos de suas costas sob o tecido da camisa. — Pronto.
Colocou um envelope pardo sobre o tampo de fórmica do balcão e Brenda o
apanhou. Não havia endereçamento.
— Onde devo entregar isto?
— Provavelmente está escrito lá dentro. — Um brilho intenso surgiu nos olhos dele.
Embora relutante, ela sentiu-se atraída por aquele magnetismo outra vez. Trevor inclinou-
se por sobre o balcão, a mão apoiando o queixo forte. — Alguém já lhe disse que você
tem irresistíveis olhos verdes?
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
Ora, o homem estava flertando com ela! Ignorou o elogio e baixou os olhos. Abrindo
o envelope, sentiu-se exposta e encabulada. Retirou uma única folha de papel que dizia:
"Estou faminto. Que tal almoçarmos juntos?" Estava assinado "Trevor" numa letra
masculina e elegante.
O bilhete pegou-a de surpresa. Brenda já se achava no fim de sua paciência.
— Por que telefonou para a firma se não tem nenhuma entrega a ser feita?
Não gostava do modo alucinado com que seu coração batia em estar tão próxima a
ele, de como ficava com a respiração em suspenso quando o fitava, de ser objeto
daqueles intensos olhos azuis... O que menos precisava no momento era desses tipos de
complicações em sua vida.
— Bem, você tem que fazer um intervalo para comer em algum dado instante, não
é? Há um bom restaurante que conheço com uma tranqüila mesa de canto para dois a
nossa espera. Ou podemos comprar cachorros-quentes e dar uma volta.
Ela verificou o relógio, aproveitando para desviar o olhar.
— Hoje não. Estou sem tempo. — Havia um impulsivo lado seu que teria adorado a
companhia, pensou, mas estava atrasada e precisava compensar o tempo que havia
perdido. Sem mencionar que não conseguiria comer nada se estivesse a uma mesa para
dois com ele. Quem falava em olhos irresistíveis... Não, parar para almoçar estava fora de
cogitação.
— E eu aqui pensando que você havia simpatizado comigo. Estou arrasado. — Um
sorriso maroto curvou os lábios másculos e sensuais de Trevor. Brenda sentiu uma ponta
de culpa.
— Podemos combinar para um outro dia. Falo sério. Tudo está num caos para mim
no momento, e preciso colocar as coisas nos eixos. É possível que você tenha salvo
minha vida naquela noite. E lhe sou muito grata por isso. Estou lhe devendo essa. — Sem
jeito, ela ficou mexendo com as chaves do carro. — Que tal marcarmos algo para o
próximo fim-de-semana? Vai estar na cidade até lá?
Podia fazer aquilo, pensou. Com um pouco de tempo para se recompor, poderia
aprender a conter aquela atração fulminante por Trevor e deixá-la de lado o bastante para
pagar sua dívida com algum inofensivo encontro para jantar.
Ele saiu de detrás do balcão e se aproximou. O sorriso se dissipou, os olhos
adquiriram um ar frio, determinado.
— No próximo fim-de-semana? Que tal hoje à noite? — Por que ele a estava
pressionando? Que diferença alguns dias iriam fazer? Ela foi recuando até a porta de
saída.
— Sinto muito. Não posso.
— E não posso esperar todo esse tempo. Preciso conversar com você agora.
Algo na voz de Trevor a deteve perto da porta e a fez virar-se para fitá-lo. Estava
tenso; aproximava-se da janela com uma expressão anuviada, tinha os punhos cerrados.
O que estaria acontecendo ali, afinal?
Após uma pausa longa, estranha, ele virou-se da janela para fitá-la.
— Pouco mais de duas semanas atrás, recebi uma carta de seu ex-marido.
Ela gelou por inteiro, o ar pareceu lhe faltar.
— Você conhecia Richard?
— Não. Esse é o problema. Eu não o conheci. — Trevor soltou um profundo suspiro
e tornou a olhar pela janela. — Houve uma outra carta também, uma da mãe adotiva de
Richard.
Brenda mal se atrevia a se mover por receio de perder o frágil controle que mantinha
sobre si mesma no momento. A tensão que pairava entre ambos era sufocante. Trevor
venceu a pequena distância que os separava e examinou-lhe o semblante delicado com
um olhar perscrutador, enquanto uma expressão de indecisão passava por sua própria
fisionomia. Deteve-se, enfim, a fitar-lhe os olhos verdes, com um olhar que falava de uma
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
necessidade de confiança.
— Venha comigo. — Conduziu-a a um escritório ao final do corredor. Suavemente,
fechou a porta atrás de ambos e virou-se para encará-la.
Por longos momentos, permaneceu imóvel, a mão ainda na maçaneta, o olhar
cauteloso, hesitante. Algo naquela postura rígida, na expressão do rosto fez com que
Brenda se preparasse para o pior. Sentiu uma súbita necessidade de correr dali.
Ambos se entreolharam, e a idéia de fugir dissipou-se. Trevor desviou o olhar, mas
não depressa o bastante. A expressão torturada que acabara de vislumbrar e o instinto
diziam a ela que aquele homem estava sofrendo em seu íntimo. A inesperada
vulnerabilidade a fez baixar a guarda, o contraste com a força física tornando-o
perigosamente atraente.
O maxilar dele se enrijeceu, o rosto ficou desprovido de emoção. Parecia estar
ponderando ainda se devia confiar nela. Enfim, respirou fundo, sua expressão relaxou
ligeiramente e tudo indicava que decidiu que sim. Ainda prolongou o silêncio, como se
aquelas fossem as palavras mais difíceis que proferiria em sua vida.
Numa voz muito quieta, fez, finalmente, a revelação:
— Richard era meu irmão. Meu irmão gêmeo.

Capítulo 4

Brenda permaneceu ali no escritório dele apenas o suficiente para ser polida. Suas
pernas tremiam, suor frio cobria-lhe as palmas das mãos. Trevor estava lhe dizendo que
tinham que se reunir logo mais à noite para conversarem. Por dentro, ela gritava,
esperneava. Por que Richard não lhe contara que tinha um irmão gêmeo?
— Nos encontramos às sete horas, então — disse Trevor, enquanto ela ia se
aproximando da porta. Estava ansiosa para escapar.
Dirigiu feito louca para longe da Collins & Companhia, de Trevor e de mais uma
prova desconcertante de que a vida de Richard com ela fora uma farsa.
Ele mentira sobre a família, assim como fizera em relação ao trabalho. Todas
aquelas mentiras haviam arruinado o casamento de ambos... isso e a própria ingenuidade
dela. Até aquele último dia, teria acreditado que nevava nos trópicos se Richard assim
tivesse lhe dito. Confiara tanto naquele homem, fora tão ingênua! Quando as surpresas
desagradáveis cessariam de aparecer e a mágoa profunda passaria?
Desconfortável com as lembranças, fez mais uma ultrapassagem na estrada,
ignorando as buzinas ao redor. Jamais permitiria que alguém a fizesse de tola novamente.
Era final de tarde quando conseguiu completar sua programação do dia e retornar
para o escritório vazio a fim de deixar seus recibos. Ter dirigido pelas horas seguintes
aplacara sua raiva e frustração, como de costume. Organizou seus recibos depressa e
depositou-os nas caixas apropriadas. Não prestou muita atenção à voz de Jon, elevando-
se numa discussão atrás da porta fechada no meio do corredor, até que ele e Victor
apareceram. Ambos pararam junto à porta assim que a abriram e a viram no escritório,
expressões surpresas passando por seus rostos. Victor recobrou-se rapidamente.
— Pergunte você mesmo a ela — sugeriu Jon. Lançou-lhe um olhar desconfortável.
E, então, tentou ocultar sua tensão.
— Ora, Brenda — disse Victor Pernell, numa voz gentil. — O que aconteceu com
sua perna? — Ele observou-lhe o aparelho no joelho, genuína preocupação evidenciando-
se em seu cenho franzido.
Ela aproximou-se da mesa dos mensageiros, onde acabara de deixar suas chaves.
— Apenas um antigo machucado no joelho. Nada sério.
— De qualquer modo, lamento, minha jovem. E espero que se recupere logo. — O
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
patrão afastou-se para o lado para lhe dar passagem, a fumaça de seu charuto pairando
no ar.
Victor devia ter uns cinqüenta anos, imaginava ela. Sua figura de um metro e oitenta
ostentava uma flácida e enorme barriga que caía por sobre o cinto. Sempre falava em
tons calmos, suaves, numa voz gentil e controlada. Em contraste, os olhos escuros e
pequenos estavam em constante movimento de objeto para objeto, atentos a tudo ao
redor. O hábito a aborrecia, pois era difícil fitá-lo nos olhos por mais de alguns poucos
segundos.
Jon parecia agitado, mexendo muito com as mãos, passando uma pelos cabelos.
Apesar do dia inteiro de trabalho, parecia impecável como estivera pela manhã, em sua
calça cinza, camisa azul-clara e gravata conservadora.
— Precisa de mim para alguma coisa? — perguntou-lhe ela.
Seu supervisor virou-se para o dono da firma antes de lhe dar uma resposta.
— Você pode pegar o trem para Nova York na quinta-feira?
— Tenho uma aula na quinta, lembra? Essa não é uma época aconselhável para
faltar.
Ele se virou para Victor, que, com uma expressão inalterada, comentou:
— Pelo que eu havia entendido, você estava ansiosa para fazer as entregas e
retiradas de fora da cidade.
— É verdade. Mas apenas quando não interferirem com as minhas aulas.
— Entendo. — Victor olhou alternadamente para ambos antes de seus olhos se
deterem um pouco mais em Jon. — Parece que você cometeu um engano. Programe
Gary para a viagem a Nova York. Ou, melhor ainda, mande Rafi. Ele não vai recusar as
horas extras.
A confusão irritou Brenda. Ela e Jon haviam conversado detalhadamente sobre
quais os dias em que estava livre para viajar e fazer os serviços externos. Sentiu o
pagamento extra escapando por entre seus dedos.
— O intervalo de primavera do meu curso não vão demorar a chegar. Estarei
disponível em qualquer desses dias de férias para viajar.
Ela detectou um brilho de interesse nos olhos de Victor, enquanto se deteve a fitá-la
por mais tempo do que o costume.
— Ótimo — assentiu, satisfeito. — Jon, não se esqueça de anotar isso —
acrescentou ao supervisor de sua firma antes de seguir pelo corredor e tornar a se fechar
em seu escritório.
Brenda, enfim, virou-se para seu chefe, em busca de algumas respostas.
— Falaremos sobre o intervalo de seu curso amanhã — disse Jon. — Vejo que está
a caminho de casa e não quero detê-la por mais tempo. — Aproximou-se da porta e
esperou que ela saísse.
Uma vez em seu carro, Brenda procurou esquecer a estranha cena no escritório.
Afastou seu banco para trás até que seu pé mal tocasse no pedal do acelerador, para
forçar-se a ir devagar. O recurso foi desnecessário, já que dirigiu para casa em meio a um
tráfego congestionado, lento, preocupada com pensamentos sobre Richard e Trevor.
Precisava de mais tempo para digerir o fato de que seu ex-marido tivera um irmão...
um gêmeo do mesmo parto, embora não idêntico. Não estava com pressa para o
encontro daquela noite. O que poderia dizer a ele sobre um homem que pertencia a um
passado que queria esquecer?
Repassando cada conversa com Richard de que pudesse se recordar, procurou por
alguma menção a um gêmeo. Claro que se lembraria se tivesse feito alguma... Além
daquela inesperada revelação, o que mais a inquietava era a imagem de Trevor em seu
escritório, tentando esconder sua dor e lutando com sua necessidade de confiar nela. A
aberta vulnerabilidade tocou-a a fundo.
Assim que chegou em casa, Brenda subiu diretamente para o chuveiro. Quando se
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
descobriu hesitante sobre o que vestir, tentando arrumar seus cabelos com a ajuda do
secador e colocando seus brincos favoritos de pérolas, censurou-se implacavelmente.
Como, afinal, podia ficar se importando sobre o que o irmão de Richard pensaria de sua
aparência? Céus, tinha que dizer ao homem o que pudesse e ponto final!

Trevor chegou exatamente às sete horas, usando uma calça de pregas caqui e uma
impecável camisa social branca, realçada por uma bonita gravata estampada. Quando
entrou no pequeno vestíbulo, o azul de seus olhos pareceu mais intenso, sua aura de
masculinidade, mais irresistível. Brenda conduziu-o à sala de estar.
— O lugar ficou ótimo — comentou ele, olhando ao redor. — Teve bastante trabalho
nestes últimos dias para pôr tudo em ordem. — Sentou-se na poltrona favorita de tia
Maude e deteve-se a observar as fotografias de família que ela colocara em novos porta-
retratos e devolvera à mesinha de canto.
O comentário a fez sorrir. Era uma reação natural, espontânea, e Brenda sentiu-se
relaxando um pouco.
Ele apanhou um dos porta-retratos e estudou a velha fotografia atentamente.
— Esta é você? — Ela assentiu.
— E esta deve ser sua família. Posso ver a semelhança. Vocês têm os mesmos
olhos verdes.
Trevor estava segurando a foto de sua mãe e seu pai com ela e a pequena Anne.
Após todos aqueles anos, ainda sentia falta dos três...
— Todos morreram num desastre de avião quando eu tinha doze anos.
Brenda levantou-se abruptamente do sofá ao lado.
— Que tal uma cerveja?
— Seria ótimo.
Sentindo uma serenidade incomum para momentos como aquele, ela encaminhou-
se até a geladeira e pegou uma garrafa de cerveja. Preencheu duas das canecas que
haviam pertencido a seu pai. Lembrar-se de sua família sempre a deixava deprimida ou
inconformada, mas o fato de Trevor ter notado as fotos e mostrar algum interesse a
respeito já a fez sentir-se melhor. Tia Maude sempre tivera o excessivo cuidado de evitar
qualquer referência à sua família. Richard nunca perguntara a respeito.
Aquela descontração, porém, não poderia durar. Trevor estava sendo muito cordial e
polido e parecia tão relutante quanto ela em quebrar esse clima, mas, cedo ou tarde,
teriam que abordar o assunto que o trouxera ali. Falar sobre o irmão era a verdadeira
razão da presença dele, lembrou a si mesma, não admirar sua casa e suas fotos de
família.
Ela entregou-lhe uma das canecas de cerveja gelada, e sentou-se com a sua no
sofá. Ansiava para que falassem logo sobre Richard, para que Trevor se fosse. Tê-lo em
seu lar era algo que a inquietava. Pareciam sintonizados demais juntos. Ele parecia se
encaixar perfeitamente ali. E ela estava apreciando a companhia um tanto demais para
seu próprio bem.
E, principalmente, todos os seus sentidos respondiam àquele homem. Sentia a
fragrância suave de seu perfume amadeirado, a voz possante vibrava em seu íntimo. Os
traços masculinos e bem-feitos atraíam-lhe o olhar, o sorriso era cativante. E mais de uma
vez, Brenda se flagrou pensando como seria sentir o gosto daqueles lábios de formato tão
sensual estimulando os seus... Ou como seria percorrer-lhe os ombros largos, o peito,
com as palmas das mãos, traçando-lhe os contornos dos músculos.
Tornando a censurar a si mesma severamente, afastou a linha de pensamento. Sem
dúvida, era fácil demais esquecer-se quem era Trevor e o porquê de estar ali.
Mas será que estaria mesmo em sua casa pelo motivo que dissera? Talvez não
fosse irmão de Richard. Talvez estivesse atrás dos títulos e aquela história de gêmeo não
passasse de uma cilada.
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
Subitamente, suas suspeitas pareceram quebrar o clima aconchegante inicial. O
silêncio se prolongou, tornando-se desconfortável. Enfim, decidiu rompê-lo.
— Ouça, eu lhe devo pelo menos este encontro por ter me ajudado naquela noite.
Não há necessidade de nenhuma história estranha sobre gêmeos.
O semblante de Trevor se endureceu. Depositou a caneca de cerveja na mesa de
centro de imediato. Tirou um envelope do bolso e entregou-o a ela.
— Recebi isto três dias antes de Richard ter sido encontrado morto.
Brenda também deixara sua cerveja na mesinha e agora olhava fixamente para o
envelope. Um nó formava-se em sua garganta.
— Abra-o e leia a carta.
Ela respirou fundo e assentiu. Sua última esperança de descobrir que aquela história
de gêmeos era uma farsa morreu quando leu a carta da mãe adotiva de Richard,
contando como o adotara quando bebê.
Fez uma pausa após a primeira página.
— Como alguém poderia adotar só um gêmeo abandonado, deixando o outro para
trás?
— Leia um pouco mais. Evidentemente, os médicos acharam que eu não
sobreviveria, porque não estava ganhando nenhum peso.
Brenda terminou de ler a carta, triste com o que aquelas linhas iam desvendando.
Lembranças de sua própria família povoaram-lhe a mente. De fato, era cruel quando o
destino interferia de forma tão irremediável.
— Durante todos esses anos, nenhum de vocês soube que o outro existia? Como
uma mãe poderia fazer isso com seu filho? — Ela olhou para a data da carta. — Isto está
datado de dois anos atrás! — Não apenas Richard estivera vivo na época, como ainda
tinham sido casados!
Silencioso, ele passou-lhe às mãos uma folha de papel dobrada. Brenda abriu-a
depressa. Era uma carta datada de alguns dias antes da morte de Richard. Reconheceu a
letra de imediato. Durante um ano e meio, tentara esquecer-se de seu casamento,
superar essa fase de pesadelo. Agora, toda a dor e humilhação, toda a culpa, voltaram de
uma vez, como numa enxurrada de emoções.

"Trevor,
Preciso de sua ajuda. Estou muito encrencado. Me encontre no Aeroporto Dulles na
quarta-feira à noite, às sete horas".

Brenda não teve dúvida de que a assinatura na carta era de seu ex-marido.
Levantou os olhos para encontrar os de Trevor. Ambos sabiam que Richard morrera
naquele exato dia. Por um momento, tentou imaginar como ele estaria se sentindo, sua
frustração, a curiosidade, a angustiante sensação de perda de um irmão que jamais
conhecera.
— Nem sei o que dizer.
— Richard nunca lhe contou que tinha um irmão gêmeo?
— Ao que tudo indica, ele não me contou quase nada sobre si mesmo, sobre sua
vida. — Ela soltou um profundo suspiro, arrependendo-se do revide um tanto áspero.
Precisava conter a raiva ebulindo em seu íntimo. — Me desculpe. Vamos tentar de novo.
Trevor apanhara a caneca e levava-a aos lábios, seu olhar estava um tanto fixo,
exibindo frustração, uma certa ansiedade, e Brenda prometeu a si mesma cooperar com o
que pudesse. A raiva por ter sido tão enganada no passado teria que esperar.
— O que ele contou a você sobre a família?
— Me disse que era adotado. Pelo que eu sabia, era filho único. Antes de nos
casarmos, eu o ouvi contando a minha tia sobre uma irmãzinha que morreu dormindo no
berço.
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
— Quanto aos pais dele? Alguma vez os mencionou?
Brenda colocou as cartas na mesinha e, depois, bebericou de sua caneca
distraidamente. Lembrava-se de como ficara desapontada quando os pais de Richard não
tinham podido retornar aos Estados Unidos para o casamento de ambos. Ao menos, fora
isso que ele lhe dissera. De vez em quando, ao lhe perguntar sobre os pais, Richard
costumara mencionar o recebimento de uma carta ou telegrama. Dava-se conta agora do
quão pouco soubera sobre a família do ex-marido.
— Nunca conheci os pais dele.
— Tem alguma foto, um álbum de família, ou algo assim?
Brenda pensou nas poucas vezes em que tirara fotografias com Richard. Houvera
uma pequena caixa de sapatos cheia de fotos instantâneas tiradas antes de terem
começado a morar entre ali e Nova York.
— Não. Joguei tudo fora.
Ele recostou-se na poltrona, a expressão neutra. Ela desejou de todo o coração ter
sabido sobre um irmão alguns meses atrás. Trevor teria gostado de ver as fotos.
— Imagino que tenha lido sobre a investigação nos jornais.
Brenda assentiu. Um novo nó em sua garganta impedindo-a de falar. Nervosamente,
tornou a deixar a caneca de cerveja sobre a mesinha. Ninguém sabia que ela vira aqueles
títulos ao portador na pasta de couro de Richard. Como gostaria de jamais ter pousado os
olhos naqueles papéis. Não ter contado às autoridades que vira os títulos roubados
tornara-a uma parte daquele escândalo. Será que chegaria a superar a culpa algum dia?
— Faz alguma idéia do que houve com os tais títulos roubados?
— Não. Mas os agentes federais ficaram me rondando atrás de informações, como
se eu soubesse onde estão os títulos. — Brenda levantou-se abruptamente do sofá e
começou a andar pela sala, seus punhos cerrados. — Como eu poderia saber onde
estão? Não vejo Richard há um ano e meio. O divórcio oficial saiu seis meses atrás. Mas
depois que nos separamos, nunca mais o vi.
— Preciso lhe perguntar mais uma coisa. — A voz de Trevor soou grave, a tensão
que o invadia era quase palpável. Ela parou de andar de um lado ao outro e sentou-se
novamente no sofá.
— Sim?
— Você foi a esposa de Richard. É provável que o tenha conhecido melhor do que
ninguém.
— Começo a acreditar que não o conhecia em absoluto.
— Você acha que ele se suicidou? — Havia uma nota de angústia na voz de Trevor.
— Não. Já pensei a respeito e realmente não consigo imaginá-lo cometendo
suicídio. — Richard fora arrogante e presunçoso, convencido demais de sua importância
para dar fim à própria vida. Céus, ela aprendera isso da maneira mais difícil...
Um ligeiro alívio passou pelo semblante de Trevor. Conteve-se de imediato,
mantendo sua expressão sob controle; algo que Richard jamais teria feito. A essa altura,
ele estaria reclamando, esperneando, esbravejando ofensivamente sobre a audácia de
algum sujeito tê-lo esperado completar trinta e cinco anos de idade para anunciar que
eram gêmeos.
— Deve ser estranho para você descobrir de repente que tem um irmão gêmeo.
— Tinha. — Ele franziu o cenho. — Ouça, não posso mudar o passado, mas se for
possível limpar o nome de Richard, é o que quero fazer. Se não for, posso ao menos
tentar esclarecer toda a verdade e, assim, conseguir amenizar tudo de negativo e
difamatório que li nas especulações dos jornais.
Como podia lhe dizer que o irmão roubara os títulos ao portador e os substituíra por
falsos?, perguntou-se Brenda. Richard se vangloriara da qualidade dos títulos falsificados
quando o confrontara com os papéis roubados que encontrara na pasta executiva. Ele
continuara falando e falando sobre como era fácil para um corretor esperto fazer a troca,
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
que qualquer um em sua posição teria condições de fazer isso se tivesse sua inteligência.
Bem, com o tempo, Trevor teria que enfrentar o fato de que seu irmão fora um ladrão.
Se ao menos ela soubesse onde os títulos estavam escondidos, poderia ajudar a ele
e a si mesma ao mesmo tempo. Procurara em cada lugar possível e imaginável.
Conversara com todas as pessoas que se lembrara de terem conhecido Richard.
Ninguém soubera lhe dizer nada.
— Eu estava pensando. Os agentes que estiveram me atormentando têm certeza
que Richard teve uma grande participação na fraude. E se encontrássemos os títulos
desaparecidos e os devolvêssemos no nome dele? Isso ajudaria a amenizar o escândalo?
— Eu gostaria de encontrar esses títulos. Talvez fosse uma forma de conseguir
entender o que aconteceu com ele naquela noite.
— Talvez se nos empenhássemos, nós dois poderíamos resolver esse mistério dos
títulos sozinhos. E receio que não seja uma oferta altruísta da minha parte. Quando os
títulos aparecerem e forem devolvidos, as invasões a minha casa terão um fim e minha
vida voltará ao normal.
Trevor ergueu uma das sobrancelhas espessas e abriu um largo sorriso.
— Pode contar comigo. Parece a solução ideal.
A voz continha o mesmo entusiasmo que se estampava em seu rosto atraente.
Brenda apreciou a forma como aqueles olhos azuis se alternaram de compenetrados para
repletos de promessas. Algo lhe disse que estava gostando de tudo naquele homem um
pouco demais, além do que lhe permitiria o bom senso. Fazia uma prece silenciosa para
que esse plano de ambos não fosse um erro.
— Richard levou tudo consigo quando saiu de casa?
— Eu saí de casa. Nós morávamos em Nova York na época da separação. Esta é a
casa da minha família. Richard havia alugado um quarto aqui, de minha tia. Foi assim que
o conheci. Depois que nos casamos, moramos aqui só por uns tempos. Mas após a morte
de tia Maude, nós ficamos praticamente vivendo entre aqui e um apartamento em Nova
York.
— Então, pode ser que ainda haja coisas dele na casa.
— Oh, sem dúvida. Há um quarto lá em cima cheio de coisas dele. Mas, pelo que
pude ver até o momento, é tudo de antes do nosso casamento. Tenho verificado um
pouco de cada vez. Ele estava longe de ser a pessoa mais organizada do mundo.
Trevor levantou-se, colocou as mãos nos bolsos e aproximou-se devagar da janela.
— Sei que isto deve estar sendo desagradável para você, desenterrar um
casamento do qual saiu.
Ela não gostou daquele tom de julgamento.
— Ei, espere um minuto.
— Pelo que entendi, você o deixou, não foi?
— De certa forma, sim, e por razões que não são de sua conta.
Brenda jamais se arrependera da dissolução de seu casamento. Por que a óbvia
desaprovação de Trevor reavivava sua raiva?
Não tinha que pedir desculpas por seu divórcio, oras. Talvez algum dia conseguisse
se esquecer daquela última cena deplorável quando confrontara Richard a respeito dos
títulos roubados que vira na pasta. Talvez algum dia tivesse condições de descer um
lance de escadas sem estremecer. Sem sentir as mãos dele em suas costas... Céus, sem
reviver na lembrança a terrível dor em sua cabeça batendo na parede e seu joelho se
torcendo em ângulos perigosos.
Uma coisa era certa. Jamais se esqueceria de ter acordado num hospital com uma
amnésia parcial, a espera de que Richard chegasse para vê-la, nem da absoluta angústia
e revolta que sentira quando sua memória voltara e soubera que nunca mais queria vê-lo
novamente.
— Brenda? — Trevor sentara-se no sofá, a seu lado. — Ei, eu sinto muito. Acho que
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
me excedi. Você está bem?
Como que despertando de um transe, ela virou-se para fitá-lo. O tom intenso de azul
dos olhos com que deparou era familiar. A ternura, a gentileza e o arre pendimento que
exibiam eram o fator novo, que diferenciava.
— Acho melhor que você se vá agora. — A voz de Brenda soou fatigada e um tanto
trêmula.
Trevor recolheu as cartas na mesinha. Havia ansiedade em seu semblante.
— Podemos conversar outra vez? Creio que seu plano daria certo.
Ela sentiu-se dividida entre suas lembranças dolorosas de Richard e a necessidade
de encontrar os títulos.
— Eu... não sei. Acho que não.

Trevor aguardou na varanda da frente até que a ouviu trancando a porta. Sabendo
que estava segura em casa no momento ao menos lhe dava alguma paz de espírito.
Estragara tudo outra vez, droga! Quem ele pensava que era para ficar fazendo
comentários sobre o casamento dela? Por que só de pensar em Brenda na cama de um
outro homem mexia tanto com seus nervos? Que tipo de pensamento de irmão era esse?
Entrou em seu carro e baixou o vidro da janela. A noite límpida e amena de
primavera carregava a promessa de dias mais quentes que estavam por vir, dias
melhores, quando poderia dizer a Barney que encaminhasse seu pedido de desligamento,
dias quando poderia trabalhar com os garotos carentes na Collins & Companhia em
tempo integral. Dias em que também saberia quem ele era ao certo.
Como, afinal, deveria estar se sentindo sobre a descoberta de um irmão gêmeo?
Lentamente, foi se afastando da casa pelo caminho de cascalho. Esboçou um
sorriso ao perguntar-se qual teria sido a reação dela se o tivesse flagrado ali pela manhã,
quando estivera bloqueando o acesso para bancar o protetor. Ele próprio não se cansava
de dizer a si mesmo que vigiar e proteger fazia parte de seu trabalho. Aqueles bandidos
voltariam, cedo ou tarde.
Aliás, naquela mesma manhã, descobrira um método mais eficaz. Do outro lado da
estrada de mão dupla, mais ou menos de frente para a entrada sinuosa até a casa de
Brenda, havia uma estradinha de terra abandonada, quase totalmente tomada por mato e
arvoredos. Seria o lugar perfeito para ficar de tocaia, pois dali teria uma visão nítida de
qualquer movimento no caminho de acesso à casa, com a vantagem de ficar camuflado.
Saindo para a estrada deserta, ele foi manobrando com cuidado e posicionou o
carro de forma a entrar de ré na estradinha escura e encoberta. Deu-se por satisfeito
quando seu carro ficou totalmente oculto pela vegetação ao redor. Baixou o banco,
ajustando-o até o ângulo exato para que pudesse ver pelo pára-brisa, através de uma
abertura entre os galhos de umas árvores. Como pensara, dali poderia ver tudo que acon-
tecesse no caminho de cascalho.
Ajeitou-se confortavelmente, enquanto seus pensamentos continuavam em
turbilhão. Ligou o telefone e o ouviu tocando no instante seguinte.
— Onde diabos você esteve?
— Como vai, Barney?
— Quantas vezes tenho que lhe dizer para não deixar o telefone de seu carro
desligado? Estou tentando entrar em contato com você há horas. — A essa altura, o
chefe estava gritando a plenos pulmões. — O que descobriu?
— Nada ainda. Preciso de um pouco mais de tempo...
— Não dispomos de tempo. Estou lhe dizendo, a pressão está vindo de todos os
lados... da companhia de seguros, do comitê da Bolsa de Valores. Já falou com a srta.
Michaels?
— Sim, mas acho que ela não sabe de nada.
— Ouça, Steele. Ela tem que saber de alguma coisa. Não tem havido nenhum
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
assalto na área onde mora. Aqueles homens estavam atrás dos títulos. Verifiquei os
relatórios da investigação novamente. Sabia que havia algo de familiar quanto ao
endereço dela.
— Eu sei. Eu os li.
— Richard Tapp esteve lá uma semana antes de ter partido para o outro mundo.
Trevor contraiu o semblante ante a casual referência de Barney ao aparente suicídio
de Richard.
— Isso não significa que ela esteja envolvida. — As Palavras soaram mais ásperas
do que ele pretendeu, Barney ficou em silêncio por longos momentos.
— Há alguma coisa que não esteja me contando, Steele?
— Não. A situação está sob controle.
— Revistou a casa?
— Ainda não.
Barney praguejou alto em resposta, e Trevor afastou o fone de seu ouvido.
— Droga, talvez eu deva esquecer este acordo que fizemos. Talvez eu deva
convocar Brenda Michaels para um interrogatório e parar de ficar pisando em ovos. Do
contrário, alguém vai pegá-la e pressioná-la no nosso lugar.
— Não faça isso, Barney.
— Não quero nem pensar na hipótese das pessoas erradas trocando aqueles títulos
por dinheiro vivo. Valem milhões de dólares, Steele.
— Me dê duas semanas. Deixe-me ver o que posso fazer.
— Depois disso, nem mais um minuto, ouviu bem? E Trevor? — Barney ainda
conseguiu alcançá-lo quando estava prestes a desligar. — Quanto àquela verificação em
registros hospitalares de um ano e meio atrás, em Nova York... Bem, ela ficou muito
ferida.
Trevor desligou. Bateu no volante com o punho cerrado? Muito ferida? Que diabos
isso queria dizer? Como alguém podia ficar "muito ferido" caindo de uns poucos degraus?
Passou a mão pelos cabelos em súbita agitação. Com toda clareza em sua mente,
surgia Brenda, os olhos verdes cintilando, os cabelos castanhos e lustrosos caindo-lhe até
os ombros, o narizinho perfeito... o corpo curvilíneo oculto pelo discreto vestido verde-
escuro que estivera usando naquela noite, as pernas graciosas, bem-torneadas. Vê-la
com o aparelho no joelho já fora ruim o bastante. Não podia, não queria, visualizar, algo
pior.
Mas o que, precisamente, teria acontecido um ano e meio atrás que a fizera parar
num hospital?
Sacudiu a cabeça como que para clarear o passado. Ninguém chegaria até ela
agora. Nem os bandidos, nem Barney. Talvez sua proteção estivesse sendo um pouco
excessiva e não exatamente do tipo fraternal.

Brenda começou a descer as escadarias desde o quarto andar do prédio onde


estudava o mais depressa que pôde. O aparelho no joelho diminuía-lhe a velocidade.
Puxa, de todas as noites para que o elevador apresentasse defeito... Chegando ao
terceiro andar, afastou-se para um canto e removeu o aparelho do joelho, guardando-o na
mochila.
Ainda não havia saído de casa sem usá-lo nos últimos dias. Antes de prosseguir,
testou a perna machucada. A dor era mínima, não latejante como anteriormente. Com um
suspiro satisfeito, apanhou sua mochila e continuou descendo a escada, um degrau de
cada vez, segurando-se no corrimão por via das dúvidas.
A maioria dos estudantes ultrapassou-a, vencendo depressa os degraus sem sequer
olhar para trás, tão ansiosos quanto ela para escaparem da aula mais cedo do que o
costume. A ansiedade de Brenda originava-se em fontes mais pessoais. O curso de
administração estava totalmente deslocado da realidade de sua vida no momento. Como
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
podia se preocupar com objetivos a longo prazo com o fantasma de seu ex-marido a
assombrá-la diariamente?
Não tivera mais notícias de Trevor. Não podia afastá-lo de seus pensamentos, por
mais que tentasse. A consciência a alfinetava por sequer tentar. Ele tinha o direito de
perguntar sobre o irmão, e era sua obrigação moral contar-lhe o que pudesse.
Se ao menos as lembranças não fossem tão dolorosas não se sentiria tão relutante
em falar a respeito... E se Trevor não tivesse despertado a sua raiva naquela outra noite.
Qual seria a sensação de saber que um irmão recém-descoberto era suspeito num
escândalo de milhões de dólares. Toda a situação devia estar sendo um pesadelo para
ele também.
Os dois poderiam encontrar os malditos títulos se os procurassem juntos? Talvez a
lembrança diária de Richard não fosse um preço tão alto a pagar para, depois, selar
definitivamente o passado.
Chegou ao final da escadaria, certa de que era a última estudante de sua classe a
deixar o prédio. Logo que abriu a pesada porta da frente, sentiu uma inesperada rajada de
vento. O céu noturno estava carregado de nuvens, o campus ao redor, vazio. Pegou as
chaves da mochila e apressou o passo rumo ao estacionamento.
Enquanto abria a porta de seu Volkswagen, dois homens se aproximaram por entre
as fileiras de carros. Ao chegarem mais perto, ela constatou que eram os dois que haviam
revirado sua casa. Colocou as chaves no bolso da saia jeans e pegou sua lata de spray
tóxico de uma repartição na frente da mochila.
Achavam-se a uma distância de três carros, um seguindo o outro de perto.
— Não sei onde estão os títulos — disse ela. — Será que não entendem isso?
Acham que eu estaria andando normalmente por aí se estivesse com eles?
Esperava que a razão os convencesse a deixarem-na em paz, mas os bandidos não
pararam, nem sequer hesitaram. Quando a luz do estacionamento revelou a expressão no
rosto deles, soube que nada do que dissesse adiantaria. Olhos frios e implacáveis
encaravam-na.
Ergueu a lata de spray no ar para que ambos a vissem.
— Isto aqui dói muito...
Um sorriso de escárnio surgiu no rosto do homem mais alto, enquanto esticava a
mão para frente. Brenda recuou um pouco e defendeu-se com o spray. O homem gritou e
cobriu os olhos com as mãos. Praguejando, foi caindo para trás de encontro ao comparsa
que vinha logo atrás.
Com o coração disparado, Brenda pulou para dentro do carro, bateu a porta com
força, baixou o pino de segurança e deu a partida... tudo em questão de segundos. Ouviu
os pneus de seu carro cantando, enquanto saía de sua vaga e se afastava em disparada
do estacionamento.
Quando olhou pelo retrovisor, viu o furgão escuro vindo no seu encalço.

Capítulo 5

As filas na loja de conveniência estavam longas. Trevor apanhou uma lata de soda,
um pacote de salgadinhos, depois ficou na fila para pedir seu cachorro-quente. Sentia-se
inquieto, impaciente, e batia no chão com a ponta do pé. A cacofonia de vozes ao redor
foi se transformando num som abafado ao fundo. Absorto em seus pensamentos foi sen-
tindo um desconforto crescente, uma preocupação que o perturbava. Algo estava errado,
mas não sabia exatamente o quê.
Enfim, pagou a comida e abriu caminho entre os vários fregueses até a porta.
Estava ansioso para que a noite terminasse. Tão logo seguisse Brenda de sua aula até
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
em casa, iria confrontá-la novamente a respeito de Richard. Não adiaria mais a situação.
Logo notou que uma ventania se formara quando saiu da loja. A temperatura
diminuíra consideravelmente. Caminhou depressa em direção ao estacionamento do
campus, sua inquietação aumentando, impulsionando-o.
Sim, havia algo errado...
Estava quase correndo quando chegou ao carro, e não tinha certeza do porquê. Deu
uma mordida no cachorro-quente e olhou ao redor. E quase engasgou. A vaga de
estacionamento de Brenda encontrava-se vazia.
Seu coração se acelerou ao examinar o estacionamento. Onde estaria ela? Verificou
cada fileira de veículos, na esperança de ver o pequeno Volkswagen verde-escuro. Nada.
Entrou em seu carro depressa, pretendendo seguir pelo caminho mais curto possível
até a casa dela. Adivinhar que percurso Brenda teria feito era impossível. Conhecendo-a
um pouco, já podia supor que provavelmente teria seguido por alguma estrada
abandonada entre os bosques. Estaria segura? Ou será que aqueles dois bandidos a
haviam pegado?
O temporal começou dez minutos depois, obscurecendo-lhe a visão. Havia uma
formação de nevoeiro, que ia ficando mais espesso na medida em que se apro ximava da
região atravessada pelo rio Potomac.
Praguejando a cada semáforo vermelho, foi dirigindo o mais rápido que pôde. A
impaciência crescia com o trânsito intenso, com o agravante da chuva. Em pouco tempo,
porém, o temporal foi diminuindo até se estabilizar numa chuva menos torrencial.
Um forte temor continuava a assaltá-lo. A lógica tentava lhe dizer que ela estaria
perfeitamente segura em casa a essa altura. Mas o instinto o alertava sobre algum perigo.
Não conseguia dissipar aquela impressão de que algo havia acontecido.
Finalmente, deixou a Rota 1, entrando pela estrada de mão dupla que conduzia à
casa dela. A escuridão ao redor era quase absoluta. Colinas mal se distinguiam ao longe
entre alguns fracos pontos de luz. O nevoeiro se acentuara agora que estava ainda mais
próximo ao rio. Pisando fundo no acelerador, ele venceu a primeira curva aberta e avistou
uma tênue luz avermelhada de lanternas traseiras. Aliás, havia dois pares delas. O carro
da frente vencia as curvas fechadas e continuava avançando velozmente. Podia apostar
que era Brenda. Pelo que pudera observar das vezes em que a seguira, parecia que
ninguém podia vencê-la numa estrada. Sim, era provável que fosse ela. Mas quem estaria
dirigindo o outro carro?
Enquanto os dois veículos se aproximaram de uma bifurcação na estrada, Trevor
viu, boquiaberto, que a noite escura tragou o carro da frente. Os faróis tinham sido
apagados! Não havia dúvida agora. Só podia ser Brenda. Ninguém exceto ela correria tal
risco. Aquela mulher era um ás do volante. Ele acelerou, sorrindo consigo mesmo
enquanto o segundo veículo virou à direita, sendo que deveria ter virado à esquerda. Ela
os despistara. Por enquanto.
Essa era sua chance. Estivera diminuindo a distância entre eles rapidamente.
Enquanto o veículo manobrava para corrigir a entrada errada, Trevor acelerou mais.
Chegou à esquerda da bifurcação momentos antes que o outro carro, os faróis quase
cegando-o. Passou direto e ganhou a dianteira.
A visibilidade estava péssima. Estreitou os olhos a procura de algum movimento à
frente. Enfim, seus faróis distinguiram o Volkswagen através do nevoeiro. Estava se
aproximando da entrada do caminho de cascalho. Ele aumentou a velocidade, sabendo
que teria que frear bruscamente para conseguir desviar à esquerda a tempo.
Alcançou o carro dela um pouco antes de terem que desviar e desligou e ligou os
faróis para fazer-lhe um sinal. Não adiantou. Brenda não o reconheceu na escuridão;
continuou avançando e diminuiu abruptamente a fim de fazer a curva para entrar no
caminho de acesso à sua casa. Trevor fez o mesmo e notou pelo retrovisor os faróis do
veículo que os alcançava. No último segundo, Brenda deu uma guinada brusca para o
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
lado e o fechou. Certo de que iria bater no carro dela, Trevor virou freneticamente o
volante para desviar e acabou mergulhando a frente numa valeta no acostamento. Bateu
a cabeça de encontro à janela lateral, o que o desorientou momentaneamente.
Instantes depois, um furgão escuro entrou pelo caminho de cascalho atrás do
Volkswagen.
Brenda pisou nos freios e saltou do carro. A chuva copiosa batia-lhe de encontro ao
rosto, o vento emaranhava seus cabelos. Ouviu o furgão freando bruscamente logo atrás
na clareira.
Era uma curta distância até a casa. Podia vencê-la. Com as chaves na mão,
apressou-se rumo à varanda da frente. Ouviu as portas do furgão batendo. Desejando
poder correr, obrigou-se a caminhar o mais depressa que podia. Ignorou a nova dor no
joelho.
Achou que estaria segura em casa quando começou a subir os degraus. Tarde
demais lembrou-se de como as tábuas ficavam escorregadias quando chovia.
Escorregou, as chaves escaparam-lhe da mão. O joelho bateu na quina do último degrau,
e ela caiu para trás, mal tendo tempo para se segurar a fim de não rolar para a lama
abaixo. Conseguindo sentar-se no primeiro degrau, segurou o joelho com um gemido de
dor.
Os bandidos estavam perto demais. Ouvia-lhe os gritos, as passadas pesadas de
encontro ao cascalho. Num misto de pânico, frustração e raiva, ergueu os olhos e os viu
através do nevoeiro já se aproximando de seu carro.
O som de um disparo atravessou o ar.
— Estão com algum problema, rapazes?
Trevor! A voz possante dele ecoara pela clareira. De onde teria vindo? Uma onda de
esperança renovada invadiu Brenda.
Os homens viraram-se de imediato para confrontá-lo, depois discutiram um com o
outro por vários segundos. O mais baixo disse, enfim, ao comparsa:
— O chefe não quer problemas.
O mais alto correu para o furgão e, então, chamou o colega, exasperado.
— Não fique aí parado! Venha.
O veículo, então, recuou, espirrando lama e cascalho e foi manobrando até ficar de
frente para Trevor.
Brenda observou, horrorizada, enquanto o grande furgão o desafiava, ameaçava,
máquina contra homem. Ela queria poder ter tempo de se levantar e empurrá-lo do
caminho, bloquear o furgão, fazer qualquer coisa, porque Trevor continuava parado lá,
obstinado, a arma apontada para o veículo.
O furgão ficou acelerando, a fumaça que saía do escapamento misturando-se ao
nevoeiro. Avançou subitamente para cima de Trevor. O disparo agudo da arma fez com
que o coração dela quase parasse. Cerca de dois metros dele, o furgão desviou
bruscamente para a direita e seguiu em disparada de volta pelo caminho de cascalho.
Trevor não se movera, nem um milímetro sequer. Aquele homem seria maluco?,
perguntou-se Brenda. Deixou cair os ombros, enquanto a tensão se dissipava, esgotando-
se juntamente com o restante de suas forças.
As lanternas traseiras do furgão desapareceram do raio de visão, e Trevor correu
em direção à varanda.
— Onde diabos está o aparelho do seu joelho? — bradou antes mesmo de parar.
— Na mochila. Eu não precisei mais usá-lo, está bem? — Brenda levantou os olhos,
mal conseguindo ocultar o alívio em vê-lo ali parado à sua frente, apesar das mãos nos
quadris em impaciência e o cenho franzido. Só de pensar que ele podia ter ficado sob as
rodas do furgão, estremecia.
— Você gosta de atrair problemas, sabia? Alguém já lhe disse que dirige feito um
piloto de corrida?
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
Ela sentiu a raiva vindo à tona, a única defesa que lhe restara.
— Você é um idiota! Podia ter sido morto. E para quê? Para dar o gosto aqueles
dois trogloditas de atropelarem você? — O nó na garganta surpreendeu-a.
A chuva escorria pelo rosto de Trevor, tão depressa quanto o misto de emoções
passando por seu semblante. Frustração, surpresa, confusão e uma espécie de
intensidade difícil de decifrar. Ele colocou a arma na cintura da calça e agachou-se junto
ao primeiro degrau da varanda, ignorando-lhe por completo o acesso de raiva.
— Deixe-me ver esse joelho. — O olhar dele se suavizou ao tocar-lhe a pele com
gentileza. — Já está inchando, mas você vai sobreviver para dirigir outra vez. Pode
andar?
— Posso! — Ela afastou-lhe a mão que ia lhe segurando o braço, determinada a
levantar-se sozinha.
— Sabe que é a mulher mais teimosa que...
— Meus problemas não são seus, sr. Steele. — Resquícios do medo que sentira
pela vida de Trevor tornaram a lhe inflamar a raiva.
— É aí que você se engana, doçura.
— O que está fazendo aqui, afinal? Nas duas vezes em que preciso de ajuda, você
surge do nada como num passe de mágica. O que está havendo? E nem tente me dizer
que estava passando por acaso pela estrada. Posso ser um tanto ingênua, mas não sou
burra. Por que está aqui?
— Primeiro, acho melhor sairmos desta chuva. Depois, conversaremos.
Brenda foi subindo os degraus sentada e, então, apoiou-se no corrimão para se
levantar.
— Minhas chaves, sr. Steele, caíram por aí em algum lugar. Se não for muito
incômodo, poderia procurá-las para mim? Do contrário, teremos que arrombar a porta e
disparar o meu novo alarme contra ladrões, e acho que já tive emoção o bastante para
uma noite.
— E eu aqui achando que a parte emocionante estava só começando. — Ele piscou-
lhe um olho e subiu à varanda para procurar as chaves.
Encontrou-as no chão de tábuas e, em poucos segundos, desligou o alarme e abriu
a porta da frente. Notando que Brenda contraía o semblante de dor, enquanto se apoiava
na perna que não estava machucada, ergueu-a em seus braços e carregou-a para dentro.
Ela abraçou-o pelo pescoço automaticamente, repousando a cabeça no ombro forte.
Sabia que teria rejeitado aquela sensação especial de segurança sob circunstâncias
normais. Sentira-se segura e protegida com Richard também, no princípio, e bastava
olhar para onde isso a conduzira... De qualquer forma, não se achava em condições de
andar, e a firmeza com que Trevor a segurava demonstrava que não daria ouvidos a
protestos.
Brenda permitiu que o estranho calor se expandisse por seu corpo, por estarem
assim tão próximos, em sentir-lhe as batidas do coração de encontro a seu rosto, a
fragrância amadeirada do perfume. Naqueles momentos quase se esquecia da dor no
joelho. Ele carregou-a pelas escadarias, atravessou o corredor do andar de cima até o
quarto dela. Deteve-se ao entrar, segurando-a em seus braços.
— Você está ensopada.
Ela afastou a cabeça e levantou os olhos. Deparou com os azuis e ambos trocaram
um olhar demorado, muito próximos, como se mensagens secretas estivessem fluindo de
um para o outro.
— Pode me colocar no chão — disse Brenda, tentando ainda se apegar à raiva em
autodefesa.
— Está bem. — Trevor usou de um tom suave, sedutor. Olhou ao redor do quarto e,
então, depositou-a com gentileza sobre a banqueta da penteadeira. — Precisa de roupas
secas. — Ele parecia seguro e confiante como sempre, seus traços másculos em total
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
harmonia com as gotas deixadas pela chuva forte, que agora lhe escorriam dos cabelos.
Era um homem tentador...
Embaraçada e desconfortável com seus pensamentos, ela tirou a jaqueta jeans.
Enfrentar o perigo parecia produzir-lhe estranhas reações. Homem tentador? O irmão de
Richard? Não queria nem pensar nisso!
— Apenas pegue meu roupão do banheiro anexo, por favor.
— Não seja tola. Você não pode ficar aqui.
— Posso cuidar de mim mesma, obrigada, e da minha casa. Meu sistema de alarme
funciona perfeitamente. Eles não vão tentar invadir outra vez. Dentro de uns dois dias,
meu joelho estará bem. E coloquei a arma que era de Richard na gaveta do aparador no
vestíbulo. Era assim que pretendia afugentar aqueles dois quando percebi que não
conseguiria despistá-los.
— Oh, puxa! Agora a garota tem uma arma.
— Isso mesmo. E sei como usá-la. — Entre a frustração e a raiva, ela se levantou da
banqueta e mancou pelo quarto. Apontou o dedo indicador até encostá-lo no peito de
Trevor. — Ouça mais uma vez. Sei cuidar de mim. Não vou sair daqui. Mas você vai.
Ele fitou-a com um brilho divertido no olhar, seus lábios cheios se curvando.
— Que tal analisarmos esta situação por outro ângulo? Aqueles dois vão voltar.
Talvez esse seja o único ponto com o qual a gente concorda. Você sabe que a arma não
vai lhe adiantar de nada. Mas, além de si mesma, você está determinada a proteger a
casa. Assim sendo, vejo apenas uma solução.
— E qual seria?
— Eu terei que ficar aqui.
— Não pode ficar. — Ela cruzou os braços e o fitou com uma expressão de desafio.
Mas não teve argumentos. Trevor tinha razão. Os bandidos voltariam e não teria como se
defender sozinha.
— Apenas me dê um travesseiro e um cobertor e eu me arranjarei no sofá da sala.
Por outro lado, ela não gostou de imaginá-lo estendido no seu sofá. Seria
desconcertante tê-lo ali tão próximo.
— Você é surdo? Já disse que não pode ficar aqui!
— Você é quem sabe. — Inesperadamente, Trevor ergueu-a em seus braços; o
sorriso continuava em seu semblante. — Vamos indo.
— Ponha-me no chão! — A raiva dela crescia. Lutava para se libertar, para escapar
do calor do corpo dele de encontro ao seu. Queria negar a corrente de excitação que a
percorria ao lhe sentir o peito forte colado a seus seios, seus mamilos se enrijecendo sob
a fina malha da blusa e a renda do sutiã. Mas sua luta era em vão.
— A escolha é sua, gata arisca. Ou você deixa a casa comigo, ou me hospeda aqui.
— Está bem, está bem. Pode ficar. Agora me solte. — Com todo o vagar, Trevor
baixou-a até o chão.
— Não se mexa. — Foi até o banheiro anexo e voltou segundos depois com uma
toalha e o roupão, entregando-os a ela. — Precisa de ajuda?
— Não! Obrigada. Posso me arranjar muito bem sozinha. Pode sair.
Trevor arqueou as sobrancelhas e um sorriso iluminou-lhe o semblante.
— Dez minutos é tudo o que tem. A menos que decida que precisa de ajuda.

Capítulo 6

A porta fechou-se atrás de Trevor, e Brenda continuou lutando contra sua própria
irritação e frustração por ceder à exigência dele. Mas, além dessas emoções, havia uma
grande surpresa com o fato daquele homem parecer se importar o bastante para insistir
tanto e ficar ali na casa.
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
Enquanto tirava as roupas molhadas, uma estranha sensação de vazio pairou pelo
quarto. Trevor fora o primeiro a entrar ali depois que seu casamento terminara. Achou que
devia se sentir aliviada por estar sozinha, ainda que apenas por dez minutos, mas não.
Pensou nos únicos dois homens com quem tivera algum encontro nos últimos
dezoito meses. Logo depois que entrara naquele emprego, seu supervisor anterior
arranjara-lhe um encontro para jantar com um primo dele. O sujeito chegara atrasado
para buscá-la e, depois, Brenda acabara pagando a conta do restaurante porque ele
esquecera o cartão de crédito.
O outro conhecera no campus onde estudava. A idéia dele de uma noite
maravilhosa fora a de comparecerem a uma palestra sobre geofísica e a probabilidade do
crescimento da atividade sísmica ao longo da costa leste do país. Três dias depois, ainda
continuara comentando sobre a palestra...
Nenhum desses dois homens a atraíra em nada, mas Trevor Steele já era uma outra
história... Se não fosse irmão de Richard, ela se sentiria tentada a pôr em risco sua
recém-conquistada independência.
Exatamente dez minutos depois, ele batia à porta. Sentada na banqueta em seu
roupão branco, ela começava a secar os cabelos com a toalha, quando lhe disse que
entrasse. Numa das mãos, Trevor trazia o aparelho de seu joelho; na outra, uma xícara
de chá fumegante, que depositou na penteadeira.
Ele devia andar com roupas no carro, pensou Brenda. Em vez das peças molhadas
de antes, usava um jeans que lhe destacava a musculatura perfeita das pernas, e uma
camiseta azul-clara que lhe acentuava o tom intenso dos olhos. Os cabelos castanhos
estavam ainda molhados, mas tinham sido penteados para trás. Trevor era a
personificação da masculinidade, tão atraente que, por alguns segundos, ela até se
esqueceu de respirar.
— Você tem que descansar esse joelho. Deixe-me ajudá-la com isso. — Ele se
aproximou e segurou-a pelo braço, ajudando-a a chegar até a cama. Indicou-lhe que se
sentasse, ajeitando os travesseiros para que apoiasse as costas. Esticou-lhe as pernas,
tocando com extremo cuidado a que estava machucada. Ocupou uma beirada da cama a
seu lado e, pegando-lhe a toalha das mãos, colocou-a sobre a cabeça dela. Com a exata
pressão de seus dedos, massageou-lhe o couro cabeludo de forma que a toalha felpuda
absorvesse o excesso de água da chuva.
Brenda pensou em protestar com tantas atenções, mas precisava admitir que todos
aqueles esforços estavam de fato fazendo com que se sentisse melhor. O toque dos
dedos dele era normal a princípio. A ansiedade das últimas poucas horas dissipou-se de
seu corpo, a irritação deu lugar a um profundo relaxamento, enquanto fechava os olhos.
Lenta e gradativamente, os movimentos com a toalha transformaram-se numa
massagem sensual e ritmada. Uma nova espécie de tensão estava se formando. Ela
sentiu a pele se arrepiando, tendo plena consciência das mãos hábeis que afagavam sua
cabeça com a toalha. Havia uma resposta em seu corpo, expandindo-se a cada ponto
sensível, seus sentidos despertaram, um delicioso calor a percorria a cada toque
daqueles dedos. Seu coração estava disparado, podia sentir os mamilos rijos de encontro
ao roupão.
Soltou um pequeno suspiro, pendendo um pouco a cabeça para trás, enquanto
absorvia o prazer que Trevor estava lhe proporcionando com um simples ato de enxugar-
lhe os cabelos. De repente, o movimento das mãos dele cessou. Abruptamente, levantou-
se e encaminhou-se até a penteadeira.
— Acho melhor eu sair daqui. E seu chá está esfriando. — Trevor depositou a xícara
na mesinha-de-cabeceira. Depois, ajudou-a a deitar-se debaixo do edredom florido que
cobria a cama. Tornou a ajeitá-la de encontro aos travesseiros, para que tomasse o chá.
— Fico muito grata por sua ajuda. — Com nervosismo, ela foi bebericando o chá. —
Mas você acabou não respondendo a minha pergunta.
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
— Qual?
— Como calhou de estar no lugar certo, na hora certa? Não podia ser coincidência,
especialmente nesta noite.
— Simples. Estive seguindo você.
Ela depositou a xícara vazia na mesinha-de-cabeceira e ergueu um olhar perplexo
para fitá-lo.
— O quê? Mas por que, afinal? Vai me dizer que não podia ficar longe da minha vida
emocionante? Ou talvez achou que se ficasse por perto tempo o suficiente teria chance
de bancar o herói mais uma vez? Bem, seu tempo terminou.
Ao vê-la novamente exasperada, Trevor deteve-se de pé junto à cama com um ar
determinado.
— Agora, espere um minuto. Deixe-me dizer minha fala. Sou um solitário. Não estou
acostumado a precisar da ajuda de ninguém. Na outra noite, você sugeriu que
poderíamos ajudar um ao outro tentando encontrar os tais títulos. E, depois, me chutou
para fora daqui.
— Eu não chutei você. Pedi-lhe com toda a gentileza que se retirasse.
— Dá quase no mesmo. A verdade é que preciso de sua ajuda. E, para mim, está
sendo... constrangedor ter que pedi-la.
O comentário a fez sorrir por dentro.
— Ficar me seguindo por aí feito um perdigueiro é uma estranha maneira de
demonstrar o que quer.
— Você não me deixou escolha.
— Por que está tão ansioso para desvendar as circunstâncias da morte de Richard?
Sei que era seu irmão, mas você sequer o conheceu. Não creio que queira saber como
ele era quando vivo. E limpar o nome dele? Você nem sequer tem o mesmo sobrenome
de seu irmão. De que forma a publicidade negativa poderia afetar você?
Ela estava pressionando e sabia disso. Mas precisava saber por que Trevor vivia
surgindo na sua vida feito um cavaleiro em armadura reluzente sem nada melhor para
fazer.
Ele começou a andar de um lado ao outro do quarto, com passadas inquietas.
— Você tem razão. As acusações contra ele não podem me prejudicar em nada, em
especial porque ninguém mais sabe que éramos irmãos. — Parou de andar
abruptamente. Puxou a banqueta para mais perto da cama e sentou-se. Passou a mão
pelos cabelos, em seu rosto o visível esforço para não demonstrar o turbilhão de emoções
em seu íntimo. — Sabe, vivi em vários lares adotivos quando garoto, mas o lugar em que
fiquei por mais tempo foi na casa dos Adams. Não era grande coisa, um antigo casarão
branco, com quartos úmidos e tapetes furados, cercado de dois hectares de terra
infestada de ratos e carrapatos.
— Em que ponto está querendo chegar?
— É dos meus "irmãos de criação" que me lembro mais; esse é o ponto. Um tinha
oito anos na época em que os conheci, o outro, dez.
A curiosidade de Brenda foi despertada.
— E você, que idade tinha?
— Nove. Depois, passei quatro anos fingindo que Carl e Curt poderiam ser meus
irmãos de verdade.
— Eles excluíam você?
— Sim. Mas o que me lembro é de como eram especiais um com o outro. Viviam
juntos como se fossem irmãos siameses. Apoiavam um ao outro. Através dos olhos de
um garoto como eu, os dois eram unidos, e eu o intruso.
— Você tinha ciúmes. É compreensível.
— Ambos eram uma família, mesmo que o velho pai fosse um tirano. Eram
importantes um para o outro. Se Carl precisasse de ajuda, recorria a Curt, e vice-versa.
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
Era com essa união que sobreviviam às surras do pai.
Brenda observou-lhe o olhar fixo e anuviado em meio ao silêncio que se prolongou.
Queria dizer algo, qualquer coisa para dissipar a tensão que o envolvia, mas não sabia o
quê. Tia Maude nunca lhe batera, mas mantivera uma distância emocional que sempre a
fizera perguntar-se se realmente ela a amara como sobrinha. Ao contrário de Trevor,
passara os primeiros doze anos de sua vida com pais afetuosos, devotados, e uma
adorável e precoce irmãzinha. O relacionamento que tivera com a pequena Anne fora
maravilhoso; ainda hoje sentia o amor em seu coração pela irmã que perdera.
— De fato, essa descrição está longe de ser a da família modelo — comentou,
enfim. Parecia uma maneira bem mais longa de Trevor explicar por que a estivera
seguindo, mas a história de seu passado a interessava.
— Eu sobrevivi. Sua propriedade até me lembra de uma área próxima às terras dos
Adams. Havia um riacho que passava no meio da floresta, a alguns quilômetros da casa.
Aquele era meu refúgio, meu recanto secreto. É provável que tenha sido a razão de eu ter
ficado tanto tempo com essa família.
Brenda entendia perfeitamente o sentindo daquilo, era algo com que se identificava.
A área de Hallowing Point, com suas florestas, o rio... enfim, todo aquele trecho de
natureza intocada exercia o mesmo efeito sobre ela. Não importando o quanto tia Maude
ficasse silenciosa, circunspecta, bastara-lhe deixar a casa, quando criança, e caminhar
por entre os bosques até o rio para se sentir viva novamente.
— Sim, entendo por que Hallowing Point o faz lembrar-se desse recanto. Sinto o
mesmo em relação a este lugar.
O fato de terem aquilo em comum também a fez sentir-se perigosamente próxima a
Trevor. Respirou fundo e tentou afastar tais pensamentos sobre afinidades. Não, não
queria saber mais nada a respeito desse homem. Não devia.
E não pôde ocultar a irritação da voz.
— Por que está me contando isso?
Ele se levantou e apanhou um antigo retrato na cômoda a um canto. Era de Brenda
com a pequena Anne. Seu maxilar se enrijeceu ao examiná-lo.
— Cresci como um intruso observando as famílias dos outros. Mas pude aprender
que a vida em família faz uma grande diferença no desenvolvimento do ca ráter das
pessoas. Talvez se eu e Richard tivéssemos nos conhecido, eu pudesse tê-lo ajudado. Se
o houvesse encontrado dez anos atrás, cinco, talvez não estaria lendo agora nos jornais
sobre Richard Tapp, o sujeito envolvido no escândalo de títulos roubados. Sim, o apoio
que os membros de uma família dão um ao outro pode fazer uma diferença nos rumos
que um indivíduo toma.
— Deixe-me ver se entendi. Está dizendo que o envolvimento de seu irmão na
fraude é praticamente sua culpa?
— Não estou falando sobre culpa; apenas possibilidades. — Brenda sacudiu a
cabeça, admirada.
— Ouça, não sei se eu poderia ter feito ou não alguma diferença, mas quero
descobrir o que aconteceu com Richard. E creio que não há condições de fazer isso sem
sua ajuda. Ele era a minha família. É simples assim. — Um ar de vulnerabilidade passou
pelo rosto de Trevor, num interessante contraste com seus traços fortes.
Tendo crescido com tia Maude, Brenda sabia como era sentir-se vulnerável, precisar
da ajuda de alguém relutante em dá-la. A tia sempre fora fechada e esquiva quanto a
corresponder às necessidades da sobrinha. Brenda tivera que aprender a lidar com seus
próprios problemas sozinha, e parte disso incluíra ser franca consigo mesma.
Bem, usando de toda essa franqueza, sabia que o que sentia por Trevor ia além da
empatia e da compaixão. Ele lhe despertava emoções que jamais esperara experimentar
outra vez. Parecia haver uma ligação entre ambos, uma afinidade especial que lhe fora,
até então, desconhecida. Aquele homem parecia ter a exata percepção das necessidades
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
dela, assim como sentia as dele, e isso a assustava.
A intuição lhe dizia que ele não era como Richard, mas essa mesma intuição a
levara a casar-se com um homem que pegara seu amor e sua confiança e lança ra-os ao
vento. Não havia jurado a si própria nunca mais deixar que um homem tirasse proveito
dela, nem a enganasse? E quem menos indicado para se envolver do que o irmão de
Richard? Como podia confiar no seu instinto no que dizia respeito a ele?
Odiava aquela batalha que travava em seu íntimo. A razão a aconselhava a uma
coisa, o coração dizia-lhe o oposto. Apesar de suas reservas, sabia, no fundo, que jamais
poderia desapontá-lo no que lhe pedia.
— Está bem. Vamos tentar.
Os traços de Trevor relaxaram e seus olhos azuis se iluminaram com um sorriso.
Recolheu a xícara vazia e atravessou o quarto em direção à porta.
— Nós encontraremos os títulos, Brenda, e vou descobrir o que aconteceu com
Richard. É melhor você tentar dormir um pouco agora. Conversaremos pela manhã. — A
porta se fechou suavemente atrás dele.
Brenda ajeitou os travesseiros e deitou a cabeça, exausta devido a tantas noites
sem dormir. Bem, esperava que aquele acordo com o misterioso e sexy Trevor Steele não
fosse um erro.

Trevor não conseguia pegar no sono. Pela centésima vez, virou-se no sofá e
esperou que a mudança de posição ajudasse a alterar sua linha de pensamentos.
Sua mente rodopiava; visualizava cenas que eram um misto de Brenda, as cartas,
Richard nos jornais, os Adams. Mas as que predominavam eram as prota gonizadas por
ela. Aquela linda mulher, com seu sorriso sexy, tinha um jeito especial de atraí-lo; até
mesmo quando o antagonizava ao ponto da frustração. E, ao que parecia, não conseguia
resistir a ela.
Pensou em seu corpo curvilíneo estendido na cama, entre as pilhas de travesseiros,
o vão do robe ligeiramente folgado, revelando a curva dos seios acetinados.
Um homem corria o risco de confundir suas prioridades se fixasse essa imagem por
muito tempo...
Procurou afastá-la, e uma súbita incerteza veio inquietá-lo. Será que ela sabia de
alguma coisa á respeito dos títulos roubados? Bem, se soubesse onde estavam
escondidos, seria a melhor atriz que ele já vira na vida... Os bandidos que a estavam
perseguindo pareciam convencidos de que Brenda tinha alguma coisa a esconder. Já que
não haviam conseguido encontrar, os títulos, talvez tivessem pensado que poderiam
intimidá-la.
Isso explicaria por que haviam recuado tão facilmente naquela noite. Estavam
tentando assustá-la e, em conseqüência, fazer com que começasse a converter os títulos
em dinheiro... caso estivessem em seu poder, claro. Trevor tornou a virar-se no sofá, mais
desconfortável do que nunca com o rumo de seus pensamentos e o conflito que
produziam.
Havia um outro lado naquela questão. Sentia-se responsável por ela. Era a mulher
que se casara com Richard. Era seu dever proteger a viúva de seu irmão. Mas isso se
aplicaria até mesmo se estivesse envolvida na fraude dos títulos?
O instinto lhe dizia que Brenda era inocente. Mas, afinal, não havia aquelas ocasiões
em que seu instinto errava?
Droga! Sentou-se no sofá e esticou as pernas. Acendeu o abajur ao lado e viu que
seu relógio de pulso marcava quatro e meia da madrugada. Bela tentativa de dormir...
Aproximou-se da janela e abriu-a silenciosamente. A suave brisa que começou a
soprar nas cortinas trazia as fragrâncias deixadas pelo temporal da noite anterior.
Lembrava-se de forma tão nítida de ter carregado Brenda para cima em seus
braços, o corpo molhado de encontro ao seu, abraçando-o pelo pescoço. Ainda podia
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
sentir-lhe os seios colados ao seu peito por entre as instigantes barreiras de roupas
encharcadas.
Quase podia ouvir o suspiro deliciado dela quando lhe secara os cabelos, os cílios
escuros e espessos cerrados, dando-lhe um ar sexy e vulnerável ao mesmo tempo, os
lábios sensuais e bem-desenhados um tanto entreabertos... Vira-lhe, inclusive, a pele
acetinada se arrepiando, enquanto continuara lhe massageando a cabeça com a toalha.
Tivera que parar abruptamente quando o corpo dele ansiara por coisas que não
podiam acontecer, antes que fizesse algo de que pudesse vir a se arrepender. Precisara
reunir toda sua força de vontade para isso.
Com um profundo suspiro, afastou-se da janela e vestiu uma camiseta, colocando-a
para dentro do jeans. Droga, esquecera-se de ligar para Barney. O chefe tornaria a ficar
uma fera.
Ora, por que não lhe telefonara na noite anterior quando fora apanhar a mochila no
carro? Não ter ficado lá na chuva verificando os possíveis danos era até compreensível.
Mas que dificuldade teria havido em se deter por mais alguns minutos dentro do carro
para conectar o telefone?
Definitivamente, ele não estava com a mesma mente aguçada e alerta de sempre.
Já era tempo de voltar ao normal.
Sob a luz da varanda, atravessou a clareira e seguiu pelo caminho sinuoso de
cascalho. Chegou à estrada e viu que seu carro estava onde o deixara. A lua cheia e o
céu estrelado ofereciam luminosidade o bastante para ver que o estrago era mínimo.
Exceto por ligeiras amassaduras na frente, o veículo parecia estruturalmente em bom
estado. Se pudesse endireitar a roda, talvez conseguisse recuá-lo da valeta.
Várias tentativas depois, o carro andou para trás e conseguiu endireitá-lo, ficando
em posição paralela com a estrada. Deixou o motor ligado, enquanto tornava a verificar se
havia mais algum estrago. Passava a mão pelo pára-choque, quando ouviu um carro se
aproximando pela estradinha abandonada que havia do outro lado das pistas. Mas ao
vasculhar as sombras com um olhar atento, não viu faróis. Continuou observando até que
viu o veículo saindo para a estrada, uma mera figura disforme na semi-escuridão. Em vez
de virar pela estrada deserta, começou a vir devagar na sua direção. Faróis reluziram
diante dele no exato instante em que se dava conta que era o furgão.
Apressou-se com a intenção de entrar no carro pela porta mais próxima, a do
passageiro. Não pretendia deixar aqueles sujeitos escaparem mais uma vez.

Capítulo 7

Trevor não foi rápido o bastante. Quando o furgão avançou, virou ligeiramente para
ã direita para pressioná-lo de encontro à porta de seu carro. Ele pulou para o lado oposto
no exato instante e praguejou a plenos pulmões. O furgão disparou pela estrada.
Furioso consigo mesmo por ter baixado a guarda, sentou-se ao volante e manobrou
o carro até a pista ao lado. Correu pela estrada atrás dos bandidos. Deviam-lhe algumas
respostas e pretendia obtê-las.
Avistou lanternas traseiras ao longe na estrada e oscilando nas curvas. Pisou no
acelerador e exigiu o máximo de seu carro, sua raiva fervilhando, a concentração intensa.
Algo o estivera preocupando num canto qualquer de sua mente, algum ponto
evidente que acabara lhe passando despercebido. Então, o óbvio o atingiu em cheio. Na
verdade, vira apenas um homem no furgão, o motorista... Ninguém estivera sentado no
banco do passageiro. Onde estava o outro sujeito? Não havia por que ter se escondido na
parte detrás do veículo, havia? E se o motorista o estivesse afastando propositalmente da
casa?
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
Uma imagem passou nítida por sua mente: o homem alto e corpulento avançando
pelo caminho de cascalho vangloriando-se consigo mesmo pelo plano ter dado tão certo...
e Brenda sozinha em casa, desavisada.
Freou de imediato. Diminuindo os faróis para despistar o bandido, manobrou
cuidadosamente até a pista oposta para retornar pela estrada. Tinha que voltar até
Brenda, verificar a casa, a propriedade, e certificar-se que estava segura. Era parte de
seu trabalho, alegou a si próprio para explicar a súbita ansiedade. Mas não acreditava
que fosse só por isso, nem por um segundo.
Nem queria pensar no que teria acontecido se não tivesse passado a noite lá, no
sofá. Aqueles bandidos tinham ficado à espreita, esperando feito chacais para atacar. O
fato de seu carro ter permanecido na valeta servira de aviso que ela não ficara sozinha e
os impedira de fazer nova tentativa.
Quando chegou ao caminho de cascalho, continuou acelerando. Enfim, entrou
depressa na casa, subiu a escadaria até o segundo andar de dois em dois degraus.
Deteve-se diante da porta do quarto dela. Tudo estava quieto. Não queria alarmá-la
adentrando, mas precisava checar se não havia mesmo nada errado. Em silêncio, girou a
maçaneta e abriu a porta.
O luar filtrava-se pela vidraça. O quarto achava-se exatamente como o deixara na
noite anterior, não havia o menor indício de intrusos. Sua apreensão foi se dissipando.
Seu olhar deteve-se, enfim, na cama. Brenda dormia serenamente, os cabelos
castanhos e brilhantes espalhados nos travesseiros... estava tão bonita...
Em absoluto silêncio para não acordá-la, Trevor entrou, espiou para dentro do
banheiro anexo, para ver se não havia de fato ninguém, olhou debaixo da cama. Quando
se deu por satisfeito, concluindo que o quarto estava vazio e que nenhum mal poderia lhe
acontecer, não resistiu à tentação de lançar mais um olhar demorado à ex-esposa de seu
irmão e retirou-se.
Após examinar a casa por dentro, os bosques que a circundavam, dirigiu pelo
caminho de cascalho para averiguar se não havia nada fora do normal na estrada. Não
viu sinal de nenhum furgão, nem de bandidos. Teve a idéia de esconder seu carro na
estradinha abandonada do outro lado das pistas. Queria que aqueles dois pensassem que
tinha ido embora. Que fizessem nova tentativa de atacar. Estaria a espera.
Caminhou de volta à casa, preparou café e saiu com uma xícara fumegante para a
varanda dos fundos. Dali podia avistar o rio Potomac ao longe, por entre as árvores, a
água cristalina reluzindo sob os primeiros raios de sol da manhã. O esplendor da natureza
intocada combinava com o da mulher adormecida no andar de cima. Brenda pertencia
àquele lugar, livre e em paz, sem ser atormentada pelo pesadelo deixado por Richard
Tapp.

O aroma de café chegou até Brenda e despertou-a do sono mais reparador que
tivera depois de vários dias. Levantou-se, vestiu um jeans, uma camiseta, pôs o aparelho
em torno do joelho e desceu até a cozinha.
Pensando inevitavelmente em Trevor, encontrou-o diante da janela da cozinha,
usando apenas um jeans.
— Bom dia.
Ele se virou de repente, como se o tivesse despertado de alguma reflexão.
Brenda correu um olhar por seu peito largo, notando como era forte e de músculos
bem definidos. Estava com os cabelos molhados, os olhos de um azul muito intenso sob o
sol que se filtrava pela janela. Ela desviou o olhar abruptamente e foi se servir de uma
xícara de café, aliviada por ter algo com que se ocupar no momento.
— Vejo que é do tipo que acorda cedo — comentou ele.
— Na verdade, não. Em geral, não tenho uma razão tão animadora para saltar da
cama cedo.
38
Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
Um brilho maroto passou pelos olhos de Trevor, um sorriso iluminou-lhe o rosto
atraente. Dando-se conta do que acabara de falar, ela ergueu a xícara num brinde e
explicou:
— O aroma do café estava irresistível. — Não adiantou; não conseguiu disfarçar o
constrangimento. Um segundo depois, estava corando.
Trevor aproximou-se pela cozinha, os olhos a fitá-la com perturbadora intensidade.
— Não tão irresistível quanto o rubor na suas faces, doçura. — Tocou-lhe o rosto
delicado com as costas da mão, uma carícia suave, tentadora, que a deixou com a
respiração em suspenso.
Ele, então, encaminhou-se até a cafeteira elétrica, serviu-se de uma xícara de café e
sentou-se à mesa. Seu sorriso provocante dando lugar a uma expressão preocupada.
— Tivemos observadores indesejáveis durante a noite. — Contou-lhe o que
acontecera quando fora verificar os danos no carro.
— Mal posso esperar para que este pesadelo acabe. — Brenda tornou a preencher
sua xícara de café e sentou-se do lado oposto da mesa, com um profundo suspiro.
— Aqueles homens não vão desistir facilmente. Escondi meu carro do outro lado da
estrada. Se pensarem que está sozinha, ficarão mais inclinados a tentar entrar.
Estaremos a espera. Isso significa que terei que ficar por aqui.
— Este pode ser um bom dia para eu ficar em casa também. Tenho mesmo que me
recobrar deste joelho.
— Ainda acha que esses são bandidos comuns?
— Eu bem que gostaria de acreditar nisso. Mas é provável que alguém saiba de
minha ligação com Richard. Devem estar pensando que tenho alguma informação sobre
os títulos.
— Ou que esteja com os próprios títulos.
— Mas por quê?
— É a conclusão lógica.
Com ou sem o peito másculo e desnudo tirando-lhe a concentração, o fato era que
Trevor começava a soar como aqueles agentes do governo que não se cansaram de
bater à sua porta, pensou ela, irritada.
— E o que está querendo dizer com isso?
— Ei, calma. Eu não afirmei que está com os títulos. Eu disse que é lógico para
alguém suspeitar que você os tem.
— Desculpe. É que fico aborrecida com toda essa desconfiança em relação a mim,
quando não faço a menor idéia de onde estão. Há, por exemplo, dois agentes do governo,
uns tais de srs. Jamison e Crowley que vieram me procurar várias vezes por causa
desses títulos, me fazendo dezenas de perguntas. Um deles chegou a me dizer que tinha
certeza que estavam comigo. Oh, fiquei furiosa! Agentes federais são obtusos, rudes,
intrometidos, abelhudos. — Ela respirou fundo, procurando se acalmar. — O que me diz?
Você acha possível encontrarmos os malditos títulos? Parece que todo mundo está a
procura deles. Por que nós os acharíamos antes dos outros?
— Quem sabe? Não estamos motivados pelo dinheiro. Talvez isso faça alguma
diferença. Está querendo mudar de idéia?
— Não. Eu só estou pensando que poderíamos começar hoje. Tenho que ligar para
a firma para verificar se a programação desta sexta não está sobrecarregada. Se puder
descansar o joelho durante o fim-de-semana, vai sarar mais depressa. E quanto a você?
Não teria que estar em algum outro lugar hoje?
Trevor levantou-se, lavou a xícara na pia, permanecendo de costas, enquanto
respondia.
— Meus horários são flexíveis. Pode-se dizer que estou entre dois empregos no
momento. Estou terminando um trabalho e me preparando para começar em outro. Você
esteve lá, na Collins & Companhia, lembra?
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
— Sim. Você vai trabalhar lá?
— Exatamente. Ned Collins, um grande amigo meu, deixou o lugar para mim poucos
anos atrás, ao se aposentar. Ele morreu no ano passado. — Ele se recostou no balcão,
sua atitude mudando, o brilho no olhar passando de triste para entusiasmado.
— E o que faz a Collins & Companhia?
— É um lugar para adolescentes que não têm para onde ir. A maioria fica no nosso
ginásio de esportes, que funciona como um centro recreativo, a uns dois quarteirões dali.
Mas se não têm onde dormir, podem ficar na casa.
— E é sua agora?
— Sim. Ned e Allie Collins me acolheram em sua casa; me endireitaram quando eu
tinha dezesseis anos e era um garoto rebelde. — Trevor fez uma pausa, pensando no ano
e meio que vivera sob a tutela dos Collins. Pensou com ternura na velha e doce Allie,
também falecida agora. Sempre se perguntava por qual caminho teria enveredado se não
tivesse perambulado pelo ginásio de Ned para jogar basquete naquele dia longínquo.
Haviam sido o que mais próximo tivera de uma família em toda a sua vida... — Ele havia
fundado a C & C no ano anterior — acrescentou, ainda pensativo.
— E você decidiu prosseguir de onde ele parou?
— Na verdade, não. Fiquei pasmo quando soube que Ned queria que eu assumisse
o lugar. Desde então, tenho um administrador cuidando da C & C para mim. Moose. Você
o viu naquele dia me ajudando com a copiadora.
— Eu me lembro. Bem, desejo-lhe sorte. — Brenda encaminhou-se até a pia para
lavar a xícara. — Agora, que tal um café da manhã decente?
— Ótima idéia. Mas com uma condição. — Trevor colocou-se a seu lado e tocou-lhe
o queixo para que o fitasse. Ela engoliu em seco, podia sentir o calor se irradiando
daquele peito viril, tão próximo que suas palmas ansiavam por tocar os pêlos escuros que
o recobriam e desciam numa trilha provocante pelo abdome. Mas ficou totalmente imóvel,
hipnotizada pelos olhos azuis que a fitavam. Continham um ar misterioso e divertido ao
mesmo tempo.
— E qual seria?
— Eu ajudo você.
— Oh, claro.
— Vou vestir uma camiseta e volto num minuto.
Ela soltou um suspiro aliviado, enquanto se separavam, e começou a reunir os
ingredientes para panquecas. Mas seu coração continuava disparado, a corrente
eletrizante ainda percorria seu corpo. Nunca tivera uma reação tão forte com nenhum
outro homem antes. O toque em sua face deixara-a trêmula. Ali estava Trevor tentando
ajudá-la a encontrar os títulos desaparecidos, e ela agindo feito alguma adolescente com
uma atração incontrolável.
E, pelos céus, aquele era o irmão de Richard!

Apesar de terem preparado o café da manhã animadamente, um clima tenso pairou


entre ambos à mesa, enquanto comiam. Em meio ao prolongado silêncio, Trevor sorveu
um gole de seu suco de laranja e observou a postura rígida com que Brenda se man tinha
na cadeira, os gestos metódicos e deliberados ao usar os talheres.
— Deixo você nervosa? — perguntou-lhe de repente. Ela levantou os olhos para fitá-
lo e não teve como negar.
— Sim.
— Bem, ou podemos conversar a respeito, ou passar os próximos dias brincando de
gato e rato um com o outro.
— Está bem. — Brenda deixou os talheres de lado. Ergueu o queixo num misto de
teimosia e desafio. — Podemos conversar. Apenas um homem sentou-se a esta mesa
comigo, e você sabe quem era. Não gosto que isso me incomode, mas não posso evitar.
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
— Eu a faço lembrar tanto assim de Richard? Como sabe, não somos gêmeos
idênticos. Aliás, vi a foto dele e não encontrei muita semelhança entre nós.
Ela o encarou com uma expressão que espelhava toda a frustração em seu íntimo.
— Às vezes, parece. São pequenos detalhes. Alguns de seus gestos e expressões
são iguais aos dele. Os olhos são muito semelhantes... É estranho ter você por perto. —
Brenda se levantou, recolhendo sua louça até a pia.
Trevor baixou os olhos para seu prato e terminou as panquecas em silêncio. Tinha
consciência de que talvez fosse impossível conquistar a confiança dela, por mais que
tentasse. Irmão ou não, Richard tivera seus defeitos. Lera o dossiê do caso. E aquele
casamento devia ter passado longe da perfeição. Não precisava pressioná-la para obter
detalhes.
Tornou a dirigir os pensamentos para o escândalo dos valiosos títulos ao portador.
Richard certamente soubera que havia alguém a sua caça, os comparsas em quem devia
ter passado a perna. Do contrário, por que mandar de repente uma carta a um irmão que
sequer imaginara sua existência? O quanto ele soubera a seu respeito, afinal? Soubera
que era um agente federal? Por que morrera? Desconhecer essas coisas o estava
enlouquecendo.
Terminando de comer, Trevor ajudou-a a lavar e enxugar a louça. Perguntou-lhe
mais uma vez se havia mudado de idéia.
— Não — disse Brenda, com veemência. — Não posso. Quero acabar com isto de
uma vez por todas.
Sem demora, discutiram um plano de ação, definindo onde começariam a procurar
os títulos. Decidiram examinar o andar de cima primeiro. Os itens acumulados ao longo
dos últimos anos estavam guardados nos quartos menores.
— Vamos vasculhar as coisas no antigo quarto de Richard, antes dos demais. Já
comecei, como pode ver. — Ela mostrou-lhe as caixas e papéis empilhados ao redor do
quarto.
— Por que não dividimos o trabalho para facilitar? Eu verifico as caixas; você, os
papéis. — Trevor enfileirou todas as caixas de papelão sobre a cama e abriu a mais
próxima.
Brenda achou um canto confortável e, sentada numa velha almofada, começou a
verificar cada pedaço de papel que havia separado antes.
Uma hora depois, ele se levantou da beirada da cama, anunciando:
— Olhei em todas as caixas e não há nada aqui que seja relevante.
— Nem nos papéis que examinei agora. Bem, acho que o passo seguinte é
continuarmos procurando aqui em cima. Ei, espere... — sussurrou ela, pensando em algo
que acabava de lhe ocorrer. — Havia me esquecido disso... Procurei os títulos em todos
os lugares, mas não verifiquei no sótão. Mal posso acreditar que não me lembrei de olhar
lá.
Mas, em seu íntimo, encontrava uma explicação. Logo após a morte dos pais e da
irmã, lembrava-se de ter se escondido durante um dia inteiro de tia Maude no sótão.
Quando a encontrara, ela ficara zangada e a proibira de subir lá. Ficara com tanto medo
de contrariar a tia e perder a família que lhe restara que nunca mais subira ao sótão.
Ambos trocaram um olhar significativo. Sem perguntar, sabiam que estavam
pensando a mesma coisa. Os títulos deviam estar escondidos lá!
Indicando a Trevor que a acompanhasse, Brenda saiu para o corredor e abriu a
gaveta de um aparador, tirando alguns molhos de velhas chaves.
— A chave do sótão deve ser uma dessas. Nunca mais subi lá, nem mesmo após a
morte de minha tia. Que me recorde, sempre foi um lugar que funcionou como um
depósito de tranqueiras. Acho que como já estava com os quartos extras abarrotados
delas, fiquei adiando inconscientemente o dia de ir lá fazer uma faxina.
Conduziu-o até a porta que havia ao final do corredor e testou as chaves, até que
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
encontrou a certa. Subiram por uma escada estreita e empoeirada até outra porta.
Também estava trancada e uma chave idêntica à primeira abriu-a.
— Acho que há um interruptor de luz naquela viga de madeira. — Trevor testou-o e
uma lâmpada se acendeu, iluminando o amplo sótão. — Puxa, isto pode levar o resto do
dia. Ao menos, os bandidos também não tiveram chance de subir até aqui.
Brenda olhou ao redor. O lugar estava mais ou menos como se recordava desde
seus doze anos, só que muito mais empoeirado. Era uma lembrança perfeita de como tia
Maude havia sido. Organizada, metódica, gostara de cada coisa em seu lugar.
Uma boa parte achava-se visivelmente tomada apenas por velhos móveis e objetos
em desuso. Estavam distribuídos em pilhas ordenadas e cobertos por plásticos
transparentes. Na outra parte, havia fileiras de caixas empilhadas. Algumas chegavam a
exibir etiquetas, indicando seu conteúdo, o que facilitaria muito o trabalho. Da entrada
para o centro, havia um amplo caminho vazio, permitindo acesso a tudo, sem que fosse
necessário revirar as coisas para encontrar algo em específico.
— Bem, pelo que vejo, só teremos que procurar dentro das caixas. Ao final, olharei
os móveis, para ver se há um compartimento falso em algum. — Trevor passou-lhe a
primeira caixa de papelão, e Brenda sentou-se no chão, mantendo a perna esticada e
ignorando a poeira. — Primeiro vou abrir aquela janela. Está abafado aqui.
Ela abriu a pequena caixa, removeu várias camadas de papel-toalha, que protegiam
do pó, e descobriu um álbum de fotografias. Com a respiração em suspenso, colocou-o
no colo.
— Oh, Trevor, veja isto! — Começou a folheá-lo, enquanto ele acabara de abrir a
janela e se aproximava. A luminosidade do sol e o ar fresco envolveram o sótão. — Estão
todos aqui. Meus pais, meus avós. E olhe. — Ela apontou para a foto de um bebê. — Esta
sou eu. E aqui está a pequena Arme. — Sentiu os olhos marejados ao continuar
folheando o álbum. Ao terminar, fechou-o e segurou-o de encontro ao coração. — Se
nada mais resultar dessa confusão deixada por Richard, encontrar isto já é mais do que
suficiente para mim.
— Você nunca tinha visto o álbum?
— Não. Tia Maude se recusava a falar sobre nossa família. Eu era proibida de
mencioná-los. — Brenda lembrava-se das vezes que tentara, do severo silêncio com que
a tia reagira. Uma garota órfã de doze anos aprendia rapidamente, supunha.
Perante o ar chocado no rosto bonito de Trevor, acrescentou:
— Minha tia começou a cuidar de mim, quando não havia ninguém mais para isso.
Eu teria parado em lares adotivos, do contrário. Acho que ela só queria que eu
prosseguisse com minha vida e deixasse o passado para trás. Além do mais, era...
estranha, fechada demais.
— Mas você deve ter precisado conversar com alguém. Perder uma família e não
poder nem sequer mencioná-la? É um castigo cruel para uma criança.
— Sabe, passei muitos anos me sentindo furiosa sobre a morte dos meus pais e,
depois, culpada. Eles queriam que eu os acompanhasse naquela viagem. Era um vôo
para Chicago. Mas eu estava ocupada demais. Eu tinha um papel numa peça da escola
naquele sábado à noite. Na verdade, era um papel bem insignificante, mas era o meu
primeiro. Bati pé firme e me recusei a viajar. — Ela colocou o álbum de volta na caixa e
observou enquanto Trevor se sentava a seu lado. — Eu deveria estar com minha família
naquele avião.
Ele estendeu a mão e afastou a lágrima que lhe rolou pela face delicada com a
ponta dos dedos.
— Fico feliz que não estivesse.
— Nunca falei sobre isso a ninguém antes.
A distância que os separava era mínima. Trevor segurou-lhe o rosto entre as mãos,
com gentileza. Inclinou a cabeça e roçou-lhe os lábios com os seus. Eram lábios cálidos,
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macios que aliviavam a dor despertada pelas lembranças dela, lábios tentadores que lhe
produziam sensações eletrizantes por todo o corpo, incitando, excitando, e
desanuviavam-lhe a mente de qualquer pensamento coerente. Era um beijo de
compaixão, de solidariedade, disse a si mesma, nada mais. Apenas um ser humano
confortando o outro num momento difícil. Mas a intuição feminina lhe assegurava que
havia algo mais.
Relutante, Trevor, enfim, interrompeu o beijo e continuou tocando-lhe a face por
longos e ternos momentos.
— Bem, acho melhor voltarmos ao trabalho — disse, num tom quieto.
As palavras fugiram a Brenda naquele instante. A realidade foi voltando
gradativamente e baixou o olhar para a caixa a sua frente.
— Vou deixar para verificar esta por último.
— Eu a levarei até seu quarto depois.
Os gestos de ambos haviam mudado, o foco também, ainda assim a magia que os
envolvia continuava, como se o próprio ar que respiravam tivesse sido preenchido
subitamente por alguma névoa inebriante.
Brenda se esforçou para quebrar o encanto.
— Obrigada. Se importa em começar a olhar as caixas sem mim? Volto num minuto.
Preciso ligar para Aretha no trabalho.
Ela desceu a escada estreita com cuidado, apoiando-se no corrimão. Seu joelho
estava bem melhor naquela manhã, levando em conta que fora a segunda vez que o
batera numa semana. Mas agora sentia as pernas trêmulas por razões que nada tinham a
ver com o machucado.
O gosto dos lábios sensuais estimulando os seus continuava, era quase como se
ainda sentisse aquele toque cálido. Uma nova vida corria por suas veias. Queria apegar-
se àquela sensação maravilhosa e nunca mais deixá-la ir, porém seus pensamentos
continuavam interferindo. "Lembre-se de quem ele é", insistia a voz da sensatez em sua
mente. "Acorde".
Brenda ligou para a amiga da extensão em seu quarto.
— A programação do dia está calma hoje, assim não se preocupe — assegurou-lhe
Aretha. — Além do mais, Jon havia escalado você para o trem que sai às onze horas para
Nova York. E com seu joelho machucado, é o último tipo de dia que você precisaria.
— Obrigada, Aretha. Me ligue se surgir algum problema, está bem?

Enquanto verificava as caixas no sótão, Trevor sentia seus lábios vibrando com o
doce néctar que encontrara nos de Brenda. Seu corpo ardia de desejo, ansiando por
mais. Por outro lado, repetia mais uma vez na sua mente as palavras que ela dissera logo
cedo, na cozinha, quando, exasperada, se referira aos agentes federais. Obtusos, rudes,
intrometidos, abelhudos... Quando descobrisse que ele era um agente, na certa o chutaria
com tanta força para fora de sua casa que o atiraria no rio. Para fora de sua vida, para
sempre... E não podia culpá-la. Que grande tolo era...
Bem, o fundamental agora seria resolver o caso. Esse assunto pessoal em
específico teria que esperar o rumo dos acontecimentos. Antes do almoço, iria até seu
carro, escondido na estradinha, e ligaria para Barney. Depois que lhe desse o relatório do
que vinha acontecendo até o momento, lhe pediria que tentasse ganhar mais tempo. Sua
primeira semana já estava quase terminando. Ao menos agora tinha uma certeza. Brenda
realmente não se envolvera com o roubo dos títulos.

— Encontrou alguma coisa? — Brenda entrou no sótão, aproximando-se de algumas


caixas que Trevor já abrira.
— Nada ainda. Por enquanto, só achei papelada antiga de sua tia, velhas contas e
carnes pagos, revistas, livros e coisas assim.
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
— Sabe, depois que me referi àqueles agentes federais, me lembrei de uma coisa.
Na última vez em que falaram comigo, me disseram que tinham colocado alguém para
seguir Richard no período anterior ao suposto suicídio. E que por duas vezes ele havia
sido seguido até aqui. Assim sendo, é bem possível que tenha mesmo escondido os
títulos roubados aqui, enquanto eu não estava. Não seria irônico?
— Se estiverem aqui na casa, nós os encontraremos. — Brenda começou a ajudá-lo
a vasculhar a antiga papelada minuciosamente. Quando faltava cerca de metade das
caixas, fizeram uma pausa para o almoço. Como planejou, Trevor ligou para Barney de
seu carro, alegando a ela que iria verificar se estava bem escondido entre a vegetação
sob a luz do dia.
Ao continuarem a examinar as caixas restantes, Brenda procurou concentrar-se no
que estava fazendo e manter suas emoções resguardadas. Mas o problema era que não
conseguia tirar os olhos daquele homem enigmático por muito tempo. Mesmo em silêncio,
Trevor a intrigava, fascinava. Algo havia mudado outra vez entre ambos, mas não tinha
certeza do que estaria causando aquela súbita espécie de distanciamento. E ele não
parecia disposto a oferecer nenhuma explicação. Terminaram de examinar as caixas sem
resultado, e Trevor verificou os velhos móveis. Não havia nada escondido ali, nem
tampouco tábuas falsas ocultando compartimentos secretos no assoalho do sótão. A um
canto atrás dos móveis, porém, havia algumas prateleiras um tanto ocultas que
acomodavam parte dos vários objetos antigos. Na prateleira mais baixa, havia mais uma
caixa de papelão. Trevor abriu-a, achando interessante o fato de estar separada das
demais.
— Bingo! Acho que encontrei algo aqui. Venha dar uma olhada.

Capítulo 8

— Os títulos? — Brenda aproximou-se pelo sótão, contornando as pilhas de móveis


até as prateleiras. Agachado, Trevor examinava os primeiros papéis da caixa que abrira
no chão.
— Não. Mas estes parecem tipos de papéis que têm a ver com negócios. Eram de
Richard?
Ela arrastou uma velha banqueta para seu lado e sentou-se, grata pelo pretexto de
estar perto dele. Aceitou a papelada, começando a verificá-la.
— Nunca ouvi falar sobre estas pessoas. De qualquer modo, esta é a letra de
Richard. Estes papéis eram dele, sim. Pelo visto, ao contrário de mim, ele costumara vir
ao sótão.
— Temos que examiná-los minuciosamente. Como já terminamos por aqui e está
escurecendo, vou carregar esta caixa lá para baixo.
Os dois espalharam a papelada sobre a mesa da cozinha. Recibos estavam
misturados com cálculos e anotações, velhos cartões postais com comprovantes de
contas. Nenhum dos papéis parecia organizado, assim passaram o começo da noite
lendo e separando cada um.
Estavam quase terminando quando Trevor abriu quatro cartas, enfileirando-as à sua
frente e olhou para ela com um sorriso satisfeito.
— Ora, vejam só. Parece que Richard tinha um sócio.
— O quê? — Brenda levantou-se e contornou a mesa para ler as cartas.
— Alguma vez ele falou sobre alguém chamado Alcorn?
— Não. Nunca ouvi falar.
— Estas cartas não dizem exatamente que eram sócios, mas posso apostar que têm
a ver com o que estamos procurando. Vou verificar de novo toda a papelada dele para ver
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
onde o nome Alcorn aparece. Vamos procurar inicias também.
— Eu não. — Ela bocejou, sentindo-se exausta com a atividade do dia. — Agora só
preciso de um banho para tirar toda esta poeira e de uma boa noite de sono.
Trevor começou a examinar o primeiro papel outra vez.
— Estamos fazendo progresso. Começaremos a procurar o sobrenome Alcorn
amanhã. Podemos verificar na lista telefônica, fazer algumas ligações. Se pudermos
encontrar este sócio, talvez ele saiba dos títulos.
Brenda assentiu e esfregou os olhos cansados.
— Bem, estou encerrando a noite — disse. Trevor respondeu com um polido
assentimento. Sem dúvida, tinha um incrível poder de concentração e, no momento,
estava absorto pelo quebra-cabeça à sua frente.

— Ainda digo que poderíamos falar com todos os Alcorns que constam no catálogo
telefônico bem mais depressa se dividíssemos a lista deles em dois — disse Brenda. A
área metropolitana de Washington parecia apinhada de Alcorns, cada um significando
uma pista em potencial para os negócios de Richard, sua morte e os títulos.
Estavam atravessando a ponte da Rua Quatorze, sobre o rio Potomac, dirigindo
rumo a Washington D.C. e à casa de Susan Alcorn, a oitava pessoa da lista com esse
sobrenome.
Trevor parecia tranqüilo detrás do volante, muito atraente numa camisa azul-clara e
calça cinza, mas a tensão em suas mãos traía a aparente serenidade.
— Você é a única pessoa que sabe que Richard era meu irmão. Quero que continue
sendo segredo. Você tem um motivo justo para fazer perguntas sobre seu ex-marido e os
títulos desaparecidos. — Ele lançou um olhar para Brenda, um ligeiro sorriso curvando-lhe
os lábios. — As pessoas vão se abrir com você.
Além de estar se esforçando para lidar com a gama de emoções em seu íntimo em
relação a atração que sentia por Trevor, Brenda não estava muito certa se gostava de
mais essa outra preocupação, dessa delicada etapa da busca que ambos faziam. Quando
desceram de seu carro em frente a casa de Susan Alcorn, suas mãos estavam um tanto
trêmulas, a ansiedade crescia. Trevor tocou a campainha, e uma mulher magra e baixa,
de cerca de cinqüenta anos, veio atender à porta. Tinha o rosto pálido e abatido, os olhos
vermelhos evidenciavam que estivera chorando.
— Pois não?
— É a sra. Susan Alcorn? — perguntou Brenda, quando percebeu que Trevor
esperara que falasse primeiro.
A mulher assentiu; ambos se apresentaram e perguntaram-lhe se conhecia Richard
Tapp. Quando ela confirmou, Brenda explicou-lhe que era a ex-esposa dele.
Susan franziu o cenho em surpresa, porém convidou-os a entrar. Conduziu-os a
uma sala de estar simples, de mobília gasta, mas aspecto limpo e arrumado, e indicou-
lhes que se sentassem.
— Fiquei pasma quando li sobre Richard nos jornais — comentou Susan, sentando-
se numa poltrona diante do sofá que ambos ocuparam. — Ainda não posso imaginá-lo
cometendo suicídio. Você deve ter ficado chocada.
— Você conhecia Richard há muito tempo? — perguntou Brenda.
— Há dois anos. — Havia uma expressão de profunda tristeza no rosto da mulher.
Contou-lhes a respeito de sua casa em Kentucky, sobre ter conhecido Richard nas
corridas de cavalo. — Ele e meu marido, Rex Alcorn, ficaram amigos logo. E eu fiquei
contente com a sociedade de ambos. Quero dizer, Rex ainda era um homem novo para
iniciar um negócio. — Lágrimas brotaram dos olhos dela. — Eu não sabia que eles
estavam roubando aqueles títulos.
Trevor inclinou-se para a frente e deu um tapinha gentil na mão da sra. Alcorn.
— Vai ficar tudo bem, Susan.
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
— Oh, eu gostaria tanto de poder acreditar nisso. — Ela procurou se conter,
enxugando as lágrimas com as pontas dos dedos. — Me desculpem. E que hoje Rex e eu
fazemos aniversário de casamento... trinta anos. E eu não sei o que está acontecendo...
Vocês fazem idéia de onde Rex possa estar? Ele e Richard viajavam muito, mas meu
marido sempre me telefonava, infalivelmente a cada noite.
Trevor sacudiu a cabeça, uma expressão solidária em seu rosto.
— Há quanto tempo seu marido está desaparecido?
— Há mais de três semanas. Desde a noite em que Richard... Oh, tenho tanto medo
que algo tenha acontecido a Rex.
— Telefonou para a polícia?
— Sim. E me fizeram um longo interrogatório, principalmente depois que mencionei
Richard. — Susan levantou-se de repente, as mãos torcendo-se em nervosismo. — Estou
sendo rude. Me perdoem. Aceitam um chá?
Brenda assentiu com um sorriso suave e, depois que a mulher deixou a sala, Trevor
comentou:
— Ela ficou agitada quando mencionei a polícia.
— E você a culpa? Pelo jeito, eles a bombardearam de perguntas. — Ela olhou ao
redor da sala modesta. — E, como pode ver, não está levando uma vida de luxo.
Susan retornou poucos minutos depois com as xícaras de chá fumegante numa
bandeja. Serviu-os, depositando-a, em seguida, sobre a mesa de centro.
— Rex chegou a mencionar algo sobre os títulos?
— Não. Disse isso à polícia. Acho que, finalmente, acreditaram em mim. Rex nunca
conversa sobre negócios comigo, exceto na época em que resolveu se associar a
Richard, claro. Sabe, nós dois sentimos compaixão por ele. No passado, Rex também
havia sido um jogador compulsivo e levou anos para superar o vício. — Susan soltou um
suspiro consternado. — Pois de fato é um vício, uma doença.
Olhou para Brenda, uma expressão bondosa iluminando-lhe o semblante.
— Sei o quanto é difícil viver com um homem capaz de qualquer coisa para apostar
dinheiro. É por isso que estávamos nas corridas. Rex e eu fizemos esse tipo de acordo
entre nós. Depois que ele se curou do vício, era bom apostar ocasionalmente nos
cavalos, com moderação, para que isso não tivesse se tornado algo proibido, para que
não houvesse o risco da compulsão retornar. Eu o acompanhava, apostávamos quantias
irrisórias e até se tornava um programa divertido. Parece contraditório, mas o método deu
certo.
Brenda assentia, tentando ocultar seu espanto. Richard, um jogador compulsivo?
Claro. Esse novo dado parecia se encaixar, explicava muito. Primeiro, ele acabara com o
dinheiro de tia Maude, depois com o dela. Se ao menos tivesse lhe contado, talvez
pudesse tê-lo ajudado. Mas não, Richard jamais teria admitido uma fraqueza.
Trevor fazia mais algumas perguntas a Susan, tentando descobrir se sabia algo
sobre os tais negócios do marido. A um dado momento, ela se levantou, encaminhando-
se até uma velha e ampla escrivaninha a um canto da sala.
— Rex guarda seus arquivos aqui. Acham que ele não se importaria, não é mesmo?
— Sem esperar por uma resposta, abriu gaveta após gaveta, até que achou uma grande
caixa — Meu marido é muito organizado. — Levou-a para o sofá.
Dentro da caixa, havia pastas de arquivo, cada uma etiquetada numa letra
meticulosa. Trevor folheou o conteúdo das pastas, examinando os papéis e anotações.
— Há mais alguma coisa na escrivaninha que possa ajudar? — perguntou a Susan,
seu tom prestativo, sua expressão inspirando confiança.
Ela abriu a gaveta do meio.
— Só há mais isto. — A mulher entregou-lhe um caderno de anotações e tornou a
sentar-se na poltrona.
Trevor tirou uma caneta e um pequeno bloco de seu bolso e passou vários minutos
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
estudando o caderno azul de anotações, parando às vezes para copiar dados. Ao
terminar, fechou o caderno e devolveu-o com a caixa à escrivaninha.
— Espero que isso ajude em algo. — Susan estendeu a mão para Trevor, os olhos
cansados brilhando com esperança renovada.
— Também espero. Mas quer esses dados ajudem ou não, ficamos gratos com sua
cooperação. Saberá de imediato se tivermos alguma notícia sobre Rex.
Os dois partiram em silêncio. Trevor parecia totalmente absorto em pensamentos,
enquanto dirigia por entre as ruas residenciais. Brenda também permanecia quieta,
repassando na mente a visita a Susan Alcorn.
Ele, enfim, tirou seu bloco de anotações do bolso e entregou-o a ela.
— Veja se reconhece algum desses nomes que copiei dos papéis de Rex.
Brenda tentou se concentrar nos nomes, mas sua mente continuava na sala de
Susan. Como fora fácil para Trevor conquistar-lhe a confiança. Algumas pessoas
inspiravam confiança de imediato em estranhos meramente com uma palavra gentil, um
gesto generoso. Richard fora assim, em especial com tia Maude. Cinco minutos depois de
tê-lo conhecido, ela já passara a confiar nele totalmente.
A sinceridade de Richard fora uma farsa. Durante os primeiros seis meses do
casamento de ambos, tratara Brenda com amor e respeito. Com o tempo, passara a
cometer deslizes que, na época, haviam parecido insignificantes. Lembrava-se da
primeira vez em que ele voltara para casa ao final da madrugada. Logo, quase todas as
noites haviam passado a ser assim.
Agora, podia enxergar que a participação de Richard no relacionamento de ambos
fora motivado pelo vício do jogo. Conquistara sua confiança e a de sua tia para poder
obter uma nova fonte de renda, a fim de financiar sua jogatina. Uma vez que o di nheiro
terminara, não precisara mais dela. Entender isso ajudava, mas não muito.
E quanto a Trevor? Seria dissimulado feito o irmão? A lógica lhe dizia que não.
Afinal, ele a salvara dos bandidos, ajudara-a a arrumar a desordem deixada por aqueles
dois, e contara-lhe logo de início quais as razões pessoais para querer ajudá-la.
Ela procurou concentrar-se nas anotações à sua frente e ignorar os pensamentos
inquietantes. Será que sua experiência com Richard a deixara paranóica? Será que
sempre pensaria o pior das pessoas?
— Algum desses nomes lhe parece familiar?
Brenda verificou as páginas rapidamente.
— Não. Nenhum. Mas, afinal, faz tempo que nos separamos. E eu nunca soube
nada sobre os amigos de Richard... ou seus negócios. — Era a pura verdade. Do
contrário, o que encontrara na pasta executiva dele um ano e meio atrás não a teria
chocado tanto.

Passaram boa parte da tarde do sábado comparando as anotações que Trevor


copiara com o conteúdo da caixa de Richard que haviam encontrado no sótão.
— Nada se encaixa! — exclamou ele, afastando a cadeira para trás, numa onda de
frustração. Andou de um lado ao outro da cozinha e, então, anunciou abruptamente: —
Tenho que cuidar de umas coisas. Estará bem sozinha por algum tempo?
— Claro. Vá em frente — assegurou-lhe Brenda.
— Tranque a porta até eu voltar e ligue o alarme. — Apanhou as chaves dela do
balcão. — Vou colocar seu carro atrás da casa para que ninguém saiba que está aqui.
Brenda preparou o jantar cedo, fazendo uma sopa e bolinhos de queijo, o tempo
todo recusando-se a divagar sobre onde ele teria ido ou o que estaria fazendo. Em vez
disso, assegurou a si mesma que voltaria logo, que não se preocupasse. O próprio Trevor
lhe dissera que estava apenas tentando induzir os bandidos a se revelarem e que estaria
por perto.
Conforme a noite foi avançando, porém, sentiu-se cada vez mais sozinha e isolada.
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
As escadas rangeram quando subiu para seu quarto, o vento soprou de encontro à sua
janela. Sons que antes haviam lhe trazido conforto e serenidade ecoavam agora sua
solidão e davam um aspecto assustador à noite.
Deitou-se na cama sentindo-se mais inquieta do que nunca. Tão logo aquele
mistério pudesse ser resolvido e os títulos fossem encontrados, Trevor partiria de sua vida
tão depressa quanto surgira e ela teria mesmo que lidar com sua ausência, de qualquer
forma. Talvez fosse mais sensato ir se acostumando à idéia desde já. Não podia precisar
do irmão de Richard. Podia?

Em meio à escuridão da noite, Trevor olhou ao redor dos densos arvoredos que
avançavam sobre a estradinha abandonada e ocultavam seu carro. Apesar do ar
abafadiço no interior do automóvel, não se atreveu a sair. Estava esperando que Barney
verificasse os nomes e endereços que copiara na casa de Susan Alcorn. O sofisticado
sistema de computadores a que seu chefe estava tendo acesso pouparia-lhe muitas
horas. Tinha a sensação que essas novas informações o levariam na direção certa.
Dali, mantinha uma vigilância atenta sobre estrada à frente e o caminho de cascalho
que conduzia à casa de Brenda. Estava segura.
Refletiu sobre o que Susan falara. Então, Richard havia sido um viciado em jogo. E,
ao que tudo indicava, Brenda não fizera a menor idéia a respeito disso. Uma nova
evidência do quanto os rumos daquele casamento deviam tê-la feito sofrer...
O telefone tocou, sobressaltando-o.
— Tem algum parente chamado R.T. Steele? — perguntou-lhe Barney à queima-
roupa.
— Não. Isso é algum jogo?
O chefe riu do outro lado da linha.
— É o que eu gostaria de saber. Um dos endereços que você copiou é de um motel
barato em Fairfax County. Um sujeito com o nome de R.T. Steele hospedou-se lá três
meses atrás. Pagou pelo ano todo. — Leu o endereço em voz alta, e Trevor sublinhou-o
no início de sua lista de anotações.
— Vou verificar.
— É provável que não dê em nada — comentou o chefe. Mas Trevor pensava de
outro modo. A inicial do meio do nome de Richard era M, de Martin, e não T. Ele quisera
atraí-lo até lá de algum modo. Se não fosse o caso, por que usar o seu sobrenome?
— Você parece ter dado um tiro certeiro com este aqui, porém. — Barney leu um
outro endereço. Era de uma área nobre em Washington D.C., e Trevor também o
sublinhou em sua lista. — Bom, muito bom. A gerente do condomínio lembrou-se de Tapp
pela descrição que lhe fiz. Ele alugou um apartamento lá sob o nome de Jake Smith.
Pouco imaginativo, não acha? Ao menos agora sabemos onde vinha se escondendo. E
esse endereço que quero que verifique, Steele. Esqueça o motel.
— Eu verifico o motel — insistiu Trevor, irredutível.
— Está bem, como queira. Vou mandar Crowley investigar no condomínio.
Trevor voltou para a casa, apreciando o frescor da noite e as boas novas de Barney.
Ao menos uma pista.
Ficou desapontado ao constatar que Brenda já havia se recolhido ao quarto. Deteve-
se no início da escada, pensando em subir até lá e contar-lhe o que descobrira. Uma
fantasia foi dominando sua mente... ele a acordava, ouvia-lhe a voz sonolenta,
contemplava-lhe os olhos verdes, provocantes, semicerrados, os cabelos sedosos em
desalinho, a curva macia dos seios, realçada pelo decote da camisola... tudo esperando
por seu toque. A tentação de subir até lá era tão grande que segurou-se com firmeza no
corrimão no início da escada.
— Droga! — Afastou-se abruptamente. Amanhã teriam o dia inteiro juntos. Suas
notícias teriam que esperar. Não havia como acordá-la agora sem correr o risco de perder
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
seu autocontrole.
Foi apanhar uma lata de cerveja na geladeira e deitou-se no sofá. Sua libido não
entendia o que sua mente gritava continuamente... ela fora a esposa de seu irmão.
Teria que ajudá-la a encontrar os títulos, descobrir o que acontecera com Richard e
partir. Devia usar a nova pista e encerrar logo aquele caso.
De repente, uma verdade óbvia, que lhe passara despercebida atingiu-o em cheio.
Levantou-se bruscamente do sofá, uma camada de suor formando-se em sua fronte.
Felizmente, ela estava dormindo. Do contrário, ele teria dado com a língua nos dentes e
despejado a nova informação à queima-roupa, sem ter elaborado nenhuma explicação
razoável de como descobrira o dado àquela hora da noite. Podia até ouvir a si mesmo:
"Puxa, acabei de ligar para o meu chefe, Barney, que verificou nos computadores do
governo, e adivinhe só?"
Andou de um lado ao outro da sala em silêncio. Estava perdendo a cabeça, não
havia dúvida. Aquela linda mulher no andar de cima, de corpo curvilíneo e tentadores
olhos verdes o havia enfeitiçado. Tinha que manter seu controle. Devia readquirir a
intensa concentração que era imprescindível a qualquer missão secreta. Do contrário,
ambos acabariam perdendo.

Capítulo 9

Trevor e Brenda foram verificar o endereço da lista na tarde do dia seguinte. O


quarto 123 ficava ao final de uma série de quartos distribuídos detrás do escritório do
motel de beira de estrada. Ele não teve dificuldade em abrir a fechadura. Virou-se para
ela com um largo sorriso.
— Moleza. — Apesar do ar descontraído, a tensão era evidente em sua voz.
Girou a maçaneta devagar e abriu a porta.
— Fique no corredor.
Mas Brenda não tinha a menor intenção de esperar do lado de fora. Trevor
explicara-lhe que ligara para o motel pela manhã e haviam lhe dito que o quarto estava
alugado no nome de um sr. Steele. Essa confirmação combinada ao fato do endereço ter
sido copiado do caderno azul de Rex Alcorn era prova de que não se tratava de mera
coincidência. Ambos sabiam que Richard alugara esse quarto.
Ela o seguiu em absoluto silêncio, enquanto Trevor se esgueirava pelo quarto
escuro. Quando acendeu a luz, uma lâmpada sem lustre revelou um quarto apertado e
sujo.
— Credo, este lugar tem um cheiro horrível.
— Céus, garota, você sempre faz o oposto do que lhe é pedido? — O olhar
provocador dele a fez arrepiar-se por inteiro.
Ela exibiu um sorriso inocente e deu de ombros.
— É um dom.
O pequeno quarto tinha uma cama de casal a um canto, uma cômoda de pinho
lascado ao lado da janela, uma mesinha redonda e um armário simples junto à porta do
banheiro anexo. Havia várias latas de cerveja e sacos de salgadinhos vazios espalhados
ao redor. Enquanto Trevor abria a janela para a entrada de ar fresco e claridade, Brenda
aproximou-se da mesinha e encontrou algumas anotações sobre corridas e nomes de
cavalos.
— Esta letra é de Richard — anunciou. — Não há dúvida de que este lugar foi
alugado por ele.
— Era assim que meu irmão vivia... — Havia uma indisfarçável nota de tristeza na
voz de Trevor.
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
Brenda pousou a mão no braço dele, esperando que o contato dissipasse parte da
tensão. Tentando manter a voz jovial, comentou:
— Richard nunca foi muito organizado. Ao contrário de você, pelo que pude
perceber. — Ela ponderou que Trevor sempre arrumava o sofá onde dormia, lavava a
louça, dobrava as roupas para guardá-las na mochila. — Na verdade, vocês dois são
muito diferentes, em vários aspectos.
Ele segurou-lhe o rosto entre as mãos e depositou-lhe um inesperado beijo na
fronte.
— Você é uma mulher maravilhosa, sabia?
Com todo o vagar e sensualidade, beijou-lhe as pálpebras, as faces, os lábios,
puxando-a para si. O beijo se acentuou e, apesar de suas incertezas, Brenda não teve
como resistir. Abraçou-o pelo pescoço, permitindo que a língua cálida invadisse sua boca
numa erótica exploração.
Céus, o que estaria lhe acontecendo? Queria ficar nos braços de Trevor para
sempre.
Ele terminou o beijo com relutância, mas continuando a estreitá-la de encontro a seu
corpo viril. O sexo rijo por entre as barreiras de suas roupas era a evidência de quanto a
queria. Aliás, ambos queriam um ao outro; precisavam de muito mais...
Um brilho de paixão cintilava nos olhos azuis ao fitá-la.
— Puxa, doçura, você deixa um homem louco.
A realidade foi interferindo, como uma intrusa num sonho bom. Brenda achou que,
definitivamente, devia ter perdido o juízo. Não podia estar ali beijando o irmão de Richard
daquele jeito, se derretendo em seus braços! Não devia se sentir tão suscetível a seu
toque, tão enfeitiçada por aquele olhar... Mas não podia negar a poderosa atração entre
ambos, suas próprias reações não a deixavam desmentir.
Relutante, soltou-se dos braços dele e esforçou-se para readquirir seu equilíbrio
emocional.
— Vamos ver se encontramos algo aqui? — Trevor notou a súbita reserva nos olhos
dela, as perguntas, a incerteza e achou que o melhor no momento seria concentrarem-se
na razão que os trouxera ali.
Rapidamente a atividade ajudou-o a conter o fogo que o consumia, a readquirir o
controle. Enquanto ela verificava minuciosamente as gavetas da cômoda, ele atacou as
roupas do armário, examinando cada bolso, dobra e sapato. Depois, olhou debaixo do
colchão, no banheiro, procurou alguma tábua solta no assoalho ou qualquer reentrância
suspeita no restante da pouca mobília. A busca não resultava em nada, mas ainda havia
as duas caixas de papelão que se achavam encostadas junto a uma das paredes.
Tinham-nas deixado por último.
— Vamos abrir uma de cada vez e examinar o conteúdo juntos.
Na primeira, havia papéis e Brenda pegou uma parte.
— Esta papelada é muito velha — disse logo. — São cartas de bancos diferentes,
destinadas a minha tia. Aqui, por exemplo, há um demonstrativo de rendimentos de um
antigo investimento para fins de imposto de renda.
— E por que Richard estaria com isso?
— Ele tinha mania de guardar tudo — respondeu ela, evasiva, sem querer entrar no
assunto de como Richard "limpara" o dinheiro de ambas.
Trevor notou o controle na voz dela, a raiva contida com a revelação de mais um
segredo de seu casamento. Admirou-a por não estar esbravejando e falando mal de seu
irmão abertamente, como teria todo o direito de fazer.
— Ei, veja isto. — Separados dos demais papéis antigos por algumas folhas de
embrulho, ele acabava de encontrar, no fundo da caixa, três livros finos.
— São livros contábeis — disse Brenda. Um deles tinha um X escrito na capa, o
segundo um R e o terceiro um P. — O que acha que as letras significam?
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
— O R provavelmente deve ser de Richard.
— O X soa como... Rex. — Ela riu, o brilho em seus olhos verdes se acentuando. —
Não. Não poderia ser assim tão simples.
Trevor abriu os livros sobre a cama e comparou as páginas que tinham datas
aproximadas.
— Os números não batem. Veja, aqui há uma entrada em cada livro, a mesma data
e identificação, mas os valores são diferentes.
— Procure por um padrão.
Compararam as várias outras páginas dos três livros.
— Você está certa. A diferença em cada total é sempre a mesma, página após
página.
— Você deve ter razão quando ao R ser de Richard. Acho que ele estava levando a
maior parte dos lucros. O livro R mostra os números verdadeiros. Os X e P representam
duas outras pessoas envolvidas nesse esquema aqui.
Sentindo uma estranha opressão no peito ante a visão mais ampla de como seu
irmão gêmeo fora, ele se forçou a lembrar de sua posição como agente federal e assentiu.
— É, Richard precisava de um meio de alimentar seu vício. Pelo que percebi, você
não sabia sobre a jogatina, as corridas... não é?
— Não, não sabia. Mas faz sentido. Tia Maude o incumbira de cuidar de suas
finanças dois meses depois de ele ter alugado o quarto lá em casa. Foi algo que me irritou
a princípio. Mas na época, eu não tinha conhecimento em contabilidade ou administração
e acabei concluindo que ela havia tomado a decisão certa. Já que Richard parecia
confiável.
— É possível que estes livros contábeis mostrem que nunca foi... Se as autoridades
estiverem enganadas quanto ao suicídio de Richard, se foi assassinado, alguém deve ter
descoberto que estava trapaceando e decidiu por um fim nisso.
— Quer dizer... Rex?
— Duvido. Susan me deu a impressão que o marido era um seguidor, não um líder.
— É estranho que ele tenha desaparecido. Talvez devêssemos nos concentrar em
encontrá-lo.
Trevor riu e afastou-lhe uma mecha castanha da fronte com gentileza.
— Puxa, você leva mesmo jeito para a coisa. Brenda Michaels, detetive particular.
— Nada disso. Só quero que esse mistério todo seja resolvido para poder continuar
com minha vida normal e pacata.
— Bem, se não chegarmos a lugar algum com o pouco que temos, vamos nos
concentrar em Rex. Combinado?
Entre os papéis que haviam tirado daquela caixa, encontraram uma folha de caderno
rasgada no meio.
— É a letra de Richard. Parece que começou algum tipo de lista — notou Brenda.
Trevor reconheceu um dos nomes de seus arquivos no trabalho.
— Não vejo a outra metade por aqui — disse, guardando o papel no bolso.
— É importante?
— Quem sabe? Pode ser.
Abriram a segunda caixa, e Trevor ficou boquiaberto ao deparar com dezenas de
fotografias soltas.
— Estas foram tiradas quando ele era um garotinho. — Brenda distribuiu todas as
fotos pela cama, olhando-as de relance.
Trevor pegou uma por uma, estudando-as com atenção. Um garoto de cabelos
castanhos, com olhos azuis como os seus, encarava-o de volta. Richard andando de
triciclo; soprando cinco velas num bolo; diante de uma grande casa, entre um homem e
uma mulher sorridentes, que o ladeavam, segurando suas mãozinhas.
Não podia definir o que estava sentindo. Ali estava seu irmão gêmeo com a família
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
que o adotara; pareciam tão felizes naquela época. Sentiu uma forte e estranha ligação
com aquele menino, uma volta mágica ao passado que não tinham podido compartilhar.
As fotos tornavam Richard real. E por um momento tentou imaginar mais uma vez como
sua própria vida teria sido com um irmão, uma família.
Para Trevor não havia nenhuma foto de infância, apenas lembranças frias de vários
lares adotivos temporários. Mas nada disso importava agora. Os dois haviam sido trazidos
ao mundo juntos. Haviam partilhado de um início em comum que ninguém poderia apagar
e, por essa razão, as fotos causavam sentimentos novos, profundos, constrangedores.
Sentia-se embaraçado como nunca.
Levantou o olhar para Brenda, que o estudava com atenção. Tinha os belos olhos
verdes marejados, e um sorriso meigo curvava-lhe os lábios cheios. Não disse nada, mas
tocou-lhe o braço com ternura. A gentil aceitação dela o levou a reconhecer o que sentia:
uma alegria especial em descobrir a família de Richard, uma parte boa da vida dele, não
desregrada.
Beijou-a com suavidade na face.
— Obrigada, doçura.
Ela afastou as lágrimas dos olhos.
— Eu não fiz nada.
Mas ele sabia que fizera. Aquela aceitação natural, a ausência de julgamento
permitiram a Trevor admitir a emoção que o dominava.
— Vamos levar estas fotos e colocá-las num álbum para você.
A idéia o tocou e o fez sorrir, enquanto recolhia todas as fotos e as colocava junto
com os livros contábeis para continuarem verificando a caixa. Sob uma camada de papel
de embrulho, havia alguns velhos brinquedos de infância, antigas cadernetas escolares e
dois documentos: uma certidão de batismo e um diploma de colegial. Ele examinou os
documentos de cenho franzido.
— Algo errado? — perguntou Brenda.
— Os sobrenomes estão diferentes. Veja isto. No diploma do colegial diz Tapp, mas
na certidão de batismo o sobrenome é outro. Aqui consta: Richard Martin Foster.
— Talvez a mãe adotiva dele tenha se casado outra vez, com algum Tapp, mais
tarde. Aqui há uma caderneta escolar do primário onde o sobrenome também é Foster.
— Ei, o que é isto? — No fundo da caixa, havia um saco plástico com recortes de
artigos de jornal. Ele examinou-os e ficou chocado. Os artigos datavam de uns dezoito
anos e falavam sobre um grande desfalque a um banco e o longo julgamento que levara o
responsável à prisão. O sobrenome era Foster, o mesmo do batismo de Richard.
— Inacreditável... Acho que é a mesma família. Este tal de Paul Foster que foi
condenado é o pai adotivo de Richard.
— Tem certeza?
Trevor tornou a pegar as fotos até encontrar o casal de mãos dadas com Richard.
Havia uma diferença de idade, claro, mas a semelhança não deixava dúvidas de que o pai
adotivo de Richard era o mesmo homem condenado do jornal.
— Claro. Veja.
— Nossa, tem razão. Richard nunca mencionou nada sobre o pai ter tido problemas
com a lei. É por causa desse antigo escândalo que deve ter mudado o sobre nome para
Tapp. E também a razão de ter sido tão reticente em falar sobre a família adotiva.
— Sim, isso explica muita coisa quanto aos rumos que o próprio Richard acabou
tomando em sua vida.
— Note as datas nos artigos. Ele devia ter uns dezessete anos quando esse homem
foi a julgamento. E, de acordo com o diploma, Richard só terminou o colegial uns dois
anos depois. Deve ter sido difícil ver o pai passando por tudo aquilo.
Trevor imaginava como teria sido, pois também fora um adolescente confuso
tentando se encontrar, antes de ter vivido com os Collins. Quanto a Richard, considerando
52
Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
as atividades escusas em que estivera envolvido na época de sua morte, podia apenas
concluir que talvez ele jamais tenha se encontrado. Parecia que tentara ser uma cópia fiel
do pai adotivo.
Trevor guardou tudo de volta na caixa, inclusive as fotos, pretendendo levá-la
também. Fechou-a, soltando um profundo suspiro.
— Sabe, desde que descobri que tinha um irmão gêmeo, uma parte de mim invejou
a família que ele pudera ter e eu não, mas não agora. Esses pais adotivos pelos quais
passei na infância não foram ideais, claro, mas até que alguns eram pessoas muito boas,
especiais o bastante para fazer uma diferença positiva no meu modo de ser. Como os
Collins. Talvez Richard não tivesse enveredado por caminhos errados se houvesse sido
deixado para trás comigo.
— Nós todos temos chances de fazer escolhas na vida, independentemente de
nosso passado.
Trevor abraçou-a pelos ombros, grato por seu apoio e compreensão.
— Sim, mas cada escolha vem com uma bagagem extra.
Seus olhares se encontraram e a tentação foi grande demais para que Trevor
resistisse. Beijou-lhe os lábios demoradamente. Mas, não querendo pressioná-la, apesar
da atração entre ambos ser inegável, interrompeu o beijo e sorriu-lhe.
— Não sei quanto a você, mas estou morrendo de fome.
— Bem, então vamos indo. Deixo você me ajudar a preparar o jantar. — Brenda
retribuiu o sorriso e a nova tensão dissipou-se.
Recolheram rapidamente os livros contábeis e as duas caixas de papelão, saindo do
motel para o ar fresco do anoitecer. Trevor sabia que não importando o quanto aquela
mulher fosse especial, linda e tentadora, precisava mantê-la a uma certa distância.
Mesmo que pudesse superar aquela culpa por ela ter sido esposa de seu irmão, culpa
que às vezes lhe parecia absurda, mas que não conseguia eliminar, ainda havia a
questão de ser um agente federal.
Oh, acabariam encontrando os títulos e, uma vez que isso acontecesse, não haveria
como esconder mais esse fato. Ficaria aliviado quando ela soubesse. Odiava aquelas
mentiras entre ambos. Mas a revelação acabaria com qualquer fantasia sobre os dois
ficarem juntos.
Com cuidado especial, colocou a segunda caixa no porta-malas, enquanto Brenda já
aguardava dentro do carro. Essa caixa continha verdadeiras preciosidades. Lampejos de
um passado que perdera, um pouco da história do irmão que começava a conhecer.
Ele sentou-se, enfim, ao volante sentindo-se com o espírito mais leve; era um senso
de plenitude como nunca experimentara antes. Sentia uma nova ligação com seu irmão
ao ter visto onde vivera, onde brincara e crescera. Não podia definir ao certo essas
emoções. Mas estavam lá, em sua mente, em seu coração, em seu entendimento da vida
que Richard tivera.
Puxa, tivera um irmão!
Esses pensamentos continuarem em sua mente, enquanto subia pela Rota 1 e,
depois, entrava pela estrada escura, de mão dupla, que conduzia à casa de Brenda.
Estrelas brilhantes salpicavam o céu, iluminando o caminho de ambos. Parecia uma
celebração adequada ao momento.
Mas, quando venceu a última curva, ele se esqueceu das estrelas, de Richard e de
tudo mais. Da entrada do caminho de cascalho que levava à casa surgiam dois fachos de
luz.
Trevor gelou. O veículo avançou para eles a toda velocidade pela pista oposta, os
faróis altos cortando a escuridão como duas lâminas incandescentes na noite.

Capítulo 10
53
Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron

Trevor estendeu o braço até o assento de Brenda e pousou-lhe a mão na nuca, fa -


zendo com que se abaixasse imediatamente.
— Fique abaixada! Podem ver você.
— O quê... — Ela não teve chance de questioná-lo. Sua cabeça estava inclinada
acima de seus joelhos segundos antes de ouvir um veículo passando em disparada ao
lado. Instantes depois, Trevor entrou velozmente pelo caminho de cascalho.
— Pode sentar-se direito. Os bandidos já se foram.
Ele abriu a porta do carro abruptamente e encaminhou-se até a casa tão depressa
que seus pés atiraram cascalho pelo ar. Ela esperava o pior, mas quando entraram e
ligaram as luzes da sala de estar, o lugar parecia intacto.
Trevor fechou a porta com força atrás de ambos.
— Estiveram aqui dentro. Lá está a prova. Seu fajuto sistema de alarme se foi.
— Droga! — Ao lado da porta, o sistema de alarme fora arrancado grosseiramente e
pendia pelos fios. Aquela, sem dúvida, fora mais uma invasão entre tantas outras. Brenda
estava farta de chorar por causa disso.
Encaminhou-se até a cadeira mais próxima e ali jogou a bolsa. A raiva fervilhava em
seu íntimo e era impossível contê-la.
— Maldição! Vamos encontrá-los. Mesmo que me custe cada centavo que tenho,
que me consuma toda a energia, eles vão pagar!
Trevor revistou todo o térreo da casa e, em seguida, encaminhou-se para o andar de
cima, indicando a Brenda que o aguardasse. Desceu poucos minutos depois, os olhos
azuis faiscando de raiva.
— O andar de cima está uma bagunça... Quero dizer, aqueles dois quartos que os
bandidos não tinham revistado da última vez. As caixas do quarto que havia sido de
Richard foram abertas e as coisas espalhadas pelo chão. Desta vez até tiveram tempo de
ir ao sótão. Lá também está tudo revirado.
— Oh, mas eles não tinham esse direito! — exclamou Brenda, furiosa. Afinal, aquela
era sua casa, sua privacidade.
— Ao menos, todas as anotações que fiz e os dados que havíamos reunido a partir
daquela caixa de Richard estão no meu carro. Também acho melhor deixar lá tudo que
encontramos no motel. Mas essa foi a gota d'água. Amanhã você vai instalar um sistema
de alarme que esteja conectado diretamente com a polícia.
— Não posso pagar um alarme sofisticado desses. São caríssimos.
— Eu vou pagar.
— Oh, não mesmo. Eu não poderia aceitar.
— Bem, não vou argumentar com você. Precisará ter um alarme desses de qualquer
jeito. Falaremos a respeito depois que eu esconder meu carro do outro lado das pistas.
Trevor dirigiu até a estradinha oculta entre as folhagens e ligou para a casa de
Barney de seu carro.
— Mas que diabos, Steele, é noite de domingo. Você nunca descansa?
— Como se você deixasse — gracejou Trevor. — Encontramos uns livros contábeis
muito interessantes no motel. Tapp estava trapaceando os próprios sócios em tudo que
podia.
— Sócios?
Ele descreveu-lhe os três livros contábeis, as iniciais que exibiam e as conclusões
de que o R era do próprio Richard e que o X devia se referir ao sócio desaparecido, Rex
Alcorn.
— Sim, estamos lidando com um golpe a nível nacional — comentou Barney, enfim.
— Parece que, no final, Tapp decidiu agir por conta própria. Alguma pista sobre o livro
contábil P? De quem possa ser?
— Nenhuma até o momento.
54
Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
— A srta. Michaels não está mesmo deixando escapar nada, hein?
Numa voz controlada, Trevor defendeu-a:
— Ela sabe até bem menos do que nós. — Depois de uma pausa, acrescentou: —
Na conversa que tivemos com Susan Alcorn, esta comentou que Richard Tapp era um
viciado em jogo e apostas em cavalos. Você sabia? Esse detalhe não consta de nossos
arquivos.
— Terei que perguntar a Crowley, mas é novidade para mim. Isso explica o que
pressionava Richard a querer obter lucros maiores nas fraudes. Quanto ao
desaparecimento de Rex Alcorn, vou colocar Jamison para investigar.
— Verifique com a polícia local. Susan Alcorn já havia sido interrogada pelos tiras e
eles já sabiam da ligação de Rex e Richard antes de nós.
— Oh, maldita burocracia. Nós já deveríamos ter essa informação há muito tempo.
Quem sabe, com a ligação dos dois, não teremos sorte em encontrar Alcorn e os títulos
numa tacada só.
— Não acredito que estejam com ele. Pela descrição, não me pareceu do tipo muito
audacioso. Mas pode ser uma pista. A propósito, houve uma nova invasão na casa de
Brenda Michaels. Poderia mexer alguns pauzinhos? Eu quero um sistema de segurança
de última geração instalado na casa dela ao amanhecer.
— Vou providenciar. Me mande os livros contábeis e anotações o mais breve
possível através de seu canal costumeiro. Ah, e quanto àquele apartamento do con-
domínio em "Washington D.C., não deu em nada. De fato o lugar também era mantido por
Richard, sob o nome de Jake Smith, mas não havia nada importante por lá. Aliás, alguém
já havia revistado o apartamento na nossa frente. Encontre-os, Steele, o tempo está se
esgotando.
Ao desligar, Trevor soltou um profundo suspiro. Ocultar do velho amigo Barney que
Richard era seu irmão alfinetava-lhe a consciência... e esta já estava pesada o bastante.
Enquanto caminhava de volta à casa, justificava-se por estar enganando Brenda dizendo
a si mesmo que aquilo fazia parte de seu trabalho. Mas, ao pensar nos beijos tórridos que
já haviam trocado, sua lógica se complicava. Não tinha escolha se não continuar a
enganar a ambos. Desvendar o mistério sobre a morte de seu irmão era a prioridade.
Ao retornar para a casa, encontrou Brenda no quarto que fora alugado por Richard
no passado. Examinava uns papéis em suas mãos, e as lágrimas rolavam copiosas por
seu rosto, chegando a soluçar.
Sentindo um aperto no peito, Trevor estreitou-a em seus braços com força. Nunca a
vira chorando daquele jeito e sabia que a pressão estava sendo demais para ela.
— Vai ficar tudo bem, doçura. Vamos resolver esse assunto e o pesadelo terminará.
— Oh, não posso mais suportar. Esta é a minha casa, a que foi de meus avós, meus
pais e, depois, de minha tia. São minhas coisas. E acabei de encontrar uns... extratos
bancários desaparecidos.
Brenda aninhou-se nos braços protetores e chorou até desabafar aquela angústia
que a sufocava. Enfim, os soluços foram diminuindo até que cessaram. Soltou-se do
abraço e, com um suspiro trêmulo, sentou-se na beirada da cama.
—- Oh, sinto muito. Devo parecer uma completa histérica.
Trevor sentou-se a seu lado na cama, apontando para a pilha de extratos
grampeados que ela ainda segurava.
— A que se referem esses extratos? — Mais calma, Brenda explicou.
— Tia Maude investiu o dinheiro do patrimônio deixado por meus pais e fez uma
pequena fortuna. Depois, acho eu, ela passou a não confiar mais em seus investimentos.
Eu não sei... Minha tia era um tanto estranha. Ela converteu todos esses investimentos
em dinheiro e abriu três cadernetas de poupança, em três bancos diferentes.
— E o que houve?
— Estes extratos são de uma dessas contas. Ele me disse que essa conta nunca
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
existiu.
— Quem? — Mas Trevor sabia. Antes que ela respondesse "Richard", já sabia. Ali
estava mais uma mentira. Que tipo de homem trapaceava a própria esposa?
— Depois que minha tia morreu, tentei encontrar o conjunto de extratos de cada um
dos três bancos. Richard tinha apenas dois, e uma das contas estava zerada. Ele me
jurou que uma terceira conta não existia, que eram apenas aquelas duas. Mas percebe,
tia Maude havia me dito que eram três e, droga, eu acabei acreditando em Richard.
Trevor apanhou o conjunto de extratos e examinou-os.
— Isto estava numa das caixas que abri aqui neste quarto. Mas não achei que fosse
importante. — Viu a vultosa soma com que a conta fora aberta e, ao final, o saldo quase
zerado. Era revoltante...
— Sim, é isso mesmo que você está vendo... Examinei todos um pouco antes de
você voltar e já descobri o que aconteceu. Richard também limpou essa conta. Havia me
dito que o dinheiro das outras contas fora gasto com despesas médicas de tia Maude,
quando, na verdade, durante todo o tempo deve ter torrado tudo no jogo. Sabe, nem é
tanto o dinheiro perdido que me incomoda, mas sim o fato de ter sido enganada... e minha
própria estupidez. Eu era tão ingênua. Não fazia idéia de que ele havia gasto todo o
dinheiro da minha família. Só descobri depois que o deixei.
— Você confia nas pessoas. É parte de sua natureza. Não pode mudar isso. — Uma
profunda onda de arrependimento atingiu Trevor em cheio.
— Não confio mais tão cegamente hoje em dia. — Ela se levantou, evitando olhar
para o caos ao redor. — Bem, vamos descer para comer alguma coisa. Arrumo isto aqui
num outro dia.
Os dois encomendaram uma pizza e comeram sob um mínimo de conversação.
Trevor remoia o caso em sua mente, examinando os novos fatos e adivinhando as
possibilidades. A chave para o mistério da fraude parecia ser o livro contábil P. Quem
seria P? O que precisava era de algum tipo de isca. Se pudesse provocar o figurão que
estaria no comando da organização criminosa, talvez as peças que faltavam naquele que-
bra-cabeça aparecessem.
Via a frustração, a ansiedade e o cansaço na expressão de Brenda. Esperou que
terminassem o jantar, ajudou-a com a louça e indicou que tornassem a se sentar à mesa
para lhe expor sua idéia.
— Sabe, estive pensando. E se fizermos os bandidos acreditarem que alguns títulos
estão sendo convertidos em dinheiro?
— Mas, é claro! — Um brilho de esperança dissipou parte da desolação nos olhos
verdes de Brenda. — Se pudéssemos fazer com que o tal outro sócio de Richard saísse
da toca, muitas coisas poderiam ser esclarecidas. Talvez, assim, apareça alguma pista
até os títulos.
— Exato. Se soubermos quem mais esteve por trás desse golpe de milhões que,
segundo os jornais, foi aplicado nas corretoras de valores, será mais fácil entendermos os
dados que já reunimos até agora. Aqueles dois brutamontes são apenas capangas, os
que fazem o serviço sujo.
— Tive uma idéia! Vou hipotecar minha casa e fazer um grande depósito na minha
conta. Depois, sairei por aí dizendo que estou nadando em dinheiro.
— Ficou maluca? Isso está fora de cogitação. No meu plano, não quero que você
seja a isca. Eu tenho como fazer um depósito na minha conta. Depois, é só espalhar que
eu estou com dinheiro.
— Mas isso é ridículo. E por que eles se importariam se você tem ou não muito
dinheiro?
— Eu poderia fazê-los pensar que encontrei os títulos aqui na casa.
— E acha que eles vão acreditar que não sei de nada, que o deixei entrar aqui,
pegar os títulos e sair direto para o seu banco?
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
A lógica dizia a Trevor que ela estava certa, mas seu coração recusava-se a colocá-
la em mais risco.
— Estamos juntos nisto — insistiu Brenda. — Você sabe que, com ou sem essa
isca, aqueles dois não vão me deixar em paz. Talvez seja a única forma de terminarmos
com este pesadelo. Acho que só conseguiremos convencê-los se alguma soma
substancial aparecer na minha conta.
— E mesmo que você hipotecasse a casa, o que a faz pensar que eles não
descobririam que agiu assim?
— Oh, você tem razão nesse ponto. É que já estou tão cansada que não consigo
mais pensar com clareza...
Trevor sentiu-se sem saída. Brenda acabara de propor um plano que ele sabia, por
experiência, que daria certo. E, se fosse o caso, ele mesmo tinha dinheiro para fazer um
grande depósito na conta dela sem que precisasse hipotecar a casa. O problema seria
convencê-la quanto a esse detalhe em específico.
Brenda levantou um olhar consternado para fitá-lo, seu rosto delicado muito sério,
ansioso.
— Se você tiver alguma idéia de como pôr um fim nisto, eu concordo, mas tem que
fazer sentido. Não podemos correr o risco de que não dê certo.
Vê-la agora naquele íntimo desespero foi o que, enfim, convenceu Trevor.
— Bem, eu sei que essa idéia dará certo para apanharmos esses sujeitos. Mas é
perigosa. Terei que ficar grudado em você vinte e quatro horas por dia, uma vez que o
plano estiver em ação.
Ela apoiou os cotovelos na mesa e pôs o queixo sobre as mãos. Um sorriso curvou-
lhe os lábios e um novo brilho surgiu-lhe nos olhos verdes, enquanto se preparava para
ouvir os detalhes do plano.
— Posso fazer esse sacrifício.
— Bem, aqui está o que podemos fazer.

O moderno sistema de alarme foi instalado na casa logo no início da manhã


seguinte, antes mesmo de Brenda se levantar. Ao terminaram o desjejum que Trevor
preparara, ele lhe mostrou como o sistema funcionava. Ela acompanhou as explicações
atentamente e, então, virou-se para fitá-lo nos olhos, como se algo tivesse lhe ocorrido.
Parecia tensa, sua expressão resguardada, não a reação esperada em saber que a casa
agora estaria segura.
— E como conseguiu um alarme desses tão depressa, numa noite de domingo?
— Um velho amigo meu trabalha no ramo de sistemas de segurança. Você se
lembra que mencionei que já trabalhei como guarda de segurança? Um colega com quem
eu trabalhava na época acabou abrindo um negócio próprio. Liguei para ele ontem à
noite. Somos muito amigos hoje em dia e, como me devia um favor, ficou contente em me
atender de imediato. — Mentiras, quando terminariam? Mas essa era a explicação mais
próxima da verdade que podia arranjar. Era o melhor que ele podia fazer.
Brenda desviou o olhar, e Trevor não soube o que pensar.
— O que há de errado?
— Nada. Exceto que você poderia ter esperado por minha decisão sobre o novo
alarme, só isso.
Ele admirava-lhe a independência, mas preferia vê-la um pouco zangada do que
desprotegida, correndo o risco de ser apanhada por aqueles bandidos.
— Ouça, lamento ter me precipitado. Mas o fato é que você precisa desse alarme. O
sistema nem é totalmente infalível, mas é o melhor que existe.
— Eu sei. Realmente havia me decidido a colocá-lo, só estava querendo me
programar. — Ela até havia pensado, em usar o fundo reservado para terminar seu curso
de administração para pagar um alarme confiável e, depois, economizar para repô-lo.
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
Afinal, sem um sistema de segurança decente talvez não sobrevivesse para estudar... O
que a aborrecia era o fato de Trevor ter usado o próprio dinheiro.
— Entendo o que quer dizer, mas não se preocupe quanto à despesa. O alarme já
está pago.
— Estudarei a forma de reembolsar você o mais depressa possível.
— Procure nem pensar nisso. Vamos nos concentrar em nosso plano, está bem? —
Trevor tinha mais dinheiro aplicado em investimentos e bancos do que talvez jamais
precisasse em sua vida. Além dessas suas economias sabiamente investidas, ainda havia
o que herdara de Ned. Acabaria explicando a ela que dinheiro não era problema. Brenda
deixara claro que não aceitaria esse tipo de ajuda; faria questão de reembolsá-lo, mas ao
menos iria assegurar-lhe que não havia a menor pressa.
— Eu só não estava preparada para coisas acontecendo assim tão de repente.
Isso o preocupava.
— Quando colocarmos nosso plano em prática, a ação já estará começando. Você
tem que estar preparada para tudo.
— Bem, talvez seja melhor eu começar a praticar. — Ela esboçou um sorriso triste
que o deixou com um nó na garganta. — Bem, tenho que ir — acrescentou e apanhou a
bolsa.
— Tenha cuidado. — Trevor estreitou-a em seus braços, preocupado em saber que
dirigiria para o trabalho sozinha. Ela deu-lhe um beijo rápido no rosto, os seios macios e
incitantes de encontro ao peito dele.
— Não se preocupe comigo. Estarei bem.
Mas ele não estava bem; na verdade, enlouquecia. O beijo que recebera fora
inocente, mas aquele com que retribuiu revelava o quanto a desejava. Continuan do a
abraçá-la, apossava-se de seus doces lábios com sofreguidão. Quando a sentiu
entreabrindo os lábios para receber as carícias de sua língua, mal pôde conter o fogo que
o consumia. Explorou-lhe a boca macia, afagou-lhe os cabelos longos e sedosos, a outra
mão na cintura esguia, puxando-a mais para si. Queria aquela mulher, precisava dela
como jamais precisara de alguém em sua vida, daria tudo para não ter que soltá-la. Mas
as coisas não eram tão simples assim. Com relutância, terminou o beijo e a fitou nos
olhos. Aquelas gradações de esmeralda cintilavam de paixão, exibiam um desejo ardente
que espelhava o seu.
— Eu realmente preciso ir — sussurrou ela. — Encontro você na lanchonete?
— Sim. Estarei lá no horário combinado. — Totalmente desorientado, ele a
acompanhou até lá fora e observou-a afastando-se no Volkswagen verde. Desde quando
uma mulher o nocauteava daquele jeito?
O gosto dos lábios de Brenda continuava vivido, seu perfume suave o
acompanhava, enquanto Trevor andava pela casa trancando portas e janelas, verificando
se o alarme já estava codificado com a delegacia. Enfim, reuniu o que precisava para
colocarem o plano em prática, jurando com fervor que não deixaria que nin guém fizesse
nenhum mal a ela.
Os dois só precisavam vencer as próximas poucas horas. Separados.

Capítulo 11

Brenda parou num farol vermelho, surpresa com o fato de, subitamente, tudo
parecer mais radiante naquela manhã. Encostou o braço de encontro às narinas para
sentir o perfume másculo de Trevor, deixado por seu abraço. Seu coração disparou e
recusou-se a voltar ao ritmo normal, um delicioso calor expandiu-se por seu corpo. O
contato do corpo dele a abraçá-la ainda parecia tão real. Sua cabeça girava, mas a
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imagem daquele homem maravilhoso estava segura no lugar.
Sorriu consigo mesma, enquanto prosseguia, com o sinal aberto, e se lembrava da
expressão preocupada no rosto de Trevor quando ela saíra de casa. Fora uma expressão
de quem se importava. E muito. Vira isso em seus olhos, sentira em seu toque. E uma
constatação dessas era surpreendente e deixava seu mundo mais cheio de esperança.
Mas não precisava se preocupar com ela. Estava acostumada a se arranjar por si
mesma. Até aprendera a conviver com a solidão. Desde que deixara Richard, estivera
sozinha. Desde que seus pais haviam morrido, sentira-se sozinha.
Parecia inacreditável pensar na sua vida como sendo solitária. Assim que se tomara
adulta, compreendera que tia Maude fora incapaz de amor incondicional. Sua própria
impulsividade contrariara a tia e as afastara ainda mais. Por causa das limitações
impostas por Maude, sentira-se excluída como criança. Acostumara-se tanto a viver
dessa maneira que quando Richard aparecera, ela nunca se dera conta que ele a excluíra
da maior parte de sua vida, de si mesmo.
Trevor era muito diferente do irmão, a cada dia se convencia mais e mais disso. Sim,
havia momentos em que o silêncio dele a fazia perguntar-se que pensamentos estariam
passando por sua mente, mas esses momentos em que parecia se fechar em si mesmo
tornavam-se cada vez mais raros.
Ela adorava sua natureza gentil, afetuosa, o senso de humor, o carisma. Adorava
sentir aqueles braços fortes em torno de si, os lábios ardentes a estimular os seus. Ele já
parecia fazer parte de sua vida de uma tal forma que, só de saber que não a estava
seguindo de perto, Brenda sentia a velha solidão invadindo-a.
Era maravilhoso saber que podia contar com o apoio de Trevor, e nem mesmo todos
aqueles problemas que a rondavam pareciam importar tanto. Na verdade, o que mais a
preocupava era a incerteza em relação ao futuro. Será que continuaria a vê-lo depois que
o assunto dos títulos ficasse resolvido?
Ao chegar à firma, o contentamento que dominara Brenda ao sair de casa foi
apagado com um verdadeiro balde de água fria. Um nervoso Jon a chamou a seu
escritório e anunciou que o trabalho dela seria restrito aos pedidos de fora da cidade, que
teria que excluí-la das entregas e retiradas locais.
— Mas por quê? — Brenda tentou controlar o novo pânico. Teria dificuldades em
equilibrar o orçamento se sua renda diminuísse. As retiradas e entregas de fora da cidade
eram melhor remuneradas, mas não existiam em número suficiente para preencher todas
as horas de trabalho. Precisava também dos serviços locais para isso.
— Estão sendo cortadas horas de alguns outros funcionários também — explicou
Jon, sucintamente. — Estou chamando um por um a minha sala para falar sobre cada
caso em específico. O movimento do negócio está fraco. A partir de amanhã, você
atenderá clientes apenas de fora da cidade.
As notícias deixaram-na chocada. Antes de sair para seu último dia de programação
local, Brenda deteve-se no escritório para tomar um café com Aretha.
— Sinto muito — disse-lhe a amiga. — Eu sei o quanto você precisa deste emprego.
— Talvez o volume de solicitações de fora da cidade aumente. Quem sabe... — A
firma expandira o serviço para incluir entregas expressas e retiradas fora de Washington
D.C. apenas recentemente. Se o movimento estava fraco a nível local, não tinha razões
para acreditar que estaria melhor fora, mas ela preferia não soar tão pessimista.
— Sabe, Jon me convidou para jantar hoje à noite — contou Aretha, com um olhar
radiante.
— Que ótimo. — Brenda emprestou à voz um entusiasmo que não sentia. A amiga
estava interessada em Jon desde que ele começara a trabalhar ali. Queria se sentir feliz
por ela, mas algo no jeito tenso e fechado do supervisor a incomodava. Talvez fosse
impressão sua e, portanto, não queria desmanchar a alegria de Aretha.
— Ah, srta. Michaels. — Victor pareceu surgir do nada até a mesa de canto onde
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ficava o café. — Lamento a mudança na sua programação, minha cara. Mas será bom
para você ficar só com serviços de fora da cidade.
Jon juntou-se ao grupo; tinha o cenho franzido em preocupação, uma rara
demonstração de emoção em sua costumeira fisionomia indecifrável.
— Sinto muito sobre a mudança, Brenda.
— Bobagem — disse Victor, com sua fala macia e olhos que não se aquietavam. —
Ela terá mais tempo para seus estudos agora. E, srta. Michaels, não se incomode em vir à
firma a cada manhã. — Ele pousou uma mão rechonchuda no ombro de Aretha. — Por
que não telefona para a srta. Ames todas as manhãs, ou algo assim, para ver se há
alguma programação externa para você, em vez de ter que dirigir de tão longe até aqui?
Brenda tinha a nítida impressão que estava sendo despedida sem que ninguém lhe
dissesse.
— Mas...
— Não precisa me agradecer — interrompeu-a Victor. — Tenho certeza que
encontrará um outro emprego. É uma pessoa muito habilidosa. — O sorriso do patrão
pareceu forçado, estudado, quando acrescentou: — Mas não deixe de fazer contato.
Precisamos de você para o serviço de fora da cidade.

— Movimento fraco, pois sim! — disse ela a Trevor, assim que conseguiu controlar a
raiva. — Num minuto estou empregada e, no minuto seguinte, não tenho certeza nem
sobre quando verei meu próximo salário. Aretha chegou a comentar que Victor ficou
realmente aborrecido comigo por eu ter faltado na sexta-feira. Quem sabe se não é por
isso que está me excluindo...
Ele pegou-lhe as mãos entre as suas.
— Você já tem o bastante para se preocupar com as invasões à casa e os títulos
desaparecidos sem precisar acrescentar o seu emprego à lista de problemas. Lamento
que isso tenha acontecido.
Era quase meio-dia e estavam sentados a uma mesa de canto de uma movimentada
lanchonete, não muito longe da firma. De frente para Trevor, Brenda sentia a força de
suas mãos, a genuína preocupação em seus olhos azuis. Aquele homem a fazia sentir-se
confiante de que tudo acabaria bem.
— Mas você não disse que ainda vai poder atender os pedidos de fora da cidade?
— Essas solicitações são poucas e ocasionais. Assim, terei que encontrar outro
emprego. Talvez algo em período integral. Não há muitos lugares que têm horários
flexíveis como os de serviço de mensageiros. A maioria espera que os funcionários de
meio período trabalhem no turno da noite.
Uma súbita determinação surgiu no semblante de Trevor:
— Bem, terá que me deixar ajudar você. Percebe, não pode permitir que um
problema financeiro impeça o progresso de nosso plano. Você quer que esses títulos
sejam encontrados tanto quanto eu. E se arranjar um emprego de oito horas, com mais
duas horas diárias no trajeto, não sobrará muito tempo para terminarmos o que
começamos. Vamos cuidar de nosso plano, está bem?
Brenda conteve sua língua e refletiu sobre o que acabara de ouvir, distraída pela
forma como as mãos fortes afagavam as suas. De fato pareciam estar chegando mais
perto dos títulos. Se parassem de investigar agora, o pesadelo talvez nunca terminasse. E
depois do grande depósito que Trevor acabara de fazer na conta dela, sentia-se
totalmente vulnerável, quer desistisse agora ou mais tarde.
Só lhe restou engolir o orgulho e assentir.
— Está bem. Aceitarei sua ajuda até acharmos os títulos e os devolvermos ao
governo. Mas só se eu precisar, e você receberá cada centavo de volta.
Ela sorveu um pouco de seu refrigerante e deu uma pequena mordida no sanduíche.
Trevor pegou um comprovante de depósito bancário do bolso e mostrou-o, colocando-o
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
sobre a mesa.
— O plano já está em andamento, de qualquer modo.
— Uau! Você não me disse que estava depositando uma soma tão alta na minha
conta. — Brenda dobrou o comprovante e guardou-o no bolso. Dirigiu-lhe um largo
sorriso. — Não está com medo que eu saque esse dinheiro e fuja? Acontece o tempo
todo nos filmes.
— Mas nos filmes você seria a bandida e eu estaria lhe armando uma cilada.
Ambos riram, e ela sentiu-se outra vez invadida pelo prazer de estar naquela
companhia maravilhosa.
— Confio em você, doçura. Sabe disso. Você deseja tanto quanto eu que esse
episódio dos títulos termine. E quero encontrar algumas respostas.
Brenda pensou na época em que vira os títulos roubados na pasta de Richard e
sentiu-se culpada por estar ocultando esse detalhe. Receava que Trevor não entendesse
por que não falara nada logo de início e, por enquanto, achou mais sensato deixar o barco
correr.
— Em quanto tempo você acha que as pessoas erradas vão saber que estou
"nadando em dinheiro"?
— Vai depender dos contatos deles no ramo bancário. Algo me diz que não vai
demorar muito. E quando descobrirem, vão concluir que o único meio de você ter
arranjado essa soma seria trocando alguns dos títulos ao portador por dinheiro. A
quadrilha que está por trás da fraude vai começar a ficar desesperada. Aqueles dois
capangas vão agir depressa. Teremos que estar preparados. Assim que os bandidos se
revelarem, teremos a maioria das peças do quebra-cabeça e muita encrenca.
— Estaremos prontos e esperando.
Enquanto terminavam de comer, ele repassou todos os pontos perigosos do plano e
a necessidade de serem cautelosos. Depois, Brenda repetiu cada palavra que ouvira na
firma de entregas expressas em renovada indignação. O instinto protetor em Trevor
despertou-lhe uma instantânea animosidade em relação ao tal Victor.
A vontade dela de contar-lhe as coisas e, depois, deixá-las para lá, superando-as
com seu desabafo era algo que o motivava ainda mais a desejar ouvi-la, que aguçava seu
interesse. Quando já estavam de saída, o cenho de Brenda se desanuviara e os olhos
verdes brilhavam novamente.
— Me desculpe por ficar despejando tudo em você deste jeito, mas falar a respeito
ajuda a desabafar.
— Bem, pode me considerar seu confidente oficial — sorriu ele, abraçando-a pelos
ombros, enquanto saíam da lanchonete.
— Não, você é o meu príncipe misterioso oficial.
— Príncipe misterioso?
— Acho que essa é a única parte do que aconteceu na firma que não lhe contei.
Aretha estava morrendo de curiosidade para saber quem era o homem misterioso que
havia me pedido para buscar uma encomenda naquele outro dia.
— Quer dizer, a minha estratégia para convidar você para almoçar?
— Sim. Ela se esqueceu de anotar o endereço nos nossos controles. Disse que
tentou me ligar várias vezes durante o fim-de-semana, mas ninguém atendia. Deve ter
sido quando fomos àquele motel ver o quarto de Richard. Bem, como não foi um serviço
de verdade, acabei não dando o endereço da Collins & Companhia para que fosse
anotado nos registros da firma. De qualquer forma, eu havia contado a ela que você me
ajudou com os invasores naquela outra noite. Acho que o chamei de príncipe encantado.
— Hum, isto está me soando cada vez melhor.
Brenda sacudiu a cabeça.
— Eu exagerei.
— Então, você disse a ela que eu não apenas era o príncipe encantado como
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
também o homem misterioso ao telefone.
— Por que fui desenterrar este assunto, afinal? Seu ego vai ficar insuportável.
Ele riu e depositou-lhe um beijo nos lábios antes que ela se sentasse ao volante do
Volkswagen verde.
— Meu ego apenas agradece humildemente. Bem, não se esqueça, estou logo atrás
de você.
— Você é impossível, sabia?
Trevor observou-a afastando-se de carro. Ela estava sorridente e ainda sacudia a
cabeça. Ele encaminhou-se logo até a vaga um pouco adiante no estacionamento para
pegar seu automóvel. Sentia-se... feliz. Como o homem que, enfim, encontrara o arco-íris
que faltara em sua vida.

Brenda parou o carro logo na entrada do caminho de cascalho que dava acesso à
sua casa e aguardou. Completar as retiradas e entregas fora bem mais interessante do
que o costume em seu último dia de trabalho pela cidade. Passara o dia rodando com os
olhos grudados no retrovisor, com Trevor a acompanhá-la sempre de perto.
Seus olhos ainda estavam atentos ao retrovisor agora, enquanto o observava
entrando de ré com o próprio carro na estradinha do outro lado das pistas, onde passara a
escondê-lo. Podia confiar nesse homem, pensou, com convicção. Tudo que ele fizera
desde que o conhecera provava sua sinceridade, suas boas intenções. Definitivamente,
não era como o irmão. Disse a si mesma que, desta vez, podia acreditar cegamente na
sua intuição.
Enfim, Trevor saiu do meio das folhagens daquele esconderijo perfeito, equilibrando
dois grandes pacotes de compras nos braços e atravessou as pistas desertas. Ela abriu-
lhe a porta do passageiro, Trevor entrou com um de seus sorrisos cativantes, que a
deixavam de pulso acelerado, e sentou-se, ajeitando os pacotes e compras no colo.
Seguiram de carro pelo caminho sinuoso de cascalho, parando em frente à casa. Tudo
parecia em ordem ao redor e, como agora havia o moderno sistema de alarme, não
esperavam nenhuma surpresa desagradável no interior da casa.
— Hoje eu preparo o jantar — anunciou ele, num bom humor que a contagiava,
enquanto punha os pacotes no balcão da cozinha. — Você teve um dia cheio de trabalho.
E esta noite não vai mover uma palha na cozinha.
— Mas não estou cansada e...
— A propósito, não tem que estudar para uns exames?
— Agora terei tempo de sobra para estudar.
— Não adianta argumentar. Vá tomar um banho demorado, ler um livro, ver tevê, o
que quiser. Não vê que estou com este impulso de bancar o grande chef hoje? — Trevor
riu e começou a afastá-la da cozinha. — Chamo você quando tudo estiver pronto. Agora
vá saindo daqui, sim?
Após um demorado banho de imersão, Brenda vestiu seu robe e a cama macia
pareceu-lhe convidativa demais para resistir. Pensou em deitar-se por alguns minutos e
repousar antes de descer. A água quente a fizera relaxar por completo. Não pôde lutar
contra a sonolência que a envolveu.

Os deliciosos aromas que vinham da cozinha despertaram-lhe os sentidos primeiro.


Ela abriu os olhos devagar, relutando em sair de um maravilhoso sonho com Trevor.
Viu-o sentando-se na beirada da cama a seu lado. A realidade confundiu-se ao
sonho ao estender o braço e apanhar a mão forte dele entre as suas, sentindo-lhe a
firmeza dos dedos, o calor da pele.
Havia apenas um abajur iluminando o quarto, a luz difusa brincando com o fogo
naqueles incríveis olhos azuis.
Brenda espreguiçou-se feito uma gata, querendo prolongar ao máximo o sonho que
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
se tornara real. Deslizou sua mão pelo braço forte de Trevor e, enfim, abraçou-o pelo
pescoço. Puxou-o para si devagar e roçou-lhe os lábios com os seus, um gesto inocente,
a fusão das brumas do sonho com o homem tão real ali a seu lado. Uma corrente
eletrizante percorreu seu corpo, a paixão avivando-se, expandindo-se com uma
intensidade espantosa.
Abriu os olhos de repente e afastou os braços do pescoço dele, como que
despertando de um delicioso transe. Sua atitude atirada embaraçou-a.
Trevor afagou-lhe o rosto, contornando cada traço bem-feito com todo o vagar.
— Agora sei que você consegue ler minha mente. — Ela corou, ainda mais
constrangida, já que jamais fora do tipo de mulher que se insinuava.
— Ei, o que foi, dorminhoca? — sussurrou Trevor e puxou-a para seus braços com
gentileza, beijando-lhe os cabelos castanhos com ternura, as pálpebras. Seus lábios
foram deslizando pela garganta macia, pelo colo alvo, contornando o decote do robe,
roçando a curva dos seios. As carícias daqueles lábios sedutores, provocantes,
deixavam-na sem forças para resistir. Desejava-o como nunca desejara outro homem em
sua vida. Tornou a abraçá-lo pelo pescoço, enquanto seus lábios se encontravam num
beijo faminto.
Deitando-a sobre os travesseiros, Trevor intensificou o beijo, as línguas se
entrelaçando numa cadência erótica, a respiração ofegante evidenciando o quanto o
desejo de ambos estivera sufocado até então. Ele fazia um esforço sobre-humano para
não assustá-la com sua impetuosidade, mas, ao mesmo tempo a doce receptividade de
Brenda minava-lhe qualquer resistência. As pequenas mãos afagavam suas costas, seus
cabelos, seus ombros com uma sensualidade que o enlouquecia. Continuava
estimulando-lhe os lábios com os seus, deliciando-se com os gemidos abafados que
emitiam, explorava-lhe a boca macia. O beijo era puro arrebatamento. Ainda assim, ele
refreava sua paixão, não querendo interromper a doce tortura, receando ter a esperança
de ansiar por mais. Céus, ela o estava empurrando para o limite...
Cada suspiro de prazer, cada gemido abafado repercutia dentro de Trevor como
uma combustão instantânea. Sentia todos os ligeiros movimentos do corpo dela sob o
seu, as curvas perfeitas moldando-se de encontro a si, a barreira de suas roupas e
daquele robe parecendo tão frágil e, ao mesmo tempo, tão intransponível.
Um som intruso deixou Trevor subitamente em alerta... rodas de encontro a
cascalho... Ergueu a cabeça, mantendo o ouvido atento. Esquecer o perigo que os
espreitava era fácil demais quando a tinha em seus braços, quando se deixava arrastar
pela paixão de ambos e ansiava por mais.
Seguiu-se um outro ruído no cascalho.
— Você ativou o alarme depois que entramos, não é? — Ele saiu da cama e
aproximou-se da janela, tendo o cuidado de se manter fora do raio de visão.
— Não. Pensei que você o tivesse ativado.
— Está esperando alguém?
— Não. Tem alguém lá em baixo? — O súbito movimento de Trevor sobressaltou-a.
Antes que pudesse questioná-lo, ele avançou até a cama e ergueu-a em seus braços.
— O que houve?
— Não diga nada. — Rapidamente, saiu para o corredor, carregando-a em seus
braços e desceu as escadarias. Logo atravessava o andar de baixo, chegava à cozinha e
saía pela porta dos fundos. O pânico invadia Brenda ao sentir a tensão nos braços dele
ao segurá-la.
— O que está acontecendo? — perguntou tão logo saíram para o terreno dos
fundos.
— Droga! — A voz de Trevor soava ofegante e ansiosa. — Acredite, doçura. Temos
só um minuto de vantagem. Talvez dois.

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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron

Capítulo 12

Trevor segurava Brenda com firmeza em seus braços, continuando a correr. Passou
pelo meio dos arvoredos que havia atrás da casa, virando ligeiramente para a direita
enquanto corria. Ela podia sentir-lhe o coração disparado, a respiração ofegante. Galhos
engancharam-se em seu robe e em seus cabelos. A falta de uma trilha dificultava-lhes o
avanço. A mata era mais fechada agora. Ele tropeçou num emaranhado de raízes
incrustadas no solo e praguejou, mas continuou avançando.
Atrás de ambos, ouviram a porta dos fundos batendo com força. Brenda ergueu a
cabeça para tentar avistar alguma coisa no momento em que Trevor colocou-a no chão e
deitou-se com um braço a protegê-la. Achavam-se no interior da floresta, sobre num farto
amontoado de folhas e camuflados pela vegetação densa ao redor.
Quando ela tentou falar, Trevor cobriu-lhe bruscamente os lábios com os seus.
Abraçou-a com força, pressionando-a entre seu corpo e a camada macia de folhas.
Ela sucumbiu ao fogo produzido pelo toque daquele corpo másculo colado ao seu.
Era insensato; perigoso. Os lábios de Trevor continham paixão, desejo. Sua língua
explorava, estimulava, exigia.
As folhas caídas em que haviam afundado produziam um esconderijo verde e
marrom, e o murmurinho do rio encobria-lhes os suspiros. Ela sentia o sexo rijo dele de
encontro à sua coxa, por sob a barreira das roupas, evidenciando um desejo tão
arrebatador quanto o que a dominava.
Enfim, como que voltando à realidade do perigo que os rondava, Trevor interrompeu
o beijo devagar e rolou para o lado, continuando a abraçá-la. Brenda abriu os olhos,
esforçando-se para despertar das sensações abrasadoras que a haviam percorrido num
crescendo. Ambos se entreolharam num silêncio significativo, que parecia transmitir a
mútua frustração por não poderem conduzir aquela paixão à sua conclusão natural ali
mesmo sobre a cama natural de folhas. Mas precisavam ficar atentos aos sons ao redor.
Alguém estava vasculhando a mata. Atrás deles.
— Achei que fôssemos lançar a isca para os bandidos e, depois, enfrentá-los —
sussurrou Brenda.
Ao longe, fachos de lanternas cortavam a escuridão.
— Não teríamos a menor chance contra seis deles. Com o alarme desativado,
tiveram acesso à casa. Sabem que você estava lá e não terão dificuldade em constatar
que o jantar era para dois.
— Depois de todo o trabalho que você teve para mandar instalar o alarme tão
depressa, não me conformo em não tê-lo ativado. Eu deveria ter feito isso já que você
entrou com as mãos ocupadas pelos pacotes de compras.
— Nem pense nisso. Foi negligência minha. — Quantas vezes ele já não havia
avisado a si mesmo para não deixar a atração entre ambos interferir na missão? Não se
perdoaria se algo acontecesse a Brenda, pensou, sombrio.
— O que fazemos agora?
— Vamos esperar um pouco. Eles acabarão entrando de volta na casa.
Ambos espiaram a movimentação no terreno atrás da casa pelas brechas na
vegetação e, alguns minutos depois, o som distante de vozes cessou e as luzes se
dissiparam. Ouviram a porta dos fundos batendo.
— Vamos. — Trevor levantou-se, erguendo Brenda em seus braços.
— Posso caminhar.
— Claro que pode, mas não podemos nos arriscar a diminuir o passo por causa do
seu joelho. Além do mais, gosto de ter você em meus braços.
Mais uma vez, estreitou-a junto a seu peito e foi abrindo caminho pela floresta
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
fechada. Ele foi fazendo um contorno amplo, afastando-se ao máximo da lateral direita da
casa. Como estaria encontrando o caminho desejado era algo que espantava Brenda. Até
mesmo ela podia se perder naqueles bosques à noite, e vivia ali desde que nascera.
Algum instinto o guiava e, em menos tempo do que o esperado, ela viu uma passagem
entre algumas árvores dando para a estrada principal.
Trevor olhou atentamente para as pistas, para se certificar que a estrada estava
deserta. Não havia o menor sinal de movimentação junto à entrada de acesso a casa,
situada um pouco além de onde estavam. Rapidamente, ele atravessou as pistas com ela
no colo e adentrou pela estradinha camuflada onde escondia seu carro.
Entraram depressa no automóvel e cada um soltou um suspiro de alívio.
— Quanto tempo acha que eles ficarão lá me procurando? — perguntou Brenda,
olhando pelo pára-brisa para o caminho de cascalho escuro do outro lado das pistas.
— Não vamos esperar para saber. — Tornando a constatar que a estrada principal
estava deserta e que, portanto, não seriam seguidos, Trevor deu a partida e saiu da
estradinha abandonada com os faróis apagados. Quando achou que se distanciara o
bastante da entrada que conduzia à casa, acendeu os faróis e acelerou pela pista.
— Oh, não acredito que tenho que fugir deste jeito, deixando minha casa nas mãos
daqueles... brutos. E eu preciso do aparelho do meu joelho e de minhas roupas. Além da
mais, para onde eu poderia ir?
— Não se preocupe. Já sei para onde vamos. Lamento quanto às roupas.
Ela soltou um suspiro e ajeitou o decote do robe para ocultar a curva dos seios.
— Bem, o importante é que saímos de lá a tempo. Tivemos sorte.
Repassou as últimas cenas sensuais em sua mente e esperou que o rubor que se
espalhou por suas faces não ficasse evidente no escuro do carro. Estivera tão enlevada
pela paixão arrebatadora do beijo dele que nem ouvira os homens entrando em sua
propriedade. Felizmente Trevor mantivera-se atento. Será que aquela mágica atração era
só de sua parte? Será que estaria se precipitando em achar que ele sentia o mes mo a
seu respeito? Era óbvio que Trevor a queria, mas estava tão envolvido quanto ela
mesma?
Cruzou os braços sobre o peito tentando dissipar o frio produzido por seus
pensamentos. As luzes da cidade clareavam o céu, enquanto se aproximavam da Rota 1,
e quanto mais se afastavam de sua casa, mais Brenda se sentia desconfortável por estar
apenas naquele robe sujo de terra e com o fato de estranhos estarem se apossando de
seu próprio lar.
— Eles terão indo embora amanhã — comentou, como se dizendo as palavras
pudesse fazer aquilo acontecer.
Trevor permaneceu em silêncio.
— Terei que voltar e pegar minhas roupas. O que espera que eu faça?
— Daremos um jeito. Buscarei algumas coisas para você amanhã.
— Não posso simplesmente deixar que tomem conta da minha casa. — Ela soltou
um profundo suspiro. Quando o pesadelo terminaria? Perder seu emprego já fora ruim o
bastante. Maldito Richard! — Para onde estamos indo?
— Para um lugar seguro.
Com a certeza de não estarem sendo seguidos, rumaram para a cidade em silêncio,
até que o súbito jeito reservado dele começou a deixá-la ansiosa e inquieta.
— O plano deu certo — comentou, puxando conversa.
— Melhor do que o esperado. — Continuando atento ao volante, Trevor esboçou-lhe
um sorriso preocupado. Sim, o plano dera certo. Haviam lançado a isca, mas o problema
era que ele falhara em ter preparado a armadilha como deveria...
Tornara a estudar os arquivos do caso. Barney suspeitava que a organização que
estava por trás da fraude dos títulos era muito poderosa e tinha várias ramificações.
Apesar das evidências, Trevor se recusara a acreditar que seu irmão estivera envolvido
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
numa quadrilha profissional. Equivocara-se e sua teimosia quase custara a vida da mulher
maravilhosa sentada a seu lado.
A desagradável surpresa desta noite comprovava as suspeitas de Barney. Esperara
que dois capangas aparecessem quando ficassem sabendo do vultoso depósito na conta
de Brenda, talvez três, mas não seis. Em se tratando de uma organização forte e perigosa
como aquela, ele teria que mantê-la o mais longe possível de casa. Que diabos estivera
pensando para envolvê-la naquela tentativa de isca, afinal?
O fluxo do tráfego diminuiu depois que deixaram para trás a área central de
Washington D.C. Trevor foi seguindo por ruas residenciais até chegar a um beco escuro e
estreito, ladeado por pequenos quintais cercados. As casas eram velhas, as cercas
lascadas e sem pintura meras reminiscências de uma época mais esplêndida.
— Onde estamos?
— Vai reconhecer o lugar num minuto.
Ele dirigiu devagar pelo beco e, então, entrou numa velha garagem revestida de
tijolos.
— Achei que preferisse entrar pelos fundos. — Lançou um olhar para a curva dos
seios dela, exposta pelo decote do robe que teimava em deslizar. Brenda ajeitou-o
melhor, apertando mais o cinto. — Venha comigo. Ninguém vai vê-la.
Um pátio amplo conduzia de uma das portas da garagem até os fundos de uma casa
imponente. Subiram alguns degraus, passaram por uma pequena varanda envidraçada e
entraram num corredor. A primeira porta à esquerda revelou uma escadaria estreita.
— No passado, esta costumava ser a escadaria dos criados. Não é mais usada e
você não vai deparar com ninguém.
Quando chegaram ao terceiro andar, ele abriu uma porta num outro corredor e
acendeu a luz. Ela reconheceu o papel de parede de imediato.
— Collins & Companhia? Foi aqui que vim atender seu pedido ao serviço de
entregas. Não reconheci a casa pela entrada do beco.
— É um lugar seguro. Espere só um minuto. Vou lhe arranjar algumas roupas.
Enquanto aguardava, Brenda encaminhou-se até o centro do quarto e olhou ao
redor. A mobília era simples e tradicional, uma cômoda alta, um pequeno guarda-roupa e
uma cama de casal encostada a um canto, coberta com uma colcha estampada e ladeada
por um tapete trançado. O conjunto tinha um ar aconchegante, familiar, que a cativou de
imediato.
Trevor retornou e passou-lhe às mãos algumas peças de roupas.
— Acho que isto resolverá. Pode tomar uma ducha ao final do corredor, se desejar.
Depois lhe mostrarei a casa toda.
— Obrigada. — Ela sorriu-lhe e seus olhares se encontraram numa corrente
eletrizante antes que ele tornasse a se retirar.
Dez minutos depois, com parte da tensão daquela noite dissipada pelo banho
quente, Brenda sentia-se bem melhor. A bermuda jeans e a camiseta de Trevor tinham
ficado folgadas em seu corpo, mas ao mesmo tempo havia uma sensação agradável em
estar com aquelas roupas. Quando saiu do banheiro, deparou com os incríveis olhos
azuis que a fitaram de alto a baixo.
— Hum, essas roupas nunca pareceram melhor. — Sem esperar por mais do que o
embaraçado "obrigada", ele aproximou-se pelo restante do corredor e indicou que o
acompanhasse.
— Você está redecorando o lugar?
— Quando tiver tempo.
A cozinha, a grande sala de jantar e o escritório do outro lado do corredor eram
funcionais, mas o papel de parede havia sido removido e os ambientes prepa rados para
receber pintura. Havia latas de tintas, rolos e pincéis a um canto. O quarto em que ela
ficaria e o corredor eram os únicos lugares que ainda não haviam começado a ser
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
preparados para a pintura.
— Mas já terminei aqui. — Trevor conduziu-a a um quarto espaçoso na parte da
frente do casarão. Ela observou a mobília sólida, a decoração masculina, cuja sobriedade
era quebrada por alguns estratégicos toques de cor, e sentiu um inesperado calor a
percorrê-la. Era o quarto dele... E estar ali parecia algo muito... íntimo. — Ainda não me
mudei definitivamente para cá, mas falta pouco. — Ele pegou-lhe a pequena mão. — Vou
lhe mostrar o segundo andar.
O andar abaixo estava no mesmo estado de reparos que o terceiro. Um amplo
escritório com uma área de estocagem e um dormitório anexo ocupavam um lado do
corredor. Do outro lado, havia quatro quartos com beliches.
— Esses são nossos dormitórios de emergência — explicou Trevor. — Às vezes, os
adolescentes que abrigamos são colocados para fora de casa e não têm nenhum lugar
para ficar. Passam apenas uma ou duas noites aqui.
— Aquele é seu escritório?
— Não, é o de Moose.
— Aquele grandalhão que conheci.
— Sim. Moose e a esposa moram numa casa ao lado. Ele fica no quarto anexo ao
escritório sempre que temos hóspedes.
Ao descerem ao primeiro andar, onde Brenda reviu a recepção em que estivera da
outra vez, acabaram encontrando Moose de saída, prestes a trancar a porta da frente.
Trevor apresentou-lhe seu administrador oficialmente e ela se lembrou do quanto se
sentira intimidada da outra vez em que o vira. Além de saber agora que era o
encarregado de um louvável projeto social como aquele, o sorriso caloroso que o rapaz
lhe ofereceu também a fez reconsiderar suas primeiras impressões.
— Brenda vai ficar no antigo quarto no terceiro andar por uns tempos — explicou
Trevor.
— Seja bem-vinda à C & C. E um prazer recebê-la. Annlyn e Mina vão adorar você.
— Obrigada. — Ela retribuiu o sorriso, contagiada pela espontaneidade de Moose.
Quando Trevor tornou a subir ao terceiro andar com Brenda, explicou-lhe que Mina
era uma garotinha de quatro anos que Moose e Annlyn haviam adotado recentemente.
Ele abriu-lhe a porta do quarto e acendeu a luz.
— Ah, ia me esquecendo. Há uma tevê no segundo andar se quiser assistir alguma
coisa.
— Não, estou realmente cansada. Acabaria pegando no sono.
— Você estará bem?
— Sim, claro.
Trevor afagou-lhe a face, uma carícia suave e sensual que a fez arrepiar-se.
— Você está segura aqui.
— Eu sei.
Ele estava tão próximo, os olhos azuis repletos de generosidade e centelhas de
paixão.
Brenda sabia que seria beijada. Qualquer idéia de resistir dissipou-se quando os
lábios cálidos se apossaram dos seus.

Capítulo 13

Todo o desejo contido em Brenda explodiu de uma só vez. Abraçou Trevor com for-
ça, deliciando-se com o contato daquele corpo viril de encontro ao seu, saboreando a
mensagem urgente que a exploração sensual da língua dele fazia ecoar por cada parte de
seu ser.
Ela sentia o fogo da paixão a consumi-la. Ficou com a respiração em suspenso
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
quando Trevor segurou-lhe os quadris de encontro a si e pôde sentir-lhe o sexo rijo,
apesar da barreira das roupas. As mãos experientes afagaram-lhe as costas, a cintura, as
pontas dos dedos subindo suavemente e roçando seus seios.
Os eventos desagradáveis do dia se dissipavam naquele abraço, e ela sabia com
uma espantosa convicção que queria esse homem. Queria-o em sua cama, junto a seu
corpo, em seu coração e alma. Queria-o tanto que tal constatação chegava a assustá-la.
Um novo tipo de urgência passou a percorrê-la, uma espécie de frenesi que estava
prestes a incendiá-la. Ávidas, suas mãos percorreram-lhe o peito largo sob a camisa, os
ombros, as costas. Detinha-se massageando-lhe os músculos. Eram firmes, sólidos,
fascinantes.
Trevor ergueu-lhe o queixo e, ao fitá-lo, viu naqueles olhos azuis um desejo tão
intenso que a deixou quase sem fôlego. Lábios impetuosos se apossaram dos seus outra
vez, e não houve mais chance de qualquer pensamento coerente. Era por isso que
estivera ansiando desde que chegara ali, pelos lábios dele tomando os seus... exigindo,
cativando, a língua explorando com ousadia. Entregou-se com abandono, retribuindo com
o mesmo ardor.
Trevor foi guiando-a para o interior do quarto, fechando a porta atrás de ambos.
Suas mãos percorreram-lhe o corpo curvilíneo com urgência. Acariciou-lhe os seios
desnudos por debaixo da camiseta folgada, sentiu-lhes a firmeza com suas palmas,
depois provocou os mamilos massageando-os com os polegares. Já estavam rijos pelo
desejo e aquela resposta tão espontânea excitava-o ainda mais. Brenda era tão doce, a
pele tão perfeita e acetinada, que poderia tocá-la daquela forma sensual para sempre.
Ele, enfim, deslizou as mãos até a cintura esguia, continuando a abraçá-la de
encontro ao corpo. Segurou-a com força, como que precisando manter os resquícios do
controle. Sua voz soou rouca de desejo ao lhe perguntar:
— Oh, doçura, você quer isto tanto quanto eu?
O brilho ardente naqueles olhos verdes, que o fitavam como se só os dois
existissem no mundo, foi toda a resposta que Trevor precisou. Estava claro. Ergueu-a em
seus braços fortes, a respiração alterada pela paixão, o corpo consumido por um fogo
intenso. Estendeu-a sobre a cama com gentileza, despiu-lhe a bermuda, depositando
beijos no ventre liso, nas coxas acetinadas.
Brenda estendeu os braços, puxando-o para si e seus lábios se encontraram num
beijo faminto. Afagou-lhe os cabelos castanhos, abriu-lhe os botões da camisa com
ansiedade, as palmas deliciando-se com o contato dos músculos daquele peito viril, dos
ombros largos.
Trevor soltou um gemido abafado, as carícias o estimulando, fazendo-o ansiar por
mais. Uma incrível sensação erótica o percorreu quando tornou a deslizar suas mãos pelo
corpo nu de Brenda, afagando-lhe os seios por debaixo de sua camiseta, segurando-a
pelos quadris e puxando-a mais de encontro a si.
De repente a barreira das roupas tornou-se intolerável. Com urgência, ele livrou-se
da camisa aberta e das demais peças que vestia. Ela contemplava-lhe o corpo com um
olhar fascinado, um olhar desejoso que o enlouquecia. Retirou-lhe, enfim, a camiseta,
também lhe admirando o corpo bem-feito.
— Você é tão linda...
Brenda ficou com a respiração em suspenso, enquanto, sob a luz do quarto, aqueles
olhos azuis detinham-se em cada pedacinho de seu corpo com o ardor de um toque, uma
doce antecipação a invadi-la, dissipando qualquer sinal de constrangimento.
Trevor, então, deitou-se na cama, o controle mantido a custo, o desejo a guiá-lo.
Cada parte de seu ser ansiava por Brenda, precisava tê-la a seu lado. Não houve mais
chance de pensamento coerente. Tudo o que via era o corpo feminino e convidativo a seu
lado, os inconfundíveis olhos verdes fitando-o com uma emoção primitiva, avassaladora.
Inclinou-se para beijar-lhe os seios perfeitos, sugou-lhe os mamilos, deliciando-se
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com a incrível maciez, com o encorajamento dela ao arquear as costas para receber suas
carícias. Circundando, enfim, um bico rosado com a ponta da língua, deslizou a mão até o
ventre de Brenda, afagou-lhe a parte interna das coxas. Ministrou-lhe carícias íntimas,
ousadas. Ouviu-a sussurrando seu nome, numa sedutora súplica, e respondeu com um
novo beijo voluptuoso.
Enquanto suas línguas se entrelaçavam numa cadência erótica, deitou-se sobre ela,
segurando-a pelos quadris para recebê-lo ao penetrá-la. O mundo lá fora não existia
mais, nem o tempo; estavam nas nuvens, cada um desejando proporcionar o mesmo
prazer ao outro, num ritmo frenético que os levou ao êxtase sublime.
Num estado de puro contentamento, Brenda sentia o braço forte de Trevor em torno
de sua cintura, o hálito quente de encontro ao seu ouvido, enquanto a abraçava pelas
costas. Uma suave brisa noturna soprando de encontro às venezianas fazia a cortina
esvoaçar; a luz fora apagada e apenas a luminosidade de um abajur contribuía para o
clima relaxante.
— Eu estava certo, sabe. — A voz de Trevor, sussurrada de encontro ao ouvido
dela, produziu-lhe arrepios sensuais pela espinha.
— Sobre o quê?
Ele subiu a mão até o seio arredondado, os dedos hábeis deixando uma trilha de
fogo em torno do mamilo, provocando-o exatamente ao evitar tocá-lo.
— Sobre nós. Sobre querer você. E imaginá-la nos meus braços.
O corpo dela vibrou com a mão experiente que a acariciava, o fogo brando prestes a
se reavivar.
— Só levei um pouco mais de tempo para admitir.
— Você sabe ser muito teimosa às vezes. — Brenda conteve a respiração quando
ele, enfim, começou a lhe massagear o mamilo.
— Acha mesmo?
— Tenho certeza.
— Pois venha cá que vou lhe mostrar exatamente o quanto sei ser teimosa.
Trevor deitou-se sobre ela e apossou-se de seus lábios com um beijo repleto de
volúpia. Cada um tornou a reavivar o desejo do outro, com carícias estimulantes,
pacientes a princípio, até que o desejo se alastrou como que por combustão instantânea e
ambos se entregaram com abandono à paixão.

Sonhos especiais conduziram-na pelo restante da madrugada até o amanhecer e


Brenda abriu os olhos devagar, descobrindo-se nos braços quentes de Trevor. Ele
despertara primeiro e a fitava com uma expressão terna.
— Bom dia, doçura.
O sorriso com que a saudou aqueceu-lhe o coração, fez com que boa parte da noite
tivesse mesmo parecido um sonho... um sonho maravilhoso, onde o toque dele lhe
descortinara um mundo novo de sensações. Sim, Trevor a desejara com idêntica paixão,
houvera uma solene sinceridade em seus olhos ao possuí-la. Se encontrassem os títulos
hoje e aquele homem desaparecesse de sua vida, ela não teria arrependimentos. Sempre
teria a noite passada nas lembranças.
— Adoro ver você pela manhã. Fica tão sexy com esses olhos verdes sonolentos.
Manhã ou noite, o fato era que Trevor não se cansava de tê-la em seus braços. Ao
acordar, detivera-se a observá-la adormecida, sentindo-lhe o corpo macio e escultural de
encontro ao seu, em renovado desejo. Agora afagou-lhe os cabelos e, ao deparar com
aqueles olhos sensuais e sonolentos, não conseguiu resistir ao convite. Beijou-lhe os lá-
bios macios e ouviu-a suspirando de prazer, enquanto tornavam a se amar.

Algumas horas depois, quando Brenda acordou pela segunda vez, com o sol da
manhã filtrando-se pelos vãos das venezianas, Trevor se fora. Espreguiçou-se
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
demoradamente, saciada, contente. Não se dera conta de como estivera exausta. E
nunca antes experimentara a completa satisfação, a plenitude que só encontrara nos
braços de Trevor.
Recolheu a bermuda e a camiseta folgada do chão e vestiu-as com um sorriso
sonhador ao relembrar como haviam parado lá.
Ao abrir a porta, deparou com uma agradável surpresa. Havia uma caixa grande de
papelão diante de seu quarto na C & C. Abriu-a e viu que estava abarrotada com suas
roupas, dobradas cuidadosamente e encimadas por sua bolsa e pelo álbum de sua
família. Puxa, ele já fora até sua casa?
Arrastou a caixa para o interior do quarto e esvaziou-a, arrumando as roupas nas
gavetas da cômoda. Corou ao ver sua lingerie. Trevor pensara mesmo em tudo.
Depois de se vestir outra vez, ela deixou o quarto a fim de procurá-lo, mas encontrou
apenas Moose na casa. Várias horas se passaram antes que Trevor retornasse e, quando
o fez, Brenda não pôde deixar de se perguntar onde teria ido durante todo aquele tempo.

A mesma pergunta continuou a inquietá-la durante os três dias que se seguiram,


enquanto ela se inteirava ao novo mundo ao seu redor. A Collins & Companhia tinha um
projeto assistencial maravilhoso. Qualquer criança ou jovem que precisasse de ajuda
poderia encontrá-la ali, quer esta viesse de assistentes sociais acompanhando casos
específicos, de voluntários, ou de Moose, Annlyn e do próprio Trevor.
Contudo, por mais que estivesse gostando do lugar, ela sentia falta dele. Era raro
encontrarem algum tempo juntos. Continuava desaparecendo por várias horas e, quando
voltava, a C & C mantinha-o ocupado.
Por sua vez, quando não estava ajudando a afável Annlyn no que pudesse ou
conversando com a encantadora Mina, Brenda começara a pintar seu quarto.
Na tarde do terceiro dia, já terminara de remover o papel de parede velho e iniciara a
pintura. Foi onde Trevor a encontrou.
— Puxa, você não pára mesmo quieta, hein? — Ele dirigiu-lhe um de seus sorrisos
cativantes, enquanto ela descia da escada e deixava o material de pintura de lado. Puxou-
a para si, beijando-lhe os lábios. — Já lhe disse que é uma garota muito especial?
— Umas... quinhentas vezes?
— Hum, agora é o seu ego que está impossível.
Ambos riram, mas, após a descontração inicial, foi inevitável que Brenda
perguntasse sobre o assunto que mais a preocupava.
— Alguma notícia sobre os livros contábeis?
Trevor lhe contara que tinha um amigo que estava analisando os livros contábeis
que haviam encontrado no motel, mas parecia estar levando tempo demais.
— Ainda não.
— E quanto aos títulos? Algum progresso?
— Nada importante — respondeu ele casualmente. Brenda soltou-se do abraço, um
tanto zangada.
— Toda vez que lhe faço essas perguntas, você responde de uma forma vaga que
me deixa sem saber o que pensar. Acha que se não me contar os detalhes, vou acreditar
que o problema não existe mais? — Ela sabia que a intenção era a de protegê-la; não
devia ficar com raiva, mas não podia evitar.
— E isso seria assim tão ruim?
— Claro! Talvez eu precise ficar escondida, talvez faça sentido para você sair por aí
atrás de toda e qualquer pista, em vez de mim. Mas também preciso saber o que está
acontecendo. Nem sequer sei com quem já falou ou quantos nomes restaram naquela
lista que copiou na casa de Susan Alcorn.
— Está bem. Não falta nenhum. Falei com a última pessoa ontem. Não consegui
nada. — Trevor não podia contar que Barney ainda tinha alguém investigando o papel
70
Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
misterioso encontrado no motel, a lista rasgada pelo meio que Richard parecia ter
iniciado.
— Falou com todos?
— Sim. Bem, não pude localizar dois. Várias pessoas confirmaram a sociedade de
Richard com Rex, mas já sabíamos disso.
— O que fazemos agora? — Encontrar os títulos parecia mais impossível do que
nunca. Tinha que haver uma maneira.
— Vamos esperar que a análise dos livros contábeis resulte em algo. Deve ficar
pronta a qualquer momento. — Ele fitou-a com intensidade, afagando-lhe o rosto
delicado. — Vamos encontrar os títulos. E eu descobrirei o que aconteceu com Richard.
Confie em mim.
Beijou-a demoradamente até que ela sentisse o pulso se acelerando outra vez.
Não ouviram a batida à porta.
— Não estou interrompendo nada, não é? — Moose piscou-lhes um olho, um largo
sorriso em sua fisionomia. — Desculpe, chefe, apenas achei que queria saber que
estamos no último galão de tinta.
Trevor virou-se de novo para Brenda.
— Arranje um par de óculos escuros, pegue aquele boné preto pendurado atrás da
porta da cozinha e vamos comprar tinta.
— Mas assim? — Ela indicou o jeans e a camiseta respingados de tinta.
— Por que não? Pode ficar no carro.
Minutos depois, ambos desciam para a garagem.
— Quer ir dirigindo?
— Posso? — Brenda estivera ansiosa para pegar uma estrada e dirigir até dissipar
toda a sua frustração. Entusiasmada, sentou-se ao volante do carro possante de Trevor.
— O único lugar onde podemos comprar tinta igual é do outro lado da cidade. — Ele
deu-lhe um endereço. — Conhece a área?
— Sim. Fica perto da firma de entregas expressas. Talvez eu devesse passar
rapidamente por lá para dizer um olá a Aretha depois que comprarmos a tinta.
Cerca de vinte minutos depois, quando se aproximavam do quarteirão onde
achariam as tintas, Trevor deu-lhe instruções para parar num estacionamento situado três
prédios depois da loja. Estava lotado, mas encontraram uma vaga mais próxima à rua.
— A compra só vai levar alguns minutos.
— Estarei aqui.
Brenda observou-o afastando-se, seu olhar fixo no corpo atlético e proporcional.
Soltou um profundo suspiro. Sua frustração só aumentara... Não podia acreditar que se
deixara envolver por aquele homem. Não estava procurando um relacionamento, e
mesmo que estivesse, não deveria ser com Trevor Steele. Já sabia que seu caráter era o
oposto do de Richard, e isso não a preocupava mais. O problema era que ele sairia de
sua vida tão logo encontrassem os títulos.
Ela tirou o boné para abanar-se, perguntando-se se Trevor saberia o quanto ficava
ardendo de paixão só de pensar a seu respeito... Gostasse ou não, o fato era que estava
se apaixonando por ele.
Estava refletindo sobre a enormidade dessa descoberta quando o viu entrando
apressado no carro.
— Vamos dar o fora daqui!
A urgência na voz dele a fez sair de imediato com o carro do estacionamento para a
rua. Em frente a um edifício que havia ao lado da casa de tintas, viu o problema. Um dos
brutamontes que haviam invadido sua casa corria pela calçada em direção ao
estacionamento.

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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
Capítulo 14

— Segure-se firme — disse Brenda. Passou em disparada por um sinal amarelo e


continuou avançando. A rua era larga, o tráfego moderado. Foi ultrapassando os poucos
carros à frente e, quando surgiu um outro semáforo, em vez de parar no sinal vermelho,
entrou na pista à esquerda no último segundo, deixando para trás o ruído estridente dos
pneus cantando e de buzinas.
— Ele está atrás de nós?
— Não vamos esperar para saber.
Ela entrou rapidamente numa transversal à direita e, mais adiante, à esquerda. A
última rua em que entrou era estreita e ladeada por áreas de estacionamento. Por duas
vezes teve que reduzir a velocidade para dar passagem a carros que vinham pela mão
oposta.
Trevor estava virado no assento, olhando para o trecho de rua atrás de ambos.
— Vire na próxima à direita. Há uma rua de mão única uns quatro quarteirões
adiante.
Brenda dobrou na esquina seguinte. Enquanto percorriam a próxima rua, ele avistou
o furgão.
— Conheço um caminho melhor. — Ela acelerou pela rua, ultrapassando vários
quarteirões. Pelo retrovisor, via que o furgão se achava três carros atrás de ambos.
— Cuidado com aquele caminhão!
Parado ilegalmente, um caminhão de entregas bloqueava boa parte da rua.
Continuando a avançar, Brenda passou pelo vão estreito entre o caminhão e os carros
parados junto ao meio-fio.
— Puxa, foi por um triz! Ainda bem que eu sei que você é um ás do volante.
— Este seu carro é uma maravilha. É como estar voando sobre quatro rodas.
— O furgão ficou preso atrás do caminhão de entrega. Conseguimos despistá-lo.
Aos poucos, a buzina insistente do furgão foi se dissipando e ela seguiu pelo
caminho que levava de volta à C&C.
— É evidente que ele reconheceu você e seu carro — disse, ainda com o coração
disparado. O fluxo de adrenalina correndo por seu corpo só agora voltava ao normal. —
Além de mim, claro.
— Detesto admitir que nem sequer consegui comprar a tinta. Mas Moose pode vir
buscá-la mais tarde.
A casa estava silenciosa quando retornaram. Mal haviam entrado, e Trevor pegou as
chaves da perua da C & C.
— Vou voltar e ver se consigo encontrar aquele furgão pelas ruas.
Brenda não se ofereceu para acompanhá-lo. Já tivera aventura demais por um dia.

Trevor retornou algumas horas depois. Sua tentativa não resultará em nada. Os
telefonemas para Barney mostraram-se igualmente frustradores. Seu chefe mandara
cancelar a vigilância na casa de Brenda, o computador não tinha registro dos dois
homens do furgão, e a análise dos livros contábeis ainda não estava pronta. Começava a
ficar sem alternativas e não gostava daquela sensação de impotência em relação ao
caso. Algo tinha que acontecer logo.
Subiu ao quarto de Brenda e, batendo à porta, encontrou-a sentada na beirada da
cama, num robe atoalhado e penteando os cabelos molhados. Respirou fundo, inalando a
fragrância suave do xampu, da pele macia refrescada pelo banho. Sentiu-se tentado a es-
tendê-la naquela cama e beijá-la até deixá-la sem fôlego, a acariciá-la por inteiro. Ansiava
por mais do que isso.
Mas não o faria. Estragara tudo naquela tarde. Sua prioridade era a segurança dela.
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
Nem sequer dissera a Barney onde estavam. Ao sucumbir à sua necessidade de estar
com Brenda, acabara colocando-a num risco desnecessário. O sujeito no furgão parecera
disposto a tudo, e fora uma sorte terem-no despistado.
O fato era que não pensava com clareza quando estava com aquela mulher tão
especial... E se tivesse que manter seu controle era bom começar agora.
— Pelo seu jeito, vejo que não encontrou o furgão — comentou ela, quando ele se
sentou na cadeira a um canto com um quieto olá.
— Não.
— Talvez devêssemos contar sobre essa perseguição à polícia. Nunca mais me
procuraram depois que falaram comigo sobre o primeiro arrombamento. Não iriam querer
saber que aqueles bandidos continuam nos importunando?
Ele estudou-a por alguns momentos.
— Achei que não gostasse da polícia.
— Ao menos os policiais são bem mais compreensivos do que aqueles agentes
federais arrogantes. Lembra-se dos que lhe falei? Srs. Crowley e Jamison? Não os
chamaria nem se minha dependesse disso.
— Posso ligar para eles. — Trevor desviou o olhar até o pôr-do-sol que se avistava
para além da janela. Suas palavras queimavam como ácido numa ferida aberta, e era
tudo culpa sua. — Não há muito a lhes contar, porém; apenas que temos visto os tais
bandidos.
— Eles andaram nos perseguindo, oras.
— A polícia vai querer saber por quê.
— Basta dizer que não sabemos.
— Também vão precisar de nosso nome e endereço.
— Oh. Talvez seja melhor esperarmos.
— Podemos aguardar alguns dias. Se nada acontecer até lá, ligaremos para as
autoridades.
— Quanto a esta tarde...
— Não deveria ter acontecido. Lamento tê-la colocado em perigo outra vez. —
Trevor levantou-se abruptamente, seu semblante anuviado, um ar distante e indecifrável
em seus olhos azuis. — Bem, vou tomar uma ducha. Vejo você durante o jantar.
Com o pente esquecido na mão, Brenda o observou atentamente enquanto ele
deixava o quarto, uma estranha opressão em seu peito. Ansiava pela proximidade entre
ambos, pela paixão que haviam compartilhado antes. Mas Trevor parecia ter se fechado
em si mesmo, como se algo o estivesse... angustiando. Era óbvio que estaria ansioso
para ver logo o assunto dos títulos resolvido. A pressão de tudo aquilo estava, na
verdade, afetando a ambos. Devia haver alguma coisa que ela pudesse fazer. Mas o quê?

Na manhã seguinte, Brenda acordou com a mesma nuvem negra pairando sobre
sua cabeça. A frustração por não poder fazer nada a não ser esperar tornava-se
sufocante, insuportável. Vinha acompanhada de uma crescente sensação de culpa.
Desde o início, Trevor fora aberto e sincero com ela a respeito dos próprios sentimentos e
do porquê em querer ajudá-la a procurar os títulos.
Por sua vez, ali estava ela aceitando a confiança que ele lhe depositava tão
abertamente e, ao mesmo tempo, ocultando uma informação que talvez pudesse ajudá-lo
a descobrir o que precisava saber sobre o irmão. Devia lhe contar que vira os títulos
roubados na pasta de Richard no passado. Dessa forma, Trevor estaria mais preparado
quanto à grande parcela de culpa do irmão na fraude, quando o escândalo ficasse escla -
recido. A princípio, não mencionara nada temendo ser acusada de cúmplice como
aqueles agentes federais já haviam insinuado. Mas se contasse agora, Trevor a jul garia
uma traidora. Afinal, dera-lhe proteção, esperança, apoio e ela estava retribuindo com a
omissão da verdade. O pensamento a fez sentir-se horrível por dentro. Não fora
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
exatamente isso que Richard lhe fizera?
Durante o dia, Brenda tentou ser razoável consigo mesma e afastar a culpa que a
torturava. Procurou se convencer de que acabariam desvendando o mistério sem precisar
revelar o pouco que sabia, que quando tudo viesse à tona, ele já estaria preparado para
descobrir sobre o grande envolvimento do irmão. Afinal, não podia nem pensar em
destruir o relacionamento que evoluía entre ambos. Afastá-lo seria insuportável, e contar-
lhe que estivera escondendo algo produziria exatamente esse efeito.
À tarde, Trevor levou-a ao ginásio que possuía perto da C & C e mostrou-lhe toda a
aparelhagem para ginástica, além das quadras esportivas. Sentindo o joelho mais
fortalecido, Brenda se exercitou em vários aparelhos na companhia dele. Parte da tensão
pareceu se dissipar com o passar da tarde. Trevor permaneceu silencioso, absorto, mas
quando terminaram a sessão de exercícios, aproximou-se para abraçá-la pela cintura
seus olhos enigmáticos, sensuais.
Brenda jogou de lado a pequena toalha que passara pela fronte para enxugar a
transpiração e sustentou-lhe o olhar. Uma poderosa onda de desejo invadiu-a, minando-
lhe a resistência, fazendo-a esquecer-se de tudo mais exceto o homem maravilhoso que a
abraçava de encontro a seu corpo sexy e viril.
— Quero você, doçura — sussurrou-lhe ele de encontro ao ouvido, as palavras
repercutindo dentro dela como a mais erótica carícia. O beijo que trocaram no ginásio
vazio foi faminto, impetuoso, repleto de um desejo que nunca se aplacava.
Surpreendendo-a, Trevor carregou-a em seus braços até um dos chuveiros do
vestiário. Despiu a ambos ansiosamente, jogando as roupas longe antes de ligar o
chuveiro.
— Oh, mas e se alguém vier até o ginásio? — sussurrou ela, apesar da deliciosa
antecipação que já a invadia.
— Tranquei a porta do vestiário. Além do mais, tínhamos mesmo que tomar um
banho, certo?
— Certo...
Ele sorriu-lhe, estreitando-lhe o corpo desnudo de encontro ao seu sob a água
morna do chuveiro. Quando seus lábios se encontraram num beijo voluptuoso não houve
mais chance de qualquer pensamento intruso para nenhum dos dois.

A um passo vagaroso, em meio a um silêncio confortável, os dois voltaram de mãos


dadas à C & C.
— Ei, Trevor — disse Moose, enquanto entravam pela recepção. — Aquela ligação
importante que você estava esperando chegou há pouco. Disseram que você deve ir até
lá ver o resultado amanhã de manhã.
— Dos livros contábeis? — perguntou Brenda.
— Exatamente — confirmou Trevor, sua expressão aliviando-se como se algum
peso tivesse sido tirado de seus ombros.
Logo mais à noite, Brenda estava aninhada nos braços dele em sua cama, os seios
macios de encontro ao peito forte, as pernas entrelaçadas como se fossem apenas um.
Ele mordiscou-lhe o lóbulo da orelha. Sorriu ao senti-la se arrepiando por inteiro.
— Ouço alguém lá em baixo.
— Hummm... Apenas Moose trancando tudo antes de ir para casa.
Puxa, aquela mulher o fazia sentir-se nas nuvens. Queria bloquear o mundo lá fora.
Dizer-lhe o quanto precisava dela em seus braços, em sua vida. Por mais que tivesse
tentado resistir, não conseguia mais ficar sem Brenda Michaels.
O fato de que fora a esposa de Richard não importava mais. Não era difícil adivinhar
quando parará de se obrigar a vê-la nesse papel. Fora naquela primeira noite em que
fizera amor com ela, na noite em que pensara que poderia tê-la perdido, quando a vira en-
tregando-se com tanto abandono em seus braços que nada mais pudera contê-lo.
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
Encará-la apenas como a ex-esposa de Richard fora, na verdade, uma espécie de
barreira que ele mesmo criara para evitar um envolvimento. No fundo, sempre soubera
disso. Havia sido o pretexto que precisara para manter um distanciamento emocional,
pois uma vez que os títulos fossem encontrados, Brenda descobriria sua verdadeira
identidade e tudo estaria acabado.
Era tentador ignorar a importância do resultado dos livros contábeis. Mas não podia
escondê-la ali para sempre. Eventualmente, alguém acabaria por descobri-los na C & C.
Não tinha escolha a não ser ir à reunião com Barney e seu pessoal sobre os livros con -
tábeis pela manhã.
Afastando os pensamentos, encontrou os lábios dela num beijo repleto de paixão.
Queria viver com intensidade o pouco tempo que ainda tinham juntos. E quan do tivesse
acabado? Recusava-se a pensar para além desta noite.

Trevor se fora quando Brenda acordou pela manhã. Querendo manter a cabeça
longe dos livros contábeis e dos títulos, ela decidiu terminar de pintar seu quarto.
— A tinta que comprei está no porão — disse-lhe Moose, enquanto se preparava
para sair com dois adolescentes pela porta da recepção. — Estarei no ginásio se precisar
de mim. Não é necessário atender ao telefone, a secretária-eletrônica está ligada.
Brenda ainda não estivera no porão da C & C. Desceu pela passagem estreita
devagar, incerta quanto aos degraus. Chegou, enfim, ao chão de concreto, e o odor
característico atingiu-a de imediato... aquela velha e familiar combinação de umidade e
bolor de anos atrás. Enquanto se encaminhava até as tintas por entre as várias caixas e
objetos que apinhavam o lugar, lembrou-se do porão de sua infância, das inúmeras vezes
que havia passado de fininho por sua mãe em direção à copa e descera as escadas até lá
para brincar. Fora um lugar tão misterioso e fascinante e, quando garota, ela gostara de
se imaginar nos porões de algum castelo. Lá costumara ser a adega de seu avô, passada
depois a seu pai.
Aproximando-se das latas de tinta, encontrou uma cujo tom era o mesmo que estava
usando em seu quarto. Carregou-a até a metade da escada quando algo lhe ocorreu. O
cheiro... O porão... Largou a tinta num degrau. Céus! Havia se esquecido por completo de
procurar no porão de sua casa. Não era como o caso do sótão, que simplesmente
estivera adiando para verificar, até que subira lá com Trevor. Ela realmente se esquecera
da existência do porão, já que nunca mais fora usado!
Subiu depressa pelo restante da escada. Claro. Que lugar perfeito para alguém
esconder algo importante... Uma vez que tia Maude mandara cimentar o acesso às
escadas pela copa, não havia como descer ao porão por dentro da casa. A única entrada
ficava do lado de fora, as portas embutidas no chão e geralmente cobertas de terra e
folhas. E ela mostrara a passagem a Richard certa vez...
Subindo a seu quarto na C & C, trocou o short e a regata vermelha por um jeans e
uma discreta camiseta azul-marinho. Prendeu os cabelos no boné preto e colocou os
óculos escuros. Assim, ninguém a reconheceria.
Saiu pela porta dos fundos para pegar seu carro, que Trevor também trouxera de
sua casa com a ajuda de Moose, mas lembrou-se que os bandidos o conhe ciam. Sem
hesitar, voltou à casa e pegou as chaves da perua da C & C. Sabia que era muito usada
ali, mas pretendia voltar logo. Resolveu deixar um bilhete na recepção para tranqüilizar
Trevor, caso retornasse primeiro. Escreveu apenas que levaria a perua para resolver um
assunto, mas que voltaria logo e não havia razão para se preocupar.
O tráfego pouco intenso tornava o longo percurso mais fácil. Estaria segura.
Ninguém reconheceria aquela perua. Nuvens escuras e ameaçadoras avançavam pelo
céu, ocultando o sol. A formação de tempestade parecia um reflexo do turbilhão que a
invadia. A ansiedade era crescente, pois tinha certeza que encontraria os títulos. Se
Richard os tivesse escondido em sua casa, só poderia ter sido no porão!
75
Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
Enquanto atravessava a cidade rumo a Hallowing Point, a culpa tornava a oprimir-
lhe a consciência. Por que não contara a Trevor o que sabia, afinal? Não era muito,
apenas que, sim, Richard estivera envolvido em algum negócio ilegal de falsificação de
títulos. Mas já chegara ao porquê. Dar-lhe tal informação não resolveria nada. Naquela
investigação particular de ambos, já estavam partindo do suposto que Richard estivera
envolvido na quadrilha da fraude. Apenas se ela pudesse contrabalançar sua confissão
com o surgimento dos títulos esta valeria a pena.
Amava Trevor de todo o seu coração; não havia mais dúvida quanto a isso. Esse
amor a impulsionava a querer desvendar tudo o mais depressa possível para
prosseguirem com suas vidas. Juntos, esperava...
Ela entrou devagar com a perua pelo caminho de cascalho e parou no início da
clareira, observando a casa. Não havia nenhum veículo por ali e tudo parecia tranqüilo.
Notou as janelas devidamente fechadas, evidência de que Trevor e Moose haviam
arrumado a desordem na casa quando tinham vindo apanhar suas roupas. Tirou o boné e
os óculos escuros, deixando-os na perua. Enquanto descia, imaginava como o lugar teria
ficado depois de revirado por aqueles seis capangas.
Mal fechou a porta do veículo e começou a chover forte. Correu para a varanda a fim
de verificar se tudo estava bem lá dentro e apanhar um guarda-chuva antes de ir até a
entrada externa para o porão. Deteve-se junto à porta da frente e, num gesto automático,
preparou-se para desligar o alarme. Na verdade, havia um enorme buraco na parede. Por
que aqueles brutamontes iam destruindo tudo? Por que não haviam simplesmente
cortado os fios?
O estrondo de um trovão sobressaltou-a. Afastando o temor que começava a
alimentar sua imaginação, entrou na sala de estar. Estava mais ou menos como a
deixara, mas algo sutil parecia diferente. Esperara uma onda daquele ar de aconchego
que sempre sentira ao retornar para seu lar depois do trabalho, mas essa sensação de
bem-estar mudara.
Encaminhou-se depressa para o andar de cima. Os objetos fora do lugar original no
corredor fizeram-na hesitar. Claro que a casa estava vazia. Não havia ninguém ali.
Procurou ignorar o desconforto e entrou em seu quarto. Parecia o mesmo e, ao mesmo
tempo, não... Sem demora, apanhou seu guarda-chuva numa prateleira do armário.
Lutou para vencer o crescente senso de perda e vazio, enquanto descia os degraus.
Deteve-se ao pé da escadaria, olhando ao redor, como que vendo sua casa pela primeira
vez. Com novos olhos notou o ar decadente, a mobília gasta, as cortinas desbotadas. Não
importando o quanto olhasse, a velha sensação reconfortante, aquela que sempre lhe as-
segurara que ali estava a salvo do mundo externo, se fora.
Mas a resposta veio-lhe de repente, como num estalo. Seu mundo se expandira e
crescera para além do confinamento daquelas paredes, para além de tia Maude, de
Richard. Finalmente.
Ela começara a viver outra vez. Trevor lhe possibilitara que seu mundo crescesse.
As mudanças dramáticas em sua existência a espantavam quando pensava a respeito. A
fraude dos títulos, as acusações injustas e os intrusos haviam-na forçado a sair da
redoma. Sorriu ao pensar em Trevor, na Collins & Companhia. Gostava destas últimas
mudanças.
O som da chuva copiosa batendo de encontro às janelas foi como um sinal de que
devia se apressar. Ficaria contente em sair dali. A casa era deprimente.
No momento em que pensava em sair para ir até a entrada do porão, a porta da
frente foi aberta com violência. Antes que tivesse chance de se virar da passagem para a
sala, alguém agarrou-a por trás no vestíbulo.

Capítulo 15
76
Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron

Brenda esforçou-se para se libertar. A adrenalina fluía por seu corpo, o coração
estava disparado. Com um movimento brusco que quase distendeu seu ombro, conseguiu
se desvencilhar do homem que a segurava.
Freneticamente, tentou correr, esforçando-se para não se deixar agarrar outra vez.
Tinha que pegar a arma que fora de Richard. Estava próxima. Deixara-a na gaveta do
aparador do vestíbulo. Precisava pegá-la!
Ele tornou a segurá-la. Brenda ergueu a perna, direcionando o salto baixo, mas
sólido de seu sapato esporte, e pisou o pé de seu agressor com toda a força. O bandido
soltou um grunhido de dor, mas continuou a segurá-la com firmeza. Foi puxando-a com
brutalidade pelo vestíbulo em direção a sala de estar.
Victor Pernell, seu patrão, estava confortavelmente sentado na poltrona favorita de
tia Maude. O acentuado odor de charuto impregnava a sala.
— Victor?
— Sente-se, srta. Michaels. Fico contente que, enfim, nos dê o prazer de sua
presença. — Ele sacudiu a mão no ar num gesto casual. — Ela quase fugiu de você, hein,
Wally? Agora pare de choramingar feito um bebê. Vá lá nos fundos buscar as cordas no
furgão. Burt, fique de olho nela enquanto isso. Depois, vigiem a porta. Será que tenho que
lhes dizer tudo?
— Não, chefe.
Confusa, Brenda desabou na cadeira mais próxima.
— O que está fazendo na minha casa?
Mas nem precisava ter perguntado. Os homens a quem Victor dava ordens eram os
dois bandidos que a vinham perseguindo havia tanto tempo.
— Vocês! — Ela se pôs de pé abruptamente, num acesso de fúria. — Todos vocês!
Fora daqui!
Burt avançou para ela tão depressa que não lhe restou escolha senão encolher-se
na cadeira outra vez, uma onda de pânico assaltando-a.
— O que quer aqui, Victor?
— Ora, sabe o que quero. A mesma coisa que você voltou para buscar.
— Não estou com os títulos.
— Ora, ora, não me faça perder mais tempo. Sabemos que está mentindo. Você fez
um grande depósito na sua conta dias atrás. Assim, é óbvio que andou convertendo
alguns daqueles títulos ao portador em dinheiro. Onde estão todos os outros, Brenda?
— Foi por isso que me despediu, não foi? Para que eu tivesse que trocar alguns
títulos para sobreviver. Pois se enganou redondamente. Não estão comigo.
Victor levantou-se abruptamente e aproximou-se. Parou com uma expressão
ameaçadora à sua frente, o cheiro forte do charuto sufocando-a.
— Entenda isto, garota. Estamos fartos dos seus jogos. Queremos algumas
respostas. Sobre tudo o que Richard lhe contou. E sobre seu novo amigo também, Trevor
Steele, não é? Mas principalmente, vai me dizer onde estão os títulos. Já sabemos que
devem estar aqui, nesta casa, e não vamos sair sem levá-los. Sabe, seu falecido marido
já tentou nos passar a perna e veja o que lhe aconteceu...
Brenda empalideceu. Tudo fazia sentido agora...
— E quanto aos serviços da firma para fora da cidade? Você queria me manter
longe para revistar minha casa, não é?
Ignorando-a, Victor lançou um olhar impaciente para o capanga que retornava com
as cordas.
— Wally, amarre-a depressa.
O brutamontes empurrou-a até a cozinha, amarrou-lhe as mãos para trás, os pés, e
a fez sentar-se, prendendo-a à cadeira com outros pedaços de corda. Ela não reconheceu
a própria cozinha. Os três vinham se servindo de sua comida. Pratos sujos apinhavam a
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
pia e o balcão. A mesa estava coberta com garrafas de uísque, vinho e cerveja que
deviam ter comprado pelas redondezas... muitas já vazias.
Victor acendeu um novo charuto e sentou-se diante dela, uma expressão intimidante
em seus olhos.
— Bem, srta. Michaels. — A costumeira fala macia deu lugar a um tom glacial. —
Sou todo ouvidos. Pode começar a falar.

Assim que retornou dá reunião com Barney, Trevor deparou com um preocupado
Moose na recepção da C & C.
— Oh, ainda bem que você chegou. Acabei de voltar do ginásio e veja só o que
encontrei na recepção.
Trevor apanhou o papel e gelou. Era um recado de Brenda dizendo que saíra com a
perua e que voltaria logo.
— Mas que assunto ela teria para resolver? Isto está me parecendo estranho.
— Já a procurei pela casa toda, mas realmente ainda não voltou. E levou mesmo a
perua.
Uma onda de pânico invadiu Trevor. Será que os bandidos haviam descoberto a C &
C e a levado na sua ausência? Era improvável, disse a si mesmo, tentando se controlar.
O lugar era seguro e não teriam vindo a pé para precisarem levar a perua. Sem men -
cionar que não a deixariam escrever um bilhete daqueles. Ela saíra sozinha. Mas para
onde?
Pensou em Aretha, mas descartou logo a hipótese. Brenda não teria se arriscado a
sair só para fazer uma visita à amiga em circunstâncias como as atuais. Esmurrou o
balcão, pensando freneticamente nas possibilidades. Só havia um lugar que justificaria
uma saída... A casa dela. Mas não. Não teria ido até lá sozinha; sabia que era perigoso.
Mesmo enquanto a negação se formava em sua mente, ele já se via escolhendo um
rumo definido.
— Moose, não tenho tempo para explicar. Me faça um favor. Fique perto dos
telefones. Ligue para o meu carro caso Brenda volte ou tente fazer contato.
Em questão de poucos minutos, ele já estava a caminho de Hallowing Point, sob
uma chuva torrencial. Droga, justamente agora Barney havia cancelado a vigilância à
casa dela. O caso estava se fechando; a reunião sobre os livros contábeis, as análises
dos dados, valores e datas comprovavam a existência da poderosa organização envolvida
na falsificação de títulos e no esquema de troca por verdadeiros. Faltavam apenas alguns
nomes, umas poucas peças no quebra-cabeça para que a quadrilha fosse desbaratada.
Mas isso ainda não acontecera e Brenda estava sozinha em algum lugar daquela cidade,
uma presa fácil para os bandidos.
Não a perderia por nada no mundo. Não podia. O pensamento o fez estremecer. A
verdade atingiu-o em cheio. Amava Brenda Michaels... Puxa, amava-a mais do que a
própria vida.
Sabia que não adiantava tentar ligar para a casa dela para avisá-la a sair o mais
depressa possível, caso tivesse mesmo ido para lá. Na última invasão, os capangas
tinham cortado o fio do telefone. Então, do telefone do carro, ligou para Barney. Foi a
secretária quem o atendeu.
— Ele foi participar de uma audiência no tribunal — explicou ela. — Se for urgente,
posso enviar um recado para lá.
— Está bem, mas é importante que você mesmo o leve. Certifique-se que Barney o
receba diretamente. Sem intermediários.
— Sim, sr. Steele. Mas levará um pouco mais de tempo para eu levá-lo
pessoalmente.
— Tente chegar no tribunal o mais depressa possível. Diga-lhe que talvez haja um
problema sério na casa de Brenda Michaels. Estou indo para lá agora.
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
Ele desligou, esperando que a secretária cumprisse à risca o que lhe pedira.
Crowley e Jamison estavam sempre se intrometendo no caso nos momentos errados. Se
houvesse algum problema, não queria aqueles dois no caminho.
Na medida em que se aproximava de Hallowing Point a chuva ia diminuindo,
facilitando a visibilidade. Por outro lado, a ansiedade dele crescia. Dizia a si mesmo que a
ida à casa de Brenda era apenas um tiro no escuro, que era provável que não estivesse
lá. Na certa, teria voltado à C & C. Soltou um suspiro frustrado. Sabia que Moose já teria
lhe telefonado se fosse o caso.
Não perdeu tempo em esconder o carro. Avançou pelo caminho sinuoso de
cascalho. O sexto sentido alertava-o a ser cauteloso. Mas o aviso mal era registrado por
sua mente aflita. Seu objetivo era certificar-se que ela não estava ali na casa. Mas onde
mais estaria?
Venceu a última curva e viu a perua da Collins & Companhia. Não havia nenhum
outro veículo por perto. Sentiu a esperança de encontrá-la a salvo, parte da tensão se
dissipando. O que precisava era tirá-la dali o mais rápido possível.
A casa estava silenciosa, as janelas continuavam fechadas. Deixando seu carro,
correu sob a chuva até a varanda e bateu com força à porta.
— Brenda! Abra. Sou eu! — gritou-lhe. Esperou alguns momentos e, como não
obteve resposta, o instinto tornou a avisá-lo de que havia algo errado. Ela teria respondido
de imediato se pudesse...
Afastou-se para o lado e ficou com a arma em punho, sua apreensão crescendo. A
porta se abriu de repente e uma mão imensa agarrou seu pulso, apertando-o até que
ficasse sem forças. A arma caiu ao chão da varanda. Com sua outra mão, Trevor
desfechou um soco no estômago do grandalhão. O homem curvou-se e gemeu de dor,
mas não soltou seu pulso. Ele lutou para se libertar. O outro forçou-lhe o braço para
detrás das costas. O cano frio de uma arma tocou sua têmpora.
O sujeito puxou-o para dentro pelo vestíbulo, só parando na sala.
Um homem de estranho olhar inquieto, dono de uma barriga imensa, sorriu-lhe de
uma poltrona.
— Sr. Steele, presumo eu. — Soltou baforadas de charuto no ar. — O namorado.
Estávamos a sua espera.
Trevor sentiu a fúria a dominá-lo. Tentou avançar para o homem, mas um braço
forte enlaçou-o pela garganta. Sentiu o metal de uma outra arma de encontro à sua
têmpora.

Capítulo 16

— Nem pense em tentar nada, sr. Steele.


— Onde ela está?
— Tudo a seu tempo.
A mão que segurava o charuto foi sacudida na direção dos rostos familiares dos
capangas.
— Amarre-o, Wally, enquanto Burt o segura. — Trevor procurou manter-se imóvel e
controlado, consciente do cano da arma de encontro à sua têmpora. Afinal, não poderia
ser de ajuda alguma se estivesse morto.
— Vim até aqui para encontrar Brenda. É o que eu pretendia fazer. — Contraiu o
semblante, enquanto a corda era apertada de encontro à sua pele.
— Talvez possamos fazer uma barganha. — O homem se levantou. — Sua
namorada está com algo que pertence a mim. E eu estou com ela em meu poder.
Uma onda de fúria apossou-se de Trevor. Só de pensar naqueles bandidos
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
maltratando Brenda já fervia por dentro. Mas era importante manter a cabeça fria. Numa
voz que ocultava sua raiva, argumentou:
— Ela não sabe onde estão os títulos. Liberte-a.
— Ah, então talvez você saiba. Talvez você tenha lutado contra nós com a intenção
de induzi-la a contar-lhe onde estão os títulos. Chega de mentiras.
Em seu íntimo, Trevor sentiu o remorso. A verdade doía. Encontrar os títulos fora
sua meta inicial. Os títulos levariam a informações sobre Richard, e ele tinha que saber a
respeito da morte de seu irmão gêmeo. Exatamente quando seu propósito mudara, não
tinha certeza. Só sabia que Brenda era a prioridade agora... a segurança dela, seu.amor.
— Onde a estão mantendo?
— Quer dizer que está pronto para falar?
— Acredite, se eu soubesse onde estão os malditos títulos, eu lhe diria.
— Deixe-me fazer isto, chefe. Posso fazê-lo falar. — Burt exibia um olhar
empolgado, um sorriso maldoso.
— Não somos pessoas violentas, sr. Steele. Pelo menos, não todos nós. — O
homem olhou rapidamente para os dois capangas. — Normalmente, abomino violência
física. Mas, claro, estas não são circunstâncias normais. Você e a srta. Michaels têm sido
verdadeiras pedras no meu sapato. Já é tempo de remover essas pedras do caminho. —
Jogou o resto do charuto no chão, apagando-o com a ponta do pé. — Burt, Wally, é a vez
de vocês de convencerem o sr. Steele a falar. — Deixou a sala, encaminhando-se ao
andar de cima.

Brenda estava estendida no chão da copa, ora inconsciente, ora despertando para
um estado confuso. Batera a cabeça numa prateleira quando os bandidos a empurraram
lá para dentro. Sim, lembrava-se disso agora. Abriu os olhos devagar, acostumando-se à
escuridão ali dentro. Tentou se mover e contraiu o rosto de dor. Seus pés continuavam
amarrados, as mãos também, para trás, as cordas tão apertadas que lhe cortavam a pele.
Perdeu a noção de quanto tempo teria ficado ali. Minutos? Horas?
Ao menos sua mente começava a clarear, a forte tontura ia cedendo. Victor parecia
ser a chave daquele mistério. Durante todo o tempo, seu emprego na firma de entregas
tinha sido o meio perfeito para ele controlar seus passos, até para planejar seu dia.
O que não fazia sentido era o afetado Victor Pernell como chefe de uma organização
criminosa de proporções como parecia ser aquela. Jamais teria imaginado que, em vez de
um simples prestador de serviços, o homem era, na verdade um bandido. E qual teria sido
a exata ligação dele com Richard?
Haveria mais alguém da firma envolvido naquele esquema sórdido? Jon? Aretha?
Não, não podia acreditar. Pelo menos, não sua amiga...
Fazendo um grande esforço, tentou erguer-se para uma posição sentada,
encostando-se em algumas prateleiras mais baixas. Precisava sair dali... Havia uma fraca
luminosidade no vão da porta. Se houvesse um meio de cortar as cordas, talvez pudesse
abri-la e escapar dali. Como a porta não tinha chave deviam-na ter bloqueado com
alguma coisa. Soltou um suspiro desanimado. Sequer havia como eliminar o primeiro
problema. A copa fora convertida numa despensa de mantimentos; que se lembrasse não
havia nenhum objeto cortante naquelas prateleiras.
Ouviu uma pequena comoção na sala de estar. Victor e os capangas deviam estar
revirando tudo outra vez. Subitamente, o que mais estivera temendo veio-lhe à mente,
despertando-a por completo.
Oh, era a voz de Trevor!
— Tente outra vez, seu paspalho. Tente quanto quiser. Não tenho nada a dizer.
Desde que a haviam apanhado, Brenda rezara para que Trevor não viesse até ali.
Esperara que seu bilhete o tivesse tranqüilizado e que não viesse procurá-la na casa. Não
fora difícil concluir que Victor e seus capangas estariam ansiosos a espera se fosse o
80
Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
caso.
E Trevor não sabia de nada. Céus, quanto tempo levaria para que aqueles bandidos
acreditassem nisso?
Não suportando ouvir o que lhe parecia nitidamente um espancamento, ela ergueu
os pés amarrados e começou a bater na porta, a gritar para distraí-los, para deixá-lo
saber que estava ali.
Lágrimas rolavam por seu rosto, cada músculo e nervo se rebelando para se libertar.
Lutou enfurecida com as cordas, mas era inútil.
Parando de gritar, baixou os pés, ofegante, e ficou atenta. Na casa agora pairava um
silêncio assustador. Não podia mais ouvir Trevor, nem os capangas. Numa onda de
pânico, suplicou aos céus para que ele estivesse vivo, que nada tivesse lhe acontecido.
Seguiu-se um murmúrio de vozes, depois um ruído abafado, acompanhado de
passos, como se o estivessem... arrastando. Oh, será que o haviam matado?, pensou,
desesperada.
A porta abriu-se subitamente, inundando o pequeno recinto com a luz da cozinha e
ofuscando-a por alguns momentos.
— Saia da frente, moça — grunhiu Burt. Pegou-a pelos pés, arrastando-a mais para
o fundo da copa, a fumaça do cigarro dele sufocando-a. — Você tem companhia.
No momento seguinte, Wally arrastava Trevor para a copa. Ela sentiu um aperto no
peito ao vê-lo. Os bandidos haviam lhe usado o rosto como um saco de pancada. Mas
estava vivo!
Num estado de semiconsciência, ele a viu, um brilho de alívio passando por seus
olhos azuis. Mas bastou vê-la e sucumbiu à dor, fechando os olhos.
Wally segurou-o, enquanto Burt apertava-lhe mais as cordas nas mãos atrás das
costas.
— Enfim, sós — falou um dos capangas e os dois soltaram risadas de escárnio.
Saíram, batendo a porta com força. Brenda ouviu-os colocando uma cadeira do outro
lado, de encontro à maçaneta para travá-la.
— Trevor? — Ela se virou começando a se arrastar pelo chão para tentar ajudá-lo a
colocar a cabeça em seu colo. Sentia-se responsável. O corpo dele estava machucado e
quebrado por sua causa. Desta vez sua impulsividade poderia lhe custar o único homem
que amara de verdade. — Pode me ouvir?
Ele gemeu e moveu a cabeça, sua voz soou fraca, entrecortada.
— Brenda? Não consigo ver. Está escuro aqui. Onde você está?
— Está tudo bem. Estou aqui a seu lado. — Ela rolou sobre o próprio corpo e gemeu
de dor ao encontrar o chão duro. As cordas torturavam sua pele.
— Eles machucaram você? Oh, eu mato aqueles desgraçados se encostaram em
você.
— Não. Só me amarraram e, depois de perderem a paciência me interrogando sem
resultado, me jogaram aqui dentro para "pensar mais um pouco". Mas isto é tudo culpa
minha. Eu não deveria ter vindo até aqui. Oh, sinto tanto por ter lhe arrumado esta
confusão...
— Não se preocupe. Vamos dar um jeito de sair daqui. Primeiro, tenho que
conseguir me sentar.
Cada movimento o fazia praguejar e soltar um grunhido. Brenda não queria imaginar
a dor que Trevor estaria sentindo. Vira-lhe a estranha posição do ombro e suspeitava que
haviam lhe quebrado o braço.
Quando ouviram vozes exaltas na cozinha, ficaram atentos. Wally e Burt estavam
gritando um com o outro.
— Quer largar essa bebida! — disse Burt, furioso. — Temos trabalho a fazer.
— Também vai querer me dar ordens, é? — Enquanto a discussão continuava na
cozinha, seguida de ruídos de panelas se chocando e portas de armário batendo, Trevor
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
pediu a Brenda que tentasse se sentar. Levou alguns minutos e muito esforço, mas,
enfim, conseguiram ficar sentados um de costas para o outro.
— Vou tentar desamarrar suas cordas.
— Mas o seu braço. Está quebrado...
— Esqueça o braço. Temos que sair daqui.
Mesmo naquela agonia física dele, Brenda sentia-lhe a força interior, a obstinação e
teve a própria esperança renovada. Oh, como amava aquele homem... Estaria pronta
para fazer o que fosse preciso para escaparem.
As cordas estavam muito apertadas, os nós firmes, e a cada movimento dos dedos
dele sentia a pele cortada ardendo. Cerrou os dentes e procurou afastar a dor. Ouvia a
respiração difícil de Trevor e sabia o quanto o esforço devia estar lhe custando. Se podia
continuar tentando com um braço quebrado e o corpo ferido, ela podia se distrair daquele
desconforto bem menor em seus pulsos.
— Isto vai demorar um pouco, mas não será impossível. — Ele falou num tom baixo
quando perceberam que o barulho cessara na cozinha. — Caso abram a porta, deite-se
de lado e disfarce. Fico surpreso que não tenham usado você para me obrigarem a falar.
Não que eu pudesse lhes dizer algo.
— Victor gosta de pensar que é um cavalheiro. Estaria se rebaixando ao nível de
Burt se os encorajasse a me usarem dessa forma.
— Victor?
— Sim, o chefe desses bandidos é Victor Pernell, meu ex-patrão na firma de
entregas expressas, o mesmo que queria me manter longe com serviços fora da cidade.
— Está brincando?
— Não. É o próprio. Eu mesma custei a acreditar quando deparei com ele na minha
sala, dando ordens àqueles capangas.
Brenda podia sentir-lhe os dedos continuando a trabalhar nas cordas. O barulho que
vinha agora do andar de cima dizia-lhe que os bandidos estavam destruindo sua casa,
como se fossem a passagem de um furacão. Podia ouvir a mobília sendo arrastada,
objetos pesados colidindo no assoalho.
Trevor fez uma pausa, parecendo exausto. Recostou a cabeça na dela.
— Esses nós devem estar apertados demais para que consiga soltá-los.
— Não, me dê só um minuto. Sinto tanto que você tenha sido envolvida nisto.
Aquilo não fazia sentido, pensou Brenda. Fora ela quem voltara à casa para procurar
os títulos. Do contrário, nenhum dos dois estaria naquela situação agora. A dor devia
estar sendo insuportável para ele.
— Está tudo bem. Sairemos daqui. — Ela gostaria de poder acreditar em suas
próprias palavras. As forças de Trevor se esvaíam, por mais que estivesse lutando para
resistir.
— O que quer que aconteça, saiba que eu nunca quis que nenhum mal acontecesse
a você.

Capítulo 17

— Vamos — disse Brenda, procurando reanimá-lo. — Estamos perdendo tempo, sr.


Steele.
Para seu alívio, Trevor pareceu se recobrar e seus dedos retomaram a tentativa de
desatar os nós das cordas.
— Continue falando comigo — pediu-lhe ele.
As palavras foram uma dolorosa demonstração de vulnerabilidade. Ela sentiu uma
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
terrível opressão no peito.
— Eu poderia até cantar. — Esforçou-se para soar calma, controlada, e cantou
baixinho uns poucos versos de uma canção popular.
Os dedos de Trevor tocaram um ponto dolorido em específico, e ela tornou a cerrar
os dentes.
— Me diga o que você quer. Diga qualquer coisa; apenas continue falando. O que
pretende fazer depois que o assunto dos títulos estiver resolvido?
O que ela queria? Trevor... Queria amá-lo e tê-lo a seu lado. Queria partilhar de sua
vida, dar-lhe filhos e construir um futuro que durasse para sempre. Mas isso nunca
aconteceria...
Mesmo que ambos tivessem alguma chance, a omissão dela estragara tudo. Traíra
a confiança dele por não lhe contar o pouco que soubera sobre os títulos.
Como Trevor poderia acreditar num futuro a seu lado? Uma vez que estivesse
satisfeito em desvendar o mistério sobre morte de Richard, desaparecia de sua vida, e
ficaria sozinha, tentando reunir os pedaços de seu coração.
Respirou fundo, soltando o ar devagar. Precisava dar-lhe alguma resposta. Os
objetivos que tivera para sua vida antes que ele conquistasse seu coração continuavam.
— Bem, a primeira coisa que vou fazer é encontrar outro emprego. Com o tempo,
pretendo trabalhar em algo que tenha a ver com finanças, administração; enfim, com o
que estou estudando. Mas antes de arranjar um emprego definitivo, quero terminar o meu
curso. Depois dos exames deste semestre, só me faltarão três matérias para terminar.
Devo iniciar a última etapa do curso ao final do verão. E também quero me programar
para a minha operação no joelho.
A pressão cedeu um pouco no seu pulso esquerdo, reavivando-lhe a esperança.
Um estrondo na cozinha sobressaltou-a. A voz de Victor soou irada, parecia no limite
de sua paciência.
— Chega de bebida! Encontrem os títulos e, então, poderemos comemorar.
— Já procuramos em todos os lugares, chefe. Não estão na casa. — Burt soava tão
frustrado quanto Victor.
— Então, procurem lá fora, no meio daquelas árvores, no galpão que há nos fundos!
— E se não encontrarmos os títulos? — disse Wally, numa voz um tanto pastosa.
— Ah, rapazes. Estou convencido de duas coisas. Primeira, se não for aqui na casa,
em algum lugar desta propriedade eles estão. A outra, os dois pombinhos ali dentro não
sabem mesmo onde.
— Não falei que Richard não teria contado a ninguém? — declarou Burt, com certo
triunfo na voz.
Trevor ficou imóvel, o ouvido atento à conversa do outro lado da porta.
— Sim, e graças a sua falta de tato, não podemos mais persuadi-lo a falar, não é?
— bradou Victor, exasperado.
— Richard não vai nos criar problemas nunca mais — respondeu Burt. — Era o que
você queria.
— Exato, seu incompetente. Mas você poderia ter deixado para liquidá-lo depois que
ele tivesse contado onde escondeu os títulos. Portanto, agora cabe a você encontrá-los,
com a ajuda de Wally, se não quiserem ficar em sérios apuros. Andem! Vão procurar lá
fora no velho galpão.
Trevor atacava as cordas numa espécie de fúria, ignorando os próprios gemidos por
entre os dentes cerrados. Brenda colaborava como podia, em idêntico furor, a raiva
dirigida a Victor e, especialmente a Burt, crescendo. Ela e Richard haviam tido suas
diferenças. Ele a ferira a nível emocional e, finalmente, físico; quer derrubá-la da escada
tenha sido ou não intencional não importava mais. Comparado com Victor e seus
capangas, ele não passara de um amador estúpido. A própria prepotência o arruinara.
Sua reação a surpreendia. Nunca pensara que sua revolta em relação a Richard se
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
dissiparia, que seria capaz de pôr uma pedra definitiva em cima do amargo passado. A
raiva fora passando mesmo sem se dar conta disso; ao menos boa parte dela. Afinal, não
estaria naquela situação desesperadora se não fosse por Richard.
Trevor esperou até que o som de passos se afastando cessasse para explodir:
— Desgraçados! Não acredito nisto. Enfim, descubro que foi esse maldito Burt que
matou Richard e não posso fazer nada a respeito. Droga de braço quebrado.
— E se eu tentasse desamarrar você?
— Não, os capangas colocaram cordas duplas em torno dos meus pulsos. As suas
serão menos difíceis de soltar. Vamos nos arrastar até perto da porta e continuarei
tentando. Se um deles a abrir, estaremos perdidos.
Os dois foram se arrastando com dificuldade até que conseguiram ficar na mesma
posição de antes diante da porta. A respiração de Trevor estava mais ofegante. Os
espasmos de dor continuavam como ondas que lhe contraíam o corpo, mas seus dedos
não esmoreciam na luta contra os nós nas cordas.
— Lamento o que houve com Richard — disse Brenda, com sinceridade.
— Eu também. Pelo menos sei que meu irmão não cometeu suicídio. O problema é
que agora tenho a prova irrefutável que ele era um grande vigarista, um membro de uma
organização criminosa e isso não é fácil de compreender.
Ouviram a porta da cozinha batendo com violência. A voz zangada de Burt soou
primeiro.
— Revirei o maldito galpão e não há nada lá, além de tranqueiras velhas. Achou
alguma coisa, Wally?
— Procurei no meio dos arvoredos e nada. A chuva já parou, mas está tudo
lamacento lá fora. O que quer que eu faça, vasculhe a propriedade como uma
escavadeira?
— Largue essa garrafa de uísque, droga! O chefe não vai gostar nada disso.
— Do quê? — disse Victor, seus passos pesados vindo claramente do corredor.
— Não achamos os títulos.
— Esquadrinharam cada canto?
— Sim. Quero dizer, esses bosques são imensos, a mata é fechada e...
— Esperem! Que barulho é esse?
— Está vindo da sala. Vou lá ver — disse Burt, correndo. Voltou segundos depois,
parecendo esbaforido. — Maldição! Wally, me ajude a encher umas vasilhas com água
aqui na pia.
— Mas que diabos está acontecendo? — bradou Victor. Brenda acompanhou a
conversa atentamente e não foi difícil concluir o que estaria errado.
— Trevor? — sussurrou-lhe, assustada.
— Ouça.
Os homens correram para lá e para cá diante da porta da copa. Depois de várias
viagens, ouviram-nos tossindo muito.
— Está fora de controle — anunciou Victor, a voz ofegante denotando frustração e
cansaço.
— Minha nossa! — exclamou Wally. — Nunca vi o fogo se alastrando dessa maneira
pelas cortinas.
— A culpa é toda sua — acusou Victor. — Eu vi você voltando lá de fora com um
dos malditos cigarros pendurados na boca. Aposto que o deixou cair na sala.
— Não teria sido um charu...
— Basta! Este lugar é um barril de pólvora prestes a explodir. Vamos sair daqui.
Burt, vá ligando o furgão lá nos fundos. Temos que dar o fora. Wally, pegue nossas
coisas.
— Mas e os títulos?
— Alguém da vizinhança vai acabar chamando os bombeiros. Precisamos ir embora.
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
Vamos ter que esperar uns dias até a poeira assentar. E, então, mandaremos derrubar
esta floresta ao redor se for necessário! Os títulos devem estar enterrados em algum lugar
lá fora.
— E quanto aos pombinhos presos ali dentro?
— Um incêndio aqui vem bem a calhar. A última coisa que precisamos é de
testemunhas. Não vão conseguir sair da copa. O fogo está se espalhando depressa
demais. Vamos dar o fora — ordenou Victor.
Brenda ouviu a porta dos fundos batendo, uma onda de pânico a invadi-la.
— Oh, não, Trevor. Depressa, a casa está pegando fogo.
— Eu ouvi. Fique calma. Suas cordas já estão afrouxando. Pelo menos, parece que
os canalhas já foram embora.
Trevor se concentrou em soltar mais um nó, lutando contra a dor, contra a onda de
náusea que o torturava. Sua cabeça girava, girava, mas o que quer que acontecesse,
Brenda teria que sair a salvo dali. Amava-a do fundo de sua alma e lutaria até o fim de
suas forças para tirá-la daquele inferno.
O tempo estava correndo, de várias maneiras. Uma vez que ela estivesse livre, o
caso seria desvendado rapidamente. Barney receberia seu recado e estaria ali logo. Com
os resultados das análises dos livros contábeis, combinados às anotações copiadas dos
arquivos de Rex e, enfim, ao desmascaramento de Victor Pernell e seus capangas, a
quadrilha que estava por trás da fraude dos títulos seria desbaratada. E, então, Brenda
saberia da verdade. Trevor não podia imaginar um futuro sem ela. Assim que descobrisse
que era um agente federal o rejeitaria e, portanto, ele não se importava com o que lhe
acontecesse agora.
Mas precisava contar-lhe tudo. Devia isso a si mesmo. Talvez depois de hoje, ela o
odiasse. Talvez nem sequer estivesse mais vivo para lutar a fim de não perdê-la. O
momento era o que importava. Esta era sua última chance.
— Você tem que me prometer que sairá por aquela porta, mesmo que eu não puder.
— Não saio daqui sem você. — A voz de Brenda estava trêmula. — Por favor.
Continue tentando. Nós dois vamos sair juntos. A corda no meu pulso esquerdo está
quase se soltando.
— Tem que me prometer. Preciso saber que pelo menos você vai conseguir.
— Por favor, não fale assim. Eu te amo tanto. Preferiria morrer a ter que deixá-lo
para trás.
Um novo tipo de dor percorreu Trevor, a dor de um amor sublime, verdadeiro, enfim
encontrado e perdido no momento seguinte. Apesar de se amarem, nada poderia evitar o
que estava para vir.
— Oh, doçura. Eu também amo você. Nem sei dizer o quanto.
Ela virou a cabeça de lado, a face banhada pelas lágrimas tocando a dele por alguns
momentos.
— Preciso lhe contar uma coisa, Trevor. Eu vim aqui por sua causa. — Fez uma
pausa, evidenciando sua relutância. — Vim para buscar os títulos.
— O que quer dizer? — O coração dele quase parou. Barney estivera certo desde o
início? Brenda fora cúmplice de Richard? Não... Não podia ser verdade.
— Amo você. Por favor, acredite que em meio a tudo que aconteceu, essa verdade
não pode mudar. Sei que isto parece não fazer sentido, mas tenho que tentar explicar. Eu
sabia que Richard havia roubado aqueles títulos. Eu os vi.
— Você os viu? Quando?
— Não é o que está pensando. Eu os vi por acaso. Richard me pediu que levasse
sua pasta de couro para casa.
— E quando foi isso? — Trevor conteve a respiração.
— No último dia em que o vi. Almoçamos juntos. Dirigi para casa sozinha porque ele
tinha um assunto qualquer a resolver. Eu estava procurando uma caneta. Abri a pasta
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
executiva dele para pegar uma emprestada e, então, deparei com os títulos. Não entendi
o que era aquilo a princípio, mas quando me dei conta, fiquei chocada.
Trevor respirou aliviado. Maldito Richard. Se Brenda tivesse sido apanhada
carregando aqueles títulos estaria presa agora.
— Eu acho que os títulos estão no porão, onde costumava ser a adega da minha
família. Eu havia me esquecido por completo do porão. Só há um acesso externo até lá. A
passagem que dava daqui da copa até lá foi fechada. Se Richard os escondeu nesta
casa, como tudo indica que sim, só podem estar no porão. Assim, eu vim para buscá-los e
contar a você o pouco que sabia.
— Na época, Richard admitiu que havia roubado os títulos?
— Nós discutimos quando ele voltou para casa e abri a pasta para lhe mostrar o que
eu havia descoberto. Ele tentou inventar uma desculpa qualquer, mas logo não resistiu e
começou a se vangloriar de como era esperto. Falou que era um esquema perfeito, uma
fraude infalível.
— Isso foi um ano e meio atrás, não foi? Vocês discutiram e foi assim que machucou
o joelho, quando o confrontou a respeito dos títulos? Richard empurrou você da escada?
O soluço dela foi a confirmação, e Trevor sentiu uma profunda revolta somando-se
ao turbilhão de emoções.
— Sim, mas eu sei que ele não teve essa intenção. Estava com raiva, transtornado.
Richard jamais havia levantado a mão para mim. Tem que acreditar nisso.
— Está tudo bem, querida — pediu ele, continuando a trabalhar nas cordas. —
Procure não pensar mais a respeito. Eu só gostaria que houvesse uma maneira de
compensá-la por todo esse sofrimento.
— Me perdoe por não ter contado o que sabia a você. Não falei nada a ninguém
porque não queria ser acusada de cúmplice. Mas assim que passou a me ajudar, eu
poderia ter contado a você. Fui egoísta. Achei que poderíamos encontrar os títulos sem
que eu falasse que os tinha visto com Richard. E tudo o que sei, juro. Depois que me
separei dele, nunca mais o vi. Aliás, eu nem fazia idéia da proporção da enrascada em
que ele se meteu. Pelo que entendi agora, parece que Richard quis aplicar um golpe nos
próprios comparsas, para ficar com os títulos sozinho.
— No fundo, ele era um amador, um ingênuo nesse submundo traiçoeiro do crime.
Agora procure se acalmar. Sei que você é inocente. E entendo bem seu receio em não ter
falado nada. Amo você; precisa acreditar nisso. — Trevor ansiava por libertá-la è contar a
verdade antes de perder a consciência. Era um agente federal e agira como um tolo. —
Mas você não é a única que cometeu um erro em ter vindo até aqui. Vim correndo até a
varanda da casa sem parar para pensar. Eu deveria ter agido de outra forma, com mais
calma.
— Não. Nem sequer pense que isto é culpa sua.
— Era lógico que esses bandidos estivessem atocaiados aqui.
— Ora, não é como se você fizesse esse tipo de coisa todos os dias. — O odor da
fumaça misturava-se ao ar e as primeiras espirais ameaçadoras começavam a entrar pelo
vão da porta. — Oh, não, o fogo deve estar se alastrando pelo corredor. Só mais um
pouco e acho que conseguirei soltar minha mão.
A cabeça de Trevor rodopiava; fazia um esforço sobre-humano para manter-se
consciente, para obrigar os dedos a continuarem lutando com a corda. A fala tornara-se
difícil; ainda assim, tinha que contar...
— Não desista, Brenda. Lute para sair. A ajuda está a caminho.
— Se Moose não chegar logo aqui, será tarde demais.
— Não Moose. Um amigo meu. Barney.
— O que fez a análise dos livros contábeis?
— Ele é um amigo meu. Trará bastante ajuda. — Não podia deixá-la descobrir de
outro jeito, pensava Trevor, com os resquícios de coerência na mente. Tinha que contar,
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
precisava da chance para explicar... — Ele é um agente do governo.
— Você tem um amigo que é um agente federal? — perguntou ela, num súbito tom
tenso.
— Sim. Trabalhamos juntos, anos atrás.
— Mas não agora?
Nada do que ele fizera em sua vida inteira fora tão difícil quanto contar-lhe que era
um agente. O silêncio tornou-se mais sufocante que a fumaça que entrava pelo vão da
porta.
— Sim, agora. Eu sou um agente federal. — Trevor mal podia falar. A garganta
ardia. Tossiu, resistindo aos espasmos de dor que torturavam seu corpo. Precisava fazê-
la compreender. Deu um último puxão nas cordas. Brenda estava livre.

Capítulo 18

— Você é um agente federal? — Um violento tremor percorreu Brenda. Afastou-se


de Trevor de imediato, arrastando-se pelo chão até o fundo da copa. — E eu sou a última
missão que está concluindo antes de prosseguir com a C & C. Oh, como pôde? Todas
essas mentiras... — Tossiu por causa da fumaça que continuava avançando por debaixo
da porta, mas ela mal notava agora.
Trevor também tossiu, a voz saindo-lhe com dificuldade.
— Não foram mentiras. Eu amo você. Não planejava me apaixonar. Queria descobrir
sobre Richard...
— Mentiras, sim! Sabe de uma coisa, Trevor Steele? Você é exatamente como seu
irmão!
Ouviu-o soltando uma exclamação abafada do lado oposto. Esperou que ele
negasse, que se defendesse do que acabara de acusá-lo, que dissesse que era um
comentário cruel, mas seguiu-se apenas um pesado silêncio.
Ansiando por algum alívio do ar sufocante, Brenda foi se arrastando até um canto e
bateu o ombro em uma prateleira. Gritou de dor. A fumaça impregnava tudo. Lágrimas
rolavam por suas faces. Seu estômago estava em nós. Como pudera ser tão tola duas
vezes?
— Saia daqui, Brenda. — Ele falou devagar, num tom muito baixo. — Salve-se.
Os olhos dela ardiam. A cada vez que respirava, inundava seus pulmões com o ar
impuro. Observou a linha anuviada de luz, a fumaça espessa entrando por debaixo da
porta. Havia muito mais agora...
Não podiam perder tempo. Rapidamente, desamarrou a corda menos apertada em
seus pés, massageou os tornozelos doloridos e pôs-sé de pé tão logo sentiu a circulação
voltando ao normal.
Ouviu Trevor deslizando de sua posição sentada até o chão. Chamou-o, aflita, mas
não obteve resposta. Parecia inconsciente. Foi tateando pelas prateleiras até a porta.
Agachou-se e sacudiu-o, mas ainda assim, não conseguiu despertá-lo. Ele tinha o rosto
voltado diretamente para a passagem da fumaça. Virou-lhe a cabeça para o outro lado.
Se conseguissem sair, teria que ser agora. A fumaça espessa ia abrindo passagem
implacavelmente sob a porta.
Ela despiu a camiseta, ficando de sutiã, e enrolou-a na mão para testar a maçaneta.
Estava emperrada, a porta recusava-se a abrir... A cadeira! Havia se esquecido da
maldita cadeira que a estava prendendo.
Podia ouvir as chamas crepitando não muito longe. A fumaça sufocava-lhe a
garganta. Desesperadamente, tentou se lembrar do que havia na copa, o que podia
colocar pelo vão abaixo da porta.
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
Esforçando-se para não entrar em pânico, foi tateando pelas prateleiras outra vez.
Enfim, encontrou um espeto longo de metal para churrasqueira que talvez ajudasse.
Voltou o mais depressa que pôde para a porta. Trevor não se movera, nem emitira um
som sequer.
Colocou o espeto por debaixo da porta, enquanto a fumaça atingia seu rosto e a
fazia tossir muito. Segurou a camiseta de encontro ao nariz e a boca, enquanto movia o
espeto pelo vão às cegas. Quando bateu num obstáculo, colocou toda a sua força no
espeto para tentar acertá-lo em cheio. Tentou num ângulo diferente. Finalmente, a cadeira
caiu para trás, batendo no chão.
Usou a camiseta para abrir a porta e, logo em seguida para se proteger, ao deparar
com a cortina de fumaça do outro lado. Agachou-se, já que rente ao chão a fumaça era
menos densa, mas mal podia distinguir a mesa no meio da grande cozinha. Não
importava. Conseguiria puxar Trevor até a porta dos fundos.
Com a claridade na cozinha refletindo-se por entre a fumaça, pôde, enfim, ver-lhe o
rosto. Sentiu um aperto no peito. Estava mais machucado do que presumira e
apresentava um tom acinzentado que a assustou.
Verificou-lhe as cordas. Não conseguiria desatá-las facilmente. E não havia tempo a
perder.
Amarrou a camiseta abaixo de seus próprios olhos, protegendo o nariz e a boca.
Sentou-se no chão, segurou Trevor por debaixo dos braços e começou a arrastá-lo pela
cozinha no que ameaçava ser uma longa jornada. Ele era pesado, estava inconsciente,
muito mais difícil de mover do que pensara.
Os pulsos doíam, os músculos dos braços ressentiam-se do tremendo esforço. Mal
conseguia manter os olhos abertos por causa da fumaça. Apoiava os pés nos armários
quando possível e usava-os para impulsionar-se.
Centímetro por centímetro, foi arrastando-o pelo piso cerâmico, insultando-o em
pensamento durante todo o tempo, mentiroso, mentiroso, a raiva alimentando-lhe as
forças.
Trevor gemeu e tossiu. Pelo menos estava respirando. Estava vivo! Cada
movimento sacudia-lhe o braço quebrado de encontro ao piso. Brenda fez um agrade-
cimento silencioso por ele estar inconsciente, ou a dor seria torturante. Mas o sofrimento
estava quase acabando. E ela poderia chorar depois. Era provável que choraria para
sempre...
O fogo se alastrava e crepitava na casa. A fumaça negra vinha da sala de estar.
Labaredas lambiam o batente da porta que dava para o corredor. A sensação de
sufocamento em sua garganta era tamanha que foi acometida por um acesso de tosse. E
tossiu tanto que queria parar de se mover.
Mas não podia. Estava quase chegando à porta dos fundos agora. Bastava se
arrastar só mais um pouco com Trevor, só mais um pouco...
A porta estava fechada. Por um momento, a simples barreira pareceu intransponível.
Não conseguia pensar com clareza. A fumaça começava a atordoá-la. O pânico e a fadiga
tentavam vencê-la.
— Não! — A palavra saiu estrangulada de sua garganta, irreconhecível. Soltou
Trevor com relutância e tirou a camiseta do rosto para segurar a maçaneta. Bastava girá-
la! Era simples. Tinha que abrir a porta. Ar... Os dois precisavam de ar puro.
Enfim, abriu-a. Uma maravilhosa lufada de ar fresco e úmido banhou-lhe a face. Mal
podia parar de tossir, a garganta ardia demais.
Odiando a sensibilidade no joelho que a impedia de gatinhar, agachou-se
desajeitadamente e, com um tremendo esforço, arrastou Trevor pela porta até a varanda.
Foi obrigada a puxá-lo pelos degraus, onde os pés iam batendo com força, até o chão
lamacento. Mas não podia parar. Precisava afastá-lo para o mais longe possível da casa
em chamas.
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
O ar fresco e puro ajudava. A chuva cessara, mas a umidade esfriava-lhe a pele
febril. Trevor agora tossia muito. Ainda assim, continuou a arrastá-lo, pelo terreno dos
fundos, através da relva molhada, passando por trechos de lama. Só parou quando
chegou ao início dos arvoredos, ao achar que estavam longe o bastante da fumaça e da
casa incendiada. Desabou no chão e permitiu-se tossir o quanto foi necessário.
Ao seu lado, Trevor mexeu-se. Reunindo suas forças, ela começou a desatar as
cordas que o prendiam. As lágrimas rolavam copiosamente por suas faces. Amava esse
homem... mas jamais poderia confiar nele novamente. A perda era angustiante.
Três pessoas cercaram um canto da casa, figuras vagas em meio à fumaça. Os
olhos dela ardiam e estavam anuviados pelas lágrimas. Via apenas imagens distorcidas
vindo em sua direção.
Um novo medo assaltou-a. Será que todo aquele esforço tinha sido em vão? Ela e
Trevor morreriam mesmo? Os bandidos teriam voltado?
Pensou em escondê-lo do raio de visão daquelas pessoas e percebeu que seria
impossível. Beijou-lhe o rosto adorado, as pálpebras, os lábios e afagou-lhe os cabelos,
afastando-os de sua fronte. Ele não tossia mais. Não se movera, nem gemera por um
intervalo tão longo que Brenda começou a recear o pior. A respiração es tava curta.
Encostou a face na dele e sussurrou:
— Eu te amo, Trevor.
Um paletó foi colocado em torno de seus ombros. Pronta para lutar com seus
resquícios de forças, ela virou-se abruptamente, erguendo os braços para deter seu
suposto agressor. Mas em vez de Victor, deparou com límpidos olhos azuis num rosto
gentil.
— Vamos cuidar bem dele. Não se preocupe. — O homem ajudou-a a levantar-se e
conduziu-a para o lado, com um braço em torno de suas costas.
Os outros dois homens se aproximaram mais. Eram os srs. Crowley e Jamison, que
pararam à frente de ambos. Brenda soltou-se do braço protetor, a mente, enfim,
clareando.
— Você é Barney — disse ao homem de olhos azuis e barba grisalha.
— E você é Brenda Michaels.
— Sim.
— A ambulância está para chegar a qualquer momento. Vamos levar vocês dois ao
hospital.
— Não preciso de hospital. Mas o braço de Trevor está quebrado. Passou uns maus
bocados. — As palavras dela soaram embargadas. Respirou fundo e desviou o olhar pelo
terreno. A casa estava totalmente tomada pelas chamas agora. Deu-se conta que o joelho
latejava e sentou-se no chão. Logo ao lado, os homens tentavam reanimar Trevor.
— Por que não espera no meu carro? — sugeriu Barney. Estendeu-lhe a mão para
ajudá-la a levantar-se, mas Brenda recusou.
— Vou esperar aqui.
— Você o tirou de lá de dentro, não foi?
— Tirei.
— Como conseguiu?
Brenda levantou os olhos marejados para Barney, mas não respondeu. Não sabia
ao certo como conseguira reunir forças para tirá-lo de lá. Mas tinha certeza que jamais
teria deixado Trevor para trás.
Cobriu-se melhor com o paletó e encolheu os braços sobre o peito. A dor em seu
corpo passaria, mas o vazio em seu íntimo duraria para sempre. O profundo desespero
que a invadia só poderia ser dissipado com o amor de Trevor; um amor que jamais teria
como aceitar. A exemplo do irmão Richard, ele também a traíra. Conscientemente, ela
não cometeria o mesmo erro duas vezes.
— Precisaremos de um depoimento.
89
Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
A voz de Barney sobressaltou-a, mas Brenda apenas assentiu, sabendo que seu
testemunho seria necessário.
— Quando você estiver melhor, claro. Ao menos deixe-me levá-la ao pronto-socorro
para verificarem sua garganta.
E, então, ela se lembrou de como tudo aquilo começara.
— É possível que os títulos estejam escondidos no porão.
A ambulância chegou, seguida pelos bombeiros. Ela observou enquanto os
paramédicos atendiam Trevor e o colocavam na maça. Quando ergueram o polegar para
Barney, fazendo um sinal que estava tudo bem, o alívio foi generalizado.
Barney aproximou-se da maca, enquanto era erguida até a ambulância. Trevor
tentou levantar a cabeça e, então, lutou contra os cintos que o prendiam. Agitado, virou os
olhos entreabertos na direção da casa em chamas.
— Tenha calma — disse-lhe Barney.
— Onde está Brenda? Oh, não, a casa está...
— Ela está bem — interrompeu-o o chefe e apontou para Brenda. — Ali adiante.
No momento em que Trevor lhe lançou um olhar, ela desviou o rosto. Sentindo-se
totalmente derrotado, ele tornou a deitar a cabeça na maca.
— Eu meti os pés pelas mãos desta vez, Barney.
Os bombeiros enfrentaram o fogo com suas mangueiras. A parede lateral desabou
e, com ela, também o único lar que Brenda já tivera.
Estava surpresa diante da própria calma ao observar o fogo consumindo seu
passado. A casa continha tantas lembranças antigas. Seus pais, sua irmã, bons tempos,
doces lembranças que o fogo jamais conseguiria eliminar.
Mas o que a casa lhe reservara depois dessa época? Tia Maude. Richard. E agora,
a traição de Trevor...
— Deixem que queime — disse, amarga. Aquele angustiante vazio a consumia por
dentro. O fogo estava destruindo sua casa. Trevor destruíra o amor de ambos. Nunca se
sentira tão sem esperança, tão derrotada. Tão sozinha.

Não havia nenhuma paz naquele hospital. Parecia ter se passado uma eternidade
desde o incêndio, desde que Brenda fora parte de sua vida, desde que o futuro contivera
mais promessa do que Trevor jamais sonhara ser possível. Seu corpo estava sarando.
Quanto ao restante de seu ser, já era uma outra história...
A porta se abriu e Barney entrou. O sorriso em seu rosto pareceu-lhe absurdo.
— Vejo que está com sua expressão amigável de sempre — disse-lhe o chefe,
irônico. Sentou-se na cadeira ao lado da cama. — Como você está?
— Ótimo, fantástico. Como acha que estou? Não consigo dormir. Esses idiotas me
acordam durante a noite inteira para perguntar se preciso de uma pílula para dormir.
— Sim, sr. Steele, vejo que está em perfeita forma.
— Não vejo meu médico há dois dias.
— Bem, acha que está preparado para ouvir umas boas novas?
— Tente.
— Nossos homens têm andado muito ocupados. Pegamos todos, Trevor. Victor
Pernell, os capangas e até mesmo o chefão da quadrilha, em Nova York. Graças às suas
investigações, a organização foi desbaratada e o caso encerrado. Até encontraram Rex
Alcorn. Estava sendo mantido preso num armazém.
— A esposa de Rex foi muito gentil. Não teríamos chegado tão longe sem a
colaboração dela.
— Eu a conheci. A mulher mal cabia em si de alegria por encontrar o marido a salvo.
— O que vai acontecer a ele? Não pode fazer nada para ajudá-lo? — Trevor sabia
que Rex fora, no fundo, uma vítima inocente em tudo aquilo.
— Estou fazendo tudo que posso. Ele e Richard Tapp faziam parte dessa
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
organização, mas Rex simplesmente não sabia disso. Nos ajudou muito. Acho que o juiz
vai ter clemência.
Barney levantou-se, encaminhando-se até a janela. O sol começava a se pôr,
deixando rastros alaranjados no céu.
— Tem uma vista agradável daqui, pelo menos. — Virou-se da janela em seguida.
— Você devia ter me dito logo de início que Richard era seu irmão.
Trevor nunca corava, mas nesse momento sentiu o rosto queimando. Mexeu-se um
tanto acabrunhado na cama.
Quando fora trazido ao hospital, Barney aguardara do lado de fora da sala de
emergência, enquanto os médicos o atendiam. Os cuidados com o braço quebrado
haviam demorado, mas ele esperara. E quando o removeram para o quarto, o velho
amigo acompanhara tudo de perto para se certificar que estavam cuidando bem dele.
Entorpecido com os medicamentos, Trevor deixara escapar o assunto de seu parentesco
com Richard no minuto em que haviam ficado a sós.
— Bem, eu... — O que mais ele podia dizer? Sentia-se como uma criança apanhada
em flagrante numa travessura... com uma indisfarçável culpa. Barney sempre lhe exercera
aquele poder. Talvez fosse assim que filhos se sentiam com seus pais.
Afastou o olhar, mais uma vez lamentando ter enganado o velho amigo, mas
convencido de que não tivera outra escolha.
— Você jamais teria me colocado no caso se soubesse.
— É verdade.
— E se sabe disso, então também deve saber do resto. Eu deveria me encontrar
com Richard pela primeira vez no dia em que ele morreu.
— Isso eu não sabia. — Barney tornou a sentar-se e ficou passando a mão pela
barba grisalha.
— Eu tinha que saber o que aconteceu com ele, oras.
— Espero que não tenha encontrado mais coisas do que procurou.
— Não foi suicídio. Saber disso ajuda.
Barney ergueu no ar o diário de Richard, que havia encontrado junto com os títulos e
que também ajudara a fechar o caso. Como Brenda pensara, eles tinham sido escondidos
no porão. Após examiná-lo, Barney entregara o diário para que Trevor o lesse e este o
devolvera em seguida.
O chefe colocou-o na mesinha ao lado da cama.
— Embora seu irmão tenha deixado isto com os títulos, provavelmente deve ter
desejado que você ficasse com ele.
— Sabe-se lá... Quero dizer, ele bem que poderia ter feito sua tentativa de me
conhecer antes, quando a mãe adotiva lhe escreveu aquela carta. Dois anos é um bocado
de tempo, não?
— Você não tem que gostar dele. Gêmeo ou não gêmeo, Richard era o que era.
Sim, Trevor sabia disso. Desde o momento em que descobrira que tinha um irmão,
passara a amá-lo instantaneamente. Mas os eventos seguiram-se tão depressa, os vários
sentimentos conflitantes em relação a Richard haviam se alternado de forma tão rápida
que, mesmo agora, Trevor sentia a perda de algo inatingível, algo que nunca vivenciaria.
Queria ter orgulho do irmão recém-descoberto, mas não tinha. Sentia-se traído pela
pessoa que Richard se tornara, e isso era difícil de aceitar. Nem sequer sabia se algum
dia seria capaz de perdoá-lo por ter machucado e magoado Brenda. Seu amigo estava
com a razão, no entanto. Tinha que aceitar o passado. Devia se conformar com o fato de
ter tido um irmão que jamais conhecera e sentir-se grato por, pelo menos, ter sabido de
sua existência.
Barney estudava-o com um olhar atento.
— E você nunca mencionou a Collins & Companhia. Descobri isso por acaso
quando conheci seu administrador ontem, no corredor do hospital. Qual é mesmo o
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
nome... Moose?
— Achei que Ned pudesse ter contado a você que havia deixado o lugar de herança
para mim. Droga, Barney, eu não fazia a mínima idéia de que ele planejava fazer isso.
Acho que Ned me conhecia melhor do que eu mesmo.
Os olhos azuis de Barney se iluminaram. Um sorriso satisfeito espalhou-se por seu
rosto, mas não disse nada.
— Chegou a hora. Encaminhe meu pedido de desligamento amanhã.
— Tem certeza?
— Absoluta. — Trevor sabia que sentiria falta de seu trabalho, de viajar, de algumas
pessoas, da agitação. Mas também sabia que estava preparado para canalizar toda a sua
energia para a Collins & Companhia. Com sorte, ficaria tão abarrotado de trabalho que
talvez conseguisse parar de pensar em Brenda. Talvez...
As últimas palavras que ela lhe dissera continuavam a lhe oprimir o peito.
Talvez fosse parecido demais com Richard para torná-la feliz. Brenda estivera com a
razão. Ele a enganara. Só podia esperar que, com o tempo, a dor dela se amenizasse.
Acabaria por perdoá-lo. Tinha que acreditar nisso.
— Sabe, recebi um pedido de uma pessoa amiga sua, alguns dias atrás.
— E de quem foi? — As visitas de Barney sempre tornavam os dias mais fáceis de
suportar naquele hospital. Ele, Moose e Annlyn vinham sendo seus únicos visitantes.
A pessoa que ele precisava ver, que não saía de seus pensamentos, não aparecera,
porém. Telefonara-lhe pela manhã e à noite, para a casa de Aretha, onde Brenda estava
hospedada, mas não atendera nenhuma de suas ligações. Ela chegara a lhe enviar um
cheque para reembolsá-lo pelo alarme e devolver o dinheiro que ele havia lhe depositado
na conta.
— Brenda Michaels quer vasculhar as cinzas da casa. Acha que talvez possa
encontrar algum objeto de família entre as ruínas.
A reação em Trevor foi instantânea. A simples menção daquele nome deixava-o com
um aperto no peito, evocava-lhe imagens vividas de tudo que compartilhara com ela...
tudo que perdera.
— Então... ela está realmente bem?
— Tão bem quanto se poderia esperar nessas circunstâncias todas, creio eu.
— E o que isso quer dizer, afinal?
— Que ela perdeu tudo, mas que está tentando tocar a vida adiante. Bem, quanto ao
pedido, eu lhe disse que o acesso à área ainda está restrito.
— Você o quê? Não pode fazer isso. O caso já está encerrado agora. A vida inteira
dela estava naquela casa.
— Claro, se Brenda tivesse alguém oficial para acompanhá-la durante essa ida à
casa, não haveria problemas... Mas ninguém se ofereceu como voluntário a ir até lá,
sabe.
Trevor dirigiu um olhar severo ao amigo e, então, riu até que as costelas doessem.
— Ei, você está me arranjando um encontro! Está mesmo sentado aqui no meu
quarto de hospital usando o truque mais velho do mundo. Para cima de mim!
— Está dando certo?
— Não tenha dúvidas que sim. Apenas me tire daqui, Barney.
— Isso já está sendo providenciado. O médico dará alta a você amanhã de manhã.
— Por que não me disse logo?
— Você vai ao encontro da srta. Michaels às duas da tarde.
— Brenda sabe que serei eu? Concordou em me ver? — Barney sacudiu a cabeça,
e a nova esperança em Trevor se apagou. O único tênue fio que continuava aceso era o
fato de que, em menos de vinte e quatro horas, tornaria a vê-la.

Brenda chegou à sua propriedade antes do meio-dia, os sábios conselhos da leal


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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
amiga Aretha martelando em sua cabeça. Já era tempo de tomar algumas decisões.
Tinha que ver por si mesma se havia algo que se salvara do fogo. Também precisava
decidir se venderia o lugar.
Sem hesitar, removeu a fita laranja atravessada no início do caminho de cascalho,
restringindo o acesso à sua casa. Após a captura de Victor, Barney levara alguns dias
para vencer os trâmites burocráticos para que sua visita fosse aprovada. Não importando
o que ele tivesse dito, aquela era sua propriedade, o prejuízo fora seu, e precisava de
algumas horas sozinha. O tal acompanhante oficial ainda chegaria com tempo o bastante
para supervisionar sua busca pelas ruínas, se achavam mesmo que era necessário.
Brenda parou o carro no meio da clareira, contraindo o semblante perante a
destruição à sua frente. A perda fora total. Duas paredes haviam ficado de pé; o restante
era um amontoado de entulho e cinzas. Um cenário pior do que imaginara.
Tinha emoções ambíguas em relação àquele lugar. Muitos anos atrás, fora feliz ali,
numa casa repleta de riso. Fora cercada de amor enquanto criança e, em sua inocência,
achara que seria assim para sempre.
Por um breve período, Trevor ressuscitara o riso, a segurança, os sentimentos bons.
O amor daquele homem a transformara numa nova pessoa. Ele a tirara da redoma sem
que nenhum dos dois se desse conta disso.
Não! Não queria ficar pensando tanto em Trevor. Sua imagem a perseguia a todo
instante. O coração dela ansiava pelo que não podia acontecer e o sofrimento só
aumentava.
Desviou o olhar das ruínas deprimentes e desceu do carro, pegando o par de luvas
de jardinagem que comprara no caminho. Seu joelho estava sensível por causa da
recente cirurgia, e mancou ligeiramente enquanto se afastava do que sobrara casa.
A cada dia, seu joelho melhorava e a lembrança visível de Richard se apagava, o
passado entrava na perspectiva certa e um íntimo entendimento florescia como o
amanhecer de um novo dia. Ela perdoara Richard, realmente. O fogo que destruíra sua
casa agira como uma catarse que encerrara essa parte de seu passado. Parecia justo
que o dinheiro da recompensa por encontrar os títulos que ele havia roubado houvesse
pago a cirurgia em seu joelho.
Podia avistar o rio por entre as árvores, e o cenário maravilhou seus olhos, como de
costume. Adorava esse lugar, com seus vários tons de verde, a passagem ocasional de
um cervo, o canto dos pássaros, o murmurinho das águas. Não sabia se teria coragem de
vender seu vasto terreno. A casa se fora, mas a propriedade ao redor sempre preservaria
seu fascínio.
Meteu as luvas no bolso e deteve-se junto ao arvoredo, que ladeara uma parte da
casa, contemplando o rio, a serenidade ao redor.
Era bom estar livre de Richard. Ainda assim, continuava sentindo-se numa espécie
de letargia, desanimada, adiando ao máximo a cada manhã o momento de se levantar da
cama. A traição de Trevor a atormentava, e sua própria cegueira a fazia sentir-se pior.
Como pudera confiar tanto? Quem mais acreditaria que o Príncipe Encantado viria
galopando em seu socorro quando precisasse dele? Quem mais seria tola o bastante
para se apaixonar desse jeito?
Logo estaria saindo da casa de Aretha, e a plena independência seria sua. Talvez
isso fizesse alguma diferença em seu estado de espírito. Considerara-se livre e
independente depois que Richard desaparecera. Ainda assim, olhando para trás,
compreendia que havia restringido sua nova liberdade à escolha de umas poucas metas.
O resto de sua vida continuara estagnado.
Tinha uma idéia mais ampla de independência agora. Cada aspecto de sua vida
estava aberto a escolhas. Podia até optar por perdoar Trevor...
E não podia ignorar o outro lado da questão. Sua própria responsabilidade em tudo
aquilo. Esse fato atormentava sua consciência e a forçava a admitir o que não queria
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ouvir. Se não tivesse ficado tão paranóica em relação a agentes federais controlando sua
vida, Trevor poderia ter lhe contado a verdade, a partir do momento que passara a confiar
nela.
E como era irônico... Um agente federal controlara sua vida. Cativara seu coração.
Por mais que se esforçasse para tirá-lo de seus pensamentos, não conseguia. Ela o
amava, de corpo e alma, e talvez o mais sensato fosse enfrentar o fato. Não adiantava
tentar se enganar.
Ouviu um carro se aproximando e olhou de relance por sobre o ombro, avistando o
veículo oficial do governo que Barney enviara. Ela virou-se, encaminhando-se até as
ruínas, querendo mais alguns momentos a sós para vislumbrar os fragmentos de
lembranças entre as cinzas e enterrá-los em seu coração.
— Olá, Brenda.

Capítulo 19

O som da voz possante atingiu Brenda como um choque. Sentiu um nó instantâneo


na garganta. Virou-se devagar, ganhando algum tempo para readquirir a compostura.
Trevor parará logo atrás dela, os olhos azuis intensos e perscrutadores.
— Por que veio até aqui?
— É bom ver você.
A voz dele estava forte, estável, seu timbre era como música para os ouvidos, mas
estava com uma aparência um tanto abatida. Sinais amarelados de hematomas que ainda
saravam cobriam-lhe um lado do rosto. O braço descansava numa tipóia. Usava um jeans
desbotado e uma camiseta cinza. Aproximou-se mancando.
— O que está fazendo aqui? — insistiu ela, dando um passo atrás. Então, lembrou-
se. — Oh, sim, ainda bancando o esperto agente do governo. — Viu a mágoa passando
rapidamente pelo rosto dele. Parecia tenso. O brilho pareceu desaparecer de seus olhos
azuis.
— Isto não foi idéia minha.
— Certo. — Brenda colocou suas luvas de jardinagem. — Vamos terminar logo com
isto.
— Por favor. — Ele tocou-lhe o braço, detendo-a. — Devo minha vida a você. Deixe-
me ao menos lhe dizer obrigado.
Ela sentiu um aperto no peito. Todo o pesadelo com Victor passou num lampejo por
sua mente. Estava à beira das lágrimas e odiava a si mesma por ser tão fraca. Virou-se e
continuou caminhando.
Os dois foram andando devagar em torno do perímetro das cinzas, em absoluto
silêncio, ele ainda tenso, ela controlando a respiração para tentar conter as emo ções.
Quando parou e se inclinou para começar a procurar por entre as cinzas, Trevor a ajudou
na busca. Era óbvio que cada movimento causava-lhe dor, embora se esforçasse para
não demonstrar.
— Não precisa me ajudar. Você é apenas a presença oficial, autorizada do governo.
— Brenda detestou o sarcasmo na própria voz. Aquele não era seu feitio. — Além do
mais — acrescentou mais amena, — vai acabar se sujando.
— Acho que já sabe que pegaram Victor Pernell e todo seu bando. — Usando o
braço livre, ele continuou vasculhando as cinzas ao lado dela. — O livro contábil P? Esse
era algum primo distante de Victor em Nova York. A criminalidade parece ser uma traço
da família Pernell. De qualquer modo, a organização foi desbaratada.
— Você deveria ter aceito metade da recompensa. Você a mereceu.
— O fato dos títulos terem sido devolvidos em nome de Richard já foi o bastante
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
para mim.
Brenda assentiu e lhe lançou um rápido olhar pelo canto do olho. Por que Trevor
fizera questão de vir até ali, afinal? Ele lhe dissera que a amava, ainda assim a havia
enganado de uma maneira quase tão dolorosa quanto Richard. Aprendera a ignorar as
poucas semelhanças físicas entre os dois irmãos, a diferenciar o que havia de tão
especial e profundo nos olhos de um que faltara nos do outro.
Até o fim de seus dias, acreditaria que Trevor a amara do fundo de seu coração nos
momentos em que tinham feito amor. Sentira essa verdade em cada toque, em cada
palavra sussurrada. Vira o amor em seus olhos, em sua expressão transparente. Ele não
poderia ter lhe mentido durante o tempo todo.
— Aretha contou a você que Barney está querendo que Jon vá trabalhar com ele?
— Não.
— Mesmo sendo inocente, ele fez questão de colaborar no caso. Conseguiu abrir o
cofre de Victor e tirar cópias dos registros de suas ligações telefônicas. Essas
informações confirmaram o envolvimento de Victor com a facção de Nova York. Jon
conseguiu agir como um profissional.
Trevor parou de repente de mexer nas cinzas e endireitou os ombros doloridos.
Recuou um pouco, massageando as costelas. Era evidente que estava esperando que ela
também parasse e se virasse para fitá-lo. Brenda começava a ceder em sua
determinação de fingir indiferença, mas não parou.
— Sinto muito por não ter sido sincero com você logo de início — declarou ele, de
repente. — Eu precisava descobrir sobre Richard. Se eu dissesse que era agente federal,
você nem sequer teria conversado comigo.
Ela ficou imóvel por alguns momentos, os músculos tensos.
— Tem toda a razão quanto a isso.
— Se faz alguma diferença, Barney não sabia que Richard era meu irmão e... —
Trevor parou de falar de repente, seu tom de voz hesitante.
Brenda levantou-se, decidindo que ao menos lhe devia um pouco de atenção, já que
ele tivera o trabalho de vir até ali. Quando ergueu os olhos para fitá-lo, deparou com uma
expressão torturada naquele rosto másculo. Sentiu um fio de esperança raiando em seu
íntimo. Será que ele estaria mesmo sofrendo com aquela situação de ambos? Ou a
ansiedade a fazia ver coisas que não estavam lá? Se ao menos pudesse lhe dar todo o
amor que trazia em seu coração... Mais uma vez, ela examinou seus sentimentos, a
procura da raiva pela traição de Trevor. Mas, de repente, constatava que não estava mais
zangada. A raiva desaparecera entre as cinzas de sua casa.
— Brenda?
Ele estendeu a mão e tocou-lhe a face. Ela não se moveu. Argumentou consigo
mesma que apenas queria sentir aquele toque mais uma vez. Mas sabia que queria muito
mais e, na medida em que aqueles dedos deixavam uma trilha de fogo por sua face, seu
queixo, seus lábios, percebia que suas próprias barreiras estavam ruindo. Precisava
recobrar-se depressa.
Ela desviou o rosto abruptamente e tornou a agachar-se junto aos escombros da
casa, continuando sua busca. A destruição ao redor não a afetava nem a me tade do que
a devastadora batalha em seu íntimo.
Amava Trevor com uma intensidade que chegava a assustá-la. Queria sentir seus
braços fortes a envolvê-la e a paixão cintilando naqueles incríveis olhos azuis. Mas não
conseguia perdoá-lo, certo? Sua mente e seu corpo estavam totalmente fora de sintonia.
O fato era que ele não precisava ter aparecido na sua vida para fazê-la se apaixonar!
Quase sorriu consigo mesma quando esse pensamento tolo lhe ocorreu. Fazê-la
apaixonar-se? Não, ela fizera isso por conta própria. Aqueles olhos azuis, profundos,
perscrutadores a haviam atraído para Trevor antes mesmo de ter parado de ficá-lo
comparando com Richard.
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Intriga 06 – Falso Juramento – Gay Cameron
— Como estão seus pulsos? — perguntou ele, rompendo o longo silêncio.
— Estão bem. Quase sarando.
— Lamento que tudo aquilo tenha acontecido.
— Ei, não foi sua culpa. Quer mesmo me ajudar? Tive uma idéia.
Brenda encaminhou-se até a parte do terreno onde ficara seu jardim e, como
pensara, os ancinhos haviam escapado do fogo. Entregou um a Trevor e muniu-se do
outro.
— Isto deve facilitar o trabalho.
Ambos se empenharam na árdua tarefa de vasculhar as cinzas e os escombros.
Trabalharam metodicamente, e Brenda conseguiu lhe dirigir um sorriso ocasional, mas
não se atrevia a baixar sua guarda. Suas barreiras tinham que permanecer firmes.

Quando o sol começou a se pôr, ambos haviam terminado a tarefa.


— Bem, isso foi tudo. — Trevor deixou o ancinho de lado e tornou a virar-se para
Brenda. O difícil fora trabalharem lado a lado, hora após hora, mantendo a distância que
ela impusera. Puxa, ele amava aquela mulher! Toda a fria indiferença o estava
enlouquecendo.
— Você machucou seu joelho outra vez?
— Passei recentemente pela cirurgia que precisava ser feita.
— Oh, que bom — assentiu ele, com um sorriso forçado, querendo dizer mais.
Ela assentiu e afastou-se. Trevor observou-a ansiosamente. Ali estavam agindo
como estranhos, sendo polidos, impessoais, distantes outra vez... não como havia
imaginado, ou desejado. Queria puxá-la para si, beijá-la... Mas... droga! Como quebrar
aquele gelo?
— Obrigada por ter vindo aqui hoje — disse Brenda, quando ele acabou de ajudá-la
a colocar no carro os poucos objetos encontrados em bom estado. Ela soava como se
estivesse falando com alguém que acabara de conhecer, mas, na verdade, a dor em seu
coração era insuportável.
— Disponha.
— Bem. — Brenda abriu a porta do carro. — Até logo. — Sacudiu as cinzas das
roupas, relutante em ir embora, em seguir em frente e viver com a dor de amar Trevor
sem tê-lo junto a si. Tinha uma escolha a fazer.
Tentou visualizar uma nova casa ali em Hallowing Point. Imaginou um lar
confortável, aconchegante, no meio de toda aquela natureza que sempre lhe fizera tão
bem. Pensou em seu novo quarto com uma sacada ensolarada. Na cama. Cerrou os
punhos com força e tentou conter as lágrimas que lhe marejavam os olhos.
Não, toda a imaginação e determinação do mundo não poderiam arrancar Trevor do
seu coração. Pertenciam um ao outro. Ela o amava. Era simples assim. Queria partilhar
de sua vida com ele. Quando se permitiu olhar dentro de seu próprio coração, compreen-
deu que já o havia perdoado.
Talvez ele não a amasse. Talvez tudo que acontecera entre ambos tenha-lhe
servido apenas para um propósito... encontrar os títulos e saber mais sobre Richard. Era
possível. A intuição dela podia ter falhado...
Não! A antiga Brenda poderia não tê-lo perdoado; provavelmente não teria se
sentido segura o bastante para tanto. Mas havia mudado, sim. A nova Brenda, aquela
com uma visão mais ampla da vida, uma dose maior de autoconfiança e liberdade,
afastou os pensamentos intrusos. Com orgulho, ergueu o rosto banhado pelas lágrimas e
virou-se para fitá-lo.
Trevor tocou-lhe o braço, sentindo-se vulnerável e desajeitado. Tinha o coração
oprimido, havia um estranho nó na garganta. Aquela linda mulher tinha o futuro dele nas
mãos e nem sequer sabia disso...
— Brenda, eu... Puxa, eu senti tanto a sua falta. — A voz dele continha um incrível
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fervor.
Aquela mão forte e carinhosa em seu braço fez o coração de Brenda bater
descompassado. Deixou-se envolver num abraço apertado e retribuiu com o mesmo de-
sespero, as lágrimas fluindo livremente por suas faces.
Enfim, Trevor ergueu-lhe o queixo delicado para que o fitasse.
— Eu amo você, querida. Fique comigo. — Aquelas palavras foram mais preciosas
de que todo o ouro do mundo. Envolveram o coração de Brenda e o fizeram transbordar
de felicidade.
— Eu estava prestes a deixar de ser agente federal quando recebi a carta de
Richard.
— Não precisa explicar.
— Sim, preciso. Por favor, me ouça.
Ela se aninhou naquele abraço protetor. O perfume amadeirado que lhe era tão
familiar despertou seus sentidos, fez seu pulso se acelerar. Seus corpos se moldavam
com tanta perfeição; parecia tão certo estarem juntos. Como pudera considerar a
possibilidade de tentar esquecê-lo?
— Como agente, eu tinha o disfarce perfeito para descobrir o que acontecera com
Richard, e eu não podia perder a chance. Você era a única ligação conhecida. Todos
achavam que estava envolvida no escândalo. Me infiltrar na sua vida fazia sentido. Uma
vez que dei aquele primeiro passo e percebi que você era inocente, já era tarde demais
para lhe contar toda a verdade.
Ela se desvencilhou do abraço, a momentânea separação dando-lhe uma nítida
sensação de vazio. Não podia deixá-lo carregar o fardo da culpa sozinho.
— Não, você não pode fazer isso.
Ali estava, pensou Trevor, o momento que temera. Iria perdê-la para sempre...
— Também sou responsável. Eu deveria ter contado logo o pouco que sabia, mas
não fiz isso. — Brenda deu algumas passadas inquietas pela clareira. Enfim, tornou a fitá-
lo. — Andei refletindo bastante sobre o que aconteceu. Se eu soubesse que você era um
agente, estou certa de que jamais teria permitido seu acesso à casa, muito menos ao meu
coração.
Um raio de esperança renasceu, ainda incerto, não se atrevendo a se expandir.
— Está querendo dizer isso mesmo que estou pensando?
Ela tornou a abraçá-lo, e Trevor sentiu um misto de alívio, felicidade, euforia.
— Tentei tirar você do meu coração. — Brenda cobria-lhe o rosto de beijos,
enquanto falava. — Não consegui.
— Estou aqui para ficar, querida, agora, para sempre. Não vai se livrar de mim; se
me quiser, claro.
— Claro que quero. Eu te amo muito, Trevor. — Ele tomou-lhe os lábios com um
beijo apaixonado, como se todo o amor e ternura do mundo estivessem focados naquele
reencontro. A língua acariciava-lhe a maciez da boca com movimentos sedutores,
enquanto o beijo se intensificava.
Seus lábios só se separaram longos e deliciosos momentos depois, com relutância,
mas ambos continuaram se abraçando, partilhando das batidas aceleradas de seus
corações, do calor de seus corpos.
— Brenda, meu amor, quero que esteja comigo para sempre. Quer se casar
comigo? Podemos construir uma vida feliz juntos, você e eu, e prometo que a amarei com
todas as forças. O que me diz? Quer se tornar a sra. Steele?
— Oh, sim, Trevor. É o que mais quero. — A voz dela soou veemente, comovida.
Lágrimas de alegria rolaram por suas faces. Tentou conter o sorriso tolo que dominava
sua expressão, mas não havia como esconder sua felicidade, nem por quê.
— Tenho uma imagem fabulosa na minha cabeça de uma porção de crianças
correndo por estas terras, subindo nas árvores e alimentando os pássaros. Uma família
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só nossa, de verdade. E uma nova casa, aqui mesmo. O que me diz, doçura?
O puro contentamento nos olhos de Trevor fez com que Brenda emitisse um riso
cristalino, no qual ecoava o mesmo sentimento, a mesma vontade em relação ao futuro. O
futuro que construiriam juntos. Dois corações bateram como se fossem um só, enquanto
ele a estreitava mais em seu corpo, envolvendo-a com um amor imenso, que se
fortaleceria com os anos, cresceria e duraria para sempre.
— Claro que sim. E espero que todos os nossos filhos tenham esses seus olhos
cativantes — respondeu Brenda, antes de se entregar por completo à magia do beijo de
seu adorado Trevor.

** Fim **

GAY CAMERON vive com sua família no Estado da Virgínia, não muito distante do
cenário deste seu livro. Ela adora ler histórias de heroínas fortes que triunfam sobre as
adversidades. Assim, não é de surpreender que este romance celebre a tenacidade e a
força das mulheres.

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